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Hlq Históricos 133 – O limite da paixão – Blythe Gifford

O LIMITE DA PAIXÃO CAPTIVE OF THE BORDER LORD

Blythe Gifford Casar-se com ele significa trair sua família. Bessie, a abnegada irmã do obstinado clã Brunson, se sacrificou pela honra de sua família e está a mercê da corte do rei James. Deslocada naquele ambiente, ela ainda tem que lidar com sua desconfiança em relação a lorde Thomas Carwell. Sob o olhar implacável de seu carrasco, Bessie se deixa envolver por ele e pela opulência de um mundo muito diferente do dela. Quando o rei, furioso, exige a cabeça de seu irmão, Carwell é a única pessoa que pode atender à súplica de Bessie. Mas qual será o preço da proteção dele? Digitalização: Projeto Revisoras Revisão: Paula Lima

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Querida leitora, Quando comecei a escrever a segunda história da trilogia sobre o clã dos Brunson tudo o que eu sabia era “a irmã vai para a corte”. A próxima ideia pareceu apenas confundir mais as coisas. “Cinderela... sussurrou minha musa. Ela também disse “Rebecca... a primeira esposa perfeita do conto de Daphne Du Maurier. Mas a mensagem mais forte que recebi foi a imagem de uma dança em um castelo perto do mar. Parecia saída de um conto de fadas, e um tanto quanto extravagante para a franca e prática irmã de um rústico bando de guerreiros da fronteira. Mas esta é, na verdade, a exata intenção da história. Boa leitura! Blythe Gifford

Tradução Vera Vasconcellos HARLEQUIN 2013 PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES II B.V./S.à.r.l. Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Título original: CAPTIVE OF THE BORDER LORD Copyright © 2013 by Wendy B. Gifford Originalmente publicado em 2013 por Mills & Boon Historical Romance Projeto gráfico de capa: Nucleo i designers associados Arte-final de capa: Isabelle Paiva Diagramação: Editoriarte Impressão: RR DONNELLEY www.rrdonnelley.com.br Distribuição para bancas de jornais e revistas de todo o Brasil: FC Comercial Distribuidora S.A. Editora HRLtda. Rua Argentina, 171, 4 andar São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ — 20921-380 Contato: virginia.rivera@harlequinbooks.com.br

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Capítulo Um

Fronteira da Escócia, novembro de 1528 Bessie Brunson inspirou profundamente e se preparou para subir um lance de escada pelo que parecia ser a centésima vez desde o nascer do sol. Ainda não era meio-dia. Os degraus que a encaravam agora levavam ao topo da barbacã, onde os irmãos faziam a vigilância. E isso era uma vantagem, pois desse modo não ficavam em seu encalço enquanto realizava os preparativos para a festa de casamento. Mas dois homens adultos precisavam se alimentar, portanto Bessie ergueu a saia alguns centímetros com uma das mãos, equilibrou a sacola com os bolos de aveia na outra e começou a subir a escada. Um trovão ribombou, fazendo-a erguer o olhar para o céu de novembro, assustada. Cinza, varrido pelo vento, mas... Não era um trovão. Era um tropel de cavalos. Bessie se apressou em subir o que restava dos degraus para alcançar o caminho da ronda ao longo da parede da torre. Em seguida, se colocou entre os dois irmãos e dirigiu o olhar ao oeste do vale que lhes pertencia. — Quem está chegando? O Rob Negro fez um movimento negativo com a cabeça. — Ninguém que eu deseje ver. Bessie estreitou o olhar contra o vento, enquanto as bandeiras coloridas de verde e dourado se tornavam cada vez mais visíveis. As cores do lorde Thomas Carwell, o guardião da fronteira escocesa. Eu o responsabilizarei, se algo acontecer, dissera-lhe Bessie, pouco antes de Willie Storwick escapar. E o guardião da fronteira nunca provara sua inocência. Não de maneira que a satisfizesse. — Nós não o convidamos para o casamento — disse ela, dirigindo-se ao irmão, John. — Não ― respondeu ele. ― Mas Carwell foi cortês o suficiente para enviar um homem antes, anunciando sua chegada. — Apenas porque sabia que seria alvejado se chegasse sem aviso prévio — disse Rob. Bessie suspirou. Nenhum dos dois irmãos se lembrara de lhe dizer que a lista de convidados podia aumentar. — Vocês o deixarão entrar? À esquerda de Bessie, o Rob Negro, agora o líder do clã, tocou a balestra com o dedo. — Preferia abatê-lo. Johnnie, o mais alto, com o cabelo ruivo como o dela, negou com a cabeça. — Fizemos o suficiente para suscitar a raiva do rei. Escutemos ao menos o que Carwell tem a dizer. Rob exibiu uma carranca e Bessie prendeu a respiração, esperando que mais uma discussão começasse, por fim, porém, o irmão mais velho apenas assentiu. — Mas não contemos nada para ele. Os cavalos perdiam a velocidade à medida que se aproximavam do portão. Carwell removeu o elmo, em um gesto de paz, e afastou o cabelo castanho liso da testa enquanto Projeto Revisoras

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erguia o olhar para os três Brunson. — Estamos aqui para celebrar uma data festiva. — Pode parar com a conversa fiada, Carwell — rosnou Rob. — Ninguém o convidou a vir até aqui. — Um mero descuido. Tenho certeza de que pretendia incluir o representante do rei em sua lista de convidados. Ao lado de Bessie, Johnnie cerrou uma das mãos em punho. Voltara para casa como um homem do rei, mas permanecera ali como um Brunson. Algum dia, todos teriam de responder por isso. — Nossa hospitalidade não se estende àqueles que nos traem — gritou Rob, olhando para baixo. — Uma acusação que neguei. — Mas que não provou ser falsa — respondeu John. — E, ainda assim, montou e lutou ao meu lado. — É verdade — retrucou Rob. — Mas isso não significa que confiamos em você. Ninguém sabia de que lado o guardião da fronteira estava, a não ser o dele mesmo. Carwell esticou o braço esquerdo, com a palma da mão para cima, e exibiu um sorriso implacável. — Juro por minha mão cristã que vim em paz. Agora foi a vez de Johnnie gritar: — E que partirá da mesma forma? Bessie suspirou. Poderia alimentar mais 12 homens se cortasse a carne em pedaços menores, embora não conseguisse pensar em um local onde eles pudessem dormir. Ela se inclinou sobre o muro. — Deixem suas armas no portão, não causem problemas e serão bem-vindos ao banquete — dizendo isso, girou e se dirigiu à escada, ignorando o olhar furioso de Rob e as sobrancelhas erguidas de Johnnie. — A carne não cozinhará sozinha enquanto três cabeças-duras trocam insultos. Não permitirei que o casamento de Johnnie seja maculado por tipos como ele. Carwell já causara estrago suficiente.

CARWELL forçou um sorriso, enquanto seus homens entregavam as lanças, espadas e balestras, antes de entrar no pátio da casa-torre. Desarmar-se não representava um risco. Se um Brunson quisesse matar alguém, antes se certificaria de que o oponente estivesse com uma espada em mãos. E Thomas Carwell era um homem que sempre calculava os riscos. Podia ser malquisto, mas estava vivo. Portanto, sorriria para aquelas pessoas e celebraria o casamento de John Brunson e Cate Gilnock, sem demonstrar que aquela união o havia colocado em uma situação extremamente delicada. Bessie Brunson estacou no pátio. A postura austera do queixo empinado não expressava nenhum acolhimento. — Diga-lhes para não comerem mais que a quota que lhes cabe. Eram palavras rudes escapando de lábios suaves, mas ele não respondeu ao insulto. Eu o responsabilizarei, dissera ela. Ao que parecia, Bessie ainda o culpava. Carwell também se culpara. Por coisas que ela nunca saberia. O sorriso lhe retesava os músculos do rosto. — Não nos tomaremos glutões. Por um instante, sentiu compaixão por ela. Atualmente, seu castelo sobejava em espaço. Teria capacidade para abrigar legiões de convidados inesperados. Mas a casa-torre dos Brunson fora construída para servir apenas como fortaleza. E Projeto Revisoras

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Bessie Brunson, a ruiva franzina, parecia necessitar da proteção daquela construção. Os olhos castanho-claros, que o estudavam, transbordavam de desconfiança. — Não foi por descuido que não foi convidado. A despeito da delicadeza feminina, ela se mostrava tão rude e obstinada quanto os irmãos. Aquela era uma boa forma de acabar sendo assassinado. — Mas eu quero celebrar com vocês — disse ele. — Congratular John e Cate. Isso e entregar uma mensagem que a família Brunson não gostaria de ouvir. As sobrancelhas erguidas e as linhas que vincavam a testa de Bessie sugeriam que ele não a enganara. — Então, faça isso — retrucou ela. — E nada mais. Carwell assentiu com a cabeça em agradecimento, como se ela tivesse o direito de lhe dar ordens. Muito em breve, Bessie descobriria a verdade. Quando ela relanceou o olhar ao irmão, um sorriso finalmente lhe tocou os lábios. — Eles merecem uma vida longa e feliz, juntos. — Sim — concordou Carwell. Algo que lhe fora negado em seu casamento.

APESAR OU por causa dos convidados extras, a celebração que começou ao meiodia entrou noite adentro. Ignorando a dor entre os ombros, Bessie observou o salão lotado, satisfeita. As bebidas ainda abundavam, a cantoria começara e, com a ajuda dos homens de Carwell, haviam consumido o último barril de vinho tinto que o falecido pai retirara da igreja para mantê-lo em segurança, quando o padre fugira para Glasgow. Abriram espaço para dança e, juntos, os noivos se enfileiraram com os outros. Embora Cate ainda se sentisse mais à vontade trajando calça comprida em vez do vestido que usava, flutuava ao lado de John, seguindo-lhe os movimentos. Os homens começaram a cantar a nova balada que haviam composto para ela. Corajosa Cate, eles a chamavam, Cate, a Destemida... Cate, rindo, tropeçou na saia do vestido e se amparou no sorridente marido. Bessie desviou o olhar. O salão estava lotado com homens que ela conhecera durante toda sua vida. Jock, o Estranho, Joe, o Sem Dedo, e os irmãos Tait. Porém, nenhum deles seria capaz de fazêla sorrir como Cate sorria para Johnnie. — Bom dia — disse Rob, próximo a ela. Não era apenas pela cor do cabelo e olhos que o irmão mais velho era chamado de Rob Negro. Ainda assim, até mesmo ele estava sorrindo. O olhar de Bessie flutuou até Thomas Carwell. Ele ainda mantinha um meio-sorriso estampado no rosto, tatuado como uma máscara permanente, cujo único objetivo era ocultar o que estava por trás. Bessie possuía certa prática em mascarar sentimentos. — Venha cá, Bessie! — chamou Johnnie. — Dance um pouco comigo. Com um movimento de cabeça, ela negou. — Os Brunson cantam, não dançam. — Palavras que o pai resmungava todas as vezes que a mãe tentava arrastá-lo para a pista de dança. O irmão soltou uma risada com a alegria natural de um homem que acabara de se casar. — Este Brunson dança. Venha cá. — Ele estendeu a mão. — Vou lhe mostrar como se dança na corte. Bessie negou com um gesto de mão, de repente ciente do olhar de Carwell fixo nela. Aquele homem também tinha o mesmo traquejo que Johnnie adquirira na corte, vivendo ao lado do rei em castelos distantes de lugares que ela nunca vira. E Bessie não tinha nenhuma intenção de parecer uma camponesa tola diante dele. Projeto Revisoras

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— Dance com sua noiva — respondeu ela. E então, antes que se desse conta, Carwell estava ao seu lado, cingindo-lhe a cintura. — Eu lhe mostrarei como é. — Sem esperar pelos protestos de Bessie, puxou-a para a pista de dança, posicionando-a de frente para ele. — Chama-se dança de Galliard e é composta apenas de cinco passos. Direita, esquerda, direita, esquerda e depois... — Ele saltou em um pé só de cada vez e pousou com os dois. — Agora você. Bessie baixou o olhar aos pés de Carwell e lhe seguiu o comando. Por apenas um instante, trajando seu melhor vestido, com o cabelo lavado recentemente, a dor lhe abandonou os ombros. Aquela devia ser a sensação de ser uma dama da corte, com passos leves, dançando diante do rei... Bessie encontrou os detestáveis e inconstantes olhos de Carwell. Certamente havia dançado com damas como aquelas, que sabiam executar todos os passos. Desequilibrando-se, ela tropeçou sobre o pé de Carwell, atingindo-lhe o queixo com a testa. Um intenso rubor se espalhou por seu rosto e ela recuou, sentindo-se a desajeitada que era. — Eu não danço. Deixe-me em paz. Bessie se afastou para se encostar em uma parede. Carwell se dirigiu a outras esposas e irmãs, fazendo cada uma delas soltar risadinhas é sorrir quando tropeçavam ao executar os passos da dança. Teria ela passado aquela imagem quando se encontrava ao lado dele? Mordendo o lábio inferior, Bessie virou de costas. Mulheres tolas. O último bolo de aveia com sabor de mel desapareceu para dentro do estômago de Jock, o Estranho, e Bessie desencostou-se da parede, retirou o prato vazio da mesa e desceu a escada para buscar mais. As outras mulheres que aproveitassem a dança. Ela encheria os pratos e canecas. Carwell a seguiu para fora do salão principal e pela escada. Bebera o suficiente para ser forçado a se retirar para se aliviar. — Há um banheiro naquele canto — disse ela por sobre o ombro, apontando para sua direção. Entreabrindo a porta, Bessie desejou que também pudesse permanecer dentro das paredes da torre, em vez de se aventurar pelo pátio para chegar à cozinha. Uma neblina fria estava suspensa na atmosfera, ameaçando se dissolver em chuva. Carwell se juntou a ela à porta. — Está se sentindo mal? Uma pergunta estranha. A mãe sempre lhe dizia que era tão saudável quanto um pônei Galloway. — Claro que não. — Então talvez precise de ajuda. — Ajuda? — Como era possível que um estranho percebesse o que os irmãos não conseguiam? Quando girou para encará-lo, certa de que não ouvira direito, Carwell se encontrava tão próximo que Bessie colidiu contra ele. Tão próximo que podia sentir a fragrância de couro e de mar. — Sim. — Uma palavra. Muito próximo ao seu ouvido. Àquela distância, seria possível virar a cabeça e tocar os lábios aos dele... E então Carwell se afastara um passo, segura e suavemente. O momento foi dissipado com tanta rapidez que a fez imaginar se não o teria imaginado. Uma rajada de vento errante soprou pela porta aberta, fazendo-a ajustar o xale aos ombros. Tinha certeza de que Thomas Carwell nunca fazia uma oferta que não fosse calculada e ela imaginava o que aquela significava. Bem, ele que espionasse a cozinha se quisesse. Projeto Revisoras

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— Venha. Bessie cobriu a cabeça com o xale e disparou pela umidade escura, sem olhar para trás para ver se ele a seguia. Bastava apenas uma dúzia de passos para alcançar a cozinha, mas quando entraram a neblina havia impregnado os ombros e o cabelo castanho de Carwell. Ela o estudou à luz do fogo, esperando por algum sinal de desconforto. Mas não encontrou nenhum. O sorriso de Carwell parecia tão inabalável quanto uma rocha. Por outro lado, os olhos mudavam a cada reflexo de luz. Seriam castanhos, verdes ou amêndoa? Virando de costas para ele, Bessie afastou a pergunta da mente. Mesmo que os olhos do guardião da fronteira fossem tão castanhos quanto os dos Brunson, aquilo não mudaria sua opinião sobre ele. Bessie deixara a mais nova das moças Tait ali, com instruções para tomar conta do fogo, mas a pobre menina caíra no sono, ressonando sobre o saco de aveia e lhes permitindo um momento a sós. — Você não queria de fato me ajudar — começou ela, encarando-o outra vez. — Da mesma forma que não veio até aqui apenas para festejar o casamento de John e Cate. Portanto, antes que estrague a ocasião mais feliz que os Brunson têm em meses, por que não me conta o motivo que o trouxe aqui?

Carwell MANTEVE o sorriso estampado nos lábios. Estava aprendendo a não subestimar Bessie Brunson, mas era difícil manter aquilo em mente quando olhava para ela. O cabelo ruivo cascateando sobre os ombros, o brilho da desconfiança nos olhos castanhos, os lábios carnudos, macios e prontos para... Carwell impediu aquela linha de pensamento. — Deixe que esta noite seja apenas de celebração. Conversarei com seus irmãos amanhã. — Amanhã? Quando o cérebro de Rob estiver embotado pela quantidade de vinho que está bebendo esta noite e Johnnie estiver confortavelmente deitado, se divertindo com a esposa? Carwell engoliu uma resposta ácida. — Eles se disporão a ouvir quando souberem o que me trouxe aqui. É um assunto para homens. Bessie passou os olhos pelo teto antes de olhar para ele. — Não há mulheres em seu castelo. Carwell pestanejou várias vezes. De fato, não havia. Não há anos. Não. Não... agora. A lembrança quase lhe fez o coração parar de bater. Nunca mais julgaria conhecer os anseios de uma mulher. Uma pontada de dor, um suspiro cansado poderia sinalizar a ameaça de algo pior. Carwell deixou o pensamento de lado. Não poderia dividi-lo com ninguém, muito menos com aquela mulher. Ainda assim, por um instante, imaginou que ela poderia entender. — Se houvesse — Bessie disse ―, saberia que não precisamos ser protegidas da verdade. Olhando para ela, Carwell duvidou que o clã a tivesse protegido de qualquer coisa. — Então saberá do que se trata, quando eles souberem. E será amanhã. — A paciência do rei não ia além daquela data. A despeito da oferta de ajuda, Bessie nada lhe pediu enquanto se movimentava pela cozinha, juntando, sem esforço, os pedaços de bolo de aveia e colocando outra fornada próxima ao forno a lenha. Projeto Revisoras

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Quando terminou as tarefas, acordou a menina e lhe disse para ficar atenta e não deixar que o fogo queimasse toda a cozinha. Por fim, se juntou a Carwell à porta. — Você queria ajudar. — Ela pousou os bolos, encheu duas jarras com cerveja de um barril e os apresentou a ele, com os olhos faiscando de raiva. — Então, carregue isto. Em silêncio, Carwell a seguiu pelo ar frio, orgulhoso por ter se contido e não derramado a preciosa cerveja de Bessie no chão. Aquela mulher era tão obstinada quanto os irmãos. Talvez um pouco mais. Porém, enquanto observava o ondular dos quadris de Bessie durante a caminhada, lembrou-se de como ela se recostara ao seu corpo durante a dança, seguindo-lhe o comando enquanto executava os passos desconhecidos. Durante aqueles poucos instantes, não houvera nada além da música, movimento e os dois. Bem, no dia seguinte todo o ódio de Bessie retornaria. Tão logo descobrisse que ele estava ali para levar seu irmão como refém.

