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DOSE TRIPLA – Maureen Child Empresário, bilionário… e pai? Quando Connor King descobre que é pai de trigêmeos, sente que foi enganado. Porém, nada o impedirá de reivindicar seus herdeiros, nem mesmo a sedutora guardiã das crianças. Após a morte da mãe de Sage, Sam e Sadie, Dina Cortez jurou protegêlos. O problema é, quem irá salvá-la do que sente pelo sombrio e desafiador sr. King? Quando Dina e os bebês se mudam para a mansão de Connor à beira-mar, ela sabe que está a apenas uma batida de coração da enorme cama de Connor.

ACORDO DE PAIXÃO – Emily McKay Uma mentira convincente! Para conseguir a guarda da sobrinha, Wendy Leland precisa de um marido, e rápido! Mas quando seu rico, bem-sucedido e sensual chefe se oferece para o cargo, ela fica relutante. Esconder o desejo que sente por Jonathon Badgon seria quase impossível… ainda que necessário! O único motivo para o controlado magnata ter feito a proposta era evitar ser abandonado por sua indispensável assistente. Mas quando Jonathon começa a fazer o papel de noivo apaixonado, fica claro que sair do escritório direto para o quarto mudará a vida de ambos para sempre!


Maureen Child Emily McKay

MOTIVOS PARA MUDAR

Tradução Angela Monteverde Ligia Chabú

2015


SUMÁRIO

Dose tripla Acordo de paixão


Maureen Child

DOSE TRIPLA

Tradução Angela Monteverde


Querida leitora, Foi muito divertido escrever Dose tripla! Primeiro porque é sobre Connor King, gêmeo idêntico de Colton King, de Dupla emoção (ed. 228 de Desejo). Mas principalmente por ter adorado jogar os trigêmeos em cima do inocente Connor! Sei que os homens estão cada vez mais participativos, o que é maravilhoso. Mas acho emocionante ver um que não sabe absolutamente nada sobre crianças tendo de lidar com três bebês! Connor King foi o doador de esperma para a esposa de sua melhor amiga. Embora o casal tivesse dito que a fertilização não havia funcionado, quando morrem em um acidente, Connor não só descobre que haviam mentido para ele, como também é pai de trigêmeos. Dina Cortez, a tia das crianças, não está convencida de que Connor está pronto para assumir o papel. Mas terão que encontrar um meio de seguir em frente… E os trigêmeos, com certeza, deixarão tudo mais empolgante! Espero que goste de Dose tripla. Não deixe de visitar o meu Facebook para dizer o que achou! Aproveite! Maureen


CAPÍTULO 1

– VOCÊ ESTÁ onde? – Connor King não se importou em disfarçar o tom de riso. Empurrou a cadeira para trás, acomodou os pés na ponta da escrivaninha e fitou pela janela a vista do Oceano Pacífico. Apoiando o fone no ouvido esquerdo, escutou os resmungos de seu irmão gêmeo com um amplo sorriso no rosto. – Estou com os gêmeos no parque perto de casa. – Incrível como o selvagem foi domesticado – zombou Connor, balançando a cabeça. Havia apenas dois anos seu gêmeo idêntico, Colton, estava solteiro, um homem voluntarioso e destemido procurando todas as aventuras perigosas que sua empresa oferecia na área de risco por todo o mundo. Então Colton tomara conhecimento de que sua ex-esposa, Penny, dera à luz gêmeos, um menino e uma menina. Seu mundo virara de cabeça para baixo, e ele fora forçado a fazer grandes mudanças e encarar sérias verdades em sua vida. Embora quase tivesse estragado tudo, Colt amadurecera a tempo para construir uma nova vida. Agora tinha esposa e dois filhos, e era mais feliz que nunca. Mas isso não impedia que Connor o provocasse a cada oportunidade que tinha. – Um dia de brincadeiras – murmurou. – Quem diria. – Tá, tá – resmungou Colt. – Ria de uma vez e acabe com isto. Aí poderemos falar sobre os planos para a Irlanda. Ainda pretende voar até lá para checar as coisas? – É essa a ideia – respondeu Connor, ainda rindo. No último ano, o Aventuras Radicais King havia se transformado em Aventuras em Família King. Quando, por fim, Colt percebera o que era mais importante em sua vida, ele e o gêmeo Connor haviam reavaliado seus planos comerciais. Aventuras radicais eram arriscadas e perigosas, e a base potencial de clientes, muito limitada. Por outro lado, mudando o foco de sua empresa para aventuras em família, estavam se abrindo para uma clientela mundial. Naturalmente ainda mantinham as aventuras radicais para os que as desejavam, porém desde que haviam mudado o foco dos negócios a empresa crescera muito. – Estarei no Castelo Ashford, e Jefferson vai me conseguir um guia para me mostrar a área. – Extraordinário – murmurou Colt. – Oferecíamos pacotes para esquiar nos Alpes perigosamente e agora passamos para excursões em família nos campos da Irlanda. – As coisas mudam – lembrou Connor. – E você deveria saber disso melhor que ninguém.


– Não estou me queixando – replicou o gêmeo, e depois falou mais alto: – Reid, não jogue areia na sua irmã. Connor deu uma risadinha e comentou: – Riley pode tomar conta de si mesma. – Sim... e lá vai ela: jogou areia de volta no irmão. – Colt riu. – Penny está em casa pintando o quarto deles. – Então você optou pela tarefa mais arriscada, que foi levá-los ao parque. Eu deveria ter adivinhado. Enquanto o irmão respondia, Connor fitou sua gerente administrativa, Linda, que entrava na sala com a correspondência. Ela sorriu para ele, apresentou um maço de cartas e deixou a sala. Preguiçosamente Con pegou um envelope pardo grande e atirou os outros sobre a escrivaninha. Sempre segurando o fone entre o ouvido e o ombro, rasgou o envelope, retirou os documentos e leu, levando um segundo para exclamar: – Que diabo é isto? Colt parou de tagarelar do outro lado da linha e perguntou: – Qual é o problema? – Não vai acreditar – resmungou Con, se aprumando na cadeira e fitando os papéis que mantinha em mãos. Sua visão estava embaralhada. Apesar da linguagem jurídica utilizada justamente para confundir as pessoas, Connor entendera o suficiente para saber que seu mundo virara de cabeça para baixo. – O que houve? – insistiu o irmão. A voz de Colt parecia muito distante. Connor cravou os olhos na frase que saltava à sua frente. Sentiu um frio na espinha, até que ele conseguiu respirar novamente. Engoliu em seco e se esforçou para dizer: – Parece que me tornei pai. UMA HORA mais tarde Con se encontrava no pátio da casa do irmão na colina em Dana Pont. Fitando o oceano abaixo mal notou os veleiros, os surfistas ou as ondas batendo na praia. Se girasse ligeiramente a cabeça para a esquerda, veria sua própria casa ali perto. A residência de Colt era moderna, com muito vidro e cromados, embora nos últimos dois anos Penny tivesse colocado sua marca ali acrescentando aconchego e cores. A casa de Connor, que também ficava na colina, era mais tradicional. Entretanto, no momento ele não pensava em estilos de casas nem no maldito oceano além. Tudo em que conseguia pensar era em trigêmeos. Superara o irmão por um, embora não pudesse realmente levar o crédito pela façanha, não é? Sem dúvida fora sua semente, porém não que estivesse envolvido além disso. Diabos! Não soubera da existência dos bebês até esse momento. Porque uma mulher em quem confiara... uma amiga... mentira. E era quase mais difícil acreditar nisso que no fato de, subitamente, ser o pai de três crianças. Ele precisava averiguar. Descobrir tudo que pudesse antes de se decidir por um plano de ação. Mas haveria um plano. Disso tinha certeza. Só não sabia ainda como seria exatamente. Connor colocou os advogados da família King para trabalhar no caso antes de ir à casa de Colt e Penny. Usara de lógica. Fora racional. Não cederia aos impulsos. Mas não era fácil.


Até agora tudo o que sabia era o nome da mulher que o processava para obter pensão alimentícia para as crianças. Dina Cortez. Irmã de Elena Cortez, esposa de Jackie Francis. Jackie. Balançando a cabeça, Con cerrou os dentes para conter a raiva. Jackie tinha sido sua melhor amiga na escola e na faculdade. Quando Jackie se apaixonara por Elena, fora o ombro de Connor que procurara. E Jackie fora a única mulher em quem ele confiara na vida... principalmente porque nunca estivera interessada nele romanticamente. Na verdade, só haviam discutido uma única vez no segundo ano da faculdade, quando se interessaram pela mesma garota. Um breve sorriso pairou em seus lábios ao lembrar que no final os dois haviam optado pela sua amizade em vez de brigar pela ruiva. Há três anos Connor fora padrinho no casamento de Jackie com Elena Cortez. Raios! Ele até a levara a Las Vegas para uma pequena despedida de solteira antes do casamento. Teria apostado a fortuna dos King que Jackie jamais lhe mentiria. E agora... – Que estúpido – resmungou, passando as mãos nos cabelos despenteados pelo vento frio de junho. – Como você poderia saber? – comentou Penny King, dando um tapinha em seu braço. Por mais que apreciasse o apoio da cunhada, ela não podia entender o nível da traição que Connor sofrera. Ele mesmo mal acreditava. – Deveria ter me informado melhor. Quando Jackie se mudou para o norte da Califórnia deveria ter mantido contato. Talvez então... – Nada disso é sua culpa – disse Colt, ficando ao lado da esposa e fitando o irmão gêmeo. – Meu esperma, meus bebês. Minha culpa. – Con balançou a cabeça e apertou a garrafa de cerveja que nem queria tomar. Sabia que a família o apoiava, porém o que interessava no caso era que nada fizera para manter contato com Jackie. Simplesmente deixara que saísse de sua vida. Se tivesse agido de modo diferente não estaria tão chocado agora. – Sabe – murmurou Colt –, não se pode assumir erros quando se desconhece o que os outros fizeram pelas nossas costas. Connor franziu a testa. – Pode tentar amenizar o quanto quiser. A verdade é que pisei na bola. E nada que sua família dissesse mudaria isso. Girando a cabeça na direção do vento e fitando o oceano, as lembranças voltaram quase o sufocando. – Connor, queremos ter um bebê. Ele rira e passara um braço pelo ombro de Jackie. – Parabéns! Então precisarão procurar um banco de esperma, garota. Viu? Sempre lhe disse que um dia iria precisar de um homem. Jackie sorrira, balançando a cabeça. – Engraçadinho. – Tento ser. Qual de vocês duas pretende engravidar? Ela se apoiara nele e dera de ombros. – Elena vai assumir essa tarefa. Serei a parte de apoio. – Serão ótimas progenitoras – garantira ele, e a levara até o bar a um canto de sua sala de estar. Pegara cerveja e entregara uma para Jackie, encostando as duas garrafas em um brinde. Depois, franzindo a testa, perguntara:


– Porém, como isso funciona? Como a criança irá chamá-las? As duas de mamãe? Mamãe Um e Mamãe Dois? – Bem, não sei, descobriremos mais tarde. – Jackie tomara um gole e depois dissera: – Há muito a decidir antes de chegarmos à criança propriamente dita, e Elena e eu queremos lhe perguntar algo importante, Con. – Está bem... – Connor percebera seu nervosismo, e isso era tão diferente de Jackie que o deixara preocupado. – O que é? Em vez de responder logo, ela tomara mais um gole de cerveja, mordera o lábio e respirara fundo. – Sabe, é por isso que Elena irá gerar o bebê. Não creio que poderia desistir da cerveja por nove meses. Connor franzira a testa de novo. – O que está tentando me dizer? Haviam passado o dia juntos, ido ao cinema, checado o Porsche que Connor desejava comprar e voltado à casa dele para jogar basquete. Jackie nada dissera. De repente ela não estava agindo como ela mesma, e isso começara a preocupar Connor. – Certo – dissera ela por fim, respirando fundo. – Elena e eu falamos sobre isso há muito tempo. Você disse que precisamos ir ao banco de esperma porque obviamente precisamos de um doador, e... – Fizera uma pausa para um novo gole, como se estivesse com a garganta muito seca. – Vou ser clara. Não queremos um estranho escolhido em um catálogo. Gostaríamos que você fosse o pai do bebê. A surpresa o dominara. Por um ou dois segundos ficara olhando para a amiga. A expressão de Jackie era segura e firme, porém havia também um brilho de compreensão em seu rosto, como se soubesse como ele se sentia. Ora. Ele jamais cogitara que poderia ser o pai da criança que a amiga desejava tanto... presumira que ela e Elena iriam procurar um banco de esperma e escolher um doador adequado. Mas, agora que ela lhe pedira, Connor entendera que fazia sentido. Ele e Jackie eram os melhores amigos do mundo. A quem mais ela pediria algo tão delicado? – Elena também deseja assim? – Sem dúvida – garantira Jackie, e, agora que tudo fora dito às claras, ela estava nitidamente mais relaxada. – Con, não estamos pressionando você, certo? Sinta-se livre para recusar e não haverá ressentimentos entre nós, eu juro. Apenas... não se decida já. Pense a respeito, está bem? Connor lhe dera um abraço apertado. Ela suspirara e passara os braços pela cintura dele. – Sei que estou pedindo muito, Con. E sei que é meio estranho solicitar sua semente. Mas... – Jackie atirara a cabeça para trás e o fitara. – Queremos muito isso e queremos também... conexão com o pai do bebê, entende? Você significa muito para nós. Não apenas para mim. Ele apertara seu braço. – Sim, eu sei, também amo vocês. – Deus! De repente ficamos piegas. – Ouvi dizer que os bebês nos deixam assim – comentara ele. Os olhos dela se embaçaram. – Um bebê. É difícil me imaginar como mãe. – Não é não – garantira ele, e vendo o olhar sonhador dela teria tomado aquela decisão de qualquer jeito; eram amigos há tanto tempo. Como não ajudá-la quando ela precisava? – Tenho uma condição, Jack... Ela prendera a respiração. – Qual?


– Não posso simplesmente gerar uma criança e dar as costas. Tomarei parte na vida dela. Pai de meio expediente, dissera a si mesmo. Toda a diversão e pouca responsabilidade. – É claro, Con. Concordo. – Então está certo. – Connor a fizera girar no ar, e Jackie soltara gritinhos de alegria. Quando a recolocara no chão, dera-lhe um beijo rápido. – Vamos fazer um bebê. Haviam tentado. Entretanto, Jackie anunciara que a inseminação não dera certo. Quando ele se oferecera para tentar de novo, ela recusara. Avisara que estava se mudando para o norte da Califórnia com Elena para um recomeço de vida, e então desaparecera da vida dele. Nenhum telefonema. Nada. Ele também permitira que o afastamento acontecesse, portanto não podia pôr toda a culpa em Jackie. – Deveria ter checado – repetiu, se odiando por não ter feito isso. – Bem... – Colt se encostou ao muro baixo de pedra que separava o pátio de um longo gramado bemcuidado. – Mas quem esperaria que Jackie tivesse mentido para você? Essa era a parte mais difícil de engolir, admitiu Connor em silêncio. Sempre confiara nela. Jamais duvidara de sua palavra. E o tempo todo ela escondera seus filhos dele. Balançou a cabeça e estreitou os olhos diante do vento. Apesar de tantas mentiras, não podia nem mesmo gritar contra Jackie. Porque Jackie e Elena estavam mortas. Ele nem conseguira ler toda a parte legal na maldita carta do advogado, porém aquilo ele apreendera. Dina Cortez, a guardiã dos bebês, nomeada pelas falecidas Jackie e Elena, era quem o processava. Mas como diabos podia chorar pela amiga, quando estava tão furioso com o que ela fizera? – Então, quem é Dina Cortez? – Colt cruzou os braços sobre o peito. – Irmã de Elena – disse Connor. – Conheci no casamento. Foi dama de honra de Elena e a única da família a aparecer além da avó. – Franziu a testa. Ainda não entendia como uma família podia negar apoio a um parente em qualquer circunstância. – Na verdade, mal me lembro dela. – Creio que não importa – comentou Colt. – Em breve irá conhecê-la, e muito bem. – Tem razão – concordou Connor. E teria muito a dizer quando revisse Dina Cortez. – CLARO – DISSE Dina ao telefone. – Podemos fornecer o bufê para sua festa de aniversário de casamento no dia 24, sem problemas. E poderemos nos encontrar mais tarde na semana para discutir o cardápio. Batendo distraidamente com a caneta no calendário de mesa já com algumas datas marcadas e rabiscos incompressíveis para qualquer um a não ser para ela mesma, Dina ouviu o mais recente cliente tagarelar sem prestar muita atenção. Como podia se concentrar, quando sabia que muito em breve estaria brigando com um dos King da Califórnia? Connor King, pai dos trigêmeos que, no momento, brincavam no chão ao lado dela, fazia parte de uma família com mais dinheiro e poder do que ela jamais sonhara. Vira-o uma vez quando sua irmã, Elena, se casara com a companheira de longa data, Jackie Francis. Connor fora padrinho de Jackie e chamara a atenção de Dina desde o primeiro instante. É claro que qualquer mulher se sentiria atraída por ele. Connor era lindo e possuía um ar de autoridade que ao mesmo tempo encantava e irritava uma mulher de personalidade forte.


Sua amizade com Jackie era antiga; eram os melhores amigos desde a escola. Porém, o que mais impressionara Dina na ocasião fora ele ter se dado o trabalho de estar ali por causa da amiga. A maioria dos homens solteiros usava as festas de casamento para conseguir garotas, entretanto Connor não prestara atenção em nenhuma ali presente. Só tivera olhos para Jackie e Elena. Naturalmente agora ele não devia gostar tanto de Jackie. O que ela e Elena haviam lhe feito fora imperdoável. Enquanto o cliente continuava a matraquear ao seu ouvido, Dina lançou um olhar para os bebês atrás do cercadinho. Quando haviam ido morar com ela, Dina separara uma parte da área de trabalho na cozinha, colocara cobertores no chão, espalhara brinquedos por todos os lados, e três lindos bebês de 13 meses passaram a balbuciar, gritar e rir ali em uma linguagem que ninguém a não ser eles mesmos podiam entender. Em poucos meses os bebês haviam se tornado o mundo de Dina, que temia pensar no que Connor King poderia fazer quando descobrisse sobre a existência deles. Lutaria contra ela para obter a custódia das crianças? Oh, ela esperava que não. Não haveria como vencer uma batalha legal contra um King. Por fim, o cliente se calou, e diante do súbito silêncio Dina tratou de dizer depressa: – Certo, dentro de um ou dois dias telefonarei para o senhor e combinaremos nossa reunião. Está bem, ótimo. Obrigada por nos chamar. Até logo. Desligou. É claro que, logo em seguida, os bebês se calaram. Sorrindo, ela os fitou. Dois meninos e uma menina. Sentiu um aperto no coração. Amava a sobrinha e os sobrinhos, porém não planejara ser uma mãe solteira. Mas também Jackie e Elena não haviam planejado morrer, certo? Lágrimas ameaçaram jorrar de seus olhos, e Dina tratou de piscar para afastá-las. Observou os rostinhos sorridentes que a fitavam, e sentiu muita saudade da irmã. Elena e ela haviam sido muito íntimas, se unindo contra o caos que a mãe delas criara. Junto à avó, as três haviam formado um grupo que se desintegrara quando Elena falecera. Com o coração dolorido, Dina pensou na irmã mais velha desejando muito que as coisas tivessem sido diferentes. O que Elena mais desejara na vida fora ser mãe. Sonhava em ter sua própria família. Então ela e a esposa Jackie por fim haviam realizado seu sonho, e as crianças as completavam. Porém, ambas haviam falecido antes que os trigêmeos completassem um ano. A injustiça de tal acontecimento fizera Dina sofrer muito. Mas de nada adiantava chorar. Dina chorara muito logo depois que a irmã e sua companheira morreram inesperadamente. Não pretendia mais chorar, entretanto nada podia fazer contra o pânico que sentia. O pânico a assombrava no meio da noite, quando ficava deitada e acordada tentando descobrir um modo de cuidar de três bebês por conta própria. O pânico a dominava quando passeava com os três. Sussurrava ao seu ouvido sempre que tentava conseguir um cliente e fracassava. Por isso decidira entrar com uma ação contra Connor King. Ele tinha dinheiro. E fizera parte da vida de Jackie e Elena. Podia fazer parte da vida das crianças também. Devia isso aos seus filhos e precisava contribuir para seu sustento. Quando não tivesse mais esses problemas financeiros, Dina poderia contratar uma babá por meio período para ajudá-la a tomar conta dos trigêmeos. Não que desejasse se esquivar da responsabilidade... não era isso. Mas precisava trabalhar, e deixar os três com uma babá – mesmo uma boa como Jamie, a adolescente que morava ao lado – não era uma solução permanente. Sadie, Sage e Sam a fitavam nesse momento procurando proteção, segurança. Amor. Dina não iria decepcioná-los. Sorrindo enquanto os meninos brincavam e Sadie os imitava dando tapas no ursinho de pelúcia, Dina prometeu:


– Saberão quem foram suas mamães, meus queridos. Garanto. Elas os amavam tanto! Sadie mordiscou a orelha do ursinho e Dina deixou escapar um suspiro. Criar três bebês não seria fácil, mas ela conseguiria. Os trigêmeos eram o que mais importava, e Dina faria de tudo para protegêlos. Assim pensando, se levantou e anunciou: – Prontos para um lanchinho? Três cabecinhas se voltaram para ela com idêntica expressão ansiosa. Dina riu quando a pequena Sadie se pôs de pé e gritou: – Colo! – Depois do lanche, certo, doce garotinha? A doce garotinha em questão fez beicinho e Dina precisou ser forte para não ceder. Se pegasse Sadie no colo, Sage e Sam iriam querer o mesmo, e em vez de dar um lanche passaria a próxima meia hora perseguindo os três pela casa. Como era quase hora de dormirem, não queria excitá-los demais. Antes que um deles pudesse se queixar, aos berros, Dina foi esmagar bananas e servir o leite nas canequinhas. Graças a Deus Elena e Jackie haviam tido tempo de fazê-los largar a mamadeira. Assim que os fez sentar e se concentrar, sorridentes, nas suas bananas, a campainha da porta soou. – Fiquem bonzinhos – avisou ela, se dirigindo à porta da frente. Deu uma olhada pela janela do lado, viu o homem na varanda e prendeu a respiração. Connor King. A imagem dele estava tão clara em sua memória que foi quase fantasmagórico vê-lo ali parado. O pânico a dominou de novo, mas ela não se surpreendeu. Estava se acostumando com aquela sensação, embora sabendo que não era boa. De certa forma não esperara que esse encontro se desse tão depressa. Mas talvez devesse ter esperado por isso. Ele era um King e inesperadamente descobrira que era também pai de três crianças. É claro que iria aparecer na sua casa. Era evidente que trataria de impor seu poder. Dina conhecia o suficiente sobre ele e sua família para saber que seria um oponente de peso em qualquer situação. E, como não podia ignorá-lo, aprumou os ombros, ergueu o queixo e escancarou a porta. – Connor King – exclamou. – Não o aguardava. – Mas deveria – retrucou ele de modo seco, entrando na casa mesmo sem ter sido convidado. – Onde estão meus filhos?


CAPÍTULO 2

CONNOR VIERA por causa dos filhos, mas no momento não conseguia desviar os olhos da mulher que lhe abrira a porta. O desejo o dominou e lhe provocou um nó na garganta, deixando-o tenso. Tudo que podia fazer era tentar respirar. Quem provocava esse desejo era a mulher que nesse instante o fitava com enormes olhos cor de chocolate, cabelos negros e espessos soltos nos ombros, e pernas maravilhosas expostas pelo short curto. A camiseta vermelha de mangas curtas se ajustava ao corpo exibindo seios do tamanho ideal para caber nas mãos de um homem. Con não entendia como não a notara no casamento de Jackie e Elena, dois anos atrás. Ou como conseguira esquecê-la. Não se tratava de uma mulher fácil de esquecer. – Dina Cortez? – perguntou, embora soubesse muito bem quem era. – Sim. E você é Connor King. Ele aquiesceu com um gesto de cabeça. O desejo continuava presente, porém Connor respirou fundo e tratou de se controlar. – Agora que as formalidades foram respeitadas, onde estão as crianças? Ela cruzou os braços sobre o peito, ergueu o queixo e disse: – Não deveria estar aqui. – Sim – retrucou Connor. – Foi exatamente isso que meu advogado disse. Na verdade, ele não precisara que o advogado lhe dissesse para se manter longe antes que tivessem mais respostas. Con sabia que não deveria ter ido até ali, porém não conseguira se manter afastado. Era pai. De trigêmeos. Como diabos poderia ignorá-los? Ele precisava conhecer as crianças e descobrir o que podia fazer por si mesmo sem o palavrório dos advogados. Seu irmão gêmeo entendera, embora Penny fosse contra. Mas, alguns anos atrás, Colt também tivera de barganhar para dar uma olhada em seus filhos e confrontar a mulher que os gerara e que os mantivera em segredo. Bem, Connor já não podia confrontar Jackie ou Elena, porém os trigêmeos estavam ali, o que explicava, pelo menos para ele, o motivo de sua visita. – Os advogados agem dentro da lei – disse, rompendo o silêncio e se congratulando por manter a calma. – Porém, eu precisava vir.


– Por quê? – Por quê? – Ele reprimiu uma risada e balançou a cabeça. – Acabei de descobrir que sou pai de três e que estou sendo processado para que recebam ajuda financeira. – Quem sabe, se tivesse mantido contato com Jackie e Elena, teria sabido antes – observou ela. – Verdade? Quer mesmo falar sobre isso? Então muito bem. Talvez, se minha melhor amiga não tivesse mentido para mim sobre essas crianças, não teríamos um problema agora – argumentou ele, dando um passo à frente. – E sua irmã participou dessa mentira – lembrou com secura. Ela respirou fundo, parecendo se livrar de parte da raiva que ainda brilhava em seus olhos. – Certo. Tem razão, e saiba que elas também não me contaram. Quero dizer, sobre você. Não me disseram quem era o pai das crianças. Connor começou a respirar depressa. Estava com raiva e não sabia como extravasar. Ele e Dina haviam sido presos em uma teia feita por Jackie e Elena. Céus, gostaria de ter cinco minutos com Jackie para obter algumas respostas. Mas, como era impossível, disse: – Então, como descobriu ao meu respeito? Suspirando, Dina respondeu: – Havia uma carta endereçada a você entre os papéis delas, e eu li. Ele arqueou as sobrancelhas. Dina percebeu e deu de ombros. – Se espera uma desculpa, aviso que não haverá. Com relutância, ele sentiu admiração por Dina. Era forte. Apreciava isso. Era linda e ele apreciava isso também. O desejo ainda o dominava, e ela se maravilhava por conseguir conversar com naturalidade. Era difícil manter o foco no que estava acontecendo, quando seu corpo o incitava a pensar em algo muito diferente. O físico atlético e ao mesmo tempo curvilíneo, a pele cor de oliva e o brilho nos olhos de Dina faziam Connor se sentir grato por ser homem. E Dina cheirava tão bem. Porém, nada disso importava no momento. – Ótimo – disse ele por fim. – Então que tal me dar algumas respostas? Com um aceno, ela caminhou até a sala de estar e Connor a seguiu. A casa era pequena e velha como qualquer outro bangalô naquela área de Huntington Beach. Os terrenos eram estreitos, as residências ficavam praticamente umas sobre as outras e era difícil estacionar por ali. Notara ao chegar que o quintal estava tão infestado de ervas daninhas que parecia um pasto de cabras. O caminhozinho da entrada tinha mais buracos do que asfalto e o telhado precisava de consertos. A casa merecia uma demão de tinta, e Connor temera pelo que iria encontrar lá dentro. No entanto, ficara surpreso. A casa era velha, mas limpa. Era evidente que Dina empregava o tempo e dinheiro de que dispunha para manter o interior melhor do que o exterior; os chãos de tábuas de madeira estavam riscados, mas encerados, as paredes haviam sido pintadas de amarelo suave e estavam repletas de fotografias da família e da natureza. A mobília era confortável e, apesar de pequena, a casa era aconchegante. Um corredor saía da sala e levava, Connor supôs, aos quartos. Havia uma pequena sala de jantar junto à de visitas, e além ficava a cozinha. Ouviu-se um gritinho feliz, e Con se encolheu. Ali estavam os trigêmeos. Seus filhos. Passou a mão pelo rosto em uma tentativa fútil de clarear a mente. Depois balançou a cabeça e disse: – Meu advogado fez algumas investigações depois que recebi sua intimação esta manhã.


Dina franziu a testa, porém Connor não se importou se ela estava repensando agora a ideia de processá-lo. – Ele me disse que Jackie e Elena morreram há três meses? Parecendo perder o ar dos pulmões, Dina oscilou e se deixou cair na poltrona próxima. – Elena estava fazendo aulas de pilotagem. – Sorriu brevemente. – Queria vir até aqui de avião para me visitar e à nossa avó sempre que desejasse. Con sentiu um aperto no estômago. – Bem, conseguiu o brevê e, para celebrar, ela e Jackie foram passar um fim de semana em São Francisco. – Sem as crianças, certamente? Dina aquiesceu com um gesto de cabeça. – Sim, graças a Deus. Uma de suas amigas ficou em casa com os trigêmeos, e na viagem de volta houve um problema com o motor. Elena não era experiente o suficiente, e elas caíram em um campo. A dor o invadiu ao lembrar de tantos momentos com Jackie. Os anos que haviam passado juntos, as risadas, as boas lembranças. Detestava pensar que ela estava morta. E como deveria ter ficado apavorada no instante final. Odiava saber que ela não estava lá para poder lhe passar um pito. Sufocando os próprios pensamentos, olhou para Dina e viu o sofrimento em seus olhos antes que ela tivesse tempo de ocultá-los. Então foi forçado a lembrar que ela perdera a irmã nesse desastre. – Lamento – murmurou – por Elena. – Obrigada. – Ela respirou profundamente e se levantou para encará-lo. – E lamento tê-lo processado antes de conversarmos. Fui precipitada. Uma risada rouca escapou da garganta de Connor. – De repente ficamos tão educados – comentou. – Provavelmente isso não vai durar – resmungou ela. Con pensou em tudo que deveria ser acertado entre eles... os trigêmeos e sua segurança, a raiva que ainda sentia por ter sido enganado durante dois anos. E viu-se forçado a concordar. – Provavelmente não. Com um aceno, Dina aceitou esse fato e perguntou: – Então, como ficamos no momento? – De lados opostos de uma cerca – respondeu ele. – Uma resposta honesta, devo admitir – murmurou ela. – Prefiro a honestidade. As mentiras sempre acabam... complicando as coisas. – Ele não falou claramente, mas, a julgar pela expressão de Dina, ela entendera. As mentiras de sua irmã e de Jackie os haviam levado a esse ponto, unindo os dois em uma situação cuja tendência era se tornar ainda mais caótica. Connor estava ali para reivindicar suas crianças. Para fazer a coisa certa e justa custasse o que custasse e passando por cima de qualquer um que se metesse no seu caminho. Isso incluía Dina Cortez. O estômago dele voltou a se contrair ao ouvir um novo gritinho e uma risadinha no outro cômodo. Céus! Era pai, e as implicações disso ainda não haviam penetrado inteiramente em sua mente. Só tivera algumas horas para assimilar o fato de que tudo que conhecera até agora mudara com o simples ato de abrir o envelope sobre a intimação. Ele ajudara Jackie e Elena porque assim desejara. E, lembrava-se muito bem, porque achara que seria divertido ficar à margem da vida de uma criança...


mais como um tio benevolente do que como um pai. Porém, agora as coisas eram diferentes. Todos teriam que se ajustar. – Então, isso é uma trégua? Con fitou Dina ao ouvi-la falar e pensou um segundo ou dois sobre o que ela perguntara. Continuava zangado – não esperava que isso passasse logo –, porém precisava pelo menos sufocar essa raiva por tempo suficiente para fazer a coisa certa. E isso significaria garantir o bem-estar de seus filhos. Ignorava como Dina se encaixaria no futuro. Entretanto, era melhor mantê-la por perto até que tudo fosse resolvido. Quando ela se remexeu, constrangida sob olhar dele, Connor disse por fim: – Trégua. Pelo momento. Dessa vez um grito longo e estridente prorrompeu no outro cômodo, e dentro de segundos duas outras vozes se uniram à primeira, se combinando em um só som que feriu os tímpanos de Connor como uma martelada. – Que diabos... Dina já se adiantara e falou sobre o ombro: – Quer ser pai? Agora é sua chance. Connor engoliu em seco e a seguiu. Ora! A família King vivenciara uma explosão demográfica nos últimos anos, e sempre que os parentes se reuniam crianças passavam de colo em colo, portanto ele estava familiarizado com o choro infantil. Naturalmente, o fato de que essas crianças eram suas deixava a situação um pouco diferente. Mas ele saberia enfrentá-la. Seus bebês. Seus filhos. Algo visceral o dominou e, por fim, ele entendeu e simpatizou com tudo pelo que seu irmão Colt passara quando descobrira que era pai de gêmeos. Na ocasião, Connor sentira pena de Colt, mas agora percebia que momento definitivo era esse em que tudo mudava. Pensou que devia uma desculpa a Colt. Entretanto, por mais envolvido que estivesse pelo momento presente e pelas circunstâncias em que se encontrava como homem, Connor não pôde deixar de admirar a visão que Dina oferecia enquanto caminhava à sua frente. A garota tinha um lindo traseiro. Balançou a cabeça com força, e disse a si mesmo para se comportar. O trajeto foi curto, mas mesmo assim parecia ser a jornada mais longa de sua vida. De solteirão para pai, de homem solitário para homem de família. E ainda não tinha certeza de como se sentia a respeito. Na cozinha, olhou ao redor depressa notando as paredes brancas, os balcões pretos com a torradeira e o liquidificador, e as cortinas listradas de vermelho na janela. Porém, no momento, não estava interessado na casa. Concentrava-se no canto extremo da cozinha grande e quadrada. Porque ali, por trás de vários cercadinhos interligados, estavam os trigêmeos. Uma das crianças, a menininha, se levantou, oscilando um pouco, se segurou na parte de cima do cercado e ululou como um fantasma. E, quando viu Dina, começou a bater com os pezinhos como se marchasse no mesmo lugar. Dina a tomou nos braços e se virou para fitar Connor. – Sadie, conheça seu papai. Lágrimas escorriam pelo rosto da criança. Cachos negros emolduravam seu rosto, e o coração de Connor pareceu se expandir tão depressa e completamente que sentiu dor. Uma afinidade que não esperara surgiu de repente enquanto fitava o pequeno ser humano que ajudara a gerar. Suas feições eram as dos King, mas o formato dos olhos era de Elena. De Dina. O bebê parou de chorar ao fitar


Connor, e em um piscar de olhos foi do choro a um sorriso tímido, que mexeu com ele como os dedinhos rechonchudos mexiam nesse instante na camiseta de Dina. Sem dizer mais nada, Dina lhe entregou o bebê, e depois foi pegar os meninos. Apoiou cada um em um dos lados do quadril, enquanto eles se agarravam aos seus ombros. – Como já jantaram, vão tomar banho, depois preciso vestir seus pijamas, ler uma história e colocálos para dormir, já antecipando que poderão acordar muitas vezes durante a noite. – Inclinou a cabeça. – Está preparado para isso? Sadie estapeou o rosto dele com as mãozinhas rechonchudas e depois apoiou a cabeça em seu ombro com um leve suspiro. Connor fora fisgado por aquela coisinha e sabia disso. – Estou – respondeu. UMA COISA Dina precisava admitir. Não esperara que Connor entendesse qualquer coisa sobre bebês. Em primeiro lugar porque era homem, e pela experiência dela a única coisa que os homens sabiam a respeito de crianças era entregálas à mulher mais próxima. Em segundo lugar, os ricos contratavam babás para não precisar cuidar dos bebês, certo? Entretanto, Connor a surpreendera. De novo. A primeira grande surpresa do dia fora quando surgira na sua casa sem ser anunciado e com ar furioso. E, durante seu primeiro encontro constrangedor em que ambos fumegavam de raiva, Dina sentira o calor do desejo. Oh, isso era péssimo, mas que mulher não se sentiria atraída por ele? Connor era alto, de ombros largos, quadris estreitos e longas pernas, o tipo de homem que chamava atenção com a maior facilidade. Os cabelos negros eram um pouco longos e se misturavam ao colarinho da camisa branca, enquanto mechas pesadas caíam sobre sua testa. Os olhos eram azuis e frios, e a boca parecia congelada em um sorriso sem calor que de vez em quando se animava com um riso irônico. E ele tinha o direito de estar furioso, ela bem sabia disso. Mas não com ela. Dina ignorara sua existência até duas semanas atrás. Muito bem, talvez devesse têlo contatado diretamente em vez de procurar os advogados, porém não esperara que ele se importasse. Fora um doador de esperma... não tradicional, porém nada mais que isso. Embora a irmã jamais tivesse lhe revelado quem era o pai das crianças, contara que o homem fizera a doação de esperma e depois desaparecera de suas vidas. Essa era a versão de Jackie e Elena. Evidentemente Elena não se importara em contar à Dina que Connor King desconhecia a existência dos trigêmeos que gerara. Assim pensando, Dina fez uma careta e fechou os olhos, reconhecendo como a situação era complicada. Até ler a carta que Jackie deixara para Connor, Dina presumira que o pai não estava interessado em um relacionamento com os filhos. Por isso ficara tão furiosa quando soubera a identidade verdadeira desse homem. Por causa do segredo mantido por Jackie e Elena, Dina tivera que lutar muito para tomar conta dos trigêmeos, e sem a menor necessidade. Connor King era tão rico que sustentar os trigêmeos seria fácil em comparação com a vida que Dina levava no momento. Além de ter que sustentar as crianças, precisava batalhar pela sua empresa de bufê, e procurava tudo, desde uma festa de criança de 10 anos até as inaugurações das agências de bancos locais. Alguns trabalhos conseguia, outros não.


E, enquanto conseguir trabalhos significava sobreviver, ainda tinha o problema de quem tomaria conta das crianças quando ela estava ocupada. A avó de Dina estava sempre pronta e feliz para ajudar, porém os trigêmeos eram uma carga pesada demais para que senhora idosa se responsabilizasse por eles com frequência, e pagar Jamie para cuidar deles era caro. Haviam sido três meses difíceis enquanto ela se ajustara à vida de “mãe solteira”, por isso não era de admirar que tivesse entrado com uma ação para conseguir o sustento das crianças assim que descobrira quem era o pai. Um barulho de água e um grito ultrajado chamaram sua atenção, fazendo-a retornar à realidade do momento. Com satisfação, deixou seus pensamentos de lado para retomá-los mais tarde, e se encaminhou para o único banheiro da casa. Os trigêmeos já estavam na banheira. Connor se debruçava ali com as mangas da camisa enroladas até os cotovelos enquanto tentava lidar ao mesmo tempo com os três bebês molhados e escorregadios. A água caía no piso do banheiro e na calça dele. – Não tire o patinho da sua irmã – dizia ele, retirando o brinquedo das mãos de um dos meninos. O grito ultrajado surgira por causa disso, e Connor dissera depressa: – Aqui... humm... Quem é você? Sam? Sage? Pegue o barquinho. Dina riu de leve, gostando de ver, para variar, outra pessoa lutar a batalha do banho que ela travava todos os dias. Sadie adorava água, Sage passava o tempo todo tentando escapar do banho, e Sam adormeceria na banheira tépida se Dina não tomasse muito cuidado sempre. Sadie voltou a jogar água para fora da banheira e riu, deliciada, quando Connor pulava para trás. – Muito bem, garotinha, nada de jogar água quando estou tentando segurar seu irmão. Sadie balbuciou algo para ele enquanto Sage escalava o peito de Connor; um menininho molhado e com a pele enrugada pela água, tentando escapar do banho. Connor agarrou uma toalha, embrulhou o corpinho de Sage nela, e disse: – Fique aqui. Colocou-o sentado no chão, e deu as costas para o garoto a fim de pegar o próximo bebê. Sadie escapou do alcance de suas mãos, então foi Sam o próximo a ser retirado da banheira e ser embrulhado como um croquete na toalha macia e azul-marinha. Dina só observava. É claro que poderia agarrar os meninos e dar uma mãozinha para Connor, porém isso era mais interessante. Queria ver como ele reagia ao ritual noturno, se aguentaria ou não. Enquanto Connor se esforçava para segurar Sadie, Sage deixou cair a toalha e passou correndo por Dina na direção do corredor, rindo sem parar. – Espere! Volte aqui! – Connor ergueu Sadie, envolveu-a em outra toalha e se virou bruscamente, encontrando o olhar de Dina. Perguntou: – Bem, obrigado pela ajuda. Está se divertindo? – Franziu a testa e fitou o corredor, afastando os cabelos da testa. – Para onde ele foi? Dina deu de ombros e sorriu. Não podia se conter. – Para onde sempre vai. A caixa de brinquedos no quarto deles. – Ótimo. – Agarrando Sadie, que se debatia tentado voltar para a banheira, e segurando Sam com o outro braço, Connor ficou de pé e encarou Dina. Parecia que tinha tomado banho também. A camisa branca estava ensopada e grudada no tórax musculoso. Gotas de água escorriam pelo seu rosto e se prendiam aos cabelos. Dina sorriu de novo.


Como evitar? – Apreciou o show? – perguntou ele com sarcasmo. – Oh, muito – garantiu ela, ainda rindo. – Mas o show não acabou. Ainda precisa pegar três bebês sem roupa para colocar fraldas, pijamas, e deitá-los na cama. Ele se aprumou. – E acha que não consigo fazer isso? – Tenho certeza de que não consegue – garantiu ela, se recostando no batente da porta e cruzando os braços sobre o peito. – Não sozinho. Sadie se remexeu com força. Sam agarrou um tufo dos cabelos de Connor e puxou também com força. – Quer apostar? – desafiou ele, fechando os olhos por causa do puxão nos cabelos. Do outro quarto vinham gritos agudos de Sage e o som de um caminhãozinho sendo puxado sobre as tábuas de madeira do chão. Dina se inclinou e pegou a toalha descartada, atirando-a sobre os ombros de Connor. Ele penara bastante, mas ainda estava de pé, e ela o admirava por isso. Entretanto, tinha a sensação de que estava para desmoronar. – Aposto, sem dúvida – respondeu ela, com vontade de rir da expressão temerosa no rosto dele. Dina o conhecia há pouquíssimo tempo, mas tinha certeza de que o olhar assustado que via agora não fazia parte da personalidade de Connor King. Ele era um homem que governava seu mundo. Estava acostumado a ser obedecido e ver as pessoas saltarem quando estalava os dedos. Agora, porém, precisava lidar com três bebês que, por sua vez, estavam acostumados a comandar. Oh, Connor tinha um grande problema. – Qual é a aposta? – perguntou ela. Um sorriso lento e sedutor curvou a boca de Connor, e Dina estremeceu por dentro. Talvez não fosse muito inteligente de sua parte fazer apostas com Connor King. Ele ergueu os bebês mais alto, e depois disse: – Quando eu vencer, iremos nos sentar com uma bebida e conversaremos sobre o que fazer daqui por diante. – E, quando eu vencer, você assinará um cheque e irá embora para sempre? O sorriso desapareceu do rosto dele, fazendo Dina refletir que fora longe demais. Contudo, o que Connor esperava? Ela acabara de conhecê-lo, quando ele praticamente invadira sua casa, sua família, e assumira as rédeas como se tivesse esse direito... que não tinha. Não segundo a opinião dela. Connor deu um passo à frente e ela não desviou o olhar de seu rosto. Ainda segurando os bebês, ele murmurou: – Não será tão fácil, Dina. Não vou sair daqui, portanto é melhor se acostumar com a ideia. – E se eu não conseguir me acostumar? – quis saber ela. – Estou disposto a apostar que consegue.


CAPÍTULO 3

SINCERAMENTE, DINA não desejara ficar impressionada, mas ficara. Assim que os trigêmeos foram morar com ela, sentira-se completamente perdida e sem esperanças de poder cuidar deles. Raras vezes servira de babá quando garota, e nenhuma de suas amigas tinha filhos, portanto sua experiência era nula. Mas consolou-se com o fato de que a maioria das mães de primeira viagem se sentia tão perdida quanto ela. Como não tinha escolha a não ser embarcar nessa viagem e fazer o melhor que pudesse, Dina foi aprendendo à medida que o tempo passava. Estabeleceu mais uma rotina para si do que para os bebês. Precisara aprender do zero – e depressa – como cuidar de três crianças, e cometera muitos erros no processo. Então Connor King aparecera, tomara as rédeas da situação com desenvoltura, e dera conta do serviço. Parecia tão seguro de si que ela recuara preparada para, alegremente, observar um desastre acontecer. Mas, ao contrário, ele assumira a responsabilidade como provavelmente fazia em todos os aspectos de sua vida, e realizara a tarefa. Claro que ficara um pouco receoso, mas realizara. Os bebês tomaram banho, foram vestidos e colocados nos berços, embalados por uma história lida por Connor e embelezada por efeitos especiais de sons que fizeram os três rir. E, na verdade, era isso o que mais irritava Dina. Os bebês gostavam de Connor. Ela ficava com eles dia e noite, e bastara uma visita de um estranho bonitão para os três serem conquistados. O que acontecera com a lealdade para com a velha e boa tia Dina? Era isso que ela queria saber. Enquanto observava da porta do quarto dos trigêmeos, sentiu uma pontada de preocupação ao ver Connor ir de berço em berço passando a mão na cabeça dos bebês. Levou um momento – quando pensava que ninguém o via – para dar uma boa olhada nas crianças que ajudara a gerar. Dina entendeu o que ele sentia nesse instante, pois tivera um momento semelhante quando os trigêmeos haviam chegado para morar em sua casa. Para ela fora uma mistura selvagem de instinto protetor e a compreensão de que a vida que conhecera antes acabara. Não planejara receber a custódia das crianças, é claro, mas agora as amava com uma força que nunca imaginara ser possível. Elas eram sua família. Sua única família no momento, a não ser por sua avó e alguns primos distantes. Faria o que fosse preciso para tomar conta dos trigêmeos e protegê-los de qualquer mal. Mesmo que isso significasse protegê-los do homem que desejara ser apenas um pai de meio per��odo.


QUANDO A primeira parte da noite terminou, Connor estava molhado, exausto, e só sonhava com uma cerveja gelada, sua cama e dez a 12 horas de sono, mas, refletiu, apenas uma dessas coisas já seria bom. Tomou um grande gole da cerveja que Dina lhe ofereceu e deixou que o líquido gelado afastasse a tensão que o dominava nas últimas horas. – Então – disse Dina, fazendo-o perceber, mesmo de má vontade, que o respeitava –, venceu a aposta. Ele girou a cabeça para fita-la. – Sempre venço, meu bem. Ela arqueou as sobrancelhas. – Meu bem? Ele apertou os lábios. Meu bem saíra sem querer, mas, ao ver como Dina ficara aborrecida, resolveu ir mais longe apenas para contrariá-la. – Prefere benzinho? Ela respirou fundo e deixou o ar sair dos pulmões. – Basta me chamar de Dina. – Está certo. – Connor fez um arremedo de continência e sufocou o sorriso. Conhecera-a poucas horas atrás, mas já percebera como era fácil irritá-la. E, por motivos que não entendia muito bem, estava adorando provocá-la. Havia algo nessa mulher que o fazia tentar levá-la além de seus limites. – Vou me lembrar disso, Dina. Como já disse, sempre realizo aquilo o que me proponho a realizar. – Lembrarei. – Ótimo. Estou cansado demais para ficar me repetindo. – Repousou a cabeça nas costas do sofá e pensou em colocar os pés sobre o pufe, porém estava exausto demais para erguer as pernas. – Aquele trio é demais. Só para mantê-los dentro da banheira fiquei exausto. Não entendo como consegue dar banho e realizar todo o ritual noturno todas as noites e sozinha. – Dou banho em um de cada vez. Ele a fitou com atenção e viu um leve sorriso em seu rosto. Aparentemente, não era o único que estava se divertindo. – E não achou que valia a pena me informar sobre esse detalhe? – Bem, parecia tão confiante sobre suas habilidades... – Ela tomou um gole de vinho. – Não quis interferir. – Aham. – Ele balançou a cabeça. – Boa jogada. – Obrigada, mas você se saiu bem, de qualquer maneira. Foi difícil, mas conseguiu. Detesto admitir, porém fiquei impressionada. – Ela analisou seu copo com vinho, passando os dedos pela haste longa do cristal delicado tantas vezes até que Connor desviou os olhos antes de ficar constrangido com a própria excitação. – Não me pareceu o tipo que conhece muito sobre crianças. – Não conhecia – concordou ele – até dois anos atrás. Meu irmão Colt descobriu que era pai de gêmeos, então passei a observá-lo e aprendi muita coisa, porém três dão muito mais trabalho que dois. E mesmo assim fiz muitas piadas com ele... Ri muito comentando como a vida dele se tornou caótica. – Ficou sério. – Agora me sinto mal por tê-lo provocado. – Dois anos? Ela prestara atenção nisso. Connor a fitou de novo e suspirou. – Sim. Mais ou menos quando Jackie me procurou pedindo ajuda. – Fez uma pausa para mais um gole da cerveja. Talvez tivesse sido ingênuo, mas na ocasião pensara que seria divertido ser pai; ajudar


Jackie e se conceder uma espécie de família como a de Colt, porém sem interferências na sua própria vida. – Conhecer meu sobrinho e minha sobrinha possivelmente me fez concordar com o pedido de Jackie. – Mas não foi só isso. Ele arqueou as sobrancelhas. – Tem certeza? Já me conhece tão bem assim? Após três horas? – Não – disse Dina. – Não conheço você, entretanto Jackie conhecia, e ela me contou muitas histórias sobre você e seu irmão... mesmo sem jamais revelar que era o pai dos trigêmeos. Isso o desconsertou e o fez se sentir em desvantagem. Não sabia nada sobre Dina. Raios! Mal se lembrava de ter falado com ela no casamento. E não gostava de ficar em desvantagem. Com cautela, perguntou: – Que tipo de histórias? Ela riu de leve e ele não achou que fosse um bom sinal. – A primeira que me vem à cabeça é a da ruiva – admitiu ela. Surpreso, ele evitou cair na gargalhada. – Era uma lindeza – explicou –, porém eu e Jackie fizemos um pacto de que nenhum dos dois tentaria conquistá-la. Dina concordou. – Deram mais valor à sua amizade. Connor pareceu pensar. – Sim. Pelo menos naquele tempo. Mas parece que as coisas mudaram quando eu não estava olhando. – Jackie amava você. Connor lhe endereçou um olhar frio e severo. Não precisava que Dina lhe contasse sobre Jackie. Ou talvez precisasse. Tudo que soubera sobre a amiga se espalhara pelo vento no momento em que não tivera mais certeza de nada. Porém, não iria falar sobre Jackie agora, não enquanto sua raiva ainda estava tão presente. E forte. – Sim – murmurou, em vez disso. – Tenho certeza. – Tudo que quero dizer é que você e Jackie eram muito ligados, e foi por isso que a ajudou. Por ela, e nada teve a ver com sua sobrinha e seu sobrinho. Fez aquilo por Jackie. – Reid e Riley, meus sobrinhos, tiveram parte nisso também – insistiu ele com frieza –, mas você tem razão, Jackie era minha melhor amiga, ou pelo menos eu pensava assim. Na onda de informações que o afogara nesse dia mal tivera tempo de reagir. Os trigêmeos ocupavam o primeiro lugar em sua mente porque estavam ali, e o problema de lidar com eles era algo urgente que o preocupava. Mas, na verdade, a perda de Jackie continuava a fazê-lo sofrer. Detestava pensar que ela partira. Que jamais a veria de novo. E, principalmente, odiava o fato de que não mantivera contato quando ela e Elena haviam se mudado. Não apenas porque se tivesse feito isso teria sabido sobre os bebês, mas porque Jackie fora muito importante na sua vida desde a adolescência, e agora a saudade era enorme. Raios! Verdade, ela não lhe contara sobre as crianças, porém ele também não a procurara. Não tentara descobrir o que estava acontecendo. O motivo para ela não telefonar. Ao contrário, deixara as coisas assim dizendo a si mesmo que era culpa dela, mas isso não era totalmente verdade.


Durante todos os anos da amizade, quando ele desaparecia, era Jackie quem o procurava para saber o que estava acontecendo com ele. Apenas para perguntar: Alô? Você está vivo? Entretanto, quando ela se mudara Connor não a procurara. Não telefonara, assumira que Jackie não desejava mais sua proximidade e deixara ficar assim. De fato, nem todas as amizades duravam para sempre. Até os melhores amigos eventualmente tinham uma discussão violenta demais e acabavam se separando, porém Connor jamais esperara que isso acontecesse entre ele e Jackie. Agora ela se fora e jamais poderiam conversar de novo para que ele pudesse lhe dizer que sentia muito por não a ter procurado e saber sobre seus problemas. – Também não concordo com o que as duas fizeram – disse Dina com suavidade, como se soubesse o que ele estava pensando. Ele a fitou, aborrecido por vê-la ler sua mente com tanta facilidade. – Porém, as duas não mentiram para você – retrucou Connor. – Não a cortaram de suas vidas deliberadamente. – Não – concordou Dina. – Não me cortaram. Entretanto, Elena escondia coisas de mim também. Ela nunca me disse que você era o pai. Ele se aprumou no sofá, colocou os cotovelos sobre as coxas e rolou a garrafa de cerveja entre os dedos. Ele fora um segredo o tempo todo. Apesar do que Jackie lhe dissera no início, elas bem poderiam ter procurado um banco de esperma, porque ele se tornara um doador anônimo de qualquer modo. Fora apenas DNA facilmente adquirido e logo esquecido. Connor se sentiu como se tivesse levado uma bofetada no rosto, além de estar com o coração machucado. Diabos, por que Jackie agira assim? E por que ele se importava tanto? Fossem quais fossem os motivos dela, não poderiam se entender agora. A raiva cresceu dentro de si até que se tornou difícil respirar e impossível tomar mais um gole da cerveja sem engasgar. Ele precisava de um tempo para pensar. Planejar. Arrumar os pensamentos desordenados. Estar ali com as crianças, com a mulher que o distraía tanto, não estava ajudando a planejar o futuro imediato. Connor gostava de antecipar os acontecimentos. Nos negócios que compartilhava com Colt, ele era o que sempre estava dois passos adiante. Era ele quem cimentava o caminho para a empresa trilhar, o que sempre sabia o que aconteceria a seguir. Até agora. No momento, só conseguia se basear em seus instintos. – Vou precisar fazer um teste de paternidade. Ela prendeu a respiração. – Acha necessário? – Não. – Foi a breve resposta. Diabos, bastara um olhar para os trigêmeos para se convencer de que eram seus. Não eram idênticos, naturalmente, porém cada um possuía traços dos King. E era mais que isso. Connor sentira uma ligação com as crianças desde o primeiro momento, e isso ele não podia negar. – São meus advogados quem irão solicitar – explicou, detestando dar explicações. – Certo. E depois? – Depois – disse ele, colocando a cerveja na mesa mais próxima e se levantando –, faremos o que for preciso fazer a seguir. – E o que será isso? – Ela se levantou também, mas manteve distância. – Avisarei você.


– Creio que quer dizer que iremos decidir em conjunto. Ele soltou uma breve risada. – Quis dizer exatamente o que disse. Os trigêmeos naquele quarto são meus filhos. Pertencem à família King. Irei tomar minha decisão. As faces de Dina ficaram vermelhas e ele entendeu que não era por constrangimento, mas por raiva. – Sou sua guardiã legal. – Ela o lembrou. – Minha irmã e sua esposa queriam que os bebês ficassem aos meus cuidados. Connor não estava com tempo nem paciência para lutar essa batalha nesse momento, portanto retrucou: – E sua irmã e a esposa dela me ocultaram a existência das crianças. E, pelo que eu sei, você estava envolvida nisso. – Já disse que não estava. – E devo acreditar na sua palavra? Ela engoliu em seco. – Sim, deve. Por que razão eu mentiria? – E por que Jackie mentiria? – replicou ele. Quando Dina não soube o que responder, ele aquiesceu com um gesto de cabeça brusco. – Certo. De qualquer modo, quero tempo com os trigêmeos enquanto as coisas são ajeitadas. Ela concordou. – Pensei que faria isso. – E quero a carta que Jackie deixou para mim. Ela ficou rígida e fria como se quisesse deliberadamente afastar as emoções. Connor não podia culpála por isso porque desejaria muito fazer a mesma coisa. Porque suas emoções estavam muito próximas da superfície, inflamadas e sensíveis demais para serem sufocadas... Então ele precisava lutar muito para deixá-las de lado. Sem dizer mais nada, Dina se encaminhou até uma pequena escrivaninha enfeitada com um jarro azul-cobalto cheio de flores frescas. Connor a seguiu e esperou enquanto ela abria a gaveta de cima, retirava um envelope e o entregava para ele. Depois, ela cruzou os braços sobre o peito em um gesto óbvio de proteção. Era uma pena que não soubesse que cada vez que fazia esse gesto o que conseguia era erguer os seios ainda mais, exigindo, sem querer, a atenção de Connor. Devagar ele levantou os olhos para fitar seu rosto. Depois olhou do envelope para Dina durante um longo minuto para, em seguida, enfiá-lo no bolso interno do paletó. Não iria ler agora com uma plateia. – Ainda bem que concordamos em alguma coisa – disse ele –, mas podemos ter ideias diferentes sobre o que realmente seja o melhor. – Então creio que teremos que lidar com isso quando chegar o momento. – Sim. – Mas ele não tinha intenção de lidar com isso. Eram as suas crianças, não de Dina. Ele decidiria o que iria acontecer a partir desse ponto, e Dina poderia acompanhá-lo ou não. A escolha seria dela. Entretanto, pelo momento, manteria o diálogo aberto entre os dois. Não valia a pena fazer uma inimiga tão cedo. – Vou embora – anunciou Connor. – Manterei contato. – O que quer dizer com isso?


A pergunta o fez parar no meio da sala. Virou-se para Dina. – Significa que não terminamos de conversar. De jeito nenhum. NOS DIAS que se seguiram Dina tentou manter os trigêmeos dentro da programação que criara nos últimos três meses, e que fora abalada. Mas não era fácil, considerando que Connor entrava e saía da vida deles sem aviso. Aparecera para o café da manhã um dia, depois fora com todos até um laboratório local, onde os técnicos retiraram amostras das bochechas de cada bebê para comparar seu DNA com o de Connor. Ridículo. Ele sabia perfeitamente bem que era o pai dos bebês, portanto Dina estava confusa sobre o que ele pretendia com o teste de paternidade. No dia seguinte Connor não aparecera até a hora do banho das crianças à noite, e saíra assim que os trigêmeos foram colocados na cama. Agora ele insistia em ir ao parque com o trio. Em vez de deixar as crianças sozinhas com ele – porque Connor era muito rico e como saber que não os levaria para sua casa se recusando a devolvê-los –, Dina os acompanhou. Observar Connor interagir com o trio era adorável e irritante ao mesmo tempo. Dina tivera que fazer muitas concessões e ajustes quando as crianças haviam entrado em sua vida. Porém, Connor parecia muito à vontade. Mas não era só por isso que ela se irritava. Connor a ignorava completamente. Não que Dina desejasse sua atenção, porque nesse ponto da história só traria mais confusão, porém tratava-se do princípio da coisa. Ela bem que poderia ser a babá de 60 anos das crianças, porque ele mal a olhava. Melhor assim, ela acabou por refletir. Mantivera deliberadamente distância de homens como Connor King quase toda a sua vida. Vira de perto e de modo dolorido o que um homem forte podia fazer com uma mulher. Sua própria mãe arruinara a vida tentando mudar para ser qualquer coisa que seu namorado do momento desejasse que fosse. Helen Cortez definhara aos poucos, se perdendo na inútil batalha de agradar um homem. Dina observara a mãe, por fim, perder a própria identidade enquanto dependia de um homem atrás do outro para que tomasse conta dela, coisa que eles nunca faziam. Quando Helen morrera, anos atrás, não passava de uma sombra do que fora. Em resposta ao modo como sua mãe vivera e morrera Dina prometera a si mesma ser independente. Contar apenas consigo mesma. Homens fortes podiam engolir uma mulher, e ela não tinha intenção de ser devorada. Então, na verdade, não desejava Connor... Sua vaidade estava ferida, só isso. Franzindo a testa, Dina parou de olhar Connor e os trigêmeos para fitar o tablet em seu colo. Enquanto ele brincava com os garotinhos, Dina aproveitou para checar suas contas. Uma empresária independente precisava ficar sempre à frente das situações, em especial quando o cenário não era dos melhores. Checando seu calendário, tomou nota dos diferentes trabalhos que assumira. Contataria os Johnson para saber sobre o cardápio para sua festa de aniversário de casamento e entraria na concorrência por uma enorme festa de ex-alunos no hotel Hyatt no fim do mês. Dentro de duas semanas teria uma festa de casamento, e um aniversário de 16 anos três dias depois. Nenhum desses trabalhos seria muito bem pago, mas Dina não estava em posição de recusar nada. Apenas desejava ter mais tempo para se dedicar à sua empresa. Entretanto, passava a maior parte dos dias tentando obter novos contratos para festas e lidando com os problemas que surgiam com enorme regularidade.


Pensara que dirigir seu próprio negócio lhe daria liberdade, porém, ao contrário, estava sendo estrangulada por minúsculos fios sempre cheios de nós. Gastava mais tempo com a contabilidade e a caça aos novos clientes do que realmente cozinhando, e sentia falta disso. Porém, tomando conta dos trigêmeos, se preocupando com o papel de Connor em suas vidas e pagando contas que nunca paravam de chegar, como iria se dedicar à cozinha? Um grito de dor a fez retornar ao momento presente. Dina ergueu os olhos e viu Connor segurando Sage, que berrava como um louco. Correu pela areia escorregando o tempo todo, até alcançar Connor. Quando Sage estendeu os bracinhos para ela, Dina o segurou com força e instantaneamente o garotinho se acalmou. Dando um tapinha nas suas costas e o embalando, ela fitou Connor. – O que aconteceu? – Ele caiu. Foi lançado do balanço e caiu na areia. – Connor ergueu Sadie do balanço e a sentou na areia perto de Sam. Sage parara de gritar e esfregava o rosto no pescoço de Dina. – Ele estava bem, eu juro. Não sei como conseguiu se mover tão depressa. No início até riu. Depois, pelos seus berros, poderia jurar que caíra sobre cacos de vidro. Dina balançou a cabeça. Por fim uma rachadura na armadura do pai prefeito. – Sage não está machucado, só assustado. Não está acostumado aos balanços, e, de qualquer modo, é pequeno demais para esse brinquedo... Connor franziu a testa. – Eu deveria ter sabido. – Inclinou-se para olhar Sage. – Ei, garotão, tudo bem? Sage enterrou o rosto com mais força no pescoço de Dina e a apertou com força. Os trigêmeos podiam estar encantados com a nova presença em suas vidas, mas era evidente que, quando precisavam de consolo, procuravam Dina. O coração dela se expandiu cheio de amor pelas três criaturinhas que haviam trazido tanto caos à sua vida. – Ele está bem? – perguntou Connor com voz tensa. – Sim, está – respondeu ela. – Mas é hora da sesta, então é melhor que eu os leve para casa. – Certo. – A expressão de Connor era pensativa. – Casa. Ainda abraçando Sage, Dina lançou um olhar sobre o ombro e disse: – É melhor impedir Sam de comer areia. – O quê? Dina sorriu, ouvindo a voz nervosa de Connor enquanto lidava com o outro filho que, de fato, estava comendo areia. CONNOR AINDA não lera a carta de Jackie. Planejara fazer isso naquela primeira noite, mas estivera muito furioso com a falecida amiga para ler fosse lá o que ela tivesse escrito, perturbado demais com a primeira visita que fizera aos trigêmeos e distraído demais com pensamentos sobre Dina. Além disso, como Jackie poderia explicar a mentira sobre seus próprios filhos? Não existia um bom motivo para aquilo que ela fizera, dizia a si mesmo. Não havia desculpa que fizesse passar a dor e a fúria da traição que ainda pulsavam dentro dele. Durante anos Jackie fora a única mulher em quem confiara. A única amiga com quem podia contar em qualquer ocasião. Descobrir agora que ela o usara como tantas outras haviam tentado fazer era algo


que o destruía. Con perambulou pela sua casa às escuras. Não precisava de luzes, pois conhecia cada lugar e cada peça de mobiliário ali. Não queria luzes porque no momento seu humor estava tão sombrio que qualquer brilho seria ofensivo. A quietude era terrível... em especial após ter estado no minúsculo e populoso bangalô de Dina uma hora atrás. Um sorriso surgiu em sua boca ao lembrar do coro de vozes e gritinhos que partiam dos buliçosos trigêmeos. Por um segundo tentou imaginar esses mesmos sons ali, naquela enorme casa vazia. – Engraçado – murmurou, apenas para romper o silêncio –, este lugar nunca me pareceu vazio antes. Apenas... grande. Naturalmente sabia que um homem só não precisava de um lugar tão espaçoso, mas por que comprar outro menor? Connor sempre tivera a vaga ideia de um dia encontrar uma mulher, casar e ter filhos, porém nunca tivera pressa para isso. Agora tinha os filhos, mas não tinha esposa... Apenas duas mulheres em sua cabeça. A memória de uma delas o assombrava, e a outra ele não conseguia parar de desejar. Caminhou pela sala de estar, rodeou a mesinha de centro e passou por uma série de portas francesas até o pátio. Ali fora havia luminárias cercando a área, porém a iluminação era tão fraca que ele não se importou. Descalço, sentiu o frio úmido dos ladrilhos sob os pés e aceitou isso como parte da noite de junho. O luar se insinuava em meio a muitas nuvens, e incidia sobre o oceano escuro como uma pálida fita de prata sobre veludo negro. As ondas quebravam nos rochedos lá em baixo, o vento marinho era frio e penetrou na camiseta que ele usava, porém Connor não se importou; tinha muito em que pensar para se preocupar com o tempo. Por três dias fora o pai de meio período que pensara ser um dia. Entrando e saindo das vidas dos trigêmeos e de Dina como um fantasma. Ele aparecia quando desejava, irritava Dina um pouco, brincava com o trio, e depois partia para ir ao escritório. Ali suas responsabilidades esperavam em meio a contratos, acordos com clientes, novos negócios e uma centena de outras coisas que exigiam sua atenção. Entretanto, sempre os trigêmeos e sua guardiã rondavam sua mente, e a cada vez que deixava o bangalô em Huntington Beach sentia uma dor no coração. Connor esfregou a mão na nuca ao perceber isso. Apesar do modo como essa história começara – com ultraje, traição, dever –, transformara-se em outra coisa, não sabia bem o quê, porém estava mais enterrado nessa situação do que acharia possível três dias antes. Sentia saudade das crianças quando estava longe delas. E, sim, sentia saudade de Dina também. Raios, a mulher era fascinante! Em geral ficava sempre pouco à vontade perto dele, porém isso em nada diminuía o desejo que Connor sentia cada vez que a fitava. Dina era irônica, ficava na defensiva e tinha um temperamento esquentado que fazia seus olhos escuros brilharem sempre. E Connor gostava disso também. E depois acontecera o passeio ao parque, quando Sage se machucara e se assustara, e rejeitara o colo de Connor. Procurara Dina. A conexão dela com os bebês era profunda apesar de ser sua guardiã apenas há três meses. Connor precisava lidar com isso também. Deveria tirar as crianças dela? Ou encontrar um modo de trabalhar com ela? – Diabos, essa confusão poderia ter sido evitada se Jackie tivesse simplesmente me contado a verdade. – Ele atirou a cabeça para trás, olhou para o céu, e prosseguiu como se falasse com ela. – Sabe que foi você quem começou isso, não sabe? Está se divertindo?


