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O Acordo

MADELINE HUNTER


Lady

Christiana

Fitzwaryn

não

se

opõe

ao

casamento. Mas exige ser casada em seus próprios termos, e não romântica,

nem

como

punição

especialmente

por

uma

com

um

indiscrição mercador

qualquer. No entanto, fica chocada quando conhece David de Abyndon. Ela descobre que ele não é um simples mercador, mas um homem de equilíbrio e virilidade extraordinários. Ele não se sente afetado pela diferença de status social. E menos ainda por seus argumentos bem pensados contra o compromisso. Em vez disso, é Christiana que se sente desconfortável na presença deste homem naturalmente nobre, por trás de frios olhos azuis, por quem ela sente a mais intrigante das paixões. Embora tenha prometido o seu coração a outro homem, não pode resistir ao charme sedutor de David. Atraída pelo seu carisma, ela descobre o prazer, o amor, e finalmente, os segredos escondidos em seu coração.


Capítulo 1 — Se o seu irmão descobrir, terei sorte se escapar com minha masculinidade, muito mais com minha cabeça — disse Thomas. A pálida luz da lua jogava sombras nas paredes dos bazares que ladeavam a rua. Movimentos ameaçadores à direita e ocasionalmente à esquerda atraíam a atenção de Christiana, mas ela não receava os passos ou os notívagos esta noite. Thomas Holland, um dos cavaleiros da Rainha, andava ao lado dela, e o brilho de sua tocha mostrava sua longa espada. Christiana não esperava desafios de quem pudesse vê-los fora da cidade após o toque de recolher. — Ele nunca vai saber, prometo. Ninguém saberá — ela asseguroulhe. Thomas estava preocupado com razão. Se seu irmão, Morvan, descobrisse que Thomas tinha lhe ajudado a fugir de Westminster depois do anoitecer não haveria inferno que pagasse. Ela iria levar toda a culpa se fossem descobertos, no entanto. Afinal, não poderia entrar em mais problemas do que já estava agora. — Este mercador que você precisa ver deve ser rico, se não vive acima de sua loja, — Thomas ponderou. — Não é minha função bisbilhotar, minha senhora, mas este é um momento peculiar para visitar e estar às escondidas por aí. É verdade que não foi até um amante que eu a trouxe. Se fosse, o próprio Rei iria me estripar. Ela teria rido de sua sugestão, se suas emoções frenéticas não a tivessem deixado muito abalada para desfrutar da terrível piada. — Não é um amante, e vim agora porque é o único momento em que posso ter a certeza de encontrá-lo em casa — disse ela esperando que ele não pedisse mais explicações. Usara toda a sua astúcia para escapar até esta clandestina visita, e não tinha nada adicional para inventar outra mentira. O último dia foi um dos piores de sua vida, e um dos mais longos. Fora somente ontem à noite que havia encontrado a Rainha Philippa e que 1


fora informada da decisão do Rei sobre aceitar uma proposta de casamento para ela. Cada momento a partir daí tinha sido uma eternidade de pânico infernal e indignação. Ela não se opunha ao casamento. Na verdade, aos dezoito anos, ela já tinha passado da idade em que a maioria das moças se casava. Mas esta oferta não tinha vindo de Stephen Percy, o cavaleiro a quem havia dado seu coração. Nem fora feito por algum outro cavaleiro ou Lorde, como convinha à filha de Hugh Fitzwaryn e uma moça de uma família de antiga nobreza. Não, o Rei Edward tinha decidido casá-la com David de Abyndon, a quem ela nunca vira. Um simples mercador. Um antigo mercador comum, de acordo com sua guardiã, lady Idonia, que se lembrara de te ter comprado sedas de Mestre David, um mercador em sua juventude. Era o modo de o Rei castigá-la. Desde a morte de seus pais que tinha estado sob sua asa e vivia na corte com sua filha mais velha, Isabele, e sua jovem prima Joan de Kent. Quando ele soubera sobre Stephen, deve ter se lançado em um acesso de raiva para ter tomado tal drástica vingança contra ela. Stephen, o belo e loiro Stephen. Seu coração doía por ele. Suas atenções secretas trouxeram o sol em sua protegida vida solitária. Ele foi o primeiro homem a ter coragem de cortejá-la. Morvan havia ameaçado matar qualquer homem que a cortejasse antes de um noivado. O tamanho de seu irmão e habilidade com as armas tinham provado ser um elemento de dissuasão eficazmente deprimente para um casamento por amor, assim como a falta de um dote tinha impedido a segurança de propriedade. Outra moça da corte tinha admiradores, mas ela não. Até Stephen. Este casamento seria um severo castigo para o que havia acontecido naquela cama antes que Idonia tivesse encontrado-os juntos. E não aquele 2


que pretendia aceitar. Nem este velho mercador desejaria quando ele soubesse que o Rei estava usando-o. Ela e Thomas seguiram a cabeça loura do aprendiz a quem tinham despertado em sua cama na loja do mercador. O jovem tinha concordado em guiá-los à casa de seu mestre. Ele os levou até o logradouro afastado de Cheap e mais em direção a Guildhall antes de parar em um portão e bater levemente. A pesada porta abriu-se e um corpo enorme a preencheu. A sentinela do portão segurava uma tocha na mão enorme. Ele era a pessoa mais alta que Christiana já tinha visto, e grande como uma árvore. Cabelo loiro esbranquiçado descia aos ombros. Ele falou com uma voz acentuada com o sotaque cadenciado da Suécia. — Andrew, é você? Que diabos está fazendo aqui? Os policiais podem pegá-lo fora após o toque de recolher de novo... — Estes dois chegaram à loja, Sieg. Eu tinha que mostrar-lhes o caminho, não é? A tocha apontou para que Sieg pudesse analisá-los. — Ele está esperando por você, mas me disseram que eram dois homens — disse ele com cautela. — Ja1, bem, siga-me. Vou colocá-los no solar e dizer-lhe que estão aqui. Thomas se virou para ela. — Eu vou com você, — ele sussurrou. — Se acontecer alguma coisa... — Tenho que fazer isso sozinha. Não há nenhum perigo para mim aqui. Thomas não gostou. — Eu vejo um pátio além desta porta. Vou esperar lá. Seja rápida, e grite se precisar de mim.

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Sim em sueco.

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Ela seguiu a montanha chamada Sieg. Portas davam para fora em ambos os lados de uma curta passagem, e ela percebeu que se tratava de um edifício com uma porta entalhada no seu nível mais baixo. Atravessaram o pátio e entraram em um salão situado em ângulo direto com o primeiro. Ela teve a impressão de bancos e mesas enquanto eles enfileiravam atrás, voltando finalmente para outra ala que ficava de frente a primeira direto com pátio. Aqui, uma escada estreita levava a um segundo nível. Sieg abriu uma porta em cima do corredor e gesticulou. — Você pode esperar aqui. Mestre David está na cama, por isso, pode demorar um pouco. Ela levantou a mão para parar ele. — Eu não esperava perturbá-lo. Posso voltar outra hora. — Ele me disse para acordá-lo quando você chegasse. Essa era a segunda vez que esse homem tinha sugerido que eles a esperavam. — Eu acho que você cometeu um erro... — ela começou, mas Sieg já estava fora da porta. O solar era muito grande, e um fogo baixo ardia na lareira em uma extremidade. O mobiliário aparecia como pouco mais que sombras pesadas pelo luar filtrado através de uma coleção de janelas em arco pontiagudas ao longo da distante parede. Ela caminhou até as janelas e tocou o vidro ondulado e chumbo rendilhado. Vidro. Lotes do mesmo, e bastante caro. Este Mestre David tinha feito bem ao longo dos anos vendendo seus tecidos e luxos. Isto não a surpreendeu. Ela sabia que alguns mercadores de Londres eram tão ricos como os senhores de terras e que alguns tinham até se tornado Lordes através da própria riqueza. O alcaide de Londres sempre foi tratado como um par do reino em funções judiciais importantes, e as famílias que forneciam os conselheiros tinham um status muito alto também. Comerciantes de Londres, com os seus contratos de liberdade, eram um grupo de homens orgulhosos e influentes, ciumentos de suas

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prerrogativas e direitos. Edward negociava e consultava em Londres tanto quanto fazia com seus barões. Sieg voltou e acendeu uma pequena tocha na lareira. Ele pegou uma vela e acendeu várias velas em uma mesa próxima, antes de sair. Christiana ficou perto da janela, longe da luz, num canto escuro. Uma porta da parede ao lado da lareira se abriu e um homem atravessou. Ele fez uma pausa, olhando ao redor do aposento. Seus olhos encontraram sua sombra perto das janelas, e ele avançou alguns passos. A luz da lareira iluminou-o. Ela alcançou a alta estrutura delgada, o cabelo dourado, os traços de um rosto bonito. A humilhação varreu-a. Eles tinham vindo ao lugar errado! — Minha senhora? — A voz de barítono era tranquila. Uma voz bonita. Era um timbre que arrastava e que poderia fazer você ouvir o que ele dissesse mesmo se falasse bobagens. Ela procurou as palavras para formar um pedido de desculpas. — Você tem algo para mim? — Ele incentivou. Talvez pudesse sair sem este homem saber que apenas havia feito papel de boba hoje. — Eu sinto muito. Houve um erro, — disse ela. — Parece que viemos à casa errada. — A quem procura? — Mestre David, o mercador. — Sou eu.

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— Eu acho que é um David diferente. Disseram-me que ele é mais velho... — Eu sou o David Mercador, e não há nenhum outro. Se você trouxe algo para mim... Christiana queria desaparecer. Ela iria matar Idonia! Seu velho e gentil mercador era um homem com não mais que trinta anos. Ele parou no meio da frase, e ela o viu perceber que não era quem ele esperava, também. Ele deu mais alguns passos em direção a ela. — Talvez se você me disser por que me procura... Jovem ou velho, não fazia diferença. Ela estava aqui agora e iria contar a sua história. Este homem não gostaria de atuar como um bobo para o Rei, não importando sua idade. — Meu nome é Christiana Fitzwaryn. Eles ficaram em um longo silêncio quebrado apenas pelo crepitar das toras no fogo. — Você só precisava enviar uma palavra e eu iria até você. Na verdade, me disseram que a Rainha nos apresentaria no castelo amanhã — ele finalmente disse. Ela soube então, com certeza, que não houve erro. — Queria falar com você em particular. Sua cabeça inclinou-se levemente para trás. — Então venha e sente-se, lady Christiana, e diga o que precisa dizer. Três cadeiras de bom tamanho estavam perto do fogo, todas com encostos e braços. Suprimindo um instinto de fugir da sala, ela pegou a do meio. Era muito grande para ela, e mesmo quando se empoleirou na borda, seus pés balançaram. Ela se sentia da mesma maneira que se sentira ontem

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à noite com a Rainha, como uma criança à espera de ser castigada. Ela estendeu a mão e empurrou para baixo o capuz de seu casaco. Um movimento ao seu lado trouxe David de Abyndon à cadeira a sua esquerda. Ele se inclinou para encará-la. De perto, no brilho do fogo, ela podia vê-lo claramente. Seus olhos caíram sobre suas botas de cano alto habilmente trabalhadas, e pernas longas bem torneadas delineadas por uma calça marrom. Seu olhar vagou até uma bela mão masculina elegante, de dedos longos e traçada com veias, descansando na borda frontal do braço da cadeira. A lã do gibão vermelho estava completamente sem adornos de bordados ou joias, e mesmo assim à luz dançante do fogo, ela podia dizer que o tecido e a mão de obra eram da melhor qualidade e muito cara. Ela parou por um momento, estudando a cadeira ricamente esculpida em que ele se sentava, com pássaros e videiras decorando-a. Finalmente, não havia outro lugar para olhar, apenas em seu rosto. Olhos azuis da cor de lápis-lazúli examinavam-na, tanto quanto ela a ele. Eles pareciam olhos suficientemente amigáveis, olhos expressivos, mesmo que achasse desconcertante que não conseguisse interpretar os pensamentos e reações neles. O que se refletia lá? Diversão? Curiosidade? Tédio? Eles eram muito bem definidos debaixo das sobrancelhas arqueadas, e os ossos ao redor deles, na verdade, todos os ossos de seu rosto, pareciam perfeitamente formados e regularmente instalados, como se algum mestre artesão de grande habilidade tivesse escolhido cuidadosamente cada um e colocado apenas assim. Um nariz reto levava a uma boca reta. O dourado dos cabelos castanhos cheios e um pouco mais curtos do que a moda atual, estavam repartidos ao meio e esvoaçavam descuidados sobre as têmporas, descendo por suas bochechas esculpidas e pela mandíbula até o colarinho da camisa.

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David de Abyndon, administrador da companhia dos mercadores e mercador de Londres, era um homem muito bonito. Quase lindo, mas uma dureza vaga ao redor dos olhos e da boca impedia de ser assim. A análise perspicaz estava velada em seus olhos lápis-lazúli, e de repente, ela se sentiu muito constrangida. Tinha sido indelicadeza dela examiná-lo tão obviamente, é claro, mas ele era mais velho e devia saber fazer o mesmo muito melhor. — Você não deseja remover a capa? Está quente aqui — pediu a voz tranquila. A ideia de remover a capa inexplicavelmente horrorizava-a. Tinha certeza de que iria se sentir nua sem isto. Na verdade, ela a puxou um pouco mais em resposta. Seu leve sorriso reapareceu. Isso fez com que ele parecesse amável, mas não revelava nada. Ela limpou a garganta. — Disseram-me que... Que você era... — Velho. — Sim. — Sem dúvida, alguém me confundiu com o meu falecido mestre e parceiro, David Constantyn. O negócio era dele antes de ser meu. — Sem dúvida. O silêncio se estendeu. Ele ficou lá calmamente, olhando-a. Ela sentiu uma presença inexplicável que emanava dele. O ar em torno dele possuía uma tensão ou intensidade que não conseguia definir. Ela começou a se sentir muito desconfortável. Então se lembrou de que tinha vindo ali para falar com ele e que estava esperando pacientemente que fizesse isto. — Preciso falar com você sobre algo muito importante. 8


— Estou feliz em ouvir isso. Ela olhou surpresa. — O quê? — Fico feliz em ouvir que é algo importante. Não gostaria de pensar que você atravessou as ruas de Londres a essa hora por algo frívolo. Ele estava sutilmente repreendendo-a ou provocando-a. Ela não podia saber. — Não estou sozinha. Um cavaleiro aguarda no pátio — disse ela incisivamente. — Foi gentil da parte dele. Nenhuma provocação. Repreensão. Isso a irritou o suficiente para que recolhesse seus pensamentos rapidamente. Ela estava começando a pensar que não gostaria muito deste homem. Ele a fazia se sentir muito vulnerável. Ela sentiu algo orgulhoso e distante nele também, e isso a irritou ainda mais. Estava esperando que um homem mais velho a tratasse com certa deferência por causa de sua diferença de classe. Não havia absolutamente nenhuma deferência neste homem. — Mestre David, vim para lhe pedir que retire seu pedido de casamento. Ele olhou para o fogo, em seguida, seu olhar voltou para ela. Uma perna longa, musculosa atravessava a outra, e ele se instalou confortavelmente em sua cadeira. Uma expressão ilegível apareceu em seus olhos, e o sorriso fraco se formou novamente. — Por que eu iria querer fazer isso, minha senhora? Ele não pareceu nem um pouco surpreso ou irritado. Talvez esse encontro pudesse seguir como planejado, afinal. 9


— Mestre David, tenho certeza que você é o homem bom e honrado que o Rei atesta. Mas esse pedido foi aceito sem o meu consentimento. Ele olhou para ela, impassível. — E então? — E... — ela repetiu um pouco atordoada. — Minha senhora, esta é uma excelente razão para você se retirar, mas não eu. Expresse a sua vontade ao Rei ou ao bispo e será revogado. Mas o seu consentimento ou a falta dele não é o meu caso. — Não é tão simples. Talvez entre sua gente seja, mas sou uma responsabilidade do Rei. Ele tem falado por mim. Para desafiá-lo sobre isso... — A igreja não vai casar uma mulher que se recuse, mesmo que um Rei faça a união. Eu, por outro lado, dei o meu consentimento e não posso retirá-lo. Não há nenhuma razão para isto, como já disse. Sua falta de reação irritou-a. — Bem, então, deixe-me explicar a minha posição mais claramente e talvez você tenha a sua razão. Não dei o meu consentimento, porque estou apaixonada por outro homem. Absolutamente nada mudou em seu rosto ou olhos. Ela poderia ter dito a ele que estava contaminada por uma verruga na perna. — Sem dúvida, uma excelente razão para recusar o seu consentimento, em sua opinião, Christiana. Mas, novamente, não é o meu caso. Ela não podia acreditar na sua aceitação branda sobre isso. Não tinha nenhum orgulho? Nem coração? — Você não pode querer se casar com uma mulher que ama outro — ela deixou escapar. — Imagino que isso aconteça o tempo todo. A Inglaterra está cheia de casamentos realizados sob essas circunstâncias. Em longo prazo, não é um assunto tão sério. 10


Oh, Deus, ela pensou. Um homem que acreditava em casamentos práticos. Que sorte a sua. Mas afinal, ele era um mercador. — Pode não ser um assunto sério entre a sua gente, — ela tentou explicar — mas os casamentos baseados no amor tornaram-se desejados. — Essa é a segunda vez que você diz isso, minha senhora. Não diga isso novamente — Sua voz ainda era tranquila, com o rosto ainda impassível, no entanto, uma nota do comando ecoou. — Disse o quê? — Sua gente — Você usou essas palavras duas vezes. — Não quis dizer nada com isso. — Você quis dizer tudo. Mas vamos discutir sobre isso outro dia. Ele a tinha perturbado e distraído-a com esta segunda repreensão. Ela procurou o fio de seu argumento. Ele descobriu isso por ela. — Minha senhora, tenho certeza que uma jovem pensa que precisa se casar com o homem que acha que ama. Mas as emoções são um problema de curto prazo. Você vai superar isso. O casamento é um investimento em longo prazo. Tudo vai dar certo no final. Ele falava como se ela fosse uma criança, e tão desapaixonadamente como se discutissem um carregamento de lã. Havia sido um erro pensar que poderia apelar para a sua simpatia. Ele era um mercador afinal, e para ele a vida era provavelmente apenas uma longa folha de contabilidade com despesas e lucros. Bem, talvez ele pudesse entender melhor a situação se notasse o custo em potencial para o seu orgulho.

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— Esta não é apenas uma paixão de curto prazo da minha parte, Mestre David. Não sou uma garotinha, — disse ela. — Eu me comprometi com esse homem. — Vocês, em particular, fizeram votos de fidelidade? Isso poderia ser feito dessa maneira. Ela poderia. Ela queria desesperadamente e sentiu-se tentada, mas como uma mentira poderia ter consequências terríveis, e se tornar pública também, ela não era tão corajosa. — Não formalmente — disse ela, na esperança de deixar um pouco de ambiguidade lá. Ele parecia, pelo menos, moderadamente interessado agora. — Este homem se ofereceu para você? — Sua família o mandou de volta para casa antes que pudesse fazer isso. — Ele é um menino a quem seus familiares controlam? Ela teve que se lembrar com quem falava. — A vontade da família pode parecer uma questão menor para um homem como você, mas ele faz parte de uma poderosa família do norte. Alguém não desafia os pais tão facilmente. Ainda assim, quando ele souber deste compromisso, tenho certeza que vai voltar. — Então, Christiana, você está dizendo que esse homem disse que queria se casar com você, mas a deixou sem resolver a questão. Isso pareceu uma forma bastante simples de colocar isto. — Sim. Ele sorriu novamente. — Ah. Ela realmente se ressentia deste “Ah”. Seu aborrecimento nublou. Ela se inclinou em direção a ele, sentindo sua mandíbula endurecer com raiva 12


reprimida. — Mestre David, deixe-me ser franca. Eu me ofereci a esse homem. Finalmente uma reação além daquela indiferença impassível. Sua cabeça foi para trás uma fração e ele estudou-a sob as pálpebras entrecerradas. — Então, seja franca, minha senhora. Exatamente o que você quer dizer com isso? Ela ergueu as mãos em desespero. — Nós dormimos juntos. Isso é suficiente decisivo para você? Fomos para a cama juntos. Na verdade, fomos encontrados juntos na cama. Sua oferta só foi aceita para que a Rainha pudesse abafar qualquer escândalo e impedir o meu irmão de forçar um casamento que a família do meu namorado não quer. Ela pensou ter visto um lampejo de raiva sob suas pálpebras. — Vocês foram descobertos assim, e este homem deixou que enfrentasse isso sozinha? Sua devoção a este modelo de cavalheirismo é impressionante. Sua avaliação de Stephen foi como um soco no rosto dela. — Como você se atreve, como ousa criticar... — Você está fazendo isso de novo. — Fazer o quê? — Ela estalou. — “Como você”. Duas vezes agora. Outra frase que você pode evitar. Pela prudência. — ele pausou. — Quem é esse homem? — Eu jurei não contar, — disse ela rigidamente. — Meu irmão... Além disso, como você disse, não é da sua conta.

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Ele se levantou, desenrolando-se com um movimento elegante, e ficou de pé ao lado da lareira. As linhas abaixo do gibão sugerindo um corpo duro e magro. Ele era muito alto. Não tão alto quanto Morvan, mas mais alto do que a maioria. Ela achou sua presença inquietante. Os mercadores deveriam ser homens magros ou corpulentos em chapéus de pele. Ele olhou para as chamas. — Você está grávida? — ele perguntou. A noção a surpreendeu. Não havia pensado nisso. Mas talvez a Rainha sim. Ela olhou para ele vagamente. Ele se virou e viu sua expressão. — Você conhece os sinais? — Ele perguntou em voz baixa. Ela balançou a cabeça. — Você já teve o seu fluxo desde que esteve com ele? Ela corou e assentiu. Na verdade, havia chegado hoje. Ele se voltou para o fogo. Ela se perguntou no que ele pensava enquanto estudava as labaredas. No entanto, ela permaneceu em silêncio, deixando-o pensar, ele valorizava essas coisas, rezando para que conseguisse, esperando que ele realmente tivesse a alma de um mercador e repelisse bens usados . Finalmente, ela não pôde esperar mais. — Então, você irá até o Rei e retirará sua oferta? — Ela perguntou esperançosa. Ele olhou por cima do ombro para ela. — Eu acho que não. Seu coração se afundou.

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— As jovens cometem erros — acrescentou. — Isso não foi um erro, — disse ela com força. — Se você não se retirar, vai acabar parecendo um tolo. Ele virá para mim, se não antes do noivado, depois. Quando vier, irei com ele. Ele não olhou para ela, mas sua calma e linda voz flutuou sobre o espaço entre eles. — O que faz você pensar que vou permitir? — Você não será capaz de me parar. Ele é um cavaleiro, e hábil em armas... — Há armas mais eficazes neste mundo do que o aço, Christiana, — Ele se virou. — Como eu disse antes, você sempre será livre para ir ao bispo e declarar a sua falta de consentimento para o casamento. Mas eu não vou retirar agora. — Um homem honrado não esperaria que eu enfrentasse a ira do Rei — disse ela amargamente. — Um homem honrado não iria estragar uma garota à seu pedido. Se eu me retirar, vou desagradar o Rei, a quem não tenho nenhum desejo de enraivecer. Pelo menos vou precisar de um bom motivo. Devo usar o que você me deu? Devo repudiá-la porque não é virgem? É o único caminho. Ela baixou os olhos. O desolado pânico do último dia voltou a engolila. Sentiu um movimento e, em seguida, David de Abyndon ficou na frente dela. Uma mão suave e forte levantou seu queixo até que ela olhou para o seu rosto bonito. Parecia-lhe que aqueles olhos azuis liam sua alma e sua mente e se viu direto neles. Mesmo as inspeções de falcão de lady Idonia não tinham sido tão completas e bem sucedidas. Nem tão estranhamente fascinantes. Essa intensidade que fluía dele a envolvia. Ela tornou-se muito consciente de seus dedos ásperos em seu queixo. Seu polegar esticado e roçando a mandíbula, e algo vibrou em seu pescoço.

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— Se ele vier para você antes do casamento, eu desisto, — disse ele. — Eu não vou contestar a anulação do noivado. Mas devo dizer-lhe, menina, que conheço os homens, e não acho que ele virá, mas você vale bem o que isto custará a ele. — Você não o conhece. — Não, não conheço. E não sou tão velho que não possa ser surpreendido, — Ele sorriu para ela. Um sorriso verdadeiro, ela percebeu. O primeiro da noite. Um sorriso maravilhoso, na verdade. Sua mão caiu. Sua pele estava quente onde ele havia tocado. Ela levantou-se. — Tenho que ir. Meu acompanhante deve estar impaciente. Ele caminhou com ela até a porta. — Irei vê-la em poucos dias. Ela sentiu um aperto no coração. Ele a faria passar pela farsa desse noivado, e isto iria complicar as coisas horrivelmente. Não tinha vontade de desempenhar esse papel mais do que o necessário. — Por favor, não. Não existe nenhum motivo para isso. Ele se virou e olhou para ela quando abriu a porta e levou-a para os degraus. — Como quiser Christiana. Ela viu a silhueta sombria de Thomas no pátio, e se arremessou para ele assim que saiu do salão. Ela olhou de volta para a porta, onde David estava observando. Thomas começou a guiá-la para o portal. — Será que você conseguiu o que necessitava? — Sim — ela mentiu. Thomas não sabia sobre o noivado. Não tinha sido anunciado ainda, e ela esperava que nunca fosse. A teimosia de Mestre David dizia que as coisas agora se tornariam ainda piores. Teria que encontrar outra maneira de acabar com este compromisso, ou pelo menos, com o casamento. 16


David observou-a atravessar o pátio, sua óbvia nobreza em sua postura e no andar gracioso. Um silêncio muito estranho começou a clamálo, e seus movimentos retardaram como se o tempo ficasse lento. Um silêncio interno misterioso se espalhou até que bloqueou todo o som. Em um mundo isolado ligado a alguém no pátio, embora separado disto por graus invisíveis, começou a observá-la de uma maneira abstrata. Havia sentido isso antes várias vezes em sua vida, e ficou surpreso ao encontrarse com a experiência agora. Ao mesmo tempo, não fez nada para parar a sensação e não questionar a importância do que estava acontecendo. Ele reconheceu o silêncio que o permeava como o som inaudível do destino girando sua roda caprichosa e mudando sua vida de maneira que pudesse apenas vagamente prever. Diferentemente da maioria dos homens, ele não temia as coincidências imprevisíveis que revelavam a obstinação do destino, para ele sempre fora um de seus filhos prediletos. Christiana Fitzwaryn de Harclow. As Cavernas de Harclow. Havia um equilíbrio elegante nesta particular coincidência. A porta se fechou atrás dela e o tempo de repente se compôs. Ele contemplou as implicações da visita da menina. Ele tinha entendido o desejo do Rei Edward de esconder o pagamento pela licença exclusiva de comércio que ele estava comprando. Se uma palavra saísse sobre isso, outros mercadores ficariam enciumados. Ele próprio havia sugerido várias outras maneiras de esconder o arranjo, mas envolviam pagamentos escalonados, e o Rei, desesperado por dinheiro para financiar sua guerra francesa, queria toda a soma agora. A solução de Edward de lhe dar uma esposa nobre e disfarçar o pagamento com o preço de uma noiva havia criado uma série de problemas, porém, não menos do que a possibilidade de que a garota não servisse para ele. Sua visão interna voltou e ele viu os cabelos pretos de Christiana a pele pálida e o rosto lindo. Seus olhos escuros brilhavam como diamantes negros. Ela não era especialmente pequena, mas sua elegância deu a impressão de delicadeza, até mesmo de fragilidade. A primeira visão dela 17


no brilho do fogo tirou-lhe o fôlego do jeito que sempre acontecia quando se deparava com um objeto ou uma visão de beleza distinta. Sua visita havia anunciado complicações imprevistas, mas isto tinha resolvido uma questão mais claramente. Christiana Fitzwaryn iria servir-lhe muito bem. Ele havia ficado atordoado quando o Rei tinha escolhido a filha de Hugh Fitzwaryn para ser a noiva neste esquema, e apontara que ela estava muito acima dele. Mesmo o enorme preço da noiva que todo mundo pensaria que estava pagando não equiparava suas diferenças em graus. O Rei tinha afastado isto para o lado. Vamos dizer que você a viu e a quis e pagou uma fortuna para tê-la. Bem, agora ele sabia o motivo para a escolha de Christiana pelo Rei. Um casamento rápido para a garota extinguiria as chamas do escândalo sobre ela e seu amante. Foi bom saber a verdade. Não gostava de atuar como peão no jogo de outro homem. Normalmente, ele era o único que mudava as peças. Ele atravessou o pátio até Sieg. — Está feito então? — O sueco perguntou quando se virou para entrar em seu aposento fora da passagem. — Não eram eles. — Que diabos você diz! David riu. — Vá dormir. Duvido que venham hoje à noite. — Espero que não. Há mais visitantes aqui numa noite como esta do que de dia. — Sieg pausou. — E quanto a sentinela de lady Alicia? David olhou para o final do edifício, e o brilho de uma vela através da janela. — Ele sabe que deve permanecer. Vou levá-la até ele mais tarde.

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Ele se virou para sair, então parou. — Sieg, amanhã eu quero que você encontre o nome de um homem para mim. Ele é um cavaleiro, e sua família é do norte do país. Uma família importante. — Não muito para ir em frente. Há dezenas... — Ele deixou Westminster recentemente. Acho que no último dia ou algo assim. — Isso torna mais fácil. — Seu nome, Sieg. E o que você puder saber dele.

Capítulo 2 Christiana passou uma noite horrível tentando descobrir como salvar a si mesma. De manhã, não pode encontrar nenhuma maneira de agir, exceto escrever para Stephen, subornando um mensageiro real para levar a carta 19


ao norte, e rezando para que ele recebesse rapidamente. Mas o noivado seria em uma semana, muito cedo para Stephen receber essa carta e vir até ela. A única solução era falar com o Rei. Ela não iria recusar o casamento de imediato, mas ele saberia que não concordava. Talvez, assim, ela pudesse convencê-lo a adiar o noivado. Fortalecendo sua determinação, deixou o aposento que dividia com Isabele e Joan sob os olhos atentos de Idonia, e andou através do castelo para a sala onde o Rei se reunia com seus peticionários. Quando chegou, a antessala já estava cheia de gente. Ela deu seu nome ao servo que estava sentado próximo à porta, e esperava que o seu lugar na família pudesse colocá-la à frente de alguns deles. Alguns bancos alinhavam-se numa parede. Um cavaleiro mais velho cedeu seu lugar, e ela se sentou. A multidão permaneceu em pé no murado, enquanto ela se concentrava em planejar seu pedido. Enquanto esperava e ponderava, a porta exterior se abriu e um pajem entrou seguido por seu irmão Morvan. Ela viu a cabeça escura desaparecer no aposento do Rei. O Rei lhe contaria sobre o compromisso agora. O que diria seu orgulhoso irmão? Como reagiria? Ela teve sua resposta muito rápido. Em poucos minutos um deliberado barulho de vozes se elevou fluindo através da parede que separava a sala de espera do aposento. Ela sabia que era Edward que havia perdido a paciência, porque a pior ira de Morvan sempre se manifestava calma e friamente. Ela precisava escapar imediatamente. Com o Rei enfurecido, não haveria nenhum benefício em falar com ele hoje, e quando Morvan deixasse o aposento, não queria que ele a visse sentada ali.

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Estava se levantando para sair quando Morvan saiu apressado, seus olhos negros faiscando e seu belo rosto congelado em uma máscara de fúria. Ele caminhou até o corredor como um homem dirigindo-se a uma batalha. Ela ainda precisava escapar, mas não se atreveu a segui-lo. Ele poderia ter parado nos corredores principais. Ela olhou ao redor da sala de espera. Outra porta em uma parede lateral dava para um corredor privado que ligava os cômodos e as salas de Edward. Isso levava a uma escada exterior, e havia rumores de que os visitantes secretos, diplomatas e, às vezes mulheres, vinham até ele dessa maneira. Sendo que isto nunca foi formalmente declarado fora dos limites, todos sabiam que isso significava problemas caso alguém fosse encontrado ali. Até mesmo a Rainha não usava essa passagem. Ela se esgueirou através da multidão. Escaparia e ninguém saberia sequer que tinha vindo. Abrindo a porta pequena de um estalo, ela deslizou completamente. A passagem se estendia ao longo da parede exterior do castelo iluminado por janelas de bom tamanho definidas em nichos rasos. Ela correu em direção à extremidade oposta que era a única que tinha uma escada. O som de uma porta se abrindo atrás dela, a enviou apressada para uma das alcovas. Pressionada no canto, rezou para que quem houvesse entrado na passagem fosse na direção contrária. Ela suspirou de alívio quando ouviu passos se afastando. Então, para seu horror, mais passos começaram a vir em sua direção rapidamente a partir da direção que ela havia se dirigido. Comprimindo-se num canto raso da alcova, cerrou os dentes e esperou ser descoberta. Um homem pequenino de meia-idade com cabelos grisalhos e barba, suntuosamente vestido como um diplomata, andava apressadamente. Ele não a notou, porque fixou toda a sua atenção sobre o espaço à sua frente. Parecia que tentava fazer seus próprios passos caírem mais suavemente do que o normal. 21


— Perdão. Attendez2 — ela o ouviu sussurrar em voz alta. Os outros passos pararam. Ela ouviu os homens se encontrarem. Eles começaram a falar em voz baixa, porém, suas palavras transportavam-se facilmente até seus ouvidos. Ambos falavam francês parisiense, o tipo ensinado a ela pelos tutores, e não o dialeto corrompido usado casualmente pelos cortesãos ingleses. — Se você for encontrado aqui, isto cairá mal para você —, disse o outro homem. Sua voz soava muito baixa, pouco mais que um sussurro, mas as palavras atingiram-lhe igualmente. — Um risco necessário. Eu precisava saber se o que ouvi sobre você era verdade. — E o que você ouviu? — Que você pode nos ajudar. — Você pegou o homem errado. — Não penso assim. Segui-o aqui. Você tem acesso, como me foi dito. — Se você quer o que acho que quer, você tem o homem errado. — Pelo menos me ouça. — Não. Os homens começaram a se afastar. As vozes recuaram. — Vai valer a pena — disse o primeiro homem. — Não há nada que você tenha que eu queira. 2

Espere em francês.

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— Como você sabe se não me ouviu? — Você é um idiota por falar comigo sobre isso justamente aqui. Eu não lido com tolos. As vozes e os passos prosseguiram ficando mais fracos. Christiana ouviu até o som desaparecer na escada. Levantando a bainha, correu de volta para o seu quarto. Ela estava sentada em sua cama na antessala de Isabele, se preocupando com a possibilidade de se aproximar do Rei em outro dia, quando Morvan entrou tempestuosamente no aposento ainda furioso por seu encontro com o Rei. Ele pisava forte em volta e vociferava com ira perigosa. Raramente o tinha visto assim, e impedi-lo de fazer algo precipitado se tornou sua principal preocupação. Ela se sentia culpada por estar acalmando-o e tentando relaxá-lo, já que sabia que tudo era culpa dela e que ele, naturalmente, não sabia. Morvan colocou toda a culpa sobre o Rei e o mercador. — Este mercador nem sequer teve a decência de vir falar comigo primeiro — Morvan cuspiu, seus olhos negros lançando faíscas enquanto caminhava ao redor. Era um homem grande, mais alto do que a maioria, e enchia o ambiente. — Ele foi direto ao Rei! A presunção desses malditos mercadores é sempre irritante, mas isso é um ultraje. — Talvez ele não soubesse como proceder em relação a nós — disse ela. Ela precisava dele calmo e racional. Se eles pensassem sobre isso juntos, poderiam ter alguma ideia. — É o mesmo em todas as classes, irmã. Este homem teria ido ao seu superior para se oferecer a filha de um trapaceiro?

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— Bem, ele fez isso desta forma, e o Rei concordou. Estamos presos a esse acordo. — Sim, Edward concordou — de repente, ele parou a marcha furiosa e olhou friamente para a lareira. — Este é um mau sinal, Christiana. Isso significa que o Rei realmente se esqueceu. Seu coração ficou penalizado por ele. Ela se aproximou e abraçou-o e esqueceu seu próprio desapontamento e problemas. Ela havia sido egoísta, tão preocupada com o seu próprio orgulho que não tinha enxergado as maiores implicações deste casamento. Vagas lembranças fugazes de outra vida infiltraram-se em sua mente esgotada. Memórias de Harclow e de felicidade. Imagens da guerra e da morte. O eco da fome atroz e do medo durante o cerco implacável. E, finalmente, clara e distintamente, a imagem de Morvan, aos dez anos de idade, mas já alto, caminhando bravamente até o portão do castelo para se render ao inimigo. Ele esperava ser morto. Ao longo dos anos, ela passou a acreditar que Deus havia movido aquele senhor escocês para poupá-lo de modo que ela mesma não estivesse totalmente sozinha. Quando eles fugiram de Harclow e foram até o jovem Rei Edward e lhe falaram sobre a morte de Hugh Fitzwaryn e da perda da propriedade, Edward tinha se culpado por não trazer alívio rápido o suficiente. Seu pai havia sido um de seus amigos e apoiadores na marcha escocesa, e na frente de Morvan e de sua mãe moribunda Edward havia jurado vingar seu amigo e devolver as terras da família para eles. Isso havia acontecido há onze anos. Por um longo tempo depois disso, Morvan tinha assumido que uma vez que ele ganhasse as competições, o Rei iria cumprir esse juramento. Mas ele tinha se tornado um cavaleiro por dois anos, e tornou-se claro que Edward não planejava campanhas agressivas nas fronteiras escocesas. O Exército enviado para lá todos os anos, se envolveu em pouco mais de uma ação de posse. Toda a atenção do Rei tornou-se focada na França.

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E agora isso. Concordando em casá-la com este mercador era uma admissão tácita por parte do Rei que ele nunca iria ajudar Morvan a recuperar Harclow. A antiga nobreza da família Fitzwaryn seria insignificante em uma geração. Não admira que os Percys não quisessem que um de seus jovens se casasse com ela. Mas o amor de Stephen seria mais forte do que esses interesses mesquinhos de propriedade política. E quando eles se casassem, esperava que a família Percy ajudasse Morvan, uma vez que ele estaria ligado a eles por afinidade através dela. A chance daquilo sempre aumentaria o apelo de Stephen. O resgate de sua honra familiar não devia descansar completamente sobre os ombros de Morvan. Era seu dever se casar com um homem que daria a seu irmão uma boa aliança. Morvan se afastou. — O Rei disse que o noivado será sábado. Não entendo a pressa. Ela mal podia confiar ao seu reservado irmão mais velho que a pressa era para se certificar de que seu amante não pudesse interferir. E talvez também para evitar a ira de Morvan. Se ele soubesse o que tinha acontecido com Stephen, sem dúvida, exigiria a satisfação através de um duelo. O Rei Edward provavelmente queria evitar o problema com a família Percy que tal desafio criaria. Suas tentativas de acalmá-lo falharam. A tempestade quebrou em sua expressão novamente. Estava tão furioso como quando entrara. — Não se preocupe irmã. Vou lidar com este mercador. **** David estava na porta de sua loja observando seus dois jovens aprendizes, Michael e Roger, carregarem as sedas de musselina e peles embrulhadas para o coche de transporte. Uma comprida caixa decorada alegremente sobre rodas, a carruagem tinha assentos para as senhoras e

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janelas abertas dos lados. A Princesa Isabele sentou-se em uma das aberturas. A chegada de lady Idonia, lady Joan e a princesa Isabele hoje o divertiu e impressionou os aprendizes. As ladies, aparentemente, vieram escolher tecidos para a capa e a túnica que Isabele usaria no casamento de Christiana, mas a princesa não era sua protetora. A notícia do noivado tinha acabado de se espalhar por Westminster, e ele sabia que, na realidade, as amigas de Christiana tinha vindo para inspecioná-lo. Quase tinham ficado desapontadas, já que ele não havia chegado até que elas estavam se preparando para sair. Seu negócio se estendia muito além das paredes desta loja agora, e ele deixava o trabalho diário para Andrew. Ele sorriu ante a lembrança da pequena lady Idonia jogando seu corpo entre Isabele e Sieg, quando ele e o sueco tinham entrado na loja, como se tentasse salvar a garota do arrebatamento do viking. Os garotos entregaram seus pacotes para lady Idonia. Eles espiaram a carruagem mais uma vez, enquanto se afastava cercada por cinco guardas montados. Eles tinham um monte de observadores, David pensou, olhando para a multidão de curiosos que se formou na pista quando a carruagem se arrastou. A princesa e a famosa lady Joan, a Pálida Donzela de Kent, prima do Rei. Os membros da família real raramente visitavam os bazares de mercadores. Era costume levar os bens a eles em vez disso. Christiana não veio, é claro. Ele se perguntou que estratagema tinha usado para evitá-lo. No entanto, ele estava mandando um presente de volta para ela com Idonia; um manto vermelho forrado com pele negra que o modista George que trabalhava no andar de cima tinha costurado a pedido dele. O que ela usava na sua casa quatro noites antes, parecia ser velho e estava um palmo mais curto. Sendo subordinada do Rei, evidentemente, não significava que vivesse no luxo. 26


Ela provavelmente se sentiria culpada em aceitar o seu presente. Naquele breve tempo em seu solar, havia aprendido muito sobre sua personalidade e ela o impressionou favoravelmente. Sua beleza o impressionou ainda mais. A lembrança daqueles olhos brilhantes e da pele pálida não tinha se afastado de sua mente desde a sua visita. Ela esperava pelo seu amante. Quanto tempo teria que esperar? Diferentemente da maioria dos homens, ele gostava das mulheres e as entendia. Ele certamente compreendia a dor que Christiana sentia. Afinal, ele vivera dezoito anos perto de uma angústia semelhante. Estava fadado agora a passar o resto de sua vida nesta sombra novamente? Aquilo seria o preço nesta época pelo favor da Sorte? Essa menina parecia mais forte e mais orgulhosa do que isso. Ele havia perdido momentaneamente a consciência da rua, mas os seus movimentos e cores recuperaram sua atenção. Ele afastou-se do batente da porta. Quando se virou para entrar no prédio, notou um homem andando pela pista de Cheap, vestindo um uniforme que ele reconheceu. Ele esperou que o homem o alcançasse. — David de Abyndon — perguntou o mensageiro. — Sim. Um pedaço de pergaminho dobrado foi entregue. David leu a nota. Esperava esta carta. Na verdade, estava esperando pelo encontro solicitado por mais de dez anos. Melhor terminar isto rapidamente. Noivado e casamento provavelmente tinha um jeito de complicar as coisas assim. Ele virou-se para o mensageiro. — Diga a ela que não posso vê-la esta semana. Próxima terça-feira à tarde. Ela pode vir a minha casa.

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Ele entrou na loja. Michael e Roger estavam fechando as janelas da frente, e Andrew veio com um tecido da sala dos fundos. — Eu coloquei as contas de lady Idonia e de lady Joan na sala de contagem — Andrew disse enquanto baixava sua carga. David colocou a mão em seu ombro. — Consequentemente uma tarde inteira com a Pálida Joan. Seus amigos vão pagar cerveja para você durante um mês só para ouvir sua história. Andrew sorriu maliciosamente. — Estava pensando a mesma coisa. Ela é muito pálida. Bem como lady Christiana Fitzwaryn. Eu as vi juntas na cidade. Você podia ter nos falado sobre esse compromisso. Foi muito estranho tomar conhecimento por elas. Os rapazes pararam e escutaram. Sieg permaneceu perto da porta. — Isto acaba de ser decidido. Todos esperaram em silêncio. — Vamos fechar e ir para casa. Explicarei tudo lá. Explicar o que, então? Não a verdade. Ninguém jamais saberia disto, nem mesmo Christiana. Ele teria que encontrar uma boa história rapidamente. Estavam quase prontos para sair quando o som de um cavalo parando na pista chegou através da janela. Michael correu e olhou para fora da porta. — Um cavaleiro do Rei — disse ele. — O mesmo que veio procurar por você esta manhã, David. David sabia quem deveria ser — Todos vocês voltem para a casa. Você também, Sieg. Eu cuidarei disso. A porta se abriu e um homem alto de cabelos escuros entrou. Ele parou na soleira e olhou em volta. Usava o uniforme do Rei e uma longa espada pendurada no seu cinto de cavaleiro. Os olhos negros brilhantes 28


como muitos outros, mas mais duros e com uma luz fria, pousaram sobre David. Os aprendizes moveram-se em torno do grande homem, claramente impressionados com o seu tamanho e porte. Sieg olhou significativamente para David. David balançou a cabeça e Sieg saiu também. — Sou Morvan, o irmão de Christiana — o cavaleiro disse quando estavam finalmente a sós. — Sei quem você é. — Sabe? Pensei que talvez, equivocadamente, você pensasse que ela não tinha família. David esperou. Deixaria esse irmão fazer suas objeções. Ele não diria que sabia como seria, pois não havia muito a objetar. — Pensei que nós devíamos nos encontrar, — disse Sir Morvan, andando pelo corredor. — Eu queria ver o homem que compra uma mulher como se fosse um cavalo. David pensou sobre as duas horas que passara esta manhã com um dos servos do Rei elaborando o contrato de casamento. Havia sido impossível manter os termos do suposto preço da noiva completamente, porque só Edward e ele sabiam do seu real propósito. Ainda assim, David havia tentado, e finalmente negociado apenas uma referência ao seu valor, envolvendo uma fórmula complicada com base no preço das exportações de lã do ano passado. Só alguém muito interessado se preocuparia em fazer os cálculos. Deviam ter mostrado o contrato de casamento a Morvan para sua aprovação e ele não perdera essa cláusula em particular. — O Rei insistiu no preço da noiva, como nos velhos tempos. Eu teria ficado feliz em não pagar nada.

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Morvan o estudou. — Se ela não fosse minha irmã, eu poderia achar divertido. Você teve um monte de problemas para se casar com uma mulher a quem não conhece. — Isso acontece o tempo todo. — Sim. Se o dote é satisfatório. — Eu não tenho necessidade de um dote. — Assim me disseram. Você nem está necessitando de uma mulher para aquecer sua cama, pelo que ouvi. Então, por que pagar uma fortuna pela minha irmã? David teve que admitir que era uma maldita boa pergunta. Percebeu que não devia subestimar este jovem. Morvan perguntara sobre ele, assim como David tinha perguntado sobre Morvan. Talvez a explicação proposta pelo Rei funcionasse. Vamos colocar que você a viu e a quis e pagou uma fortuna para tê-la. Não, ele suspeitava que o homem que cobiçava sua irmã apelaria muito para este jovem cavaleiro. — Eu a vi várias vezes e perguntei sobre ela. O Rei foi receptivo às minhas questões. — Então você se ofereceu para ela simplesmente ao vê-la? — Tenho esses caprichos, às vezes. Eles quase sempre funcionam. Quanto ao resto, a falta de dote e o pagamento, as coisas só se desenvolveram como costumam acontecer em tais negociações. — Parecia quase plausível. Isto foi o melhor. Ele não tinha mais nada a oferecer. Morvan considerou-o. — Isso faria sentido se você fosse um idiota, mas acho que você não é. Acho que você é um iniciante que tenta comprar status entre o seu povo através deste casamento, e que verá seus filhos elevarem sua posição natural através da nobreza de sua mãe. 30


Outra explicação plausível. Mas se Morvan tivesse falado com as pessoas certas, saberia quão errado estava. — Você é o irmão de Christiana, e está, portanto, desmerecendo quanta bobagem um homem - que não é tolo - poderia fazer por ela — disse David. Um ardor brilhou nos olhos escuros do jovem. Não, ele não gostara da ideia de um homem cobiçar sua irmã. — Não vou permitir esse casamento. E não vou ver Christiana amarrada a um mercador comum, não importa qual a sua riqueza. Ela não é uma égua de cria para ser comprada para enobrecer a linhagem de um bastardo. Ela não quer isso também. David ignorou os insultos, simplesmente, exceto para notar que Morvan tinha estado investigando-o cuidadosamente. — Ela e eu já falamos sobre isso. Ela sabe que não vou me afastar. Não tenho nenhuma razão para isso. — Deixe-me lhe dar uma razão, então. Vá até o Rei e diga que a lady tem um irmão que o ameaçou com lesão corporal, a menos que você se afaste. Explique que você não previu isto quando fez essa oferta. — E se o Rei se aborrecer com você, caso lhe diga isso? — Se for necessário, a minha espada pode servir a outro homem. — E se eu não fizer isso? — A ameaça continua de pé. David estudou sua expressão resoluta. Um homem inteligente e, provavelmente, honesto. — Você sabe por que sua irmã não aceita o casamento? — Isso é óbvio, não é? 31


Assim, Morvan não sabia sobre Sir Stephen. Ela alegou que ele não sabia, mas ele podia ter descoberto e estava planejando forçar as coisas com Percy. — É mesmo? — Ela é a filha de um barão. Este casamento é um insulto para ela. David lutou contra uma profunda irritação súbita. Ele estava, há muito tempo, quase se tornando imune a tais comentários, e a presunção de superioridade que eles revelavam. Mas ele aceitou bastante deste homem nos últimos minutos do que normalmente engoliria de alguém. Encostou-se na parede, cruzou os braços e olhou nos olhos ardentes de Morvan. — Você vai se afastar? — Eu acho que não. Morvan o olhou de cima a baixo. — Você usa um punhal. Você usa uma espada? — Não muito bem. — Então é melhor você praticar. — Você pretende me matar por isso? — Não posso interromper esse noivado, mas vou deter o casamento. Um mês, portanto, se você não deixar Londres ou anular o acordo, nos encontraremos. A raiva se infiltrou na cabeça de David. Ele quase nunca perdia o controle, mas estava em perigo de perdê-lo agora. — Envie uma palavra de quando e onde. E estarei lá.

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Ele sabia que a fúria fria de Morvan combinava com a sua própria. Mas ele também viu a surpresa quando a ameaça foi recebida com raiva e não com medo. — Vamos ver se você virá, — Morvan disse com um sorriso lento. — Acho que o tempo vai mostrar que você é como a maioria de sua raça. Rico em ouro, mas sem honra. — E você é como muitos cavaleiros destes dias. Rico em pomposa arrogância, mas sem terra ou valor — David respondeu bruscamente. Era indigno dele, mas tinha tido o suficiente. Os olhos de Morvan brilharam perigosamente. Ele girou nos calcanhares e caminhou os vinte passos até a porta. — Minha irmã não é para você, mercador. Você tem um mês para desfazer isso. Algo estalou. Enquanto Morvan desapareceu na rua, David desenrolou-se com um fluido movimento tenso. Sua mão foi para o seu quadril, e um longo punhal de aço voou pelo corredor, encaixando-se no batente da porta diretamente atrás do ponto onde o pescoço de Morvan Fitzwaryn tinha estado. Uma cabeça loira se moveu pela luz da porta aberta, e Sieg se curvou no umbral. Ele olhou para David e, em seguida, virou-se e puxou a adaga ainda trêmula de seu alvo. Ele desceu ao corredor. — Acho que ainda é cedo para felicitá-lo por este casamento. David pegou o punhal e a embainhou. O pior de sua raiva tinha voado com a faca. — Você ouviu tudo. — Ja. — Eu disse para sair.

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— Sua espada e sua cara me disseram para ficar. Pensei que teria a chance de pagar minha dívida hoje. David ignorou e começou a se afastar. — Você quer que a gente cuide dele? A menina não precisa saber. Existem todos esses rios ao redor. Um homem podia cair dentro... — Não. — A espada não é a sua arma. — Não vai chegar a esse ponto. — Você tem certeza? Ele parecia determinado. — Tenho certeza. Eles caminharam pela calçada até a casa. Sieg não parava de olhar para ele. Finalmente o sueco falou. — É um momento estranho para se casar. — Sim — E era. Um bom número de campos cuidadosamente cultivados estava aguardando a colheita nos próximos meses. — Isso pode tornar as coisas mais difíceis — disse Sieg. — Tenho pensado nisso. — Você deveria adiar o casamento até o próximo inverno. Novembro talvez. Tudo deve estar resolvido até então. David balançou a cabeça. Ele percebeu que não estava disposto a dar ao amante dela um ano inteiro para voltar. Também já sabia que não tinha intenção de esperar tanto tempo para levar a bela Christiana Fitzwaryn para sua cama. — Não. Será mais seguro tê-la em casa.

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— E se houver problemas... — Então, a menina será duplamente abençoada. Ela se livrará de um marido que não quer e se tornará uma viúva rica. **** A névoa fria fina envolvia Strand3 quando o pequeno grupo cavalgava sua extensão. John Constantyn se sentava reto e orgulhoso em seu cavalo, seu casaco de pele e veludo adornado de joias mal coberto pelo manto azul brilhante jogado para trás sobre os ombros. Ele olhou para o gibão azul despojado e austero do próprio David. — Graças a Deus que pelo menos usa essa corrente, — disse John sorrindo. — Eles podem confundi-lo com algum pequeno nobre escudeiro desse jeito. Sob essas circunstâncias, você poderia ter se esforçado um pouco mais, só desta vez. É uma amostra estranha que você faz com o seu vestuário, David. David gostaria de afirmar que ele não fazia nenhuma declaração com suas roupas, que sua simplicidade apenas refletia o seu gosto, mas sabia que não era inteiramente verdade. Recusava-se a competir no jogo luxuoso que a nobreza fazia, ele supôs, um repúdio tácito de assunção do valor superior dos nobres. Ele sentiu a pesada corrente de ouro no peito, arqueando de ombro a ombro. Estava usando isso com relutância, e, finalmente, colocado apenas pela segurança de Christiana. Suas amigas reconheceriam seu valor. Ele não iria tornar este dia mais difícil para ela do que já prometia ser. — Você deveria ter visto o rosto de seu tio Gilbert quando lhe disse o que estaria fazendo hoje, — disse John. — Por Deus, foi demais. Bem ali do lado de fora de Guildhall, perguntei-lhe se iria participar consciente de que ele não sabia de nada. Obriguei-o a arrancar os detalhes de mim pouco a pouco, também. Pelo menos vinte dos guardas devem ter ouvido. — a saudável risada de John ecoou por Strand. — ‘Sim, Gilbert, ’ eu disse, ‘você não sabia?’ A filha do famoso Hugh Fitzwaryn. Com a aprovação do 3

The Strand – famosa rua da capital inglesa.

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Rei, nada menos. Na capela real com a presença da família real. Seu rosto parecia cinza antes que terminasse. David sorriu com o pensamento sobre a expressão de Gilbert quando soube que David se casaria com a filha de um barão. Foi a primeira vez que esse noivado havia lhe dado algum prazer. Ele não tinha falado com qualquer um dos Abyndons desde que ele era um jovem e tinha plenamente compreendido o que tinham feito a sua mãe. Ele também se recusava a negociar com eles, e nunca vendeu nenhum dos bens que ele importava. Era uma vingança infantil, mas a única possível para ele agora. Eventualmente a chance poderia vir plantar nesse campo específico de uma forma mais adequada. John sorriu mais sobriamente. — Gostaria que meu irmão pudesse ver isso. Sim, pensou David. Mas era bom que não pudesse. Ele pensou por um momento sobre o seu mestre e parceiro morto, o homem que provavelmente o salvou de uma vida nas ruas. Um bom homem, David Constantyn, cuja fé em seu jovem aprendiz tinha tornado ambos ricos e permitido a David se tornar o homem que era hoje. Ele amava seu senhor mais do que um filho ama a um pai. Foi por respeito e amor que tinha esperado sua vez e aguardado. Esperou pela morte de seu mestre antes de plantar nos campos que esperavam para ser colhidos agora. É melhor que ele não esteja aqui, pois havia muito que um homem honesto não gostaria, pensou David. Mas então, ele era astuto, e poderia não ficar tão surpreso. Ele provavelmente sabia por que havia estado comigo. Atravessaram a cidade de Westminster para o castelo e os edifícios que abrigavam a corte e o governo. David abriu o caminho para a capela real.

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Pessoas circulavam fora de suas portas. A presença do Rei não causou comoção ou até mesmo muita atenção. Edward e Philippa levavam seus filhos e seus cortesãos mais próximos para a missa diariamente. David não teve problemas para localizar Christiana no grupo, porque ela usava o manto vermelho. Seus olhos não o procuraram, enquanto permanecia silenciosa entre Joan e lady Idonia. O pajem tinha reservado espaço para David atrás da família real. No outro final de sua linha estava a forma rígida de Morvan Fitzwaryn. Na frente dele, Christiana centrava a sua atenção no padre, nem uma vez virando a cabeça. A missa foi breve e depois o padre desceu do altar e chamou Christiana e ele para frente. Christiana, de capa ainda para afastar o frio na capela, foi até o seu irmão, em seguida, os dois se juntaram a David na frente do padre. Olhou para ela e viu uma expressão vazia em seus olhos, enquanto ela treinava seu olhar em um ponto de algum lugar distante. Ela parecia nobre e calma e emocionalmente vazia. Morvan pegou a mão dela e colocou-a na de David. Parecia incrivelmente pequena e macia. Um ligeiro tremor sacudiu-lhe o braço e, em seguida, ouviram a oração do sacerdote antes de prometerem suas lealdades. Ela recitou as palavras como uma lição de escola, seu canto sem expressão, sugerindo que elas não tinham nenhum significado, se é que ainda as ouvia. Ela virou-se para o beijo de noivado, levantando o rosto obedientemente, mas mantendo os olhos baixos. David sentiu uma estranha combinação de simpatia e irritação. Na lei da Igreja e do reino, ela pertencia a ele agora, mas ela tinha cuidadosamente manejado não ver ou reconhecê-lo desde a sua chegada. Tinha sido sutil, e ele sabia que havia feito isso para seu próprio bem e para controlar sua própria dor. Não havia deliberadamente tentado insultá-lo. Ele simplesmente não se importava. Duvidava que alguém, a não ser Morvan, tivesse notado. 37


Suspeitava que Christiana procurasse transformar este casamento em um sonho para que pudesse acordar quando o seu amante viesse e descobrisse que isto nunca havia, convenientemente, realmente acontecido. Que ele entendesse essa menina não significava, porém, que se sentia inclinado a ceder as suas ilusões com o beijo respeitoso que ela agora oferecia e esperava. Ele não se importava que o Rei e a Rainha estivessem por perto, nem que o irmão irritado vigiava. Isto era apenas entre os dois. Ele aproximouse dela e colocou a mão em seu rosto. Um pequeno tremor despertou sob o toque dele. O capuz da capa ainda descansava em cima de sua cabeça, escondendo seu cabelo. Ele poderia dizer que ela os usava soltos, um símbolo de virgindade, como era tradicional para a cerimônia. Com a outra mão, empurrou o capuz. Os cachos pretos grossos cascateavam pelas costas, e sua mão seguiu até que ele a abraçou. — Olhe para mim, Christiana — ele ordenou em voz baixa. Os cílios pretos se agitaram. Os cílios suaves elevaram-se lentamente. Dois diamantes brilhavam alertas de surpresa e medo. Ele abaixou a cabeça e provou a doçura suave de seus lábios trêmulos.

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Capítulo 3 Christiana estudou o tabuleiro apoiado no peito entre ela e Joan. Ela moveu um peão. Joan rapidamente tomou um de seus cavalos. — Você está jogando mal hoje — disse ela. Elas se sentavam ante uma janela no quarto de dormir de Isabele. A princesa tinha ido visitar um amigo em outra parte de Westminster, e lady Idonia a tinha acompanhado. Christiana tentou se concentrar no jogo e não pensar sobre seu noivado três dias antes. Em particular, ela trabalhou duro para não pensar em David de Abyndon, mas seus intensos olhos e ardente toque teimavam em se intrometer em sua memória de uma forma angustiante. Ele lidou com a cerimônia e o jantar com muita gentileza, quase com simpatia. Com uma distinção impressionante. 39


— Você nunca me disse como é ficar noiva — disse Joan. Christiana encolheu os ombros. — Não me lembro de muita coisa. Fiquei muito perturbada. Joan jogou seus cachos loiros e seus olhos brilharam. — Como foi o beijo? Pareceu um beijo maravilhoso. Christiana olhou para as peças de xadrez espalhados na placa. Ela estava especialmente trabalhando duro para não pensar sobre o beijo. O que ela deveria dizer a Joan? O que ela poderia dizer? Como poderia explicar que apenas na parte mais necessária tinha prestado atenção na missa ou no juramento? Que ela havia deliberadamente entorpecido a mente para que pudesse passar o dia sem entrar em pânico. Que havia enchido seu coração com Stephen, a confiança e o conhecimento do seu amor, e que toda a cena na igreja havia sido apenas um sonho inquieto que rapidamente se desvaneceu. Até que teve a mão em seu rosto, em um gesto de intimidade, forçando-a a despertar, tão certo como uma sacudida durante a noite. A voz ordenando-lhe para olhar a realidade de frente. Um abraço e um beijo de posse magistral. Como foi aquele beijo? Confuso. Assustador. Mais do que o necessário. Tempo suficiente para deixar claro que um deles pretendia tratar este compromisso a sério. A sensação de um raio de calor fluindo através de seu corpo lavou sua memória. Ela se mexeu inquieta e forçou toda a sua atenção sobre o jogo de xadrez. Sim, não queria pensar ou falar sobre aquele beijo afinal. — Foi bom o suficiente. Pelo menos essa parte da farsa acabou. Agora, tinha apenas que esperar Stephen vir. 40


— Você já foi beijada antes? — Perguntou Joan. Christiana desejou poder confiar em sua amiga, mas Joan era uma mexeriqueira notória. Isto tinha, claro, passado por sua mente, que se Joan falasse, então Morvan saberia sobre Stephen, então talvez seu irmão fosse encorajar os Percys a mudar de ideia. Ela imediatamente se sentiu culpada por esse pensamento indigno. Afinal, não queria Stephen oferecendo-se sob a ponta de uma espada. Isso não seria necessário de qualquer maneira. A memória da boca de Stephen esmagando a dela vibrou em sua imaginação. O beijo de David não tinha sido nada assim, mesmo depois de terem estado parados na igreja na frente de um Rei e um sacerdote. Ainda assim... Não, ela não queria pensar sobre o beijo. — Eu já fui beijada antes. Sinceramente, não gostei. Acho que sou uma daquelas mulheres que não gostam. A expressão de Joan continha um toque de piedade. — Ele é muito bonito, — disse ela depois de uma pausa. — Se você tem que se casar com um mercador, ele pode muito bem ser rico e bonitão. Christiana sabia que Joan repetia a opinião de toda a corte. Pobre Christiana. Uma garota doce. Triste o Rei ter dado sua mão a um mercador comum, mas pelo menos ele é rico e bonito. Isso a lembrou da simpatia encorajadora oferecida a um cavaleiro mutilado. Pena que você nunca vai andar com a direita novamente, mas pelo menos não está morto. — Lady Elizabeth compra dele, você sabe, — Joan acrescentou muito casualmente. — E lady Agnes e algumas outras. Joan sempre conseguia descobrir essas coisas. Na última semana, provavelmente, tinha aprendido tudo o que havia para saber em Westminster sobre David de Abyndon. Ela lançaria boatos como esse aqui e ali, como lhe conviesse. — Elas preferem ir à sua loja, que é maravilhosa. Você realmente deveria ter vindo com a gente, Christiana. Ele traz sedas da Itália bem como de lugares distantes como a Índia. Há um modista lá também. As 41


mulheres costumam tratá-lo como um segredo e seguem suas instruções. Lady Agnes diz que todo o estilo branco e prata de lady Elizabeth foi ideia dele. Estou surpresa que você nunca o tenha visto antes, se Elizabeth é uma de suas clientes. Lady Elizabeth, a viúva, tinha sido uma amiga especial de Morvan por alguns meses no ano passado. Ela era, no mínimo, dez anos mais velha do que ele, mas de uma rara beleza. Suas características mais notáveis eram o cabelo prematuramente branco e sua pele branca translúcida. Boatos na corte previam um casamento, mas, em seguida, Elizabeth aceitou a oferta de um senhor idoso e, de repente, sua amizade com Morvan havia esfriado. Há dois anos, Elizabeth tinha adotado um estilo muito pessoal que realçava sua beleza única. Ela usava apenas branco e tons de cinza prateado. Até mesmo suas joias foram trocadas por prata. — Isabele está convencida de que ele vai fazer você trabalhar, — Joan deu uma risadinha. — Idonia explicou que os mercadores ricos não fazem isso, mas Isabele vê as mulheres que trabalham nos bazares e pensa que você terá que trabalhar também. Céus, Morvan iria matá-la para proteger a honra da família antes de engolir isso. — É o seu movimento, Joan — disse ela, decidindo que era hora de acabar com o assunto. Um pajem entrou em um curto período de tempo. — Minha senhora, o seu marido está no salão e a convida para se juntar a ele — disse ele. Ela olhou para o garoto como se ele tivesse falado asneiras. — É essa a mensagem que ele enviou? — Sim, minha senhora. — Eu não gosto muito desta mensagem — ela disse para Joan. — Parece bastante comum para mim.

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— Ele ainda não é meu marido. — Oh, Christiana, você sabe que os casais noivos são muitas vezes referidos como marido e mulher. Sábado foi a primeira parte da cerimônia, e o casamento é a conclusão. Isto é meio caminho andado. Não é para mim, ela queria gritar. E este homem sabe disso. Ela também não gostava nem um pouco de ser “convidada” a fazer qualquer coisa com David de Abyndon. Quando Morvan colocara sua mão em David, foi uma simbólica entrega de autoridade e responsabilidade, mas sob as circunstâncias deste compromisso em particular, isto não tinha sentido também. Ela se virou para o pajem. — Diga ao meu noivo que lamento por não poder encontrá-lo esta manhã. Estou grata por ele ter me visitado, mas não estou bem. Diga que tenho uma dor de cabeça e me sinto tonta. — Espero que você saiba o que está fazendo — disse Joan. Mais importante do que isso era que David soubesse o que ela estava fazendo. Havia dito a ele que não deveriam se ver, e se ele equivocadamente pensava que ela quis dizer apenas antes do noivado, essa atitude seria esclarecedora. Não tinha intenção de explicar a Stephen quando chegasse que estava atuando nessa farsa mais do que o necessário. Um pouco mais tarde a porta se abriu e o pajem reapareceu, vermelho e sem fôlego pela corrida. — Minha senhora, o seu mar... Aquele homem está vindo para cá. — Vindo aqui? — Sim. Eu o entreguei para outro pajem e os enviei pelo caminho mais longo, mas ele estará aqui em breve. Ela olhou desesperadamente para Joan enquanto o pajem partia. 43


— Pensei que você sabia o que estava fazendo — Joan disse rindo. Ela levantou-se. — Ajude-me. Rápido, — ela correu para antessala do quarto e puxou para trás o cobertor de sua cama. — Cubra-me e feche as cortinas. Tente não deixar qualquer parte do meu vestido à mostra. — Isso não vai funcionar — Joan riu quando ela enfiou a colcha em volta do pescoço e nos lados. — Diga a ele que estou de repouso e mande-o embora. Joan sorriu e puxou as cortinas. Christiana estava absolutamente imóvel nas sombras escuras da cama. Ela podia ouvir Joan andando, cantarolando uma melodia. Sentia-se um pouco ridícula fazendo isso, mas algo dentro dela dizia que não deveria ver este homem novamente. Mesmo que as cortinas abafassem os sons, ouviu as botas caminhando no quarto. — Mestre David! — Joan gritou intensamente. — Lady Joan. Você, pelo menos, parece estar bem. Christiana suspirou. Este homem com uma linda voz calma tinha um talento para colocar um monte de significado em palavras simples, sem, no entanto, mudar sua inflexão. Ficou muito claro que sabia que ela mentia sobre estar doente, mas ela havia contado com isso. Apenas não contava que viesse confrontá-la e, assim, forçando-a a fingir que não tinha mentido. — Na verdade, estou muito bem, David. E você? — Bem o suficiente, minha senhora. Embora me encontre ultimamente mais curto de temperamento do que o normal.

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— Sem dúvida é algo que você comeu. — Sem dúvida. Botas passeavam pelo chão. — Disseram-me que Christiana está doente. — Sim. Ela está descansando, David, e realmente não deve ser perturbada. — Qual é o mal? — Foi realmente muito assustador. Quando ela acordou esta manhã foi acometida por tonturas. Quase caiu. Nós a colocamos de volta na cama, é claro, e isto pareceu ajudar. Ela pode ficar na cama por dias, até semanas. Não exagere. Christiana solicitou em silêncio. — Parece muito sério, — disse David. — Essa doença não deve ser encarada a ligeira. Talvez eu devesse pagar aos monges da abadia para rezarem missas em seu nome. — Nós estamos muito preocupadas, mas confio que tudo ficará bem em breve. Nós certamente mandaremos um recado para você, quando estiver melhor. — Esta é a sua cama? Vou vê-la antes de ir. — Eu realmente não acho que seja sábio, David, — Joan disse apressadamente. — A luz parece piorar seu estado. Um toque inteligente, Christiana pensou aprovando. Mas não inteligente o suficiente. — Vou ser rápido. Mesmo com os olhos fechados, Christiana viu a luz fluir sobre ela enquanto as cortinas eram afastadas. 45


Ela engasgou quando ele tomou-a firmemente pela cintura, levantou-a, e em seguida deitou-a de costas. Ela baixou as pálpebras como se a luz a incomodasse, e gemeu como consequência. Esperava parecer adequadamente pálida e doente. David deu uma pancada suave em seu quadril, gesticulando para ela se mover. Reprimindo sua indignação, ela se moveu levemente para um lado e ele se sentou na beirada da cama. — Bem, Christiana, estou muito preocupado. Uma dor de cabeça e tonturas. Você parece ter uma doença grave, de fato. Aquela dureza em torno de sua boca parecia um pouco mais pronunciada. Algo em sua expressão sugeria que era capaz de ser o exatamente oposto do mercador gentil que ela esperava primeiramente. Ele esfregou seu rosto com as costas dos dedos. — Sem febre. Ao mesmo tempo, acho que devemos providenciar um médico para vê-la agora. — Estou certa que não é necessário, — tentou fazer sua voz levemente fraca, mas não demais. — Estou me sentindo melhor, e tenho certeza que isso vai passar. Ele a ignorou. — Vou ter que perguntar por aí e ver quais médicos da corte são bons. Alguns deles querem imediatamente sangrar o paciente, o que é muito doloroso. Nós gostaríamos de evitar, se possível, não acha? Ela havia sido sangrada uma vez, quando tinha onze anos. Ela pensou que evitar era uma excelente ideia. — Por outro lado, dores de cabeça e tonturas são provavelmente causados pelos humores que necessitam disto. — Realmente acho que estou me sentindo muito melhor. A luz não me incomoda em nada agora. 46


— A ideia de ser sangrada sempre faz a pessoa se sentir melhor, minha menina, mas não dura. No entanto, se você acha que agora está se recuperando um pouco, eu realmente prefiro levá-la vestida para ver um médico sarraceno que conheço em Southwark. Ele é um especialista em doenças de senhoras, e trata todas as prostitutas de Stews. Ele é muito habilidoso. — Um sarraceno! Um médico de prostitutas! — Ela se esqueceu completamente de fazer a voz fraca agora. — Sim. Formado em Alexandria. Médicos sarracenos são muito melhores do que os cristãos. Somos bárbaros em comparação. — Garanto que ir a Southwark não é necessário, David. Na verdade, estou me sentindo imensamente melhor. Muito, na verdade. Estou confiante de que estou completamente curada. Ele sorriu lentamente. — Está? Isso é uma boa notícia. No entanto, você deve ter certeza de me deixar saber se esses feitiços voltarem. Com certeza vou levá-la a um médico imediatamente. Eu sou responsável por você agora, e não gostaria de ter sua saúde negligenciada. Ela olhou para ele. Este “marido” que havia “convidado para se juntar a ele” estava lembrando-a de seus direitos e alertando-a para não apostar esta jogada novamente. Ela poderia pensar em maneiras mais agradáveis para conseguir a questão sem a ameaça de ter o braço cortado. Ele se levantou. Aparentemente, sua bronca tinha terminado, e Christiana sentiu-se confiante de que ele sairia. Ela olhou para Joan triunfante. David olhou para ela. — O dia está claro. Talvez tudo o que você precise é de um pouco de ar fresco para arejar a mente. — Não tenho muita certeza... 47


Seu olhar iluminou-se para o armário mais próximo. — São suas as coisas aqui? Nós iremos vesti-la e vou levá-la para fora por um tempo. Ela estreitou os olhos para o belo rosto de David. Uma farsa após a outra. Ela não podia declarar estar muito tonta para sair, mas também suficientemente bem para ver um médico. Ele habilmente e elegantemente manipulara seu ardil contra ela mesma. — Já estou vestida — anunciou ela, jogando para trás o cobertor e sentando-se, admitindo a derrota. — Então você está, — disse ele em voz baixa, vindo em sua direção com um sorriso vago no rosto e seu velho manto em sua mão. — Que decepção! Eu estava ansioso por essa parte. Aquele sorriso a fez tão desconfortável. Ela admitiria a derrota, mas não se renderia. — Infelizmente, — ela disse com pesar. — Não posso ir com você. É uma regra. Nenhuma de nós pode estar com um homem sozinha. Joan acenou com a cabeça vigorosamente em apoio. — Lady Idonia saiu e, infelizmente, Joan tem que se reunir com seu irmão em breve — acrescentou. Joan continuou balançando a cabeça, embora não tivesse tais planos. — É uma séria proibição, — enfatizou. — Como pode imaginar, as consequências por desobedecer são terríveis. — Terríveis — Joan ecoou prestativa. David deu a ambas um olhar que indicava que pensava que as consequências não tinham sido tão terríveis assim para as duas ao longo dos anos.

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— Eu posso arriscar, mas a Rainha é mais rigorosa e... — Ela ergueu as mãos. David colocou o manto ao redor de seus ombros. Ele se curvou para prender o broche em seu pescoço. Sua proximidade, e suas mãos trabalhando perto de seu corpo, a tornaram ainda mais desconfortável. — Não sou apenas um homem, sou seu noivo. O que de pior pode acontecer? Se violentar você, isso simplesmente significa que o casamento fica finalizado muito mais cedo. Talvez eles me agradeçam por tirá-la de suas mãos. Além disso, cabe a mim puni-la no futuro por mau comportamento e não lady Idonia ou a Rainha. Ele estava falando com ela como uma criança novamente. Na verdade, estava vestindo-a como uma criança. Além disso, esta era a sua segunda referência a isso, e ela realmente podia passar sem as suas insinuações. Elas tocaram algo dentro que não queria pensar. Desde que insinuavam uma familiaridade que simplesmente não iria se desenvolver, ela pensou que seria bom se eles nem sequer brincassem sobre isso. Estas presunções do mercador indicavam que ele estava levando os seus direitos de noivado muito a sério. Ela não queria ficar a sós com David de Abyndon por mais tempo do que o necessário, e tinha arruinado a chance de Joan ir com eles. Enquanto ele colocava sua própria capa, ela chamou a atenção de Joan. Idonia, ela murmurou. Ela levantou-se para sair. Com um movimento suave David inclinouse e pegou-a nos braços. Ela gritou assustada — Oh! — e olhou para ele. — Eu posso andar — ela se irritou quando ele riu. — Há os degraus. Se sentir tonturas novamente, você pode cair e quebrar o pescoço. — É mais provável que você vá me deixar cair. 49


— Bobagem. Você é muito leve. — Oh, Deus, — ela gemeu, deixando a cabeça cair para trás, exasperada. — Bem, pelo menos, desça as escadas até a entrada lá. Não quero toda a corte vendo isso. Enquanto a levava para fora, ela virou a cabeça e olhou desesperadamente para trás, Joan. Envie Idonia, ela murmurou novamente. Ele a colocou no chão na entrada traseira que levava a um pequeno pátio sob as janelas de Isabele. — Há alguns bancos aqui e o sol é quente contra a parede — ela sugeriu. — Vamos sentar aqui. — Acho que nós preferimos dar um passeio. Idonia nunca iria encontrá-los para salvá-la. — Prefiro ficar aqui. — Em breve as sombras se movem sobre a parede, e então você vai ficar gelada. Um passeio ao sol será melhor. Caminhando ao lado dele para o canto da mansão, ela se perguntava se todos os homens ficavam tão teimosos após alguém ser prometida a eles. Será que Stephen pararia de falar palavras bonitas quando se casassem? Era apenas algo feito com antecedência para atrair as mulheres? As canções não eram de muita ajuda nesta questão. Os casais nessas canções românticas nunca eram casados. Ela imediatamente se sentiu culpada por igualar Stephen a este mercador. Stephen era um cavaleiro nobre e a poesia e o romance corriam em seu sangue.

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David tomou as rédeas do cavalo do jovem tratador, que estava segurando-as. — Vou pedir um cavalo dos estábulos — disse ela. — Você montará comigo. Um dos problemas em estar tonta é que você não pode montar um cavalo sozinha por um tempo. — Ele levantou-a a frente da sela e montou atrás. Ela nunca havia sentado num cavalo com um homem antes. O assento estava um pouco precário, especialmente se alguém se inclinasse para frente como ela se esforçava para fazer. Isto prometia ser árduo e seu humor não melhorou. Eles cavalgaram para fora do portão do castelo e viraram rumo ao rio. A estrada ficou deserta, uma vez que se afastaram do castelo e da cidade. Poucas carroças destorcidas passavam, e no rio uma barca ocasional flutuava. Estavam a menos de dois quilômetros dos muros de Londres, mas repentinamente havia um mundo de distância. Cavalgaram em silêncio por cerca de meio quilometro. Christiana focou sua atenção em evitar qualquer mínimo contato com o homem atrás dela. Suas costas doíam por causa do esforço. De repente e sem aviso, David impeliu o cavalo a um rápido passeio. O que conseguiu isso. A marcha jogou-a para trás contra seu peito e ombros. Seu braço deslizou em volta da sua cintura. Ela ficou tensa pela surpresa enquanto uma intensidade peculiar fluiu e envolveu-a certamente mais do que o braço dele. Ela percebeu a solidez de seu apoio e tornou-se extremamente consciente de seu braço descansando levemente em sua cintura. Olhou para a bela mão masculina segurando-a delicadamente, e sentiu a pressão suave de seus dedos enquanto a segurava. Havia algo fascinante no calor dele ao longo de suas costas. Um tremor mais estranho a invadiu. Ficou tensa novamente.