Capítulo Dois

A celebração se prolongou, depois que incitaram Johnnie e Cate a se dirigir ao leito nupcial. Bessie afugentou o grupo da porta do quarto, estimulando-os a voltarem ao salão com cerveja fresca, para permitirem alguma privacidade aos recém-casados. De volta ao salão, a dança deu lugar às canções. Jock, o Estranho, tentava ensinar o cão de caça de Cate a cantar. Aos ouvidos de Bessie, o animal cantava tão bem quanto ele. Os homens de Carwell se entrosaram sem incidentes. Até mesmo Rob conversava animado, enquanto ela fazia mais uma incursão à cozinha, através do pátio. Carwell a observou sair, mas dessa vez não a seguiu. A neblina se transformara em chuva forte e Bessie se recostou contra a porta da cozinha, exausta, antes de cruzar o pátio correndo mais uma vez para chegar à torre. As irmãs Tait e a servente a ajudariam a limpar tudo no dia seguinte, mas ainda teria de acomodar todos os homens de Carwell. Seis poderiam dormir no saguão. Os outros cinco teriam de dividir o quarto maior, no andar superior, mas onde dormiria o guardião da fronteira? Rob dormiria com os outros homens para que Johnnie e Cate ficassem com o quarto principal. Daquela forma, só restaria uma cama. A dela. Afastando-se da porta, dirigiu o olhar ao saco de aveia onde a menina Tait havia cochilado. Aquilo poderia servir como um bom colchão, supôs. A voz de Rob e os acordes familiares da Balada Brunson a arrancaram dos pensamentos. Quando falava, o irmão era conciso e rude, mas quando cantava soltava a voz. Silencioso como o nascer da lua, firme como as estrelas, Forte como o vento que varre o Carters Bar. Com passos firmes e obstinado, nem dominado, nem dominador É o que dizem do bando Brunson Descendentes de um viking de olhos castanhos Projeto Revisoras

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Descendentes de um viking de olhos castanhos Dentro do salão, a risada havia silenciado. Os que restaram começavam a vagar para suas camas. Bessie se inclinou para sussurrar ao ouvido de Carwell: — Tenho um lugar para você dormir, se quiser me seguir. Percebendo um traço de fadiga nos olhos de Carwell, ela repreendeu a si mesma em silêncio, arrependendo-se do tom rude. Aquele homem estava a dois dias de viagem de casa e era um hóspede ali. Não deveria lhe dar nenhum motivo para se queixar da hospitalidade dos Brunson. Abrindo a porta do próprio quarto, Bessie experimentou um arrepio. Ao priorizar o bem-estar dos convidados, negligenciara a lareira. — É um quarto simples — disse ela, ajoelhando-se para reavivar as chamas. Sem dúvida, ele estava acostumado a tapeçarias, velas e alaúdes. Bem, os Brunson se orgulhavam de sua bravura, não de suas posses. — Mas espero que o agrade. — Este é o seu quarto — falou ele, ainda parado à soleira da porta, — Sim. — Bessie se ergueu, sacudindo as cinzas das mãos. — Não a forçarei a abrir mão de sua cama. — Bem, não a dividirá comigo. — Os olhos de Bessie encontraram os dele. — Não a estava insultando com tal sugestão. Não me insulte sugerindo que eu estivesse. As palavras eram duras. As mais duras que o ouvira pronunciar. Ao que parecia, o homem de fato tinha um temperamento forte. E ela possuía apenas a língua para provocá-lo. Bessie baixou o olhar ao chão. Aquilo teria de servir como um pedido de desculpas. — Fique com a cama. Você é um hóspede em minha casa. — Que não foi convidado. Dormirei com meus homens no salão. — Carwell saiu para o corredor e sorriu para ela, como se para suavizar as palavras ásperas que lhe dirigira há pouco. — Durma bem. Bessie afastou as cobertas da cama, surpresa ao descobrir as mãos trêmulas. E, do lado de fora da porta, ouviu o que devia ser um xingamento suavizado.

Na MANHÃ seguinte, quando Bessie acordou os recém-casados para que se apresentassem à reunião com Carwell, os sorrisos sonolentos dos dois lhe arranharam o coração. Esperava que tivessem passado uma noite maravilhosa, pois o restante do dia prometia ser bastante desagradável. Juntaram-se a Rob e Carwell na área reservada, atrás do salão de recepção. No centro do cômodo, um braseiro gerava uma frágil proteção contra o frio. Carwell parecia ter dormido melhor que ela. — O rei James — começou ele — foi forçado a desfazer o cerco ao conde de Angus. — Há apenas alguns meses, o conde, padrasto do rei, também fora o regente. Agora, era o pior inimigo do monarca. — O soberano imputa a própria derrota ao fato de os homens Brunson que convocou não terem se juntado a ele. — Bessie trocou um rápido olhar com o irmão, John. Os homens Brunson estiveram fazendo coisas mais importantes. — Além disso — Continuou Carwell ―, chegou aos ouvidos do rei que Willie, o Marcado, desapareceu. E talvez esteja morto. Johnnie e Cate trocaram olhares preocupados. Não havia dúvida de que o rei sabia, porque o próprio Carwell se encarregara de comunicá-lo. — O que não significa uma perda para nenhum dos lados da fronteira — disse Rob, por fim. — Mesmo ele sendo inglês, teria sido enforcado muito antes que você o levasse à justiça, como deveria ter feito. Projeto Revisoras

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Bessie esperou que Carwell argumentasse ou ao menos desse uma explicação, mas ele se limitou a permanecer em silêncio. O olhar firme. Os olhos com cílios grossos lhe emprestavam uma aparência calma, mas também lhe ocultavam a expressão. — Estou certo de que o rei entenderia, se alguém, um Brunson talvez, o tivesse matado em legítima defesa. John deu de ombros. Rob fez um movimento negativo com a cabeça. — O ataque é a melhor defesa. Cale-se, Rob. Mas Bessie mordeu a língua. As palavras do irmão eram verdadeiras, embora não fossem o que o rei ou Carwell quisessem ouvir. O guardião da fronteira não hesitou. — Você o atacou? Bessie prendeu a respiração. O irmão quase falara demais. — Eu não. Mas não me arrependeria se o tivesse matado. Carwell desviou o olhar de Rob e o deixou pousar em John. — E você? Cate esticou a mão para tomar a do marido. — Storwick não morreu por minha espada — afirmou John. O guardião da fronteira assentiu, gesticulando a cabeça, como se soubesse que não lhe forneceriam mais nenhuma explicação. — Então — continuou Carwell — pode me explicar como Deus, em sua infinita sabedoria, conseguiu matar o homem? — Esperou, como se ainda esperasse que alguém conseguisse explicar. John manteve o olhar cravado em Carwell, sem relancear o olhar a Rob ou à irmã. Nem mesmo a Cate. Ninguém se pronunciou. Por fim, John deu de ombros. — Quem pode explicar como Deus opera seus milagres? Bessie soltou a respiração lentamente. Uma acusação que não podia ser provada sempre poderia ser negada. Carwell sabia disso tanto quanto qualquer um deles. Melhor ainda. — A morte dele é um mistério — disse Rob. — Mas os cães ingleses muito em breve cruzarão a fronteira à procura de vingança. E precisaremos de todos os homens Brunson aqui quando isso acontecer. Dessa vez, Bessie não teve dificuldade em decifrar o olhar furtivo de Carwell. Raiva. — A justiça e a punição deste lado da fronteira são de minha responsabilidade — afirmou Carwell. — E não deles. — Gostaria que tivesse se lembrado disso antes — retrucou John. — Quando estava com Storwick em suas mãos. Antes que ele pudesse ocultar a expressão, Bessie percebeu um lampejo de raiva outra vez no rosto do guardião da fronteira. Porém, com a mesma rapidez, ele a ocultou. — Estou inteiramente ciente de minhas obrigações. — O arquear das sobrancelhas e a curvatura discreta nos cantos dos lábios compunham a sombra de um sorriso. — E, como você disse, o homem era uma ameaça tanto aos ingleses quanto aos escoceses. Acredito que o guardião da fronteira inglesa está erguendo preces de agradecimento aos céus, bem como orações pela alma imortal de Storwick. Os dois trocaram olhares cáusticos. Em seguida, Bessie se apressou em enviar a própria prece aos céus. A justiça e a punição são de minha responsabilidade. Carwell não viajara dois dias inteiros para confirmar o que já sabia. Projeto Revisoras

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— Então por que está aqui? Os olhos de Carwell se fixaram nela e, por um instante, Bessie foi invadida pela sensação perturbadora de que ele era capaz de ver o que seus olhos escondiam. Bessie os fechou diante do olhar penetrante, como se aquilo fosse capaz de impedir que Carwell visse a verdade. Quando os abriu, ele voltara a encarar o irmão. — Aqueles que vivem nas fronteiras entendem os mistérios de Deus. Mas o rei procura uma explicação terrena. E a culpa. E, neste momento, ele o culpa por tudo isso. — Alguns homens Brunson não teriam feito o cerco triunfar — afirmou John. Fora isso que ele dissera ao clã. Aos 16 anos, o rei não era nenhum perito na arte da guerra. Carwell ergueu as sobrancelhas. Verdade ou não, aquilo não era o que o rei queria escutar. Ou no que escolheria acreditar. — Ainda assim, enviei todos os homens de que podia dispor para lutar ao lado do rei, — O restante lutara ao lado dos homens Brunson na caçada a Willie Storwick. Carwell, Bessie percebeu, conseguia aplacar tanto o rei quanto os fronteiriços. Na maior parte do tempo. — Mas você — continuou ele, fixando o olhar em John — desobedeceu â ordem que o rei lhe deu para enviar seus homens. É suspeito de matar um inglês. E agora se casou sem se incomodar em informar o rei, o que dizer em pedir sua permissão! — Carwell deixou escapar um suspiro. — O homem que o rei mais odeia na Escócia neste momento é o conde de Angus. — John suspirou. Fora tão próximo do rei quanto um irmão. Um dia. Eles sabiam que haveria repercussões quando preferira os do seu sangue ao soberano. Ainda assim, o clã ficou feliz com isso. — Têm uma chance de se redimirem — disse ele. — O rei ordenou que todos os homens leais a ele façam um grande juramento. — A ele? — perguntou John. Carwell negou com um gesto de cabeça. — Contra Angus. Prometendo fazer tudo que estiver ao seu alcance para derrotar o homem. Algo que até então o rei falhara excepcionalmente em fazer. Bessie dirigiu o olhar a Rob. Como líder do clã Brunson, a decisão lhe cabia. — Não tenho nenhum apreço por Angus ou sua família — começou o irmão mais velho. — Mas não farei nenhum juramento contra um clã que não fez mal algum ao meu. — Ele falava sem desviar o olhar de Carwell. — Há clãs suficientes que o fizeram. A calma calculada de Carwell se dissolveu. Com um suspiro exasperado, passou os dedos pelo cabelo. — Faça o juramento, pelo amor de Deus. Ele ficará furioso o suficiente quando souber do casamento de Johnnie. Rob e John negaram com um movimento de cabeça ao mesmo tempo e no mesmo ângulo. Bessie sorriu, vendo o pai espelhado nos dois, ao perceber a família indivisível outra vez. — O juramento é uma coisa sagrada — disse John. Aquela era uma das lições que a volta para a casa o ensinara. — Não faremos um apenas para agradar o rei. Bessie percebeu Carwell contrair os ombros, como se tudo antes tivesse sido apenas um prelúdio. Prendeu a respiração, esperando que ele revelasse o motivo de sua vinda. — Então não me dá outra escolha. Como guardião da fronteira, é meu dever assegurar uma promessa de paz do clã Brunson. Algo para garantir um bom comportamento futuro por parte de vocês. — Já que nosso passado é tão repreensível? — perguntou ela. Quem era aquele homem para exigir juramentos e promessas? — Se não iremos fazer nenhum juramento, por que concordaríamos com uma promessa? Projeto Revisoras

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Mas John, que conhecia o modo de agir do rei, entendeu de imediato. — Não são palavras que o rei deseja. E sim um refém. — Refém é uma palavra rude. — Lá estava o sorriso de Carwell outra vez. Bessie começava a odiar a curvatura daqueles lábios. — Se o desagradarmos outra vez, o tratamento do rei será ainda mais severo — disse Johnnie. Ele, Rob, Bessie e Cate trocaram olhares. — Eu deveria ir — prosseguiu. — É a mim que o rei conhece. Aquele que não cumprira suas ordens. — Ele não gostará do que tem a lhe dizer — respondeu Rob. John suspirou. — Sou capaz de enfrentar isso. Negando com um movimento de cabeça, Rob Negro refletia com exatidão a sua alcunha e algo mais. — Ele o fará enfrentar isso no nó de uma corda. Não. O coração de Bessie disparou. Não Johnnie. Não quando o irmão finalmente voltara para casa, não quando havia acabado de se casar. A esposa entrelaçou os dedos aos dele. — Se tiver de ir, eu o acompanharei. Rob se ergueu tentando se avultar sobre aquela situação. — Não permitirei que vá. — Mas eu prometi ao rei quando vim... Carwell interveio no meio da discussão. — Então venha você. — Apontou para Rob. — Se o líder do clã Brunson for à corte e fizer seu juramento, o rei ficaria... — Bah! — exclamou Rob. — Não jurarei para nenhum homem algo que me impeça de proteger meu clã. Não Rob. Bessie prendeu a respiração. O irmão mais velho não dobraria o pescoço para ninguém. Nem mesmo para um rei. Apenas tornaria as coisas piores para ele. Para todo o clã. O irmão mais novo se levantou. — Pensaremos sobre isso. Aquele era Johnnie. Mantendo a dignidade. Ganhando tempo. Mas o tempo não mudaria os fatos. O pai morrera há menos de três meses. Rob assumira seu lugar como líder do clã. Johnnie estava em casa e feliz. Os irmãos, Cate, o clã que ela amava a ponto de lhe doer o coração, precisavam ser deixados em paz e não separados e afastados. Carwell também se ergueu, a postura de cortesão em desarmonia com a expressão austera. — Não pensem por muito tempo — disse ele. — O rei não é um homem paciente. Bessie se ergueu do banco, mantendo-se firme e ereta. Não. Não permitiria que ele fizesse aquilo. — Então eu irei — disse ela. — Serei a fiança dos Brunson.

Capítulo Três

O que aquela mulher estava fazendo? Seria louca ? Projeto Revisoras

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Carwell dirigiu um olhar furioso a Bessie Brunson e, em seguida, se dirigiu aos irmãos. Certamente não permitiriam aquela loucura. Ou concordariam? Blindando o olhar, ocultando os pensamentos, Carwell pensou nas opções. Não era aquilo que o rei esperava, mas apreciava as mulheres. Um pedido de desculpas de uma bela Brunson seria capaz de lhe suavizar o coração, enquanto a justificativa beligerante de um dos irmãos intransigentes poderia piorar muito as coisas. Mas colocar uma mulher em risco, mesmo uma tão obstinada como Bessie Brunson... não. — Impossível — disse Carwell, como se a decisão lhe coubesse. Bessie o ignorou, encarando o irmão. — Posso ir até o rei. E explicar... — Explicar? — Rob ergueu as mãos para o céu. — Mesmo ignorando a suspeita da morte de Willie Storwick, invadimos um território neutro e ateamos fogo a uma torre. Essa é a verdade. — Sim. — Carwell suspirou. Ele sabia. Afinal, os ajudara naquele ataque. — O rei quer o juramento dos Brunson e uma promessa de bom comportamento — continuou, por fim. — Não uma explicação. — O que o rei deseja — disse John — é vingança. A expressão severa refletia a de Rob. John crescera ao lado do rei e o conhecia melhor que os demais. — Ele vai querer prendê-la. Carwell suprimiu um tremor. — Ou pior. O rei fora governado por outros desde bebê. Possuía anos de erros para consertar. A cor abandou o rosto de Bessie e ele se preparou para ampará-la caso desmaiasse. Percebendo o quanto era arriscado, ela desistiria de ir. Porém, Bessie nem ao menos hesitou. — Então, que assim seja. — Não sabe o que está dizendo. — A vida ali era difícil, mas as ameaças eram claras. A corte era repleta de perigos ocultos, tão capciosos quanto as areais movediças que aprendera a evitar quando criança. Aquelas areias suaves pareciam seguras, mas um único passo em falso o sugaria para o perigo. E para a morte. Bessie Brunson não conseguia nem mesmo dançar sem tropeçar. — Deixe-nos a sós — disse Rob, erguendo-se. — Essa é uma decisão familiar. Aliviado, Carwell assentiu. Não estava ali para negociar com Bessie Brunson. Deixaria que os irmãos lidassem com ela. Girou na direção da porta, sussurrando-lhe ao ouvido enquanto deixava o aposento: — Eles não permitirão que você vá. Bessie sorriu. — Eles não conseguirão me impedir.