Mas ninguém lhe respondeu no meio da noite. A única resposta que poderia obter seria lendo a carta de Jackie. E era hora de ler. Descobrir o que a amiga tivera para lhe dizer. Seja o que for, não tem importância e chegou tarde, como diria sua mãe. Balançando a cabeça, Con voltou do pátio para a casa e entrou no quarto para arrancar a carta de Jackie da cômoda. Acendeu o interruptor de luz na parede, enchendo o quarto com a luz forte do lustre de teto, sentou na beirada da cama e desdobrou a carta. Seu olhar percorreu a caligrafia conhecida e em sua cabeça ouviu a voz de Jackie...

Con, se estiver lendo isto significa que Elena e eu partimos, portanto, sem querer ofender, espero que nunca leia. Mas, se ler, saberei que está furioso e não posso culpá-lo. Sim. Eu menti.

A raiva tornou a dominá-lo. Não lhe contei sobre a gravidez ou os bebês porque Elena e eu os queríamos só para nós. Sim, egoísmo. Quase posso ouvir você pensando assim. E talvez tenha sido egoísmo, não sei. Mas, quando você disse que queria fazer parte da vida de seus filhos se os tivesse, nós duas percebemos que você apenas deixaria as coisas mais confusas. Já não seria suficiente eles terem duas mães? Será que precisavam de um pai entrando e saindo de suas vidas também? Além disso, nós duas sabemos que bebês não são sua praia. Lembra-se de como aborreceu Colt sobre os gêmeos dele? Nomeamos Dina guardiã pelas mesmas razões. Connor riu mesmo sem querer. Dina é mulher. As crianças precisam de mãe. Pode me odiar, mas dê uma chance a ela. Quem sabe goste de Dina... Con, não quero que pense que deve sustentar as crianças. Já fez o suficiente. Você nos deu nossa família e somos gratas por isso. Nós o deixamos na ignorância porque achamos que seria o melhor. Porém, jamais duvide que não pensamos em você todos os dias. Sempre que olhamos para os trigêmeos, ali está você. Então me perdoe se puder... e, se não puder, entenderei. Ainda o amo... Jackie. O sofrimento sufocou a raiva e, pela primeira vez em vários dias, Con ficou calmo. Jackie não agira corretamente, mas ele compreendia. Não queria perdoá-la, mas como não perdoar? Segurando a carta, passou os dedos pela caligrafia forte e inclinada, e murmurou: – Também amo você, Jackie.


CAPÍTULO 4

– JACKIE DEIXOU claro em sua carta que ela e Elena desejavam que Dina assumisse a custódia das crianças – disse Colt serenamente, quando terminou de ler a missiva. Entregou a folha de papel para Connor, que a fitou por um longo minuto. – São meus filhos, Colt. Meu sangue. Não podia passar por cima dessa verdade que ficava ecoando em sua mente sem parar. Após ler a carta de Jackie na noite anterior, conseguira pôr em ordem seus pensamentos. Não dormira e só estava matando o tempo no escritório. Havia detalhes nos novos contratos que precisava resolver, mas como diabos iria se concentrar nisso quando sua vida estava de cabeça para baixo? Não perdoara inteiramente Jackie pelo que ela fizera. Será que entendia o motivo para ela ter feito isso? Em parte, sim. A voz fria, racional e lógica em sua mente podia até concordar com a amiga. Mas a verdade era que as emoções dominavam o espetáculo nesse momento. E ele não podia deixar de pensar que perdera mais de um ano da vida dos trigêmeos. E nunca recuperaria isso. Era um visitante naquela casa perto da praia, um estranho, e isso o deixava louco. Atrás de Connor havia uma grande janela que oferecia uma vista espetacular da praia e do oceano, mas bem poderia ser uma parede branca porque ele não lhe dava a menor atenção nessa manhã. O sol passava pela vidraça lançando uma luz suave e dourada sobre o escritório e que alcançava os olhos de seu irmão gêmeo, enchendo-os com muito brilho enquanto Colt o fitava. Por fim, Connor falou de novo: – Sabia que Sage detesta tomar banho? – O quê? – Colt franziu a testa sem entender. – Sage. Ele odeia água. Por quê? Eu deveria saber o motivo, mas não sei. – Afastou a cadeira da escrivaninha, caminhando pelo escritório todo acarpetado e com as paredes repletas de fotografias e os móveis confortáveis para atrair os clientes. – Já Sadie adora tomar banho. Ela atira água para fora da banheira e dá gritinhos de alegria. – Sorriu para si mesmo ao lembrar. – Por outro lado, Sam pouco se importa com banho, mas Sage... – Balançou a cabeça e fitou Colt. – Será que aconteceu alguma coisa com ele? Ficou traumatizado? Por quê? Por causa de alguém? – Está exagerando, Con – disse seu gêmeo. – Crianças pequenas são muito imprevisíveis. Quem pode saber o que se passa em suas cabecinhas ou por que agem dessa ou daquela maneira? No momento, por


exemplo, Reid não quer usar sapatos. – Riu consigo mesmo. – Fica descalço sempre que pode. Penny estava ficando louca, mas descobrimos que na semana passada ele entrou em uma poça profunda e os seus tênis começaram a ranger. Acho que ele detestou o som e simplesmente resolveu andar descalço. – Viu? – Connor estendeu um dedo para o irmão. – É isso que estou dizendo. Reid está com um problema e você conhece a razão! Sage detesta água, mas eu não faço ideia por quê. – Ergueu as mãos em um gesto de frustração. – Só conheço meus próprios filhos há três míseros dias. Sou um completo estranho para eles, Colt. Eles são loucos por Dina e nem me conhecem! – Isso vai mudar – garantiu Colt. – Claro que sim. – Connor enfiou as mãos nos bolsos e oscilou para a frente e para trás. Seu cérebro estava em pleno funcionamento agora, e as coisas começariam a acontecer. Após ler a carta de Jackie, ficara insone. E nessa manhã tomara uma decisão. Ligara para seu advogado exigindo que tomasse todas as medidas disponíveis para torná-lo tutor das crianças. Porém, seu advogado lhe dissera que Dina tinha boas bases para impedir isso. Ela era a guardiã legal, a tia dos garotos. Eles viviam com ela, entretanto não significava que a situação deveria permanecer assim. – Você já contatou a Murdock e Filhos sobre isso, certo? Connor lançou um sorriso maquiavélico para o irmão. – A melhor equipe de advogados do estado. – Sim, eu sei – murmurou Colt, se levantando para encarar o irmão. – Mas pense um minuto. Lembra-se de como ficou furioso quando Dina procurou um advogado e o processou em vez de tentar conversar com você primeiro? – Sim, lembro. – O sorriso se tornou mais maquiavélico. – Mas isso agora é diferente. – Sempre é – resmungou Colt. – Não pode cortar Dina Cortez dessa história, Con. Connor o fitou com seriedade. – O que o faz pensar que desejo cortá-la? Colt soltou uma breve risada. – Porque o conheço. Porque quando descobri sobre Penny e os gêmeos esse foi meu primeiro pensamento. – Muito bem. Connor passou a mão pela nuca no gesto habitual. Talvez tivesse pensado nisso, mas desejava ser razoável. Entretanto, se Dina lutasse com ele pela custódia, não faria nenhuma promessa. Tudo ficaria muito mais fácil se não desejasse tanto aquela mulher. Sempre que a via, era difícil manter as mãos longe dela... mas tudo tinha a ver com os trigêmeos e era neles que devia se focalizar. – Acha que vai dar um jeito em tudo. – Colt balançou a cabeça. – Ilusão. Isso não acontece em geral até você começar a perder o sono por causa das crianças, e ficar quebrando a cabeça para resolver as coisas ao seu modo. – Engraçado. – Falo sério, Con. Ela não é apenas a guardiã das crianças, mas tia delas. Acha que Dina irá embora serenamente por que você quer? – Não. – Connor voltou a sentar e fechou os olhos por um instante. – A última coisa que ela deseja é facilitar as coisas para mim. – Certo. Isso significa que terá que encontrar um modo de trabalhar com ela... ou perto dela. Connor lhe lançou um olhar enviesado. – Talvez eu tente...


Colt deu de ombros e completou: – Comprá-la. Franzindo a testa, Connor pensou nisso por alguns minutos. Vira a casa de Dina. Era pequena demais e dava a nítida impressão de que ela não tinha muito dinheiro. Segundo seu advogado, sua empresa de bufê mal se sustentava. Ele sabia que ela não podia cuidar dos bebês sem trabalhar, e não pretendia se contentar em assinar um cheque todos os meses para o sustento das crianças. De acordo com o advogado da família King, a melhor coisa que ele podia fazer enquanto não se decidissem sobre a custódia seria se tornar uma figura constante na vida de Dina e dos trigêmeos, basicamente reivindicar sua paternidade. Isso dera certo com Colt. Connor só precisava analisar a melhor maneira de fazer isso no seu caso. É claro que o modo mais simples seria trazer as crianças para sua casa. Já mandara sua governanta adaptar um quarto de hóspedes. Depois fariam uma obra permanente. Seus primos Rafe, Nick e Gavin eram proprietários da King Construções, e Connor pediria que construíssem uma suíte enorme e completa com quarto de brinquedos e de estudos para os trigêmeos o mais breve possível. Vira a confusão de obras pelas quais Colt e Penny haviam passado em sua casa, garantindo que tudo estivesse bem e seguro para receber seus gêmeos, portanto fazia uma boa ideia do que era necessário. O grande obstáculo seria Dina. Mas também tinha uma ideia sobre isso. – De que lado, afinal, você está? – perguntou ao irmão. – Do seu. – Colt ergueu as mãos no clássico gesto de rendição e sorriu para Connor. – Só estou dizendo que se tentar afastar Dina vai iniciar uma guerra, e quando isso acontecer não haverá vencedores. – Eu vencerei. – Verdade? – Colt balançou a cabeça. – Ela é a tia das crianças, lembre-se. Se você a afastar, as crianças sofrerão. Vocês dois irão se tornar inimigos e essa guerra apenas ficará cada vez mais feia. – Mas é isso mesmo – retrucou Con. – É uma guerra. Ou será assim que Dina perceber que não ficarei à sombra. Maldição! Jackie... – Esqueça – cortou Colt. – Jackie fez o que achava certo, assim como você fará. – É claro que farei. – Entretanto, poderia ouvir seu irmão mais velho e mais sábio. – Nasceu cinco minutos na minha frente e isso o torna um sábio? – ironizou Connor. – Não – corrigiu Colt. – Mas, sendo muito parecido com você e tendo passado e sobrevivido a uma situação quase idêntica à sua, me tornei um especialista. Penny e eu conseguimos resolver as coisas entre nós dois... – Sim, mas você já amava Penny. Só não queria admitir. – Tem razão. Sei que não ama Dina. – Colt sorriu. – Mas, sem dúvida, a deseja. Nada mais verdadeiro. O desejo que sentira desde o primeiro momento era uma necessidade, e Connor não queria admitir, porque isso transformava a situação em algo muito mais complicado. E bastava pensar em Dina para ficar excitado. – Crie um atrito e jamais a terá – avisou Colt. – Não faça dela uma inimiga... vá devagar. – Muito bem. – Connor fez um gesto displicente com a mão, afastando a ideia. – Não gosto de ir devagar. – Evidentemente não está acostumado.


– Verdade. – Connor passou a mão pelos cabelos. – Quero avançar nessa situação, mas sei que preciso dar os passos certos. – Bem, já é alguma coisa – murmurou Colt friamente. – Recebi o resultado do exame de DNA. – Foi rápido. – O dinheiro faz milagres – retrucou Connor. Habitualmente levaria uma semana, talvez duas, para ter os resultados de um laboratório particular, mas com a fortuna da família King mexendo os pauzinhos fora bem rápido. – Os trigêmeos são meus – anunciou. – E tinha dúvida? – Claro que não. Mas agora é oficial. Tenho armas para uma briga pela custódia. – Con... – Já sei, é melhor evitar uma briga se puder. – Ergueu a mão para impedir que o irmão prosseguisse. – E farei isso, mas gosto de saber que tenho um ás na manga. – Claro, é evidente que fará o que bem quiser e qualquer coisa que eu disser não terá a menor importância – disse Colt. – Só direi mais uma coisa. – Pode falar. – Vá com calma, do contrário perderá. – Está errado. Nunca perco. – SINTO MUITO, Abuela – disse Dina –, mas a babá me avisou na última hora que não poderia vir e preciso comparecer a essa festa. Desembrulhou toda a parafernália que trouxera para os trigêmeos enquanto a avó se sentava no chão para brincar com os bebês. – Dina, não precisa se desculpar – disse a senhora, enviando um olhar rápido por cima do ombro. – Adoro ter as crianças aqui. – Sim, mas ia jantar com suas amigas. – Bobagem. Posso fazer isso sempre que quiser. – Estendeu os braços e apertou Sage em um gesto de carinho. – Não é sempre que posso ter los niños. Dina sorriu quando os três bebês escalaram o colo da avó. Aos 75 anos, Angelica Cortez era ágil, e os cabelos grisalhos ostentavam um penteado moderno. Seus olhos castanhos eram espertos e seu rosto, surpreendentemente, não tinha rugas, o que deixava Dina esperançosa para ser assim também quando ficasse velha. O inglês de Angelica possuía um ligeiro e simpático sotaque mexicano; espanhol e inglês se misturavam lindamente em tudo que dizia. Adorava ver os bebês e, se Dina e eles estivessem todos ali para uma visita, seria diferente. Ela e a neta conversariam a sós por horas, mas com a ausência da babá Dina não tinha escolha. Além do mais, iria fornecer o bufê para uma festa nessa noite e se tudo corresse bem seria a chance de obter mais trabalhos. Dina começou a sentir dor de cabeça e isso não era bom, já que teria uma longa noite. A culpa a dominou como se fosse uma bolinha de pingue-pongue maluca batendo de encontro ao seu cérebro. Culpa por deixar as crianças e obrigar a avó a mudar seus planos a fim de tomar conta delas... e havia


também a culpa por escolher o trabalho em vez dos bebês. Porém, por outro lado, se queria ter condições de sustentá-los, precisava conseguir o maior número possível de compromissos. O apartamento duplex da avó em Naples ficava a duas quadras do oceano. Fora decorado em uma mistura de estilo mexicano e americano, e era aconchegante e convidativo; as paredes vermelhas faziam Dina pensar que tal cor poderia ser escura e deprimente, mas não era esse o efeito. Ao contrário, era como se envolvesse as pessoas em um abraço quente. Angelica era proprietária do prédio e vivia no apartamento da frente, alugando o segundo andar para uma de suas grandes amigas. As duas senhoras cuidavam bem dos jardins que eram frondosos e lindos, e que faziam os turistas pararem para fotografá-los. A cidade de Naples era pequena e elegante, fazendo lembrar muito sua homônima, Nápoles, na Itália. O desfile de Natal era fantástico, com as casas e barcos decorados com milhões de luzes coloridas. Dina ansiava por levar as crianças para assistir ao espetáculo. – Então, qual é o trabalho desta noite? – Uma festa de aniversário de casamento em Newport Beach. O local distava meia hora dali, e Dina precisava chegar cedo para arrumar tudo. Pouco tempo atrás Dina fora dona de um food truck, um pequeno caminhão ou espaço móvel que fornecia comida. Os negócios iam bastante bem e ela decidira avançar e abrir sua empresa de bufê, como sempre sonhara. Isso também ia bem. Tinha mais pedidos do que podia dar conta, sua reputação ia se firmando... e então... Dina olhou para os bebês em volta da bisavó. Seu mundo desmoronara assim como o avião de sua irmã, há três meses. Quando assumira a custódia dos trigêmeos, Dina precisara cancelar diversos compromissos de trabalho. Simplesmente não conseguira manter o ritmo ao precisar se ocupar do pequeno trio. Sua renda diminuíra, mas as contas não pararam de chegar. O aluguel de sua casa subira, seu carro quebrara, e sempre havia mais contas com os trigêmeos. Médicos, roupas, fraldas... a lista era interminável, e era assustador ser a única responsável. No momento precisava lutar para conseguir mais trabalhos, o que significava brigar por eventos que meses atrás iria ignorar, mas precisava trabalhar para sustentar os bebês e garantir sua segurança. – Não se preocupe tanto, nieta – disse a avó, e Dina sorriu apesar da ansiedade que nunca a abandonava. – As coisas acontecem, estando você preparada ou não. Simplesmente precisa fazer o necessário e continuar. – Sim – respondeu Dina, ficando de joelhos para segurar Sam nos braços. O garotinho se apoiou nela, passando as mãos pequenas pelo seu pescoço e esmagando sua face com um beijo estalado e babado que molhou o rosto de Dina e esquentou seu coração. Ela beijou Sam de volta e foi se sentar no chão entre seu irmão e irmã. – Ainda não me falou sobre o pai deles. Dina fitou a avó. A sensação de desconforto que a acompanhava há dias aumentou. É claro que contara para a avó sobre a ação para conseguir ajuda financeira e a carta que encontrara entre as coisas de Jackie. Porém, não tivera chance de conversar com Angelica desde então. Principalmente porque não sabia o que dizer. Que Connor King estava se envolvendo demais com o trio para sua paz de espírito? Que não conseguia pensar direito quando ele estava por perto? Que se sentia preocupada não apenas a respeito do que significava a presença dele para os trigêmeos... mas para ela também?


Connor estava sempre em seus pensamentos, e ela não se sentia preparada para isso. Há muito tempo Dina não se sentia atraída por um homem. E jamais conhecera alguém que a afetasse tanto quanto Connor King. Sabia que era tolice tecer fantasias sobre alguém que poderia lhe tirar os sobrinhos. Connor a fazia desejar uma porção de coisas, mas ao mesmo tempo ela sabia que deveria mantê-lo a uma distância segura. Era como se estivesse sempre esperando por dois desastres. Quais seriam os planos dele com relação às crianças? E com relação a ela? – Não sei o que dizer sobre ele, Abuela – disse por fim. – Gosta de verdade dos trigêmeos quando está com eles, mas, é claro, ainda está furioso com Jackie e Elena. E comigo também. A avó aquiesceu com um gesto de cabeça sensato e murmurou: – Disse à Elena que ela não estava agindo bem, mas, como você, era uma cabeza dura. – Parou de falar, fez o sinal da cruz e rezou rapidamente pela alma de Elena, depois deu um tapinha nas costas da mão de Dina. – A raiva dele vai passar. – Eu sei. – Dina suspirou. Ninguém podia se agarrar ao ódio para sempre. Eventualmente desapareceria, deixando o amargor para trás. Dependeria de Connor se agarrar a essa amargura ou esquecer. No momento ela não sabia o que ele iria decidir. – Mas, depois, o que acontecerá? – perguntou. – Bem, ele precisa tomar uma decisão, não? – retrucou a avó. – Precisa saber o quanto deseja se envolver com seus filhos. – Passeou o olhar pelos três bebês que brincavam e balbuciavam na sua linguagem misteriosa. – Li sobre a família King. Não costumam abandonar seus rebentos. O coração de Dina se apertou. Vários membros da família King apareciam sempre nos noticiários, jornais e revistas. Mas, em qualquer entrevista, havia sempre uma coisa em comum: eram unidos e consideravam a família a coisa mais importante do mundo. Então respondeu: – Eu sei. A avó percebeu o desapontamento e a preocupação em sua voz, e riu. – Ótimo, querida, ele é o pai dos trigêmeos, vão precisar dele. – E quanto a mim? – Dina balançou a cabeça e observou Sadie e Sam disputarem o coelhinho de pelúcia como se brincassem de cabo de guerra. A ideia de perder as crianças a fazia sofrer muito. Sim, davam muito trabalho e, sim, sua vida virara de cabeça para baixo com sua chegada, porém agora já não conseguia viver sem elas. – E os King também são extremamente ricos – enfatizou, mais para si mesma que para a avó. – Se Connor quiser tirar os bebês de mim, não terei condições financeiras para lutar contra. Ele pode contratar centenas de advogados, e eu precisarei pedir ajuda do governo e rezar que dê certo. A avó riu de novo, entregou uma boneca para Sadie e acariciou Sam ao vê-lo mordiscar a orelha do coelho. – A riqueza não é coisa do demônio, Dina. – Não, mas significa poder – argumentou Dina, enquanto a preocupação a dominava. – Nenhum juiz irá favorecer a dona de um bufê que luta para sobreviver em detrimento de um membro da família King quando se trata de custódia de crianças. – Preocupar-se não muda a situação – avisou a avó. – Não, mas sou uma pessoa preocupada por natureza. A senhora riu. – Sim, é mesmo. Mas só dessa vez tente não se desesperar. Dina suspirou, balançou a cabeça e passou o braço pelo ombro da avó.


– Vou tentar. Prometo. Dando outro tapinha na mão da neta, Angelica disse: – Será bom para você e os bebês. – Nada está bom no momento – replicou Dina, com um aperto no coração. – Dina, não pode cuidar deles sozinha. Vai acabar ficando louca. – Posso, sim – replicou ela com teimosia. – Já estabeleci uma rotina e... – E está se exaurindo tentando fazer tudo ao mesmo tempo – contrariou a senhora em voz baixa, como se quisesse evitar que os trigêmeos ouvissem... embora não fossem entender nada. – O pai deles está aqui agora; compartilhe a responsabilidade com ele assim como a alegria. – Não é tão fácil, Abuela. – Dina suspirou. – Ele é um dos homens mais ricos do país e ficou furioso com a mentira de Jackie e Elena. – Você não mentiu para ele. – Acho que isso não importa para Connor – respondeu Dina pensativamente. – Se assim decidir, poderá tirar os bebês de mim, e nenhum juiz irá me favorecer. – Não precisa chegar a esse ponto. – Talvez não, mas creio que chegará. – Dina se lembrou do olhar dele na noite anterior. Ele tentava se conectar com seus filhos e penetrar na vida deles. Connor King não iria recuar. Não era da sua natureza. Ela fizera pesquisas ao seu respeito. Lera tudo na internet e achava que podia confiar em tudo que lia ali. Além disso, não tinha opções. Ele e seu irmão gêmeo, Colton, haviam construído seus próprios negócios fora da fortuna da família. Eram ricos proprietários após anos de trabalho. Menos de dois anos atrás os gêmeos haviam modificado o modelo de negócios para férias familiares e tudo ia muito bem. Segundo os sites financeiros, a Aventuras em Família King era uma empresa ainda mais poderosa do que a antecessora. E isso fazia sentido, já que a base de clientes em potencial era muito maior. Segundo tudo que Dina lera, Connor era um negociador duro e frio, e não tolerava erros. Era o tipo de homem que fazia as regras e esperava que todos andassem na linha. Já que Dina não aceitava ordens muito bem, não conseguia ver um final feliz para a sua situação. – Também vejo outro problema no horizonte – disse Angelica com suavidade. – Ótimo. Exatamente do que precisamos. – Dina deixou escapar o ar dos pulmões. – Que problema? – Você gosta dele. – A avó sorriu com compreensão. – Por favor! – Dina riu e escondeu o rosto para que a avó, sempre sagaz, não lesse a verdade em seu olhar. Agarrou Sadie, que passava por ela, e colocou a menina no colo. – Está enganada, Abuela. Eu não gosto dele. – Então não mentiu para ele, mas apenas para mim – replicou a senhora. – E para você também. Com relutância, Dina ergueu o rosto para fitar a avó. Era tolice evitar a verdade. – Muito bem. Admito estar... intrigada por ele ser tão diferente de todos os homens que conheço, mas... – Diferente é um bom sinal, mi hija... minha filha – disse Angelica, retirando Sadie do colo de Dina e colocando-a no seu. – E, quem sabe? Talvez a chegada desse homem em sua vida seja um bom sinal também. Dina não diria isso.


UM POUCO depois da meia-noite, Dina dirigiu pela entrada de sua casa com três bebês adormecidos no assento de trás. Fitando a casa, resmungou porque se esquecera de acender a luz da frente. Com um suspiro saiu do carro e fechou a porta o mais silenciosamente possível. A rua estava silenciosa, as outras casas, às escuras, com as famílias dormindo. Tudo estava tão quieto que o mundo parecia ter parado. Então ouviu uma voz: – Onde diabos esteve?


CAPÍTULO 5

DINA DEU um pulo, encostou a mão no peito e girou nos calcanhares, tudo ao mesmo tempo. Com o coração na garganta, viu Connor avançar em sua direção. – Você me deu um susto danado. – Ela se queixou em um sussurro. – Agora entende como me senti? – retrucou ele. – Estou sentado na sua varanda há três horas sem saber onde vocês estavam. – O quê? Por quê? – Ela fitou a varanda como se pudesse descobrir evidências de sua vigília. – Vim visitar os garotos, mas vocês não estavam. – Connor esfregou o rosto com as duas mãos e depois a fitou. – Não sabia aonde tinham ido. Comecei a pensar que haviam sofrido um acidente ou que um dos bebês passara mal. Liguei para seu celular e você não atendeu. Caixa postal. Uma leve culpa a dominou, porém Dina tratou de afastar essa sensação. Como poderia adivinhar que ele viria fazer uma visita? Só porque há dias ia e vinha sem aviso não era motivo para ela presumir que continuaria fazendo isso. Além do mais, Connor estava exagerando, e ela mal conseguia acreditar naquilo. Parecia um marido preocupado, pelo amor de Deus! – Sempre desligo o celular quando estou trabalhando – explicou ela, embora não fosse verdade. Deixara o celular ligado no caso de a avó precisar entrar em contato. Entretanto, não atendera quando vira que a chamada era de Connor. – E agora vou colocar os trigêmeos na cama. Estão profundamente adormecidos nas cadeirinhas dentro do carro, e se você os acordar... Deixou a ameaça pairar no ar sem concluir, mas deu certo. Ele respirou fundo, fez um gesto óbvio para se acalmar, e disse: – Muito bem. Vou ajudar. Vá abrir a porta de casa. Dina obedeceu, mas apenas porque era isso mesmo que pretendia fazer antes que ele desse as ordens. Resmungando, cruzou o pátio com passos apressados. Fazia frio e estava úmido; a lua e as estrelas estavam encobertas pelas nuvens. Ela abriu a porta, depois se virou e voltou para o carro onde Connor já desafivelava a cadeirinha de Sam. O coração dela se apertou quando o garotinho se apoiou no ombro de Connor, braços e pernas soltos em meio ao sono. Connor manteve uma mão nas costas do menino e se encaminhou para a casa sem falar com Dina.


Ótimo, pensou ela. Pouco ligava para a atitude dele; estava cansada, seus pés doíam e tudo que desejava era se sentar, tomar um copo de vinho e depois se deitar na cama para ter as poucas horas de sono merecidas antes que os bebês acordassem. Dina libertou Sadie da cadeirinha e embalou a garotinha, que resmungou e voltou a dormir profundamente. – Eu a levarei – murmurou Connor logo atrás. – Você leva Sage – disse Dina, já caminhando para a casa. No quarto principal do bangalô havia três berços muito próximos um do outro porque o cômodo não era grande. Em breve Dina precisaria encontrar outro lugar para morar. Dentro de um ano os bebês estariam grandes demais para o bangalô. Porém, essa preocupação podia ficar para mais tarde. – Por que diabos não respondeu o celular? – O murmúrio de Connor pareceu um grito em meio ao silêncio. – Estava trabalhando – repetiu ela. – E depois, quando não estava mais trabalhando, desliguei o celular para não acordar os bebês no caminho de volta para casa. – Tudo bem – admitiu ele. – Mas que tipo de trabalho é esse para carregar consigo três crianças pequenas até de madrugada? Dina franziu a testa, inclinou-se sobre o berço de Sam e lhe deu alguns tapinhas nas costas para fazêlo adormecer profundamente de novo. – Servi o bufê de um aniversário de casamento e os bebês ficaram muito bem. – Deviam estar em casa – retrucou ele, com um sussurro que pareceu ainda mais áspero. Dina disfarçou a impaciência. – Não é da sua conta, mas minha babá adoeceu de última hora e minha avó tomou conta deles. Connor tentava acalmar Sadie, que começara a fungar, e fitou Dina enquanto ambos deixavam o quarto e fechavam a porta. – Por que não me chamou? Eu poderia ter vindo para tomar conta deles. Céus! Já estava aqui. Na maldita varanda, imaginando você e os bebês mortos em uma vala no fim do mundo. Connor falava sério. Dina não sabia se ficava emocionada, se ria ou se demonstrava raiva. A risada venceu. Gargalhou e ficou contente ao ver a expressão dele se tornar cada vez mais sombria. – Quem você pensa que é? Meu pai? – brincou ela. – Não – retrucou ele. – Sou o pai dos trigêmeos, e você deveria ter respondido minhas chamadas. Fitando os olhos dele, Dina viu a preocupação por trás da raiva. Se a situação fosse inversa e ele tivesse saído com os trigêmeos sem que ela pudesse contatá-lo, também ficaria furiosa. E preocupada. E amedrontada. E sua imaginação a torturaria com imagens de acidentes de carro, raptos... Raios! Até de invasões de alienígenas! Talvez devesse ter atendido as chamadas de Connor, mas a verdade era que só deixava o aparelho ligado no trabalho no caso de uma emergência com os bebês. Do contrário, ficava focada em suas tarefas. E, francamente, cada vez que o celular tocara e ela vira o nome de Connor, se divertira não o atendendo. Ele era tão... dominador que poder frustrá-lo um pouquinho a fazia se sentir melhor. Porém, no momento, repensava essa atitude. – Certo, desculpe – admitiu de má vontade. – Deveria ter avisado que os bebês estavam bem. – Não estava apenas preocupado com eles – disse Connor, com a voz mais baixa e íntima.


Dina o fitou e, no lusco-fusco, os olhos azuis pareceram fantasmagóricos e fixos em seu rosto. Sentiuse atraída para ele, tanto que desviou o rosto de propósito e deu um passo atrás. Os bebês estavam acomodados e a babá-eletrônica fora ligada, e ela o conduziu para a sala. Precisava de mais espaço para respirar. Foi apertando todos os interruptores de luz no caminho para acabar com o clima de intimidade que se estabelecera, e rumou para a sala com ele nos seus calcanhares. Quando chegou, virou-se e o viu encostado no batente da porta. Tomou fôlego e disse: – Estou exausta, Connor. Podemos conversar uma outra hora? Ele respondeu com outra pergunta: – Por que não me pediu para tomar conta dos bebês? – Quer a resposta mais simples? Porque não me ocorreu. Uma grande frustração o dominou quando a fitou nos olhos e leu a verdade ali. Viu a fadiga e a postura defensiva que ela sempre adotava quando começavam a discutir, e isso foi quase o suficiente para que sua raiva desaparecesse. Nas últimas horas sentira-se impotente como nunca e não gostara disso. Estava acostumado a dar ordens e saber o que acontecia o tempo todo. Ignorar o paradeiro de seus filhos fora uma verdadeira tortura. Quando o carro de Dina surgira à entrada do bangalô, ele já estava com os nervos à flor da pele. Fora apenas a presença dos bebês adormecidos que impedira que perdesse a cabeça. Porém, a frustração íntima continuara. Dina não o chamara porque nem se lembrara dele. Precisara de ajuda e fora procurar a avó em vez dele. Porque ele não fazia parte de sua vida e da vida das crianças. Continuava do lado de fora e só ele poderia mudar essa situação. – Isso precisa acabar – disse sem emoção, congratulando-se intimamente por manter um rígido controle na voz. – Olhe, desculpe se ficou preocupado – murmurou ela –, mas estou cansada demais para ter esta discussão agora. Ele concordou solenemente. – Certo. Conversaremos pela manhã. – Está bem, ótimo. – Ela acenou para o vestíbulo e a porta da frente atrás dele. – Agora vou para a cama e você deve ir para sua casa. – Oh – exclamou Connor, reclinando-se de novo no batente da porta com uma displicência fingida. – Podemos conversar amanhã, porém não vou a lugar nenhum. – O quê? Os olhos cor de chocolate dela se arregalaram com indignação enquanto Connor sorria. Ele gostava da maneira como Dina ia da frieza ao calor em questão de segundos e desejava saber quão quente ficaria na sua cama. Por um ou dois segundos essa imagem escaldou seu cérebro e o impediu de falar. Quando retornou ao momento presente, Dina resmungava em voz baixa, tentando impedir que seu aborrecimento acordasse as crianças no quarto. – Acha que pode ficar na minha casa sem ser convidado? O que lhe dá esse direito? Nada. – Ela mesma respondeu sua pergunta antes que Connor pudesse abrir a boca. Dina relanceou um olhar para a babá-eletrônica que segurava enquanto o som de gritinhos irritados interrompia o silêncio na sala. Em breve os bebês poderiam estar acordados e berrando, e essa conversa – se é que era uma conversa – precisava acabar. Então Connor tratou de acabar primeiro.


Sem pensar, ele apenas se guiou pelo instinto, cedendo ao desejo que o atormentava desde que pusera os olhos sobre Dina. Afastando-se da porta, ele a agarrou, puxou-a para si e a beijou. Assim que suas bocas se encontraram, o calor os dominou, sensações jamais experimentadas o invadiram e Connor só conseguia se agarrar a ela, os braços passados pelo seu corpo até mantê-la imóvel. Dina passou de espantada a encantada em um piscar de olhos. Como se também estivesse sendo consumida pelas chamas do desejo, passou os braços pelo pescoço dele e o abraçou com força. Beijaram-se sem parar, a respiração entrecortada. As luzes fortes na sala não atrapalhavam sua intimidade. O cérebro de Connor parecia ferver, e seu órgão estava rígido de desejo. Quanto mais beijava Dina, mais desejava beijá-la. Ela suspirava de encontro ao seu peito e isso o excitava ainda mais a ponto de querer atirá-la no chão e possuí-la sem espera. Não, disse a si mesmo. Quando chegasse a esse ponto deveriam estar em uma cama. Com privacidade. E descobrir o que os atraía tanto um no outro. Quando registrou esse pensamento, interrompeu o beijo, deu um passo atrás e a viu oscilar e lutar para ficar ereta. Respirando com força, ele disse com voz trêmula: – Ficarei aqui esta noite. Ela balançou a cabeça. – Não vamos... – Vou dormir no sofá. Você está exausta e se os bebês chorarem poderei ajudar. Ela o encarou e provavelmente percebeu que Connor não mudaria de ideia. Sentindo a tensão no ar, resolveu concordar com o inevitável. – Isso não terminou – avisou Connor, sabendo que ela entenderia a que se referia. – E você dorme aqui só esta noite – retrucou ela, passando por ele, se dirigindo para seu quarto e fechando a porta. Sozinho, Connor passou a mão pelos cabelos. Caminhou até o pequeno sofá e o fitou com tristeza. Seria uma noite miserável. DURANTE A longa noite insone Connor teve tempo de pensar. E bisbilhotar um pouco. Talvez tivesse ido longe demais ao mexer no laptop de Dina, mas ela não tinha uma senha de proteção. Connor tratara de dizer a si mesmo que os trigêmeos lhe davam todos os motivos para invadir um pouco a privacidade dela. Exatamente como os advogados o haviam informado, a empresa dela estava passando por dificuldades em uma espiral cada vez mais veloz motivada pelas dívidas. Investigou seus arquivos para descobrir que Dina estava usando sua modesta poupança bancária para ajudar na receita, e isso não duraria muito tempo. Conclusão? Dina Cortez não estava em condições de criar três crianças pequenas, e ele podia se valer dessa informação em proveito próprio. Já mudara as fraldas e vestira os bebês, quando ela entrou no quarto infantil logo cedo pela manhã. Bastou um olhar para perceber que ela também não dormira bem. – Já de pé? – perguntou Dina. Connor deu de ombros e acabou de ajeitar a camisa de Sam. – Na verdade, não dormi. – Fitou-a de esguelha. – Muitas coisas para pensar.


Ela respirou fundo e Connor soube que andara pensando no beijo e no que viria a seguir. Raios! Esse tipo de pensamento o atormentara a noite toda também. Saber que ela estava ali perto e que o receberia com prazer no seu quarto... Connor tivera que ser muito forte para resistir. Porém, a conclusão era que não estava ali por causa da atração e do desejo que sentia por Dina. Estava ali por causa das crianças, que vinham em primeiro lugar. Se tivesse um caso com Dina, tudo se complicaria. Melhor resolver a situação ali antes de passar para o que esperava dela. Respirou fundo e disse: – Além disso, aquele sofá parece um instrumento de tortura. – Bem, não foi feito para dormir – admitiu ela. – Principalmente alguém tão alto quanto você. – Sem dúvida. – Ele ergueu Sam do trocador, deu um beijo no bebê e o colocou no chão junto do irmão e da irmã. – Então, já que os trigêmeos estão vestidos e prontos para o novo dia, que tal lhes dar comida para depois termos aquela conversa? – Preciso de um café. – Vou encarar como um sim – disse Connor, segurando dois bebês, um em cada braço, e deixando Sam para Dina. Depois, rumou para a cozinha. A cozinha estava iluminada pelo sol e logo o som alegre dos bebês repercutiu ali. Apesar do cansaço, Connor e Dina trabalharam juntos para preparar a mistura de leite, aveia e bananas. Enquanto alimentava os trigêmeos, Connor a fitou e disse: – A noite passada me fez pensar que as coisas precisam mudar. – Que coisas? A preocupação na voz dela era evidente. – Tudo nesta situação. Você. Eu. Os trigêmeos. Do jeito como as coisas estão agora, nada está funcionando para mim. Ela suspirou e balançou a cabeça. – Você nos conhece há poucos dias. Precisa ser mais paciente. – Paciência não faz parte da minha natureza. – Estou percebendo – murmurou ela. – De qualquer modo, já se passou tempo suficiente para uma tomada de decisão. – Ele colocou mais banana com aveia na colher e ofereceu para Sadie, que abriu a boca de boa vontade como se fosse um passarinho. – Por exemplo. Sua empresa... por que fornecer bufês? – O quê? Oh... Tive um negócio de food truck, servindo refeições rápidas no caminhão. Tudo ia muito bem. – Ela sorriu ao lembrar. – Tão bem, na verdade, que vendi o caminhão para o meu primo Raul. Passei para o ramo de bufês pensando que podia usar minha experiência para alcançar minha verdadeira meta... Abrir meu próprio restaurante. – Ótima meta, mas difícil de conquistar quando sua empresa está afundando. – Como disse? – Ela parou com a colher cheia a meio caminho da boca de Sage. O garotinho berrou e ergueu no ar as duas mãos impacientes. – Desculpe, bebê – murmurou Dina, e o alimentou antes de se virar para Connor. – Como sabe sobre minha empresa? Ele não podia culpá-la por ficar furiosa, mas não pediria desculpas por fazer o necessário a fim de cuidar de seus filhos. E, se isso fosse deixar seu relacionamento ainda mais tenso por algum tempo, tudo bem. Connor já provara seus lábios e a abraçara, e não iria desistir agora. Sabia que eventualmente teria seus trigêmeos e Dina também. Porém, pelo momento, apenas disse:


– Em primeiro lugar, meus advogados colocaram um detetive... – Você mandou me investigar? Ele aquiesceu com um gesto de cabeça, ignorando a expressão chocada no rosto de Dina, e soube que tudo pioraria. – E, mais ainda, remexi nas suas contas ontem à noite. – Você fez o quê? – A voz dela adquiriu um tom tão frio que o fez gelar por dentro. Dina lançou um olhar para seu laptop sobre o balcão, e o fitou de novo. – Abriu meus arquivos? – Sim. E, se espera uma desculpa, desista. – Ele sustentou seu olhar e não recuou diante do brilho de puro ódio que o açoitava. Os olhos cor de chocolate de Dina ferviam em contraste com a frieza de sua voz. – Dina, você está tomando conta dos meus filhos, e eu precisava me assegurar que pode fazer isso direito. Descobri que não pode. – Verdade? Pois tenho conseguido perfeitamente até agora. Os bebês estão bem e você sabe disso. São bem alimentados, se sentem felizes e amados. – Ela ergueu os ombros e o queixo. – Nós quatro vamos muito bem. Se quiser pagar uma mesada para o sustento das crianças, ficarei contente em receber. Mas não preciso de sua ajuda para dirigir minha empresa ou nossas vidas. Connor admirava o orgulho dela apesar de negar. Mas ter orgulho era uma coisa, ser teimosa e não encarar a verdade era outra. – É claro que precisa de minha ajuda e sabe disso. Foi por isso que me contatou. Não se trata apenas de dinheiro e sabe disso também, Dina. Está se matando ao tentar fazer tudo sozinha. Tem muitas dívidas, e não consegue um trabalho realmente rendoso desde que os trigêmeos chegaram à sua vida. Ela corou, novamente não por constrangimento, mas de raiva. – Admito que meus negócios sofreram um pouco quando os bebês chegaram. Precisei recusar contratos e passar a maior parte do tempo com eles. As crianças estavam traumatizadas... e você não sabe disso porque não estava aqui... por terem perdido as mães e seu lar. Levei semanas para impor uma rotina de novo e deixá-las seguras. Fitou Connor com seus olhos cativantes. – Fui eu quem mantive a situação sob rédeas curtas. E os bebês eram minha prioridade. Lamento que pense que minha empresa não vai bem das pernas. – Respirou fundo. – Agora que os bebês estão acomodados, voltei a disputar trabalhos, e... – Festas modestas de aniversário e de casamento – cortou ele, terminando a frase por ela. – Não são exatamente trabalhos muito bem remunerados. Abaixando o rosto, ela serviu outra colherada para Sage, que continuava esperando. – Nenhum trabalho é insignificante demais – falou com severidade. – Além disso, o boca a boca funciona, e uma festa leva a outra. Bufês dependem muito disso, e... – Admita, Dina. É uma náufraga se agarrando a uma tora e tentando permanecer na superfície. – Quer parar de me interromper? – Admita – insistiu ele. – Nesse passo, jamais realizará seu sonho de abrir um restaurante. Raios! Terá sorte se mantiver a empresa aberta até o fim do ano. E quando ela fechar? O que fará? Qual seu Plano B? Por acaso tem um? Connor a observou e percebeu que ela não tinha como argumentar, mas que ainda assim iria teimar. – Essas crianças jamais sofrerão – prometeu ela, fitando-o e esperando que ele acreditasse nisso. – Não importa o que eu tenha que fazer.


– Sei que não sofrerão – disse ele com calma, colocando mais bananas amassadas nas tigelas dos bebês. Esperou que ela lhe desse atenção e prosseguiu: – Eu lhe darei 250 mil dólares para me passar a custódia dos trigêmeos. Agora. Hoje. Ele viu confusão e fúria nos olhos dela logo antes de Dina explodir em um rompante de ódio. – Como ousa me oferecer dinheiro? Acha que pode me comprar? Que eu venderia minha família? Dina se levantou devagar como se sentisse dor pelo corpo todo enquanto os bebês a observavam com curiosidade. Não choravam porque, mesmo com raiva, Dina mantinha a voz em um sussurro. Mas de certa forma para Connor, isso era mais ameaçador que gritos. – Aceite e abra o restaurante que deseja tanto. Realize seu sonho. Estou lhe dando a oportunidade de sair do buraco financeiro em que se encontra. – Devo realizar meus sonhos vendendo os bebês? Julga-me tão baixa assim? – De jeito nenhum – retrucou ele com calma, se recusando a ficar com raiva também. – Mas acho que é esperta e inteligente o suficiente para reconhecer uma verdadeira oportunidade quando ela se apresenta. Ela sufocou uma risada. – Acha que quero seu dinheiro para mim? Ele deu de ombros. – Foi você quem me processou pedindo ajuda financeira. – Para eles – replicou ela. – Não para mim. Deus, você é incrível. Porque pedi ajuda para as crianças isso significa que desejo ser comprada? Ele tornou a dar de ombros sem dizer nada, mas estava satisfeito com a reação dela, embora surpreso. Nem todos recusariam um quarto de milhão de dólares sem pelo menos pensar primeiro. – Vocês, milionários, são todos iguais. O mundo gira em torno do dinheiro. Bem, talvez no seu universo, mas não aqui. Nada quero de você. Abrirei meu próprio caminho, como sempre fiz. E minha empresa é exatamente isso... minha empresa. – Sua empresa – argumentou ele, enquanto se levantava devagar e apoiava as mãos na mesa da cozinha – se tornou minha quando você se tornou guardiã dos meus filhos. Deixaria que ela esperneasse à vontade, mas a faria entender mesmo que levasse a vida toda. – O que me interessa são as crianças. Meus filhos. Não são seus. – Você foi o doador de esperma – resmungou ela. – Não é pai de verdade. Ele ficou imóvel. As palavras eram como chicotadas e pairaram no ar como um escárnio grotesco. – Não precisa me dizer isso – retrucou Connor em voz baixa e dura. – Sabe o que Jackie e sua irmã fizeram comigo. Conhece a verdade. Elas me impediram de ser um pai de verdade. Ela cerrou os dentes e replicou: – Certo. Tem razão. Sobre isso pelo menos. Não deveria ter dito o que disse, mas não tem razão sobre o resto. Nada quero de você, Connor. – Então é a primeira mulher a não querer. Qual é o seu plano? – O que quer dizer? – Raiva e confusão a dominavam. – Toda mulher que já conheci tentou me usar... meu nome, meu dinheiro, minha família. – Iria fazêla entender quem mandava ali. – Não gosta de homens ricos? Bem, gostaria que todos que se aproximassem de você o fizessem por interesse? Jackie – prosseguiu – foi a única que não tentou me usar. – Engoliu em seco. – E, no final, ela... e sua irmã... me usaram também.


Não pretendia ter revelado tanto sobre a própria vida. A conversa era sobre Dina, sua empresa falida e o bem-estar das crianças. Após um segundo, ela disse: – Bem, não sou como as outras. – Sim, rejeitou meu dinheiro. Contudo, quem sabe, tenha sido para obter mais. – Ele mesmo não acreditava nisso, porém ficou feliz ao vê-la estreitar os olhos. – É melhor você ir embora. – Não – replicou ele. Fitou os bebês, que acompanhavam a conversa dos dois com as carinhas preocupadas, e tratou de engolir a raiva. Não iria traumatizar as crianças. – Mas faremos o seguinte. Você e os trigêmeos irão se mudar para minha casa... hoje mesmo. – Deve estar brincando. – Não. É sério. – Ele apoiou as mãos na mesa. – Não vou sumir da vida dos meus filhos. Não serei o último em quem irá pensar quando precisar de ajuda para tomar conta deles. E, o mais importante, não dormirei outra vez naquela armadilha que você chama de sofá. – Não pode tomar uma decisão dessas e esperar que eu... – Não foi você quem acabou de dizer que iria cuidar dos bebês de qualquer maneira? – Sim, mas não me referi a isso. Ele ergueu a mão, pedindo silêncio. – Sua casa é muito pequena para todos nós. – Não foi convidado a ficar aqui. – Sou o pai. Eles ficam comigo. Sua casa é do tamanho do meu closet. – Connor cruzou os braços sobre o peito. – E você não será comprada... atitude que admiro. – Uau. – Dina inclinou a cabeça e o fitou. – Obrigada. Ele ignorou o sarcasmo. – Você quer os trigêmeos, eu também, então a resposta é ficarmos os dois com eles. Não pode ser aqui, então minha casa é a solução lógica. – Essa situação só tem a ver com lógica? E como essa nova vida irá nos afetar? – perguntou ela. – Está se referindo ao beijo de ontem? – disse ele sem rodeios. – Não, falo do que espera depois do beijo. Insultado por perceber que ela pensava que a desejava com as crianças em sua casa apenas para levála para a cama, Connor ficou sério. – Relaxe. Terá sua própria suíte. Não preciso usar armadilhas para levar as mulheres para a cama ou forçá-las. Elas vêm de boa vontade. – Não irei – disse Dina, com os dentes tão apertados que mal conseguia falar. – Mas você correspondeu ao beijo – lembrou ele. – Acredite, não serei mais uma na legião de mulheres em sua cama. – Nunca diga nunca. – Jamais farei isso. – Mas irá se mudar para minha casa. É racional o suficiente para perceber que tenho razão. Dina fitou os meninos com os rostinhos manchados de banana e Connor percebeu que cederia. – Está bem – disse ela por fim. – Iremos. Temporariamente. – O que quer dizer? – Terá que descobrir.


Connor sorriu. Uma vez que os trigêmeos estivessem sob seu teto, não partiriam mais. Se Dina ficaria ou não dependeria dela, porém de uma coisa ele tinha certeza: apesar de seus protestos, ele a levaria para a cama.


CAPÍTULO 6

– É UM erro – resmungou Dina. A avó ergueu os olhos das roupas de bebê que embalava e estalou a língua. – Seja positiva. Não é a atitude certa a tomar. – E existe outra? – Dina estava tensa e com dor de cabeça, sem dúvida por causa da conversa com Connor e da mudança apressada que seria obviamente um desastre. – Morar com Connor King? Mesmo temporariamente? Péssimo. Estava preocupada. Desde que ele a beijara sentia-se vulnerável. Mudar-se para sua casa, dormir em um quarto perto dele... isso não iria acabar bem. Porque, além de irritante, Connor era tentador. E isso sem levar em consideração os trigêmeos. Connor estava conseguindo... por falta de palavras melhores ... tomar posse dos bebês. Sem dúvida isso era importante, caso ele pedisse a custódia. Qualquer juiz no mundo deixaria as crianças em um lar palaciano cuidadas por um bilionário que podia pagar um exército de babás em vez de entregá-las para a dona de um serviço de bufê que morava em um bangalô alugado e pequeno demais para uma pessoa, imagine para quatro. – Oh, meu Deus. A avó tornou a estalar a língua e Dina fez uma careta. – Essa é a oportunidade de conhecer o pai das crianças que ama – explicou a senhora. – Use-a. Aprenda o que puder. – Quer dizer, para usar contra ele mais tarde? – Dina bateu com o dedo no queixo enquanto refletia. Não podia se arriscar permitindo que Connor tomasse o controle. No cenário atual iria morar na casa dele, compartilhar os bebês com ele e lhe dar mais munição para ficar com a custódia. Precisava entrar nisso pronta para se defender em caso de necessidade. – Não – respondeu a avó com um suspiro. – Quero dizer conhecer Connor King melhor. Vocês dois estão agora presos por causa dos trigêmeos. Não acha mais inteligente conhecê-lo em vez de presumir o pior e ficar agressiva? Dina resmungou e sentou na cama com as mãos no regaço. – Detesto quando você é racional. A senhora soltou uma breve risada e retornou ao trabalho de dobrar as minúsculas camisetas e calças.


– Também não está pronta para admitir que ele tem razão, não é? – Ele não tem razão. Sobre o quê? – Sobre esta casa. É pequena demais para você e os trigêmeos, que crescem depressa. Sabe disso, Dina. Só não quer ouvir. Verdade. O bangalô dava claustrofobia. Ela o alugara três anos atrás. Um modo de economizar dinheiro – já que na época o aluguel era barato – para comprar sua casa própria. Com a empresa indo bem, não levaria muito tempo para poder adquirir algo em um condomínio. Abrira uma conta poupança, inaugurara seu negócio com a certeza de que seus planos teriam sucesso. Mas então os bebês chegaram, o aluguel aumentara, sua empresa começara a dar prejuízo, e ela ficara atolada. Quando Connor dissera que seu negócio estava afundando e levando consigo o sonho do restaurante, tocara no ponto nevrálgico. Talvez sua avó estivesse certa. Ainda teria que pagar o aluguel do bangalô enquanto morasse com Connor apenas para se garantir, caso o plano dele não desse certo. Porém, tudo o mais poderia se encaminhar a favor dela. Despesas com fraldas, comida e babá seriam responsabilidade dele, e quem sabe ela poderia voltar a economizar e reconstruir suas finanças. – Certo. Iremos morar com ele. Por um tempo – declarou. – Ótimo. E com atitude positiva. – Oh, estou positiva que isso irá explodir no meu rosto. Isso conta? – Não – replicou a avó. – Qual é o verdadeiro problema, nieta? Dina franziu a testa e tentou limpar uma nódoa de comida de bebê na barra do seu short branco. – Connor King é muito poderoso – disse por fim, em um sussurro aborrecido. – É lindo, mandão e rico. – E você se preocupa pelo que aconteceu com sua mãe – concluiu a avó. Dina fitou a senhora com olhar de desculpas. Helen não fora o tipo de mãe ideal para ela, porém também era a filha de Angelica, e Dina se sentia culpada por lembrar a avó de sua perda. – Desculpe. Mas viu o que aconteceu com mamãe. Envolvia-se com homens mandões e depois se encolhia diante de tudo que eles queriam. Viveu perdida tentando ser quem não era. Angelica respirou fundo, sentou ao lado da neta e segurou sua mão. – Amava sua mãe, mas ela nunca foi uma mulher forte. Sempre teve dúvidas sobre sua própria personalidade. Minha filha procurava os homens como uma resposta para suas inseguranças, e esse foi seu erro, mas você não é assim. Dina encarou a avó, que prosseguiu com doçura: – Preocupa-se sem motivo. Possui uma força que ela nunca teve. É confiante onde sua mãe hesitava. E a força em um homem não é ruim. Apenas a fraqueza não vale. E você não é fraca. Dina queria acreditar nisso, porém seu nível de confiança estava muito baixo no momento. Viver na casa de Connor e vê-lo o tempo todo seria uma tentação que sempre desejara evitar. E isso a deixava ainda mais insegura. – Agora – disse a avó, se levantando –, ajude-me a empacotar as coisas dos niños. É hora de enfrentar seus medos e dominá-los. – Certo. – Dina também se levantou e olhou para a pilha de roupinhas que ainda deviam ser dobradas. Enquanto trabalhava, pensou que Connor King não seria fácil de dominar.


NATURALMENTE, A casa dele era fantástica. Em meio a jardins luxuriantes e gramados verdes, parecia uma casa de fazenda feita de tijolos, pedras e vidro. Dina ficou sem fala quando cruzou as portas duplas da entrada. Admirou o assoalho de tábuas polidas, a mobília bonita e as pinturas nas paredes, além da lareira de mármore cinza que dominava um canto do enorme salão principal. Deixaram as crianças brincar ali e Dina pôde apreciar cada detalhe à sua volta. Sofás macios convidavam silenciosamente para se enroscar ali e relaxar. Livros e revistas estavam arrumados em pilhas sobre as mesas de carvalho, e portas francesas se abriam para um pátio de pedras que se abriam para um gramado de frente para o oceano. Uma parede era toda de vidro, fornecendo um cenário de tirar o fôlego, em especial naquele momento, quando o pôr do sol surgia sobre o mar, formando um lastro dourado e vermelho no céu cor-de-rosa e violeta. Dina viu tudo em silêncio, desejando não parecer uma camponesa convidada a ir ao palácio do rei. A casa toda cheirava a flores frescas e limão por causa dos móveis polidos. E, embora detestasse admitir, seu bangalô caberia inteiro naquela sala. Os trigêmeos estavam aos seus pés sobre um tapete enorme. Dina refletiu que possivelmente custara mais que o carro dela. Estavam rodeados de brinquedos novos em folha e alguns tiveram que ser retirados das caixas. Dois sofás de couro marrom ficavam em frente um do outro com uma mesa no centro. Poltronas em vários tons de verde e azul estavam espalhadas pelo salão, de modo a facilitar as conversas, e a parede de vidro parecia incorporar o lado de fora ao interior. A governanta chamada Louise, de cerca de 50 anos, cabelos grisalhos e brilhantes olhos azuis, trouxe chá gelado para Dina e Connor, além de biscoitos e leite para as crianças. Tudo perfeito. Raios! – Acha que vai suportar ficar aqui? Ela se virou para olhar Connor escarrapachado em um dos sofás e parecendo exatamente o que era... o senhor do castelo. – Está se divertindo com a situação, não é? – retrucou ela. – Estou confortável. Depois de ter dormido no seu sofá, sem dúvida. Ela não podia culpá-lo. – Sua casa é linda. Ele soltou uma breve risada. – E isso a aborrece, não? – Muito – admitiu Dina. – Esperava que você morasse em um lugar sem alma repleto de paredes, móveis e tapetes brancos... um pesadelo moderno e frio. – Oh, tome cuidado. Acabou de descrever a casa do meu irmão Colt. – Sério? Connor deu de ombros. – Jamais gostei dela. Muito fria para o meu gosto, mas ele gostava do estilo clean. Graças a Deus sua esposa e filhos estão tratando de deixar tudo mais doméstico e aconchegante. – Sim, mas saiba que me senti manipulada para vir para cá, e não gosto disso. – Manipulei mesmo e você não precisa gostar. – Connor bateu com as mãos nos joelhos. – Quero meus filhos, Dina. E você vem no pacote. – Pelo momento – completou ela.


O que aconteceria depois? Dali a duas, três semanas? Quanto mais ela e os bebês ficassem naquela casa, mais a situação de Connor se consolidaria para ganhar a custódia. Dina não era idiota, e sabia que era isso que ele queria. A dor a invadiu, mas ela tratou de afastá-la depressa e raciocinar. Sempre pensava que Connor tinha as rédeas nas mãos, e de várias maneiras isso era verdade. Entretanto, viver o tempo todo com três bebês que exigiam enorme atenção era algo novo para ele. Sorriu ao pensar que isso poderia favorecê-la. Sabia que Connor desejara apenas ser um pai de meio período antes de Jackie e Elena morrerem. Agora era o senso de dever e a honra – e o conhecimento de que fora enganado – que o motivavam para ficar com as crianças. Porém, o que aconteceria se percebesse que não desejava isso? E se a rotina cansativa do dia a dia com três bebês demonstrasse que ele não estava pronto para ser pai? Então tudo resultaria na melhor coisa que ela fizera. Morar ali e deixar que ele assumisse o controle sobre os bebês provaria definitivamente que eles estavam em melhor situação com ela. Pela primeira vez em muito tempo relaxou. – Por que está sorrindo? – perguntou ele de modo suspeito. – Por nada. – Dina estremeceu por dentro, constrangida como sempre ultimamente. O beijo ainda a assombrava. Nunca um homem a deixara ansiosa antes. Fitou os olhos azuis e frios dele e se convenceu de que era um homem perigoso. Não apenas por causa da guarda das crianças, mas por causa dela também. – Louise já preparou seu quarto – avisou ele. – Fica no andar de cima junto ao quarto dos bebês. O meu fica do outro lado do corredor. – Conveniente – murmurou ela. – É mesmo, não? O que há, Dina? Não confia em si mesma quando está comigo? Não confiava, porém ela não podia admitir isso. – Creio que posso me conter – murmurou Dina, segurando Sadie. – Quer apostar? – Connor pegou sorrindo os outros dois bebês. Oh, isso não era nada bom, pensou Dina. UMA SEMANA mais tarde, Connor estava com os nervos à flor da pele. Quem poderia adivinhar que três bebês tomariam uma casa de assalto e a dominariam em tão pouco tempo? Todos os ambientes precisavam ser arrumados constantemente. Os brinquedos estavam por todos os cantos, canecas ficavam esquecidas debaixo de sofás, e a metade de suas camisas estava manchada. O trio era uma força da natureza. Connor estava exausto. E não eram apenas os trigêmeos que o esgotavam. Era o conhecimento de que Dina dormia do outro lado do corredor todas as noites. Ele a imaginava nua tomando banho, estirada na cama de colunas e sem nada além de um sorriso de boas-vindas para recebê-lo. Lembrava muito bem o sabor de sua boca e e seu cheiro. O modo como ela ria para os bebês ou como os amava. Ela ocupava grande parte do pobre cérebro cansado de Connor, que tinha certeza que ela sabia de seu sofrimento... e estava se divertindo com isso. Raios! Dina mal erguera um dedo para tomar conta dos pequenos desde que se mudara. Ficara à sombra, dizendo que ele devia conhecer melhor seus filhos. Deixava que desse banho e alimentasse o


trio. Ficava olhando enquanto Connor perseguia os bebês todas as manhãs a fim de vesti-los. E ria sempre que um escapava. Por tudo isso Connor tinha certeza de que Dina esperava vê-lo falhar, erguer a bandeira branca e desistir da custódia alegando trabalho demais ou qualquer outra tolice. Mas ela iria se frustrar. Não mudara de ideia, mas, pelo contrário, estava cada vez mais decidido. As crianças pertenciam àquela casa e ele faria de tudo para que elas ficassem. O problema era como lidar com Dina. – Ela disse não, certo? – O quê? Quem? Oh. Sim. – Connor olhou para Colt. A fumaça da churrasqueira no pátio subia com o vento marítimo, e o aroma de hambúrgueres enchia o ar. Um churrasco em família fora ideia de Penny. A esposa de Colt queria conhecer Dina e os trigêmeos. – Está se referindo à minha oferta para comprá-la? – Riu com tristeza ao lembrar da expressão ultrajada de Dina. – Sim, ela disse não, e mais algumas coisas. – Avisei que não daria certo – lembrou Colt, tomando um gole de cerveja. – Obrigado. Ouvir avisei que não daria certo sempre ajuda muito. Colt o ignorou. – Então já sabe o que fazer daqui em diante? – Sim. – Connor pegou a espátula e virou a carne na grelha. A gordura pingou no carvão e as chamas subiram. – Deveria comprar uma grelha a gás – sugeriu Colt. – Gosto de carvão – contrariou Connor. – Rafe e sua equipe virão na próxima semana para mostrar o esboço da planta da nova suíte dos trigêmeos. – E Dina sabe disso? – Ainda não, mas por que se importaria? – Oh, não sei, talvez porque ache que a mudança para cá seja temporária e você a está tornando permanente? – Colt estreitou os olhos. – O que se passa na sua cabeça? – Tenho planos. Admito que tomar conta dos trigêmeos é mais difícil do que pensava. – Se bem me lembro, debochou quando isso aconteceu comigo. Foi a vez de Connor o ignorar. – Meus planos no momento são conhecer melhor meus filhos, fazer meu advogado estudar a questão da custódia, e ir à Irlanda. – Vai levar Dina e os bebês? – Por que não? – falou Connor casualmente, mas na verdade precisava viajar e não gostava da ideia de deixar Dina e os bebês para trás durante uma semana. E se recusava a pensar por quê. – Dina já tem passaporte e pedirei ao despachante para conseguir o dos bebês. Iremos visitar o primo Jefferson e sua família e ficar no Castelo Ashford. Três ou quatro dias no máximo e voltaremos para a Califórnia. – Quando o irmão o fitou intensamente, ele prosseguiu: – Não imagine mais do que existe. Vou levar Dina e os bebês, e isso é tudo. – Sim. – Colt acenou para onde estavam as mulheres e as crianças. – E Dina é muito interessante. – Não é da sua conta – retrucou Connor, retirando as carnes da churrasqueira. – Hora do almoço.