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— Você está com medo de mim, Christiana? — ele perguntou. Seu rosto estava muito perto de sua cabeça, e sua voz pouco mais alta que um sussurro. Sua respiração flutuou acima da sua têmpora, levando suas palavras. O som quente misturado com o ar acariciou-a, tão certo como se os dedos a tivessem tocado. A despeito do calor, um frio tremendo percorreu seu pescoço e costas. Um arrepio muito peculiar. — Claro que não. — Você age como se estivesse. Ele tinha notado os tremores, ela pensou um pouco horrorizada, mas sem certeza do motivo. — Estou um pouco fria, isso é tudo. Em resposta, ele arrastou as bordas do próprio manto em volta dela. Ele parecia mais perto agora. Podia sentir os músculos de seu peito ao longo de suas costas. Sua respiração roçou seu cabelo, fazendo formigar seu couro cabeludo. Ele era praticamente um desconhecido, e a intimidade sutil de ser envolvida dentro de sua capa a fez um pouco receosa agora, mas isto ela não poderia dizer. Ela se contorceu para deixá-lo saber que queria que a soltasse. Ele não a soltou. Ao contrário, inclinou seu corpo sobre o dela. Cabelo macio roçou seu rosto antes que ele virasse a cabeça para beijá-la no pescoço. O calor de seus lábios contra sua pele produziu um choque incrível. Ele a beijou novamente, aumentando a pressão e o calor da boca penetrou em sua pele, descendo para o pescoço e braços, percorrendo seu peito e barriga. A pura fisicalidade da sensação a atordoou. O braço dele a apertou mais. Seus lábios se moveram por seu pescoço. Hesitantes, deliciosos tremores a percorriam. Ele mordiscou levemente ao longo da borda da orelha. A tensão oca explodiu, sacudindo-a, e ela engasgou. 52


O som a despertou do torpor sensual. Afastou a cabeça da boca dele. — Agora estou com medo de você — disse ela. — Isso não era medo. Ela empurrou contra seu braço. — Quero descer. Essa intimidade é errada. — Estamos noivos. — Não verdadeiramente. — Muito verdadeiramente. — Não em minha mente, e você sabe disso. Quero descer. Agora. Quero andar um pouco. Ele parou o cavalo e desmontou. Ela se preparou para a raiva dele quando se virou para descer, mas ele apenas sorriu e andou ao lado dela. Mesmo andando longe dele, ainda podia sentir a energia desta inquietante intimidade. Este homem a tinha feito se sentir desconfortável e vulnerável desde a primeira vez em que o vira, e isto não estava melhorando. Sentiu uma necessidade urgente de banir os últimos minutos de sua memória, e refugiou-se na conversa para conseguir. — Lady Idonia me disse que os Abyndons são uma família aldermanic4 em Londres. — Meu tio Stephen foi um alderman5 cerca de dez anos atrás, na época em que morreu. Tenho um tio, Gilbert, que gostaria de ser. — Ele não veio no sábado. — Estamos distanciados.

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Um nobre de alto escalão ou autoridade na Inglaterra anglo-saxão. Membro de uma assembleia municipal ou conselho em muitas jurisdições fundada na lei Inglesa.

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— E seus pais não vieram. Estão mortos ou você está distante deles também? Ele não respondeu de imediato. — Eles não disseram muito sobre mim, não é? Minha mãe está morta. Não conheço o meu pai. Abyndon é o nome da minha mãe. Ele era um bastardo. De todos os temas à escolha para uma conversa, isso provavelmente tinha sido o pior. — Seu irmão sabe disso — acrescentou. — É uma coisa comum. Ele não acharia que valesse a pena comentar comigo. Isso era uma mentira cortês, é claro. Não era tão comum. — Existe alguma coisa que você queira saber sobre mim? Ela pensou por um momento. — Quantos anos você tem? — Vinte e nove. — E foi um aprendiz até vinte e cinco anos? — Na verdade, vinte e quatro. — Então, como ficou rico em tão pouco tempo? Ele riu um pouco. Uma risada agradável. Calma. — Esta é uma longa história. — Não faz muito tempo, se você tem apenas vinte e nove anos. Ele riu de novo. — Meu mestre, David Constantyn, comprava seus bens de mercadores que vinham para a Inglaterra. Italianos em sua maioria, de Gênova e Veneza. Quando eu tinha a idade de Andrew, vinte anos, o convenci a me enviar para Flandres para comprar diretamente um pouco de lã. Os preços pelo qual vendemos são regulados, então a única maneira de ganhar mais lucro é comprando mais barato. 54


— Sua viagem foi bem-sucedida? — Sim, muito. Nós fizemos isso por um ano. Então um dia, ele veio até mim e concordou com outra ideia que eu havia proposto. Ele me deu uma grande quantia em dinheiro para tentar a sorte em outro lugar. Fiquei por três anos, e visitei muitos dos portos ao redor de Inland Sea. Mandei de volta bens, tornei-me amigo de homens que se tornaram nossos agentes, e estabeleci uma rede de comércio. Obtivemos grandes vantagens depois disso. Ele disse sua história como se os homens fizessem isso o tempo todo, mas é claro que não faziam e até mesmo uma garota como ela sabia disso. — Você ainda era seu aprendiz, então? — Aos olhos da lei. Mas ele tinha sido mais como um pai para mim, por anos. Assim que recebeu a liberdade e sua cidadania, me fez seu parceiro. Ele era viúvo e não tinha filhos, e me deixou a propriedade após a sua morte. Sua riqueza foi para a caridade e orações para a sua alma. Ela não havia pensado num mercador como um aventureiro. Em seu mundo só um cavaleiro andante ou cruzado poderia vagar assim. — Quais foram os lugares que você viajou? — Fui de barco ao longo da costa da Aquitânia e Castela e no Inland Sea através das Colunas de Hércules. Então, ao longo da costa do Continente Negro6 pela primeira vez. — Terras sarracenas! — É preciso negociar com os sarracenos para conseguir alguma coisa do Oriente. — Deve ter sido perigoso.

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Referencia a África.

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— Apenas uma vez. No Egito. Fiquei muito tempo lá. Os portos recebem bem os mercadores, pois dependem deles. Ninguém quer desencorajar o comércio matando mercantes. Após o Egito, fui até Trípoli e Constantinopla, em seguida, parti para Gênova. Voltei através da França. Ela imaginou os mapas do Inland Sea que havia visto. Imaginou-o atravessando desertos e passando por cima dos Alpes. Ela olhou para as adagas que usava. Uma delas era uma decorativa ferramenta de comer, mas a outra era grande e parecia letal. — Ainda parece perigoso. E muito arriscado — na verdade soava maravilhosamente emocionante e aventureiro. — O risco era bastante real, mas principalmente financeiro. David Constantyn foi, provavelmente, um pouco idiota em concordar com isto. Agora que vejo Andrew se aproximando da mesma idade que eu tinha, posso entender a fé dele. — Você aceitará que Andrew faça o que você fez? — Não. Mas vou mandá-lo para Genova em breve, onde os agentes enviam suas mercadorias para desembarcar aqui. Preciso de um homem lá, acho, para que não tenha que viajar a cada dois anos. Havia muitos banqueiros florentinos e mercadores italianos em Londres, e contos sobre a terra ensolarada tinham se infiltrado através da corte ao longo dos anos. Ela sentiu um pouco de inveja de Andrew. A ideia de passar seus anos bordando em um dos castelos cheio de correntes de ar de Stephen, repentinamente, parecia muito aborrecida. — Vim para falar com você sobre algo, Christiana, — disse ele. — Eu estive em Westminster para discutir o casamento. A primavera e o início do verão estão fora de questão. Haverá momentos em que estarei fora de Londres inesperadamente. A primavera e o verão eram quando se realizavam muitas feiras comerciais. Presumivelmente, ele precisava assistir a algumas. 56


— Próximo do outono, então, — ela ofereceu. — Outubro ou novembro. — Acho que não. Antes da Quaresma. No final de fevereiro. — Daqui a cinco semanas! É muito cedo! — Como assim? Ela olhou para ele. Eles haviam tido uma conversa agradável, também. Ele sabia “como assim”. — ela marchou um pouco mais rápido, o olhar fixo na estrada. Ele simplesmente manteve seu passo. Finalmente, sua voz calma fluiu ao redor dela. — Eu disse que iria me afastar se esse homem vier, mas você não pode esperar que eu organizasse minha vida para a sua conveniência. Se ele quiser, estará aqui muito em breve. Ela virou-se para ele. — Você é orgulhoso e arrogante, e o odeio. Você está deliberadamente fazendo isso para tornar as coisas mais difíceis para mim. — Não. Apenas procuro evitar dificuldades que possam complicar os meus negócios. Cinco semanas é tempo suficiente para um homem decidir que quer uma mulher. Tomei minha decisão em questão de dias. Um homem apaixonado deve ser ainda mais rápido. Ele achava que Stephen não viria, e agora havia criado um teste para ele. Como ele se atrevia a pretensão de conhecer o coração de um cavaleiro nobre! Como ousava se comparar a ele! Stephen era tão diferente deste mercador como um cavalo de batalha de um cavalo de sela. O mesmo animal, mas de raças diferentes, com diferentes funções. — Cinco semanas, minha senhora, — ele repetiu com firmeza. Ele olhou para o sol. — Agora temos de retornar. Tenho um encontro esta tarde. 57


Ele trouxe o cavalo e levantou-a. Ela manteve suas costas muito retas todo o caminho de volta para Westminster. No pátio do fundo, encontraram lady Idonia sentada perto da parede. Ela se levantou de uma vez e veio em direção a eles. David desmontou e trouxe Christiana para baixo. Ele se virou para a guardiã. — Você decidiu tomar um pouco de ar também, minha senhora? O dia está claro, não é? Lady Idonia fez o seu melhor. — Você não deveria ter levado Christiana adoentada. Sua tontura era muito grave. David passou um braço em volta dos ombros de Christiana. Foi um gesto casual, mas de forma muito eficaz que a impedia de se contorcer. — Sua preocupação solícita por minha noiva, minha senhora, me comove. Mas tenho algo a dizer a Christiana em particular. Talvez você possa esperar na entrada. Idonia ficou ansiosa em resposta a esta dispensa direta, olhou atentamente para Christiana, e pisou duro afastando-se. David baixou o braço e virou-se para ela. — Virei visitá-la na próxima semana. Stephen viria em breve, mas não tão cedo. Ela realmente não queria passar mais tempo com David. Parecia uma traição ao seu amante. — Não é necessário — disse ela. — Pode não ser necessário, mas pelo seu bem, é prudente. Você espera que seu amante venha, mas e se ele não vier? — Ele virá. — E se não vier?

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Sua insistência a irritou. — O que tem isso? — Então, em cinco semanas você se casará comigo, minha menina. Apenas no caso, não devemos gastar esse tempo para conhecer um ao outro? É para isto que servem os noivados. Mas eu não estou realmente noiva, pensou ela, olhando-o obstinadamente. Não em meu coração ou mente. — Christiana, se você não quer se encontrar comigo novamente até o casamento, é assim que será. No entanto, pense sobre isso, menina. Ir para a cama com um estranho não me incomoda em nada, mas você pode encontrar a experiência angustiante. Sua boca se abriu em choque com este lembrete contundente do leito conjugal. Memórias de si mesma com Stephen passaram rapidamente em sua mente. Ele não tinha sido um estranho, e ela rapidamente reviveu o choque de sua feroz paixão, a insistência do esmagamento de seus beijos, a intimidade quase horrível de sua mão sobre a sua nudez. Ela olhou para David de Abyndon, observando a maneira franca e aberta como a olhava. Foi cruel que a fizesse pensar sobre isso e enfrentar a possível conclusão deste compromisso. Ao mesmo tempo, sua mente involuntariamente começou a substituí-lo por Stephen nessas memórias. Ela estava chocada por não ter problemas em fazê-lo e que os sentimentos estranhos que convocara tentavam se juntar à fantasia fantasmagórica. Sacudiu os pensamentos. A noção era realmente angustiante. E muito assustadora. Cinco semanas. — Devo esperar lá em cima até que “me convide para se juntar a você” — ela perguntou sarcasticamente. — Vamos dizer que virei às segundas-feiras. Se não puder, enviarei um recado. Se estiver doente novamente, envie uma mensagem para mim.

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Ela assentiu com a cabeça e virou-se para a porta. Ela queria ter feito com este homem hoje. Ela queria limpar sua mente do que tinha imaginado. Ele a agarrou pelo braço e a puxou de volta. Com movimentos suaves, mas firmes, ele apertou-a em um abraço. Um desespero crescente a invadiu. Lembrou-se da cerimônia de noivado e sabia, sabia que era vital, essencial, que ele não a beijasse novamente. Lutou em seus braços e quase gritou por Idonia. Quando a cabeça inclinou-se para a dela, ela se retorceu para evitá-lo. Seus lábios encontraram os dela de qualquer maneira e se uniu com um leve roçar que não era sequer um beijo. Ela sentiu o mesmo confortante calor leve indo e vindo em sua bochecha, testa e pescoço. Apesar de seu amor por Stephen, apesar de sua raiva contra a intrusão deste homem em sua vida, acalmou-se sob a carícia repetida de sua boca enquanto ondas de sensação fluíam através dela. Sua consciência entorpecida completamente, menos desses sentimentos convincentes. Quando ele finalmente parou, não estava lutando mais. Um pouco atordoada, olhou para ele. Os traços perfeitos de seu rosto pareciam mais concentrados do que o habitual, e ele olhou em seus olhos com um olhar que parecia comandar a falar uma língua que ela não entendia. Sabia que ia beijá-la e que deveria ir embora, mas quando ele baixou a boca para a dela, não conseguiu resistir totalmente. Foi um esplêndido beijo, cheio de calor e promessas. Isto se aprofundou lentamente e ele segurou sua cabeça em uma das mãos, o outro braço, levantando-a para ele. As ondas de sensação fluíram mais alto e mais forte, levando-a a um delicioso esquecimento. Ele libertou a pressão sobre sua boca e tomou um lábio, depois o outro suavemente entre os dentes.

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Um forte calor sacudia o centro de seu corpo. Era um tremor impressionante de agradável tortura que parecia chegar completamente através dela. Menos delicadamente, ele beijou cada ponto pulsante em seu pescoço, e isto aconteceu repetidamente, cada vez mais forte, a crescente tortura convincente. Ele levantou a cabeça e olhou para ela, com a boca numa linha dura com os lábios entreabertos. Parecia gloriosamente bonito assim. — Você me faz esquecer de mim mesmo — disse ele, os dedos acariciando os cabelos dela. Eles se aproximaram lentamente. Sua posição, arqueada receptivamente em seu abraço, de repente, tornou-se evidente, também. Horrorizada, ela abruptamente se desvencilhou. Ele a deixou ir. Com um rosto muito vermelho correu para a porta. Lady Idonia a esperava. Ela levantou o olhar bruscamente. — “Envie Idonia para me salvar” — ela imitou. — Sentei lá fora por quase uma hora, preocupada nem sei por que já que você estará se casando com o homem. Então você volta e o que vejo? Continue assim, garota, e não haverá necessidade de um casamento afinal. Christiana corou profundamente. Um profundo sentimento de culpa a invadiu. Ela amava Stephen. Como podia ser tão infiel? Como pôde deixar este homem beijá-la assim? Mesmo que ele a forçasse a isso, como pôde deixar esses sentimentos abatê-la tão escandalosamente? Seguiu Idonia pelas escadas, mais confusa e assustada do que tinha estado no dia de seu noivado. Era errado. Nunca deveria permitir que isso acontecesse novamente. Ela deveria garantir que nunca mais ficaria a sós com este mercador. No patamar de segundo nível, parou e olhou para fora da pequena janela para o pátio abaixo. 61


David estava justamente montando em seu cavalo para ir embora. Quando começou a se afastar, um movimento no final do pátio lhe chamou a atenção. Um homem se afastou do edifício se aproximando do cavalo de David. David parou e falou com o homem por um momento, em seguida, seguiu em frente. Mas o homem seguiu ao seu lado, falando e gesticulando. Finalmente David desmontou. Amarrou as rédeas a um poste e desapareceu por trás do prédio, seguindo o homem. Christiana franziu a testa. Eles estavam a certa distância, mas ela tinha certeza de que reconhecia o homem. Ele era o diplomata de língua francesa, que havia passado pela sua alcova no corredor do Rei na manhã seguinte em que conheceu David.

Capítulo 4 David ficou no limiar entre o solar e o quarto de dormir e estudou a mulher que Sieg acabara de trazer. Ela ainda era uma mulher atraente, mas treze anos cobrava seu tempo. Ele não tinha percebido na época, quão jovem deveria ser. Não mais que vinte e cinco anos na ocasião, podia estimar agora. Ainda assim, ele se lembraria dela em qualquer lugar. 62


Ela não o tinha notado, e ele a observava deslizar em torno do solar, tocando os entalhes nas cadeiras e examinando a tapeçaria na parede. Ela tocou o vidro nas janelas tanto quanto Christiana havia feito naquela primeira noite. Não pensaria em Christiana agora. Se o fizesse suspeitava que não poderia passar por isso. Já havia passado muito tempo na última semana pensando naqueles olhos de diamante muito mais do que sobre a colheita justa cuidadosamente planejada que colheria esta tarde. A última coisa que queria agora era o pensamento sobre uma boa mulher fazendo-o enfraquecer diante de uma má. O rosto da mulher parecia mais pálido do que as mãos, e ele podia dizer que usara farinha de trigo para torná-lo assim. Um toque habilidoso de pintura corou suas bochechas e coloriu seus lábios. Se ele se importasse encontraria uma maneira gentil de dizer-lhe que a coloração estava um pouco forte demais para o cabelo cor de mel, que tinha começado a ressecar com a idade. Ele suspeitou que se tratasse de uma daquelas mulheres que se olhava muito no espelho, mas nunca realmente via o que estava refletido nele. Ele pisou em silêncio, mas isto chamou a atenção dela de qualquer maneira. Olhos de gato âmbar se viraram e olharam para ele. Ele viu um breve escrutínio e, em seguida, um lento alívio. Sim, pensou, se esta prostituta desejasse um homem, preferiria um jovem e belo. Ela continuou olhando para ele e ele notou a ausência total de reconhecimento. — David de Abyndon? — Ela perguntou. Seus olhos se estreitaram e um sorriso fino esticou sua boca. — Lady Catherine. Lamento não ter podido vê-la mais cedo. Ela mal compreendeu e, lisonjeada, sorriu mais naturalmente. Ele fez um gesto e ela se juntou a ele na porta. Quando viu que era um quarto de dormir, olhou para ele, reprovando-o por sua falta de sutileza.

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Ela entrou lentamente e, novamente, observou os detalhes da sala, calculando seu valor. Uma e outra vez seu olhar descansou na grande banheira colocada diante da lareira. Havia sido trazida antes pelos servos de David que foram dispensados por toda à tarde. Se eles se perguntaram por que ele queria isto aqui e não o guarda-roupa, onde pertencia, não tinham perguntado nada. Estava cheia de água, e mais água estava aquecendo junto à lareira. David levantou os baldes e os despejou dentro da banheira. Ela o olhou com diversão. — Talvez eu tenha vindo muito cedo. — É para você. — Você pensou que eu estaria suja? Você é tão suja que nem toda a água do mundo a limparia. — Não. Mas me lembro do quanto você desfrutava de banhos e quis agradá-la. Ela franziu a testa e olhou para ele mais de perto. A centelha da memória tentou ligar, mas ele viu isso morrer. — Meu marido assumiu... — Sei o que seu marido assumiu. Mas nós faremos desta maneira ou nada feito — ele se recostou na parede da lareira e esperou. Um pouco confusa, mas não demais, ela começou a tirar a roupa. Dobrou cuidadosamente a túnica adornada com joias e colocou-a no banco mais próximo. Em seguida, a bela capa. Tecidos ricos. Ele não teve problemas em calcular quantas dívidas do marido foram devotadas ao seu guarda-roupa. Ela desamarrou suas ligas e tirou as meias. Ele notou sua falta de vergonha. Ele não era, de longe, o primeiro estranho que ela havia despojado.

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A muda de roupa caiu no chão e ela olhou para ele com ousadia. Ele apontou para a banheira e ela entrou em cena com clara irritação. Ela se abaixou. Ela não tinha filhos e seu corpo ainda era jovem. Seus seios fartos balançavam no alto de água. — Bem — ela perguntou. — Seu marido a mandou aqui para pedir algo para mim. Para negociar por ele, não foi? Ela fez um gesto exasperado na banheira. David sorriu. — Eu só faço isso para dar-lhe todas as vantagens, minha senhora. Eu me lembro de que você negocia melhor quando está assim. Mais uma vez esse escrutínio. Mais uma vez uma chama de reconhecimento que morreu antes que acendesse. Ela tornou-se uma mercadora. — Meu marido diz que você comprou todos os seus débitos. O homem tinha acumulado dívidas junto aos mercadores e banqueiros ao longo dos últimos anos. Quando ele havia recorrido a empréstimos de um para pagar outro, quando o mercado financeiro em Londres tinha percebido que ele cambaleava à beira da ruína, David havia comprado os empréstimos com um grande desconto. Ele ainda não estava à procura da justiça de hoje. Simplesmente havia caído em seu colo, um dos muitos presentes do Destino para ele. — Ele precisa de tempo para pagá-los. — Eles estão muito atrasados, como já expliquei a ele. — Ele pensou que você poderia ser mais razoável comigo. Vim para pedir uma prorrogação. As propriedades estão menos produtivas ultimamente, mas deve melhorar. 65


— Estão menos produtivas porque são negligenciadas e mal administradas. Já algumas que mantenho, melhoraram. — Os empréstimos foram feitos com a promessa de que a propriedade que mantém agora seria devolvida a nós. — Somente se os empréstimos fossem pagos, — ele fez uma pausa. — Acho que podemos ser capazes de trabalhar em algo sobre os empréstimos e a propriedade, no entanto. Existe alguma coisa que você precisa? Seu rosto se iluminou. Isto seguia melhor do que ela pensava que seria. — Sim. Precisamos de um novo empréstimo. Um pequeno. Como uma ponte até que as coisas funcionem. Este marido colocou em alto os favores de sua esposa. — Você está me pedindo para gastar mais dinheiro em cima de dinheiro mal gasto. — Você será pago na totalidade. — Minha senhora, o seu marido joga. Você é extravagante. Ambos os vícios são raramente dominados. Vou considerar a extensão dos antigos empréstimos, mas na verdade você nunca vai pagá-los. Por que eu iria agora dar-lhe mais? Ela olhou para ele com ousadia e um pequeno sorriso se formou em seus lábios escuros. Lentamente, habilmente, moveu-se na banheira para que ele tivesse uma visão completa de seu corpo. Os anos retrocederam. Ele estava em outro aposento diante de uma mulher mais jovem. Ela era uma visitante frequente da loja, mas naquele dia, David Constantyn não tinha estado lá. Ela comprou roupas caras e entregou uma nota como era o hábito de tais mulheres, mas, em seguida, insistiu que o jovem aprendiz entregasse os bens à tarde em sua mansão em Hampstead, onde o pagamento seria efetuado.

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Ele tinha ido. Como outros antes dele, havia cavalgado inocentemente os cinco quilômetros até o norte de Hampstead. Ela o havia recebido em seu quarto, deitada em uma banheira como essa. Fingindo ignorar sua presença, exigiu que seus servos abrissem e examinasse as compras, enquanto ele esperava. Todo o tempo ela se banhava, lenta e languidamente, ocasionalmente olhando para ele com um olhar desafiador que o desafiava a reagir a sua nudez. Ele nada fez. Era descarado o suficiente aos dezesseis anos e não inexperiente, mas manteve seu corpo sob controle. No início, sua consternação e o choque o ajudaram. Seu conhecimento das mulheres consistia nas boas servas com quem se unia na forma de um jogo prazeroso. Instintivamente, sabia que esta mulher não era nada disso e que tentava induzi-lo para algo diferente do prazer. Mas, como continuou exibindo-se, era a raiva que o mantinha sob controle. Ele se afastou dela. Não gostava de jogar como um rato para essa mulher gato. Ele se ressentia dela usar a sua posição e grau para humilhálo. Finalmente, poderia dizer que ela ficou com raiva também. Ela se dirigiu a ele diretamente, e começou a renegociar o preço das mercadorias. Ela prosseguiu o assunto um longo tempo, recusando-se a pagar a conta aberta, exigindo sua atenção. Finalmente, ele teve que olhá-la, e quando o fez ela levantou uma perna para o lado da banheira e se expôs. Ele perdeu o controle em seguida, mas não da maneira que ela esperava. Deixou seu rosto mostrar o que pensava, mas não era o desejo que ela exigia. Ele olhou para ela e deixou-a ver a sua repugnância, antes de sair. Quase chegara à estrada antes que seus homens chegassem e o arrastassem de volta. Eles amarraram a um anel de metal situado no tronco de um carvalho no jardim. Antes que o chicote caísse, olhou por cima do ombro e viu seu cabelo cor de mel em uma janela. 67


— Você não se lembra de mim, — disse ele. — Mas então, houve uma série de nós, por que você se lembraria de um? Ao longo dos anos, eles haviam encontrado um ao outro, os meninos agora se tornaram homens os quais ela havia enredado em sua rede. O apetite doentio da mulher não era discutido abertamente, mas não era desconhecido. Era por isso que David Constantyn não permitia que seus aprendizes a atendessem ou entregassem as mercadorias. Mas ele era o único que não tinha jogado o jogo dela como ela queria, e assim o chicote desceu mais brutal nele do que para os outros, cujo único crime havia sido mostrar o desejo que ela exigiu e foram punidos enquanto ela observava da janela de seu pavilhão. Havia sido açoitado uma vez no Egito, mas essa foi a primeira vez que tinha marcado suas costas. Sua inocência infantil havia sido arrancada naquele dia. Ele olhou para ela, impassível, olhando-a estudá-lo intensamente. Desta vez, a centelha da memória segurou e seus olhos arderam com o reconhecimento. Seu olhar lentamente varreu o quarto enquanto calculava o seu perigo. Ela acalmou-se. — Você foi compensado — disse ela friamente. Sim, havia sido compensado. Quando cambaleou de volta para casa e seu mestre viu sua condição, o bom homem tinha feito o que nenhum outro mestre ou pai fizera antes. Indo a corte na cidade no dia seguinte, ele peticionou contra a mulher e obrigou o alcaide a resolver a questão. Depois de um longo tempo, o marido havia sido obrigado a pagar cinquenta libras. David se recusou a tocar no dinheiro. — Os outros não foram. Isso não é uma dívida que o dinheiro resolva de qualquer maneira. Ela olhou para ele com raiva antes de acalmar-se. Ela olhou para a cama e, em seguida, olhou para ele com uma pergunta.

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— Sim, isso também. Mas se você quiser essa adição, tenho outros termos. Irei estender os empréstimos em troca da mansão de Hampstead e da propriedade, e por uma hora de seu tempo. — As terras de Hampstead pertencem a mim não ao meu marido. Elas não estão penhoradas como garantia para qualquer empréstimo. — Sei que são suas. Em troca disso, no entanto, eu de fato perdoarei os empréstimos, sem justamente aumentá-los, — ele sorriu. — Veja quão bem você negocia? Já concedi muito mais do que havia planejado. Ele a viu pesando a ruína certa sobre a propriedade. Se cobrasse os empréstimos, ela teria que vendê-la de qualquer maneira. — Por que você quer que a casa? Por que não outra? Você irá queimála ou algo assim? — Não. Nós, os mercadores, somos pessoas muito práticas. Nós raramente destruímos propriedades. É uma casa muito bonita e eu admiro isso. Vou precisar de uma casa de campo perto de Londres em breve. Não guardo rancor contra uma residência. — E a hora do meu tempo? — Isso é por outra dívida. Você vai para um lugar que eu lhe disser. Lá um homem a açoitará exatamente como você assistiu os outros serem açoitados para o seu prazer. Dez chicotadas. Seus olhos se abriram chocados. Ele observou sua reação com alívio. Aqueles que obtinham prazer na dor, muitas vezes circulavam pelos dois lados, e não queria que ela obtivesse um prazer perverso com isso. — Não sabia que tínhamos muito em comum — ela finalmente disse. — Não temos nada em comum. Não vou estar lá, embora alguns dos outros possam estar. Eles serão informados e podem querer assistir. Eu exigiria que seu marido fizesse isto, como deveria há muito tempo, mas ele 69


sabe o que tem em você, e se ele começar, não vai conseguir parar. É a justiça que buscamos, não a vingança ou a satisfação do seu marido. Ela se levantou abruptamente da banheira. Saiu e começou a se secar. Seus movimentos apressados, mas sua ira gradualmente diminuindo, no entanto, a expressão em seu rosto mudou. Ele a viu considerando, calculando, planejando a negociação final que, se executada satisfatoriamente, poderia mudar tudo. Ele percebeu com surpresa que tinha perdido totalmente o interesse em levá-la a se humilhar ainda mais. Ele tirou uma pequena bolsa na parte frontal de seu gibão. Continha exatamente a diferença entre o valor dos empréstimos e a propriedade de Hampstead. Ele largou a bolsa em cima de suas vestes. — É o dinheiro que você procura, mas não um empréstimo. Seria um mau negócio. No entanto, sempre pago minhas prostitutas usando-as ou não. Ele caminhou até a porta. — Uma semana, portanto, senhora. O dia e o lugar serão enviados a você. Depois seu marido pode entrar em contato comigo sobre a liquidação dos empréstimos e à propriedade. A voz dela, dura e feia, rasgou através do aposento. — Haverá uma nova dívida para resolver depois, seu desgraçado filho de uma puta! Ele fez uma pausa. Justiça, não vingança, lembrou a si mesmo. Ainda assim... — Quinze chibatadas agora, minha senhora. As últimas cinco pelo insulto à minha mãe. **** Ele caminhou para fora através da solar e pelo corredor e saiu da casa. O céu estava nublado e uma leve neve estava caindo no momento em que 70


David controlou as rédeas de seu cavalo do lado de fora da taverna. À sua direita, ao longo das docas de Southwark, pequenas embarcações de todos os tipos balançavam. Na frente delas elevavam-se as pequenas casas onde as prostitutas de Stew exerciam sua profissão. Mesmo à noite, estas docas poderiam estar cheias, porque era desanimador atravessar o rio depois de escurecer em direção a cidade e era tradicional para essas mulheres que seus visitantes ficassem até de madrugada. A rude taverna estava escura e mofada como rio úmido. David deixou seus olhos se ajustarem e, em seguida, caminhou até uma mesa no canto. — Você está atrasado — disse o homem que estava sentado. David deslizou para o banco. — Oliver, você é o devasso mais pontual que já conheci. Oliver passou-lhe um copo de cerveja, bebeu um pouco do seu e limpou o bigode preto e a barba em sua manga. — Sou um homem muito ocupado, David. Tempo é dinheiro. — O tempo de suas mulheres é dinheiro, Oliver, não o seu. Como está Anne? Oliver deu de ombros. — Ela não gosta do inverno. As noites são longas demais em sua opinião. Ela provavelmente se moveria para Cock Lane em breve. Estava certamente fora dos muros da cidade e as mulheres de lá trabalhavam de forma diferente do que em Southwark. Mas lá, elas também tinham que lidar com as leis da cidade. Southwark ficava entre o Tâmisa e Londres, era uma cidade distante e quase sem lei. Ele olhou para o corpo magro do Oliver e os longos cabelos negros. Eles se conheciam desde a infância, quando tinham brincado e perambulado pelas ruas e becos juntos. Na ocasião, durante esses dias despreocupados, eles encontravam o perigo lado a lado. Mas, então, a

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pobre família de Oliver havia se movido até Hull e David tinha sido arrancado daquelas ruelas e enviado para a escola e o comércio. Eles se encontraram novamente quando Oliver retornou a Londres há vários anos. David reconheceu imediatamente que tinha encontrado um homem no qual podia confiar. Como Sieg, Oliver podia cometer ações criminosas, às vezes, mas ele vivia sob um código de lealdade e justiça que colocaria a maioria dos cavaleiros envergonhados. Desde então, eles tiveram novamente, em algumas ocasiões, encontrado o perigo lado a lado. A decisão de Anne de se tornar prostituta tinha sido simplesmente a mais fácil das várias opções disponíveis para eles quando chegaram de volta a Londres. Anne já havia decidido que as noites de inverno eram muito longas, quando eles se conheceram um pouco mais tarde. Ainda assim, ela provavelmente ganhava três vezes mais deitada do que ela e Oliver juntos através do trabalho honesto. Os pequenos trabalhos que ele fazia para ele e outros, pouco ajudavam. Ele se perguntava como explicaria Oliver e Anne para Christiana. A história de Sieg seria estranha o suficiente, quando finalmente ela percebesse que ele não era um criado comum. — Ele falou com você? — Perguntou Oliver. — Duas vezes. A última vez ainda esta manhã. — Eu o segui como você disse. Ele falou com o comandante de um navio ontem. Acho que ele vai velejar de volta em breve. — Ele vai precisar. Porém, espero que me procure mais uma vez e adie sua viagem até que eu vá falar com ele longamente. Ele sentiu meu distanciamento, e não conseguiu seus intentos. — Você acha que está definido, então? — Acho que sim. Recusei-o, mas deixei a porta aberta.

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Oliver balançou a cabeça. — Eu não estou convencido. Suas ações têm sido muito normais. Ele vai aos mercadores e a outros locais de negócios. Isso é tudo. — Sua oferta para mim tem sido sutil até agora, mas inconfundível. Ele parece ser um mercador, porque ele é um. Exceto pela carta de Edward e sua missão comigo, ele está aqui pelo comércio. Esse é o ponto. Sempre que vou para a França ou Flanders, vou pelo comércio, também. — ele esticou as pernas debaixo da mesa. — Falando nisso, diga a Albin que vou precisar me afastar por cerca de uma semana mais ou menos. — Fugindo do seu duelo? — Oliver perguntou com um sorriso. — Antes isso. Depois ele fala comigo, mas antes do meu casamento. Quero velejar ao longo da costa. — Você está atropelando as coisas, meu amigo, — Oliver disse, rindo. — Espere até depois do casamento com essa princesa. Arriscando a sorte, você pode encontrar-se preso numa maré ruim por uma semana e perder a cerimônia. Isso vai requerer explicações, eu garanto. David olhou para longe. Sieg tinha razão. Era um mau momento para se casar. Oliver estava certo também. Ele devia esperar até depois do casamento para navegar pela costa. Mas precisava ser feito em breve, e ele não tinha intenção de deixar Christiana depois que viesse até ele. Esta garota, e o crescente desejo que sentia por ela, estavam complicando as coisas. Seus olhos eram joias lapidadas cheios de reflexos brilhantes. Um homem podia perder sua alma em olhos assim. Por um lado, ele começou a perder o interesse pelos planos sutis e perigosos que havia projetado e nos quais Oliver desempenhava um papel. Ele finalmente admitiu a si mesmo enquanto cavalgava por aqui hoje, e havia ficado surpreso ao descobrir. Afinal, havia estado lentamente 73


plantando neste domínio em particular por quase dois anos. Um pedaço de informação aqui, um deslizamento deliberado acolá. Isto funcionava para pessoas como ele que eram rápidas em perceber os erros e fraquezas e também as potencialidades, e sabia que lidava com um homem muito parecido com ele mesmo. Na verdade, esse ponto em comum era um prazer por si só, e a justiça final seria muito mais satisfatória do que o contentamento afável que sentira hoje com Lady Catherine. Em vez disso, ele foi perdendo o interesse e até mesmo considerava cortar coisas, enquanto se aproximavam dos movimentos críticos. Seus próprios planos e os de Edward tornaram-se tão entrelaçados que ele ponderava longamente se seria possível desvincular um do outro. Ele mesmo considerava que essa coisa havia começado com Christiana. Ela o fazia pensar mais no futuro do que no passado. Ele já se sentia responsável por ela. Ele considerava frequentemente o que significaria para ela se no final, ele perdesse esse jogo. Havia mudado seu testamento para que ela pudesse ser uma viúva rica, se algo desse errado. Os fundos estariam em uma conta com os banqueiros florentinos também. Quando chegasse a hora, daria instruções a Sieg e a Oliver para levá-la para fora do país, caso se tornasse necessário. Mas tudo isso nunca iria compensá-la se ele falhasse. Seus gestos eram cheios de elegância e de decoro, as mãos e os bonitos braços bem angulados como uma dançarina. Era a maneira como ela se movia, que a fazia parecer frágil. Ela ainda esperava que seu amante viesse até ela. Nesse momento, ele não tinha dúvidas da sua determinação sobre isso. Stephen Percy. Saber o nome do homem e algo de seu caráter tinha sido fácil, mas o conhecimento só confirmou seus instintos iniciais de David sobre o caso. Christiana sofreria uma decepção. Seu coração se romperia logo, isso era evidente, mas quando ela iria enxergar a verdade por trás das ilusões? Duas semanas? Um mês? Nunca? A última possivelmente. O primeiro amor de uma garota podia ser uma 74


coisa cega, e ela estava convencida de que estava apaixonada por esse homem. Aceitar a verdade podia ser bastante improvável. Deus sabia que ele tinha visto isso antes. Consequentemente o jovem Percy não viria para ela. Então o quê? Um casamento cheio de frio dever? Ele esboçou um sorriso ante o pensamento. Sabia muito bem o que acontecia em tais uniões. Os homens encontravam amantes rapidamente ou passavam muitas noites com as prostitutas de Cock Lane. As mulheres mais honestas se apegavam à religião ou aos filhos. E as mulheres mais valentes e mais ousadas... Bem, elas finalmente encontravam seu caminho para as camas de homens como David de Abyndon. Ele sentiu seu corpo esguio e flexível contra o dele. Ele sentiu sua resposta, e seu receio por elas. Um tremor que correu dela para ele, e ele queria beijá-la repetidamente. Ele tinha experiência suficiente para reconhecer as possibilidades que os tremores tinham revelado. Mas, ele já havia sentido naquela noite em seu solar. Relembrando, viu seus olhos brilhantes, a pele pálida e a boca carnuda que não podia ver sem querer beijar. Imaginou-a caminhando em direção a ele, nua e convidativa, aquele belo rosto e a boca finalmente virando-se desejosamente para a sua. Mas, em seguida, sua imagem ficou nebulosa e escura, e o rosto de outra mulher o substituiu. Magro e cansado, este rosto era lindo demais, apesar de sua fadiga. Repousando sobre um travesseiro com o cabelo castanho dourado circundando-o como um halo, seus olhos estavam fechados, finalmente, pela decepção e desilusão. A imagem sumiu e ele podia ver todo o aposento com suas velas tremeluzentes e os lençóis brancos na cama. Roupas penduradas em pinos ao longo de uma parede e um fogo ardendo na lareira. E sentado na cama, com a cabeça grisalha enterrada naquele peito sem vida, inclinava-se a figura angustiada de David Constantyn. 75


Ele não tinha percebido até então, o quanto o homem a tinha amado. À noite, quando a casa estava escura, ele ia até ela? Será que ela ia até ele? Será que ela havia dormido com ele? Deus, esperava que sim. Ele firmemente deixara de lado a consideração dos riscos que nada significara antes de conhecer Christiana. Para ambos, então, ele pensou. — Se você recusar este mercador, você acha que outros virão? — Perguntou Oliver. — Ele virá, — disse David. — Eu viria. Mantenha seus ouvidos e os de seus ouvintes abertos, Oliver. Não apenas por isto, incidentalmente. Fique em torno das tabernas dos peregrinos. Eu procuro notícias de Northumberland. — Qualquer notícia? — Há um cavaleiro chamado Stephen Percy. Se ele vier para Westminster, quero saber de imediato. Ou se você ouvir alguma coisa sobre essa família. Oliver levantou uma sobrancelha. — E se este homem vier? David viu o olhar e soube imediatamente que Sieg já havia falado para Oliver sobre o interesse dele por Sir Stephen. Sem dúvida, eles adivinharam que tinha algo a ver com Christiana. Lembrou-se da oferta de Sieg para lidar com Morvan, e sabia que Oliver estava fazendo a mesma sugestão agora. Não estava em sua natureza fazer tais coisas, mas pela amizade por ele, iria fazê-las de qualquer maneira. Sua lealdade podia ser pesada às vezes. Ele tinha bastante dificuldade em lutar contra suas próprias inclinações, sem ter que se preocupar com as almas dos homens que o serviam. Ele pensou sobre a sua promessa de se afastar. Tinha tido um momento de fraqueza, enquanto olhava para um lindo rosto. Seu olho para a beleza o levou de um mau negócio a outro, às vezes, especialmente quando negociava por algo que queria manter para si mesmo. Felizmente, 76


Percy poderia não voltar e testar sua honestidade a essa promessa. A despeito de tudo... — Apenas deixe-me saber, — disse ele. — Decidirei depois.

Capítulo 5 Christiana manteve-se firme em sua decisão de não ficar sozinha novamente com David. Na seguinte segunda-feira, ela insistiu que eles se sentassem no jardim onde lady Idonia apenas apareceu e se juntou a eles. Foi uma visita agradável, pois ele as entreteve com histórias de suas 77


viagens. Durante o jantar, alguns dias depois, Sir Walter Manny parou na mesa dela. Sir Walter era um dos homens da Rainha da terra natal de Philippa de Hainaut. Durante a conversa, ele mencionou que conhecia David e que até o apresentara ao Rei, há dois anos, quando Edward tinha uma carta para o alcaide de Ghent e David estava planejando uma viagem para Flandres. — Você está dizendo que David entregou a carta do Rei? — Ela perguntou. — Isso é feito o todo tempo, minha senhora. Por que enviar um mensageiro se um mercador de confiança vai fazer a viagem? Às vezes, é até melhor assim, especialmente se você não quer chamar atenção para a mensagem. Por exemplo, todo mundo sabe que há, atualmente, um mercador flamengo em Westminster, que é partidário da aliança francesa do conde de Flandres, ao contrário de seus companheiros burgueses que apoiam a Inglaterra. Nós apenas supomos que ele poderia ter trazido uma carta particular do Conde ao nosso Rei. A troca formal seria estranha já que são adversários, mas as negociações ainda ocorrem. — ele examinou o salão e o apontou. — Lá está ele junto a lady Catherine. Seu nome é Frans van Horlst. Christiana olhou para onde um homem de cabelos grisalhos adulava Catherine. Era o seu “diplomata”, aquele que tinha visto falar com David na primeira terça-feira após o noivado. E então, no canto de sua mente surgiu outra memória, a primeira vez que tinha visto o homem no corredor privado do Rei. Duas vozes falando francês parisiense. Uma suave e baixa e quase um sussurro. David? A voz estava muito baixa para ter certeza. Ele conhecia o Rei bem o suficiente para pedir a filha de Hugh Fitzwaryn, e ainda assim ninguém nunca o tinha visto na corte. O acesso dessa passagem privada podia explicar essa contradição. Seria David lá naquele dia? Se fosse ele que estava com o Rei porque entrava e saía por esse caminho especial? E o que Frans van Horlst queria dele? — Você sabe se David ainda executa tais favores para o Rei? 78


Sir Walter deu de ombros. — Eu sugeri a ele uma vez e apresentei-os. Se o relacionamento continuou, não posso dizer. — Como você chegou a conhecer o meu noivo? Sir Walter sorriu e inclinou a cabeça loura de uma forma conspiratória — Você já deve saber que ele é um talentoso músico? Aprendeu sozinho, também. Ela assentiu respeitosamente, embora não soubesse nada sobre isso. — Nós dois pertencemos ao Pui — confidenciou. O Pui era uma das muitas fraternidades secretas em Londres. A única coisa verdadeiramente secreta sobre ela era a data e o local de suas reuniões anuais. Além de beberem a noite toda, os homens da Pui cantavam músicas da própria autoria, e uma das músicas era escolhida para ser “coroada” — Às vezes, quando um bardo entoava uma nova canção, podia-se ouvir referências a ela como sendo da Pui. — Será que ele tocou o alaúde para você? Seu instrumento preferido é a antiga harpa celta que ele tem, mas que, muitas vezes, não condiz com as músicas e por isso ele teve que aprender o alaúde. Ainda assim, há dois anos, ele me tirou a coroa, e ainda juro que foi só por causa da novidade sobre a maldita harpa — disse Walter. Repentinamente, Christiana pensou na maneira perfeita de não ficar exatamente a sós com David na próxima segunda-feira. Ela confessou que seu querido noivo nunca teve a chance de tocar para ela. Será que Sir Walter estaria disposto a ajudar a resolver essa situação? Quando David chegou segunda-feira de manhã, ela o cumprimentou alegremente. Até mesmo sorriu quando ele a beijou.

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— Mandei selar um cavalo para você, — disse ele. — Vamos para a minha casa para o jantar. Você deve conhecer os servos, e os garotos precisam conhecê-la. A última coisa que queria era ir para a casa dele e conhecer as pessoas envolvidas em sua vida. Eles a cumprimentariam como sua futura esposa, enquanto sabia que nunca iria vê-los novamente. — Vamos sair pelo corredor, — sugeriu ela. — Preciso verificar se Morvan está lá. Tenho algo para lhe dizer. Claro que Morvan não estava lá como ela bem sabia. Mas Sir Walter estava sentado em um canto rodeado por sete jovens. Ele, valentemente, cantava uma canção de amor enquanto tocava seu alaúde, erguendo as sobrancelhas comicamente nas partes mais românticas. As meninas riam de suas expressões exageradas. — David — ele chamou, interrompendo seu canto enquanto atravessavam o corredor. — Walter, — David cumprimentou-o calorosamente. Ele olhou para as meninas sentadas no chão. — Vejo que você está vivendo a fantasia de um inglês. As garotas se viraram e o avaliaram. Christiana assistiu-as reagir ao seu belo rosto. Elas eram todas solteiras e jovens como ela. — Estou experimentando um novo alaúde, — explicou Walter, segurando o instrumento. Ele gesticulou para o outro no banco ao lado dele. — Mas acho que prefiro o antigo. — É sempre assim no começo — disse David. Ele pegou o braço de Christiana e começou a guiá-la. Christiana olhou para Walter.

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— Vamos ver como eles soam juntos, David — Walter disse rapidamente. As meninas bateram palmas em incentivo. David olhou para Walter. Ele olhou para o segundo alaúde. Ele olhou para Christiana. Ela sorriu e tentou fazer sua expressão brilhar como a de Joan. Ela deixou seus olhos implorarem um pouco. Com um suspiro de resignação, ele passou pelas garotas e sentou-se ao lado de Walter, tomando o alaúde em seu colo. Walter murmurou alguma coisa e os dois começaram a tocar uma música sobre a primavera. Eles tocaram um longo tempo, até que o salão começou a encher para o jantar. Sempre que David tentava terminar, as meninas reclamavam e o persuadiam a continuar. Chegou um momento em que Christiana podia dizer que ele havia desistido, que sabia que estava preso pelo tempo. Depois disso, ele ainda se divertiu, trocando piadas com Walter e, finalmente, cantando uma canção dele. Era uma canção de amor que ela nunca havia ouvido antes. A melodia era lírica e lenta e um pouco triste. Christiana fechou os olhos e sentiu sua própria tristeza agitando-se por causa da música. Seus pensamentos se voltaram para Stephen e a melancolia aumentou. Ela perdeu a noção das próximas canções enquanto a preocupação invadia seu coração. Em seguida, as meninas se moveram em torno dela e ela se tornou alerta novamente. O grupo alegre se dispersou e Walter insistiu que David jantasse com ele. David aceitou e, em seguida, ajudou-a a ficar em pé. Rapidamente, ele olhou para ela, sorriu e balançou a cabeça divertido. Eles não iriam a casa 81


dele. Ela não conheceria as pessoas de lá. E o mais importante: eles não ficaram sozinhos durante todo o dia. Quando finalmente voltou para o aposento de Isabele, Idonia e Joan haviam retornado e, por isso, seu beijo de despedida foi tão leve e discreto como sua saudação. **** Christiana saiu do vestido de casamento rosa com nuances de prata e o entregou a modista que habilmente conseguiu não vê-la em pé ao se mover. Esse negócio de casamento fazia maravilhas ao guarda-roupa de uma garota. Ela não podia se sentir entusiasmada com esta nova peça, no entanto. O custo a fez sentir-se culpada, porque sabia que nunca seria usado. Seria de extremo mau gosto fugir com Stephen, em desafio a Rainha, ainda mais levando uma roupa que a Rainha havia comprado. Embora, o que realmente a incomodava sobre este vestido era o seu progresso inexorável em direção à conclusão. Estes acessórios se tornaram uma lembrança indesejada e inevitável de que o tempo estava passando rápido demais. Metade das cinco semanas se passou, e ela ainda não tivera uma palavra de Stephen Percy. Uma serva a ajudou com sua túnica roxa clara e o manto azul. Ela mandou a mulher sair para se encontrar com Joan enquanto calçava suas botas baixas. Era sexta-feira, quase três semanas desde o noivado, e ela se encontraria com David nesta tarde em vez da próxima segunda-feira, porque ele estaria fora da cidade, a seguir. Eles iriam para a feira de cavalos e corridas em Smithfield, o que ela achava que poderia ser divertido. Antes de eles chegarem lá, no entanto, ela tinha uma coisa ou duas para dizer a Mestre David de Abyndon. David entrou em Westminster ladeado por Sieg e Andrew. 82


Sieg estava franzindo a testa. — Agora, se a bonita jovem Joan aparecer com ela, eu parto e Andrew fica, — disse ele. — Mas se a peste do inferno, aquela lady Idonia, aparecer, será o contrário. — Temo que sim, Sieg — disse David. À sua esquerda, Andrew sorriu. Sieg franziu a testa um pouco mais. — E quem ficar tem que distrair a outra mulher, para que não fique no caminho. David assentiu com a cabeça. Ele tinha usado a própria mentira de Christiana sobre a Rainha insistindo que as meninas não deviam ficar a sós com homens para explicar sua necessidade de Sieg e Andrew hoje. Ele tinha quase trinta anos, mas essa garota lhe tinha reduzido aos jogos que havia desistido desde os dezoito anos. Ela havia evitado ficar sozinha com ele desde a primeira terça-feira e foi muito inteligente sobre o assunto. Ele havia se divertido e não se irritado, mas desde que estava fascinado por ela, provavelmente, desculparia qualquer coisa. Essa atração mútua simplesmente não se encaixava em seus planos. Sua resposta ao seu beijo e abraço tinha assustado-a. Ela se mostrou confusa e inexperiente como uma virgem intocada. Esse efeito de inocência o havia encantado, quase tanto quanto a sua paixão rápida o inflamou. Ele poderia evitar este jogo. Eventualmente e na verdade, em breve, ela seria dele. Mas ele encontrou-se imaginando aqueles olhos e provando aqueles lábios em sua memória com demasiada frequência até um completo retraimento. Além disso, não queria que ela reconstruísse suas defesas também. Ele não gostava da ideia de ter que escolher entre a concordância ou o estupro em sua noite de núpcias. — Acho que o problema é, — Sieg continuou — E se lady Idonia não puder ser distraída? Ela é como uma leoa protegendo seus filhotes.

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— Que inferno! Sieg, você tem três vezes o tamanho dela, pelo amor de Deus, — Andrew murmurou. — É só pegá-la debaixo do braço e desaparecer com ela. A carranca de Sieg desapareceu. — Jo? Eu faria exatamente isso na minha terra, claro, mas pensei que aqui na Inglaterra... — Andrew está brincando, Sieg. A carranca retornando. — Oh. Ja. David tinha concordado em se encontrar com Christiana no pátio de trás. Ela e Joan estavam em dois cavalos detidos por moços de quadra. Sieg virou o cavalo para longe e David escorregou algumas moedas para um Andrew encantado. — Mantenha lady Joan ocupada nas corridas e nas barracas. Os moços de quadra ajudaram as meninas a montarem. Christiana olhou significativamente na direção de Andrew. — Ele vai cavalgar com a gente. Ele precisa ver um homem na feira por mim — explicou David. Ela pareceu aceitar isso, e eles montaram juntos em silêncio. No momento em que chegaram a Strand, Joan e Andrew estavam a quase quatro comprimentos de cavalo à frente e Christiana não pareceu se importar. — As pessoas estão falando sobre você — disse ela, finalmente. David teve a impressão de que ela havia esperado exatamente pelo momento em que Joan estivesse muito longe para ouvir o que dissesse. — As pessoas? — A corte. Falando sobre você. Nós. Tudo.

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— Isso seria inevitável, Christiana. — Não sobre essas coisas. Não era certo que seriam comentadas, uma vez que são muito incomuns. — Você não precisa dar ouvidos as fofocas da corte. Vou lhe dizer qualquer coisa que queira saber. Ela ergueu as sobrancelhas. — Vai mesmo? Bem, em primeiro lugar, algumas senhoras me falaram sobre você. Disseram-me o quanto você é maravilhoso. — Que senhoras? — Ele perguntou com cautela. — Lady Elizabeth é uma delas. Isso o surpreendeu. Ele e Elizabeth tinham uma velha amizade, mas não era o seu estilo interferir em tais assuntos. — Sinto-me honrado se lady Elizabeth fala bem de mim. — E Alicia. Inferno. O rosto de Christiana era uma imagem de indiferença cuidadosa. — Você é amante de Lady Alicia? — Ela disse isso? — Não. Havia algo na maneira como ela falou, no entanto. Quando ele se ofereceu para lhe dizer qualquer coisa, isso não era o que tinha em mente. — Não acho que queremos prosseguir com isso, não é? Eu não a pressiono com os nomes de seus amantes. Você não deve me perguntar sobre as minhas. Ela se virou abruptamente para ele. — Amantes! Como ousa sugerir que eu tenha tido amantes! Disse a você sobre um único homem.

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— Você me disse de um homem atual. Pode ter havido outros, mas como eu disse, tenho a mente aberta e não pergunto. — É claro que não houve outros! — Não há nenhuma certeza sobre isto. Mas isto não importa, — Sorriu interiormente pela sua consternação. — Christiana, eu tenho quase trinta anos e não tenho sido um monge. Não pretendo ser infiel a você. No entanto, se o nosso casamento for frio, imagino que vou fazer o que os homens sempre fizeram, ou seja, encontrar calor em outro lugar. Ele tinha deliberadamente abordado um tema que ela não gostaria de falar. Como esperava, ela não tinha resposta. Bom para lady Alicia. Ela iria mudar de assunto agora. Ele esperou. — Isso foi tudo o que ouvi — disse ela. — De alguma forma eu achava que sim. Suas pálpebras baixaram. — Você me comprou? Ele tinha estado se perguntando quando ela iria ouvir isto. — Não. — Não? Ouvi dizer que Edward exigiu um dote. Um grande. Morvan disse que é verdade. Ele estava esperando por isso. Ele estava pronto. — O preço de uma noiva não é o mesmo que comprar alguém. O preço de uma noiva é uma antiga tradição na Inglaterra. As mulheres eram homenageadas assim, nos velhos tempos. Com dotes, a mulher é secundária a propriedade referida. É como se a família pagasse alguém para tirá-la de suas mãos. Se você pensar sobre isso, dotes são muito mais ofensivos do que o preço de uma noiva. — Então é verdade?

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Ele escolheu as palavras com cuidado. Se ela descobrisse a verdade daqui a vinte anos, queria ser capaz de dizer que não havia mentido. — Seu irmão viu o contrato, como você vai ver em breve. Não há como negar que há um preço de noiva no mesmo. — E, em vez de me sentir insultada, você diz que eu deveria me sentir honrada. — Absolutamente. Você preferiria que o Rei tivesse oferecido você para mim? — Eu preferiria que o Rei tivesse continuado esquecendo que existo — ela retrucou. Eles cavalgaram em silêncio por um minuto. — Quão grande é isso? Esse honroso preço de noiva? — Ela finalmente perguntou. Bem, Morvan não tinha dito a ela. Ela veria o contrato em breve. David pensou na fórmula complicada que continha. — Você é boa com cifras? — Ele perguntou casualmente. — Excelente. Ela seria. — Mil libras. Ela parou o cavalo e ficou boquiaberta. — Mil libras! A renda de um conde? Por quê? — Edward não quis saber de menos. Garanto que barganhei muito. Pessoalmente, achei que trezentos seria generoso. Seus olhos se estreitaram com desconfiança. — Morvan está certo. Esse casamento nunca fez qualquer sentido. Agora, menos ainda. — Você não vale mil libras?

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— Você deve ter bebido quando fez essa oferta. Você, sem dúvida, vai ficar aliviado quando eu liberá-lo. — Ele veio, então? Ela ignorou o comentário. — Vai ser bom para a sua saúde também que eu vá terminar com esse noivado em breve. Ouvi sobre a ameaça do meu irmão para você. — Ah. Isso. — Quarta-feira, eles dizem. — Na verdade, quinta-feira, — ele corrigiu calmamente. — Será que o seu irmão sabe que você já ouviu falar disso? — Claro. Fui até ele e disse que isso não pode acontecer. — Sua preocupação me comove. — Sim. Bem, ele não quis me ouvir. Mas, é claro, você não vai encontra-lo. — É claro que vou. Ela parou seu cavalo novamente. Joan e Andrew estavam bem distantes agora. — Você não pode estar falando sério. — Que escolha tenho? — Você não estará na cidade na segunda-feira. Você não pode estender sua viagem? — Eventualmente, devo voltar. — Oh, Deus — ela franziu o cenho com irritação. Ele olhou para a testa muito enrugada. — Ele não vai me matar. 88


— Oh, não é isso, — ela respondeu com honestidade implacável. — Isso só faz a situação confusa mais confusa. Primeiro um duelo, em seguida, um rapto, em seguida, a anulação... Bem, tudo isso vai ser um escândalo terrível. — Talvez alguém escreva uma canção sobre isso. — Isso não é engraçado, David. Você realmente deve se retirar ou ficar longe. A espada de Morvan não é motivo para piadas. Ele pode não matá-lo, mas poderá machucá-lo muito. — Sim. Mil libras é uma coisa. Um braço ou uma perna, é outra. Certamente espero que você valha a pena. — Como é que pode brincar? — Não estou brincando. Mas deixe que eu me preocupe com Morvan, minha senhora. Existem outros boatos e fofocas que você queira discutir? Eles se aproximaram da cidade e começaram a circular o muro em direção ao norte. — Sim. Nem todas as mulheres sabem que você é tão afável. Lady Catherine falou comigo. E com Morvan. David esperou. Ele não podia saber que história lady Catherine havia contado a eles. — Ela me disse que você é um agiota — Christiana disse em voz baixa, como se não quisesse ser ouvida pelos cavaleiros que passavam. Ele quase riu de sua circunspecção. A garota vivia em um mundo que não existia mais, cheio de cavaleiros virtuosos e dever de honra, histórias de mesa redonda do Rei Arthur. O Rei Edward cuidadosamente alimentava essas ilusões em sua corte com seus desfiles, festivais e torneios. A milhas de distância, fora dos portões de Londres, os tempos mudavam. — É verdade. A maioria dos mercadores empresta dinheiro. 89


— A usura é um pecado. — Talvez sim, mas emprestar dinheiro é um negócio. É amplamente feito, Christiana, e ninguém pensa duas vezes sobre isso. A Inglaterra não poderia sobreviver sem isso. Um dos meus empréstimos pecaminosos é para o Rei por exigência dele. Outros dois são para abadias. — Então você apenas empresta ao Rei e as abadias? — Com outros, compro a propriedade e revendo isto mais tarde em um tempo e preço acordados. — Com lucro? — Por que mais faria isso? Não tenho nenhum parentesco ou amizade com essas pessoas. No entanto, muitas vezes, quando vendo de volta, a minha gestão melhorou a renda, por isso, talvez, o lucro seja deles. — Quando o prazo termina, o que acontece se eles não podem comprar novamente? Ele estava tentando dar uma fachada melhor a isso para o bem dela, e ele amaldiçoou agora. Havia jurado que não daria desculpas para esta garota por ser o que ele era. — Eu vendo em outro lugar, — disse ele sem rodeios. Ela meditou por algum tempo. — Por que não mantém? Não era o argumento que ele esperava. Ele pensou que ela iria criticálo por sua maldade e clamar apelos sentimentais para os pobres mutuários. — Não mantenho por causa dos malditos decretos do Rei Edward que ditam que qualquer homem com renda derivada de propriedades superior a quarenta libras por ano, tem que ser cavaleiro. Ele quase me pegou duas vezes.

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— O que você quer dizer com “te pegou”? Ser um cavaleiro é uma coisa maravilhosa. Eles são mais respeitados do que os mercadores, e de grau mais elevado. Você elevaria sua posição se fosse um cavaleiro. Ela disse de forma simples e inocente, afirmando um fato básico da vida. Ela era indiferente ao insulto e por isso ele preferiu ignorá-lo. No momento. — Bem, sou um mercador e estou satisfeito com isso. Alguém poderia pensar que ele disse que preferia ser o diabo a um santo. — Você quer dizer isso, não é? — Ela perguntou curiosa. — Você realmente não quer ser um cavaleiro. — Ninguém quer, Christiana, exceto aqueles que nasceram para isso. Mesmo esses, muitas vezes, evitam. É por isso que Edward proclama esses decretos. O reino não tem cavaleiros suficientes para as suas ambições. A posição tem cada vez menos apelo, então Edward aposta no cavalheirismo e eleva mais os cavaleiros para compensar, — ele fez uma pausa. Ele iria se casar com essa garota. Tentaria explicar. — Isto não é covardia ou medo de armas. Todos os cidadãos de Londres juram proteger a cidade e o reino. Precisamos praticar com armas próprias e possuir uma armadura que pudermos pagar. Eu tenho uma maldita armadura de metal. Defendemos nossa cidade e enviamos tropas para as guerras de Edward. Muitos aprendizes são excelentes arqueiros e Andrew chegou a dominar o arco. Mas se você pensar sobre a vida militar, honestamente, tem pouco a oferecer. — É uma vida gloriosa! Cheia de honra e poder. — É uma vida de assassinato, menina! Por boas causas ou ganho pessoal, em honra ou em morte, cavaleiros vivem para matar. No final, apesar de todas as palavras bonitas nas músicas, é o que eles fazem. Suas guerras perturbam o comércio, arruínam a agricultura, queimam cidades e aldeias. Quando saem vitoriosos estupram e roubam tudo o que possam carregar.

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Ele tinha perdido a paciência e este discurso simplesmente serviu para extravasar. Ela olhou para ele como se a tivesse esbofeteado, e ele lamentou a explosão. Ela era jovem e tinha vivido uma vida protegida. Não devia surpreender-lhe que nunca tivesse questionado o pequeno mundo protegido no qual vivia. Havia sido muito duro com ela. Foi o pai e o irmão dela, a quem ele descreveu, afinal. — Não tenho dúvidas de que ainda existam muitos cavaleiros que são fiéis à sua honra e seus votos, — disse ele como se oferecesse paz. — Dizem que o seu irmão é um deles. Isto parecia libertá-la da realidade brutal que havia jogado sobre ela. — Será que lady Catherine disse mais alguma coisa que a preocupa? — Não para mim. Ela disse que contou a Morvan algo importante. Ele disse que não era nada de importância, e em seguida, me instruiu para não ser amiga dela. — Bom conselho, Christiana. Não quero que você tenha alguma coisa a ver com essa mulher. — Acho que sou madura o suficiente para escolher meus próprios amigos. — Não esta. Quando nos casarmos, você deve evitá-la. Sua irritação com ele era visível, mas segurou a língua. Ela voltou sua atenção para a estrada quando se aproximaram de Smithfield.

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Capítulo 6 Smithfield estava situada no muro norte de Londres. Ao redor da periferia da área de corrida, os negociantes de cavalos tinham seus animais amarrados e animada barganha estava em andamento. Os compradores, muitas vezes pediam para ver o cavalo correr antes de comprar, e foi assim que as corridas informais tinham se desenvolvido. As multidões atraídas para este espetáculo, por sua vez, atraíram os vendedores ambulantes, vendedores de comida e artistas, e assim, a cada sexta-feira, Smithfield, o local do mercado de gado de Londres, foi transformado em um local de festival. Eles encontraram um homem com quem deixar os cavalos e mergulharam na multidão. Andrew guiou imediatamente Joan em uma direção oposta. Christiana, pensativa ainda sobre sua discussão, nem percebeu. Ela caminhou com as mãos e os braços sob o seu manto, com o rosto pálido corado por causa do frio. — Vamos olhar os cavalos, — disse David. — Você vai precisar de um quando deixar o castelo. — Não quero que você me compre um cavalo, David. — Você não usará os estábulos reais após o casamento. Nós vamos encontrar um cavalo adequado hoje. — Depois que me casar, não vou montar seu cavalo adequado, já que não vou me casar com você. — Então, eu vou vendê-lo. Por conveniência, vamos ver se há um, enquanto você está aqui para escolher. Apenas no caso. Ela suprimiu o desejo de permanecer teimando e andaram lado a lado enquanto examinavam os animais. Enquanto caminhavam ao redor do campo, examinando e discutindo os cavalos, encontraram várias 93


possibilidades. No final do seu circuito depararam com um cavalo mais adequado, uma bela e pequena égua preta. O proprietário providenciou uma sela, e Christiana a testou. Enquanto David chegava a um acordo com o homem e combinava a entrega nos estábulos de Westminster, ela esquadrinhou a multidão para detectar sinais de Joan e Andrew que estavam ausentes há algum tempo. O campo era muito grande e apinhado para que ela os encontrasse. Exatamente como se Joan tivesse esquecido a razão para vir, em primeiro lugar. Um domador de ursos e alguns dançarinos chegaram para entreter. Christiana não tinha interesse no urso, mas os bailarinos a fascinavam. Na corte, ela tentava nunca perder dançarinos de qualquer estilo. Este grupo era bastante rústico e inferior em relação aos outros que havia visto, mas ainda assim, seguiu seus movimentos com a música simples por um longo tempo. Uma parte dela invejava essas mulheres a quem era permitido deixar a música entrar nelas, cujos corpos balançavam, curvavam e se inclinavam como imagens em movimento. — Eu teria gostado de ser uma bailarina. — Você dança em banquetes e festas, não é verdade? — Perguntou David. Ela corou. Não tinha percebido que havia falado em voz alta. — Sim. Mas é diferente. É como uma conversa de jantar, — ela apontou para as mulheres. — Desse jeito é como uma meditação, eu acho. Às vezes, vejo alguém que parece estar em êxtase, que nem sequer está consciente do mundo além da dança. Ela sentiu seu olhar e desviou os olhos da apresentação para olhar para ele. Seu rosto tinha a expressão penetrante que lhe dirigia às vezes. Havia algo invasivo sobre essa focada consciência, e isto nunca deixava de tornála desconfortável. É como se eu fosse feita de vidro, ela pensou. Não era justo que ele pudesse fazer isso. Ele sabia como manter-se sempre opaco para ela.

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— Acho que você seria uma bela dançarina, — disse ele. — Se acha que a dança poderá lhe dar prazer, então você deve dançar. Finalmente, os dançarinos fizeram uma pausa e a multidão dispersou. — Devemos encontrar Joan — disse ela, olhando para a multidão. — Tenho certeza de que vamos nos cruzar no caminho. Se não, vamos nos encontrar nos cavalos. Ela se juntou a ele e eles examinaram as mercadorias que os vendedores vendiam. Ela se perguntou o que Joan estaria fazendo com o aprendiz, e o que lady Idonia diria se descobrisse que Christiana a tinha perdido de vista. Um dos vendedores oferecia salgados fritos de pão mergulhado no mel. O cheiro vindo do óleo quente era delicioso, e ela olhou ansiosamente enquanto caminhavam por perto. Era uma mistura de alimentos e exatamente o tipo de coisa que lady Idonia nunca a deixava comprar quando iam aos festivais. David percebeu e saiu para comprar alguns. — Certamente isso manchará a minha roupa — disse ela, repetindo a razão que Idonia sempre dava para evitar tais alimentos. — Vamos dar um jeito. Ele pegou um dos petiscos pastosos, e fez um gesto para que ela o seguisse atrás da tenda e de algumas árvores. Os vendedores beiravam a multidão e o campo, e não havia ninguém ali. Ele partiu um pedaço de pão de mel coberto e lhe estendeu. Ela estendeu a mão para ele, mas ele a afastou. — Não há nenhuma razão para que nós dois fiquemos cobertos disso — ele disse, e colocou a massa perto de seus lábios. Cheirava quente e fermentado, doce e maravilhoso. Arreganhando os dentes para evitar os 95


dedos que seguravam, ela esticou o pescoço para frente e pegou o pedaço na boca. Tinha um sabor celestial e ela revirou os olhos de prazer. Ele riu e quebrou outro pequeno pedaço. Ela se esticou para ele. — Eu devo parecer uma galinha — ela riu com a boca cheia. Aqueles dedos longos a alimentaram novamente. Ela sentiu um pouco de mel escorrendo pelo lábio e lambeu para pegá-lo. Ele gentilmente afastou a ponta de seu dedo roçando à beira de sua boca. Seu lábio inferior tremeu com a sensação, e seu rosto e pescoço formigaram. O último pedaço era muito grande e ela teve que morder. Seus dentes beliscaram as pontas dos dedos e ela corou, sem jeito, consciente do contato. Ele ainda estendeu o resto, e seu olhar ficou nessa mão linda enquanto mastigava rapidamente e, em seguida, hesitante tomou o último pedaço. Sua mão não se afastou dessa vez, mas seguiu a cabeça dela para trás. As pontas dos dedos roçaram os lábios e descansaram lá. A massa de repente ficou muito grossa em sua boca. Ela olhou para o rosto dele e viu a leve dureza em torno de sua boca. Suas pálpebras baixaram, enquanto observava seus lábios se moverem debaixo de sua mão. Um silêncio estranho desceu e ela engoliu o último pedaço da massa doce com dificuldade. Com um movimento deliberado e olhos atentos, ele passou o dedo em torno da borda de sua boca, recolhendo o mel errante, e depois limpou a doçura em seus lábios. Ela teve uma vontade súbita e chocante de lamber o último resquício de mel daqueles dedos. Ele olhou nos olhos dela como se entendesse. Um por um, ele limpou os dedos em sua boca como um repetido convite a seu impulso, mergulhando o restante pegajoso em seus lábios. O gesto a hipnotizava. Os sons do campo e corridas recuaram para um rugido distante. No pesado silêncio que tomou conta dela, podia ouvir seu

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coração bater mais forte com a pressão leve da pequena carícia. A intensidade excitante que sempre sentia nele se espalhou em torno dela. Ele olhou para ela por um longo momento quando terminou. Então, de repente, pegou a mão dela e a empurrou de volta para trás das árvores. Ela tropeçou atrás dele, sem realmente cooperar, mas não resistindo completamente. Sua respiração se acelerou quando eles deixaram o santuário do campo. Ela disse a si mesma que não queria isso, que não gostaria de ir com ele, mas foi assim mesmo. Ele a arrastou para trás de um grande carvalho. Com o braço em volta dos ombros, ele a puxou para um abraço. O outro braço deslizou sob seu manto e em torno de sua cintura, pressionando seu corpo contra o dele quando a beijou. Essas novas sensações que haviam escapado dela tão insidiosamente da última vez, de repente, explodiram de uma vez. Era como se tivessem estado cuidadosamente encurralados por duas semanas, mas agora ele abrira a porta e os agitava num frenesi. A intimidade do abraço era excitante, e um tremor ruidoso cheio de agudos espinhos sensuais a sacudiu do pescoço até as coxas. Ele suavizou o beijo e começou a morder e lamber o mel dos lábios de uma maneira calma, puxando-a ainda mais para perto dele. Ela ficou muito alerta, mas apenas dele e de cada toque de calor na sua boca. A consciência de tudo mais se esmaeceu sob as impressionantes ondas lentas e o estreito calor que percorria mais e mais através de seu corpo. Sua língua roçou contra seus lábios, convidando-a a se abrir para ele. Com um fio de razão que ainda restava, ela manteve sua boca firmemente fechada. Ele sorriu, antes de passar a boca mais abaixo. Será que ela deliberadamente jogara a cabeça para trás para que ele pudesse chegar a cavidade na base de seu pescoço? Ela não sabia ao certo, mas sua boca estava lá e, de repente, seus braços subiram ao redor dos ombros deles, e as duas mãos dele a seguravam sob seu manto, inclinandoa para seus beijos. Ela ficou bastante consciente de cada toque, cada beijo, cada estranha reação maravilhosa que sentia. Seus braços erguidos a trouxeram mais perto, e através do tecido fino de sua roupa, ela podia sentir 97


seus músculos e calor formigar em seus seios. A pressão de suas mãos ao redor dela era perigosa e reconfortante. Sua consciência tornou-se cheia de outra coisa também, algo comandado e expectante e conectado à tensão oca que se espalhou através de seu ventre. Foram essas sensações requintadas que a impediram de pará-lo. Vagamente, sua mente considerou que ele estava atraindo-a para algo que ela realmente não entendia. Ele a beijou na boca novamente, e suas mãos se moveram. Lentamente, suavemente, ele acariciou acima e abaixo sob seu manto, seus dedos alargando-se em torno das ondas exteriores de seus seios. Chocante, com insistência, eles se moveram para baixo de suas costas e sobre as nádegas e acima dos quadris. O aperto na barriga doía e em algum lugar dentro dela batia uma demanda latejante. Uma mão ficou nos quadris, mas a outra subiu. Ela sabia o que ele ia fazer. Lembrou-se de aperto esmagador de Stephen e se tencionou, quase encontrando seus sentidos, quase encontrando forças para afastá-lo. Mas ele não a esmagou. Seus dedos acariciavam as laterais de seus seios de uma maneira suave, delicada, atormentando-a a uma antecipação excruciante que ela não sabia o que era. Sua respiração se acelerou a uma série de suspiros curtos enquanto todo o seu corpo esperava. Quando ele finalmente acariciou um seio, ela conteve um gemido. O prazer a assustou. Ela tentou se afastar. Ele não a deixaria ir. Beijando-a muito, acariciando-a suavemente, ele incitou deliciosos sentimentos. Seus dedos tocaram-na como se não houvesse um tecido entre ele e a pele dela, encontrou um mamilo e brincou com ele até que a latejante sensação debaixo de suas coxas tornou-se quase insuportável. Ele tomou o duro botão entre o polegar e o dedo e esfregou suavemente. Desta vez, ela não pode segurar o pequeno grito antes que escapasse. Sua boca foi para a sua orelha e beijou e a sondou antes de sua voz calma fluir para ela. — Volte para a minha casa comigo. É apenas a poucos minutos a partir daqui através do portão.

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— Por quê? — Ela murmurou, ainda flutuando no torpor sensual que sua mão criara. — Por quê? Só porque você deve visitar e conhecer as pessoas que vivem lá — disse ele, erguendo a cabeça para beijar sua testa e face. Sua mão ainda a acariciava e ela achava difícil prestar atenção ao que ele dizia. — Por outro lado, estou velho demais para fazer amor por trás de árvores e sebes. Nomear o que eles estavam fazendo intrometeu-se como um barulho em um sonho. Os sons das corridas trovejaram imediatamente ao seu redor. A mão em seu corpo, repentinamente, parecia algo escandaloso. Vermelha de vergonha, ela desviou o olhar. — Isso é errado — disse ela. — Não. É muito certo. — Você sabe o que quero dizer. Sua mão afastou-se de seu seio, mas ele ainda a segurava. — Será que o seu amante lhe deu tanto prazer? — ele perguntou em voz baixa. Ela corou profundamente. Ela não podia olhar para ele. — Eu penso que não. — Foi diferente, — disse ela acusadora. — Estamos apaixonados. Isto é... É... — O quê? O que era essa coisa horrível e maravilhosa? — Desejo — disse ele. Então, isso era desejo. Não era de admirar que os sacerdotes sempre pregassem contra isto. Desejo parecia uma coisa muito perigosa.

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— Bem, menina, se eu tivesse que ter um sem o outro, escolheria este, — disse ele. — O desejo pode se transformar em algo mais, mas se não estiver lá no início, ele nunca vem e o amor morre sem ele. Ele estava repreendendo-a como uma criança novamente. Ela realmente ressentia-se quando fazia isso. — Isso é errado, — ela repetiu com firmeza, empurrando um pouco, colocando certa distância entre seus corpos. — Você sabe que é. Você está me seduzindo. Não é justo. — Seduzindo você? Por que eu faria isso? — Quem sabe por que você faz algo? Por que pedir a mim em primeiro lugar? Por que pagar o preço da noiva? Ela estudou-o. — Talvez você queira se deitar comigo para que, quando ele vier, o noivado não possa ser anulado. — É uma boa ideia. Mas isso nunca me ocorreu, porque sei que ele não virá. Ele disse isto desde a primeira noite. Calmamente, implacavelmente ele repetiu. — Você não pode saber — ela retrucou. Mas havia algo em sua voz neste momento que a aterrorizava. Como se soubesse. De alguma forma. — Ele não está aqui, Christiana. Ele recebeu sua mensagem há tempos. — Talvez não. Talvez o mensageiro não conseguisse encontra-lo. — Eu falei com o mensageiro que você contratou. Ele entregou a carta nas mãos do homem a quem enviou dez dias depois que você escreveu. — Você falou... Você interferiu nisso? Como se atreve!