BESSIE SE recusou a vê-lo deixar a sala. Teria de pagar um preço por se colocar à mercê daquele homem, embora ainda não soubesse qual. No instante em que Carwell deixou a sala, as objeções pipocaram de todos os lados. — É muito perigoso. — Aquele não é lugar para você. — Não deve ir. — Cate a segurou pelo braço. — Não permitirei. Aquela súplica foi a mais difícil de resistir, porque os segredos que compartilharam não eram para os ouvidos de um rei. Mas Cate, que fora como uma irmã para Bessie, agora era uma esposa. Projeto Revisoras

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E ela dormia sozinha em um quarto vazio. Bessie apertou os dedos de Cate. — Não há outra pessoa — retrucou, calma. — Johnnie já o desafiou. O rei o atará aos ferros sem nem ao menos escutá-lo. — Ela fez um movimento negativo com a cabeça. — E, Rob, sua única forma de diálogo é com uma espada. Mas se eu for... O que seria aquele formigamento em seu peito? Medo ou excitação? — Sou mulher. Não posso fazer o juramento pela família, portanto não nos pode obrigar a isso. Mas talvez seja capaz de fazê-lo escutar por tempo suficiente para lhe dar uma explicação. — Explicar como Willie Storwick morreu? John segurou a mão da esposa. Bessie deu de ombros. — Não preciso contar nenhuma mentira. Nenhum de nós o matou. Ninguém precisa saber mais que isso. Principalmente o lorde Thomas Carwell. — Gostaria de tê-lo matado — resmungou Cate. — Mas talvez eu possa fazer o rei entender... — O que havia para fazer o rei entender? Como o vento uivava no topo das montanhas? A cor púrpura dos cardos nos últimos dias de verão? Como passavam os dias com os olhos cravados no sul, esperando que invasores surgissem no vale? Como aquela casa, aquela vida e aquelas pessoas eram preciosas? — Fazemos o que podemos para proteger o clã — rosnou Rob. — Isso é tudo que qualquer homem precisa entender. — Carwell não entende — disse ela. — O rei — interveio Johnnie — não se importa nem um pouco com o nosso clã. A única coisa com a qual se incomoda é que seu desejo não foi realizado. O desejo do rei era que Johnnie impingisse a vontade do rei aos Brunson. Em vez disso, o irmão mais novo voltara para casa por si mesmo. Para aprender que o clã vinha primeiro e em último lugar. E era tudo. — Se eu não for — disse Bessie ―, se não tentar fazê-lo mudar de ideia, o rei virá atrás de todos nós. — Virá de qualquer forma — afirmou Johnnie, com uma certeza inflexível. — Um dia. — Talvez, mas minha ida até lá lhes dará o inverno. — E tempo. Johnnie e Cate trocaram sorrisos furtivos. Rob escorregou o polegar sobre o cabo de seu punhal. Bessie sempre fora mais apegada a John e agora ele a olhava, perplexo. — Um dia sugeri que você fosse para a corte, certo? — Sim. — E ela recusara, sabendo que seria alvo de escárnio por suas roupas simples e maneiras camponesas. Coisas muito frívolas com que se preocupar agora. John lhe segurou as duas mãos. — Então, está mesmo determinada? — perguntou o irmão mais novo. — A se encontrar com o rei? — Com o rei? — Bessie deixou que os dedos descansassem nos do irmão. — Acha que estou fazendo essa viagem para melhorar minha afinação com um menestrel? — Aquela viagem era seu dever. O pai ficaria envergonhado se soubesse que ela dedicara um só pensamento a roupas ou à música. Ou a si mesma. Johnnie negou com a cabeça. — Não confio nele perto de você. Bessie se empertigou. — Não sou do tipo que se ofusca com um rei. — Não precisa se preocupar com Bessie — acrescentou Cate, leal. Projeto Revisoras

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Johnnie sorriu para a esposa. — Não é com Bessie e o rei que me preocupo. É com Carwell. Um silêncio de concordância se abateu sobre eles. Ali obviamente estava o problema. Nenhum deles confiava. — Mas o rei confia. — Não me insulte. As mais duras palavras que ela o ouvira pronunciar. Bessie afastou tal lembrança. Os irmãos podiam ter atacado lado a lado com Carwell, mas ela se recusava a confiar no guardião da fronteira, com suas meiasverdades e olhos inconstantes. — Isso é o que importa agora. Além do mais, passando tempo suficiente ao lado dele, posso descobrir uma maneira de provar que ele nos traiu. Willie, o Marcado, escapara por duas vezes quando eles se aliaram a Carwell. Apenas quando os Brunson o atacaram sozinhos foi que o homem acabou morto. John deixou escapar um suspiro. — Ele jurou que não. Rob bufou. — E você acreditou? — Não mato um homem sem provas. — E também não manda sua irmã para a corte com ele. Foi a vez de Bessie suspirar. — Discutam entre si — disse ela, esticando a mão para a porta. — Arrumarei minha bagagem. E, quando chegou ao pátio, a primeira coisa que viu foi Thomas Carwell.

CARWELL SE afastou suavemente da porta, quando teve um vislumbre do cabelo ruivo, tão radiante quanto uma ave de peito vermelho voando sobre o vale. Ergueu as sobrancelhas em uma pergunta silenciosa. — E...? Bessie inclinou a cabeça para o lado sem sorrir. — A essa proximidade da porta não conseguiu ouvir? Carwell tentara ouvir, droga, mas as paredes eram espessas. — Ouvi apenas alguma coisa sobre arrumar a bagagem. Atrás dela, a porta se abriu e Rob saiu. — Bessie, volte aqui! Não permitirei que parta com aquele... Ao perceber a presença de Carwell, o irmão se calou. — Pode dizer. — Vira-casaca. Um homem que escondia seu escudo para disfarçar suas lealdades. Carwell contraiu a mandíbula diante da resposta rude. Rob não confiava nele. Que assim fosse. O rosto austero de John surgiu por sobre o ombro de Rob. Nem ao menos dirigiu o olhar ao guardião da fronteira. — Você não sabe nada sobre a corte. Stirling é um ninho de víboras. Será devorada viva. Bessie encarou os irmãos com expressão calma. — Serei? Então deixem que as víboras se engasguem. Mocinha obstinada! Os irmãos Brunson podiam não confiar nele, mas ao menos tinham sensibilidade suficiente para saber que era inadmissível colocar uma mulher, até mesmo aquela, em tal posição. — Então concordamos que ela não deve fazer isso. Rob girou outra vez na direção dele e Carwell percebeu uma mudança por trás do olhar daquele homem. — Ainda não decidi. Projeto Revisoras

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Droga. Um passo em falso. Iria Rob permitir aquela loucura, apenas por que ele se opusera? — Bem, eu decidi — disse Bessie. — É a única solução. Os irmãos trocaram olhares. Rob voltou a se dirigir a ela para uma última súplica. — Tem certeza de que quer fazer isso? — Estou certa de que esse é o meu dever — respondeu ela. — Portanto, afaste-se do caminho e pare de gastar seu fôlego. — Bessie olhou para Carwell por sobre o ombro. — Todos vocês. Inspirando profundamente, ele se preparou para se opor àquela loucura. — O fôlego é meu, desperdiço o quanto quiser. De repente, ele se viu encarando três irmãos e uma esposa, todos com aquela expressão obstinada dos Brunson. John negou com um gesto de cabeça. — Ela tem razão, você sabe disso. Rob suspirou. — Sim. Eles não serão capazes de me impedir, dissera ela. Como Bessie soubera? Os dois irmãos o encaravam agora. — Se alguma coisa acontecer a ela — começou Rob ―, qualquer coisa, você responderá por isso. — Ela ficará refém do rei James por causa do comportamento de vocês — retrucou ele, suavizando a raiva. — Se violarem a paz, esperam que eu desafie o rei em nome de vocês? Os dois trocaram olhares céticos. Não. Eles sabiam que não. Ainda o culpavam pelo que saíra errado no Dia da Trégua. Não mais do que Carwell culpava a si mesmo. — Mas a vida de Bessie — disse John, faiscando de raiva. — Tem de prometer que lhe protegerá a vida com a sua. Carwell dirigiu o olhar a Bessie, que mantinha o queixo empinado, os lábios comprimidos, e tudo que desejou foi negar. A última vez que fizera tal promessa, falhara. Mas dessa... Não. Não deveria falhar dessa vez. — Eu protegerei a vida de Bessie com a minha. — Quanto à liberdade dela? Bem, aquilo não poderia prometer. — E a reputação de minha irmã? — acrescentou John. Os olhos de Bessie se arregalaram. — Não preciso de tal... — Sim. — Garantiria que ela chegasse lá e voltasse intocada. — Isso, também. — Se qualquer coisa acontecer... — Já lhe dei minha palavra ― retrucou ele, cortando a ameaça de Rob. Se algo acontecesse a Bessie, sua consciência o puniria de um modo muito mais cruel do que os Brunson seriam capazes de fazer. — Partiremos com o nascer do sol — concluiu, dirigindo-se a Bessie. — Ela assentiu. A maldita calma daquela mulher era como o arranhão de um cardo em sua pele. Ela era tão imperturbável e inabalável quanto uma rocha. E quase tão indiferente quanto. — Esteja pronta. — Carwell girou e se afastou.

ENQUANTO Bessie descia cada familiar degrau da escada em espiral da torre na manhã seguinte, escorregava os dedos sobre as paredes de pedra que a mão gorducha Projeto Revisoras

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procurava tocar quando era um bebê, no colo da mãe. A escada a levou ao andar térreo com muita rapidez. Um passo de cada vez, diria o pai, quando uma tarefa parecia muito difícil. Agora, cada passo significava uma despedida. Cada pedra, cada tábua e vela merecia um adeus particular. Cate a cumprimentou com um abraço quando ela chegou ao térreo. Lado a lado, as duas caminharam em direção à porta. — Há farinha suficiente para durar até o inverno — começou ela, relatando as coisas que Cate deveria saber quando ela tivesse partido. — Se não fizer muitas tortas. Rob não gosta de cenouras; portanto, quando fizer o guisado, sirva a parte dele sem elas. A moça Tait pode ajudá-la a fermentar a cerveja. Ela é boa nisso, mas é preguiçosa, portanto tem de vigiá-la e... A porta se abriu e o pátio se revelou diante dela, lotado de homens prontos para montar seus cavalos. Seu baú de madeira, miseravelmente pequeno, encontrava-se amarrado em patins de trenó de madeira para ser arrastado atrás de um cavalo. Não havia tempo. Não lhe restava tempo. Cate pousou uma das mãos no ombro de Bessie. — Tudo ficará bem. E não se referia à cerveja. Erguendo a cabeça, Bessie dirigiu o olhar às montanhas, cobertas pela neblina. Era a temporada das cavalgadas para proteger as fronteiras. Qualquer coisa poderia acontecer enquanto ela estivesse fora. Centenas de temores lhe invadiram os pensamentos. Bessie ergueu o queixo e fechou a mente para que eles não vicejassem. Rob e John a aguardavam. Não podiam ter nenhuma dúvida sobre ela. Tinha de deixá-los com as mentes descansadas. Bessie se despediu primeiro de Johnnie. Sem nunca temer mostrar afeição, o irmão a envolveu em um abraço. — Mantenha-se segura. O rei não é um homem ruim, no entanto, é mais jovem do que esperto. Bessie assentiu. — Ele não vai me manter lá por muito tempo, certo? Johnnie lhe despenteou o cabelo, como fazia quando eram crianças. — Uma mulher tão bela quanto você? Será difícil para ele perdê-la de vista. — Os lábios do irmão sorriram. Mas os olhos não. Bessie negou com a cabeça. — Então não se preocupe. Estarei em casa na época do Natal. Em seguida, com as costas protegendo-os do olhar de Rob, Johnnie lhe pressionou uma moeda de prata na mão. — Para o caso de precisar de... alguma coisa. — Os olhos de Bessie se arregalaram. — O rosto do rei está estampado nela — disse ele. Bessie deslizou o polegar sobre o perfil coroado. — Ele possui um nariz forte. — E um gênio ainda mais forte. Deslizando a moeda para dentro da bolsa que trazia amarrada à cintura, ela se dirigiu a Rob. Nunca à vontade para demonstrar seus sentimentos, o irmão mais velho ergueu os braços nas laterais do corpo sem saber o que fazer com eles. Bessie lhe envolveu a cintura e pressionou o rosto ao peito musculoso, mas apenas por um instante. Quando se ergueu para beijá-lo, Rob recuou. Ah, aquele era Rob. Como o pai. Nunca era capaz de se mostrar terno. Nem mesmo com ela. Projeto Revisoras

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— Não se preocupe. — Bessie lhe apertou a mão e pestanejou várias vezes, recusando-se a ceder às lagrimas. Em vez de encará-la, Rob lançou um olhar furioso a Carwell. — Traga-a de volta em segurança ou desejará tê-lo feito. Se algo acontecer a ela, eu o encontrarei. Não importa onde esteja. — Não será necessário. — Quando respondeu, Carwell não fixou o olhar em Rob, mas o desviou como se estivesse fazendo a promessa para ela. Bessie fez um gesto negativo com a cabeça, não desejando a promessa de Carwell. Nunca mais lhe confiaria nada que tivesse importância. — Cuidarei de mim mesma. Bessie sabia quem era, o que estava fazendo e por quê. E, se tivesse de conviver com o arrogante e pouco confiável Carwell para conseguir seu objetivo, que assim fosse. Os dois montaram e se encaminharam ao portão, girando ha direção leste, ao encontro do sol. Enquanto se afastava, Bessie ouviu pairando no vento atrás dela as vozes de Rob e Johnnie cantando as palavras da canção que definia os Brunson. Silencioso como o nascer da lua, firme como as estrelas... Crescera conhecendo seu lugar. Servindo em silêncio. Um suporte firme. A calma, a tranquilidade e o vigoroso coração daquela residência. Agora estava deixando tudo que conhecia e amava, mas apenas para que pudesse salválos. Dirigiu um olhar de soslaio a Carwell, surpreendendo-se ao encontrá-lo a observando. No mesmo instante, virou o rosto. Sim, talvez houvesse outra razão pela qual estivesse se dirigindo à corte. Não por roupas ou pela dança, mas para que, quando retornasse, trouxesse a cabeça daquele homem em uma bandeja. Os acordes da canção se dissipavam e Bessie olhou para sua casa uma última vez. Atrás dela, não viu nada além da neblina espessa.

BESSIE pensara em lhe extrair algumas informações enquanto viajavam, mas o dia estava frio, o vento, cortante. Além disso, cavalgaram uma enorme distância em ritmo acelerado para conversas triviais. Havia cruzado toda a dimensão das terras Brunson, contudo, quando o dia chegou ao fim, mais cedo do que de costume, encontrava-se cercada por montanhas que não lhe eram familiares. — Este é o limite das terras Brunson — disse ele, enquanto desmontavam para erguer acampamento. — As terras Robson começam no próximo cume. Bessie estreitou o olhar diante da luz do crepúsculo. O próximo cume não parecia diferente daquele que haviam acabado de deixar. — Esta parte da fronteira também está sob seu governo? — Governo? Um guardião de fronteira não governa nada. — Ainda assim afirma ser responsável por este lado da fronteira. — Responsável, sim, mas o rei mal consegue governar esta região, como os Brunson deixaram claro. Tento apenas impedir que homens broncos, como seus irmãos, se matem uns aos outros. — Ele exibiu um sorriso inesperado. — E a mim. Como aquele homem conseguia sorrir? A vida e a morte estavam em jogo. — Para nós, que vivemos aqui, isso não é motivo para rir. — Eu não ri — respondeu Carwell. — Pensei apenas em quebrar seu silêncio e fazê-la sorrir. E, mesmo contra a vontade, Bessie não conseguiu impedir um sorriso. Rob podia agir como bronco, era verdade. — Se tivesse de se interpor entre aqueles dois cabeças-duras durante toda sua vida, Projeto Revisoras

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também seria silencioso. Em casa, Bessie raramente precisava falar. Aquilo a deixara desajeitada, desairosa e incapaz de dialogar com Carwell, quanto mais com o rei. O sorriso de Bessie se dissolveu. — Quanto falta para chegarmos a Stirling? — Cinco dias, se o tempo continuar assim. Bessie assentiu com um gesto de cabeça, compreendendo o que ele queria dizer. Estavam em novembro. E o tempo não ajudaria. Atrás deles, os homens de Carwell espalharam-se, executando suas tarefas. Combinaram como fariam a vigília, acenderam uma fogueira e assentaram o acampamento. Cada um parecia saber seu dever. Pela primeira vez na vida, Bessie não sabia. Olhou ao redor procurando algo para fazer e viu um dos homens aquecendo uma grelha para fritar os bolos de aveia. — Eu cozinharei — disse ela, caminhando na direção do homem. No entanto, antes que pudesse se mover, os dedos enluvados de Carwell se fecharam em torno de sua cintura. — Disse a seus irmãos que tomaria conta de você. Que homem estranho! Nunca teria visto uma mulher assar pão? — Como sou eu quem alimenta meus irmãos em casa, acho que não considerariam uma grelha aquecida como uma ameaça à sua promessa. Bessie lhe empurrou a mão e ele a soltou devagar. — De qualquer forma, será como estou dizendo. Bessie abriu a boca para protestar, mas, antes que pudesse fazê-lo, Carwell se afastou para supervisionar a montagem do acampamento, deixando-a com as mãos na cintura e a boca aberta, argumentando com o vento. As mãos, desacostumadas à ociosidade, penderam nas laterais do corpo, inúteis. O vento úmido a provocava com o aroma das broas de aveia fritas. Carwell podia estar pensando em protegê-la, mas certamente seus homens iriam aceitar de bom grado sua ajuda, não iriam? Bessie olhou por sobre o ombro. Ele estava de costas, portanto caminhou até o fogo e se ajoelhou, apreciando o calor contra o rosto. O homem que segurava a grelha cumprimentou-a com um gesto silencioso de cabeça. — Dê-me — disse ela, esticando a mão para o cabo. — Farei isto. Sem esperar por permissão, Bessie segurou o aço quente, que lhe queimou os dedos. Ela deixou a grelha cair sobre as chamas e levou os dedos à boca. Franzindo a testa, o homem de Carwell enfiou a mão entre os carvões em brasa e com a mão enluvada e resgatou a comida. Resmungando um pedido de desculpas, Bessie se ergueu e se afastou. Como pudera ser tão descuidada? Girando, estreitou o olhar contra as lágrimas de dor. Nunca teria cometido aquele erro em seu fogão, onde conhecia cada pedra no chão. Mas ali, até mesmo a terra lhe parecia estranha e implacável. Estava longe de casa e à mercê de um homem em quem não confiava e não entendia. — Tome. — A voz de Carwell soou logo atrás dela, tão próximo que parecia capaz de ouvir seus pensamentos. Ele lhe entregou uma broa crocante. — Coma uma. Teria ele visto o erro desajeitado que cometera? Bessie lhe estudou o olhar, culpando a luz do ocaso quando não conseguiu lhe discernir a expressão. Todo e qualquer resquício de raiva que pudesse exibir quando se afastara há pouco tinha desaparecido. Ou estava escondido. Em casa, conseguia interpretar as emoções dos irmãos, mesmo quando nada diziam. Lá, ela era o centro da roda em volta da qual giravam os outros. Ali, não tinha lugar, nenhuma função a desempenhar, e o homem diante dela era tão Projeto Revisoras