– NÃO ME contou que você e seu irmão eram gêmeos idênticos – disse Dina mais tarde, quando Colt e a família haviam partido. – Existem diferenças – disse Connor. – Eu sou o bonito. Ela riu. Na última semana andava menos tensa ao lado dele. Menos preocupada. E isso em si já deveria ser motivo de preocupação; porém, no momento, não queria estragar o clima ficando ansiosa. Com os trigêmeos na cama e a governanta em seu quarto nos fundos da casa, Connor e Dina estavam sozinhos, o pátio estava silencioso e o som das ondas quebrando nos rochedos era calmante. Sentaram-se com seus copos de vinho. – A esposa de Colt é maravilhosa – comentou Dina. – Sabe que está redecorando toda a casa? – Sim. Nosso primo Rafe da King Construções também é loucamente apaixonado por ela – brincou Connor. – Penny resolveu mudar tanta coisa que a obra se tornou um projeto enorme e manterá Rafe e sua equipe ocupados por meses. – Ela me falou sobre a casa. Aquela branca na colina que mais parece uma caixa de sapatos com janelas? – Bastara um olhar para Dina detestar a casa. Penny confessara que sentira o mesmo quando a vira pela primeira vez. Porém, iria transformá-la em estilo espanhol e, quando Penny terminasse, Dina tinha certeza de que seria uma residência linda. – Penny também me contou que em breve Rafe dará um tempo na reforma de sua casa para fazer um trabalho para você. – Contou? – Sim. Pretende construir uma suíte para os bebês, mas não me disse nada. Quando Penny lhe falara sobre o projeto da suíte dos bebês, Dina entrara em pânico. Para Connor, a estada dos filhos ali não seria temporária. – Ia lhe contar – disse ele. – Vai mesmo insistir em me tomar a custódia dos trigêmeos, não é? – Jamais fiz segredo de que quero ficar com meus filhos, Dina. – Sei disso. – Ela virou o rosto para a lua cheia que surgia no céu escuro acima do mar prateado. – Mas também os quero comigo, Connor. Ele se levantou e a fez levantar também, segurando sua mão. Dina estava descalça e sentiu os ladrilhos frios sob os pés. Segurando-a pelos braços, ele a fitou, e uma onda de desejo selvagem e quente a envolveu. – Não vai querer lutar contra mim, Dina. Perderia. – Se não lutar não terei nenhuma chance de vencer – retrucou ela, se felicitando por manter a voz firme apesar dos tremores que sentia. O vento os envolveu em um abraço frio, os cabelos de Dina esconderam seus olhos e Connor os afastou para trás, sentindo a maciez das mechas entre os dedos. – Não precisamos ser inimigos – murmurou. – Encontraremos um meio de lidarmos juntos com a questão. – Não vejo como – replicou ela, fitando seus olhos azuis que pareciam brilhar mais no escuro. – É um começo – murmurou ele, beijando-a de novo. Dina se dissolveu em seus braços, apertando o corpo ao dele e sentindo a prova viva e rija de que ele a desejava. Seu coração bateu mais forte e seu cérebro parou de funcionar. Passaria toda a vida tentando evitar as sensações que sentia agora e que a faziam ceder. Precisava parar com aquilo. Ser racional. Lógica. Manter a cabeça fria. Mas desistiu.


Deixou que as emoções a dominassem e permitiu que a levassem em um turbilhão apenas por causa do beijo de um homem que fazia seus joelhos amolecerem. Sempre soubera que com Connor um beijo só não seria o suficiente. E quando Connor se afastou, quebrando o contato, ela soube que dois beijos também não seriam o suficiente. Estava descendo um barranco íngreme, mas não havia como voltar atrás agora. Ele segurou seu rosto entre as mãos e sorriu. O único consolo de Dina era perceber que Connor estava tão abalado quanto ela. – O que estamos fazendo, Connor? – No momento? – Ele riu, ergueu seu queixo e plantou um beijo em sua boca. – Estou dando boanoite enquanto ainda guardo um pouco de cavalheirismo para deixá-la se afastar de mim. – Não foi isso que quis dizer. – Eu sei. – Connor deu um passo atrás, se afastando dela. – Dina, desejo você mais do que já desejei outra mulher, então vou lhe dar um aviso honesto. Parta agora, ou acorde amanhã na minha cama. Um calor intenso a dominou, e ela respirou mais forte. – Não vou dormir com você, Connor. – Mas está prestes a fazer isso – retrucou ele com secura. – E não me referi a dormir. Dina se sentiu como se fosse pegar fogo ali no pátio naquele exato minuto, e o engraçado era que bastara ele alertar para fazê-la desejá-lo ainda mais. Que comportamento pervertido era esse? – Connor... – Faça um favor a nós dois e vá se deitar, está bem? – Ele passou a mão na nuca e depois ficou rígido. – Certo. Irei. Mas ela mal dera alguns passos, e a voz dele a deteve. – Oh, sim, antes que me esqueça, vamos para a Irlanda dentro de alguns dias, caso deseje providenciar alguma coisa antes de partir. – Irlanda?


CAPÍTULO 7

DINA ESTAVA sendo tratada como uma princesa. E se sentia uma fraude. Céus, passara na frente de centenas de pessoas em fila nos outros terminais, e fora levada até um jato que estava praticamente vazio. Então descobrira que voar em um KingJet era uma experiência muito diferente de voar na classe turística de uma linha aérea comum. O KingJet possuía poltronas confortáveis de couro, um bar e três berços presos ao chão da aeronave para acomodar os trigêmeos adormecidos. Havia tanto espaço ali até para dançar, e um banheiro... com chuveiro... tão luxuoso como o resto do avião. Durante o longo voo para a Irlanda, Dina relaxara assistindo a filmes em uma enorme tela, enquanto Connor trabalhava sem descanso. Assim que desembarcaram, passaram de novo pela alfândega sem precisar esperar como os demais seres humanos no planeta, e foram levados a uma limusine com motorista de uniforme. O percurso do aeroporto de Shannon para o Castelo Ashford levou uma hora e meia, porém Dina estava tão ocupada com os trigêmeos e admirando a vista pela janela que mal notou o tempo passar. Ainda no dia anterior estivera em casa, lutando para trabalhar... e agora estava na Europa. Infelizmente, não tivera muito tempo para se preparar para essa viagem. E, como não tinha nenhum trabalho novo agendado, não tivera uma desculpa para deixar de viajar. E agora, enquanto apreciava o lindo interior da Irlanda pela janela do carro, se sentia contente por ter vindo. Connor já conhecia a Irlanda e estava gostando de bancar o guia. – Dentro de dois dias iremos para Cong e daremos um passeio com os meninos por lá. – Está bem. – Ela sorriu. – O que é Cong? Ele riu. – Um vilarejo irlandês lindo onde filmaram Depois do Vendaval. Conhece? O filme de John Wayne? – Adoro esse filme – disse Dina. – Eu também. Ergueram uma estátua sobre o filme ali. E podemos visitar uma réplica perfeita do chalé que usaram. Há belas lojas, bons restaurantes e cervejarias. Você vai gostar. Dina tinha certeza de que sim. Apenas não sabia por que Connor se interessava se iria gostar ou não. Porém, a pergunta ficou sem resposta, pois logo a limusine enveredou por um atalho onde, no final, se encontrava o castelo transformado em hotel.


Quando o carro parou, Dina se sentiu em um conto de fadas. O castelo era fantástico, com pedras cinzentas e antigas, trepadeiras, canteiros magníficos com flores multicoloridas e bosques. Havia uma fonte no centro do pátio e um lago em frente ao castelo; o sol brilhava na superfície como milhares de diamantes. Dina ficou parada e girou o corpo devagar tentando assimilar tudo, mas não conseguiu. Levaria meses para apreciar o cenário completo. Entretanto, jamais vira tantos tons de verde. Ficar parada ali era como estar dentro de uma esmeralda e apreciar o sol entre as sombras... o clima era frio e quente ao mesmo tempo. – É um dia raro de junho na Irlanda – disse Connor. – Em geral, o céu está cinzento, o vento, frio, e chove. – Connor soltou uma breve risada. – O sol está brilhando hoje em sua homenagem. Ela riu, deliciada com a ideia, embora fosse ridícula. Depois balançou a cabeça e, sem falar, fitou o castelo com suas ameias, pensando que ainda devia haver fantasmas ali. – Gostou? – Oh, sem dúvida – admitiu ela. – É o castelo mais antigo da Irlanda, e isso é importante. Creio que data do século XIII. – E continua de pé – murmurou Dina, ansiando por tocar as pedras cinzentas que poderiam contar suas histórias e lembranças de todos que haviam vivido ali. Sorrindo consigo mesma pelo pensamento ingênuo, virou-se para fitar Connor. – É incrível. Jamais vi algo tão lindo. Ele a encarou por um momento e depois disse: – Sim. Estava pensando justamente nisso. Dina não soube o que replicar e por sorte não precisou. Um pequeno grupo de pessoas saiu correndo do castelo e desceu pelo caminho até o carro. Um homem baixo de terno preto e cabelos bem penteados se encaminhou diretamente para Connor, estendendo a mão. – Senhor King – disse, com um agradável sotaque. – Que bom revê-lo. Já preparamos a suíte de sempre. – Obrigado, Sean. – Connor apertou a mão do homem. – Dina, este é Sean Flannery, gerente do castelo. – Prazer em conhecê-lo. – O prazer é meu, senhora. – Sean apertou a mão de Dina com firmeza e voltou-se para Connor. – Também providenciamos seus pedidos especiais. O quarto extra está preparado para receber seus trigêmeos e, se me permite, parabéns para o senhor e sua adorável esposa. Dina piscou diversas vezes, surpresa. Então percebeu que não deveria se surpreender. Por que os funcionários do hotel não presumiriam que era casada com Connor? Afinal, estava viajando com trigêmeos. – Oh, grata, mas... Connor a interrompeu, passando um braço pelo seu ombro. – Minha mulher está cansada com a viagem, Sean, portanto gostaria de ir para nossa suíte logo. – Certamente. Sean fez um aceno, e imediatamente os empregados que o haviam acompanhado retiraram as malas do carro e rumaram depressa para a porta principal, também de pedra e com um grande arco. Dina fitou Connor de esguelha, mas ele fez um gesto como se dizendo depois conversaremos, e ela obedeceu. Dirigiu-se à limusine e desafivelou os cintos de segurança dos bebês, entregando um a um


para Connor, que os depositou sobre o gramado muito limpo. Mas os trigêmeos estavam presos há muito tempo e não queriam ficar parados. Os três correram cada qual em uma direção, oscilando sobre a grama, soltando gritinhos e balbuciando. – Vamos pegá-los antes que arruínem os canteiros de flores e caiam na fonte... – Eles estão bem – tranquilizou Connor, observando os três com um sorriso benevolente. – Apenas explorando o desconhecido. Ela tornou a fitar a nobre fachada do castelo e imaginou como devia ser luxuoso por dentro, e com esse pensamento veio a preocupação do que três bebês curiosos poderiam fazer com as elegantes acomodações. – Talvez fosse melhor ir para um hotel menor e mais simples. Trigêmeos? Aqui? – Se me dá licença, sra. King – disse Sean, piscando um olho –, não precisa se preocupar. Estamos na Irlanda, e aqui as crianças são bem-vindas em todos os lugares. Com essas palavras, Dina se sentiu muito à vontade e quase relaxada. Até ver Sadie arrancando flores, e então foi até ela antes que fizesse mais estragos. Connor correu atrás dos meninos ao mesmo tempo e, enquanto o vento irlandês soprava, os dois trabalharam em equipe para sossegar o trio. Quando se instalaram na suíte palaciana e pediram o jantar no quarto, os trigêmeos estavam prontos para ir dormir. Sempre como um time, Connor e Dina deram banho nos três e os colocaram nos berços. Depois, ele serviu vinho em dois copos e os dois se deixaram cair em poltronas amplas de veludo verde na imponente sala de estar. Pelas enormes janelas que descortinavam o lago Corrib, ela viu o céu estrelado e as copas das árvores que ladeavam o castelo e que dançavam ao vento. Estava fascinada pelo cenário encantado. Tomou um gole de vinho e disse: – O gerente parece conhecer você muito bem. Deu-lhe até a suíte de sempre. – Hospedo-me aqui quando visito meu primo Jefferson e sua família. – Ele reclinou a cabeça na poltrona. – A fazenda de ovelhas de Maura fica a meia hora daqui, e o castelo é confortável. Dina soltou uma breve risada. – Confortável? É... nem tenho palavras. – Balançou a cabeça. – Jamais estive em um lugar remotamente parecido com este. Ele esticou as pernas e cruzou os pés na altura dos tornozelos. – Espere para ver à luz do luar junto ao lago. Espetacular. Amanhã poderemos levar os trigêmeos até o lago, deixar que joguem pedras... – Ou que caiam na água e comecem a nadar? – Estaremos com eles, mas foi uma boa pergunta. Já começaram a ter aulas de natação? – Não – respondeu Dina, fitando o vinho dourado no copo. – Elena pretendia fazer isso este verão, mas... Connor franziu a testa, tomou um gole do vinho e disse: – Então teremos que tomar as providências. Meu primo Rafe vai instalar uma cerca em volta de minha piscina. As aulas de natação são importantíssimas para crianças pequenas, não acha? – Concordo. – Bom. – Ele lhe lançou um sorriso rápido, provocando um calor que Dina resolveu ignorar. – Contratarei um professor particular que venha em casa a começar do mês que vem. – Não sei se ainda estaremos na sua casa no próximo mês – observou ela. – Oh, tenho certeza de que sim. – Inclinou a cabeça para um lado e a fitou por um longo tempo.


– Connor... Ele não estava encarando a mudança como temporária, mas era assim que ela devia pensar. Não importava que Connor se sentisse bem, pois ele, ela e os trigêmeos não formavam uma família. Eram... mais como sobreviventes de um naufrágio se espremendo em um bote salva-vidas muito luxuoso. Ela precisava fazê-lo entender que não ficariam na sua casa para sempre. Mas o que dizer? Que se sentia muito nervosa vivendo sob o mesmo teto que ele? Que não confiava em si mesma quando estava perto dele? Oh, um homem seguro como Connor não precisava ouvir isso. Resmungando para si mesma, tomou mais um gole. – O que disse? – Nada – respondeu Dina. – Então, o que fazemos aqui na Irlanda exatamente? Ele torceu a boca como se soubesse como ela lutava desesperadamente para mudar de assunto. – Bem, já lhe contei que estive hospedado aqui antes, mas dessa vez irei me informar com a gerência sobre o tipo de atividades que oferecem para famílias e no geral. Quero saber se o Castelo Ashford seria um bom lugar para nossa empresa de lazer em família. – Não imagino quem não goste de ficar aqui. – Oh, é esplêndido – concordou ele, relanceando um olhar pela sala –, mas será o suficiente para ser qualificado como um lugar para aventura em família? Veremos. – Talvez não precise ter muito a ver com aventura, mas ser um lugar onde uma família reunida possa passar dias maravilhosos – disse ela. – Sei que apenas o castelo já seria o suficiente para inflamar a imaginação de qualquer criança. Elas costumam se imaginar como cavaleiros e princesas... Connor aquiesceu com um gesto de cabeça. – Pode ter razão quanto a isso. Meu irmão e eu teríamos adorado este lugar quando garotos. Vários segundos de silêncio se passaram antes que ele perguntasse: – Via muito os trigêmeos antes de morarem com você? – O quê? – A mudança de assunto a deixou surpresa por um momento. Ele fitou o vinho e depois ergueu os olhos lentamente para ela. – Os bebês. Via-os muito antes da morte de Elena e Jackie? – Não muito porque moravam longe – respondeu ela em um murmúrio, sentindo que ele estava pensativo –, mas vinham me visitar e fui vê-los algumas vezes. – Como eram? – A voz dele soou baixa como se lamentasse fazer a pergunta. – Os bebês, quero dizer. Dina sentiu simpatia por ele. Na última semana Connor se envolvera muito com os trigêmeos, e ela desistira de esperar vê-lo dar as costas e ir embora. Ele jamais daria as costas para seus filhos, e cada vez mais provava para ela que de fato estava adorando ser pai. O importante era que Connor estava mudando sua casa, seu mundo, para acomodar as crianças de cuja presença fora privado durante um ano por causa de uma mentira. Sim, fora enganado, refletiu Dina, pensando na irmã falecida. Jackie e Elena haviam errado ao esconder o trio do pai. Errado por deixarem a cidade e fugir em vez de compartilhar os trigêmeos com o homem que as ajudara a gerá-los. E, se Dina tivesse conhecido a verdade, teria ela mesma contado a Connor. Então, pensou, talvez estivesse errada por lutar tanto contra ele. Mas que opções tinha? Não podia perder os bebês. Nem mesmo para o pai deles. Seria como arrancar seu próprio coração. Connor a observava, esperando que ela lhe contasse mais sobre as crianças que mal conhecia, então Dina respirou fundo e disse: – Sempre foram tão lindinhos. Eram tão pequenos quando nasceram.


Connor sorriu, tentando imaginá-los. – Aposto que Jackie tinha medo de pegá-los no colo – arriscou. – Tinha – confirmou Dina, com uma risada. – Por um tempo. Mas superou o medo porque Elena insistiu. – Que tipo de mãe era Jackie? – Um pouco louca. Engraçada. – Dina sorriu diante das lembranças e tentou passá-las o mais realisticamente possível para ele. – Elena era a organizada. Tomava nota de tudo, a que horas os trigêmeos comiam, dormiam, brincavam, tomavam banho. Minha irmã adorava programações rígidas. – Enquanto falava, sentiu tristeza. Há apenas três meses perdera a irmã mais velha e sentia saudade. – Mas Jackie era engraçada. À medida que as crianças cresciam, ela se fantasiava de princesa ou de fada para lhes contar histórias antes de dormir. Comprou miniaturas de tacos de beisebol para que pudessem jogar assim que começassem a andar... – Isso é a cara de Jackie – comentou Connor. – Ela jogava na defesa. E era muito boa. – Parou de sorrir. O luar começava a se infiltrar na sala luxuosa, lançando sombras nos móveis. Um clima de intimidade pairava entre eles, sentados ali e compartilhando lembranças. E de repente Dina percebeu que podia fazer mais do que isso. Estendendo a mão para uma mesinha ao lado, acendeu um abajur cuja luz refletiu na base de cristal. Ele fez uma careta diante da súbita claridade, mas Dina ignorou e pegou a bolsa, retirando dela o celular. Perguntou: – Quer ver algumas fotos? Os olhos dele brilharam de interesse, e um sorriso caloroso pairou em seus lábios. – Está falando sério? Ela sorriu também e estendeu o celular para ele. – Nunca deleto nada, e guardo as fotos deles desde que nasceram. Connor já olhava as fotos, passando o dedo pela tela. – Algumas eu tirei, outras Elena me enviou por e-mail – explicou Dina. Ele riu. – O que foi? Connor ergueu os olhos para Dina com uma mistura de troça e tristeza no rosto, e perguntou: – Esta fotografia. Creio que no Natal passado? Dina sabia a que foto se referia, porém se dirigiu até ele e se ajoelhou ao seu lado sobre o tapete espesso, olhando a tela do celular. Ali surgiam três bebês usando pijamas com estampas de bengalas de açúcar. Cada um ostentava um barrete de Papai Noel na cabeça e minúsculas barbas brancas nos rostinhos. Rindo, Connor comentou: – Até Sadie está de barba. Dina sorriu e lembrou. Estivera na casa das duas quando elas haviam tirado a foto para usar como cartão de Natal. – Jackie não queria que Sadie se sentisse excluída – explicou em um murmúrio. – Uma atitude própria de Jackie – concordou ele. Devagar e em silêncio, passou as outras fotografias. Dina permaneceu onde estava, observando... a expressão de Connor, não o celular. Cada emoção sentida surgia em seu rosto, brilhava em seus olhos azuis e curvava sua boca. Em uma minúscula tela de


celular ia vendo seus filhos mudarem e crescerem, e era evidente que isso o emocionava muito. Quando, por fim, acabaram – Dina refletiu que precisava deletar algumas daquelas fotos –, Connor lhe entregou o celular. – Já perdi tanto – comentou. – Você ignorava a existência deles, Connor. – Isso não muda a realidade. – Virou o rosto para fitá-la. Seus olhos refletiam tristeza, mas havia ali um brilho de determinação também. Dina prendeu o fôlego, esperando o que ele diria a seguir. – Não quero perder mais nada na vida dos meus filhos, Dina. Ela apertou o celular com força. Uau. Há um minuto sentira pena dele e tomara seu partido contra a irmã. Porém, fitando seus olhos agora, via que esse homem não precisava de sua simpatia. – E o que quer dizer com isso? – perguntou. – Quero dizer que jamais recuperarei o primeiro Natal deles. Deram a primeira risada, o primeiro passo sem que eu estivesse presente e muito menos soubesse que existiam. – Sei disso, Connor, é terrível, mas... Ele a segurou pelo queixo e ergueu seu rosto. – Eu e você, Dina, precisamos chegar a um acordo. – Que tipo de acordo? – Bem, esse é o problema, não? – murmurou ele. – Sei o tipo de acordo que desejo, e creio que só resta a você decidir o que quer. Oh, ela sabia o que queria. Só não sabia se as coisas melhorariam ou piorariam, caso ela resolvesse fazer o que queria. OBSERVAR CONNOR com sua família era uma revelação. Oh, sabia que ele era chegado ao irmão gêmeo... por que não seria? Mas Jefferson King era um primo e mesmo assim ele e Connor pareciam dois irmãos. Obviamente a família era importantíssima não só para Connor, mas para os King em geral. Tal descoberta enfatizou o que ela sentira na noite anterior. Connor não se arriscaria a perder os trigêmeos, seus filhos. – Adoráveis, não? Dina fitou Maura King. Ela era pequena e linda, apesar das pesadas botas de borracha e da jaqueta enorme que usava sobre um suéter vermelho também muito largo. Conforme Connor lhe dissera, junho na Irlanda era nublado, com ventos, frio e chuvoso. Haviam feito compras no vilarejo de Craic pela manhã, escolhendo roupas mais quentes para os trigêmeos, já que seu guarda-roupa californiano não preparara nenhum deles para o frio e a umidade. A Irlanda era linda e selvagem de um modo que a Califórnia nunca seria, e Dina já amava aquele lugar. Maura King era criadora de ovelhas quando Jefferson, procurando locações para um dos filmes da Estúdios King, a conhecera. Já que ela continuava a dirigir sua fazenda e Jefferson trabalhava para a família, Dina concluiu que o casamento com um dos homens mais ricos do mundo não mudara muito Maura Donohue King. – Adoráveis? – repetiu Dina, olhando para Connor, Jefferson e seis crianças, Maura e Jefferson tinham três e outro estava a caminho, que corriam como loucos pelo quintal junto a um galgo irlandês preto e cinza chamado King. Dina achara a escolha do nome do cão um pouco estranha, porém Maura


explicara que ficara com o galgo quando ela e o marido estavam brigados, e que resolvera batizá-lo assim porque, como Jefferson, o cão era um “sem-vergonha”. O tamanho do animal assustara Dina de início. Jamais vira um galgo tão grande. Mas, conforme Maura dissera, não passava de um gigante gentil. Logo os trigêmeos estavam montando nele, puxando suas orelhas e pisando em suas patas, mas King não reclamava. Ao contrário, agia como uma babá, e fazia as crianças voltarem para o meio do pátio quando começavam a se afastar demais. – Sim. – Dina sorriu ao ver e ouvir Connor gargalhando quando o filho mais velho de Jefferson, Jensen, se postou atrás do pai e lhe deu um tapinha na perna. – Acho que são adoráveis, sim. Assim como sua casa, aliás – acrescentou, girando a cabeça para olhar para o lago Mask que se estendia sob o céu cinzento e cujas águas eram escuras também. As árvores se curvavam sob o eterno vento enquanto as águas do lago ondulavam. Estradas estreitas se alinhavam à mata com suas florzinhas amarelas, que se espalhavam também nos campos verdes e nas áreas rochosas. A casa da fazenda era grande e antiga, e atrás surgiam as montanhas Partry, que lembravam um borrão avermelhado no horizonte. – Obrigada – disse Maura, lançando sobre o ombro um rápido olhar para a casa. – Também gosto do jeito como é, mas Jefferson está sempre acrescentando ou ajuntando alguma coisa, e nunca sei o que irei encontrar quando volto dos campos. – Porém, você não se importa com isso. – De jeito nenhum, mas não conte a ele. – Maura piscou um olho e sorriu. – Jefferson já é convencido o suficiente sem saber que adoro suas reformas. Dina riu e comentou: – Acho que o convencimento é uma característica dos King. – Talvez – replicou Maura, se recostando na cerca que rodeava o quintal da frente –, já que todos os irmãos de Jefferson são iguaizinhos a ele e os poucos primos que conheci também. Mas não trocaria meu marido por nada no mundo. Gosto de ter um homem que me enfurece tanto quanto me atrai. – Nisso Connor e Jefferson são iguais – resmungou Dina, lembrando-se das muitas discussões que já tivera com Connor no pouco tempo em que se conheciam. Entretanto, como Maura, se sentia atraída mesmo quando ele a irritava. – Vi como vocês dois se olham. – Maura riu e deu um tapinha na parte de cima da cerca. Dina não fez comentários. O que podia dizer? Que era verdade? Não, não podia. – E os trigêmeos são um amor. – Tem razão, mas seus filhos também. – Dina se voltou para olhar as crianças que continuavam a correr em volta do quintal sob o vento frio e cortante. Maura soltou uma breve risada. – Cada um é mais arteiro que o outro, porém todos são meus tesouros. Jensen foi o primeiro... está com 4 anos... e um ano depois veio Julie, e depois James. Dina observou a meninada brincar e rir. Seu coração doeu. Como seria fazer parte de verdade daquele grupo? Certo, ela já fazia porque era tia dos bebês e sua guardiã. Mas Maura, Jefferson e seus filhos, assim como Connor e os trigêmeos, eram mais família ainda. Era ridículo desejar se envolver profundamente com Connor quando, ao mesmo tempo, tentava desesperadamente ficar longe de sua cama para proteger seu coração. E mais ridículo ainda era admitir que até conhecer Connor sempre evitara ter um relacionamento de verdade. Lembranças da vida tumultuada de sua mãe estavam ainda muito claras em sua mente. E


mesmo assim Connor conseguira fazer com que ela baixasse a guarda. – E, mesmo já tendo três filhos, está grávida de novo – comentou Dina, fitando o ventre arredondado de Maura. – Meu Jefferson é louco por crianças e quer ter um monte de filhos. – Maura acariciou o ventre como se acariciasse o bebê lá dentro. – E, como eu concordo e adoro ser mãe, estou muito feliz com esta gravidez. Mesmo que isto signifique ver meu marido maluco construir outra ala na casa. Dina riu, sentindo uma pontada de inveja pelo casamento de Maura e Jefferson. Ele dirigia seu estúdio de cinema ali mesmo e de vez em quando ia aos Estados Unidos. Maura permanecia fiel à sua fazenda e cuidava das ovelhas como sempre, mas mesmo assim os dois formavam uma equipe que se fortalecia com seus filhos. Como não sentir inveja? Dina procurou Connor com o olhar. – Os homens da família King são sempre difíceis, mesmo nos momentos melhores – disse Maura de repente, como se resolvesse deixar a cerimônia de lado e chegar ao ponto. – Porém, digo, pela minha experiência, que valem a pena. – Não estou namorando Connor – disse Dina depressa. Maura riu. – Ah, sim. Também lutei contra. Jefferson vivia se vangloriando de seu dinheiro. Chegou a me comprar um caminhão sem me avisar. – Balançou a cabeça. – Era vermelho e gritei com ele por ter comprado aquilo, embora tivesse adorado. Até hoje o dirijo. Dina riu incrédula. – Ele lhe comprou um caminhão. – Sim, porque disse que eu precisava. E tinha razão, embora eu não quisesse admitir. Assim são os King. Tomam uma decisão sobre o que acham certo, e ninguém os faz mudar de ideia. – Não gosto de ser manipulada. – E quem gosta? Mas isso não impede que faça sua própria manipulação também. Dina sorriu para a mulher. – Acho que nós duas seremos boas amigas. – Também acho – concordou Maura. – E, como Jefferson quer levar os garotos para a Disneylândia no mês que vem, nos veremos de novo em breve. Poderá me contar então como vai seu relacionamento com Connor. Dina não sabia se ainda estaria na casa de Connor no próximo mês. – Quem sabe na Califórnia possamos ir todos juntos à Disneylândia. Vou ligar para minha irmã Cara e ver se estará disponível. Apesar de muito ocupada, adora ver os sobrinhos quando vamos aos Estados Unidos. – Cara – repetiu Dina. A placa à entrada da fazenda de Maura ainda dizia “Fazenda de Ovelhas Donohue”, apesar de o dono agora ser King. Então... – Sua irmã é Cara Donohue? Os olhos de Maura brilharam. – Já assistiu aos filmes dela? – Sim. Ela é maravilhosa. – Dina não fazia ideia que a jovem atriz de Hollywood era ligada à família King. – Sim – concordou Maura com orgulho. – Foi o filme que Jefferson rodou aqui na fazenda que a levou ao estrelato. E depois ela atuou em...


– O’Malley’s Bride... A Noiva de O’Malley – finalizou Dina. – Esse mesmo. Foi indicada ao Oscar. Não venceu, mas valeu – disse Maura, ainda mais orgulhosa. Dina refletiu que essa viagem estava sendo um sonho e voltou a fitar Connor, que, sentindo seu olhar, sorriu para ela. – Oh, sim – murmurou Maura, dando uma leve cotovelada em seu braço. – Vai precisar manipular, Dina. Depende de você, é claro, mas um King sempre vale a pena. A CONVERSA com Maura deixou Dina ansiosa. Seu corpo estava ali com os trigêmeos, mas sua mente não. De volta ao castelo com os bebês adormecidos, Connor a encontrou na sala de estar. Os longos cabelos dela dançavam ao vento, e ela segurava o parapeito da janela aberta, fitando a noite. – Tudo bem? – Não sei – respondeu ela devagar. Connor a fez girar e encará-lo, tentando ler seus pensamentos. Precisava saber. Ansiava por isso. Jamais sentira tanto desejo por alguém. Em geral, quando queria uma mulher, logo a tinha. E a maioria ansiava por estar em sua cama. O problema era fazê-las sair depois. Mas Dina era diferente. E Connor gostava disso. Tudo nela o atraía. Sua meiguice com os trigêmeos, seu desinteresse pela sua fortuna, a não ser para ajudar os bebês. Porém, Connor não estava interessado em nada disso além de seu corpo. Não queria um relacionamento profundo. Nada para sempre. Só queria Dina fisicamente. – Seja lá o que esteja pensando – brincou ele –, não é bom para mim. Ela sorriu com relutância. – Pode não ser bom para mim também – admitiu. – Olhe, creio que precisamos analisar o que estamos fazendo aqui juntos. Não posso continuar na sua casa com os trigêmeos para sempre. Tenho minha própria vida e minha empresa. – Quem a impede de dirigir sua empresa da minha casa? – Isso só resolve um problema. Não posso ficar com você, Connor, apenas porque acha conveniente. – Vai ficar comigo, Dina, porque não quer perder os trigêmeos e eu não cederei. – Então aonde isso nos leva? – Ela afastou os cabelos do rosto e o fitou. – Nenhum de nós dois quer ceder, então ficaremos neste impasse? Estagnados? Ele não tinha uma resposta. Na viagem, pareciam todos uma única família. E deixara que Sean pensasse que eram casados... mas nem se importara com isso. Ao se lembrar, ficou chocado, mas afastou a ideia. No momento só queria uma coisa. – Por que se preocupar com essas coisas esta noite, Dina? Tudo o que temos que fazer agora é isto... – Segurou seu rosto e a beijou na boca. – Quero você, Dina. Eu a desejei desde o primeiro momento. – Eu sei. Também o desejei. Ele sorriu e encostou a testa na dela. – Então, o que estamos esperando?


CAPÍTULO 8

CONNOR AGARROU a babá-eletrônica sobre a mesa e arrastou Dina, que precisou correr para manter o passo. Chegando ao quarto, fechou a porta, acomodou o aparelho e rodeou Dina com os braços. Beijou-a longamente, saboreando, sentindo, e sua doce rendição o deixou ainda mais excitado. O luar penetrava pelas janelas e pousava no rosto e cabelos de Dina como prata líquida. Ela reluzia com a beleza que o atormentava desde o primeiro instante. Connor sentia a boca seca ao afastá-la e fitála. O quarto estava às escuras, a não ser pelo luar. Uma cama de colunas ocupava grande parte do espaço, mas havia mesas, poltronas e uma lareira de tijolos que não estava acesa. – Acho que não está certo – disse ela, e o coração de Connor parou por um momento. – Quer que eu pare? – Ele pararia se ela mudasse de ideia, mas sem dúvida morreria. – Não – murmurou ela. – Ainda bem. – Haviam esperado muito, demais. A tensão foi crescendo entre os dois desde o primeiro dia, quando ela o fitara na minúscula cozinha. Desde então rumavam para esse momento decisivo. Connor sabia que Dina tinha razão... aquilo era um erro... ainda tinham tanto a resolver, e o sexo apenas complicaria a situação. Contudo, ele pensaria nisso mais tarde. Ele a fez seguir de costas até a cama, ajudando-a a tirar o suéter. Queria sentir sua pele nas mãos, explorar e tocar cada curva de seu corpo. Ela também tirou o suéter dele com dedos nervosos, mas mesmo com tanta pressa Connor sentia a necessidade de ir devagar e saborear o momento. Desabotoou a camisa de Dina e a deixou escorregar pelos braços e cair no chão. Ela ficou na sua frente apenas de sutiã e jeans azul. – Está com frio? – Não – disse ela. – Pelo contrário. Connor sorriu. – Ótimo. Ele deslizou os dedos para os lados do corpo de Dina, traçou uma linha pela sua espinha dorsal descendo até o abdômen e retornando para pousá-los no sutiã preto, que era muito sexy de encontro à pele cor de mel.


Abriu o fecho e deixou os seios se acomodarem entre suas mãos, passando os polegares pelos mamilos rijos. Dina oscilou e suspirou. Connor sabia como ela se sentia, pois sentia a mesma fome dentro de si. Jamais tivera tanto prazer com um simples toque. Talvez fosse pela ligação cada vez mais forte entre os dois por causa dos trigêmeos ou porque haviam esperado tanto tempo para satisfazer seus desejos e tudo que Connor queria era realizar suas fantasias. Mas o motivo não tinha importância; o que importava era a sensação da pele macia de Dina. Inclinou a cabeça e beijou cada um dos mamilos dela. Ofegante, ela arqueou as costas em silêncio pedindo por mais e segurando-o pelos ombros quase com desespero. Contudo, Connor não conseguia ficar parado. Determinado como se tivesse uma missão a cumprir e ansiando por satisfazer suas fantasias, baixou o jeans de Dina, revelando a calcinha preta que ficara escondida. As peças de roupa deslizaram para baixo, e ele foi seguindo a trilha com a boca. Dina sentia as pernas bambas. Connor retirou o jeans e a calcinha acariciando cada centímetro de pele, e depois se ergueu. Ele voltou a beijá-la na boca e mergulhou a mão no meio de suas coxas. Um gemido escapou da garganta de Dina quando ele a tocou de maneira tão íntima pela primeira vez. Ela o puxou para si e suas línguas se acariciaram. Estava quente e pronta para recebê-lo, e Connor mal respirava. Interrompeu o beijo para fitá-la. Seus dedos a acariciavam sem parar entre as coxas, até que ela gritou de ânsia e prazer e ele abafou o grito com um beijo nos lábios escaldantes. Connor a segurou pela nuca para que não caísse, e eles se olharam. Dina meneava os quadris sem poder ou querer conter a paixão, mas ele a afastou para que não alcançasse o clímax tão depressa. Queria... precisava continuar a tocá-la. Ouvi-la gemer e implorar por mais. Dina fechou os olhos e acariciou o tórax musculoso e quente. – Entregue-se, Dina. Não lute. Sinta todo o prazer plenamente. Com calma. – Connor... Ela não conseguia respirar. – Vamos, Dina. – Ele introduziu dois dedos dentro de seu corpo. Em questão de segundos Dina explodiu. Seu corpo estremeceu, os quadris se lançando para a frente. Ela arqueou a cabeça para trás com um grito estrangulado. Antes que ela parasse de tremer, Connor já havia afastado a colcha vermelha, expondo os lençóis brancos. Fez com que Dina se deitasse, despiu as próprias roupas e parou apenas o tempo necessário para pegar um preservativo do criado-mudo, rasgar a embalagem com os dentes e colocá-la em si mesmo antes de se deitar ao lado dela na enorme cama. Dina ergueu os braços para recebê-lo e ele se aconchegou ali como um homem que estivesse com muito frio e precisasse de calor. Dina afastou as coxas e o recebeu em seu corpo. Connor a penetrou com uma investida firme, sentindo sua maciez. Por um longo momento ele ficou imóvel, saboreando a sensação de estar, por fim, onde mais desejava estar. Então Dina ergueu as pernas para passá-las pelos seus quadris, fazendo-o penetrá-la mais. Connor começou a se mover. De início foi devagar, estabelecendo um ritmo que ela seguiu enquanto suas mãos percorriam suas costas de cima para baixo, as unhas curtas e aparadas roçando a pele e o incentivando a prosseguir. Moviam-se como um só corpo tentando alcançar um clímax. Ele a beijou diversas vezes, sentiu-a estremecer quando a satisfação a alcançou, e quando Dina o apertou ainda mais e gritou seu nome ele se deixou levar, também se submetendo ao prazer de corpo e alma.


DINA O abraçou por muito tempo depois do que só poderia ser denominado de terremoto. Entretanto, fora isso que acontecera entre os dois, e ela jamais imaginara que pudesse sentir tanto prazer. Oh, não fora sua primeira experiência sexual, mas de modo estranho o fato de ter tido três amantes anteriormente apenas enfatizara a maravilha que acabara de acontecer com Connor. Até essa noite ela diria que sexo era bom e orgasmos eram experiências muito agradáveis. Porém, essas pobres palavras nem se aproximavam de definir o que acabara da acontecer com ela. Connor incendiara seu corpo e sua alma. Ela o sentira em cada centímetro de sua pele, em cada osso, e tremera sob suas carícias. E agora, com o peso dele ainda sobre seu corpo, sentia-se... completa de um modo como jamais se sentira em toda a sua vida. E então entendeu. Amava Connor King. Não sabia quando começara a acontecer. Oh, Deus, o que era isso? Será que o sexo maravilhoso a fazia pensar que era amor? Estaria exagerando? Fechou os olhos enquanto raciocinava. Não se tratava apenas de sexo. Era tudo... o modo como ele cuidava dos trigêmeos, sua lealdade à família, seu desejo de incluí-la em todas as atividades, até sua teimosia... e o sexo incrível era apenas a cereja sobre o bolo. Como isso fora possível? Conheciam-se há duas semanas. Não era razoável amar alguém após tão pouco tempo. Uma loucura, mas Dina sabia que era verdade. Abrindo os olhos, fitou o teto e pensou na ironia da situação. Ela quase sempre evitara cenários que levassem ao amor, mas ali estava, amando o homem com quem tivera complicações desde o início. Devia ser uma brincadeira do destino. Entretanto, apesar disso, estava adorando o momento. Amor. Não sabia se iria lhe trazer alegria ou dor. Acariciando as costas de Connor, ela aproveitou esse instante. No momento estava em um castelo irlandês de contos de fadas na cama com o homem amado, e não se preocuparia com o amanhã. Haveria muito tempo para colocar os pensamentos em ordem e esperar que Connor a aceitasse como era sem querer modificá-la. Contudo, apenas os bebês os uniam. Assim que ele obtivesse a custódia, não precisaria mais dela. Dina odiava essa ideia. Oh, era terrível amar Connor, porém ela não podia mais evitar esse sentimento. Era tarde demais. – Tudo bem? – perguntou ele, erguendo a cabeça para fitá-la. Será que adivinhara o que ela estava pensando? Seus sentimentos? Impossível. Caso isso fosse possível, já teria pulado da cama e se afastado dela. Então Dina tratou de ocultar seus pensamentos e sorriu. – Estou ótima – exclamou com displicência. Ele a beijou depressa. – Eu também me sinto muito bem. – Segurou um de seus seios e ela gemeu ao perceber que já se sentia pronta para fazer amor de novo. – Connor... – Quero você outra vez. E outra. E mais outra. – Nós deveríamos conversar sobre isto... – Não estou interessado em conversar. – Connor saiu da cama e avisou: – Não vá embora. Dina nem conseguiria se quisesse. E Connor logo retornou, com outro preservativo que colocou em uso. – Chega de conversa – murmurou, se sentando sobre os calcanhares e a puxando para seu colo, onde a penetrou. Dina afastou os cabelos do rosto e esqueceu a conversa. Haveria muito tempo para isso mais tarde.


Mexeu os quadris e provocou um calor intenso para os dois. – Leve-me com você nesta cavalgada, Dina. Ela aquiesceu com um gesto de cabeça, sem fôlego e sem conseguir falar, enquanto uma explosão de sensações a dominava. Continuou a menear os quadris com as mãos fortes de Connor em sua cintura. O único som no quarto era o de seus sussurros e do rumor de pele contra pele. Ela o fez penetrá-la ainda mais e deslizou as mãos de seus ombros para seu rosto, beijando-o nos lábios com exigência. Ele enfiou os dedos em seus cabelos longos enquanto lhe proporcionava o que tanto queria, e dessa vez, quando alcançaram o clímax, suas bocas estavam unidas, e eles aspiraram os gemidos um do outro. Quando tudo terminou e eles se fitaram, Dina desejou ler os pensamentos dele e seu coração. Será que Connor sentia algo além de desejo por ela? Haveria carinho e afeto também? Aquilo poderia se transformar em amor com o tempo? E será que teriam tempo? A mudança para a casa dele era temporária e ela sabia disso, pois não conseguiria continuar a viver com um homem que amava sabendo não ser correspondida. Conseguiria? Ele encostou a testa na dela e tentou recuperar o fôlego, sorrindo. – Dê-me meia hora e reiniciaremos. Já que o corpo de Dina continuava vibrando com um prazer como jamais sentira antes, a ideia a agradou. – Está bem – murmurou, deixando a loucura abafar seus pensamentos. – Você é, sem dúvida, meu tipo de mulher – riu Connor, acariciando seus mamilos. Ela suspirou, adorando a sensação. – Se continuar fazendo isto, não teremos nem meia hora de recuperação – brincou ela. – Vou me arriscar. Sou um King, meu bem. Sempre conseguimos o que queremos. O coração dela acelerou. Ele a desejava. Mas por quanto tempo? Do outro lado do quarto, a babá-eletrônica anunciou um leve choro que acabou com a paixão assim como um interruptor ligado de repente acabaria com a escuridão. Suspirando, Connor se afastou, ajeitando os cabelos dela e dizendo: – O dever chama. Dever. Por que ele escolhera essa palavra? Seriam os trigêmeos apenas um dever, apesar do que ele alegava? Apesar do modo amoroso como os tratava? Seria ela um dever? Ou apenas alguém disponível? Dina se afastou enquanto pensamentos sombrios a dominavam. – Vou ver o que está acontecendo antes que esse resmungão acorde os outros dois. – Não. – Ele a segurou no ato de pegar as roupas. – Eu vou. Não precisa tomar conta o tempo todo. Estou aqui para você. Ele saiu da cama, enfiou o jeans e deu mais um leve beijo em Dina. – Voltarei. Não saia daqui. Ela obedeceu, sentou-se na beira da cama e pensou no que ele dissera antes. Estou aqui para você. Seria verdade? UMA SEMANA mais tarde estavam de volta a Dana Point, e a Irlanda não passava de uma lembrança. Connor sorriu consigo mesmo ao se aproximar da porta de sua casa. Jamais gostara tanto de uma viagem de negócios. Sem dúvida conseguira um novo tipo de aventura familiar para sua empresa


apresentar aos clientes. A aventura em um castelo medieval irlandês cheio de novidades. Porém, era mais que isso. Além de passar algum tempo com a família – os trigêmeos, Maura, Jefferson e seus filhos –, estava descobrindo como se dava bem com Dina. Não esperara por isso. Entretanto, ela não se parecia com nenhuma mulher que já conhecera. O sexo com ela não era trivial. De imediato se sentiu excitado só de pensar em como Dina o deixava assim. Abriu a porta e suas narinas foram brindadas com um odor delicioso que vinha da cozinha. Comida mexicana. E como sua governanta, Louise, jamais fazia comida mexicana, ele soube quem estava junto ao fogão. Seguiu o aroma e entrou na cozinha. Os cabelos negros de Dina estavam presos em um rabo de cavalo, ela estava descalça e usava camiseta vermelha e short. Música saía dos alto-falantes e ela se movia no ritmo, dançando sobre o chão de ladrilhos brancos e cinzentos. Connor se fixou nos quadris que meneavam e sentiu água na boca. Haviam regressado da Irlanda há alguns dias e Dina não compartilhara a cama com ele ainda. Connor sentia falta dela; nunca outra mulher o interessara tanto. Dina era diferente. Desejava-a nesse momento. – O cheiro está ótimo – comentou. Dina se virou de supetão. – Você me assustou. – Desculpe. Não me ouviu entrar. – Connor olhou em volta, notando os balcões e armários brancos. Nunca entrara mais de meia dúzia de vezes na cozinha desde que se mudara, há quatro anos; aquele era território de Louise, e ele não interferia. – Onde estão os garotos? – Louise está tomando conta deles lá em cima – respondeu Dina. – Precisei fazer canapés para um coquetel e ela se prontificou a ajudar. – Então não vamos comer essas guloseimas? – Ele passeou o olhar pelas bandejas arrumadas sobre um balcão de mármore. – Temos isto para comer. – Dina voltou para o fogão, destampando uma panela. Connor inalou. – Cheira bem também. O que é? – Sopa de galinha com tortillas – anunciou ela, baixando a tampa depressa. Por um instante seus olhares se encontraram, e Connor viu o desejo nos olhos dela também. Ele se aproximou dos canapés e murmurou: – E o que mais temos? Ela começou a fechar as tampas das bandejas de plástico, mas Connor conseguiu pegar um canapé antes que ela o impedisse. – Ei! São para o meu cliente – protestou ela. Connor gemeu de satisfação ao sentir o gosto do canapé. Uma mordida bastara para provar que Dina era uma artista na cozinha. Entendia agora por que desejava abrir seu próprio restaurante. Era uma chef. Mastigando devagar, ele fitou o resto do canapé na mão. – Isto é incrivelmente saboroso – disse em tom reverente. Dina sorriu com o elogio.


– Obrigada. Estou cozinhando desde cedo e agora que terminei preciso tomar banho para entregar tudo ao cliente. Connor tentou não olhar com gula para as bandejas fechadas e perguntou: – Onde se realizará o coquetel? – Long Beach. – Ela se voltou para ajeitar as bandejas em pilhas. – Preciso me apressar. Agora que está em casa, pode assumir o posto de Louise. Ela deve estar cansada. – Long Beach dista uma hora daqui – comentou ele, não gostando da ideia de Dina dirigir sozinha de volta após a festa. Provavelmente voltaria depois da meia-noite e teria que passar por Pacific Coast Highway, com suas muitas curvas, e no escuro. Percebeu que estava preocupado com ela. – Alguém vai ajudá-la na festa? – perguntou. – Não. É pequena e posso dar conta sozinha. – Talvez eu deva ir com você. – Ele deixou escapar essas palavras e ficou tão surpreso por dizer isso quanto ela. – Por quê? – quis saber Dina. Ele deu de ombros. – Para começar, posso ajudá-la a carregar as bandejas. Dirigir na ida e na volta... – O que há com você? – perguntou ela com curiosidade. Boa pergunta. Connor não estava certo por que fizera o oferecimento. Sentia-se mais vivo perto dela. Mais... não sabia mais o quê. Depois da semana na Irlanda decidira que desejava ficar ao lado de Dina o tempo todo. Ouvir sua risada. Observá-la com os bebês. Ver seus olhos escuros fixos nele e brilhando de prazer. Estender a mão na cama e senti-la ao lado. Porém, não diria essas coisas para ela, então tratou de ser racional. – Não me agrada que dirija de madrugada sozinha, só isso. Um sorriso lento e feliz a dominou. – Muito gentil. Connor franziu a testa. Não era gentil. Todo mundo sabia disso. – Dina. – Ele pegou a mão dela antes que se afastasse. Havia uma coisa que precisava lhe dizer antes que ela deixasse a cozinha, uma coisa que desejava deixar clara. Ela fitou suas mãos unidas e depois ergueu o rosto. – Não posso conversar agora, Connor. Tenho um trabalho a realizar. Ele não a soltou, apertando sua mão com força. – Mais um minuto não vai fazer tanta diferença. – Está bem. O que é? – Desde que voltamos da Irlanda, você fica no seu quarto. – É verdade – murmurou ela. – Achei melhor voltarmos à realidade. – Dane-se a realidade – replicou ele, puxando-a pela mão e a trazendo para si. Com a mão livre, segurou seu seio e sorriu ao vê-la fechar os olhos e gemer de desejo. Acariciou o mamilo com o polegar por cima da camiseta. – Quero você, Dina, agora, mas esperarei até mais tarde. Ela molhou os lábios, deixando-o ainda mais excitado. – Está bem – murmurou, cobrindo a mão dele com a sua sobre o seio. – Hoje à noite.


– E todas as noites em seguida – acrescentou ele, sabendo que estava forçando a situação, mas não se importando com isso. Tocar o corpo dela de novo era uma tortura e um prazer. – Sim – concordou ela, balançando a cabeça como se soubesse que estava cometendo um erro, mas determinada a fazê-lo de qualquer jeito. – Isto é loucura, sabe? – Não. Loucura é saber o que sentimos e não fazermos nada a respeito. Ela soltou uma breve risada. – Continua não sendo uma boa ideia. – A melhor desde a invenção da pizza – brincou ele. – Veremos. – Com relutância, ela se afastou. – Mas, por enquanto, preciso correr. Devo regressar lá pela uma hora... – Estarei esperando – disse Connor, com o coração disparado. – Ótimo. Ela virou as costas e ele admirou as longas pernas no short. Dina foi até a porta e parou, virando-se e lançando um olhar de esguelha. – Não pode provar meus canapés, ouviu? – Você é o único canapé que quero provar – disse ele devagar. – Oh, Céus. – Dina engoliu em seco e saiu da cozinha correndo como se não confiasse em si mesma.


CAPÍTULO 9

QUANDO VOLTOU para a mansão na colina, Dina estava exausta e triunfante. Acabara de conseguir mais dois trabalhos por causa de seus deliciosos canapés. Era impressionante o que se conseguia com um pouco de ajuda. Com Louise tomando conta dos trigêmeos o dia inteiro, Dina pudera fazer tudo em metade do tempo que geralmente empregava. Entrou e foi logo envolvida pelo silêncio na casa enorme. Depois subiu as escadas no escuro. As únicas luzes acesas eram de lampadinhas nos rodapés que faziam jorrar uma claridade opaca. Fitou a porta do quarto de Connor e depois a sua, hesitando. Nesse instante a porta dele se abriu e um jato de luz irrompeu. Ele surgiu perguntando: – Você não ia desistir, ia? – Estava pensando – admitiu ela, relanceando um olhar para a porta levemente aberta dos trigêmeos. – Estou com a babá-eletrônica aqui – avisou ele, com um sorriso malicioso. – Se quer ouvi-los esta noite, precisa ficar comigo. Dina pensara nesse momento durante o percurso para casa. Pensara em Connor e na situação em que se metera. A Irlanda alterara tudo entre os dois. Ela permitira que seu relacionamento mudasse drasticamente. Dormira com ele, descobrira que estava apaixonada, e ainda não tinha respostas para o problema com os trigêmeos. Sabia que, como ela, Connor desejava ficar com os bebês. Nenhum dos dois queria ceder nem um milímetro, portanto dormirem juntos apenas confundiria mais a situação que já era caótica. Porém, Dina estava confusa, apesar de não se arrepender do que acontecera entre os dois. Nos últimos dias, dormir sozinha em seu quarto fora horrível. Queria estar com ele, mas supusera que Connor não pretendia continuar com a relação. Agora que sabia que ele a queria, isso mudava... nada. Ainda existiam muitas perguntas pendentes. – Então – prosseguiu ele, afastando-se da porta –, vejo que está em dúvida. Quase posso ouvir seus pensamentos esbarrando uns nos outros. – Há muito em que pensar – disse ela.


– Na verdade, não. – Connor caminhou para ela com passos lentos, os pés descalços não fazendo barulho no chão acarpetado do corredor. Quando se aproximou o suficiente, colocou as mãos em seus ombros e seu calor percorreu o corpo de Dina, afastando todas as suas dúvidas e perguntas. Pelo menos no momento. – Já cruzamos esta ponte, Dina – murmurou com suavidade. – Seria loucura tentar voltar atrás agora e fingir que nada aconteceu. – Ou foi uma loucura maior ter atravessado a ponte, para início de conversa? Ele sorriu. – Tarde demais para pensar nisso. Venha comigo, Dina, fique comigo. Ela não tinha escolha, reconheceu em silêncio. Não importava que tudo isso acabasse explodindo em seu rosto. Pelo momento podia ter o que desejava e precisava. Podia ter Connor. Fosse lá como essa história terminasse, o que ela podia ter agora era tentador demais para ignorar. – Sim – concordou Dina, entrando com ele no quarto. ALGUMAS HORAS mais tarde Dina se enroscava ao corpo de Connor, ouvindo o som de seu coração. Ainda tremia, e seu sangue corria depressa após o clímax sexual de momentos antes. A noite era silenciosa, a não ser pelos sons abafados que vinham do quarto dos trigêmeos e que se ouvia na babá-eletrônica sobre a cômoda. O luar penetrava pelas janelas e uma brisa suave trazia o aroma do oceano. Ela procurou ver tudo no quarto da posição em que se encontrava. A cama era enorme e havia uma janela saliente com um assento almofadado que convidava a relaxar ali e apreciar a vista do mar e da praia. Havia mesas, poltronas, uma lareira de mármore negro e uma porta que levava ao banheiro privativo. Tudo era luxuoso e aconchegante ao mesmo tempo. Entretanto, Dina não conseguia relaxar. Agora que seu corpo estava saciado, sua mente trabalhava furiosamente com pensamentos que se entrechocavam. – Está pensativa de novo. – Tem razão. – Ela riu de leve. – Bem, também andei pensando. Ela inclinou a cabeça para trás e encontrou o olhar de Connor. – Sobre o quê? – Isto... nós. Onde estamos e o que desejamos. – São muitos pensamentos. – Dina não sabia se ficava aliviada ou preocupada. – As coisas entre nós estão diferentes em relação ao que eram no início. – Sem dúvida. – Era óbvio. Seria como dizer que o oceano era grande e molhado. Esperou para ouvir o que Connor tinha a dizer a seguir. Ele se ergueu no cotovelo e a fitou para depois segurá-la pelas costas como se temesse que ela fosse embora. Mas Dina não tinha intenção de se afastar. – O problema da custódia continua. – Sim... – Cada célula do corpo de Dina estava alerta e preparada para qualquer coisa. – Seria melhor nos casarmos.


– O quê? – Muito bem, evidentemente, não estivera preparada para tudo. Por um breve instante pensou... ele estava apaixonado também? Seria um final feliz e mágico para um conto de fadas que não percebera estar vivendo? As fantasias tomaram vulto e por alguns segundos permaneceram em sua mente... para ruírem em seguida. – É a única solução lógica – murmurou Connor. Lógica. Dina podia ouvir suas fantasias estourando como bolhas de sabão. Por que estamos tendo esta conversa sem roupa? Foi esse pensamento absurdo que a assaltou. Dina se sentou na cama, cobrindo-se com a ponta da colcha azul. Em dez segundos passara de um sonho abençoado para a escuridão. Ele sorriu. Tudo seria tão mais fácil se ela não o amasse, refletiu Dina. – Nós dois queremos os garotos – disse ele. – E também queremos um ao outro. Pode dar certo. Dina não acreditava na sugestão. Casamento? Não podiam. – Antes que diga não – prosseguiu Connor, como se lesse sua mente –, pense nisto. Nós dois ganharemos alguma coisa com esse casamento. – Isso é loucura. Ele balançou a cabeça. – Loucura não. Ideia brilhante. Dina sufocou uma risada. Ainda não sabia o que lhe dizer. Um simples não seria insensato. Connor ainda estava em posição de vantagem a respeito dos trigêmeos. Nenhum juiz da Califórnia iria dar a custódia para ela, uma mulher com uma empresa quase falida e muitas contas para pagar, em detrimento de um pai milionário ansioso para fazer qualquer coisa por seus filhos. Entretanto, ao mesmo tempo, como dizer sim? – Com o casamento, terei controle total sobre meus garotos – disse ele. – E eu terei...? – Terá os bebês também e toda a ajuda de que necessita para trabalhar. Veja como conseguiu cozinhar ontem. Com Louise para cuidar das crianças, pôde trabalhar sem interrupções. – Tem razão – concordou ela –, mas não é um bom motivo para casar. – Há mais – continuou Connor. – Minha casa é grande o suficiente para todos nós. Você e os trigêmeos terão esquecido aquele bangalô apertado em seis meses. – Sim, mas... – E – acrescentou ele com um sorriso malicioso – deve admitir que o sexo entre nós é maravilhoso. – Sem dúvida, entretanto... – E depois há o seu sonho de abrir um restaurante. Posso ajudá-la. Darei todo o suporte. Algo frio invadiu o coração de Dina. A suspeita a dominou. – Por que faria isso? Ele deu de ombros. – Ei, tomei a sopa que você preparou para o jantar. Incrível. Provei o burrito, como sabe... aliás, sobrou algum? – Não. – A palavra saiu forçada. Ela não sabia aonde Connor queria chegar com aquilo, mas não estava com um bom pressentimento. – Que pena. – Ele mudou de posição na cama. Ao contrário de Dina, que se cobria para um homem que já conhecia cada centímetro de seu corpo, ele não tinha vergonha e conversava exibindo sua nudez.


Dina se controlou para não o fitar abaixo do pescoço. Precisaria de foco para manter essa conversa. E distrair-se com seus músculos e corpo bronzeado não a ajudaria nisso. – Então, em resposta à sua pergunta, desejo ajudar você com seu restaurante porque é uma chef talentosa. Assim não terá que se preocupar com a falência de sua empresa de serviço de bufê. Poderá encerrar esse negócio. Céus, Dina se sentiu perdida enquanto Connor desenvolvia estratégias. – Está querendo dizer que posso ficar tranquila porque irá me financiar um restaurante? – Sim. – Ele parecia tão satisfeito consigo mesmo que Dina desejou sacudi-lo. Contudo, tratou de se controlar, esquecer a revolta e responder: – Então, em vez de me pagar para ficar com os bebês, está me oferecendo casamento? Alguns segundos se passaram antes que ele perguntasse: – O quê? – Inacreditável. – Ela deixou a cama e se embrulhou na coberta azul como se fosse uma toga. – Disse que não venderia minha família. O que o faz pensar que venderia a mim mesma? – Calma aí – exclamou ele, erguendo as duas mãos como a pedir paz. – Quem falou em você se vender? – Você. Agora mesmo. Em resumo, disse: “O sexo entre nós é maravilhoso, case-se comigo e lhe comprarei um restaurante.”– Dina afastou do rosto os cabelos emaranhados com um gesto impaciente. – Pareceu muito claro para mim. Tudo que devo fazer é casar e dormir com você e poderei ficar com as crianças que amo. Oh! E de quebra ganho um restaurante. Você vai realizar todos os meus sonhos. – Isso é um insulto – exclamou Connor. – Tem toda a razão. – Insulto para ambos – esclareceu ele. Balançando a cabeça, deu a volta na cama e parou na frente dela. – Fico espantado. Por que as pessoas sem dinheiro estão sempre na defensiva? Ela engoliu em seco. – Sério? Pensa que o problema aqui sou eu? E por que as pessoas com muito dinheiro são tão arrogantes? – Não estou sendo arrogante, mas prestativo – argumentou ele. – Não é isso que parece. – Está entendendo tudo errado, Dina. – Deve ser porque fico sempre na defensiva – suspirou ela, e chutou a borda da coberta que envolvia seu corpo para poder caminhar de um lado para o outro. Não conseguiria ficar parada nem mais um minuto. Seu sangue fervia, e Dina tinha a sensação de ver tudo vermelho à sua frente. – Não era a resposta que esperava para minha proposta – comentou Connor. – Não é o tipo de proposta que uma garota espera ouvir – revidou Dina. – Espere aí – disse ele. – Não estou falando de amor, mas sim de um acordo por meio do casamento. Ela parou junto à janela e voltou a cabeça para lhe lançar um olhar gelado. – Oh, deixou isso perfeitamente claro. – Por que está agindo assim? – Incrível que você não perceba, Connor. Ele respirou fundo e repousou as mãos nos quadris. – Não estou tentado comprá-la, Dina. – Verdade? Então por que fica atirando seu dinheiro no meu rosto?


– O que devo fazer? Fingir que sou pobre? – Ele ergueu as mãos com desespero. – Jamais conseguiria fazer isso, fingir que é pobre – resmungou ela. Pela janela fitou as estrelas e o oceano banhado pelo luar, tão frio como seu íntimo nesse momento. – Sabe? Esse esnobismo às avessas começa a cansar – comentou Connor. – Como disse? – Ela se virou para ficarem cara a cara. Connor soltou uma breve risada, mas sem humor. – Sabe muito bem o que quero dizer. Sente-se ameaçada pela minha conta bancária. Era verdade. Com o dinheiro vinha o poder, e ninguém melhor do que os que não tinham dinheiro para saber disso. – E quem não se sentiria, Connor? – Estou lhe oferecendo casamento, compartilhar as crianças com você e ajudar a montar o restaurante de seus sonhos. – Balançou a cabeça. – Como isso me torna o lobo mau? – Não exatamente mau... apenas um autoritário arrogante. – Os cabelos começavam a irritá-la, e ela puxou a massa pesada para trás. – Não preciso que me diga quando fechar minha empresa ou começar um restaurante. Posso realizar meus próprios sonhos. – E eu posso ajudar. Qual é o mal nisso? – O mal é que quer me forçar a fazer algo porque acha que é o certo e que devo obedecer. – De onde tirou essa ideia? Dina sabia. Passara anos observando a mãe mudar de vida, o corte de cabelo, a personalidade, a maneira de rir... Tudo para agradar ao namorado do momento. A mãe fizera isso por tanto tempo que sua essência ficara embaçada como uma fotografia exposta ao sol. No final era como se tivesse desaparecido completamente, engolida pelas múltiplas imagens falsas de mulher que tentara criar. Dina não faria o mesmo. Não permitiria que sua atração por Connor a fizesse se transformar na ruína que fora sua mãe. – Não precisa abrir o maldito restaurante – murmurou ele. – Mantenha o serviço de bufê... – Muito obrigada. – Ela cruzou os braços sobre o peito e bateu com a ponta do pé descalço no tapete. – Tem certeza de que a dona de um serviço de bufê está à altura de um King da Califórnia? – Claro que sim, não seja louca. Tenho um primo casado com a rainha dos bolinhos, outro com a que cultiva pinheiros de Natal para vender, e poderia continuar mencionando mais, mas para quê? Não se trata de mim. Trata-se de você e do que se passa na sua cabeça. – Fez um gesto de impaciência. – Raios! Faça pastéis e venda em uma barraca na frente de casa. Não me importo. – Uau! Obrigada de novo. Dina não acreditava nele. Connor a estava manipulando para fazê-la ceder. Mas mesmo assim o amava. E provavelmente sempre amaria, o que era deprimente. – Então sou um bandido por querer ajudar e bandido por não ajudar? Ela apertou a coberta de encontro ao corpo. Respirou fundo e disse: – Você quer demais. – Quero minha família – corrigiu ele – e estou disposto a incluir você nela. Qual é o problema? Dina não podia contar que o problema era que o amava, porque Connor não desejava ouvir isso. Não podia confessar que uma proposta comercial partira seu coração mesmo que se sentisse tentada a aceitar. Connor queria muito e dava pouco. – Connor, não pode se casar com alguém apenas para resolver uma questão de custódia – acabou por dizer.