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— Foi bom ter interferido. Seu mensageiro não tinha intenção de sair exclusivamente para a sua missão. Ele planejava esperar até que outros negócios o levassem para o norte. Podia demorar semanas. Mesmo assim, ele poderia ter entregado a carta para qualquer outra pessoa ao longo do caminho e poupado a viagem. — Mas ele foi exclusivamente para você? E entregou diretamente? — Paguei muito dinheiro a ele por isso. E para se oferecer para trazer uma carta de volta. Ela tinha recebido nenhuma carta de retorno. Uma tristeza assustadora tentou dominá-la. Ela não queria ouvir o que David estava dizendo, não queria considerar as implicações. O mensageiro tinha retornado há algum tempo. Se ele pode retornar, então Stephen também podia. Ele poderia ter, pelo menos, enviado uma nota. Mas talvez o mensageiro tivesse admitido que cumpria ordens de seu noivo e Stephen não quis se arriscar. Felizmente sua raiva por David ultrapassou seus pressentimentos, ou ela poderia ter desmaiado ali mesmo. Ela olhou para ele. — Você gosta disso? De destruir a vida das pessoas? Ele deu-lhe um olhar muito duro, mas rapidamente suavizou. Sua mão deixou o seu dorso e acariciou seu rosto. — Na verdade, me machuca vê-la ferida. — Então, me ajude, — ela gritou impulsivamente. — Liberte-me e ajude-me a chegar até ele. Ele olhou para ela daquela forma, que a fazia se sentir transparente. — Não. Porque ele não a quer o suficiente para lutar por você menina, e eu acho que faço. Por um instante, enquanto ele olhava para ela, pensou ter visto hesitação, que ele poderia realmente fazer o que pedia. Suas palavras esmagaram a pequena esperança. Petulante, ela se retorceu em seus braços e se afastou. 101


— Eu quero voltar para Westminster agora. Sem dizer nada, ele a levou de volta para os negociantes e até uma mulher que vendia pequenos pedaços de renda. Ele falou algumas palavras para a mulher, e, em seguida, virou-se para ela. — Esta é a senhora Maria. Fique com ela enquanto vou encontrar Andrew e Lady Joan. Não saia daqui — ordenou antes de sumir no meio da multidão. Ela teve a impressão de que ele queria ficar longe dela, e estava feliz por estar longe dele também. Ele dava ordens da mesma forma que Morvan, e ela se ressentia disso. Vamos cavalgar para o norte. Vamos comprar um cavalo. Fique aqui e não se mova. Ela estava feliz que eles não fossem se casar. Viver com ele seria como ter seu irmão ao redor o tempo todo, criticando seu comportamento. Lady Idonia sempre podia ser enganada e subvertida. Este homem seria muito astuto para isso. Ela estava contente que ele havia deixado-a por outro motivo. Ela nunca teria qualquer paz com ele por perto. Sabia agora que isto tinha a ver com o que acabara de acontecer debaixo da árvore. Algo daquela excitação, daquela antecipação, que estava lá entre eles, mesmo quando simplesmente cavalgavam pela Strand e conversavam. Apenas pensando sobre aquelas sensações maravilhosas podia sentir suas agitadas respostas novamente. Desejo, ele nomeou. Ela não gostava muito desse desejo. Não gostava dos laços invisíveis que teciam entre eles. A emoção que sentia com Stephen parecia uma coisa tênue e infantil em comparação, e não gostava disso também. Stephen. Ele ainda não havia chegado, não tinha enviado uma carta de volta... Uma dor vaga e horrível apertou seu peito. Não pensaria sobre isso, não duvidaria dele. Ela especialmente não contemplaria que isto pudesse implicar em ela e David de Abyndon. — Aí está você! — Joan veio pulando em sua direção com Andrew.

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Christiana olhou para a amiga. Joan parecia ruborizada e bonita. Um pedaço de feno preso em seu cabelo. — Sim, estou aqui. David foi procurar vocês e me mandou esperar aqui como uma criança, — ela olhou para o feno preso em seu cabelo. — Onde você estava? — Oh, por toda parte, — Joan exclamou. — Isso é muito mais divertido quando lady Idonia não está. — Posso imaginar — ela tirou o feno e ergueu as sobrancelhas. Andrew corou e afastou-se. Joan encolheu os ombros. — Havia uma carroça de feno debaixo de uma árvore, subimos nela e pulamos dentro. Foi muito divertido. — Pensei que você era apaixonada por Thomas Holland. — Eu sou. Nós apenas brincamos. — Joan! Ele é um aprendiz! — Oh, você é tão ruim quanto Idonia. Nós apenas nos beijamos uma vez. — Você beijou... Pelo amor de Deus! Os olhos de Joan se estreitaram. — Foi apenas um beijo. Não é como se eu fosse me casar com ele — ela disse isto de leve, mas o aviso era inconfundível. David tinha sido um aprendiz como Andrew, e Christiana ia se casar com ele. Eu te amo, a voz e os olhos diziam, mas você não está em posição de me criticar. Uma triste e nova emoção surgiu. Joan apiedava-se dela. Todos tinham pena dela, não é? Todo o desejo e prazer do mundo não podia equilibrar isso, podia?

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David emergiu da multidão. Em silêncio, ele juntou-os e liderou o caminho até os cavalos. — Ele parece bravo, — Joan sussurrou. — O que você fez? Era mais uma questão do que não fez, Christiana suspeitava. Ainda assim, encontrou-se bastante satisfeita que ele estivesse irado. Talvez porque esta era a primeira emoção clara que havia visto nele. Era a primeira vez que sabia no que ele estava pensando. Eles recuperaram os cavalos e dirigiram-se para Westminster. Joan e Andrew ficaram para trás e começaram a falar de novo, mas David tentou mover-se num ritmo acelerado. Primeiro Christiana seguiu com ele, mas depois, simplesmente desacelerou seu cavalo e deixou-o seguir adiante. Logo, ele diminuiu também e andou ao seu lado. Ela gostou que o fizesse. Seu silêncio tornou-se opressivo, e depois de constatar com um suspiro que ele meditava quando estava com raiva, assim como Morvan, ela parou de dar-lhe qualquer atenção. Ocupou a si mesma fantasiando sobre a casa de Stephen em Northumberland. A preocupação de que David lhe dera sobre Stephen desapareceu rapidamente quando encontrou uma variedade de desculpas para sua demora em escrever ou voltar. — Você está pensando sobre ele de novo, não é? — A voz, firme e calma, intrometeu-se. — O que o faz pensar isso? — Ela perguntou culpada. — O olhar em seu rosto, menina. Está escrito nele. Ela tinha certeza que sua expressão não demonstrava nada quando ela pensava em Stephen. Na verdade, trabalhava nisso. Mas, em seguida, David sempre parecia ver e saber mais do que ela queria. — Você é uma covarde, Christiana, — disse ele em voz baixa, mas uma pitada de ira era inconfundível. — Parece que sou muito real para

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você. Você se recusa a ver a verdade. Não apenas sobre o seu amante ausente e este casamento realmente acontecendo, mas sobre nós. — Não há nenhum fato a enfrentar a nosso respeito. — Eu quero você e você me quer. Isso é muito real. Mas isso não combina com a música que você compôs, não é? Você quer continuar a viver as letras que você escreveu na ignorância a respeito desse homem e de si mesma. — Eu não vivo de acordo com uma canção. — Claro que vive. Duelos e sequestros são temas para canções, não para a vida. Alaúdes tocam quando você pensa no homem que usou você? As suas lembranças são coloridas como as imagens em uma tela pintada e nas tapeçarias? Ela desviou o olhar, tremendo com estas palavras duras que falavam sobre uma compreensão de sua mente que ninguém deveria ter. De repente, sentiu-se impotente de novo contra os medos que essas palavras levantavam nela. Ele fora horrível ao dizer que Stephen só a usou. Cruel. Ela o odiava. Sua voz soou cruel e com raiva quando ele falou de novo. — Eu deveria enviá-la ele e deixá-la ver como sua música termina. — Por que não o faz, então? — Ela gritou. Ele parou ambos os cavalos. Sua mão se aproximou e tomou-lhe o queixo. Ela resistiu a virada de sua cabeça. — Olhe para mim — ele ordenou. Ela deliberadamente se virou. Sua mão forçou sua cabeça a virar para ele. Seus olhos azuis brilharam com algo perigoso.

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— Porque ele iria usá-la novamente antes que fosse honesto com você. O passado é uma coisa, mas você pertence a mim agora. Não deixarei ninguém ter você tão facilmente. Nunca se esqueça disso. De repente, ela percebeu que seu mau humor tinha algo mais além de sua rejeição a ele. Tratava-se de algo maior. Isto era sobre ela, ele e Stephen. Ele estava com ciúmes? De Stephen? Era tão incomum de ele mostrar suas reações, e essa ardente raiva apaixonada, viva e visível. Era essa a emoção que ele não estava acostumado a controlar? Raiva desencadeou algo assustador neste homem, e isso a tornou especialmente inquieta, pois o medo em si parecia tocar outra tensão que sempre parecia existir entre eles. Westminster parecia um refúgio de uma tempestade, quando finalmente chegou. Ela pulou do seu cavalo antes que alguém pudesse ajudá-la e correu para dentro sem sequer olhar para David de Abyndon.

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Capítulo 7 Christiana ergueu os joelhos e encostou a cabeça na borda da grande banheira de madeira. A água morna quase chegou ao topo, e posicionada como estava, podia flutuar um pouco no calor reconfortante. Uma tenda circular de linho colocada na banheira segurava o vapor, criando um ambiente úmido e abafado que relaxou seus músculos tensos. O castelo estava praticamente vazio quando ela chamou as servas para preparar o banho. Um boato se espalhou através de Westminster que Morvan foi ao encontro de David em Londres Bridge e havia arrastado os cortesãos entediados como moscas a um doce. Idonia tinha ficado para trás com ela, mas Isabele e Joan tinham se unido a um grupo que incluía o jovem príncipe John e Thomas Holland. Nem todo mundo aprovava este duelo. Alguns dos cavaleiros mais velhos consideraram descortês desafiar um mero mercador, mas mesmo eles entendiam a ira de Morvan. Uma vez que o duelo era público, todo mundo achou que Morvan pretendia somente humilhar David, e que tornava o fato mais aceitável também. Afinal de contas, estes mercadores muitas vezes esqueciam seu lugar. Esmagando David, Morvan estaria lembrando a todos em Londres que a riqueza nunca podia substituir o nascimento e a nobreza quando realmente importava. Ela fechou os olhos e tentou desfazer o nó em seu estômago. Rezou para que David tivesse atrasado seu retorno a Londres como tinha aconselhado. Ela tinha oferecido uma série de orações durante os últimos dias enquanto este duelo se aproximava. Não gostaria de ver David prejudicado. Ele tinha se tornado uma espécie de amigo, e ela tinha ficado bastante pendente de sua presença. Havia pensado muito nele, desde aquele dia em Smithfield. Às vezes, ouvia a voz calma que lembrava aquela no corredor privado do Rei. Quanto mais pensava sobre isso, mais parecia que David tinha sido abordado por Frans van Horlst naquele dia. Outras vezes, sua mente deslizava para os dois debaixo da árvore de carvalho. Essas 107


lembranças eram convincentes e perturbadoras, e tendiam a deslocar-se sobre ela quando menos esperava. O que seria pior? Se David tivesse voltado de sua jornada, teria que enfrentar seu irmão na frente de centenas de pessoas e ser visto como um idiota. Se não tivesse retornado, o mundo inteiro iria se referir a ele como um covarde. Morvan e a corte provavelmente preferiam o último. A lição seria ensinada sem a espada jamais ter sido levantada. Seu irmão fazia isso por amor a ela e por preocupação com a honra da família, mas realmente gostaria que ele tivesse ficado fora dessas coisas. Ele só estava fazendo uma situação complicada piorar, e poderia muito bem arruinar seus planos completamente. Será que Morvan pensava que a humilhação faria David se retirar? Com toda a probabilidade isto apenas o tornaria mais teimoso. Ele podia até mesmo se recusar a honrar sua promessa de deixá-la ir com Stephen. Claro, Stephen não estava aqui e faltavam apenas doze dias para o casamento. Ela tentou não pensar nisso, mas estava se tornando difícil. Uma coisa era esperar pacientemente e outra era ver o sol implacável se por todos os dias sob os seus sonhos não realizados. Ultimamente, encontrou-se ouvindo sons dos cascos dos cavalos quando estava na parte de fora. Talvez ele tenha planejado algum sequestro dramático em breve. Imaginou-o andando pela estrada do rio com seus bons companheiros presentes, talvez um dia antes do casamento em si. Será que ele esperaria tanto tempo? Como é que conseguiria pegá-la e levá-la? Havia sempre muitas pessoas em volta. Ela sentou-se abruptamente. Quase não havia pessoas ao redor agora. Morvan estava longe de ser encontrado nesta manhã enquanto o rumor de seu duelo na Londres Bridge se espalhava. Quem começara os murmúrios? Morvan mesmo? Ou alguém que queria Westminster vazia com apenas um sentinela essencial? Uma 108


excitação inebriante a invadiu. Stephen viria por ela hoje? Se assim fosse, o plano era audacioso e brilhante. Ela não podia ter certeza, mas de repente, tudo fazia sentido. Se ele tivesse sabido do duelo e sua localização a partir de um de seus amigos daqui, podia muito bem fazer uso da informação dessa maneira. Ela não tinha percebido que ele era tão inteligente. Sorrindo alegremente, ela rapidamente se lavou. Sentiu o nó de cabelo preso no alto da cabeça e considerou se teria tempo de lavar e secar. Seu braço parou ao ouvir o som de passos de botas entrando no roupeiro onde a banheira estava assentada na frente de uma lareira. Ela não podia acreditar! Finalmente! Ela ansiosamente abriu a cortina para cumprimentar o seu amor. Seu olhar caiu sobre botas de couro bonitas e um gibão azul obviamente simples. Uma espada pendia de um cinto e dois punhais de outro. Profundos olhos azuis olharam para ela, lendo seus pensamentos como se fosse feita de vidro. — Você estava esperando alguém? — Perguntou David. Ele desabotoou o cinto da espada e colocou a arma em cima de uma das caixas que se alinhavam com as paredes do roupeiro. Ela deixou cair a cortina e afundou na água. — Não. E não estava esperando por você — ela respondeu através da cortina. — Eu disse que viria. Mas talvez você estivesse pensando que eu estava morto. — Um pouco ferido, pelo menos, se fosse tolo o suficiente para encontra-lo. Por que não está? — Isso não saiu do jeito que ela havia planejado, e ela fez uma careta. Parecia que estava irritada porque ele estava inteiro. — Edward interrompeu como eu sabia que faria. Ele está contando com o preço da noiva como você pode ver. Ela ouviu-o caminhar até a parede ao lado da porta. Ele não saiu. E se ela estivesse certa e Stephen chegasse agora? Ele iria encontrar David aqui. Morvan não podia feri-lo, mas Stephen podia. 109


— Você tem que ir, David. — Eu acho que não. — Devo terminar meu banho. Vou me encontrar com você no salão em breve. — Eu vou ficar aqui. É quente e muito agradável. Ela espirrou a água com raiva. — Você está dando muito crédito a ele para o drama e inteligência, minha menina. Stephen Percy não está em Londres ou em Westminster. Ele não está chegando hoje ou em qualquer outro dia, por um longo tempo. Ela afundou os ombros na água. Ele sabe o que estou pensando. Ele sabe o nome de Stephen. Existe alguma coisa que não saiba? — Mandei a corte para a Londres Bridge, Christiana. Não queria que ninguém seguisse o seu irmão para o lugar onde realmente nos encontraríamos. — Por quê? Para que ninguém pudesse ver que ele é melhor que você? — Não. Se ele me obrigasse a matá-lo, eu poderia mentir para você e você nunca saberia a verdade. O aposento tornou-se bastante quieto. Era absurdo, é claro. David nunca poderia machucar Morvan. Quando se tratava de habilidade com as armas... E ainda... Passos se aproximaram da banheira. A cortina se separou e ele entregou-lhe uma toalha através da fenda. — Chega disso por enquanto. A água deve estar esfriando. Saia e seque-se.

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Ela pegou a toalha e puxou, fechando a cortina. Esperou enquanto ele se afastava. A água estava de fato gelada e o vapor havia desaparecido. Estava ficando frio no banho. — Chame a serva, por favor. Ela está no aposento ao lado. — Eu a dispensei. Ela olhou para a sua nudez. Escutou o silêncio do castelo vazio. Pensou em suas roupas empilhadas em um banquinho ao lado da lareira. O banho foi perdendo seu calor rapidamente, mas o frio que a sacudiu não tinha nada a ver com a água. — Idonia deve voltar em breve, David. Será vergonhoso para mim se ela achar você aqui. — Lady Idonia decidiu dar um passeio com Sieg. Um passeio muito longo, acho. Sua irritação se inflamou nesse jogo que ele brincava com ela. Ela pegou a toalha e ficou na água, secando os braços e corpo com movimentos apressados. Iria mostrar a este mercador do que os nobres eram feitos. Ela envolveu-se na grande toalha de linho, prendendo suas extremidades debaixo do braço. Ela saiu da banheira e chutou para o lado a cortina. A água de suas pernas começou a empoçar o chão de madeira. Ele estava sentado em cima de um baú alto ao lado da lareira, com as costas contra a parede e um braço apoiado em um joelho levantado. Seu olhar frio encontrou os dela e depois desceu de forma preguiçosa. Ela lutou contra o alarme que subiu em seu peito. Ele colocou mais lenha na fogueira, e o pequeno roupeiro, cheio de baús que guardavam vestidos e peles de Isabele, estava quente o suficiente. Ela se sentou em um banquinho ao lado da banheira e deu um tapinha nas extremidades da longa toalha contra as pernas para secá-las. Ela não olhou para ele, mas sabia que a observava. Ela trabalhou duro para não deixá-lo ver que a perturbava. 111


— Como é que você sabe o nome dele? — Ela perguntou, orgulhosa de quão casual sua voz soou. Quase tão casual e plácida como ele fazia o tempo todo. Exceto quando estava com ciúmes. Ela gemeu interiormente por sua estupidez. Talvez fosse melhor evitar falar em Stephen Percy, dadas as circunstâncias. — Eu soube quem era ele desde o início. Não fique tão surpresa. Você praticamente me disse o nome dele na primeira noite. Também sei que você não é a primeira garota inocente que ele seduziu, nem será a última. Alguns homens têm um gosto por essas coisas, e ele é um deles. Suas palavras sondavam os pensamentos proibidos enterrados profundamente em seu coração, os pensamentos que tentavam emergir tarde da noite enquanto estava deitada em sua cama e contavas os dias que passavam e os dias restantes. Tinha murado essas preocupações em um canto escuro, e se rebelou contra este homem chegando perto deles. Ela olhou para ele. Ele permanecia lá tão malditamente calmo, pensou. Ele olha para mim como se tivesse direito de estar aqui. Como se fosse meu dono. Ela se abraçou contra os sentimentos de vulnerabilidade e tensão que aquele olhar convocava. — Eu te odeio — ela murmurou. As pálpebras reduziram-se. — Cuidado, menina. Posso decidir incentivar o seu ódio. Eu acho que o prefiro a sua indiferença. Ele saltou do baú. O movimento a tornou tensa. — Você ainda espera por ele, — disse ele. — Depois de todo esse tempo e quando a verdade é tão clara. Foi melhor Edward ter entregado você a mim. Você teria desperdiçado toda a sua vida esperando e vivendo em um sonho fracassado. — Talvez eu ainda vá — ela falou as palavras como uma ameaça vibrante.

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— Não. Você acordará hoje. Ele deu um passo na direção dela. Ela se levantou de seu banquinho de uma só vez, segurando a toalha em torno dela e recuando. Ele parou. Ela não gostava da maneira como a olhava. Pior ainda, não gostava do jeito que estava reagindo a ele. Para aumentar sua irritação, a arrebatadora expectativa percorreu-a. Lembranças nítidas e vívidas do prazer que sentira em Smithfield forçosamente entraram em seus pensamentos e em seu corpo. — Exijo que saia — disse ela. Ele balançou a cabeça. — Seu irmão está fora agora. Stephen Percy também. Não houve duelo e não haverá sequestro. Por fim, é só você e eu. Seu coração batia desesperadamente. — Você está me assustando, David. — Pelo menos tenho a sua atenção pela mudança. Além disso, eu lhe disse antes. Não é medo que você sente por mim. — Agora é — E era. Uma horrível, maravilhosa combinação de medo, antecipação, atração e negação. Como as linhas de uma corda torcendo uma na outra, torcidas e trançadas, puxando e esticando sua alma. Se ele não saísse, tinha certeza de que alguma coisa iria estourar. — Se não sair, eu o farei — de alguma forma, ela encontrou compostura o suficiente para falar com calma. Ele apontou para as roupas no banco à sua direita e a porta à sua esquerda. — Eu não vou parar, Christiana. Ela teria que passar por ele para sair. Era sua imaginação ou seus olhos azuis a incitavam a se aproximar? Ele estava gostando disso, ela pensou, e a irritação subiu de vez, vencendo os outros sentimentos por um momento e a tornando valente. 113


A filha de Hugh Fitzwaryn não precisava ter medo de um mercador, pensou com firmeza. Uma nobre podia andar nua pela Strand e seu status iria protegê-la e vesti-la, tão certo quanto o aço. Quantos alfaiates e fabricantes do grau de David tinham visto-a vestida em roupas interiores, enquanto esperavam pela princesa e suas amigas? Esta toalha cobria mais. Tais homens não existiam se alguém escolhesse assim. Sim. Poderia ser assim agora mesmo com David de Abyndon. Ela baixou os olhos e acalmou-se. Ela imaginou que ele era um vendedor que tinha vindo mostrar suas mercadorias. Deixou seu espírito retirar-se dele e daqueles sentimentos estranhos que ele provocava tão facilmente, e se protegeu com o conhecimento de quem ela era e o que ele era. Erguendo o olhar, parecia mais irritada do que ele. Segurando a toalha em torno dela, calmamente foi até o banco e dobrou os joelhos, de modo a alcançar as vestes. Dedos tocaram firmemente seu cabelo e torceram-no. As roupas caíram de sua mão quando ele a ergueu. Ofegante pelo choque, ela encontrou seu rosto a centímetros dos olhos azuis flamejantes. — Não faça isso de novo, — ele alertou. — Nunca mais. Ela estava olhando para a cara do perigo e sabia disso. Ela não se mexeu. Mal respirava. Lentamente, enquanto a segurava e olhava para ela, as chamas esfriaram e a dureza abandonou seus olhos e boca. Ela pôde ver, quando ele recuperou o controle e a raiva sumiu de seu rosto perfeito. A expressão que a substituiu era igualmente perigosa em sua própria maneira, no entanto. Sua mão não soltou seu cabelo. Aliás, apertou um pouco mais. Ele olhou para seu rosto lentamente e, em seguida, baixou para seus ombros nus e pescoço. Ela viu seu olhar vagar para a toalha úmida envolvendo seu corpo. Nunca havia sido tão atentamente observada em sua vida. Sua tranquila inspeção possessiva a deixou sem fôlego e trêmula. Ele 114


puxou-a para si. Um tremor de temerosa antecipação a invadiu. Suas pernas quase não conseguiam apoiá-la enquanto seu corpo seguia sua cabeça. Ele baixou a boca para a dela. Ela lutou contra as emoções. Lutou bravamente com cada pedacinho de sua força de vontade. Mas suas defesas nunca tinham sido muito fortes contra os seus beijos, e quando ele se aprofundou e seu outro braço, abraçou-a, ela se derreteu contra ele, como se essas sensações maravilhosas tomassem o controle dela. A boca dele se moveu maravilhosamente sobre seu rosto, pescoço, orelhas e ombros, beijando e mordendo suavemente, arrastando suavemente para os pontos pulsantes. Ele brincou com as linhas de tensão que se estendiam nela como se fossem as cordas de um alaúde, atraindo-a para a aceitação. Ela sabia o que estava acontecendo, mas os choques excitantes que espiralavam de cada beijo a fez querer mais, e as ondas suaves fluindo através das carícias dele em suas costas prometiam um mar de deleite inconsciente. Puxando suavemente a parte de trás da toalha. Ela lutou para sair do seu mar de sensualidade. — Não — ela sussurrou. — Sim — disse ele. A ponta da toalha deslocou de debaixo do braço dela e escorregou de suas costas. Esse medo, que não era medo, gritou e ela agarrou a ponta do linho apertando mais contra o peito, com os braços cruzando os seios. Ele não tentou removê-la. Desenredando a mão de seu cabelo, ele abraçou-a com força para que seus braços ficassem presos entre seus corpos. Ele baixou a boca para a pele logo acima de suas mãos, enquanto seus braços se moveram pelas costas. A sensação de suas mãos quentes sobre sua pele nua a excitou. Mesmo sua consciência dos beijos dele esmaecia enquanto todos os seus 115


sentidos focavam-se nas carícias abrasadoras. Todo o seu ser esperava, sentia e saboreava o progresso daquele toque. Abaixo e dentro de seu corpo um pulsar estranho começou a latejar. Ele tomou sua boca novamente e suas mãos abaixaram-se mais, até os quadris e na parte inferior das costas, até, finalmente, seu traseiro. Ela começou a ficar em choque, mas ele a beijou intensamente e suas mãos ficaram lá, seguindo as curvas de seu corpo. Esse pulsar secreto ficou doloroso e ardente, e ela percebeu que era no fundo de sua barriga perto das coxas e as mãos estavam muito próximas disto. Os sentimentos eram arrebatadores, muito deliciosos para detê-lo. A sua consciência ficou muito quieta e fraca. Essa consciência racional mal lhe advertiu, notando o cheiro do homem que a segurava e ao som de suas respirações ofegantes. A expectativa da espera que sentiu pela primeira vez em Smithfield apagava qualquer pensamento real e crescia agora para algo exigente e impaciente e um pouco doloroso. Suas mãos vagaram para baixo. Ele segurou abaixo de suas nádegas em uma carícia de impositiva intimidade. Ela suspirou alto quando o centro pulsante de prazer explodiu com um calor leve. Os dedos dele descansavam no topo de suas coxas, onde se juntaram. Sentia-se como quando esperava que ele tocasse seu seio, uma antecipação frenética e desesperada, e essa pulsante expectativa possuía uma realidade física que a surpreendeu. De repente, o medo que sempre esteve lá quando ele a beijava e tocava surgiu das profundezas de onde o prazer o tinha banido. A voz de sua consciência considerou que algo estava ocorrendo aqui que nunca havia acontecido com Stephen. — David... — ela sussurrou, começando num protesto débil. Ele levantou a cabeça e olhou para ela com um rosto transformado e mais bonito do que nunca. O brilho caloroso naqueles olhos a deixaram sem palavras. Ele puxou seus quadris para mais perto. Seus braços ainda seguravam a toalha contra o peito, e ela não a queria mais ali agora. Os dedos perto de suas coxas moveram-se quando ele se moveu para mais perto ainda. 116


Sua barriga pressionada contra ele. Ela sentiu o calor e a dureza. Aquele lugar escondido, tão cheio de dor e necessidade tão perto de sua mão, respondeu com força. Seus olhos se arregalaram. Inclinou-se para beijá-la novamente. — Sim — ele disse calmamente. Uma noção muito peculiar brincando com a sua mente e, em seguida, forçando sobre ela. Ultrajante, Realmente. Impossível. Como se lesse seus pensamentos, ele deslizou a mão entre a parte de trás das coxas e gentilmente a tocou. Facilmente seus dedos encontraram aquela dor faminta. Ela gritou com o choque do prazer. Retorcendo violentamente, saltou de seus braços e olhou para ele. A reação dele foi muito forte. Ela observou, sem fôlego, como surpresa deu lugar à perplexidade e, finalmente, a raiva. Puxando a toalha em torno dela, ela se afastou, tentando desesperadamente ordenar seus pensamentos e emoções confusas. Ela não o queria irado. Ela queria explicar. Mas explicar o quê? Que uma bizarra e antinatural ideia do que ele queria dela havia inexplicavelmente se apresentado em sua imaginação e de repente parecia... Lógico? Ela provavelmente estava errada, e se falasse isso para ele, pensaria que era uma pervertida. Ao mesmo tempo, não queria que ele a tocasse novamente, especialmente assim, até que descobrisse com certeza que não tinha entendido tudo errado. Ele apenas olhou para ela, o belo calor diminuindo em seus olhos e a expressão plácida assumindo. Sentia-se como uma tola ali em sua toalha, mas não sabia o que dizer. — Muito bem, Christiana. Se você não quer se entregar a mim agora, vou esperar — ele finalmente disse, andando para pegar a espada.

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Sua mente girava. Se entregue a mim, Stephen tinha pedido naquele dia na cama. Ela pensou que ele queria dizer em casamento. Mas isso significava outra coisa, não é? Será que ela havia entendido absolutamente tudo errado? Ela precisava falar com alguém. Agora. Em breve. Quem? Joan. Será que Joan sabia? David voltou para a porta. Hoje você acordará, havia dito. Querido Deus, ela sentia-se desperta. Horrivelmente. — Eu não vou voltar aqui, Christiana. Vamos fazê-lo à sua maneira. Hoje, soube que Edward vai assistir nosso casamento. Seu irmão e o Rei irão entregá-la a mim, portanto, daqui a duas terças-feiras. Se você precisar de mim antes disso, sabe onde me encontrar. Ele se virou para ir embora. Apesar da confusão desordenada de sua mente uma pergunta saltou. Sem pensar, ela deixou escapar. — Quem é Frans van Horlst para você? Talvez porque a pergunta fosse tão inesperada quanto irrelevante para o que acabara de acontecer, ele se assustou. Mas rapidamente se recompôs. — Ele é um mercador flamengo. Nós temos negócios juntos. Ele estava mentindo. Ela apenas percebeu isso. Querido Deus, eu não sei absolutamente nada. Doze dias e não o conheço. O choque de suas emoções a tornara muito alerta, bastante esperta. Inconsistências sobre David de repente se apresentaram. Ela nunca havia notado antes. Nunca havia prestado atenção. Havia um monte delas, e suas suspeitas sobre Frans van Horlst apenas aumentavam a conta. Que viagens eram aquelas que ele fazia? Como é que teve acesso a Edward? Por que pedi-la e pagar um enorme preço de noiva? Por que tinha um servo que parecia um soldado? Como sabia que Stephen não viria? Ele tinha certeza disso. Ela podia sentir. Finalmente, ela falou. — Quem é você? Realmente?

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A pergunta o surpreendeu de novo. Por um breve instante, a máscara caiu, e naqueles olhos azuis escuros viu camada sobre camada de emoções sombrias. Então, sua expressão cuidadosa voltou e ele sorriu para ela. Era um sorriso que não revelava nada. Ele abriu a porta. — Você sabe quem sou, minha senhora. Eu sou o mercador que pagou uma fortuna pelo direito de levá-la para a minha cama. Ela ficou de pé, abraçando seu corpo com a toalha e ouviu seus passos recuarem através da antessala. Ele tinha respondido à última pergunta, assim como ela tinha formulado a ele, em perfeito francês parisiense. **** Christiana esperou até a noite escurecer, quando o aposento e o castelo estavam silenciosos antes de deslizar para fora da cama. No final do quarto, lady Idonia dormia o sono dos mortos. Christiana não ficou surpresa. Idonia tinha voltado de seu passeio com Sieg com o rosto ruborizado e os olhos brilhantes, parecendo muito jovem para os seus trinta e oito anos. O lenço desaparecera e seu cabelo estava desalinhado, ela apenas murmurou sem entusiasmo algumas críticas ao servo presunçoso de David e ao próprio David, que havia ordenado a Sieg que a levasse. Ela deu alguns passos para a cama de Joan e escorregou por entre as cortinas. Ela se sentou na cama e empurrou seu ombro. Escuridão total envolvia a cama, o que lhe convinha muito bem. Sentia-se como uma idiota e não precisava ver a diversão de Joan durante esta conversa. Ela sentiu Joan revirar-se despertando e a ouviu se sentar. — Sou eu, — Christiana sussurrou. — Preciso falar com você. É muito importante. Pequenos alongamentos e bocejos encheram o espaço de tendas. Joan se deslocou para dar mais espaço. Christiana cruzou as pernas e tirou parte da colcha sobre elas.

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— Joan, preciso que você me diga o que acontece entre um homem e uma mulher quando estão casados . — Oh meu Deus, — disse Joan. — Você quer dizer... Ninguém... Idonia não... — Idonia fez. Quando eu tinha uns dez anos. Mas acho que não entendi — Christiana lembrou bem o que Idonia tinha dito. Em sua própria maneira que tinha sido bastante simples, até certo ponto, e lhe parecera na época como muito peculiar e não muito interessante. Ela suspeitava que Idonia houvesse assumido que ao longo dos anos o senso comum preencheria as lacunas essenciais, mas até esta tarde a sua imaginação não tinha falhado com ela. — Você se casará em menos de duas semanas, Christiana. — É por isso que preciso saber agora. — Eu diria que sim. Geralmente leva um tempo para se acostumar com a ideia. — Quanto tempo? — Para mim, cerca de três anos. Maravilhoso. — Então me diga. Joan suspirou. — Vamos ver. Bem, você já viu os animais se acasalando? — Eu tenho vivido na corte desde que tinha sete anos. Onde nestes castelos lotados e palácios os animais se acasalam? Nos estábulos? Nos canis? Não na sala de jantar ou no jardim. Não cresci em uma propriedade rural como você, Joan.

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— Céus. — Diga- me sem rodeios, Joan. Linguagem simples. Sem lacunas. Joan respirou fundo e, em seguida, explicou rapidamente. Christiana sentia-se mais tola com cada palavra que ouvia. No fundo de seu coração, ela tinha sabido desde que David tocou-lhe que era assim, mas sua mente simplesmente não aceitava a terrível lógica dela. Piadas, de repente, faziam sentido. Vagas linhas nas canções, de repente, ficaram claras. A mão de Stephen empurrando para além de suas coxas... Ele não tinha feito isso com ela, mas havia planejado. Apenas a chegada de Idonia a tinha salvado daquele choque brutal. Ela nem sabia o que ele estava fazendo. David... Bons céus. — Um homem pode saber se você fez isso antes? — Ela perguntou com cautela. Podia sentir os olhos entediados de Joan através da escuridão. — Normalmente — Joan explicou como eles poderiam saber. Christiana estremeceu com a descrição da dor e sangue. — Você está dizendo que fez isso e não sabia Christiana? Isso não faz sentido. — Não. Pensei que tinha... Eu disse a David que tinha. Joan mal reprimiu uma risadinha. — Bem, isso é novo. Normalmente, as meninas precisam dar desculpas porque não há provas de virgindade. Você, por outro lado... — Não ria de mim, Joan. Isso é sério. — Sim. Ele pode pensar que você mentiu para escapar do casamento, não é?

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Sim, ele pode, Christiana pensou estupidamente. A mão de Joan tocou em seu braço. — Quem foi? Eu não sabia que havia alguém. Não é à toa que você tem estado tão infeliz sobre o noivado. Nunca vi você sequer falar com um homem mais do que uma ou duas vezes, exceto talvez... — Sua mão apertou mais. — Foi ele? Stephen Percy? Oh, Christiana. Ela não concordou nem discordou. Joan sabia que tinha adivinhado corretamente, no entanto, e de certa forma, ela estava feliz. Era bom finalmente compartilhar essa agonia, embora a dor já estivesse meio adormecida há algum tempo. A mão de Joan procurou a dela no escuro. Quando falou, sua voz era baixa e simpática. — Devo dizer-lhe uma coisa. Você vai saber em breve, pois toda a corte saberá amanhã ou depois. O tio de Stephen estava na ponte com Thomas e eu falei com ele. Ele recebeu um mensageiro hoje de Northumberland. — ela apertou a mão de Christiana. — Stephen ficou noivo há dez dias. O matrimônio foi acertado quando ele era apenas um jovem. Uma enorme fissura profunda abriu em seu interior, cortando sua alma como se fosse esculpida por aço quente. Como uma mão que se estendia para as profundezas, libertando finalmente todos esses medos, desconfianças e dúvidas proibidas. Elas subiram e a oprimiram. — Tenho certeza de que ele te ama, — Joan disse suavemente. — A família dele, sem dúvida, o obrigou a isso. É bastante comum quando esses acordos são feitos. Sim, bastante comum. Que os homens se casassem com mulheres que não gostavam ou queriam e se divertissem em outros lugares como quisessem. De repente, e claramente, ela viu o cortejo de Stephen como hipócrita, uma coisa desonrosa. Um jogo de sedução para passar o tempo, mesmo quando sabia que sua futura esposa o esperava voltar para casa. Teria as ameaças de Morvan tornado o cerco mais interessante, mais 122


excitante? Ela pensou na carta que lhe tinha enviado. Ele rira? Sua ignorância sobre os homens e as mulheres tinha estado fazendo-a se sentir como uma tola esta noite, mas isso não era nada em comparação com a desolação que esta notícia devastadora sobre Stephen causara. Seu corpo tremia e seu coração começou a arder e a se devastar. Ela soltou a mão de Joan e deslizou da cama. — Eu sinto muito, Christiana — disse Joan. Controlando suas emoções por um triz, ela empurrou a cortina e correu para sua própria cama. Atirou-se de bruços e, mordendo um travesseiro para abafar o som, chorou sua humilhação e a amarga decepção.

Capítulo 8 Ela manteve-se na cama durante dois dias. Na primeira, ela se revolvia em uma dor amarga cheia de lembranças repentinas que via de novo. As palavras e o rosto de Stephen não haviam mudado propriamente, mas significados diferentes agora ficavam muito mais claros. A verdade a mortificara e, no final do dia, estava perto de odiar Stephen Percy por tê-la usado e humilhado.

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No dia seguinte, estava em um estado de estupor mudo, flutuando sem pensar no tempo. O torpor dormente era calmante e ela considerou ficar sempre assim. No domingo, levantou-se da cama e se vestiu. Ela conseguiu não pensar muito em Stephen afinal, mas nas poucas ocasiões em que o fez, uma ferida crua de dor e raiva reabria antes de afastar sua lembrança de sua mente. Na terça-feira, sentia-se muito melhor e mais centrada novamente. Ela até riu de uma piada que Isabele fez enquanto se vestiam pela manhã. Os olhares de alívio que Idonia e Joan trocaram a fez rir de novo. E então, logo após o jantar, o modista chegou para a última prova de seu vestido de casamento, lembrando-a de forma abrupta que, em exatamente uma semana, iria se casar com David de Abyndon. Essa realidade foi perfeitamente obscurecida pelas emoções violentas que tinham rasgado-a ao ouvir a notícia sobre Stephen. Enquanto permanecia entorpecida, com o vestido rosa prateado, no entanto, sabia que era hora de encarar os fatos sobre este casamento. Realmente aconteceria. Em uma semana Morvan, literalmente, a entregaria a ele. Ela iria viver na casa que havia se recusado a visitar, e seria dona de uma casa que se recusava a atender. O centro de sua vida iria mudar da corte de Westminster para a comunidade de mercadores de Londres. Sua vida estaria ligada e ele e seria propriedade deste homem para sempre. Nada seria igual. Ela olhou para Joan e Isabele. Será que elas permaneceriam suas amigas? Talvez, mas elas se separariam porque sua vida não estaria aqui. Pensou sobre a animosidade entre Morvan e David. Será que seu marido a deixaria ver seu irmão novamente? Estaria em seu poder recusar. Durante seus anos na corte, ela sempre esteve meio à deriva, mas seu irmão e seus poucos amigos tinham servido como âncoras para ela. Depois do casamento, teria apenas David por um longo tempo. Sem ele, estaria completamente sozinha nessa nova vida que a esperava. Quando se virou para um lado enquanto o modista inspecionava seu trabalho, ela considerou David. Ela desesperadamente queria odiá-lo por 124


estar certo sobre Stephen, mas não podia. Se David não tivesse mostrado a verdade, será que perceberia? Porque seria muito mais fácil arranjar desculpas para Stephen como Joan havia feito. Pois é reconfortante evitar a dor real e continuar a ilusão de um verdadeiro amor frustrado. Ela não conhecia David muito bem, mas tinha chegado muito perto de não conhecê-lo, afinal. Em face de sua indiferença para com ele e lealdade cega por Stephen, ele havia tentado prepará-la. Ela havia deixado as coisas mal com ele. Fiel à sua palavra, ele não tinha voltado a Westminster. Ela o havia insultado naquele dia de uma forma que não entendia totalmente. O modista saiu, e ela caminhou até a janela e olhou para o pátio. Imaginou David montando e desmontando, e imaginou seus próximos passos em direção ao aposento. Em sua imaginação, ele a beijava e sua pele despertou com o calor de seus lábios. Deixou a lembrança fundir-se e progredir, e sentiu a mão firme em seu seio. Ela cerrou os dentes contra o desejo que aquele toque fantasma despertava. Finalmente, forçou-se a imaginar a união que Joan havia descrito. Sua imaginação falhou e a imagem desapareceu como se uma cortina caísse diante dela. Dor e sangue, na primeira vez, de acordo com Joan. Atraídos pelo prazer dentro do horror. Ele não viria. Você sabe onde me encontrar, havia dito. Um convite. Para quê, então? Por sua companhia ou para sua cama? Era surpreendente o que estes pensamentos estavam fazendo. Seu coração ansiava realmente por vê-lo aparecer no pátio abaixo. Sentia falta dele, e o conhecimento que a esperava aliviava a dor dos últimos dias. O medo do que ele esperava não podia obscurecer as imagens de sua amável atenção para com ela. Pensar em Stephen ainda abria buracos em sua alma, mas a lembrança de David acalmava a desolação. Era como um sussurro que ele a queria tanto que pagou o preço de uma noiva para tê-la. A ideia do leito conjugal a encheu de desânimo, mas, pelo menos, David agia honradamente. Ele não tinha tentado roubar o que queria em um quarto empoeirado, numa passagem deserta, como Stephen.

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Ele tinha o direito de saber sobre Stephen. Mais importante, precisava explicar o erro estúpido que havia cometido sobre aquela outra coisa. O mundo tratava a virgindade com importância demais, e por isso suspeitava que essas coisas importassem muito aos homens. Não seria fácil ir até ele. Ela firmou sua vontade. Eles enfrentariam uma vida juntos. Ela não conseguiria encontra-lo no casamento com o que estava entre eles sem resolver. Amanhã, iria encontra-lo. Montaria seu cavalo preto e vestiria o manto vermelho. Também iria lidar com outro problema. Naquela noite, desceu para a sala bem antes do jantar e procurou por Morvan. Ela o encontrou com uma jovem viúva que recentemente descera de Midlands para visitar Philippa. Seus olhos negros brilhavam com o fogo denso. A pobre garota parecia um animal atordoado pela luz de uma tocha. Christiana conhecia bem essa reação feminina a ele. Agora, porém, entendia exatamente o que ele estava fazendo. Seguindo, ela interrompeu a sedução dele com uma saudação alta e uma dispensa rude da mulher. — Mais tarde, Christiana — ele retrucou. — Agora, meu irmão, — respondeu ela. — No jardim, onde podemos ficar a sós, por favor. Irritado, silenciosamente, ele se despediu de sua presa indefesa e seguiu-a através dos corredores para o jardim. O sol se pôs e o crepúsculo esmaecia. Ele ainda estava irritado. Ela não se importava. As histórias sobre seu irmão eram algumas das coisas que faziam demasiado sentido agora. Ele era um pouco melhor do que Stephen, no que ela podia dizer, exceto que não corrompia virgens. — Amanhã quero ver David na cidade, — explicou ela. — Quero que você me leve até ele. — Envie uma palavra e deixe-o vir até aqui. 126


— Ele não virá. Deixei as coisas mal da última vez que nos encontramos. — Então, deixe-o esperar até o casamento. — Preciso falar com ele, Morvan. Há coisas que precisamos discutir. — Você terá anos para falar, graças ao Rei. Não vou levá-lo para ele. — Ele se virou para ir embora. Ela bateu o pé e agarrou seu braço. — Ele acha que não sou virgem, Morvan. Isso o deteve. Ele olhou-a com cuidado. — Por quê? Ela o encarou bravamente. Entendia seu irmão agora, e sua proteção arrogante. Como David, ele conhecia os homens também. Ele a protegia como a si mesmo. — Porque eu disse que não era. — Você mentiu sobre uma coisa dessas? Até mesmo para evitar esse casamento, Christiana, como uma mentira... — Pensei que era verdade. As implicações estalaram — Quem? — ele perguntou em voz baixa. Muito calmamente. — Eu não vou dizer. Não pense em me intimidar, Morvan. Isso já é passado e graças a Idonia estou inteira. É em parte sua culpa, irmão. Se você não tivesse assustado todos os homens, eu podia ter tido alguma experiência em conhecer as intenções deles. Como aconteceu, era impotente contra eles e, até três dias, nem sabia o que queriam de mim. Ele ficou em silêncio à luz cinza. — Meu Deus! — Ele disse finalmente. 127


— Sim. Dezoito anos e tão ignorante quanto um bebê. Cheguei perto de aprender da maneira mais difícil, não foi? E quase fui para o meu leito conjugal como uma completa inocente. — Inferno. — Sendo assim, não menti para David. O que havia acontecido entre mim e esse outro homem parecia se encaixar em todos os requisitos que eu, estupidamente, conhecia. — E este mercador sabendo disso, ainda pediu sua mão? — Sim. Disse a ele antes do noivado. Ele disse que se me repudiasse, eu ficaria arruinada. Ele balançou a cabeça, pensativo. — Esse casamento nunca fez qualquer sentido. — Não, mas não posso me preocupar com isso agora. Preciso vê-lo antes do casamento. Quero explicar. Ele passou o braço em volta dos ombros dela e começou a guiá-la de volta para a porta do castelo. — É bom explicar. Ele poderia machucá-la muito mais se não soubesse. A maneira muito franca que ele disse isso a surpreendeu. Então esse era mais um novo pedaço de informação ambígua. Talvez devesse ter falado com Morvan em vez de Joan. Ela sorriu, imaginando o sofrimento de seu irmão, quando exigisse descrições contundentes e sem lacunas. — Se for até lá, ele pode entender mal, — disse ele. — Isso significa que ele a quer muito. Talvez seja essa a explicação para tudo, afinal. — Então, eu desejo que não tivesse sido tão irreal. Eu poderia ter negociado o meu corpo pela minha liberdade naquela noite.

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— Não é assim que funciona, Christiana. Como isso funciona? Ela queria perguntar. — Bem, eu me casarei em menos de uma semana. Quando ele ouvir o que tenho a dizer, não entenderá mal. Devo ir, e quero que você me leve. A tocha da porta iluminou o belo rosto dele. — Então, você irá até ele antes do casamento, e eu vou leva-la? Por sua própria vontade, antes da ordem do Rei? Agora que acabou de saber o que esse homem espera de você? — Vou enfrentar a vida com ele, Morvan. Eu quero vê-lo e ter um bom começo. E quero que ele saiba que você o aceita, a fim de que, talvez, não fique entre nós. Sim, vou por minha própria vontade, e quero que ele entenda isto. Ele suspirou com resignação. — De manhã, então. Embora isso vá me matar. Nunca levei um presente tão precioso para um homem que não gosto. **** Eles pararam seus cavalos no final da pista e olharam para a loja de David. Havia um grande carrinho do lado de fora carregado com grandes cilindros envoltos em pano áspero. Sieg puxava vigorosamente em uma corda deslizando até uma roda redonda projetando-se de um feixe do sótão. Um dos cilindros pendia do outro lado da corda, enquanto ele arrastava-o ao lado do edifício, seus grandes músculos ondulando sob a tensão com que puxava a corda mão sobre a mão. O cilindro atingiu a janela aberta do sótão. Christiana pegou um breve vislumbre do cabelo castanho dourado enquanto um braço forte estendeu a mão e agarrou a corda, puxando a carga para dentro. Sua coragem foi lentamente se esvaindo desde ontem à noite e agora ela pensava em desistir.

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Se David estava ocupado hoje... — Ele vai parar seu trabalho quando você chegar — disse Morvan. Ele moveu seu cavalo para frente. Ela emparelhou ao lado dele. — Eu não sei, Morvan. Talvez... — Ele quer você e nada mais importa. Confie em mim, irmã. Eu sei do que estou falando — ele deu-lhe uma piscadela. Morvan a ajudou a desmontar. Sieg estava ocupado amarrando outro cilindro na corda e não a notou. — Eu vou voltar em algumas horas. No início da tarde — disse Morvan. — Talvez fosse melhor voltarmos amanhã. Ele beijou sua testa. — Você tomou sua decisão com a mente limpa e o coração honesto, Christiana. Você estava certa. Este casamento não pode ser interrompido e é melhor que você o veja. Agora, coragem. Ela assentiu com a cabeça e entrou na loja. Dois aprendizes atendiam clientes. Um jovem de cabelos escuros, com cerca de quatorze anos, aproximou-se dela. — Meu nome é Michael, minha senhora. Como posso ajuda-la? — Eu sou Christiana Fitzwaryn. Vim para ver seu mestre. Ele está lá em cima? Michael acenou com a cabeça, sua expressão boquiaberta. — Meu cavalo está na pista, — disse ela, entregando o casaco para ele. — Talvez quando estiver livre, você possa cuidar dele para mim.

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Ela marchou valentemente pelo corredor. Subiu os degraus íngremes para o segundo nível e ouviu os sons de alfaiates falando e trabalhando no aposento frontal. Ao longo da parede da passagem elevava-se outro conjunto de degraus, muito íngremes e abertos, como uma escada. Ela caminhou até a sua base e, reunindo coragem, levantou a saia para subi-los. Ela segurou-se na parede para manter o equilíbrio. Os degraus eram estreitos e traiçoeiros. Sua concentração a distraiu e por isso estava quase no topo antes que percebesse que seu caminho estava bloqueado. Um pequeno som chamou sua atenção. No terceiro degrau a partir do topo empoleirava-se um gatinho preto. Ele gemia baixinho e estava impotente, pois examinava sua precária posição. De alguma forma, tinha chegado ali, mas não sabia como voltar para cima ou para baixo. Ela cambaleou na escada. Não havia visto muitos gatos antes. A maioria das pessoas tinha medo deles. Este, com seus pequenos sons insignificantes, era adorável. E estava em seu caminho. Ela levantou o gatinho em seus braços. Primeiro, ele se enrolou contra o peito dela como agradecido pela segurança, mas quando ela tentou subir o próximo degrau, ele gritou de terror e estendeu-se, arranhando seu peito. Ela engasgou com as pequenas garras cravando em sua pele. Passos se aproximaram do topo da escada. Andrew, despido da cintura para cima, olhou para ela. — David — ele chamou por cima do ombro. David surgiu. Como Andrew, ele estava nu da cintura para cima, e um leve suor brilhava sobre os ombros pelos trabalhos no sótão quente. Ela notou, surpresa, a definição dos músculos tensos de seus ombros largos, dos braços e do peito. Ele parecia delgado, forte e atlético. Ela estava desacostumada a ver homens sem roupa. No verão, os cavaleiros e soldados despojavam-se assim, quando usavam os jardins para treinar, e algumas meninas usavam esse caminho como passagem, mas lady 131


Idonia havia proibido e dera uma aula sobre pensamentos impuros. A carne aparente de David surpreendeu-a. Ela olhou, sem fala, aquele corpo e rosto bonito. O gatinho decidiu mover-se. Ela gritou e cambaleou quando as patinhas cavaram seu caminho para cima até que o corpo peludo montou em seu ombro. — Firme-se agora, — disse David. Ele desceu e sentou-se no patamar, aproximando-se do gatinho. Ele arrancou suas garras de sua pele, removendo-os com cuidado para que o tecido de sua túnica e vestido não ficassem preso. Ele levantou o uivante animal, afastando-o. Ele curvou-se contente, macio e peludo contra seu peito. Ele acariciou distraidamente e virou os olhos azuis para ela. Essas belas mãos segurando aquela pelagem negra contra o peito duro lhe pareceu incrivelmente sedutoras. — Você está ocupado. Eu deveria ter enviado um recado primeiro — disse ela. Ele se abaixou e colocou o gatinho no chão atrás dele. A ação fez seus músculos esticarem com elegância sinuosa. — Vá encontrar sua mãe — disse ao gato. O rostinho negro fechou os olhos e esfregou contra suas costas antes de sair correndo. Ele olhou para ela novamente e sorriu. — Não estou tão ocupado. Estou feliz porque você veio. Ele se levantou e desceu o degrau abaixo dela. — Eu vou ajudá-la a descer — ele reduziu o passo e ajudou-a enquanto seus pés cegamente buscavam cada degrau. Na metade do caminho, ele pulou para o chão e pegou-a pela cintura, colocando-a ao lado dele. — Desça as escadas e espere por mim.

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Não tinha havido nenhuma saudação. Não houve conversa civilizada. Ele não perguntou por que ela estava ali, e simplesmente agiu como se soubesse. Ela correu para a invisibilidade da passagem inferior. David observou-a se distanciar apressada. Ela o surpreendeu ao vir aqui. Ele a havia subestimado. Andrew pulou os degraus, carregando as camisas deles. Ele olhou para saia de Christiana desaparecendo. — Ela vai fugir — observou casualmente. David pegou sua camisa. Andrew fez um gesto para as escadas. — No momento em que você estiver lavado e vestido, ela terá ido. — Você está me dando conselhos sobre mulheres agora? Andrew riu. — Mulheres? Claro que não, nem pensaria nisso. Mas veja, ela não é uma mulher, é? É apenas uma garota. Aposto que tenho mais experiência com elas do que você teve atualmente — ele puxou a camisa sobre a cabeça. — Em um momento elas são corajosas, no próximo, são tímidas. Primeiro, é sim, depois não. Lembra-se? Ela usou toda a sua coragem para vir, e agora está dizendo a si mesma para sair. A menos, é claro, que o seu acolhimento caloroso a tenha tranquilizado. Simples assim. David olhou para as escadas vazias. O sarcasmo de Andrew era justificado. Ele não havia recebido bem e isto exigia muita coragem dela. Ele entrou no quarto de estocagem, pegou o gibão de Andrew e o jogou em cima dele. — Então, desça você mesmo, rapaz, e impeça-a de sair até eu chegar, — disse ele. — Bloqueie a maldita porta com uma espada se for preciso. Andrew sorriu e vestiu a peça de roupa. — Sim. E vou dizer a Sieg que vamos dar uma pausa com os últimos tapetes. Ele e eu podemos fazer isto antes do jantar sem você, — ele se esgueirou para a porta. — Suponho

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que isso significa que vamos esquecer aquela ultima boa caminhada da noite. — Vá! Ele seguiu Andrew descer as escadas e vi-o partir em busca de Christiana. Ele saiu para o poço e começou a lavar a poeira no ar fresco. Ela tinha ouvido falar sobre o noivado de Percy, é claro. Quase uma semana atrás, provavelmente. Quão ruim tinha sido para ela? Ele não gostava de pensar em sua dor, mas não a queria arranjando desculpas para o outro homem também. Uma mulher podia passar uma vida com desculpas a fim de evitar a verdade. Sua mente se mantinha focada nela desde que a tinha deixado na última quinta-feira. Ele raramente criticava-se, mas durante os dias e as longas noites que passara pensando nela, havia considerado a maneira como lidara com ela e se não havia cometido alguns erros de cálculo. Ele não estava acostumado com mulheres jovens, é claro. Algumas vezes, se esquecia de que ainda havia algo de criança nela. Mesmo sua saudação hoje... Uma Alicia teria recebido bem sua franca aceitação de sua chegada. Mas Christiana não era como Alicia. Ele tinha visitado Westminster na segunda-feira e quase fora para aquele aposento. Sentiu-se puxado para lá, e apenas um longo debate interno o tinha mantido a distância. Deixe que ela venha para mim, ele havia decidido. Por sua própria vontade ou pelo casamento. Ele estivera preso a essa resolução até a noite passada, quando Oliver havia aparecido tarde em sua casa com algumas novidades. E então, ele soube que não podia esperar que ela viesse. Ele secava-se enquanto ia para cima para se vestir. Se não fosse pela chegada antecipada do navio da Espanha e sua carga de tapetes, teria poupado este custo ao orgulho dela. Havia planejado buscá-la em Westminster nesta manhã, e apenas este trabalho o tinha atrasado. Ela havia

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chegado até ele primeiro, no entanto. Um pequeno presente de Lady Sorte. Era melhor para Christiana desta forma, também. Ele voltou para baixo. Podia ver um pouco de vermelho perto da entrada do bazar. Ela já tinha recuperado seu manto. O corpo de Andrew se estendia casualmente contra o limiar da porta, seu pé descansando em todo o espaço no batente oposto. Não havia bloqueado o caminho com uma espada exatamente, mas a capa vermelha não podia passar. Ele andou em direção a eles e Andrew o olhou de uma forma significativa. Soltando a perna, ele deixou o manto vermelho passar diretamente para os braços de David. — Você está pronta para sair? — Perguntou David. — Sair? — ela perguntou, perturbada por sua presença repentina. — Vamos para a minha casa. John Constantyn está chegando para o almoço, mas primeiro precisamos de alguma pomada para os arranhões do gato. Eles podem te fazer mal se você não for cuidadosa. Ela sorriu fracamente. — Sua casa... Sim, eu gostaria de vê-la. Havia a possibilidade, pequena, mas real, que ela tivesse vindo para pedir a anulação. Ele se permitiu um suspiro de alívio já que o pedido não viria e ele não teria que recusá-lo. — Como você chegou aqui? — Meu cavalo está no beco, eu acho. Morvan me trouxe. Ele voltará em três horas mais ou menos. Interessante. — Vamos andar. Deixe-me pedir aos meninos para trazerem o cavalo. Ele voltou para a loja e deu instruções aos aprendizes, depois voltou para ela. Ele guiou-a até a estrada com o braço sobre seus ombros,

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desfrutando de seu calor ao seu lado e da sensação de seu braço debaixo de sua mão. Nada podia se esconder nesta luz do sol e ele estudou seu rosto. Ela parecia extremamente bela, como sempre, mas mudanças sutis eram aparentes. Ele conhecia seu rosto muito bem, tinha memorizado os detalhes e as nuances, e podia ler a angústia dos últimos dias nele. Ela virou a cabeça e seus olhos brilhantes o olharam. Ele viu uma mudança nos diamantes negros também. Seu brilho diminuíra muito ligeiramente, como se uma faceta de confiança e inocência tivesse entorpecida. Eu destruirei sua lembrança dele. Ela não parava de olhar para ele e abrir os lábios como se pretendesse falar. Finalmente as palavras saíram. — Você estava certo. Sobre Stephen. Ele está noivo também. Um velho compromisso. Mas você sabia, não é? Na quinta-feira você sabia que eu ficaria sabendo em breve. Quanto tempo até que ela pudesse conhecê-lo tão claramente como ele a conhecia? Ela era, por natureza, inteligente e perspicaz. A garota muitas vezes mal compreendia o que via, mas a mulher não. — Eu sabia. — Por que você não me contou? — Não era meu direito fazer isso. — Você sabia antes da corte. Mesmo seu tio só soube naquela manhã. — Os mercadores e peregrinos chegam todos os dias vindos do norte. Eles trazem mexericos e notícias. — Você estava perguntando para eles?

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— Sim. — Eu me sinto como uma idiota, — disse ela com força. — Você deve pensar que as mulheres são idiotas e que sou uma das piores. — Não acho isso. E se isso faz você se sentir como uma idiota, não vamos falar sobre esse assunto. Eles se voltaram rumo ao caminho para a casa dele. Ela parou e virouse para ele. Sua testa estava enrugada quando olhou em seus olhos. — Você vai me dizer agora? Por que quer se casar comigo? Ele afastou o olhar de sua curiosidade confusa. Dolorida e ferida, ela pensou que não tinha nada a perder com perguntas contundentes e respostas francas. Como reagiria se lhe dissesse a verdade? Qual era a verdade? Fazia semanas que ele não pensava no bizarro negócio no qual ela havia sido entregue a ele. Em sua imaginação, a história de Edward tornouse real, a licença e o seu pagamento, um engano. Ele realmente a tinha visto e a quis, oferecendo uma fortuna por ela. O dinheiro era por ela e a licença havia se tornado o presente e não o contrário. Se amanhã o Rei exigisse mais mil libras para que ficasse com ela, pagaria sem pensar duas vezes. Ele a queria. Não por uma noite ou alguns meses. Não pensava nela dessa maneira e nunca pensou. Talvez a permanência inevitável do casamento tivesse despertado o desejo profundamente nele. Ele queria seu corpo, sua alma, sua lealdade e sua alegria. Ele não se perguntou por que a queria. Ele apenas queria. — Eu vou me casar com você porque quero — disse ele.

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Capítulo 9 O portão do pátio estava aberto. Ela parou na entrada, em seguida, caminhou bravamente para o pátio ensolarado cheio de mulheres rindo e sacudindo panos. Duas grandes tinas estavam lado a lado, uma sobre um fogo baixo. Dia da lavanderia. David entrou no burburinho. Uma velha magra com um lenço no cabelo avançou em sua direção. Ele abraçou a mulher e beijou sua bochecha. 138


— Disseram que estava em uma expedição, e não esperava vê-lo — disse a mulher, sorrindo. — Devagar, assim você pode almoçar com a gente, Meg, — disse ele. — John está vindo, — ele virou-se e puxou Christiana para frente. — Esta é Christiana, Meg. Minha esposa. Meg olhou para ela com os olhos límpidos. Sua boca desdentada se abriu em um sorriso. — Uma beleza, David, — ela piscou para Christiana. — Cuidado. Ele tem sido nada além de problemas e travessuras desde que começou a andar. David conduziu Christiana adiante. — Você e as mulheres vão ficar, Meg. Vou dizer a Vittorio. Christiana o seguiu para o corredor. — A lavadeira Meg conhece você há muito tempo — disse enquanto entrava na grande sala mobiliada. Cadeiras agradáveis. Tapeçaria bonita. Belas arandelas de cobre para manter as tochas na parede. — Minha mãe trabalhou para ela quando eu era criança. Uma mulher de meia-idade abriu uma porta na outra extremidade, e os sons tumultuosos de panelas batendo e xingamentos masculinos chegavam até eles. A robusta mulher carregava uma pilha de pratos de prata em seus braços. Ela olhou Christiana de cima a baixo. David a apresentou como Geva, a governanta. Geva sorriu, mas Christiana viu críticas em seus olhos cinzentos e afiados. David abriu a porta da cozinha anexa ao lado do corredor. — E este é Vittorio. Ele apontou para um homem rotundo, de olhos arregalados ladrando ordens contundentes para uma garota e um homem que o ajudavam. A mesa de trabalhos estava cheia de facas e alimentos picados, e panelas de cobre penduradas na imensa lareira. Vittorio inclinou a cabeça para um dos 139


potes, inalando, e ergueu as sobrancelhas pretas grossas em uma expressão de aprovação relutante. — Vittorio — chamou David. O homem gordo endireitou-se e olhou. — Ah! La ragazza! La sposa —ele anunciou aos assistentes. Eles interromperam seus afazeres e sorriram em saudação. Ele apertou as mãos efusivamente. — Finalmente! Signorina Christiana, hein? Nome bonito. Bellissima, David. — ele fez um olhar cômico de aprovação. — Lady Christiana vai almoçar com a gente, Vittorio. E Meg e suas mulheres também. Vittorio assentiu. — Si, si — ele voltou para a cozinha e fez um gesto para os assistentes. David a levou para o prédio através do portão. Ela sabia em sua última visita que o solar ficava no andar de cima, mas ele a levou aos últimos degraus de um dormitório simples. — Eu conseguirei com Geva algum unguento — explicou antes de sair. Ela tirou a capa. Este aposento mantinha alguns itens de natureza pessoal. Um manto simples pendurava em um cabide de parede. Um pente de prata estava sobre uma mesa. Ela sentou-se na cama e esperou Geva. No entanto, foi David quem voltou e não a governanta. Ele carregava uma vasilha com água, um pano e um pequeno frasco. Ele colocou sobre a mesa. Seus dedos longos afastaram para o lado o ombro de sua túnica. Ela baixou o olhar para a mão e os arranhões que descobrira. Ele se moveu para o outro lado e começou a desamarrar o decote de trás da roupa exterior sem mangas. Ela olhou para ele com surpresa. 140


— A pomada vai manchá-la — explicou ele, gesticulando para ela ficar e ajudando-a a sair dele. A intimidade dessa simples ação, praticamente a inquietou. — Este é o quarto de Geva? A gola foi afastada para baixo e logo expôs os arranhões. Ele mergulhou um pano na água e começou a limpar as pequenas manchas de sangue de sua pele. — Geva vive na cidade com a família e vem durante o dia. Este era o quarto de minha mãe. Ela foi criada de David Constantyn por dez anos antes de sua morte. Ele a conheceu através de Meg. Ela lavava aqui com as outras, e quando sua governanta morreu, deu-lhe a posição. — E mais tarde o fez seu aprendiz? — Sim. Ele cuidadosamente limpou os arranhões na parte de trás do ombro. Ela tentou ignorar a sua proximidade e a atenção que ele dava aos seus cuidados. Ela notou novamente os objetos sobre a mesa. Eles pareciam ainda manter algo da presença da mulher morta. Ele pegou o frasco. — Não se preocupe. Você não está se intrometendo em um santuário. Este aposento é usado por visitantes. Ele passou mais um pouco de pomada nos arranhões, e ela sentou-se muito ereta com o calor de seus dedos em sua pele e a leve picada do medicamento nas feridas. Ergueu o olhar e viu-o olhando-a. Pensou que conhecia aquele olhar. Teria que explicar melhor por que havia vindo. Em breve. Eles precisavam de um lugar para falar a sós, mas não aqui neste quarto. — Há algum jardim? — Ela perguntou, levantando-se. Ele ergueu o manto sobre seus ombros. — Por aqui. 141


O jardim se estendia por trás do edifício e da cozinha. Um muro alto fechava-o. Isto estava improdutivo agora, exceto para alguns arbustos e hera, mas podia dizer que no verão deveria ser exuberante. Canteiros, atravessado por caminhos, seguiam para um pequeno pomar de árvores frutíferas. Uma área maior perto da cozinha poderia ser plantada com legumes. — Há um pequeno jardim aqui atrás — disse ele, levando-a até uma porta na parede. O minúsculo segundo jardim a encantou. Hera crescia em todos os lugares, cobriam as paredes e o chão e subiam para formar um telhado em um pequeno caramanchão em um canto. Duas árvores altas enchiam o espaço. No verão, essa área seria agradável e silenciosa. Uma escada externa levava para o segundo nível do edifício. Duvidava que fosse encontrar qualquer lugar mais privado do que isso. — Podemos sentar? Eu preciso contar uma coisa. Sentaram-se num banco de pedra situado no fundo do caramanchão coberto de hera. Luz solar irrompia através da densa cobertura, marcando as sombras com pequenas poças de luz amarela. Ela inclinou-se e arrancou um ramo de hera do tapete a seus pés. Ela puxou nervosamente os pequenos pontos fora das folhas. Provavelmente, o melhor era apenas mergulhar nisto. — Quando nos conhecemos, eu disse... Sugeri que não era... Que Stephen e eu... — Isso não importa agora. — Importa, no entanto. Devo explicar — ela tentou se lembrar das palavras exatas que havia ensaiado.

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A voz dele veio baixa e tranquila. — Você está dizendo que houve outros? — Céus, não! Eu não fiz isso com ele. Estou tentando dizer que não houve ninguém, nem mesmo Stephen. Parece que estava enganada. Cometi um erro — ela pensou que iria se sentir menos estranha, assim que falasse. Não é assim que isso funcionava. Por um longo tempo ele não se moveu ou falou. Ela se concentrou em puxar a hera do seu ramo. — É um erro difícil para uma garota cometer, Christiana. Impossível, eu diria — ele disse finalmente. Deus, ela se sentia como uma tola. — Não, se ela não sabe do que está falando, David — seu próprio silêncio se prolongou mais neste momento. Ela sofreu por um tempo, e depois esgueirou um olhar para ele. — Você está com raiva? — Você tem a mente atrasada. Um homem fica com raiva quando sabe sobre a experiência de sua nova esposa, e não de sua inocência. — Você poderia ficar com raiva se pensasse que menti de propósito. Para desencorajá-lo. — Não acho isso. Na verdade, o que disse explica tudo. Quando percebeu o seu erro? Ela havia presumido que podia apenas dizer isso e pronto. Não esperava uma conversa. — Na última quinta-feira.

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Ele ficou calado e ela sabia que ele estava se lembrando dos dois no quarto de vestir. Seu corpo pressionado ao dela. A carícia íntima. Seu grito de choque. — Eu devo tê-la assustado muito. Ele olhou para ela com uma expressão ardente e interessada. Ele podia ser um homem muito gentil, às vezes. Talvez até mesmo entendesse como angustiante tudo isso havia sido. Talvez... — Não — ele disse com um pequeno sorriso. — Não o quê? — Você está querendo saber se, nas atuais circunstâncias, poderíamos adiar o casamento, ou pelo menos, parte dele. Acho que não. Ela corou até a raiz do cabelo. Realmente era desagradável tê-lo lendo seus pensamentos assim. Ele estendeu a mão e tocou levemente seu cabelo. — Embora, considerando esta revelação surpreendente, provavelmente não a seduzirei hoje como havia planejado. Ela quase demonstrou seu alívio e gratidão antes que pudesse se conter. Seu rosto ardeu mais ainda. Seus dedos em seu cabelo e na sua cabeça pareciam muito bem, no entanto. Reconfortante. — Quem falou com você? — Perguntei a Joan. — Ela está solteira. Tem certeza que tem razão? Que sabe o que espero de você? — Eu duvido que Joan esteja errada no que diz respeito aos homens. Ele riu. — Sim, suspeito que não. 144


Nunca em sua vida havia sentido este desconforto e vergonha. Ela desejou que alguém viesse e anunciasse que John Constantyn havia chegado. — Quantas vezes você esteve com ele? Céus. Ela olhou para seu colo, coberto agora com pequenos pedaços de folhas de hera e ramos. Ela afastou-os. — Só uma vez. Não seja muito duro com ele, David. Ele tinha razões para acreditar que concordei. Minha má interpretação de suas intenções e ações era limitada. — Você estava nua? Sua boca se abriu. Ela continuou olhando para seu colo e, como ela havia feito, a mão dele apareceu e colocou outro ramo de hera lá. O gesto e a sua compreensão do seu embaraço a tocou. No entanto, esperava por sua resposta. Parecia estranho que quando ele pensou que ela era experiente, não havia pedido nenhuma informação, mas agora que sabia que não era, queria os detalhes. Ela abriu a porta e ele parecia determinado a examinar todo o aposento por trás dela. — Em parte. Ele rasgou uma das minhas túnicas — a falta de cuidado de Stephen tinha se transformado em uma qualidade simbólica nestes últimos dias. Sua mão ainda tocava suavemente sua cabeça, afastando alguns cabelos leves de sua têmpora. — Ele tocou em você? — Nós estávamos em uma cama juntos. Ele não podia evitar me tocar, — disse ela bruscamente. — Não quero falar sobre isso. Por que me pergunta essas coisas? — Bem, para saber o quão cuidadoso devo ser com você.

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Ela respirou fundo. Ela percebeu que havia uma coisa vergonhosa que não pudesse ficar ainda mais vergonhosa, e havia chegado a esse ponto. Havia certa liberdade em saber que não poderia piorar. — Não da maneira que você fez... Na última vez. Idonia chegou antes. Na hora certa, de acordo com ela. Tocou no meu seio, no entanto. Ele me machucou — ela se sentiu bem acusando Stephen disso. Naquela ocasião pensou que isso era o único jeito. — Eu não gosto disso, — acrescentou honestamente lembrando sua reação a essa devastação de seu corpo. — Percebi que sou uma dessas mulheres que... Que... — São frias? — Sim. Uma dessas. — Nós dois sabemos que não é verdade, Christiana. Além disso, não acho que existam muitas mulheres frias. Existem, no entanto, muitos homens que são ignorantes, egoístas, ou impacientes. Você vai saber que não sou nenhuma dessas coisas. No fundo de seu coração, sabia disso. Foi o que a impediu de entrar em pânico quando pensava sobre esse casamento, inevitável e tão perto agora. Era o que tinha lhe dado coragem de vir, apesar das advertências de Morvan sobre o resultado. Ainda assim, estava feliz por ele ter decidido não seduzi-la hoje. Esperou por sua próxima pergunta enquanto ele a tocava dessa maneira suave, vagamente excitante. Seu couro cabeludo formigava pela leve pressão dos dedos. Ela olhou para seu colo e a destruição que, distraidamente, fez no segundo ramo de hera. Havia outras coisas que precisava dizer. Queria dizer-lhe que aceitava o casamento. Ele merecia ouvir isso depois de todas as vezes que tinha presunçosamente insistido que nunca iria acontecer. Precisava prometer que iria tentar ser uma boa esposa para ele, o que quer que isso significasse. Gostaria de agradecer por ser tão paciente com ela. Esperava que todas essas coisas fossem mais fáceis de explicar do que esta primeira admissão, mas descobriu agora que eram muito mais difíceis. 146


Ela tentava compor a frase entre essas outras coisas e buscou a coragem de dizer-lhe, quando a mão direita dele entrou em seu campo de vista e se estabeleceu em seu colo, ao lado dela. Ele virou a palma para cima. Ela sorriu para a bela mão esperando. O olhar fixo em sua força elegante e excitante. Nenhum parente ou sacerdote iria se juntar a eles hoje, mas havia uma oferta e uma promessa em seu gesto muito mais significativo do que o noivado oficial. Ele entendeu. Estava tornando mais fácil para ela. Hoje é o verdadeiro começo, dizia a mão. Para sempre. O significado disso tentou sufocá-la por um instante, mas ela empurrou o medo para longe. Foi para isso que veio, não foi? Ela colocou a mão na dele. Por vontade própria. Ele puxou suavemente e levantou-a, movendo-a para que pudesse colocá-la em seu colo. A hera devastada espalhou-se por sua capa. Ela olhou nos olhos de um azul profundo cheio de bondade e carinho. Ocorreu-lhe que, talvez, não precisasse dizer mais nada. Timidamente, ela colocou o braço em volta dos ombros. Um pouco sem jeito, estendeu a mão e tocou-lhe a face. Foi a primeira vez que o tocava em vez do contrário. Era diferente desta maneira, e ficou maravilhada com a sensação de sua pele sob seus dedos. Deixou seus dedos acariciarem os traços de seu rosto bonito. Eles descansaram em seus lábios, e ela acariciou levemente seu calor. Ele não se mexeu. Ela ergueu o olhar para seus olhos e se encheu de coragem. Depois de certa hesitação, inclinou-se e o beijou. Nunca havia feito isso antes, com ele ou com qualquer outro, e uma vez que seus lábios estavam nos dela, realmente não sabia o que fazer. Era muito bom e ela pressionou um pouco mais forte. Sua boca sorriu debaixo da dela. Ela afastou-se timidamente. — Você está rindo de mim porque não sei como fazer. Sua mão se levantou e segurou a cabeça dela. — Não. Estou pensando que foi o beijo mais maravilhoso que já recebi. 147


Ela corou e beijou-o novamente. Ele levou mais tempo, respondendo ao seu toque ingênuo. Ela amava o jeito como ele a beijava. Sempre gostara. As sensações que despertava nela sempre foram poderosas, doces e inebriantes. Desta vez, não se perdeu completamente, mas seguiu o exemplo dele, fazendo o que fazia, aprendendo com ele. Finalmente, quando mordeu suavemente o canto de sua boca, ela abriu os lábios para ele. Ele não a chocou nem a sufocou como Stephen, mas em vez disso, gentilmente acariciou o interior de sua boca primeiro, enviando mais e mais arrepios pela sua espinha. A intimidade a assustou, e quando ele aprofundou o beijo, ela sentiu uma mudança nele e uma paixão crescente que excitou tanto quanto o seu calor e o seu toque. Ela sempre foi tão presa as suas próprias reações que não tinha notado as dele. Compartilhar o prazer era muito melhor do que apenas aceitá-lo, e de certa forma, este beijo a agitava mais do que qualquer coisa que eles haviam feito antes. — Oh meu... — ela engasgou quando eles se separaram. — Certamente você já foi beijada assim antes. — Não foi tão bom. — Ah. Bem, talvez isso ajude, agora que sabe que isto não vem com uma criança. Ela fechou os olhos e gemeu de vergonha. Enterrando o rosto em seu ombro, ela murmurou tristemente: — Como você sabia? Ele começou a rir. — Você sempre manteve seus lábios fechados como se fossem o portão para o próprio paraíso, Christiana. Pensei que você simplesmente não gostasse. Mas isto é o único mal-entendido que tem qualquer lógica.

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Ela riu também. Ela levantou a cabeça e enxugou as lágrimas transbordando em seus olhos. — Oh, Deus. Eu lhe asseguro, faz todo o sentido diante do que Idonia havia me dito quando era mais jovem. Você deve pensar que sou a garota mais estúpida que já conheceu. Ele balançou a cabeça. — Eu acho que você é a garota mais bonita que já conheci. Era doce da parte dele dizer isso, mas, sem dúvida, ele havia conhecido muitas mulheres bonitas. Ainda assim, era bom ser cortejada com palavras bonitas. Ele nunca havia feito isso antes. — Você não acredita em mim. — Eu sou bonita o suficiente, David. Sei disso. Mas, realmente, não linda. Não como Joan. — Lady Joan é como um raio de sol e é uma garota bonita, Christiana. Você, no entanto, é a noite aveludada. Céu escuro, — ele tocou seu cabelo — Luz pálida, — os dedos acariciando sua pele. — Estrelas — ele beijou o canto do seu olho. Os sons de vozes intrometeram-se do jardim exterior. Ela olhou com ressentimento em sua direção. Queria ficar neste caramanchão escondida por mais tempo, rindo e conversando com David. Talvez beijando novamente. — Nós temos que voltar, — disse ele com pesar. — John já deve estar aqui. Eles descobriram John falando alto com Sieg e olhando ao redor do jardim como sinalizando em alerta para os amantes. Ele deu a David um olhar masculino enquanto o casal saia pela porta do jardim e cumprimentou-o. Capítulo 10

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Christiana presumiu que a refeição foi mais generosa do que o habitual almoço da família. A visita de John Constantyn provavelmente foi responsável pela maioria dos pratos extras e salgados, mas ela suspeitava que sua própria presença houvesse inspirado Vittorio para algumas iguarias de última hora. — Ele é um dos melhores cozinheiros de Londres, posso apostar, — John confidenciou. — Disputo um convite para comer aqui sempre que posso, — ele deu um tapinha na sua grossa circunferência. — É melhor não deixá-lo cozinhar no seu casamento, David. O Rei vai roubá-lo de você. Vittorio certificou-se de que tudo estivesse perfeito na mesa, e depois se sentou com os aprendizes e Sieg. Logo após, a mesa inteira conversava em italiano. — É mais fácil para eles aprenderem na mesa, — explicou David. — Eles vão precisar aprender para o comércio. Christiana observou os meninos. Andrew era mais velho do que ela e Roger apenas dois anos mais jovem. Porém, eles não achavam estranho que uma garota de sua idade casasse com o mestre. Na verdade, as noivas novinhas eram mais comuns e ela estava um pouco velha para o papel. John serviu-se de mais salmão. — Ouvi dizer que você recebeu um carregamento hoje, David. — Tapetes de Castela. — Você está recebendo um monte de mercadorias para o inverno. — Elas vêm quando elas vêm. — Inferno. Você espera que o comércio seja interrompido na primavera ou no verão, certo? — Ele baixou a voz.