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confuso quanto os passos daquela dança tola que ele tentara lhe ensinar. Carwell lhe segurou a mão que não estava queimada e pousou o bolo de aveia quente em sua palma. — Quente e pronto. Bessie sentiu a língua querer recusar, mas o estômago se opunha àquela ideia, portanto aceitou, curvando os lábios em um sorriso indesejado, enquanto dava a primeira mordida naquela quentura bem-vinda. Em seguida, surpresa, sentiu Carwell lhe envolver os ombros com uma capa pesada. Bessie ergueu o olhar para ele, perplexa. Nenhum homem que conhecia percebia tão cuidadosamente uma mulher a ponto de lhe ouvir os pensamentos não verbalizados. Os homens com quem convivia não escutavam nem mesmo o que elas diziam em tom de voz alto. Podia estar com frio, mas não era o tipo de mulher que necessitava ser paparicada. Retirou o manto, entregando-o a ele. — Não preciso disto. Carwell o aceitou de volta e tornou a lhe envolver os ombros com o manto, provando ser capaz de lhe ignorar as palavras tão completamente quanto qualquer outro homem. — Não quero que adoeça na estrada. As mãos longas permaneceram pousadas em seus ombros e o vento, às costas de Bessie, soprava o tecido sobre eles, engolfando-os como amantes em um cobertor. Como seria sentir um homem a abraçando, para protegê-la? Ela oscilou, tentada a se recostar ao peito largo. Não. Aquela viagem não tinha nada a ver com a realização de seus desejos, e sim com o dever para com o clã. Portanto, mesmo que não pudesse sucumbir ao desejo de proteção, também não deveria recusar comida e o calor das cobertas. — Então devo lhe agradecer — disse ela. As palavras eram amargas enquanto saboreava a broa. Carwell a soltou. — Não precisa se forçar a fazê-lo. Bessie mordeu o lábio inferior. Mais uma vez, tropeçara. Talvez ele esperasse ouvir “por favor” e “obrigada”. Ver cortesias, sorrisos e todos os maneirismos de seu estilo cortesão. Bem, ela agradecera. E aquele era um grande elogio vindo de um Brunson. — Preparei um lugar para você ali... — Carwell apontou na direção do local. — ...próximo à água. Haviam esticado um cobertor entre o chão e a árvore para improvisar uma tenda. Os olhos castanhos se arregalaram. Nenhum fronteiriço se incomodava de construir um abrigo quando viajavam pelas montanhas. Dormiam ao relento. Assim era mais fácil perceber o inimigo se aproximar. Porém, diante da visão da tenda improvisada, Bessie sentiu os ombros se curvarem com o peso do cansaço. Carwell lhe ofertava um lugar reservado, um abrigo próximo à água, onde seria mais perto beber e se lavar. Uma onda de gratidão genuína a invadiu, mas Bessie não rastejaria desmanchandose em agradecimentos. Não depois que ele rejeitara seu esforço anterior. — Suas mulheres devem ser delicadas — disse ela. As palavras carregavam uma pontada de inveja que Bessie não pretendera deixar transparecer. A dor se estampou no rosto de Carwell. — Percebo — disse ele, lutando para repor a máscara no lugar — que você não é. E então ela se lembrou. Não... agora. Não havia mulheres no castelo de Carwell. — Desculpe. Não tive intenção... — As palavras impensadas pairaram desajeitadas Projeto Revisoras

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no ar. Era tão canhestra no discurso quanto na dança. Tropeçando nos próprios pés e colidindo com as pessoas. Carwell não esperou que ela tropeçasse outra vez, antes de girar e partir.

Capítulo Quatro

Carwell se encontrava intrigado com ela quando acordou na manhã seguinte. Não gostava de enigmas. Problemas, sim, podiam ser resolvidos. Os hostis Brunson poderiam ser persuadidos a aderir a uma trégua temporária. O rei poderia ser convencido a entregar o posto de guardião da fronteira para quem era de direito. Os ingleses poderiam ser induzidos a negociações secretas no que concernia ao destino do conde de Angus. Esses problemas poderiam ser resolvidos, embora por meio de soluções imperfeitas. O truque era nunca revelar seu alvo. Permanecer flexível, circunspecto e permitir que cada um dos lados acreditasse que saiu vitorioso. Mas não era possível lidar com as mulheres daquela forma. Criaturas frágeis, delicadas e até mesmo irracionais não deixavam outra opção a um homem senão aceitálas e protegê-las. A qualquer custo. E, se ele não conseguisse proteger aquela, o preço a pagar seria muito alto. Eu o responsabilizarei, dissera Bessie. E ele falhara. Traído pelo traidor, permitira que um fora da lei escapasse. Uma pálida lembrança de pecados maiores. Mas e quanto a Elizabeth Brunson? Não sabia quem aquela mulher era ou como lidar com ela. Bessie era uma mulher de poucas palavras e quando olhava para ele, com aquela maldita calma, tinha vontade de sacudi-la. Era capaz de lidar com os fronteiriços de sangue quente e temperamento explosivo. Era um deles, embora escondesse muito bem aquele traço. Porém, estava acostumado com mulheres que desejavam agradar, se curvar, refletir os desejos de um homem em seu sorriso. Aquela mulher em particular entendia seus desejos, ignorava-os e seguia em frente, fazendo o que achava certo. Firme como as estrelas, cantavam sobre os Brunson. Impassível como uma rocha, deveriam cantar sobre Bessie. Bem, tamanha obstinação podia ter sido bem-vinda nas fronteiras, mas em Stirling não ajudaria a nenhum dos dois. Teria de proteger aquela mulher, também, mas de forma muito diferente da maioria. Carwell se levantou para começar o dia. Tinha de chegar a Stirling e transmitir a oferta secreta dos ingleses ao rei James, antes que as negociações do tratado oficial recomeçassem. Quanto a Elizabeth Brunson, faria com que ela chegasse em segurança a Stirling e a traria de volta da mesma forma. O que acontecesse àquela mulher depois disso não era problema seu.

NOS PRIMEIROS instantes depois que abriu os olhos, Bessie pensou que ainda estivesse sonhando. Onde estavam as paredes que a protegiam? Onde estava o teto que a blindara contra o vento e a chuva durante seus 18 anos? Projeto Revisoras

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Estivera longe de casa antes, claro. Desde a morte da mãe, ela visitava cada lar Brunson espalhado pela fronteira. Porém, nunca se afastara tanto. Nunca perdera as Cheviot Hills de vista. Agora, encontrava-se à margem de uma paisagem estranha, com um homem desconhecido, dirigindo-se a um lugar tão longínquo quanto os que ficavam do outro lado do oceano. Bessie se sentou e sacudiu o cabelo, deixando-o cascatear sobre as costas. Bem, ali estava ela. Cumpriria seu dever. Ao menos, tivera uma boa noite de sono. Relanceou um olhar em direção ao córrego. Naquela manhã, protegida do restante do acampamento, desfrutava de total privacidade. Quando teria as vantagens da água e da reclusão outra vez? Bessie pegou seu xale retangular de tecido xadrez e se livrou do vestido, ficando apenas com a camisa longa de linho. O céu começava a clarear, mas o sol ainda estava escondido atrás das colinas. Estava frio, nublado, mas não nevava. A água estaria congelante. Difícil para se banhar, mas ao menos poderia se livrar do pó da viagem, antes que se embrenhassem nas montanhas outra vez. Ela se arrastou até a água e paralisou ao ouvir algo no leito do córrego. Girou a cabeça para se deparar com Thomas Carwell, nu assim como nascera, entrando nas águas do rio congelante, que o cobriam até a cintura. Os olhos castanhos se arregalaram ao perceberem os ombros largos e o peito musculoso que estreitava na direção de... Bessie fechou os olhos com força. Ao ouvir o espirro da água, que significava um mergulho, ousou tornar a abri-los. Carwell havia submergido. Em seguida, voltou a se levantar, atirando a cabeça para trás e deixando que a água escorresse do cabelo castanho liso e descesse pelo pescoço, ombros e peito. Bessie se agachou esperando que ele não a visse. Muito tarde para fingir. Se Carwell lhe percebesse a presença, saberia que o vira. Bem, tinha tanto direito a desfrutar do rio quanto ele. Na próxima vez que Carwell mergulhasse, contornaria a curva do rio, onde ele não pudesse vê-la. — Está me espionando? Tarde demais. E um Brunson nunca deveria se acovardar. Bessie abriu os olhos e se ergueu até ficar de pé, lutando contra um arrepio de frio. Como aquele homem podia permanecer tão calmo, imerso até a cintura em uma água tão gelada? — Você colocou meu leito próximo ao rio. Presumi que queria que eu o usasse. Por um instante, conseguiu perceber claramente o que se refletia nos olhos de Carwell. Eles a percorreram do cabelo aos pés descalços, erguendo uma onda de calor no íntimo de Bessie que lutava contra a atmosfera congelante. A água o protegia da cintura para baixo, mas o linho branco fino que a cobria dos ombros até os joelhos de repente lhe pareceu transparente. Estariam seus seios pressionados contra o tecido? Poderia ele divisar o contorno de suas pernas? Bessie enrolou o xale em torno dos ombros, deixando que as extremidades a cobrissem. — Parece que é você quem está me espionando, Thomas Carwell. Porém,ela fazia o mesmo, observando-o, não mais como o guardião da fronteira, mas apenas como homem. Carwell não tinha ombros tão largos quanto os de Rob e não era tão alto quanto Johnnie, mas ela se lembrou de como ele se aproximou e lhe envolveu os ombros com a capa e a forma como aquele corpo bem delineado se encaixou contra o dela... Projeto Revisoras

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E então os olhos de Bessie encontraram os dele. Não havia ambiguidade agora. Apenas o desejo que ele não queria ou não conseguia esconder. Carwell abriu a boca para responder, mas as palavras saíram lentas e dificultosas. — Talvez estejamos apenas querendo nos banhar no rio. Bessie concordou, assentindo com a cabeça que parecia girar. Encontrava-se muda, como se nunca tivesse visto o peito de um homem antes. Vira muitos. Mas nunca um que parecesse... — Deixarei que termine, então — disse ela, virando de costas. Até mesmo proferir aquelas palavras e fazer o movimento lhe era custoso. Carwell não respondeu, mas ela ouviu mais esguichos na água atrás dela e, em seguida, som de passos, como se ele corresse pelo dique. O farfalhar de tecido indicou que Carwell vestia as bombachas. E então os passos se aproximaram. Bessie girou, não desejando que ele se aproximasse sorrateiro enquanto não podia vê-lo. Assim que girou, Carwell estacou a uma distância segura, com uma camisa pendurada sobre um dos ombros. Ainda se encontrava fora do alcance de suas mãos, mas com a proximidade Bessie podia ver o cabelo pingando água no peito desnudo e os músculos definidos dos braços pelo treinamento em manejar a espada. Sempre pensara naquele homem como o guardião da fronteira, como um cortesão, talvez, mas aquela visão a fazia se lembrar de que Carwell era um guerreiro, como qualquer outro homem fronteiriço. — Não tive intenção de incomodá-la — disse ele. — Bessie fez um movimento negativo com a cabeça. Fora ela a incomodá-lo. — A água está fria — continuou Carwell. — Não mergulhe muito fundo. — Você mergulhou. — Bessie nunca tivera a intenção de fazer algo tão tolo, mas a decisão era dela, não de Carwell. — Por isso sei o quanto está gelada. — Ele lhe dirigiu um sorriso calmo, mas Bessie podia ver a pele dos braços musculosos arrepiada pelo frio. E foi invadida por uma estranha ânsia de envolvê-lo com seu xale e aquecê-lo. — Então, vá. Termine de se vestir e me deixe aqui sozinha. Carwell vestiu a camisa pela cabeça e, graças a Deus, cobriu aquele peito, mas o suspiro que ela deixou escapar era mais de lamento que de alívio. — Ficarei ali, virado de costas. Diga-me quando estiver pronta. Bessie assentiu e desceu o dique. Seria ele capaz de se virar para olhar? Sentia como se ambos estivessem com o mesmo armamento, nenhum dos dois em vantagem. Se ela virasse e o encontrasse a observando, o que faria? Era melhor não saber. Preferia pensar nele como um homem de palavra. Porém, enquanto jogava água no rosto e nos braços, experimentou uma estranha necessidade de desafiá-lo. Se Carwell não estivesse olhando, não saberia que ela entrara na água. Puxou a camisa até acima dos joelhos e entrou na água, enroscando os dedos contra as pedras que cobriam o fundo do rio, enquanto estremecia de frio. Estava de fato tão gelada quanto Carwell descrevera.

Prometera a Bessie que não olharia. Portanto, se ocupou, enfiando a camisa para dentro das bombachas, vestindo o sobretudo de couro e calçando os pés gelados com as meias compridas. Ela era uma mulher sensata. Certamente não se demoraria muito. Projeto Revisoras

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Apurou os ouvidos para detectar os sons, tentando ouvir algo além das águas gorgolejantes do rio. E tentando impedir a cabeça de girar. Os sons do rio representavam um pequeno conforto. Muito diferente das inexoráveis ondas do mar, mas, ao contrário das montanhas, em constante movimento. Assim como deveria prosseguir naquele dia. Se não transmitisse a mensagem ao rei antes... Um som diferente. Um grito feminino. Carwell girou e correu. Teria Bessie mergulhado? Estaria se afogando? Sim, mergulhara, a tola. Mas, longe de se afogar, se encontrava imersa na água até as coxas, ensopada da cabeça aos pés. O cabelo ruivo estava colado aos seios, ocultando os contornos e os mamilos que se encontravam logo abaixo do linho fino e molhado. E Bessie parecia tão furiosa quanto ele estava se sentindo. — Não dê um passo além desse dique! — Você disse que não entraria na água. — A torre Brunson é margeada pelo Liddle Water. Sei muito bem como me banhar em um rio. — Agora, porém, se encontrava trêmula. Uma mulher mais forte que as que ele conhecia, sem dúvida, mas se ela pegasse uma corrente de ar e morresse... — Saia daí antes que congele... — Os olhos de Carwell se desviaram para os seios firmes — até a morte. — Afaste-se! Prometeu não olhar. — E você prometeu não entrar na água. Os dois se mediram com olhares furiosos e Carwell não sabia dizer ser era a raiva ou o desejo que lhe fazia subir a temperatura. Tentou manter os olhos fixos no rosto de Bessie, mas o linho fino se colava às curvas que antes ele apenas imaginava. Ela era esbelta como o irmão Johnnie, mas ninguém poderia deixar de perceber que se tratava de uma mulher. Os seios, que agora abriam caminho entre as mechas de cabelo ruivo, eram empinados e fartos. As pernas, longas. E na junção delas, onde o tecido molhado se aderia... Carwell engoliu em seco. Bessie lhe seguira o olhar e não havia como negar. Percebera-lhe o desejo. Fora tocada pela intensidade dele. Com os lábios entreabertos; ela cruzou os braços sobre os seios. Os joelhos arquearam, como se fragilizados por uma espécie de ânsia... como se ela fosse despencar sobre a água a qualquer instante. Carwell abriu caminho pelas águas do rio, ergueu-a no colo e retornou ao dique, onde a pousou de pé sobre o chão. Os braços se demoraram sobre os ombros delicados. Baixou o olhar ao rosto pálido, pensando no quanto aqueles lábios eram carnudos e suculentos... Bessie socou-lhe o peito com os dois punhos cerrados, fazendo-o soltá-la e dar um passo atrás. — É assim que salvará minha reputação? Carwell baixou o olhar, percebendo que entrara no rio calçando botas de couro. Aquela mulher dera um nó em seu cérebro. Seu único objetivo fora protegê-la, e então ela se encontrava tão próxima, tão tentadora... — Não era sua reputação que estava em risco, mas sim sua saúde. — Nunca adoeci em toda minha vida. Agora afaste-se e vire de costas. Carwell negou com um gesto de cabeça. — A última vez que fiz isso, você mergulhou no rio. Agora vou levá-la de volta à sua tenda e ficar sentado lá até que esteja vestida e pronta para partir. Temos milhas a percorrer hoje. Projeto Revisoras

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E suas roupas estavam ensopadas da cintura para baixo. Aquela seria uma jornada longa e fria.

A VERGONHA e algo muito mais perigoso a aqueciam enquanto ela retornava à própria tenda, pisando duro. Homem traiçoeiro. Bessie ignorou as sensações que ele lhe provocara na noite em que chegara à torre. Segurando-lhe a mão durante a dança. Tão próximo. Não tinha tempo e tampouco inclinação para tais tolices, principalmente com aquele homem que, sem dúvida, traíra seu clã uma vez e talvez voltasse a fazê-lo. Ignorou o fato de que, por um tolo capricho, teimara em entrar no rio quando Carwell lhe dissera para não mergulhar. E quando não tinha a menor intenção de imergir naquela água gelada. Nem ao menos gostava de água. Bastara uma noite longe de casa e não parecia mais a mesma. Sentia o queixo tremer e os dentes tiritarem. Ela os trincou, furiosa. Era como se tivesse deixado Bessie para trás, quando partira do vale. Durante toda sua vida vivera enrolada em cobertores, com camadas de meias e luvas. Então por que entrara em um rio de águas geladas em pleno novembro? Aquele homem dera um nó em seu cérebro. Era uma mulher sensata. Equilibrada. Firme. Fidedigna. Mas, com aquele homem, passos que deveriam ser simples se tornavam desajeitados. Havia algo nele que a tirava do... prumo. Dentro da tenda, Bessie retirou a camisa molhada, espremeu o cabelo para retirar o excesso de água e vestiu uma camisa de linho limpa com os dedos trêmulos. Estremecendo, espirrou. Nunca ficara doente e que fosse maldita se ficasse agora. Não daria aquela satisfação a Carwell. Não. Agora cumpriria seu dever e aquilo não incluía desfalecer nos braços de nenhum homem, principalmente nos de um que aparentemente traíra seu clã. Prometera aos irmãos que descobriria uma prova disso. Estava na hora de começar a agir. Bessie juntou o restante de seus pertences e socou-os dentro do baú de viagem. Iria questioná-lo. E descobriria a verdade. Porém, quando emergiu da tenda e montou em seu pônei para enfrentar o dia de viagem, dirigiu o olhar a Carwell e descobriu que não conseguia fazer isso sem prender a respiração. Sem se lembrar... Bem, manteria os ombros eretos e os olhos fixos no caminho que tinham pela frente. Mais alguns dias, voltaria a ser ela mesma outra vez. Mais algumas milhas e seria capaz de agir como se aquele encontro no rio nunca tivesse acontecido. Ao menos, era o que esperava.