– Diabos! Por que não? – Acenou para a cama com os lençóis amassados. – Diga-me que o sexo que fazemos não é o melhor que já teve. Dina não podia dizer isso. Franziu a testa olhando para a cama e tentou não pensar no que haviam feito ali um pouco antes. – O sexo também não é um motivo para duas pessoas ficarem juntas – acabou por dizer. – Claro que é. E um ótimo motivo. – Ele respirou fundo, cruzando os braços sobre o peito. Ela continuava evitando fitar seu corpo. – Dina, está sendo muito emocional. – Sim, é daí? – Se olhar para a questão racionalmente, verá que faz sentido. Nós dois nos damos bem, minha casa é perfeita para os trigêmeos e ficará ainda melhor depois que meu primo Rafe construir uma suíte para eles... Dina ergueu os olhos com irritação. Lá vinha o dinheiro de novo como se ele acenasse com seu talão de cheques na frente do seu nariz. – Nós nos damos maravilhosamente bem sexualmente, gosto de você e você gosta de mim... Nesse momento ela não gostava dele nem um pouco. Amar? Sim. Gostar? Nem tanto. Lá fora as ondas batiam na base dos penhascos, soando como suspiros. Ele continuava a falar em voz uma baixa e persuasiva que se misturava aos sons do mar. – Jamais precisaremos lutar pelos trigêmeos, Dina. Iremos compartilhá-los. Compartilhar tudo. Os olhos azuis e frios a fitavam, e ela se sentiu mergulhando dentro deles. Amava-o. Não podia confessar isso porque lhe daria poder demais. Entretanto, um amor unilateral seria o suficiente para fazer um casamento dar certo? Mesmo um casamento de conveniência? – Pense – disse ele, passando os dedos pela face de Dina antes de apertá-la de encontro ao peito. Ela foi forçada a encostar a cabeça em seu peito e ouvir seu coração batendo serenamente. – Apenas pense, está bem? Esse era o problema. Dina tinha certeza de que não conseguiria pensar direito. – DIGA SIM. – Na manhã seguinte, Angelica Cortez sorriu para a neta do outro lado da mesa em uma cafeteria. – Por que não diz sim? – Porque ele não me ama – respondeu Dina, mexendo o café com a colher e observando o leite branco se dissolver no líquido escuro. – Mas você o ama. Ela ergueu a cabeça de supetão e olhou a avó. – Nunca disse isso. – Não sou cega, nieta – replicou a senhora com doçura. A cafeteria estava lotada, a maioria das pessoas vindo ou indo para a praia. Ainda fazia frio no final de junho, mas não o suficiente para manter os surfistas afastados. Havia uma leve camada de areia no chão e sempre que alguém abria a porta um vento brusco entrava, lembrando a todos que o verão ainda não chegara de verdade. Dina saíra de casa mais cedo, agradecendo aos céus por Louise estar disposta a cuidar dos trigêmeos. Precisava conversar com a avó, a pessoa mais racional do planeta, e não poderia fazer isso correndo atrás das crianças.


Connor ia se encontrar com o primo Rafe na casa para começar a obra. E tudo parecia prosseguir conforme ele planejava, Dina aceitando ou não... Quando a suíte dos trigêmeos estivesse pronta, Connor reivindicaria a custódia... Dina tinha certeza. A única maneira de impedir isso seria se casando com ele. Mas como, sabendo que o casamento jamais seria o que desejava? Retornando ao momento presente, fitou os olhos compreensivos da avó e suspirou. Confessou: – Muito bem. Eu o amo, mas esse não é mais um motivo para não me casar? A avó riu divertida. – O amor é o único motivo para se casar – corrigiu. – Vocês dois amam as crianças. De qualquer modo, já estão vivendo juntos... Dina ficou surpresa ao perceber que o fato de sua avó saber que dormia com Connor a fazia corar. Mas era isso que estava acontecendo. – O casamento seria apenas um contrato – revidou Dina, tomando um gole do café. – Um acordo comercial. – Um casamento de conveniência – disse Angelica, aquiescendo com um gesto de cabeça. – Meu casamento com seu avô foi assim. Mas deu certo por 47 anos. Dina suspirou. – Meu caso é diferente. – Como? Você já o ama, nieta. E isso não é mau. – Pode se tornar. – Como também pode se tornar maravilhoso. Não saberá se não tentar. – E se tentarmos e falharmos os bebês sofrerão. – Então não falhem. – Angelica segurou a mão da neta por cima da mesa. – Muitos casamentos arranjados se transformam em histórias de amor. Por que não o seu? Porque Connor não desejava uma esposa, apenas uma parceira de cama. Alguém para cuidar de seus filhos. E Dina temia que Connor desejasse transformá-la em outra pessoa. A avó pareceu ler seus pensamentos e disse acima do rumor de conversas animadas e do barulho em volta: – Você não é sua mãe. Confie nele. Melhor ainda, confie em você própria. DUAS SEMANAS mais tarde o novo sobrenome de Dina era King. O casamento foi simples, apenas com alguns membros da família e alguns amigos e colaboradores presentes. O pátio dos fundos da casa de Connor foi enfeitado com fitas brancas e flores de verão. Mesas e cadeiras foram arrumadas sobre os gramados impecáveis. O sol brilhava, a música enchia o ar, e os convidados se serviam no bufê que a própria Dina preparara. – Sua esposa é uma cozinheira de mão cheia. Connor relanceou um olhar para Colt e depois para Dina. Seu vestido de noiva realçava as curvas perfeitas que ele ansiava por tocar. Os longos cabelos escuros caíam sobre os ombros enquanto dançava com um dos bebês no colo. Quando lançou a cabeça para trás e riu, ele desejou beijar seu pescoço. Excitado, Connor tratou de desviar o olhar porque era impossível resistir às reações que ela lhe provocava.


– Não consegui convencê-la a contratar outro bufê – disse para o irmão gêmeo. – Insistiu em preparar tudo praticamente sozinha. – E eu agradeço por isso. – Colton se serviu de outro canapé e depois sorriu. – Além do mais, ela é linda. – É verdade. – Jamais pensei em vê-lo casado. – Trata-se de interesses, Colt – replicou Connor, olhando de novo para Dina porque não conseguia resistir. – Já expliquei para você. – Sim. Negócios. – Colt deu um tapinha nas costas do irmão. – Por isso fica babando quando olha para ela. – Não estou... – Connor se interrompeu e tomou um gole de cerveja, para dizer depois: – Jamais quis me casar porque nunca pude confiar inteiramente em uma mulher. Dina me compreende e fui muito claro com ela. – Deu de ombros e fitou a noiva que entregava Sage para Louise e pegava Sam para dançar. Uma onda de doçura o invadiu, mas tratou de ignorar. – Se Dina se portar mal, pedirei o divórcio e ficarei com as crianças. Se tudo der certo, todos saem ganhando. E nós dois nos damos bem sexualmente, sem a confusão de emoções mais profundas. Pensar em divórcio no dia do casamento fez Connor estremecer, mas ele afastou a sensação. Ainda não sabia o que fizera Dina voltar atrás e aceitar se casar com ele, porém suspeitava que devia agradecer Angelica Cortez por isso. E, agora que estavam unidos, faria de tudo para que a palavra “divórcio” nunca nublasse seu caminho. Olhou Dina e se sentiu calmo de novo. Não era apenas desejo que sentia por ela. Era mais. Algo mais profundo que luxúria, maior do que apenas gostar de alguém, porém não conseguia achar uma definição para isso, então tratou de esquecer. Colt o fitou por um momento, depois balançou a cabeça e atacou uma tortinha com várias camadas de creme. – Você é um idiota – disse, enquanto engolia um pedaço. – Casamento é mais que sexo, Connor. Quer dizer conversar, compartilhar, rir junto. Confiar. E você já está falando de divórcio. – Não – replicou Connor, com uma pontada de culpa. – Só estou dizendo que não quero perder. – Mas pode perder. – Colt terminou a tortinha e deu de ombros. – Porém, tenho fé de que você saberá manejar as coisas. Agora vou dançar com minha mulher. Quem sabe você devesse fazer o mesmo com a sua.


CAPÍTULO 10

A VIDA de Dina mudara quase que instantaneamente. Ser casada com um King abrira portas que ela nem sabia que existiam. De repente sua empresa de serviço de bufê estava mais ativa que nunca. Ela queria ficar aborrecida pensando que era o nome King e não sua capacidade culinária que chamava atenção, mas sentia-se feliz demais com o resultado. Providenciar o bufê para seu próprio casamento não fora fácil, porém como poderia se intitular chef e contratar outra empresa para o seu grande dia? Então trabalhara por dois dias e, com a ajuda de Louise, conseguira a façanha. Não apenas todos os presentes haviam adorado a comida como também dois convidados telefonaram dois dias depois para contratá-la para suas festas. Entretanto, por mais que seu negócio estivesse prosperando, após um mês de casada Dina continuava nervosa e preocupada sem saber se fizera a coisa certa. Amar Connor já fazia parte de sua natureza e não havia como ignorar. Porém, o amor não a deixava cega. Connor não queria saber de amor. Deixara isso muito claro. E desde o casamento Dina o pegava olhando para ela de um modo pensativo que a fazia estremecer. Porém, ele continuava o mesmo de sempre. Irritante. Charmoso. Sedutor. E, quando a levava para a cama todas as noites, conseguia fazê-la esquecer as dúvidas que a atormentavam durante o dia. Sentada sobre uma colcha à sombra de uma árvore no pátio dos fundos ela observava enquanto os trigêmeos corriam em círculos, rindo e balbuciando entre si. Os três bebês estavam felizes e saudáveis; amavam Connor e seu novo lar. Os cinco estavam se tornando muito unidos e, embora adorasse isso, Dina se preocupava com o que aconteceria se tudo desmoronasse. Mas em momentos como esses se congratulava pela decisão de ter se casado com Connor. Da casa partiam sons que lembravam relâmpagos e trovões provocados por serras elétricas e gritos da equipe de operários. A King Construções derrubava paredes e aumentava o quarto dos trigêmeos para transformá-lo na suíte ideal à medida que crescessem. O barulho era ensurdecedor, mas trabalhavam à pleno vapor e provavelmente tudo estaria terminado dentro de duas semanas. E tudo mudara no mundo de Dina. Embora isso fosse excitante, também a deixava vulnerável.


Talvez não tivesse sido a decisão mais sensata ter casado com um homem que não a amava, mas não se arrependia; ela tinha os trigêmeos, tinha Connor. E uma empresa que voltara a ter sucesso. Seria louca se resolvesse se queixar. Cercada por canecas, biscoitos e tigelas com banana amassada, Dina pegou seu caderno de papel sulfite e sua caneta predileta. Adorava o laptop e o tablet, mas quando se sentia realmente criativa e deixava a imaginação vagar precisava de papel e caneta. Calmamente começou a jogar no papel suas ideias de cardápios para a festa de início de verão de uma imobiliária local. Fitando os garotos, sorriu e começou a incluir os ingredientes de que precisaria. Porém, quando ouviu o grito de cortar o coração, largou tudo e saiu correndo. CONNOR TINHA uma pilha de arquivos para checar e assinar além de um almoço de negócios em menos de meia hora. Quando o almoço terminasse, estava pensando em encerrar o dia de trabalho e voltar para casa cedo. Sorriu ao pensar nisso, já que era sempre tão responsável. Chegar cedo, sair tarde, incrementar os negócios. Não tivera realmente uma vida até os trigêmeos e Dina abalarem seu universo. E agora que os tinha não suportava ficar muito tempo longe deles. Dois dias antes haviam estado na praia, lembrou Connor com satisfação. Os trigêmeos amaram a areia, a água, as gaivotas. Ainda podia ouvir Sadie dando sua risadinha enquanto ele a segurava apenas com os dedinhos dos pés mergulhados no oceano frio. Sage tivera mais interesse em correr pela areia, mas Sam adorara derrubar cada castelo que Connor e Dina erguiam para eles. Connor sorriu ao se lembrar de Dina em seu biquíni azul. Oh, sim. Era melhor sair mais cedo para fazerem mais um passeio até a praia. Jamais pensara em se casar, mas até agora não estava sendo ruim. Exceto, é claro, pelo crescente sentimento cada vez mais profundo que alimentava pela esposa. Só em pensar sorria. Preocupante, não? Jamais tivera uma mulher em sua vida de quem realmente gostasse e sentisse falta. Nunca sentira por outra a excitação que o dominava quando Dina entrava em uma sala. Era um pouco irritante admitir até para si mesmo o quanto a presença dela em sua vida o afetava. – Con. Ergueu os olhos e viu Colt com ar severo e olhar gelado de pé no umbral da porta de seu escritório. Instantaneamente Connor sentiu medo como se uma garra de gelo percorresse sua espinha dorsal. Levantando-se, perguntou: – Algum problema? – Louise telefonou. Sam se machucou e Dina o levou ao pronto-socorro. Connor ficou gelado da cabeça aos pés. Medo. Pavor. A imagem do garotinho encheu sua mente. Tão dócil. Tão feliz. Tão perigosamente vulnerável. Forçou-se a mover as pernas, deu a volta na escrivaninha e rumou para a porta. – Está muito machucado? O que diabos aconteceu? Por que Dina não me ligou? – Ela tentou... – Colt seguiu o irmão para fora do escritório. – Você estava ao telefone com um cliente e Linda não passou a ligação. – Lamento – disse a assistente de sua mesa e com lágrimas nos olhos. – Ela não me disse... – Tudo bem. – Con não tinha tempo para consolar Linda. Fitou o irmão gêmeo. – Vou para o hospital. Colt deu um tapinha em suas costas.


– Certo. Ligue quando tiver noticias. Em segundos Connor estava no estacionamento, e menos de um minuto depois rumava de carro para o sul na Pacific Coast Highway. Por sorte seu escritório era em Laguna Beach e perto do hospital. Porém, o percurso pareceu durar uma eternidade. Imagens terríveis o torturavam. Sam sangrando. Dina soluçando sozinha em um quarto esterilizado, velando o garotinho que ambos amavam tanto. Em sua mente Connor ouviu Sam gritar acompanhado pelo choro de seus irmãozinhos. Apertou o volante com fúria costurando no trânsito e ignorando os faróis amarelos, pressionando o acelerador sempre que podia correr. O medo apertava seu coração. Estacionou à entrada do pronto-socorro, pouco se importando se guinchassem seu carro. Precisava encontrar Dina. Sam. Entrou pelas portas automáticas e correu para a recepção, olhando rapidamente para a sala de espera. Nada de Dina. Nem de Sam. Apenas crianças e adultos, chorando, preocupados. Sabia como se sentiam. Apoiou as mãos no balcão da recepção e perguntou: – Sam King. Cortez. Onde está? A enfermeira franziu a testa. – Qual é o nome? Cortez ou King? Ele respirou fundo, fitou-a com calma, e respondeu: – Cortez. Em breve será King, quando o registrar. E o que isso importa? É um bebê. Está ferido. Sou o pai. Por um ou dois segundos pareceu que a mulher iria discutir, mas provavelmente ela percebeu o desespero em seus olhos e teve pena dele. Raios! Connor mandaria construir uma nova ala no hospital se disso dependesse ver Sam. – Sala de exames dois. À esquerda. Ele correu, ignorando o cheiro forte de antisséptico, e rumou para a sala indicada. Entrou sem bater, e Dina se voltou de supetão para olhá-lo com Sam apertado em seus braços. O rosto do bebê estava vermelho e molhado de lágrimas, e ele respirava com dificuldade. Os cabelos negros estavam despenteados e, assim que viu Connor, estendeu os bracinhos rechonchudos para ele. – Pa! O coração de Connor disparou, e ele agarrou o garotinho dos braços de Dina e o embalou. Pa. Sam acabara de dizer sua primeira palavra... truncada, mas compreensível... e a mágica daquela sílaba afastou o medo por um momento. Connor inalou o perfume de limpeza no corpinho de Sam e seu coração começou a bater em ritmo normal enquanto sentia o peso da criança nos braços. Sam apoiou a cabeça em seu ombro com um longo suspiro e Connor olhou para Dina. – O que aconteceu? As lágrimas também haviam deixado suas marcas no rosto dela. Seus grandes olhos castanhos ainda estavam embaçados, e seus lábios tremiam. – Os três estavam brincando no pátio dos fundos. Eu estava lá, Con. Tudo ia bem, quando Sam gritou de repente e, quando o levantei, sua perna sangrava, e... Pela primeira vez Connor notou o curativo manchado de sangue na perna do bebê. Sam fungou e o pai deu um tapinha em suas costas para consolá-lo. – Como aconteceu? – Balançou a cabeça. – Como ele se feriu? Você viu? Ela aquiesceu com um gesto de cabeça.


– Um prego na grama. Era grande e parecia um prego de telhado. Deve ter caído da construção. – Apertou os olhos com fúria. – Eu deveria ter pensado nessa possibilidade. Ser mais cautelosa. Dina estava se torturando tanto que Connor teve pena. Sem pensar, soltou um dos braços e o passou pelo ombro dela, apertando-a de encontro a Sam. – Não foi sua culpa. Também não pensei nessa possibilidade. Mas vou conversar com Rafe. Quero que um dos operários passe um detector de metais na grama todas as noites, quando terminarem o trabalho. – Não vão querer fazer isso. – Pagarei a mais. Ela riu de leve. – Está bem, admito que às vezes seu talão de cheques é útil. Ele sorriu e beijou o alto de sua cabeça. – Acidentes acontecem. Com o filho e a esposa abraçados a ele, murmurou: – Um dia desses, lembre-me de contar quantas vezes eu e Colt fomos parar no pronto-socorro. Mamãe costumava dizer que iriam nos dar um quarto vitalício ali. Sentiu que ela relaxava um pouco e sorriu, apesar da situação. Sam estava ferido, mas não corria perigo de morte, e Dina estava ali em seus braços. Pela primeira vez desde que o irmão entrara em sua sala com olhar sombrio, Connor respirou livremente. – Então, o que o médico disse? – Nada, ainda não o vimos. – Isso é inaceitável. Pegue Sam, vou encontrar um médico e arrastá-lo para cá... A porta se abriu e uma jovem com sorriso simpático, cabelos cor de cobre e um ursinho de pelúcia pendurado no estetoscópio entrou. – Olá, sou a dra. Lamb. – Checou a planilha nas mãos e fitou o bebê. – Este deve ser Sam. O garoto ergueu o rosto e tornou a enterrá-lo no ombro do pai. Todo o instinto protetor emergiu de Connor. Sam esperava que ele o protegesse. Mas, mesmo detestando largar o menino que amassava sua camisa com os dedinhos gordos, foi forçado a sentar Sam na mesa de exame. A dra. Lamb tirou de uma gaveta um minúsculo bichinho de pelúcia ainda na embalagem de plástico. Era um elefante, e ela o entregou a Sam. – Por que não segura enquanto eu vejo sua perninha? Desconfiado, Sam pegou o brinquedo e o apertou entre as mãos. Connor também apertou a mão de Dina, e depois cada um se postou de um lado da jovem médica. Connor se sentia indefeso e odiava isso. Não podia fazer nada e isso o torturava. Passou a mão na nuca e observou a médica examinar Sam com delicadeza. Quando terminou, ela disse: – Bem, parece que precisaremos dar alguns pontos. – Oh, não – gemeu Dina. – Não se preocupem – acalmou a médica, com um sorriso para Sam. – Temos spray anestésico. Ele não vai sentir nada, prometo. Suas vacinas estão em dia? Connor empalideceu. – Não faço ideia. – Virou-se para Dina.


– Sim – respondeu ela. – Não trouxe a caderneta de vacinação comigo, mas se puder usar o computador do hospital... – Tudo bem, não precisa. Daremos uma pequena dose de antitetânica por precaução. Enquanto a médica realizava a tarefa e Dina distraía Sam, Connor pensava que se ela não estivesse ali não teria nada a responder sobre o histórico médico de Sam. Ainda havia tanta coisa a conhecer sobre seus filhos. Descobrir. E precisava providenciar o mais depressa possível a adoção legal das crianças, garantindo que levassem seu nome. Olhou Dina confortando Sam, que brincava com o elefante. Ela era uma ótima mãe para os trigêmeos e uma mulher e tanto, e agora que eram casados seria legalmente a mãe dos trigêmeos. Tudo ficaria sendo oficial para os King. Uma família. Estava agradecido por Dina continuar ao seu lado dividindo a preocupação e a ansiedade. Sempre estivera sozinho para lidar com os negócios e jamais permitira que o pânico o dominasse. Porém, agora tinha filhos e sabia que o medo sempre iria rondá-lo dali em diante. Ter Dina por perto aliviava algo em seu íntimo. Em pouco tempo ela o fizera sentir coisas que jamais sentira antes. Como se percebesse estar sendo observada, Dina o fitou e sorriu. Mas logo voltou a atenção para Sam. O casal compartilhava o sofrimento desse instante e isso mexeu com o coração de Connor. E foi ali, na pequena sala com cheiro de antisséptico, que percebeu a surpreendente verdade. Amava sua esposa. E isso o chocou demais. MUITO BEM. Desde aquele momento na sala do pronto-socorro, duas semanas atrás, Connor admitia – pelo mesmo para si mesmo – que amava Dina. Aceitara isso, porém ainda não confiava nela, então mantinha seus sentimentos escondidos. Aguardava que ela cometesse um erro, para provar a si mesmo que Dina era igual a qualquer outra mulher que conhecera na vida, e que não merecia seu amor. Porém, até esse momento... ela não cometera erros. Ao contrário, continuava a mostrar ser quem alegava ser. Uma pessoa forte. Independente, amorosa... Então por que ele não conseguia relaxar a guarda? Não podia amá-la sem perigo... e enquanto ela não soubesse como se sentia não corria perigo. Covardia? Não. Esperteza, dizia sua mente. Fora usado muitas vezes para agora baixar a guarda sem mais nem menos, apesar de Dina ser diferente de todas que já conhecera. Ela não estava interessada em sua fortuna e se sentira insultada todas as vezes em que ele oferecera ajuda financeira. Mas como saber se estava sendo sincera? Talvez ela fosse uma ótima atriz. Certo, isso parecia estúpido. Porém, ainda não conseguia acreditar nela inteiramente. E como poderia? Conheciam-se há pouco tempo. Então era melhor dar tempo ao tempo e esperar mais alguns meses. Talvez um ano. E, se Dina fosse realmente quem dizia ser, então confessaria seu amor por ela, mas precisava ter certeza. Dina preparou o bufê para a festa de cinquenta convidados oferecida aos colaboradores comerciais mais importantes de Connor e ele só recebera elogios a noite toda... Não apenas pela comida, mas pela sorte de ter casado com Dina. A festa fora um enorme sucesso. A maioria dos convidados já havia se retirado, e quando dois homens saíram Connor ouviu sua conversa em voz baixa: – Quem diria que Connor King acabaria se casando, não é? – E com uma mulher com crianças – disse o outro. – Acredita mesmo que ele é o pai?


– Quem sabe? – replicou o primeiro homem, e Connor mergulhou mais nas sombras para ouvir. – Entretanto, vou lhe dizer, se pudesse levar uma mulher como aquela para minha cama eu o faria mesmo que ela estivesse mentindo na minha cara. Não seria a primeira vez que uma mulher sem dinheiro casa com um homem rico apenas para ter uma vida mais tranquila. O segundo sujeito concordou: – Se vai ser manipulado, então que seja por uma mulher que cozinhe como essa e que seja tão bonita também. Um momento depois os dois haviam desaparecido e Connor ressurgiu de seu esconderijo para se despedir dos demais convidados. Porém, a tal conversa ficou ecoando em seus ouvidos. As pessoas andavam comentando. Já esperara por isso. Diziam que estava sendo manipulado. Seria verdade? – Foi uma festa maravilhosa, Connor, obrigada por nos convidar. – O prazer foi todo meu – disse ele, apertando a mão de David Halliwell, um de seus clientes. A noite de agosto era quente, porém a brisa marítima mantinha o frescor. Luzes brancas reluziam nas árvores e a música de um piano ainda ecoava pelos alto-faltantes. O resto dos convidados estava indo embora, e isso era um alívio porque Connor desejava ficar sozinho com a esposa. Talvez aquela fosse a hora de dizer que a amava, assumir o risco. – Sua esposa é genial – dizia Marian Halliwell. – Aliás, requisitei seus serviços para nossa festa de aniversário de casamento, e minha irmã irá chamá-la para a grande inauguração de sua butique em setembro. Connor sentiu orgulho da esposa. – Tenho certeza de que Dina ficou muito contente. – Oh, sim – murmurou Marian. – Disse-lhe que agora pertence à família King e que o mundo vai se abrir para ela. – Verdade? – Connor relanceou um olhar para onde Dina se encontrava dando instruções para os empregados. – Bem, naturalmente ela já sabia disso – continuou Marian. – Ela mesma disse que se tornar uma King foi a melhor decisão comercial que já tomara. Connor fitou a senhora de meia-idade. – Disse? – Uma leve suspeita começou a dominá-lo. Decisão comercial. Dina se casara com ele, e agora estava transformando sua empresa em um sucesso que antes fora apenas um sonho. Mas de início ele lhe oferecera uma transação comercial honesta e ela recusara, insultada. Agora parecia à vontade com esse aspecto comercial e era ele quem desejava que seu casamento fosse mais do que um acordo. – Venha, Marian – chamou o marido, arrastando-a para a porta. – É hora de irmos. – Lógico – respondeu a esposa, olhando por cima do ombro para Connor enquanto caminhava. – Diga a Dina que telefonarei para falar dos detalhes da festa. Connor acenou, mas já não prestava atenção na conversa. As dúvidas o assaltavam e, embora não quisesse admitir, o comentário displicente de Marian o chocara. Sua desconfiança voltou a surgir, acabando com a intenção de revelar seus sentimentos a Dina. Do outro lado do pátio ela se movia ao luar com as minúsculas luzes brancas acima, e parecia um sonho, o tipo de sonho que podia fazer um homem acreditar que era verdadeiro. Enquanto a fitava, Connor viu um homem se aproximando dela e conduzindo-a para as sombras. O instinto o fez se aproximar mais, ignorando os dois ou três ajudantes que arrumavam cadeiras e


carregavam travessas para a cozinha. Seu olhar estava fixo nos arbustos e no homem que tentava puxar Dina para o meio deles. Connor se apressou, mas o que esperava encontrar? Dina tendo um encontro secreto? – LINDA FESTA. Dina enrijeceu, mas se forçou a sorrir com animação ao se voltar para fitar quem falara. Na última meia hora, para todos os lugares que ia, ali estava ele. O homem tinha cerca de 40 anos e usava um terno que provavelmente custara mais do que o aluguel que ela pagava no seu bangalô. Ele também achava, talvez por ter bebido muito, que era irresistível. – Obrigada – respondeu Dina. – Fico feliz que esteja se divertindo. – Connor sempre teve muita sorte com as mulheres – disse o homem, aproximando-se e acariciando o braço dela. Dina recuou, e então percebeu que estavam sozinhos a um canto do pátio escuro. – Obrigada, mas se me der licença... – Não precisa fugir – interrompeu o homem, apertando seu braço com força. – Tenho tanto dinheiro quanto o velho Connor. Você e eu poderíamos nos divertir um pouco. – Perdão? – Ela tentou livrar o braço, mas o homem era muito forte, apesar de estar muito bêbado, e Dina não queria causar um escândalo. Contudo, também não gostava de se sentir acuada. – Vamos lá, me dê um beijinho e a deixarei em paz. – Pode me deixar em paz sem beijo nenhum – retrucou Dina. Ela só queria que o homem fosse embora e que aquela noite terminasse. Mas a festa era importante para Connor e ela não desejava arruiná-la criando um escândalo. Entretanto, o homem não a deixava ir, e logo Dina começaria a dar chutes e gritar. – Um beijo. Qual é o problema? – Deixe-me em paz – exclamou ela, tentando se livrar. – Mas você é tão bonita – murmurou o bêbado, se virando de modo a ficar de costas com Dina nas sombras. – Um beijo. Vai gostar. – Não, eu... Ele inclinou a cabeça e Dina se afastou; porém, antes que o homem conseguisse seu intento, foi empurrado para trás e caiu ao levar um soco. Dina ergueu os olhos para o rosto enfurecido de Connor e seu coração bateu mais forte. Era bom saber que tinha um cavaleiro de armadura branca disposto a salvá-la do dragão. Tudo acabou depressa, com o bêbado se levantando do chão, balbuciando desculpas e fugindo. Por sorte a maioria dos convidados já havia partido. Dina olhou em volta do pátio e percebeu que estava sozinha com Connor. Grande parte da limpeza já estava acabada e em breve a equipe iria embora também. – Obrigada. Ele estava bêbado, mas... Então notou o brilho duro no olhar de Connor e seu sorriso irônico. Continuava furioso. E não por causa do homem inoportuno... mas por causa dela. – Connor? Seu rosto se tornou ainda mais sombrio. – Falaremos sobre isto mais tarde. Quando todos tiverem ido embora, encontre-me no grande salão.


Ela o viu se afastar sem olhar para trás. Um vazio tão grande a dominou que teve dificuldade em respirar. Precisava supervisionar a equipe, mas não conseguia caminhar. A mágoa a dominava, pois sabia que Connor se aborrecera com ela. O que estava acontecendo? Quando, por fim, a equipe de trabalho foi embora, já era tarde. Os trigêmeos dormiam no andar de cima. Louise estava em sua própria suíte e a casa estava às escuras e silenciosa. Só então Dina se permitiu pensar no incidente. A mágoa ainda a dominava, porém a raiva era maior. Não fizera nada de errado, mas era óbvio que Connor estava contra ela. Caminhou até o grande salão. Ele estava de pé junto às grandes janelas, fitando a noite escura. Enfiara as mãos nos bolsos da calça e Dina podia ver a tensão que o invadia. – Connor? Ele virou a cabeça devagar para olhá-la por cima do ombro e seu rosto parecia esculpido em pedra. As feições bonitas estavam tensas e não havia calor nos olhos azuis. – Se pretende me trair, pelo menos tente ser discreta – murmurou em voz baixa. – Trair? – Chocada, ela oscilou, mas logo se recuperou. – É isso que pensa ter visto? Está maluco? – Deu um passo à frente e parou. – Era um bêbado me importunando. Não havia nenhuma traição. Estava tentando me livrar dele sem causar escândalo. Não deu para perceber quando fez sua entrada triunfal? – O que vi foram vocês dois se embrenhando nos arbustos. – Foi ele quem me empurrou para lá. – E eu devo acreditar nisso – murmurou Connor. – Por que não acreditaria? – Era Dina quem não conseguia acreditar no que estava acontecendo. – Eu não traio, Connor. E não minto. – Certo, apenas usa as pessoas para conseguir o que quer. – Do que está falando? Ele caminhou até ela, cada passo vagaroso e medido. – Pensei que fosse diferente – murmurou Connor. – Quase me enganou. Mas foi tudo uma armadilha, não? Conseguiu me fazer casar com você... Uma risada breve e áspera escapou dos lábios de Dina. – Fazer você se casar comigo? – repetiu, chocada com o que ele dizia e com a frieza em seu rosto. – Foi você quem fez de tudo para me convencer a casar... – Oh, sim – interrompeu Connor. – Você me manipulou muito bem. Envolveu-me em minha própria teia e me fez desejá-la tanto que não raciocinei direito. Mudou-se para cá e se tornou parte de minha vida. – Passou a mão na nuca. – Você começou tudo, deixou-me tão louco que foi fácil me convencer a pedi-la em casamento... – Convencer você? – A fúria de Dina era tão indescritível, que mal conseguia respirar de tanta raiva. – Seu arrogante, convencido... – Sabe qual foi a melhor parte? – interrompeu Connor, balançando a cabeça. – Cada vez que tentava ajudá-la financeiramente, sua atuação como mulher insultada era brilhante. – Atuação? Não estava atuando. Não queria seu dinheiro naquela época e não o quero agora. – Não, só queria meu nome. Sempre foi esse o objetivo, certo? – Ele se aproximou mais, e Dina não recuou. Fincou os pés no chão e ergueu o queixo para encarar os olhos que conhecia tão bem.


Entretanto, nada havia de familiar neles agora, apenas suspeita, revolta e raiva. Mas ela podia enfrentar fúria com mais fúria ou com calma. Precisava raciocinar. A mágoa brigou com a raiva e venceu, deixando-a gelada. – Não sei do que está falando. – Disse à Marian Halliwell que o casamento comigo foi a melhor decisão comercial que já tomou. Ela dissera isso? Não lembrava. Conversara com tanta gente na festa que todos os rostos se confundiam em sua mente; porém, de certa forma, era verdade. Ser casada com Connor a ajudara a desenvolver sua empresa, embora não tivesse aceitado dinheiro dele. Marian não explicara corretamente suas palavras. Fizera todo o trabalho sozinha, pois pertencer à família King não a lhe permitiria continuar indefinidamente a ter sucesso se não trabalhasse duro para isso. Suas palavras não haviam sido bem interpretadas. – Usar o nome dos King fez com que conseguisse muitos clientes nos últimos tempos, não ? – interpelou Connor. – Está me usando, Dina. – Acredita nisso, não? – Ela o fitava com os olhos embaçados de lágrimas. – Sim – replicou Connor com simplicidade –, acredito. Quando me ofereci para lhe dar meu nome e alavancar seus negócios, falava com sinceridade, mais fiquei muito impressionado quando você recusou. – Balançou a cabeça devagar. – Porém, estava errado. Pensou que não descobriria como estava se pavoneando, usando o nome dos King para se promover? Achou que não me importaria? – Não fiz isso, Connor. – Ela se alegrou por manter a voz baixa e calma apesar dos tremores. Seu coração estava a ponto de se partir de dor. De certa forma, esperara que o conto de fadas terminasse. Imaginara que Connor a deixaria e a realidade viria esmagá-la. Amava-o, porém isso não bastava. Ele mal a conhecia, refletiu com tristeza. Se conhecesse, jamais acreditaria no pior ao seu respeito com tanta facilidade, então ela não podia confiar no marido. E amor sem confiança não resistia. – Não engano nem traio, Connor. E não minto também – repetiu. – E não uso as pessoas em proveito próprio. – Encarou-o com firmeza. – Mas não consegue ver isso porque está sempre à espera que os outros o decepcionem. Está distorcendo tudo para fazer com que eu pareça culpada, pois tem medo de ser traído o tempo todo. – Medo? – repetiu ele com ironia. – Sim. Tem medo. – Ergueu a mão como se fosse esbofeteá-lo, mas apenas acariciou sua face. – Você tem medo. Sei, porque também tinha. Não usei você, Connor, não me casei para alavancar minha empresa ou por causa dos trigêmeos... seja lá o que me ofereceu de início. O único motivo para ter me casado foi porque o amava. Ele piscou diversas vezes e depois estreitou os olhos. Dina deixou a mão pender. – E por causa desse seu olhar desconfiado, nunca lhe revelei a verdade. – O que quer que eu diga? – murmurou ele. – Nada. Já disse demais. É tarde, e estou cansada. Vou dormir. No meu antigo quarto. Deu alguns passos e se deteve quando Connor perguntou: – Ele a machucou? Dina o fitou por cima do ombro. – Quem?


– John Ballas. O sujeito que a incomodou. – O rosto de Connor parecia uma máscara de pedra. – Machucou? Dina balançou a cabeça e respondeu: – Era apenas um bêbado tolo. Se você não tivesse aparecido, eu daria um jeito nele sozinha. – Fez uma pausa e concluiu. – Mas, respondendo à sua pergunta... não. Não foi ele quem me machucou, Connor.


CAPÍTULO 11

CONNOR FOI se deitar no escritório. Não era a primeira vez que dormia no amplo sofá de couro. Mas dessa vez foi um tormento. Passou a noite acordado, revivendo a cena com Dina. Não importava por qual ângulo examinasse o que acontecera, sempre parecia um idiota. Mesmo que estivesse certo... lidara muito mal com a situação. Não sabia o que o fizera perder o controle daquele modo. Só sabia que andava tenso nas últimas duas semanas. Para ser honesto, andava tenso desde que descobrira que amava Dina. Isso o abalara demais. Mesmo assim fingira que tudo estava bem. Então seus convidados começaram a elogiar os talentos de Dina dizendo que iriam contratar seus serviços para eventos particulares. Connor observara a esposa sorrir, feliz, se relacionando bem com todos, e uma voz sussurrara em sua mente que ela estava apenas usando seu nome para se autopromover, e que não era diferente das outras que haviam tentado usá-lo no passado. Arrastando-se para fora do sofá, ele tropeçou até chegar à cozinha do escritório, onde preparou café. Mas enquanto realizava essa tarefa habitual as imagens de Dina se sucediam em seu cérebro. O sorriso em seu rosto quando ele arrastara John Ballas para longe dela e como parara de sorrir por causa dele, Connor. Céus. Apoiou as mãos sobre o tampo da mesa e ouviu distraído o borbulhar da cafeteira. Salvara a esposa de um idiota e depois se voltara contra ela. – Quem faz uma coisa dessas? – exclamou. – Faz o quê? Connor nem se importou em disfarçar o resmungo de mau humor ao ver Colt parado na soleira da porta. Ninguém diria nessa manhã que eram gêmeos idênticos, pensou aborrecido. Sem dúvida Colt dormira bem. Estava barbeado e não usava as mesmas roupas da noite anterior. Além disso, sua vida não fora atirada no esgoto. – O que você fez? – O que eu fiz? – repetiu Connor, virando-se para derramar o líquido espesso e negro no pote. – Sério, Con. Vi você na festa ontem. Estava tão tenso que pensei que fosse explodir. E dormiu no escritório. – Eu sei.


– Então me diga. O que você fez? – Fiz papel de idiota – resmungou, não gostando de dividir esse momento com o irmão. – Sim, foi o que pensei depois que Penny conversou com Dina esta manhã. Connor ergueu a cabeça de supetão. Fitou o irmão, estreitando os olhos diante do sol que se infiltrava pelas janelas. – Dina está bem? – E existe algum motivo para ela não estar? Muitos, pensou Connor, mas nada disse. Não iria falar sobre certas coisas nem mesmo com seu irmão gêmeo. – Pare de pegar no meu pé, está bem? – Claro – concordou Colt depressa. – Qual pé? Direito ou esquerdo? – Não seja engraçadinho – murmurou Connor. – Não estou com humor para brincadeiras... O café está pronto. – Agarrou o pote, encheu uma xícara e sorveu um gole com alívio. Entretanto, o calor e a cafeína não ajudaram. Ainda havia um buraco negro e sofrido no meio de seu peito. E estar completamente desperto só aumentava seu sofrimento. – O que diabos aconteceu? – repetiu Colt. – Nem eu mesmo sei – respondeu Connor sem pensar. Raios. Repassava a cena em sua cabeça sem parar e ainda não sabia por que agira daquele modo. Balançou a cabeça e tomou mais um gole de café antes de insistir: – Penny falou com Dina. Como ela está? – Magoada, confusa, furiosa. Connor passou a mão pelo rosto e suspirou. – É claro. Por que não estaria assim? – Qual é o problema, Connor? – Não sei. – Connor voltou para sua sala e Colt o seguiu, vendo-o cair de novo sobre o sofá. – Alguma coisa andava crescendo dentro de mim há dias. Talvez semanas. Na noite passada, não sei... explodi. – Ergueu os olhos para o irmão. – Eu a amo. – Grande novidade – disse Colt com frio sarcasmo. – Bem, foi novidade para mim. E não muito boa. – Connor se recostou no sofá e passou um braço sobre os olhos. – Não queria amá-la. Arriscado demais. Confuso demais. Então, não sei, talvez estivesse procurando motivos para não a amar. – Por quê? – E é você quem me faz esta pergunta? – Connor fitou o irmão com um brilho perigoso no olhar. – Como foi que reagiu quando descobriu que Penny andava mentindo para você? Que tivera seus filhos e não lhe contara? Colt se remexeu pouco à vontade. – Situação diferente – resmungou. – Diferente nada. Tornei-me pai de trigêmeos e não me contaram. – Connor apoiou a xícara na mesinha de centro e se levantou. – Jackie, minha grande amiga, mentiu para mim e desapareceu para esconder a mentira. Ela me usou. E, se Jackie fez isso, por que não Dina? – Então julga todo mundo baseado em Jackie? – Não apenas nela. – Connor começou a andar de um lado para o outro. Enquanto isso, sua raiva aumentava, fazendo-o pensar que não estivera errado na noite anterior. – Quantas mulheres tentaram


jogar a rede e nos fisgar? Pelo dinheiro? Pelo nosso nome? Pelo que poderíamos fazer por elas? Raios! Já se esqueceu de como fugiu de Penny? Seu casamento original não durou apenas 24 horas? – Connor apontou o dedo em riste para o irmão. – Naquela ocasião você me disse que a amava, porém não confiou nela. Então fugiu. – Não estamos falando ao meu respeito – disse Colt com expressão severa. – Claro que estamos. Somos gêmeos idênticos. Por que é tão difícil perceber que estou enveredando pelo mesmo caminho que você tomou? – Exatamente. – Colt parou no meio do cômodo. – Por que não quer ver isso? Por que não aprender com meus erros? Está fazendo o mesmo que eu fiz. Eu estava errado, e se bem me lembro foi você quem me chamou de idiota. Connor fez uma careta. – Fui um idiota. Fugi de Penny – continuou do Colt. – Não tenho orgulho de admitir isso. Fui covarde. – Não, eu fui o errado. Você foi inteligente por acreditar em seus instintos. Colt riu sem alegria. – Se tivesse sido inteligente teria ficado ao lado dela, porque todos os instintos me diziam que Penny era a mulher certa para mim. Uma raridade. Porém, deixei que o medo me dominasse. Como você. Connor riu e o som pareceu oco. Caminhou até as janelas que descortinavam o oceano e a praia. O sol brilhava no início da manhã. Os surfistas já estavam na praia preparando as pranchas para as ondas certas. Mas o que deveria ser uma visão calmante nada fez para aliviar a pressão no seu peito. – Não tenho medo de nada – afirmou, mas ouviu a voz de Dina. Você tem medo, Connor. Sei, porque também tinha. Ele tratou de desviar o pensamento. – Acha que não conheço você? – continuou Colt. – Que não percebo? Está tremendo nas bases, homem. – Vá embora. – Não – resmungou Colt. – Vou salvá-lo de si mesmo. – Suma, Colt. Faça um favor para nós dois. – Não vai dar certo. Colt ficou ao lado do irmão e ambos fitaram a vista da janela. – Tentei a mesma droga que você. Disse a mim mesmo que Penny só queria me usar. Achei que ela procurava dinheiro ou qualquer outra coisa, mas tudo que ela queria era o meu amor. – Balançou a cabeça devagar como se ainda mal acreditasse na sorte que tinha. Connor se lembrou do que Colt passara quando ele e Penny haviam tentado recuperar o que os unira de início. E se lembrava de ter achado muito engraçado também. Mas não era tão engraçado quando estava no centro da história. – John Ballas agarrou Dina na festa ontem. Colt ficou imóvel. – Bastardo! Tentou com Penny também. Ela atirou uma bebida na cara dele. O sujeito acha que vai escapar ileso de qualquer coisa. – Sim, mas lhe dei um soco. Não me importo se perdermos os negócios com ele. – Concordo. Como Dina lidou com a situação? Connor enfiou as mãos nos bolsos da calça e cerrou os punhos para que o irmão não visse. – Não fez nada. Vi os dois se encaminhando para os arbustos e interferi, empurrei Ballas para longe.


– Bem feito. Gostaria de ter tido essa oportunidade. – Sim, mas depois – prosseguiu Connor – acusei Dina de me trair com ele. – Proferiu as palavras em voz alta, se sentindo envergonhado. Sabia muito bem que tipo de homem era John Ballas. Maldição! Soubera que Dina não o traíra. Sua esposa fora assediada, e ele se voltara contra ela. Chocado, Colt o fitou de boca aberta. – Ficou louco? – Não sei – admitiu Connor. – Talvez. Colt deixou escapar um assobio. – Não é de admirar que Dina estivesse tão zangada hoje. – Não foi só por isso. – Connor... – Sabe do que mais? – Connor encarou o irmão. – Não quero ouvir seus comentários. Colt o analisou. – Não, precisa ouvir de Dina. Mas será difícil, já que ela foi embora. – Embora? – Connor ficou gelado. Raios, parecia que o mundo desabara. – O que quer dizer? – O que acha que quero dizer? Ela partiu. Disse à Penny hoje cedo que ia embora. – E só me conta isto agora? – Connor se virou e rumou para a porta. – Queria ouvir o seu lado da história, e agora que ouvi não culpo Dina – murmurou Colt. – Obrigado pelo apoio. – Quando fizer algo certo, apoiarei. Mas quanto a isso? – Colt balançou a cabeça. – Está por conta própria. E era assim que vivia desde adulto, refletiu Connor, deixando o escritório com as palavras do irmão soando em seus ouvidos. Connor jamais deixara ninguém se aproximar demais... pelo menos ninguém fora da família... exceto Jackie, e mesmo ela lhe dera as costas, portanto sua raiva não era justificada? Não tinha razão de suspeitar de todos? No carro, rumando para o sul, lutou contra o pânico que crescia em seu íntimo. Não importava o que Dina dissera à Penny. Ela não partiria. Mas Connor se lembrou de como ela sempre defendera seus pontos de vista. Ficara dizendo a si mesmo que Dina era teimosa demais e que não quisera ceder nem um milímetro. Entretanto, lembrou-se de sua expressão na noite anterior. O toque da mão delicada em sua face e da dor em seus olhos. Abaixou o visor do carro para proteger os olhos do sol intenso. Caso Dina tivesse partido, ele a seguiria e resolveria a questão de uma maneira ou de outra. Iria procurá-la no bangalô. Sabia que o conservara, portanto aonde mais poderia ir? Resolveria a questão. Como? Poderia esquecer anos de desconfiança e acreditar em uma mulher? Mas não perderia Dina. Só pensar em nunca mais vê-la provocava um aperto em seu coração. Colt dissera ter sentido que Penny era a única em sua vida. Bem, Connor se sentia assim a respeito de Dina. A mulher em um milhão que julgara não existir. A mesma que só passara a apreciar tarde demais. Não. Ainda tinha tempo. Havia uma resposta. Só precisava encontrá-la. Não era idiota como o irmão o julgava. Parou em frente à sua casa e correu para a porta. Galgou os degraus de dois em dois, os passos ecoando na casa silenciosa.


Silenciosa demais. Os trigêmeos deviam estar em cima brincando, rindo. O aroma de ovos mexidos deveria estar invadindo o ar junto com o de café, mas não havia nada. A casa estava abandonada tanto quanto ele. Caminhou pelo corredor, enveredou para a suíte dos trigêmeos e ficou imóvel. O lindo quarto estava vazio. Olhou em volta como se esperasse encontrar Dina e as crianças escondidas atrás de um móvel. Mas não havia ninguém. Passeou os olhos por tudo. Rafe se superara. A suíte era enorme, com uma janela saliente com grades de segurança e um banheiro anexo projetado para crianças pequenas com armários e banheira apropriados. No quarto havia três berços brancos iguais que seriam substituídos por camas à medida que os bebês crescessem, e estantes recheadas de livros infantis e brinquedos. O closet era enorme também, com suas roupinhas e um carpete macio. As paredes ostentavam pinturas sobre histórias infantis e retratos de família. Sem sentir, Connor se aproximou da foto de Jackie e Elena. Encontrou os olhos de suas amigas e, por fim, a raiva desapareceu. Jackie o magoara. Mentira para ele, mas por causa dela e de Elena agora tinha os trigêmeos em sua vida, e até a noite anterior tivera Dina. E, no momento, tudo que precisava fazer era trazê-la de volta. Correu escada abaixo e foi procurar a governanta. – Louise. Quando eles partiram? A senhora franziu a testa, cruzou os braços sobre o peito e bateu com a ponta do pé no chão. Depois resmungou: – Antes do café da manhã. Estavam chorando. Todos. Connor notou o brilho de lágrimas nos olhos de Louise enquanto a culpa o invadia, mas engoliu em seco. – Vou buscá-los agora – disse, rumando para a porta. – É melhor trazer Dina e as crianças de volta para esta casa, que é o lugar a que pertencem – avisou a senhora, e ele parou de supetão. Virou-se e viu que a governanta não mudara de posição, mas seu olhar era ainda mais severo. – E, até que voltem, estou de greve. Pode cozinhar e limpar a casa sozinho, Connor King. – Não pode entrar em greve – protestou ele. – Fique olhando – replicou ela brevemente, dando as costas e rumando para a cozinha. Sim, parecia que Connor tinha muitas coisas para resolver. DINA JÁ não tinha mais lágrimas para chorar. Não pregara olho na noite anterior e grande parte do dia fora gasto para consolar os trigêmeos, que eram jovens demais para saber por que seu papai não estava com eles. Graças a Deus também eram muito jovens para entender como Connor era imbecil. – Sabe que pode ficar aqui o tempo que quiser. – Obrigada, Abuela. – Dina se enroscou no sofá da avó. – Amanhã começarei a procurar um lugar para nós quatro. Fitou os bebês no chão da sala da avó. Com sorte, logo se acostumariam a não ter Connor por perto. – Não vai voltar para o bangalô?


– Pequeno demais – respondeu Dina. E cheio demais de lembranças. Connor ficara muito tempo lá. Ela o veria em cada cômodo, imaginando como tudo seria se ele não fosse tão idiota. – Bem, se tudo é uma questão de espaço, talvez deva voltar para a casa que deixou hoje pela manhã. Dina fitou a avó, surpresa. – Como posso voltar? Depois de tudo que Connor me disse... não posso ficar ao seu lado, e ele também não me quer. – Nieta, você ama esse homem. – Vou superar. – Em quarenta ou cinquenta anos, pensou. – Ele também a ama – continuou a avó, e Dina soltou uma breve risada. – Não ria. Sei o que vi. E no dia de seu casamento vi um homem apaixonado. – Está enganada. – Dina gostaria que a avó tivesse razão, mas, se assim fosse, como Connor conseguira lhe dizer todas aquelas coisas horríveis? – Nunca me engano, nieta. – A senhora sorriu com calor. – Já deveria saber disso. – Desculpe, Abuela, sei que tem boa intenção, porém essa história não terá um final feliz. Mesmo que Connor aparecesse aqui agora e pedisse desculpas, como poderia perdoá-lo por me julgar tão mal? Angelica se inclinou no sofá e segurou a mão da neta. – Por amor fazemos muitas coisas. Perdoamos os que nos magoam e os erros dos outros, e também deve sentir pena de um homem – acrescentou, se recostando de novo. – Não encaram as fortes emoções com a facilidade que nós encaramos, e lutam contra o amor como se fosse enfraquecê-los. – Deu de ombros. – São tolos porque, na verdade, o amor fortalece. E nos faz perdoar. Dina refletiu que gostaria de ser tão generosa quanto a avó. Não sabia se conseguiria perdoar Connor, porém não importava porque ele jamais se desculparia. Quando a campainha da porta soou, a senhora disse: – Ah. Já era hora. Dina suspeitou. – Hora para quê? A avó sorriu e foi abrir a porta. – Hora de ver se seu amor é forte, nieta. A voz de Connor fez Dina se levantar de supetão. Seu coração bateu forte, e o estômago se contraiu quando ele penetrou na sala seguido por sua avó. – Traidora – murmurou Dina. – Também amo você – disse a avó, sorrindo. – Vou para a cozinha fazer chá. Connor nem percebeu quando ela se foi. Mal vira a senhora elegante, pois só tinha olhos para Dina. Fora ao bangalô e o encontrara deserto. Então se lembrara da avó dela. Um telefonema para Angelica o tranquilizara por saber que Dina e as crianças estavam bem. A senhora lhe dissera que o resto dependia dele. – Dina... – Pa! – gritou Sam, e todos os trigêmeos vieram correndo para saudá-lo como se tivesse partido há anos, mas era assim que se sentiam. Connor os abraçou e beijou, e quando as crianças voltaram a brincar ergueu-se para olhar para a mulher que o fitava com desconfiança. Não podia culpá-la. – Connor, não quero mais falar com você. – Não precisa. – Deu um passo à frente. – Apenas ouça. Por favor.


Dina respirou fundo e aquiesceu com um gesto de cabeça. Connor sentiu que seu mundo voltava para o lugar. Um raio de sol iluminava os cabelos dela e se refletia em seus olhos. Suas feições estavam duras, mas ela não o mandara embora, então Connor achou que era uma vitória. Tinha uma chance para fazer o encontro valer a pena. Convencê-la de que era a coisa mais importante da sua vida. – Tudo que eu disse ontem à noite estava errado – falou sem tomar fôlego, e viu a surpresa nos olhos dela. – Nem eu acreditei no que disse. Oh, quanto a John Ballas, não trabalhamos mais com ele e, se o vir de novo, darei um outro soco no seu nariz. Dina soltou uma breve risada e ele aproveitou para dizer: – A verdade, Dina, é que não esperava me importar com você... – Sei disso – replicou ela com suavidade. – Deixou claro quando casamos que não procurava uma esposa de verdade, mas uma parceira de cama e uma mãe para seus filhos. Connor fez uma careta. – Sim. E estava errado sobre isso também. – Tem certeza? Ela franziu a boca em um leve sorriso, e Connor interpretou como um bom sinal. – Deixei que meu passado guiasse a maneira como tratei você. De certa forma, usei você como responsável por todos que tentaram usar minha família. – Eu não estava... Ele ergueu a mão para fazê-la calar. – Sei que não me usou. Sei que não mentiu nem me enganou ou fez qualquer outra coisa errada. O problema fui eu, Dina. Ele parou por um momento, então continuou: – Fiquei esperando porque tinha certeza de que você iria me trair, e quando isso não aconteceu entrei em pânico. Se você era tão maravilhosa, então eu estava em uma grande enrascada. Jackie foi a gota d’água; era como uma irmã para mim e me traiu. Passei a duvidar de que existisse alguém honesto no mundo. – Elena era minha família e mentiu para mim a seu respeito também – observou Dina. – Sei. – Aproximou-se mais, fitando os bebês no chão. – E deixamos que elas interferissem. Eu mais do que você. – Mais um passo. – Quando fui até a casa e vi que estava vazia, algo em mim morreu. Sem você e as crianças era o lugar mais solitário do mundo. – Não podia ficar, depois de ontem à noite – justificou-se ela. – Magoei você. Desculpe. Mil desculpas. – Connor... – Não – interrompeu ele depressa, sentindo o coração bater normalmente diante do brilho nos olhos dela e de suas feições abrandadas. – Não fale ainda. Deixe-me acabar, dizer que confio em você, Dina. Quero que venha para casa. Quero ver todos nós vivendo juntos, construindo uma vida de verdade. Ela balançou a cabeça e ele se preocupou. – Confiar em mim é um bom sinal, Connor, mas não o suficiente – falou Dina com doçura. – Disse ontem que o motivo para ter me casado era porque o amo, entretanto não poderei viver com você sabendo que não sente o mesmo por mim. – Aí é que você se engana. – Ele sorriu. – Amo você, Dina, mais do que poderia imaginar amar alguém. É a primeira em quem penso de manhã e a última à noite. Quero passar o resto da vida com


você em meus braços. – Verdade? – Ela sorriu enlevada, e o coração de Connor quase explodiu. – Sim, amarei você para sempre, Dina. Quero levar você e os bebês para casa. Construir uma família e ter mais filhos. – Deus, Connor. Queria tanto acreditar nisso. Ele enfiou a mão no bolso e retirou alguns papéis. – Não pude chegar aqui antes porque estava com meu advogado para que redigisse estes documentos para nós. Ela franziu a testa. – Do que se trata? – Os passos legais para assumirmos os trigêmeos. Como pai e mãe. – Oh, Connor... Ele se aproximou mais e segurou seu rosto entre as mãos. O calor da pele dela e de seu olhar acabou com o último resquício de medo pela noite anterior. – Seremos todos King legalmente, uma família real, teremos amor, e, se confiar em mim, Dina, seremos muito felizes. Ela o fitou e soltou uma breve risada. – Não queria amar você, Connor, porque temia me perder neste amor. Ficou na ponta dos pés e o beijou depressa na boca. Isso não seria suficiente, mas Connor ficou imóvel para escutar o que Dina tinha a dizer, e esperando que fosse o que desejava ouvir. – Estou salva. Você possui meu coração, que entrego em suas mãos confiando plenamente. Connor respirou fundo à vontade pela primeira vez em quase 24 horas, e puxou-a para si, beijando-a quase com reverência. – Jamais a magoarei de novo, juro, e a amarei pelo resto de minha vida. – É melhor que sim – avisou ela, voltando a sorrir. Connor apoiou a testa na dela. – Louise entrou em greve. – O quê? – Dina riu e o som o aqueceu. – Sim. Ameaçou me fazer comer minha própria comida até que eu levasse você e as crianças de volta. – Não é de admirar que você tenha corrido para cá – brincou Dina. – Exatamente – retrucou ele, entrando na brincadeira. – Isso é maravilhoso. Separaram-se quando Angelica entrou na sala trazendo uma bandeja com biscoitos e chá. Colocou a bandeja sobre a mesinha e começou a distribuir os biscoitos para os bebês, que se juntaram à sua volta. – Agora – disse a senhora, piscando um olho –, nieta, se seu marido puder trazer xícaras, celebraremos antes que vocês partam para sua casa. – Abuela – disse Connor, se inclinando para beijar a face da senhora –, que grande ideia! – Vamos juntos buscar as xícaras – disse Dina, apertando sua mão. – Melhor ainda – replicou Connor, ciente de que era o homem mais feliz da face da Terra.


Emily McKay

ACORDO DE PAIXテグ

Traduテァテ」o Ligia Chabテコ


Querida leitora, Eu trabalhei bastante ano passado. Não estou reclamando, apenas comentando. Uma das minhas maiores peculiaridades é que, quando estou escrevendo um livro, não posso ler nenhum outro. Preciso ficar completamente imersa na minha própria história. Por esse motivo, não consegui ler muito. E minha nossa, como senti falta! Mas quando tirei uma folga durante o Natal, eu li, li, li e li! Sete livros e mais de 3.600 páginas depois, finalmente me senti saciada. E resolvi que nunca mais ficaria tanto tempo longe dos livros. Por que estou me abrindo com você? Não deveria estar falando sobre Acordo de paixão? (Um magnata sensual, uma heroína corajosa, um bebê órfão… pronto, agora você sabe os pontos principais.) Na verdade, estou aqui abrindo o meu coração porque sei que você me entende. Afinal de contas, é uma leitora também. Conhece a alegria que um livro traz. Sente a empolgação de ter um ótimo romance esperando por você em casa. Espero que Acordo de paixão seja uma pequena amostra do prazer que senti durante meu feriado literário. E muito obrigada por me deixar entretê-la! Boa leitura! Emily McKay


CAPÍTULO 1

JONATHON BAGDON só queria que sua assistente viesse para casa. Wendy Leland partira sete dias atrás para ir a um funeral da família. No tempo em que ela estivera fora, sua empresa começara a desmoronar. Uma grande negociação com a qual ela estivera lidando fora desfeita. Ele tinha perdido um prazo importante, porque a primeira assistente temporária apagara sua agenda on-line. A segunda, acidentalmente enviara para Beijing o último protótipo desenvolvido, em vez de para Bangalore. A gerente do departamento de Recursos Humanos ameaçara se demitir, duas vezes. E não menos de cinco mulheres haviam saído de seu escritório em lágrimas. Como se tudo isso não bastasse, a quarta assistente temporária queimara a cafeteira. Então ele não tomava um café decente há três dias. No geral, esse não era seu melhor momento. Era pedir demais, naquele momento em particular, quando seus dois sócios nos negócios estavam viajando, e quando ele estava dando os toques finais numa proposta para um contrato crucial, que sua assistente voltasse? Jonathon olhou para sua xícara de café instantâneo, contemplando se poderia pedir a Jeanell, a gerente do RH, para sair e comprar uma cafeteira, ou se isso a deixaria nervosa. Não que Jeanell já estivesse no escritório. A maioria do pessoal chegava por volta das 9 horas, e não eram nem 7 horas. Sim, ele poderia ter saído para tomar um café, ou, melhor ainda, comprar uma nova cafeteira, mas, com tanto trabalho atrasado, não tinha tempo para isso. Se Wendy estivesse lá, uma nova cafeteira teria aparecido magicamente. Assim como o negócio com Olson Inc. teria sido fechado. Quando ela estava lá, tudo funcionava. Como era possível que, em apenas cinco anos como sua assistente executiva, ela se tornara tão crucial para dirigir a empresa quanto ele? Ora, se a última semana fosse alguma indicação, ela era ainda mais importante do que ele. Um pensamento preocupante para um homem que ajudara a construir um império do nada. Jonathon sabia apenas de uma coisa. Quando Wendy voltasse, ele se certificaria de que ela nunca mais o deixasse. WENDY LELAND entrou no escritório executivo da FMJ um pouco depois das 7h da manhã. O sensor de movimento acendeu as luzes, e ela se inclinou para estender a cobertura da cadeirinha infantil de carro


que carregava. Peyton, o pequeno bebê dentro, continuou dormindo. Ela emitiu um som baixinho quando Wendy abaixou a cadeirinha para um canto escuro embaixo de sua mesa. Wendy balançou a cadeirinha gentilmente, até que Peyton silenciasse, então se sentou em sua própria cadeira. Engolindo o nó de medo na garganta, estudou sua sala. Por cinco anos, aquele tinha sido o lugar onde ela trabalhara como assistente executiva para os três donos da empresa FMJ: Ford Langley, Matt Ballard e Jonathon Bagdon. Seus cinco anos na Ivy League – um grupo de universidades de altíssimo nível acadêmico – talvez fosse qualificação demais para seu emprego. Ou talvez não, uma vez que ela não obtivera um diploma em nenhum de seus sete cursos. Sua família ainda achava que ela estava desperdiçando seus talentos. Mas o trabalho era desafiador e variado. Ela adorava cada minuto dele. Nada poderia convencê-la a deixar a FMJ. Nada, exceto o pequeno pacotinho de alegria dormindo na cadeirinha de carro. Quando ela deixara Palo Alto por Texas, a fim de ir ao funeral de sua prima Bitsy, não tivera ideia do que a esperava. Do momento que sua mãe lhe telefonara para contar que Bitsy morrera num acidente de motocicleta, a semana havia sido um choque após o outro. Wendy nem mesmo soubera que Bitsy tinha uma filha. Ninguém na família sabia. Entretanto, agora, ali estava Wendy, guardiã de um bebê órfão de 4 meses. E aguardando por uma batalha de custódia de proporções épicas. Peyton Morgan devia estar nadando em ouro, pelo jeito como a família estava lutando por ela. Se Wendy quisesse alguma chance de ganhar, teria de fazer o que jurara nunca fazer: voltar para o Texas. E isso significava demitir-se da FMJ. Somente Bitsy podia criar tantos problemas do túmulo. Wendy riu do pensamento. Dor seguiu o instante de humor. Fechando os olhos, ela pressionou as têmporas. Exaustão a deixara forte, e, se ela cedesse à tristeza agora, talvez não parasse de chorar por um mês. Haveria tempo para o luto mais tarde. No momento, ela precisava cuidar de outras coisas. Wendy ligou o computador. Na noite anterior, escrevera uma carta de demissão e enviara por e-mail para si mesma. É claro, poderia ter enviado diretamente para Ford, Matt e Jonathon. Falara ao telefone com Ford na noite anterior, quando ele ligara para oferecer condolências. Mas ela queria o fechamento que viria de imprimir a carta, assiná-la e entregá-la pessoalmente para Jonathon. Ela lhe devia isso... ou melhor, devia isso à FMJ. Antes que sua vida se tornasse caótica, queria esse momento para se despedir da Wendy que tinha sido e da vida que levara em Palo Alto. Uma vez que o computador ligou, ela abriu a carta de demissão e mandou imprimi-la. O barulho da impressora pareceu ecoar no escritório silencioso. Ninguém estava lá tão cedo na manhã. Ninguém, exceto Jonathon, que trabalhava demais. Após assinar a carta, ela deixou-a sobre sua mesa e atravessou para a porta fechada que separava seu escritório do deles. Uma onda de tristeza inundou-a. Wendy encostou a cabeça na madeira. A porta era sólida. Confiável. E ela precisava de toda força que pudesse absorver. – VOCÊ NÃO pode culpar Wendy – apontou Matt Ballard, em tom de censura. No momento, Matt estava no Caribe, em lua de mel. Por isso, eles haviam marcado a teleconferência para tão cedo. A nova esposa de Matt, Claire, lhe permitia um único telefonema de negócios por dia. – É a primeira vez em cinco anos que ela tira uma licença pessoal.


– Eu não disse que a culpo – falou Jonathon ao telefone, não arrependido de ter ligado para Matt. Tivera um motivo legítimo para ligar, mas agora soava como se estivesse apenas choramingando. – Quando ela volta? – perguntou Matt. – Ela deveria ter voltado quatro dias atrás. – Wendy falara que ficaria no máximo três dias no Texas. Depois do funeral, ela ligara para dizer que teria de ficar “um pouco mais”. A falta de especificidade o deixara nervoso. – Pare de se preocupar – disse Matt. – Nós teremos muito tempo depois que Ford e eu voltarmos. – Como se não bastasse Matt estar em lua de mel durante aquela crise, Ford e a família também estavam viajando, em sua segunda casa em Nova York. – Ainda temos quase um mês de prazo para a proposta. Sim. Era isso que o perturbava. “Quase um mês” e “muito tempo” eram tão imprecisos quanto “mais um pouco”. Jonathon era um homem que gostava de números precisos. Se ele estava fazendo uma oferta para uma empresa que valia milhões, importava se a empresa valia dez milhões ou cem milhões. E, mesmo que ele tivesse quase um mês para trabalhar na proposta, queria saber quanto tempo era “um pouco mais”. Para não descontar suas frustrações em seu sócio, Jonathon terminou a ligação. O contrato com o governo o estava enlouquecendo. Pior ainda era o fato de que ninguém mais parecia preocupado com isso. Pelos últimos anos, o trabalho de pesquisa e desenvolvimento na FMJ vinha aperfeiçoando medidores e dispositivos smart grid, que podiam monitorar e regular o uso da energia de um prédio. O sistema da FMJ era mais eficiente e mais bem projetado do que qualquer outro no mercado. Desde que eles o estavam usando nos escritórios, a conta de eletricidade diminuíra trinta por cento. Esse contrato com o governo colocaria os medidores smart grid da FMJ em todos os edifícios federais do país. O setor privado seguiria. Ademais, os medidores impulsionariam as vendas de outros produtos da FMJ. Como ele poderia não se empolgar com algo que diminuiria o consumo de energia e daria tanto dinheiro a FMJ? Tudo pelo que ele trabalhara durante a última década dependia dessa única negociação. Era o ponto de partida para o futuro da FMJ. Mas, antes, eles precisavam do contrato. Jonathon fechou seu notebook e ouviu uma leve batida à porta. Não era otimista o bastante para imaginar que a assistente temporária chegara tão cedo. Mas ousaria ter esperança de que Wendy finalmente retornara? Ele se levantou e atravessou a sala enorme que normalmente compartilhava com Matt e Ford. Quando abriu a porta, Wendy caiu em seus braços. EMBORA CAIR inesperadamente através de uma porta aberta parecesse uma metáfora adequada para sua vida no momento, Wendy ainda ficou surpresa de encontrar-se caindo no momento em que a porta se abriu. Os braços de Jonathon a rodearam instantaneamente, aninhando-a contra o peito forte. Um ombro estava pressionado contra ele, e sua mão livre automaticamente agarrou a lapela do paletó masculino. Subitamente, ela estava ciente de diversas coisas. Do cheiro dele. Da largura do peito. E do maxilar recém-barbeado, que foi a primeira coisa que ela viu quando olhou para cima. Normalmente, tentava ignorar tais coisas, mas Jonathon Bagdon era a fantasia de qualquer mulher. Ele possuía um ar pensativo, e, embora raramente sorrisse, quando sorria, covinhas apareciam em suas faces.