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— Ele vai fazer isso, não vai? Outra maldita campanha. Outro exército para a França e cada navio à vista requisitado para isso. Estou feliz por lidar apenas com lã. Ele nunca vai interferir nessa área. — Se Edward continuar pedindo dinheiro, não haverá prata no reino até mesmo para comprar sua lã, John, e muito menos tapetes espanhóis. — Você sempre vende seus luxos, David. Você sempre sabe o que as pessoas querem — ele se inclinou em direção a Christiana. — Ele tem instintos de ouro, minha senhora. Não se envolveu no monopólio do Rei para a exportação de lã crua há alguns anos atrás e me convenceu a ficar de fora também. Salvou o meu traseiro. Mais todos os envolvidos perderam suas vestes. A refeição foi longa, amigável e descontraída. David e John conversaram sobre negócios e política, e discutiram as políticas de Edward mais claramente do que os cortesãos. Ocasionalmente, certas opiniões soavam vagamente desleais. Barões e cavaleiros provavelmente falavam assim entre si também, ela considerou, mas não na sala do Rei. Ela examinou as pessoas sentadas nas outras três mesas. Além de Sieg, Vittorio, Geva, e os aprendizes, outros quatro serviçais trabalhavam aqui em uma base regular. A casa de David parecia grande, bem conduzida e eficiente. Certamente, ele não precisava de uma esposa para controlar as coisas. Ela sentiu uma suspeita incômoda que, no mínimo, sua própria presença seria supérflua e talvez até mesmo prejudicial. Ao longo de toda a refeição, David a deixou saber que não havia se esquecido de sua presença. Seus gestos e olhares sugeriam que, apesar de sua atenção para com seu hóspede, a maior parte de sua mente estava nela. Quando ambos tinham acabado de comer, sua mão descansou permanentemente sobre a dela em cima da mesa, os dedos longos acariciando distraidamente enquanto conversava. De forma sutil, ele manteve a intimidade que tinham compartilhado no jardim de hera.

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Ela tornou-se muito consciente de seu toque enquanto observava a refeição terminar. Quando o salão começou a esvaziar, os aprendizes dirigiram-se de volta para a loja e os servos às suas funções, ela sentiu a consciência dele aumentar mesmo que nada mudasse o comportamento ou as suas ações. John Constantyn não demorou muito tempo depois que as outras mesas tinham se esvaziado. Eles o acompanharam para o pátio. — Eu a verei no casamento, minha senhora, — disse John. — É verdade que o Rei comparecerá, David? — Como eu disse, Christiana é sua responsabilidade. — Ouvi dizer que o alcaide o convenceu a mudar o banquete para Guildhall. Christiana tentou não constranger David demonstrando que não sabia nada sobre os planos do seu próprio casamento. Eles nunca tinham falado sobre isso. Ela nunca perguntou, porque nunca esperava estar lá. Não podia culpá-lo se ele não gostasse completamente dela agora. Talvez ele não gostasse. Ele nunca iria deixá-la saber. Estava tão completamente preso quanto ela, mas iria tentar tirar o melhor proveito da situação. Isto era tudo que eles eram? Duas pessoas acomodando-se ao inevitável? — Sim. E o alcaide deixou claro que se a família real assistir, todos os conselheiros devem ser convidados. David disse. — Teremos o banquete oficial maçante do alcaide, e, em seguida, outro aqui para o pessoal da casa. Guarde o seu apetite, John. Vittorio cozinhará para o segundo. John riu. — E o seu tio Gilbert, David? Será que ele vem?

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— Eu o convidei. Pedi emprestado um pajem real para enviar a mensagem, na verdade. A esposa de Gilbert é uma boa mulher e não quero insultá-la. Ela vai fazê-lo participar, — seus olhos brilharam maliciosamente. — A decisão vai enlouquecê-lo. Declinando, fica em falta com o Rei. Aceitando, ele me honra. — Sim, — John disse, sorrindo. — Seu dilema poderia ser motivo suficiente para se casar se a melhor razão não estivesse do seu lado neste momento. Ela decidiu não pensar em como David chegou a ter uso de um pajem real. John os deixou. O pátio, de repente, parecia muito tranquilo. O braço de David deslizou ao redor de sua cintura. — Venha. Vou te mostrar a casa. Primeiramente, eles visitaram o estábulo. Sua égua preta, desencilhada e escovada, estava em uma tenda ao lado de duas montarias de David. O palafreneiro estava longe das vistas. Ela estendeu a mão e acariciou o nariz preto. Supôs que poderia nomeá-la, agora que ficaria com ela. Na edificação de frente para a rua, viu os cômodos utilizados por Michael, Roger, e alguns dos outros servos. Andrew dormia na loja, ela sabia. Era impressionante que cada pessoa tivesse seu pequeno quarto. Os servos deste mercador possuíam mais privacidade do que os nobres da guarda do Rei. Silêncio os saudou quando reentraram na sala. Mesmo a cozinha parecia vazia. Vittorio estava saindo com uma cesta no braço para fazer compras para o jantar. Ele sorriu com indulgência e escapou. Quando David abriu a porta da última edificação, Christiana pensou que lá provavelmente deveria haver um pouco mais de agitação acontecendo na casa. Ela percebeu, chocada, que todos haviam deixado o local. Ela seguiu David aos compartimentos de armazenamento cheios de caixas de madeira no primeiro nível, além de velho quarto de sua mãe. O aroma de canela e cravo flutuava em sua direção. Tapetes, especiarias e sedas. Luxos. A observação de John estava correta. David sempre poderia

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vender essas coisas. Elas davam status e honra, e muitas pessoas só comiam sopa, a fim de comprá-las. Seu braço rodeou seus ombros enquanto a levava de volta para a cozinha. O gesto simples, de repente, parecia menos casual do que antes. Ele teria dispensado todo o pessoal, ou por uma natural discrição de todos decidiram sumir para que o senhor pudesse estar a sós com a sua senhora? Eles estavam sozinhos, isso era certo. O silêncio ressoando tinha imbuído esta simples exploração com uma intimidade rastejante. No momento em que voltou para as escadas que levavam para o nível superior e os cômodos de David, sua cautela foi totalmente alertada. David começou a guiá-la para cima. Ela empacou no segundo degrau. Seu sorriso divertido a fez parecer infantil. Ele pegou a mão dela. — Vem agora, menina. Você deve ver a sua casa. Sua mente castigando seus instintos. Afinal, ela tinha ido ao solar antes. Eles iriam se casar em breve e, apesar dos avisos de Morvan, ele não havia entendido mal a razão de sua visita. Deixou-se ser persuadida para cima. À luz do dia, podia ver a beleza do solar. Os vidros de um lado tinham vista para o jardim, e no verão os perfumes das flores vagavam para um aposento alto e quadrado. David acendeu a lareira e ela caminhou ao redor, admirando a decoração. Cada cadeira entalhada, cada tapeçaria, todos os itens até os castiçais de prata, possuíam uma beleza individual e distintiva. Ela tocou o relevo de hera desenhado na cadeira em que se sentou na primeira noite. O que esse homem pensara da garota que o encarou, com os pés balançando enquanto declarava seu amor por outro? Stephen. Pensar nele ainda produzia uma dor oca. Ela olhou para cima para ver David observando-a. — Será que essas coisas lindas chegaram até você com a casa — ela perguntou. — Não.

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Ela não havia pensado assim. Como o corte severo de suas roupas, que era, de sua própria maneira, perfeito. — Você deve gastar muito tempo procurando por essas coisas. — Raramente. Algo me chama a atenção e eu compro. Isto não demora muito, afinal. Ela olhou para uma das tapeçarias penduradas ao lado das janelas. Fantástica. Ela pensou sobre a confiança de Elizabeth em seu gosto. Ele tinha um olho natural para a beleza. Devia dar-lhe uma enorme vantagem em seu comércio. Eu acho que você é a garota mais bonita que já conheci. Seus olhos lentamente seguiram o sinuoso rendilhado de chumbo que segurava os pedaços de vidro nas janelas. Sentiu que ele a observava. Ele a viu e a quis e ofereceu ao Rei uma fortuna por ela. Um pequeno livro repousava sobre uma mesa baixa perto da lareira. Ela sabia que se abrisse, iria encontrar ilustrações ricamente pintadas. Como tudo nesta sala, seria requintado. Algo me chama atenção e eu compro. Isto não demora muito, afinal. Duas portas ladeavam a lareira. Ela vagou para a da direita e abriu-a. Encontrou-se no limiar do seu quarto. Ignorando o menor escrúpulo de apreensão pela forma como a olhava, ela entrou. A lareira neste aposento apoiava-se no solar e as janelas também tinham vista para o jardim. O aposento era decorado com simplicidade, com uma cadeira perto da lareira e uma cama num palanque baixo no centro do recinto. Cortinas azuis pesadas cercavam a cama e formavam uma cobertura, e um lado estava aberto e meio amarrado para revelar uma rica colcha combinando. Um fogo ardia na lareira. Ela caminhou ao longo da parede com vista para o jardim e passou por uma porta na outra extremidade do aposento. Ela entrou em um quarto de 155


vestir com baús e cabides para roupas. Havia uma pequena lareira e banheira de madeira, assim como a de Isabele, e uma porta em sua extremidade levava a um guarda-roupa privado. A torneira em um nicho de parede, semelhante ao que era visto em outras partes da casa, providenciava água encanada. Ela abriu um lado da porta na parede e encontrou-se no topo das escadas que levam até o pequeno jardim de hera. Além do solar, este era o único outro caminho para o aposento. De volta ao quarto, ela olhou ao redor, tentando se acostumar a este espaço. David ficou no umbral, o ombro descansando casualmente contra o batente da porta. Ela sorriu fracamente para ele, sentindo-se como uma intrusa. — Onde está o meu quarto? — Você quer dizer o pavilhão da senhora? Não há nenhum. Comerciantes não vivem dessa maneira. Seu lugar é aqui, comigo. Ele caminhou até a lareira. Não houve necessidade de acender esse fogo. Ele se intensificou e estalava com as novas toras. Ela olhou para as chamas quentes brilhantes e entendeu o seu significado. Quem veio e preparou este quarto? Geva? Ele não iria expor suas intenções a uma mulher. Sieg, então. O grande sueco havia sido o primeiro a deixar a sala. Duvidava que David houvesse dito uma palavra a ele. Isto simplesmente tinha sido feito. Ela conseguiu não olhar para essa grande cama dominando o ambiente. Claro, Sieg não saberia das garantias de David no jardim. Ela não podia ficar aqui para sempre. Procurou algo para olhar. O solar se estendia na largura da edificação e tinha mais janelas além das que davam vistas para o jardim e o pátio. Este aposento não era muito grande, e sua parede era sólida. Ela viu uma porta em sua extremidade e caminhou em direção a ela. Assim que viu o aposento de lado, parou no caminho. Era um gabinete. Ela examinou rapidamente os objetos que o 156


enchia e sabia que agora definitivamente se intrometera. Começou a recuar e bateu no peito de David. Sua mão descansou sobre a dela na porta e empurrou-a para frente. — Esta é a sua casa, — disse ele. — Não há portas fechadas para você aqui. Casa. Ela não tinha uma casa, desde Harclow. Não realmente. À medida que a família real passava de um castelo ou de uma mansão a outra, ela nunca se sentira em casa, nem mesmo em Westminster. Por onze anos, havia sido uma espécie de convidada permanente. Este pequeno aposento não estava fechado para ela hoje, mas, obviamente, estaria para todos os outros. Nenhuma governanta cuidava desta sala, e uma fina camada de poeira cobria alguns dos itens nas prateleiras contíguas a janela alta. Seu olhar alcançou uma pilha de livros e alguns pergaminhos. Uma pequena pintura em estilo bizantino e uma bela escultura de marfim estavam apoiadas em uma extremidade ao lado de uma antiga harpa de mão cuja moldura era incrustada com linhas de entrelaçamento intrincadas de prata. A única mobília era uma grande mesa coberta de papéis, pergaminhos e documentos. Uma cadeira inclinada para trás, e por baixo, ela viu um pequeno baú trancado no chão. Pelo canto do olho, percebeu que a parede atrás da porta também tinha prateleiras. Ela se virou e suspirou quando o rosto de um homem olhou para ela. David riu e passou por ela em direção à prateleira. — É notável, não é? Aproximou-se espantada. O rosto do homem foi esculpido em mármore e seu realismo assombrou-a. O escultor que fizera este trabalho possuía um toque de Deus. Sombras sutis modelavam os traços com tanta precisão que se acreditava que era possível tocar e sentir a carne do osso abaixo dele. — Eu o encontrei em Roma, — explicou. — Apenas ali, nas ruínas antigas. Peguei uma pequena parte de uma coluna e isso estava em baixo. 157


Há muitas dessas estátuas lá. Corpos inteiros quase reais, e pedras esculpidas com figuras que são usadas agora para esguichar a água nas fontes. Eu vi algumas estátuas na Catedral de Reims recentemente que chegavam perto, mas nada semelhante ao norte dos Alpes. Reims. Perto de Paris. O que ele estava fazendo lá recentemente? Pergunta estúpida. Ele era um mercador, afinal. — Você carregou isto todo o caminho para casa? — Não. Eu subornei Sieg — disse ele, rindo. — Você parece gostar muito de esculturas e pinturas. Por que você não se tornou um ilustrador ou um escultor? — Porque David Constantyn era um mercador e foi ele quem me forneceu um aprendizado. Quando menino, às vezes, eu permanecia em torno de uma loja de ilustradores para assisti-los trabalhar, misturando as cores e pintando as imagens em livros. O mestre me tolerava e até me mostrou como queimar madeira para fazer ferramentas para desenho. O destino tinha outros planos para mim, no entanto, e eu não me arrependo. Ela deu um passo para trás em direção à mesa. Em um canto, estavam alguns novos pergaminhos dobrados e fechados com um selo mostrando três serpentes entrelaçadas. Espalhados através da mesa, estavam papéis com marcas estranhamente desenhadas. A de cima simplesmente mostrava linhas irregulares ligadas por curvas numeradas arrebatadoras. Pequenos quadrados e círculos alinhados ao longo das fronteiras serpenteando. Ela desviou o olhar com cuidado. Era um mapa. Por que David fazia mapas? Não hoje, disse a si mesma. Ela virou-se e examinou os livros sobre a prateleira alta. — Posso olhar um? — Qual deles você quer? — O maior deles. 158


Ele pegou o grande volume, colocando-o em cima da mesa, cobrindo os enigmáticos desenhos. Christiana se sentou na cadeira e cuidadosamente o abriu. Ela olhou com surpresa para as linhas e pontos espalhados na frente dela. — É sarraceno, David. — Sim. As imagens são maravilhosas. Continue a passar. Ela folheou os grandes pergaminhos. — Você consegue ler isso? — Alguns deles. Eu nunca aprendi a escrever bem a língua, apesar de tudo. — Isso é proibido? — Ela perguntou com ceticismo. Sabia que a Igreja desaprovava certos livros. — Provavelmente. Ela aproximou-se de uma das imagens, e era realmente maravilhosa e estranha. Homenzinhos em turbantes e roupas estranhas atravessavam um mundo no que parecia ser um tapete. — Você vai me ensinar a ler isso? — Se você quiser. Ele pegou a harpa e encostou-se na borda da mesa ao lado dela, olhando para o livro enquanto dedilhava distraidamente sobre as cordas. O instrumento produziu um lindo som lírico. Ela continuou virando as páginas, olhando de vez em quando para o homem relaxado perto dela agora e os persuasivos dedos criando uma melodia maravilhosa. Chegando ao fim das folhas, ela encontrou algumas folhas soltas cobertas com desenhos de giz. Linhas auxiliares descreviam tendas em um deserto e uma cidade à beira-mar. Ela sabia, sem perguntar, que David havia desenhado.

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Abaixo deles, em folhas menores, repousavam os rostos de duas mulheres. Um deles capturou sua atenção. O rosto, belo e melancólico, parecia vagamente familiar. Percebeu que estudava a imagem de sua mãe. Parecia estranho estar encarando assim uma pessoa morta, mas ela examinou atentamente o rosto. — Você vai me contar sobre ela? — Ela perguntou em voz baixa. — Algum dia. Ela voltou sua atenção para a outra face. — Quem é ela? — Olhou para aquela exótica beleza cuidadosamente capturada para sempre em linhas finas. Ela sabia que bisbilhotava, mas não podia ignorar a forma mundana com que aquele rosto de mulher olhava para ela. — Uma mulher que conheci em Alexandria. Tal qual o desenho de sua mãe, havia muito dos sentimentos do artista na maneira sensível como esta mulher foi desenhada. — Você a amou? — Perguntou, um pouco chocada com a sua própria ousadia, mas não demais. Ele tinha se tornado muito menos estranho desde que ela entrara neste aposento. — Não. Na verdade, ela quase me matou. Mas eu estava encantado por sua beleza, como estou pela sua — algo em seu tom calmo a fez ficar imóvel. Ela ergueu o olhar e encontrou-o olhando para ela e não para o livro e seus desenhos. Olhando e esperando. Ele era bom nisso. Algo em seus olhos e no conjunto de sua boca lhe dizia que a contemplava esperando por mais. Ele a viu e a quis e pagou ao Rei uma fortuna para tê-la. Ele havia parado de tocar a harpa. Sua pulsação bateu um pouco mais forte no silêncio renovado. Silêncio total. Nenhum som em toda a casa. 160


Ela se voltou para o livro e com muito cuidado virou a pagina, focando nos desenhos. Outra pintura apareceu, mas ela realmente não a viu. — Você sabe que vi seu cabelo solto apenas uma vez, no noivado, — disse ele. Ela sentiu a mão dele avançar em direção a ela, mesmo antes que seus dedos caíssem sobre sua cabeça. — Mesmo no banho, estava preso. A pressão leve de sua carícia a estremeceu. O banho. O quarto de vestir. Suas mãos e seu toque. — Solte o seu cabelo para mim, Christiana. Seu tom estava entre um pedido e um comando. Ela se inclinou para trás na cadeira, longe dele. Ela iria se casar com esse homem muito em breve. Não deveria sentir medo dele. Mas seu sangue acelerado e sua intuição gritaram que ficasse longe dele agora. Olhou para ele, em silêncio, pedindo-lhe para se lembrar da conversa no jardim sobre entender e esperar mais um pouco. — Provavelmente Morvan já está na loja, David. Eu deveria encontralo. — Deixei um recado que estávamos vindo para cá. — Então, provavelmente ele espera lá fora. Ele não vai entrar. Eu não deveria deixá-lo lá. Ele gesticulou para a janela. — Esse lugar dá vista para o pátio. Veja se ele espera por você. Ela saltou fora da cadeira e passou por ele, ficando na ponta dos pés para olhar para baixo, para o pátio deserto. Sua voz calma fluiu sobre suas costas e ombros. — Ele não virá. Ele aceita que você pertence a mim agora. Como você. 161


Ela caiu em seus pés e olhou para o céu da tarde clara. Uma parte dela queria desesperadamente voar pela janela. Mas seu toque, palavras e o silêncio expectante desta casa tinham despertado outros sentimentos, e aquela antecipação requintada varreu sobre ela. — Ás vezes, você me assusta, — disse ela. — Eu sei que você não quer e sei que disse que isso não é medo, mas, uma parte, realmente é. Ele ficou em silêncio por um momento. A casa parecia tremer com seu vazio. — Sim, — ele finalmente disse. — Para uma virgem, uma parte realmente é. Ela sentiu que ele se movia. Sentiu sua presença atrás dela. Ela esperava e temia seu toque, seu espírito tenso como uma corda esticada. Suas mãos gentilmente tocaram sua cintura e ela suspirou ao sentir cada dedo. Sua cabeça inclinou-se para o ombro nu. Ele beijou os pequenos arranhões, e depois seu pescoço. Ela fechou os olhos, saboreando a deliciosa proximidade. — Solte o seu cabelo, Christiana. Ela levantou os braços e desajeitadamente se atrapalhou com os pinos que prendiam seus cabelos. Retirou as voltas intrincadas e tranças, terrivelmente consciente de quão frágil e vulnerável se sentia, maravilhosamente consciente desses dedos abertos ao seu redor. As pesadas mechas caíram separadas em seu pescoço e costas, por todo o caminho até as mãos dele. Balançou a cabeça para liberar o último deles, colocando os pinos no peitoril da janela. Ele acariciou seu rosto com seu cabelo solto, e sua respiração alcançava seu couro cabeludo e pescoço através das mechas. Suas mãos a viraram e ele segurou o rosto dela, embalando-o suavemente como algo precioso e frágil. Ele a beijou com ternura, agradavelmente e completamente, e ela tremeu quando sua boca fez uma leve pressão e a sua excitação aguçou e aumentou. Ele prolongou o beijo, tomando-a em um abraço que a puxou para o seu calor. 162


Ela manteve os braços abertos ao lado dele durante um momento de preocupação, antes de aceitá-lo. Ela sentiu a mudança nele depois disso. O beijo se aprofundou, comandando seu desejo. Sua mão segurou-lhe o seio. Ela suspirou e fechou os olhos, esperando pelas deliciosas sensações. Elas a invadiram completamente. Seus membros ficaram lânguidos quando calor se alastrou através de seu corpo. Seu cabelo macio roçou o rosto dela quando ele baixou a boca para a pele exposta pelo decote de seu vestido, beijando seu colo enquanto seus dedos acariciavam os mamilos ansiosos. O medo dizia para impedi-lo, mas o desejo não deixava. Torrentes de prazer emergiam como um rio correndo rápido, e lutar contra a corrente parecia inútil e impossível. Seus dedos brincavam com ela e o prazer tornou-se um pouco frenético. Eu estou me afogando nele, pensou, enquanto sua boca clamou a dela novamente. Ele levantou a cabeça e olhou para ela, observando suas respostas ao seu toque. Ela olhou para os lábios entreabertos e os olhos profundos e sabia que não teria nenhuma ajuda dele neste dia. Ele começou a guiá-la em direção a porta do aposento. Ela pensou para onde iriam e o que ele queria. — Eu não... — ela sussurrou, mesmo quando dava mais um passo. — Foi por isso que você veio, não foi? Para garantir que este casamento não precisasse ser tão terrível? Ela resistiu no limiar. Sua mão voltou ao seio e seus lábios para o pescoço. — Você disse... Você disse que hoje não... — Eu disse, provavelmente, — ele murmurou. — E menti.

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Ele pegou o rosto dela entre as mãos novamente. — A sombra dele está entre nós e eu gostaria de banir esse fantasma. Hoje, acertamos as contas e viramos a página. Será mais fácil para você desta maneira também. Ela leu a decisão em seus olhos. — Não tenha receio. Vou esperar até que você esteja pronta e até que me queira. Vai dar tudo certo. Eu farei assim — prometeu. Eu estou impotente contra esses sentimentos, ela pensou. Não é necessário combatê-los. De qualquer forma, é inevitável. Eu sou dele para sempre. Ela virou o rosto e beijou sua mão. Ele levantou-a nos braços e levou-a para dentro do aposento.

Capítulo 11

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Seus braços finos rodeavam seu pescoço e o apertaram quando ele se aproximou da cama. Vai dar tudo certo. Eu farei assim. Palavras corajosas de um homem que não tinha tomado uma virgem desde que tinha dezesseis anos. Ainda assim, de fato, o faria. Apesar das mentiras que disse a ela hoje, isso não seria uma delas. Ele deveria ter sabido. Ela é apenas uma garota, Andrew havia dito. Em um momento elas são corajosas e no próximo tímidas. Lembra-se? Ele sentou-se ao lado da cama e a colocou em seu colo. Beijou-a até que o braço agarrado ao seu pescoço afrouxasse um pouco. Inocente e ignorante. Durante toda refeição tudo o que ele pôde fazer era não olhar maravilhado. Enquanto comia e falava, sua mente tinha recalculado o que esta revelação significava. Talvez isto tenha feito o hoje desnecessário e ele deveria esperar. Talvez isto o tornasse essencial. No final, seu próprio desejo escolheu a direção. Não iria deixá-la sair sem reclamá-la. Ele a queria e havia apenas uma maneira de possuí-la de forma segura. Ela tocou seu rosto de forma hesitante, e seu desejo aumentou. Ele tomou sua boca faminta e lutou contra a tempestade cataclísmica que ameaçava explodir através dele. Lenta e simplesmente, ele lembrou a si mesmo novamente. Ele acariciou seus seios e quando os braços dela apertaram desta vez, não era por medo. Seu corpo relaxou sob o dele. Ela tentou imitar o beijo profundo e sondou com cautela e delicadeza. O esforço ingênuo quase o desfez. A alegria que ele encontrou em sua paixão inocente o surpreendeu. Nunca havia procurado isso em outras mulheres. Não devia se importar com Christiana também, mas ele se importava. Sentiu seu corpo respondendo a ele e ouviu sua respiração agitada. Ele se deleitava no seu desajeitado abraço e com seus suspiros assustados quando as mãos elevavam a um novo prazer. Ele se deliciava com o conhecimento de que, apesar do que havia ocorrido com Percy, nenhum homem, além dele, havia despertado tais sensações nela. Beijou-a novamente, saboreando seu sabor

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suave e o arquear de suas costas. Sua mão procurou o laço de seu vestido, e ele começou a despi-la. A virgem enrijeceu por um instante enquanto a roupa soltava, mas, em seguida, seus olhos brilhantes observavam suas mãos deslizar o vestido de seus braços até a cintura. Sua boca tremia aberta e os olhos estavam fechados enquanto ele tocava seu seio através da cambraia fina de suas vestes. A pequena mão escorregou de seu ombro e acariciou o peito dele, e a explosão tentou entrar em erupção novamente. Seus dedos deslizaram sob a aba que escondia o fechamento de seu gibão. Viu a expressão séria quando essa mão se atrapalhou em seu peito. Sim. Escolhendo a rendição, a irmã de Morvan Fitzwaryn não agiria como uma vítima relutante. Ele deslizou as alças das roupas e descobriu seus belos seios. Seu olhar seguiu o caminho de seus dedos quando ele traçou suas altas redondas ondulações. Sua respiração se acelerou e ela escondeu o rosto timidamente no ombro dele. Ela era bem formada, pálida e perfeita. Sua pele não era translúcida e alva como tantas inglesas, mas tinha o tom opaco do marfim novo. Era a cor das praias brancas ao longo de Sea Inland. Ele acariciou-a, mexendo e acariciando os mamilos tensos, e todo o corpo dela reagiu. Com um leve gemido ela se arqueou ao seu toque. Os mamilos castanho-claros agitavamse como uma oferenda. Abaixou a cabeça e beijou um suavemente antes de toma-lo na boca. Ela quase pulou de seus braços. Ele segurou-a firmemente e olhou para o assustado choque em seus olhos. Ele beijou sua bochecha tranquilizando. Baixou a cabeça até que o mamilo suave estava na sua boca de novo. Jesus, o homem mal a havia tocado. Nenhuma consideração por ela, afinal. Se Idonia não os tivesse encontrado, ele a teria brutalizado. Uma imagem se formou em sua mente e seu espírito reagiu com uma onda de raiva protetora seguida por uma onda de ternura. Ele tocou-a com a língua e os dentes até que sua parte baixa pressionou contra a coxa dele em busca de alívio. Ele estendeu a mão para trás e puxou as cobertas da cama. Lenta e simplesmente, mas antes que ela o deixasse, ele iria mostrar-lhe a glória do prazer. Ela era tudo o que importava neste momento. Levantou-se 166


com ela em seus braços, virou-se e a deitou. Olhos escuros, liquefeitos pela paixão, olharam com cautela. Olhou para ela ali, nua da cintura para cima com suas roupas caindo ao redor dos quadris, e considerou deixá-la assim. Ela parecia doce e fresca e o lembrou das garotas de sua juventude deitadas no feno ou na grama. Pensou no tapete de hera no pequeno jardim abaixo. Se ele vivesse até o verão, as noites quentes estreladas prometiam um êxtase especial. Delicadamente, puxou o vestido e o deslocou para baixo de suas curvas esbeltas. Christiana mordeu o lábio inferior, quando o choque e a emoção fundiram-se com a visão dele despindo-a. Ela viu seu corpo nu surgir. Quando o vestido e as vestes se foram, ele desamarrou as ligas nos joelhos e as deslizou. Uma arrepiante expectativa a invadiu. O medo não havia desaparecido completamente. Ele agia como um tempero no calor de emoções e sensações que ferviam dentro dela. Ele retirou seu gibão e removeu a camisa antes de baixar ao lado dela. Ela viu seu corpo duro chegar até ela, e suspirou de alívio quando ele estava em seus braços novamente. Deixou suas mãos sentirem seus ombros e as costas, e observou os sulcos de cicatrizes lá. Ele se moveu por causa de suas carícias. O calor inebriante e a proximidade a afligiram. Essa estranha necessidade pulsante passava por ela toda agora, sacudindo-a dos ombros aos pés. Ele a beijou profundamente, enquanto sua mão seguia o tremor, deslizando por seu estômago e ventre, descendo pelas coxas e pernas. Possessiva, quente e confiante, sua carícia assumiu o controle de cada centímetro dela. Seu corpo se arqueou em seu toque e meneava ao ritmo daquele oco pulsar escondido. Tudo começou em espiral até a necessidade agora. Sua respiração, seu sangue, sua consciência, até mesmo o prazer fluía indo e vindo.

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Ele segurou-lhe o seio com a mão e esfregou o mamilo com o polegar. — Eu vou beijar você toda agora, — disse ele. — Não fique tímida. Nada que nos dá tanto prazer é proibido. E a beijou completamente, sua boca pressionando e mordendo e descendo pelo seu corpo, criando novos prazeres e surpresas, deixando-a sem fôlego. Descendo por seu estômago e ventre, até mesmo para as pernas. Vários beijos ainda chocantes pousaram na carne das coxas e, em seguida, no monte suave acima delas e ela gritou enquanto longas rajadas de calor atravessavam seu corpo. Seus lábios se fecharam em um dos seios, enquanto acariciava o outro e o arrebatamento aumentou a um nível frenético. Ela agarrou desesperadamente a suas costas e o cabelo. Sentia seus músculos tensos sob os dedos, e sua respiração soava irregular aos seus ouvidos. Ele se levantou e afrouxou o resto de sua roupa. Ela estendeu a mão para ajudar e sua mão roçou seu sexo. Sentiu uma reação atravessá-lo, e ela corajosamente tocou novamente quando ele chutou a roupa longe. O medo se lançou através da embriaguez do desejo. Impossível... Ele pegou a mão dela e colocou no seu ombro e, em seguida, acariciou seu corpo até as pernas. Bulindo suas coxas, deslizou a mão para cima e sob as suas nádegas. Seu braço pressionado contra ela, enquanto sua língua e os lábios despertavam os seios. A necessidade pulsante explodiu, destruindo o renovado temor. Ela empurrou contra a pressão daquele braço que oferecia alívio, mas que somente trazia tortura. Seu corpo inteiro queria mover-se em abandono, de forma primitiva e ela controlava a sensação com dificuldade. Mais e mais engoliu gritos devassos que ameaçavam encher a sala. O calor úmido da sua voz fluiu sobre ela. — Não lute contra isso, Christiana. Os sons e os movimentos de seu desejo são belos para mim. 168


Agradecida, ela submeteu-se ao delírio. Quando a mão dele se aproximou, abriu as pernas, sem inventivo. Ela não sentiu nenhuma timidez ou choque enquanto ele a acariciava, só um desejo torturante que certamente explodiria em chamas se não fosse satisfeito. As sensações de seu toque mágico a levaram à loucura. Carícias suaves criaram rastros de concentrado prazer. Toques deliberados pediam uma excitação selvagem e desesperada. Sua voz calma penetrou na angústia maravilhosa. — Você me quer agora, Christiana? Ele tocou-lhe de forma diferente e ela gritou. Conseguiu acenar com a cabeça. — Então me diga. Diga meu nome e diga que me quer. À distância, em algum lugar, ouviu sua voz dizer. A necessidade frenética a tomou completamente e seus quadris levantaram-se para acolher o corpo perto do seu. Ela se deliciava com a sensação de sua dureza e a proximidade total de seus corpos. Adorou a paixão concentrada transformando seu rosto quando ele olhou para ela. Ele a tomou lentamente e com cuidado e ela ficou maravilhada com a beleza disto. Com uma leve pressão e empurrões medidos ele a persuadia a se abrir. A dor temida não era realmente dor afinal, mas apenas um esticado aperto perdido no maravilhoso alívio dele preenchendo essa necessidade dolorosa. Sem pensar, ela agitava-se para atender a sua suave invasão. Ela congelou quando um ardente choque a deteve. Ele a beijou suavemente e a puxou de volta. — Isso não pode ser evitado, querida — ele empurrou e uma dor aguda eclipsou o prazer por um rápido instante. Seu corpo não parou e a dor e sua lembrança rapidamente desapareceram quando ele se retirou lentamente e deslizou novamente. Isto parecia desesperadamente bom. Instintivamente, abraçou-o com as pernas, 169


segurando-o mais perto, tomando todo ele para si mesma. Encontrou seu ritmo e agitou-se com ele em um silencioso canto de aceitação. Nada, nem as músicas, o toque dele ou a lição de Joan, a prepararam para a intimidade que os envolveu. Pele contra pele, respiração contra respiração, membros entrelaçados e corpos unidos... A união física inundando seus sentidos. Cada vez que ele se retirava, era uma perda. Cada vez que a enchia, uma conclusão renovada. Isto a impressionou e ela suspirou sua satisfação cada vez que se agitavam juntos. Ele parou e ela abriu os olhos para vê-lo olhando-a. A máscara cuidadosa havia ido embora e aqueles olhos azuis mostravam as profundezas que nunca deixava as pessoas verem. Ela moveu a mão e tocou o rosto perfeito, em seguida, deixou a caricia vagar para baixo para o pescoço e o peito. Ele moveu-se novamente e foi menos gentil neste momento. Ele fechou os olhos como se procurasse conter algo, mas se travava uma batalha, ela foi perdida. — Sim — ela sussurrou quando ele se moveu forte novamente. Doeu um pouco, mas o poder dele despertou algo em sua alma. Queria absorver sua força e sua necessidade. Queria conhecêlo, assim, sem suas cuidadosas defesas. Ele a olhou diretamente nos olhos e, em seguida, beijou-a como rendido. À medida que sua paixão subia em uma série de investidas fortes e profundas, alcançando uma longa e difícil realização, ela sentiu que suas essências se tocavam. Ela o prendeu a ela, seus braços espalhados em suas costas e as pernas em torno de sua cintura, e flutuou no silêncio carregado de emoção, sentindo o batimento cardíaco contra seu peito. Sentia o corpo machucado, vivo e pulsante, onde ainda estavam unidos. Lentamente, o aposento cercou-a novamente. Sentia a realidade de seu peso e força em cima dela e seu cabelo suave na bochecha. Ainda é meio estranho, pensou ela, perguntando se essa coisa podia ligá-la de maneira indescritível a um homem que mal conhecia. Incrível e assustador tocar a alma quando não se conhece a mente. Sua consciência da 170


metade desconhecida dele escoou em torno dela. De repente, sentiu-se muito tímida. Ele a levantou em seus braços e beijou-a suavemente. — Você é maravilhosa — disse ele. Ela não sabia o que aquilo significava, mas estava feliz porque ele ficou satisfeito. — É muito melhor do que pensei que seria — ela confidenciou. — Eu machuquei você no final? — Não. Na verdade, estou um pouco triste por ter acabado. Ele acariciou sua perna e tirou-a de sua cintura. Ele mudou a posição dela. — Isso é porque você não está satisfeita. Pensou em seu final quase violento. — Eu diria que estamos mais do que satisfeitos, David. Ele balançou a cabeça e tocou seu seio. Seus olhos se abriram para sua imediata resposta contundente. Sua mão se aventurou entre as pernas. Ela agarrou-o de surpresa. — Eu teria dado a você antes, querida, mas você deveria precisar de mim neste primeiro momento — disse ele, quando o frenesi bateu novamente nela. Ele tocou e acariciou a carne ainda sensível pela plenitude dele, e uma selvageria frenética desequilibrou-a. Gritou por ele, dizendo seu nome repetidas vezes, enquanto sua mente e os sentidos centravam-se sobre si mesma e perdeu a noção de tudo, exceto o esquecimento prazeroso ascendente. E então, quando pensou que não aguentaria mais e que iria morrer ou desmaiar, a tensão se partiu de uma maneira maravilhosa e ela gritou em êxtase pela liberação correndo através de seu corpo. 171


Ela viajou por um turbilhão de atordoado espanto até que eles lentamente fluíram além. — Oh meu.. — ela suspirou quando estava sem fôlego e tremendo em seus braços. — Sim. Oh meu... — disse ele, rindo e puxando-a para mais perto. Estendeu a mão para as roupas de cama e cobriu a ambos, moldando-a contra seu corpo. O rosto dele repousava sobre seu cabelo, seus lábios contra sua têmpora. Estavam deitados em uma pacífica calma. A intimidade da relação amorosa havia sido impressionante e enternecedora. Essa proximidade tranquila era doce, completa e um pouco estranha. Em questão de uma hora uma ligação havia sido forjada para sempre. Ele havia tomado posse dela de uma forma que não esperava. Ela dormiu e acordou num aposento escuro, o crepúsculo alongandose através das janelas. Sons distantes de vozes e atividades vagavam em sua direção. Ela virou-se e encontrou David apoiado no braço, olhando-a. Gostava de olhá-la. Como suas esculturas e livros? Era alguma coisa, pelo menos. Poderia ter sido um homem que não se importava com ela de modo algum. — Eu deveria voltar — disse ela. — Você vai ficar aqui esta noite. Vou levá-la pela manhã. — Idonia... — Mandei avisar que você está comigo. Ela não vai se preocupar. — Ela vai saber. — Talvez, mas ninguém mais saberá. Levarei você ao amanhecer.

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Um grito de Vittorio ecoou pelo jardim e através das janelas. Todos ali provavelmente já sabiam, ou saberiam logo quando ela não partisse. Pensou nos olhares de soslaio que enfrentaria dos servos e dos aprendizes, de Idonia e até mesmo de toda a corte se uma palavra escapasse. — Você vai ficar aqui comigo — ele repetiu. Não era um pedido. Ele se levantou da cama e caminhou até a lareira. Seus músculos esculpidos se delinearam quando se esticou até um tronco e colocou sobre o fogo. Na súbita iluminação brilhante, ela estudou seu corpo, casualmente e sem vergonha de sua nudez, e notou as linhas nas costas que seus dedos haviam sentido. Cicatrizes de chicotes. Como ele as tinha conseguido? Seu falecido mestre não parecia um homem capaz disso. Ele se voltou e ela o observou vir, surpresa com o prazer excitante que sentia ao olhar para ele. Puxando para baixo o cobertor, ele olhou para o seu corpo. Ele acariciou languidamente suas curvas. Ela observou a mão excitante se mover. — Você está dolorida, querida? Gostaria de tê-la novamente, mas não quero machucá-la. Mais uma vez? Quantas vezes as pessoas fazem isso? Apesar da franqueza de Joan, uma grande quantidade de informação havia sido deixada de fora. Sua declaração franca de desejo a estremeceu. Não havia dúvida de sua preocupação por ela, mas sabia que a pergunta também lhe oferecia uma escolha. — Eu não estou dolorida — levantou os braços para seu abraço apaixonado. Ao longo da tarde e noite, ele forjou uma corrente invisível de aço amarrando-a a ele. Sentia isso acontecendo e se perguntou se era algo que ele controlava. Ligações apaixonadas e intimidade acompanhadas por prazer e ternura a cercavam. Tarde da noite, enquanto se deliciavam com o calor da lareira, ela perguntou sobre o casamento e soube que a cerimônia também fora

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transferida. Eles se casariam na catedral com o bispo presente, em vez da paróquia de David. — Está ficando muito sofisticado — ela meditou. — Não pude evitar. Uma vez que o alcaide descobriu que Edward estaria presente, o problema começou. Esperava que ninguém soubesse e ele simplesmente aparecesse. Ele falava sobre o Rei de uma forma casual. Por que ela hesitava em perguntar sobre essa relação? Por que achava que era um tema proibido e que insistir nisto seria bisbilhotice? Sentiu que seria, porém, hoje não queria bater em portas que ele não podia abrir. Ela mudou de assunto. — David, o que mais você espera de mim? A pergunta o surpreendeu. — O que você quer dizer? — Considerando o quão estúpida era sobre isso, não vai surpreendê-lo saber que sei pouco sobre o casamento. Não tive uma educação muito prática. — Espero que você seja fiel a mim. Nenhum outro homem toca em você agora. Seu tom de voz firme a surpreendeu. — Você entende isso, Christiana? — Claro. Não sou tão estúpida, David. Estava me referindo a coisas domésticas. Tudo aqui é tão organizado. — Eu realmente não tinha pensado nisso. Então, por que ir à procura de uma esposa se você não havia percebido que precisava de uma. — Isabele acha que você espera que eu trabalhe para você — disse ela sorrindo. 174


— Ela acha? Confesso que isso não havia me ocorrido, mas é uma boa ideia. Devo agradecer a princesa. A esposa oferece um excelente trabalho livre. Nós vamos te dar um tear. — Não sei tecer. — Você pode aprender. — Quanto poderá ganhar depois que eu aprender? — Pelo menos cinco libras por ano, acho. — Isso significa que em duzentos anos vou ganhar de volta o meu dote. — Sim. Uma excelente barganha para mim, não é? Eles riram e, em seguida, ele acrescentou — Bem, a casa é sua. Geva ficará feliz com isso, suponho. E, às vezes, os garotos precisam de uma mãe. — Um dos meninos é mais velho do que eu, David. — Não será sempre assim, e Michael e Roger estão longe de casa e podem valer-se da compreensão de uma mulher, em algum momento. E você terá seus próprios filhos, também, no seu tempo. Crianças. Tudo o que ele havia mencionado poderia ter sido fornecido pela filha de um mercador que trouxesse um grande dote. Crianças, também. Mas seus filhos seriam os netos de Hugh Fitzwaryn. Morvan suspeitava que David procurasse sua linhagem para os seus filhos com este casamento. Ele poderia estar certo? Descobriu que esperava que fosse verdade. Isso explicaria muita coisa, e significava que lhe traria alguma coisa que outra mulher não podia.

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Mais tarde, naquela noite, ela acordou em seus braços. Isto parecia normal, estar em seus braços. Estava imóvel, alerta para a realidade e o calor dele. Como era estranho sentir-se tão perto de alguém tão rapidamente. Fiel à sua palavra, ele a levou de volta para Westminster ao amanhecer. Ela caminhou pelos corredores de uma edificação que parecia um pouco estranha agora. Entrou na privacidade oculta de sua cama enquanto Joan e Idonia ainda dormiam. A mão firme empurrando a acordou e ela olhou para o rosto radiante de Joan. — Você não vem almoçar? Você dorme o sono dos mortos — disse Joan. Christiana pensou que pular o almoço e apenas dormir o dia todo soava como uma ideia maravilhosa, mas se levantou e pediu a Joan para chamar uma criada. Uma hora mais tarde, vestida e penteada, ela se sentou ao lado de Joan em um banco no grande salão, pegando a comida e observando a cena familiar que agora parecia levemente estranha. Seus sentidos estavam alerta e entorpecidos ao mesmo tempo e sabia que as horas com David tinham causado isso. Joan fez-lhe algumas perguntas sobre a casa de David, e ela respondeu sem entusiasmo, não querendo compartilhar qualquer dessas lembranças agora. Perto do final da refeição, lady Catherine aproximou-se de sua mesa, seus olhos de gato brilhando. Ela conversou com Joan por um tempo e depois virou um rosto gracioso para Christiana. — Você se casará muito em breve, não é, querida? Christiana assentiu. Joan olhou para Catherine bruscamente, como se fosse rude mencionar o casamento. — Tenho um presentinho para você. Vou enviá-lo para o seu aposento — Catherine disse antes de sair.

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Ela se perguntou por que lady Catherine iria fazer uma coisa dessas. Afinal de contas, não eram boas amigas. Ainda assim, o gesto tocou-lhe e deixou-a pensar que Morvan, como de costume, tinha exagerado ao alertála sobre Catherine. Thomas Holland animou Joan a sair e deixou Christiana sozinha. Ela retornou ao aposento deserto de Isabele, feliz com a privacidade. A rotina da corte parecia intrusiva quando seus pensamentos habitavam no ontem e no futuro. Entrou no aposento de Isabele. Em quatro dias deixaria tudo para sempre, pensou, olhando para fora da janela. Não temia isso. Uma parte dela já havia partido. O som de uma porta se abrindo chegou aos seus ouvidos. Joan ou Idonia retornando. Não havia visto sua protetora desde seu retorno. Ela se perguntou o que aquela pequena mulher diria. Entretanto, os passos que avançaram através da antessala não eram de uma mulher. Morvan havia chegado. Um simples olhar e ele saberia. Era corajosa o suficiente para dizer: — Sim, você estava certo e foi mágico e se eu gostei? — Sua força se manteve por anos entre ela e todos os homens, e agora ela mesma tinha se entregado a quem ele odiava. Os passos seguiram adiante. Pararam no limiar do quarto de dormir. — Querida — disse uma voz familiar. Choque soou através dela. Virou-se. Lá na entrada estava ninguém menos que Stephen Percy.

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Capítulo 12 — Stephen — ela engasgou. Ele sorriu e avançou em sua direção, com os braços convidando a um abraço. Ela assistiu sua aproximação com uma estranha combinação de assombrado desespero, caloroso deleite e fria objetividade. Notou os músculos consideráveis sob seu gibão. Observou a beleza dura de suas feições. Seus cabelos loiros e pele clara atingindo-a como esmaecida e vaga em relação à coloração dourada de David. Ela não conseguia se mover. Confusão, horror, e emoções pretensiosas a paralisaram. Não agora, sua alma gritava. Há um mês, ou um mês depois, mas não agora. Especialmente hoje. Braços fortes a rodearam. A boca dura esmagou a dela. Ela o empurrou. Seus olhos verdes expressaram surpresa e depois, brevemente, alguma outra coisa. Aborrecimento? — Você está com raiva de mim, meu amor, — disse ele com um suspiro. — Não posso culpá-la. Ela virou-se, segurando a borda da janela para se apoiar. Querido Deus, não teria paz? Havia encontrado aceitação e contentamento e até mesmo a esperança de algo mais, e agora isso. — Por que você está aqui? — Para vê-la, é claro. — Você voltou a Westminster para me ver? — Sim, querida. Por que mais? Usei a desculpa do torneio da préquaresma. 178


O torneio estava programado para começar no dia seguinte ao seu casamento. Stephen amava aquelas competições. Ela suspeitava que fosse a sua verdadeira razão para vir, mas o seu coração partido, ainda não totalmente curado, agitou-se com a noção de que ele veio por ela. A dor ainda era muito crua, a humilhação ainda muito recente para rejeitar completamente a esperança de que ele realmente a amasse. A garota que tinha completa fé neste homem, desesperadamente, ainda queria acreditar. Seu coração ansiava por aquele conforto. Sua mente, no entanto, tinha aprendido uma coisa ou duas de sua agonia. — Quando você chegou? — Há dois dias. Não a procurei imediatamente porque estava com o meu amigo Geoffrey. Ele está com mau aspecto, com febre. Está na casa de lady Catherine em Londres. — Você é amigo de Catherine? — Não realmente. Geoffrey é, no entanto, — ele deu um passo na direção dela. — Ela me contou tudo sobre o seu casamento com o mercador, — disse ele com simpatia. — Se Edward não fosse meu Rei, eu iria desafiá-lo por humilhá-la assim. Ela olhou para a preocupação em sua expressão. Parecia um pouco exagerada, como uma máscara que se coloca em um festival. Ele se aproximou e acariciou seu rosto. O coração despedaçado, dolorido por um bálsamo de renovadas ilusões, suspirou. O espírito e a mente, lembrando a noite passada de paixão e os direitos de David, a fizeram se afastar. — Você já sabia sobre o meu casamento, não? Escrevi-lhe uma carta. — Sabia. Eu recebi, querida. Mas nunca imaginei que o Rei iria seguir com isso. E Catherine me contou sobre a sua infelicidade e humilhação. Que amabilidade de lady Catherine, Christiana pensou amargamente. Por que essa mulher se intrometia em seus assuntos? E como Catherine soubera sobre Stephen e ela? 179


Joan. Joan havia fuxicado. Será que todos sabiam agora? Provavelmente. Todos estariam observando e esperando nos próximos dias, talvez nos próximos anos, para ver como este drama se desenrolaria. — Talvez eu não devesse ter vindo, — Stephen murmurou. — Catherine assegurou-me que você gostaria de me ver. — Estou contente por vê-lo, Stephen. Pelo menos, posso parabenizálo pelo seu próprio noivado. Ele fez uma cara de resignação. — Foi uma escolha do meu pai e do meu tio, meu doce. Ela não me serve, na verdade. — Ao mesmo tempo, é sua esposa. Como David é meu marido. — Sim, e isso me dilacera, pois não há nada que possamos fazer, minha querida. Uma luz em seu interior, em seguida, se apagou, e sabia que era a última chama de suas ilusões e sonhos infantis. Não doeu muito, mas algo de sua inocência morreu com isto, e ela sentiu a perda amargamente. Apesar de tudo, havia acalentado um pouco de esperança, mesmo sabendo e enxergando a verdade. Se ele não tivesse voltado, teria desaparecido lentamente enquanto viveria sua vida e sua paixão com David, assim como uma pequena poça de água que desaparecia no calor de uma tarde de verão. E se Stephen tivesse falado de forma diferente? E se tivesse vindo para propor uma fuga e pedir que ambos os noivados fossem anulados? Era o que aquela reserva de esperança queria, afinal. Uma semana atrás, ela teria feito isso, apesar da desgraça que cairia sobre ela. Ainda na semana passada, essa oferta poderia ter curado instantaneamente a sua dor e banido suas dúvidas sobre ele. Agora, no entanto, seria impossível. Agora... Uma compreensão horrível ocorreu. A presença de Stephen recuou enquanto sua mente compreendia as implicações. Impossível agora. David tinha previsto, não tinha? Na noite passada, havia consumado seu casamento. Nenhuma anulação seria 180


possível agora, a menos que o próprio David negasse o que havia ocorrido. E sabia, apenas sabia que ele não iria, apesar da promessa naquela primeira noite. Eu espero que você seja fiel a mim. Nenhum outro homem a toca agora. Todas essas testemunhas... Até Idonia e seu irmão. Um frio estranho a sacudiu. David soubera que Stephen estava vindo. Havia perguntado a peregrinos e mercadores. No entanto, ele não podia saber se Stephen vinha reclamá-la. Mesmo assim, havia coberto essa possibilidade. Metodicamente, cuidadosamente, havia providenciado para que ela não pudesse fugir com Stephen. Se ela o fizesse de qualquer maneira, apesar das correntes invisíveis forjadas na noite passada, apesar da desonra e da vergonha, ele possuía a prova necessária para recuperá-la. A crueldade disso a surpreendeu. Lembrou-se das emoções pungentes que sentira na noite anterior. Duas vezes tola. Mais ilusões infantis. Sua confiança estúpida nos homens devia ser risível para eles. A presença ardente perto de seu ombro interrompeu seus pensamentos. Stephen pairou perto, seu rosto perto do dela. — Nada há que possamos fazer sobre esses casamentos, querida, mas na vida há o dever e, em seguida, há o amor. — O que você está dizendo, Stephen? — Você não pode amar esse homem, Christiana. Isso nunca vai acontecer. Ele é vulgar e seu mero toque vai insultá-la. Eu a pouparia disso se pudesse, mas não posso. Mas posso aliviar sua dor, querida. Nosso amor pode fazer isso. Dê a este mercador o seu dever, mas mantenha nosso amor em seu coração. Queria dizer a ele o quanto estava errado, como o toque de David nunca insultava. Mas que palavras poderia usar para explicar? Além disso, não tinha certeza de que a magia fosse voltar agora que sabia por que a 181


tinha seduzido. Talvez na próxima vez, na noite de núpcias, ela, de fato, se sentisse insultada e usada. Bem, o que esperava? David era um mercador e ela era uma propriedade. Uma propriedade muito cara. Duvidava que o Rei Edward o restituísse. Amor, pensou tristemente. Havia pensado que existisse um pouco de amor. Sua ignorância era incrível. David estava certo. Ela vivera sua vida como se fosse uma canção de amor. Mas a vida não era assim. Os homens não eram assim. — Sou uma mulher casada, Stephen. O que você está sugerindo é desonroso. Ele sorriu para ela da mesma forma como se pode sorrir para uma criança inocente. — O amor não tem nada a ver com honra e desonra. Tem a ver com se sentir vivo ao invés de morto. Você vai perceber isto em breve. — Espero que não seja tão ousado para pedir a prova do meu amor agora. Eu me casarei dentro de poucos dias. — Não. Eu não daria ao mercador uma razão para censurá-la ou prejudicá-la, embora o pensamento de ele tê-la primeiro me irrite. Case com o seu mercador como é seu dever, querida. Mas saiba que estou aqui. — Sou uma mulher honesta, Stephen. E não acho que você me ame de modo algum. Acho que era apenas um jogo para você, e ainda é. Um jogo em que você não perde nada e eu arrisco tudo. Não vou jogar no futuro. Ele começou a protestar estendendo a mão para ela. Passos na antessala pararam. Ela virou-se para a nova presença no limiar. Meu Deus, não haveria misericórdia? Morvan preencheu a porta, olhando para os dois. Por um momento horrível, uma tensão aguda encheu a sala. 182


— Percy, é bom vê-lo, — disse Morvan, avançando para dentro do aposento. — Veio para o torneio? — Sim — disse Stephen, afastando-se dela. Morvan olhou para os dois novamente. — Suponho que vocês estão desejando felicidades um ao outro em seus próximos casamentos. Atordoada, ela assentiu. Não havia nenhum ponto em tentar explicar a presença de Stephen. Ela viu nos olhos de seu irmão que havia ouvido os mexericos. — Existe uma coisa estranha sobre o casamento da minha irmã, Stephen, — Morvan disse enquanto caminhava para a lareira. — Dizem que o Rei a vendeu por dinheiro, e acreditei nisto também. Mas recentemente me perguntei se isso não aconteceu por outro motivo. Talvez ele tentasse salvar a reputação dela e a honra da minha família, e não desgraçá-las. Ela observou-os considerarem um ao outro. Não agora, Morvan, ela pediu em silêncio. Não importa mais. — Tenho que ir, minha senhora — disse Stephen, voltando-se com um sorriso para ela. Ela fez um gesto impotente e assistiu-o andar a passos largos através do aposento. — Sir Stephen, — Morvan o chamou a partir da lareira. — Seria insensato de sua parte insistir. — Você está me ameaçando? — Stephen assobiou. — Não. Já não cabe a mim fazê-lo. Simplesmente, como um amigo, estou dizendo que seria um erro. Seu marido não é um mercador típico. E tenho motivos para pensar que ele sabe bem como utilizar as adagas que usa.

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Stephen sorriu de uma forma condescendente antes de deixar o aposento. Ela enfrentou o escrutínio escuro de seu irmão. Ele a olhou de cima a baixo, e procurou os olhos dela. — É um costume, irmã, esperar um intervalo razoável de tempo após o casamento antes de se encontrar com um dos antigos amantes. Ela não tinha resposta para essa bronca tranquila. — E uma vez que passou a noite na cama daquele homem, você está, de fato, realmente casada agora. — David. O nome dele é David. Você sempre o chama de — aquele mercador — ou — aquele homem, — Morvan. Ele tem um nome. Ele a olhou com as pálpebras semicerradas. — Estou certo, não estou? Você dormiu com ele. Com David. Era inútil mentir. Sabia que ele saberia. Ela assentiu com a cabeça, sentindo-se muito menos segura sobre essa decisão agora que entendia as motivações de David. — Você não deve ver Percy novamente por um longo tempo. — Não marquei um encontro com Stephen. — Ainda assim, deve ser cuidadosa. Essas coisas são levadas na esportiva, se a mulher é discreta ou se o marido não se importa, mas você não tem experiência em tais enganos e seu mercador não me parece um corno disposto. — Eu disse a Stephen que não estou mais interessada nele. — Ele não acreditou em você.

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Ele só estava tentando ajudá-la. Seu conselho era, provavelmente, tão bom como qualquer homem. Ele certamente havia dormido com a sua quota de mulheres casadas. — Você me despreza? — ela sussurrou. A expressão tensa cobriu o rosto dele. Atravessou o espaço e a tomou em seus braços. — Não. Mas não desejo que você seja a mulher desse homem, e não quero que seja a prostituta de Percy. Consegue entender isso? Sinto-me culpado por não encontrar uma maneira de levá-la para longe daqui. Ela olhou em seus olhos escuros. Leu a preocupação neles e pensou que entendia parte dela. — Não acho que ser a mulher de David seja tão ruim, Morvan. Ele pode ser muito gentil. Um pequeno sorriso brincou em sua boca. — Bem, pelo menos, uma boa notícia. Estou contente por ele ser capaz de alguma coisa, além de fazer dinheiro. Ela deu uma risadinha. Ele apertou seu abraço e depois a soltou. — Compartilhe suas refeições comigo nestes últimos dias, — disse ele. — Gostaria de ter passar um tempo com você. Ela assentiu com a cabeça e observou tristemente enquanto se afastava. Ela nunca duvidou que seu irmão houvesse solicitado seu comparecimento às refeições porque queria lhe fazer companhia. Iria deixá-lo em breve, e uma nostalgia sutil permanecia entre eles nesses jantares e ceias, mesmo quando conversava alegremente com os outros jovens em sua mesa. No entanto, a presença de Morvan ao lado dela tinha outros benefícios e suspeitava que ele havia pensado neles. Stephen não ousava aproximar-se dela no corredor enquanto Morvan ficava nas proximidades, e os olheiros

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cortesãos não conseguiram nenhuma satisfação para as suas curiosidades sobre o status do caso de amor. Todo mundo sabia. Stephen tinha apenas levantado de seu banco e olhares de soslaio estavam atentos para ver se iria falar com ela. Tornou-se claro que a corte acreditava que um caso de adultério com Stephen era provavelmente inevitável em algum momento. Ela teve a impressão de que muitos desses nobres aceitaram a ideia com alívio, como se tal caso fosse uma forma de redenção para ela. O casamento com o mercador seria apenas uma formalidade então, e muito mais fácil de engolir e até mesmo ignorar. Sim, Joan havia contado. Quando Christiana confrontou-a, ela chorosa, admitiu. Apenas uma garota, ela insistiu. Christiana não teve dificuldade em imaginar como o pequeno vazamento se transformou em um rio de sussurros dentro de horas. Ela encheu os próximos dias com os preparativos para o casamento. No sábado, Philippa veio ao aposento para examinar seu enxoval e imediatamente ordenou fazerem mais roupas e meias para ela. Um novo manto foi confeccionado também. Camelôs desceram para que pudesse escolher dois novos chapéus. Baús chegaram a ser preenchidos com roupa de cama e utensílios domésticos para levar para o seu novo lar. Ela passou a maior parte de seu tempo no aposento manejando esses bens, mas sua mente vivia em David. Eles haviam concordado que ele não viria antes do casamento por causa de suas preparações demoradas e porque tinha seus próprios assuntos para colocar em ordem. Ao mesmo tempo, esperava que ele a surpreendesse com uma visita. Seria a coisa mais romântica a fazer, mas quando chegasse não seria essa a razão verdadeira, apesar de que ele pudesse fingir que sim. Esperava que ele verificasse se Stephen não a tinha convencido a fugir ou fazer qualquer coisa desonrosa. Ele poderia querer verificar se o seu plano havia funcionado. Ele não veio. Sábado se transformou em domingo e prolongou-se até a segunda-feira. Começou a ficar irritada.

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Tinha certeza que David sabia que Stephen havia retornado. Como podia deixá-la à própria sorte, quando outro homem que vagava queria seduzi-la? Um homem, além disso, por quem havia se apaixonado? Ele tinha tanta segurança em si mesmo? Aquela certeza de que uma noite pudesse equilibrar a razão do coração de uma mulher? Não se preocupava com o que a presença de Stephen poderia estar fazendo a ela? Ela ponderou sobre isso esporadicamente durante os dias. À noite, remoía os pensamentos com ressentimento. Mas no silêncio escuro de sua cama acortinada, suas recriminações sempre conseguiam se esvair enquanto outros pensamentos sobre David a dominavam como uma maré inexorável. Imagens de seus olhos azuis e ombros retos em cima dela. O poder de sua paixão avassaladora esmagando seu controle estudado. Seus seios ficavam sensíveis, as coxas úmidas e os pensamentos se fundiam em perturbados sonhos durante um sono profundo. Ela acordava cada manhã se sentindo como se tivesse sido violada por um fantasma, mas não havia encontrado nenhuma realização. David não veio, mas outros vieram. Individualmente, em duplas ou trios, as mulheres da corte se aproximaram dela. Sim, Joan havia contado, e não apenas sobre Stephen. Parecia que toda mulher se sentia obrigada a aconselhar a garota órfã de mãe, que, dizia-se, era incrivelmente ignorante sobre procriação. Algumas criadas se juntaram, enquanto ela se banhava no dia de seu casamento, a moça que lhe atendeu, corajosamente descreveu como tornar um homem louco de desejo. Christiana corou do couro cabeludo aos dedos dos pés. Duvidava seriamente que as mulheres nobres fizessem a maior parte dessas coisas, mas afastou os mexericos suculentos de sua mente. O ato de se vestir se transformou em uma festa alegre com todas as suas amigas lá. Elas deram-lhe presentes e conversaram enquanto as servas a preparavam. Philippa chegou para escoltá-la até o hall. A Rainha examinou-a de perto e ajustou a capa vermelha sobre os ombros. Então, com as filhas a seu lado, com Idonia, Joan, e várias outras mulheres presentes, a Rainha Philippa levou-a para o corredor.

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Morvan as aguardava. Ele usava um manto formal que chegava a metade da perna. Cinto de cavaleiro amarrado a cintura, mas sem a espada. — Vem agora, — disse ele, tomando-lhe o braço. — O Rei já aguarda. As portas se abriram. Ela deu um passo para fora. Ela congelou. — Oh, Deus — ela suspirou. — Uma grande vista, não é? — Morvan murmurou secamente. O pátio estava cheio de cavalos, de pessoas e carruagens. Ela viu lady Elizabeth entrando numa das carruagens cobertas pintadas e outros braços femininos pendurados nas janelas. Cavaleiros e lordes a esperavam em cavalos enfeitados para o desfile. O Rei Edward, resplandecente em uma roupa vermelha bordada a ouro, passeava com seu cavalo perto da porta. Uma longa fila de guardas reais permanecia esperando. A presença de tantos cavaleiros e nobres a tocou. Eles vieram para homenagear sua família e, talvez, para tranquilizá-la. Também vieram por causa de seu irmão, e ela estava agradecida. A extensa comitiva real, e as instruções óbvias que todos deviam seguir o Rei na parada, eram outro assunto. O Rei fez um gesto e três carruagens douradas vieram para frente. — Oh, Deus — ela engasgou novamente, observando este grandioso toque final chegar. — Sim, é para você. A própria Rainha vai acompanha-la — explicou Morvan. — Esta comitiva vai se estender por quarteirões. Londres inteira vai assistir. — O Rei homenageia você, Christiana. Ela se afastou do olhar sorridente de Edward e falou baixo no ombro de seu irmão. — Não sou estúpida, Morvan. O Rei não me honra, ele 188


homenageia Londres. Ele não leva Christiana Fitzwaryn para se casar com David de Abyndon. Ele leva uma filha da nobreza para se casar com um filho da cidade. Ele me transforma em um presente para Londres e um símbolo de sua generosidade para com ela. Ele segurou-lhe o cotovelo e deslizou para frente. — Não pode ser desfeito. Você deve ser a filha de nossa mãe e lidar com isso como ela o faria. Vou andar ao seu lado. Ela o deixou guiá-la para a carruagem da frente e a colocar dentro. Ela se inclinou e sussurrou em seu ouvido. — Eu resolvi pensar o tempo todo que não sou a virgem sacrificada que eles pensam. O desfile enfileirou fora do pátio, liderado pelo Rei e seus filhos. No momento em que chegaram a Strand, espessas multidões haviam se formado. Dentro dos portões da cidade estava pior. Os guardas usaram seus cavalos para manter as pessoas afastadas. Lentamente, com visibilidade insuportável, fizeram seu caminho até a Catedral de St. Paul. Morvan a ajudou a sair da carruagem. — Bem, irmão, você não tem nada para me dizer? — Ela perguntou quando eles se aproximavam da entrada. — Nenhum conselho? Nenhum sermão sobre ser uma esposa submissa e obediente? Não há um pai para me advertir, então cabe a você, não é? Ele deteve-se no pórtico e olhou através da porta aberta da cavernosa nave cheia de cortesãos barulhentos e de curiosos habitantes da cidade. — Sim, tenho palavras para você, mas não um sermão, — ele se inclinou para seu o ouvido. — Você é uma moça muito bonita. Há poder para uma mulher no desejo de um homem, irmãzinha. Use-o bem e você será a dona dele e não o contrário. Ela riu. Sorrindo, ele apressou-a para a nave. David esperava perto do altar. Seu coração deu uma guinada com a visão dele. Ele parecia magnífico, perfeito, igual a qualquer lorde numa audiência. O corte estreito de seu longo e cinturado manto de veludo azul reforçava a sua altura. 189


As mangas embutidas feitas em comprimentos exagerados e largos na moda pareciam em outros homens ridículos e pouco viris. Belos bordados de ouro decoravam as bordas e o centro da peça. Ela perguntou quem o havia convencido a concordar com isso. A pesada corrente de ouro esticada de ombro a ombro. Morvan a entregou. Idonia rapidamente tomou seu manto, e desapareceu. David olhou para ela, enquanto o barulho da multidão ecoava no teto de pedra alta. — Você é a garota mais bonita que eu já conheci — disse ele, repetindo as palavras que havia falado no jardim de hera. Ela tinha uma longa lista de coisas para censurá-lo, e algumas mágoas profundas e dúvidas que preocupavam seu coração. Mas o calor naqueles olhos azuis a suavizou e o som de sua bela voz a acalmou. Haveria tempo suficiente para preocupação e magoas. Este era o seu casamento e o mundo inteiro assistia. Uma hora depois, ela saiu da catedral com um anel de ouro no dedo e o braço de David de Abyndon em torno de sua cintura. A carruagem esperava, mas Sieg, parecendo quase civilizado com um manto cinzento considerável, trouxe um cavalo. — Você vai cavalgar comigo, querida. Com essa multidão, as carruagens podem não chegar a Guildhall. — Você podia ter me avisado sobre isso, David, — disse ela quando o pandemônio se instalou no pátio da catedral e nas ruas circundantes. — Foi como o prelúdio de um antigo sacrifício. — Eu não sabia, mas talvez devesse ter esperado algo assim. Edward ama cerimônia e pompa, não é? Ela não se convenceu. Ele sempre parecia saber de tudo. Ela olhou de soslaio para o rosto dele quando a levantou sobre a sela e virou-se para trás.

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Sua aceitação branda do comportamento de Edward irritou-a, mas ele não havia estado com uma garota numa exposição pública antes. — O Rei deve apreciá-lo muito se trouxe toda essa comitiva — ela comentou secamente. — Eu seria um tolo ao pensar que sim. Isso não teve nada a ver com você ou comigo. Juntaram-se ao fluxo de cavaleiros montados e lordes avançando em direção a Cheap. O braço de David rodeou sua cintura, sua mão descansando debaixo de sua capa. Ela estendeu a mão e tocou o diamante pendurado em uma corrente de prata no pescoço. Havia sido entregue enquanto se vestia. — Obrigada pelo colar. Combinou perfeitamente com o vestido. — Edmund me garantiu que faria. Fico feliz que você goste. — Edmund? — O modista que fez suas roupas de casamento, Christiana. E o seu vestido de noivado. E a maioria de suas capas e túnicas ao longo dos últimos anos. Seu nome é Edmund. Ele é um dos principais cidadãos da cidade de Westminster e um homem importante em seu mundo. Ela sentiu-se corar. Sabia o nome do modista. Simplesmente havia esquecido agora. Mas David estava dizendo que ela deveria conhecer as pessoas que a serviam e não pensar nelas como nulidades. Seu desgosto rapidamente deu lugar à irritação. Ela não gostou que uma das primeiras coisas que seu marido lhe falara havia sido essa bronca atravessada. Outras razões para a irritação marchar para frente em sua mente. — Eu pensei que você viria me ver — disse ela. — Nós concordamos que eu não viria.

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— Mesmo assim, pensei que viria. Sentiu que a olhava, mas ele não disse nada. — Ele está de volta à corte, — acrescentou. — Mas, é claro, você sabe disso, não sabe? — Eu sei. Era isso. Sem perguntas. Nada mais. — Você não se perguntou o que poderia acontecer, — ela desabafou com raiva. — Você tem a maldita certeza de si mesmo? — Ter vindo teria insultado você. Eu achei que a filha de Hugh Fitzwaryn tivesse muito orgulho e honra para deixar seu leito conjugal e ir para o de outro homem, especialmente depois de ter enxergado a verdade sobre ele. — A despeito de tudo... — Christiana, — ele interrompeu calmamente, abaixando a boca para sua orelha e passando os lábios ao longo de sua borda. — Não vamos falar sobre isso agora. Não vim porque meus dias foram preenchidos para preparar este casamento. No tempo que pude ter, acomodei assuntos de negócios para que pudesse passar os próximos três dias na cama com você. E passei as noites pensando sobre o que faria quando a tivesse lá. Ela teria gostado de ignorar o arrepio de excitação que seus lábios e palavras provocaram, mas seu corpo tinha estado traindo-a durante as muitas noites e agora respondia contra sua vontade. Obrigou-se a lembrar de sua sedução calculista para reivindicar a sua propriedade. Ela se ressentia de sua autoconfiança. — O que o faz pensar que vou escolher passar os próximos três dias dessa maneira? — Ela perguntou.

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— Você é minha mulher agora, menina. Certamente sabe que só tem opções se eu as der a você. Ele apertou os lábios em sua têmpora e falou mais suavemente. — Você vai descobrir que sou um mestre razoável, querida. Sempre preferi a persuasão ao comando. Sob a total cobertura de seu manto, ele estendeu a mão e acariciou seu seio. Seu corpo estremeceu com a liberação surpreendente de prazer. Ela olhou ao redor nervosamente para os rostos voltados para eles em sorridente curiosidade. Ele acariciou seu mamilo e beijou sua bochecha. Ela sentiu vontade de virar e morder seu pescoço. Virou a cabeça e aceitou o beijo profundo esperando por ela e essas sensações maravilhosas fluindo através dela como um delicioso suspiro de alívio. Toda Londres assistiu. — David, as pessoas... Podem ver... — ela sussurrou sem fôlego quando ele levantou a cabeça, mas não moveu sua mão. Seus dedos estavam deixando-a louca. — Não podem. Alguns podem suspeitar, mas ninguém pode saber com certeza, — ele sussurrou. — Se você está com raiva de mim, pode me censurar à vontade após os banquetes. Comprometo-me a ouvir bastante a sério e esclarecer todas as suas dúvidas, — ele beijou seu pescoço novamente. — Mesmo quando eu estiver lambendo os seus seios e beijando suas coxas, vou prestar muita atenção ao seu sermão. Podemos discutir o meu mau comportamento entre os seus gritos de prazer. Ela já estava tendo bastante dificuldade em lembrar o que queria repreender ou discutir. No exato momento que sentiu uma vontade implacável de contorcer-se contra a sela, chegaram a Guildhall. Ela temia que não fosse capaz de ficar sobre as pernas lânguidas quando ele a levantou para colocá-la no chão. — Isso não foi justo — ela sussurrou.

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Ele pegou a mão dela e levou-a para Guildhall. — Eu só jogo para ganhar, Christiana, e faço minhas próprias regras. Você não aprendeu isso exatamente agora?

Capítulo 13 David inclinou-se nas sombras contra o limite da entrada, assistindo aos dançarinos girarem em torno da enorme fogueira no centro do pátio. Casais brincavam juntos em uma dança de roda na periferia do círculo, mas perto do centro um grupo de mulheres atuava uma exposição enérgica sozinhas. Uma das mulheres de Oliver, Anne liderava o grupo, uma vez 194


que ela dançara profissionalmente em algumas ocasiões, quando a oportunidade e o pagamento eram convenientes. Servas-meninas e mulheres da ala a rodeavam. No meio delas, com o rosto corado de prazer e com os olhos brilhando, a figura elegante de Christiana Fitzwaryn girava. As luzes da fogueira pareciam inflamar as mulheres em um ritmo que combinava com os tambores batendo. Todo o pátio e casa brilhavam por conta da enorme fogueira e das muitas tochas ao longo das construções e o jardim atrás. As fogueiras matizavam a noite celeste de laranja, e à distância, provavelmente parecia que a casa estava em chamas. Sem dúvida, os sacerdotes insistiam que a cena, com os foliões entregues a todos os pecados mortais, se assemelhasse ao fogo do próprio inferno. Pessoas lotavam o pátio, os jardins, e os cômodos da casa. Homens e mulheres empoleirados no telhado do estábulo. À sua esquerda, vários casais abraçavam-se em um canto escuro. Uma gargalhada chamou sua atenção e ele se inclinou para trás e olhou para o corredor. Os corpos aglomerados se separaram por um momento e viu o homem rindo sentado junto ao fogo com uma garota em cada joelho. O bordado de ouro no manto vermelho era a única prova de que este homem era o Rei, pois Edward havia derrubado sua personalidade real, logo que entrou pelo portão com seus dois guardas após enviar sua esposa e família a casa depois do banquete de Guildhall. Ele estava bêbado agora, e há muito tempo os convidados haviam parado de tratá-lo como soberano e simplesmente o integraram em sua alegria. David voltou sua atenção para sua esposa. Ele gostava de vê-la, mesmo quando ela não se mexia de modo algum, mas a sua liberdade e prazer nessa dança o hipnotizava. Como o seu Rei, ela rapidamente sucumbira à disposição irrestrita deste segundo grupo, e David tinha prazer em assistir a sua alegria quando ela festejou, bebeu e ocupou-se das brincadeiras com os vizinhos da ala. Ela moveu-se maravilhosamente, languidamente, envolvendo-se até nessa dança básica com uma elegância nobre. Seus lábios se abriram em

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um sorriso sensual quando girou ao redor, desfrutando finalmente, o êxtase do movimento que tinha indiretamente sentido tão frequentemente antes. Ele observou e esperou, reprimindo a vontade de caminhar até o fogo, pegá-la e levá-la embora. Ele a queria. Muito. Ele a queria há semanas, e sua noite juntos só tinha feito o desejo mais devastador. Ele passou os últimos dias em um estado de desejo perpétuo. Sua inocência naquele dia tinha desarmado-o de uma forma perigosa. Sua paixão não tinha defesas, e sua entrega total e a aceitação o tinha queimado. Ao contrário das mulheres experientes com quem normalmente dormia, ela não sabia nada sobre se proteger das intimidades mais profundas que pudessem surgir ao fazer amor, não sabia nada sobre a realização de sua essência separada da união, não sabia nada sobre como separar o ato de um simples prazer físico. Ela sentia a proximidade que isso trazia e simplesmente deixava o poder vir e envolver a ambos. Ele tinha visto o deslumbramento em seus olhos e sentiu o espanto dele em seu abraço generoso e quase a avisou para ter cuidado, pois poderia haver perigo e dor para ela, também. Mas ele não a alertara que a intimidade profunda trazia um conhecimento dela que algo dentro dele ansiava e, no final, também se revelara fraco na defesa contra a magia que não havia sentido em tantos anos. Seu olhar a seguiu, seu corpo respondendo aos sedutores movimentos de sua dança. Em sua imaginação, ela olhou para ele e tocou seu rosto e seu peito e suspirou um — sim — que pedia tudo de si. A figura caminhou na frente dele, felizmente distraindo seus pensamentos ardorosos. Morvan bebeu um pouco de vinho enquanto andava casualmente, examinando os dançarinos. Os tambores e tamborins batiam um final frenético e, em seguida, a dança terminou abruptamente. Todos ao redor do fogo, os corpos pararam e soltaram respirações profundas por seus esforços. Christiana e Anne abraçaram-se com uma risada. Ela pensava que Anne era a esposa de Oliver. Ele teria que lhe dizer a verdade, supôs. Morvan chamou a atenção de Christiana e fez um gesto para ela. Ela saltou até ele com um largo sorriso. Ele se curvou e disse algo, e David observou a felicidade e prazer desaparecer de seu rosto e seu corpo como se alguém tivesse arrancado. Ela jogou os braços ao redor dele e 196


falou com sinceridade, suplicando-lhe, sem dúvida, para ficar mais tempo. Morvan sacudiu a cabeça, acariciou seu rosto, e se afastou. Ele caminhou em direção ao portão. Christiana olhou atrás dele, seu corpo em linha reta, de repente, sozinha e isolada, apesar da multidão ao seu redor. David podia ver sua expressão composta, mas não tinha dificuldade em ler a tristeza nela. Sua vida inteira, toda a sua família, todo o seu passado estava saindo de casa agora. Ele se afastou do umbral e foi até ela. Passou o manto sobre os ombros, e ela olhou para cima com um sorriso fraco antes de seu olhar voltar para o homem alto que se afastava. Ele sorriu e balançou a cabeça. Ele caminhou atrás de Morvan, chamando seu nome. Uma parte dele não podia acreditar que faria isso por ela. O jovem cavaleiro parou e se virou. Ele se voltou e encontrou David parcialmente. Eles se enfrentaram no brilho do fogo. — Você vai embora, Morvan? — Sim. É melhor ir agora — ele olhou para sua irmã. — Você deve visitá-la em breve. Ela vai querer vê-lo. Morvan o olhou com surpresa. — Sua vida será bastante modificada e pode ser difícil para ela, — continuou David. — Eu não a quero infeliz. Venha quando quiser. Esta casa estará sempre aberta para você. Morvan parecia mais surpreso ainda. Ele balançou a cabeça e sorriu um pouco. — Eu agradeço por isso, David. Para o nosso bem. David retornou para Christiana. A capa estava caindo e ele a envolveu mais calorosamente, abraçando seu ombro. 197


— O que você disse a ele? — Ela perguntou, seu olhar ainda em seu irmão. — Disse a ele que deve visitá-la sempre que quiser. — Você disse, David? Você realmente disse? — Ela se virou para ele com um sorriso brilhante. Sua surpresa e gratidão natural mexeu algo dentro dele. — Sei que ele é tudo o que você tem, querida. Ele só procurou protegê-la, e não posso culpar ninguém por isso. Eu não ficaria entre vocês. Ela se aninhou mais perto dele e olhou-o nos olhos com uma inocência quase infantil. — Nem tudo que tenho, David. Não mais. Tenho você agora, não é? Nós temos um ao outro, não é? Ele a abraçou e ela colocou a cabeça em seu peito, o rosto voltado para as sombras que engoliram o corpo alto de seu irmão. David colocou seu rosto na sedosa nuvem de seu cabelo. Tudo o que ela era, tudo o que ela deveria ser, saía por aquele portão. A vida que levou e tinha nascido para viver, a posição assegurada por seu sangue, retornava para Westminster esta noite sem ela. Ele não tinha dúvidas de que ela entendia isso. Ela sabia o que esse casamento havia tirado dela. Ele beijou o cabelo dela e fechou os olhos. Ele podia dar isto de volta para ela. Tudo o que ela estava perdendo e muito mais. Tinha poder para fazer isto. A oferta ainda estava de pé e poderia ser feita de novo, ele estava certo. Só precisava jogar conforme o planejado, mas mudar o movimento final. Sabia exatamente como fazer isto. Estava considerando a possibilidade há semanas. Como se lesse seus pensamentos, ela inclinou a cabeça e olhou para ele. — Você é muito bom para mim, David. Eu sei que vai cuidar de mim e fazer tudo o que puder por mim.