POR FIM, Carwell acabou agradecendo o fato de ter mergulhado na água gelada. Aquilo o impedia de ter uma ereção toda vez que desviava o olhar para Elizabeth Brunson e de se lembrar da sensação de tê-la em seus braços. Porém, à medida que os dias passavam e as milhas corriam sob os cascos dos pôneis, a lembrança o assombrava. Sim. Havia uma razão pela qual não quisera que Bessie Brunson fosse a escolhida para fazer aquela viagem. Tinha lembranças a esquecer. E esconder. E tê-la por perto tornava aquilo muito mais difícil. Em breve, chegariam ao castelo , Stirling, onde ela ocuparia uma cama longe dele e Projeto Revisoras

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onde nenhum lago ou rio serviriam de tentação. Tinha de pensar no motivo pelo qual viera e o que teria de enfrentar. Um novo rei. Crescido, sim, porém dez anos mais novo que ele. Mais novo até mesmo que Elizabeth Brunson. Esperava que o rapaz, que conhecia apenas parcialmente, fosse esperto. A Escócia não suportaria uma guerra com a Inglaterra naquele momento. Mas ao menos ele e o rei tinham um objetivo em comum. O conde de Angus seria capturado e punido. O homem não podia escorregar entre as mãos deles, através das fronteiras, e alcançar a proteção do seu amigo e aliado, o tio do rei James, o rei inglês Henrique VIII.

Capítulo Cinco

Bessie não estava preparada para o castelo Stirling. O clã Brunson era o mais poderoso da fronteira. Não estava acostumada a encontrar clãs mais poderosos que o dela. Porém, enquanto subiam o caminho íngreme e sinuoso em direção ao castelo, que assomava no topo do desfiladeiro adiante, Bessie sentiu como se estivesse se aproximando do céu. E, uma vez dentro da residência real, descobriu-se ainda mais confusa. Construções, pátios repletos de pessoas. Mais do que jamais vira reunidas em um só lugar, exceto nas ocasiões em que os Brunson estavam empreendendo uma invasão. Carwell deixou-a em companhia de seus homens por alguns minutos e, em seguida, retornou com o mordomo. — Ao que tudo indica — disse ele, enquanto o criado se encarregava dos cavalos e dos homens ―, quando o rei desfez o cerco a Angus, trouxe os homens para cá. Parece estar havendo um torneio. Competição e celebração. A voz de Carwell não parecia animada. — E como é isso? Um torneio? — perguntou Bessie. Era como se estivesse na França. Ouvira dizer que lá eles faziam torneios. — Significa que nos vestimos adequadamente e lutamos uns com os outros. — Para quê? — Glória. Bessie ergueu as sobrancelhas. — Certamente, o rei não deve ter lutas suficientes em seu cotidiano. A expressão de Carwell refletia a dela. — Ou deseja uma batalha que possa vencer. — Ele se inclinou para perto e sussurrou: — O rei ainda está sofrendo com a derrota pela qual culpa os Brunson. Bessie ergueu o olhar para o céu nublado. Cair do cavalo sobre a lama do chão certamente não melhoraria o humor do rei. Quando terminou de lidar com os homens de Carwell, o mordomo se dirigiu a ela, trazendo consigo um rapaz que cuidaria de seu pônei. Quando ela começou a desmontar, descobriu Carwell ao seu lado, pronto para ajudar. Antes de se dirigir ao mordomo, ele a pousou de pé no chão. — Esta é Elizabeth Brunson. Bessie pestanejou várias vezes. Ela nunca fora tratada por Elizabeth. Sempre como a pequena Bessie. Elizabeth parecia pertencer a outra mulher. Projeto Revisoras

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Uma que talvez pudesse dançar na corte, com passos leves. O mordomo se curvou até dobrar a cintura. — Por aqui, minha senhora. O homem encarregou outro criado de carregar o baú de viagem. Bessie olhou para trás, na direção de Carwell, de repente relutante em se separar dele. — Vou ser levada ao rei? Carwell negou com a cabeça. — Não há tempo agora. Terá de se juntar às outras damas tão logo troque de roupa. Enquanto seguia o mordomo pela escada e através de um corredor comprido, baixou o olhar ao traje de lã de viagem. Tão logo se trocasse para vestir o quê? Com uma sucinta apresentação, o mordomo a guiou até a extremidade do enorme palácio de pedra e a deixou aos cuidados de uma mulher baixa, de cabelo e olhos escuros, que a guiou por outra escadaria, proferindo palavras que Bessie nunca ouvira. — Desculpe — viu-se obrigada a interromper a mulher ―, não entendi... — Vous neparlezpas français? Bessie negou com um movimento de cabeça. — Ah, entendo. — As duas alcançaram o fim do corredor e, a mulher abriu uma porta. — Está vazio agora — explicou a mulher, no idioma que Bessie podia entender. — Mas três de nós o estamos ocupando. Todas nos chamamos Mary. Bessie experimentou uma sensação de alívio. Não vira outra mulher desde o momento em que saíra de casa. Um rosto feminino era um consolo. — Chamam-me de Mary Baixa — disse ela, com um sorriso que revelava uma falha entre os dentes da frente. — Sou... Elizabeth Brunson. — Fora assim que Carwell a apresentara. Portanto, ali se chamaria assim. Os olhos da mulher se arregalaram e o sorriso em seus lábios se alargou. — E irmã de Johnnie? — Sim. Você o conheceu? — Uma mulher que conhecera Johnnie. Era como ter voltado para casa. Uma risada encorpada escapou da garganta de Mary. Um som que dizia tudo. — Sim. Todas sentimos saudades de Johnnie — respondeu ela, com um sorriso que refletia malícia. — Principalmente a Mary Alta e eu! Embora soubesse que o irmão vivera na corte, nunca imaginara a vida que ele levara ali. E certamente não o imaginara na companhia das mulheres. A julgar pelo sorriso daquela em particular, Bessie decidiu não mencionar que Johnnie era um marido feliz agora. — Mary Alta? — É a mais alta. Mary Robusta e eu servimos a mãe do rei. — E o que Mary Alta faz? — O que bem lhe aprouver. — A expressão da mulher refletia partes iguais de inveja e ressentimento. — Por enquanto. Bessie entendeu aquelas palavras tanto quanto as que Mary Baixa havia falado em francês. — Isso é tudo tão... diferente. Mary Baixa varreu Bessie de cima a baixo com um só olhar. — O rei já a viu? Bessie baixou o olhar ao vestido que usava e, em seguida, o fixou no de Mary. A mulher trajava algo endurecido, preto, com acabamentos em dourado e um decote Projeto Revisoras

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quadrado que expunha mais do que Bessie costumava permitir que suas roupas revelassem. Aquilo era pior do que temera. Bessie respondeu com um gesto negativo de cabeça. Mary ergueu as sobrancelhas. — Você é tresfolie. II va vous voir avecplaisir. Antes que Bessie pudesse questionar o significado daquelas palavras, soou uma batida na porta, atrás delas. Um criado entrou, carregando o baú de Bessie, pousou-o no chão e desapareceu. — Não tem muito tempo — disse Mary. — O que vai vestir? Bessie suspirou, ergueu a tampa do baú e de lá retirou seu melhor vestido. Em seguida, ergueu-o para mostrar a ela. Em comparação com o de Mary, parecia sem formas e desbotado. E então Bessie ouviu o eco das palavras que dissera ao irmão meses atrás. Não possuía trajes apropriados para a corte. Mary comprimiu os lábios e ergueu as sobrancelhas. — Entendo. Em seguida, ela se encaminhou a outro baú e remexeu no conteúdo. Por fim, retirou um traje preto, modelado e com um aplique azul na parte frontal da saia. — Isto pertence a Mary Alta. Você tem quase a mesma altura que ela. Bessie esticou a mão e tocou o tecido. As cores vibrantes pareciam pertencer a uma ave. — Não posso simplesmente me apossar do vestido de alguém. Mary Baixa o atirou para ela. — Não serve mais nela. Agora, apresse-se.

NA EXTREMIDADE do campo onde se daria o torneio, Carwell verificou sua armadura e se certificou de que as cores dourada e verde de seus homens se encontravam firmemente fixadas. Impaciente, o rei não esperara até que fossem providenciados assentos para os espectadores. Portanto, a maior parte deles ficaria em pé nas laterais do campo, no vale abaixo do castelo. As mulheres estavam empoleiradas sobre a Ladies Rock, uma grande pedra ao sul do vale, de onde desfrutavam de uma visão melhor do campo. Para Elizabeth, ele parecia vaidoso. — Ah, aí está você. Carwell girou e fez uma mesura. — Vossa Alteza. No caos que circundava os preparativos para o torneio, não houvera tempo para uma apresentação formal ao rei. Haviam se passado meses, até mesmo um ano, desde a última vez em que vira James. Todos os acordos foram feitos por mensagens e mensageiros. Agora, face a face, tinha a oportunidade de avaliá-lo pessoalmente. Jovem. Cabelo ruivo, um nariz longo e proeminente. E ostentando um brilhante pássaro verde e dourado em seu punho. O rei não desperdiçou palavras. — Traz novidades? — Sim, Vossa Alteza. De vários tipos. Os olhos do rei faiscaram. De repente, parecia mais um monarca que um excitado adolescente de 16 anos. — Algum perigo iminente? Carwell negou com um gesto de cabeça. O alívio se refletiu nos olhos de James. — Então vamos aproveitar o torneio antes. As novidades podem esperar. Projeto Revisoras

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— Belo papagaio, Vossa Alteza. James dirigiu o olhar à ave e sorriu. — Um presente. — O rei abarcou com o olhar as imediações de seu reino e suspirou enquanto o observava. — E quem é aquela adorável cotovia? Carwell percebeu que o rei olhava para Elizabeth, que caminhava ao longo da lateral do campo. E se forçou a respirar. O vestido, de um preto profundo, realçava-lhe a cor pálida da pele e tornava a cor de fogo do cabelo ainda mais vibrante. — Elizabeth Brunson, Vossa Alteza. — Brunson? — A palavra soou com um tom áspero. — Sim, Vossa Alteza. — A voz de Carwell soava adequadamente fria, o que o fez se congratular em silêncio. — A irmã de John. — Ah, claro. Percebo agora a similaridade na compleição... — O rei olhou por sobre o ombro. — A irmã de John, certo? — Muitos sentimentos pareceram relampejar por trás do olhar do rei, que por fim suspirou. — Traga-a até mim. — Agora, Vossa Alteza? O rei franziu a testa. — Claro, agora. Carwell executou uma breve mesura e resmungou algo que deveria ter sido um “claro, Vossa Alteza”, mas que não era. Os olhos de Bessie se iluminaram quando ele se aproximou. Devia estar se sentindo completamente isolada, pensou ele. Nunca parecera tão feliz em vê-lo. Carwell se concentrou em manter o olhar fixo no dela e não o desviar ao corpete do vestido, onde podia ter um vislumbre do contorno superior dos seios firmes que tentava esquecer, desde que a carregara para fora daquele córrego. Ao se aproximar, clareou a garganta. — Está adorável. Bessie baixou o olhar ao vestido. — Estou parecendo um pombo em um chiqueiro. — O rei não concorda. Quando ela ergueu a cabeça, Carwell percebeu um lampejo de medo nos olhos castanhos. Bessie olhou por sobre seu ombro. — Sim, aquele é o rei. O que está com a ave. — Nunca vi um falcão como aquele — disse ela, erguendo as sobrancelhas. — Não é um falcão. — Carwell esticou a mão para lhe segurar o cotovelo. O toque tinha algo de possessivo. — Ele quer conhecê-la. Bessie comprimiu os lábios e, em seguida, assentiu com um gesto de cabeça. — É para isso que estou aqui, certo? Para explicar? Ainda assim, quando Bessie ergueu a cabeça, ele se descobriu admirando-lhe a curva do pescoço e o gracioso colo. E pensando no laço da forca do carrasco. — Não hoje. Agora serão apenas cortesias, sorrisos e o mínimo de palavras possível. O queixo de Bessie estava erguido, os lábios, contraídos em uma expressão obstinada, e o medo ainda lhe tocava o olhar. — Não sei falar francês. Agora Carwell podia exibir um sorriso confortador. — Tampouco o rei. Os lábios de Bessie relaxaram, enquanto ela deixava escapar um suspiro. — Ele pedirá nosso juramento? Projeto Revisoras

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Carwell negou com a cabeça. Naquele dia, o rei não precisava ser lembrado do mau comportamento dos Brunson. Não até que Carwell tivesse tido a chance de avaliar a situação. — Ele está de bom humor e pronto para se divertir no torneio. Certifique-se de deixálo assim. Venha. Bessie se apressou em acertar o passo com o de Carwell enquanto cruzavam o campo úmido. — Como devo me referir a ele? — Chame-o de “Vossa Alteza”. — Carwell aumentou a força com que lhe segurava o braço. — E não faça nenhum comentário negativo sobre a ave. O sol conseguira penetrar as nuvens e o dia havia se tornado mais quente, como se obedecesse a uma ordem do rei, enquanto se aproximavam da tenda do soberano, rodeada de criados. — Vossa Alteza — disse Carwell, ainda segurando o braço de Bessie. Uma mulher Brunson não se curvava para homem algum. Os olhos do rei percorreram as curvas do corpo de Bessie e Carwell se esforçou para relaxar a mandíbula. Bem, que homem não a apreciaria? Ele certamente a apreciava. E muito. Sorrindo, o rei acariciou as penas verde-claro da ave. — Seja bem-vinda ao castelo Stirling e ao meu torneio. — Obrigada, Vossa Alteza. — E este — disse o rei, erguendo o punho onde se encontrava a ave — é Pierre. Cumprimente a dama, Pierre. A ave grasniu e agitou as asas. Elizabeth se inclinou e pressionou o corpo ao de Carwell. E ele descobriu o braço envolvendo a cintura fina. Rapidamente, Bessie se recobrou, mas manteve os lábios firmemente fechados. O rei franziu a testa. — Ele não é imponente? Bessie relanceou o olhar a Carwell como lhe pedindo permissão. — Nunca vi uma criatura como essa antes. Os olhos do rei se estreitaram, enquanto ele entregava a ave a um criado. — Johnnie não está com você. Bessie relanceou mais uma vez o olhar a Carwell e engoliu em seco. — Não, ele está... — Este é um dia de celebração, Vossa Alteza. Até mesmo o sol emergiu para honrar vossa glória. James continuou com expressão fechada, mas dois escudeiros se acercaram, segurando a armadura. A veste vermelha e dourada usada sobre a armadura, com as armas reais, o aguardava, se agitando ao vento. O rei ergueu o olhar ao céu indefinido. — Começaremos dentro de uma hora. — Voltou a concentrar a atenção em Elizabeth. — Quem carregará seu amuleto, milady? Os olhos de Bessie faiscaram, inseguros. — Meu amuleto, Vossa Alteza? — Nas disputas. Seu lenço. Seu cachecol. O símbolo de sua afeição. — O sorriso do rei excedia em presunção e o olhar, em ansiedade. Carwell deu um passo à frente. — Eu. Ao lado dele, os olhos de Elizabeth se arregalaram. Felizmente, ela se manteve calada. — Coloque sua armadura. Você e seus homens — dizendo isso, o rei virou de costas e voltou à tenda. Projeto Revisoras

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Carwell fez uma leve mesura e se afastou, puxando Bessie com ele. Com um solavanco, ela soltou o braço. — Você não carrega nenhum amuleto meu. — Mas o rei estava a ponto de lhe solicitar que fosse ele. James pode cobrar todos os amuletos que quiser. E, quando vencesse, iria cobrar o seu. — Cobrar? Não tenho nada para lhe dar. Como Bessie poderia sobreviver em um lugar como aquele? — Tem o que todas as mulheres possuem e que todos os homens desejam. O ardor nos olhos de Carwell não deixou dúvidas sobre o que queria dizer. E plantou dois círculos vermelhos nas bochechas do rosto de Bessie. Algo que ele percebera antes. — E se ele não vencer? — O rei sempre vence. — Então pensou em me salvar? Sim, mas, agora, tudo em que conseguia pensar era em tê-la. A porta da tentação havia se aberto e Carwell lutava para fechá-la contra aquela visão. Até mesmo contra aqueles lábios, tão carnudos, arredondados e intumescidos. Um suave contraste com o restante dela. Uma mulher que dizia a verdade ou se calava. — Acho — disse ele, conseguindo por fim recuperar a voz — que não quer desagradá-lo, se deseja ajudar seu clã. — Sim — concordou Bessie. Aqueles lábios incrivelmente belos se curvaram em um sorriso. — E se me recusasse a lhe dar a recompensa esperada ficaria furioso? — Sim, é verdade. — E se eu me recusar a recompensar você? Ficará furioso? BESSIE percebeu os olhos de Carwell escurecerem. Raiva? Não. Algo mais. O desejo que reconhecera em seus olhos no córrego quando a vira... Por que fizera pergunta tão tola? Logo Carwell recuperou o controle. Os sentimentos despareceram. — Primeiro, terei de vencer. E, então, teria de me recusar. Deixemos que essas coisas aconteçam e veremos. Os olhos de Carwell vagaram para os lábios carnudos, despertando o desejo de Bessie. — Mas, antes de tudo isso, deve me dar um amuleto. Um amuleto. Bessie baixou o olhar. Como poderia fazer aquilo se usava um vestido emprestado? Não possuía nem mesmo um lenço. E não honraria aquele homem, permitindo que ele carregasse o azul e marrom dos Brunson. — Coloque sua armadura — disse ela. — Quando estiver pronto, eu lhe darei seu amuleto. Tudo de que necessitava era um instante, sozinha, e uma tesoura.