Com aproximadamente 1,80m, ele não era tão alto, mas o físico era espetacular. Forte e musculoso. Ela nunca lhe vira o peito desnudo, mas ele tinha o hábito de tirar o paletó e enrolar as mangas da camisa quando trabalhava. Obviamente, ela passava muito tempo olhando-o. Mas, até aquele momento, nunca notara que ele tinha uma manchinha na lateral do queixo perfeitamente quadrado. Fitando-lhe os olhos castanho-esverdeados, Wendy sentiu alguma coisa inesperada passar entre eles. Uma consciência, talvez. Uma tensão que nunca sentira antes. Fascinada, observou os músculos do pescoço dele se moverem a meros centímetros do seu rosto. Ela saiu dos braços fortes. Estava muito ciente do olhar de Jonathon seguindo cada movimento seu. E ainda mais ciente de que seu traje era inapropriado para trabalhar. Ele nunca a vira em jeans antes. Certamente não com sua camiseta favorita da banda de rock The Replacements, que ela comprara on-line de presente para si mesma no seu aniversário de 21 anos. Estava velha e gasta, e ela cortara sua gola, anos atrás. Mas a camiseta era muito confortável. E, hoje, Wendy precisava mais de conforto do que de profissionalismo. Mas, ora, queria que ele parasse de olhá-la com aquela expressão ardente. Essa não era a primeira vez, nos cinco anos que eles trabalhavam juntos, que Wendy o vira olhá-la daquele jeito. Como se ela fosse uma tentação à qual ele tivesse de resistir. Mas era a primeira vez que ela se permitia sentir desejo em retorno. Jonathon podia ser a fantasia das mulheres, mas era terrível com elas. Wendy o vira destruir incontáveis corações femininos. Prometera a si mesma, muito tempo atrás, que nunca se juntaria à legião de mulheres esmagadas por Jonathon Bagdon. Apenas esperava que essa nova consciência que sentira por ele fosse resultado de sua exaustão. Ou, talvez, de sua vulnerabilidade emocional. De qualquer forma, não ficaria por lá tempo o bastante para que isso importasse. JONATHON QUERIA puxá-la de volta para seus braços. Não fez isso, é claro. Mas queria. Manteve a porta aberta com uma das mãos, e pôs a outra no bolso da calça, esperando esconder o efeito que a proximidade de Wendy tivera em seu corpo. Absurdamente, nos poucos segundos que ele segurara sua pequena assistente contra o peito, seu corpo respondera. É claro, ele já sentira desejo por Wendy antes. Geralmente, a reação física não era tão evidente. Mas, então, ela estava sempre vestida em roupas profissionais. Não hoje. O jeans desbotado era justo, e a camiseta sem gola desnudava parte de um ombro, revelando a alça de um sutiã cor-de-rosa. Jonathon engoliu em seco, forçando-se a encará-la. – Imagino que sua viagem tenha sido boa. Ela franziu o cenho e deu outro passo atrás. Então ele lembrou que Wendy tinha ido a um funeral. – Lamento por sua perda – acrescentou ele. Havia lágrimas nos olhos dela? – Todavia, estou muito feliz por tê-la de volta. Ele soava um idiota, o que não era totalmente inesperado. Não lidava com mulheres emotivas. – Eu... – começou ela, então parou, dando-lhe as costas e pressionando as mãos no rosto, parecendo prestes a chorar. Em cinco anos, Wendy não havia sido nada, exceto completamente profissional. Se ela ia chorar, por que não escolhera fazer isso quando Ford estivesse lá? Ford tinha três irmãs, uma mãe, uma madrasta,


uma esposa e uma filha. Certamente, com todas aquelas mulheres em sua vida, ele era mais bem preparado para lidar com esse tipo de coisa. Jonathon seguiu-a para dentro do escritório e tocou-lhe as costas. Ela se virou para fitá-lo, os olhos úmidos com lágrimas, mas iluminados com alguma outra coisa, também. Wendy mordeu o lábio antes de libertar-se de seu toque. E então, ele ouviu. O inconfundível som de choro. Mas não uma mulher chorando. E o som não vinha de Wendy. Confuso, Jonathon adentrou mais a sala dela, procurando pela fonte do som. Era um choro baixinho. Suave. A sala parecia vazia. Ele se moveu em direção ao som, enquanto Wendy apressou-se e praticamente jogou-se no seu caminho. – Eu posso explicar! – Ela ergueu as mãos, como se para se defender de um ataque. – Explicar o quê? – Ele a circulou para olhar atrás da mesa, e viu a cadeirinha de carro. E, dentro dela, havia um pacotinho cor-de-rosa. Jonathon virou-se para Wendy. – O que é isso? – Um bebê. O CHOQUE de Jonathon foi palpável. Ele parecia nunca ter visto um bebê antes. Wendy agachou-se ao lado da cadeirinha. Peyton abriu os olhos, piscou, então os focou nela. Alguma coisa apertou o peito de Wendy. Uma reação àqueles olhos azuis brilhantes. Talvez, a única coisa que ela já sentira que era mais forte do que a onda de atração que acabara de experimentar por Jonathon. É claro, ela não poderia ter Jonathon. Não era tola o bastante para tentar. Mas, por enquanto, tinha Peyton. E faria qualquer coisa que estivesse em seu poder para mantê-la. Wendy desafivelou o cinto da cadeirinha e pegou Peyton nos braços. Aconchegando-a junto ao peito, pressionou os lábios contra a orelhinha do bebê e sussurrou sons calmantes. Então inalou o ar com cheiro de xampu. Subitamente sem graça, ergueu os olhos para encontrar Jonathon observando-a, o cenho franzido. Ela tentou sorrir. – Jonathon, conheça Peyton. – Certo – disse ele, olhando para ela e o bebê, depois, ao redor da sala, como se procurando a espaçonave que deixara aquela estranha criatura lá. – O que um bebê está fazendo no nosso escritório? – Ela está aqui porque eu a trouxe. – O que talvez não tivesse sido a melhor ideia, mas Wendy e Peyton haviam chegado na noite anterior, após virem de carro de Boulder, Colorado. Com menos de 72 horas de experiência como mãe ela não soubera o que mais fazer com Peyton. – Não tinha ninguém para ficar com ela. E não acho que está pronta para ser deixada com um estranho, de qualquer maneira. Quero dizer, eu sou estranha o bastante, certo? E... Jonathon interrompeu-a: – Wendy, por que você tem um bebê? – Ele olhou para a barriga dela, com desconfiança no olhar. – Ela não é... sua, é?


– Não, eu não viajei por sete dias e, milagrosamente, engravidei, gestei e dei à luz um bebê de 4 meses. Ela é... – Sua garganta fechou, mas ela forçou as palavras: – Ela era da minha prima. Bitsy me nomeou guardiã. Então, ela é minha agora. Houve um longo momento de silêncio, a expressão de Jonathon totalmente confusa. – Eu... – começou ele. Então olhou para Peyton, franzindo o cenho. – Bem... acho que Jeanell estava certa. Uma creche no local de trabalho foi uma boa ideia. Tenho certeza de que ela ficará bem lá. Medo inundou Wendy. Assim como tristeza. Nostalgia, talvez. Ela não queria deixar a FMJ. Embora fosse apenas uma assistente na empresa, nunca se sentira tão em casa como ali. Profissional ou pessoalmente. Trabalhar na FMJ lhe dera propósito e direção, coisas que sua família nunca entendera. – Eu não vou trazer Peyton para o trabalho – começou ela. Então, decidiu que era melhor ser direta. – Vim aqui hoje para pedir demissão.


CAPÍTULO 2

– NÃO SEJA ridícula – censurou Jonathon, muito chocado para medir suas palavras. – Ninguém se demite de um emprego porque tem um bebê, muito menos porque herdou um. Wendy deu um suspiro exasperado. – Não é... – começou ela, mas ele a interrompeu. – Eu sei como isso soa estúpido. – Era por isso que ele precisava de Wendy. Porque ela era insubstituível. Na maior parte do tempo, Jonathon era muito sincero. Muito brusco. Era famoso por magoar pessoas que se ofendiam facilmente. Mas não Wendy. Ela conseguia ver além de seus erros e ignorar suas gafes. O pensamento de ficar sem ela na empresa lhe causava pânico. Ele não ia perdê-la por causa de um bebê. – A FMJ tem uma excelente creche. Não há razão para que você não continue trabalhando aqui. – Eu não posso trabalhar aqui porque preciso me mudar para o Texas. – Ela andou para um armário no canto, de onde retirou uma caixa de papelão vazia. – Por que você quer se mudar para o Texas? Ela o olhou. – Você sabe que eu sou do Texas, certo? – Por isso mesmo não sei por que você quer se mudar para lá. Eu nunca a ouvi falar qualquer coisa boa sobre viver no Texas. Rodeando a mesa, Wendy sentou-se em sua cadeira e abriu a gaveta. – É complicado. – Acho que eu tenho capacidade de entender. – Há uma chance de que membros da minha família não queiram que eu crie Peyton. A menos que eu os convença de que sou a melhor mãe para ela, haverá uma batalha pela custódia. – E daí? Você não acha que pode vencer a batalha daqui? – Eu não acho que tenho condições para lutar. – Ela tirou pertences pessoais da gaveta e jogou-os na caixa aberta. Ele a observou, não compreendendo as palavras e as ações dela. – O que você está fazendo?


Ela olhou para cima. – Limpando minha mesa. – Ela voltou a mexer na gaveta. – Ford ligou ontem para oferecer condolências. Quando expliquei, ele disse que eu não precisava me preocupar com aviso prévio. Que, se eu precisasse, poderia ir imediatamente. Jonathon esqueceria 22 anos de amizade e mataria Ford. O bebê se contorceu. Wendy ajoelhou-se para acalmar a garotinha, ainda mexendo na gaveta. – Eu podia jurar que tinha outro brilho labial aqui. – Brilho labial? – Ela acabara de puxar o tapete debaixo dele. Se tivesse duas semanas, talvez Jonathon conseguisse fazê-la ver o bom-senso. Mas não. Seu sócio lhe tirara isso, também. E Wendy estava preocupada com brilho labial? Ela devia ter ouvido o ultraje em sua voz, porque levantou a cabeça. – Era minha cor favorita, e eles não fazem mais. E... – Ela bateu a gaveta e abriu outra. – Oh, esqueça. – Você não pode se demitir. Wendy levantou-se, abandonando sua tarefa. – Acha que eu quero voltar para o Texas? Acha que quero deixar o emprego que amo? Eu não quero! Mas é minha única opção. – Como estar desempregada no Texas irá resolver alguma coisa? – demandou ele. – Eu... – Peyton contorceu-se nos braços dela e deu um grito de protesto. Wendy sentou-se novamente e balançou a cadeira com o impulso do pé. – Posso não ter mencionado antes, mas minha família tem dinheiro. Ela não mencionara. Nunca precisara. Pessoas que nasciam em famílias ricas exalavam isso. Não era esnobismo. Era mais um senso de confiança que vinha de sempre ter o melhor de tudo. – Verdade? – zombou ele. – Eu nunca teria adivinhado. Wendy parecia muito distraída para notar seu sarcasmo. – Meu avô estabeleceu um fundo fiduciário para mim. Para todos os netos, na verdade. Eu nunca reivindiquei o meu. Os requerimentos pareciam muito ridículos. – E quais são os requerimentos? – Eu tenho de trabalhar para a empresa da família e morar, no máximo, a 25 quilômetros da casa de meus pais. – Ela suspirou. – Então, se eu voltar para casa agora... – Você pode reivindicar seu fundo – concluiu ele. – Teria dinheiro suficiente para contratar um advogado, no caso de uma batalha de custódia. – Eu espero não precisar chegar a esse ponto. Minha avó ainda controla o dinheiro. O resto da família seguirá os desejos dela. Uma vez que ela vir que mãe maravilhosa eu serei, irá recuar e me deixar criar Peyton. – Wendy ergueu o queixo em determinação. – Mas, se a situação chegar a uma batalha de custódia, quero me certificar de ter dinheiro suficiente para uma boa briga. – Eu não entendo. Você está fazendo tudo isso por uma prima que mal conhecia? Alguém que não via em anos? Os olhos de Wendy marejaram e, por um segundo, ele pensou que ela fosse chorar. Ela apertou o bebê junto ao peito e beijou-lhe o topo da cabeça. Então olhou para ele com expressão resoluta. – Se algo acontecesse com Ford e Kitty, e eles quisessem que você ficasse com Ilsa, você não faria qualquer coisa que fosse necessária para honrar os desejos deles?


Jonathon não respondeu. Porque ela estava certa. Olhou para o adorável bebê no colo de Wendy, estudando seu concorrente. Não ia perder a melhor assistente que já tivera. Não importava quão impotente e engraçadinho o bebê era. Peyton, sem dúvida, precisava de Wendy. Mas ele também precisava. LUTANDO CONTRA o sentimento de melancolia, Wendy olhou do bebê para a gaveta aberta, então para Jonathon. Havia tanto a fazer que sua mente não conseguia se focar numa única tarefa. Ou, talvez, fosse falta de sono. Ou, talvez, apenas um ataque de nervos causado pelo jeito como Jonathon andava de um lado para o outro da sala, pausando ocasionalmente para olhá-la. Logo que ela começara a trabalhar na FMJ, Jonathon deixara-a nervosa. Havia alguma coisa sobre a combinação de aparência magnética, inteligência e ambição implacável dele que a tornava consciente de cada célula do seu corpo. E de cada célula do corpo dele. Wendy passara os primeiros seis meses nervosa, quase tremendo diante do olhar e da presença de Jonathon. Ela se forçara a superar aquilo. E achara que tivera sucesso. Só que agora a sensação estava de volta. Podia culpar sua exaustão. Ou podia ser honesta consigo mesma. Aquilo não era nervosismo. Era consciência sexual. E, agora que estava prestes a sair da vida de Jonathon para sempre, ela desejou que tivesse agido sobre isso quando tivera a chance. Reprimindo o pensamento, abriu a última gaveta e recolheu seus últimos pertences, colocando-os na caixa de papelão. Equilibrando Peyton sobre o quadril, ajeitou a caixa debaixo do braço, apenas para encontrar Jonathon bloqueando sua rota para a porta. – Você não pode ir. – Certo. A cadeirinha do carro. Não acredito que esqueci isso. – Ela se virou e notou a sacola de fraldas, também. Suspirou. – Tudo bem. Precisarei fazer mais de uma viagem. – Não – disse Jonathon. – Eu não vou deixá-la se demitir. Wendy o encarou. – Não vai me deixar? Como vai me impedir? – Você é a melhor assistente que eu já tive. Não vou perdê-la para alguma coisa tão – ele pareceu procurar pela palavra menos ofensiva – frívola. Wendy arqueou uma sobrancelha. – Ela é uma criança, não uma frivolidade. Jonathon a estudou longamente. – Se manter este bebê é tão importante para você, nós contrataremos um advogado. Acharemos o melhor advogado no país. Cuidaremos disso. Wendy sentiu outro nó na garganta, mas recusou-se a chorar. Oh, que oferta tentadora! Mas o pobre homem não tinha ideia de no que estava se envolvendo. – Minha família é extremamente rica. Se eles começarem uma luta, colocarão considerável peso financeiro e político por trás dela.


– E daí? Ela suspirou. O momento da verdade. O qual sempre temera. – Leland é o nome de solteira de minha mãe. Eu assumi legalmente o nome dela quando saí da faculdade. O nome do meu pai... Meu sobrenome verdadeiro é Morgan. A maioria das pessoas levava alguns minutos para unir o nome Morgan às conexões políticas e à riqueza. Jonathon levou três segundos. – Pelo que sei, nenhum dos banqueiros Morgan vive no Texas. Isso significa que você deve ser uma das Morgan do petróleo do Texas. – Eu sou. E sei que deveria ter lhe contado. – Não. Por que você deveria? – O olhar calmo e direto encontrou o seu. – Então, o senador Henry Morgan é... – Meu tio. – Ela gesticulou a cabeça para o bebê em seu quadril. – Avô de Peyton. – Certo. Apesar do óbvio desapontamento de Jonathon, ele imediatamente entrou no modo de resolução de problemas. Olhou-a por um momento, então saiu da sala de forma abrupta. Segundos depois, voltou com uma cópia do Wall Street Journal. Abriu o jornal, dobrou-o ao meio e estendeu para ela. – Então Elizabeth Morgan é sua prima. A mãe do bebê. Era um artigo sobre o falecimento dela. O primeiro que Wendy via. Não precisava lê-lo para saber o que diria. O texto seria cuidadosamente elaborado. Desprovido de escândalo. Bitsy podia ter sido um embaraço, mas tio Hank teria pedido favores para se certificar de que o artigo tivesse sua aprovação. Era assim que seu tio fazia negócios, estivesse dirigindo o país ou sua família. Jonathon estudou o artigo com o cenho franzindo. Se ele conseguisse achar uma saída para aquilo, então era ainda mais inteligente do que ela pensara. – Aqui diz que Elizabeth tem um irmão e uma cunhada. Por que eles não ficam com o bebê? – Exatamente – replicou Wendy. – Por que não? É o que todas as pessoas conservadoras no país irão pensar. Tais conservadores formam uma grande parte dos eleitores de tio Hank. – E eles não eram os únicos que tinham essa pergunta. Não era segredo que a avó deles, Mema, não aprovava famílias modernas. Na cabeça dela, uma família consistia de uma mãe e um pai. E possivelmente de um cachorro. Mema iria querer que Hank Jr. ficasse com Peyton. E o que Mema queria era geralmente o que a família queria. Sua avó podia estar beirando os 90 anos, mas ainda era uma dama astuta. Mais importante, ela ainda controlava o dinheiro. – É tão frustrante – admitiu Wendy. – Isso não seria um problema se eu tivesse um marido que pudesse mostrar para apaziguar minha avó e os eleitores de tio Hank. – Realmente acha que isso é tudo de que você precisa? – Para que minha família me veja como a mãe perfeita? – Ela deu uma risada falsa. – Oh, sim, um marido é o acessório obrigatório da estação. Quanto mais rico, melhor. De preferência, com um carro enorme moderno, um labrador dourado e que seja membro da Junior League. – E é tão simples assim? – Oh, claro. Simples assim. Eu apenas irei a um laboratório e criarei um marido bem-sucedido com as peças sobressalentes de um computador. Você vai ao necrotério, rouba um corpo que eu possa reanimar, e tudo dará certo.


Ele sorriu, os olhos se enrugando nos cantos. A expressão de Jonathon a fez pensar por que ele não estava rindo de sua piada. Ela conhecia aquele olhar também. Era o olhar que dizia: “Eu resolvi o problema.” – Acho que nós podemos fazer um pouco melhor do que isso. – Perdão? – Você disse que tudo de que precisa é de um marido rico e bem-sucedido. Por um momento, ela apenas o olhou em confusão, não entendendo aonde ele queria chegar. – Certo. Um marido rico e bem-sucedido, o qual eu não tenho. – Mas poderia ter. – Ele sorriu amplamente agora. Sorrisos abertos eram raros para Jonathon. E, no geral, deixavam-na ofegante. Aquele deixou Wendy nervosa. – Tudo que você precisa fazer é se casar comigo. Eu até mesmo lhe comprarei um cachorro.


CAPÍTULO 3

NUNCA TENDO pedido uma mulher em casamento antes, Jonathon não sabia bem que reação esperar, mas não era a confusão no rosto de Wendy. Ou, talvez, aquela fosse uma reação normal sob as circunstâncias. Afinal de contas, não era todo dia que um homem pedia sua assistente em casamento por razões tão egoístas. Por um longo momento, ela meramente o encarou, os olhos azul-violeta grandes, a boca perfeita entreaberta em surpresa. Ela não estava apenas surpresa. Estava desconcertada. Sua proposta a chocara. Talvez tivesse até mesmo ofendido Wendy. Em algum nível íntimo, o pensamento de casar-se com ele a horrorizava. Não que Jonathon pudesse culpá-la. Apesar de sua riqueza, ele não era um prêmio. Ela ia recusar, e ele não poderia permitir isso. Precisava de Wendy. Desesperadamente, se os últimos sete dias fossem alguma indicação. – Eu não estou propondo um relacionamento romântico – disse ele, esperando fazer sua proposta parecer o mais benigna possível. – Obviamente – murmurou ela. Ainda segurando o bebê, Wendy encostou-se na extremidade da mesa, abaixando a cabeça contra os cabelinhos pretos de Peyton. – Seria um arranjo estritamente profissional – continuou Jonathon. – Ficaremos casados pelo tempo que for necessário para convencer sua família de que somos pais adequados. Nós nem precisamos morar juntos. Eu lhe darei uma anulação do casamento assim que os convencermos. – Não – disse ela suavemente. Jonathon sentiu uma pontada no peito diante da resposta. Então viu. A carta de demissão de Wendy. Assinada, datada e pronta para ser entregue. Tão oficial quanto uma ordem para a execução dele. A última semana tinha sido uma premonição de seu futuro sem Wendy. Ele podia visualizar uma fila de assistentes temporárias incompetentes. Horas incontáveis entrevistando-as, nenhuma das quais teria a competência de Wendy. O contrato com o governo escaparia pelos seus dedos, assim como acontecera com o de Olson. A FMJ perdera milhões naquele. Mas isso não era nada comparado ao que eles perderiam se não fechassem aquele contrato. Jonathon podia ver o futuro que planejara para a empresa se dissolvendo diante de seus olhos. Em pânico, continuou falando:


– Se você está preocupada com sexo, não fique. Eu certamente não esperaria dormir com você. Ela o olhou. – Não. – Então fechou os olhos por um momento, antes de reabri-los e respirar fundo. – O que eu quis dizer foi... que uma anulação rápida não funcionaria. Rapidamente, Wendy desviou os olhos dos seus. Naquele momento, uma mensagem poderosa se passou entre eles. Em todos os anos que eles trabalhavam juntos, nunca haviam falado sobre sexo. Tinham compartilhado diversas outras intimidades. Refeições tarde da noite. Voos demorados, em que ficaram sentados lado a lado... Wendy dormindo com a cabeça no seu ombro, algumas vezes. Eles dormiam em quartos de hotel com paredes tão finas os separando que ele ouvia quando ela se virava na cama. Apesar de tudo isso, nenhum deles abordara o assunto “sexo” nenhuma vez. Mas, agora que a palavra fora falada, o sexo estava lá, entre eles. A imagem de Wendy deitada nua numa cama diante dele estava permanentemente alojada em seu cérebro. – Se nós vamos fazer isso, então temos de mergulhar fundo na situação – declarou ela. Jonathon arqueou as sobrancelhas. Ela não estava negando. Estava fazendo uma contraoferta. Ele sorriu. Wendy sempre o surpreendia. – Nós não podemos anular o casamento em três, ou, nem mesmo, em seis meses – disse ela. – Minha família vai entender o truque. Em um ano, talvez dois, nós teremos de nos divorciar. Apenas fingir que o casamento não deu certo. – Entendo. Ela meneou a cabeça. – Eu não acho que você entende. Estou comprometida a lutar por Peyton. Farei o que tiver de fazer. Mas não posso lhe pedir para fazer o mesmo. – Você não está pedindo – apontou ele. – Eu estou oferecendo. E, para que fique claro, não estou fazendo isso por bondade, mas sim para mantê-la trabalhando na FMJ. Você é a melhor assistente que eu já tive. Wendy ergueu a mão para interrompê-lo. – Isso é ridículo. Contrate outra assistente. Eu até mesmo o ajudarei a achar uma. Há muitas pessoas competentes na cidade. – Mas nenhuma delas é você. Eu preciso de você – argumentou ele. – Ninguém conhece a empresa como você. Nenhuma delas se importaria sobre o que a FMJ faz do jeito que você se importa. Ela pareceu considerar por um momento, então admitiu: – Bem, isso é verdade. – Ademais, eu não tenho tempo ou energia para treinar alguém novo. Meus motivos são muito egoístas. – Acredite, eu não estava prestes a desmaiar pelo romantismo do momento. – Ela deu um sorriso irônico. – Só queria me certificar de que você sabe onde está se metendo. Se minha família desconfiar do que vamos fazer... – Então nós os convenceremos de que nosso casamento não tem nada a ver com Peyton. Wendy arqueou as sobrancelhas. – Convencê-los de que estamos apaixonados? – Exatamente.


Wendy deu uma gargalhada. Peyton se contorceu em resposta. Então pressionou as pequenas palmas no peito de Wendy, como se quisesse se libertar. Wendy atravessou a sala para ir até a mesa, onde estava a sacola de fraldas. Ele nem notara a sacola antes, mas, quando ela tentou abrir o zíper com uma das mãos, ele se moveu para ajudá-la. Afastou-lhe a mão e abriu o zíper. – Do que você precisa? – Do cobertor cor-de-rosa. Abra-o no chão. Depois que ele fez isso, ela colocou o bebê de bruços sobre o centro do cobertor. A visão de um bebê no meio do escritório da FMJ era tão estranha que ele mal conseguiu lembrar-se do que eles estavam falando. Oh, certo. Wendy rira da ideia de eles estarem apaixonados. – Então, você não acha que podemos convencer sua família de que estamos romanticamente envolvidos? Wendy estava tirando brinquedos coloridos de dentro da sacola do bebê. – Sem ofensas, Jonathon, mas, nos cinco anos em que estou aqui, acho que nunca vi você romanticamente envolvido com ninguém. – Isso é ridículo. Eu... Ela levantou as duas mãos para interromper os protestos dele. – Oh, eu sei que você sai com muitas mulheres. Mas romance não é o seu forte. Ajoelhando-se, ela posicionou os brinquedos num arco na frente do bebê. Peyton já tinha se erguido sobre os cotovelos. – Você acha que eu não posso ser romântico? – perguntou ele. – Acho que você aborda sua vida amorosa com todo calor e espontaneidade de um comitê de planejamento estratégico. – O que você está dizendo? Que eu sou frio? Ela falava como se estivesse declarando o óbvio. Como se não lhe ocorresse que aquilo poderia insultá-lo. – Não realmente. – Wendy empurrou um elefante de pelúcia para mais perto do bebê. – Mais que você mantém suas emoções sob controle rígido. – Aparentemente satisfeita com a disposição dos brinquedos, ela endireitou o corpo. – Você é um homem desapaixonado. Não há nada de errado com... Certo, bastava. Ele se aproximou, puxou-a para seus braços e beijou-a. Não sabia o que o levara a agir, se tinha sido ela ou o sermão sobre o quanto ele era desapaixonado. Ou o fato de que, desde que Jonathon falara a palavra “sexo” em voz alta, minutos atrás, não conseguira tirar isso da cabeça. Qualquer que fosse o motivo, ele perdeu o controle e teve de beijá-la. E então não conseguia parar. WENDY NÃO vira aquilo vindo. Num minuto, estava tentando acalmar Peyton, distraí-la de modo que pudesse continuar conversando com Jonathon. E, no segundo seguinte, seu corpo estava pressionado contra o de Jonathon, a boca dele cobrindo a sua num beijo paradisíaco. Uma das mãos segurava seu queixo, a outra envolvia firmemente sua cintura, pressionando-a tão perto que ela podia sentir os botões da camisa dele através do algodão fino de sua camiseta. O beijo de Jonathon foi completamente inesperado. Quando ele atravessara a sala, a fisionomia repleta de intenção, nunca lhe ocorrera que ele ia beijá-la.


Claro, no passado, Wendy imaginara como seria beijá-lo. Apesar da pura perfeição do exterior dele, sempre imaginara que, na cama, Jonathon era muito parecido com o que era na sala de reuniões. Analítico. Lógico. No controle. Desapaixonado. Como estivera errada! Sentiu a língua de Jonathon provocar a sua, praticamente exigindo que ela respondesse, até que Wendy pegou-se na ponta dos pés, envolvendo-lhe o pescoço nos braços, acariciando os cabelos macios acima da nuca dele. O beijo foi longo e ardente. Ele tinha gosto de café, de pasta de dente de menta e de um desejo profundamente enterrado. Despertava-lhe sensações que ela nunca imaginara sentir. Jonathon impulsionou-a um passo para trás. Então outro. Wendy sentiu a extremidade da mesa contra a parte traseira de suas pernas. E ele ainda a impulsionou mais, de modo que suas costas se arqueassem. Uma imagem de Jonathon limpando a mesa e tomando-a ali surgiu na cabeça dela. A ideia foi tão clara que era como se sempre houvesse estado lá, esperando o momento certo de aflorar. Não havia mais ninguém no prédio. Por que eles não deveriam ceder ao desejo? Ela ainda não encontrara uma razão pela qual não fazer isso, quando ele se afastou e deu um passo atrás, pigarreando. Wendy imediatamente sentiu falta do calor do corpo dele. Desejou saber por que ele a beijara. E por que parara... Peyton. Oh, Deus. Peyton! Ela olhou para onde Peyton ainda estava, de bruços no chão. Wendy era mãe por menos de quatro dias, e já abandonara sua filha no chão para fazer sexo com seu chefe. Talvez sua família estivesse certa. Talvez ela não fosse adequada para ser a mãe de Peyton. Seu olhar foi para Jonathon. Ele atravessara para o outro lado da sala, de modo que Peyton estava entre os dois como uma área minada. Ele coçou o queixo, depois enfiou a mão no bolso. Ela nunca o vira tão desconcertado, embora Jonathon ainda parecesse menos abalado do que ela se sentia. – Bem – começou ele. – Acho que ambos concordamos que, se necessário, eu posso convencer sua família de que sou mais do que seu chefe. – Sim. Eu acho que pode. – Então, subitamente, Wendy entendeu. – Você me beijou apenas para provar um ponto? – Eu... – Ele deu de ombros, aparentemente sem saber o que dizer. Indignação acabou com o embaraço de Wendy. – Eu estava a segundos de jogar minha calcinha no chão, e você só estava provando um ponto? Por um instante, o olhar dele foi para o chão, como se imaginando a calcinha dela ali. Jonathon engoliu em seco visivelmente e voltou a olhá-la. Bem, pelo menos, ela não era a única cujo mundo tinha sido balançado. – Pareceu uma atitude prudente – disse ele. Wendy quase bufou. Prudente? O beijo a deixara em chamas, e parecera prudente para ele? – Oh, isto é errado de tantas maneiras que nem sei por onde começar. Ele tentou interrompê-la. – Na verdade...


– Não, espere um segundo. Eu sei por onde começar. Se você acha que oferecer se casar comigo por causa de Peyton lhe dá um passe de acesso total ao meu corpo, então está enganado. – Ele tentou protestar, mas ela não lhe deu a chance. – Em segundo lugar, você não pode me beijar apenas para provar um ponto. E então, porque Wendy percebeu que aquele era praticamente um convite para que ele a beijasse por outras razões, acrescentou: – Na verdade, você não pode me beijar, em absoluto. Se vamos embarcar nesse casamento falso, precisamos estabelecer algumas fronteiras. E, em terceiro lugar... bem, eu ainda não tenho ideia do que vem em terceiro, mas logo me ocorrerá. Por um longo momento, Jonathon apenas estudou-a, uma sobrancelha arqueada, os lábios curvados em divertimento. – Acabou? Wendy uniu os lábios, dolorosamente ciente de como ele parecia composto, enquanto ela tagarelara como uma tola. Ela estava realmente afetada pelo beijo. E isso não era horrível? Ela não tinha coisas suficientes com as quais lidar? Agora não era o momento de nutrir uma paixão pelo seu chefe. Ou por seu marido. Quando sua vida se tornara tão complicada? No chão entre eles, Peyton pôs as pequenas mãos embaixo do corpo, a fim de erguer-se sobre os antebraços. Ela deu um gritinho excitado de orgulho. Certo. Era quando sua vida ficara complicada. Aproximadamente cinco dias atrás, no estúdio de seu avô, quando o advogado lera o testamento de Bitsy. Wendy suspirou em frustração. – Sinto muito – murmurou ela. – Nada disso é culpa sua. Eu não deveria ter descontado em você. Eu apenas... – Eu concordo que nós precisamos de fronteiras. – Jonathon interrompeu-a, o tom de voz tenso, como se ele estivesse procurando a maneira mais diplomática de abordar o assunto. – Manter sexo fora disso é uma boa ideia. Todavia, beijá-la agora pareceu prudente, porque teremos de nos beijar em algum ponto. – Teremos? – perguntou ela com fraqueza, o olhar baixando para a boca dele. – Naturalmente. Wendy sentiu um curioso calor a envolvendo diante da ideia. Ele ia beijá-la novamente. Logo? Ela esperava que sim. Mesmo se aquilo fosse uma péssima ideia. – Se nós iremos convencer pessoas de que estamos apaixonados e vamos nos casar, elas esperarão certas demonstrações de afeto. – Oh, eu não tinha pensado... – Obviamente, havia muitas coisas que ela não considerara sobre aquela ideia. Não sabia se deveria ou não se sentir grata pelo fato de o cérebro de Jonathon funcionar mais rapidamente que o seu. O fato de ele considerar coisas que ela não considerara era bom? Ou era meramente irritante estar sempre um passo atrás? – Será mais difícil convencer as pessoas que nos conhecem melhor. Felizmente, Ford e Matt continuarão fora da cidade por mais algumas semanas. Precisamos nos acostumar com a ideia antes de encontrá-los. – Ford e Matt? Certamente, não precisamos mentir para eles...? – Jonathon, Ford e Matt eram amigos desde que eram crianças.


Ele a olhou sem hesitação. – Sim, nós precisamos. Se sua família decidir lutar conosco, isso pode significar uma batalha judicial. Eu não posso pedir para nenhum deles mentir por nós. – Oh. – Sentindo-se subitamente fraca, Wendy sentou-se na beira na mesa. É claro que não poderiam pedir que Ford e Matt mentissem por eles. Nos cinco anos que ela trabalhava na FMJ, servira como assistente executiva para os três homens, igualmente. Uma vez que trabalhavam juntos, eles haviam decidido, muito tempo atrás, compartilhar uma assistente. Sem dúvida, era por isso que tinham tido tantas assistentes antes de Wendy. Gerenciar as agendas e necessidades de três homens tão diferentes não era uma tarefa fácil. Em resumo, ela era uma funcionária milagrosa. Se o pensamento de mentir para eles era difícil para Wendy, então como Jonathon devia se sentir sobre aquilo? Ela desceu da mesa e parou na frente dele. Estudou os olhos verdes. – Esse é um plano louco e ridículo. Tem certeza de que você quer fazer isso? Os lábios de Jonathon se curvaram num sorriso. – Sim, tenho certeza. Se há uma coisa que eu sei é como fazer um risco estratégico valer a pena. A resolução nos olhos verdes era tão clara quanto a dúvida que provavelmente estava em seus próprios olhos. Então ela olhou para Peyton, no chão. Pegou a garotinha preciosa e abraçou-a contra o peito. Sentiu que o momento era profundo. Como se ela e Jonathon estivessem fazendo um acordo que mudaria a vida de todos eles. Parecia certo que Peyton participasse daquilo também. – Certo – concordou Wendy. – Vamos fazer isso. O rosto de Jonathon abriu-se num sorriso iluminado. Ele se virou, foi para a própria sala e começou a dar ordens, de volta ao modo chefe. – Primeiro, envie um e-mail para Ford e Matt e agende outra teleconferência para mais tarde no dia. Depois, ligue para o juiz Eckhart e veja se ele pode realizar a cerimônia na próxima sexta-feira. Limpe a minha agenda e a sua pelas próximas duas semanas. – Limpar nossas agendas? O que vamos fazer? E quanto ao contrato com o governo? – Nós trabalharemos no contrato esta semana. E teremos mais duas semanas, depois que voltarmos. O tempo será apertado, mas não tenho dúvidas de que conseguiremos. – Voltarmos? Voltarmos de onde? Jonathon pausou perto de sua mesa e olhou-a, ainda sorrindo. – De nossa lua de mel. – Nossa lua de mel? – perguntou ela, o tom de voz surpreso. – Não fique tão empolgada. Só iremos para o Texas. Se nós queremos ganhar essa batalha com sua família, precisamos partir para a ofensiva.


CAPÍTULO 4

QUANDO JONATHON chamou-a na sala de reuniões na manhã seguinte, Wendy ficou surpresa ao ver Randy Zwack lá. Randy tinha feito faculdade com Jonathon, Matt e Ford, antes de decidir cursar Direito. Ele ocasionalmente fizera trabalhos para a FMJ, antes que eles contratassem um departamento legal de propriedade intelectual, mas isso fora bem antes de seu tempo. Ela ficou mais confusa do que surpresa ao vê-lo na sala de reuniões... parecendo mais irritado do que o normal. Jonathon estava de pé nos fundos da sala, de costas para a porta, olhando para a vista de Palo Alto abaixo. Randy estava sentado ao centro da mesa, papéis espalhados à sua frente. O advogado olhou para cima quando ela entrou, oferecendo-lhe um sorriso tenso. – Oh, ótimo. Você está aqui – disse ele, como se estivesse esperando-a. – Podemos começar. – Olá, Randy. – Ela olhou para Jonathon. Quando ele se virou, Wendy perguntou: – O que está acontecendo? Com hesitação incomum, ele respondeu: – Eu chamei Randy aqui para redigir um acordo pré-nupcial para nós. – Ele levantou a mão para deter os protestos que imaginava que ela faria. – Não se preocupe. Eu confio na discrição dele. – Eu não estou preocupada. Acho que um acordo pré-nupcial é uma ideia fantástica. – Você acha? – Randy pareceu surpreso. – Por que eu não acharia? – Ela se sentou na cadeira oposta a Randy. – Presumo que Jonathon lhe contou por que está me ajudando...? Randy assentiu, ainda parecendo desconfiado. – Na verdade, essa não é minha especialidade. Eu disse a Jonathon que ele deveria contratar um bom advogado de família, mas... – Mas Jonathon pode ser muito teimoso. – Eu ia dizer determinado. Não era de admirar que o pobre advogado parecesse tão desconcertado. Jonathon obviamente o intimidara a redigir o acordo pré-nupcial. E a fazer isso muito depressa, uma vez que Jonathon a pedira em casamento menos de 24 horas atrás. – Não se preocupe. – Wendy estendeu o braço e deu um tapinha na mão de Randy. – Tenho certeza de que você fez um ótimo trabalho.


Jonathon aproximou-se e parou à cabeceira da mesa. Enfiou as mãos nos bolsos de um jeito que a distraía muito. Esse homem seria seu marido. Em menos de uma semana. O pensamento lhe causou um friozinho na barriga. – Certo, vamos ver isso. É apenas um contrato nupcial padrão, certo? Alcançando o maço de papéis na frente de Randy, ela bateu palmas alegremente. Mas nenhum dos homens notou. Randy estava muito ocupado enviando um olhar significativo para Jonathon, e Jonathon estava muito ocupado em encarar Randy num silêncio intimidador. Ela olhou de um homem para o outro. – Este é um acordo padrão, certo? – Você não precisa se preocupar. Quaisquer bens que levar para o casamento, ou herdar, enquanto casada, reverterão para você no caso do término da união. – Randy corou enquanto falava. Ignorando Jonathon, Wendy olhou para Randy. – Não foi isso que eu perguntei, foi? Ele pigarreou. – Você... não tem nada com o que se preocupar. – E quanto a ele? – Wendy gesticulou na direção de Jonathon. – O acordo foi escrito segundo minha especificação – disse Jonathon. – Eu estou satisfeito. O que não era a mesma coisa. Randy enrubesceu, mas recusou-se a olhar para ela. Jonathon, por outro lado, encarou-a sem hesitação, o que a deixou ainda mais nervosa. – Deem-me um minuto sozinha com estes papéis. – Nenhum dos homens se mexeu. – Ou vocês me dão um tempo para ler o contrato, ou você – ela apontou para Randy – me diz o que ele não quer que eu veja. Randy olhou para Jonathon, que assentiu com um gesto de cabeça tenso. Randy puxou a cópia dela para mais perto e abriu-o numa página do meio. Wendy leu o parágrafo, então leu em voz alta para expressar sua exasperação. – No evento de separação, anulação ou divórcio, os seguintes bens pré-maritais pertencentes a Jonathon Bagdon serão transferidos para Gwendolyn Leland... o valor monetário de vinte por cento de todos os imóveis, seguros e dinheiro... Ela parou de ler, muito perplexa para continuar. Olhou com raiva para os dois homens. – Essa cláusula ridícula foi ideia de quem? Randy levantou as mãos. – Não minha. – Mas você deixou Jonathon incluir isso. – Wendy apertou a caneta que Randy lhe dera e acrescentou: – Pode me dar um minuto a sós com meu futuro marido, por favor? Randy saiu rapidamente, parecendo aliviado pelo intervalo. No segundo que eles estavam sozinhos, ela perguntou: – Vinte por cento? Você enlouqueceu? – Wendy... – Você sabe que eu não vou aceitar vinte por cento! – Depois de dois anos casada comigo, talvez você ache que mereceu. Ela deu um suspiro exasperado.


– Eu não vou aceitar um centavo do seu dinheiro. – Não esqueça, a Califórnia tem a lei de bens comunitários. Se você não assinar o acordo pré-nupcial, terá direito à metade de tudo que eu ganhar enquanto estivermos juntos. Isso pode ser mais do que aqueles vinte por cento. – O quê? Porque você ainda não atingiu todo o seu potencial? Sabe que isso não tem nada a ver com o motivo pelo qual vou me casar com você. – Também sei qual é o seu salário, e que você terá problemas para sustentar a si mesma e uma criança com essa renda. – Muitas famílias se viram bem com o que eu ganho – apontou ela. – Talvez. Mas você não precisa se virar. – Então o quê? Você simplesmente vai me dar todo aquele dinheiro? Por acaso não ouviu ontem quando eu mencionei que sou uma Morgan? Acredite, Jonathon, eu ficarei bem. – Sim, eu ouvi que você é uma Morgan, mas também sei o quanto é teimosa. E que não vai pedir dinheiro para sua família. Se você fosse o tipo de pessoa que fizesse isso, não estaria nessa posição, para começar. Humm. Bom ponto. – Mas você achou que me convenceria a aceitar vinte por cento de seus bens? – Não. Eu tive esperança de que você assinasse o acordo, sem notar essa parte. – Mesmo se eu tivesse assinado os papéis, ainda não aceitaria os vinte por cento. É... muito dinheiro. – Certamente mais do que os míseros oito milhões que havia no fundo que ela nunca reivindicara. Ele deu de ombros. – É uma gota no balde. – É um quinto do balde. São muitas gotas. – Ela respirou fundo. Por que estava zangada? Por que exatamente? Wendy deu voz aos seus pensamentos conforme eles surgiam em sua cabeça. – Ouça, você sempre foi arrogante e controlador. Jonathon arqueou as sobrancelhas, provavelmente surpreso que ela lhe dissera aquilo, e não chocado pela ideia. – No trabalho, tudo bem – continuou ela. – Você é meu chefe. Mas, se vamos nos casar, então, no segundo em que sairmos por aquela porta, todos os dias – ela apontou para a porta –, você tem de parar de tentar controlar tudo. Mesmo esse não sendo um casamento real. – Wendy, eu não... – Sim – interrompeu ela. – Você não entende? Se eu quisesse ficar sentada para que outros cuidassem de mim pelo resto da vida, nunca teria saído do Texas. Eu gosto de precisar trabalhar para sobreviver. Já fui rica. Sei que apenas dinheiro não me faz feliz. E também sei que estar com alguém que sempre quer me controlar me fará sofrer muito. Portanto, ou você volta atrás, ou nós desistimos da ideia toda agora. Ele a encarou por um longo tempo, o olhar duro e implacável. Wendy não desviou o olhar. Estava muito acostumada com olhares intimidadores de seu pai e tio para não os enfrentar. Após um tempo, ela até mesmo sorriu. – Viu? Seus truques de intimidação não funcionam comigo. Ele sorriu do comentário, então, relutantemente, assentiu. – Há outra coisa que você deveria saber.


– Certo, fale. – Caso eu morra, você e Peyton ficam com tudo. – Ela abriu a boca para protestar, mas ele ergueu a mão para interrompê-la. – Eu não vou ceder em relação a essa cláusula. – E quanto à sua família? – Pela agenda sobrecarregada de Jonathon, Wendy sabia que ele não via muito a família, mas eles existiam. – Certamente, você quer que eles fiquem com sua fortuna. Os olhos dele escureceram. O rosto estava quase inexpressivo. – Eu já nomeei algumas instituições beneficentes como herdeiras. Se eu morrer enquanto estivermos casados, quero que você fique com o resto. Ela o estudou por um momento. Uma vez que ele nunca falava da família, nem mesmo agora, Wendy presumiu que aquilo era sério. E ela que pensava que seu relacionamento com sua família era ruim! – Certo – concordou ela, suavemente. – Então apenas teremos de cuidar muito bem de você durante os próximos dois anos, nos certificando de que tome suas vitaminas. – Ela sorriu da própria piada, mas ele não retornou seu sorriso. – Agora que está tudo acertado, chamarei Randy para fazer seu trabalho e proteger seu cliente. Ela quase chegara à porta, quando as palavras de Jonathon a fizeram parar: – Eu não quero que você se apaixone por mim. Com a mão na maçaneta, Wendy virou-se para olhá-lo. – Perdão? A expressão dele estava tão tensa que era quase cômica. – Se nós ficaremos juntos por um ano, ou talvez dois, não quero você imaginando que se apaixonou por mim. Reprimindo uma risada, ela lhe estudou o rosto, mas não viu sinais de que ele estava brincando. Na verdade, Jonathon parecia tão sério que o peito de Wendy se apertou. – Por quê? Porque você é tão charmoso e carismático que eu não serei capaz de estar constantemente em sua companhia sem me apaixonar? – Ele não sorriu, então ela perguntou: – Esse é um assunto separado do dinheiro, ou os milhões de dólares são para aliviar meu coração partido, caso eu me apaixone por você? – Assunto separado. Mas eu estou falando sério. Wendy podia ver que ele falava sério. Isso a deixava desconfortável, mas ela não sabia por quê. O medo de Jonathon de que ela se apaixonasse não era arrogância. A fisionomia dele falava de preocupação. Por ela. – Deixe-me adivinhar. Você não é o tipo de homem que acredita em amor. Para sua surpresa, ele meneou a cabeça. – Oh, eu acredito em amor. Sei exatamente como o amor pode ser enfraquecedor. É por isso que não quero que você imagine que está apaixonada por mim. – Certo – murmurou Wendy, querendo tranquilizá-lo, mas sem lhe dizer, diretamente, que não tinha a menor intenção de arriscar seu coração. Por fim, fez a única contraoferta na qual pôde pensar: – Então não se apaixone por mim, também. Jonathon estudou-a por um momento, começando a sorrir. Ela ergueu o queixo. – O quê? Você se acha muito superior para se apaixonar por mim? Pois eu lhe digo que sou digna de amor. – Arqueando uma sobrancelha, ela acrescentou: – Sou bonitinha. E corajosa. Homens melhores


que você já se apaixonaram por mim. – Tenho certeza que sim. – Acha que estou brincando? – demandou ela. – Nem por um minuto – concedeu Jonathon. E o mais patético era que ele estava sendo honesto. Naquele momento, observando-a tentando fazê-lo rir, era muito fácil se imaginar apaixonando-se por ela. Inteligente, engraçada, nunca levando a si mesma a sério. Wendy era o pacote completo. Homens que queriam esposa e família provavelmente estavam esperando na fila por uma mulher como ela. Pena que ele não era um deles. – Apenas não esqueça por que eu estou fazendo isso. Não é um favor para você. Não é porque eu sou um bom sujeito. Não romantize a situação. Ela o olhou, a expressão subitamente séria. – Lembre-me, então. Por que você está fazendo isso? Jonathon estava impressionado... não pela primeira vez... como ela era, não apenas bonitinha, mas verdadeiramente linda. Com narizinho pequeno e covinhas de fada, olhos azul-violeta e pele luminosa, havia uma qualidade efêmera na beleza de Wendy. Como uma mulher numa pintura de Maxfield Parrish. Ele estava tão fascinado por aquela beleza que, por um segundo, esqueceu a pergunta dela. Esqueceu que Wendy estava tentando dirigir a conversa. Para relembrá-lo de que ele não era um herói. – Estou fazendo isso pela mesma razão que faço tudo desde os meus 11 anos. Porque serve aos meus objetivos. Serve à FMJ. Ela lhe deu um olhar estranho, a expressão quase parecendo de piedade. – Se você não queria que eu romantizasse a situação, talvez não devesse ter tentado me dar uma grande parcela de sua fortuna, de modo que eu pense que você não é o bastardo sem coração que finge ser. – Você precisa acreditar quando eu digo que tudo que fiz foi para meu próprio benefício. Mantê-la na Califórnia é a melhor coisa para a FMJ. Casar-me com você é a melhor coisa para a FMJ. Esse é o único motivo pelo qual estou fazendo isso. Finalmente ela assentiu. – Tudo bem. Se você quer continuar insistindo que não tem sentimentos, então eu tentarei me lembrar disso com o máximo de frequência possível. Começaremos com o acordo pré-nupcial, certo? Pediremos que Randy o rescreva, de modo que eu tenha de lhe pagar vinte por cento do meu dinheiro. Que tal isso? – Ela sorriu, mas ele continuou tenso. – Wendy... – No mínimo, vamos tirar Randy desse sofrimento. Cada um sai com o que tinha antes do casamento. Jonathon suspirou. Não era o que ele queria. Mas começava a perceber que, no que dizia respeito a Wendy, ele nem sempre ia conseguir o que queria. Ela pausou junto à porta e olhou por sobre o ombro. – Se você fosse realmente um patife sem coração, Jonathon, não teria me avisado.


CAPÍTULO 5

OS PRÓXIMOS dias passaram num borrão de planejamento e atividades. Wendy frequentemente sentia como se sua vida estivesse se movendo no dobro do tempo, enquanto ela estava presa a uma velocidade mais lenta. Sentia-se assim desde que recebera aquele telefonema fatídico sobre Bitsy, menos de duas semanas atrás. Seu choque e dor estavam finalmente passando. Embora não enfrentasse mais o desafio de voltar para o Texas, concordar em se casar com Jonathon criara ainda mais tumulto em sua vida. Fiel à sua palavra, Jonathon conseguira trabalho considerável na proposta para o contrato com o governo, delegando coisas que, no geral, preferiria fazer pessoalmente. Ford e Kitty tinham voltado para casa imediatamente, com a filha, Ilsa. Matt e Claire chegaram alguns dias depois, tendo encurtado a lua de mel, algo pelo que Wendy se sentia culpada. Claire insistia que 17 dias num paraíso tropical eram suficientes para qualquer um, e que ela não perderia o casamento por nada, tranquilizando um pouco Wendy. No domingo antes do casamento, ela ainda estava meio dormindo na sala, desejando que Peyton também estivesse com sono. Jonathon finalmente a convencera de se mudar para sua casa. Uma vez que o plano era ficarem casados por um ano ou mais, as pessoas dificilmente acreditariam que eles estavam apaixonados, se não estivessem morando juntos. Na noite anterior, ela tivera esperança de arrumar uma mala com suas coisas essenciais, depois que Peyton dormisse. Se Wendy conseguisse ficar acordada... Não dormia bem desde que estava com Peyton, e sentia-se exausta. Tivera de se arrastar para sair da cama, naquela manhã. Acordar no meio da noite para alimentar o bebê não era fácil. Wendy estava movendo a cadeira de balanço e dando a mamadeira a Peyton, quando a campainha tocou. Ela pôs a mamadeira na mesa lateral, levantou-se e abriu a porta, rezando para que a pessoa do outro lado não esperasse conversa coerente. Franziu o cenho diante da visão de Kitty e Claire. Ela só conhecia Claire há sete meses, mas a preocupação no rosto da outra mulher era óbvia. – Nós trouxemos comida! – anunciou Claire, o tom alegre demais provavelmente para disfarçar a expressão preocupada. – Chegamos de Palo Verde esta manhã. Eu embrulhei isto aqui antes de vir. Claire possuía um Café na pequena cidade de Palo Verde, a duas horas de distância de Palo Alto. Jonathon, Ford e Matt haviam crescido em Palo Verde. Se o destino fosse bom, a caixa que Claire


segurava estaria cheia de donuts de chocolate amargo, pelos quais o Café era famoso. Kitty estudou Wendy, então anunciou: – Uma vez que você está obviamente muito cansada para nos convidar para entrar, por que não apenas dá um passo para o lado? – Ela estendeu as mãos. – Aqui, dê-me o bebê. Você pega os donuts. – Por favor, coma alguns, antes que eu brigue com você por eles. Muda, Wendy entregou Peyton para Kitty. Kitty Langley era o tipo de mulher que não parecia maternal. A designer de joias, herdeira de uma loja, tinha vivido em Nova York até se apaixonar e se casar com Ford, no ano anterior. Como aquela mulher podia parecer glamourosa enquanto aninhava um bebê nos braços, disso Wendy não sabia. Mas invejava a habilidade. Quando ela deu a primeira mordida no donuts maravilhoso, seu cansaço pareceu diminuir consideravelmente. – Não sei por que vocês vieram – murmurou ela. – Mas, francamente, eu não me importo mais. Vocês podem me apontar uma arma, me roubar, até mesmo levar o bebê. Apenas deixem os donuts e eu ficarei feliz. Kitty sorriu e pressionou os lábios vermelhos na cabecinha de Peyton. – Posso ver que você está exausta. Após alguns minutos com Kitty, Peyton parou de se agitar e deitou a cabeça em seu ombro. Então houve silêncio. Peyton fechou os olhos, exalou lentamente e dormiu. Tensão esvaiu-se de cada poro do corpo de Wendy. – Oh, graças a Deus – murmurou ela. Claire sorriu. – Você dormiu na noite passada? – Algumas horas aqui e ali – admitiu ela. – Cuidar de um bebê é mais difícil do que eu esperava. – Oh, querida, não é fácil mesmo – concordou Kitty, sem dúvida, lembrando-se de seus dias de nova mãe. Andou até o berço, onde deitou o bebê. – Pelo menos, eu tive sete meses para me acostumar com a ideia. A sala ficou silenciosa. Claire foi para a cozinha e retornou minutos depois com uma xícara de café quente. – Com creme e açúcar – murmurou ela, oferecendo o café a Wendy. – Presumo que todas as pessoas sãs tomam assim. Agradecida, Wendy deu um gole, quando Kitty ofereceu: – Podemos lhe pegar alguma outra coisa? Alguma coisa para comer, talvez? Eu não sei cozinhar, mas Claire pode fazer maravilhas com poucos ingredientes. Wendy não duvidava. – Eu vou guardar espaço para outro donuts. – Certeza? – perguntou Claire. – Eu posso fazer uma omelete. Ou alguma outra coisa. – Não, obrigada. Eu estou bem. – Wendy olhou para as duas mulheres, subitamente desconfiada. – Por que eu tenho a impressão de que estou sendo mimada com comida por razões nefárias? Kitty e Claire trocaram um olhar. Wendy arqueou uma sobrancelha. – Obviamente, vocês têm más notícias para mim. Falem de uma vez. Claire mordeu o lábio. Kitty fez uma careta e deu um suspiro exasperado.


– Certo – começou Kitty, sentada numa posição quase perfeitamente imóvel. – Nós estamos preocupadas com Jonathon. Wendy recostou-se no sofá. – Preocupadas com Jonathon? – Qualquer coisa que esteja acontecendo entre você e Jonathon, obviamente tem a ver com Peyton – afirmou Claire. Wendy abriu a boca para protestar, mas Kitty não lhe deu a chance. – Jonathon não fala sobre isso, então suponho que você também não falará. Mas nós não somos idiotas. Não esqueça que contou a Ford por que estava se demitindo, 24 horas antes que você e Jonathon anunciassem que iam se casar. Se eu fosse adivinhar, diria que vocês estão fingindo ser um casal feliz, de modo que sua família deixe-a manter Peyton. E pensar que eles pretendiam esconder a verdade de seus amigos! – Por mais bizarro que isso pareça – continuou Kitty –, nós não tentaremos impedi-los. – Até mesmo participaremos da farsa – acrescentou Claire. – Se precisar de alguma coisa de nós, é só pedir. – Mas, quando vocês estiverem brincando de casinha, juntos, cuidado. Por um longo momento, Wendy não sabia o que dizer. Levantou-se e andou para o berço, onde Peyton dormia. Pensou sobre a conversa que tivera com Jonathon antes que eles assinassem o acordo pré-nupcial. Aparentemente, ele não era o único que achava que ela corria o perigo de apaixonar-se. E Wendy pensara que tivesse escondido bem sua atração por ele, ao longo dos anos. Ela era tão transparente assim? Olhando para Kitty e Claire, ela forçou um sorriso. – Ouçam, eu admito que Jonathon é um grande sujeito. Sempre achei isso. Mas conheço a história dos encontros amorosos dele provavelmente melhor do que vocês. Sei que ele não se abre facilmente. Não cometerei o erro de me apaixonar por ele. Claire e Kitty trocaram olhares nervosos. – O quê? – demandou Wendy, voltando para o sofá. Claire manteve a boca fechada. Mas Kitty admitiu: – Na verdade, é com Jonathon que estamos preocupadas. – Estão preocupadas que Jonathon se apaixone por mim? Claire assentiu. – Não que eu me apaixone por ele, mas o contrário? – É claro que nós não queremos vê-la com um coração partido, também – murmurou Kitty. – Mas você é uma mulher inteligente. Prática. Assumimos que pode cuidar de si mesma. – Mas vocês temem que Jonathon, o brilhante e analítico diretor-geral, terá seus sentimentos feridos? – Wendy reprimiu uma risada. – Sim – confirmou Claire. Wendy olhou de uma mulher para a outra com incredulidade. – Vocês estão falando sério? Elas assentiram. – Eu sei que Jonathon parece... – começou Claire, procurando a palavra certa.


– Distante. Implacável – completou Kitty. Claire deu-lhe um olhar repreensivo. – Você não está ajudando. – Um patife sem coração – ofereceu Wendy. – Sim! – concordou Kitty. – Mas ele realmente não é assim – disse Claire. – Não esqueçam que eu o conheço por mais tempo do que vocês. O que era tecnicamente verdade. Claire crescera na mesma cidade de Matt, Ford e Jonathon. – Mas você é mais nova do que ele. Vocês nem mesmo estudaram juntos. – Nós tínhamos algumas aulas em comum – argumentou Claire. – E eu vi Jonathon apaixonado. No último ano, ele estava... loucamente apaixonado por uma garota. Teria feito qualquer coisa por ela. – Quem era ela? – Wendy pegou-se perguntando. Claire hesitou. – Uma garota da escola. Kristi não cresceu em Palo Verde. Os pais dela se divorciaram, e ela se mudou para lá, a fim de morar com o pai no seu segundo ano. – E eles namoraram? – Por um breve período – replicou Claire. – Eu acho que, pela maior parte do tempo, ele a perseguia. Kristi flertava muito. Jonathon estava completamente determinado a conquistá-la. Qualquer grande gesto que você possa imaginar um garoto de 18 anos fazendo, ele fez. Flores, joias etc. Flores e joias? Wendy sabia que ele não tivera muito dinheiro enquanto crescia. Uma vez, Jonathon lhe contara que começara a economizar dinheiro para a faculdade quando tinha 12 anos. Ela nem podia imaginar o homem que conhecia tirando dinheiro de seu fundo precioso para comprar presentes. Para uma namorada. Claire inclinou-se para a frente e continuou: – Uma vez, ela disse a Jonathon que a mãe sempre lhe comprava o bolo de aniversário na mesma padaria. Ela crescera em São Francisco. Então, no aniversário de Kristi, os rapazes viajaram até São Francisco para comprar o tal bolo. Num dia de escola. Eles se metiam em tantas encrencas. – Claire riu. Então pareceu perceber o quanto revelara sobre si mesma, e enrubesceu. – Você era espreitadora, não era? – perguntou Kitty, sorrindo. – Eu gostava de Matt. Só isso. – Então, o que aconteceu? – perguntou Wendy, ansiosa para saber o resto da história. – Por que eles terminaram? Claire deu de ombros. – Não tenho certeza se eles algum dia ficaram juntos. E não muito depois da coisa do bolo do aniversário, Kristi mudou-se novamente, indo morar com a mãe. Jonathon ficou... – Com o coração partido – suprimiu Kitty. – Não. – Claire pareceu pensativa. – Ele nunca mais foi o mesmo. Mas eu sei que a capacidade de amar assim ainda está enterrada em algum lugar dentro de Jonathon. Claire e Kitty trocaram outro daqueles olhares significativos, e Wendy sentiu uma ponta de inveja. A garota que ele amara, Kristi... Wendy nunca se sentira amada daquela forma. Kitty e Claire tinham isso com seus maridos. Mas ninguém já sentira isso por Wendy. Ela se levantou.


– Não acho que vocês precisam se preocupar. Ele não me ama. Tenho certeza disso. – Wendy forçou um sorriso. – Fiquem tranquilas, porque eu não vou esmagar o coração delicado de Jonathon sob o salto de minha bota. – Não é apenas você que nos preocupa. – Kitty também se levantou e olhou para o berço. – E quanto a Peyton? – O que tem Peyton? – Você já viu Jonathon com Ilsa? – perguntou Kitty. – Eu... – Ela parou, lembrando que o vira, uma vez, segurando Ilsa. Logo depois que a menininha nascera, Wendy comprara flores e Jonathon estivera lá, uma expressão de puro fascínio no rosto, enquanto segurava o bebê. Ela assentiu, começando a sentir dor de cabeça. Quando tudo se tornara tão complicado? – Ele é fantástico com crianças – estava dizendo Kitty. – Adora Ilsa. Vive pedindo para que nós tenhamos outro filho. – E, se você estiver se casando só para enganar sua família, e Jonathon se apaixonar por você ou por essa linda garotinha, como acha que ele se sentirá quando o casamento acabar? – Eu... – O que ela poderia dizer? Nunca imaginara Jonathon se apaixonando por ela. Mas por Peyton? Sim. Podia imaginar isso. E, se eles ficassem casados por dois anos, ele teria muito tempo para se envolver completamente. Wendy olhou para Kitty e Claire. – Tudo que posso dizer é que quando... se nós nos divorciarmos, eu não sonharia em mantê-lo longe de Peyton. Se ele quiser vê-la, sem problemas. Deste momento em diante, eu pensarei em Jonathon como pai de Peyton. Assim como penso em mim como mãe dela. Jonathon como pai. A ideia era... tão estranha. Entretanto, sabia que Kitty e Claire estavam certas em avisá-la. Jonathon estava fazendo aquela coisa incrível por ela. Wendy não queria que ele se ferisse por causa disso, e faria tudo que estivesse em seu poder para impedir que ele sofresse. Após um longo momento, Kitty levantou-se com um suspiro dramático. – Muito bem, então. Suponho que só nos resta uma coisa a fazer. – O que seria? – perguntou Wendy, hesitante. Kitty sorriu. – Dar-lhe as boas-vindas à família.