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Inclinou-se para beijá-la e seus lábios entreabertos subiram ao encontro dos dele. Um tremor sacudiu-a e ela apertou-se contra ele quando o abraçou com força. Sua mente obscureceu e o controle das últimas horas quebrou. Ela agarrou-o tão desesperadamente como ele fez com ela, sua boca convidando-o a um beijo profundo. Talvez fosse o vinho e a dança. Talvez fosse a sua gratidão por Morvan. Não se importava. Aceitaria a sua paixão de qualquer jeito que viesse a ele. Ficaram, assim, à beira do brilho do fogo, dois corpos moldados em conjunto, eliminando a separação, os sons da folia ecoando em torno deles. Ele a beijou repetidamente, querendo consumi-la e absorvê-la dentro de si mesmo. Ele encontrou a sanidade para afastar a boca. — Vamos subir — ele sussurrou, com o rosto enterrado em seu pescoço, o cheiro dela deixando-o louco. — Sim, — disse ela. — Agora. Ele colocou o braço dela por baixo do seu enquanto a beijava novamente. De alguma forma, encontrou cegamente o caminho através do pátio para dentro do prédio e subiram as escadas. Um grupo de foliões discretamente saiu do solar, quando eles chegaram, e ele chutou fechando a porta atrás deles. Em seu quarto, ele atirou fora suas capas e caiu sobre a cama com ela, cobrindo-a com seu corpo, sentindo seu comprimento flexível curvar-se para ele. Sua cabeça esvaziada de tudo, menos da sensação e do cheiro dela. Ele tentou se controlar, tentou acalmar a tempestade trovejante que o controlava, mas o inquisitivo beijo profundo que lhe deu a tornou feroz e cheia de desejo quando ela tomou sua cabeça entre as mãos e o apertou mais. Ele conseguiu retirar a túnica sem rasgá-la, mas as laçadas da capa desafiaram seus práticos dedos. Puxou o nó enquanto beijava e mordia os topos de seus seios. Finalmente, em uma fúria frustrada, ele moveu-se de lado, virou-a de bruços e olhou para o fechamento relutante. — Fique quieta, — ele murmurou, puxando a adaga e desviando o olhar da paixão obscurecida. Levantou-se de joelhos e deslizou a lâmina

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sob os cordões. — É um velho truque de casamento. Suas servas deram um nó que não pode ser desfeito. Ela riu maravilhosamente, liricamente, e depois se virou de costas, com alegria ajudando-o a empurrar o vestido para baixo. Quando este se foi, ela ficou de joelhos e voou para ele, como se a separação durasse uma eternidade. Ele se perdeu então. Em um turbilhão frenético de carícias e beijos, conseguiram tirar suas roupas. Com gritos e suspiros e pequenos risos extasiados, suas mãos se encontraram no seu cinto e camisa e finalmente estenderam-se acaloradamente sobre sua pele. Ele empurrou a roupa de seus ombros, revelando seus seios, e virou-a de costas para que ele pudesse deleitar-se com a sua doce suavidade. Seus gritos o aniquilaram e libertou seu último fio de controle. Ele empurrou sua combinação até os quadris e sentiu a umidade de sua excitação. — Eu prometo que vou te dar prazer lentamente mais tarde, — ele disse enquanto se deitava. — Durante toda a noite, se quiser. Mas agora não posso esperar, querida. Ele abriu suas pernas e ajoelhou-se entre elas. Ela olhou para ele, seus olhos escuros brilhantes. Ele olhou para seu lindo rosto e os seios brancos redondos. A roupa agrupada em sua cintura e as meias ainda estavam presas em seus joelhos. Ele empurrou a barra da combinação até em cima, expondo seus quadris e estômago. Ele tocou a pulsante carne inchada entre as coxas e viu o prazer estremecê-la. As fantasias de seu desejo o pressionavam implacavelmente. Apesar da ignorância dela e da necessidade dele, não podia resistir. Ele afastou suas pernas tanto que ela ficou erguida e aberta para ele. Sua respiração irregular rompeu sua névoa, e ele olhou e viu o lampejo de desconfiança e surpresa em seus olhos. — Não tenha medo, — disse ele quando levantava seus quadris. — Eu quero beijar você inteira. Isso é tudo.

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Ele sabia que não podia se entregar assim por muito tempo. Seu próprio corpo não deixaria. Nem, podia ver, o dela deixaria. Ela se contorceu e gritou com o choque e a intensidade desse novo prazer, e logo sentiu as primeiras ondas de sua liberação. Ele a deixou e veio por cima dela, trazendo suas pernas, acomodando-as em seus ombros. Ela se debatia em frustração por ele a ter trazido até a beira do precipício, mas não além. — Em breve, querida. Prometo. Quando nos juntarmos — disse ele calmamente, se levantou e entrou nela com um impulso. Todo o seu corpo tremia de torturante prazer, mas o próprio tremor deu-lhe de volta algum controle. Estendendo os braços, empurrou dentro dela, enchendo sua consciência com a deliciosa sensação que se encontrava à beira de sua própria liberação. Ela observou-o enquanto ele se movia, as mãos acariciando seus ombros e peito, naquela maneira aberta de aceitação dela, com os olhos brilhantes e suaves suspiros dizendo-lhe que ele preencheu outras necessidades além daquelas de seu corpo. As emoções se infiltraram fora dela e em torno dele e abraçou os dois, tão certo como os braços entrelaçados estiveram momentos atrás. Ele sentiu o estiramento, o alongamento do clímax dela. Seu próprio controle começou a ruir. Estendeu a mão entre seus corpos para dar sua liberação. Enquanto o frenesi a possuía, ela agarrou impetuosamente a ele, arqueando seus quadris contra suas investidas, puxando-o com ela para o delicioso estupor. Ele raramente procurava a liberação mútua. Na verdade, evitava. Agora, quando a paixão deles se elevava e estalava juntos, ele sentiu o êxtase dela, mesmo quando o seu próprio o atravessava. Por um instante sobrenatural o raio da tempestade derreteu-os em um compartilhamento de plenitude. Quando eles terminaram, ele ficou com ela, beijando-a suavemente enquanto movia as pernas para baixo, deixando-se apreciar a gloriosa 201


expressão em seu belo rosto. Ele rolou para suas costas, levando-a com ele para que se deitasse sobre ele. Ele a segurou, a cabeça em seu peito e os joelhos abrangendo seus quadris, e viu sua mão acariciar suas costas pálidas e quadris. Depois de um longo tempo ela levantou a cabeça pensativamente. — Eu ouço alaúdes — ela disse. — Você me lisonjeia. Ela riu e bateu no ombro de brincadeira. — Não, David. Eu realmente escuto. Ouça. Ele se concentrou e ouviu os tons líricos entre o ruído distante da festa. Ele a moveu, saiu da cama e desapareceu no guarda-roupa. Christiana esperava, ainda flutuando na maravilhosa magia de sua paixão. Parecia que os sons dos alaúdes ficaram mais altos. Ele voltou e puxou a colcha da cama. — É para você. Você deveria reconhecê-los — ele passou a cobertura quente sobre seus ombros, e ela se levantou e se juntou a ele em seu casulo aconchegante. A porta para as escadas que levam ao jardim de hera estava aberta, e saíram no patamar de pedra. David levantou-a e a sentou no muro baixo circundante, colocando o cobertor firmemente em torno de suas pernas. Abaixo no pequeno jardim ela pode ver quatro homens com alaúdes. Eles cantaram as linhas poéticas de uma canção de amor. Ela reconheceu o baixo profundo de Walter Manny. — Quem são os outros? — Ela sussurrou. — Eles são todos do Pui. É uma tradição, quando um deles se casa. Eles começaram outra canção. Tochas iluminavam o jardim maior, mas aqui os cantores eram apenas formas escuras nas sombras. Acima 202


deles o céu da noite clara brilhava com uma centena de estrelas. David estava ao lado dela, segurando-a sob sua capa, acariciando seus cabelos. Havia algo incrivelmente romântico sobre estar com ele na noite fria com a intimidade de sua união ainda pairando sobre eles, enquanto a música tocava. Walter cantou a próxima música sozinho. Possuía uma lenta melodia calma que tinha ouvido apenas uma vez antes. Era a música que David havia cantado naquele dia no salão, que havia achado tão triste. Agora ela percebia que não era uma canção triste de modo algum, apenas suave e bonita. Seu pensamento estava em Stephen naquele dia, e ela realmente não tinha notado as palavras, mas desta vez ouvia atentamente. Não era realmente uma canção de amor, mas uma canção que elogiava uma mulher e sua beleza. As palavras falavam de membros elegantes e porte nobre. Seu cabelo foi descrito como negro como a noite de veludo, sua pele pálida como o luar, e seus olhos, como os diamantes das estrelas... Ela ficou mais entorpecida. Ela escutou o resto da canção linda que a descrevia. David havia escrito isso. Ele havia tocado essa música no corredor para ela naquele dia, e nem sequer havia ouvido. A voz e o alaúde de Walter fecharam a melodia. Ela olhou para a sombra do homem ao seu lado. Seu coração cintilava quente e orgulhoso por ele a ter honrado desta maneira, há muito tempo, mesmo quando o tratara tão mal. — Obrigada — ela murmurou, estendendo-se para beijar-lhe a face. Eles ouviram várias outras músicas, e, em seguida, os quatro músicos se adiantaram e curvaram-se para ela. — Obrigada, Walter — ela disse baixinho. — Minha senhora — respondeu ele, e as sombras o engoliram.

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— Que tradição maravilhosa, — disse ela a David quando voltaram para a cama. — Você já fez isso? — Sim, já passei a minha quota de noites frias de inverno em jardins cantando a novas noivas. Ficamos até que ela reconheça o que tem nos ouvidos. Nessas ocasiões, o noivo está tão extasiado na cama que leva horas. Nós o atormentamos depois disso. Ela riu e descansou a cabeça em seu ombro. — Foi um casamento maravilhoso, David, — um clamor ainda entrava através das janelas da contínua folia lá fora. — Eu me diverti muito. Anne diz que eu danço muito bem para uma amadora. Disse que vai me ensinar mais se eu quiser. — Se a agrada, você deve fazê-lo. — Eu gosto dela. Eu gosto de Oliver, também. Ele é um velho amigo? — Desde que éramos meninos. — Eles estão casados há muito tempo? Uma expressão peculiar passou pelo seu rosto. Ele parecia tão bonito agora, seu cabelo dourado caindo sobre a testa, seus profundos olhos azuis sobre ela. — Christiana, Oliver cede mulheres. Anne vive com ele, mas não é sua esposa. Ela é uma de suas mulheres. — Você quer dizer que ela é sua prostituta? Anne é uma prostituta? Ela faz isso com estranhos, por pagamento? Ele permite e ainda traz os homens para ela? — Sim. — Como ele pode? Ele parecia se importar com ela, David. Como... 204


— Na verdade, eu não sei. Imaginou Anne, com seus cachos castanhos e rosto muito doce, mas mundana. — Deve ser horrível para ela. — Eu suspeito que a maior parte dela não esteja realmente lá com eles. As pessoas podiam fazer isso? Juntar-se assim e nem sequer se preocupar com isso, não sentir nada? Ou apenas ter o prazer e fechar os olhos para a pessoa que o proporciona? Isto a golpeou como um pensamento triste e assustador. Ela virou a cabeça e olhou para o dossel ondulante de tecido azul acima deles, sentindo pena de Anne e não muito satisfeita com Oliver por esperar essas coisas dela. Eram pobres, é verdade, mas certamente devia haver alguma outra forma de sobreviver. E, no entanto, teve que admitir que este ato de amor, obviamente, acontecia em todos os tipos de formas e por todos os tipos de razões. Na verdade, suspeitava que muitas vezes o amor não tinha nada a ver com isso de modo algum, especialmente para os homens. Afinal, o desejo que ela e David compartilhavam foi principalmente físico, não foi? Para ele, isso era tudo. E outras mulheres tinham estado aqui, onde ela estava agora, experimentando a mesma coisa. Ele as queria e agora ele a queria. Quem ele desejaria na próxima vez? Repentinamente, a magia e a maravilha pareciam muito menos especiais. Será que esse desejo dura muito tempo? Talvez, se um homem pagasse mil libras por uma mulher, ele se sentisse obrigado a desejá-la por um longo tempo. Mas quando o desejo desaparecesse, o que sobraria para ela? Uma casa e talvez crianças. Não coisas pequenas, mas ela queria mais. A admissão a assustou e ela não compreendia os sentimentos que isto revelou. Percebeu, no entanto, que podia haver perigo na cama com este 205


homem, e as chances de decepções muito piores do que havia conhecido com Stephen Percy. Um estranho vazio abriu em seu interior. Parecia uma solidão desoladora, apesar do homem que a segurava. Ela estava tendo um momento maravilhoso nestas últimas horas, rindo e dançando e sendo subjugada pela paixão mútua. Aninhada com ele do lado de fora, enquanto as canções de amor eram tocadas havia sido tão romântico. Ela friamente percebeu que havia sido tola construindo outra ilusão, outro sonho. Sentiu-o mudar e, em seguida, aqueles olhos azuis estavam acima dela, estudando-a. — O que você está pensando? — Perguntou ele. Você não sabe? Ela queria dizer. Você sempre sabe. Ela encontrou seu olhar e percebeu que ele sabia. Pelo menos uma parte. — Estou pensando que há mais nisso do que posso entender, — ela fez um pequeno gesto que cobria a cama. — Você deve me achar muito infantil e ignorante em comparação com as outras mulheres que conheceu. Mulheres bonitas. Mulheres mundanas. Mulheres experientes. Ela nunca poderia competir com elas. Ela nem sabia como. Por que, em nome de Deus, ele tinha se casado com ela? Sua mão acariciou sua bochecha e virou o rosto para ele. — Estou muito contente com você, Christiana. Ela se sentiu um pouco melhor, mas não muito. — Alicia foi sua amante, não foi? — Ela desabafou. — Sim. Mas acabou.

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— Havia outras, também, outras pessoas que conheço e que me conhecem — disse ela inexpressivamente. Ele apenas olhou para ela. — Elizabeth? — Ela perguntou, pensando na requintada bela mulher e sentindo um irritante e crescente ciúme. Ninguém jamais poderia competir com Elizabeth. — Elizabeth é uma velha amiga, mas nunca fomos amantes. Uma indignação protetora imediatamente substituiu o ciúme. — Por que não? Você é melhor do que a maioria dos homens com quem ela foi associada. E esse lorde com quem se casou é velho e feio. Ele riu. — Agora você está zangada com ela porque nós não dormimos juntos? Mais ainda, não houve insulto nisto. Elizabeth gosta de amantes muito jovens. — Você é jovem. — Não tão jovem. Ela gosta deles ainda parcialmente imaturos. Ela quer influenciá-los. — Jovens como Morvan? — Sim. Ela pensou sobre isso, e nos meses que Morvan havia servido Elizabeth. Um longo tempo para ele. Preocupar-se com o irmão aliviou as preocupações sobre si mesma. — Você sabe sobre os dois e o que aconteceu? Alguns na corte pensavam que eles iriam se casar, mas depois acabou. Morvan nunca falaria comigo sobre isso. Ele olhou para o travesseiro por um momento e ela podia dizer que ele sabia. 207


— Oh, por favor, David, me diga, — ela o adulou. — Ele é meu irmão, afinal. Sou muito discreta, você sabe. Sou a única mulher na corte que não fofoca. — Uma virtude rara que eu não deveria corromper. — Sempre escutei. E nunca repeti o que ouvi — disse ela. — Elizabeth não se casou com seu irmão porque ele nunca pediu. Além disso, ela o amava e ele não a amava. Não do jeito que ela queria. Elizabeth nunca iria ligar-se a um amor tão desigual. Depois, há o fato de que ela é estéril. Ela sabe desde a infância. É por isso que somente os velhos se oferecem a ela. Eles já têm seus herdeiros. Um dia, seu irmão, será o senhor de Harclow novamente e ele vai querer um filho. — Não, David, acho que ele nunca será. O Rei jurou que isso aconteceria, mas ele se esqueceu. — Os homens não esquecem seus juramentos. Ela se perguntava o que mais David sabia sobre as pessoas com quem ela havia passado sua vida. Talvez, se provasse ser muito discreta, ele diria em algum momento. Isso parecia muito agradável e acolhedor, conversar assim no calor da cama. Quando estava em pé e andando, ele ainda permanecia um mistério para ela, mas aqui, a intimidade temporariamente bania isso. — Fiquei surpresa com a presença do Rei esta noite — disse ela, imaginando o quão longe podia empurrar seu temperamento. — Mesmo reis gostam de ter um pouco de diversão. Ser real pode ser entediante, e Edward ainda é jovem. Ele não é muito mais velho do que eu. — Ele parece conhecê-lo bem.

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— Somos da mesma idade, e ele fica mais confortável comigo do que com os oficiais da cidade que são muito formais. E tenho feito alguns favores para ele. Ele me envia em missões. Para Flanders principalmente. Levei cartas para o governador de Ghent em várias viagens. — Você ainda faz isso? Estes recados? — Sim. Algumas das viagens que faço são para Edward. Então era isso. Ela sorriu pela sua tola hesitação. Ela deveria apenas ter perguntado mais cedo. Tudo fazia um sentido perfeito e inocente. Ainda assim... — Elas são perigosas? Essas viagens? — Não costumam ser. Não era a mesma coisa que dizer que não eram. Ela decidiu deixá-lo, no entanto. Ela se aconchegou mais perto, apreciando a sensação de seu braço ao redor dela. Pensou sobre algumas das pessoas que conhecera no banquete em Guildhall. Em particular, lembrou-se dos lábios finos e dos cabelos grisalhos de Gilbert de Abyndon, que tentou ignorar a presença de David, mesmo quando David a apresentou. — Eu gostei de Margaret, a mulher de Gilbert. Acho que nós duas poderíamos ser amigas. Você acha que ele permitiria? Na verdade, ela queria saber se David permitiria. Margaret não era muito mais velha do que ela, e uma mulher amigável de cabelos loiros. Elas haviam apreciado o breve encontro e a conversa, apesar da presença de seus maridos como congelados sentinelas. — Provavelmente. Gilbert é muito ambicioso. Ele vai aprovar o seu casamento comigo por causa de sua nobreza e as ligações na corte. Como a maioria dos mercadores mais ricos, ele quer elevar a posição de sua família para a nobreza.

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— Ainda assim, ele pode se opor a ela me visitar. É evidente que você e ele se odeiam muito. Seu comentário foi recebido com um longo silêncio. Ela virou-se e encontrou-o olhando para o dossel azul tanto quanto havia feito antes. Olhou para ela com um brilho nos olhos. Mencionar esse tio o tinha irritado simplesmente? Ele beijou seu cabelo como se quisesse tranquilizá-la. — Eu o odeio pelo que fez com a minha mãe, e ele me odeia porque estou vivo e uso o nome Abyndon. Ele é o pior da nossa raça, minha menina. Crítico e inflexível. Ele é cheio de justiça própria e frequenta a igreja todas as manhãs, antes de passar o dia maldizendo as pessoas. Se ele tivesse vindo a essa casa hoje, teria visto nada da alegria e prazer, mas apenas pecado e fraqueza. Se você fizer amizade com Margaret, deve saber disso, porque esse é o homem ao qual ela está ligada. Esperançosamente, para o bem dela, seu velho marido morrerá em breve. Ela piscou ante suas últimas palavras. Desejar a morte de alguém era uma coisa terrível. A maneira desapaixonada como ele disse a surpreendeu ainda mais. — Precisamos encontrar uma criada para ajudá-la com suas roupas e tal, — acrescentou. — Geva disse que você iria querer escolher uma garota sozinha. Em poucos dias, visite Margaret e peça sua ajuda. Veja se Gilbert vai permitir. Ele acariciou seus cabelos e seu ombro e ela se esticou contra ele, enquanto o excitante calor de sua carícia despertava sua pele. Suspeitava que ele quisesse fazer amor novamente. Ela esperou ele começar, e se surpreendeu quando ele começou a falar, sua voz calma fluindo em seu ouvido. — Meu tios Gilbert e Stephen já estavam próximos dos vinte anos quando minha mãe ainda era uma garota. Madura o suficiente, quando tinha catorze anos, para saber o que queriam dela. Ela era linda. Perfeita. Mesmo quando morreu, apesar de tudo, ainda era linda. Seus irmãos viram no casamento dela uma oportunidade. Eles tinham tudo planejado. Um 210


nobre para ela. Segunda opção, um mercador da Liga Hanseática. Em terceiro lugar, um marido da nobreza rural. Eles estabeleceram um dote considerável e começaram a empurrá-la na frente de tais homens. A cada banquete, eles traziam-na até eles, vestida como uma dama. — E se isso funcionou? — Sim, funcionou. John Constantyn me disse o que ela não fez. As ofertas brotaram. Gilbert e Stephen debatiam qual aliança seria melhor para eles, é claro, e não para ela. Tornaram-se muito espertos e jogaram um homem contra o outro. — Ela recusou a escolha deles? É por isso... — Pior do que isso, como prova o meu corpo ao lado do seu. Eles não tinham sido suficientemente cuidadosos com ela. Seus pais estavam mortos, e as criadas que a supervisionavam eram indulgentes com ela. Ela se apaixonou. O homem foi embora no momento em que ela se descobriu grávida. — Foi um de seus pretendentes? — Aparentemente não. Ainda assim, seus irmãos tentaram resolver o desastre das formas usuais. Eles exigiram saber o nome dele para que pudessem forçar um casamento, mas ela não quis dizer. Gilbert tentou tirálo dela, e ainda assim ela não falou. E então, eles encontraram outro marido que iria aceitá-la nessas circunstâncias e requeresse um casamento rápido. Interiormente, Christiana fez uma careta. Ela se lembrou daquela primeira noite no solar de David, ele lhe perguntando se estava grávida. Pensou que era a mesma história, e que ele era o outro homem cujo casamento rápido encobriria o erro de uma garota. — Ela não aceitou, — continuou ele. — Tinha certeza de que seu amante voltaria para ela. Ela foi até o sacerdote e declarou que não desejava o casamento.

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Mais corajosa do que eu, Christiana pensava. Meu Deus, o que deve ter passado pela mente de David naquela noite, enquanto me encarava de modo impassível diante do fogo? — O que eles fizeram? — Eles a mandaram embora. Havia alguns parentes em Hastings e ela foi para lá. Gilbert disse a ela para desistir do filho quando nascesse. Se ela não o fizesse, todo o seu apoio cessaria e seria como se ela estivesse morta para eles. Sob nenhuma circunstância devia voltar para Londres. — Mas ela ficou com você. E voltou. — Tinha certeza de que seu amante viria, e sabia que ele não saberia onde encontrá-la se não estivesse aqui. E assim, voltou rapidamente. De alguma forma, ela encontrou Meg e começou a trabalhar com as lavadeiras. Meg atuou como parteira quando nasci. Naqueles primeiros anos, nós vivemos em um pequeno aposento atrás de um estábulo perto do rio. Além de Meg e de outras operárias, eu era o único companheiro de minha mãe. Gilbert e Stephen nunca a viram, e fiel à sua ameaça, nunca lhe deram um xelim. Ela podia morrer de fome por tudo o que eles soubessem ou se importassem. — E você? Sabia quem ela era e quem eram eles? — Não até que tinha cerca de sete anos. Então ouvi sobre esses homens com o nome da minha mãe e comecei a entender um pouco do que acontecera. Stephen começou a subir na política da cidade, em seguida. E eu sabia até então que era um bastardo. Os outros rapazes garantiram que eu soubesse disso. Vários anos depois, ela se tornou a governanta de David Constantyn e as coisas ficaram melhores para ela, apesar de que Gilbert e Stephen nunca o perdoaram por ajudá-la. Em suas mentes, ela merecia tudo o que havia acontecido. Sua miséria era o preço do seu pecado contra Deus e eles. Principalmente eles.

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Ele contou esta história simples e uniforme, de seu jeito habitual. Mas ela percebeu que muitos outros pensamentos estavam vinculados a esse conto, e que alguns deles a preocupava. Ela se lembrou do desenho do rosto desta mulher que havia visto, e olhando para os seus traços perfeitos agora, podia ver sua mãe nele. Mas outro rosto havia contribuído para essas feições e os olhos profundos. Um rosto desconhecido. — Qual era o nome dela? O nome de sua mãe? — Joanna. — E seu pai? Você o conhece? — O único pai que conheci foi o meu mestre. A primeira vez que o vi, ele me repreendeu por ter roubado uma de suas maçãs. Ele saiu do jardim de hera quando eu estava sentado debaixo de uma árvore comendo enquanto minha mãe ajudava na lavanderia no pátio. Falei rápido e firme para evitar uma surra, tenho que dizer. De qualquer maneira, ele me deu um bom soco e me arrastou de volta para minha mãe. Poucas semanas depois, ele apareceu enquanto estávamos aqui e me levou até a cidade para ver um ladrão ser enforcado. No caminho de volta, ele me disse que havia duas maneiras de homens inteligentes ficarem ricos. Uma delas era através de roubo e outra era através do comércio, mas que os ladrões viviam vidas mais curtas. Aos oito anos de idade eu já havia feito a minha parte no roubo, e a lição não foi perdida. Imaginou as maltrapilhas crianças que, às vezes, ela via nas ruas da cidade aproximando-se silenciosamente das carruagens e das janelas, correndo com alimentos e mercadorias. Imaginou o pequeno David entre eles. Nunca sendo pego, é claro. — Ele se ofereceu para casar com ela, eu acho, — acrescentou ele, pensativo. — Lembro-me de chegar até eles um dia, quando tinha cerca de doze anos. Eles estavam sentados na sala. Algo importante estava sendo discutido, posso dizer. Senti que era isso. — Você acha que ela o recusou? 213


— Sim. Eu achava, então, que ele se oferecera, porque me queria. Nós nos tornamos bem próximos então, muito parecidos com um pai e um filho. Nós compartilhávamos o mesmo nome. Ela tinha escolhido o meu da Bíblia, mas é um nome incomum na Inglaterra e eu sabia desde o início que ele era fascinado por isso. Apesar de seu cargo na casa, pensei que ele tinha aceitado a mãe para conseguir o filho. Mas agora acho que talvez fosse o contrário. — Será que ela o recusou por causa do outro homem, seu verdadeiro pai? — Sim. Seu coração esperou muito tempo depois que sua mente desistiu. Eu a desprezava quando era um jovem, mas quando ela estava perto de morrer, eu a entendia um pouco. Ela pensou no entendimento paciente de David durante o noivado, mas também de seu cruel e implacável argumento sobre Stephen. Você ainda espera por ele, depois de todo esse tempo e quando a verdade é tão clara. Foi melhor, Edward ter entregado você a mim. Você teria desperdiçado toda a sua vida esperando e vivendo em um sonho fracassado. Quando não a repudiou, ele havia assumido uma possibilidade dolorosa. Ela apertou-se contra o caloroso conforto do seu corpo, sentindo a textura de sua pele contra a sua extensão. Tocou-lhe o que ele havia dito sobre Joanna e sua vida anterior. Pouco a pouco, talvez, ele deixasse de ser um estranho para ela. Ela também sabia que não estava em sua natureza fazer tais confidências e que só a intimidade do seu casamento e a paixão tinham permitido isto. Sem pensar, ela esfregou seu rosto contra seu peito e, em seguida, virou-se e beijou. Ela saboreou a pele e beijou novamente. Seu desejo de dar e receber conforto e deleitar-se com a sua nova proximidade mudou para outra coisa quando o beijou, e impulsivamente, virou a cabeça e lambeu suavemente o mamilo. Ele tocou sua cabeça e 214


segurou-a, incentivando. A sensualidade lânguida se espalhou através dela, e ela sentiu uma mudança nele, também. Só então, se lembrou de que esta era uma das coisas que a serva lhe tinha dito durante seu banho desta manhã. Ele deixou seus lábios e língua acariciá-lo um pouco mais, em seguida, delicadamente virou-a de costas. — Eu acho que prometi um prazer vagaroso, — disse ele. — Vamos ver quão lento podemos fazer isso. **** Mais tarde, depois que David pode tornar o prazer tão lento quanto ele escolheu, estavam deitados na cama escura, as cortinas puxadas contra os sons diminutos e as luzes da festa de casamento. Christiana começou a adormecer em seus braços. Ele se moveu, e sentiu que olhava para o seu perfil quase invisível. — Você falou com ele? — Ele perguntou em voz baixa. Ela havia esquecido. Havia esquecido Stephen Percy e sua raiva e mágoa por David. Este dia e a noite tinham obscurecido suas suspeitas sobre suas motivações com ela, e agora, realmente queria que ele não a tivesse lembrado. Ele vive com a realidade, pensou. Você é a única que constrói sonhos e canções. Mas ele tinha escrito uma canção sobre ela, não tinha? Não era uma canção de amor, no entanto. Ele pensara nela com linda e tinha escrito sobre isso. Talvez escrevesse melodias a respeito do sol e dos campos também. — Sim, falei com ele.

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— O que ele queria? — Nada honrado. Ele ficou em silêncio por algum tempo. — Não quero que você o veja — ele finalmente disse. — Ele está na corte, muitas vezes. Você está dizendo que não posso voltar para Westminster? — Eu não quis dizer isso. Você sabe o que estou dizendo. — Acabou, David. Como você e Alicia. É igual. — Não é. Eu nunca amei Alicia. Ela virou a cabeça para ele. Ele abrira a porta e ela sentiu uma compulsão de atravessá-la agora. — Você nunca planejou me deixar ir com ele, não é? — Não sabia que era ele quando disse isso, mas tinha certeza que não voltaria. — E se tivesse? Seus dedos tocaram seu rosto na escuridão. — Eu não teria deixado você ir. No início, já sabia disso. Por quê? Seu orgulho? Seu investimento? Para me salvar do destino da sua mãe? Não conseguia fazer a pergunta. Não queria saber a resposta verdadeira. A uma garota deveria ser permitido algumas ilusões e ambiguidades se tivesse que viver com um homem. Não havia tal coisa como demasiada realidade. — Como você sabia que eu viria naquele dia? 216


— Não esperava por isso. Planejava ir e tomá-la. — E se eu não tivesse vindo e concordado com a sua sedução? — Não teria lhe dado muita escolha. Ela pensou sobre isso. — Você foi muito inteligente, David, devo admitir. Muito cuidadoso. Muitas testemunhas. Todos os seus empregados. Idonia. Quão meticuloso é você? Será que você mesmo guardou os lençóis? Será que você os deixou na cama até Geva ver no dia seguinte? — Seu tom saiu mais petulante do que pretendia. Ele beijou sua testa e puxou-a para a curva de seu corpo. — Quando eu a conheci e em todas as outras vezes que nos encontramos você me disse que o amava, Christiana. Até mesmo na última quarta-feira. Apesar do que aconteceu entre nós, quando eu te beijei, apesar de abuso dele para com você. Sim, querida, eu fui meticuloso. Calculista e inteligente. Eu deliberadamente fiz este casamento um fato e a amarrei a mim. Não me arrisquei a que ele contasse as mentiras que seu coração queria ouvir para que pudesse abusar novamente de você. Você queria que eu fizesse o contrário? Deveria ter ficado por trás deste cavaleiro como o mercador que sou? Será que honrar minha promessa de deixa-la ir teria agradado você? Ela tremeu um pouco com a força bruta de suas palavras. Parecia muito diferente quando ele colocava dessa maneira, quando via através de seus olhos. Tinha sido tão fácil esquecer como ela era antes da última quarta-feira. — Não — ela sussurrou, e era verdade. Não teria ficado satisfeita de modo algum se ele tivesse demonstrado indiferença e simplesmente deixado Stephen atraí-la para longe. Outra reação que temia examinar muito de perto.

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O silêncio desceu de novo, e depois de algum tempo ela relaxou em seus braços. Já estava quase adormecida quando o ouviu rir baixinho em seu ouvido. — Sim, minha menina, eu fui meticuloso e não arrisquei. Guardei os lençóis. Capítulo 14 David estava sonolentamente ciente das cortinas sendo afastadas. Ele virou o rosto para longe da luz invasora. — Inferno — a voz de um homem disse, puxando-o para acordar. Ele abriu um olho numa fenda. A menos que estivesse sonhando, sua esposa tinha ido embora e o Rei da Inglaterra estava ao lado de sua cama. — Maldição, David. Sonhando, não. — Meu senhor? — Levantou- se nos cotovelos. O Rei o olhou com uma careta. — Você vai querer repudiá-la? Philippa me garantiu que a garota estava intacta, juro. Eu disse a ela que devíamos tê-la examinado, mas ela e Idonia... David olhou para onde o Rei olhava. A colcha e os lençóis estavam agrupados para revelar um leito conjugal sem derramamento de sangue. Inferno. A última coisa que esperava era alguém à procura de provas da virgindade de Christiana. O que Edward estava fazendo aqui, afinal? — Não deixe que isso o aborreça, meu senhor. Não haverá repúdio. A expressão de Edward relaxou. — Maldito cavalheirismo seu, David.

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— Sou um mercador e nós estamos separados da cavalaria. Isso é reservado para os seus cavaleiros. Garanto que minha mulher chegou a mim virgem, apesar de tudo. Se tivesse pensado que alguém iria procurar a evidência esta manhã, teria sangrado uma galinha. Edward olhou para ele fixamente. O homem ainda estava meio obcecado. David observou o manto vermelho. O Rei tinha estado aqui a noite toda. Onde e com quem? David decidiu que não queria saber. — Você precisa ver os lençóis originais? Eu os tenho — ele ofereceu com uma risada, mas assim que falou percebeu que a mente de Edward tinha mudado. — Quero falar com você. Isto vai lhe poupar uma cavalgada até Westminster. David olhou ao redor da cama. Suas roupas e as de Christiana ainda estavam espalhadas ao redor dos pilares e no chão. — Talvez no solar? Edward acenou com a cabeça e afastou-se. David pegou um robe de um pino no guarda-roupa, atirou sobre ele e o seguiu. Edward permaneceu nas janelas de vidros solares com uma expressão especulativa encoberta em seu rosto. David se juntou a ele e olhou para o pátio. Uma serva de cabelos vermelhos próxima da casa descansava contra uma fonte, cercada pelo lixo da noite de folia. Edward suspirou. — Suponho que tenho que dar alguma coisa a ela, hein? Inferno, nem me lembro. — Ele bateu seu manto para a evidência de uma bolsa ou moedas. — Ela não é uma prostituta, — disse David. — Espere um momento.

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Ele se virou para o guarda-roupa e voltou com um véu de seda roxo bordado com fios de ouro. Edward o examinou. — Muito fino, David. Você não tem algo mais simples? Nem sei se me diverti muito. No entanto, isso seria bom para Philippa. Oferta de paz... David foi até o guarda-roupa mais uma vez e pegou um véu azul sem bordado. — Você mantém uma caixa inteira deles para dar às suas mulheres? — O Rei brincou enfiando-os em seu manto. — Melhor escondê-los de sua esposa. Procure o meu tesoureiro sobre isso. David imaginou-se chegando a Westminster sem uma apólice ou registro para reivindicar o pagamento de dois véus adquiridos pelo Rei para uma vadia e sua esposa negligenciada. — Considere como presentes, — disse ele secamente. — Você queria falar comigo sobre alguma coisa? — Sim. O conselho se reuniu há dois dias. Foi decidido embarcar logo depois da Páscoa. Vou convocar os barões em breve. David esperou pacientemente pelo resto. — Nós recebemos a palavra que Grossmont está envolvido com a França e garantiu Gascony, — o Rei continuou. David assentiu com a cabeça. Gascony, abaixo da Aquitânia, na costa oeste do continente, era território que Edward mantinha no feudo do Rei francês. Entre os muitos pontos de discórdia entre os dois monarcas tinha sido o grau de controle que a França queria exercer lá. Henry Grossmont tinha sido enviado para estabilizar a área. — Além disso, ele foi empurrado para o norte até Poitiers, — Edward disse. — O porto de Bordeaux está seguro agora. Iremos assim, nos juntar a ele, e nos dirigiremos a nordeste. Não vou precisar desse último pedaço de informação de você, afinal de contas.

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— Poitiers é um longo caminho até Paris. As chuvas da primavera irão prejudicar a movimentação. — O Conselho considerou tudo isso. Ainda assim, o nosso exército e o de Grossmont serão uma força formidável. E o desembarque em Bordeaux será sem risco. Presumivelmente, o conselho de barões sabia o que estavam fazendo. Eles eram soldados experientes. Mas lhe pareceu uma estratégia infrutífera. Edward o olhou com uma expressão divertida. — Você não aprova. Fale a sua ideia. Ele sabia que a sugestão de um mercador era irrelevante, mas falou de qualquer maneira. — Bordeaux é uma viagem marítima de sete dias. Um longo caminho de barco para um exército, e você corre o risco de ventos ruins. Os franceses já esperam por você em Poitiers. Mesmo com uma vitória decisiva, você terá um longo caminho até Paris. Se a coroa francesa é o seu objetivo, deve tomar essa cidade e o domínio real, não deve? — Terei vinte mil comigo, — Edward respondeu jovialmente. — Vamos cortar pela França como uma lâmina quente na manteiga. Como todos os exércitos pagos com despojos, vocês vão bater forte pela França como uma pluma através do creme, David respondeu silenciosamente. — Essas armas que você me ofereceu, — Edward meditou. — Onde estão? — Em nenhum lugar perto de Poitiers. Tenho uma aqui, do lado de fora da cidade. Se você tiver espaço em um de seus navios, é sua. Envie-me alguns homens e vou treiná-los na sua utilização. — Ah, bem, um brinquedo é provavelmente suficiente. Vou precisar dos mapas que vem fazendo daquela região. Você os tem prontos? Vamos querer saber todas as rotas possíveis e as melhores estradas. Especialmente quando atravessar o rio Loire durante as enchentes da primavera. 221


— Eles estão em meu gabinete. — O Rei o seguiu pela porta ao lado da lareira no pequeno aposento. Ele pegou alguns pergaminhos enrolados da prateleira e colocou-os sobre a mesa. — Este é do norte. Este outro é de Brittany, de Brest para as marchas da Normandia. O grande mostra as rotas para fora de Bo, as travessias dos rios marcados são baseadas em conversas que tive com as pessoas da área, e não sobre o que eu mesmo vi. As condições das estradas eram evidentes, mesmo no final do outono, no entanto. Ele apontou para uma linha. — Esta estrada é bastante direta para seus propósitos e encontra-se em terreno elevado, por isso deve estar em melhores condições do que a principal. Ela passa através do campo, e há poucas cidades ao longo dela. — Poucas oportunidades para saques. Os barões serão forçados para a estrada enlameada, para que possam compensar os seus séquitos. Edward admirava o desenho. — Você tem um talento especial para esse tipo de coisa. Eu disse ao conselho que você faria o trabalho e nenhum seria mais sábio. — Você quer todos eles? — Você pode trazer os outros mais tarde. Este vou levar agora. Estamos ansiosos para iniciar nossos planos, — ele pegou o pergaminho e colocou-o debaixo do braço. — Uma ideia inteligente você mapear três possibilidades. Eu conheço sua opinião sobre isso, mas será Bordeaux. Sim, pensou David. O exército vai marchar e se envolver. Batalhas serão travadas, as cidades sitiadas, cavaleiros e soldados vão enriquecer a partir do saque. E depois de um verão de luta, você vai voltar e nada terá sido resolvido. Até que você tome Paris, isso nunca vai acabar. O que esta decisão significava para ele e seus planos era outra coisa, o que iria considerar cuidadosamente depois.

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Um som detrás fez os dois se virarem. Christiana atingiu o umbral do quarto de dormir com uma expressão de espanto no rosto. Ela carregava uma bandeja com comida e cerveja. — Meu Senhor, — disse ela, caminhando rapidamente e colocando a bandeja sobre a mesa. — Minhas desculpas. Eles a assistiram sair. — Você acha que ela ouviu? — Edward perguntou, franzindo a testa. — Se ouviu, não vai dizer nada — Isso realmente não importa. Dificilmente se podia navegar centenas de navios ao longo da costa da Bretanha e França e não ser notado. Não seria nenhuma surpresa quando a invasão finalmente acontecesse. Isto acabara? Ele sorriu para o Rei, mas sua mente já começou a recalcular. **** No quarto dia após seu casamento, David disse a Christiana que eles iriam cavalgar em direção ao norte da cidade. — Recentemente adquiri uma propriedade em Hampstead, — explicou enquanto se dirigiam para o portão da cidade lado a lado. — Vamos lá para que você possa vê-la. Tenho que falar com alguns trabalhadores, e há outros assuntos a tratar. — É uma fazenda? — Há fazendas ligadas a ela, mas é a casa que você deve ver. — Muitas fazendas? — Dez, se me lembro bem.

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— Você não tem medo que a renda o coloque acima do limite de quarenta libras? E que Edward vá empurrar o titulo de cavaleiro para você — ela brincou. — Sim. É por isso que coloquei a propriedade em seu nome. — Meu nome! — Sim. Ela pertence a você, bem como a renda das fazendas. Ela absorveu essa surpreendente notícia. As mulheres casadas quase nunca possuíam propriedade própria. Isto ia com elas para seus maridos. A única mulher que sabia que possuía terras era lady Elizabeth. Joan tinha dito que Elizabeth sempre exigia a propriedade em seu nome, como parte de seus acordos de casamento com homens mais velhos. — Porque, David? — Quero que se sinta segura, e sem terras você nunca irá se sentir assim. Estou confortável com as possessões com base em créditos e moedas, mas você nunca estará. Além disso, assumo os riscos em meu comércio, por vezes grandes. Quero ter certeza que se minha prudência falhar, você não irá sofrer. Fazia sentido, mas ainda assim a surpreendeu. — Há algo que você deve saber sobre essa casa, — disse ele mais tarde, quando saíram da pista para uma estrada. — Ela chegou a mim através da agiotagem. Você também deve saber que era de lady Catherine. Se você não gosta disso, pode vendê-la e comprar em outro lugar. Perto de Londres, no entanto. Quero que tenha um lugar para ir quando as doenças de verão se espalharem pela cidade. A pontada de culpa que sentiu com essa notícia desapareceu assim que ela viu a casa. Ampla e alta, sua base construída em pedra e seu nível superior de madeira e gesso assentava muito bem numa parede de pedra no

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final do terreno, cercada por edifícios anexos e jardins. Uma fila de janelas de vidros no segundo nível indicava sua construção recente. Os operários estavam colocando pisos no chão do corredor quando eles entraram, e David se aproximou para falar com eles. Ela explorou os outros cômodos. Pouquíssima mobília havia sido deixada, e a edificação ecoou com seus passos. David explicou que deixaria a decoração da casa para ela. — Nós precisamos cavalgar para fora da propriedade, — disse ele à medida que recuperava seus cavalos. — Há alguns homens me esperando. Os homens trabalhavam a meia milha de distância em um campo aberto. Três deles estavam em torno de um cilindro de metal grande, mais estreito na parte superior do que na inferior, apoiado e inclinado por cima em troncos. Um homem com um cabelo volumoso preto explicava algo para os outros quando eles se aproximaram. — O que é isso? — Ela perguntou. — Um brinquedo. Você vai ver como funciona. Amarrou os cavalos numa árvore e se aproximou dos homens. Ela enrolou o manto mais firmemente em torno dela e sentou-se na grama seca perto de uma pequena fogueira que tinha sido construída. David e os outros mexeram e mexeram com o brinquedo um longo tempo, e o homem de cabelos negros se manteve agachado atrás da extremidade inferior do cilindro e espionando ao longo de seu comprimento. Seus olhos seguiram a linha de visão do homem, e ao longe, viu uma velha edificação de madeira. David colocou um pouco de areia proveniente de uma bolsa de couro e enfiou um pedaço de pau embaixo. Ele levantou uma grande pedra e colocou na frente disto. Um pedreiro havia claramente trabalhado nela, pois a pedra era perfeitamente redonda. Ele rolou a pedra para dentro do cilindro. Ele veio até o fogo e levantou uma tocha flamejante. 225


— Cubra seus ouvidos — disse ele. Ele acendeu uma linha sinuosa de areia ao longo da extremidade inferior do brinquedo. Um momento depois, o mais alto trovão que jamais havia ouvido quebrou o silencioso inverno. O cilindro expeliu fumaça e saltou para trás. Do outro lado do campo profundo, alguns segundos depois do brinquedo expelir fumaça, o telhado da edificação agrícola explodiu em pedaços. Ela levantou-se e cruzou para o cilindro fumegante. O homem de cabelos negros chamou os outros dois para o lado e começou a explicar algo que parecia muito com geometria. — O que é isso? — Ela perguntou, olhando para o buraco quente. — O futuro. Ele é chamado de canhão. Ela caminhou ao longo de seu comprimento, e observou a pilha de pedras redondas nas proximidades. — É uma máquina de cerco, não é? — Sim, isso mesmo. Ela sabia mais do que queria sobre máquinas de cerco. Quando criança, havia visto torres e catapultas construídas fora de Harclow. Havia visto o dano terrível que causavam e vivia com medo das pedras voando e das cestas de fogo. Ela olhou para a edificação agrícola. Só as cascas das suas paredes laterais ficavam. Isto era bem antigo e construído de madeira, mas este brinquedo possuía mais força em atirar suas pedras pequenas do que qualquer uma das máquinas que havia visto em Harclow. — Você pretende produzir e vender isso? — Não. Mas eles serão feitos por outras pessoas. É inevitável. Eu os vi pela primeira vez a caminho de casa na minha primeira viagem. Houve uma manifestação perto de Pisa. Eles não funcionavam bem, e nunca bateu a sua marca na época, mas ainda vão melhorar. Eles me fascinam, isso é tudo. Este é para Edward. Outros reis vão querê-los, então ele também, —

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ele caminhou na direção dos cavalos. — Estou indo verificar a edificação. Você pode vir se quiser. Ela não tinha certeza se queria, mas foi assim mesmo. Ela olhou para os destroços da edificação. Não admira que David não quisesse ser um cavaleiro. De que serviam armaduras e escudos contra máquinas de guerra como esta? Havia outros edifícios nas proximidades, todos negligenciados. Este tinha sido um haras com muitos estábulos. — Devo dizer que esta seção da propriedade não é sua — ele explicou enquanto desmontava. Ela não viu sinais de trabalho aqui. Parecia que David tinha mantido a parcela mais pobre para si. — Você precisa de um campo com edifícios velhos para brincar com seus brinquedos? — Sim. E recolher o que é necessário para fazê-lo funcionar — ele abriu caminho para um dos estábulos. O teto desta estrutura estava em condições precárias, e frestas de sol vazavam através de seus furos. David entrou em uma das barracas e se agachou. Ele varreu os dedos em toda a terra seca e levantou a mão. A substância arenosa brilhava. — Isto é encontrado nos estábulos como este que não têm sido usados há muito tempo, e outros locais onde os animais vivem. O pó que a máquina exige para funcionar. Dizem que o segredo foi trazido por terra — de Cathay no Extremo Oriente. Não tem nenhum nome em Inglês, embora alguns traduzam como salitre. — Os homens lá atrás são do Rei? — Dois são. O outro trouxe a máquina da Itália. — Será que Edward vai usá-la? Será que vai levá-la com ele para a França? Para Bordeaux? 227


Ele não respondeu. Eles montaram novamente e voltaram para os homens que já tinham preparado a máquina novamente. David falou em italiano com o de cabelos negros e, em seguida, levou-a para longe. — Sei que você ouviu Edward em meu gabinete, Christiana, — ele disse finalmente. — Tenho certeza que você sabe que não pode repetir essas coisas. Mesmo quando todos desconfiarem a começarem a falar, você deve fingir ignorância. Então, era verdade. Ela tinha ouvido o Rei mencionar Bordeaux e vira o pergaminho enrolado debaixo do braço dele. Era um daqueles mapas que havia notado naquele dia no gabinete de David. Seu marido não entregava apenas mensagens. Ele fazia outras coisas para Edward também. Coisas muito mais perigosas. Bastante perigosas e importantes o suficiente para que o Rei lhe contasse sobre Bordeaux. Ela rezou para que, agora que Edward tinha escolhido o seu caminho, David estivesse fora disto. Ele não era um cavaleiro ou nobre. Não era justo o Rei usá-lo assim quando ele veria pouco lucro e perdas significativas em tais guerras. Eles se aproximaram da casa pela parte traseira. O vagão dos oleiros havia partido. No entanto, um novo cavalo estava amarrado na lateral da casa e um homem estava de pé ao lado dele. David parou o cavalo. Ele olhou duro para o recém-chegado. O estranho era um homem alto, com longos cabelos brancos e uma barba curta. Um casaco marrom opaco, não mais do que um manto disforme, pendurado quase até o chão. O cavalo ao lado dele parecia esquelético e velho. David desmontou e a ajudou a desmontar. — Espere lá fora enquanto falo com este homem. — Está frio.

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— Sinto muito por isso, mas não entre. Eles tinham estado fora a maior parte do dia, e há muito tempo o frio havia penetrado em seu manto. — Vou até o solar e você pode usar o salão — sugeriu ela. — Você não deve entrar na casa enquanto ele estiver aqui, — ordenou asperamente. Seu olhar não tinha deixado o homem à espera. — Insisto que me obedeça, minha menina. Seu tom a atordoou. Ela viu sua atenção absorvida pela figura a espera. Sua consciência dela tinha essencialmente desaparecido. A retirada foi tão completa que ela nunca havia se sentido mais distante dele do que neste momento, nem mesmo na noite quando o conheceu como um completo estranho em seu solar. Essa indiferença repentina, o que contrastava tão vivamente com a atenção constante que havia lhe mostrado desde seu casamento, machucou seu coração. Dando ao estranho um exame mais minucioso, ela caminhou em direção ao jardim. David caminhou lentamente em direção a casa e, a cada passo, o silêncio interno estranho ficou mais absorvente. Pensamentos dispersos mexendo através de sua mente e emoções ímpares brotavam dentro do seu peito. Emoções que não podia se dar ao luxo de reconhecer ou examinar agora. Nem podia se dar ao luxo de entregar-se ao fascínio costumeiro do som da roda da Sorte girando mais uma vez. Ele espantou o silêncio. O homem esperou e o observou. Ele tão alto e orgulhoso por fazer de um casaco de operário um disfarce eficaz, mas David duvidava que alguém tivesse prestado muita atenção. Ele esperava este homem, eventualmente, mas não hoje e não aqui. Oliver não tinha recebido nenhum relatório, no entanto, sobre qualquer coisa. Isso devia significar que ele tinha vindo por meio de uma porta do norte, e não ao longo das costas do sul ou leste. Um longo desvio, então, para garantir a segurança. Era o tipo de estratégia refinada e cuidadosa que 229


David podia apreciar. Ele veio sozinho, também. Ou era muito corajoso ou muito seguro de si. Provavelmente ambos. Ele amarrou as rédeas dos cavalos a um poste perto do estábulo e, em seguida, caminhou até o homem. A cabeça branca quase tão alta quanto a sua. Profundos olhos castanhos olhavam-no cuidadosamente. Eles não cumprimentam um ao outro, mas David suspeitava que a familiaridade estranha que ele experimentou foi sentida pelo outro, também. — Como você me encontrou? — Perguntou David. — Frans descobriu com o dono anterior que você adquiriu essa propriedade. Pensei que você poderia trazer sua esposa aqui. Uma garota bonita, por sinal. Digna de sua linhagem. Digna de você. Ele ignorou o elogio, exceto pelo detalhe que era um tipo de elogio que um homem como este, normalmente, não faria a um mercador. — Frans mantem amizade com lady Catherine? Ela é um dos seus? Uma observadora? O homem hesitou e David teve sua resposta. Sem dúvida, lady Catherine faria qualquer coisa por um preço. — Você deveria ter esperado até que minha esposa não estivesse comigo. Não a quero ela envolvida nessas coisas. — Não podia esperar para sempre. Estou aqui correndo um grande risco. Se você a deixasse por algumas horas... A voz do homem sumiu e um silêncio completo caiu. Mantendo-se por um longo tempo. Eles encararam um ao outro, ambos sabendo que quem falasse primeiro novamente estaria em desvantagem. David calmamente deixou o momento pulsante passar. Ele tinha muito mais experiência na espera do que seu convidado. A vida toda, na verdade.

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— Você sabe quem eu sou? — O homem finalmente perguntou. — Sei quem você é. Presumo que você procure o que Frans procurou, e desde que lhe disse que não ajudaria, me pergunto sobre o motivo desta reunião. O homem enfiou a mão na frente de seu manto e retirou um pedaço de pergaminho dobrado. — Este é um dos seus. Foi encontrado entre os papéis de Jacques van Artevelde. — Seu homem e eu já discutimos a minha relação com Jacques. Minhas cartas para ele eram questões de comércio, nada mais. — Seu relacionamento com você e com outros como você, o matou. Jacques van Artevelde, o líder dos burgueses pró-ingleses de Ghent, tornara-se um amigo. Sua morte no ano passado nas mãos de uma multidão havia sido mais do que uma perda política para David, e ele se ressentiu dessa referência brusca a ele. Sem mencionar que o conde de Flandres havia estado por trás do assassinato daquela multidão. Tinha outro homem envolvido, também? — Nós nos encontramos para negócios e nada mais — David disse suavemente. — Vamos pular essa parte, Mestre David. Como Frans explicou, sabemos sobre você. Não tudo, tenho certeza. Mas o suficiente. Além disso, não foi pelo conteúdo da carta que ele a trouxe para mim. Foi o selo, — seus dedos longos brincavam com o pergaminho. — Um selo raro. Três serpentes entrelaçadas. Como você chegou a usá-lo? — Era uma peça de joalheria que minha mãe tinha. É um símbolo útil como qualquer outro. — Essa peça de joalheria. Era um anel? Com uma pedra cinza? David deixou o silêncio pulsar enquanto absorvia essa pergunta surpreendente e suas implicações inesperadas. 231


— Sim. Um anel. O homem suspirou audivelmente. Ele aproximou-se e examinou o rosto de David. — Sim, posso vê-lo. Os olhos, mas não a cor. Os dele eram castanhos. A boca. A mesma voz. David encontrou aquele olhar penetrante. — Eu, é claro, não tenho como saber se você está certo ou se você mente. Você quer algo de mim. É de seu interesse reivindicar uma semelhança. — Eu não vim aqui para leva-lo a traição. — A mera reunião com você pode ser interpretada como traição. A sua presença aqui me compromete. Você deveria ter me dado uma escolha. — Era essencial que eu visse você. Precisava saber. Certamente você entende isso. — Não tenho certeza se entendo. — Por que você nunca veio a nós? — Nunca precisei de você, e você nunca precisou de mim. — Nós precisamos de você agora. David examinou a séria expressão expectante do homem. — Você deve querer isto demais para apelar a um estranho. Os olhos astutos encontraram os de David. — Sim, quero muito. Quero isso para o meu país, mas quero para mim, também. Você não é como um estranho. Eu fiz o meu melhor para saber mais sobre você. Suas realizações no comércio não irão satisfazê-lo por muito mais tempo. As pequenas vitórias já parecem insuficientes e superficiais, não é verdade? Especialmente em comparação com a política das monarquias.

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David desviou o olhar, mesmo sabendo que enquanto o fazia sinalizava uma derrota certa. Ele fez um gesto para o homem segui-lo para dentro de casa. Christiana amontoava-se em sua capa no banco debaixo de uma árvore no jardim. Ela não estava nada contente por estar presa ali enquanto David realizava esta reunião secreta. Estava ainda menos satisfeita com a maneira como a tinha dispensado, e com seu tom de voz, quando ordenou-lhe obediência. A presença daquele homem alto tinha obviamente o surpreendido, o que explicava um pouco. Ainda assim, ela duvidava que esta reunião tivesse alguma coisa a ver com comércio ou finanças. O estranho não era um mercador, apesar de seu manto simples e do humilde cavalo. Ele não podia esconder seu verdadeiro status mais do que conseguia esconder sua altura. Havia reconhecido pelo o que ele era. A qualquer momento, em qualquer lugar, os nobres se reconheciam quando se encontravam. Estavam conversando há muito tempo. Suas mãos estavam levemente dormentes pelo frio austero, e ela colocou-as nas dobras de seu manto. Se David não viesse buscá-la em breve, ela iria desobedecê-lo e entraria na casa. Uma coisa era ser uma esposa obediente, e outra bem diferente era sentar aqui e congelar como uma idiota que não sabe o que vem com o frio. Ela bateu o pé e amontoou-se mais. Ela tentou distrair-se pensando naquela invenção estranha que David havia mostrado anteriormente. Para alguém que não gostava de cavaleiros e guerras, David possuía um fascínio peculiar por máquinas de cerco. Seus olhos percorreram a casa à procura de algum sinal de movimento. Eles estavam, provavelmente, na sala da frente. Do seu ponto de vista, podia ver a garupa do cavalo do estranho amarrado ao lado do prédio. David ordenou que ela ficasse de fora. Ele não disse onde. Ela se levantou e caminhou pelo jardim, em direção ao animal de aparência miserável. Não muito apropriado para um nobre. Talvez fosse alguém em uma maré de azar em busca de um empréstimo.

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Um saco cobria as ancas do animal. Acalmando-o com as mãos e a voz, ela olhou para a ponta solta. Ela realmente não deveria. Isto não era definitivamente nenhum assunto seu. Pedindo perdão, ela levantou a tampa e olhou para dentro. O saco continha roupas. Roupas ricas. Tecidos caros. Vestuário nada de acordo com este cavalo e esse manto gasto. O homem havia se disfarçado para parecer pobre. Vozes a assustaram. Ela deixou cair a tampa e saiu correndo. Havia acabado de virar a esquina da casa, quando ouviu a voz de David. — Nós não devemos nos reunir novamente na Inglaterra. Isso a deteve. Ela se apertou contra as pedras da casa. — Parto amanhã. Não se preocupe. Sei do seu risco. Não tenho nenhum desejo de prejudica-lo — disse o estranho. Ele falava Inglês, mas o sotaque era inconfundível. Esse homem, esse nobre, era francês. — Frans não deve voltar para a Inglaterra até que tudo termine. O homem é descuidado, e sua longa estadia na última vez foi notada. Sua amiga é uma complicação que não vou aceitar. Corte os laços com ela — disse David. Frans van Horlst. Um nobre francês. Céus! — Ele vai partir comigo amanhã e não voltará. A senhora estará fora também. — Há uma condição final. Vou querer os documentos de você. Testemunhados. Apenas o som de seu coração quebrou o silêncio que se seguiu. — Você não confia em mim, — o estranho disse finalmente. — Acho que não posso culpá-lo. Como vou entregar estes documentos para você?

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— Você não vai. Irei até você. Sua mente se esforçava para dar sentido a essas declarações enigmáticas. Documentos? Porque David reunia-se em segredo com um nobre francês e discutia essas coisas? Seu coração arfava quando uma possibilidade horrível veio à mente. Mas se fosse o caso, David estaria fornecendo os documentos, e não o contrário. Os sons de estalos de sela e um cavalo pisando chegou aos seus ouvidos. Ela começou a se acalmar. — Estou ansioso por conhecê-lo melhor, — disse o estranho. — Na França, então. O cavalo foi embora. David viria procurá-la agora. Ela mergulhou para longe da casa e correu para o jardim.

Capítulo 15 Assim que David voltou para o seu comércio, Christiana apresentouse na casa de Gilbert de Abyndon. Ninguém parecia surpreso por estar sozinha. Ela ficou maravilhada com essa e outras novas liberdades em 235


contraste com a estreita supervisão de Westminster. A alegria infantil a envolveu enquanto caminhava pelas ruas da cidade, parando ocasionalmente para observar as atividades e mercadorias nas vitrines dos mercadores. Margaret parecia encantada e perturbada ao vê-la. Hesitação brevemente nublou seu rosto pálido e delicado antes que uma decisão muito madura tomasse lugar. — O seu marido sabe que você está aqui? — Ela perguntou depois que enviou um servo para trazer um pouco de vinho. — Ele sabe. Foi sugestão dele. Estou precisando de uma criada, e ele pensou que você poderia ser capaz de me ajudar. Margaret inclinou a cabeça e levantou as sobrancelhas. — Você sabe que eles se odeiam. Nossos maridos. — Eu sei. E é sempre profundo quando parentes se sentem assim. Se a minha visita pode causar problemas para você, eu vou embora. Margaret sentou-se em um assento de janela almofadado e deu um tapinha no espaço ao lado dela. Christiana se juntou a ela. — Vou lidar com Gilbert. Eu soube recentemente que estou grávida. Vou dizer a ele que estava me sentindo mal e que sua visita me curou, — ela sorriu de modo conspiratório. — Essa criança já mudou muito as coisas e vai mudar ainda mais. Ele será como argila em minhas mãos agora. Christiana piscou para esta franca admissão de manipulação. Margaret parecia tão frágil e doce, era difícil acreditar que uma haste de aço de praticidade por parte dela, segurava em pé este casamento. Sentia muito que Margaret tivesse um casamento em que só o seu potencial reprodutivo era valorizado. Então, ela lembrou a si mesma que era a provável razão para o seu próprio matrimônio. Durante as próximas horas, elas formaram um vínculo. No dia seguinte, Margaret enviou uma garota chamada Emma para assumir o cargo. Apesar de ser a filha de um mercador que havia falido em 236


tempos ruins, Emma provou ser uma serva disposta e excelente. Ela chegava diariamente na casa antes do amanhecer e ajudava Vittorio e Geva até Christiana chamá-la. Christiana soube sobre a falência financeira de Emma. Seu pai havia sido rico num dia e pobre no outro por causa de um desastre de navegação. Ela se perguntou se a riqueza de David oscilava tão precariamente. Ele havia sugerido quando contou sobre as terras que havia colocado em seu nome. Sua consideração disto e pela família, que agora dirigia a levou a uma decisão. Era hora de adquirir uma formação prática para quando chegasse o eventual dia quando não tivesse servos. Ela começou a aprender a cozinhar com Vittorio e como costurar com as mulheres. Ela aprendeu com Geva como ser uma dona de casa. Ela tivera visitantes também, nas primeiras semanas. Morvan veio várias vezes para levá-la para passeios e para se assegurar de que ela não estava infeliz. Isabele e Idonia vieram uma vez para que Isabele pudesse examinar a nova casa de Christiana. Margaret a visitava pelo menos uma vez por semana e elas desenvolveram uma rápida amizade. Perto do fim da Quaresma, as tropas começaram a chegar para se reunirem para a campanha francesa do Rei. A maioria dos homens vivia em acampamentos nos campos circundantes. Durante os dias, desciam sobre a cidade lotada para passar o tempo enquanto aguardavam o embarque. David reduziu sua liberdade, então, e lhe disse para não sair de casa sozinha. Na terça-feira antes da Páscoa, ela voltou de uma excursão pelo mercado com Vittorio para encontrar Joan esperando por ela. Os fornecedores do Rei haviam estado ocupados nas últimas semanas requisitando alimentos por todo o campo para alimentar o exército, e as barracas em Londres havia ficado militarmente empobrecidas de carnes e fizera os preços inflacionarem. Ela começou sua conversa com Joan reclamando sobre isso.

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Joan riu. — Você está parecendo a esposa de algum sapateiro, Christiana. Foi por isso que vim. Vamos para seu quarto e vou ensinar a sua criada um novo penteado que aprendi. Você pode me mostrar as coisas que seu rico marido comprou para você enquanto conto as fofocas da corte. — Como está Thomas Holland? — Christiana perguntou enquanto levava Joan para o piso superior. — Ele foi enviado para Southhampton para ajudar com os navios. Você já viu algo parecido? Deve haver duas centenas no porto apenas aqui, e dizem o mesmo sobre Cinque Ports e também na costa leste. E ninguém sabe onde Edward pretende ancorar uma vez que chegue ao Continente. Bordeaux, Christiana quase disse. Ele vai socorrer Grossmont em Poitiers. Os navios eram mercantes, requisitados pelo Rei. O comércio exterior estava parado. Mas Joan não gostaria de ouvir sobre as dificuldades que poderiam causar. — Com Thomas ausente, tudo está tão solitário, mas, felizmente, William Montagu tem sido muito atencioso, para que eu não me sinta muito triste, — Joan deu uma risadinha. — Na verdade, seria difícil para qualquer garota se sentir triste na corte agora. Westminster está repleta de cavaleiros e barões, todos sem suas damas. As poucas mulheres ao redor estão cercadas por homens. Isto é delicioso. — Se eu ainda estivesse lá, não seria delicioso para mim, — disse Christiana, rindo. — Poderia morrer de sede nesse lago de atenção masculina. Morvan provavelmente levantaria em um banquete e emitiria uma advertência geral e uma ameaça. — Mas ele não tem voz agora. Você tem que vir e visitar, — Joan bajulou-a quando começou a trabalhar o cabelo longo de Christiana em tranças finas que enrolava ao redor de sua cabeça. — Antes da frota partir, enquanto o ambiente ainda está repleto e alegre. — Eu sou casada agora, Joan. Meu lugar é aqui.

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— Você pode vir por alguns dias, não pode? Realmente não é tão divertido sem você. Pelo menos venha para o banquete de Páscoa. Traga David com você. Ele pode manter os homens longe. Christiana pensou no banquete elaborado e no torneio realizado para celebrar a Páscoa na corte. Seria bom assistir como uma adulta ao invés de uma criança. Naquela noite, ela disse David sobre o convite de Joan. Eles estavam sentados no solar, enquanto ela praticava as cartas sarracenas que ele havia ensinado. — Você deve ir, se quiser — disse ele. Ela olhou para a caixa rasa de areia em que traçava as letras com uma vara. Estavam casados há cinco semanas e David nunca a tinha acompanhado a corte, mesmo quando ela participou de um jantar. — Joan disse que vai providenciar um aposento para nós por algumas noites, se quisermos, — disse ela. — Você acha que os meninos vão se importar se formos para a Páscoa? — A família pode comemorar sem nós. — Vamos então? — Quando acontecer, devo estar fora de Londres. — E, se não, você ainda não viria, não é? — Você teve e tem uma vida e um lugar lá, e eu não iria negar isso. Mas não é o meu mundo. Não vou ser o mercador arrivista que entra na corte do Rei pendurado na bainha do manto de sua esposa. Sua admissão franca de que ele não iria compartilhar essa parte de sua vida a entristeceu. Ela sentia falta dele quando estava em Westminster. Uma parte dela permanecia afastada da alegria, pensando nele. Às vezes, ela encontrava-se se voltando para comentar sobre algum entretenimento ou brincadeira e ficava um pouco surpresa por não encontra-lo ao lado dela.

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Ela gostava dessas visitas à corte, mas sempre voltava para a cidade ansiosa para ver David e contar as fofocas e notícias que havia escutado. Ela percebeu que não podia haver nenhuma alegria em nada, a menos que pudesse compartilhar com ele de alguma forma. Ela olhou para o homem olhando pensativamente para o fogo da lareira enquanto o seu longo corpo descansava na cadeira de madeira. Ela pensou em como enchia seus dias com atividades, mas como, apesar disso, uma parte dela estava sempre à espera de algo. Esperando por ele, pelo som de seu cavalo no pátio e seus passos no corredor. Ela sempre ficava tão feliz em vê-lo que, às vezes, sem pensar, corria para ele e ele ria e varria-a com um beijo. Ela pensou sobre como seu retorno a casa para jantar e novamente a cada noite a enchia de conforto e alívio, como se, após a sua saída, tivesse respirado profundamente e liberado somente quando ele voltava. Ele era o centro do seu aconchego familiar, a sua própria pulsação. Sua presença trazia segurança, alegria e emoção. — Preciso falar com você sobre essa viagem, Christiana. — Vai ser longa? — Ela perguntou, retornando às suas cartas. Ela se perguntava como iria passar as noites sem ele. — Pode ser. Duas semanas, talvez mais. — Aonde você vai? — Ocidente. Rumo a Salisbury. O Rei recebeu denúncias de corrupção entre os fornecedores reais nesse condado. Ele me pediu para descobrir o que eu puder antes de ordenar uma investigação oficial. Outro favor para Edward? A coisa sobre as viagens secretas para o Rei era que ninguém podia saber nada. — É a primeira vez que você parte desde o nosso casamento. — É por isso que temos de falar. Todas as viagens têm algum perigo em si. Devo explicar algumas coisas para você antes de ir. 240


Ela olhou para cima bruscamente. Ele olhou para ela, impassível, mas ela havia aprendido muito sobre ele nas últimas semanas, e este rosto perfeito jamais podia ser uma máscara completa para ela novamente. Agora, notava o fino véu de preocupação que difundiu o calor de seus olhos. Uma dormência estranha começou a deslizar sobre ela. — Antes que eu vá, vou te dar uma chave. É da caixa em meu gabinete. Há moeda lá. Além disso, vou mostrar-lhe um baú no guardaroupa que contém papéis relativos às propriedades e créditos bancários. As contas das mercadorias estão na loja. Andrew está bem familiarizado com elas. Se você precisar de ajuda com qualquer coisa, John Constantyn irá ajudá-la, — ele fez uma pausa. — Ele é o executor do meu testamento. De alguma forma, ela conseguiu tirar outra carta, apesar de seu estado de choque. — Você só vai cavalgar até Salisbury, David. — Você deve saber o que fazer. Tenho visto muitas mulheres que não sabem. — Não quero falar sobre isso. — Nem eu, mas é preciso, no entanto. Ela cerrou os dentes e tentou ignorar a terrível constatação que forçava sua mente. Ela sabia, apenas sabia que David não ia para Salisbury. Iria para algum lugar muito perigoso fazer algo muito arriscado. Para Edward? Ela queria acreditar que sim, mas as lembranças de Frans van Horlst pedindo ajuda a um homem no corredor secreto do Rei, e de uma reunião com um nobre francês em Hampstead, borbulhou em sua mente. Eu não tenho nenhum desejo de prejudicar você. Na França, então. Ele a olhou com aquele olhar profundo que sempre via tudo. Ele podia ler estes pensamentos como podia ler tantos outros? Ela estava certamente 241


errada. A própria noção era indigna dela. Mas ele sabia sobre Bordeaux e jogava para vencer e usava suas próprias regras. Ele não podia fazer isso. Ele não faria isso. Ouro e prata não o tentavam. Ele não era governado por tais cobiças. — Espero que com a ajuda de John eu seja capaz de manejar as coisas, — disse ela. — Não se preocupe. — Se algo acontecer comigo, a loja pode ser vendida ou liquidada. Andrew pode ajudar com isso. O administrador dos Mercadores vai colocar os meninos com outros mestres. — E eu, David? Será que eles vão tentar me colocar com um novo mestre também? — Eles não têm autoridade sobre a sua vida. Mas, sem dúvida, oferecerão sugestões e a aconselharão a se casar novamente e participar de sua propriedade e negociar com outros mercadores. — É esse o conselho que você dá às mulheres como um administrador? — Muitas vezes. Você, claro, não precisa procurar os mercadores. Você será muito rica. Ele falou como se isso a tranquilizasse. Estava dizendo a ela que se ficasse rica, viúva, e nobre, poderia ter o marido que nasceu para ter. Doíalhe que ele pudesse falar tão alegremente sobre sua ida para outro homem. — Suponho que as propriedades em meu nome estão bem documentadas? E haverá dinheiro suficiente para comprar mais. Talvez, então, eu não case de novo de modo algum. Ele estendeu a mão e acariciou sua bochecha. — O pensamento de você viver sua vida só não me dá prazer.

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— Sejamos francos, David. Estamos falando de sua possível morte. Seu prazer depois não importa. Agora, vamos terminar com este assunto mórbido? Quando você parte? — Dois dias. Quinta-feira Santa. Joan havia dito que os rumores diziam que a frota embarcaria para a França logo depois da Páscoa. Dois dias e depois duas semanas de cômodos vazios. Sabia que uma parte dela iria simplesmente deixar de existir enquanto ele estivesse fora. Talvez ele deixasse de existir para sempre. Ela não podia acreditar, não podia aceitar esta possibilidade, mas ele a estava avisando agora. Ele não teria falado assim, a menos que pensasse que o perigo era muito real. A dor dilacerante encheu seu peito. Onde quer que fosse, ele iria por Edward. Certamente não correria o risco de dar-lhe tanta dor por qualquer outra coisa. Ela colocou de lado sua caixa e olhou para seu colo. Ela tentou não se importar. Ela argumentou valentemente que se ele estava envolvido em algo desonroso, ela não gostaria de vê-lo de qualquer maneira. Ela disse a si mesma que, se o pior acontecesse e ela se tornasse uma viúva rica, não seria tão ruim. Nada disso ajudou a aliviar o peso em seu coração. Sua garganta ardia e ela lutou para manter a compostura. De repente, ele ficou na frente dela. Levantou-a em seus braços. Antes que escondesse o rosto no peito dele, viu surpresa em seus olhos. — Não queria chatear você, minha menina. O calor de seu abraço fez as lágrimas fluírem. — Não? — Ela murmurou. — Você fala comigo sobre morte e viuvez como se especulasse sobre os embarques de lã do próximo ano. — Isso é porque não espero ser ferido. Estou apenas sendo prático para o seu bem. Tenho sobrevivido a muitos perigos piores do que possa enfrentar nesta pequena aventura.

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Havia muito neste homem que permanecia um mistério para ela, mas as partes que conhecia, conhecia muito bem. E agora sabia que ele estava mentindo. Ele quase não mentia mais, principalmente porque evitava perguntar o tipo de perguntas que o levavam a isso. E suas mentiras raramente tinha sido verdadeiras mentiras. Normalmente, eram declarações ambíguas como esta. Ela aninhou a cabeça mais e ele a apertou. — Você não pode ficar? Deixe outro fazer isso — ela sussurrou. — Nenhum outro pode fazê-lo, — disse ele calmamente. — Eu me comprometi. — Então, não me importo para onde ou por que você vai, — disse ela. — Você é um mercador, e haverá muitas viagens, algumas demoradas. Vá para onde tem que ir, David, contanto que prometa voltar. **** David e Sieg partiram na quinta de manhã. Christiana atirou-se em um turbilhão de tarefas, a fim de distrair-se. Ela escolheu e escolheu suas roupas para a corte até que Emma ficou desesperada. Ela tentou não pensar muito sobre a pungência que tinha imbuído David a fazer amor nas duas últimas noites. Ele havia contratado dois homens para vigiar a casa na ausência de Sieg, e na parte da tarde ela teve um deles escoltando-a para Westminster. Ela recuperou sua cama na antessala, e se esforçou para fingir que era como nos velhos tempos. Às vezes era, mas muitas vezes, como quando Joan e ela estavam deitadas na cama de Isabele e compartilhavam boatos ou apenas conversavam, sua mente de repente se afastava, enquanto se perguntava onde estava David e se ele estava seguro. Suas suspeitas sobre o que ele pudesse estar fazendo brincavam em sua mente, e mais uma vez ela se forçou a analisar as evidências sugerindo 244


traição. Isso é o que era, afinal de contas. Traição do tipo mais elevado, que colocava as pessoas que ela amava em perigo. Ela disse a si mesma que não havia nenhuma prova de que David estava vendendo as informações aos franceses sobre o destino da frota e que ela tinha deixado algumas frases ouvidas trabalhar mal em sua imaginação. No banquete de Páscoa o Rei anunciou formalmente o embarque para a França, e os aplausos na sala saudaram como uma alegre notícia. A notícia informava que as tropas embarcariam nos navios na quarta-feira. Na terça-feira de manhã Joan despertou-a da cama cedo. — Há de ser uma grande caçada, e depois muitas festas privadas nas tabernas e estalagens em Strand antes de festa de hoje à noite. Uma última celebração antes de todos os cavaleiros partirem, — disse ela enquanto ia para baús de Christiana e começar a escolher a roupa para ela. — Você tem que vir comigo e William e sendo minha acompanhante Idonia não irá interferir. Será o ultimo dia festivo para todos neste verão. Christiana vinha desfrutando de sua estadia na corte, mesmo que uma parte dela continuasse a se preocupar com David. Joan tinha razão, Westminster estava cheio de cavaleiros ansiosos por alguma atenção feminina. Eles praticavam a sua bajulação poética, mesmo com mulheres inatingíveis. Esperava-se que as mulheres da corte aceitassem as atenções mais leves, e ela fez isso, em parte, porque eles a ajudaram a se distrair de suas preocupações e suspeitas sobre David. Como a maioria das mulheres, ela simplesmente cavalgava na caçada e observava os homens demonstrarem sua destreza com a flecha e a lança. Ela ficou perto de Joan e William Montagu toda a manhã. O jovem conde ficou obcecado pela Pálida Donzela de Kent. Joan flertou de volta o suficiente para dar mais esperança do que deveria. Christiana pensou em Thomas Holland supervisionando o carregamento de navios em Southampton. Primeiro Andrew e agora William e quem sabe quantos entre eles. A constância de Joan não durava muito tempo. 245


Os grupos de caça fizeram o seu caminho para a costa ao meio-dia, e o grupo de Joan desceu sobre uma grande pousada perto das portas da cidade. Normalmente, as pousadas não serviam refeições, mas a maioria havia trazido cozinheiros para lidar com o grande número de visitantes na área. Este espaço público se tornou tão recheado com mesas e pessoas que alguém mal conseguia se mover, e Christiana logo perdeu a pista de Joan. Ela encontrou-se de pé contra a parede, procurando os amigos na multidão para se juntar a eles. — Aí está você — disse uma voz suave em seu ombro. Ela se virou para encontrar lady Catherine levantando-se perto dela. Os olhos de gato da mulher mais velha brilharam. — Isso é horrível, não é? Eu esperava por isso e reservei um grande aposento no andar de cima. Venha se juntar a minha festa para o jantar, Christiana. Ela hesitou, lembrando-se de David e seu irmão, dizendo-lhe para evitar Catherine. — Estou esperando Morvan para comer conosco — disse Lady Catherine. Ela não tinha visto muito seu irmão nos últimos dias. Os cavaleiros do Rei estavam manejando as tropas fornecidas pelas cidades. Parecia estranho que Morvan fosse jantar com Catherine, mas talvez o que ele sentia contra ela havia sido resolvido. A multidão pressionava-a. Catherine tocou em seu braço e fez um gesto com a cabeça. Christiana debateu a oferta. Seria bom passar algum tempo com Morvan antes que ele partisse. — Obrigada — disse ela, decidindo rapidamente. Não podia haver mal nenhum nisso, e certamente David não se importaria se Morvan estivesse lá também.