Capítulo Seis

Em menos de meia hora, Carwell a viu retornar e lhe entregar uma tira de linho áspero, branco e simples. Ele a aceitou, sem nenhum comentário, sabendo que aquele era um pedaço da camisa que lhe protegia a pele. Projeto Revisoras

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— É tudo que possuo — disse ela. — Espero que não o envergonhe. Qualquer outra mulher, forçada a conjurar uma prenda da roupa íntima, estaria envergonhada. E, embora ele tivesse visto Bessie se amaldiçoar por ter tropeçado nos passos da dança, ela oferecia aquela coisa simples, aquele “tudo que possuía”, sem nenhum acanhamento. Ou hesitação. Afinal, Bessie era uma Brunson. Quando Carwell pressionou o pedaço de linho aos lábios, sentiu-os queimar diante do pensamento de que aquele tecido se encontrara pressionado à pele de Bessie. — Nada me agradaria mais. — Carwell amarrou o pedaço de linho à lança. — É de boa qualidade, útil e retirado de algo que nenhum de nós pode deixar de usar. Bessie sorriu. — Talvez lhe traga sorte. — E minha recompensa? — De repente, ele a desejava. A sensação daqueles lábios pressionados aos dele. O sorriso desapareceu do rosto de Bessie. — Deu sua palavra aos meus irmãos. — Sua inocência está segura — respondeu ele, com mais suavidade do que ela esperava. — Não duvide disso. Bem como a vida e a boa reputação de Bessie, que se encontrava sob sua responsabilidade. E a segunda parecia-lhe mais desafiadora que a primeira.

O QUE toda a mulher possui e todo o homem deseja. As palavras de Carwell a seguiam enquanto escalava a Ladies Rock, a bainha do vestido emprestado se arrastando sobre a grama. Havia algo em uma mulher daquele tipo. Como uma égua no cio, enviando sinais. Um olhar, uma sobrancelha erguida, um riso fácil. Sim, pensou ela, enquanto observava o grupo de mais de uma dúzia de mulheres reunido lá, esperando avistar o rosto familiar de Mary. Era fácil perceber o que aquelas mulheres possuíam que os homens desejavam. Imaginava que mais de uma delas havia agraciado o rei com seus favores na cama. Ou a Johnnie. E temeu que elas pudessem olhar para ela e perceber o quanto era ignorante naquele assunto. Carwell a chamara de inocente. Até mesmo ele percebia. Havia muitas moças que experimentavam vários homens até encontrarem um que lhes agradasse. Mas não Bessie. Ela fora a filha do líder. Os homens eram cautelosos ao redor dela. E, quando algum se mostrava uma exceção, Rob se encarregava de colocá-lo nos eixos. Rob. Johnnie. Ao pensar nos irmãos, se viu invadida pela saudade. Estava longe de casa, trajando um vestido emprestado. Em casa, era uma Brunson. Aquele nome por si só inspirava respeito. Ali, não tinha certeza da própria identidade. Lá embaixo, reconheceu o verde e dourado Carwell em um grupo de homens que ocupava a extremidade do campo. Na fronteira, os homens lutavam em cotas de malha acolchoadas, botas de cano alto e gorro. Via-se os olhos do homem que o encarava. Ali, completamente cobertos, aqueles homens não possuíam rosto, cabelo ou olhos. Eram apenas corpos de metal, protegidos da cabeça aos pés. Aquele Thomas, montado em um cavalo de guerra castanho, reconhecível apenas por suas cores, era um homem totalmente diferente daquele que cavalgara ao seu lado. Uma mulher alta, com os ombros caídos se juntou a ela, com um brilho de reconhecimento no olhar. Projeto Revisoras

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— O vestido lhe caiu muito bem, Elizabeth Brunson. Bessie desviou o olhar de Thomas e encarou a mulher que deveria ser Mary Alta. — Agradeço-lhe me permitir usá-lo. A mulher levou as duas mãos ao ventre. — O rei me comprará outro. Antes que Bessie pudesse ponderar sobre aquele comentário, Mary Baixa surgiu ao lado delas. — Quem é aquele? Bessie lhe acompanhou o olhar. Thomas havia retirado o elmo e o entregado a um escudeiro que aguardava. Com a cabeça à mostra, o cabelo castanho liso ondulava ao vento como um estandarte à brisa forte. — Está se referindo ao de verde e dourado? — perguntou, tentando suprimir um suspiro. — Não o conheço — retrucou Mary Alta. — Mas gostaria de conhecê-lo. Bessie se calou por um instante, relutante em revelar o que sabia. — Aquele é Thomas Carwell, o guardião da fronteira da Escócia. — Você o conhece bem? Não o conhecia em nenhum aspecto. Mas o que deveria dizer? — É ele quem carrega meu amuleto. Uma afirmação verdadeira, mas sem o significado que aquelas duas lhe atribuiriam. E, então, a visão de Carwell nu no rio lhe fez o rosto queimar. Mary Baixa sorriu, com malícia, voltando a fixar o olhar em Carwell. — Aquele retalho de linho branco? Bessie sentiu o rosto ferver. — É de boa qualidade e útil. Como Bessie Brunson. Usado quando preciso, ignorado quando não necessário e descartado, quando estivesse muito desgastado. Não algo que suscitasse encanto ou que fosse belo o suficiente para ser estimado. — E um tanto sujo nas bordas — disse Mary Baixa, com um sorriso nervoso. Bessie girou na direção do campo, ignorando a risada. Aquelas duas que pensassem o que quisessem. Mary Baixa lhe deu palmadas leves nos braços. — Talvez ela esteja tentando capturar seu unicórnio. As palavras não foram ditas em francês, mas tiveram o mesmo efeito. Significavam alguma coisa para as duas Marys que ela não conseguia entender. — O rei carrega meu amuleto — acrescentou Mary Alta, com um sorriso. Como se soubesse que estavam falando dele, Carwell se afastou de seus homens e cavalgou até a base da Ladies Rock. Mesmo montado, se encontrava a uns 3,5 metros abaixo dela. Muito distante para que Bessie conseguisse decifrar a expressão de seus olhos. Carwell abaixou a lança para ela. As duas Marys que a ladeavam recuaram um passo, concedendo-lhe uma demonstração de respeito. Bessie engoliu em seco, insegura. O que deveria fazer agora? Talvez Carwell tivesse a intenção de honrá-la, mas aquilo serviu apenas para expor sua ignorância nos protocolos da corte. — Você me honrou com seu amuleto hoje — disse ele. — Eu a honrarei com minha vitória. O que ela deveria dizer? Um Brunson não lutava em sua armadura por glória ou para o divertimento de uma multidão de estranhos. Um Brunson atacava ligeiro e silencioso, na calada da noite, para manter o clã alimentado e seguro. Por que motivo Thomas Carwell atacava? — Lute firme e seguro — disse ela. Projeto Revisoras

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Carwell galopou até a extremidade do campo e o combate teve início. Ao fim do dia, restavam apenas Carwell e o rei no campo de batalha. Silenciosa, enquanto todos ao seu redor vibravam, Bessie observou cada ataque com o coração batendo na boca, dizendo a si mesma que não se importava com quem ganhasse ou perdesse. Uma mentira. A tira fina de linho branco se encontrava enlameada e pesada, mas ainda se agitava, enérgica, ao vento. Tão errática quanto as batidas de seu coração. Ao seu lado, o sorriso de Mary Alta amarelou. — Seu cavaleiro luta com ousadia e perícia por você. — Ele não luta por mim — retrucou ela, surpresa com o fato de ainda conseguir mover a língua. — Apenas para sustentar a honra dos fronteiriços. Mary Baixa estremeceu. — Selvagens sem lei. Eles que sirvam de alimento para o estômago de Henry. Bessie sabia distinguir um Brunson de um Storwick, um Carwell de um Robson. Mas, para as Marys, eram eles. Como se seu povo fosse composto de criaturas bárbaras, estranhas e menos humanas. Gostaria de ver Thomas provar que estavam erradas quanto a isso. — Bem, Mary — disse á mulher mais baixa ―, talvez o rei não ganhe sua recompensa esta noite. Mary Alta pousou as mãos no ventre, olhando para o campo com expressão confiante. — O rei vencerá. — E dirigindo o olhar a Bessie: — Se seu guardião da fronteira for um homem sábio. — Não que fizesse alguma diferença para você se ele de fato perdesse — disse Mary Baixa. Mary Alta fez uma careta e Mary Baixa soltou uma risada. O rei sempre vence. Thomas lhe dissera isso. Aquelas eram as regras daquele lugar e certamente Thomas se curvaria a elas. Mas ainda assim... Eu a honrarei com minha vitória. Cada palavra que ele proferia era ponderada. Carwell não prometeria uma vitória que não pretendesse alcançar. Bessie encolheu os ombros contra o vento, agradecida pela gola alta na parte traseira do vestido emprestado que lhe protegia o pescoço do frio. O que faria Thomas? E desde quando começara a pensar nele daquela forma?

NA EXTREMIDADE do campo, Carwell retirou o elmo, esticou a mão para a taça que o escudeiro lhe entregou e bebeu o vinho. O rei sempre vence. Sabia disso tão bem quanto qualquer outro homem. O terreno macio daquela manhã se tornara irregular por causa da carga dos cavalos e dos homens abatidos. O campo de batalha fora engolfado pelas sombras. Mais uma investida, mais um ataque, graciosamente cedido ao rei sem parecer óbvio, e poderia se retirar para desfrutar do calor de uma lareira. Não havia escolha, claro. Era um homem do rei e, se não lhe permitisse a vitória, tudo que viera fazer ali estaria em risco. Mas ao relancear o olhar para a imensa rocha, onde as mulheres haviam se agrupado, um raio de sol se refletiu no cabelo cor de fogo de Bessie e ele sentiu o inconveniente desejo se agitar em seu íntimo mais uma vez. Projeto Revisoras

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Queria vencer. Queria o beijo que lhe seria devido. Seu cavalo, ainda energizado, bateu com os cascos no solo. Carwell devolveu a taça ao escudeiro e cavalgou para o centro do campo, sob a Ladies Rock, para encarar o rei, antes que cada um se afastasse para lados opostos do campo. James ergueu o olhar para as damas e sorriu. — Vamos aumentar as apostas, está bem? — falou o rei em voz alta, para alcançar ouvidos que se encontravam além de Thomas. — Se eu vencer, cobrarei a recompensa de sua dama assim como da minha. James ergueu o olhar para Elizabeth. Ela não se moveu, mas cerrou os punhos. Sim, ela ouvira. E embora Carwell não duvidasse da determinação daquela mulher, sabia que não estava acostumada às investidas de um rei. Se alguma coisa acontecer... Thomas cavalgou para a extremidade do campo. Agora sabia exatamente o que fazer. Mary Alta baixou o olhar ao próprio ventre e depois o desviou para Bessie, que se encontrava próxima a ela. — Você já despertou o interesse do rei. Tomada de surpresa, Bessie encarou a mulher. O que ela poderia ter feito que atraíra o interesse do rei? — Não era essa minha intenção. — Talvez seja por isso — interveio Mary Baixa. — Esse ar de “não me toques” que você possui. E ele não deverá me tocar, Bessie iria dizer, quando, abaixo delas, a disputa teve início. Ao final da disputa, três cavalos e dois homens estavam feridos. E o rei James se encontrava esparramado de costas no chão enlameado. Uma espécie de sede de sangue se dissipou da visão de Thomas. Deus do céu! Agora não seria capaz de salvar nem a Bessie nem a ele da fúria do rei. Thomas desmontou, apressando-se em ajudar o rei a levantar. James soltou o braço com um supetão. Em seguida, estreitou o olhar, avaliando-o. — Pedi que me trouxesse uma garantia por parte dos Brunson — disse ele. — Será que, em vez disso, o solitário Thomas resolveu encontrar uma noiva? Não, foi o primeiro pensamento que lhe veio à mente. Não, não e mais uma vez, não. Os primos que herdassem o castelo, se não deixasse herdeiros. Nada o forçaria a se casar outra vez. Principalmente com Elizabeth Brunson. — Ela não está... acostumada com o modo de vida na corte. — Você está — disparou James. As palavras do rei eram uma acusação. Merecida. Ele conhecia as regras. E tinha de explicá-las para Bessie. Ainda assim, deixara a emoção esmagar a realidade e o bom senso. O escudeiro do rei acorreu, trazendo água, vinho e uma capa para protegê-lo do frio cortante de novembro. James deu um passo para trás, fez uma careta de dor e se apoiou no ombro do escudeiro, flácido, enquanto deixava o campo. — Esteja em meus aposentos dentro de uma hora. Quero saber que diabos está se passando em Liddesdale. — Carwell fez uma mesura, em silêncio. O rei gesticulou com a cabeça na direção da Ladie’s Rock. — E vá receber o beijo da dama. Você o mereceu. Os olhos de Carwell se voltaram imediatamente para Bessie, como se soubesse exatamente o ponto onde ela se encontrava entre as outras damas. O cabelo cascateava como labaredas de fogo sobre o vestido preto que lhe moldava as curvas graciosas do corpo. Projeto Revisoras

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E ele se lembrou, vividamente, do que se encontrava por baixo do tecido. Pensara em poupá-la daquilo. O beijo em público, tratado com tanta frivolidade pelo rei e pela corte. Quando fora a última vez que beijara uma mulher? Você quer beijá-la. Deseja isso como nunca desejou antes. Era verdade. E demasiado inconveniente.

CARWELL ENTREGOU o elmo e as manoplas a um escudeiro que aguardava e subiu o caminho íngreme até a Ladies Rock, apertando a tira de linho na mão. Quando alcançou o topo, a conversa das damas suavizou e elas se apartaram, abrindo um caminho entre ele e Elizabeth. E, quando Carwell estacou diante dela, descobriu-se estranhamente mudo. Ela estava com aparência de Elizabeth agora, trajada com o vestido da corte de gola alta nas costas e decote profundo na frente. Ainda assim, podia reconhecer os olhos firmes e os lábios tentadores. E desejá-los. Bessie roçou os dedos com suavidade na extensão de um corte em sua testa. O rosto dele estava tão pálido quanto o linho que lhe entregara, antes da batalha. — Você está a salvo, então. O corte latejava e Carwell podia sentir que havia outros espalhados pelas duas coxas. — Contanto que me mantenha longe das vistas do rei. — Pensei que o rei sempre vencesse. — O rei também pensou. — E agora — ela engoliu em seco, mas seu olhar não vacilou — veio reclamar seu prêmio. Carwell queria reclamar mais do que isso, mas por muitas razões, como seu fracasso do passado e a promessa que fizera aos irmãos Brunson, não deveria nem ao menos desfrutar daquela recompensa. — Ficarão desconfiados se eu não o fizer — disse ele, inclinando-se para a frente. Bessie não virou o rosto. Apenas assentiu e ofereceu os lábios como se o beijo não passasse de um dever. Com a mesma paixão que teria se estivesse lhe entregando uma caneca de cerveja gelada. Era melhor assim, disse Carwell a si mesmo, enquanto deu outro passo à frente. Tivera sua quota de paixão por aquele dia. Fora um momento de paixão desvairada que o trouxera até ali. Não faria mais do que roçar os lábios à testa de Bessie, e ambos se livrariam daquilo. Mas os lábios carnudos estavam tão próximos. Macios, arredondados, parecendo capazes apenas de proferir palavras melífluas. Como se tivessem sido talhados somente para beijar. Carwell pressionou os lábios aos dela. Sentiu-a se render... e, por um instante, os ferimentos, as preocupações, tudo se dissipou até que restasse apenas Bessie e ele. Pensara que talvez o beijo daquela mulher fosse tão rude quanto suas palavras. Hábil. Eficiente. Em vez disso, era macio como um travesseiro. Tinha a sensação de estar afundando cada vez mais e de que não conseguiria vir à tona para respirar. Era como se enterrar em areia movediça. Bessie se inclinou contra ele, pressionando o corpo à armadura insensível. Quem era aquela mulher? Seria alguma coisa que ele havia suposto? Seria aquela rudeza apenas um disfarce? Carwell pousou as mãos nos braços delicados e a sentiu mudar de posição para se Projeto Revisoras

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ajustar ao beijo. Algo incontrolável, como uma onda gigante batendo contra a areia no afã de encontrar as rochas e a terra, se ergueu dentro dele. Os braços, mais sábios que os lábios, a afastaram gentilmente, interrompendo o beijo. As pálpebras de Bessie tremularam até se abrirem. Carwell pestanejou várias vezes. E ela também. Aqueles olhos castanhos, como os de todo o clã Brunson, porém de uma tonalidade mais clara, o mantinham hipnotizado. E, mesmo tendo certeza de que Bessie se entregara ao beijo, seus olhos não refletiam a mesma paixão que ele sentira. Não se encontravam nebulosos ou suavizados. Tampouco estavam blindados ou endurecidos, como frequentemente os via. Os olhos de Bessie simplesmente o encaravam. Abertos. Diretos. — Então isto é um beijo, certo? Carwell pensou sobre aquelas palavras. — É o seu primeiro beijo? Bessie desviou o olhar. A Ladies Rock se encontrava vazia agora. As outras haviam partido à procura de comida e fogo. — O primeiro em muito tempo. Carwell lhe tocou o queixo, forçando-a a voltar a encará-lo. Havia uma dor nos olhos castanhos, que Bessie lutava para ocultar. — Há quanto tempo? — Dando de ombros, ela fez um movimento negativo com a cabeça. — É franca sobre todos os assuntos, mas não sobre este? — Há coisas que não valem a pena ser ditas. De repente, tudo ficou claro para Carwell, fazendo-o imaginar por que; não percebera antes. As palavras francas e o discurso rude não passavam de uma armadura. Bessie guardava segredos em seus silêncios. E então ela começou a descer a rocha na direção do castelo e Carwell a seguiu. — O rei me convocou para uma reunião — disse ele. — Perguntará sobre John. Bessie baixou o olhar e sacudiu a saia do vestido como se tivesse acabado de sair da cozinha e quisesse se certificar de que não havia farinha grudada no tecido. Em seguida, ela olhou para cima para encará-lo. — Devo ir com você. — Não dessa vez. É melhor não chamar a atenção do rei para você em um momento como este. — Mas é por essa razão que estou aqui. — O rei e eu temos outros assuntos para tratar. Encontro-a no salão principal, mais tarde. Muito mais tarde, esperava Carwell. Depois que seu coração tivesse voltado ao ritmo normal. E depois que transmitisse ao rei a nova proposta de paz da Inglaterra.