CAPÍTULO 6

O CASAMENTO em si aconteceu com toda a precisão de uma manobra militar bem planejada. E sem o menor romantismo. Uma pequena cerimônia num escritório municipal no centro de Palo Alto, que acabou tão depressa que Jonathon teve certeza de que Claire e Matt desejaram ter ficado em Curaçao, em vez de retornarem. Depois que aquele primeiro beijo no escritório saíra tanto do controle, ele não ousava cimentar a cerimônia com mais de um toque de lábios. Difícil convencer seus amigos que eles estavam apaixonados. Mas ninguém parecera surpreso, muito menos Wendy. Naquela noite, eles passaram no apartamento de Wendy para pegar a mala dela e os poucos pertences de Peyton, antes de irem para sua casa. Tinham decidido manter o apartamento de Wendy por enquanto. Quando chegaram à sua casa, descobriram que Claire fizera o jantar, o qual os esperava na gaveta aquecida de sua cozinha. A mesa havia sido posta com louças e talheres elegantes que seu designer de interiores comprara sete anos atrás, e os quais Jonathon nunca usara. Velas longas e finas jaziam no canto da mesa, uma caixa de fósforos ao lado do castiçal. Entre as duas cadeiras, estava o cadeirão que ele mandara entregar. Havia uma garrafa de champanhe fechada gelando num balde do lado oposto do cadeirão. Wendy pigarreou, ajeitando Peyton no quadril. – Acho que eu vou... guardar algumas das roupas, primeiro. – Ela o fitou. – Não estou com fome ainda. Antes que ele pudesse responder, ela pegou a última mala dele e foi para a porta. Provavelmente uma decisão certa. Nenhum deles estava pronto para um jantar íntimo. Três horas depois, Wendy ainda não voltara para comer. Jonathon se sentara à mesa, comendo na frente de seu notebook. Finalmente, fechou o notebook e foi procurá-la. Encontrou-a no andar de cima, no quarto que ele designara para o bebê. Ele parou do lado de fora da porta, apenas observando-a. O quarto tinha sido pintado de cor-derosa. Borboletas voavam nas paredes e coelhos saltitavam no gramado pintado acima do rodapé. Um berço branco ficava num canto, sob um móbile de mais borboletas e flores. Uma decoração um pouco exagerada para o seu gosto, mas a decoradora o assegurara de que era perfeita para a nova adição em


sua vida. Essa noite, ele mal notou as borboletas, sua atenção na mulher sentada na cadeira de balanço com o bebê nos braços. Em algum momento, Wendy trocara o vestido por jeans e camiseta branca de decote “V”. Peyton estava dormindo nos braços dela. Os olhos de Wendy estavam fechados, a cabeça, recostada. Apenas o pequeno pé movendo a cadeira indicava que ela não estava dormindo. Jonathon pigarreou. Ela abriu os olhos. – Há quanto tempo você está aí? – Acabei de subir. Wendy olhou para o bebê adormecido. – Acho que eu devo colocá-la no berço – sussurrou ela. – Mas detesto fazer isso. Se Peyton acordar novamente... Se as olheiras de Wendy fossem alguma indicação, Peyton não era o mais fácil dos bebês. Não era de admirar, considerando a reviravolta em sua vida jovem. – Se ela acordar – Jonathon pegou-se dizendo –, então eu assumirei e você pode dormir um pouco. Deveria ir comer. Wendy meneou a cabeça. – Eu não posso lhe pedir para fazer isso. Não foi por isso que nos casamos. – Talvez não – replicou ele. – Mas estamos casados agora. E você obviamente precisa dormir. Eu estou mais descansado. Uma noite sem dormir não me fará mal, mas uma boa noite de sono fará muito bem a você. – Se ela precisar de uma mamadeira de madrugada... – Eu darei a ela. Wendy pareceu cética. – As mamadeiras estão lá embaixo. Você apenas... – Eu vi você misturando a fórmula. Entendi como é. – Mas... – Wendy, eu sou um de cinco filhos. Tive uma sobrinha e dois sobrinhos antes de me formar no ensino médio. Peyton não será o primeiro bebê que eu alimento. – Oh. – Após breve hesitação, ela se levantou e atravessou até o berço. Como Jonathon dissera, ele sabia lidar com crianças. E era óbvio que Wendy não sabia. Havia uma hesitação no jeito como ela se movia. Como se tivesse medo de quebrar Peyton. Ela abaixou o bebê no berço, então permaneceu ali por um longo momento, a mão descansando em Peyton antes que se afastasse. Pausou enquanto fechava a porta para tirar o monitor de bebê do quadril e ligá-lo, como se Peyton pudesse começar a chorar a qualquer segundo, agora que ela estava fora de vista. Jonathon teve de rir quando ela levou o monitor à orelha para ouvir melhor. Wendy deu-lhe um olhar irritado. – O que foi? – Você está a apenas um cômodo de distância. Provavelmente, poderia ouvi-la chorar sem o monitor. – Antes que ela respondesse, ele lhe tirou o monitor da mão. – Não que você irá precisar disto esta noite. – Eu realmente não me importo de ficar acordada com ela.


– A discussão acabou. Ela sorriu. – Acho que eu o conheço bem para reconhecer esse tom de “eu sou o chefe e será o que eu digo”. – Eu tenho um tom que fala tudo isso? – Sim. E não finja que não sabe disso. – Ela começou a andar em direção ao quarto de hóspedes no fim do corredor – o quarto que escolhera para ser seu –, então parou. – Você não precisava ter feito isso, sabia? – Wendy, não vamos ter outra discussão sobre meus motivos. Ela se aproximou dele, fechando a distância entre os dois. – Eu não estou falando sobre o casamento. Estou falando sobre tudo isto. – Wendy gesticulou a cabeça em direção ao quarto de Peyton. – O quarto do bebê. O berço. A cadeira de balanço. É tudo tão... – Não é nada. Ela arqueou uma sobrancelha. – Como os vinte por cento não são nada? A menos que você tenha passado a noite passada pintando borboletas e margaridas nas paredes, suponho que contratou um designer de interiores para fazer isso. Em menos de uma semana. E diz que não é nada? – Kitty mencionou que tudo que você possuía era um berço portátil. Ela deu um sorriso provocante. – E você sabia que isso não era suficiente. Sendo tão especialista em bebês e tudo mais. A ideia de que aquela era a noite de núpcias deles subitamente ocorreu a Jonathon. Se não houvesse um bebê dormindo no quarto ao lado, talvez ele estivesse removendo-lhe a blusa, o sutiã cor-de-rosa, e despindo-a. Mas então, se não houvesse um bebê no quarto ao lado, nem mesmo teria havido casamento. Muito menos uma noite de núpcias. De súbito, ela lhe segurou o queixo na mão, olhando-o com carinho. – Obrigada por você cuidar tão bem de nós. Por um momento, seu cérebro pareceu parar de funcionar. Ele não podia lembrar-se de todas as razões pelas quais tocá-la era uma má ideia. Tudo que sabia era o quanto a desejava. Não apenas na cama, mas ali. Assim. Olhando-o como se ele fosse um homem decente que merecesse uma mulher como ela. Antes que pudesse ceder à tentação, Jonathon pegou-lhe a mão e, gentilmente, tirou-a de seu rosto. Dando um passo atrás, murmurou: – Vá para a cama. Ponha seu sono em dia. Ele até mesmo usou seu tom de “Eu sou o chefe”. – Certo, chefe. – Wendy fez uma saudação. WENDY TIVERA tanta certeza de que não conseguiria dormir. Em vez disso, acordou dez horas depois para ver o sol se infiltrando pela janela, sentindo-se mais descansada do que em semanas. Então, sentou-se em pânico. Dormira a noite inteira. Só Deus sabia quantas vezes Peyton acordara e precisara dela.


Wendy saiu no corredor e foi para o quarto do bebê. O berço estava vazio. Seu coração disparou. Onde ela poderia... – Bom dia. Wendy virou-se para ver Jonathon sentado na cadeira de balanço, dando uma mamadeira a Peyton. Ela pressionou uma das mãos no peito. – Você está com ela. Peyton está bem. Jonathon olhou para a camiseta e o short com o qual ela sempre dormia. Finalmente, fitou-lhe os olhos. – O que você achou que tivesse acontecido com ela? Wendy resistiu à vontade de olhar para baixo e verificar quão fina era sua camiseta branca. Duvidava que saber disso lhe trouxesse conforto. Cruzou os braços sobre o peito. – Eu não sei – admitiu ela. – Esta é a primeira manhã em... quase três semanas... que não é Peyton quem me acorda. Entrei em pânico. Ele sorriu. – Obviamente. O sorriso que ele deu era caloroso, e quase lhe tirou o fôlego. Antes que ela pudesse responder, ou derreter-se aos pés dele, Jonathon continuou: – Peyton e eu estamos acordados há horas. – Eu... – Não se desculpe. Eu teria acordado você se ela tivesse dado trabalho. As sobrancelhas de Wendy se arquearam. Quando Peyton não dava trabalho? Ela queria colo constantemente. Gritava toda vez que Wendy a punha no berço. Acordava diversas vezes durante a noite. – Nós levantamos duas horas atrás – contou Jonathon. – Ela tomou uma mamadeira, depois nós preparamos cereais. Peyton ficou sentada no meu colo, enquanto eu lia alguns e-mails. Ela cuspiu um pouco no chão do escritório. Graças a Deus por meu tapete de plástico embaixo de minha cadeira, certo, Peyton? Wendy estava impressionada. O homem diante de si não tinha a menor semelhança com o homem de negócios frio e calculista com quem ela trabalhara pelos últimos cinco anos. Infelizmente, esse novo homem era ainda mais atraente, o que era perturbador. Jonathon estudou-a com expressão preocupada. – Alguma coisa errada? – Não... Por quê? – Você pareceu um pouco... fraca ou algo assim. – Não. Eu estou... ótima. Mas com fome. É isso. Devo estar com fome. – Certo. – Agora, a expressão de Jonathon era cética. – Por que você não vai tomar café? Peyton e eu ficaremos bem aqui. Como se para sinalizar sua concordância, Peyton piscou para ele com grandes olhos azuis, então sugou a mamadeira com vigor, antes de suspirar e fechar os olhos. Ela parecia um bebê completamente feliz e em paz. A emoção fechou a garanta de Wendy com alguma coisa que parecia inveja. Ela se esforçara tanto pelo bebê durante as últimas semanas, virara sua vida de ponta-cabeça, disposta a brigar com sua


família até o final. Entretanto, Peyton nunca a olhara com aquele contentamento sonhador. Mas, então, Jonathon sempre fora especialista em conquistar o sexo oposto. Wendy suspirou. – Eu gostaria que ela ficasse pacífica nos meus braços como fica nos seus. – Por que diz isso? Porque crescer como uma Morgan lhe ensinara que a melhor maneira de lidar com emoções negativas era vociferando-as. Todavia, admitir tal sentimento era desagradável, então Wendy deu de ombros. – Ela parece lutar comigo constantemente, me fazendo pensar se... ela sabe algo que eu não sei. Se Peyton sabe que eu não tenho o que é necessário para ser uma boa mãe. Quando ela olhou para Jonathon, viu compreensão nos olhos verdes. Ele gentilmente tirou a mamadeira da boca de Peyton, então a posicionou contra o seu ombro. – A coisa sobre lidar com bebês é cinco por cento instinto e 95 por cento experiência. Ademais, eles são muito intuitivos. Portanto, se você está nervosa, ela sente isso e fica nervosa também. Jonathon bateu nas costinhas de Peyton. O bebê arrotou sem sequer abrir os olhos. – Como você faz isso? Eu não consigo fazê-la arrotar. – Como eu disse, é experiência. Se Peyton tem sido um bebê difícil, não é porque ela não a considera uma boa mãe. Você apenas não pegou todos os truques ainda. Além disso, ela já passou por muita coisa em sua vida curta. Era realmente simples assim? O tempo curaria todas as feridas? Wendy esperava que sim. Mas, talvez, houvesse deficiências que nenhuma quantidade de experiência pudesse compensar. Afinal de contas, ela nunca seria a mãe verdadeira de Peyton. Como se lendo sua mente, Jonathon acrescentou: – Dê algum tempo a ela e a si mesma. – Então ele riu. – Jesus, eu pareço o dr. Phil – acrescentou, referindo-se ao psicólogo que participava dos programas de Oprah Winfrey. Wendy também riu, apesar do nó no peito. – Não se preocupe. Eu não contarei para ninguém no trabalho. – Obrigado. Um momento de silêncio se estendeu. Então, ela se pegou perguntando: – Por que você não é pai? Jonathon arqueou uma sobrancelha. Ela enrubesceu. – Quero dizer, você é claramente ótimo com crianças. Parece lógico que quisesse ter seus próprios filhos. – Eu fico frustrado o bastante tentando fazer Matt limpar seu terço do escritório. – Estou falando sério. – Eu também. Nunca tive desejo de ser pai. – O tom dele era duro, não deixando espaço para dúvida. – Peyton deve dormir umas duas horas, no mínimo. Você deveria aproveitar e ir tomar café da manhã. – Obrigada. Eu vou. Wendy saiu do quarto sem olhar para trás, mas com as palavras dele ainda ecoando em sua cabeça. Jonathon jamais quisera ser pai. Entretanto, acabara de assinar um contrato de dois anos. Ela presumira


que ele não faria um papel ativo em criar Peyton. Porém, menos de 24 horas depois do casamento, ele estava cuidando do bebê. Ela foi para a cozinha, a fim de tomar café. Nunca estivera na casa dele antes da noite anterior. Não era bem o que esperara. Como Matt, alguns anos atrás, Jonathon comprara uma das casas artesanais ridiculamente caras de Palo Alto. Embora fossem antigas e modestas, o bairro era um dos mais caros do país. O interior da casa de Jonathon tinha sido renovado, em toda sua glória, com detalhes meticulosos do começo do século XX. Os móveis eram uma coleção de antiguidades Mission e peças japonesas que os complementavam. Ela encontrou a cozinha surpreendentemente bem estocada. Sem vontade de cozinhar, Wendy vasculhou a despensa, até achar uma caixa de bolachas salgadas, e voltou a subir a escada. Tomou um banho preguiçoso e comeu bolachas enquanto se vestia. Jonathon nunca fora o tipo de homem que não sabia pedir ajuda. Se tivesse precisado dela, a teria acordado. Ela recebera diversos telefonemas às 6h da manhã, ao longo dos anos, para saber disso. Confiante de que Peyton devia estar dormindo, Wendy levou mais tempo para se arrumar do que levara nas últimas duas semanas. Fez coisas como escovar os cabelos, passar fio dental nos dentes e aplicar brilho labial. O descanso lhe fizera maravilhas. Ela não apenas finalmente tivera uma boa noite de sono, mas Jonathon cuidara de Peyton com total competência. Assim como ele prometera fazer. Essa pequena coisa renovou sua fé na situação inteira. Eles teriam uma semana antes de ir para o Texas, o que era tempo suficiente para que estabelecessem uma pequena rotina, de modo que pudessem enganar seus pais e sua família sobre o relacionamento deles. Passariam um rápido fim de semana no Texas, convencendo sua família de que eles eram perfeitos guardiões de Peyton. Depois, retornariam a Palo Alto, onde suas vidas voltariam ao normal. Depois de verificar que Peyton não estava no berço, Wendy se dirigiu para o andar de baixo. Estava na metade da escada, quando ouviu vozes. Nervosa, pausou, inclinando a cabeça para tentar ouvir a conversa que vinha da cozinha. Com o coração bombeando, ela foi para lá. Podia ser Ford ou Matt. Ou um vizinho. Ou... Então ela ouviu. Do lado de fora da porta vaivém que levava à cozinha. Um profundo sotaque texano. – Nós teríamos vindo antes, se vocês tivessem nos avisado que iam se casar. Ela fechou os olhos, lutando contra uma onda de pânico. Respirando fundo, abriu a porta e entrou na cozinha. Para encarar sua família.


CAPÍTULO 7

TENDO PASSADO sua vida inteira na metade norte da Califórnia, Jonathon aguentara sua cota de terremotos. Muito tempo atrás, superara qualquer medo que pudesse ter deles. Mas havia muitos outros desastres naturais que o apavoravam. Tornados. Furacões. Tsunamis. Claramente, a família de Wendy se enquadrava nessa categoria. Depois de dez minutos que Wendy desaparecera para tomar banho, a família dela chegara com apertos de mãos calorosos, tapa de boas-vindas nas costas e abraços chorosos. Foi um pouco desconcertante, considerando que Jonathon não os conhecia e não teria tido ideia de quem eles eram, se não tivesse reconhecido o tio dela, Big Hank, pelos noticiários que ele vira do senador. E, antes que Jonathon se desse conta, os pais de Wendy, Tim e Marian, haviam entrado na casa, seguidos por Big Hank, cuidadosamente emprestando um braço para a famosa Mema. Jonathon mal se recuperara do tapa doído que levara no braço de Big Hank, quando se viu frente a frente com Mema. Após a descrição de Wendy, ele esperara uma mulher altiva e robusta. Em vez disso, Mema era magra e curvada, frágil em aparência, apesar da força de vontade que parecia irradiar-se dela. Os outros membros da família ficaram em silêncio, enquanto ela apertava sua mão e o avaliava. Ela possuía a aparência de uma mulher que vivera muito e enterrara muitas pessoas amadas, mas que ainda não estava pronta para liberar o controle sobre o resto de seu clã. Ela o olhou de cima a baixo. – Bem, pelo menos, você é real. – A senhora duvidou disso? – perguntou ele. Ela fungou. – Eu não duvido que Gwen inventasse um marido apenas para me desafiar. – Eu lhe asseguro que sou real, senhora. – Quanto ao tipo de pai que você será para minha bisneta, nós ainda temos de ver. – Ela estreitou os olhos para Jonathon. – Eu nunca vi muita utilidade em homens extremamente bonitos. Mas então, nem minha Gwen, então suponho que deve haver mais em você do que apenas boa aparência. Ele ofereceu um sorriso irônico. – Espero que sim.


Apenas por volta de trinta minutos mais tarde Wendy apareceu. A expressão reservada no rosto dela lhe disse que ela os ouvira antes de entrar na cozinha. Ela foi cumprimentada com abraços e mais lágrimas de alegria do que ele teria esperado, considerando o jeito como Wendy descrevera seu relacionamento tenso com a família. Em meio aos cumprimentos, ela manteve um olho em Peyton, que estava atualmente nos braços da mãe de Wendy, como se esperasse que, a qualquer momento, sua família fugisse com o bebê. – O que vocês todos estão fazendo aqui? – perguntou ela. – Oh, querida – murmurou a mãe dela, a voz melosa. – É claro que nós teríamos vindo para o seu casamento. Se tivéssemos sido avisados a tempo. – Ela balançou a cabeça, os olhos marejados. – Não acredito que perdi o casamento da minha própria filha. – Eu lhe contei, uma semana atrás, que íamos nos casar. Se vocês realmente quisessem vir, poderiam ter vindo. – Mas o avião de Big Hank estava em Washington, e tivemos de esperar até que ele pudesse encaixar a viagem em sua programação. – Fico feliz em saber que você achou a ideia de pegar um voo comercial mais repugnante do que a perspectiva de perder meu casamento – disse Wendy. Tim levantou a cabeça. – Mocinha, fale respeitosamente com sua mãe. – Ou o quê? – desafiou Wendy. – Você irá cortar minha mesada? A mulher perdeu quase todos os eventos importantes em minha vida desde que eu tinha 10 anos. E, naqueles que ela apareceu, criticou infinitamente. Acho que ela sobreviverá. – Gwen... – A mãe dela começou a protestar. Então Mema pigarreou e Wendy e a mãe silenciaram, virando as cabeças para olhá-la. – Considerando a morte recente de Bitsy, é hora de vocês deixarem de lado suas diferenças. – Mema as encarou, e mãe e filha abaixaram o olhar. – Agora, a viagem do Texas foi longa, e eu gostaria de me refrescar e descansar um pouco antes do almoço. – Ela se voltou para Jonathon. – Presumo que os quartos ficam no andar de cima? – Sim, senhora – replicou ele. – Muito bem, então. Eu notei que há um escritório. Dormirei lá. Não gosto de escadas. Big Hank, por favor, providencie que uma cama seja entregue até o fim da tarde. Por enquanto, descansarei no sofá de lá. Jonathon observou, em divertimento, como o senador praticamente saltou para ajudar a mãe a sair da cozinha. Um momento depois, Tim foi enviado para a limusine do lado de fora, a fim de instruir o motorista aonde levar as sacolas, e Marian subiu para o quarto do bebê, a fim de ficar com sua sobrinha-neta. No segundo em que Jonathon e Wendy ficaram sozinhos, ela falou: – Por que você não foi me chamar no segundo em que eles chegaram? – Você estava no banho. Eu disse que eles podiam esperar até que descesse. Ela o estudou como se nunca o tivesse visto antes. – Você os enfrentou? – Sim, eu os enfrentei – replicou ele. – Pessoas normalmente não fazem isso? Wendy riu.


– Não. Pessoas normalmente não fazem isso. – Ela começou a carregar xícaras de café da mesa da cozinha para a pia. – Uma vez, eu namorei um cara cujos pais eram membros do Greenpeace. Ele passava todos os verões em barcos, protestando contra a pesca de baleias no Japão. Marchara em Washington 45 vezes, antes dos 20 anos. Era vegetariano desde os três. Depois de trinta minutos que conhecia minha família, ele estava comendo churrasco e fumando charuto na varanda com Big Hank. – Meneando a cabeça, ela começou a carregar a máquina de lavar louça. – Dentro de uma semana, ele aceitara um emprego para trabalhar com meu pai. Jonathon estudou as linhas tensas das costas dela. – O cara parece um idiota. – Não. Ele era inteligente. A última vez que ouvi falar, Jed era vice-presidente do departamento de marketing de Morgan Oil. E papai nunca promove tanto alguém que não seja brilhante. Jonathon gentilmente virou-a da pia e inclinou-se o queixo. – Não é esse tipo de idiota que eu quis dizer. Ela o fitou, a expressão confusa por um minuto. Então os olhos azuis se clarearam quando ela entendeu. Enrubescendo, Wendy afastou-se de seu toque. – Obrigada. Por enfrentá-los, quero dizer. Por tudo. – Não tem de quê. Ela deu uma risada amarga. – Você diz isso agora. Mas não sabe no que se meteu. – Ela balançou a cabeça. – Esse absurdo de eles aparecerem sem aviso, convidando-se para se hospedar aqui? Encomendando uma cama para Mema dormir? Isso é só o começo. Vai piorar. – É claro que vai – concordou Jonathon. – Acha que eu não soube disso no momento em que abri a porta? – Eu... não sei. A maioria das pessoas não enxerga quem eles realmente são. – Tente ter um pouco de fé em mim. – Eu só estou lhe avisando. Meu pai e tio Hank irão cortejá-lo com seu velho charme. E, quando você achar que eles são seus amigos, eles usarão sua inteligência privilegiada para manipulá-lo. E, se não conseguirem controlar você, tentarão esmagá-lo. – Eu me considero avisado. – Ele assentiu. – Vir aqui foi obviamente um jogo de poder. Eles acham que possuem a vantagem, porque escolheram a hora e o lugar do confronto. Estão tentando se estabelecer como os tomadores de decisões no relacionamento. E quanto à sua mãe? Ela parece inofensiva. – Humm, não. – Wendy pensou sobre aquilo. De todos os relacionamentos que tinha com membros da sua família, o que mantinha com sua mãe era o mais complicado. É claro que ela amava todos eles, mas de sua mãe Wendy apenas gostava. Mas nunca a entendera. – Em todas aquelas viagens que você faz para mergulhar, alguma vez já esteve na companhia de uma água-viva? – Diversas vezes. Elas queimam como fogo. – Exatamente. Parecem delicadas e frágeis, mas têm muitas defesas. Essa é minha mãe. Ela pode bancar a vítima, mas é tão esperta como... – Foi quando um pensamento lhe ocorreu. – Oh, droga. – O quê? – O quarto! – Wendy correu em direção à escada. Jonathon segurou-lhe o braço quando ela passou por ele. – O quê?


– O quarto. Na nossa noite de núpcias, eu dormi no quarto de hóspedes. E, agora, minha mãe está lá em cima com Peyton. Se ela vir o quarto de hóspedes, irá descobrir que nós não dormimos juntos, ontem à noite. Wendy puxou o braço da mão dele e correu para a escada. Ele a seguiu, enquanto ela subia os degraus de dois em dois. Ela parou no topo, ofegando, olhando ao redor. Um longo patamar corria do topo da escada para o quarto de hóspedes no final. Sua família teria de passar pelo quarto do bebê para chegar lá. Droga. Aquilo ia ser complicado. Wendy seguiu o corredor, rezando para que Jonathon andasse com suavidade. Ou voltasse a descer. Ela chegou perto da porta na ponta dos pés e parou, ouvindo. Escutou um choro baixinho e o ranger de uma cadeira de balanço. Se sua mãe estivesse sentada na cadeira, balançando Peyton, havia uma boa chance de que Wendy pudesse chegar ao quarto de hóspedes, arrumar a cama e sair sem ser notada. Mas então ouviu duas coisas que a deixaram apreensiva. A primeira foram os passos pesados de Jonathon atrás dela. A segunda foi a voz do seu pai vindo de dentro do quarto do bebê. Agarrando a mão de Jonathon, ela seguiu em frente. Se seus pais os tivessem ouvido e seguido, ela e Jonathon nunca teriam tempo de arrumar a cama. Certamente, não bem o bastante para enganar seu pai. E aquele não era o dia para deixar as coisas na mão do destino. Entrando no seu quarto e puxando Jonathon, ela o virou, de modo que ele ficasse de costas para a porta, e deu-lhe um sorriso irônico. – Desculpe-me sobre isto. – Sobre o quê? Wendy teve apenas um instante para apreciar como ele estava charmoso com aquela expressão confusa no rosto, antes que se atirasse sobre ele. Os dois tombaram na cama num emaranhado de braços e pernas. Talvez ele tivesse arfado em surpresa. Ela não teve a chance de notar, enquanto lhe cobria a boca com a sua e o beijava. NO SEGUNDO em que Jonathon sentiu a boca de Wendy na sua, desistiu de tentar entender o que ela estava fazendo. Ela estivera tagarelando sobre o quarto num minuto, e beijando-o como uma mulher tomada por desejo no momento seguinte. Um homem inteligente sabia quando deixar suas perguntas para mais tarde. Em vez disso, ele a abraçou e aprofundou o beijo. Os lábios dela moviam-se sobre os seus em abandono sensual, num beijo tão voraz que fazia um homem esquecer tudo, exceto o desejo ardente de possuir a mulher que o beijava. Virando-a sobre as costas, ele tomou controle do beijo. A mão de Wendy tinha começado a puxar sua camisa de dentro da calça. Se aquela pequena mão tocasse seu peito desnudo, Jonathon perderia o que lhe restava de controle. Então, capturou-lhe ambas as mãos e ergueu-as sobre a cabeça dela, prendendo-as ali. Ela gemeu, arqueando as costas da cama. Sim. Ele a queria assim. Tão desesperada e desejosa quanto ele se sentia.


Jonathon diminuiu o ritmo do beijo, explorando cada canto da boca doce. Adorou o gosto dela, o calor da língua suave dançando contra a sua. Mas isso não era o bastante. Meramente beijar nunca seria o bastante. Não quando havia tanto do corpo de Wendy para explorar. Aquele ombro sedoso que o vinha provocando há tanto tempo. Aquele pedaço de pele sedosa ao longo do colo. O vislumbre que ele tinha da barriga reta quando ela se levantava na ponta dos pés para pegar mais folhas para a impressora. Ele deslizou a mão por baixo a bainha da blusa dela, deleitando-se ao sentir a pele sedosa sob seus dedos. Sentiu a extremidade do sutiã e hesitou. Esperara anos para tocar a pele nua de Wendy. Sua mão quase tremia com a perspectiva. Mas era isso realmente o que ele queria? Um sexo rápido no quarto de hóspedes, quando a família dela estava no mesmo corredor? Não, ele a queria nua. Exposta na sua frente como um banquete. Queria horas. Dias. Queria... Um som veio da porta. Um homem pigarreando. Jonathon parou de beijá-la, virou a cabeça e viu os pais de Wendy parados junto à porta. Marian, uma versão mais velha de Wendy, estava com as mãos nos quadris, mas o sorriso provocante nos lábios suavizava qualquer reprovação no olhar. Tim, por outro lado, parecia pronto para estrangulá-lo. Com toda razão. O homem acabara de pegá-lo atacando sua filha como um adolescente desesperado. Com um gemido de desprazer, o pai de Wendy deu um passo na direção dele. A esposa agarrou o marido pelo braço, fazendo-o pausar. – Wendy, seu pai e eu esperaremos vocês no corredor. Venham assim que... se recompuserem. Um momento depois, a porta do quarto de hóspedes foi fechada. Jonathon saiu de cima de Wendy, plantou os pés firmemente no chão e abaixou a cabeça sobre as mãos. Que situação. Os pais de Wendy... esperando no corredor, com Tim parecendo querer matá-lo... era a menor de suas preocupações. Ele aceitaria qualquer crítica que eles lhe fizessem. Nenhuma daquelas chegaria perto do sermão que Jonathon estava dando a si mesmo. Ele perdera completamente o controle. Por diversos momentos, esquecera onde eles estavam. Esquecera que ela não era sua para que ele a tomasse quando quisesse. Esquecera que aquilo era apenas uma farsa. Pior ainda, Wendy não esquecera. Ela claramente manipulara a situação – e o manipulara –, de modo que a família não notasse o fato de que ela dormira no quarto de hóspedes. E não lhe ocorrera que era isso que ela estava fazendo. Jonathon respirou fundo, mas não se acalmou. Apenas sentiu o leve cheiro de hortelã, que era unicamente de Wendy. Ele endireitou a coluna, olhando por sobre o ombro. Ela estava no canto da cama, recostada na cabeceira. Parecia quase com medo dele. Jonathon não a culpava. Seu controle estava muito abalado agora para tranquilizá-la. – Eu... – começou ela a falar, então pigarreou. – Nossa, foi por pouco. Não confiando em si mesmo para falar ainda, ele arqueou uma sobrancelha. Aparentemente, ela não percebera a sorte que tivera pelos pais terem aparecido, uma vez que ele estivera a três minutos de tomá-la ali mesmo.


– Eu... sinto muito – gaguejou Wendy. – Não pude pensar em outra maneira de distraí-los da cama. Jonathon levantou-se. – Eu duvido que seus pais tenham notado a cama. Ela se ajoelhou. – Não. Quero dizer, essa era a ideia, certo? Ele assentiu, detestando-a um pouco naquele momento. Ou, pelo menos, detestando que ela ainda estava pensando coerentemente, quando ele perdera a habilidade. – Sim. Aparentemente, era. – Eu... – Wendy saiu da cama, posicionando-se de pé ao seu lado. – Desculpe-me. Ele subitamente ficou impressionado por como ela era pequena. Parada ao seu lado com sapatos sem salto, o topo da cabeça de Wendy mal alcançava seu queixo. Todavia, ela nunca parecera pequena. Possuía a personalidade de uma mulher 15 centímetros mais alta. E mais do que força de vontade suficiente para enfrentá-lo. Ele não fora capaz de encarar o pai dela sem se embaraçar, poucos minutos atrás, mas os insistentes pedidos de desculpa de Wendy certamente tinham destruído o clima. Ela não ficara afetada pelo beijo como ele. Tudo bem. Mas não precisava enfatizar tanto isso. – Pare de se desculpar – ordenou ele. – Nós todos cometemos erros. Eu apenas não estou acostumado a cometer erros tão estúpidos. Ela abriu a boca para falar alguma coisa, mas fechou-a quando Jonathon penteou-lhe os cabelos desalinhados com os dedos. Então, uma vez que ele parecia não conseguir tirar as mãos dela, beijou-lhe a testa. – Vamos enfrentar seus pais.


CAPÍTULO 8

ALGUMAS COISAS são embaraçosas, independentemente de qual é sua idade. Ter seu pai encarando seu namorado é uma delas. Aos 17 anos, Wendy e o namorado haviam sido pegos se agarrando no banco de trás da caminhonete dele. E, pior, seu namorado estivera drogado. Seu pai não perdoava esse tipo de coisa, mesmo que ela não soubesse disso na época. Seu pai mandara prender o pobre garoto. E a levara junto à delegacia, exigindo que fosse feito um teste para saber se Wendy tinha usado drogas. Era de admirar que, no ano seguinte, ela tivesse escolhido uma faculdade a milhares de quilômetros de distância? Enquanto seguia Jonathon para o corredor, Wendy prendeu a respiração, temendo a discussão que viria. Seus pais estavam esperando mais à frente. Sua mãe deu um sorriso fraco, a expressão apologética. Seu pai, por outro lado, parecia estar com vontade de estrangular Jonathon com as próprias mãos. Nem mesmo com Devin... ou era Derek... seu pai parecera tão furioso. Geralmente, ela sabia como lidar com seus pais. Vinte e três anos de convivência tornara-a especialista em desfazer o dano. Mas, no momento, cada célula do seu ser ainda estava inundada com a memória daquele beijo profundo. Ele poderia tê-la tomado ali mesmo, com seus pais do outro lado da porta. E ela estaria suplicando por mais. Não era um bom pensamento. Uma vez que Wendy mal conseguia pensar com coerência, estava infinitamente grata que Jonathon parecia estar se recuperando mais depressa do que ela. Ele passou um braço sobre seu ombro num gesto possessivo. Olhando para seus pais, murmurou: – Sr. e sra. Morgan, sinto muito que vocês viram aquilo. – Oh, não precisa se desculpar... – começou Marian. – Sente muito que vimos aquilo? – Tim interrompeu a esposa. – Ou sente muito que fez aquilo? – O tom era de reprovação. – Porque, no meu modo de pensar, um homem que ama sua esposa não fica agarrando-a no meio da manhã, quando a família dela está na casa, e a filha que pretendem educar está praticamente no quarto ao lado. – Papai! – Tim...


Jonathon ergueu a mão, parando os protestos de filha e mãe. Fez uma pausa significativa, para que todos soubessem que ele não ia ser intimidado por Tim. – E, no meu modo de pensar, uma família que respeita sua filha não aparece à sua porta sem avisar. Marian abriu a boca, pareceu pronta para falar alguma coisa, então se virou e desceu a escada. O pai de Wendy continuou olhando para Jonathon, que o encarou de volta. – Se você acha que fazer minha esposa chorar vai me amansar, então está muito enganado – disse Tim entre dentes cerrados. Wendy queria protestar. Não tinham sido lágrimas nos olhos da mãe. Apenas raiva. Mas Jonathon não lhe deu chance de apontar isso. – O mesmo vale para o senhor – retrucou Jonathon. Então aproximou-se mais do pai dela e acrescentou: – Tudo que lhe direi é que, antes que Wendy concordasse em se casar comigo, eu nunca toquei em sua filha no trabalho. Tenho grande respeito pela inteligência e pelas decisões dela. Não sei se o senhor pode dizer o mesmo. Ambos os homens pareciam prestes a explodir de raiva. Se houvesse uma luta física ali, seria equilibrada, pensou Wendy. Seu pai tinha quase dois metros de altura e pesava 120 quilos. Além disso, trabalhara em plataformas de petróleo em sua juventude. Jonathon, por outro lado, crescera pobre, passara algumas semanas no centro de detenção juvenil, e tinha dois irmãos mais velhos, ambos com antecedentes criminais. Ela achou que ele provavelmente podia se virar. Olhou de um homem para o outro. Nenhum dos dois parecia disposto a ceder. Finalmente, Wendy balançou a cabeça. – Eu vou falar com mamãe. Vocês dois... resolvam isto. – Ela apertou o braço de Jonathon, querendo que ele visse o pedido de desculpas em seus olhos. Então, ao passar pelo pai, tocou-lhe o braço. – Papai, eu não tenho mais 17 anos. E, se Jonathon quisesse manchar minha honra ou algo assim, ele não teria se casado comigo. Dê-lhe uma chance. Você não tem ideia de quão bom sujeito ele é. Ela desceu a escada. No andar de baixo, Peyton estava, aparentemente, dormindo de novo, porque canções de ninar podiam ser ouvidas através do monitor de bebê que estava sobre o balcão da cozinha. Sua mãe estava fazendo o que a maioria das mulheres texanas fazia quando estava chateada. Cozinhando. Wendy deu uma risada incrédula. Sua mãe levantou a cabeça, os olhos ainda revelando irritação. Havia um pano de prato jogado sobre seu ombro, uma faca em sua mão, e um frango descongelando na pia. Ela fungou em desaprovação, antes de voltar à tarefa em mãos, cortando aipo em cubos. Wendy encostou o quadril contra a extremidade da ilha que corria ao longo da cozinha. O granito preto era como o rio de diferenças que sempre as dividia. Sua mãe de um lado: cozinhando para suprimir emoções que não podia vociferar. Wendy do outro: frustrada pela habilidade de sua mãe de se fechar no silêncio por tantos anos. – O que é? – murmurou sua mãe, sem tirar os olhos do aipo. – Eu não falei nada – protestou Wendy. – Mas estava pensando. Você sempre pensou mais alto do que a maioria das pessoas grita. Wendy suspirou. – Certo. É só que... – Qualquer coisa que ela dissesse, sua mãe tomaria como crítica. Não havia saída para isso. – Você ficou sozinha na cozinha por menos de cinco minutos, e começou a cozinhar?


Marian arqueou uma sobrancelha desdenhosa. – Alguém precisa alimentar todo mundo. Você sabe que Mema não vai querer ir comer fora. Só Deus sabe como é a comida aqui. Wendy riu com incredulidade. – Acredite, há ótimos restaurantes em Palo Alto. Até mesmo para os seus padrões. E estamos a trinta minutos de São Francisco, onde eles têm os melhores restaurantes do mundo. E, se Mema não quiser sair, provavelmente há dúzias de restaurantes que fazem entrega. Naturalmente, pedir comida não era algo que teria ocorrido à sua mãe. No Texas, todos os Morgan viviam a quilômetros uns dos outros, em várias casas espalhadas pela propriedade Morgan, localizada na grande área florestal do leste do Texas. Certamente, era possível ter serviço de bufê lá, mas não entregas comuns. Quando criança, Wendy costumava subornar os entregadores de pizza com gorjetas de cem dólares, mas isso só funcionava nas noites de pouco movimento. Sua mãe suspirou. – Eu já... – Certo. Você já começou a descongelar o frango. – Sua mãe estava fazendo frango com legumes. – Dê-me uma faca e eu vou descascar as cenouras. Sua mãe atravessou para um gabinete, pegou uma faca e uma tábua de cortar. Alguns segundos depois, Wendy estava trabalhando do lado oposto de onde estava sua mãe. Marian sempre fora um misto curioso de esposa de um fazendeiro texano e dinheiro de berço, vindo por meio do petróleo. Os avós maternos de Wendy haviam sido fazendeiros que trabalhavam arduamente, antes de extraírem petróleo de suas terras, nos anos 1960. Tendo sobrevivido à tempestade de poeira nos anos 1950, e, apesar de ter se casado com alguém de uma família rica de berço, sua mãe nunca perdera o aspecto de fazendeira. Essa era uma das coisas que Wendy mais adorava sobre ela. – Você costumava adorar me ajudar na cozinha – disse sua mãe, de repente. Wendy não podia dizer se havia mais do que nostalgia na voz dela. – Você costumava me deixar ajudar. – Ela relembrou sua mãe. – Mas nunca precisou de mim lá. Eu parei de querer ajudar quando percebi que qualquer coisa que eu fizesse não seria boa o bastante. Sua mãe parou de cortar o aipo e olhou para cima. – É isso que você acha? Wendy continuou fatiando as cenouras em silêncio, quase como se o ato dissipasse um pouco de sua raiva. Talvez, cozinhar quando você estava chateada, realmente ajudasse. – Mãe, nada do que eu fiz foi suficientemente bom para esta família. Não minha falta de interesse em ascender socialmente. Não minha falta de foco durante a faculdade. E, certamente, não meu emprego na FMJ. – Bem – começou sua mãe, enxugando as mãos no pano de prato. – Agora que você capturou Jonathon... – Não, mamãe. – Wendy largou a faca contra a tábua. – Meu emprego na FMJ não teve nada a ver com a captura de um marido. Se tudo que eu quisesse fosse um marido rico, vocês poderiam ter me arranjado isso quando eu tinha a sua idade. – Pegando a faca de novo, ela fatiou a cenoura com movimentos rítmicos, buscando calma. – Eu trabalho na FMJ porque é uma empresa na qual acredito. E porque gosto do meu trabalho. Isso é suficiente para mim. E, por uma vez na vida, eu gostaria que fosse suficiente para você e papai.


– Querida, se parece que eu tenho tentado consertá-la durante sua vida inteira, é porque sei como é duro não se encaixar nesta família. – Mamãe, eu nunca irei me encaixar nesse mundo. Suas críticas constantes nunca adiantaram de nada, e só fizeram com que eu me sentisse pior sobre isso. Sua mãe empalideceu e enxugou delicadamente os olhos, fungando o tempo inteiro. – Eu não tinha ideia. Wendy vira sua mãe enterrar emoções infinitas vezes, e reconhecia isso pelo show que obviamente era. – Ora, mamãe, é claro que tinha. Apenas percebeu que era mais forte do que eu e que acabaria vencendo. Nunca imaginou que eu pudesse ter a mesma determinação que você. Após alguns minutos de silêncio, ela murmurou suavemente: – Sinto muito, mãe. Sua mãe não fingiu não entender. – Pedido de desculpas aceito. – Eu realmente gostaria que você tivesse vindo ao meu casamento. Acho que eu deveria ter me certificado de informá-la disso. Sua mãe bateu a faca contra o balcão. – Você acha? – Sim. Eu acho. – Sou sua mãe. É tão errado que eu deseje que você me quisesse aqui para... – Oh, isso é tão típico – interrompeu ela. – Por que eu teria de implorar para você vir ao meu casamento? Vivo na Califórnia há mais de cinco anos. Logo que me mudei para cá, convidei todos para virem me visitar, e mais diversas outras vezes. Vocês nunca vieram. Ninguém da família mostrou qualquer interesse na minha vida ou no meu trabalho até agora. Todavia, agora que o bebê Peyton está aqui, vocês vieram como uma praga de gafanhotos e... – Pare. – Sua mãe plantou as mãos nos quadris. – E você se admira por que nós não viemos antes de agora, quando fala sobre nós dessa forma? Wendy meneou a cabeça. Mais uma vez, ela conseguira ofender e horrorizar sua mãe. De alguma maneira, sua mãe sempre acabava como a ponte entre Wendy e o resto dos Morgan. Era a mediadora que tendia em ambas as direções, satisfazendo nenhuma. – Ouça, eu não quis dizer isso. Obviamente, não acho que você é um gafanhoto. Ou uma praga. – O que você quis dizer, então? – É só que... – Apoiando as mãos de cada lado da tábua de cortar, Wendy abaixou a cabeça, enquanto refletia. Olhou para as rodelas de cenoura. Estavam quase todas uniformes. Poucas fatias se destacavam, estando muito grossas ou deformadas, sem combinar umas com as outras. Durante toda sua vida, ela se sentira assim. A parte imperfeita que ninguém queria, e com a qual ninguém sabia o que fazer. Até que ela havia ido trabalhar para a FMJ. E lá, finalmente, ela se encaixara. Sua mãe meneou a cabeça, jogando os cubos de aipo na panela. – Você está sempre tão ávida para acreditar no pior de nós. – Isso não é verdade. – Certamente, é. Você sempre foi rebelde, apenas por ser. Cada escolha que fez desde o dia que completou 15 anos foi designada a irritar seu pai e sua avó. E agora isso.


– O que isso significa? – Lembra quando tinha 15 anos, e você e Bitsy compraram aqueles kits de permanente caseiro e fizeram permanente nos cabelos, quatro dias antes do dia da fotografia na escola? Wendy lembrava. Bitsy acabara com cachos sedosos e bonitos. Mas Wendy ficara careca por meses, enquanto seus cabelos voltavam a crescer. Seu pai tinha ficado tão furioso que sua mãe correra para o banheiro, a fim de pegar o remédio da pressão para ele. Aquele não fora o melhor momento de Wendy. – Ou da vez que foi ao México com aquele seu namorado. Quando nós dissemos “não”, você foi, de qualquer forma. – Vocês não precisavam mandar prender o garoto – replicou ela com fraqueza. – E você deveria ter contado a ele que só tinha 16 anos. Aquele também não era um momento do qual ela se orgulhava. – E não tente dizer que nós estamos sendo superprotetores. A maioria dos pais não deixa uma filha de 16 anos sair do país com um namorado que mal conhece. – Ouça, mamãe. Sinto muito. Lamento por ter sido uma adolescente difícil, e nunca ter correspondido às expectativas de vocês. Mas isso não tem nada a ver com quem eu sou agora. – Não tem? – Sua mãe puxou as cenouras que Wendy cortara e jogou-as na panela, antes de levá-la ao fogo. – Você se casou às pressas com esse homem que nós não conhecemos... Havia uma nota de censura na voz de sua mãe que Wendy não podia deixar passar. – O homem com quem eu trabalho há cinco anos. Se vocês não o conheciam é porque nunca vieram me visitar. Sua mãe plantou ambas as mãos no balcão entre elas e inclinou-se para a frente. – Jonathon parece um homem muito bom. Mas, se você se casou com ele somente para nos irritar, então... – Oh, Marian, não seja tão desconfiada. Wendy virou-se em direção à porta da cozinha para ver seu pai e Jonathon parados do lado de dentro. Ela e sua mãe haviam estado tão entretidas em sua discussão que nenhuma delas os ouvira entrar. Os dois homens obviamente tinham chegado a um entendimento. O braço de seu pai estava em volta dos ombros de Jonathon, como se eles fossem velhos amigos. O sorriso no rosto dele era presunçoso. Jonathon parecia menos confortável. Na verdade, a expressão dele era de alguém que engolira alguma coisa amarga. Obviamente, ele ouvira tudo que sua mãe lhe dissera. E não gostara daquilo.


CAPÍTULO 9

– EU TENHO certeza de que nossa pequena Gwen superou a fase das rebeliões – disse o pai de Wendy. Jonathon engoliu o nó de medo na garganta. – Sra. Morgan, eu lhe asseguro... Mas a mãe de Wendy enviou um olhar feroz a ambos, e ele se calou. Wendy apontou a ponta de sua faca na direção de seu pai. – Fique fora disto. – Pela primeira vez em anos, ela sentia que estava realmente conversando com sua mãe. Não permitiria que seu pai estragasse aquilo. Olhando para sua mãe, ela continuou como se os homens não tivessem entrado. – Eu não sou mais uma adolescente rebelde. Sou adulta. Com um emprego que amo. Posso não ter me casado com um político influente, ou posso não ser a vice-presidente de Morgan Oil, mas sou bemsucedida do meu próprio jeito. E muitas pessoas se orgulhariam de me ter como filha. – Não é que nós não estejamos orgulhosos de você – começou sua mãe. – Mas... – É claro que há um “mas”. Há sempre um “mas”. Sua mãe ignorou a interrupção. – Mas você sempre se deleitou em se rebelar contra seu pai. Se eu acreditasse que se casar com Jonathon e criar Peyton fosse realmente o que você quer... – É. – ...e não outro de seus atos rebeldes, então eu a apoiaria completamente. Wendy jogou as mãos no ar. – Então apoie-me! – Mas eu sei como você é. Se seu pai, Mema ou Big Hank anunciarem que o céu é azul, na manhã seguinte você reuniria um comitê de pesquisa para provar cientificamente que não é. – Você fala como se eu fosse totalmente ilógica. – Wendy balançou a cabeça. – É como se não tivesse ouvido nada do que acabei de falar. – Bem, você me diz se isso é ou não apenas rebeldia. – Marian pôs as mãos nos quadris. – Todos na família acham que Hank Jr. e Helen deveriam criar Peyton, exceto você. Tem alguma razão lógica pela qual está tão determinada a criar esse bebê? Jonathon tivera o suficiente. Afastando-se de Tim, puxou Wendy para seu peito e falou calmamente:


– Acredito que essa é a questão, não é? Todos na família, exceto Wendy. E Bitsy. Uma vez que Bitsy não queria que o irmão criasse a filha dela, isso não deveria ser o bastante para todos? Marian estreitou os olhos e ergueu o queixo. Ele já vira aquela expressão em Wendy diversas vezes. – Você não conhecia Bitsy – replicou ela. – Bitsy nunca estava feliz, se não estivesse criando confusão. Eu não gosto de falar mal dos mortos, mas não ocorreu a nenhum de vocês que nomear Wendy guardiã pode ter sido o jeito de Bitsy criar conflito do além-túmulo? Ele sentiu Wendy tentando se afastar, querendo falar. Puxou-a de volta contra si e murmurou: – Eu posso não ter conhecido Bitsy. Mas conheço Wendy. Sei que ela será uma mãe maravilhosa. Marian o estudou, aparentemente procurando sinais da convicção dele. Finalmente, assentiu. – Helen, a esposa de Hank Jr., vê esse bebê como um símbolo de dinheiro. Peyton é um ingresso rápido para uma parte maior da propriedade de Mema. Helen brigará com vocês por esse bebê. – Helen tem três filhos que está criando muito mal – apontou Wendy. – Se ela não houvesse mandado aqueles meninos para o colégio interno no segundo que eles tinham idade para ir, talvez minha visão das coisas fosse diferente. – Apenas estejam preparados. Helen é como um buldogue com um osso, quando dinheiro está envolvido. – Isso pode ser verdade – disse Jonathon. – Mas Helen não está aqui agora. E nós temos o fim de semana inteiro para convencer Mema de que seremos os melhores pais para Peyton. Marian suspirou. – Não pense que Helen já não percebeu isso, também. Marque minhas palavras, garota, devia agradecer que viemos visitá-la aqui, em vez de esperar sua visita. Esta pode ser sua única chance sozinha com Mema para convencê-la de que você e Jonathon são o casal feliz e apaixonado que quer que todos nós acreditemos. HAVIA POUCAS coisas que apavoravam Jonathon. Ele se considerava um homem racional e lógico. Medos irracionais eram para crianças. Não para adultos. Aos 19 anos, ele passara uma hora no dormitório, segurando a tarântula de estimação de seu companheiro de quarto, para superar seu medo de aranhas. Aos 23, época na qual ganhara seu primeiro milhão, ele passara três semanas na Austrália, aprendendo a mergulhar. A viagem servira ao propósito de fazê-lo superar seu medo irracional de tubarões, e seu medo igualmente racional de que a FMJ afundaria se ele não estivesse disponível 24 horas por dia, sete dias por semana. Agora, ele tirava férias uma vez por ano, para mergulhar. Era um homem que enfrentava seus medos e os conquistava. O que não explicava por que, quase à meia-noite do sábado, ele ainda estava sentado na cozinha, tomando uísque com o pai e o tio de Wendy. Estava lá há horas, ouvindo as histórias deles sobre as políticas do Texas e... como Tim chamara aquilo... “vida na plataforma de petróleo”. A família dela era interessante. E essa era a única razão pela qual ele não havia ido para cama mais cedo. Não tinha nada a ver com o fato de que Wendy estava dormindo na sua cama. Ele temera dormir na mesma cama que ela, mas era inevitável agora. Como se isso não bastasse, as palavras da mãe dela não lhe saíam da cabeça. Depois de relembrar Wendy, repetidas vezes, que seus próprios motivos eram egoístas, por que o perturbava pensar que, talvez, os dela não fossem tão puros? Jonathon não sabia. Tudo que sabia era


que detestava a ideia de que o casamento deles era apenas mais um ato rebelde numa longa linha de comportamentos autodestrutivos. Pior ainda era a ideia que ela tivesse perdido o interesse nele, uma vez que a tática fracassara em chocar seus pais. Se Wendy se oferecesse para ele, Jonathon não seria capaz de resistir. Mesmo sabendo o que sabia agora, a tentação seria muito doce. Para seu desgosto, ele sentiu uma onda de pânico quando o tio dela se levantou, bebeu o resto de seu drinque e disse: – Jonathon, eu apreciei a hospitalidade... e o uísque... mas sei que me arrependerei amanhã, se beber mais. O pai de Wendy também se levantou. – Marian ficará chateada comigo, amanhã, se eu demorar. Jonathon levantou a garrafa em direção a Tim. – Tem certeza de que não quer mais uma dose? – Bem... Mas Hank bateu no braço do irmão de um jeito jovial. – Nós o estamos mantendo longe da esposa. – Não me lembre – murmurou Tim. – Homem algum deve entreter dois velhos, quando tem uma nova esposa adorável para aquecer sua cama. Jonathon quase sorriu daquilo. Gostava mais da família de Wendy do que queria admitir. Eles eram dominadores e pretensiosos, mas também eram charmosos e inteligentes. Todavia, antes que ele pudesse insistir em mais um drinque, Tim e Hank estavam subindo a escada para os quartos de hóspedes em que iam dormir. Após alguns minutos, Jonathon seguiu, apagando as luzes no caminho. Naquela tarde, ele e Tim haviam movido o berço de Peyton do quarto de bebê para a suíte máster. Irônico, uma vez que o berço chegara na semana anterior. Eles tinham levado um colchão da garagem para o andar superior, e agora o quarto de hóspedes transformado em quarto de bebê era, novamente, um quarto de hóspedes. Durante o processo, Wendy insistira que a família deveria ficar num dos muitos hotéis da cidade. Mema parecera escandalizada. Marian parecera ofendida. E Wendy acabara se resignando. Então, depois de 13 anos morando completamente sozinho, Jonathon agora tinha seis pessoas adicionais sob seu teto. Talvez devesse comprar uma casa maior. Com mais quartos. Mas a verdade era que uma dúzia de quartos não o teria salvado disso. Todos na família esperavam que ele compartilhasse um quarto com Gwen. Não havia saída de tal situação. Respirando fundo, ele finalmente entrou na suíte máster, o quarto que compartilharia com Wendy. Sua esposa. Apesar de suas preces, ela não estava dormindo. Estava sentada na cama, recostada contra as enormes almofadas que sua decoradora comprara... pessoalmente, ele nunca gostara daquelas, e não sabia por que continuava empilhando-as sobre a cama todas as manhãs. Peyton dormia no peito de Wendy, que estava no lado dele da cama. O abajur estava aceso e, na outra mão, ela segurava um... leitor de livros digitais. Ele olhou para o criado-mudo. Ela segurava o seu e-reader. Wendy olhou para cima quando ele fechou a porta e sorriu timidamente.


– Desculpe por roubá-lo – sussurrou ela. – Peyton adormeceu aqui, e eu não queria arriscar acordála, procurando meu próprio livro. Ela estava vestida com um top branco e um short das Tartarugas Ninjas. As pernas estavam estendidas à frente. Como uma mulher baixa como Wendy podia ter pernas tão longas era um mistério, mas elas pareciam se estender infinitamente. Pernas firmes que acabavam em pés pequenos e perfeitos, cujas unhas estavam pintadas de roxo. Ele subiu o olhar para os braços dela, que também estavam desnudos e eram quase tão eróticos quanto as pernas. Em todos aqueles anos que eles tinham trabalhado juntos, Jonathon não a vira em roupas sem mangas. Os braços eram como o resto dela. Pequenos, delgados e firmes. Inesperadamente fortes. Havia alguma coisa tão íntima sobre a visão de Wendy segurando o bebê contra o peito, vestida para dormir. Na sua cama. Ele queria atravessar o quarto e puxá-la para seus braços. Fazer todo tipo de coisas com o corpo dela. Ou, talvez, apenas se sentar na cama ao seu lado e observá-la dormir. Esse pensamento... a ideia de que ele ficaria contente mesmo sem tocá-la... foi o que assustou Jonathon. Podia lidar com o desejo físico que sentia por ela. Vinha lutando contra tal desejo por anos, sempre vencendo a batalha. Mas essa nova vontade de apenas estar com Wendy... ele nem queria saber o que significava. Subitamente, a suíte máster pareceu muito pequena. – Você está zangado, não está? – perguntou Wendy. – Por quê? – Está zangado porque eu peguei seu e-reader emprestado. – Ela desligou o aparelho. – Eu nem pensei. Foi uma invasão horrível de sua privacidade. Ele queria ficar ali, observando-a dormir, e ela estava preocupada por invadir sua privacidade? – Sem problemas. – Tem certeza? – Apesar do sussurro, a voz de Wendy parecia alta e nervosa. – Porque você parece irritado. Ele devia parecer como se estivesse tentando não beijá-la. Que bom que Wendy interpretava aquilo como irritação. – É apenas um e-reader. Nada de mais. Então Jonathon atravessou automaticamente para o seu lado da cama. O lado onde ela estava sentada. Ele tirou o relógio e colocou-o na bandeja sobre o criado-mudo. A familiaridade do ato acalmou seus nervos. É claro, normalmente não havia uma mamadeira ao lado do abajur, entretanto... – Você teve problemas para fazê-la dormir? – perguntou ele, removendo o anel de formatura e pondo-o ao lado do relógio. Então hesitou com a aliança de ouro na mão esquerda. Uma vez que dormira no quarto de Peyton na noite anterior, ficara com ambos os anéis e o relógio durante a noite inteira. Essa era a primeira vez que tiraria a aliança de casamento. – Não. – Wendy esfregou os olhos. – Acho que ela está finalmente se acostumando com os novos horários de mamar. Eu a acordei às 23 horas para esta mamadeira, e ela voltou a dormir... Jonathon olhou para cima ao notar que a voz dela parara. Como ele, Wendy estava olhando para a aliança em sua mão. Em seguida, eles se entreolharam. Ele observou, em transe, quando ela, nervosamente, lambeu os lábios. Alguma coisa ardente se passou entre os dois, despertando-lhe, mais uma vez, a vontade de beijá-la. De marcá-la como sua. De possuí-la.


Graças a Deus, Peyton estava dormindo no peito de Wendy, impedindo-o de cometer tal tolice. Jonathon removeu a aliança do dedo e colocou-a na bandeja com os outros itens. Então, voltou a encará-la. Ela deu outro de seus sorrisos ansiosos. – Eu estou do seu lado da cama, não estou? – Sem problemas. – Não. Eu vou me mover. Dê-me apenas um segundo. – Colocando um braço nas costas de Peyton, ela se sentou mais ereta, então hesitou, quando Peyton se contorceu. – Deite-a no centro da cama. Ela pode dormir aí. – Tem certeza? – Absoluta. – Era errado que ele estivesse tentando colocar Peyton na cama entre os dois? Na verdade, era um golpe de gênio. Melhor que um banho de água fria. Ele não tocaria em Wendy com o bebê entre eles. Além disso, Jonathon tinha até mesmo uma razão científica para apoiar sua ideia. – Eu estava lendo um livro sobre... – Ligação parental? – perguntou ela, balançando o Kindle. – Eu roubei seu Kindle, lembra? O tom brincalhão de Wendy o excitou. Talvez ele ainda precisasse daquele banho de água fria. – Eu deveria dormir no chão. – Não seja ridículo. Ela se virou de lado e rolou Peyton de seu peito para o centro da cama. Então ergueu-se sobre mãos e joelhos para pular o bebê ainda dormindo. O algodão fino do short aderiu-se ao traseiro perfeito, e o sexo de Jonathon enrijeceu em resposta. Ora, esqueceria o chão. Ele dormiria no chuveiro. Com água fria caindo sobre seu corpo. – Eu não me importo. – Bem, eu me importo. – Wendy jogou as almofadas daquele lado da cama no chão... o lado que, de agora em diante, sempre seria o lado dela da cama. – Quando eu penso em tudo que você fez por mim nas últimas semanas... – Não me transforme em algum tipo de herói. Sabe por que eu me casei com você. – O problema era que ele não tinha mais certeza por que fizera aquilo. – Meus motivos não foram altruístas. Ela lhe deu um sorriso triste. – Eu sei. Mas os meus também não foram. E eu não estou prestes a expulsá-lo da cama.


CAPÍTULO 10

– NÃO PRESTES a expulsá-lo de sua própria cama – corrigiu ela, enrubescendo. Como se ela já não fosse irresistível. Ele queria discutir sobre aquilo, mas não tinha um argumento lógico para dormir na banheira. – Oh, entendi – disse Wendy. – Você está com vergonha do seu corpo. Claramente, ela estava tentando esconder o próprio embaraço. – Wendy... – Você provavelmente é muito branco sob toda essa roupa – zombou ela, rindo. – Talvez tenha engordado uns quilinhos no feriado. É por isso que está parado aí como uma estátua, recusando-se a se despir? Jonathon não respondeu. – Ei, eu nem vou olhar – provocou ela, virando o rosto para a parede. Você pode até apagar a luz, se quiser. Com uma careta, ele apagou o abajur antes de começar a desabotoar a camisa. – Suponho que você fez as pazes com meu pai – murmurou Wendy, após um minuto. – Sim – admitiu Jonathon, removendo a camisa e jogando-a na direção da cadeira mais próxima. Tirou sapatos e meias. – Ele não é um mau sujeito. – Não, ele não é. Todo mundo muda, mais cedo ou mais tarde. Ele hesitou antes de desabotoar o jeans. Não dormia com nada além de uma cueca desde a faculdade. Nem sequer possuía uma calça de pijama. No dia seguinte, compraria um pijama. Não, vinte. Talvez trinta. Um momento depois, ele se deitou tão na beirada da cama que seu ombro esquerdo ficou para fora do colchão. Mas ainda podia sentir o cheiro de Wendy no seu travesseiro. Um aroma feminino, com um toque de hortelã. Jonathon permaneceu rígido, os olhos fechados, ciente de que ela ainda estava acordada. Procurou alguma coisa para dizer. – Eu nunca soube que você gostava das Tartarugas Ninjas. Ele a ouviu se mexer e apoiar-se sobre o cotovelo. – Todo mundo não gosta?


Ele virou a cabeça a fim de olhar para ela, mas encontrou-se cara a cara com Peyton. O pequeno rosto estava a centímetros do seu, os lábios se movendo como se ela sonhasse que estava mamando. Jonathon lembrou-se de sua sobrinha fazendo isso, todos aqueles anos atrás, quando ele ajudava a alimentar os filhos de sua irmã. Lacey estava na faculdade agora. Ele experimentou uma forte onda de nostalgia. Do tipo que normalmente mantinha enterrada. Para reprimi-la, ergueu-se sobre o cotovelo e olhou para Wendy. Ela levara o abajur do quarto de Peyton para lá, e uma iluminação fraca rosada deixava a pele de Wendy quase iridescente. Quando ele lhe encontrou os olhos, ela os desviou, como se estivesse consciente do desejo pulsando nas veias dele. – Não, nem todo mundo gosta das Tartarugas Ninjas. A maioria das pessoas nem mesmo sabe que eles faziam parte de uma história em quadrinhos subversiva e espirituosa, antes de se tornar um filme infantil de má qualidade. – Esta sou eu, suponho – falou ela num sussurro, para não acordar Peyton. – Fã de coisas subversivas e espirituosas. – Sim, entendo. O que não entendo é como eu não sabia disso até agora. – Oh. – Ela deu de ombros. – Durante cinco anos, você se vestiu como uma típica assistente executiva. – Sussurrar no escuro tornava a conversa mais íntima do que o tópico era. – Roupas comuns em cores neutras. Cabelos comportados. Agora, eu descubro que você estava escondendo uma paixão por unhas roxas e punk rock dos anos 1980. Sem mencionar as Tartarugas Ninjas. Ela franziu a testa. – Punk rock? – A camiseta da Banda The Replacements que você usou outro dia. – Você os reconheceu? – Ela o estudou. – Entretanto, você não parece fã da música alternativa dos anos 1980. – Eu sou fã do Google. E você não poderia ter idade suficiente para ir a um show deles quando aquela camiseta foi vendida. – Eu sou fã do eBay. E de expectativas desafiadoras. – O que me leva de volta à minha questão original. Por que eu não sei isso sobre você? Ela pareceu considerar a pergunta por um longo momento. Então, recostou-se e olhou para o teto. Finalmente falou: – Trabalhar na FMJ... eu acho que foi minha maior rebeldia. Quando você é de uma família que trabalha com petróleo, o que é pior do que trabalhar para uma empresa que transforma o dinheiro deles em energia verde? – Nós fazemos muitas outras coisas também – apontou ele. – Bem, claro. – Ela se virou para ficar de frente para Jonathon. – Mas, mesmo assim, é tudo sobre inovação e mudança. Em minha família, tudo é sobre tradição. Talvez por isso, quando eu estava trabalhando na FMJ, nunca senti necessidade de me rebelar. O coração de Jonathon disparou com o lapso verbal de Wendy. Quando eu estava trabalhando na FMJ, ela dissera. No tempo passado. Mas ela não pareceu notar, então ele não fez comentários. – Trabalhando na FMJ – continuou ela, a voz quase sonhadora –, eu sentia que tinha direção. Propósito. Não precisava me definir tingindo meus cabelos de azul, pondo piercing no umbigo ou fazendo uma tatuagem.


A imagem do umbigo de Wendy adornado com um pequeno diamante levou a mente dele para um território perigoso. – Uma tatuagem? Ela riu. – Uma de minhas rebeldias mais doloridas. – Ela levantou a bainha do top branco para revelar a delicada flor que desabrochava ali. Jonathon cerrou os punhos para impedir-se de tocar a tatuagem. – Não parece ter sido feita num estabelecimento muito sério. Por mais adorável que fosse o desenho, as linhas não eram nítidas. As cores não eram brilhantes. Wendy riu. – Foi feita por um namorado. – Ela ergueu as mãos, como se estivesse se defendendo de críticas. – Não se preocupe. Os instrumentos dele foram escrupulosamente esterilizados, e eu fiz todo tipo de exames desde então. – Ela puxou a bainha do top para baixo. – Com 18 anos na época, eu tinha acabado meu primeiro ano em Dartmouth e queria estudar no exterior. Meus pais recusaram e me obrigaram a ir para casa e fazer estágio em Morgan Oil. Então eu namorei um ex-membro de uma gangue, que cumprira pena no município. Jonathon teve de engolir o nó de medo que se formou em sua garganta. Ela obviamente sobrevivera. Estava lá agora, saudável e segura, mas o pensamento de Wendy namorando um sujeito assim fazia seu sangue ferver. – E ainda se pergunta por que seus pais se preocupam com você. Ela deu uma risada nervosa. – Na verdade, Joe era um cara muito legal. Além disso, depois de passar o fim de semana com minha família... – Deixe-me adivinhar. Agora ele trabalha em Morgan Oil? – Não. Muito melhor. Ele escreveu um livro sobre como deixar a vida de gangue para trás. Leciona para jovens delinquentes através de Houston e viaja pelos Estados Unidos, trabalhando com departamentos policiais. – Você parece quase orgulhosa – comentou ele. – Eu tenho orgulho de Joe. Ele mudou de vida. – Então ela riu. – Talvez minha família devesse começar um programa de autoajuda. – O que está tentando me dizer? Esse é o segundo namorado cuja vida foi mudada por conhecer seus pais. – Eu só estou avisando você. – O tom de Wendy era subitamente sério. – É isso que eles fazem. Encontram sua fraqueza... ou sua força... e a usam para afastá-lo de mim. – Não – discordou Jonathon. – Não foi isso que seus pais fizeram no passado. Não é o que eles farão comigo. – Não tenha tanta certeza disso. – Ela o fitou, a expressão resignada. – Você pode honestamente me dizer que não considerou o quanto meu tio poderia ser útil para garantir aquele contrato com o governo? – Aquele contrato não tem nada a ver com isso. – Ainda não. Mas eles já estão fazendo isso. – Eu não... – Você ficou bebendo uísque com meu pai e meu tio até tarde, não ficou?