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Ela seguiu Catherine através da multidão para as escadas que levavam para o segundo nível. Mesmo ali os corpos eram abundantes, porque outros haviam mostrado a prudência de Catherine e reservaram aposentos. Lady Catherine continuou até o tranquilo terceiro nível da estalagem, levou-a a uma porta, e conduziu-a para dentro. O aposento tinha sido preparado para uma festa com quinze participantes. Duas longas mesas apertavam o espaço entre a cama e a lareira. Era um dia quente de abril e as estreitas janelas com vista para o pátio estavam abertas, e as paredes espessas obscureciam os sons de baixo. Apenas uma pessoa esperava no aposento. Stephen Percy estava perto da janela mais distante. — Tenho que ir para recolher os outros, — Lady Catherine disse alegremente, virando-se para sair. — Estaremos de volta em breve. Christiana olhou Stephen. Ele sorriu e caminhou até uma das mesas e derramou vinho em dois copos. — Uma coincidência fortuita, Christiana, — ele disse enquanto entregava um deles. — Eu temia que não pudesse vê-la antes de sairmos. Ela olhou para as mesas que esperavam os outros visitantes. Quanto tempo antes que alguns deles chegassem? — Você vai cavalgar com o seu pai? — Ela perguntou. — Sim. O Rei reuniu um enorme exército. Promete ser uma guerra gloriosa. Venha sentar-se comigo por algum tempo antes que os outros venham. Pensou na ordem de David sobre não ver esse homem. Por direito, ela devia sair. Mas eles só estariam sozinhos por alguns momentos e não poderia haver mal nenhum em desejar-lhe sorte, ela sentou-se em frente a ele em uma das mesas. — Como está o seu mercador? — Stephen perguntou. 247


— David está bem. — Ele não está com você. Ele não a acompanhou nesta visita ou em outras. — Seu tom carecia de sutileza. Ele presumia que ela voltara a corte para evitar David. Que procurava consolo entre seus amigos. — Ele é um homem muito ocupado, Stephen, e está fora da cidade agora. — Ainda assim, esperava que ele aproveitasse à entrada para a corte que você forneceu. — Ele tem pouco interesse em tais coisas. Stephen ergueu as sobrancelhas, fingindo surpresa. Ele se inclinou para frente e seu olhar vagou sobre seu rosto. Sua atenção evocou uma total falta de sentimento. De uma forma estranha ela sentiu como se o estivesse vendo pela primeira vez. O rosto que ela tinha uma vez pensado como vigorosamente bonito agora parecia um pouco grosseiro. Havia algo mal definido nas bochechas e mandíbulas, especialmente em comparação com a precisão dos traços de David. O cabelo loiro, tinha certeza, não pareceria muito macio se ela o tocasse. Aquelas sobrancelhas grossas contrastavam tão pouco com a pele clara que eram quase invisíveis. — Você é tão linda, — ele disse suavemente. — Acho que você parece mais linda a cada vez que a vejo. Ela levantou a taça de vinho à boca e o observou através da borda. Sua mão se estendeu em direção ao rosto dela. Nesse instante, antes que ele a tocasse, soube claramente e absolutamente várias coisas. 248


Ela entendia tão bem como sabia que o dia chegaria depois da noite. Embora viessem como revelações, não a surpreenderam de modo algum. Em vez disso, ela deu um passo e lá estavam eles, os novos fatos da vida para serem contados. Ela sabia, antes de tudo, que nenhum outro convidado iria se juntar a eles. Ninguém, muito menos Morvan, chegaria por essa porta. Stephen tinha combinado o encontro com a ajuda de lady Catherine, ou talvez Catherine tivesse feito tudo sozinha. As mesas, os copos, eram uma artimanha para conseguir mantê-la aqui para que ela e Stephen pudessem ficar sozinhos. Ela também sabia, enquanto considerava o rosto repentinamente desconhecido, que nunca havia amado este homem. Encantada, tonta, e animada, ela havia sido essas coisas, mas esses sentimentos teriam passado com o tempo se ele não tivesse tentado seduzila e, assim, interrompido sua vida. Ela havia decidido que o amava, a fim de amenizar sua culpa e humilhação após Idonia os ter encontrado. Ela agarrou-se a essa ilusão, na esperança de resgate das consequências. Mas nunca esteve realmente apaixonada por ele, nem ele por ela, e agora sentia apenas uma vaga indiferença pela mão que se aproximava dela. E, finalmente, sabia, com uma aceitação pacífica, que a fez sorrir, que a filha de Hugh Fitzwaryn tinha se apaixonado por um mercador comum. A explosão gloriosa de ternura por David fluía através dela com a admissão. Ela recostou-se fora do alcance dele. — Não. Ele baixou a mão e sentou-se, seus olhos verdes examinando. Ela o deixou examiná-la já que queria, mas ele não iria encontrar o que procurava. Ele sorriu com tristeza e derramou um pouco mais de vinho. — Você amadureceu rapidamente. É um rosto de mulher que vejo agora. — Tive pouca escolha. Talvez eu tenha sido criança por muito tempo de qualquer maneira. — A inocência tem seu charme — disse ele, rindo.

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— E sua conveniência. Ele olhou para ela e encolheu os ombros. — Seu mercador é um homem de muita sorte, minha querida. Ela sentiu um carinho vago por Stephen. Ele era um trapaceiro com certeza, mas não mais perigoso para o coração dela. — Sei que ninguém na corte jamais acreditaria Stephen, mas penso em mim como afortunada também. Era bom dizer isso. Era maravilhoso elevar a posição de seu marido contra a piedade e a compaixão dessas pessoas. Stephen olhou para ela de forma acentuada e depois riu de uma forma artificial. — Então, minha missão é de fato impossível. — Sim. Sem esperança. Ele fez um suspiro exagerado. — Primeiro a espada de seu irmão e, agora, o amor de seu marido. Esta história é uma tragédia. Não, sempre foi uma farsa. Escrita por você e interpretada por mim, que achava que era a vida real. Mas ela descobriu que não podia usar isso contra ele. Realmente não importava. Ele não importava. O jantar realmente chegou, trazido por dois servos, e ela ficou e comeu com Stephen porque ficar sozinha com ele não era nenhuma traição agora. Seu amor por David parecia como uma armadura, e ela tinha certeza de que Stephen reconhecia a futilidade de tentar penetrá-la. Eles falaram casualmente sobre muitas coisas, e a hora passou agradavelmente. No entanto, perto do final da refeição, ela suspeitou que ele novamente começou a pesar a determinação dela contra sua habilidade de sedução. Seu sorriso ficou mais quente e sua bajulação mais florida. Sua mão acidentalmente tocou a dela várias vezes.

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Ela observou calmamente o desenrolar de seu esforço final, com surpresa e diversão. Ela se levantou para sair antes que ele pudesse agir contra a sua intenção. Ele levantou-se mais rapidamente e se colocou entre ela e a porta. Seu sorriso lento e insinuante a encheu com súbito alarme. — A refeição foi adorável, e foi bom compartilhar este momento com um velho amigo, Stephen. Mas eu devo ir agora. Ele balançou a cabeça, e seus olhos verdes ardiam vivos. — O dever que diz que você deve ir não foi escolhido por você. Neste mundo e neste aposento, isto não governa você, meu amor. Ela amaldiçoou a si mesma por pensar que pudesse tratar este homem como um amigo. — Não é o dever que me leva para longe, mas o meu amor por meu marido — ela respondeu, esperando matar todas as ilusões que ele pudesse ter de que ainda ansiava por ele. A brisa da primavera, leve e livre, soprou seu coração com esta admissão flagrante de seus sentimentos por David. Há quanto tempo ela o amava? Um bom tempo, suspeitava. Era irônico que a primeira pessoa a quem ela admitiu seu amor devia ser Stephen Percy. Irônico e também justo e equitativo. Agora, devia dizer a David quando ele voltasse. Se ele voltasse. Então, novamente, talvez ela não precisasse. Talvez ele só precisasse olhá-la e saberia. De todos os seus pensamentos e emoções que havia lido, este provavelmente seria o mais óbvio. Stephen não tinha saído de seu caminho, e ele olhava-a de perto, como se julgasse a sua determinação. Ela o encarou com firmeza. Sua resposta não evocou a reação que esperava. Em vez de recuar, uma ferocidade sutil entrou em seus olhos e torceu sua boca. De repente, ele estendeu a mão para ela. Ela tentou se esquivar de seu alcance, mas ele agarrou-lhe o ombro e puxou-a para ele. Surpreendido 251


pela sua insistência agressiva, ela se contorcia para se libertar. Ele a aprisionou em seus braços. — Uma mulher como você não pode amar um homem assim. Também não se pode misturar óleo e água. Você disse a si mesma que o ama para sobreviver a sua queda, meu amor. Isso é tudo. — Você está errado, — ela sussurrou, estreitando os olhos para ele. — Eu amo David, e não a você. Agora solte-me. — Você pode pensar que não me ama, mas você vai ver a verdade. — Seu rosto e lábios vieram em sua direção. Ela se inclinou para trás até que não pôde se inclinar mais. Ela virou o rosto desesperadamente, mas aquela boca agressiva encontrou seu rosto e pescoço. Ele agarrou seu cabelo para firmar sua cabeça inclinada e forçou um esmagante beijo em seus lábios. Sua outra mão deslizou para baixo para agarrar seu traseiro. Seu estômago se revoltou. E pensar que ela havia chorado por este palhaço! Ela começou a usar toda a sua força para se libertar. Stephen riu. — Você está brava. Isso vai acalmar meu pesar, porque você não é mais inocente. A lembrança da paixão que despertei em você na última vez encheu minha mente desde então, implorando por uma conclusão. — Paixão? Eu não senti paixão com você, idiota pretensioso! Você me machucou e humilhou naquele dia e não vai fazer isso de novo! Solteme ou vou gritar e toda a corte vai saber que você força as mulheres que não o desejam! — Vocês não está indisposta, apenas com medo, — ele murmurou, pressionando-a contra o seu calor e forçando uma caricia em suas costas. — Eu vou te mostrar o prazer que o amor pode oferecer quando você está com um homem de verdade. Quando você gritar, vai ser de prazer e ninguém vai ouvir. As paredes são grossas e a edificação barulhenta, por isso não se acanhe. 252


Meu Deus, sua arrogância não conhecia limites. Não era à toa que Idonia nunca queria ficar a sós com homens. Suas mãos começaram a vagar livremente sobre seu corpo. Ela rangeu os dentes contra a repulsa que sentia, e ficou esperando que ele afrouxasse. Freneticamente, tateou atrás de suas costas na mesa, procurando alguma arma. Sua mão se fechou em um jarro de louça. Bem a tempo, também. A respiração de Stephen havia se tornado irregular e pesada. Ele começou a pressioná-la contra a mesa, tentando deitá-la. Sua mão começou a levantar sua saia. Ela parou sua luta e alavancou seus quadris contra borda da mesa. Ela sorriu para ele. Stephen fez uma pausa, olhou para ela triunfante, e reajustou sua posição. Com um grunhido, ela levantou o joelho com toda a sua força entre suas pernas. Em seguida, bateu com o jarro em sua cabeça. Seu rosto quebrou-se de dor e surpresa, enquanto se inclinava. Ela o empurrou. — Eu sou uma mulher honesta que ama seu marido, — ela fervia. — Nunca me toque outra vez. Ela caminhou até a porta. Quando saiu, olhou para o homem em quem ela tinha acreditado durante os últimos dias de sua juventude. Enquanto voava escada abaixo ouviu seus passos atrás dela. No segundo nível, ele encontrou-se com ela. Ela afastou a mão com que ele tentou contê-la. Abrindo caminho através da multidão animada, ela correu para a sala pública abaixo. Ela notou lady Catherine no meio da multidão, e aqueles olhos de gato olharam presunçosamente. Stephen havia dito que não era amigo de Catherine, e ainda assim esta mulher tinha saído de seu caminho para ajudá-lo. Ela se perguntava o porquê.

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— Você pode pelo menos se despedir, minha querida — disse Stephen humildemente em seu ouvido. Sua tentativa de leveza não conseguia esconder uma raiva subjacente em seu tom. Ela virou-se para ele, furiosa com a sua persistência. Antes que ela pudesse falar, ele abaixou-se e beijou-a, em seguida, sorriu e se misturou à multidão.

Capítulo 16 A frota zarpou. Westminster e Londres, desertos, não apenas dos soldados que visitavam, mas também de muitos dos seus operários, estavam estranhamente silenciosos. Christiana voltou para casa e impaciente, contava os dias até David voltar. As tempestades da primavera chegaram e logo se espalhou a notícia de que a frota estava voltando. Muito antes dos primeiros mastros reaparecerem no Tâmisa cinco dias após o embarque, todos sabiam que os maus ventos forçaram o Rei Edward a cancelar a invasão. A cidade se encheu de soldados, desta vez, apenas de passagem enquanto começavam seu retorno às cidades, as fazendas e aos castelos do interior. Edward não conseguia segurar as tropas indefinidamente para uma melhor navegação e os tinha dispensado. Christiana ficou chocada com o alívio que sentiu quando a notícia da campanha abortada chegou até ela. Pensou que havia realmente se 254


convencido de que David havia ido para Salisbury, mas a reação dela demonstrava a mentira daquela ilusão. Agora, apenas sentia gratidão que os planos de Edward tivessem mudado e feito a possibilidade de traição de David irrelevante. A possibilidade de que ele havia feito tal coisa, ou sequer tentou, deveria intimidá-la mais do que fazia. A potencial desonra deveria enojá-la. Mas tudo o que importava era a sua segurança e o fato de que essa sucessão de eventos o preservaria das consequências horríveis da descoberta. Ansiava por vê-lo. Lembranças dele pendurado nela a cada momento do dia enchia suas horas noturnas. Ela percebeu que, provavelmente, o amava há um longo tempo. Ela se recusou a enxergar a verdade por causa de sua obrigação de lealdade para com Stephen. E, tinha que admitir, havia negado muito tempo seus sentimentos porque David era um mercador. Mulheres nobres não deveriam amar esses homens. Ela foi criada para pensar que tal coisa era contrária à natureza. Será que ele a amava afinal? A alegria dele parecia combinar com a dela em seus regressos para casa todos os dias, e ele pareceu triste por deixá-la nesta viagem. Durante suas relações, via nos olhos dele mais do que simples prazer, mas na verdade, não sabia como ele realmente se sentia. Não possuía nenhuma experiência em tais coisas, e ele permanecia um enigma de muitas maneiras. Isso não importava. À medida que os dias passavam devagar sabia que não podia haver nenhuma esperança de esconder seus sentimentos. Certamente, quando lhe desse um filho, algum tipo de amor iria crescer por ela. Nesse meio tempo, sentia-se confiante de que ele aceitaria o amor dela gentilmente. Ela não planejou quando lhe diria. Iria simplesmente acontecer no calor de seu encontro. Ele cavalgou no pátio um dia mais cedo. Ela ouviu os sons da sua chegada, enquanto costurava no solar. Ela jogou de lado sua agulha e correu pelas escadas. Estourando através da porta, voou para ele e pulou em seus braços. Ele a pegou como sempre fazia, e a girou quando a abraçou e a beijou. Ela se agarrou a ele enquanto seu cheiro e o toque reacendia sua alma. 255


Seu sangue vibrava com alegria. — Estou tão feliz por você estar de volta e seguro. Há algo que preciso lhe dizer... A expressão nos olhos dele a fez parar. Ele examinou-a com um escrutínio assustador. Sem carinho, estendeu a mão para ela, apesar de seu abraço. Na verdade, aqueles braços fecharam-se sobre ela de forma restritiva, como se ele tentasse segurá-la no lugar enquanto a estudava. Ela notou, desconfiada, a linha dura em sua boca. Algo escuro e perturbador emanava dele. Ela nunca tinha visto essa expressão e humor. De fato, para um instante horrível, sentiu como se nunca tivesse visto esse homem antes. — O que houve? — Será que ele havia sido descoberto afinal? Ele estava em perigo? Ele virou-se com ela em seu braço e guiou-a para o corredor. O aperto segurando seu ombro pareceu duro e autoritário. — Eu tive uma má jornada e preciso de um banho e um pouco de comida, Christiana. Falaremos mais tarde. Envie um servo para mim. Seu braço caiu e ele atravessou o salão em direção aos seus aposentos. Suas palavras e maneiras deixaram claro que ele não esperava que o seguisse. Perturbada e machucada, começou a providenciar suas necessidades. Ela enviou Emma e o servo para preparar o banho e avisou Vittorio para servir o jantar o mais cedo possível. Então, caminhou pelo corredor, absorta e preocupada com esta mudança nele. Podia esta ser a sua reação por ter seus planos frustrados? Se ele tivesse ido para a França, e arriscado o que ele arriscou, o rumo dos acontecimentos o irritou? Porque havia raiva naqueles olhos azuis, e uma distância fria que a gelou.

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Ele se juntou a família para o jantar. Ele se sentou ao lado dela e recebeu relatos de Andrew enquanto comia. Nada específico transmitia seu desagrado, mas ela podia sentir isso claramente. Na ponta da mesa, Sieg comia sua refeição com um silêncio metódico que sugeria que ele, ao menos, reconhecia o humor de David. Ela havia presumido que eles cairiam na cama na primeira oportunidade após o seu regresso, mas, dadas as circunstâncias, ela não se importou muito quando ele moveu a cadeira para a lareira após a refeição. Os outros saíram e ela sentou-se em frente a ele e vi-o olhar para o fogo. Um silêncio muito estranho desceu. Ela levou-o por algum tempo e, em seguida, tentou preenchê-lo com conversa. Descreveu pequenos eventos na casa enquanto ele estava fora, e a reação quando a frota retornou. Conversando ansiosamente, contou sobre a triste partida de Morvan e seu alívio em seu retorno inesperado. Ele virou os olhos assombrados sobre ela enquanto ela falava. Seu olhar estável a incomodava. Ela havia imaginado sua volta para casa muitas vezes, e isto tinha sido preenchido com júbilo e alegria em seu amor recém-descoberto. Ela encontrou todas essas emoções retrocedendo na presença escura sentada perto dela. Ela começou a contar-lhe sobre o torneio da Páscoa, mas ele a interrompeu com uma brusquidão que sugeriu que não estava ouvindo nada. — Você foi vista — disse ele. Ela sacudiu em confusão. A constatação assustadora que esta mudança tinha algo a ver com ela a alcançou. — Vista? O que você quer dizer? — Ela instintivamente se sentiu na defensiva.

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Ele se levantou da cadeira. Agarrando seu braço, ele a levantou e começou a empurrá-la na frente dele pelo corredor. — Do que você está falando? — Ela olhou para o estranho forçando-a a subir os degraus. Ele arrastou-a para o quarto e fechou a porta atrás deles. Ela sentiu sua raiva crescer perigosamente. Um pouco de raiva nela subiu em resposta misturada com sua preocupação e medo. Ela sacudiu sua mão opressora e apoiou-se nas janelas. Ele olhou para ela com as mãos tensas sobre seus quadris. — Você foi vista, menina. Com o seu amante. — Havia homens na corte que foram atenciosos comigo, David, mas foi inofensivo. Sem dúvida, muitos me viram, mas não com um amante. Sua resposta leve só fez piorar. Sua raiva aumentou. — Homens atenciosos são inevitáveis. Stephen Percy, ao que parece, é inevitável, também, apesar de seus votos e suas garantias para mim. Não demorou muito tempo para encontrar o caminho de volta para a cama do cavaleiro. Suas palavras ásperas a atordoaram. Ela realmente tinha esquecido o jantar com Stephen nestes últimos dias. Stephen Percy tinha deixado de existir para ela quando seu amor por David foi revelado. Ela olhou para ele sem fala e sabia que a verdade, que ela havia se encontrado com Stephen, estava escrito em seu rosto. — Isso foi inofensivo também — disse ela, sabendo que sua negação não importava. A reunião em si era uma traição e ele assumiria o pior. — Você não tem talento para o adultério, querida. Você nem sequer sabe quando mentir e como fazê-lo. Inofensivo? Lady Catherine foi vista levando-a até um aposento na pousada e depois retornar sem você. Uma hora depois, você saiu com Percy. Disseram-me que o seu beijo de despedida foi casto o suficiente, mas ele podia permitir-se o controle e discrição até então. 258


— O que foi dito é verdade, mas eu não fiz nada de errado nesse aposento, — explicou ela com uma calma que não sentia. Ela podia oferecer apenas a palavra dela contra a evidência condenatória. — Quem lhe disse isso, David? Muitos viram, tenho certeza, e sinto muito por não pensar como isto pareceria para eles e que poderia custar o seu orgulho. Mas quem sentiu essa necessidade de dizer-lhe? Foi Catherine? Ela ajudou Stephen na armadilha que me trouxe para ele sem saber. — Sem dúvida, lady Catherine aguarda ansiosamente para me avisar — disse ele amargamente. — Então, quem? — Mas mesmo que perguntasse ela sabia a resposta. Ele havia acabado de chegar a Londres, quem lhe contou foi alguém em quem confiava. Sua indignação com as implicações ajudou a derrotar o desespero. — Oliver, — ela engasgou. — Você o enviou para me seguir. Céus! Todo o tempo? Quando eu andava pela cidade, ele estava sempre lá? Será que ele se esconde nas sombras de Westminster e seguiu-nos para dentro da floresta para a caçada? Você confia em mim tão pouco... — Ele a seguiu para a sua proteção, e não para surpreendê-la assim. Neste assunto eu certamente confiei em você, ou não teria permitido que voltasse para a corte onde ele não podia segui-la. — Ele estava lá? Na pousada? Ele avançou em sua direção, perigoso e tenso, e ela recuou até que bateu contra a janela. — Ele tentou esconder a verdade de mim, mas posso ler ele como você, e o forcei, — ele esticou o braço e colocou a mão contra o rosto dela. Não havia nada suave em sua voz calma e tranquilizadora naquele toque. — Então, você finalmente teve o seu cavaleiro, minha senhora. Era tudo o que você esperava? Assim como as canções e poesias da cavalaria nas quais você foi criada? Será que as mãos do cavaleiro lhe deram o conforto 259


que você ainda é o que você nasceu para ser? Que você não foi rebaixada além da redenção na cama de um mercador? Não, ela queria dizer, era o contrário. Mas admitir que Stephen a havia tocado apenas jogaria óleo sobre o fogo. Ele não estava sobre ela nem restringindo seus movimentos, mas ela de repente se sentiu extremamente impotente. A borda sensual em seu tom suave a fez desconfiar. — Eu não fiz nada de errado... — Ela repetiu, procurando em seus olhos por crença e compreensão. Viu apenas sombras do fogo e qualquer outra coisa que a alarmou. Quando ele abaixou a cabeça, ela tentou se afastar. Sua mão se contorceu em seu cabelo e segurou-a quando sua boca clamou a dela. Ela o amava e sentia falta dele e o queria, e no início seu corpo e seu espírito aceitaram agradecidos. Mas quando sentiu sua paixão subir e aprofundar o beijo, sabia que não era amor nem carinho levando-o, mas sim o orgulho e a raiva, e isso a lembrou do ataque de Stephen. Ela virou a cabeça e lutou quando ele a puxou para os seus braços. — Não. Não... — Sim, minha menina. Estou a duas semanas sem uma mulher. Essa é a melhor coisa sobre o casamento. Alguém não precisa perder tempo cortejando e seduzindo quando isto espera por você em casa, — ele a aprisionou em seu abraço e segurou sua cabeça firmemente com um aperto forte. — Este é o problema com o adultério, como você vai aprender hoje. Um homem pode evitar a sua esposa se ele quiser, mas a mulher deve retornar a um marido que ainda tem seus direitos. Ele segurou-a com firmeza e beijou-a novamente. Ela se contorcia desesperadamente contra aqueles braços fortes. O choque eclipsou qualquer outra emoção. Ele era como um estranho lidando com ela. — Eu temia que você me repelisse sabendo onde você estava e o que estava fazendo na primeira vez que deixei a cidade — disse ele, enquanto suas mãos se moviam sobre seu corpo. 260


Ele sorriu levemente, mas ela podia dizer que sua raiva não tinha diminuído de modo algum. — Seria irônico, não é? Ter pagado toda aquela prata pela propriedade e, em seguida, descobrir que não quero mais fazer uso dela. Sua mente nublou horrorizada em ouvi-lo falar tão friamente de seu casamento. Tinha sido certamente evidente que ele pensava nela e, assim, tinha a seduzido para reivindicar o que era seu, mas ouvir as palavras ditas sem rodeios e ter a confirmação jogada no rosto e sobre o amor dela, a desgostou. — Propriedade... — ela suspirou. — Sim. Comprada e paga. Seus olhos borraram-se e ela pensou que seu coração quebraria. Mas suas palavras também insultaram o orgulho dela e sua fúria ardeu. — Eu não escolhi ser sua propriedade para ser usada a sua conveniência, — ela gritou, torcendo e chutando para se libertar. — Você não vai fazer isso com raiva e como punição. Sua luta só o enfureceu. Com dois movimentos irregulares ele a prendeu e imobilizou-a contra a janela. — Você é minha esposa. Você não tem escolha. Ela gritou quando ele levantou-a e levou-a para a cama, como se fosse um tapete. Quando ele a jogou, ela rolou para longe e tentou correr livre. Ele a pegou e puxou para ele, pressionando seu peito em suas costas e jogando a perna por cima dela. Ele segurou-a até que ela parou de se debater. Ela saiu do seu delírio de rebelião. Ele suavemente acariciou seus cabelos para trás como se ela fosse um animal arisco. Devastação a invadiu. Ela mordeu o lábio inferior e lutou contra as lágrimas. Pensou na alegria estúpida e confiante que ela tinha levado até ele 261


apenas algumas horas antes. Amor vivo, mas machucado, procurando abrigo em algum lugar dentro dela. Ele se moveu para longe dela e passou a mão em suas costas. Seus dedos erguendo-se para o nó do laço de sua capa. — Desculpe-me se a assustei, mas não compartilho você com ninguém, muito menos com aquele... — sua voz soava tranquila e suave, mas a raiva ainda irradiava nele, misturando-se com a paixão de seu corpo. — Você nunca irá até ele novamente. Se fizer isso, eu vou matá-lo. Ele disse isto de forma simples e uniforme, com a voz do David que ela conhecia. As mãos que ela apreciava acariciaram suas costas através da roupa solta, seu calor fluindo através do tecido fino de suas vestes. Seu amor tolo brilhando em resposta. Seu orgulho ferido empurrou isto de volta em um canto. Ela virou-se de costas. Seu humor não melhorara muito, embora ele tentasse escondê-lo agora. Ela olhou para aquele rosto bonito que podia facilmente fazer seu coração suspirar. Sua expressão se suavizou, e ele acariciou seu estômago e seios. O prazer doloroso vibrou através dela e horrorizou-a que pudesse responder sob essas condições. Seu amor começou a se espalhar dentro dela oferecendo-se para tecer uma ilusão de fuga. Suas palavras contundentes se repetiam em sua cabeça. Ela agarrou seu pulso e segurou sua mão. Amor ou não, não podia se iludir sobre o que estava prestes a acontecer e por que ele fazia isso e o que ela significava para ele. — Então, nós descemos para a realidade básica finalmente, — disse ela, estreitando os olhos. — Quão tedioso deve ter sido ter que fingir o contrário com a criança com quem você se casou. Ele olhou para ela. Sua falta de resposta e negação se transformou em angústia a despeito do ódio, no entanto. — O mercador tem necessidade de sua propriedade tanto quanto ele monta em seu cavalo quando lhe convém? Bem, vá em frente, marido. Reclame seus direitos. Mostre que você é igual 262


a qualquer barão usando uma de suas filhas contra a sua vontade. Você vai me machucar, também? Para certificar-se que a lição de sua propriedade foi bem aprendida? Ainda assim, ele não reagiu. Seu coração se partiu com uma dor sufocante e ela jogou fora o que podia machucá-lo, de uma vez. — Não se preocupe com sedução ou prazer, mercador. O solo não sente nada quando é cultivado, nem a lã quando é cortada. Vou pensar sobre quem eu sou e o que você é e não sentir nada, também. Mas seja rápido para que eu possa me limpar. — E então ela olhou para ele e através dele, do jeito que ela fizera naquele dia após o banho. Ela pensou que ele iria bater nela. Naquele breve momento de sua raiva renovada, quando ele se ergueu e seus olhos escureceram, ela rolou freneticamente para fora da cama e meio correu, meio rastejou para a porta do vestuário. Ela bateu e trancou a porta enquanto ele se aproximava. Um pontapé poderoso abalou a porta e os parafusos. Ela empurrou um baú pesado para frente da porta e ficou para trás com medo quando ele chutou novamente. Depois, veio apenas o silêncio. Ela correu para a porta que dava para as escadas exteriores e colocou a barra também. Ela esperou tensamente um longo tempo, mas o silêncio continuou e ele não fez mais tentativas de entrar. Respirando aliviada, ela se sentou em um banquinho e, finalmente, deixou as lágrimas fluírem. Ela chorou muito e forte, inundada de miséria e de choque, suas palavras cruéis ecoando em seus ouvidos. Seu amor patético querendo sair do esconderijo e adicionar à agonia. Eventualmente, um estupor dormente clamou-a. Apenas um pensamento veio claramente, uma e outra vez. Ela tinha que ir embora e deixar esta casa e este homem. Ela não iria, não podia viver com a realidade que ele tinha forçado hoje. Agora não. Não por muito tempo. Talvez nunca. **** 263


A chuva batia incansavelmente, e sua pulverização soprando picadas no rosto de David. Ele estava no pequeno cais e via os padrões que as gotas faziam no lamacento Tamisa. Bonitos salpicos rítmicos, cheios de fracos destaques de pureza, existindo por poucos instantes antes de serem absorvidas pelo fluxo sujo. Ele deixou a chuva cair sobre ele. Sua roupa estava encharcada e seu cabelo colava-se à cabeça. Depois de um longo tempo ele limpou a raiva escura de sua mente. E então, quando a loucura se foi, ele enfrentou a lembrança do que havia ocorrido. Isso nunca melhorava e ele revivia tudo de novo. Suas palavras rancorosas. Seus insultos agressivos. Sua viciosa degradação dela. Graças a Deus que ela havia fugido. Eles se conheciam bem o suficiente para apontar habilmente as adagas e tirar sangue das fraquezas um do outro. Ele nunca iria esquecer o que ela havia dito, mas não podia culpá-la por admitir esses sentimentos e pensamentos. Desde o dia em que ela veio a ele, já havia tentado bravamente ignorar o que este casamento significava para a sua vida. Ele nunca tinha sido tão cruel e duro com uma mulher, como tinha sido com Christiana este dia. Oliver e Sieg tinham razão. Ele nunca deveria ter voltado para casa e confrontado-a, enquanto o conhecimento de sua infidelidade ainda brilhava como lenha nova jogada no fogo. Ele sabia que eles estavam certos, mesmo quando ignorou seus conselhos e súplicas. Lembrou-se de Oliver sentado na mesa da taberna com ele e Sieg, escutando com a absorção estudada o seu conto de espera na costa da Normandia pelos sinais da passagem da frota. David descreveu como os dias ficaram escuros com tempestades e como ele tinha percebido que neste mês, pelo menos, seria poupado da decisão que o esperava na França. E todo o tempo Oliver ouviu atentamente e prolongou o conto com perguntas, e ele tinha visto os maus sinais aparecendo no rosto de seu velho amigo. Eles traíram o pior após David perguntar sobre Christiana. 264


Pobre Oliver. Ele tentou mentir e, em seguida, se esquivar quando ele sondou por mais detalhes. David sabia que sua própria expressão tornara-se perigosa quando sentiu a mão de Sieg em seu ombro e aquela voz melodiosa sugerindo que ficasse longe de casa por mais alguns dias. Impossível, é claro. Ele tinha que vê-la de uma só vez e olhar naqueles diamantes, sabendo o que ele sabia. Ele queria e esperava se sentir morto para ela, para ser livre do amor que estava complicando a sua vida e tornando-o repentinamente indeciso. Pois, quando ele desceu do barco Albin esta manhã, após dois dias traiçoeiros no mar, sabia que a amava. Ele reconheceu os sentimentos há muito tempo, mas na Normandia tinha colocado um nome a eles. Ele havia procurado Oliver antes de voltar para casa, porque sabia que quando entrasse naquela casa não gostaria de sair de novo por um bom tempo. Em sua imaginação, ele a viu correndo para ele, o rosto corado e os olhos brilhantes. Ele tinha visto a sua saudação exuberante com fascínio escuro. Ele não esperava que ela fosse tão boa em decepcionar. E misturado com que a reação inicial foi a terrível constatação de que ele ainda a queria. Uma mistura perigosa, pensou, enquanto levantava o rosto para a chuva. Raiva, desejo e ciúme. Por que ele não a deixara jogar? Por que ele não deixou algumas horas passarem enquanto ela fingia que nada havia mudado e seu próprio rancor crescia? Ele fez uma careta e limpou a água do seu rosto. Ele estava assistindo e esperando e, sim, com esperança. À espera de uma confissão e esperando que isto incluísse uma admissão de que a infidelidade foi decepcionante. Esperando que ela pedisse perdão e dissesse que agora sabia que não amava Percy. Tolo. Esposas infiéis nunca fazem essas coisas. Mesmo quando encurraladas com a evidência, o mais prudente era mentir. Honestidade era 265


muito perigosa. Os homens reagiam violentamente. Ele certamente provou isto, hoje, não provou? Ele forçou mentiras nascidas de seu medo. Ele fechou sua mente para a lembrança de seu choque e terror. Ela negou, mas ele não acreditou. Ela amava Sir Stephen e seu cavaleiro partiria para a guerra. Seu próprio testemunho sugeriu que Stephen não tinha nenhuma habilidade como amante, mas isso não o tranquilizou, no mínimo. Uma mulher apaixonada procurava mais do que prazer na cama e iria perdoar qualquer falta de jeito. Ele contemplou aquela negação enquanto caminhava de volta para seu cavalo. Uma parte soava verdadeira. Lady Catherine me levou para Stephen sem que eu soubesse, ela dissera. Ele acreditava nisso, e isso era algo, pelo menos. Christiana não tinha arranjado aquela reunião, mas havia sido atraída. Considerando como se sentia sobre Stephen, talvez o resto havia sido tão inevitável a ponto de torná-la praticamente inocente. Quanto a lady Catherine e seu papel nisto... Bem, quando ele estabelecesse essa nova conta, iria permitir-se o prazer da vingança, e não apenas justiça. Ele não podia ficar fora de casa para sempre, e assim ele retornou, sem saber o que diria a Christiana quando chegasse lá. A tentação se apresentou para fingir que o dia inteiro nunca havia acontecido, que ele nunca a tinha confrontado em sua raiva. Será que ela aceitaria seu comportamento como uma barganha eficaz? Uma infidelidade e traição por uma tentativa de estupro? Se tivesse sido apenas isso, as contas podiam ser apagadas, mas suas palavras e maneiras tinham insultado mais do que qualquer agressão física podia. Para machucá-la, ele disse que ela era apenas uma prostituta nobre a quem ele havia comprado. Ela não iria perdoá-lo rapidamente.

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Ele cavalgou no pátio molhado e entregou as rédeas ao palafreneiro. Assim que entrou na sala, um canto de sua alma suspeitou. A casa parecia como antes de seu casamento. Era sua casa por anos e ele havia encontrado contentamento nela e por isso nunca havia notado os vazios que ocorrerem após sua mãe e seu mestre morrerem. Só depois de Christiana preencher os espaços com seus sorrisos e alegria que ele havia percebido seu vazio anterior. Agora, ele ouvia seus passos ecoando no grande aposento, como se todos os móveis tivessem sido removidos. Ele caminhou até a lareira, evitando a confirmação de sua suspeita. Geva veio da cozinha com pratos de louça em seus braços. Ela olhou para ele e balançou a cabeça. — Você está molhado, David. Melhor tirar essas roupas — ela repreendeu. Ele virou as costas para o fogo. Geva cantarolava enquanto colocava os pratos para o jantar. Ela agia como se nada estivesse errado, e seu pressentimento recuou. Com um último olhar para ele, ela desapareceu de volta para a cozinha. Ele olhou para a mesa. Ele contou os pratos. Um a menos. O pressentimento voltou. Ele caminhou lentamente pelo corredor e até os seus aposentos, sabendo o que iria encontrar. No guarda-roupa, penduradas em pinos e dobradas em baús, estavam todas as roupas que ele tinha dado a ela, inclusive o manto vermelho. Folheou-os, notando que suas outras coisas, suas coisas antigas, em sua maioria, se foram. Nem todas, no entanto. Um baú ainda tinha algumas lãs de inverno. Ele as levantou até o rosto e saboreou o cheiro dela, e uma mão invisível apertou seu coração. Ele deixou o guarda-roupa e passou rapidamente pelo quarto, não querendo olhar para aquele espaço que ainda mantinha as imagens vívidas das feridas que eles tinham infligido um sobre o outro.

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Sieg se agachou no solar, acendendo a lareira. Ele ergueu as sobrancelhas para as roupas encharcadas. — Será que você se jogou no rio? David ignorou. — Você a machucou? Ele balançou a cabeça. Sieg terminou com o fogo e, em seguida, levantou-se. — Eu lhe disse para esperar, David. Seu humor era mais negro do que a noite. Nunca o vi assim nem mesmo quando os homens do sultão atiraram você naquele inferno comigo depois que a puta o vendeu a eles. Nem mesmo durante a nossa fuga quando você matou aquele que nos tinha açoitado. — Eu deveria ter escutado. David hesitou. Com qualquer outro homem ele não teria perguntado, mas Sieg já o vira fraco antes. — Onde ela está? Os olhos de Sieg brilharam e sua postura se endireitou. — Inferno! Você não sabe? Eu juro que ela me disse que você tinha concordado ou eu não a teria levado... — Onde? — De volta para Westminster, — ele virou-se para a porta. — Eu vou buscá-la agora. Inferno. — Não faça isso. Deixe-a ficar por algum tempo. — Você quer dizer que vai ficar afastado até esse cavaleiro idiota roubar a sua esposa? Você vai permitir isso? 268


— Se chegar a esse ponto, eu a enviei para isso, — disse ele. — Você acha que ela planeja permanecer na corte? Você sentiu que ela pretendia continuar para outro lugar? — Ela prometeu permanecer lá, o que achei estranho, já que ela não me devia nenhuma explicação. — Sir Stephen partiu para Northumberland há vários dias. Oliver me disse. Ela sabe que vou saber, ou descobrir. Sua promessa era para me assegurar de que não foi com ele, — ele sorriu levemente. — Eu disse que iria matá-lo se o fizesse. Meu comportamento deu-lhe razão para acreditar em mim. Sieg ergueu as mãos. — Não faz sentido, David. Se este homem foi para o norte, porque ela acabou de ir para Westminster? Se ela não foi até ele, por que fugir, afinal? David não respondeu, mas a resposta era óbvia. Ela não correu para Percy, ele pensava. Ela fugiu de mim. **** Christiana sentou-se em um jardim impregnado com o cheiro das flores do final de maio. Ela olhou para as papilas pastel e sorriu. Ser uma mulher em vez de uma criança não era de todo ruim. No ano passado, ela teria tomado a beleza das flores por garantia. Hoje, ela cuidadosamente admirava sua pureza fresca. David tinha lhe ensinado a prestar atenção nas belezas fugazes do mundo. Não era um presente pequeno. Ela suspirou em silêncio. O jardim estava vazio, apesar do clima quente, porque a corte frequentava o jantar no salão agora. Ela tinha evitado as lotadas refeições e todos os outros eventos onde seria necessário conversar e parecer feliz. Ela havia fugido para o santuário de Westminster para curar seu coração e alma. 269


Ela havia encontrado simpatia e boas vindas e, quando lady Idonia chegou havia lançado um olhar e soubera o motivo da visita. Aquela pequena mulher não fez perguntas e a acomodou como se esperava dela. Joan e Isabele, sem dúvida, avisadas por Idonia não procuraram explicações também. Eles eram a única família que ela tinha conhecido há anos, e que a rodeava protegendo-a em sua dor. Mesmo Philippa, ao ouvir de sua estadia prolongada, tinha vindo vê-la. Sozinhas na antessala, a Rainha tentou ser uma mãe para ela pela primeira vez quando explicou as dificuldades do casamento. Ao sair, ela se ofereceu para escrever para David e dizer que ela solicitava que sua esposa continuasse em sua companhia. Ele não se atreveria a vir até ela depois disso, e Christiana teria mais tempo. Mais tempo. Para quê? Para se conformar em viver a sua vida com um homem que, no máximo, a queria disponível para satisfazer suas necessidades? Que havia comprado uma companheira de cama bemeducada e bem formada tanto quanto escolhia cuidadosamente os seus cavalos? Um homem que não acreditava nela agora apesar de ter sido sempre honesta com ele, ao ponto de ser cruel? Um homem que mal se importava com ela de forma alguma, mas a quem amava, apesar de tudo? Ali estava o verdadeiro problema, claro. O resto ela conseguia manejar e aceitar se não o amasse. Isto acontecia com um monte de mulheres, e ela sequer tinha cavalgado para o casamento supondo que ele seria dela. Indiferença mútua tornaria suportável. Não era Margaret uma sobrevivente? Sim, ela precisava de tempo. Tempo para parar de amá-lo. Ela estava trabalhando duro nisso nas últimas semanas. Ela manteve a memória de sua indiferença cruel e sua tentativa de estupro afiada em seu cérebro. Ela reexaminou as evidências implicando-o em algum jogo traiçoeiro. Não tinha funcionado e ela estava em um dilema. O amor não morria e ele havia roubado dela a chance de criar ilusões fora das ambiguidades. 270


Ela olhou por cima das flores. Mais tempo. Quanto seria necessário? Quanto tempo antes que pudesse voltar para aquela casa e aquela cama tão indiferente a ele como ela era para ele? Quanto tempo antes que ele pudesse tocá-la e ela sentisse apenas simples prazer ou, se não, ficar alheia a experiência? David não havia dito que Anne conseguia se prostituir desse jeito? O que ela era se não apenas uma prostituta extremamente cara? Certamente apenas estar longe dele devia matar esses sentimentos eventualmente. A porta do palácio se abriu. Morvan parou no limiar. Ele olhou para ela por um momento antes de caminhar. Ele se sentou e ficou lá em silêncio, com o braço ao redor dela. Ela deixou a cabeça descansar em seu ombro. Ela não tinha falado com ele todo esse tempo e realmente o estava evitando. Quando eles brevemente se viam, ela afastava as perguntas em seus olhos. Agora, ele tinha deliberadamente procurado-a e ela se sentia grata. Ele possuía tanta força que sempre parecia ser extra para poupá-la. Ela se virou e olhou para o seu perfil e viu a sua preocupação. Ela também viu outra coisa suspeitando, com resignação entorpecida, que seu tempo acabou. — Por que você está aqui, Christiana? — Ele finalmente perguntou, exigindo a informação que ninguém havia exigido. — Eu não podia ficar lá. — Por que não? Porque o meu marido não me ama. Ela não podia dizer isso. Soava muito infantil. Como a maioria dos nobres, Morvan provavelmente pensava que a questão do amor era irrelevante em casamentos. 271


— Ele machucou você? Abusou de você? — Não — não do jeito que Morvan queria dizer. Se ele tivesse, teria mentido. Não queria que seu irmão matasse David. — Ele foi bruto? — Ele perguntou em voz baixa. — Não — ela sussurrou. — Ele esteve com outras mulheres? Se for isso, Christiana, devo dizer que os homens... — Não que eu sabia, Morvan. Ele acha que fui para outro homem. Para Stephen. Ele não acreditou em mim quando neguei. Ele estava louco de raiva e ciúme. Discutimos e dissemos coisas... Coisas feias. — Todos os casais discutem. Nossos pais tinham brigas horríveis. — Era diferente. — Talvez não. — Será que o nosso pai amava a nossa mãe? A pergunta o surpreendeu. — Era um caso de amor. Acho que eles se amaram até o final. — Então, era diferente. — Isso é uma coisa rara, Christiana. O que eles tinham. Acho que isso não acontece com a maioria. Não de verdade. — Nem pra você? — Não. Nem para mim. Como a maioria dos homens, me contento com breves simulações disso.

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Ela pensou que isso era triste. Lembrou-se de David dizendo que Elizabeth não se casaria com Morvan por causa de seu amor desigual. Ela entendia Elizabeth agora e sabia por que havia escolhido o velho barão por quem não sentia nada. Um casamento com Morvan teria arrancado seu coração diariamente. — Você não pode ficar aqui, — Morvan disse gentilmente. — Philippa falou comigo. Edward tornou-se ciente de sua presença e perguntou a ela sobre isso. Ela não acha que David disse nada, mas o Rei tem algum carinho por seu marido, ao que parece, e interferiu pessoalmente. — Não posso voltar para lá. — Não há nenhum outro lugar para ir. Ela fechou os olhos. — Se Deus quiser, Christiana, chegará o dia em que vou ter uma casa. Se você ainda precisar sair, vou levá-la para sempre e impedi-lo de levá-la de volta. Mas, por enquanto, não há escolha, — ele fez uma pausa e acrescentou com cuidado — Se você quiser ir para o norte com Percy, será que ele se ofereceria para mantê-la? Ela soltou uma risada curta. — Nada tão formal ou permanente, irmão. Mesmo se ele se oferecesse, eu não iria, porque não me importo com ele agora e não iria desonrar você assim. Também não iria porque David disse que vai matar Stephen se eu for com ele, e acredito nele. — Ela sorriu maliciosamente. — Você me deixaria ir? — Provavelmente não. — Eu não penso assim. Ele sorriu gentilmente para ela. — Eu pedi a Idonia para arrumar suas coisas. Os cavalos nos esperam. Vou leva-la para casa agora. 273


Seu estômago se contorceu. — Tão logo? — Qualquer coisa que esteja entre você e David amanhã apenas será pior. Ele se levantou e estendeu a mão. — Não sei se posso suportar isso, Morvan. A última vez que o vi... A última vez que ela o viu, ele estava prestes a atingi-la, porque ela tinha falado com ele como um nobre fala com um plebeu e insinuou que seu toque iria rebaixá-la e sujá-la. O último som dele que tinha ouvido foi o chute tentando arrombar a porta do armário. — Ele provavelmente ficará feliz e aliviado ao vê-la, — disse Morvan quando ele levantou-a a seus pés. — Ocorre-me que esta é a terceira vez que eu a levo para ele. O homem deve ter algum carinho por mim agora. Ela forçou um sorriso na tentativa de leviandade de seu irmão, mas ela não pensou por um momento que David ficaria aliviado ao vê-la. **** David ouviu os cavalos entrarem no pátio, assim que o jantar terminou. Andrew estava saindo do salão e ele olhou por cima de forma significativa, confirmando a identidade dos cavaleiros. Michael aglomerou-se atrás de Andrew à porta, anunciando alegremente aos servos que sua senhora havia retornado. David fez um gesto para que todos fizessem o seu trabalho. Ele foi até a porta e saiu. Os aprendizes cumprimentaram Christiana enquanto passavam por ela no caminho até o portão. Ela andava para frente lentamente ao lado de seu irmão. 274


Ela havia partido há quase três semanas. Nenhuma mensagem ou nota havia sido trocada entre eles, e sua opção por busca-la havia sido cortada pela interferência da Rainha. Três semanas e antes, duas mais. Ele só tivera aquela tarde horrível com ela nesse tempo todo. Pararam os cavalos na frente dele. Christiana baixou o olhar impassível. Morvan tentou parecer casual e amigável. Ele deslizou da sela e caminhou ao redor para descer a irmã. — Christiana me pediu para acompanhá-la a casa, — disse ele quando começou a desamarrar os pequenos baús sobre a sela. — Ela estava achando Westminster tedioso. David esperou. Christiana caminhou alguns passos e encarou-o. — Ele está mentindo, — disse ela em voz baixa. — Ele me obrigou a vir. — De qualquer forma, é bom ter você de volta. Ela olhou para ele com ceticismo. — Você manteve Emma? — Ela está lá dentro. — Vou descansar agora, — ela anunciou. — Acho que tenho dor de cabeça e estou um pouco tonta. Ele a deixou passar, acenando em reconhecimento de sua velha desculpa para evitá-lo. Morvan colocou os baús perto da porta. — Agradeço-lhe, Morvan. O rosto de Morvan endureceu. — Não me agradeça. Ela está triste com alguma coisa, embora eu não saiba o quê. Se houvesse outro lugar 275


para levá-la, eu teria feito isso, — ele montou em seu cavalo. — Vou voltar em alguns dias para vê-la — disse ele incisivamente. — Eu não vou machucá-la por isso. Ele virou o cavalo. — Mesmo assim, eu vou voltar. David atravessou o pátio e entrou no prédio lateral. Quando ele se aproximou da escada viu Emma emergir do velho quarto de sua mãe. Ela suavemente fechou a porta e facilitou para ele. — Ela está bem ruim, eu acho. Disse que não pode subir os degraus. Ele olhou para a porta atrás da qual sua jovem esposa escondera-se dele. Será que ela nunca abriria novamente por vontade própria, ou ele acabaria por ter que derrubá-la? Ele iria esperar para ver. Ele era bom em esperar. — Ela usará esse aposento até que se sinta melhor, então. Faça-a o mais confortável possível, Emma.

Capítulo 17

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A cama era um pouco estranha. Christiana se aconchegou debaixo das cobertas, embora a noite de junho estivesse quente o suficiente para deixar as janelas abertas. Ela olhou para a cortina azul plissada. Ela não tinha que estar aqui, lembrou a si mesma, e ainda tinha tempo para mudar de ideia. Ele não estaria de volta por várias noites. Ninguém sabia que sua senhora doente tinha furtivamente subido as escadas e entrado neste aposento, enquanto todos dormiam. Ela podia voltar para o quarto de Joanna antes do amanhecer e continuar a farsa. Ela duvidava que alguém continuasse enganado por sua doença, exceto, talvez a crédula Emma. A preocupação com o que ela havia sido tratada naqueles primeiros dias tinha há muito tempo se dissolvido em curioso silêncio. Seu braço estendeu-se e deslizou sobre os lençóis frios onde normalmente David dormia. Talvez tivesse sido um erro vir aqui esta noite. Mesmo que ela saísse agora e nunca mais voltasse, ele teria, sem dúvida, percebido que havia estado ali. Provavelmente tinha sido tolo andar as escondidas até esta cama e tentar imaginar se ela podia voltar para ele sem ser devastada. Ele sustentado sua doença imaginária. Durante três semanas, ele a tinha tratado com preocupação na frente dos outros. Ele a saudava calorosamente ao voltar para a casa e colocava sua mão sobre a dela, enquanto as conversas continuavam após as refeições. Quando ficavam a sós, ela via outras coisas naqueles olhos azuis, no entanto. O conhecimento de que ela o evitava deliberadamente. A paciência tolerante, mas não eterna. Às vezes, talvez, uma mente masculina inteligente calculando suas opções com ela. Desde que ela aparentemente não podia subir as escadas, levava a costura para o salão depois do jantar. Após os primeiros dias, ele começou a se juntar a ela. A tensão sutil alinhava-se as conversas afetadas que mantinha através da lareira, mas recentemente seu pulso tremulo começara a piorar durante os longos silêncios. Ela levantava o olhar de sua costura e 277


o encontrava olhando-a e o olhar em seus olhos poderia chamar aquele velho temor que não era medo. Ela amaldiçoava a si mesma e rezava para que ele a deixasse em paz e não a lembrasse com sua presença e seu olhar o quanto ainda o amava e o queria. Era tudo deliberado. Cada toque, cada suave beijo de boa noite, quando ela deixava o calor da lareira para voltar para o quarto de Joanna, haviam sido destinados a lembrá-la do prazer que sentia com ele. Ele estava jogando uma lenta e metódica melodia nas cordas do desejo dela. Isto tivera sucesso. Na semana passada, enquanto estava deitada em sua cama solitária, havia começado a considerar que talvez pudesse viver esta vida no qual havia sido aprisionada. Podia ter o prazer apenas pelo prazer. Por que negar a si mesma? Tornara-se claro que esta específica fome, uma vez despertada, não dormia facilmente novamente. Desde o dia em que ela voltou, deitava-se na cama todas as noites, sem conseguir dormir rapidamente, ouvindo os passos fora de sua porta que a alertavam que ele finalmente viera exigir seus direitos e seus deveres. Ontem à noite, ela mal havia dormido. Ele tinha a intenção de sair de manhã para participar de uma das feiras de comércio interior. Ela não duvidava da veracidade de seu destino, neste momento, porque John Constantyn estava indo com ele. Isto podia não ser uma viagem longa, mas sua noite silenciosa junto à lareira fora pesada pelo conhecimento de sua iminente partida. Será que suas lembranças girariam como as dela para aquela última emocional despedida e o que tinha ocorrido após o seu regresso? Seu beijo quando ela finalmente o deixou fora longo e menos casto, e suas mãos a tinham acariciado enquanto ele a abraçou. Faminta, sentimentos doloridos longamente negados a inundavam antes que ele se afastasse. Se ele a levantasse e a levasse de volta para sua cama então, ela não poderia impedi-lo. Entretanto, ele não o fez. Ele permitiu que ela o deixasse como sempre fez nestas últimas semanas. Ela foi até o pequeno aposento que se tornou 278


sua casa. Esperou, rezando nesse momento que de fato ele viesse e acabasse com isso mesmo que temesse. A necessidade de sua proximidade a dominava. Seu orgulho insultado e sua mágoa ante sua indiferença deixou de importar. O desejo dela estava totalmente entrelaçado com o seu amor e não a assustava tanto. Ela manejaria esses sentimentos de alguma forma. Ele tinha vindo, mas não durante a noite. À primeira luz, a porta se abriu e ela virou-se para encontra-lo ali de pé, olhando-a. Ela levantou-se contra a cabeceira da cama e puxou o lençol sobre os ombros nus. Ele sentou-se ao lado dela e ela viu sinais de cansaço em seu rosto que sugeriam que não havia dormido muito. — Você está saindo agora? — Ela perguntou. — Sim. John espera lá fora. Sieg vai ficar aqui. Há rumores de que Edward convocou o Exército novamente, Christiana. Se os homens começarem a chegar na cidade, não saia de casa sem Sieg ou Vittorio. Ela não sabia que Edward tinha renovado seus planos sobre a França, mas não tinha deixado esta casa nas últimas semanas por causa de sua doença. Margaret a tinha visitado várias vezes, mas Margaret não tinha interesse em intrigas da corte ou políticas e, portanto não lhe tinha dito nada. Nem David tinha, até agora. Talvez não houvesse rumores ainda. Talvez David só soubesse porque o Rei lhe havia dito. Ele só viaja para uma feira, ela disse a si mesma com firmeza. John Constantyn vai com ele, não Sieg. Ele colocou a mão em seu joelho. Ela olhou para ele, tão excitante em sua força elegante, tão quente, apesar do lençol entre a sua carne. Essa intensidade trêmula que sempre emanava dele parecia especialmente evidente esta manhã. — Isso não pode continuar, — disse ele. — Você não pode ficar aqui. Eles nunca tinham falado sobre aquele dia, nem por que ela fingiu esta doença. Uma parte dela esperava que eles nunca fizessem. 279


— Isso foi o que Morvan disse. Ele veio até mim em Westminster e disse que eu não podia ficar lá. Agora você diz isso sobre essa casa. — Não. Eu digo isso sobre o aposento. Eu não verei outra mulher enterrada viva nele. — Então me dê algum dinheiro para pagar os servos e irei viver em Hampstead. Vou recompensá-lo com as rendas agrícolas. Um brilho de raiva cintilou nos olhos azuis, antes dele disfarçar. Ele balançou a cabeça lentamente. Sua mão ainda repousava em seu joelho, chamando-a com seu calor, oferecendo-lhe os seus prazeres. Melhor se a tivesse carregado para cima na noite passada. Melhor não ter nunca colocado palavras no que estava acontecendo. — O que você está dizendo, David? Você está me ordenando que cumpra o meu dever? — Estou pedindo para você voltar para o nosso casamento e nossa cama. — E Stephen Percy? — Vamos esquecer isso. — Você ainda não acredita em mim, não é? Mas por favor, me perdoe. Isso é muito generoso de sua parte, mas não quero nem preciso do seu perdão. — Talvez eu queira e precise do seu. — Eu não sei se posso dar, — ela sussurrou, quando memórias daquele dia flutuaram no espaço entre eles. — Mesmo agora, enquanto você me pede para voltar para você, sei que acabou de descobrir que tem 280


necessidade de sua propriedade e se ressente de isso ser negado. Pode ser a forma como estas coisas sempre são, mas não acho que muitas mulheres precisem ouvir isto tão abertamente e então viver com a verdade de uma forma tão nua. Talvez seja essa a razão para os dotes. Para dar às mulheres qualquer outro valor em casamento para que sua dignidade seja preservada. Essa mão excitante subiu seu joelho e acariciou sua bochecha acima do lençol aglomerado com que ela protegia a si mesma. Ele descansou lá, e seu calor fluiu para ela e para baixo no pescoço. — Nós dois falamos coisas duras um ao outro. Eu não penso em nenhuma pessoa como propriedade, Christiana. Muito menos você. Ele se inclinou em direção a ela. Ela sabia que não seria um simples beijo de despedida e que deveria virar, mas não podia mesmo que a união trouxesse angústia. O toque quente, a voz calma, os olhos azuis intensos a tornaram indefesa. As memórias sensuais durante a noite haviam deixado seu corpo cansado meio excitado. Seu beijo demorou e aprofundou e ela não podia lutar contra isso porque algo dentro dela, além de sua razão e sua dor, ansiava por ele. Beijou-a como se o mundo tivesse deixado de existir. Suavemente, quase preguiçosamente, ele mordeu ao longo de seus lábios. As mordidelas e o calor a atordoaram. Ele lentamente intrometeu sua língua nela e ela abriu a boca com firmeza, aceitando-o com uma hesitação trêmula, o corpo ansioso não sentindo tudo. A intimidade inebriante desta pequena união a invadiu e submergiu seu ressentimento e mágoa. Uma pequena voz interna gritou uma advertência, mas seu amedrontado forte desejo ignorou. Ela lançou um aperto de mão no lençol e desajeitadamente abraçou os ombros inclinando-se em direção a ele. Eles se beijaram timidamente novamente, como amantes de primeira viagem encontrando seu caminho. Então, devagar, com cuidado, como se cada toque revelasse algo precioso, ele apertou os lábios no seu pescoço e ombros. Seu corpo inteiro tremendo de grato alívio com o repetido contato quente daquela boca.

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Ela abriu os olhos e encontrou-o a olhá-la, e imaginou que ele podia, como sempre, ver tudo e saber que seu corpo traidor tinha vencido sua resolução. Ela silenciosamente pediu-lhe para ficar e também rezou para que ele não o fizesse. — Venha aqui, — disse ele, aproximando-se dela. Ele a levantou e virou e a colocou no colo dele, apoiando a cabeça e os ombros com o apoio de um braço enquanto o outro a abraçava. Ela ainda agarrou o lençol e isto a seguiu, arrastando o seu corpo enquanto distorcia a cama. Apesar do lençol e da roupa dele, ela sentiu seu calor e força, e suspirou com a proximidade. Suas nádegas pressionadas contra os músculos duros de suas coxas e quadril sentiam o cume quente de sua excitação. Fazia meses desde que ele a abraçara, e ela se perdeu em uma névoa irracional de calor compartilhado. Embalando-a em seus braços, levantou-a, e lhe deu um beijo faminto e inquisitivo. Ela sentiu sua paixão aumentar apesar do controle das últimas semanas. Seu desejo mal controlado também se soltou de sua tênue ligação. Seu último pensamento foi uma clara consciência indiferente que iria pagar com a dor por esse prazer. Com a mão livre, rodeou seu pescoço e apertou-o mais, pedindo mais, encorajando-o. Sua longa abstinência a fazia desavergonhada, e ela não iria deixá-lo terminar o beijo profundo e frenético. Seu braço a soltou e ela gemeu enquanto sua maravilhosa mão acariciava suas costas nuas e o quadril. Ele interrompeu o beijo e olhou nos olhos dela. Seu olhar baixou e seus dedos traçaram até onde ela ainda segurava a parte superior do lençol. — Isto não irá te ajudar mais do que naquele dia no vestuário, querida, — disse ele calmamente. — Solte agora. Ele falou sobre o lençol, mas também queria dizer muito mais. Ele suavemente acariciou sua mão fechada até que seus dedos relaxaram sob seu toque sedutor. Ela virou o rosto em seu ombro, quando ele aliviou o

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lençol de sua mão e deslizou para fora. O ar frio alertou a pele do corpo todo. Ela sabia que ele olhava para ela como tantas outras vezes, só que agora sentia-se subitamente tímida e atordoada por uma antecipação furiosa. Ela cerrou os dentes e enterrou o rosto mais forte em seu ombro. Ele beijou seu pescoço e sua voz calma fluiu com a respiração em seu ouvido. — Não esconda o seu rosto de mim, Christiana. O desejo que sentimos um pelo outro é uma coisa maravilhosa. Eu quero que você me veja enquanto te dou prazer. Delicadamente, ele virou seu rosto para o dele e forçou-a a encontrar seu olhar. Ele ainda não a tinha tocado, mas a dolorida necessidade já tencionava seu ventre e uma insistência ardente pulsava entre suas pernas. Ela assistiu seu comando. Assistiu enquanto ele a aconchegava e beijava-lhe os seios e umedecia suas pontas rígidas com sua língua. Observou como seus dedos lentamente traçavam ao longo de seu seio e brincavam em círculo. Seus seios incharam sob aquele toque errante, ansioso, implorando, e sua consciência se centrou em nada além de seu silêncio, pedindo fôlego. Seus dedos deslizando para um mamilo úmido. Ela viu seu corpo arquear em direção ao toque devastador, e então viu um pouco mais. Sensações incríveis e desejo franco obliterou todo o pensamento. Ele a excitava como se o tempo não importasse, como se ninguém o esperasse no pátio e nenhuma jornada estivesse marcada. Seus seios nunca haviam estado tão sensíveis, e suas carícias deliberadas levantaram prazeres excruciantes. Quando o braço forte deixou seus ombros e sua boca substituiu a mão, a deliciosa necessidade que ele criou com os lábios e os dentes tornou-se demorada e dolorosa. Ele levantou a cabeça e olhou para baixo de seu corpo. Seus próprios olhos aturdidos seguindo. Sua mão espalmada sobre a barriga, a pele dourada clara contrastando de forma convincente com a sua brancura cremosa. Ele pressionou para baixo, acalmando o movimento de seus quadris. Ele acariciou as coxas e os dois assistiram o progresso da mão. 283


Sua respiração ficou reduzida a uma série de suspiros baixos. — Estou considerando que está em meus interesses deixa-la com sua doença, — disse ele em voz baixa, enquanto sua mão se arrastava sobre seu corpo. — A abstinência é um poderoso reforço para a paixão. Não acho que você ficaria doente por muito tempo depois do meu retorno. Ela mal ouviu esta avaliação franca de sua condição e determinação. Ela viu e sentiu sua mão seguir para a fenda onde as pernas se uniam. Punhaladas de calor a distraíram. — Mas acho que não posso fazer isso, — disse ele, — Sinto saudades da sua paixão e pelo menos, terei isso de você neste dia. Seu olhar reivindicou sua atenção, e suas palavras penetraram em seu estupor. Ele beijou-a maravilhosamente. — Abra-se para mim, minha querida — disse ele, enquanto seus dedos tocavam o monte macio. Ela estava esperando que ele a deitasse. Estava esperando a intimidade de seu corpo ao longo do dela e a obliteração de suas escolhas. Percebeu que ele nunca teve a intenção de usar o desejo dela contra ela própria, como hoje. Ela hesitou, e quase disse, como ele a fez dizer naquela pela primeira vez que o queria. — Abra, — ele ordenou suavemente. Seus dedos acariciaram tão perto de sua necessidade que sua respiração parou e aquela carne escondida pulsava. — Não há derrota em receber prazer de mim. Ela não tinha resistência. Fechou os olhos e abriu as pernas e aceitou o alívio que ele oferecia. Não demorou muito. Ele tocou-lhe lenta e suavemente, como se prolongasse o êxtase, mas seu corpo já gritava por liberação e cada toque 284


enviava linhas de sensações frenéticas através dela até sentir a incrível tensão que a fez se debater, enrijecer e exalar sons de desejo. Ele puxou os ombros dela e segurou-a firmemente, beijando-a ferozmente enquanto a empurrava para o auge do prazer, mantendo seus gritos dentro de si mesmo quando o clímax violento finalmente a atravessou. Ele segurou-a em um abraço apertado por um longo tempo, com o rosto enterrado no ângulo do pescoço e do ombro. Ela acordou do delírio para encontrar as mãos agarrando as vestes em seu peito. Ela duvidava que ele tivesse encontrado satisfação nisso. Ele afrouxou seu abraço e olhou para ela. Ela percebeu um pouco de sangue em seu lábio, onde provavelmente o mordera. Silenciosamente, ele se levantou e a deitou na cama. Acariciou seu rosto e olhou em seus olhos. — Tenho que ir. Ele a contentara, mas o seu desejo mais profundo ainda queimava. Ela quase pediu para que ele ficasse mais tempo e terminasse o que havia começado. A escolha não seria realmente dela então. Ele foi embora. Deixou-a com a prova de que ele possuía o poder de seduzi-la de volta. Forçar nunca teria sido necessário, esta visita de despedida havia demonstrado que esta persuasão sexual havia estado sempre disponível para ele e estaria no futuro. Por um pouco mais a escolha seria diretamente dela, no entanto. Ele a deixou para decidir se podia viver este casamento e estar com ele mais uma vez, por sua própria vontade. Ela olhou para as pregas azuis esvoaçantes acima da cama. Sim, talvez pudesse. Durante esse breve incursão ao prazer ela não havia pensado em mais nada, nem mesmo no que significava para ele. Só mais tarde, quando ele estivesse longe, a dor e as dúvidas voltariam. No momento talvez elas deixassem de atormentá-la. Em poucos anos, talvez o seu amor se tornasse apenas uma lembrança divertida.

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Ela deveria sair desta cama agora, antes de adormecer. Se Emma a encontrasse lá em cima de manhã, toda a família suporia que sua doença havia terminado e quarto de Joanna deixaria de ser uma opção. Sem escolha, então. Ela sorriu pelo quanto avidamente sua alma aprendia diante da possibilidade de sua própria decepção. Fique aqui, durma, já está feito. Um acidente, em vez de uma decisão. A cama tinha perdido a sua estranheza e um delicioso relaxamento atraiu-a. Mesmo quando se repreendeu para sair, as pálpebras baixaram-se. Ela se entregou ao amor sem orgulho que aceitaria qualquer dor para estar perto dele e iria aceitar com gratidão a pequena parte de si mesmo que ele escolheria lhe dar. Não sabia quanto tempo dormira, mas de repente seus olhos se abriram. Um som penetrou em seu sonho, instigando-a a sair de sua paz. Ela ergueu-se sobre um cotovelo. Uma grande sombra escura passou pela janela mais próxima da porta do armário. — David — ela murmurou, enxugando os olhos. A estranha presença encheu o quarto. Ela ouviu passos suaves, aproximando-se. A sombra se movia, e dois outros se juntaram a ele. Alerta pelo choque, ela começou a gritar. A grande sombra pulou em sua direção. Braços fortes a prenderam para baixo, enquanto as mãos ásperas colocaram um pano em sua boca. Ela se debatia violentamente contra a sufocante mordaça. Mais mãos pressionaram até que ela ficou imóvel. Ela olhou para os rostos estranhos pouco visíveis à luz do luar, enquanto seu coração batia violentamente no renovado silêncio. — Agora fique calma, minha senhora, e nenhum mal ocorrerá a você — a voz de um homem disse suavemente, a poucos centímetros de seu ouvido. Não era a voz de um inglês, considerou enquanto sacudia contra as mãos que a restringiam. 286


Escocesa. Uma mão a soltou e um brilho de aço apareceu e acenou na frente de seus olhos. — Ouça com atenção. Vamos deixá-la levantar, mas há três de nós aqui e armados, portanto, faça o que digo. Você vai para o vestuário e se vestirá e empacote algumas coisas. Empacotar? Estes homens planejavam levá-la a algum lugar. Onde e com que possível propósito? Sua mente avaliava freneticamente seu perigo. Como eles haviam alcançado a casa com o muro circundante? Onde estava Sieg? — Você entende? Não levante as mãos para a mordaça. Ela assentiu com a cabeça em silêncio. As mãos se afastaram dela uma por uma e o homem que falava se afastou. Tremendo de medo, deslizou para fora da cama, agradecida que não tivesse acendido uma vela e que estes homens não pudessem ver seu corpo nu muito bem à luz do luar. Ela cambaleou com as pernas bambas até o guarda-roupa, tentando controlar o pânico que ameaçava nublar a mente de toda razão e sentido. Apesar de suas advertências, ela queria correr e correr e deixar que o terror a consumisse enquanto o fazia. Ela, precipitadamente, decidiu que na escuridão do vestuário iria tirar a mordaça e gritar por socorro. Ao entrar, viu que a porta do jardim estava aberta. Luz suficiente atravessou para fazer as linhas de sua sombra visíveis e suas ações óbvias. Eles viram como ela se atrapalhou com uma roupa larga e puxou-a. Um dos homens encontrou um pequeno baú de viagem, e ela recheou de roupas dentro, sem saber o que pegou. Enfiando os pés nos sapatos, virou-se para eles. Tentou manter a calma, embora o pânico mortal ainda quisesse perturbá-la. Sua única esperança era manter seu controle. Se Sieg ainda vivia, ele iria salvá-la

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quando tentassem sair. Ela iria fazer tanto barulho quanto possível sobre as pedras do pátio, na esperança de despertar a ele e aos outros. — Agora vamos descer os degraus e sair para o jardim dos fundos — disse o homem. Seu coração se afundou. Eles tinham vindo por cima do muro, e não através do portão. Sieg dormia sem saber de nada no prédio da frente. Ele e os outros nunca poderiam ouvir. Cercaram-na como um prisioneiro que está sendo movido e guiaramna para descer as escadas e sair pelo portão do jardim principal. Na parede de trás, dois deles desapareceram na escada rude. — Agora você. Há outra do outro lado. Cuide-se, minha senhora. A queda pode machucá-la — disse a voz do escocês. Ela cambaleou para cima, virou seu corpo cegamente, e sentiu as ripas de madeira do outro lado. Mãos a arrancaram na metade do caminho e a colocaram no chão. Eles caminharam até o beco onde os cavalos aguardavam. Alguém amarrou suas mãos antes de levantá-la até a sela. Ser amarrada a fez se sentir ainda mais impotente. Eles se arrastaram pelas ruas da cidade, rebocando-a junto. Ela observou as ruas ansiosamente, esperando ver as chamas de tochas que indicavam outros viajantes noturnos ou algum policial. Se eles fossem parados, o policial notaria sua mordaça? Será que esses homens usariam seu aço se fossem desafiados? Nenhum desafio veio. Seu medo aumentou quando notou a sua aproximação da porta da cidade. Para seu espanto e angústia, a sentinela do portão os deixou passar. O homem guia continuou em frente depois que eles passaram através do muro. Ela endireitou-se, em estado de choque.

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Eles se dirigiram para a estrada do norte. North. Northumberland. Stephen? A família Percy mantinha terras na Escócia e na fronteira da Inglaterra, em Northumberland. Este escocês era um de seus enviados? Stephen a sequestrava? Agora? Seria uma loucura. Não, não Stephen. A menos que seu orgulho tivesse sido ferido por ter perdido o jogo para o mercador. Durante os torneios, Stephen nunca havia sido especialmente gracioso na derrota. E se não Stephen, então quem? Ela não conseguia pensar em outra possibilidade. Enquanto cavalgavam em silêncio durante a noite, ela disse a si mesma que Stephen nunca faria algo tão absurdo, mas uma parte dela achava que na verdade ele poderia. Podia até mesmo considerar isto cavalheiresco e romântico e um grande gesto de salvação. Duelos e sequestros são temas de canções, não da vida. A menos que você estivesse lidando com uma garota infantil e um cavaleiro tolo. Stephen, ela suspeitava, poderia ser muito tolo. Ele parecia finalmente ter aceitado sua recusa naquele jantar. E se ele tivesse reconsiderado sua decisão? Teria sua vaidade o levado a concluir que ela havia lutado contra o verdadeiro desejo do seu coração? Céus. David iria matar os dois. Suas dúvidas queimavam quando, alguns quilômetros ao norte de Londres, ela espiou sombras na estrada. Seu pequeno grupo se aproximou de outras duas figuras em cavalos e parou. — Você fez um trabalho rápido — disse uma voz de mulher.

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Os olhos de Christiana se arregalaram e ela olhou no escuro em direção ao manto com capuz. Ela conhecia essa voz. Isso era obra de Stephen. E mais uma vez ele havia pedido ajuda a lady Catherine. O braço de Catherine se estendeu. — Aqui está a moeda que você vai precisar. Faça exatamente o que eu disse, e não demore. O homem vai pagar a sua taxa. E lembre-se, ela não deve ser prejudicada. Christiana fez um som alto atrás de sua mordaça. Lady Catherine virou-se para ela. — Você quer falar, criança? Retire a mordaça. Dedos sujos arrancaram o pano amassado de sua boca. Ela engasgou respirações profundas de ar antes de falar. — Onde você está me levando? — Ela exigiu. — Você vai descobrir em breve. — Se você me raptou por resgate, me diga agora. Dê o seu preço e devolva-me para casa. Eu vou pagá-la. — A oferta é generosa, mas não haverá resgate — disse Catherine. — Então por quê? Quem mandou você fazer isso? Stephen Percy? Catherine riu levemente. — Tudo será explicado ao seu tempo, minha querida. No final, você vai me agradecer. Será que Catherine presumia, como tantos outros na corte, que ela devia receber redenção nos braços de Stephen? — Meu marido vai matar vocês por isso — ela sussurrou para os homens que esperavam. Ela percebeu que era a primeira vez que havia reivindicado a proteção de David ao invés de Morvan. Mas David poderia matá-los. 290


A coisa sobre o propriedade era que alguém não gostava de ser roubado. — No momento em que a encontrar, isto pode não importar muito a ele, — disse Catherine. — Ele terá preocupações maiores. Leve-a agora, e lembre-se que ela não deve ser molestada ou manipulada. Não tente fugir, Christiana, pois eles têm ordens para transportá-la e amarrá-la no cavalo, se for preciso. — Isso é loucura — ela começou a protestar, mas a mordaça de repente encheu sua boca novamente e ela sufocou as palavras. Lady Catherine e sua companheira silenciosa viraram para o sul, enquanto seus captores puxavam as rédeas e partiram para o norte. Christiana manteve-se na frente da sela, com as mãos amarradas e balançando no trote mais rápido do animal. Norte. Momento impróprio para Stephen Percy finalmente decidir viver alguma canção! Ele não se lembrava de que as mortes violentas e assassinatos ciumentos muitas vezes terminavam essas longas canções de amor?