Capítulo Sete

Bessie se manteve em silêncio pelo resto do trajeto de volta ao castelo. As palavras Projeto Revisoras

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apenas tornariam as coisas piores. Quando se encontrava dentro da residência real, observou-o se afastar pelo corredor, enquanto lutava para esquecer o beijo e se lembrar do motivo que a trouxera ali. Fora um beijo. Um ritual do torneiro. Nada mais. Contudo, teve a sensação de que fora mais. Mais que um encontro de lábios, mãos e braços. Algo se alterara dentro dela, da cabeça aos pés. Sentimentos por aquele homem que não desejava e de que não precisava. Sentimentos que não significavam nada para ele. E não deviam significar nada para ela. Teria de afastá-los. Enterrá-los. Os beijos daquele homem sem dúvida eram tão traiçoeiros quanto o restante dele. Ainda assim, como um sentimento como aquele poderia ser fingido? — É um belo homem, não acha? — A voz de Mary Baixa a assustou. Bessie desviou rapidamente o olhar das costas largas que se afastavam. A verdade era que seus olhos eram atraídos para Carwell como um ímã. Frequentemente. Apenas porque ela estava tentando decifrá-lo. Não porque era prazeroso olhar para aquele homem. Oh, ele era forte, tinha um belo cabelo e dentes maravilhosos, no entanto era preciso mais que isso para compor um homem. Era necessário honra. E integridade. — Qualquer um dos meus irmãos o superaria. Mary Baixa assentiu, como se considerasse a afirmativa com muito cuidado. — Eu diria que ele se equipara a Johnnie. Você o beijou como se o conhecesse bem. — Conheço-o o suficiente para não confiar nele. A mulher soltou uma risada. — Isso serviria para qualquer um que conheça na corte. Até mesmo você? Bessie mordeu a língua. Quem seria digno de confiança, fora de seu clã? Juntas, as duas cruzaram o pátio e subiram a escada que levava ao quarto. — O que você sabe sobre ele? — perguntou Bessie. Se queria provar que Carwell era um traidor, precisava saber mais sobre aquele homem. — Thomas Carwell não vem à corte desde que estou aqui. A família dele não era bem quista por Angus. O conde destituiu o pai de Carwell da posição de guardião da fronteira e a assumiu. O homem que o rei mais odeia na Escócia neste momento é o conde de Angus. O rei e Carwell, ao que parecia. Não era de admirar que ele quisesse o juramento dos Brunson para destruir Angus. O objetivo não era apenas acalmar o rei. Era vingança, como o de qualquer fronteiriço verdadeiro seria. — Então quando James se tornou o rei de direito... ? — O posto dos Carwell foi restituído, sim. E o rei nomeou Carwell o guardião da fronteira outra vez. De volta ao quarto, Mary Baixa a ajudou a se acomodar e explicou uma parte da rotina do castelo. Agradecida, Bessie procurou absorver tudo. Como conseguiria se conduzir naquele novo mundo? Carwell não era confiável e, sem uma orientação, poderia causar mais danos ao seu clã do que ajudá-lo. Porém, precisava de alguém com quem conversar. Descobrira que as mulheres geralmente estavam dispostas a ajudar. Mary Baixa obviamente conhecia a paisagem da corte tão bem quanto os Brunson conheciam as montanhas de Liddesdale. E, sem qualquer orientação, Bessie poderia facilmente se perder em um pântano tão perigoso quanto em qualquer um daqueles que existiam nas montanhas. Uma mulher que conhecera Johnnie? Bem, Mary Baixa poderia, ser o mais próximo de uma família que Bessie chegaria a encontrar entre as paredes do castelo. Projeto Revisoras

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Inspirou profundamente. — Preciso de sua ajuda. O sorriso fácil da mulher se tornou cético. — Em relação a quê? — Não conheço nada sobre a corte. E você, sim. Mary Baixa a encarou. — E o que ganharei em troca? Ah, então aquele era o modo como as coisas funcionavam naquele mundo. A dificuldade não estava apenas nas danças. O pé de Bessie acabara de topar com um solo pantanoso. — Talvez pelo bem de Johnnie? Todas sentimos saudades de Johnnie, Mary Baixa lhe dissera, com uma risada. O quanto os dois haviam sido próximos? — Ele voltará? — A pergunta foi feita com certa ansiedade. Não poderia mentir, portanto ela negou com um gesto de cabeça. — Johnnie está casado agora. Seguiu-se um suspiro melancólico, mas ainda assim Mary sorriu. — Espero que ele seja feliz. Johnnie era um doce. Você se parece com ele, com exceção da cor dos olhos. — Mary suspirou mais uma vez. — Nunca vi olhos tão azuis. Diante da lembrança, lágrimas banharam os olhos de Bessie. Johnnie, Rob, Cate... todos a quem amava estavam muito distantes dela. Talvez aquela mulher quisesse apenas deixá-la na ignorância para que fosse uma fonte de divertimento quando cometesse alguma gafe. Mary Baixa deu uma palmadinha na mão de Bessie. — Está sentindo muita saudade de casa, certo? Ela mordeu o lábio inferior e negou com um gesto de cabeça. Bessie Brunson nunca chorava. — Eu pedi para vir. E que... é tudo tão estranho. Nunca estive tão longe de casa antes. — Bem, aposto que, depois que estiver aqui por algum tempo, não vai desejar voltar. Agora, venha. Claro que a ajudarei. Vamos nos certificar de que apreciará o tempo que passará aqui. As lágrimas ameaçaram rolar outra vez. Nunca se sentira agradecida a alguém, além das pessoas de seu clã. — Tenho uma moeda — disse Bessie, imaginando o valor que teria. Mary Baixa negou com a cabeça. — Ficará me devendo essa. Não falemos mais disso. Um tanto desconfortável com a barganha baseada em termos escusos, Bessie assentiu. Ao que parecia, muitas coisas ali eram escusas, incluindo qualquer que fosse o assunto secreto que o guardião da fronteira escocesa estivesse conduzindo. Discutiria os Brunson enquanto estivesse conversando com o rei? Ou a traição de Carwell ia além disso? Era sobre aquilo que Bessie precisava refletir. E não sobre a lembrança daqueles lábios.

CARWELL SE deteve, esperando, enquanto o rei James vagava pelo próprio quarto. O bom humor do soberano se dissolvia cada vez mais, à medida que seus hematomas escureciam. O torneio não tivera fim melhor do que o cerco que perpetrara, deixando como saldo um olho roxo e um lábio ensanguentado. Para melhorar a disposição do monarca, Carwell precisava equilibrar as boas notícias da Inglaterra com as más notícias sobre os Brunson. Projeto Revisoras

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A primeira-pergunta do rei tornou tal tarefa ainda mais difícil. — Onde está John Brunson? Convoquei os homens dele, mas eles não chegaram. Ordenei que cessassem as invasões para que pudéssemos negociar com os ingleses e soube que ocorreram mais ataques e mortes. — James ergueu as sobrancelhas. — Ouvi até mesmo rumores de que você os ajudou. O rei fez uma pausa. Então teriam de começar com as más notícias. Bem, seria melhor terminar com as boas. — Todos podemos ser alvos de rumores, Vossa Alteza. — Não diria nada além disso. Deixaria que o rei dissesse tudo que sabiá antes. — E então? — continuou James. — Solicitei um juramento de todos aqueles que são leais a mim. Um juramento para destruir o traidor Angus que me manteve cativo por dois anos. E um pedido insensato para um rei fazer? — Não. — Ele mesmo havia jurado mais de dez vezes, mas não pelo bem do rei. — Exatamente. Pedido simples. Johnnie deveria ter aquiescido e retornado semanas atrás. Por que ele não está aqui? Thomas clareou a garganta. Como começar? — Ele está... bem... recém-casado. — Casado?! — O rei atirou a cabeça para trás e soltou uma risada. — Agora sei que o homem enlouqueceu! Foi ele quem me ensinou tudo sobre as mulheres. — Aquela risada foi reconfortante. — Parece que ele encontrou uma que o fez esquecer muitas. — O instante de bom humor do rei desapareceu rapidamente. — E enviou a irmã como uma espécie de substituto inferior? — Aconteceu muita coisa, Vossa Alteza. James bufou. — Não estive exatamente ocioso durante esses meses. Estive caçando um traidor, compondo um conselho, dirigindo este castelo, negociando um tratado de paz com os ingleses. O que John esteve fazendo que fosse mais difícil que tudo isso? — Quando John voltou para casa, encontrou o pai morto. O rosto do rei se contraiu. Jamais conhecera o próprio pai, que morrera quando ele ainda era bebê. Mais isso fora há muito tempo e James era um rei agora. — Isso acontece com todos os homens — retrucou ele, dando de ombros, com menos compaixão do que Thomas esperara. — Depois — continuou ele, em tom suave — descobriu que o pai deixou por cumprir a promessa de corrigir uma antiga injustiça. E resolveu tomar tal missão para si... — Os problemas da família de John Brunson não se comparam às necessidades do rei dele. Diga-me apenas quando ele retornará. Thomas inspirou profundamente. — Ele se estabeleceu em Liddesdale. — Johnnie não pediu minha permissão! Se o rei pensava que um Brunson pediria permissão para qualquer coisa, ainda tinha muito a aprender sobre os fronteiriços. — A simples presença dos Brunson é um baluarte contra a invasão inglesa, Vossa Alteza. Um acréscimo à sua força. O rei não queria saber de nada disso. — Ele não me enviou homem algum. Tampouco fizeram qualquer juramento. — A fúria do rei aumentava a cada frase. — E ignoraram escancaradamente minhas ordens para manter a paz? — A irmã dele está aqui como garantia de que se comportarão. — Acham que ela vai me seduzir para que eu os acolha em minhas graças? — As mãos de Carwell se cerraram em punhos antes que pudesse se controlar. O rei baixou o olhar a elas. — Oh, esqueci. Foi a você que ela persuadiu a perdoar. Projeto Revisoras

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Aquela discussão tomara um rumo perigoso. Para ambos. — De forma alguma. — Tinha de guiar o assunto para a verdadeira razão que o trouxera ali. — Mas trouxe notícias importantes. Dos ingleses. A atenção do rei mudou com a mesma rapidez que as marés. — O que soube? — Seus temores eram justificados, Vossa Alteza. Havia um complô para raptá-lo. — Meu tio? — O rei podia ter suspeitado, mas o choque da confirmação se estampou em seu rosto. — Não diretamente. O rei Henrique permaneceu a uma distância segura. Um terror ainda maior tomou conta do monarca. — Minha mãe? — Não. — A mãe de James era irmã do rei da Inglaterra. — Alguns dos lordes da fronteira. Há rumores de que Angus estava envolvido. — Ainda há essa ameaça? Thomas negou com um movimento de cabeça. — Consegui... desfazê-la. — A morte do líder do movimento fora convenientemente ligada a uma invasão insignificante, ligada a nenhuma outra razão. Desejava apenas ter conseguido aniquilar Angus também. Se estivesse esperando elogios efusivos por ter salvado a vida do rei, teria ficado desapontado. — E, durante o processo, criou outros problemas. As negociações sobre o tratado não lograram êxito porque meu tio, o rei da Inglaterra, disse aos embaixadores em Berwick que queria reparação pelos ultrajes cometidos pelos fronteiriços contra os ingleses. Estão até mesmo se lamentando pela morte de um homem chamado Willie Storwick. — O rei fez uma pausa. — Era ele o homem que tentou me raptar? — Não, Vossa Alteza. — Como seria fácil responder que sim. — Então quem é ele? — Um invasor inglês que merecia morte pior que a que teve. — Pelas mãos de quem? — Isso não está claro. Para ser justo, nem mesmo sabemos se ele está morto. Ninguém o vê há semanas. Mas também não encontraram seu corpo. Nem encontrariam, se conhecia bem os Brunson. — Aí está! É exatamente isso! Pedi que mantivesse a ordem e foi isso que aconteceu. E então, sabe o que tenho a dizer aos negociadores? Tenho de dizer a eles que aquelas terras se rebelaram contra seu rei, portanto não posso oferecer nenhuma reparação. — O significado do rei era claro. James o culpava e a John Brunson por fazêlo parecer um rei incapaz de governar as próprias terras. — Agora — continuou o monarca — corro o risco de perder Angus e a paz, tudo por causa de um bando de fronteiriços rebeldes que me desafiam. Com a sua ajuda! Então era assim. Ele havia salvado o rei de um complô e agora era o culpado por isso. Ainda assim, Carwell manteve a voz firme. — Não podemos permitir que Angus escape. — Aquele era o motivo pelo qual estava fazendo... tudo. — Tempo! Preciso de tempo, danação! — Houve um momento em que os olhos do rei pareciam... temerosos. — Não posso arriscar uma guerra contra a Inglaterra agora. E Carwell percebeu claramente que James tinha 16 anos e reinava de fato há apenas seis meses. — Tenho notícias melhores, Vossa Alteza. Uma oferta secreta dos ingleses. — E esperou até agora para me contar? Eles entregarão Angus, então, se ele tentar escapar pela fronteira? Carwell sentiu a mandíbula contrair. — Isso é muito improvável. — Não era necessário que ele fizesse nenhum Projeto Revisoras

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juramento para destruir o ex-regente. Jurara isso a si mesmo anos antes. — O rei Henrique ainda quer Angus poupado e restabelecido. O ex-padrasto, regente e captor de James, era o favorito dos ingleses e uma garantia contra a tradicional amizade entre a Escócia e a França. — Nunca! Ele será destruído. Isso eu prometo. Carwell percebeu o ódio na voz do rei. Tal sentimento fazia eco com o dele. Disso, pelo menos, tinha certeza. Ambos queriam vingança contra aquele homem. James por ter sido feito prisioneiro por Angus durante dois anos. Carwell por culpá-lo pela morte do pai. — Foi o que disse a eles — retrucou ele. — E retiraram tal exigência. — E eu ordeno que eles me devolvam o traidor se ele fugir para a Inglaterra. — Sem dúvida, Angus planejava escapar pela fronteira para desfrutar da hospitalidade do rei Henrique. Carwell tentara aquela abordagem sem sucesso. — Eles ofereceram algo um pouco diferente. Não o devolverão, mas se Vossa Alteza enviar homens à Inglaterra a fim de trazê-lo de volta para ser punido, não considerarão isso um ato de guerra. O sorriso do rei se alargou. — Ótimo. Posso enviar os negociadores de volta a Berwick com confiança. — O sorriso do monarca se transformou em um bocejo. — Conversaremos sobre isso mais detalhadamente amanhã. — Vossa Alteza. — Carwell executou uma mesura, agradecido pela chance de cuidar dos próprios ferimentos. — E, amanhã, traga Elizabeth Brunson até mim — acrescentou o rei. Carwell estacou. — Vossa Alteza, os Brunson não têm nenhum conhecimento de minhas negociações com os ingleses. — Nem ficarão sabendo através de mim. Uma mulher alta, com luvas vermelhas, entrou no aposento. Os sorrisos todos destinados ao rei, enquanto Thomas deixava o quarto real. Johnnie Brunson, pensou ele, devia ter se divertido muito na corte. Precisava de um vinho aquecido com açúcar e especiarias, além de um banho de banheira. Porém, antes, tinha de encarar Elizabeth Brunson mais uma vez. O guardião da fronteira inglesa se mostrara aberto a negociações, sim, mas fora forçado a dar ao homem algo em troca da informação. E os Brunson nunca poderiam ficar sabendo disso.