– Como... – Sinto o cheiro no seu hálito. E você não bebe uísque. – Como sabe que eu não bebo uísque? – Você nunca toma bebida forte. Mantém marcas caras no escritório... e aqui, presumo... para aqueles que bebem. Você lê a revista Wine Spectator e sempre pode pedir um vinho fabuloso. Toma tinto ou branco, dependendo da escolha de sua companhia, mas não gosta realmente de nenhum. Prefere cerveja bem gelada. Mesmo então, nunca toma mais que duas por noite. Jonathon recostou-se, enervado que ela sabia tanto sobre seu gosto. – O que mais você sabe sobre mim? – Sei que alguém que tem regras tão rígidas sobre álcool provavelmente tem um dos pais que bebe. Suponho que seu pai... – Era minha mãe. – ...mas esse seria apenas um palpite. – Você tem outras teorias? Entre eles, Peyton se mexeu. Ele pôs a mão sobre a barriguinha de Peyton para acalmá-la. Wendy estendeu o braço ao mesmo tempo, e seus dedos se roçaram. Ela hesitou, então uniu os dedos de ambos. – Eu não disse isso para provar um ponto. Há alguma coisa sobre minha família que faz as pessoas quererem impressioná-los. Fez você querer impressioná-los, ou não teria quebrado sua regra de não tomar bebidas fortes. – Minha mãe bebia – murmurou ele. – Alcóolatra funcional é o termo que as pessoas usam agora. Há outras velhas feridas que você queira cutucar? No segundo que Jonathon falou aquilo, ele fechou os olhos. Cristo, ele soava um idiota. Abriu os olhos, esperando ver uma expressão magoada no rosto de Wendy. Em vez disso, ela lhe apertou a mão e lhe deu um sorriso triste. – Sinto muito – admitiu ele. – Não se desculpe. Eu me empolgo um pouco demais com questões que envolvem o lado psicológico. – Todavia, uma vez que você mencionou isso... – Certo, ataque-me. Que perguntas invasivas você vai fazer a seguir? Quer saber qual é o meu maior medo? Palhaços. Quanto eu valho? Aproximadamente... – Na verdade, eu queria saber sobre Kristi. Ele ficou silencioso. – Ela era sua... – Eu sei de quem você está falando. – Jonathon não falou nada por um longo tempo. – Ela é apenas alguém que eu conheci no ensino médio. Quem lhe contou sobre ela? Jonathon queria saber quem, a fim de matar tal pessoa. – Claire. Droga. Ele não podia matar uma mulher. Especialmente quando ela acabara de se casar com seu melhor amigo. – Não fique bravo com ela – continuou Wendy. – Eu praticamente implorei pela informação. – Por que você imploraria por uma informação sobre minha namorada do ensino médio?


– Não sei. Talvez por você ser tão contra o amor... Quero dizer, ninguém se sente dessa forma, a menos que tenha sido machucado. – O que Claire lhe falou sobre Kristi? – Apenas que você era louco pela garota. E que ela foi embora. Aquela era a versão resumida. Mas, em sua mente, Jonathon podia ver a versão real. Aquela na qual ele fizera papel de tolo com Kristi. Quando ele lhe entregara seu coração inteiro... e não fizera nada além de espantá-la. – E? – perguntou ele. – Eu achei... que devia ter sido Kristi quem partiu seu coração. Estou errada? O que ele deveria responder? Kristi partira seu coração. Mas Jonathon tinha somente 18 anos. – Isso foi uma vida inteira atrás. – O que aconteceu com ela? O que realmente aconteceu? Jonathon tentou soar casual: – Você é a psicóloga aqui. O que acha que aconteceu? Ela inclinou a cabeça de lado, considerando. – Eu acho que você, Jonathon Bagdon, é um homem muito intenso. Ele a olhou. Na luz fraca do quarto, a pele dela estava luminosa. Os olhos estavam tão escuros que pareciam quase roxos. Wendy era tão linda que fazia seu coração doer. Assim como outras partes de seu corpo. – Você não tem ideia. – O jeito como eu vejo isso... Bem, sou adulta. Alguém que está acostumada a lidar com personalidades fortes. E, às vezes, até mesmo eu me sinto um pouco intimidada por você. Então Kristi provavelmente não teve uma chance. Suponho que o fato de você ter se apaixonado por ela a assustou a ponto de fazê-la fugir. – Sim. Foi basicamente isso. – Ele fechou os olhos. – Esta coisa entre nós – começou, então se corrigiu. – Esta coisa física entre nós é muito intensa. – Sim, é – concordou ela, suavemente. Jonathon abriu os olhos para vê-la sentada, encarando-o. – Eu não tenho medo de você, Jonathon. – Talvez você devesse ter. – Talvez. – Deveria definitivamente ter medo. Se soubesse metade das coisas que quero fazer com você... Ela arqueou as sobrancelhas, a expressão curiosa e desafiadora. – Você acha que é o único com desejo reprimido e uma imaginação fértil? Ela estava, propositadamente, tentando destruir qualquer chance que ele tivesse de dormir? – Eu acho que talvez você subestime como está sexy com esse top. – Era difícil dizer na luz rosada, mas ele podia jurar que ela enrubescera. – Também acho que você subestima minha dificuldade em não a tocar. – Você acha que é o único que tem tal dificuldade? – Acho que sou o único idiota o bastante para esperar até que houvesse um bebê inocente aqui na cama entre nós, apenas para garantir que eu mantivesse as mãos longe de você. Ela mordiscou o lábio, parecendo secretamente satisfeita consigo mesma. Ele fechou os olhos para bloquear a imagem daquela boca sexy.


Jonathon sentiu a cama se mover quando ela se deitou. Então, tão suavemente que ele pensou que pudesse ter imaginado aquilo, Wendy falou: – Não tenha tanta certeza disso.


CAPÍTULO 11

ELA HAVIA adormecido com o corpo pulsando com tensão sexual insatisfeita e acordara sozinha. O sentimento de antecipação nervosa acompanhou-a enquanto ela vasculhava as malas que deixara no closet de Jonathon no dia anterior. Rapidamente, vestiu uma camisa enorme, uma legging preta e desceu para procurar comida e sua família. Entrou na cozinha para ver sua mãe pondo a última pilha de panquecas num prato. Peyton estava balbuciando alegremente no cadeirão, sendo paparicada por Mema. O ambiente na cozinha era aconchegante. O cheiro de panquecas e café despertavam memórias de sua infância. Wendy sentiu uma ponta de tristeza. Escolhera deixar o Texas e distanciar-se de sua família. Isso não significava que não sentia falta deles. Mas, apesar de todo o aconchego na cozinha, uma coisa estava faltando. Jonathon. Ou, para ser mais precisa, três coisas: Jonathon, seu pai e Big Hank. Depois da primeira garfada da panqueca, Wendy olhou para sua avó e perguntou: – Para onde você os enviou? Mema enrijeceu. – Por que você acha que eu os enviei para algum lugar? Wendy comeu outro pedaço de panqueca. – Bem, eles não estão aqui, estão? Isso significa que você os mandou para algum lugar. Sua mãe e sua avó trocaram um olhar que deixou Wendy nervosa. Um arrepio de medo percorreu sua coluna. Quando leões iam caçar, eles separavam os membros mais fracos do bando dos outros, para facilitar apanhá-los. Jonathon tinha sido separado do bando. – Para onde eles foram? – insistiu ela, fingindo uma calma que não sentia. – Nada nefasto está acontecendo. Jonathon se ofereceu para mostrar aos homens os escritórios da FMJ. Não é como se eles o tivessem levado para surrá-lo ou algo assim. Não. Talvez não fosse assim. Mas ela temia quão amigos eles estariam quando voltassem. Ela e Jonathon só estavam casados há dois dias, e sua família já estava se metendo entre eles.


SAIR DA casa quando sua avó e sua mãe estavam pairando por ali não era uma tarefa fácil. No final, Wendy mentiu, embora não estivesse orgulhosa disso. Eu só vou ao mercado comprar algumas coisas, dissera ela. Peyton está tão agitada que quero experimentar uma nova fórmula para a mamadeira. Wendy foi ao mercado, comprou cinco diferentes variedades de fórmula e fraldas suficientes para manter Peyton seca até a faculdade. Então, de volta no carro, ela dirigiu para os escritórios da FMJ. Parou num farol fechado, tirando um minuto para questionar seus motivos. Por que estava tão preocupada? Qual era o pior que poderia acontecer? Algumas horas com sua família não convenceriam Jonathon a mudar sua vida inteira, escrever uma história detalhada e viajar pelo país num circuito de palestras. Depois de uma única noite tomando uísque com seu tio, ele não ia desistir da FMJ e aceitar uma posição em Morgan Oil. Ou, pior, candidatar-se a um cargo político. Mas lógica alguma fez o ritmo frenético de seu coração diminuir. Nem secar suas mãos úmidas. Wendy queria tanto acreditar que Jonathon era diferente de todos os homens que ela namorara. Mas e se ele não fosse? Ele devia saber quão influente seu tio era no governo. Uma palavra de Big Hank e o contrato no qual eles estavam trabalhando poderia ser fechado. Tudo que Jonathon precisava era vender a ideia ao seu tio. E, no que dizia respeito à tecnologia da FMJ, ninguém era melhor vendedor do que Jonathon. Se ele tivesse a chance com seu tio, seria um tolo de não a agarrar. Wendy apenas esperava que ele não tivesse uma chance. No momento que ela passou seu cartão de segurança no portão de entrada, estava um poço de ansiedade. Parte sua queria apenas dirigir. Não de volta para a casa dele, nem mesmo para sua, mas somente dirigir por quilômetros e quilômetros, até que estivesse bem longe de Palo Alto. Mas fugir não faria seus problemas desaparecerem. Ela entrou no escritório principal, pôs a bolsa sobre a mesa e sentou-se em sua cadeira. A simples familiaridade das ações acalmou seus nervos. Quão louco era que o leve cheiro de ozônio saindo dos equipamentos dos computadores na outra sala pudesse ser tão calmante? Talvez sua família estivesse certa, e ela fosse louca por amar tanto aquele emprego, mas Wendy não podia evitar. Tudo parecia certo no mundo quando ela estava atrás daquela mesa. Sabia que isso era uma ilusão. Se ela fosse para o laboratório R&D, encontraria Jonathon lá com seu pai e tio. E ainda não estava preparada para ver isso. Aparentemente, tinha ido à cidade para nada. Suspirando, cruzou os braços sobre o topo da mesa e abaixou a cabeça neles. Então ouviu um barulho vindo da sala que Ford, Matt e Jonathon compartilhavam. Ficou imóvel, ouvindo. Lentamente, atravessou para a porta, abrindo-a para o lado de dentro. Jonathon estava de pé atrás de sua mesa, vestido em jeans e camiseta. Embora o notebook estivesse sobre a mesa, não estava aberto. Havia um envelope na mão dele. – Oh – murmurou ela, e Jonathon olhou para cima. – É você. Ele sorriu. – Quem você esperava? – Eu... pensei que você estivesse no laboratório de R&D. Com meu pai e Big Hank. – Não. – Ele franziu o cenho, obviamente intrigado sobre por que ela pensara aquilo. – Nós encontramos Matt. Ele ofereceu mostrar a empresa para seu pai e seu tio.


– Oh. – Alívio inundou-a. Jonathon não caíra na armadilha deles. – O que você faz aqui? – perguntou ele. – Bem, eu... – Não querendo admitir que suspeitara que ele tivesse sido influenciado por seus parentes, ela fez um gesto vago em direção à sua própria sala. – O mesmo que você. Eu queria adiantar algum trabalho. Subitamente, agora que seus medos sobre Jonathon haviam se dissipado, outra emoção ocupou o espaço deixado por eles: desejo. Ou, talvez, o desejo houvesse estado lá o tempo inteiro, esperando uma desculpa para subir à superfície, como sempre acontecia. – Certo. – Ele assentiu. – Uma vez que nós não estaremos aqui amanhã, talvez possamos... – Por que nós não estaremos aqui amanhã? – perguntou ela, sem ouvir a resposta, porque sua mente estava de volta ao quarto, na noite anterior, ouvindo-o confessar como ele a queria. – Sua família. Eles ainda estarão aqui. – E daí? O que isso tem a ver com trabalho? – Enquanto eles estiverem aqui, nossa prioridade é convencê-los de que somos um casal feliz. Não podemos fazer isso, se não estivermos juntos. – Mas o trabalho – protestou ela. – Pode esperar por alguns dias. Trabalho? Esperar? Quem era aquele homem? Quem quer que ele fosse, ela não gostava daquilo. Nem um pouco. Já teria problema suficiente dormindo na mesma cama com ele pela próxima semana. Estivera contando com o tempo deles no trabalho para retornar à normalidade. Agora, mais do que nunca, precisava que Jonathon fosse o chefe duro e analítico com quem ela estava acostumada. Sua mente ainda estava girando quando ele falou: – Uma vez que estamos aqui, por que você não pega seu computador, e nós tentamos trabalhar um pouco? – Jonathon, eu... não sei se posso fazer isso. – Fazer o quê? – Separar meu eu profissional da mulher que finge ser sua esposa. Não entendo como é tão fácil para você, mas... – Você acha que é fácil para mim? – Sim. Você mal parece ciente de que, a esta hora ontem, estava me beijando. Ou que nós dormimos na mesma cama. – Wendy parou, esperando que ele dissesse algo. Quando ele não fez qualquer comentário, ela se sentiu ridícula por ter falado aquelas coisas em voz alta. – Mas tudo bem. Quero dizer, esse é um problema meu. Todavia, acho que preciso sair daqui por algumas horas. Pensar com clareza. Ela se virou e quase chegara à porta quando ele lhe segurou o braço e girou-a. Wendy mal se equilibrou enquanto ele a puxava contra si e beijava-a.


CAPÍTULO 12

A BOCA de Jonathon era quente e firme sobre a sua. Ela logo se perdeu na sensação de ser beijada por ele. Pela sensação da mão grande gentilmente segurando seu queixo. Pelo braço forte em suas costas, pressionando seu corpo ao dele. A sensação dos lábios sensuais se movendo sobre os seus numa centena de beijinhos delicados. – Isto não é fácil. – Ele se afastou apenas o bastante para dizer. Então beijou-a novamente. – Nunca foi fácil. – Outro beijo. – Nem uma vez em cinco anos. – E mais um beijo. – Nunca foi fácil ficar longe de você. E, então, a língua de Jonathon estava dentro de sua boca, seduzindo-a, criando calor em seu corpo. Fazendo-a praticamente tremer de desejo. Wendy estava em chamas. Seus mamilos formigavam, exigindo ser tocados, enquanto ela se arqueava contra ele, pressionando os seios ao peito largo, desesperada por algum tipo de contato. E aquilo ainda não era o bastante. Ela entrelaçou as mãos nos cabelos dele e perguntou: – Então por que você ficou longe? Ele a fitou, os olhos embaçados com luxúria. – Eu não sei. E Wendy também não sabia. Honestamente, não podia pensar numa única razão pela qual eles não deveriam estar juntos. Aquilo não tinha nada a ver com Peyton ou com o casamento. Nada a ver com sua família ou com as tendências rebeldes que pensara estarem mortas há muito tempo. Aquilo era sobre eles. Sempre fora sobre eles. E agora que ela o beijava... que as mãos de Jonathon estavam no seu corpo, fazendo-a tremer... não podia pensar numa única razão pela qual eles deveriam estar separados, quando era tão óbvio que tinham nascido um para o outro. Os lábios dele percorreram uma trilha sensual de sua boca até seu pescoço. Ela quase rezou para que ele se movesse mais para baixo e tomasse um de seus seios na boca. – Oh, Jonathon... Por favor... Ela não sabia exatamente o que estava pedindo. Tudo que sabia era que queria mais. Queria-o inteirinho. Então, abruptamente, ele a soltou e se afastou. O corpo de Wendy curvou-se com desejo crescente, as pernas mal capazes de mantê-la de pé.


Felizmente, ela não precisou suportar seu próprio peso por muito tempo. Jonathon agarrou-lhe o traseiro, ergueu-a contra si, e ela automaticamente pôs as pernas em volta da cintura estreita. A posição era perfeita, como se seu corpo tivesse sido designado para envolver o dele. Sua calça legging era fina, de modo que ela podia sentir a ereção viril pressionada contra seu centro. Wendy balançou os quadris, aumentando a pressão, enquanto ondas de prazer percorriam seu corpo. Ele gemeu, ainda a beijando. Então, afastou a boca. – Você está me matando. Ela sorriu com orgulho feminino. – Estou? – Wendy movimentou os quadris novamente, adorando atormentá-lo. Mas a sensação era muito divina, e ela também tremeu. – Eu não deveria fazer isto – murmurou ele. – Deveria ser mais forte, mas não consigo... – Jonathon mordeu-lhe o pescoço de um jeito primitivo, e puro prazer irradiou-se pelo corpo dela. – Eu não consigo mais ficar longe. Um segundo depois, Wendy o sentiu colidindo com a extremidade da mesa. Ele a abaixou lentamente ao longo da extensão de seu corpo. Então alcançou por baixo da bainha de sua camisa, enganchou os polegares no elástico de sua calça e deslizou-a por suas pernas num único movimento suave, abaixando-lhe a calcinha no processo. Wendy livrou-se dos sapatos e saiu de dentro da legging, nua da cintura para baixo. A camisa batia no meio das coxas, mas o tecido era fino, fazendo-a se sentir escandalosamente exposta. Jonathon deu um passo atrás para olhá-la. O ardor nos olhos dele fez sua pele se arrepiar. Subitamente, ela estava muito ciente de seus mamilos rijos pressionados contra o algodão do sutiã. E da umidade entre suas pernas. Uma sensação de vulnerabilidade começou a envolvê-la. Então ela ergueu os olhos e viu a expressão no rosto de Jonathon. Puro fascínio. Como um garotinho parado na frente de uma árvore de Natal, olhando para os presentes, imaginando qual era o seu. Wendy levou as mãos para os botões de sua própria camisa. Então abriu-os, um por um. Os olhos verdes acompanhavam o progresso de suas mãos. Ele não se mexeu. Exceto pelas mãos, que lentamente se fecharam em punhos. Como se ele quisesse usá-las para rasgar a camisa do corpo dela. Como se ela fosse sua maior fantasia se realizando. E, talvez, ela fosse. Queria acreditar nisso. Precisava acreditar nisso. Porque Jonathon certamente era a sua. Não uma fantasia consciente. Mas o desejo de estar com Jonathon, de ver aquela exata expressão no rosto dele, sempre estivera lá, sob a superfície de seus pensamentos. Wendy reprimira tal desejo inúmeras vezes. Mas não o faria agora. Queria isso. Por anos, quisera isso. E, agora, ele estava prestes a ser seu. Ela acabou de desabotoar a camisa, deixando-a aberta. Com um movimento do braço, Jonathon jogou tudo para fora de sua mesa, exceto pelo mata-borrão. Então, colocou-a cuidadosamente sobre a superfície. – Você não imagina quantas vezes eu pensei em fazer isto. – Ele lhe beijou o pescoço, enquanto abaixava um lado da camisa, desnudando-lhe o ombro. – Todos os dias, eu imaginava você sentada aqui. – Dedos longos abriram o fecho central de seu sutiã, para revelar seus seios desnudos. – Na minha mesa. – Seu sutiã caiu, e ela arqueou as costas quando Jonathon trilhou a ponta de um dedo de seu colo até seu mamilo. – Completamente nua.


Com um gemido, ele se ajoelhou à sua frente, como se não pudesse mais resistir à tentação que ela apresentava. Apartando-lhe as coxas, puxou seu traseiro para a beira da mesa e posicionou a boca em seu centro feminino. Ele a enlouqueceu com lambidas provocantes. Wendy inclinou-se sobre os cotovelos, seus olhos quase fechados, enquanto onda após onda de prazer a banhava. Justamente quando ela pensou que não pudesse mais aguentar, ele encontrou o ponto mais sensível e massageou-o incansavelmente, até que ela mal conseguisse respirar. Então um dedo estava se inserindo em seu interior, depois dois. Wendy jogou a cabeça para trás, arqueando-se da mesa. Quando o clímax a atingiu, ela gritou o nome dele. PARECIA MAIS de cinco anos. Talvez, ele tivesse esperado sua vida inteira para vê-la assim. Aberta à sua frente, sobre a mesma mesa que tão frequentemente estivera entre eles. Wendy era a criatura mais deleitável que ele já provara. Quente e úmida com desejo. Tremendo dos efeitos pós-clímax. Seu nome ainda um sussurro nos lábios dela. Agora, ali estava ela. Como ele sempre quisera. E Jonathon não podia achar um único preservativo. Ele os tinha ali. Em algum lugar de sua mesa. Porque soubera, por anos, o quanto a queria. E que, algum dia, agiria sobre tal desejo. E agora não podia achar um maldito preservativo. Jonathon puxou uma gaveta completamente, derrubando os conteúdos no chão. Então fez o mesmo com a próxima gaveta. E com a próxima. Finalmente, achou o que queria. Quando Wendy viu o que ele estivera procurando, ficou tão ansiosa quanto ele estava. Jonathon abriu o envelope com dedos trêmulos, mesmo enquanto ela desabotoava seu jeans e o descia por seus quadris. Um segundo depois, ele estava dentro dela, investindo vigorosamente. A sensação do corpo de Wendy comprimindo seu sexo era maravilhosa. O gosto dela, ainda nos seus lábios, era divino. Mas foram os gemidos de prazer femininamente roucos que o levaram a liberar seu próprio clímax. Jonathon soube, naquele momento, que a queria... assim... para sempre. E isso o apavorava. ASSIM QUE Wendy foi capaz de ser mover novamente, sentou-se, pressionando o rosto contra o peito dele e passando os braços ao seu redor. Inalou o aroma almiscarado. Saboreou a sensação dos músculos poderosos sob seus dedos. Queria ficar assim para sempre. Agarrada a ele. Seu corpo ainda pulsava de prazer, a sensação de estar inteira e o contentamento isolando-a do resto do mundo. Mas o mundo estava lá fora, e ela não ficaria isolada para sempre. Então, quando ele saiu de seu abraço, Wendy permitiu, quando tudo que queria era segurá-lo junto a si. Lentamente, ela vestiu seu sutiã e camisa. Seus dedos ainda estavam trabalhando nos botões, quando ele falou: – Isto não pode acontecer de novo. Wendy levantou a cabeça. Jonathon se virara de costas, mas ela podia ver a tensão no corpo forte, enquanto ele subia o zíper do jeans. – Por que não? – Não é uma boa ideia. – Não é boa para quem? – questionou ela. – Para ninguém. – Ele se virou para encará-la. – Será ruim para você.


– Humm, então você não estava prestando atenção – murmurou ela, descendo da mesa. – Porque foi extremamente bom para mim. Wendy estava nua da cintura para baixo. Mesmo com a camisa batendo no meio das coxas, ela se sentia exposta. Pegou sua calça legging, desconfortavelmente ciente de como o olhar dele seguia cada movimento seu. – Exatamente. E bom sexo é viciante. Nós teremos um problema com isso. O tom gelado na voz de Jonathon irritou-a. Como ele podia soar tão calmo? Tão racional? – Que tipo de problema eu teria com esse... sexo viciante? – E, droga, sua calça estava do avesso. Ela tentou desvirá-la, mas sua raiva deixava-a desajeitada. – Eu apenas não acho que seja uma boa ideia. Isso não é bom para Peyton. OBSERVANDO A frustração de Wendy enquanto ela lutava com a calça de lycra, Jonathon imaginou se deveria ter tomado uma rota diferente. – Nós somos os pais de Peyton agora – argumentou ela, claramente exasperada. – Não posso ver como dormirmos juntos iria prejudicá-la. – Não pode? – Por que Wendy tinha de ser tão teimosa? Por que não facilitava as coisas, e concordava com ele, por uma vez? – Não, eu não posso. Na verdade, uma vez que concordamos que esse casamento pode durar até dois anos, acho que a ideia é excelente. – Então você não está raciocinando com clareza. É claro, nada com Wendy era tão fácil. Uma das características que a tornava uma assistente tão boa era que ela nunca hesitava em dar sua opinião. Infelizmente, no momento, a opinião de Wendy não ajudava. Porque o que Jonathon queria... não, o que ele precisava... era que ela parasse de falar sobre sexo. – Eu não vejo desvantagens nisso – insistiu ela. – Dois anos é um longo tempo. E eu não vou lhe dizer que você não pode sair com outras mulheres enquanto estivermos casados... – Wendy... – Não. Deixe-me terminar. – Ela engoliu em seco visivelmente, não encontrando seu olhar. – Eu não irei proibi-lo de... fazer o que você precisa fazer. Mas, Deus sabe, eu não vou me registrar num site de relacionamentos tão cedo. Então, talvez, não seja uma má ideia... – O quê? – questionou ele. – Fazermos sexo toda vez que algum de nós sentir desejo? Ela fez uma careta. – O que há de errado com você? Está sendo propositadamente idiota por alguma razão? – O que há de errado comigo? O que há de errado com você? – Jonathon apontou para a mesa, como se mostrando a destruição que eles haviam feito. – Cinco minutos atrás, nós estávamos fazendo sexo nesta mesa, e agora você fala sobre eu fazer sexo com outras mulheres? Quão normal é isso? Wendy pareceu abalada por suas palavras. Então piscou rapidamente e desviou o olhar. – Eu estou tentando ser lógica. Dois anos é muito tempo e... – E você não acha que eu posso manter meu zíper fechado? Ela o encarou então. – Vamos apenas dizer que, tendo visto seus hábitos de encontros românticos nos últimos cinco anos, eu estou cética.


– Eu posso manter meu zíper fechado, acredite. – Todas as evidências dizem o contrário. Jonathon deu-lhe um olhar gelado. – Você quer realmente me agredir? – O que você quer que eu diga? Que estou impressionada pela sua fortaleza de monge? O que ele queria que ela dissesse? Queria que Wendy dissesse que não desejava qualquer outro homem. Que queria somente ele. E que ela o queria por alguma outra razão, além do fato de ele lhe ser conveniente nos próximos dois anos. – Certo, quer a verdade? Eu não acho que deveríamos dormir juntos novamente, mesmo se isso significar dois anos de celibato. Para nós dois. Não quero machucá-la, e você já está envolvida emocionalmente. – Eu estou envolvida emocionalmente? – A voz de Wendy era repleta de sarcasmo, mas ele podia ver a dor nos olhos azuis, e sabia que falara a verdade. – Eu estou? Engraçado, porque não fui eu quem não conseguiu parar de falar o quanto queria isso pelos últimos cinco anos. E quão desesperadamente precisava disso. – Certo – concordou Jonathon, em tom amargo. – Eu falei sobre como queria seu corpo. O quanto eu a queria fisicamente. Não o quanto eu a amava. – Enquanto ele falava, uma lágrima que estivera brilhando nos cílios dela finalmente escorreu pela face aveludada. Ele gentilmente secou-a com o polegar, então levantou o dedo como evidência. – E não sou eu quem está chorando agora. – Seu cretino! Não acredito que disse isso. – Ela deu um passo atrás. – E você está errado sobre uma coisa. Eu não implorarei para dormir com você de novo. Wendy saiu andando, mas, ao chegar à porta, virou-se. – Eu preciso saber. Você está dentro ou fora? – O quê? – Você ainda quer fazer isso ou desistiu de tudo? Está dentro ou fora? – Estou dentro – replicou ele. – Tem certeza? Porque dois anos é um longo tempo. E eu prefiro saber se você estiver arrependido. – Eu disse que estou dentro. – Ótimo. Minha família quer conhecer a sua. Eles estão planejando uma recepção para nós. Iremos a Palo Verde na sexta-feira. Wendy não esperou resposta. Provavelmente não ocorreu a ela que dois anos sem sexo não era tão ruim quanto à ideia de ir visitar sua família. Um segundo depois, ele ouviu a porta do escritório bater. Sozinho, Jonathon sentou-se em sua cadeira. Todas as coisas da mesa estavam espalhadas no chão, assim como os conteúdos das três gavetas. Anos mantendo sua vida meticulosamente sob controle, anos reprimindo suas emoções, e ele estragara tudo com um único ato impulsivo. Apoiou os cotovelos sobre a mesa e abaixou a cabeça nas mãos, ignorando o fato de que suas próprias faces estavam suspeitosamente úmidas.


CAPÍTULO 13

ELA QUERIA socá-lo no seu caminho para fora do escritório. Considerou um sinal de grande desenvolvimento pessoal o fato de ter se controlado. Então permaneceu sentada no carro por longos minutos, tentando entender seus sentimentos. Retraçar seus passos. Entender onde tinha errado. No final, a única conclusão a que chegou deixou-a muito insatisfeita. Jonathon estava certo. Ela estava emocionalmente envolvida. Muito envolvida. Pior ainda, não podia seguir seu primeiro instinto, que era correr e se esconder em algum lugar, até que pudesse resolver suas emoções. Não com sua família lá, observando-a o tempo inteiro. Precisava lembrar o que era importante: manter Peyton com ela. Então pensou no que vira na manhã anterior. Jonathon sentado na cadeira de balanço, com Peyton aninhada nos braços. Ele podia não saber ainda, mas ela não era a única emocionalmente envolvida. Talvez ele não se importasse com ela... além de fisicamente... mas se importava com Peyton. Querendo ou não admitir, Jonathon era um bom pai. Era melhor pai do que marido. Bem, ela podia viver com isso. Por enquanto, tinha de viver com isso. OS DIAS anteriores à viagem a Palo Verde passaram rapidamente. Jonathon insistiu que ela tirasse um tempo de folga para ficar com sua família. O que parecia contraditório, uma vez que ele se casara para mantê-la no trabalho. Mas ele continuava insistindo que ficar em casa e manter um elo com Peyton ajudaria a convencer sua família de que ela seria uma boa mãe. Assegurava-a de que eles ainda tinham muito tempo para trabalhar na proposta do contrato. Ele, todavia, ia trabalhar regularmente. Nunca mais mencionara tirar dias de folga para representar o bom marido. Aparentemente... depois do sexo no escritório... ele vinha se esforçando para se distanciar dela. Verdade fosse dita, ela também queria evitar o escritório. Não estava pronta para ir ao lugar onde fizera amor com ele com tanto abandono e vê-lo trabalhando atrás da mesa, como se nada tivesse acontecido. Então, Wendy passava os dias brincando de guia turística para sua família. Mema estava determinada a detestar tudo sobre a Califórnia, e Big Hank voltara para o Texas, mas seus pais pareciam apreciar o


tempo que ela passava com eles. Até mais chocante, Wendy também estava apreciando. Presumia que isso mudaria no final da semana, quando Big Hank, Hank Jr. e Helen chegassem. Helen insistira em planejar a recepção de casamento que Mema sugerira que os Morgan dessem. Antes de deixar o Texas, Helen já tinha arranjado o local, convidado pessoas e reservado acomodações para os Morgan. Sempre que Wendy oferecia ajuda, ela recusava. Helen até mesmo localizara e convidara a família de Jonathon, embora, aparentemente, apenas a irmã mais velha dele, Marie, retornara o telefonema de Helen. Wendy não podia culpar a família de Jonathon. No final da semana, ela não suportava mais falar com Helen. A única coisa pior do que isso era lidar com Jonathon. No fim de cada dia, ele chegava em casa e ela precisava fingir ser uma esposa carinhosa. Com a tensão entre eles forte como estava, Wendy duvidava que enganasse alguém. Jonathon, todavia, fazia um ótimo trabalho. Estava sempre passando um braço ao seu redor e beijando-lhe a testa. As noites eram piores, depois que eles trancavam a porta do quarto. Wendy não sabia se sua família achava estranho que eles trancassem a porta, mas não arriscaria que alguém entrasse sem bater e visse o colchão improvisado aos pés da cama, onde Jonathon estava dormindo. O mais perto que eles chegavam de se comunicar era quando, todas as noites, ela jogava o travesseiro nele. Infelizmente, Jonathon sempre o pegava. E, antes que ela se desse conta, era quinta-feira. A semana voara, e eles viajariam para Palo Verde na manhã seguinte. Wendy ficou deitada no escuro, incapaz de dormir, irritada pelo ritmo da respiração regular de Jonathon. Trinta minutos se passaram. E mais vinte. Então, ela o ouviu suspirar. – Você ainda está acordado? – sussurrou ela no escuro. – É claro. Eu estou no chão, e você não para de se virar de um lado para o outro e fazer barulhos. Wendy sentou-se e acendeu o abajur. – Venha para a cama. Ele se ergueu sobre os cotovelos e olhou-a. – Apague a luz. Tente dormir. – Eu conseguiria dormir melhor, se não soubesse que você está desconfortável no chão. Jonathon deitou-se e olhou para o teto. – Não é tão ruim assim. – São dois cobertores e um travesseiro. Não pode ser bom. Você estará seguro dormindo na cama. Eu não irei atacá-lo ou algo assim. – É melhor limitarmos nosso contato o máximo possível. Eu estou tentando ser nobre aqui. – Sim. – Ela bufou, voltando a se deitar. – Eu acho que essa oportunidade passou no dia em que fizemos sexo em sua mesa. – Você vai acordar Peyton. Embora Big Hank tivesse partido, eles haviam decidido manter o berço de Peyton na suíte. Ela dormia muito melhor quando estava mais perto deles. Irritada porque ela não queria acordar Peyton, e ele ganhara a discussão, Wendy puxou o travesseiro de baixo de sua cabeça e o jogou nele, emitindo um som satisfeito quando ele aterrissou no torso forte. – Eu já tenho um travesseiro. – Eu sei. Só queria jogar alguma coisa em você. – Muito madura.


– Eu sei. – Sorrindo, ela apagou a luz. Jonathon levou o travesseiro de volta para ela, parando do lado de Wendy da cama e estendendo-o para ela. – Eu não preciso do travesseiro. – Fique com ele. Talvez isso deixe o chão um pouco menos desconfortável. – Wendy... – Eu estou tentando ser nobre. – Tudo bem – retrucou ele, e voltou a se deitar. Wendy não pôde evitar uma onda de satisfação diante da irritação da voz dele. Jonathon podia agir como se fosse totalmente indiferente a ela, mas não era. Minutos depois, ela adormeceu sorrindo. E acordou, na manhã seguinte, com o travesseiro embaixo de sua cabeça. AOS 18 anos, Jonathon deixara Palo Verde com $5.168,36 em sua conta bancária... todo o valor destinado a despesas com moradia. Suas outras posses eram uma bolsa de estudos parcial em Stanford, duas malas, um abajur, um notebook usado, uma mochila e uma verdadeira montanha de empréstimos para estudante. Conseguira uma carona da cidade natal deles para a costa na BMW de Matt. Jonathon não voltara lá desde então. Palo Verde era uma cidade pequena, porém histórica, que ficava entre Sacramento e Lake Tahoe. Quando ele partira, no meio dos anos 1990, a cidade estivera começando a sair de sua recessão econômica na qual vivera desde o término da procura ao ouro, mais de cem anos atrás. Agora, Sacramento tinha crescido o bastante para que as pessoas se transportassem de lá para Palo Verde, e vice-versa. Jonathon supunha que Palo Verde não era um lugar ruim para morar. A cidade era charmosa. Não do tipo que um garoto adolescente apreciaria, mas, certamente, muitas pessoas gostavam de construções antigas e da cadeia de montanhas de Sierra Nevada. Apesar disso, durante a viagem de carro, Jonathon sentiu uma imensa vontade de virar o carro e sair dali. Se alguém tivesse lhe perguntado um mês atrás, ele teria jurado que nada, exceto o apocalipse, o seduziria a voltar a Palo Verde. Talvez nem mesmo isso. Se o mundo fosse acabar, por que ele iria para lá? Quando eles entraram em Palo Verde, com Peyton seguramente presa na cadeirinha do carro, e Wendy na frente ao seu lado, Jonathon apertou tanto o volante que suas mãos doeram. A família de Wendy estava numa minivan alugada atrás deles na estrada. Ela estava com seu celular, ditando instruções do mapa do GPS, como se ele não tivesse passado os primeiros 18 anos de sua vida preso naquele buraco esquecido por Deus. – Certo – falou ela baixinho, uma vez que Peyton estava dormindo –, parece que esta estrada vai fundir com a avenida principal da cidade, logo à frente. – Eu sei. Ela o ignorou. – Então, depois de uns dois quilômetros dentro da cidade, o Cutie Pies estará à sua esquerda. – Eu sei. – Parece que pode estacionar na rua, mas, segundo o e-mail de Claire, as vagas acabam rapidamente, então, se não tiver lugar, você precisa ir para a rua de trás e...


– Eu sei. Wendy abaixou o telefone no colo e ergueu as mãos. – Ei, eu só estou fazendo minha parte como copiloto. – Eu cresci aqui. – Jonathon suspirou. – Não preciso de um copiloto. – Coisas podem ter mudado em 15 anos. Ele não precisava que ela lhe dissesse isso. Era um homem completamente diferente do garoto que partira da cidade logo depois do ensino médio. Sempre achara estranho que, após passar a vida querendo escapar de Palo Verde, acabara vivendo numa cidade de nome tão similar. É claro, Palo Alto era uma cidade totalmente distinta, onde o desenvolvimento tecnológico fervilhava. Uma cidade com muitos homens ricos e brilhantes. E Jonathon era um deles. Portanto, não havia razão pela qual apenas respirar o ar de Palo Verde mexesse com seus instintos rebeldes. Mas mexia. Tal ar deixava-o nervoso. Percebendo seu humor, Wendy estendeu a mão e massageou sua perna num gesto de conforto. – É que faz tempo que você não volta aqui. Eu estava tentando ajudar. Ele podia sentir o calor da mão dela através do tecido de seu jeans. Instantaneamente, soube o que queria. A única coisa que dissiparia a raiva e a tensão se construindo em seu interior. Sexo. Sexo bom e sem emoção resolveria seu problema. Poderia pegar a saída para Rock Creek Road, parar no meio das árvores, puxar Wendy para seu colo e tomá-la ali mesmo, no banco da frente. Era um bom plano, se ele ignorasse o bebê dormindo no banco de trás. Seria melhor ainda se ele não soubesse que sexo sem emoção era impossível com Wendy. E, então, havia a minivan cheia de parentes dela, atrás deles. E a festa de casamento que os primos de Wendy haviam preparado para eles. Jonathon sentia um pequeno prazer em saber que, depois que a recepção do casamento acabasse, ele poderia deixar Palo Verde e nunca olhar para trás. Nem mesmo o conhecimento de que Matt, Claire, Ford, Kitty e Ilsa chegariam para a festa ajudava. Ter seus melhores amigos lá até ajudaria, mas só um pouco. Antes da noite da recepção, ainda tinha o almoço no Cutie Pies... essa parte não seria ruim. Mas ele começava a desejar que tivesse se recusado a chegar à cidade um dia antes da recepção. Dois dias inteiros em sua cidade natal era muito tempo. Significava muito tempo temendo encontrar sua família. Oh, sabia que isso era inevitável. Esse era, afinal de contas, o único propósito de fazer a festa de casamento em Palo Verde. Mas Jonathon certamente não apreciava a ideia. A situação toda era ruim. Ele vinha agindo como um idiota desde que eles haviam feito sexo em seu escritório. E sabia por quê. Estava afastando Wendy a cada chance que tinha. Se pudesse fazê-la realmente ir embora! Até agora, ela não estava cedendo. Jonathon sabia que existiam infinitas explicações para a tenacidade com a qual Wendy se agarrava ao relacionamento deles. O fato de que ela estava desesperada o bastante para se casar com ele, em primeiro lugar, era prova disso. Com a família por perto durante a última semana, ela não poderia colocá-lo para fora do quarto. Então, havia a necessidade de desafiar que Wendy sentia. Para uma mulher pertencente a uma família tradicional do mundo do petróleo, um homem que ganhava seu dinheiro da tecnologia verde era muita rebeldia. Durante a semana, Jonathon tentara distanciar-se emocionalmente dela, e só tornara a situação mais desconcertante. Uma vez que distanciá-la não estava funcionando, era hora de assumir seus próprios


erros. – Sinto muito. Eu apenas... – Você sente muito? – Ela riu. – Por quê? Não foi sua família quem inventou essa estúpida recepção de casamento. Sou eu quem deveria estar me desculpando. – Eu tenho agido como um idiota. – Não posso discordar disso. – E piorei nos últimos dois dias. Eu não... – Por que era tão difícil falar aquilo em voz alta? – Eu não estou ansioso para que você os conheça. – Para que eu conheça quem? – Wendy franziu o cenho. – Minha família. – Por quê? Porque minha família é maravilhosa? Com manipulações e calúnias? – Mas eles são... – Jonathon parou, percebendo como aquilo soaria. – Eles são o quê? – Quando ele não respondeu, ela arqueou uma sobrancelha. – Eles são ricos. É isso que você ia dizer, não é? Acha que riqueza desculpa maus comportamentos? – Não foi isso que eu quis dizer. – Então, do que tem medo? Acha que eu irei pensar menos de você, depois que conhecer sua família? Uma vez que eu vir de perto que você cresceu na pobreza? A voz dela era tão indignada que ele não foi capaz de confirmar. Mas era exatamente do que estava com medo. Jonathon parou num farol, e ela se virou no banco para encará-lo. – Saiba que eu não me importo sobre seu passado ou de onde você veio, mas o resto de minha família talvez se importe. E Helen é ardilosa. Se achar que pode passar uma impressão ruim sobre você, descobrindo seus segredos, ela fará isso. Apenas lembre, independentemente do que ela falar: o fato de que você vem de uma família pobre não o torna menos digno aos meus olhos. Torna-o mais digno. Sim, minha família é rica, mas e daí? Eu não tive de trabalhar por aquele dinheiro. Você trabalhou por cada centavo que possui. Em minha opinião, isso vale muito. Ouvir as palavras de Wendy diminuiu um pouco a ansiedade de Jonathon. Ele podia quase acreditar que ela estava certa. E que o lugar do qual viera o tornara um homem melhor. Quase. Mas não completamente.


CAPÍTULO 14

ELA OUVIRA falar muito sobre o Cutie Pies, porém principalmente de Matt. Considerando que a esposa dele era dona do lugar, esperara que os elogios fossem exagerados, mas ficou contente que não. Era um pequeno Café clássico na avenida principal. A comida era fresca, saborosa e única. No entanto, durante o almoço, nada disso compensou a tensão que pairava sobre a mesa. A atmosfera – cortesia de Helen – devia-se, em grande parte, ao fato de que ela convidara as irmãs e irmãos de Jonathon para almoçar, sem mencionar isso para ele ou ela. O que já tinha prometido ser uma refeição estressante tornou-se ainda pior pela interferência de Helen. Eles chegaram ao Café para encontrar Helen e Hank Jr. do lado de fora. Helen, sempre a figura da loura rica sofisticada, parecia totalmente fora de lugar no estabelecimento simples e aconchegante. Ela jogou beijos no ar na direção de todos, então uniu o braço ao de Mema e andou em direção à porta, o sino de vento tocando acima de sua cabeça tirando qualquer esperança de Wendy de que aquilo transcorresse tranquilamente. – Eu tentei ligar do avião para reservar uma mesa – Helen estava dizendo –, mas aparentemente este lugarzinho nem mesmo faz reservas. Wendy estudou o Café com seus estofados vermelhos e bancos de bar. – É um Café – disse ela. – É claro que não aceita reservas. O interior do Cutie Pies era limpo, porém desgastado, com funcionários amigáveis, mas não sofisticado. Wendy adorou-o instantaneamente. Helen ofereceu sorrisos tensos, como se comer num lugar como aquele fosse um fardo horrível. Ela não se incomodou de esconder seu desgosto quando tirou um lenço umedecido de sua bolsa e limpou a superfície da mesa, antes de permitir que alguém se sentasse. Então, antes que qualquer um deles tivesse a chance de olhar o cardápio, ela se posicionou atrás de Hank Jr. e falou, como se fosse a anfitriã de um jantar elaborado: – H.J. e eu queremos agradecer a todos por virem a esta recepção que estamos dando para nossa pequena Gwen. Jonathon inclinou-se para mais perto e sussurrou: – Pequena Gwen deles?


Wendy ouviu o óbvio divertimento na voz dele. Aparentemente, zombar dos esforços de Helen em ser o centro das atenções foi o bastante para dissolver a tensão entre eles. Secretamente satisfeita, ela sussurrou de volta: – Um aviso... se você algum dia me chamar de “minha pequena Gwen”, eu furarei sua perna com um garfo. Peyton estava sentada num cadeirão entre eles, brincando com um molho de chaves de borracha. Jonathon sorriu, e os olhos deles se encontraram acima da cabeça do bebê. Naquele momento, com Helen falando bobagem, cercada por sua família com todas as suas ridículas excentricidades, Wendy sentiu uma conexão profunda com Jonathon. De alguma maneira, estar com ele tornava tudo aquilo mais suportável. Sim, sua família era controladora, obsessiva. Mas, pela primeira vez, ela se sentia forte o bastante para lidar com eles. Porque Jonathon estava ao seu lado. Foi quando Wendy percebeu. Ela o amava. A sensação recém-descoberta de estar em paz com sua família, com o mundo inteiro, devia-se a ele. Tê-lo por perto fazia Wendy sentir-se capaz de qualquer coisa. Ela balançou a cabeça, abalada pelo... insight assustador. À cabeceira da mesa agora, Helen falou alguma coisa que pretendia ser engraçada, porque ela riu. Peyton deu um grito de protesto. Para acalmá-la, Wendy levou a mão às pequenas costas do bebê. De seu lado, Jonathon fez o mesmo, e suas mãos se tocaram. Por um instante, ambos ficaram imóveis. Então Jonathon roçou o polegar contra o dorso de sua mão. Um gesto tão simples, mas a primeira vez que ele a tocava voluntariamente desde que haviam feito sexo no escritório. Uma sensação de calma inundou-a. Eles ficariam bem. Claro, teriam problemas à frente, mas os resolveriam. Ela sorriu para si mesma. Mas, então, olhou para Jonathon e percebeu que ele ficara imóvel. O olhar dele estava fixo numa mulher perto da porta. Ela estava vestida com jeans surrado e camiseta. Os cabelos eram longos e escuros, com uma mecha grisalha sobre a testa. Apesar da aparência simples, ela era linda. E os olhos eram exatamente do mesmo tom de verde dos de Jonathon. – Oh, ótimo! – Helen bateu palmas. – Você deve ser Mary, a irmã de Jonathon. É bom conhecê-la, depois de todos os e-mails que trocamos. – Marie – corrigiu a mulher, olhando em volta do aglomerado de mesas que agora dominava o Cutie Pies. – Eu temi que ninguém da família de Jonathon aparecesse. – Helen levantou-se para cumprimentar Marie. Então hesitou, como se tentando descobrir um jeito de dar um abraço de boas-vindas à mulher sem tocá-la. Contentou-se com seus usuais beijos no ar. – Bem-vinda à família. Marie arqueou uma sobrancelha, a expressão de puro desprezo. Wendy gostou dela de imediato. Infelizmente, era óbvio que Jonathon não se sentia da mesma forma. MARIE NUNCA apreciara pessoas ricas. É claro, sob as circunstâncias, Jonathon não poderia culpá-la. Helen era pretensiosa e detestável. Claramente achava que era melhor que Marie – provavelmente melhor do que todos na cidade – e não se incomodava em esconder isso. Jonathon não estava surpreso que, depois de todos aqueles anos, Marie ainda pudesse empinar o nariz tão facilmente. Também não estava surpreso que ela fosse a única da família que aparecera.


Família era tudo para Marie. Mesmo uma família que a abandonara muito tempo atrás. Entretanto, era óbvio que ela não queria estar lá... pelo jeito como não pedira nada além de chá, e pelo espaço generoso que deixara entre seu assento e os outros próximos dela. Helen parecia determinada a ignorar a tensão que pairava sobre a mesa. – Então, Marie – disse Helen alegremente. – Conte-nos o que você faz. Marie deu um olhar irritado para Jonathon, como se ele fosse culpado pelo interrogatório. – Eu fico em casa com meus filhos. – Oh. – Foi tudo que Helen pôde dizer. – O que, você não acha que isso é trabalho de verdade? – Não, eu... – Ela parou. Jonathon não pôde deixar de apreciar o desconforto de Helen. – Eu também fico em casa com meus filhos. Sei que quanto trabalho isso é. Ao seu lado, Wendy engasgou com o chá gelado, tentando abafar uma risada. Wendy não dissera que os filhos de Helen estudavam num colégio interno? Wendy resolver salvar Helen, mudando de assunto. – Marie, mais pessoas da família de Jonathon poderão ir à recepção amanhã? Nós adoraríamos conhecer os pais dele. Marie enviou-lhe um olhar confuso. – Nosso pai morreu quando Jonathon estava no ensino médio. Ele sentiu Wendy enrijecer ao seu lado. – Oh. Sinto muito. Ele deveria ter lhe contado. Mas aquele não era o tipo de coisa que surgia em conversas normais, e Jonathon não quisera particularmente falar sobre o assunto, de qualquer forma. – Câncer – murmurou Marie. – Provavelmente de todos aqueles pesticidas químicos. – Oh. – Helen pausou. – Sua família trabalha com agricultura? – Nosso pai trabalhava nos pomares de maçãs, mas eu não enfeitaria isso, dizendo que ele trabalhava com agricultura. – Entendo. – Helen conseguiu soar quase compassiva, mas o brilho de satisfação nos olhos dela arruinou o efeito. – E sua mãe? – Ela mora em Tucson agora, com a irmã. – Há outros irmãos? – perguntou Helen. Ao seu lado, Wendy olhou para o prato abaixo. Ele quase podia ler a mente dela. Todas as coisas que ele não lhe contara sobre sua família estavam vindo à tona agora. Antes que Marie pudesse responder, Jonathon interrompeu: – Basta, Marie. – Sua irmã o encarou em desafio, como se quisesse responder, mas ele não permitiu. – Chega de agir na defensiva. Se você está zangada comigo, porque não a visito com mais frequência, falaremos sobre isto mais tarde. – Ele se voltou para Helen. – E basta de você, também. Helen pareceu ter sido esbofeteada. Devia ser raro que alguém a colocasse em seu lugar. – Eu nunca... – Se você quiser saber sobre minha família, pergunte para mim. As chances são de que nenhum de nós receberá a sua aprovação. Meu pai trabalhava com pomares. Minha mãe era caixa de um mercado. Há muitos bebês nascidos fora do casamento. Algumas passagens pela prisão, mas nenhum criminoso. Pelo lado positivo, todas as minhas sobrinhas e sobrinhos que têm idade suficiente se formaram no ensino médio, e a maioria deles fez ou faz faculdade. Com bolsa de estudos. Poucas famílias podem


dizer isso. No geral, somos pessoas trabalhadoras para quem você olharia de cima. – Ele desviou o olhar de Helen para o resto da mesa. – Alguma pergunta? Ninguém falou nada. Após vários segundos de silêncio, Jonathon levantou-se. – Wendy, pegue Peyton, e nós iremos nos registrar no hotel. Ele pôs algumas notas perto da caixa registradora no caminho para fora, e esperou por ela na calçada. No segundo que saiu do Cutie Pies, soube que era um erro. Pessoas como Helen eram predadores emocionais. Uma vez que ela visse sua vulnerabilidade, iria rodeá-lo até que alguma outra coisa o derrubasse. Então ela verificaria sua carcaça. Havia um banco na calçada, a alguns passos da porta do Café, mas fora da visão do interior dele. Jonathon sentou-se no banco e apoiou a cabeça nas mãos. – Aquilo foi brilhante. Ele levantou a cabeça para ver Wendy parada ali, com Peyton sobre seu quadril. – Foi estúpido – replicou ele. – Não. Brilhante. Helen precisa ter alguém que a enfrente, ocasionalmente. Ela se acha muito superior. Se soubesse o quanto Mema detesta essa atitude, não faria isso. – Wendy sorriu. – Suponho que, por isso, jamais contei a ela que Mema detesta prepotência. – Ainda assim, foi estupidez. – Ele se levantou. – Não, eu concordo com Wendy. – Veio uma voz perto da porta. Marie estava parada atrás de Wendy. – Você sabe como eu me sinto sobre colocar pessoas em seus devidos lugares. – Sim, eu sei. Marie aproximou-se e deu um tapinha carinhoso no rosto dele. – Foi bom ver você. Mesmo se isso significou aguentar a sra. Esnobe lá dentro. – Ela começou a ir embora. – Espere! – chamou Wendy. – Nós não a veremos na recepção amanhã? Marie sorriu-lhe. – Sem querer ofender, mas nenhum Bagdon porá os pés no clube de campo. – Mas... – Sinto muito. Foi um prazer conhecê-la. Wendy entregou Peyton para Jonathon e seguiu a mulher. – Então, onde deveremos fazê-la? – Perdão? – Marie parou e olhou para Wendy em confusão. – Esqueça Helen e suas ideias ridículas sobre uma festa de casamento. O único motivo de fazer a recepção... e em Palo Verde... é para que eu possa conhecer a família de Jonathon. Se nenhum deles irá ao clube de campo, então eu gostaria de saber onde deveremos fazer a festa, de modo que a família vá. Marie olhou para Jonathon, sem dúvida tentando descobrir se Wendy falava sério. Ele deu de ombros. Afinal de contas, não podia dizer que a última coisa que queria era rever sua família. Ou lhes apresentar sua nova esposa. – A festa não é amanhã à noite? – perguntou Marie. – Vocês não conseguirão planejar uma festa nova em 24 horas. Wendy sorriu. Gesticulou a cabeça em direção a ele. – Eu mantenho a FMJ organizada e funcionando. Isso será fácil. Marie olhou de Wendy para ele, então de volta para ela, mas ainda parecia duvidosa.


– Certo. Se você quiser... pode fazer a festa na minha casa. – Marie... – avisou Jonathon. – Eu não posso lhe pedir isso. – Wendy interrompeu-o. – Seria uma imposição muito grande. – Ou você acha que minha casa não será boa o bastante? – perguntou Marie. Ele observou Wendy cuidadosamente, curioso para saber se ela percebia a manipulação sutil de Marie. – Não, não! – começou Wendy. – Não foi isso que eu quis dizer. Mas Marie arruinou qualquer vantagem que poderia ter tido, exibindo um sorriso presunçoso de satisfação. Wendy percebeu. Por um breve segundo, pareceu intrigada, mas recuperou-se rapidamente. – Tenho certeza de que sua casa é adorável. A que horas você quer que cheguemos? – Ela não deu a Marie uma chance de responder, mas uniu o braço ao da outra mulher e começou a andar em direção ao estacionamento, para onde Marie estivera indo, antes que Wendy a parasse. Jonathon não teve escolha senão, com Peyton nos braços, seguir as mulheres e observar a batalha de determinação de uma distância segura. – Quer que eu tente achar um serviço de bufê? – perguntou Wendy. – Bufê? – falou Marie, como se a palavra fosse uma maldição. Jonathon apostava que ela nunca provara a refeição de um bufê na vida. – Não, tem razão – respondeu Wendy. – Se a família de Jonathon ficaria ofendida pela ostentação do clube de campo, então um bufê também não é uma boa ideia. Nós apenas apareceremos com alguns ingredientes, se você não se importar que usemos sua cozinha. Minha mãe é uma excelente cozinheira. E meu pai e Big Hank fazem um dos melhores churrascos do estado. Do Texas, quero dizer. – Ela sorriu brilhantemente. – É claro que teremos de chegar cedo para isso. Vamos dizer, às 7h? – Da manhã? – exclamou Marie. – Vocês poderiam passar a noite na nossa casa. Wendy fingiu não ouvir o sarcasmo na voz de Marie. – Jonathon e eu adoraríamos isso! Nós iremos assim que acomodarmos o resto da família no hotel. Presumo que Jonathon saiba onde é a casa...? Marie pareceu desnorteada. – É a casa onde ele cresceu. Marie parou na frente de um velho Ford. O carro tinha um para-choque amassado e muitos arranhões. Havia cadeirinhas infantis no banco de trás e brinquedos espalhados pelo chão. – Ótimo! Nós iremos acomodar minha família no hotel, e vejo você em poucas horas. – Wendy abraçou Marie. – Eu sempre quis uma irmã. Wendy parou ao lado dele, o braço circulando sua cintura e a cabeça descansando em seu ombro, enquanto eles observavam Marie sair do estacionamento e partir. Assim que o carro desapareceu de visão, ela lhe deu um olhar exasperado e pegou Peyton de seus braços. – Deveria ter me avisado como eram as coisas entre você e seus irmãos. Jonathon deu de ombros. – Era você quem tinha certeza de que me conhecia. Ela o estudou, a expressão pensativa. – Você alguma vez os visita? Em vez de responder, ele fez sua própria pergunta:


– Percebeu que Marie não nos convidou realmente para ficar com ela, não percebeu? – É claro que percebi. Não sou idiota. Mas não vou deixar que sua irmã acredite que nós achamos que ela não é boa o bastante. – Da última vez que vi, a casa que cresci estava um caos. Não é boa o bastante. Certamente, não para sua família. – Deixe que eu me preocupe com o que é bom para minha família. Helen pode ser uma tola, mas... – Wendy suspirou. – Bem, eles são difíceis, mas sabem quando manter a boca fechada. E, não esqueça, Big Hank está na política há vinte anos. Não se chega tão longe na política sem apreciar o trabalho duro da classe média. – Mas... Wendy interrompeu-o. – Vamos. Nós não temos tempo para discutir isso. Temos uma recepção de casamento improvisada para planejar. Ela se virou e começou a voltar para o Café, mas ele lhe segurou o braço quando ela passou. – O que exatamente você acha que está fazendo? Wendy arqueou uma sobrancelha. – Não é óbvio? – Infelizmente, é. Você acha que irá consertar meu relacionamento com minha família. – Alguém precisa fazer isso. – Não. – Jonathon soltou-lhe o braço e enfiou as mãos nos bolsos. – Meu relacionamento com meus irmãos não é problema de ninguém, exceto meu. Fique fora disso. – Eu não vou ficar – declarou ela. – É a sua família. Você obviamente lamenta a tensão no seu relacionamento com eles. Alguém tem de aproximá-los. – E o que você acha que vai ganhar, fazendo isso por mim? Quer que eu fique agradecido? O que espera? Ela franziu o cenho, como se não entendesse a pergunta. – Eu espero que você seja feliz. – Resolver o desacordo entre mim e minha família não me fará feliz. – Tem certeza? – Ela lhe segurou o queixo, os olhos cor de violeta contendo tanta compaixão que lhe tiraram o fôlego. – Quer saber o que eu acho? Acho que você nunca se perdoou por tê-los abandonado. Acho que, quando você partiu para construir a FMJ, nunca olhou para trás e sempre lamentou isso. – Se eu parti e nunca olhei para trás, talvez seja porque não os quero na minha vida. Isso nunca lhe ocorreu? Talvez eu seja um cretino egoísta que queira apreciar minha riqueza e sucesso sem quaisquer lembretes de onde eu vim. – Eu não acredito nisso. – Não precisa acreditar, mas é verdade. – Sabe no que eu acredito? Que não tem ideia de como fechar a distância entre vocês, então apenas deixa as coisas como estão. Jonathon não sabia o que dizer para convencê-la de que ela estava criando fantasias sobre ele. Então, não disse nada, e deixou-a continuar falando. – Eu vi você com Peyton. Sei como é bom com ela. Como se importa. E sei que deve ter se sentido da mesma maneira em relação à sua família. Sua família real. Acho que você não se casou e teve filhos porque esse é sei jeito de se punir por tê-los abandonado. Esse é o verdadeiro motivo pelo qual se casou


comigo. Para poder continuar mentindo para si mesmo sobre seus motivos, mas ainda teria a família que sempre quis. – Isso é bobagem – falou ele com mais convicção do que sentia. – Eu me casei porque a FMJ desmorona sem você. Mas não pense que a liberdade que tem para administrar o escritório se estende em interferir na minha vida pessoal. – Que vida pessoal? – zombou Wendy. – Essa é a questão, não é? É por isso que seus relacionamentos românticos não duram nada, e por que Matt e Ford são seus únicos amigos. Jonathon nem sequer se dignou a responder aquilo. Aproximou-se até que ela deu um passo atrás, depois outro. – Eu tornarei isso muito simples para você. Desista de tudo. – Não. – Não? – Ele parou, atônito pela coragem dela. – Como assim, não? – Eu não vou voltar atrás. – Por que diabos você se importa com isso? – Porque nós estamos casados agora. E eu gosto de você. – Ela cruzou os braços sobre o peito, erguendo o queixo em desafio. – Pronto, falei. Eu gosto de você e quero que seja feliz. Não acho que sua atitude de se isolar de todos o fará feliz. Então, farei tudo que estiver em meu poder para consertar a situação. – Wendy aproximou-se um passo e socou-lhe o peito. – E, a menos que você queria me demitir, contando para todos que nosso casamento foi uma farsa, e me dar uma anulação imediatamente, não há nada que possa fazer para me impedir. Com isso, Wendy virou-se e voltou para a família dela, esperando por ele no Cutie Pies, onde, presumivelmente, anunciaria o plano de mudar a recepção do casamento para a casa de Marie. Tudo porque queria reparar elos familiares. Droga. Esse casamento estava dando muito mais trabalho do que ele antecipara.


CAPÍTULO 15

JONATHON NÃO queria passar a tarde com sua família. Não queria passar a noite na pequena casa de três quartos e dois banheiros, onde ele crescera. Não queria deixar o conforto de um hotel de luxo em Palo Verde. Depois do almoço, ele prolongara a tarde o máximo possível, sua irritação com Helen superada apenas por sua aversão em passar mais tempo com a própria família. Então, mostrara a cidade para a família de Wendy, demorando-se para registrá-los no hotel. Qualquer coisa para evitar levar Wendy à casa de sua irmã. Motivo pelo qual estava agora escondido no bar, esperando Wendy levar a avó até o quarto dela. Ele ficou sentado lá, seu drinque intocado à sua frente, considerando suas opções, para não precisar dormir no chão da sala de sua irmã, num colchão inflável. Mesmo que o lugar não fosse mais a espelunca que tinha sido enquanto ele crescia, ainda era menor do que os cinco filhos de sua irmã precisavam. E, por alguma razão que Jonathon nunca entendera, sua irmã era apegada à casa. Embora ele não mantivesse contato com nenhum de seus irmãos, Jonathon os observava, assim como suas finanças. Não queria se envolver na vida deles, mas também não queria nenhum deles morando na rua. E tinha deixado claro que poderia dar uma vida melhor para sua irmã, se ela quisesse. Aparentemente, ela não queria. Agora, ele desejou que não tivesse respeitado o orgulho de Marie, e tivesse lhe comprado uma mansão. Ele deu um gole de sua cerveja, então empurrou a garrafa quase cheia. Antes que pudesse se levantar, Big Hank entrou. – Graças a Deus, você está aqui. – Big Hank puxou uma cadeira, sem esperar convite. – Alguma coisa errada? – perguntou Jonathon. – Não, não – murmurou Hank, tirando seu chapéu de cowboy e colocando-o sobre os joelhos. – Eu apenas detesto beber sozinho. – Ele riu, como se tivesse contado uma piada divertida. Jonathon sorriu, fazendo companhia para o homem mais velho, que pediu um uísque quando a garçonete chegou à mesa. Jonathon falou pouco e ouviu uma história atrás da outra. Histórias que não levou a sério, mas também sabendo que poderiam ser verdadeiras. Com um sujeito como Big Hank, praticamente


qualquer coisa era possível. Quando Jonathon estava terminando sua cerveja e prestes a pedir licença, Hank disse: – Basta sobre mim. Eu quero falar com você sobre Gwen. – O que sobre ela? Hank girou o gelo em seu uísque. – Quando você saiu do Café hoje, Mema me enviou para procurá-lo. Eu ouvi a conversa de vocês no estacionamento. O que podia significar quase qualquer coisa, dependendo do quanto da conversa Hank ouvira. – E? – E sei que seu casamento é uma farsa. – E? – repetiu Jonathon. – Acho que Gwen colocou você nisso. Ela está tentando cair nas graças de Mema, de modo que possa evitar uma batalha de custódia. – Hank riu, levantando o copo, como se para brindar à ingenuidade de Wendy. – O que não entendi no começo foi como você concordou com isso. Você é um homem inteligente. Duvido que se envolvesse em tal esquema, a menos que tirasse algum benefício disso. – Eu amo Wendy – falou Jonathon. – Não. Eu não acho que você a ama. Jonathon inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos sobre a mesa. – Você não pode provar isso. Hank deu um gole do uísque. – Acho que ela o convenceu de que um casamento entre vocês beneficiaria a FMJ. Acho que foi assim que Gwen conseguiu que você se casasse com ela. – Ela não conseguiu que eu me casasse com ela. Eu a pedi em casamento. Hank o estudou por um momento, então deu um sorriso dissimulado. – A FMJ faz um trabalho extraordinário. A súbita mudança de assunto intrigou Jonathon. – Qual é o seu ponto? – Eu sei que você está elaborando uma grande proposta para o Departamento de Energia. Aqueles seus medidores smart-grid são muito interessantes. Matt disse que, se vocês conseguirem o contrato com o governo, todos os prédios governamentais do país serão aperfeiçoados com um desses medidores. A nação poderia poupar milhões em contas de eletricidade. – Matt não deveria ter lhe mostrado os medidores smart-grid. – Ele se entusiasmou um pouco demais. E eu os achei realmente interessantes. – E deixe-me adivinhar. Se eu fizer alguma coisa que você quer, você se certificará de que a FMJ consiga o contrato? – Certamente não. Isso seria nepotismo. Mas o que eu posso fazer é me certificar de que a FMJ não consiga o contrato. – E o que eu preciso fazer em troca? – Anular seu casamento. Enviar Wendy para casa, com a família dela. – Não – respondeu Jonathon, sem hesitação. – Apenas pense em todos os seus medidores smart-grid. Em todos os seus dispositivos fantásticos. Guardados num depósito, sem fazer nada. – Você está me ameaçando.