Capítulo 18 David deixou o sangue de seu pai fluir dentro dele. Ele o liberou através dos recessos e fissuras no qual o manteve represado e controlado. Ele permitiu que toda a sua força sombria o invadisse. Sieg caminhava ao lado dele quando atravessava o pátio. Ele olhou para a testa franzida do sueco. Sieg culpou sua própria negligência pelo desaparecimento de Christiana e não descansaria até que tivesse lhe 291


ajudado a trazê-la de volta. David gostaria de receber a ajuda de seu amigo no final, mas não agora. — As espadas, Sieg. Não se esqueça de embalá-las — disse ele. Sieg concordou e David passou pelo portão. Era possível que não precisasse dos preparativos que estava deixando Sieg fazer. Possivelmente iria encontrá-la em outro lugar. Ele duvidava, no entanto. Ainda assim, teria que verificar. Ele fez uma pausa e olhou para os edifícios onde vivera sua juventude e idade adulta. Se as coisas acontecessem como esperava, ele nunca mais veria essa casa novamente. Não dava a mínima para o sangue de seu pai. Ele esboçou um sorriso. Não, não havia sentimento. Não, quando encarava uma missão ou um objetivo. Ou vingança. Ele havia reconhecido há anos que isto estava nele e o que poderia fazer. Quando jovem, ele havia examinado o seu rosto e sua alma para saber o que vinha dos Abyndons e o que vinha do outro lado. Ele tentou reconstruir a imagem de seu pai ausente dos desconexos pedaços que não pertenciam ao legado dos Abyndon. O amor pela beleza. O controle emocional. Os cálculos escuros. A capacidade de matar. Mesmo a crueldade hipócrita de Gilbert não conseguiu igualar as suas próprias inclinações a crueldade fria. Esta, em particular havia estado sempre nele, uma força a ser usada e uma fraqueza a ser temida, e ia muito além da análise perspicaz ensinada como parte do comércio de um mercador. O sangue de sua mãe tinha temperado um pouco, mas as verdadeiras lições sobre controle haviam sido o maior presente de David Constantyn para ele. Havia sido a metade de seu pai que machucara Christiana. Ele verificaria Londres e Westminster primeiro, só para ter certeza. Um pouco mais tarde ele cavalgou no pátio da casa de Gilbert de Abyndon pela primeira vez em sua vida. 292


Um palafreneiro se aproximou de seu cavalo, mas ele ignorou o homem e amarrou as rédeas em um poste. A família sentava-se para jantar, quando entrou no salão. Ele havia planejado dessa forma. Não queria que Margaret tivesse que enfrentar a ira de seu marido se ele viesse quando Gilbert não estivesse em casa, e queria pessoas ao redor de modo que talvez não esmagasse o punho no rosto de Gilbert quando seu tio o insultasse, como o homem certamente faria. Gilbert interrompeu sua conversa quando David se aproximou de sua mesa, e alguém teria pensado que o homem havia visto uma aparição, tão completo era seu choque. Margaret empalideceu visivelmente. David simplesmente assentiu o reconhecimento de seu tio e voltou sua atenção para Margaret. — Estou procurando por Christiana, Margaret. Ela franziu a testa. — Procurando? — Ela saiu de casa. — Ela está melhor, então? Então Christiana não tinha confiado em sua nova amiga. — Sim. Mas ela está desaparecida há dois dias, Margaret. Ela veio até você? A compreensão a alcançou, mas Margaret escondeu sua expressão. Gilbert mostrou-se menos discreto. — Então sua nobre esposa te deixou tão cedo? — Ele zombou suavemente. — Margaret, ela está aqui? Ela balançou a cabeça.

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— Você nunca soube o seu lugar, garoto, — Gilbert rosnou. — A presunção de se casar com tal mulher! É claro que ela se foi. É uma maravilha ela ter ficado tanto tempo. David conseguiu ignorá-lo. — Você sabe onde ela está, Margaret? A pobre Margaret balançou a cabeça novamente. Olhos angustiados piscaram para ele. Sua mão repousava protetoramente sobre a barriga um pouco inchada. Gilbert riu. — É um prazer ver um grande orgulho humilhado. Tais são os pagamentos deste pecado. Olhe para as camas dos castelos do reino dela, sobrinho. Essas mulheres não têm moral. Sua mão disparou e ele agarrou seu tio pelo pescoço. Gilbert gritou e caiu para trás em sua cadeira. David deixou o braço e a mão seguir até que tinha o homem preso contra a parte traseira da madeira. O salão ficou em silêncio e uma dúzia de pares de olhos observava. — Você não vai dizer mais nada tio, ou vou liberar sua jovem esposa da miséria deste casamento, — disse ele. — Agora, você vai permitir que Margaret me acompanhe até a porta e não vai nos seguir. Você concorda? Gilbert olhou para ele. David apertou. Gilbert concordou. Margaret levantou-se de seu banco e deu a volta na mesa. David baixou sua mão. — Eu sinto muito, — disse ele, enquanto caminhavam pelo corredor. — Não havia nada a fazer, a não ser vir aqui. — Eu entendo. Não se preocupe. Ele vai reclamar por alguns dias e fala mal de você para todos que ele encontrar, mas isso não é nada novo, não é? David parou na porta. — Ela sempre fala de Sir Stephen Percy para você?

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A surpresa e o choque de Margaret eram genuínos. — Não, David. Ela não falou sobre nenhum homem para mim, exceto sobre você e Morvan. Mesmo quando ela descreveu um evento bem-humorado na corte, os participantes não tinham nenhum significado. Ele balançou a cabeça e se virou para ir embora. — Fique bem, Margaret. Ela o parou e saiu para o pátio para que pudessem falar em particular. — Por que você me perguntou sobre esse homem, David? Você acha que Christiana fugiu? — É possível. — Com esse homem? — Ela olhou para ele, incrédula. — Eu sempre pensei que você era a exceção à regra que diz que todos os homens são tolos, David. Se ela mantinha outro em seu coração, então eu não a conhecia. Ela só falava em você, com calor, carinho e respeito. Se ela se foi, não foi por vontade própria, tenho certeza. Ela franziu a testa com angústia. — Ela está em perigo, não é? Oh meu Deus... — Não acho que ela esteja em perigo, — disse ele suavemente. — Volte para o seu marido agora. Diga a ele que não permiti que me deixasse até que respondesse as minhas perguntas. — Você tem que encontrá-la... — Vou encontrá-la. **** David permaneceu contra a parede do pátio de treinamento e assistiu Morvan Fitzwaryn balançar seu machado de batalha e enterrá-lo contra o escudo de seu oponente. Um brilho intenso de suor cintilava no peito e nos ombros nus de Morvan. David sentiu um movimento atrás dele e se virou 295


para ver duas mulheres espiando por cima do muro, enquanto passeavam. Elas olharam para o cavaleiro alto apreciativamente e riram de alguns comentários de cada uma por trás das mãos levantadas antes que seguissem. Ele esperou. Morvan já o tinha notado. Eventualmente, esta prática teria que acabar. Logo acabou. O adversário de Morvan gesticulou para acabar. Os dois cavaleiros se aproximaram de um cocho de água e lavaramse. Morvan veio enquanto balançava a água de sua cabeça. — Você quer falar comigo? — Ele perguntou, com a voz ainda um pouco sem fôlego pelos esforços. — Sim. Três noites atrás Christiana saiu da casa. Ninguém a viu e ela não disse a ninguém para onde ia. Morvan estava no processo de limpar a testa. Sua mão congelou. — Será que ela veio para cá, Morvan? — Não. — Você disse que a teria levado a outro lugar, se possível. Você fez isso agora? Morvan olhou para ele. — Se eu a tivesse levado de você, teria deixado você me ver fazê-lo. David começou a se afastar. — Ela não foi com ele — Morvan gritou atrás dele. Ele girou. — Como você sabe? — Porque ela me disse que não faria isso. — Então, você recebeu mais garantias do que eu. 296


— Por que dar garantias a um homem que não acredita nelas? — Morvan perguntou firmemente quando caminhou até ele. — Vou saber a verdade em breve, suponho. Morvan olhou pensativo para o chão. — A última vez que ela saiu e veio para cá, ela o deixou saber onde estava. — Sim. — Mas não desta vez. E ela me disse que já não se importa com ele. Se ela está com Percy, David, não acho que seja por sua própria escolha. — Eu pensei nisso. Você conhece o homem melhor do que eu. Está em sua natureza fazer isso? Raptá-la? Morvan olhou às cegas ao redor do pátio de treinamento. — O inferno se eu sei. Ele é vaidoso e arrogante, e sempre achei um pouco fraco de sagacidade. As mulheres dizem que ele não aceita bem a rejeição. Os homens sabem que ele é rápido num desafio, se ele se julga menosprezado. David considerou. Ele devia ter encontrado Sir Stephen, ou pelo menos descoberto mais sobre ele. O orgulho havia impedido, mas tinha sido um erro. Sempre se deve conhecer os pontos fortes e fracos de um concorrente. Até mesmo um aprendiz imaturo sabia disso. — Eu vou deixar você saber quando encontrá-la. — Você cavalgará para o norte, então? — Morvan perguntou com cautela. — Sim. — Eu irei com você.

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— Irei sozinho. Por um lado, o Rei precisará de você aqui para lidar com o exército. Por outro lado, não pretendo resolver esse problema como um cavaleiro faria. Ele se virou para sair, mas Morvan agarrou seu braço. Ele olhou nos brilhantes olhos preocupados tão parecidos com outros. — Você tem que me prometer que se encontrá-la, vai dar-lhe uma chance de falar. Se há uma explicação, você deve ouvir — disse Morvan. David olhou para baixo na mão impedindo-o, e depois para os olhos brilhantes e intensos estudando seu rosto. Ele parecia tão perigoso quanto a preocupação de Morvan sugeria? — Vou ouvi-la, irmão. Ele saiu em seguida, para encontrar Sieg e Oliver e começar a viagem para Northumberland. Antes, porém, ele andou até as escadas de pedra que levavam aos aposentos privados de Edward. **** David e Oliver descansavam ao longo da calha da pousada, com as costas pressionadas contra o telhado íngreme. Abaixo deles a estrada que levava a essa pousada parecia deserta, exceto pela grande sombra de um homem descansando casualmente contra uma cerca de trilho. A cabeça nas sombras olhava para cima para verificar o progresso deles. Deveria ser dito que Sieg não podia se juntar a eles ali. Seu peso teria quebrado as telhas. Ele esperaria abaixo e, em seguida, entraria pelo caminho normal, despachando em seu rastro quaisquer escudeiros inconvenientes ou companheiros que pudessem tentar interferir.

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— Isso me faz lembrar os velhos tempos, — Oliver sussurrou alegremente enquanto definia cuidadosamente os seus passos nas telhas. — Lembra-se do tempo que nós, ainda meninos, entravamos no sótão da mercearia através do telhado? Enchendo nossos bolsos com sal. — Nada tão prático, Oliver. Era canela, e valia mais do que ouro. Eles teriam nos pendurado se nos pegassem, crianças ou não. — Uma grande aventura, no entanto. — Pelo menos a sua mãe usava o que você levava. A minha sabia que era roubado, jogava fora, e me arrastava para o sacerdote. — Sem dúvida, a sensibilidade dela sobre essas coisas foi o motivo pelo qual sua vida não tomou um rumo pior quando você ficou mais velho, — disse Oliver. — A escola e tudo mais. — Certamente. O pé de Oliver escorregou e uma telha caiu no chão. Ambos os homens congelaram e esperaram os sons que indicavam que alguém tinha ouvido. — Eu tenho uma boa ideia para cortar a garganta do cavaleiro apenas para expressar a minha indignação por ele ser tão difícil de encontrar — Oliver murmurou no silêncio. David sorriu levemente. Certamente tinha sido difícil encontrar Percy, e a duração da investigação não tinha melhorado muito o humor de David. O homem parecia estar se escondendo. Não era um bom sinal. Eles tinham cavalgado primeiro para propriedade de seu pai, em seguida, a do seu tio, e, finalmente, para as propriedades que o próprio Stephen administrava. Não tinha havido nenhuma necessidade de se aproximar dos castelos e casas senhoriais. Algumas horas na cidade ou vila mais próxima deu-lhes a informação que procuravam. O jovem Sir Stephen não havia sido visto por pelo menos uma semana. Finalmente, na estrada ao 299


sul, uma conversa casual com um bardo passando tinha revelado que Percy, eventualmente, poderia estar descansando nesta pousada pública a vários quilômetros ao norte de Newcastle. David examinou o chão mal iluminado por uma tocha abaixo dele. Sieg olhou para cima e balançou a cabeça. Eles estavam um pouco acima da janela do quarto de Stephen no nível superior da pousada. A noite quente de junho determinou que a janela ficasse aberta. Foi na calada da noite e nenhum som vinha da pousada ou do aposento abaixo. David virou-se para o telhado, se agachou e agarrou os beirais. Ele abaixou seu corpo lentamente sem flexionar seus braços. Seus pés encontraram a abertura e ele se inclinou para dentro, caindo com o menor baque possível no chão do aposento. Ele olhou em volta para as sombras cintilantes emitidas por uma vela noturna. Cortinas cercavam as camas nesta estalagem cara, mas aqui elas tinham sido deixadas abertas. Ele viu as costas nuas de um homem de cabelos loiros, e um braço forte pendurado em outro corpo. Cabelos longos e escuros espalhavam-se sobre o lençol. Seu estômago se apertou. A fúria sangrenta obscureceu sua visão. Ele desembainhou a espada em seu quadril. Oliver oscilou na janela e caiu ao lado dele. Ele fez um gesto para David ficar imóvel, em seguida, deslizou até a porta. Sieg esperava do outro lado. Com a chegada de Sieg poderia haver pouca esperança de manter sua presença em segredo. O sueco andou pesadamente desembainhando sua espada. A cabeça de Stephen Percy se ergueu. Sieg chegou até ele antes que tivesse se curvado totalmente. Ele colocou um dedo para silenciar os lábios de Percy e a espada em sua garganta. Stephen congelou. A mulher ainda dormia.

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David encontrou uma vela perto da lareira e se inclinou até acendê-la no candieiro. Ele se aproximou e inspecionou o homem que lhe tinha causado tantos problemas. Brilhantes olhos verdes o olhavam com cautela sobre a lâmina brilhando. Stephen tinha traços rudes e sua pele parecia muito pálida, especialmente com todo o sangue sumindo agora. David relutantemente admitiu que as mulheres poderiam achar este homem atraente. — Quem é você? — Stephen perguntou com voz rouca com uma voz que tentou parecer indignada. David inclinou-se para ver melhor. — Eu sou o marido de Christiana. O mercador. O olhar de Stephen deslizou sobre David, em seguida, inclinou-se para Sieg e mais para Oliver. — Graças a Deus — ele suspirou de alívio. Sieg franziu o cenho para David. David fez um gesto para Oliver. O esbelto homem moveu-se para o outro lado da cama. Oliver empurrou as mechas negras espalhadas sobre as costas finas. A garota retorceu-se acordando e se virou. Ela soltou um grito baixo antes da mão de Oliver apertar sobre a sua boca. Oliver olhou. — O inferno, David, não é ela! — Não. Eu realmente nunca pensei que seria. Ela não viria por conta própria, e ele nunca se importou o suficiente para raptá-la. Mas tinha que ter certeza. A garota tinha notado a espada na garganta de Percy, sua ponta não muito longe de seu próprio pescoço. Ela amontoou-se em uma bola e olhou em torno com olhos selvagens.

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David sorriu para Sir Stephen. — Você pensou que pudesse ser um parente dela? Stephen deu de ombros. — Outro sacrifício virgem para sua vaidade, Sir Stephen? Os olhos de Stephen se estreitaram. — Você perdeu alguma coisa, mercador? Você pode ver que ela não está aqui, então vá embora. — Você a tem em outro lugar? Stephen riu. — Ela era doce, mas não vale a pena tanta dificuldade. Raiva perigosa penetrou na mente de David. — Doce, ela era? A zombaria brincava no rosto de Stephen. Sieg ergueu a lâmina um pouco, forçando o queixo de Percy a subir com ele. Stephen olhou com raiva para a espada e hesitou, mas a presunção venceu. — Sim, — ele sorriu. — Muito doce. Valeu a pena esperar. — Vou mata-lo agora, David — Sieg disse com naturalidade. — Não. Se ele morrer, será pela minha mão. A garota começou a chorar em seus joelhos. Oliver sentou-se ao lado dela e acariciou seu ombro. Ela murmurou algo entre soluços. — Tendo em conta a sua posição, ou você é muito corajoso ou muito estúpido para me insultar assim — disse David. Stephen riu. — Você não é ameaça para mim, mercador. Se tocar em um fio do meu cabelo será melhor você deixar o reino. Se a lei não enforcálo, minha família o fará.

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— Um bom ponto. Só que eu já havia planejado deixar o reino e, portanto, parece que não tenho nada a perder. O sorriso de satisfação sumiu do rosto de Stephen. — David, — Oliver disse — Essa garota é pouco mais que uma criança. Olha como é pequena. Quantos anos você tem, garota? — Apenas quatorze neste verão, — ela miseravelmente chorava. Ela olhou para Stephen. — Ele ia me levar para Londres, não ia? Stephen revirou os olhos. — Nós vamos, meu doce. Logo que seja seguro... — Não, ele não vai, — disse Oliver para ela. — Ele vai deixá-la a mercê da ira de seus parentes, e você terá sorte se acabar em um convento. Quem é você? Da nobreza rural? Sim, bem, eles não vão pressionar um caso contra Percy, vão? Não, garota, será um convento ou a prostituição para você, receio. A garota chorou. Percy amaldiçoou. — Então, vamos matá-lo agora? — Perguntou Sieg. Rápido. Fácil. Tão tentador. David olhou impassível para o rosto irregular tentando permanecer corajoso e frio. — Acho que não — ele disse finalmente. Os olhos de Stephen fecharam aliviados enquanto Sieg amaldiçoou e embainhou a espada. — Dê-me a sua adaga, David, — Sieg disse, estendendo sua mão. — aquela dos escravos. — Para quê?

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Sieg fungou. — Em homenagem ao amor que sinto por este país e pela proteção das poucas virgens que restam nele, vou consertar este homem. Stephen franziu a testa, perplexo. — Lembra-se daquele médico na prisão, David? O que já havia trabalhado no palácio? Bem, ele me contou como eles produziam eunucos. É uma coisa simples, na verdade. Apenas um corte rápido... Os olhos de Stephen se arregalaram de horror. — Sieg... — David começou. — A adaga, David. Você sempre a mantêm afiada. Nós vamos sair daqui tão rápido quanto um pequeno corte. David olhou para a testa suada de Sir Stephen. Ele olhou para a garota chorando e o conforto suave de Oliver. Ele pensou na dor de Christiana por causa deste homem. — Se você insiste — disse ele suavemente. — Sim. Oliver, segure-o para mim. A garota viu a aproximação do punhal e começou uma série de baixos gritos roucos. Sir Stephen praticamente pulou fora de sua pele. Avançou devagar na cama, olhando para o ameaçador e implacável Sieg. Ele virouse para David. — Meu Deus, homem, você não pode estar falando sério! — Como eu disse, não tenho nada a perder. Stephen riu nervosamente e levantou a mão como se quisesse afastar o punhal. — Ouça. Sério. O que eu disse antes sobre Christiana... Eu estava mentindo. Eu nunca a tive. Na verdade nunca fiz.

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— É mais provável que você esteja mentindo agora. — Eu juro, nunca... Eu mal a toquei! Eu tentei, admito, mas, inferno, nós todos tentamos, não é? Ele virou-se descontroladamente para Sieg e Oliver, buscando confirmação. — Vamos ver. Ajoelhe-se em suas pernas, David. Oliver, suba e coloque o seu peso sobre o peito dele — Sieg disse enquanto se aproximava do lençol. — Jesus! — Stephen gritou. — Juro pela minha alma, ela não me queria. David sorriu. — Eu já sabia disso. Sieg deu mais um passo para frente. Stephen parecia prestes a desmaiar. — Como? — Stephen resmungou enquanto olhava para o feio comprimento de aço. — Ela me disse, — ele colocou a mão no ombro de Sieg. — Vamos, Sieg. Deixe o homem. — Inferno, David, ele é nojento... — Deixem-nos ir. Oliver levantou-se da cama e foi buscar algumas roupas num tamborete. — Você espera do lado de fora, nós sairemos em breve. — Nós? — Não podemos deixá-la aqui, não é? Ele a arruinou. Eu disse a ela que a levaria para Newcastle e a deixaria em uma abadia. Ela vai dizer que 305


bateu a cabeça e perdeu a memória e vagou por dias até que alguma alma caridosa a trouxe para a cidade. — Ah. A explicação bateu-a-cabeça-e-vagou-por-dias. Um pouco exagerada, você não acha? — Sua família vai acreditar nisto, porque eles vão querer. No caminho, vou lhe explicar como mascarar a evidência quando ela se casar. — Oliver... — Ela é apenas uma criança, David. Muito confiante, isso é tudo. — Você é um devasso, Oliver. É suposto que você recrute garotas arruinadas, não que as salve — ele olhou para a garota não muito mais jovem do que Joanna havia sido. Ele suspirou e foi até a porta com Sieg. Inferno. Nesse ritmo, ele nunca sairia da Inglaterra. Mas, então, aquilo tinha sido o ponto de forçá-lo a fazer esta pesquisa, primeiro.

Capítulo 19 Christiana puxou os lençóis e toalhas atadas tensamente para ter certeza de que estavam bem amarradas. Ela passou o braço pelo centro da corda de pano enrolada e colocou seu manto leve sobre tudo isso. Isto vai funcionar, ela decidiu. Tinha que funcionar.

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Saindo do aposento e da construção, ela atravessou o pátio para a sala. Ela encontrou Heloise costurando com suas servas e três filhas. A bela e loira Heloise olhou gentilmente enquanto ela se aproximava. — A noite está clara, — disse Christiana no tom distante que estava mantendo desde a sua chegada. — Acho que vou sentar no jardim por um tempo. — A brisa está esfriando — disse Heloísa. — Trouxe minha capa, caso seja preciso. A mulher acenou com a cabeça e voltou para a sua conversa. Christiana caminhou lentamente demonstrando indiferença. Fora, ela se dirigiu ao jardim murado atrás do aposento. Ela serpenteava através dos canteiros a fim de que seu avanço parecesse casual. Lentamente, deliberadamente, andou em direção à árvore alta no canto de trás do jardim. Cinco dias. Cinco dias presa, e ainda não sabia por que a tinham trazido aqui. Duvidava que Heloise soubesse também. Talvez seu marido, o alcaide de Caen, em cuja casa palaciana se encontrava agora, tivesse a resposta, mas ele não explicou nada. Desde o dia que havia tropeçado na casa, suja e desgrenhada de sua viagem a cavalo e pelo mar, furiosamente indignada e pronta para matar ou ser morta, ninguém lhe tinha dito nada. No entanto, eles a tinham recebido como uma convidada e oferecido toda a honra e hospitalidade. Exceto por um detalhe. Ela não podia sair. Bem, ela sairia agora. Ontem, ela havia encontrado esta árvore. Muito mais alta do que o muro, ela olhou ansiosamente, orando que tivesse alguma estrutura para que pudesse saltar encostada ao muro do outro lado. 307


Pairando entre os ramos escuros e folhas, ela olhou para a enorme queda de seis metros à sua espera. Mesmo quando a decepção a invadiu, ela não desistiu de seu plano. Ela olhou ao redor cautelosamente enquanto recuou para a sombra da árvore. Pelo menos duas horas antes do anoitecer. Tempo suficiente para ficar longe desta cidade e encontrar abrigo em algum lugar. Içando a corda de lençóis até o braço, subiu na árvore. Ela encontrou um ramo forte pendendo na ponta do muro e se acomodou sobre isto. Deslizando os lençóis, ela amarrou uma ponta no ramo e jogou o resto por cima do muro. Ela deslizou para fora sobre o precipício e olhou para baixo. A corda branca pendurada chegava a três metros do chão. Se ela se pendurasse perto do fim e caísse, deveria ser seguro o suficiente. Ela olhou para os lençóis e seus nós. Se eles não conseguissem suportar seu peso, poderia se machucar. Ela rezou para que o alcaide de Caen comprasse linho de alta qualidade para sua cama. Baixando os pés para o topo da parede, ela pegou o primeiro nó. Deu um passo para trás. Ela tinha esperança de que pudesse basicamente andar na parede, mas não era assim que funcionava. Ela encontrou-se pendente contra isto, suas mãos agarrando a corda branca que apoiou. Os músculos de seus braços e ombros imediatamente se rebelando. Só há um jeito de ir. Agarrando com toda a sua força, ela começou a sacudir o seu caminho para baixo, de mão em mão. No meio do caminho até o chão, começou a ouvir um barulho distante. Isto aumentou e se aproximou dela. Ruídos e vozes ressoavam através do muro de pedra. Várias pessoas estavam no jardim, conversando. Ela continuou seu doloroso progresso e olhou para o galho de árvore com medo, esperando a face que iria descobri308


la. As folhas deviam ter escondido sua corda afinal, porque os ruídos recuaram. Ela tinha amarrado algumas toalhas no final para alongar a corda, e chegou até elas agora. O nó esticado contra o seu peso. Assim como suas mãos estavam prestes a se soltarem de qualquer maneira, ela ouviu o rasgão que enviaria sua queda ao chão. Tinha sido apenas uma queda de dois metros, mas ainda atordoou-a. Ela cautelosamente levantou-se e olhou ao redor. Outra parede, de outra casa, alongada na frente dela. Entre as duas se entendia um beco muito estreito onde estava agora. Em uma extremidade, viu um amontoado de telhados que sugeriam que dava para fora em uma rua da cidade. Esse caminho parecia limpo. Ficando na sombra da parede, ela caminhou rapidamente até o beco com uma alegria triunfante. Seja o que for que o alcaide de Caen havia planejado para ela, ele podia encontrar outra inglesa para o papel. Ela iria atravessar o rio e ficar fora das estradas e fazer seu caminho para a costa até uma cidade portuária. Talvez encontrasse um pescador Inglês ou um mercador que pudesse ajudá-la. Ela parou perto do fim da parede e aguçou os ouvidos para os sons dos perseguidores. Tudo estava em silêncio. Ela começou a avançar novamente. De repente, um homem saiu de trás no final do muro. Ele ficou vinte metros à sua frente, com os braços cruzados sobre o peito. Ela fez uma pausa e olhou para ele na luz da noite. Definitivamente não era o corpulento e baixo alcaide. Muito alto e magro, o longo cabelo era muito branco e as roupas muito ricas. Não um de seus sequestradores também. Ela cuidadosamente andou para frente, na esperança de que a presença deste homem não tivesse nada a ver com ela, apesar da forma concentrada com que ele assistia sua aproximação. 309


Ela tinha acabado de decidir sorrir docemente e fingir que pertencia a este beco e ao bairro, quando se aproximou o suficiente para ver seu rosto. Ela o reconheceu e, sabia, ele a reconheceu também. Seu coração afundou quando seus pés continuaram trazendo-a para mais perto do nobre francês que se disfarçara para encontrar-se com David, em Hampstead. Ela não o conhecera de perto naquele dia, mas parou a poucos passos de distância e o encarou agora. Lembrava-se mais de sua aparência do que havia pensado, pois ele parecia muito familiar para ela de forma não especifica. Olhos castanhos encapuzados olharam examinando. Entre o bigode branco e barba curta, um sorriso lento formou-se. — Você tem espírito, — disse ele. — Um bom sinal, — ele olhou para o beco e para a corda branca feita de lençóis e toalhas balançando. — Você poderia ter se machucado. — Será que isso importa? — Isto tem uma grande importância. — Bem, ao menos é uma boa notícia. Ele deu um passo para o lado. Com um gesto galante, ele apontou-a de volta para sua prisão. **** Christiana empurrava sua agulha no crepúsculo da janela aberta. Um fogo baixo ardia na lareira, mas no início de julho, à noite estava muito quente e o fogo não seria aceso quando a luz do dia desaparecesse. Ela olhou para as mulheres e meninas que sentavam ao seu redor, falando humildemente umas com as outras enquanto se inclinavam sobre seu próprio bordado. Ocasionalmente, uma delas olhava para ela com curiosidade. Elas ainda não sabiam por que foram obrigadas a fazer 310


amizade e entretê-la, e nada além da amabilidade anterior havia se desenvolvido ao longo dos sete dias desde a sua tentativa de fuga. Ela olhou pelo salão em direção a lareira onde quatro homens estavam reunidos. Dois deles eram barões locais que chegaram nos últimos dias, com seus séquitos ao comando do Rei francês. Outros vieram antes deles. A cidade foi se enchendo de cavaleiros e soldados. Alguns acampavam do outro lado do rio que servia como defesa natural para esta cidade normanda. Alguns tinham entrado no castelo, mas a maioria veio para cá, para a casa do alcaide, e consultavam o homem alto de cabelos brancos sentado perto da lareira. Ela sabia o nome dele agora. Theobald, o conde de Senlis. Não era apenas um nobre, como havia imaginado naquele dia em Hampstead, mas um importante barão do mesmo nível que um conde Inglês, e um conselheiro do Rei francês. Ele havia falado com ela apenas para saber se ela não havia sido prejudicada ou molestada. Ele ignorou as perguntas mais exigentes. Suspeitava, no entanto, que tinha sido trazida para cá por sua iniciativa e comando, e não pelo alcaide. Uma prisioneira ainda. Sua prisioneira. Com que fim e qual o propósito? As mulheres não sabiam. O conde não diria. Ela sentava-se nesta casa dia após dia, mantendo-se a si mesma, recusando-se a tudo, menos a simples hospitalidade, e viu as chegadas dos senhores e as consultas diárias na outra extremidade do corredor. A luz havia desaparecido. Ela se levantou e foi até um banco abaixo de uma janela na longa parede do corredor. Ela sentava-se sozinha dando tempo às senhoras para fofocarem e especularem sobre ela. Sua situação social antinatural e tensa não ajudou em nada para aliviar o medo arrepiante que estava dentro dela desde que aqueles homens a tinham tirado de sua casa. Ela admitiu que o medo havia

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se tornado mais intenso desde que havia enfrentado o Conde no final do beco. Havia imaginado durante os primeiros dias aqui que David viria resgatá-la. Talvez trouxesse Morvan e Walter Manny e alguns dos outros cavaleiros para ajudar. Eles iriam atravessar o rio do outro lado da ponte e entrariam na cidade para exigir sua libertação. Como algo saído de uma canção. Ela fez uma careta para a própria loucura. Se David viesse, ele estaria aqui agora. Na verdade, poderia ter chegado antes dela. Ao voltar para casa e encontrá-la fora, ele poderia ter navegado de Londres e chegado à França antes do seu próprio barco. Seus captores haviam arrastado-a até o norte, quase até a Escócia, antes de assegurar a passagem para um porto marítimo. Um desperdício de tempo que não fazia sentido, mas, em seguida, nada disso fazia sentido. Ela fechou os olhos enquanto contemplava a situação, e o corredor havia recuado de sua consciência. Uma ligeira comoção se intrometeu em seus devaneios agora. Na lareira o conde levantava-se de sua cadeira e inclinava seu ouvido a um homem de armas que gesticulava. Um amplo sorriso apareceu em seu rosto. Ele se virou e disse algo ao alcaide. Um dos barões colocou a mão alegremente no ombro do outro. A entrada para o salão se abriu e ela teve uma visão além da antessala. Através do limiar para o pátio, viu um homem se aproximar. A luz da tocha refletiu sua armadura antes que a escuridão da antecâmara a engolisse. Outro barão. Eles vieram para se preparar para a invasão do Rei Edward, é claro. Sem dúvida, reuniões militares semelhantes estavam ocorrendo em toda a França. Um dos escudeiros do conde entrou pela primeira vez, levando um capacete e escudo. Ela olhou para o casaco azul e ouro recém-pintado e incólume de marcas de armas. Cinco discos de ouro ao longo de três serpentes entrelaçadas, o padrão sinistro de um filho bastardo. 312


Três serpentes entrelaçadas... O alerta chocante a sacudiu. Ela sentouse ereta e olhou. O cavaleiro entrou no aposento. Alto e magro, ele olhou em volta placidamente enquanto tirava suas luvas. Seu corpo se movia com fluidez na armadura desajeitada como se ele usasse uma segunda pele. Ele parou orgulhosamente com um toque de arrogância. Cabelo castanho despenteado pendia em seu perfeito rosto bronzeado pelo tempo. Os olhos azuis encontraram os dela atentamente. Ela o observou sem fala. À sua direita, a mulher virou-se para encarar o novo homem forte e bonito. À sua esquerda, o conde avançou, sorrindo, com as mãos estendidas. — Bem-vindo à França, sobrinho. David de Abyndon, seu David, seu mercador virou-se para o conde de Senlis. Sobrinho! Atordoada, ela olhou dele para o conde e depois novamente. De repente, compreendeu a familiaridade estranha que sentia quando olhava no rosto do homem mais velho. Ela olhou para David, ali tão casualmente e, naturalmente, em sua maldita armadura, olhando para todo o mundo como um cavaleiro, aceitando as boas vindas de um parente barão francês. Claro. Claro. Por que não tinha visto isso antes? A altura. A força. A falta de deferência. Ele não tinha dito a ela. Ele nunca sequer havia insinuado. A vontade de estrangular o marido a invadiu. O conde falou calmamente e fez um gesto em direção a David da lareira. 313


— Verei minha esposa primeiro — David disse, e descartando o interesse de seu tio, cruzou o espaço até ela. Ela olhou para as placas de metal moldadas e olhou acusadoramente diretamente nos olhos. Ele olhou para trás. Plácido. Inescrutável. Frio. — Você está bem e ilesa? — Apesar de me sentir como uma tola ignorante e estúpida que é casada com um estranho mentiroso, estou bem. Inclinou-se para beijá-la. — Vou explicar tudo quando estivermos sozinhos, — disse ele calmamente. — Venha então, e sente-se comigo. Não leve a sério o que disser a ele, querida. Quero que o conde pense que não estamos felizes juntos. — Eu acho que estou apta para ajudá-lo nisso. O conde queria falar a sós com David. Ele havia dispensado os barões e o alcaide, e franziu a testa em aborrecimento quando David levou Christiana para a lareira. — Graças a você, joguei com a vida dela agora, bem como a minha, — disse David. — Ela tem direito de saber sobre a minha situação. Ela se sentou em uma cadeira. David estava perto da lareira e ela o observava confusa, chocada e raivosa. De uma forma estranha, no entanto, uma pequena parte acenava com compreensão. Algo parecia terrivelmente certo sobre vê-lo assim, como se uma sombra que sempre flutuou atrás dele subitamente tomasse substância e forma. Quem é você realmente? Ela olhou para o conde e podia dizer pelo olhar aprovador do homem idoso que ele via o mesmo que ela. David virou-se para seu tio e deixou seu aborrecimento abrasar. — Eu lhe disse que não queria que ela fosse envolvida. 314


O conde ergueu as mãos. — Você não veio em abril. Procurei incentivá-lo. — Não vim porque as tempestades aumentaram assim que cheguei a Normandia. Por que entregar uma notícia que não teria valor? A frota mal conseguiu voltar para a Inglaterra. Então, ele viera para a França na Páscoa. Mas ela soube disso assim que o viu entrar na sala. — Eu tinha homens esperando por você em Calais e St. Malo. Você não veio. — Você acha que sou tão estúpido para aportar num porto comercial importante onde pudesse ser reconhecido? Você seria tão descuidado? O conde considerou e fez uma careta de tentativa de aceitação. — Ainda assim, você está atrasado. Eu o esperava há semanas. O exército está pronto para se mover. — Estou atrasado porque a minha mulher desapareceu e precisei procura-la. — Você sabia onde ela estava. — Não sabia. Dificilmente poderia deixar a Inglaterra, sem saber o destino dela. O conde corou. — Eles ficaram de deixar... — Nem uma nota ou palavra foi deixada, — David olhou fixamente para o conde. — Você mandou Frans fazer isso, não foi? Contra o nosso acordo. — Ele conhece as pessoas. Conhece seus hábitos.

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— Sim. Mas ele contou com a ajuda de lady Catherine, que não tem nenhum apreço por mim. Também contra o nosso acordo. E ela tinha seus próprios planos para mim. Tive sorte de sair da Inglaterra com vida. O conde enrubesceu. — Ela ameaçou você? — Você provavelmente assumiu que eu saberia, com nota ou não, que você tinha levado Christiana. Que outra explicação podia haver? O que você não sabia é que minha esposa tem um amante que vive no norte do país. O conde olhou em contundente decepção para ela. Ela baixou o rosto. Era melhor David ter uma boa razão para dizer isto ao seu tio. — No entanto, lady Catherine sabia disso, — David continuou. — E então ela disse aos homens que ela e Frans contrataram, para não deixarem nenhuma nota ou sinal, por isso, eu queria saber se Christiana tinha ido até este homem. Eles até mesmo levaram-na para fora do país por meio de uma porta do norte, para que eu pudesse seguir sua trilha em direção ao amante dela. Enquanto isso, o tempo estava passando e eu ainda estava na Inglaterra, — ele fez uma pausa e sorriu desagradavelmente. — E durante esse tempo, Catherine foi até o Rei Edward e falou sobre mim. Ela tinha muito a dizer, porque Frans a tinha deixado saber sobre o meu relacionamento com você. Uma expressão muito dura mascarou o rosto do conde. Christiana recuou alarmada. Ela já tinha visto aquela expressão antes, mas não no rosto deste francês. — Eu vou lidar com ambos. A mulher e Frans. — Eu já o fiz. — Se a mulher o entregou a Edward, sabe que você pode não ser útil. Ele pode alterar o porto.

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Ela tinha estado certa em suas suspeitas antes. David planejava dar a localização do porto para o conde e os franceses. Mas não em troca de prata e ouro. E, como um filho de Senlis, nem mesmo era traição. Cada nobre conhecia e respeitava a lealdade dos laços de sangue. Um juramento de lealdade ligava alguém tão fortemente que mesmo um sábio Rei ou senhor nunca pedia a seus vassalos que fizessem uma escolha entre as duas obrigações. — Eu pensei nisso, — disse David. — E isso pode acontecer. Mas antes de partir, eu soube que, até duas semanas depois de ouvir o conto de Catherine, ele não tinha mudado de ideia. Ele já mandou um recado para as forças inglesas no continente, e não houve tempo para desfazer isso. Mas pode pensar que você espera isso dele, de modo que você resista em colocar todas as suas forças no mesmo lugar. Eu me pergunto se ele não me deixou escapar com a notícia da traição de lady Catherine, a fim de pôr em dúvida o valor desta informação no caso de eu ter conseguido enviá-la a você mais cedo. Toda a atenção de David concentrou-se em seu tio, e aqueles olhos azuis nunca vacilaram na sua análise do rosto do homem mais velho. Olhos do próprio conde, castanhos, em vez de azuis, mas tão semelhantes, no entanto, pareciam exatamente aguçados enquanto estudava David. Quem é você realmente? Bem, agora ela sabia. Estava muito entorpecida e confusa para decifrar como se sentia sobre esta surpreendente revelação. Ela devia estar aliviada. Seu marido não era comum. O sangue de seu pai, o sangue predominante, havia sido nobre. Então, por que essa raiva inexplicável ameaçando transtorná-la? O conde pensava e acenava com a cabeça para si mesmo. — Eu acho que você está certo. O verão está passando rapidamente. Se ele vem com tudo, deve fazê-lo agora. Seu exército foi reunido. É tarde demais para mudar de rumo. Ele girou em direção a David. — Você tem tudo?

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— Sim. Mais do que ele sabe que tenho. As estradas que ele tomará e a direção ao qual se dirigirá. O tamanho de sua força. Eu tenho tudo isso. O Conde esperava com expectativa. David sorriu levemente. — Você tem os documentos? O conde deu um suspiro exasperado. — O meu está aqui e testemunhado. O oficial trará o do Rei quando chegar. Mas nós perdemos tempo... — Você já quebrou a maior parte do nosso acordo falado. E por causa disso, não foi deixada a mim nenhuma escolha, somente fazer isso. Não posso voltar para a Inglaterra e, apesar de que Edward poderá um dia reconhecer a inocência de Christiana e recebê-la de volta, ela foi forçada agora a um futuro que não escolheu de jeito nenhum. Não pretendo começar uma nova vida com o pouco ouro que trouxe comigo. Não irei mais longe sem os documentos. Uma horrível e enorme tensão parecia paralisar os dois homens, e algo ameaçador e escuro fluiu do conde. Christiana prendeu a respiração. Ela tinha sentido esta presença perigosa antes, também. Ela se perguntava o que o conde considerava. Ele era tão ilegível quanto David. Exceto para David. — Eu fui torturado uma vez no Egito, — David disse calmamente. — A mente francesa não pode competir com a sarracena a esse respeito. Você não vai ganhar nenhum tempo assim, e terá um herdeiro que espera vê-lo morto. Sob as pálpebras veladas, os olhos castanhos deslizaram sutilmente na direção dela. Um horrível arrepio eriçou seu pescoço. Os olhos de David se estreitaram. — Não envergonhe seu nome e seu sangue sequer considerando isto. Ela não sabe absolutamente nada, como sua esposa nas mesmas circunstâncias. 318


Mas eu sei, pensou freneticamente. Ela suspeitava que esse tio pudesse ler as pessoas, assim como David. Ela baixou os olhos de sua inspeção e rezou para que ele visse apenas o medo palpável em seu rosto. O conde considerou um momento e depois riu levemente. — Quando você espera o oficial? — Perguntou David. — Amanhã cedo. — Você está muito impaciente então, e considera muito rapidamente a desonra. É de se admirar que eu exija garantias por escrito? Uma bronca perigosa para um mercador dar a um barão, parente ou não. Carregada de desconfiança e insulto. Mas o conde parecia mais impressionado do que com raiva. — Todos os homens consideram as coisas que nunca fariam, sobrinho. Reconhecer as opções de alguém não é o mesmo que escolhe-las. David franziu a testa pensativamente e, em seguida, balançou a cabeça, como se entendesse completamente a explicação do conde e tivesse razão para aceitá-la como soava. A tensão lentamente desenrolou-se. — Eu garanto que haverá tempo suficiente para mover as suas forças. Os navios não estavam nem a metade prontos para navegar quando parti — disse David. Isso pareceu aliviar o clima ainda agradavelmente, até mesmo calorosamente.

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mais. O conde sorriu


David se aproximou e pegou a mão dela. — Mostre-me o nosso aposento, Christiana. Quero sair desse aço que tem assado meu corpo sob o sol quente durante todo o dia. — Vou mandar meus escudeiros ajudá-lo, — disse o conde. — E peça para os servos prepararem um banho para você. Christiana silenciosamente levou David para fora do salão e em direção ao prédio alto ao lado que mantinha os cômodos. — O homem me drena, — David murmurou enquanto atravessavam a noite quente. — É como negociar com a imagem que vejo no espelho.

Capítulo 20 Dois escudeiros removeram a armadura de David. Sempre se referindo a ele como “meu senhor”. Christiana olhou com irritação para o alto corpo do marido espalhando as pernas enquanto a armadura saía. Alguém podia pensar que ele tinha feito isso milhares de vezes. Perto do fogo baixo da lareira, servas preparavam a água em uma banheira funda de madeira impermeável. Uma garota ficou olhando para 320


David e sorrindo docemente quando alcançou sua atenção. Christiana agarrou-a pela nuca quando o último balde havia sido derramado. — Fora. Eu vou ajudar meu marido. As servas correram. Os escudeiros terminaram sua longa tarefa e, dando alegres despedidas, sumiram. David tirou suas roupas interiores e estabeleceu-se na banheira. A visão de seu corpo agitou-a mais do que queria admitir. Ela amaldiçoou silenciosamente sua fraqueza e na independência de seu coração traidor, de sua vontade e de sua mente. Nossa vida juntos tem sido uma longa ilusão, ela se irritou. Foi um erro pensar que pudesse encontrar satisfação apenas no prazer. Ele sempre será um estranho. Serei sempre o brinquedo que partilha a sua cama, mas não sua vida. Terei que me afastar dele de uma vez por todas e, em seguida, exigir outro aposento. Ela puxou um banquinho, sentou-se e o encarou. — Você não vai me ajudar? — Ele perguntou. — Lave-se, — ela ordenou perigosamente, jogando-lhe um pedaço de sabão. — E fale. — Ah — disse ele, pensativo. — E nada de “ahs”, David. Mais um ' ah' e eu vou te afogar. — Entendo que você esteja com raiva, querida. Acredite em mim, eu passei por grandes dificuldades para não envolvê-la. Queria que você não soubesse de nada. Edward nunca a teria culpado por meus pecados. O conde surpreendeu-me com este rapto. Francamente, estou decepcionado com ele. — É mesmo?

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— Sim. Eu esperava mais cavalheirismo dele. Raptar e pôr em perigo uma mulher inocente... É realmente muito grosseiro. — Ele quer o nome do porto, David. Ele provavelmente me mataria se achasse que faria você informar a ele um minuto mais cedo. — É por isso que quero que ele pense que não estamos felizes juntos. Não o quero se debatendo se pode usá-la contra mim. Uma vez que o chefe da policia de D'Eu chegar, vou ter a garantia de sua segurança, antes de falar com eles. O oficial tem fama de ser honrado a ponto da estupidez. Ela revirou os olhos. — Vamos começar pelo início. O conde é de fato seu parente? — Parece que sim. — Há quanto tempo você sabe? — Quase toda a minha vida. Minha mãe me contou quem era meu pai quando eu era criança. Eu quis saber então que não era um bastardo de um tipo comum da sarjeta. — Por que você não me contou? — É uma reivindicação feita facilmente, mas difícil de provar, Christiana. E a menos que um bastardo seja reconhecido, não tem nenhum valor, — Viu-se ensaboar um braço. — Isto teria ajudado, querida? Ela desejou que pudesse dizer não. — Poderia. No início. — Então, sinto muito por não ter contado. — Não, você não sente. Seu orgulho queria que eu o aceitasse como um mercador, e não como o filho de Senlis. Você pode ser muito estranho, David. Não são muitos os homens que pensam que o sangue nobre os torna inferiores, em vez de superiores. Ele olhou para ela bruscamente. Ela o deixou ver sua raiva. 322


— Você mentiu para mim, — disse ela. — Mais e mais. — Apenas para protegê-la. Tudo começou antes de nos conhecermos. Procurei mantê-la fora disto, ignorante, de modo que você fosse poupada se algo desse errado. — Eu sou sua esposa. Ninguém iria acreditar em minha ignorância. — Você é a filha de Hugh Fitzwaryn e estava sob a guarda do Rei. Todos acreditariam. Nem Edward nem seus barões a teriam culpado pelas ações de seu marido mercador. Suas desculpas brandas a enfureceram. Ela levantou os punhos e bateu-os no colo. — Eu sou sua mulher! Se algo desse errado, teria que vêlos rasgarem seu corpo mesmo sendo poupada. E ainda posso ver, pelo que sei. Mas o pior, você se escondeu de mim, escondeu a sua verdadeira natureza, quem você é. Aquela dureza rondava sua boca e os olhos. — Você não foi minha mulher por meses. Eu deveria ter confiado na garota que morava na minha casa como uma convidada ou uma prima? — Melhor um convidado que algumas obras de arte preciosas. Melhor uma prima do que um pedaço de propriedade nobre comprada para salvar o orgulho ferido de um filho esquecido. Seus olhos brilharam. — Se você realmente acredita nisso, então não há nenhum ponto em explicar nada a você. Não importa o que eu disse naquele dia, você devia conhecer o melhor de mim. — Conhecer o melhor de você? Agora, não acho que conheça você de modo algum, maldito. E não insinue que a nossa separação levou você a manter o seu engano. Você não tinha nenhuma intenção de me dizer nada até que tudo terminasse, sem importar o quão obediente eu poderia ter sido. E depois? Ficaria na França e mandaria me buscar? Escreveria uma carta me convocando a atendê-lo aqui? 323


— Sempre foi e ainda é a minha intenção dar-lhe uma escolha. — Verdade? Bem, seu tio fechou essa porta! — Isso ainda não foi decidido. Ela desviou o olhar até que recuperou o controle. Ela alisou a saia de seu vestido. — Quero que você me conte tudo. Agora. Gostaria de saber a minha situação e minhas escolhas. Desde o início. Ele começou a falar enquanto se lavava. — Tudo começou naturalmente. Edward havia me pedido para fazer os mapas. Ocorreu-me que, quando chegasse a hora, eu poderia saber o porto que ele escolheria pelas perguntas que me fazia sobre eles. Eu nunca realmente perdoei meu pai pelo que fez a Joanna. Ele a destruiu e deixou-a a mercê do mundo. Talvez eu também me ressentisse de sua indiferença e negligência por mim. Enfim, realmente não esperava que funcionasse, mas comecei a cometer erros suficientes na França para que alguém que prestasse atenção suspeitasse de mim. Comecei a usar as três serpentes como o símbolo do meu selo. Eles foram esculpidos em um anel que meu pai deixou com minha mãe. Ela pensou nisso como um anel de compromisso, mas suspeito que a intenção era servir como pagamento por seus favores. Ele fez uma pausa e passou o sabão entre as mãos. O próprio gesto o distraiu. Christiana observou examinar a espuma branca e, em seguida, o próprio sabão. Ela teve que sorrir. A esposa do mercador esteve igualmente distraída durante seu primeiro banho aqui. — Vem de uma cidade do Loire — disse ela. David cheirava a espuma. — Superior, não é? Pergunto-me... — Vinte grandes sabões por uma moeda. Ele ergueu as sobrancelhas. Ela observou-o em silêncio começar a calcular o custo de importação e o lucro potencial. 324


— David — disse ela, chamando-o de volta. — Sim. Bem, meu plano era deixar o conde saber sobre mim, perceber a nossa ligação e, em seguida, abordar-me sobre o porto. Eu iria resistir e deixaria que ele me convencesse, jogando sobre os laços de parentesco. Eu iria ceder, não aceitando nenhum pagamento para que pensasse que o fiz pelo meu sangue e assim confiar em mim. Mas eu gostaria de dar-lhe o porto errado. O exército francês partiria em uma direção e Edward viria por outra, e dessa maneira seria clara a vitória Inglesa. Ela olhou para sua expressão. Calma. Relaxada. Como se os homens calculassem tais esquemas elaborados todo o tempo e passassem anos manipulando as peças. Ele gosta disso, ela percebeu. Ele viajava para o Continente Negro e atravessava os Alpes a cada dois anos. Precisava de aventura, planejamento, desafio. — E você teria castigado essa família pelo destino de sua mãe — acrescentou. — Isso também. Duvido que o conde de Senlis permanecesse no conselho do Rei depois de dar mau conselho. A perda de status e honra, mas nenhum dano real. Ao contrário da queda de Joanna. Ainda assim, um pouco de justiça. — Então o que deu errado? — Nada. Tudo aconteceu como planejado. Exceto por algumas surpresas. Logo no início, Honore, o último conde, morreu, e seu irmão Theobald tomou seu lugar. Um homem mais perigoso, Theobald. Ela se levantou e caminhou lentamente ao redor do aposento. Ela esperou pelo resto. David esperara mais tempo. — O que você insinuou quando falou sobre o seu herdeiro querer vêlo morto — ela desabafou. 325


— Outra surpresa. Bastante grande. Ele não me ofereceu prata. Ele me ofereceu reconhecimento e Senlis. Honore e outros filhos de Theobald estão mortos. Ele se ofereceu para jurar que seu irmão tinha feito votos secretos com a minha mãe. Ainda seria dele, mas garantiria o meu direito à herança. Ela olhou para ele. David. Seu mercador. O conde de Senlis. — Os homens têm sido tentados a traição por muito menos, minha menina. — Você disse que não tinha interesse em ser um cavaleiro. Ele riu. — Querida, um cavaleiro é uma coisa. O barão principal e conselheiro do Rei da França é outra completamente diferente. — Você irá fazer isto, então? — Ainda não decidi. O que você quer que eu faça? — Não, David. Você começou isto há muito tempo. Não imponha sua escolha sobre mim agora. Ela começou a andar de novo, pensando em voz alta. — Há muitos homens que devem lealdade a dois reis ou senhores. Muitos barões ingleses também têm terras na França. Todos entendem que lealdades são conflitantes algumas vezes. Ele estendeu a mão e pegou o braço dela enquanto passava. Sua mão a segurou firme, ele olhou para ela, balançando a cabeça. — Não vamos fingir que enfrento mais do que o faço. O que você diz é verdade, mas existem regras que decidem de que maneira um homem age nesses casos. Isto é diferente. Se eu ajudar o conde e a França, se fizer isso, traio a confiança e uma amizade e ainda meu país. Para o prêmio que é oferecido,

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não estou acima de fazê-lo, mas não vou fingir que é mais bonito do que realmente é. Maldito. Maldito. Havia ambiguidades suficientes para um bispo ponderar suas ações. Ele podia, pelo menos, deixá-la encontrar algum conforto. — A França é seu país, David, — ressaltou. — Seu pai era francês. — Na verdade, acho que não é a Inglaterra que me preocupa. Ou até mesmo Edward. Ele tem barões para fazerem pior por ele, e ele possui uma grande capacidade de compreensão e até mesmo de perdoar essas coisas. Não, é Londres que tem estado em minha mente. Se não fosse por minha cidade, acho que eu não hesitaria. Ele levantou o sabão. — Uma vez que você despachou os servos, você podia pelo menos lavar minhas costas. Ela ajoelhou-se atrás dele e alisou a espuma sobre seus músculos. Apesar de sua agitação interna, não pôde deixar de notar que era a primeira vez que tocava em seu corpo nos últimos meses. Um ligeiro retesamento sob sua palma lhe informou que ele era consciente disso, também. — Você mentiu para mim em abril. Você veio para a França e não para Salisbury. — Eu dificilmente a implicaria com a verdade, — ele olhou por cima de seu ombro. — Naquele dia, no quarto de vestir. Suas perguntas. Quanto você suspeitou? — Eventualmente mais do que isso, mas não sobre seu pai. Ouvi na primeira vez que Frans abordou você. Eu estava escondida no corredor. Mas não tinha certeza de que era você lá. Soube que ele era um agente da causa francesa. Eu vi você se encontrar com ele novamente em Westminster. Quando o conde veio a Hampstead, ouvi a voz dele antes dele sair. Soube que ele era francês e um nobre.

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— Você pensou que eu pudesse estar vendendo os planos de Edward por prata? — Era uma explicação para tudo isso. Na verdade, era a prata que não fazia sentido. Você aproveita sua riqueza, mas é muito generoso para ser um homem que faria qualquer coisa por ganância. Ele virou-se e olhou para ela. — Se você sabia tanto, estou surpreso que não tenha partido mais cedo, enquanto eu estava fora, para sua própria segurança e pela honra de sua família. Você podia ter ido a Edward com suas suspeitas. Por que não foi? Ela afastou o olhar dos olhos perceptivos dele. Não queria que a vulnerabilidade de sua resposta pudesse se mostrar. Além disso, era a vez dela de perguntar. — Você disse que voltaria em abril e acreditei em você. Você mentiu sobre isso também? Ele balançou a cabeça. — Ainda não tinha decidido o que faria quando cheguei aqui, mas esperava voltar em ambos os casos. Se eu tivesse dado ao conde o porto de Bordeaux, e ele tivesse ido lá, Edward nunca teria suspeitado de mim ou de qualquer outra pessoa, mesmo que toda a França esperasse por ele. Metade do seu exército já está no sul com Grossmont. O resto poderia ter recebido relatórios dos navios que navegam ao longo da costa, ou ter ido reforçar o cerco em Angiullon lá embaixo. Eu esperava voltar, acreditando que Theobald permitiria. Seu olhar firme e voz calma, seu rosto tão perto dela, a desconcertou. Sua determinação começou a afrouxar. Ela empurrou seu ombro para que pudesse passar o sabão, e ele se virou. — Mas agora lady Catherine disse a Edward sobre você, e você não pode voltar. Por que ela faria isso? Ela está com raiva por causa da propriedade em Hampstead?

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Ele não respondeu por alguns momentos. Ela suspeitava que ele debatia uma resposta. Ela se preparou para mais mentiras. — Lady Catherine e eu temos uma longa história. A propriedade é uma pequena e recente parte dela. Ela me fez uma lesão quando eu era jovem. A evidência está sob seus dedos agora. Alguns meses atrás eu respondi na mesma moeda. Ela balançou sobre os calcanhares em estado de choque. Ela olhou para a parte as costas fortes e as cicatrizes em diagonal sobre ela. Apesar de sua determinação em tratá-lo com a mesma indiferença que ele sentia por ela, seu coração se rasgou. Ela não precisava ouvir a história, porque podia imaginar. Seus dedos traçaram as finas cicatrizes permanentes. Imaginou-o sendo açoitado quando menino. Ela via lady Catherine segura pela imunidade que sua nobreza lhe dava, ordenando isto por um leve castigo ou crime. Não em Londres, claro. Mesmo na condição de aprendiz, ele teria sido protegido lá. Ele respondeu na mesma moeda. Isso significava que a própria pele de Catherine tinha cicatrizes agora? Esperava que sim. Ela sentiu uma onda de ternura pelo jovem que havia sido tão severamente abusado. Ela quase não resistiu ao desejo de beijar aqueles vergões. Isto é uma loucura, ela se repreendeu. Ele não quer simpatia ou ternura de mim. Não faço parte de sua história ou de sua vingança. Não tenho nenhum papel no espetáculo desenrolado agora, também. Na melhor das hipóteses sou um inconveniente com o qual o conde complicou seus planos. — Você diz que ainda não decidiu o que fazer, David. O que vai acontecer se você não informar sobre o porto amanhã? Ela estava feliz que ele não podia ver seu rosto. Se mentisse para ela, não queria saber.

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— O conde fez todo o possível para garantir que não exista muita escolha. Catherine foi até Edward, como eu disse, mas a surpresa do conde com a notícia era falsa. Ele a mandou para me trair, para forçar a minha mão nisto. Seu plano para me manter na Inglaterra para que Edward pudesse me capturar era todo dela, no entanto. Ainda assim, ele tentou me forçar a sair da Inglaterra, e pegou você para que eu tivesse que vir aqui. Com a minha vida em perigo lá, ele sabe que sua oferta se torna muito atraente, — ele fez uma pausa. — No entanto, parentes ou não, não acho que ele vá permitir que eu saia vivo daqui, se recusar. Ela desejou que ele de fato estivesse mentido. — Então, você não tem escolha. — Claro que tenho. Ela sentiu-se mal. Por um lado, status e riqueza o aguardavam. Mais do que ele esperou na vida. Senlis era seu direito e seu merecimento e ele deveria tomar isto. Mas, meu Deus, os homens a quem ela conhecia e amava navegariam em navios para a França. Seu irmão, seu Rei, Thomas e outros... E agora que ele tinha tudo dizia que Theobald iria matá-lo se ele não cooperasse. Isto não deveria importar para ela. Ele não deveria importar. Ela quase o abraçou e pediu para ele encontrar uma maneira de levar as duas opções e, portanto, nenhuma. Ela voltou para o banco. — Você realmente foi quase capturado? — Ninguém me desafiou ou questionou. A armadura provou ser um bom disfarce, uma vez que existem cavaleiros em movimento em toda a Inglaterra. Mesmo aqui, me ajudou a viajar sem suspeitas. — O brasão de armas em seu escudo?

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— Você gostou? Eu mal podia passar por um cavaleiro com um escudo branco. Felizmente, não encontrei nenhum mensageiro que soubesse que era novo e não oficial. — Você me seguiu até o norte? — Sim, — ele lançou um olhar penetrante. — Não se preocupe. Ele não foi prejudicado. Embora quando Sieg ameaçou transformá-lo em um eunuco, pensei que ele pudesse morrer de susto. Desde que o salvei disto, provavelmente ele terá prazer em dar a sua vida por mim agora. Ela olhou para a lareira, não se importando muito se Sieg fez Stephen um eunuco, seja lá o que fosse isso. — Ficamos mais atrasados quando Oliver insistiu em levar a garota de Stephen sob sua asa e tentar salvá-la da ira de sua família. Ela mal ouviu. Ela foi até a lareira. Um balde de água aquecia e ela o pegou e levou-o poucos passos para a banheira. Ela notou David olhando-a. — O que foi? — Ela perguntou. — Você não me ouviu? Você não está com ciúmes? Eu disse que ele tinha uma garota com ele. Ela estreitou os olhos. — Para um homem inteligente, você pode ser um idiota! — ela gritou, derramando a água sobre sua cabeça. Ela levantou o balde, bateu com ele em seus ouvidos, e pisou fora. Ela olhou fixamente para a parede, cega de fúria. Ouviu-o sair da banheira e secar-se. Alguns momentos depois, ele veio por trás dela. Ele tocou em seu ombro levemente. — Você ainda não acredita em mim, — ela cuspiu, rejeitando sua mão. — Você mentiu para mim como ele, enquanto eu ofereci a você 331


apenas a verdade desde o início. Você presume que todo mundo vive o tipo de enganos que você faz? — Eu acredito em você. Mas me pergunto se você ainda o ama. Você nunca disse que não o amava mais. — Eu lhe disse que tinha acabado. — Não é a mesma coisa. — Então, você deveria ter me perguntado se você queria saber. Ele aproximou-se e falou em voz baixa. — Eu não quis lhe perguntar sobre isso, assim como você não me perguntou sobre a França, e pelas mesmas razões. Nós não falamos um com o outro sobre coisas que possam magoar. Eu nunca perguntei, porque temia a resposta. Esperava que o tempo resolvesse tudo. Mas tenho que correr contra o tempo e estou perguntando a você agora. Você ainda o ama? Ela fechou os olhos e saboreou o som de sua linda voz e desejou que seu tom tranquilo não fizesse perguntas que levariam por esse caminho. Ela temia onde poderia levar. Ainda assim, ele estava certo. Finalmente, hoje, ele tinha lhe oferecido a sua honestidade. Ela não devia começar seus próprios enganos agora. Mas a honestidade dele, poderia muito bem deixá-la desprovida de tudo, ao mesmo tempo em que destruía a frágil determinação com que sua raiva tinha subjugado sua paixão e amor. — Não me importo com ele de modo algum e duvido que o tenha amado. — Por que você duvida? Porque conheço o verdadeiro amor agora, ela quase disse.

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O silêncio pulsava enquanto esperava sua resposta. De repente, ela se sentiu muito vulnerável. Esta foi a segunda pergunta que se respondesse honestamente exigiria uma confissão de amor. Porque não apenas dizer a ele? Admitir a verdade e, em seguida, sair pela porta. Ela fez uma careta. Um grande gesto perdendo totalmente o drama e o impacto esperado. Ele podia simplesmente deixá-la ir e, em seguida, prosseguir com a vida que escolheria para si. Ele não se importava o suficiente para ser tocado por qualquer admissão ou rejeição. — Por que você acredita em mim agora sobre aquele encontro, David? Será que Stephen disse a verdade? Será que você acreditou naquele tolo, quando não tinha acreditado em mim? — Ele me disse, mas ele teria jurado ser casto desde o nascimento, dadas as circunstâncias. Isto não importa, porque eu já acreditava em você. Sempre que pensava naquele dia, ficava vendo uma linda garota correndo em meus braços. Cheia de alegria, não de culpa ou medo. — suas mãos tocaram gentilmente os ombros. — O que você queria me dizer então? Novamente uma inquisitiva questão. Ele suspeitava, ela percebeu com choque. Sua mente refletiva havia enxergado o que sua raiva não viu. Ela tornou-se agudamente consciente de seu calor e do perfume atrás dela. O silêncio estreito e outra coisa fluíam dele. Algo expectante e impaciente. Ela ansiava por dizer, mas pensou sobre as palavras que havia lançado sobre ele naquela tarde em seu aposento. Ela se lembrava de como o tinha evitado e seu carinho durante o noivado. Ela imaginou o aprendiz sendo torturado pela vontade da nobre lady Catherine. Ela certamente não podia dizer-lhe agora. Mesmo se colocasse algum pequeno valor em seus sentimentos por ele, ele podia pensar que a sua mudança de status de mercador para barão herdeiro a fizera encontrar o amor repentino. — Não me lembro — ela murmurou.

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Ele ficou em silêncio, suavemente acariciando seus braços. Ela fechou os olhos e absorveu seu toque e sua proximidade. Sua intensidade excitante rodeava de uma maneira sedutora e atraente. Apesar do nó que as revelações do dia tinha amarrado as suas emoções, apesar de sua decisão de deixar esse estranho, ela encontrava uma conforto incrível em sua carícia lenta. — Eu preciso saber algumas coisas agora — ele disse finalmente. — Nenhuma história que possa dizer será quase tão interessante quanto a sua. — Você foi machucada de algum modo? — Não. Não realmente. Andamos por dias e meus quadris ficaram feridos da sela e a minha pele vermelha do sol de verão, mas isso foi tudo. À noite ficamos em rudes estalagens e todos compartilhavam um único aposento, mas os homens não me incomodaram, embora um olhasse para mim de forma audaciosa para a minha tranquilidade. A comida era horrível e a viagem pelo mar assustadora, e cheguei parecendo o pior camponês, e cheirando muito mal para ser uma companhia decente, mas não fui prejudicada. Ele virou-a. Ele havia jogado uma longa túnica solta, como algum sarraceno podia usar. Ela olhou para o rosto dele e viu coisas se escondendo debaixo de sua expressão calma que nunca havia visto antes. Preocupação. Indecisão. Dúvida. Ele parecia muito menos contido do que quando estivera no banho. Ele tocou seu rosto. — Se eu fizer isso, você não precisa ficar. Muito em breve, Edward vai aceitar que você não era parte disso. Você pode voltar para casa. Ela olhou para ele, seu amor torcendo seu coração. Este pequeno contato de pele contra pele foi o suficiente para despertar todos os seus

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sentidos por ele. — É por isso que você colocou as propriedades em meu nome, não foi? Assim, elas não poderão ser confiscadas. — Sim. Havia sempre a chance de que Edward soubesse o suficiente para suspeitar de mim, não importando minhas intenções. Eu não queria que você ficasse dependente se este jogo perigoso desse errado. — Por que não esperar? Para casar? Você disse que isso começou muito antes de nos conhecermos. Muito antes que você se oferecesse a mim. Por que complicar as coisas assim, para si mesmo? Mesmo quando disse isso, uma sensação estranha a invadiu. Um conhecimento que ela não queria enfrentar estirou e ficou elevado se apresentando diretamente. Uma explicação para uma das primeiras e mais duradoura pergunta que esse homem que a olhava nunca havia respondido. Deus Querido. Deus Querido. Mesmo que tivesse sido uma mentira, uma ilusão! Não era muito, mas, pelo menos, o amor dela procurava um compromisso com sua vida, e isso seria algo em que se apoiar. Seus dedos ainda repousavam em seu rosto. Ela olhou desesperadamente em seus olhos azuis e procurou toda a consciência de que ela jamais tivera com ele durante a sua mais profunda intimidade. Ela olhou através dos véus e da intensidade, tentando ler a sua alma. — Você nunca se ofereceu a mim, não é? — Disse ela. — Foi ideia de Edward. Ele propôs este casamento, por amor a mim, talvez, mas também para tirar dinheiro de você. Você não podia recusá-lo. Ele pegou o rosto dela entre as mãos e inclinou-se. Ele olhou diretamente para ela. O controle e a restrição ruíram e ele permitiu que ela visse o que procurava. Ele deixou seu olhar atravessar as sombras e camadas, até suas profundezas. Nu de todas as defesas e armaduras ele encontrou sua inspeção. Conteve o fôlego com as emoções subitamente expostas a ela. — Não, — ele disse calmamente. — Eu vi você e a quis e paguei a Edward uma fortuna para tê-la. E não queria esperar, porque não podia. Foi 335


egoísmo de minha parte, — seus polegares acariciaram as maçãs do rosto. — Estou sem tempo, Christiana. Preciso saber as minhas verdadeiras chances, o que posso ganhar e o que posso perder. Se eu fizer isso, você vai ficar comigo? Ela mal ouviu suas palavras, porque a verdade deslumbrante escrita dentro dele fez os eventos que havia criado sobre esse casamento repentinamente irrelevante. Ela não podia se afastar do seu ardente olhar inquisitivo. Não queria perder essa ligação de alma, esse total conhecimento que ele lhe oferecia. Ela duvidava que ele já tivesse deixado qualquer um, mesmo sua mãe, vê-lo assim. Tudo se refletia nos olhos profundos. Tudo. Sua culpa pelo seu perigo. Seu medo de si mesmo. Sua crua fome e suas necessidades conflitantes e inclinações escuras. Mas iluminando todas essas sombras, aquecendo suas profundezas geladas, corria uma emoção cintilante que ela reconhecia por sua beleza, alegria e salvação. Seu próprio amor se espalhou e se aproximou para enfrentar tudo com gratidão. Seus lábios se separaram e um calor glorioso impregnou seu olhar. Um requintado, o alívio da angústia derramou dele. — Você vai ficar? — Ele repetiu, seu rosto a centímetros do dela. — Eu não vou partir, — ela sussurrou, pois não haveria outra resposta depois do que ela tinha acabado de ver. — Nobre ou mercador, vou ficar com você. Ele a puxou para um beijo. Ela agarrou seus ombros e se perdeu em uma corrida quente de intimidade pungente. Por um momento eterno, seus corpos pareciam dissolver dentro do brilho ofuscante que fluía entre eles. Sentindo essa conexão tão completa, ela não sentia necessidade de falar sobre isso. Mas David sim. — O que você queria me dizer naquele dia, Christiana?

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— Você não sabe? Eu tinha certeza que você saberia. — Minha raiva e dor me cegaram para qualquer coisa. Eu saí daquele barco com a cabeça e o coração cheio de amor por você, e a história de Oliver me cortou como um punhal e me tornou um louco. Ela levantou os olhos para ele, sem palavras diante dessa calma expressão que havia acabado de ver e sentido nele. Ao falar primeiro, ele tornara mais fácil para ela. Ele sempre tinha feito isso, a cada passo do caminho. Primeiro, talvez por simpatia e compreensão, mas mais tarde por causa de seu amor. Ela tocou seu rosto. Deixou os dedos vagarem ao longo das elevadas maçãs bronzeadas e da mandíbula, e acariciou seus lábios. — Eu queria dizer naquele dia que estava apaixonada por você. Percebi quando Catherine me entregou a Stephen. O amor estava lá, muito óbvio e completamente real. Eu sabia que te amava há um longo tempo. Ele a beijou novamente de modo suave e doce e a consciência do amor dele a encheu a ponto de quase flutuar. Seus lábios se moviam por sua orelha. — Eles pegaram você do meu aposento. No andar de cima. Geva não tocou em nada até a minha volta. Sua calma e linda voz aquecia-lhe tanto quanto sua respiração e seu toque. Uma deliciosa paz fluiu através dela como uma brisa. Ela estava agradecida de que ele soubesse que ela tinha amado o mercador David muito antes que soubesse toda a verdade sobre ele. Ficou feliz porque ele sabia que tinha voltado para ele por sua própria vontade. — Você me quer, Christiana? Você vai para a cama comigo agora? — Você sabe que eu quero. Você sabe que vou. Ele segurou-a e deixou que o seu amor inocente e alegre o dominasse. Desde que ele voltara para a casa e vira a cama desarrumada, seu desejo físico por ela batera num constante ritmo lento em sua alma e corpo. Agora, 337


porém, ele resistiu aos movimentos que poderiam levá-la a cama. Seu abraço amoroso o acalmando como nenhuma paixão faria. Nobre ou mercador, eu vou ficar com você. Mais do que ele havia pedido ou esperado. Muito mais do que ele merecia. Ela quebrou seu longo beijo e sorriu para ele. — Já faz tanto tempo que se esqueceu de como fazê-lo? Ele riu. — Sim. Talvez eu devesse ter mantido a prática. Suas sobrancelhas subiram em surpresa e ele riu novamente. — Não houve mais ninguém. Eu me encontrei achando que te amar estando apenas sentado perto de você diante da lareira era muito melhor do que seduzir alguém em uma cama estranha. Ela franziu a testa. — É estranho, David. Eu me sentei lá amando você e você se sentou me amando e não vimos isto. Por que não? Você via tudo. Pode impensadas palavras cruéis construir essas paredes? — Isso já passou. Não temos que... — Eu quero. Falei para feri-lo, e você fez o mesmo. Nós atiramos nossos medos e ilusões um no outro e cada um acreditou nas palavras, mesmo que a verdade estivesse diante de nós, — ela o olhou fixamente. — Se eu tivesse pensado claramente então, como penso agora, saberia que você nunca pensou em mim como propriedade. Na verdade, você se comportou exatamente o oposto. Se você tivesse comprado para si mesmo uma prostituta nobre, certamente não fez muito uso dela, não é? Por quê? Ela o surpreendeu. Ela estava amadurecendo rápido, e sua inteligência aguçada, livre de seu abrigo isolado, já tinha aprendido a ver o cerne das questões. Ele amava a menina. E suspeitava que adoraria a mulher. — Você era muito inocente, querida.

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— Não tão inocente. As mulheres falam com as meninas antes do casamento. Eu sabia que os homens geralmente esperam mais do que você jamais me pediu. Eu sabia que havia mais sobre sexo do que você jamais procurou. — Nós não estivemos juntos muito tempo, Christiana. Pensativa ela mordeu o lábio inferior. — Não acho que foi isso. Você conhecia seu sangue, mas eu não. Acho que você estava preocupado que eu realmente me sentisse desonrada e usada. Por todo o seu orgulho, David, você não me tratou como igual em nossa cama. Ela o surpreendeu. Ele tinha sido muito cuidadoso com ela. Nunca tinha ido além dos atos impulsivos de sua noite de núpcias. A restrição tinha vindo naturalmente para ele, e nunca havia pensado nisso, mas agora tinha de admitir alguma verdade no que ela dizia. Uma expressão muito mundana e determinada faiscou naqueles diamantes. — Eu sinto ciúmes, você sabe. Não gosto de saber que você fez coisas com Alicia e com outras que nós nunca fizemos. Nobre ou mercador, vou ficar com você, David, mas não como um vaso precioso que você tem medo de quebrar. Bem humorada, ela o empurrou para trás, contra a coluna da cama. Ela inclinou-se para ele, pressionou seu corpo ao longo do dele, abaixou sua cabeça com a mão e o beijou. Ele aceitou o seu pequeno assalto erótico. Clarões leves o atravessaram e a tensão cresceu e se espalhou. Ela levantou o olhar, muito satisfeita consigo mesma. Ele agarrou seus quadris e puxou-a para mais perto e ela deliberadamente se esfregou contra ele. Semanas de necessidade e de espera responderam com força e ele a levantou num devorador, obscurecido beijo. Ela entregou-se e sua paixão os derreteu. Mas, em seguida, as mãos dela acariciaram seus ombros e desceram para seu peito e ela sutilmente o empurrou. — No dia do meu casamento uma serva me deu algumas lições muito explícitas, — disse ela, olhando mais para o peito de que para o seu rosto. 339


— Ela disse que os homens gostam de ver mulheres se despindo. Será que eu agradaria meu marido mercador se me despisse agora? Ela olhou para ele e corou. Ele pensou que seu coração iria rasgar seu peito. Ela virou-se e afastou-se com as mãos puxando os laços amarrados de seu vestido. O simples gesto quase o derrubou. Ele se encostou na cabeceira da cama e cruzou os braços sobre o peito. Ele já a tinha visto se despir, muitas vezes, é claro, mas não assim. Ela movia-se tão bem, tão elegantemente, que a sua repentina estranheza em encontrar-se observada quase não era aparente. Mas ele podia dizer que ela logo achou mais difícil do que pensava. Ele conseguiu não sorrir ao leve rubor no rosto e o olhar ardente em seus olhos quando ela se virou para ele e deixou o vestido deslizar até o chão. Ela inclinou-se para as meias. — Não, — disse ele. — A roupa interior primeiro. Ela se endireitou. Cruzando os braços sobre o peito, e parecendo muito como a virgem tímida que era até recentemente, ela deslizou a roupa de seus ombros. Suas mãos e braços seguiram sua descida, desdobrando-se para revelar primeiro os seios depois os quadris e coxas. A peça fina flutuava sobre seus pés e ela saiu dela. Olhou para o chão por um momento antes de levantar os olhos para ele. O brilho naqueles diamantes disse-lhe que tinha descoberto esse ato podia despertar a mulher, tanto quanto o homem. Sua beleza o hipnotizava, como sempre. Seu franco desejo de satisfazê-lo transformou o próprio prazer. Sua tormenta de necessidade subjugava uma tempestade ameaçadora, mas controlável. Ele sabia que podia comandar a cena indefinidamente. — Agora as meias. Ela inclinou os braços graciosos e estendeu a mão para a liga de uma perna estendida. Ele vislumbrou o estreito do ombro até a cintura e a suave 340


elegância além dos quadris. Seus seios, apertados com a necessidade, penderam por um momento como dois pequenos globos perfeitos quando ela rolou a meia para fora da perna. — Tire a outra. Ela olhou por cima, mas, em seguida, fez o que ele pediu. As curvas graciosas de seus quadris e nádegas criaram ondas eróticas enquanto ela se abaixou para desamarrar a liga. Ela devia ter percebido sua vulnerabilidade, pois sua coragem a abandonou e ela fez um rápido trabalho com a meia. Ela endireitou-se e encarou-o com os olhos como estrelas líquidas. Ele deixou sua memória ficar marcada pela imagem dela. Nem curta e nem pequena, mas bem formada em sua plenitude delgada. — Seu cabelo, Christiana. Solte o seu cabelo para mim. Seus braços subiram enquanto ela procurava os pinos. O movimento fez seus seios elevarem-se e seus mamilos duros se voltaram para cima. Ela destrançou seus cachos escuros e eles se espalharam em torno dela. Ele não fez nenhum esforço para esconder do olhar dela o que sentia. — Vem cá, minha menina, e beije-me da forma como uma noiva apaixonada deveria. Ela caminhou lentamente em direção a ele, com uma expressão combinada de excitante paixão, amor, alegria e convite. Mais do que ele jamais esperava. Muito mais do que ele merecia. A manhã estava a uma vida de distância. Ela se aproximou dele e colocou as mãos em seu peito. Ela estendeuse em direção a ele. Ele abaixou a cabeça e deu um beijo com mais moderação do que sentia. Ele deixou a liderança para ela, mordendo delicadamente em torno de sua boca.

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Delicadamente, mas não tão ingenuamente, a língua dela roçou os lábios e, em seguida, moveu-se rápido e mais intimamente. Ele a abraçou com um braço, deleitando-se com a sensação de sua pele sob sua mão. Uma leve camada de suor cobria o corpo dela e o calor e a umidade enviaram uma onda de paixão por todo o seu corpo. Ele acariciou o rosto dela, e quebrou o beijo para que pudesse ver a sua mão e o corpo dela enquanto traçava para baixo. Seu abraço arqueou as costas e os seios ergueram-se para ele. O tremor dela quando ele tocou seu tenso mamilo fluiu direito para seus quadris e suas coxas. Nenhum deles sucumbiu ao aguardado frenesi. Ambos tentaram prolongar a maravilhosa antecipação que ela havia começado. As mãos dela ainda estavam em seu peito e agora acariciaram o laço frouxo na frente da longa túnica. — Parece muito exótico. Muito bonito. — Sarracenos sabem como se vestir para o tempo quente. Ela acariciou seu peito preguiçosamente. — A serva disse que os homens gostam de serem despidos pelas mulheres também. Ele não respondeu, mas viu como ela cuidadosamente desamarrou e puxou os cordões até a cintura. Ela acariciou através da abertura. Ele fechou os olhos ao calor daquela pequena mão. Fazia muito tempo que ele tivera até mesmo essa pequena ligação e sua afeição. Ela empurrou o robe abrindo-o quase fora de seus ombros, e colocou seu rosto contra o peito dele. Languidamente, deliciosamente, com um cuidado lento que só aumentou a tensão entre eles, esfregou seu rosto contra o peito dele enquanto assistia sua mão acaricia-lo. 342


— Você estava certo, — disse ela quando se virou para beijá-lo. — A abstinência é um poderoso reforço para a paixão. Uma parte de mim não pode esperar e já grita por você, mas outra parte quer prolongar para sempre. — Você sabe como isso vai acabar. Nunca falhei com você. Vamos aproveitar o momento. Nós nunca percorremos esse caminho antes. Ela sorriu sensualmente e assentiu. Correndo as mãos pelo peito dele, deslizou o robe de seus ombros e guiou-o pelas costas dele. O controle dele ameaçou se dissolver quando ela estendeu suas carícias aos seus quadris e coxas. — O que mais a serva lhe disse? — Ele perguntou, tocando-a como ela fez com ele, sentindo os tremores que a sacudiam sutilmente. — Que os homens gostam de serem beijados e tocados, mas eu já descobri que é verdade, — ela provou isso mordendo seu peito. Choques ensurdecedores o abalaram com cada beijo e mordida. — Outras coisas. Eu pensei que eram chocantes na época. Não acho mais agora. O robe ainda pendia em seus quadris. Ela deslizou suavemente do seu abraço. Ela acariciou e beijou seu corpo, enquanto se abaixava. Ele observou e esperou, mal respirando. Uma obscurecida neblina de paixão nublava sua mente e ele via tudo e nada. Viu suas mãos empurrarem o robe de seus pés. Sentiu a trêmula carícia dela em suas coxas e pernas. Os dedos dela acariciaram seu pênis duro enquanto os lábios pressionavam sua barriga e quadril. Sua ousadia tanto o tocou como o surpreendeu. Ele se perguntou quanto mais seu corpo aguentaria, porque o desejo começou a dividi-lo ao meio. Ela acariciou a parte de trás das coxas e moveu a cabeça. Curiosos olhos o olharam. Ele inclinou-se e estendeu a mão para ela e puxou-a para seus braços. — Só se você quiser, querida. E nunca de joelhos. 343


Ela aninhou-se em seus braços. — Então me leve para a cama, mercador, para que eu possa mostrar o meu amor e a minha honra. Ele levantou-a em um beijo que tirou os pés dela do chão. Ele virou-se e a deitou ao lado dele. O ar quente da noite que fluía através da janela parecia frio contra o calor de seus corpos entrelaçados. Ele perdeu-se na intimidade do perfume vasto e no suor escorregadio dela. Ele iria mostrarlhe uma viagem como nunca havia imaginado. Lentamente, deliberadamente, utilizando todo o conhecimento que tinha dela, ele destruiu seu controle instável. Nunca a tocando abaixo dos quadris, ele a puxou para a conclusão. Carícias na parte interna de seus braços, os dentes mordendo os mamilos, sua boca em seu pescoço, a paixão dela aumentando com cada uma das carícias estudadas. Ela tentou, apesar de sua crescente entrega, dar-lhe prazer em troca, mas ele não permitiu. Ele ouviu seus baixos sons de abandono e sentiu seu corpo subindo, balançando, em direção ao clímax. Ela agarrou seus ombros. — David, eu... Por favor... Ele acalmou suas mãos e a boca e segurou-a. Ela torceu contra ele em frustração rebelde. Seus olhos se abriram. — David — ela gritou em tom de acusação. — Calma, querida. Eu disse que nunca falhei com você. — Você quer me torturar até a morte primeiro? Ela esmurrou seu ombro não muito satisfeita. Ele riu levemente. — Só é tortura se você pensar apenas em liberação. Sinta o prazer se elevando, sabendo que, eventualmente, você vai flutuar. Sua paixão tinha diminuído e o frenesi havia passado. Os braços dela cercavam seus ombros e ele virou a cabeça para beijar a curva de seu braço 344


enquanto sua mão acariciava seu corpo. — Novamente, então, — disse ele. Ela se agarrou a ele e abriu as pernas e aceitou seu toque. Suas dobras e sua passagem já pulsavam com excitação, e ele deliberadamente a acariciava de uma forma que traria prazer, mas não a realização. Ela se rebelou primeiro, e tentou se mover em direção a toques mais enérgicos, mas depois relaxou e aceitou as raias de prazer com exclamações jubilosas e gemidos. Ele viu o glorioso êxtase em seu rosto e quase perdeu o próprio controle. Ele tocou-lhe de forma diferente e a observava elevar-se de novo, mais alto desta vez, como seria a cada vez. Ele a levou até a beira e manteve-a ali, cambaleante naquela contraída borda maravilhosa, e deixoulhe sentir o primeiro tremor, antes que retirasse a mão. Suas unhas se cravaram em seu braço e no seu ombro. Ele a beijou e a acalmou com carícias suaves. — Foi maravilhoso, — ela sussurrou. — Será cada vez melhor? — Até certo ponto. — Você pretende fazer isso a noite toda? Ele riu. — Duvido seriamente. O amor me faz muito nobre e cavalheiresco, mas tenho os meus limites. Ela olhou para ele. — Acho que dois podem jogar esse seu jogo, David. Isso poderia agradá-lo? — Muito, se você quiser. Ela se levantou e empurrou os ombros dele para a cama. Ela lhe deu um sorriso pouco presunçoso cheio de injustificada autoconfiança. Ela beijou-o totalmente antes de passar as mãos e a boca no peito dele. Ele fechou os olhos e acariciou suas costas. — Não, David. Você não me deixou tocar em você, então você não pode me tocar. 345


As ondas de calor luxuriosas que ela criou moveram-se mais para baixo. Ele sentiu sua pausa para considerar a situação. Então, ele a sentiu virar-se e dobrar suas pernas para poder se inclinar contra seu estômago. Ele lhe ensinara a agradá-lo com as mãos, e suas carícias o levaram perto de delírio. Quando ela parou de novo ele abriu os olhos no momento em que ela abaixava a cabeça. Ele perdeu a noção depois disso. Ele olhou através de uma nuvem de sensações e prazer para as linhas eróticas das costas, das nádegas e dos dois pés delicados dobrados embaixo dela. Ele conhecia seus limites, mas ela não. Enquanto ele se aproximava, estendeu a mão e passou os dedos ao longo da fenda do traseiro dela. Ela gemeu e se mexeu, mas aceitou seu toque. Ele reorganizou seus corpos de modo que sua boca pudesse alcançá-la. Forçando seu controle, ele permitiu que ambos compartilhassem desse prazer extasiante um pouco mais enquanto a levava até a borda como ela havia feito com ele. Finalmente foi demais para os dois e ela sentiu isso. Ela o soltou e se virou para ele e enquanto o fazia, ele ergueu o corpo dela e a trouxe para cima dos seus quadris. Por um instante, ela pareceu surpresa ao encontrar-se assim. Então, sem dizer nada, instintivamente, levantou-se e levou-o para dentro de si. Seu anseio encontrou o dela naquele interlúdio entre eles. Ela fechou os olhos com a sensação, então, lentamente se levantou e baixou novamente. Paixão velava seus olhos quando ela os abriu. Ela moveu-se novamente e suspirou. — Isso é incrível, David. Ele estendeu a mão e acariciou os seios dela para que pudesse ver o quão incrível podia ser. Ele esfregou os mamilos tensos entre os dedos. Sua cabeça caiu para trás e ela pendeu sensualmente em um ritmo maravilhoso enquanto repetidamente puxava-o para o seu calor apertado e o soltava. Reforçado pela abstinência e o amor, o prazer o invadiu de uma forma que ele nunca havia conhecido. Ele a puxou para baixo em direção a ele.

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— Venha até mim. Incline-se um pouco — ele instruiu. Ela deslizou para cima, mas parou. — Vou perder... — Você não vai. Venha até mim. Ela se abaixou e ele moveu-a para frente até que pudesse tomar o seio na boca. Ela pairava sobre ele, sem fôlego, seu corpo mal se juntava ao dele. Ele sentiu seu aperto ao absorver mais dele, deixando-o louco com o carinho mútuo que eles criaram. — David, — ela suspirou, seu corpo tremia pela combinação de prazeres tentadores no seio e entre suas pernas. Ele acariciou suas costas para baixo até a curva e continuou a provocar seus seios. Ele sentiu o primeiro tremor profundo e sabia o que significava, mesmo que ela não. — David — ela lamentou de novo, freneticamente neste momento. Ele a soltou e ela se afundou nele com um grito necessário. Enterrando o rosto em seu peito, ela se moveu profundamente novamente. — Sim, isso pode acontecer também, — ele assegurou-lhe, e segurou seus quadris com firmeza, assumindo e a ajudando a descobrir aquela diferente e mais evasiva realização. Ele nunca tinha visto uma mulher chegar a uma realização tão violenta e completa. Arrebatamento, desejo e amor ecoaram nos gritos dela. Ela o beijou impetuosamente e olhou em seus olhos enquanto sua paixão elevava-se e a aceitação dela da aberta magia fez a intimidade fundir suas almas, como sempre fizera. Todo seu ser parecia se dobrar sobre si mesma, tomando a própria essência dele deste centro ardente, antes de flutuar em todas as direções. No final, ela levantou-se numa magnífica exibição de êxtase sensual quando gritou seu abandono. Sua mútua realização momentaneamente obliterada no tempo e no espaço e na consciência.

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Ela caiu em cima dele e ele flutuou com ela em sua harmonia. Seu amor o admirando e enchendo com a sua paz e sua graça inocente. A resposta faminta e precisa de sua própria alma o surpreendeu. Seu rosto estava enterrado perto do pescoço dele. — Você acha que alguém nos ouviu? — Nós? Ela riu e deu um tapinha no peito dele. — Tudo bem. Eu? Ele pensou sobre a janela aberta e o silêncio noturno na cidade. A casa inteira e metade de Caen provavelmente tinha ouvido. Tanta coisa para fingir que eles não estavam felizes juntos. Isso não importava agora. Se o conde pensara em usá-la dessa forma, ele já teria vindo até ambos. — Tenho certeza que ninguém ouviu, querida. Ela moveu-se e deitou-se ao lado dele. Ele nunca havia conhecido tal paz e contentamento, e se permitiu saborear a sensação, sabendo que não iria durar muito tempo e talvez nunca acontecesse outra vez. Ele provavelmente deveria ter dito tudo a ela. Eventualmente, teria que fazer. Este amor não permitiria longas decepções, até mesmo pelo bem dela. — Você já esteve lá? — Ela perguntou. — Em Senlis? — Duas vezes. A primeira vez há alguns anos, e depois novamente nos últimos tempos. — Você conseguiu entrar? — Sim. O conde não estava, e eu entrei como um mercador viajando com artigos de luxos para vender. Ninguém vai se lembrar. As vaidades absorvem as mulheres, não a mim. — Você quer isso? Senlis? — Quem não gostaria? 348


Ela se levantou e olhou em seus olhos. — Você não. Ao mesmo tempo, uma escolha aguardava. — É o seu destino que eu decido, bem como o meu. Gostaria de saber a sua vontade nesse sentido. — Gostaria de tê-lo comigo para sempre, vivo e inteiro. Isso é tudo o que realmente importa para mim, mas sei que você não vai fazer a sua escolha para a sua própria segurança, e não vou pedir isso de você. Quanto ao resto, não há direito líquido e errado aqui, não é? Ambos seguram um pouco de dor e traição. Inglaterra e França, ambos têm uma reclamação sobre você. Os dois homens, Edward e Theobald, merecem sua lealdade, — ela fez uma pausa, considerando o dilema. — Eu acho que você deve escolher a vida que você nasceu para viver, a que você acha certa. No final das contas, a vida com ela seria fascinante. — E quanto a você, Christiana? E sobre a vida que você nasceu para viver? Ela sorriu e descansou o rosto contra seu peito. — Eu nasci para me casar com um nobre, David. E você sempre foi um dos homens mais nobres que eu já conheci.

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Capítulo 21 Christiana acordou numa cama vazia com a luz do amanhecer irrompendo pela janela do quarto. As lembranças suaves da noite desapareceram ao mesmo tempo. Ela levantou-se e se vestiu rapidamente. Ele estava reunido com eles agora. A coisa estava em curso. Ela não podia orar por um resultado ou outro, apesar de sua própria preferência. Ele podia informar o porto tornando-se o herdeiro de Senlis, e viver a vida que poucos homens teriam. Ou podia recusar, ser privado de sua antiga vida, sem conseguir uma nova, e talvez ser morto. Sem muita escolha para sua mente, nem, ela esperava, para a dele. No entanto, apesar do status de Senlis e tudo o que isso implicava, ela não olharia para frente com qualquer entusiasmo por viver nesse lugar estranho tão longe de casa. Ela caminhou pelo quarto, mas o espaço confinado só aumentou sua preocupação. Ela deixou o aposento e procurou a escada que levava ao telhado plano da alta edificação, com seus múltiplos cômodos para dormir e armazenamento. 350


Cubas de flores de verão e trepadeiras se espalhavam pelo telhado. Quando ela saiu ouviu os sons de atividade que flutuavam da cidade abaixo. O zumbido habitual do comércio e movimento tinha sido substituído por um barulho de carruagens e cavalos e homens gritando ordens. David estava junto ao muro baixo, em torno do telhado, olhando para as ruas da cidade em direção ao oeste. Outro homem de meia-idade com uma constituição sólida e longos cabelos castanhos observava ao lado dele. David se virou e a notou. Ele estendeu a mão. — Meu senhor, esta é a minha esposa, Christiana Fitzwaryn. Este é o Comandante D'Eu, querida. Christiana encontrou o olhar vigilante do líder da guarda militar da França. — Eu sou primo de Theobald, minha senhora, e assim um parente de seu marido, — ele olhou para David. — A filha de Hugh Fitzwaryn, nada menos. Você fez bem por Senlis. Theobald está satisfeito porque sua esposa traz esse sangue para a família. Christiana foi até o muro ao lado de David. Nas ruas além, podia ver as atividades febris de um exército preparando-se para se mover. Já estava feito, então. Ela olhou para o rosto impassível de David. — Minha senhora, seu marido vai ficar aqui em Caen — disse o comandante. Ela olhou de um homem para o outro. Alguma coisa estava errada. Ela podia sentir isso. — Você está dizendo que ainda sou prisioneira? — Ela perguntou.

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— Você é livre para partir. Vou providenciar uma escolta para levá-la até Senlis. — Então meu marido é um prisioneiro agora? — Um convidado. Da terra inglesa. Ele pode se juntar a você depois. Ele não é treinado para a guerra, e essa batalha não é dele. — Eu prefiro ficar com o meu marido. O oficial olhou para David. David não reagiu completamente. O homem mais velho sorriu. — Como você quiser — disse ele, virou-se e atravessou o telhado para as escadas. Ela esperou até que ele tivesse ido embora. — Por que você deve ficar aqui, David? — Ele não confia em mim. Ele teme que eu tenha mentido para eles. Mas sua escolha para ficar comigo o tranquilizou um pouco. — Mas, por que mantê-lo aqui, se o exército está se movendo? — Theobald levará o exército. Ele já saiu da casa. Mas o comandante decidiu permanecer em Caen com uma pequena força que estará disponível no caso de Edward chegar por outro caminho. O conselheiro do Rei está aqui, também. Ele concordou que isso seria sábio. — E o seu tio concordou com isso? — Mesmo o conde de Senlis não pode ficar contra o comandante e o conselheiro da França. Theobald me queria com ele, para que eu pudesse ver de perto a gloriosa vitória francesa que ajudei a trazer. O comandante insistiu que eu ficasse com ele aqui, no entanto, de modo que me teria à sua disposição, se eu os trair de alguma forma. Ele acha que eu poderia escapar do exército durante a sua marcha, ou que, se acontecesse, Theobald não iria

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se vingar de seu herdeiro, — ele sorriu. — O comandante não conhece seu primo muito bem. Ele a abraçou e colocou sua bochecha contra seu cabelo. Ele ainda olhou para a cidade. Ela sentiu emoções conflitantes nele e desejou que pudesse dizer algo para consolá-lo. Esta decisão não tinha sido fácil, não importa o prêmio que trouxesse. — Por que o comandante não confia em você? Certamente, a lógica de sua escolha deve ser clara para ele. É a decisão que qualquer homem teria feito, e há inclusive cavaleiros ingleses e nobres que reconhecem a justiça disto. — Ele me explicou agora. Quase se desculpou. Parece que se eu fosse um cavaleiro ele não teria dúvidas sobre mim. É o fato de que sou um mercador e um mercador de Londres, o que lhe provoca essa hesitação. — Isso é ultrajante. Será que ele acha os mercadores menos honrados? — Sem dúvida, como todos. Ainda assim, de certa forma, ele me atribui mais honra do que menos. Ele me disse que conhece os burgueses, e que já encontrou muitos de Londres. Ele sabe que devemos a nossa primeira lealdade a própria cidade. Ele não tem a pretensão de entender os homens que dão a sua lealdade a um lugar, em vez de um homem, mas sabe que funciona assim conosco e ele tem visto o poder disso. Ele pode aceitar que eu traia Edward, ou mesmo o reino, mas não Londres. E assim, enquanto ele e o conselheiro concordam com Theobald que o exército deve se mover com rapidez, o comandante vai ficar aqui para organizar a defesa, caso eu tenha mentido para eles. Um fluxo constante de cavaleiros e soldados montados escoava através do portão da ponte para o outro lado do rio. Moviam-se através da cidade em direção aos limites sudeste. Os soldados de infantaria, carruagens, e os proletários se arrastavam com eles. As ruas pareciam rios coloridos.

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O olhar de David seguiu as fileiras. — Eu deveria ter insistido para que você fosse para Senlis, mas temo nunca alcançá-la mais tarde. Eu suspeito que Theobald possa ser cruel quando irritado. Ainda assim, seria muito mais seguro para você. O comandante me garantiu sua segurança, mas há limites para a sua proteção. — O que você está dizendo, David? Você acha que Edward de fato mudou seus planos e que o comandante vai culpá-lo de alguma forma? Ele se afastou do muro e caminhou até o ponto de vista do sul com o braço em volta dos ombros dela. À distância, além dos telhados mais baixos, podiam ver o campo em que o exército se reunia. Na frente, com bandeiras de ouro e azul, não mais do que pontos para os olhos, situava-se três homens a cavalo. — Theobald? — Ela perguntou. Ele acenou com a cabeça. — Há cinco mil aqui com ele. Outros vão se juntar ao exército quando se dirigirem ao sul. — Eles vão para Bordeaux, então? — Perguntou ela, mesmo sabendo que a resposta era óbvia. Ela precisava ouvir, disse a si mesma, para que pudesse começar a se reconciliar com o futuro que ele tinha escolhido para ambos. Ela desejou sentir um pouco de alegria, mas seu estômago se agitava de um modo estranho. Ela pensou sobre sua pergunta ontem à noite, antes de dormir, e de sua resposta. Ele entendera errado. Ela tinha procurado assegurar-lhe que o amava, sem importar o seu status, e o considerava nobre mesmo antes de saber sobre o pai dele. Ele fez isso em grande parte, por mim, ela percebeu. Para me dar de volta a vida que esse casamento me tirou. O Conde e Duque começaram a cavalgar. A massa espessa e indisciplinada do exército atrás deles. 354


— Sim, eles vão para Bordeaux — ele confirmou. Ele tinha uma expressão peculiar no rosto. Seus olhos se estreitaram ante as bandeiras azuis desaparecendo. — No entanto, Edward, não. Ela ficou boquiaberta. Seu olhar nunca deixando o campo. — Eu fui até Edward antes de Catherine. Contei-lhe tudo, e me ofereci para terminar o jogo que havia começado. Eu informaria um porto, e nosso exército chegaria por outro. Pressionei-o para considerar a Normandia, desde que a metade do exército francês já estava no sul e se eu falhasse ele poderia apenas enfrentar uma pequena baixa. Sua experiência ao tentar navegar para Bordeaux já o havia inclinado a mudar os planos, e um cavaleiro normando esteve na corte nestes últimos meses, também comentando sobre as cidades sem muros da Normandia e de suas estradas desertas. Ela olhou na direção de seu olhar. Ainda podia ver reflexos da armadura do conde. — Edward vai desembarcar na Normandia? Aqui no litoral norte? — um alívio tremendo varreu-a, mas com isso veio um medo doentio por David e pelo que ele enfrentaria agora. — Supondo-se que ele não aja com inteligência, no último momento, o que é inteiramente possível. Ou que ele não se ponha a duvidar de mim. Catherine provavelmente contou contos escabrosos sobre a minha duplicidade, mas estou contando com Edward considerando o que sabe sobre ela. Godefrey, o cavaleiro normando e eu fomos capazes de dar-lhe três portos possíveis, pequenos e fora do caminho. Ele usará aquele que os ventos favorecerem. — Será que o Rei sabe sobre Senlis e o que lhe foi oferecido? Se ele sabe, pode muito bem duvidar de você. Ele não vai entender sua escolha. 355


— Eu contei tudo. Não podia ter certeza se lady Catherine estava envolvida no seu desaparecimento, ou que ela planejava me trair, mas suspeitava. Não podia ter certeza se ela permanecia ignorante sobre o meu relacionamento com o conde. Foi por isso que falei francamente com Edward. Quando finalmente consegui agarrar Frans, tive minhas suspeitas confirmadas. — Então, você nunca esteve em perigo na Inglaterra? E você pode voltar? Supondo-se que ele pudesse sair de Caen vivo. — Sim. — Ainda assim, depois de ter convencido Edward pela Normandia, você podia tê-lo traído. Quando você decidiu o que fazer? Ele ainda olhou para o fluxo do exército. — No início desta manhã. Cavaleiro ou mercador, você disse. Levei a sério suas palavras. — E se eu tivesse falado de forma diferente? Se eu tivesse dito que queria ser a esposa de um conde? — Eu teria dado a você, e aprenderia a viver com a minha consciência, — ele olhou para baixo e sorriu. — Suspeito que posso me acostumar. O poder e o luxo de Senlis, provavelmente, pode obscurecer qualquer culpa. Tal vida tem seu apelo. Não vou fingir que não estava tentado. Ela abraçou-o com força. — Você tem se sacrificado muito por sua cidade e seu Rei, David. Edward lhe deve muito. — Ele não me deve nada, Christiana. Ele me deu você. A dívida é toda minha. Seu olhar se voltou para o campo distante. O conde era pouco visível agora. Ela viu aquela expressão peculiar no rosto dele novamente, e um lampejo de desejo passar por esses olhos. 356


Ele havia executado uma brilhante vitória, uma estratégia ousada, um jogo magnífico, mas nenhum triunfo aparecia nele. Ela duvidou que sua reação moderada tivesse algo a ver com o perigo que ele enfrentava agora. Ela se aconchegou debaixo de seu braço e tentou confortá-lo. — Com o tempo ele vai entender, David. Ele sabe sobre a honra e as escolhas difíceis de um homem. Ele pode não perdoá-lo, mas ele vai entender. Ele ficou tenso ante a alusão ao conde e os laços de sangue que ele havia traído. Ela tentou novamente. — David, sei que você está sofrendo. Ele é seu tio... Seus dedos pousaram sobre seus lábios, silenciando-a. — Eu deveria ter dito na noite passada, — disse ele. — Eu temia sua reação diante da verdade, e também não sabia se ele tentaria descobrir o que você sabe. Passei a última hora me perguntando se deveria lhe contar. Ela franziu a testa em confusão. Ela procurou em seu rosto alguma explicação. — Theobald não é meu tio, Christiana. Suas palavras a surpreenderam. Demorou alguns momentos para a plena implicação penetrar em sua mente atordoada. — Quão inteligente você é, David? — Quão audacioso? Você encontrou um homem com que se parecia de alguma forma e traçou este esquema elaborado? Você me alimentou com essa história para que eu pudesse apoiá-lo de forma convincente caso fosse questionada? Esta peculiar expressão de anseio passou por ele novamente. 357


Ele balançou a cabeça. — É muito pior do que isso, minha menina, — ele olhou para a sombra de um homem sendo engolido pela luz do sol e a neblina. — Theobald não é meu tio. Ele é meu pai. Christiana não sabia quanto tempo ficou ali com suas palavras pairando no ar, mas quando ele falou de novo as pontas dispersas do exército estavam passando para fora da cidade. — Ele nem sequer lembra o nome dela. Eles ainda estavam perto do muro do telhado. Ele descansou os braços contra ele e olhou para o sul, mas em nada em particular agora. — Ele a seduziu, tomou o seu amor, deixando-a com a criança, e destruiu sua vida. Eu uso o nome dela, mas isto não significou nada para ele. Tanto ele como Honore tinham estado em Londres várias vezes quando jovens, e ele assumiu que eu era o produto de um dos pecados de seu irmão. Esta foi a zombaria final da eterna confiança de Joanna. Ela falou para confortá-lo mais do que para defender Theobald. — Foi há trinta anos. Quando você tiver cinquenta e cinco, você acha que vai se lembrar do nome de todas as mulheres que dormiu? — Sim. Cada uma. — Talvez só porque ele não lembrou. Ele parecia não ouvir. — Houve dois anéis, um cinza e outro rosa. Ele assumiu que eu tinha o de Honore, o cinza, e nunca pediu para vê-lo. Em Hampstead, ele olhou para mim e viu apenas seu irmão. — Ele conhecia o rosto do irmão melhor do que o seu próprio. Quantas vezes não vemos reflexos claros de nós mesmos em vidro e metal?

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— Ela não significou nada para ele. Ela era apenas uma garota bonita com quem ele se divertiu por um curto período. A filha de um mercador que não significava nada na vida de um filho de Senlis. Ela não sabia mais o que dizer. Ele tinha visto a miséria e a paciência de Joanna. Ele vivera na sombra de sua desilusão. Ele tinha visto o mestre a quem ele admirava amá-la em vão. Duvidava que sua raiva por Theobald pudesse ser amenizada com palavras. — Por que não lhe disse a verdade? Por que deixá-lo pensar que você é seu sobrinho? — Em Hampstead, quando percebi seu erro, fiquei surpreso. Caso contrário, meu plano teria se desdobrado perfeitamente. Eu disse a mim mesmo naquele momento que corrigi-lo poderia complicar as coisas. Pelo que eu sabia, ele poderia se ressentir com a aparição repentina de um filho bastardo, ou talvez suspeitar que eu procurasse vingança contra ele. Mas, na verdade, era a minha própria vontade que eu questionei. Conhecê-lo foi muito mais difícil do que eu pensava que seria. Eu tinha toda a intenção de desprezá-lo. E então, lá estava ele, repentinamente, e uma centena de perguntas não ditas que eu havia realizado em minha alma toda a minha vida foram respondidas. As respostas eram, principalmente, desagradáveis, mas pelo menos eu as tinha, — ele sorriu com tristeza. — A ligação, a familiaridade, foi imediata. Inesperada e surpreendente. Se ele tivesse me reconhecido com dele, e apelado de pai para filho, eu não sei o que teria feito. Então, eu o deixei pensar o contrário. Ele não tinha que dizer isso a ela. Ela nunca teria sabido ou suspeitado. — Então, Christiana. Você está casada com um homem que atraiu o próprio pai para a desgraça e o traiu. É um crime grave em qualquer família, especialmente nobre. Ele procurou desaprovação ou desapontamento nos olhos dela. Ela sabia que ele encontrou apenas compreensão e amor.

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Ela pensou sobre o desejo que ela tinha visto nele, e seu coração encheu-se de compaixão. — Você se arrepende? Enquanto o via se afastar cavalgando, poderia mudar as coisas? — Apenas por você eu teria feito diferente e mudado o rumo. Nunca por ele. Eu desejaria poder dizer que me arrependo de ter começado isso, mas não. Sou o que sou minha menina, e parte de mim, a parte Senlis, está feliz que eu tenha vingado Joanna. — Você odeia seu pai, David? Ele sorriu e balançou a cabeça. — Seria como me odiar. Mas eu não tenho nenhum amor por ele também. Theobald pode ter me dado a vida, mas o único pai que conheci e amava era David Constantyn. Ele pegou a mão dela e se afastou do muro. — E agora, David? Ele olhou ao redor do telhado, como se verificasse. — Agora estou preocupado com a sua segurança. — ele sorriu para ela. — O perigo que enfrentei com o conde de Senlis e o Comandante d'Eu é nada comparado ao que Morvan Fitzwaryn vai fazer se eu deixar algo acontecer com você. Acho que você deve pedir a encantadora Heloise para me mostrar sua casa. Toda ela. Diga que eu estou curioso para ver como vivem os ricos burgueses de Caen. David e Christiana fizeram sua excursão. David olhou ao redor, sem sutilezas e fez elogios efusivos. Heloise sorriu com orgulho diante da apreciação deste belo mercador de Londres. Christiana pensou que ele exagerara um pouco, mas os seus elogios arrastaram-se pela tarde afora e deu-lhe a oportunidade de examinar cada aposento e armazém, todas as janelas e o estábulo. Ele parecia especialmente fascinado por um sótão no topo do prédio principal. Carregado com roupas e tecidos, podia ser alcançado por um estreito lance de degraus curvados ao longo da parede interna. 360


Eles finalmente deixaram Heloise no corredor e entraram no jardim. — Não parece haver nenhum caminho para fora, exceto o portão da frente, longe de obter uma escada para a parede — disse David. — É isso o que procurava? Eu podia ter lhe dito. Há um caminho, mas você vai precisar de corda — ela começou dobrando-o na direção da árvore. Ela sorriu para esta solução simples. David iria escapar, ela iria se juntar a ele, e depois... O quê? A corrida para a segurança, para Edward e seu exército. Quanto tempo duraria a perseguição do conde se buscasse vingança? Talvez eles precisassem deixar a Inglaterra e a França para trás e ir para Gênova. Ao se aproximarem do canto do jardim, seu coração desmoronou. Onde o alto carvalho estivera, encontraram apenas seu tronco. — Eu saí dessa forma uma semana antes de você chegar, — explicou ela. — Theobald me pegou. Ele deve ter mandado cortá-lo depois disso. — Isso não importa. Duvido que conseguíssemos passar pelo portão da ponte. Ela procurou o conforto de seus braços. — Quanto tempo? — Ela perguntou corajosamente abordando o assunto que havia evitado. — Quando Edward vai desembarcar? — Calculo cinco dias, talvez seis. — Você tem que ir embora. Você não pode estar aqui quando eles descobrirem. Hoje à noite, vou distrair os guardas no portão da frente e você... — Eu não parto sem você.

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— Então, temos que encontrar um jeito — ela choramingou desesperadamente. — Se houver um, vou encontrar. Mas acho que isto está fora de nossas mãos. Quem sabe? Quando o exército Inglês começar a devastar a Normandia, o comandante e o conselheiro fiquem tão ocupados organizando a defesa que irão se esquecer de mim. Ele falou tão levemente que ela teve que sorrir. Mas ela não acreditava que pudesse acontecer, e sabia que nem ele acreditava. **** Quando ela acordou numa cama vazia na manhã da quarta-feira depois que o exército partiu, jogou uma capa em cima e foi em busca dele. Ela o encontrou no telhado, olhando para o oeste. Estava quase amanhecendo, e a cidade ainda aparecia como formas cinzentas abaixo deles. Apesar do silêncio, o ar parecia carregado com uma plenitude estranha, como se uma tempestade germinasse em algum lugar além do horizonte claro. Ela moveu-se para o lado dele. Seus olhos azuis a olharam, depois se voltaram para o seu exame do campo além do rio. — Olhe lá, — disse ele. — Aproximando-se da ponte. Ela se esforçou para ver. A luz estava crescendo e uma grande sombra sobre o campo descia na margem oposta do rio. Ela assistiu e a sombra quebrou-se em pedaços e, em seguida, as peças se tornaram pessoas. Centenas delas. Moviam-se rapidamente, levando sacos e os principais animais. O sol começou a subir e ela viu que a multidão incluía mulheres e crianças. Eles espalhavam-se através dos edifícios ao lado do rio, passando pelos mosteiros construídos por William, o Conquistador, e sua esposa Matilda, e, em seguida, passaram a se concentrar na outra extremidade da ponte, gritando para a entrada da cidade. 362


— Quem são eles? — Camponeses. Burgueses. Sacerdotes. São refugiados, fugindo do exército de Edward. Guardas adicionais correram para reforçar a vigilância no portão da ponte. A multidão de refugiados se uniu e os gritos aumentaram. No lado mais próximo do rio, dois homens montados a cavalo começaram a andar pelas ruas desertas em direção a casa do alcaide. — O exército está nas proximidades? — Ela perguntou. — Acho que apenas algumas horas de distância. — Ele vem aqui? Para Caen? Você podia ter me dito, David. Eu não teria me preocupado tanto. — Eu não podia ter certeza. Em abril, por acaso, encontrei um porto na península Cotentin apenas a oeste. Sieg e eu esperamos lá pelos navios ingleses antes de me encontrar com Theobald aqui em Caen. Durante a tempestade, um navio mercante foi empurrado para o interior em direção à cidade costeira onde esperamos. Ele adentrou uma centena de metros da costa e não encalhou. O mar deve ter deslocado a costa ao longo dos anos e o porto ficou mais profundo. Perfeito para o desembarque do exército. Ainda assim, os ventos podiam ter levado Edward mais a leste para um dos outros portos que eu tinha encontrado antes. — Você não quis me dar falsas esperanças — disse ela. — Eu não quis dar-lhe mais preocupações, querida. — Preocupação? Esta é uma boa notícia! Edward vai conseguir sua libertação. A flor da cavalaria inglesa veio para salvá-lo — disse ela, sorrindo. — Se a cidade se render, pode ser dessa maneira.

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— É claro que a cidade vai se render. Não há escolha. — Londres não se renderia. — Londres tem muros. — Eu espero que você esteja certa. — O que é, David? O que o preocupa? Mas antes que ele pudesse responder, a resposta apareceu no telhado, na pessoa de dois cavaleiros da comitiva do comandante.

Capítulo 22 David caminhava ao redor do pequeno armazém. O espaço cheirava a arenque dos barris empilhados contra a parede. Uma pequena vela ardia na cela sem janelas, e ele tentava contar as horas que passavam lentamente enquanto percorria o pequeno espaço. Ele tinha sorte de ainda estar vivo. Ao confrontá-lo na sala sobre a sua traição, o comandante mal tinha resistido a cortá-lo com sua espada. O pânico e a confusão provocados pela aproximação do exército Inglês tinha salvado sua vida. O salão estava em polvorosa como o comandante e o conselheiro tentando organizar a defesa da cidade, enquanto seus escudeiros amarravam suas armaduras. Uma nota havia sido enviada a leste e a sul, chamando o exército de Theobald de volta e despertando a população em geral para que se reunissem e lutassem contra a invasão. David havia sido preso neste aposento para aguardar o enforcamento depois que a ameaça mais urgente houvesse sido derrotada. Antes de ser levado, ele tentou argumentar com o comandante e o conselheiro e convencê-los a não resistir a Edward. Havia dito que o exército Inglês contava, pelo menos, com vinte mil homens, enquanto o comandante tinha, no máximo, trezentos homens em Caen. Ele lembrou 364


que a rendição pouparia o povo da cidade e apenas significaria a perda de propriedade. Apenas o alcaide havia concordado, mas a decisão não era dele. O Rei francês havia dito ao Comandante d'Eu que parasse Edward, e ele planejava lutar pela honra da França, apesar das probabilidades. Caen não iria render-se ou negociar condições. Ele esforçou-se para ouvir os sons através da parede espessa do armazém. A casa havia se acalmado e a atividade mais distante só chegava a ele como um maçante murmúrio. A verdadeira batalha seria travada no portão da ponte. Se a cidade pudesse manter o controle desse único acesso, o rio iria provar ser mais formidável do que qualquer muro. Pelo amor de Christiana, ele esperava que o portão suportasse. Se a cidade caísse, ela não estaria a salvo daqueles soldados ingleses quando pilhassem esta rica cidade. Duvidava que eles ouvissem suas reivindicações sobre ser Inglesa, assim como poderiam não ouvi-lo quando invadissem este armazém para saquear os bens que continha. Ele fez uma careta ante a ironia. Ele iria, sem dúvida, morrer hoje, mas se vivesse o suficiente para ser enforcado, se Edward não tomasse a cidade, pelo menos Christiana estaria segura. Ele bateu com o punho na parede em furiosa frustração porque não podia ajudá-la. Ela tinha sido enviada para Heloise e as outras mulheres imediatamente após a sua prisão. Ela lutou contra os cavaleiros que a afastavam. Esses cavaleiros não haviam retornado, e ele orou para que eles guardassem o aposento em que as mulheres esperavam. Seria alguma proteção, pelo menos. Levantou a vela e reexaminou sua pequena prisão. Ele desejou que contivesse mais que arenque defumado, e não apenas por causa do cheiro. Quem se desse ao trabalho de quebrar a porta provavelmente iria matá-lo de ressentimento por não encontrar nada de valor pelo seu tempo e trabalho. Como se ecoando seus pensamentos, um som na porta atraiu sua atenção. Não a queda de um machado ou aríete, no entanto. Um tom mais sutil de metal contra metal. 365


Talvez Edward tivesse decidido seguir em frente. Talvez ele fosse enforcado, afinal. Moveu-se para a parede oposta e viu a porta se abrir com facilidade. No limiar, com o rosto pálido de um fantasma, apareceu uma Heloise abatida. Christiana estava atrás dela segurando sua longa adaga de aço na garganta da mulher loira. — Ela sabia que era a única coisa sensata a fazer, David, mas ela é uma dessas mulheres que só obedecem ao seu marido, então tive que incentivá-la — disse Christiana. Ela enfiou o punhal pendurado na bainha da sua cintura. Heloise parecia prestes a desmaiar. Ela se encostou na parede. — O que aconteceu? — Ele perguntou. — A ponte foi tomada, — explicou Christiana. Seu próprio rosto demonstrava medo que tentava bravamente esconder. — Os cavaleiros que nos protegiam partiram há muito tempo, e então fui observar do telhado. Nosso exército está por toda a cidade, como uma multidão. É como você disse. Na vitória, eles estão tomando tudo o que podem mover. As pessoas estão jogando bancos e pedras sobre eles dos telhados, e isso está retardando o avanço, mas não por muito tempo. — Ninguém está aqui, — Heloise chorou. — O portão é guardado apenas por alguns treinadores e servos. Quando a ponte caiu, todos os soldados partiram, alguns para lutar nas ruas, outros em fuga. Christiana moveu-se para perto dele e falou baixo. — Ela queria pegar suas filhas e fugir também, mas eu a convenci de que era melhor ficar atrás dessas paredes do que na cidade. Ele não tem muralhas no castelo, e não vão segurar o exército por muito tempo, e os soldados estão matando todos que encontram. Mesmo do telhado pude ver muitos corpos caindo.

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Ele olhou nos olhos dela e leu a sua profunda percepção do perigo que enfrentava. Ele se virou para Heloísa. — Foi melhor você me soltar senhora, — disse ele suavemente. — A sorte sempre sorriu para mim. Talvez ela seja gentil hoje também, — ele afastou a mulher da parede. — Vamos sair e avaliar a nossa situação. Más notícias aguardavam no pátio. Os servos que guardavam o portão haviam fugido, e a entrada estava aberta para a rua. À distância, eles podiam ouvir os gritos de uma cidade que estava sendo saqueada. Ele correu para fechar e trancar a porta. Um grupo de seis mulheres surgiu justamente quando ele chegou. Pareciam ser as esposas dos burgueses e se jogaram para Heloise. — Esse diabo do Rei Inglês ordenou que todos fossem degolados, — uma delas gritou. — Eles estão tirando as roupas dos corpos e cortando os dedos para conseguir os anéis. Estão violentando as mulheres antes de cortarem suas gargantas. As outras mulheres juntaram-se as descrições histéricas dos horrores que tinham visto. David trancou a porta e olhou ao redor do pátio. Christiana estava certa. Estas não eram muralhas como de um castelo e eles marcaram a casa como a de um rico mercador. Eventualmente, alguns soldados decidiriam arrombar a porta ou escalar suas alturas. Mas eles estavam melhor aqui do que lá fora, na cidade. Christiana estava ao lado, ouvindo as narrações de mutilação e destruição com um rosto pálido. O som do exército pilhando, gradualmente se aproximou. Ele se aproximou e abraçou-a. — Você se lembra do sótão de armazenagem acima dos aposentos? Próxima das escadas estreitas? Leveas para lá. — E você?

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— Eu vou me juntar a você em breve. Parece que vou precisar daquela armadura afinal. Nunca pensei em usá-la contra os ingleses. Parece que o meu pai terá sua vitória no final. É uma justiça ironia que o traindo eu a coloquei em tal perigo. — Não se culpe por isso. Você não me trouxe aqui — disse ela, sabendo instintivamente que a culpa queria dominá-lo. — De qualquer forma, você está aqui, — ele hesitou, não querendo falar sobre o horror que a ameaçava. — Se eles chegarem, deixe-os saber quem você é. Fale em inglês. Reivindique a proteção do seu irmão e do Rei. — Não importa, — disse ela, virando-se para as mulheres reunidas. — Já vi isso antes. Em Harclow. Começou antes de sairmos. Meu irmão aceitou a derrota e a possível morte para salvar a minha mãe do que nós enfrentamos hoje. Ela se aproximou das mulheres e falou com elas. Gratas por ter alguma instrução que pelo menos oferecia esperança, permaneceram em torno dela enquanto abria caminho para o prédio alto e o sótão. David seguiu, mas desviou para o quarto que ele e Christiana tinham compartilhado. Ele colocou o peitoral de sua armadura sobre seus ombros e, em seguida, levantou as peças para seus braços. Ele considerou que, com armas e armaduras, seria capaz de levar Christiana sozinho através das ruas da cidade. Ele balançou a cabeça. Não tinha um colete que o identificasse como parte da comitiva de algum barão Inglês, e seu escudo não tinha armas que esses soldados reconhecessem. Eles iriam pensar que ele era francês. Em qualquer caso, no íntimo, não abandonaria as outras mulheres e as garotas, nem Christiana quereria que fizesse isto. Na morte, pelo menos, ele podia ser o marido que ela merecia. Içando sua espada com a outra mão, ele andou para a escada e até as mulheres escondidas. Christiana já tinha colocado as mulheres para trabalhar. Longos panos esticavam-se no chão, e elas usavam o punhal para cortar pedaços deles.

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— O que você está fazendo? — Ele perguntou, situando a armadura. — Bandeiras, — disse ela. — O branco e verde de Harclow. As cores de Thomas Holland, e aquelas de Chandros e Beauchamp. Vamos pendurálas nas janelas. Quem sabe, poderia atrair alguém que possa nos ajudar. Ela olhou para a armadura e se aproximou. — Deixe comigo — seus dedos começaram a trabalhar nas tiras e nas fivelas. Levou um longo tempo para adaptar toda a armadura, e ele nem sequer tinha as peças da perna. Quando terminaram, ela desamarrou a bainha de sua cintura e, em seguida, recuperou o punhal e entregou a ele. Ele olhou um momento para o longo comprimento de aço afiado. Seus olhos se encontraram. — Isso não faz nada de bom contra homens armados, — disse ela, colocando-o na bainha em seu quadril. — E não sou corajosa o suficiente para usá-lo em outros ou em mim mesma. As mulheres abriram as janelas e deslizaram para fora as bandeiras. A brisa de verão carregava os sons dos gritos de morte. Quando elas fecharam as janelas para proteger o tecido, uma colisão contra o portão estrondou no sótão. O barulho lançou todos em um silêncio absoluto. O ar no aposento cheirava azedo do medo exalando de seus ocupantes. David olhou para as oito mulheres e as três garotas. Seus rostos eram pouco visíveis na sala escura agora, pelo pano nas janelas. Ele arrastou Christiana de lado e virou as costas para as outras. Ele segurou seu rosto com as mãos e fechou os olhos para saborear a doçura delicada de seus lábios. Uma dolorosa ternura o inundou, e seu medo palpável rasgou seu coração. — Quando eu for para Genova neste outono, você vai comigo, — disse ele. — Depois disso, atravessar os Alpes vai parecer uma coisa mínima. Vamos passar os meses frios na Itália e viajar até Florença e Roma.

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— Eu gostaria, — ela sussurrou. — Talvez possamos até mesmo atravessar o mar para uma terra sarracena, e fazer amor em uma tenda no deserto. Ele beijou-lhe os olhos fechados e provou as lágrimas salgadas brotando neles. Sons inconfundíveis do portão cedendo invadiram o aposento. — Olhe para mim, Christiana — disse ele. Suas pálpebras levantaramse lentamente e ele olhou para os diamantes líquidos e a deixou ver seu amor profundo por ela. Ela sorriu bravamente e tristemente e estendeu-se para beijá-lo. Os gritos e o clamor de homens invadindo o pátio chegaram até eles. Christiana levantou a espada e a entregou a ele. Atrás dele, o sótão mantinha-se em completo silêncio. As mulheres estavam além da histeria. As filhas de Heloise pareciam solenes com os olhos arregalados. Com uma última olhada a sua bela esposa, ele abriu a porta e tomou uma posição no topo das escadas estreitas. O barulho primitivo de violência e saques encheu a edificação. David ficou tenso em seu posto, com a espada encostada na parede ao lado dele, e esperou que os soldados, eventualmente, encontrassem a passagem que conduzia a esses degraus e o sótão. A porta atrás dele tinha sido fechada, mas não podia ser barrada por dentro. Depois que ele caísse, não haveria proteção para Christiana e as outras. Os aposentos, o hall e os armazéns inferiores os mantiveram ocupados por pelo menos uma hora. Não seria por muito mais tempo. Se ele tivesse sorte, os homens que tinham entrado poderiam ter fechado o portão para outros, a fim de manter o rico espólio da casa do alcaide para si e lá poderia não haver muitos. Se ele era realmente afortunado, não haveria arqueiros entre eles. Se a sorte realmente favorecesse-o, alguém com autoridade poderia, eventualmente, chegar para proteger a casa do alcaide para o prazer e disposição do Rei. Ele se 370


perguntou se havia cavalheiros entre eles, e se apelasse para o cavalheirismo obteria algum bem. Não podia ver o fundo das escadas, pois se erguia do lado da edificação por um corredor antes de angular ao longo da parede de volta para ele. Mas ele ouviu correria abaixo e o grito de um homem para seus amigos quando a descobriu. Eles subiram os degraus rapidamente, cheios de bom humor enquanto trocavam as descrições das roupas e joias e prata que já haviam conseguido. Ele podia dizer que não eram cavalheiros pela sua linguagem. Ele esperou. Seis homens contornaram a curva da escada. Eles começaram a se enfileirar na subida. O primeiro atingiu o sétimo degrau quando finalmente repararam nele. Seis cabeças levantaram o olhar, surpresos. — Quem diabos é você? — O homem líder latiu. — Um inglês como vocês. Um londrino. Um mercador. — Você não se parece com um mercador. — Nenhum de nós parece ou age como si mesmo hoje. A guerra faz isso. Eles se esticaram para observar ao redor dele. — O que está por trás daquela porta, mercador? — Um deles gritou. — Tecidos. Comuns e sem muito valor. — Ele está mentindo, — disse o líder. — Estas escadas foram ocultadas. Este é o aposento com as especiarias e o ouro. — Eu juro que nem especiarias nem ouro estão nesta sala. — Passe para o lado e vamos ver. — Não. 371


Mais passos na escada. Mais faces se juntando as outras. A fila virou a curva além da vista. David olhou para os longos punhais e espadas, enquanto a palavra foi passada que o ouro e especiarias esperavam dentro. Os homens mais próximos olharam duro para ele, tentando decidir se a armadura indicava habilidade superior. Os degraus estreitos significavam que não podiam se precipitar neles todos de uma vez e o primeiro a vir podia morrer. A longa fila começou a se acotovelar ao redor. A cabeça vermelha moveu acima deles, empurrando para cima. — Afastem-se! — Uma voz jovem ordenou. Os outros se apertaram mais e deixaram o rapaz passar. Ele situou-se ao lado do homem da frente. Um escudeiro, David adivinhou por sua juventude e libré. Talvez vinte anos de idade. Separado de seu senhor e apreciando seu poder e status no inferno que se tornou Caen. O escudeiro olhou para a espada de David e desembainhou a sua própria. — Abrimos este portão. Os despojos são nossos — disse ele. — Desde que estou no degrau mais alto, é óbvio que cheguei antes de você — respondeu David. Reclamações e maldições agitaram-se e retumbaram através das escadas. Os homens na parte traseira começaram a pedir que David fosse despachado para que pudessem chegar ao ouro. David olhou para o escudeiro e o homem ao seu lado. Os gritos se levantaram e encheram a escada. Ambos os homens encaravam de maneira firme enquanto seus companheiros exortava-os a ação. Ele observou e esperou, lendo a sua determinação, preparando-se para o ataque. 372


Será o mais jovem, pensou com pesar. A cabeça vermelha de repente se levantou. A longa espada ergueu-se. A mão de David foi para o seu quadril. Antes que o jovem subisse dois degraus, ele avançou. Seus olhos chocados olharam para o punhal de aço encravado na garganta. Em seguida, o corpo se desintegrou, bloqueando as escadas. A multidão de soldados fez uma pausa coletiva, e, em seguida, os gritos e maldições retornaram em um nível mais alto, mais insistente. David pegou sua espada. Ele notou uma aglomeração inexorável na frente, como se mais homens se juntassem aos outros e todos pressionavam para cima. A pressão sobre os da frente era tanto física como audível. Mãos se estenderam e empurraram o escudeiro fora do caminho. O cheiro acre da sede desencadeada de sangue permeou o espaço fechado. Ele deixou o cruel sangue de Senlis fluir para dar-lhe sua força fria. E então, de repente, o silêncio começou a envolver da parte traseira. Os homens no corredor olharam para trás e, em seguida, um para o outro. Corpos esmagados contra as paredes, fora do caminho. A figura alta, de um cavaleiro de cabelos escuros vestindo o uniforme do Rei intensificava a vista. Olhos de fogo escuros olharam para David e mostraram diversão e surpresa. Sir Morvan esperou calmamente e em silêncio até os soldados acima dele perceberem que ele queria passar. Eles se acotovelavam e apontaram e abriram caminho. Lentamente, ele subiu os degraus até chegar ao escudeiro caído. Olhando para David, ele casualmente estendeu a mão e retirou o punhal e começou a derramar o sangue do ferimento. Ele limpou a arma de sua jaqueta e se juntou a David na frente da porta.

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— Esse é o problema com um punhal, — disse ele levemente quando o entregou. — Uma vez que você o lança, está desarmado, — Seu olhar passou sobre a armadura de David. — Belo aço. Alemão? — Flamengo. — Você não deveria estar na Inglaterra? Northumberland, não era? — Negócios me trouxeram até aqui. — E minha irmã? — Eu a encontrei. Não com Percy. Vários homens começaram a murmurar em voz alta sobre os cavaleiros sempre tomarem as melhores partes para eles mesmos. Morvan, simplesmente bocejou enquanto desembainhava sua espada. As queixas pararam. — Você está em uma posição ruim aqui — observou ele. — Sim. Foi bom você ter chegado. Morvan encolheu os ombros. — Uma vez que a ponte caiu, a diversão acabou. Estupros e saques não me interessam, então decidi olhar esta casa que esvoaçava as cores de Harclow. — ele olhou para a porta. — Tudo o que você guarda, não vale a pena. Afaste-se e deixe que estes homens peguem. Eles não podem ser controlados, uma vez que cheiraram despojos e gosto de sangue. Thomas Holland e eu passemos as últimas horas tentando evitar que mulheres e as crianças fossem assassinadas ou estupradas. — Não posso me afastar.

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— É apenas uma questão de tempo antes de encontrarem um arqueiro. É realmente ouro como disseram abaixo? David balançou a cabeça e apontou para a porta. Morvan abriu uma fresta, olhou para dentro, e endureceu. Ele franziu a testa e olhou de novo. Olhos quentes caíram sobre David assim que ele fechou a porta. — Diga-me que não era a minha irmã que acabei de ver entre as mulheres. — Se você insistir. Não era sua irmã. Morvan rosnou, abriu a porta mais uma vez, em seguida, bateu-a fechando. — Dentes do Inferno. O que ela está fazendo aqui? — Visitando meus amigos nesta cidade. Quem esperava que o nosso exército viesse e a saqueasse? — Assim que tirá-la daqui, vou te matar. — Se você tirá-la aqui pode me matar, — ele gesticulou para os homens. Reclamações impacientes e resmungos haviam retomado, e ele suspeitava que os planos estivessem sendo assentados. — Quantos são? Morvan encolheu os ombros. — Vinte. Trinta. — Como é? Eu diria que isso faz diferença. Morvan sorriu ironicamente. — Dificilmente. Vinte ou trinta contra dois é igualmente impossível. Eu sou muito bom, David, mas não tão bom, e o uniforme do meu Rei só vai impedi-los por um tempo maior. Ao mesmo tempo, ele virou-se para as escadas e tomou uma posição de batalha. Com um suspiro exasperado, estendeu a mão para a espada na mão de David e empurrou a arma apontada para cima e não para baixo. — Considerando como você lida com uma espada, é mais parecido com vinte ou trinta contra um e meio. É melhor ficar do meu lado. Na direita é onde colocamos os jovens escudeiros. 375


Então um terremoto abalou a escada. Repetidas vezes. Uma série de grunhidos acompanhava, e os homens no corredor inferior olharam para trás com os olhos arregalados e depois tentaram fundirem-se na parede. Um corpo maciço apareceu e uma face conhecida sorriu para David. — Eu me corrijo, — Morvan disse secamente. — Trinta contra dez. — Ja, que inferno foi encontrar você, David, — Sieg disse enquanto subia em direção a eles. Dois homens cometeram o erro de não se afastarem com rapidez suficiente. Sieg calmamente levantou-os pelo pescoço, bateu suas cabeças juntas, e deixou-os cair. — Primeiro fui para o castelo através do rio, mas aquele bispo o manteve tão selado e apertado como um caixão. Tentei Guildhall, onde o Rei acampou, então pensei, inferno, talvez eles a tenham aqui na casa do alcaide. Indignados com a manipulação que Sieg havia feito vários homens se encorajaram. Facas brilhantes brandiram atrás dele. Sem perder o passo, ele virou com sua grande mão, pegou o tolo mais próximo, e esmagou a cabeça do homem na parede de pedra. — Oliver está com você? — David perguntou enquanto Sieg se juntava a eles. O sueco riu e puxou a espada para ameaçar as intimidações formadas abaixo. Seu rosto brilhava de forma positiva com a perspectiva de combater todos esses homens. — Eu o perdi nas ruas. Todas essas casas abertas e todos estes produtos para tomar levou a melhor sobre ele. Como ele disse, era uma pena você não estar com ele. Como nos velhos tempos, disse ele. Morvan levantou uma sobrancelha a essa conversa. David sorriu e deu de ombros. — Nós ainda precisamos de alguma ajuda para mover essas mulheres, — disse Morvan. — Agora que seu homem está aqui, vou buscar alguns. Thomas deve estar próximo, e alguns outros. Você pode cobrir minhas costas com o punhal, David. 376


Ele exibia uma expressão mais perigosa ao sair do que tinha ao chegar. Ninguém o desafiou. — Será que algum dos mensageiros conseguiu avisar o conde? — David perguntou quando Morvan partiu. — Não. Oliver e eu ficamos a alguns quilômetros na estrada ao sul, como você disse. Eles vieram direto para nós. Quando o Rei enviou alguns homens para parar a notícia de seguir o exército francês, nós finalmente partimos. O conde não vai ouvir sobre o desembarque de Edward por muitos dias, — ele fez um gesto com a espada. — Eu limpo esses homens agora. — Tente não matar todos eles. Eles deveriam estar do nosso lado. Sieg desceu dois degraus para que pudesse esticar ao máximo a sua altura. Ele levantou a adaga na mão esquerda e a espada na direita, olhou para os homens diante dele e soltou um grito viking de guerra. A constatação de que um cavaleiro do Rei foi buscar mais ajuda já havia aquietado os soldados. A demonstração de força de Sieg desanimara completamente a maioria deles. Cabeças começaram a se sacudir e se movimentar enquanto os homens se viravam e tentavam, apertados descer as escadas. No momento em que Morvan voltou com Thomas Holland e outros dois amigos, a maioria dos soldados tinham dispersado. Sua chegada cuidou do resto. David abriu a porta e abriu caminho para o sótão. A histeria de alívio varreu as mulheres quando viram o resgate marchar através da porta. Várias começaram a se lamentar com retardado choque. Christiana correu para os braços de David. — Graças a Deus você está inteiro! Você nos salvou, David! 377


— Foi a sua bandeira que o fez, querida. Parece que saquear cidades aborrece seu irmão, e ele veio investigar suas cores. Ela virou-se, com surpresa para os quatro cavaleiros. — Morvan! — Ela gritou. — Thomas! Morvan se aproximou mais e aceitou o abraço de sua irmã. Ele olhou por cima do ombro perigosamente para David. Christiana recuou a tempo de ver o olhar. — Não se atreva, Morvan. Ele me salvou, e todas as outras aqui. Os cavaleiros e soldados franceses nos abandonaram e ele colocou sua própria vida entre nós e o perigo. Você não poderia ter feito melhor. A expressão de Morvan suavizou quando ele olhou para sua irmã. — Se foi assim como você diz, então não vou matá-lo desta vez. Thomas Holland se aproximou. — Não há nada a fazer a não ser leválas para Edward. Em nenhum outro lugar estarão seguras. Mesmo assim, a cidade... David entendeu sua expressão e preocupação. — Vamos mantê-las entre nós. Christiana, reúna as mulheres e diga-lhes o que fazer. Diga-lhes para olhar para o chão à medida que avançarmos. Ela assentiu e foi até Heloise e suas filhas primeiro. David fez um gesto para Sieg. — Você vai levar a mais nova, — disse ele. — Não a deixe ver os corpos. Enquanto sua esposa explicava como agiriam para as outras mulheres, David se aproximou de Heloise. Ela não se moveu desde que eles entraram, e ela sentou-se em uma pilha de panos parecendo esgotada e dormente. Nas mãos, segurava algo. Um leve brilho pendia debaixo de sua saia. Ela olhou para ele. Suas mãos se abriram para revelar um colar de ouro e esmeralda. — Eu pensei que talvez, se fosse necessário, poderia comprar a segurança das minhas filhas. 378


— Elas estarão seguras agora, senhora. Estou certo que o seu marido está seguro também. Ele provavelmente será levado para a Inglaterra para aguardar resgate como o resto dos burgueses ricos, não haverá lucro matando esses homens. Ela olhou para o colar. — Por favor, aceite isso. Para recompensá-lo pelo papel do meu marido na tomada de sua esposa, e por sua ajuda aqui hoje. Ele não teve problemas para calcular o valor do ouro e esmeraldas. Mas seu papel em eventos do dia não era tão nobre como a mulher assumira, e ele não iria se aproveitar. — Foi a chegada do irmão da minha esposa que salvou você. Se desejar expressar sua gratidão, mostre-a para ele. — ele a colocou em pé. — Temos que ir agora. Siga as instruções que minha esposa lhe deu. Os homens levaram as senhoras descendo os degraus íngremes. No pátio, todos sacaram suas espadas. Sieg tinha convencido a garota mais jovem a deixá-lo vendar seus olhos, e ele levantou-a, enquanto ela se agarrava a ele. David colocou o braço esquerdo em torno de Christiana. Em seguida, começaram a encaminhar as mulheres através do inferno de morte e destruição que era a grande cidade de Caen. **** Edward sentava-se em Guildhall, cercado por servos que cuidadosamente listavam os despojos que seriam enviados para a Inglaterra. A chegada da procissão de cavaleiros e mulheres silenciou o aposento. Ao longo do caminho, outras mulheres desesperadas tinham se juntado ao grupo, e Thomas Holland ainda tinha se afastado para resgatar várias. Vinte mulheres marcharam até o Rei, ladeadas por cavaleiros carregando espadas.

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Seja quais forem as inclinações que Edward pudesse ter sobre a eliminação destas mulheres, se tornaram irrelevantes. Diante de seus jovens cavaleiros, ele não tinha escolha, apenas exibir o cavalheirismo que sempre celebrava em sua corte. Ele formalmente estendeu sua proteção a elas e as enviou para um aposento seguro. David virou-se para sair com Christiana, mas o Rei fez um gesto para que ele ficasse. Ele dispensou os homens ao seu redor e enfrentou David de cima de uma mesa cheia de mapas, sorrindo amplamente. — Um esplêndido plano, David! Deus, que vitória! David pensou nas centenas de corpos pelos quais haviam acabado de passar. Pessoas de todas as idades e graus, assassinados e expostos nus. As ruas estavam cobertas de sangue. — É verdade que você pediu para executar todos? Edward fez uma careta. — É meu direito quando não se rendem, e eles sabem disso. Centenas de nossos homens morreram por sua resistência. Não apenas na ponte, mas nas ruas. Essas pedras malditas e toras... No entanto, eu rescindi a ordem no fim. Inferno, eles deviam ter se rendido. Quando enfrentavam vinte mil, deveriam. Mas Londres não teria se rendido, pensou David. Nem você quereria que se rendesse. Edward encarou a destruição de Caen como tantos outros destroços de guerra. Ele sorriu com prazer e apontou para o mapa sobre a mesa. — Vamos limpar todo o caminho para Paris. Seu exército não pode voltar a tempo e ninguém vai nos parar agora. Nenhum cerco vai nos atrasar quando a noticia sobre Caen se espalhar, — ele franziu a testa levemente. — Conhece o rio Somme, David? Isso me preocupa. Poderíamos nos encontrar presos entre ele e o Sena, e não parece haver cruzamentos, exceto algumas pontes. Droga, eu deveria ter pedido para você fazer esse mapa também. Os seus são muito melhores.

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David caminhou até obter uma pena de um servo. Ele voltou e se inclinou para o mapa, e desenhou duas linhas em todo o rio. — Aqui. Você pode atravessar o rio, mas a água se move como uma maré, por isso deve atravessar quando estiver baixa. Edward esfregou as mãos. — Esplêndido. Temos o comandante e o conselheiro, você sabe. Resgates valorosos. Estou enviando os dois junto com outros reféns rio abaixo amanhã pela de manhã, juntamente com os despojos. Navios cheios. A propósito, onde estão essas armas? — Perto da cidade de Bayeaux. — Excelente. Nós vamos lá a seguir. — O meu homem virá e mostrar-lhe-á a sua localização. — Você não? Você deve se juntar a nós. Será uma campanha gloriosa. — Meu papel acabou. Eu gostaria de voltar para Londres com minha esposa. Edward olhou para ele, e uma expressão diferente substitui sua alegria. — Você se sacrificou muito para permanecer fiel a mim, David. Eu não esqueço essas coisas. Durante os últimos dois dias tenho sido cavalheiresco com homens que nunca conheci antes. Vamos fazer isso agora. Tome o lugar assegurado por seu sangue que você ganhou por sua lealdade. — Sinto-me honrado pela oferta, mas prefiro que você não o faça. Edward parecia um pouco irritado. David sorriu amigavelmente. — Eu solicito alguns outros favores de você, no entanto, se você se sente movido a conceder-lhes. As sobrancelhas do Rei levantaram-se.

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— Quando eu voltar para Londres, levarei ao seu tesoureiro um terço do preço da licença que você me concedeu. O próximo terço virá em dois anos, e o restante em quatro anos, como sugeri na primeira vez. — Você já pagou... — Não. Esse foi o preço da noiva por Christiana. Quero transformar essa história em verdade, e peço que você nunca revele o nosso negócio original. Ela nunca deve saber. Edward riu. — A garota ganhou seu coração, não foi? Bem, eu seria louco se recusasse outras mil libras. Será como você quer. E os outros favores? — Eu peço que você se lembre do seu juramento para ajudar a recuperar Harclow, bem como ajudar Morvan no que puder quando chegar a hora. Edward abaixou o olhar cuidadosamente antes de concordar. — Lady Catherine deve ser removida de Londres, — David adicionou. — Ela sabe muito, e meus serviços para você, se forem requeridos, poderão ser comprometidos por ela. Edward sorriu. — Eu gostaria que você pudesse ter estado lá quando ela veio contar sua história. Deixei-a falar e falar. Uma mulher inteligente, reconheço. Nunca me importei muito com mulheres inteligentes. Já a mandei para o Castelo Rising para cuidar de minha mãe. Ela ficará confinada com ela lá. Aquelas duas podem tornar qualquer um louco com seus esquemas. O mercador, Frans, está desfrutando de acomodações menos confortáveis até eu voltar e ele ser resgatado. São as desvantagens de ser um plebeu. — Eu gostaria de partir com Christiana junto com o seu pessoal amanhã de manhã.

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— Claro. Vou dar-lhe alguns documentos para levar de volta. Encontramos planos escritos para uma invasão em Southampton. Vou mandar os sacerdotes lerem isto nos púlpitos para que as pessoas saibam o quão perto a Inglaterra esteve de ver tropas francesas em seu solo. O Conde de Warwick entrou então, e Edward virou-se para cumprimentá-lo com um novo surto de excitação. David despediu-se e andou para o aposento que abrigava as mulheres. Sieg esperava fora da porta. — Você vai para Bayeaux com o Rei antes de se dirigir ao sul — explicou David. — Ja. Você quer que lhe mostre onde o canhão está? David assentiu com a cabeça. Ele enfiou a mão no gibão e retirou alguns pergaminhos dobrados. — Aqui está o reconhecimento de Theobald e a permissão do Rei francês para minha sucessão em Senlis. Você já tem o anel e o desenho. Espere até que ele saiba da minha traição. Você não estará seguro se você levar essa notícia. Você pode não estar seguro, em qualquer caso, uma vez que ele veja que a pedra do anel é rosa, que é a dele e não do irmão. — Eu sei o que fazer. — Você vai voltar para Londres depois? Hoje mais do que pagou essa dívida que sempre afirma que deve. — Mal paga, David. Os guardas do sultão iam me matar. Se você não tivesse planejado a fuga... — Morvan e eu não poderíamos com todos aqueles homens hoje. — Ja, bem, eu posso participar desta guerra por um tempo. Quando os franceses finalmente pegarem esse exército, a batalha deve ser maravilhosa. Eu vou mandar um recado para você, se não voltar no outono. 383


David olhou para os documentos na enorme mão. — Tenha cuidado, meu amigo. Nesse particular, não posso imaginar como ele vai reagir.

Capítulo 23 Homens lotavam as docas, transportando bens saqueados para os barcos à espera. Os despojos eram listados e avaliados, e agora tudo 384


voltava para a Inglaterra. David ficou entre os frutos da guerra empilhados no cais. A brisa do rio oferecia um refresco ao fedor de morte que pairava sobre a cidade. Uma caixa aberta cheia de pratos de prata brilhava a dez passos de distância, no calor do verão. Ele observou enquanto Christiana caminhava pelo cais para encontrar seu irmão. Ele podia dizer que a despedida pesava sobre ela. Ela já tinha visto demais da crueldade da guerra ontem à noite, e sabia que Morvan podia não sobreviver a esta campanha. David não conseguiu evitar contemplar as implicações disto. Ele nem sequer tentara. O filho de Senlis era incapaz de ignorar o fato de que era de seu interesse que Morvan Fitzwaryn nunca mais voltasse para a Inglaterra. Porque com Morvan partindo, Christiana tornava-se a herdeira de Harclow, e um dia Edward podia de fato recuperar as terras em nome de seu amigo morto, Hugh Fitzwaryn. Com Morvan morto, David de Abyndon, o filho bastardo do nobre Theobald de Senlis, se tornaria o senhor de Harclow como marido de Christiana. Ser um cavalheiro inglês era uma coisa, ser um barão inglês era outra completamente diferente. Mas, na verdade, a terra e o status eram o de menos. O mercador nele sabia o valor real de Harclow. Ele havia estado lá, tal como esteve na maioria das propriedades ao longo da fronteira escocesa. Sabia que nas colinas de Harclow e outras terras da Cumbria existiam muitas grutas, cavernas antigas, em que os animais viviam desde o início dos tempos. E sabia que nas cavernas de Harclow havia um material raro chamado salitre, que era essencial para fazer o pó para o canhão. E ele tinha pagado ao Rei Edward mil libras pelo direito de ser o administrador exclusivo da coroa para a compra e venda do salitre, e havia tomado Christiana Fitzwaryn como esposa, a fim de esconder o arranjo. Ele viu o irmão e a irmã se encontrarem em um abraço. Involuntariamente, sua mente começou a calcular a enorme perda de

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lucros, quando na verdade, ele pagara para que Morvan ficasse com o conteúdo dessas cavernas. Sim, era contra os seus interesses o retorno de Morvan. Na verdade, Sieg havia garantido que Morvan poderia cair durante a batalha... Christiana olhou para o irmão com seus olhos brilhantes. Mesmo à distância, sua preocupação era palpável. Sua tristeza retorceu seu coração. Sua mente esvaziada de tudo, a não ser do desejo de confortá-la. Theobald tinha razão. Reconhecendo as opções de alguém não era o mesmo que escolhe-las. Ele iria virar as costas para essas oportunidades de ouro que Lady do Destino lhe oferecera caprichosamente. Ele faria isso por Christiana, porque ele a amava. **** Christiana e Morvan ficaram de braços dados, enquanto os homens sobrecarregados com os despojos passavam empurrando. A guerra era realmente somente sobre isso. Lucro, do tipo mais primitivo. Toda a conversa de cavalheirismo e honra parecia muito falsa para ela hoje. — Todas as casas da Inglaterra terão panelas e tecidos novos — disse Morvan, examinando os barcos balançando na água. — Tem algo seu? — Não. Meu prêmio é a sua segurança. É o suficiente para mim. — Ele olhou para onde David esperava a cinquenta passos de distância. — E, para o seu mercador, eu acho. Desta vez, pelo menos. — David. O nome dele é David. — Sim. David.

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— Eu sei que você ainda não o suporta, Morvan, mas ele é um bom homem. Você não pode negar que ele provou ser. — Existe bondade nele, mas muito mais também. Coisas que não entendo. Mas ele provou que pode protegê-la. Hoje, posso me separar de você com a mente despreocupada, senão, com o coração leve. — Não será uma despedida longa. Essa guerra não pode durar muito, uma vez que o inverno a ameaça. Ele voltou sua atenção dos barcos para ela. — Não importa quanto tempo dure, não acho que veremos um ao outro por muitos meses. Sabendo que você está segura e tem uma casa libera-me para deixar a corte. Não posso voltar com o exército. Acho que vou procurar alguma aventura quando esta campanha terminar. Seu espírito foi agredido pela destruição de Caen, e agora uma nova tristeza se espalhava por ela. Ela o abraçou. — Vou rezar para que você mude de ideia. Meu lugar com ele não diminuiu o meu amor por você. Se você deve procurar aventura, que seja apenas por um curto período. E a minha casa é a sua também. Por favor, acredite nisso. — Não será assim por muito tempo. Mas você encontrou o seu futuro, Christiana, e agora é hora de encontrar o meu, — ele a afastou, e sorriu para ela. — Tenho que deixá-la agora. Edward tem deveres para mim. Sem lágrimas, irmã. Não será para sempre. Vá com seu marido. Ele afastou-se, e logo sua presença se perdeu na multidão agitada. Ela ficou observando, esperando ver seu cabelo escuro mais uma vez, rezando para que suas palavras fossem verdadeiras, e que não fossem as últimas que ouviria dele. David veio por trás dela. Ela sentiu sua presença e, em seguida, o conforto de seus braços em torno dela, segurando-a perto.

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— Eu te amo — disse ele. Como gostaria que ele soubesse que ela precisava disso agora. Mas, então, aqueles olhos azuis sempre tinham visto seu coração. Ela se virou para ele e para o santuário que sua declaração oferecia. — Eu me preocupo por ele — disse ela. — Ele é habilidoso e forte, Christiana. E em batalhas, eles não tentam matar cavaleiros, mas levá-los para resgate. — Sim. Mas sei o valor do resgate de um cavaleiro e não há um pai para pagá-lo. Ele poderia viver sua vida preso por um francês em um buraco se Edward falhar. — Se ele for capturado, vou conseguir tirá-lo. Ela olhou em seus olhos e sabia que era verdade. Se ele pegasse uma moeda ou um punhal, faria por ela. As imagens horríveis do último dia retrocederam. O brilho do seu amor e cuidado queimando a neblina da melancolia que havia aumentado com a saída de Morvan. — Onde está Sieg? Ele não voltará conosco? — Ele decidiu se juntar a guerra. É a sua natureza apreciar essas coisas. — Mas ele foi até seu pai primeiro, não foi? Você o mandou devolver os documentos, não é? O desenho de sua mãe estava ausente do livro em seu gabinete. Você o mandou também. Então, ele vai saber quem realmente você é e por que fez o que fez. Isso o surpreendeu. Seu sorriso mostrava espanto. E admiração. — Você está se tornando perigosamente inteligente, querida. — Bem, quanto tempo você acha que temos?

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— Eu vou estar na Inglaterra. Ele não pode me prejudicar lá. — Claro que pode, mas não é isso o que quis dizer. Quanto tempo você acha que o conde vai viver? Quanto tempo antes de Senlis ser sua? Não apenas ela o surpreendeu desta vez. Espanto. Que por sua vez a surpreendeu. Ele não tinha considerado essa possibilidade. Ele realmente não tinha previsto como isso iria acabar. — Ele é um nobre, David, e o último de uma linha antiga. Esta é uma coisa que conheço melhor do que você. Ele não quer que a linhagem morra e as terras voltem à coroa. Esses homens fazem de tudo para se assegurarem que tenham um herdeiro. Apesar do que você fez, ele não vai esquecer quem você é tudo o que ele deixou quando descobrir a verdade. Ele ficou muito quieto enquanto absorvia a informação. — Então, quanto tempo você acha que nós temos? — Ele tem cerca de cinquenta e cinco anos. Se você está certa, e eu acho que você o subestima, vou ter um longo tempo antes de ter que encarar essa escolha novamente. Ele falou suavemente, mas ela sentiu uma mudança nele. Ela sentiu sua mente e as emoções começarem a se agitar. Ela o conhecia muito bem agora, e facilmente reconhecia o drama silencioso de sua alma controlada e contida. Ele havia entendido que ela estava certa, e que Senlis podia um dia ser sua, afinal. Ele tinha começado a esperar novamente. Ele era bom em esperar. Ela estendeu a mão para acariciar seu rosto. — Eu amo a nossa vida, e não sinto que, eventualmente, durará um longo tempo. E eu te amo. Agradeço a Deus por nosso amor, David. Há beleza e bondade nele, e em você, sempre esperando por mim. — Tudo que você vê em mim é apenas um reflexo de si mesma, minha menina. Você me fez melhor do que jamais nasci para ser. 389


— Isso não é verdade. Para um homem que vê tudo com tanta clareza, há partes de si mesmo que você não conhece muito bem. — Partes que nunca teria conhecido se não você não as tivesse tocado. Ela começou a se opor. A intensidade de sua expressão a deteve. Talvez ele estivesse certo. Não tinha seu amor ensinado coisas sobre si mesma que nunca poderia ter aprendido sem ele? Dois homens transportavam uma cama. O barulho nas docas se intrometeu. — Talvez o amor seja tudo o que permanece contra o que vimos aqui em Caen, — disse ela. — Isso é triste. Ele balançou a cabeça. — Eu entendo a escuridão em homens como sua inocência nunca entenderá, Christiana, e os atos de guerra são o de menos. Confie em mim quando digo que o amor é um adversário formidável. Talvez o único inimigo. Por um momento, seu olhar revelou a sua alma como na noite do encontro, e tudo estava lá. As sombras que ele falou, e o poder do amor para contê-los. Sim, Morvan tinha razão. Havia bondade nele, mas outras coisas também. — Então, vamos nos amar enquanto podemos, David. Vamos construir uma vida cheia de esperança e de luz que nunca escurece, não importa o que o mundo nos traga. Quero que o nosso amor seja a lareira no centro da nossa casa, onde quer que seja, queimando ardentemente para sempre. Eu nunca mais quero olhar para trás sobre o que nós compartilhamos aqui e perguntar se era uma ilusão que nós nos agarramos em nosso desespero.

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— Não era ilusão. Você é a dona do meu coração muito antes de te encontrar aqui, e ele é seu para sempre. Nosso amor é tão real quanto os braços que a abraçam, e sempre será. Eu não sou um homem que perde algo precioso, uma vez que está em sua posse. Ele a beijou, sua boca persistente e reivindicativa, um lembrete de boas-vindas da paixão que tinham encontrado. Ele a segurou tão perto que se fundiam num só e formaram uma imagem de amor em meio à ganância fervilhante das docas. Ele se virou dentro de seu abraço. — Vamos sair daqui agora. Vamos voltar para casa. Alguns homens havia parado seu transporte para assistir os amantes. Ela encontrou seus olhos, francamente, e esperando que a exibição os lembrasse sobre o verdadeiro valor das coisas. — Sim, David, vamos voltar para casa. Leve-me de volta para o nosso jardim e nossa cama. Caminharam lado a lado no cais, sem prêmios em seus braços, exceto um ao outro. FIM

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Sobre a autora: MADELINE HUNTER trabalhou como balconista de supermercado, empregada de escritório, comerciante de arte e escritora free-lance. Ela tem um Ph. D. em história da arte, e atualmente leciona em uma universidade do leste. Ela vive na Pensilvânia com seu marido, seus dois filhos adolescentes, um vira-lata gordinho e adorável e um gato preto com uma grande atitude. Ela pode ser contatada através de seu site, www.MadelineHunter.com, onde os leitores também podem encontrar mais informações sobre os eventos históricos e personagens utilizados neste romance.

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Madeline Hunter - Medieval 04 - Casamento de Conveniencia