Hank sorriu. – Mais especificamente, eu estou ameaçando a FMJ. Não se engane quanto a isso. Se você sair desse casamento, posso fazer coisas fabulosas acontecerem para você e para a FMJ. – Mas somente se eu sair da vida de Wendy e de Peyton. – Exatamente. – Diga-me por quê. Por que tanto trabalho para me colocar na lista negra por causa de um bebê? Wendy acha que é tudo por causa de dinheiro. Mas eu não acredito que seja. Mema lhe pediu para fazer isso? – Não. Tudo que Mema quer é que Wendy a visite com mais frequência. Ela ficaria feliz com a promessa de levar Peyton ao Texas de vez em quando. – Então por que não deixar Wendy criar o bebê? Big Hank deu-lhe um olhar duro. – Não me entenda errado, rapaz. Eu respeito muito sua Gwen. É preciso coragem para enfrentar aquela família, e Gwen tem coragem. Provavelmente mais do que Hank Jr... embora Helen pudesse ser uma ótima competidora. Quanto à Helen, pelo menos, eu sei como controlá-la. Ela sempre segue o dinheiro. Mas Gwen não liga a mínima para dinheiro. Verdade, Wendy não se importava com dinheiro. Importava-se com o bebê. Jonathon olhou para Big Hank. – E quanto a mim? – perguntou ele. – Você é, em primeiro lugar, um homem de negócios. Não passou os últimos 13 anos de sua vida construindo uma empresa do chão, apenas para jogá-la fora por causa de um bebê. Ou mesmo por uma mulher. Fará a coisa certa pela FMJ. Jonathon fingiu pensar sobre aquilo. Principalmente porque Big Hank não levaria a sério alguém que recusasse sua proposta sem considerá-la. Então meneou a cabeça, rindo. – Bem que ela disse que vocês fariam isso. – Fariam o quê? – perguntou Big Hank. – Wendy disse que a família dela sempre encontrava um jeito de descobrir o que os namorados dela queriam, e usava isso contra eles. Ou melhor, colocava-os contra ela. – Na maioria das vezes, foi fácil. Wendy sempre namorou homens mais fracos do que ela. – Big Hank olhou para Jonathon, avaliando-o. – Mas não você, filho. – Não. Não eu. – Ele pausou. – Diga-me uma coisa. Pelo que entendo, você tentou controlar sua filha, Bitsy, e, no final, apenas a afastou. Então, por que está tentando fazer a mesma coisa com Peyton? – Por que o escorpião morde a tartaruga? Está na minha natureza. E pessoas não mudam, independentemente do quanto queiram mudar. Jonathon levantou-se. – Bem, senhor, com todo o respeito, eu morei a minha vida inteira na Califórnia. E não entendo analogias sobre escorpiões. Nunca vi um escorpião na vida. – Esse é seu jeito de me dizer que não vai aceitar minha oferta? – Suponho que sim. Big Hank arqueou uma sobrancelha cética. – Você está apaixonado por Gwen? Acha que vai impressioná-la recusando minha oferta? Por um longo instante, o tempo pareceu parar, como se seu corpo ficasse imóvel, mas o resto do mundo continuasse girando e colidindo com ele com força total.


Estava apaixonado por Wendy? A ideia era ridícula. Entretanto... Ele balançou a cabeça, parte em resposta à pergunta de Big Hank, e parte para dissipar a ideia antes que ela se enraizasse em sua mente. – Não. Eu não acho que isso irá impressioná-la. Eu não pretendo que Wendy descubra sobre sua oferta. – Sabe que minha oferta funciona dos dois modos. Eu poderia lhe garantir o contrato. Poderia me certificar de que todos os prédios do governo no país usassem um de seus medidores smart-grid. Ora, eu poderia colocar um em cada casa construída na próxima década. Ou eu posso garantir que a FMJ nunca mais veja um centavo do dinheiro do governo. Não nesse projeto. Nem em qualquer outro. – Você faz isso soar tão tentador. Gostaria de uma cadeira de balanço e de um gato peludo para acariciar, enquanto repete suas palavras? Por um segundo, Big Hank pareceu chocado. Então gargalhou. – Sabe, Jonathon, eu gosto de você. É uma pena que não será meu parente. – Eu não aceitarei sua oferta. – Ainda não. Mas acabará aceitando. Você irá refletir sobre isso. Faça as contas... uma vez que perceber de quanto dinheiro estou falando, vai mudar de ideia. Mulher nenhuma vale tanto dinheiro. A verdade era que ele já fizera as contas. Cálculos haviam começado em sua mente no segundo em que Big Hank falara. – Talvez você esteja certo, e mulher alguma valha tanto. Mas o que não sabe é que Wendy não é o motivo pelo qual estou negando sua oferta. – Jonathon meneou a cabeça. – Isso é manipulação, e não é o estilo da FMJ. Nós não negociamos por baixo da mesa. Ganhamos contratos porque nossos produtos são os melhores do mercado, não porque temos conexões. A FMJ é uma empresa honrável. Nós não fazemos esse tipo de negócio do qual você está falando. Big Hank deu-lhe um olhar prepotente. – Essa pode ser a política da FMJ. Mas eu pesquisei a seu respeito. O tipo de passado que você teve torna um homem sedento por sucesso. Se eu aprendi alguma coisa nos meus 25 anos na política foi que não há muita coisa que um homem ambicioso não faça, se você lhe oferecer os incentivos corretos. – Talvez tenha razão. Sobre mim. Mas eu sou só um terço da FMJ. E você está perdendo seu tempo. Com isso, Jonathon virou-se e partiu. Apenas desejou que soubesse o que o levara embora: o medo de que Big Hank estivesse certo, e que ele tivesse tomado essa decisão por causa de Wendy, ou o medo de que, se Big Hank continuasse falando, Jonathon acabasse cedendo. Qualquer que fosse o caso, concluiu que estava muito encrencado.


CAPÍTULO 16

SABENDO O que ela sabia sobre a infância de Jonathon, Wendy tinha esperado que a casa onde ele crescera fosse um barracão decrépito. Todavia, a casa de Marie era apenas uma casa de loteamento comum, num bairro de classe média baixa. Apesar de pequena, a casa era obviamente bem-cuidada, com um gramado florido na frente. Bicicletas e brinquedos lotavam o jardim, um testemunho do número de crianças que morava lá. Jonathon parou seu Lexus na frente da casa, a expressão mal-humorada, as mãos apertando o volante. Para suavizar o clima, ela falou: – Oh, você está certo. Este lugar é horrível. Uma espelunca. Talvez nós devêssemos nos vacinar contra hepatite C, antes de entrar. Ele a olhou. – Era pior quando eu era criança. – Tudo sempre é. – Wendy podia imaginar a infância pobre que Jonathon tivera, com seu orgulho teimoso e a necessidade de controlar tudo. Ela deu um tapinha na coxa dele. – Vamos entrar. Wendy desceu do carro e foi para o banco de trás, a fim de remover a cadeirinha do carro. Ele a seguiu para ajudá-la, a fisionomia ainda carrancuda. – Pense que eles não podem ser piores do que minha família. – Ela quis brincar, mas uma expressão estranha surgiu no rosto de Jonathon. – O quê? – Nada. – Ele pegou a cadeirinha com Peyton e foi para a rua. – Vamos enfrentar isso. – Ótima atitude – murmurou ela, mas ele a ignorou e continuou andando para a casa. Um momento depois, a porta foi aberta por uma jovem adorável, de 20 e poucos anos. Ela possuía os cabelos escuros de Marie e os olhos verdes dos Bagdon. Houve um breve momento de hesitação, antes que ela jogasse os braços em volta de Jonathon. – Tio Jonny! Que bom ver você. Choque tomou o rosto de Jonathon, então, lentamente, ele passou o braço livre ao redor das costas dela. – Ei, Lacey. Lacey afastou-se do abraço para estudá-lo.


– Você não mudou nada – murmurou ela e, antes que ele pudesse discordar, moveu-se para Wendy, dando-lhe um abraço entusiástico. – Você deve ser Wendy. Bem-vinda à família. Então ela correu para dentro da casa, chamando: – Eles estão aqui! Mamãe, por que não contou para nós que ela era tão bonita? Jonathon... parecendo chocado... ficou parado ali por um momento. Então Wendy passou por ele e entrou na casa. – Você vem, Jonny? – Cale-se – replicou ele, mas o tom era brincalhão. Wendy conheceu tantas pessoas na hora seguinte que perdeu a conta. Havia Lacey, a mais velha dos três filhos de Marie. Ou eram quatro? Então havia dois enteados, também. Nenhum dos irmãos de Jonathon tinha ido... embora Marie tenha insistido que ainda estava trabalhando, e esperava que eles fossem para a grande recepção no dia seguinte. A outra irmã de Jonathon apareceu com três filhos. Até mesmo o namorado de Lacey estava lá. Todos a cumprimentaram calorosamente e brincaram com Peyton. Mas Jonathon passou a maior parte da noite rígido num canto, dando respostas monossílabas toda vez que lhe dirigiam a palavra, e parecendo profundamente desconfortável. Álbuns de família foram trazidos e pizza foi pedida. Alguém levou refrigerante e cerveja. Outra pessoa levou cupcakes. Wendy estava conversando com o marido de Marie, Mark, quando Lacey aproximou-se e tirou Peyton dos seus braços. – Eu adoro segurar bebês – explicou ela. – Mamãe me proíbe de engravidar até que passem pelo menos três anos após o término da faculdade. – Boa regra. Lacey, todavia, já estava ignorando Wendy, enquanto roçava o nariz contra Peyton. Wendy olhou em volta da sala movimentada e não pôde localizar Jonathon. Perguntou para as pessoas, até que uma das crianças disse que ele havia saído para o quintal. Ela pegou um suéter que estava sobre uma das cadeiras da cozinha e saiu pela porta dos fundos. Vestindo-o, tremeu enquanto esperava seus olhos se ajustarem à escuridão. O ar noturno estava frio. A paisagem não familiar lançava sombras sobre o gramado. Ela desviou dos móveis no pequeno pátio e desceu na grama. Na luz da meia-lua, atravessou para onde Jonathon estava de pé ao lado de uma árvore. Ele virou-se com sua aproximação. – Eles são tão ruins assim que você teve de fugir para cá? – provocou ela. – Eu queria ver se isto ainda estava aqui. – Ele apontou para a árvore. – Plantei uma semente aqui, no dia que enterramos meu pai. Eu a peguei do gramado do cemitério. Embora a árvore fosse mais alta do que Jonathon, ainda parecia fina e jovem. – Esta árvore não parece ter mais de dez anos. – Quase vinte anos agora – disse ele suavemente. – Árvores crescem mais lentamente do que pessoas. Wendy assentiu, mas, olhando para ele, imaginou se aquilo era verdade. Às vezes parecia que as pessoas não cresciam, em absoluto. – Não sei sobre isso – admitiu ela. – Aqui estou eu, com 27 anos, cometendo os mesmos erros que cometi aos 17. E aos 7. – Tem certeza sobre isso? Você parece estar se dando bem com sua família, ultimamente.


– Talvez. – Ela deu de ombros. – Outro dia, minha mãe falou uma coisa que me surpreendeu. Disse que Mema é tão contra mães solteiras porque... – Porque ela mesma foi mãe solteira. – Jonathon terminou a sentença por Wendy. Ela franziu a testa. – Como você...? – O pai de seu tio Hank morreu na Coreia. Hank tinha apenas 6 meses. Ela não se casou com seu avô antes de outros dois anos. – E como você sabe disso, exatamente? – Fã do Google. Lembra? – Você pesquisou sobre meu tio? – Sobre sua família. – Nós vivemos num mundo estranho. – Ela balançou a cabeça. – Eu nunca pensei em pesquisar no Google. Se eu tivesse feito isso, suponho que teria sabido sobre Mema e o pai de tio Hank. – Você não sabia? – Tinha uma vaga ideia. Eu devo ter ouvido isso anos atrás e esquecido. Nunca ouvi Mema mencionar o primeiro marido. E, quando Papa era vivo, ele tratava tio Hank e papai como se fossem seus filhos. Estabeleceu fundos para todos os netos. Como se Hank Jr. e Bitsy fossem seus. – Ela piscou contra as lágrimas. Fazia muito tempo que não pensava em seu avô. – Ele costumava adorar ter a família inteira reunida – disse ela, subitamente querendo compartilhar aquelas memórias com Jonathon. – Ele adorava os feriados festivos. Quando todos os netos estavam correndo pela casa. Teria adorado Peyton. Pela primeira vez, ocorreu-lhe que, talvez, o dinheiro de seu fundo fiduciário não tivesse sido designado para controlá-la e manipulá-la. Talvez, ele apenas quisesse que a família ficasse junta para sempre. Quão desapontado ficaria! É claro, ele não conhecera Helen. Provavelmente não iria querer estar perto dela, também. Entretanto, o pensamento do desapontamento de Papa tirou-lhe o fôlego, e Wendy se pegou tremendo. Jonathon devia ter notado. Abriu o zíper do casaco e puxou-a para perto, de modo que as costas dela ficassem contra o peito largo. Então, passou as laterais da jaqueta em volta dela. Wendy descansou a cabeça contra o ombro de Jonathon, olhando para a árvore que ele plantara tanto tempo atrás. – Diga-me uma coisa, Wendy – murmurou ele perto de seu ouvido. – Se houvesse um jeito de manter Peyton sem estar casada comigo, sem voltar para o Texas, você faria isso? Tudo dentro de Wendy ficou imóvel diante da pergunta. Ela fechou os olhos para bloquear seu medo. Conhecia cada modulação da voz dele. A pergunta não era pura especulação. Jonathon estaria se perguntando – como ela estava – se essa compreensão maior de Mema poderia ser usada para convencê-la de que Wendy era uma mãe adequada, com ou sem um marido? – Não – admitiu ela num sussurro, e sentiu-o enrijecer. Um momento depois, ele se afastou dela e estendeu a mão. Gesticulando a cabeça em direção à casa, falou: – Está quase na hora de Peyton dormir.


Ele a conduziu pelo gramado e para a companhia alegre de sua família. Apesar de sorrir quando todos se despediram e começaram a ir embora, Wendy ainda sentia o nó de medo na garganta. Admitira para Jonathon que ficaria casada, independentemente de qualquer coisa, mas ele... obviamente... não fizera o mesmo. E ele percebera o que ela havia admitido? Jonathon sabia que ela já estava apaixonada por ele? NO MOMENTO que Jonathon seguiu Wendy para dentro da casa, Marie já estava acompanhando as pessoas até a porta da frente. Wendy se despediu de todos com um sorriso que não alcançava os olhos. Ele não tinha certeza do que fizera para aborrecê-la, mas era óbvio que ela estava aborrecida. Finalmente, Marie levou Jonathon e Wendy para um dos quartos. Havia um beliche ao longo de uma parede e, como Jonathon previra, um colchão inflável no chão. Marie pegara um berço desmontável do sótão e o colocara entre a cabeceira da cama e a única cômoda do quarto. Brinquedos estavam empilhados na cama de baixo do beliche para deixar espaço para o colchão inflável. A menos que um deles quisesse dormir na parte superior do beliche, eles dormiriam na mesma cama, naquela noite. Assim que ficaram sozinhos, Jonathon perguntou: – Tem certeza de que não quer voltar para o hotel? – Eu já fiquei em lugares piores – replicou ela, o tom alegre, enquanto deitava Peyton no colchão e começava a tirar as roupas do bebê. Ele arqueou uma sobrancelha. – Verdade? – Sim, verdade. Eu tranquei a matrícula na faculdade por um ano, e viajei pela Europa de carona. – Ela pegou um pijama cor-de-rosa da sacola. – Até mesmo já fiquei em lugares piores, trabalhando para a FMJ. – Duvido disso. – Então você obviamente se esqueceu daquele hotel em Tóquio. – Sentando Peyton no colo, Wendy vestiu-a. – Os quartos eram do tamanho de um box e as camas eram muito curtas, até mesmo para mim. – Eu devo ter bloqueado isso da mente. – Aposto que sim. – Ela riu. Então deitou Peyton sobre as costas, fechou os botões do pijama e beijou-lhe a barriguinha. Era um gesto tão maternal que roubou o fôlego de Jonathon. Naquele instante, ele soube que ela ficaria bem. Ela e Peyton podiam ter tido um começo difícil, mas ficariam bem. Ele deveria lhe contar a verdade sobre o tio dela. Contar-lhe o que Mema realmente queria. Era uma solução tão simples. Se ele lhe contasse, Wendy não precisaria mais dele. Wendy ergueu os olhos para encontrá-lo estudando-a, e franziu o cenho. – O que foi? – Nada. Você está ficando boa nisso. – Sim, esta sou eu. Quase um mês sendo mãe, e consegui a arte de vesti-la sem tanto esforço. – Não. Estou falando sério. Você será uma boa mãe. Ela se sentou no centro da cama, de pernas cruzadas, acomodando Peyton sobre um joelho, a expressão pensativa.


O ar entre eles estava pesado com todas as coisas que não tinham sido ditas, mas, antes que ele pudesse falar qualquer coisa, ela se levantou, segurando Peyton contra o quadril. – Peyton e eu estamos bem aqui. – Wendy pegou a mamadeira que preparara mais cedo e balançoua. – Talvez você devesse ir ficar um pouco com sua família. Enquanto eu a faço dormir, quero dizer. – Não, eu... – Eu insisto. – Ela esfregou um dedo na testa, como se estivesse com dor de cabeça. – Este fim de semana foi difícil para mim. Só quero alguns minutos sozinha com Peyton. Jonathon sabia que aquilo era um truque, mas não comentou nada. Talvez ela precisasse de um tempo sozinha. Talvez precisasse de um tempo longe dele. Jonathon saiu do quarto, ciente de que não lhe contara sobre o tio. Nem mencionara que ela provavelmente não precisaria ficar casada com ele para manter Peyton. Ainda não lhe contara. E não ia lhe contar.


CAPÍTULO 17

WENDY NÃO tinha mais respostas quando acordou do que quando adormecera. E para piorar as coisas... depois de mais uma semana acordando com a luz do amanhecer iluminando o quarto, essa era a manhã que Jonathon decidira dormir até mais tarde. Então ela acordou para se encontrar aconchegada ao corpo dele, a mão descansando no peito largo, o joelho esquerdo aninhado contra a ereção viril. Houve um momento em que ela não se lembrou de onde estava. Quando tudo que seu cérebro sonolento pôde processar foi a incrível sensação de contentamento. Um momento que passou no instante em que ela o sentiu se mexer. Ela saiu da cama. Ou melhor, rolou para a extremidade, apenas para sentir o colchão ceder sob seu peso. Sentou-se no chão e, em seguida, se levantou, mas não havia espaço entre o colchão e o beliche, e ela ficou parada ali, procurando um espaço aberto no chão. – Bom dia – murmurou Jonathon. Wendy olhou para trás. Ele a estava observando. O olhar dele baixou para seu traseiro, e ela puxou a bainha do short para baixo. – Bom dia. Ele deu um sorriso presunçoso. O imbecil. Ela alcançou os pés do colchão, onde havia um vão entre ele e a parede. Rodeou o espaço até chegar à cômoda. – Eu só vou... Wendy nem terminou a sentença. Pegou suas roupas e desapareceu. Dez minutos depois, vestida com tantas camadas de roupa quantas pudera encontrar, e determinada a comprar um pijama com calça comprida para dormir de agora em diante, ela foi para a cozinha e para o divino cheiro de café sendo preparado. Encontrou Lacey lá, tomando café, enquanto preparava um waffle. A jovem sorriu alegremente. – Espero que esteja pronta para os Waffles Bagdon... de banana com lascas de chocolate. Você gosta, certo? Alguém deixara uma xícara vazia ao lado da cafeteira, e Wendy serviu-se de um café. – De waffles? Claro.


– Não apenas de waffles. De waffles de banana com lascas de chocolate. É o famoso prato dele. Incapaz de seguir a discussão sem cafeína, Wendy deu um gole generoso. Estava excelente. Um momento depois, seu cérebro funcionou. – Famoso prato de quem? Lacey, passando manteiga na máquina de fazer waffles, olhou para cima. – De Jonathon. – Ela salpicou lascas de chocolate no topo. – Ele os faz para você, certo? – Lacey fechou a tampa, então olhou para Wendy. – Humm... não. – Oh. – A máquina de waffle liberou um chiado de vapor. Lacey franziu o cenho. – Ele costumava fazê-las sempre para mim. Ensinou-me como fazer. Pega de surpresa pelo tom nostálgico da garota, Wendy ficou dividida. A garota parecia ter tido uma adorável lembrança da infância roubada. Mas Wendy não podia contar a verdade a Lacey. E talvez Jonathon fizesse waffles para todas as namoradas. Apenas nunca as fizera para a esposa falsa. – Talvez ele não os faça agora, porque eles o fazem lembrar muito de você. Ela não podia imaginar o Jonathon que conhecia comportando-se de maneira tão sentimental, mas talvez a garota acreditasse naquilo. Como esperado, Lacey sorriu. – Sim. Isso se parece com Jonathon. – Parece? – Wendy tentou esconder sua surpresa atrás de um gole de café. – Quero dizer, parece. Definitivamente. A máquina de waffles apitou, e Lacey abriu a tampa. Pegando uma espátula com precisão cirúrgica, ela liberou o waffle e virou-o num prato. Deu os toques finais com manteiga e mel, então estendeu o prato para Wendy. – Tcharam! Wendy pegou o prato. – E agora? Eu devo esperar até que todos estejam aqui? – Não. A primeira a chegar é a primeira a ser servida, e coma enquanto está quente. – Enquanto começava o segundo waffle, Lacy deu um sorriso que fez Wendy lembrar-se de Jonathon. – Regras da casa. Que maravilha. Regras da casa relacionada à comida que não eram restritivas e opressivas. – Você não vai experimentar? – perguntou Lacey, observando-a. – Apenas tirando um momento para apreciar as regras da casa sobre refeição que não são designadas a inspirar culpa ou vergonha. Acho que estou no paraíso. – E você ainda nem comeu o waffle. Uma vez que Lacey ainda a observava com expectativa, Wendy provou o waffle. A banana amanteigada contrastava deliciosamente com o chocolate meio amargo. Sentindo o gosto maravilhoso derreter na boca, ela fechou os olhos em apreciação. – Divino – murmurou ela, antes de dar outra garfada. Se Jonathon fizesse aqueles waffles para suas namoradas, isso explicava por que elas aguentavam a distância emocional dele por tanto tempo. Com os waffles e sexo fantástico, que garota se importaria se o namorado fosse um idiota? Deprimida pelo pensamento, Wendy levou seu waffle para a mesa e sentou-se, comendo outro pedaço com um fervor que tinha mais a ver com liberação de estresse do que com fome. Um momento depois, Lacey juntou-se a ela, um waffle em seu próprio prato.


Elas comeram em silêncio por alguns minutos. Lacey deu um suspiro de contentamento. – Tio Jonny costumava fazê-los para mim, quando eu era pequena. Mamãe trabalhava num posto de gasolina nas manhãs dos fins de semana. – Você devia ter... 6 ou 7 anos? – Eu tinha 8 quando ele foi para a faculdade. Foi para a faculdade e abandonou a família completamente. Pelo que Wendy sabia, ele não vira um único membro desde então. Certo, ele podia estar sempre fugindo de uma mãe que estivera mais interessada em virar uma garrafa do que em criar uma família. Mas abandonar os irmãos? Ela quisera um irmão ou uma irmã, durante sua vida inteira. E abandonar uma sobrinha de 8 anos? Uma garotinha para quem ele cozinhara waffles todas as manhãs, por anos? Quem fazia isso? – E você não o via desde então? – teve de perguntar Wendy, embora, no fundo, soubesse a resposta. – Não realmente. – Lacey deu de ombros, a expressão mais pensativa do que triste. – Como assim, não realmente? – Quero dizer, ele nunca me visita. Mas não é como se nós não soubéssemos que ele está por perto. Mantendo um olho em nós. – Mantendo um olho em vocês? – Claro. Cuidando de nós, de certa forma, sabe? Não. Wendy não sabia. Não tinha a menor ideia do que Lacey estava falando. Por sorte, a garota continuou: – Com coisas pequenas, na maioria das vezes. Embora, algumas vezes, tenham sido coisas grandes. O que deixava mamãe furiosa. – Que tipo de coisa? – Oh, não sei. Acho que começou com o laboratório na escola. – Aham – murmurou Wendy, encorajando-a. – Isso faz uns dez anos. Eu ganhei a feira regional de ciências, mas nós não tínhamos dinheiro para eu ir à competição estadual. O jornal publicou um artigo sobre nossa arrecadação de fundos na escola para isso. Então... um doador anônimo apareceu e cobriu todos os custos. No ano seguinte, os laboratórios de ciência da escola foram completamente remodelados... desde o ensino fundamental até o ensino médio. Lacey comeu outro pedaço de waffle antes de prosseguir: – Eu costumava pensar que nós tínhamos uma sorte inacreditável. – Por quê? – Bem, foi como com o laboratório de ciências. Eu precisava de dinheiro, e ele aparecia magicamente. Ou quando mamãe ficou desempregada... isso foi antes que ela se casasse... e uma caminhonete com alimentos congelados apareceu do lado de fora da casa. O motorista implorou para que aceitássemos a comida antes que estragasse. Coisas desse tipo aconteciam o tempo inteiro. – E você acha que Jonathon era o responsável? – Claro. Quem mais seria? Isso sempre deixou mamãe zangada, mas eu gosto. É bom saber que ele está aí fora, olhando por nós. – Por que sua mãe fica zangada com isso? – Porque ela sempre diz que seria melhor ter seu irmão de volta.


Aquilo era tão típico de Jonathon. Ele queria ajudar. Sempre queria ser o herói, mas nunca queria o crédito por isso. Nunca queria dever nada a ninguém. Nunca queria arriscar que alguém soubesse que havia um sujeito decente por baixo do homem de negócios ganancioso. Nunca deixava ninguém se aproximar o bastante para conhecê-lo realmente. – Ele finalmente venceu mamãe pela insistência. – Lacey estava dizendo. – Eu acho que foi a bolsa de estudos que fez isso. – Bolsa de estudos? Lacey assentiu. – Dez excelentes alunos de ciências no ensino médio conseguiram bolsa integral para a universidade de suas escolhas, contanto que se formassem numa área científica ou em engenharia. – Naturalmente. Como Wendy não soubera sobre nada daquilo? Pensara que sabia tudo sobre ele, mas havia um elemento na vida de Jonathon o qual ela nunca vislumbrara até agora. Ele lhe dissera que tinha cortado todos os laços com a família. Alegado não ter mais nada a ver com eles. Entretanto, agora Wendy descobria que ele estivera interferindo nas vidas deles há anos. A distância. Que era o jeito como Jonathon fazia tudo. Para que ninguém se aproximasse. – Ei. Alô? Wendy olhou para cima e viu Lacey balançando o garfo na frente do seu rosto. Aparentemente, ela havia saído do ar. – Oh, desculpe. Eu estava perdida em pensamentos. Lacey sorriu. – Obviamente. Ninguém esquece um waffle desses no prato, sem uma boa razão. – Eu só estava... imaginando o que pensar de tudo isso. Da generosidade. Do altruísmo. – Sério? – questionou Lacey. – Porque, se eu estivesse com um cara como Jonny, essas seriam as coisas que eu mais amaria nele. – Bem, claro. Teriam sido. Se eu tivesse sabido sobre elas. – Oh, não. – Lacey empalideceu. – Eu fiz você duvidar dele. – Lacey... – É culpa minha. – Ela se levantou, acenando as mãos no ar freneticamente. – Ele finalmente conhece uma mulher com quem pode ser feliz, e eu estraguei tudo. – Isso não é culpa sua. – Wendy também ficou de pé e segurou as mãos da garota. – Se a culpa é de alguém, é de Jonathon. É ele quem é emocionalmente indisponível. – Não! – interrompeu Lacey. – Ele é totalmente disponível! Eu juro! Ele é apenas... tímido! Wendy arqueou as sobrancelhas. – Tímido? Você acha que Jonathon é tímido? – Certo, não tímido – admitiu Lacey. – Ele apenas não fala muito sobre seus sentimentos. – Ou não fala nada. – Mas eu sei que ele os tem. Apenas não fala sobre eles. Quero dizer, não com você. Mas ele fala com Peyton – declarou Lacey, tentando ajudar. E Wendy agora estava ainda mais intrigada. – Ele fala com Peyton? Sobre seus sentimentos?


– Sim, ele fala! – respondeu Lacey com entusiasmo. – Ontem à noite, eu acordei por volta das 2 horas e fui à cozinha para pegar um copo de água, mas, antes de chegar lá, eu o ouvi falando com Peyton. Tio Jonny estava com o bebê no colo, dando-lhe uma mamadeira e dizendo-lhe que ela valia mais para ele do que uma centena de carpaccios com pimenta. Lacey parou, os olhos esperançosos, como se o que ela tivesse dito devesse convencer Wendy. Ou fazer sentido. – Humm... é possível que você estivesse sonhando? – Não. Isso aconteceu mesmo. – Jonathon disse a Peyton que ela valia mais para ele do que uma centena de carpaccios com pimenta? Lacey franziu a testa. – Suponho que isso seja estranho, não é? – Um pouco. – Wendy nunca nem soube que ele gostava de carpaccio com pimenta. – Certo, talvez eu tenha ouvido erroneamente. Não quis interromper, então voltei para a cama. Wendy soltou as mãos de Lacey, sua mente subitamente girando. “Carpaccios com pimenta” não fazia sentido. Mas “contratos com governo” fazia. Ela tirou o celular do bolso e ligou para sua mãe. – Ei, mamãe, já está tomando café da manhã? – Ela fez uma careta quando sua mãe respondeu. – Sim, eu sei que é cedo. Preciso falar com tio Hank. Ponha-o na linha. Imediatamente.


CAPÍTULO 18

WENDY TERMINOU a ligação poucos minutos depois. Não levou muito tempo para que confirmasse o que já suspeitava. Então foi para o quarto de hóspedes, onde eles haviam dormido. Nem Jonathon nem Peyton estavam lá. Mas a porta para o quarto principal estava aberta e, quando ela olhou para dentro, viu Peyton balbuciando feliz na cama, enquanto Natalie, uma das sobrinhas adolescentes de Jonathon, balançava um brinquedo acima dela. – Querida – perguntou ela, esforçando-se para esconder a raiva da voz. – Você sabe onde Jonathon está? A adolescente olhou para cima. – Ele me pediu para olhar Peyton, enquanto tomava um banho. – Obrigada. Wendy virou-se e seguiu o corredor para o banheiro. Bateu à porta, e esperou até ouvi-lo dizer: – Só um minuto. – Ela abriu a porta e entrou, sem esperar convite. – O que... – Nós precisamos conversar. Wendy fechou a porta, olhando para cima bem a tempo de vê-lo pegando uma toalha para se cobrir. Atrás dele, o chuveiro ainda estava ligado. Apesar de sua raiva, seu olhar fixou-se no peito desnudo. Pela lógica, depois de dormir uma semana no mesmo quarto que ele, Wendy deveria ter desenvolvido uma imunidade contra Jonathon. Em vez disso, a visão dele afetava-a cada vez mais. Toda aquela pele desnuda. Bronzeada. Com músculos definidos. A toalha estava enrolada baixo nos quadris. Era uma visão muito... masculina. E a distraía. Ela se forçou a fitar-lhe os olhos e encontrou-o sorrindo, como se ele pudesse ler os pensamentos libidinosos em sua cabeça. – Você precisa de alguma coisa? – perguntou Jonathon. A arrogância dele trouxe sua raiva de volta. Sim, ela precisava de alguma coisa. Precisava diminuir o ego dele. E, depois, precisava de algumas respostas. – Meu tio tentou chantageá-lo?


Todos os músculos no corpo de Jonathon enrijeceram. Apesar disso, ele manteve a expressão cuidadosamente neutra. – Com quem você esteve falando? – Apenas responda minha pergunta. Ele abriu a boca, claramente indeciso sobre o que falar. Então, houve uma batida à porta. – Dê-me um minuto – disse ele, em resposta. – Eu preciso fazer xixi, e tem alguém no outro banheiro. – Veio a vozinha inconfundível de Sara do outro lado da porta. Jonathon olhou-a como se aquilo fosse culpa dela. Wendy deu de ombros. Jonathon gesticulou a cabeça em direção à porta, indicando que ela saísse. Wendy meneou a cabeça. – Eu preciso muito, muito ir! Acho que não vou conseguir segurar. – A garotinha bateu insistentemente à porta. Wendy removeu sapatos e meias e chutou-os para perto do cesto de lixo. Jonathon arqueou uma sobrancelha em pergunta, mas ela o ignorou, enquanto abria a cortina de plástico e entrava na área do chuveiro quente. A última coisa que viu antes de fechar a cortina foi a expressão exasperada no rosto dele. – Entre. – Ela o ouviu dizer. – Mas seja rápida. – Cruzes, tio Jonny, você está nu! – exclamou Sara. – Eu estava prestes a entrar no banho – replicou ele, o tom mais seco do que Wendy estava agora. Mesmo pressionada contra a parede de trás, a ducha espirrava água nas pernas de seu jeans. – Você não vai fazer xixi? – Ela ouviu Jonathon perguntar. – Não enquanto você estiver olhando – respondeu a garotinha. – Eu me viro de costas. – Entre no banho de uma vez. E não ouça! – Houve um momento de silêncio, durante o qual Wendy imaginou Jonathon reunindo sua paciência. – Vá! Ela viu os dedos de Jonathon em volta da cortina de plástico. Wendy foi para baixo da ducha, a fim de dar espaço para ele. Um instante depois, ele abriu a cortina e entrou, a toalha ainda em volta dos quadris. A água ensopou os cabelos e roupas dela. O olhar de Jonathon percorreu-a como um toque. Wendy tremeu, e tentou dizer a si mesma que era por causa das roupas molhadas, mas sabia que isso era mentira. Não estava com frio. Como poderia sentir frio, quando Jonathon estava tão perto? E quase nu? Ele a olhou de cima a baixo, tornando-a dolorosamente ciente de suas roupas aderidas à pele e de seus mamilos rijos contra a seda do sutiã. Desejo e raiva se uniram num misto potente que fez sua cabeça girar. Do outro lado da cortina, ela podia ouvir Sara se movendo no banheiro. A descarga foi puxada. A água esfriou por alguns segundos, fazendo Wendy tremer de verdade. Então a torneira da pia foi usada. Um momento depois, a porta do banheiro foi aberta e fechada. Subitamente, eles estavam sozinhos. Embaixo do chuveiro. Ela estava ensopada, e ele, quase nu. Isso não parecia uma boa ideia.


– Agora – disse ele, a voz controlada –, você pode sair do banheiro? Deixe-me terminar meu banho. Em paz. – Não. – Wendy falou a palavra antes mesmo que pudesse processar o pedido dele. Mas sabia que era a resposta certa. – Eu não vou sair até que você me responda. Meu tio o chantageou para conseguir uma anulação do nosso casamento? – Não. Agora saia. – Mas... – Saia. Agora. Ou eu não me responsabilizo por minhas ações. – Eu não vou sair até que você explique... Jonathon não lhe deu a chance de acabar a sentença, mas puxou-a para si e cobriu-lhe a boca com um beijo. Ela lhe socou os ombros, mesmo enquanto abria a boca e correspondia ao beijo, saboreando o gosto da voracidade dele. Da impaciência de Jonathon. Ela o queria. Seu corpo o desejava, mas seu bomsenso lhe dizia para ficar longe. Ele podia dar muito prazer ao seu corpo, mas certamente esmagaria seu coração. Mas, quando ele a tocava assim, ela simplesmente não se importava. O beijo foi profundo e ardente, como se ele estivesse tentando consumi-la. As mãos grandes pareciam estar em todos os lugares ao mesmo tempo, misturando-se com a água sobre seu corpo em pura estimulação. Jonathon tocou-lhe os cabelos, o pescoço, os seios. Massageou seus mamilos através do sutiã. Depois, por baixo do sutiã. Ele lhe removeu a blusa e o sutiã, e as peças caíram no chão ensopado. Então ele a estava acariciando novamente. Era como se estivesse tentando absorver sua essência através das mãos. Como se estivesse unindo-a a ele. Ou talvez fosse apenas ela, projetando suas próprias emoções nele. Porque Wendy não conseguia parar de tocá-lo. Não podia impedir suas mãos de explorarem toda aquela pele gloriosa. Seus dedos tremiam com desejo quando ela alcançou a toalha. Mas parou a tempo. Abriu a mão contra o peito largo e o empurrou. – Pare – disse ela. Jonathon parou instantaneamente, afastando-se. Wendy encostou-se na parede, sua respiração ofegante. Esse era o problema do relacionamento deles. Fisicamente, eles formavam um par perfeito. E, se isso fosse o bastante para ela, tudo bem. Se tudo que ela quisesse fosse sexo fantástico, então não lhe importaria que Jonathon tivesse mentido sobre seu tio. Se tudo que ela quisesse fosse um marido para satisfazer sua família, então Jonathon ainda seria o homem perfeito. Mas Wendy queria mais que isso agora. Queria-o inteiro. Abalada até o âmago, ela estendeu o braço e desligou o chuveiro. Abriu a cortina e pegou uma toalha do suporte. Esfregando a toalha nos cabelos rapidamente, saiu do compartimento. Olhou para trás e viu que Jonathon se virara de costas para ela. Estava com o braço apoiado contra a parede, descansando a cabeça no antebraço, como se lutasse por controle. Bem, ela sentia o mesmo. – Por que você mentiu? – perguntou Wendy. Ele se virou. – O quê? – Sobre meu tio. Por que mentiu sobre ele ter chantageado você? – Eu não menti. – Ele pegou uma toalha e esfregou-a no rosto.


– Eu falei com meu tio. Sei a verdade. – Então você sabe que ele não me chantageou. Ele fez uma oferta. Eu recusei. Isso não é chantagem. É uma tentativa de chantagem. Ela o olhou, e, depois de um momento, teve de rir. – Este é você tentando se safar com um detalhe técnico. – Por que você está zangada sobre isso? – A confusão na voz dele era real. – Que bem lhe faria saber que seu tio é um patife? – Eu já sabia disso. – Ela pegou sua blusa do chão molhado e torceu-a. – Que bem faz a você esconder isso de mim? – Eu só estava... – Tentando me proteger? – terminou Wendy, enquanto vestia a blusa pela cabeça. – Sim, eu entendi isso. Mas você precisa parar de me fazer favores. Porque isso não está ajudando as coisas. – Eu não sei o que você quer dizer. – É claro que não sabe. – Ela deu uma risada amarga. Jonathon podia ser brilhante no que dizia respeito a dinheiro, mas, quando se tratava de emoções, ele era um idiota. – Eu agora sei por que você estava tão determinado a fazer isso dar certo. Mas acho que ainda não entende o que acontece. – Do que você está falando? – Você abandonou sua família quando era tão jovem, e ainda não encontrou um jeito de voltar para eles. E também não fez as pazes com isso. – O que minha família tem a ver com a nossa situação? – Você adora crianças. Seria um ótimo pai, mas não se sente digno de ter sua própria família. Não quando abandonou a sua. Então, Peyton e eu somos prêmios de consolação. Você conseguiu ter uma família, mas mente para si mesmo e finge que está fazendo isso pela FMJ ou para me proteger. – Você está errada. – Eu não acho que estou. Você está tão fora de contato com o que realmente quer que nem reconhece o que está acontecendo. Pense, Jonathon, por que você se casou comigo, para começar? – Para que você pudesse manter a custódia de Peyton. – Não, esse foi o motivo pelo qual eu me casei com você. O seu motivo era porque isso seria o melhor para a FMJ. Eu ia me demitir e você estava tentando proteger a empresa. Todavia, em algum lugar ao longo do caminho, você perdeu tal foco. A companhia deveria vir em primeiro lugar, certo? O maxilar dele enrijeceu. – A empresa não deveria vir antes da minha esposa. – Não. Eu sou sua assistente. Antes de ser sua esposa, eu era apenas a melhor, mais eficiente e mais organizada assistente que você já teve. Foi por isso que se casou comigo. Porque era o melhor para a FMJ. – Wendy segurou-lhe o queixo na mão, e gentilmente inclinou-lhe o rosto, de modo que ele a encarasse. – Vou facilitar as coisas para você. Sua lealdade é com a FMJ. Com Ford e Matt. Onde sempre estiveram. Sem problemas. – Pare com isso! – ordenou ele, afastando o rosto da mão dela. – Não é você quem decide isso. Ela deu outro sorriso amargo. – Você realmente acha que importa para o meu tio qual de nós termina o relacionamento? Ele provavelmente ficará feliz em saber que foi eu quem terminou. – É isso que você está fazendo? Cedendo para o seu tio? – A voz de Jonathon era zombeteira, mas ela sabia a dor que ela escondia.


– Se eu aceitar a oferta do meu tio, você consegue o contrato com o governo. A FMJ ganha. – Ela manteve a voz calma, mesmo que seu coração estivesse partido. – Eu não vou... sacrificar nosso casamento, apenas para que a FMJ possa ganhar algum contrato estúpido com o governo. – Não. Mas eu vou. Você não é o único que ama essa empresa. Eu acredito na FMJ. E acredito que você irá continuar fazendo coisas ótimas com a firma, mesmo se eu não estiver lá. Portanto, não me desaponte, certo? – ENTÃO É isso? – questionou Jonathon, sentindo-se totalmente ultrajado. – Você vai embora? – Era o que eu deveria ter feito desde o começo. – Não. Eu não acredito nisso. Não acredito que você acredite nisso. – Ela nem mesmo encontrava seu olhar, enquanto vestia a blusa molhada. E, pela primeira vez desde que aquela ridícula conversa começara, Jonathon considerou a possibilidade de Wendy realmente sair pela porta e abandoná-lo. Ele lhe agarrou o braço e virou-a de frente para si. – Se você realmente quer me deixar, então tudo bem. Mas não minta para mim, dizendo que está fazendo isso porque é o melhor para a FMJ. Não minta para si mesma, também. – Certo, você quer a verdade. Aqui está... eu sei o quanto esse contrato é importante para você, e não posso deixá-lo jogar fora. Não por mim. Você acabaria se ressentindo de mim, algum dia. E eu não suportaria isso. Então, Jonathon falou a única coisa que pensou que pudesse fazer uma diferença. – Não esqueça que dormimos juntos. Não será fácil conseguir uma anulação do casamento. E eu não facilitarei para que você me abandone. Ela lhe encontrou o olhar diretamente. Havia alguma coisa tão triste nos olhos cor de violeta. Os lábios de Wendy se curvaram num sorriso sem humor, mas que continha carinho e sofrimento. – Nunca seria fácil abandonar você. Eu sabia disso o tempo todo. E, com isso, ela saiu do banheiro, as roupas pingando no caminho. Pelo que devia ter sido um minuto inteiro, Jonathon permaneceu imóvel, chocado por ela ter feito aquilo, embora ela tivesse dito que faria. Ele enrolou uma toalha seca em volta da cintura e foi atrás dela, seguindo os pingos de água como uma trilha de farelos de pão. Entrou na saleta da família, mal ciente dos olhares curiosos que seguiram seu progresso seminu pela casa. Então voltou para o quarto de hóspedes, onde eles tinham dormido. Natalie estava sentada sozinha na cama, parecendo confusa. – Ela levou Peyton? – demandou ele. – Sim – replicou Natalie. – Ela entrou aqui, pegou o bebê e a mala e saiu correndo. Para onde... Jonathon não esperou para ouvir o resto da pergunta, mas saiu andando apressadamente pela casa. Ouviu uma risada adulta e uma de suas sobrinhas perguntando: – Mamãe, por que ele está nu? Ele saiu no gramado da frente a tempo de ver Wendy fechar a porta traseira do carro e subir atrás do volante. A toalha escorregou enquanto ele corria para o carro. Segurando as pontas da toalha numa das mãos, bateu no vidro com a outra. Mas ela não parou ou diminuiu a velocidade. E, um segundo depois, ele foi deixado na rua. Vestindo apenas uma toalha. E, uma vez que Wendy levara seu carro, ele não tinha como voltar para casa.


Uma vez que ela estava indo embora e levando Peyton consigo, ele n達o tinha mais um lar.


CAPÍTULO 19

JONATHON PERMANECEU ali na estrada por um longo tempo, observando a esquina na qual seu Lexus desaparecera. Ele poderia ter ficado lá o dia inteiro, choque enraizando-o ao chão, se sua irmã não tivesse ido ao seu encontro. Com braços cruzados sobre o peito, ela o olhou de cima a baixo. – Bem, você realmente estragou tudo, não é? – Depois de todos esses anos, como você ainda é tão irritante? Ela sorriu. – Sou sua irmã mais velha. É minha obrigação moral apontar quando você comete um erro colossal. – Obrigado. Muito útil. Olhando para a casa, ele percebeu que o marido de Marie e os cinco filhos deles haviam saído para o gramado para observá-los. Não era de admirar. Com que frequência você via um homem apenas numa toalha correndo atrás de um carro? Jonathon virou-se e voltou para a casa. Marie o seguiu. – O que você vai fazer? – O que acha que vou fazer? Marie sorriu. – O irmão de quem me lembro iria atrás dela e a reconquistaria. Ele assentiu. – Eu preciso do seu carro emprestado. – Emprestado? – Lacey riu. – De jeito nenhum. Acha que nós vamos deixar você fazer isso sozinho? – Eu esperava que sim – admitiu ele, exasperado. Mas quando sua família fizera o que ele queria que eles fizessem? – Uma pena – disse Mark. – Essa é a coisa mais interessante que acontece desde que aquele caminhão da loja de brinquedos virou na nossa esquina e todas as crianças do quarteirão ganharam brinquedos de graça na semana antes do Natal.


WENDY BREVEMENTE considerou não ir para o hotel e dirigir direto para seu apartamento em Palo Alto. Depois de confrontar Jonathon, a última coisa que queria era ver sua própria família. Todavia, ainda precisava convencer Mema de que era a melhor mãe para Peyton, e abandoná-los em Palo Verde, sem uma palavra, não ajudaria sua causa. Ademais, tinha negócios inacabados com seu tio. O hotel Ellington House ficava na avenida principal, a duas quadras do Cutie Pies. Ela achou uma vaga na rua, tirou uma camisa seca e um jeans da mala. Não era fácil trocar de roupa dentro do carro sem chamar atenção, mas ela conseguiu. Então, pegou Peyton da cadeirinha e andou para o hotel. Quando ela ligara para sua mãe, mais cedo, a família estava indo se reunir no terraço do refeitório do hotel para o café da manhã. Se tivesse sorte, eles ainda estariam lá, e ela poderia acabar com aquilo de uma vez. Atravessando o saguão, subiu a escada para o restaurante no segundo andar e abriu as portas duplas que levavam ao pátio. Foi lá que ela os encontrou, sentados a uma mesa longa, com vista para a avenida principal. Mema estava a uma das cabeceiras, tio Hank à outra. Seus pais, Hank Jr. e Helen acomodados nos outros lugares. Todos pareciam à vontade entre porcelana chinesa e bules de prata, comendo ovos poché com molho holandês. A refeição era a cara de sua família. Sem waffles caseiros ali. Apenas refeição elegante e uma determinação férrea de ignorar a tensão fervilhando sob a superfície. Essa seria sua vida de agora em diante. Wendy temia aquilo com cada fibra de seu ser. Entretanto, ainda era preferível à vida da qual estava fugindo. Sabia como a FMJ era importante para Jonathon. Ela não podia arruinar o que ele planejara para a empresa. Parou perto de Mema. Com Peyton ainda acomodada em seu quadril, falou para todos, em geral: – Vocês venceram. O rosto de tio Hank abriu-se num sorriso amplo. Os olhos de Helen brilharam com ambição. Hank Jr. pareceu entediado, como sempre parecia, desde que pusera os pés na Califórnia. Seus pais trocaram olhares preocupados. Olhares que pareceram... por uma vez... revelar a verdadeira preocupação por ela. Talvez houvesse um lado positivo em tudo isso, afinal de contas. Seu coração seria despedaçado num milhão de partes, mas as partes que seus pais tinham quebrado anos atrás começariam a curar. Aquilo lhe dava esperança de que, talvez, seu coração partido por Jonathon pudesse curar algum dia, também. Mema gesticulou a cabeça para uma cadeira vazia à outra mesa. – Bem, Gwen, uma vez que você interrompeu nossa refeição novamente, puxe uma cadeira e explique-se. – Então ela deu um olhar irritado para Helen. – Helen, querida, tente conter sua alegria. Apesar da situação, Wendy sorriu. Engraçado como sua família dominadora não era tão insuportável, agora que ela era adulta e os abordava em seus próprios termos. Seu pai puxou uma cadeira para ela, e Wendy sentou-se entre sua mãe e sua avó. Olhando em volta, sentiu-se estranhamente em paz sobre sua decisão. Sim, essa seria sua vida de agora em diante. Às vezes. Ela teria de lidar com eles, assim como Peyton. Mas essa não seria a única vida delas. As duas poderiam suportar molho holandês de vez em quando, contanto que tivessem waffles de banana com lascas de chocolate na maior parte do tempo. Encarando seu tio, ela começou: – Eu espero muito que o senhor honre o acordo que ofereceu a Jonathon.


O sorriso dele ampliou-se. – Certamente. Então, Wendy voltou-se para seus pais. – Mamãe, papai. Eu gostaria de finalmente aceitar... Mas, antes que ela pudesse dizer-lhes que aceitaria o emprego em Morgan Oil, a porta do terraço se abriu. Irritada pela interrupção dos funcionários, ela se virou na cadeira para mandá-los embora. Só que não era um funcionário. Era Jonathon. Juntamente com o que parecia ser... todos os Bagdon da cidade. Ela se levantou. – O que é... – Eu não vou deixá-la ir embora – disse ele, sem rodeios. Pela primeira vez desde que ela o conhecera, Jonathon parecia desalinhado. Estava vestindo jeans e uma camisa amassada aberta sobre uma camiseta de alguma banda de rap, a qual estava obviamente muito apertada. Agarrando Peyton contra o peito, ela o olhou com raiva. – Eu não terei esta discussão aqui. – Então não deveria ter fugido. – Ele arqueou uma sobrancelha. – Se você quiser, podemos voltar para a casa da minha irmã e terminar a conversa no chuveiro. Helen arfou, indignada, mas, ao lado dela, Hank Jr. deu uma risadinha, gemendo de dor em seguida, quando foi chutado embaixo da mesa. Wendy olhou por sobre o ombro para ver Mema sorrindo. – Minha querida, uma vez que agora não há esperança de acabarmos nosso café em paz, você deveria, pelo menos, ouvi-lo. – Certo. – Ela o fitou, desconfiada. – Fale. Mas antes que ele abrisse a boca, Lacey colocou-se entre eles e estendeu os braços. – Deixe-me segurar Peyton. Tenho a impressão de que vocês irão querer os braços livres, depois que isto terminar. – Ela está bem aqui – disse Wendy, teimosamente. – Oh, se alguém vai segurar Peyton, serei eu – murmurou sua mãe, praticamente arrancando o bebê de Wendy. Wendy cruzou os braços sobre o peito. – Vá em frente – falou ela para Jonathon. Ele olhou para a família dela de um lado, e para a própria família bloqueando a única porta de volta para dentro do hotel. Então, capturou-lhe o braço e conduziu-a para o canto mais distante do terraço. – Quero outra chance para fazer isso dar certo. Você e eu somos bons, juntos. – Bons na cama? – perguntou ela. – Eu não vou discordar. Bons no trabalho? Com certeza. Porém, quero mais do que isso. Preciso de mais do que isso. Jonathon passou a mão pelos cabelos, estudando-lhe o rosto. Recusando-se a encontrar o olhar dele, Wendy focou-se na camiseta absurda. – E por que diabos você está usando essa camiseta? – É minha! – gritou uma voz perto da porta, destruindo a ilusão de privacidade. Ela olhou por sobre o ombro de Jonathon para ver o irmão mais novo de Lacey, Thomas, com a mão erguida.


Jonathon fez uma careta. – Você levou nossa mala. Eu não tinha outra roupa além do jeans. – Oh. Desculpe. Eu não pretendia deixá-lo sem nada... – Então não me deixe sem nada – interrompeu ele. – Não entende? Se você partir, vai me deixar sem nada. O nó no peito de Wendy afrouxou-se um pouco. – Prossiga. – Talvez sua teoria louca sobre eu abandonar minha família esteja certa. Talvez eu nunca tenha me perdoado por deixá-los. E talvez seja por isso que nunca me casei antes. Mas não é por isso que me casei com você. Ela finalmente encontrou-lhe o olhar. A emoção que viu nos olhos verdes roubou-lhe o fôlego. Mas só ver não era o bastante. Ela precisava ouvir dos lábios dele. – Por que se casou comigo, então? – Por que você acha? – Não me basta intuir como você se sente. Eu preciso ouvir as palavras. De você. – Ela lhe segurou o queixo, forçando-o a encará-la. – Qualquer coisa que sinta não vai me assustar. – Eu amo você, Wendy. Acho que sempre a amei. – Jonathon sorriu. – Talvez isso não a assuste, mas me apavora. Porque eu não sei o que faria se você me deixasse. Wendy mordeu o lábio, tentando conter as lágrimas de alegria. – Melhor – murmurou ela. – Continue. Ele suspirou. – Você não pode me deixar sem violar os termos do acordo pré-nupcial. – O quê? – Foi você quem disse que, quando o casamento acabasse, cada um iria embora com tudo que tinha quando nós começamos. Mas, se você partir agora, levará meu coração. Alguém atrás gemeu. Então Thomas gritou: – Cara, espero que isso soe melhor na sua cabeça. Porque foi horrível. Jonathon ignorou-o. – Eu achei lindo! – palpitou Lacey. Wendy entrelaçou os dedos nos cabelos de Jonathon e puxou-o para um beijo. Antes que seus lábios se tocassem, ela admitiu: – Eu também achei muito bonito. O beijo foi doce e gentil. Repleto de amor e potencial. Quando ele levantou a cabeça, Wendy declarou: – Eu o amo, Jonathon Bagdon. E isto também me assusta. Muito. Mas, pelo menos, nós não estamos sozinhos. Ele lhe deu um de seus raros sorrisos, encantando-a. – Eu a amo, Gwendolyn Leland Morgan Bagdon. Você vai se casar comigo? – Ele pausou. – De novo? Wendy abraçou-o pelo pescoço e sussurrou um “sim” no ouvido dele. Então, acrescentou: – Você sabe que eu prefiro apenas Wendy Bagdon. Ela olhou por sobre o ombro de Jonathon para ver Lacey fazendo-lhe o sinal de positivo com o polegar. Thomas ainda balançava a cabeça, como se o tio que ele mal conhecia fosse um grande


desapontamento. Marie e o marido estavam abraçados, sorrindo amplamente. A família de Wendy parecia menos exuberante. Tio Hank estava carrancudo. Hank Jr. pegara seu celular e estava checando mensagens. Helen parecia prestes a ter um ataque de fúria. Mas sua mãe estava sorrindo, e, enquanto Wendy observava, seu pai apertou a mão de sua mãe. Até mesmo Mema parecia... quase... estar sorrindo. Wendy gesticulou a cabeça em direção ao seu tio e sussurrou para Jonathon: – E quanto ao contrato com o governo? Ele bufou. – Quem se importa? Uma decisão não vai mudar o futuro da FMJ. Um contrato ganho ou perdido não vai fazer ou quebrar a empresa. – É muito dinheiro. – E nós somos uma empresa que diversifica. Ficaremos bem. – Tem certeza? – perguntou ela, porque detestava pensar que ele pudesse vir a se arrepender da decisão. Em resposta, Jonathon pegou-lhe a mão e conduziu-a de volta para a mesa onde a família dela estava. Passando um braço à sua volta, começou formalmente: – Hank Jr., nós podemos negociar visitas para vocês, mas somente se recuarem. – Ele olhou para Helen. – Se alguém desta família quiser brigar por Peyton, que o faça. Mas saibam que nós lutaremos por ela. E temos toda a intenção de ganhar. Não importa quanto isso custe. E, se vocês entrarem nessa luta, quando perderem, nunca mais verão Peyton ou Wendy. Antes que tio Hank pudesse falar alguma coisa, Mema levantou-se. – Eu não acho que vocês precisam se preocupar com isso. Mas espero ver minha neta e minha bisneta com mais frequência, agora que ela está acomodada. – Nós podemos fazer isso – concordou Jonathon. – Agora, se me derem licença, vou levar minha esposa e minha filha para tomar café da manhã. – Ele olhou para ela. – O que acha de um donut no Cutie Pies? – Perfeito. Ela não mencionou os waffles de banana com lascas de chocolate. Aquilo parecia uma vida inteira atrás, de qualquer forma. Eles andaram os dois quarteirões até o Cutie Pies, com a família de Jonathon seguindo-os. Tinham quase chegado ao Café, quando Wendy perguntou: – Quando você descobriu que me amava? Ele parou de andar e olhou-a. – Acho que eu sempre a amei. – Então Jonathon riu. – Não achou realmente que eu a pedi em casamento apenas para impedir que você se demitisse, achou? – Sim, eu achei. – Ora, ninguém é uma assistente tão boa assim. Wendy socou-lhe o braço. – Sim, eu sou! – Você é uma assistente incrível. – Ele lhe beijou a testa. – Mas é uma esposa melhor ainda.


CALOR DA SEDUÇÃO Brenda Jackson

– Nada mudou? Como ousa impor sua presença sobre mim depois do que fez? – explodiu ela, transformando-se de dama sofisticada em leoa feroz. Gostava de vê-la abrir mão de toda aquela formalidade e ficar furiosa. Cruzou os braços sobre o peito. – E o que eu fiz exatamente, além de passar dois meses que considero os melhores da minha vida com você, Kalina? – E devo acreditar nisso? Você vai ficar aí, mentindo na minha cara, Micah? Negando que estava em conluio com meu pai para me manter longe de Beijing? Usando quaisquer meios necessários? Eu não era necessária em Sydney. – Não nego que concordei com seu pai que Beijing era o último lugar que você precisava estar, mas nunca concordei em mantê-la longe da China. Micah podia dizer que ela não queria ouvir a verdade. Kalina ouvira tudo isso antes, mas recusava-se a acreditar. – Não era como se você não fosse necessária em Sydney – acrescentou Micah, lembrando da forma que tinham sido enviados para lá, a fim de combaterem uma possível epidemia mortal. – Você e eu trabalhamos duro para impedir que a epidemia da gripe aviária se espalhasse pela Austrália, portanto, não era apenas sexo, sexo e mais sexo, Kalina. Trabalhamos arduamente, ou você esqueceu? Micah sabia que sua declaração a fizera lembrar. Sim, podiam ter dividido uma cama todas as noites durante dois meses, mas as horas que compartilhavam durante os dias não eram apenas divertimento. Kalina quisera ir para Beijing. Micah nem podia imaginar como teria ajudado. Ela não era apenas uma excelente epidemiologista, mas também uma pessoa compassiva, especialmente quando havia algum tipo de epidemia. Podia vê-la se apegando às pessoas, principalmente às crianças, a ponto de colocar o bem-estar dos outros antes do próprio. Somente por isso concordara com o pai dela, mas nunca planejara ter um caso com Kalina para mantê-la em Sydney. Tinha ciência de que toda a hostilidade dela era por acreditar no contrário. E, por dois anos, a deixara pensar o pior, porque Kalina recusara-se a ouvi-lo. E ainda se recusava.


– Você já acabou de falar, Micah? – Não, nem comecei. Mas não posso falar tudo esta noite. Preciso vê-la amanhã. Sei que estará na cidade pelos próximos dias, assim como eu. Vamos almoçar. Melhor ainda, vamos passar esse tempo juntos para esclarecer as coisas. – Esclarecer as coisas? – repetiu Kalina quando fúria a assolou. Micah só podia ter enlouquecido. Ele honestamente achava que ela quereria passar um único minuto na sua presença? Estar ali com ele agora a deixava nervosa. Onde estava o champanhe quando se precisa? Nada a faria mais feliz no momento do que jogar o conteúdo de uma taça no rosto dele. – Acho que preciso lhe explicar algumas coisas, Micah. Não há nada a ser esclarecido. Evidentemente você pensa que eu sou uma mulher que pode ser tratada de qualquer jeito. Bem, eu não sou. Não preciso de você mais do que precisa de mim. Não aprecio o modo como você e papai manipulam situações para satisfazerem suas necessidades E eu... – Acha que é isso que eu estava fazendo, Kalina? Exercer algum tipo de poder sobre você? Que tipo de pessoa pensa que eu sou? Kalina ignorou o desapontamento na voz dele. Era provavelmente apenas uma representação. Após aqueles dois meses, ela descobrira que ótimo ator Micah podia ser. – Acho que você é igual a todos os homens que meu pai tentou jogar em mim. Ele diz “pula”, e todos vocês perguntam “de que altura?”. Pensei que fosse diferente e me enganei. Você vê o papai como algum tipo de herói e tudo o que ele fala é sagrado. Embora Micah seja um nome bíblico, o do meu pai não é. Tenho 27 anos, idade suficiente para tomar minhas próprias decisões. E nem você nem meu pai tem de dar palpite nisso. De repente, seus pés foram tirados do chão e ela estava nos braços de Micah. Ele lhe cobriu a boca com a sua, roubando suas palavras e todo o ar de seus pulmões. Kalina lutou contra ele, mas apenas por um minuto. Então as memórias de como era bom beijá-lo destruíram toda sua resistência. E ela entregou-se ao que sabia ser o prazer do tipo mais intenso.

E leia também em Laços de Paixão, edição 236 de Desejo, Ecos do passado, de Brenda Jackson.


236 – LAÇOS DE PAIXÃO – BRENDA JACKSON Calor da sedução Micah Westmoreland sabe que Kalina Daniels jamais o perdoara pelo fim do relacionamento. Agora tendo de trabalhar juntos, Micah percebe que a química entre eles ainda existe. E fará de tudo para que Kalina seja sua! Ecos do passado A busca de Megan Westmoreland pela verdade a coloca no caminho do investigador particular Rico Claiborne. E quando segredos obscuros são revelados, ele se oferece para confortá-la… entre os lençóis. Últimos lançamentos: 234 – LEILÃO DE SOLTEIROS – EMILIE ROSE Vendido para o prazer Juliana queria viver uma aventura. E quando viu o delicioso Rex Tanner em um leilão, sabia que precisava comprá-lo… e transformá-lo no homem de suas fantasias mais libidinosas. Vendido para a redenção Andrea tem a chance de se vingar do homem que partiu seu coração, oito anos atrás. Só precisava dar o lance mais alto por Clayton Dean. Ele sabia que tudo o que Andrea queria era descobrir o motivo do rompimento. Mas a verdade poderia ser devastadora. Vendido para a sedução A promessa de comprar um solteiro em um leilão de caridade deixou Holly Prescott com um homem inesperado: Eric Alden. Contudo, a atração entre eles é forte demais para ser ignorada… e explosiva


demais para que continue‌


CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ C464m Child, Maureen Motivos para mudar [recurso eletrônico] / Maureen Child; tradução Angela Monteverde, Ligia Chabú.. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Harlequin, 2015. recurso digital Tradução de: Triple the fun; The tycoon's temporary baby Formato: ePub Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions Modo de acesso: World Wide Web ISBN 978-85-398-2009-2 (recurso eletrônico) 1. Romance americano 2. Livros eletrônicos. I. Monteverde, Angela. II. Chabú, Ligia. III. Título. 15-25236

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Capa Texto de capa Rosto Sumário

DOSE TRIPLA Querida leitora Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Capítulo 11

ACORDO DE PAIXÃO Querida leitora Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Capítulo 11 Capítulo 12 Capítulo 13 Capítulo 14 Capítulo 15


Capítulo 16 Capítulo 17 Capítulo 18 Capítulo 19

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