Capítulo Oito

Havia um baile planejado para acontecer no Grande Salão após o torneio, mas, como o rei se recolheu ao próprio quarto, o local se encontrava quase vazio. Alguns dançarinos desgarrados aguardavam os músicos começarem a tocar. Ainda assim, o fogo rugia em cinco lareiras e Carwell avistou Bessie, parada, sozinha, perto da que ficava mais próxima à porta. Pediu a um dos criados que lhe trouxesse o vinho aquecido. Bessie ergueu uma sobrancelha, em um questionamento silencioso. Projeto Revisoras

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— As notícias sobre seu clã não deixaram o rei de bom humor — comentou ele. Elizabeth não precisava saber nada sobre o tratado. — Será levada à presença dele, amanhã. Se esperava que ela empalidecesse pelo nervosismo diante daquele pensamento, ficou desapontado. — Por que não esta noite? Porque o rei já está ocupado com uma mulher. — Esta noite, ele está de péssimo humor porque o derrubei da sela do cavalo para proteger sua maldita inocência. E talvez tenha mais trabalho ainda para fazer isso, quando ele a encontrar amanhã. Bessie piscou várias vezes, surpresa em ouvi-lo disparar uma verdade sem envolvêla em palavras açucaradas. — Pedi apenas para cuidar da minha segurança. — Seus irmãos pediram mais que isso. — Minha virtude é responsabilidade minha. E, se não fosse cuidadoso, Bessie teria de defendê-la tanto dele quanto do rei. — Na corte, pode ser difícil distinguir uma coisa da outra. Bessie tomou um gole da taça que tinha nas mãos e olhou em volta do salão, sem dúvida avaliando a verdade das palavras que ele dissera. — Quero falar com o rei agora. — Pode lhe parecer difícil de acreditar, mas o rei James está lidando com questões mais importantes que o clã Brunson. Bessie lhe dirigiu um olhar obscuro, como muitos que vira Rob Negro lançar. — E acredito que você também. As dores produzidas pelo torneio daquele dia lhe sequestraram a calma habitual. — Passei muito tempo lidando com questões do clã Brunson hoje. Arrisquei minha vida, meus membros e a boa vontade do rei mantendo a promessa que fiz a seus irmãos. — E, por isso, eu lhe agradeço. — O tom de voz de Bessie soou ressentido. — Conversou com o rei sobre meus irmãos? — Esse não foi o motivo de nossa reunião. — Era verdade. Mas não absoluta. Bessie podia não acreditar, contudo, fizera mais por seus irmãos arrogantes do que mereciam. — Então qual foi o motivo? Atrás dele, os músicos começaram a tocar o ritmo imponente da pavana. Era melhor dançar que desviar as suspeitas de Bessie com palavras. Portanto, estendeu a mão. — Gostaria de dançar? Inclinando a cabeça para o lado, Bessie hesitou, embora ele fosse incapaz de distinguir se ela conseguira perceber o ardil ou se ainda se sentia melindrada com o fato de não saber dançar. Talvez as duas possibilidades. — Essa é a pavana. Uma dança muito mais simples que a dança de Galliard. — Gesticulou para que ela se aproximasse. — Basta pousar sua mão sobre a minha. Em seguida, damos passos para a frente e então um passo, toque, passo, toque, passo, passo, passo. Tão simples quanto andar. Com expressão cética, Bessie pousou a taça de vinho e depositou a mão sobre a dele. Os dedos eram calejados e frios, apesar do vinho quente. Carwell sorriu, tentando tranquilizá-la. — Apenas um passo de cada vez. Não pode errar. Uma promessa vazia, mas Bessie o acompanhou e os dois se posicionaram, lado a lado, ao fim da fila de casais. A dança começou no mesmo instante e, juntos, deram os primeiros passos. — Agora o pé direito, traga o esquerdo até ele. Pé esquerdo, traga o direito até ele. Devagar e imponente. Projeto Revisoras

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Mordendo o lábio inferior, Bessie baixou o olhar aos pés e seguiu os comandos. — Erga a cabeça — disse ele. — Seus olhos devem estar baixados, mas o pescoço, erguido, e os pés devem se mover sem que você olhe para eles. Em vez de baixar o olhar, recatadamente, Bessie os ergueu para encontrar os dele. — Se não devo olhar para meu par nem para meus pés, para onde devo olhar? O rosto de Bessie, os lábios carnudos, a luz que se refletia nos olhos castanhos, a curvatura do nariz e o ângulo das sobrancelhas de repente o deixaram sem palavras. Naquela dança, os dedos pequenos pousavam levemente sobre os dele, um toque não mais íntimo que um aperto de mão. Porém nunca a havia tocado por tanto tempo, e a lembrança do beijo que trocaram o aquecia mais que as lareiras acesas no salão. — Nos pés da mulher à sua frente, se quiser. Siga os passos dela. Agora, passo, passo, passo — orientou ele, agradecido pela necessidade de se concentrar em explicar a dança. Aquilo o impedia de se lembrar da aparência de Bessie quando a carregara para fora do córrego, o linho branco revelando tudo que escondia sob o vestido que usava agora. Bessie girou, com a cabeça erguida e o olhar nos outros casais. Agora, familiarizada com os passos, imitava o casal à frente deles, sem hesitação, enquanto progrediam pela margem da pista de dança. Um sorriso lhe curvava os cantos dos lábios. — Está dançando muito bem. — É simples — respondeu ela, com os olhos faiscando, como se tivesse esquecido de tudo além da alegria da música e do movimento. — É mais como uma procissão do que uma dança. A melhor para deixar que todos admirem nossos trajes elegantes. Bessie baixou o olhar ao vestido. — É emprestado. Carwell deveria ter adivinhado. Até mesmo uma servente da corte torceria o nariz para os vestidos que ele a vira usar antes. O feitio do corpete expunha as curvas com as quais, até então, só havia sonhado. — Ninguém reparará. Certamente não os homens. Esses veriam apenas o cabelo flamejante, os seios redondos e os lábios carnudos. Quando chegassem ao fim daquela dança, ela seria assediada por muitos parceiros para a próxima. Carwell franziu a testa diante de tal pensamento. Ninguém reparará. Mas ela reparava. Agora que via os outros casais desfilarem pela pista de dança, compreendia. Aquilo, permitia que todos olhassem uns para os outros, Para ela, da cabeça aos pés. Podiam ver claramente que o vestido estava muito apertado no corpete e muito longo. Feito para as medidas de outra mulher. Uma acostumada a exibir o pescoço pálido e a pele que levava aos seios fartos. Porém, Bessie manteve a cabeça erguida. Guiada por Carwell, era capaz de executar os passos daquela dança. Por fim, sem tropeçar, havia circundado a pista, sentindo-se finalmente como Elizabeth Brunson, alguém que dançava com facilidade na corte do rei. Lutou contra a estranha sensação de prazer. O pai não teria aprovado, mas executar aqueles passos lhe dera confiança. Tinha força o bastante para desafiar Thomas Carwell e graça suficiente para dançar com ele. Quando falou, manteve os olhos cuidadosamente pousados nos dançarinos à frente. — É permitido conversar com o par durante a dança? Embora não estivesse olhando para Carwell, sentiu que ele sorria. — Algumas palavras roubadas, sim — sussurrou ele, como se falar fosse algo tão Projeto Revisoras

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íntimo quanto dançar. Podia tentar fazê-lo soltar a língua mais uma vez. — Conversou com o rei esta noite. — Sim. — Sobre assuntos prementes de Estado. Thomas virou a cabeça, mas ela, não. — Eu disse isso. Sim. — Então posso apenas concluir que você e o rei estavam discutindo questões urgentes que concernem às fronteiras. — Talvez. — Sim ou não? O sorriso que havia antecipado sussurros roubados se transformou em uma mandíbula contraída. — Ele queria meu conselho sobre o tratado com a Inglaterra. Nossa conversa não é nada de seu interesse. — Meu clã vive a apenas a oito quilômetros da fronteira inglesa. Nada poderia ser de maior interesse para nós. — Seus irmãos me disseram com certa frequência que fazem a própria guerra e paz. — Ainda assim, você e o rei esperam que eles mantenham a paz que não tiveram nenhuma participação em estabelecer. Por que tem de manter em segredo o conselho que deu ao rei? Bessie cometeu o erro de virar o rosto na direção dele, apenas para se deparar com o olhar de Carwell vagando por seu rosto, como se pudesse perceber todas as verdades que ela não podia revelar. — E você também tem segredos que não quer compartilhar, Elizabeth Brunson. Bessie sentiu o coração bater nas bochechas do rosto e esperou que o rubor não a entregasse. Saberia Carwell que o estava espionando? Como poderia saber? Aqueles malditos olhos castanho-esverdeados, ocultos por trás dos cílios espessos, eram sempre inconstantes quando conseguia vê-los. — Havia planejado — começou ele — discutir sobre isso com seu irmão durante a viagem. — Ainda assim, não disse uma palavra sobre isso a ele ou a mim. Pode imaginar por que não confiamos em você? Nunca diz uma verdade absoluta em sua vida, Thomas Carwell. O círculo se quebrara em uma linha e, quando alcançaram a extremidade da pista, uma parede se assomou diante deles. — Agora eu a guio em um giro — disse Carwell, como se não estivesse conversando sobre outra coisa, senão a dança. — Eu recuo e você se move para a frente e terminamos de frente para a parede leste. A força com que ele lhe segurava os dedos aumentou, encorajando Bessie a dar o próximo passo. Engolindo em seco, incapaz de se concentrar nele, na conversa e no movimento dos pés ao mesmo tempo. Os dedos pequenos se tornaram mais quentes contra os dele. Sentir-se desajeitada era desagradável o suficiente. Pior ainda era se lembrar do homem ao seu lado como o vira no rio. Molhado. Nu. Bessie tropeçou na saia do vestido e tentou soltar a mão dele. Mas Carwell não permitira. O casal atrás dos dois tropeçou neles. Um sapato lhe pisou o calcanhar. O momento de força e graça de Bessie havia se dissipado. Carwell a puxou consigo e ela teve de se apressar para manter o passo. Bessie permaneceu calada pelo restante da dança, ignorando o olhar furioso da mulher atrás ela Projeto Revisoras

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quando deixaram a pista. Thomas a guiou de volta ao calor da lareira, enquanto os tocadores de alaúde ajustavam as cavilhas e afinavam as cordas. Bessie limpou a garganta e o encarou. ― Ao que parece, sou um pouco melhor na pavana do que na dança de Galliard. E não muito melhor em escavar os segredos de Carwell. — Qualquer dança é difícil até que a execute várias vezes. A dança de Galliard é uma das mais complexas. Os passos não possuíam complexidade maior que os olhos de Carwell. Quando ele a beijara, por mais que estivessem próximos, Carwell se encontrava protegido pela armadura. Agora, os ombros e o peito estavam curvados na direção dela. Perto o suficiente para... Bessie olhou ao redor do salão, esperando avistar Mary Baixa, mas tudo que viu foi estranhos. Os acordes da próxima dança entoaram e ela desejou que existisse alguém, qualquer um, para ser seu próximo par. Estava disposta até mesmo a arriscar se humilhar para escapar dos olhos daquele homem. E então dois cortesãos assomaram ao lado dela, suplicando-lhe a próxima dança. Thomas interveio, pousando a mão sobre o braço dela, como se para impedi-la. — Elizabeth, acho que não deve... Agradecida por poder escapar, Bessie estendeu a mão na direção do mais jovem, com cabelo cacheado e olhos escuros. Os dois se encaminharam à pista. Só quando pensava em Carwell é que tropeçava. Dançar com um estranho seria mais fácil. A mão em contato com a dela estava úmida e pegajosa, o que era surpreendente para uma noite tão fria. Seu par tinha cabelo cacheado, olhos joviais e os cantos dos lábios virados para cima. Teria ele dito seu nome? — Sou Elizabeth Brunson. — Elizabeth. Uma pessoa diferente de Bessie. O homem colocou uma perna para a frente e fez uma mesura. — Oliver Sinclair. É a irmã de Johnnie. Bessie assentiu. Era estranho ser lembrada de que Johnnie vivera ali, que passara uma vida toda ali, da qual todos sabiam muito pouco em casa. De alguma forma, saber que aquele homem conhecera seu irmão a fez se sentir segura. Mais segura que ao lado de Carwell. — Não tenho muita experiência em dançar — disse ela. Pronto. Confessara. Ainda assim, nos primeiros instantes, os passos não pareciam mais complicados que um simples caminhar. — Esta é minha favorita — disse o homem. — A dança de Galliard. Bessie sentiu o calor abandonar seu corpo. — Talvez prefira dançar com outro par. Eu não... Mas a música havia começado e os pés do homem se moviam com tanta rapidez que ela não conseguia acompanhar. Aqueles não eram passos simples. Os pés tinham de balançar para trás e para a frente, saltar e chutar, antes de girar. Os pares se moviam em volta de Bessie, girando e a impossibilitando de se fixar em uma pessoa para lhe acompanhar os passos. E, a não ser que se soubesse exatamente o que fazer, corria-se o risco de ser chutada. Ou de chutar alguém. E então o par lhe virou as costas, deixando-a sozinha na pista. Todos trocaram os parceiros e Bessie não sabia para onde devia ir ou quem seria seu próximo par. Almejara um escape e um momento de glória. Brilhar entre aqueles pavões. Vivenciar a efêmera docilidade antes de voltar à sua torre fria, fustigada pelas correntes de ar. Mas aquilo, com saias rodopiantes e coloridas expondo e escondendo alternadamente as pernas das mulheres, não passava de uma confusão colorida. O salão estava Projeto Revisoras

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decorado com tapeçarias, pintadas em padrões cheios de nuanças e desenhos que a deixavam quase zonza. A dança mais difícil de todas. Bessie congelou, não mais se movendo, enquanto tudo ao seu redor saltava e retrocedia, nunca perdendo o passo. A mulher ao seu lado lhe dirigiu um olhar de escárnio. E então Thomas Carwell estava ao seu lado. — Seu pé machucado a deve estar incomodando, Elizabeth — disse ele, com um sorriso gentil. — Não deveria tentar a dança de Galliard tão cedo. E com isso a guiou para fora da pista de dança. Pé machucado. Uma agradável mentira. Por um instante, durante a primeira dança, ela fora Elizabeth. E então tropeçara outra vez, enquanto todos assistiam, com rostos estranhos e judiciosos. E ela despencou do sonho, percebendo que era apenas a simples e caipira Bessie, usando um vestido emprestado, tão deslocada ali como uma vaca em meio a pavões. Inclinando-se e se recostando sobre o braço forte, ela sibilou: — É meu orgulho e não meu pé que está machucado. Ainda assim, aquele homem aparecera para lhe resgatar o orgulho com tanta rapidez quanto se sua vida estivesse ameaçada. Como se o orgulho de Bessie também estivesse sobre a proteção da jura que ele fizera aos seus irmãos. Tão gracioso quanto se mostrou diante dos outros, Carwell agora exibia uma carranca. — Tentei impedi-la. A dança de Galliard sempre segue a pavana. Mais regras que ela desconhecia. Fora uma tola em pensar que podia se sentir à vontade na corte, mesmo que por uma única noite. — Pavana, dança de Galliard, a basse, o tordião... mostre-me um verdadeiro reel escocês em vez de todos esses passos estranhos. — O reel escocês é dançado ao fim da noite — respondeu ele, em tom áspero. — Juntamente com as danças camponesas. — Os Brunson não dançam. — Quando estão na corte, dançam. Enquanto discutiam, Thomas a havia guiado para fora do Grande Salão, longe dos olhares alheios, por uma escada que subia até a uma pequena torre. Bessie ignorou a atenção de Carwell e se agarrou à própria raiva. — Acha que o rei me pedirá para dançar um reel escocês? A expressão severa de Carwell se suavizou. — Bem, o rei não, mas eu, certamente sim. Bessie disse a si mesma que ele a estava provocando. Ou que se oferecia apenas por compaixão, lembrando a si mesma que aquele homem era, sem dúvida, um traidor de seu clã. Mas Carwell era a única ligação com seu lar, um homem da fronteira, que conhecia sua vida e seu clã. Aquele que, por alguma razão secreta, atacara ao lado deles. Quando alcançaram o topo da torre, Bessie sucumbiu a uma momentânea gratidão. — Eu gostaria disso — disse ela, com um sorriso. Subir aquela escada a fez se lembrar de tudo que a estaria esperando em casa. Antes de retornar, queria capturar aquele instante mais uma vez. O momento, na pista de dança, em que sentira como se estivesse flutuando. Carwell lhe segurou as mãos e a encarou, a expressão não mais irada, no entanto ainda séria. — Para sobreviver na corte, tem de aprender as regras e ainda assim ser flexível. — Flexível? É possível mudar os passos de uma dança? — Não estou me referindo apenas à dança. Projeto Revisoras

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Não. Falava sobre segredos, sombras e motivações ocultas sob sorrisos educados. Da habilidade de flexionar e se dobrar, que aqueles Brunson, plantados firmemente em seu vale, nunca aprenderam e nem desejavam aprender. Ainda assim, Bessie estava ali para devolver seu clã às boas graças do rei. Portanto, havia coisas que ela precisava aprender rapidamente, para que pudesse cumprir sua tarefa e voltar para casa, ao lugar a que pertencia. — Pode me ensinar? Carwell estendeu a mão. — Começaremos mais uma vez com a pavane. Com um suspiro de alívio, Bessie estendeu a mão e pousou sobre a dele. Aquele ritmo ela era capaz de dançar.

A NOITE empalideceu e os acordes abafados da música alcançaram o poleiro que ocupavam no topo da torre. À medida que Carwell a guiava através dos passos, ela aprendia a prestar atenção, lhe antecipar o balanço do corpo e o salto dos pés. Era àquilo que ele se referira, percebeu Bessie. Inclinar-se e balançar. Perceber o parceiro e responder aos seus movimentos. E também concluiu, perturbada, que Carwell era capaz de fazer a mesma coisa com ela. No passo seguinte, Bessie tropeçou. Carwell aumentou a força com que a segurava. — Seu pé machucado ainda a incomoda? Homem tolo, referindo-se a um machucado que ele mesmo inventara. — São minhas dúvidas que me fazem tropeçar. — O corpo não mente. Ele ouve suas dúvidas. Deixe-as de lado. Está bem melhor agora. Bessie ruborizou diante do elogio. — Tem sido muito paciente. E gentil. Quando alguém havia perdido tanto tempo em seu benefício? — Agora, vamos passar à dança de Galliard. Bessie engoliu em seco e assentiu. Coloque suas dúvidas de lado. — Basta dar um passo de cada vez. A primeira coisa que tem de saber é que a dança de Galliard é uma dança masculina, cujo objetivo é exaltar o homem. — Bessie piscou várias vezes, confusa. Aquela era uma admissão rude vinda de um homem que nunca falava demais. — Está surpresa? Pense um pouco. Todos esses saltos, movimentos repentinos e chutes? Cada passo do homem será observado. Relembrando a dança, Bessie concluiu que não observara as mulheres. Fora os homens a quem tentara seguir. Experimentou um consolo repentino por não ter de ser perfeita. — Então, se eu apenas saltar nos momentos certos, será o suficiente. — Ninguém pode ver o que suas pernas estão fazendo por baixo da saia. Basta se mover para cima e para baixo no ritmo da música. E criará a ilusão da dança. Criar a ilusão. Seria aquela uma das lições de como sobreviver na corte? — Mantenha seu olhar no homem. E tente parecer que o está admirando. Bessie arqueou as sobrancelhas. — Pensa em me fazer olhá-lo com admiração? — Inclinando-se para a frente, ela adejou os olhos e o encarou com olhar vesgo. Uma expressão que colocava Rob em seu lugar, quando estava agindo de maneira muito arrogante. Porém, quando encontrou o olhar de Carwell, toda aquela encenação caiu por terra. Admirava algumas coisas naquele homem. O cuidado e a paciência de que lançava mão para ensiná-la. A forma como se Projeto Revisoras

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arriscara a enfrentar a ira do rei para protegê-la. O cabelo bobo que balançava e caía a cada salto que dava. As pernas musculosas, capazes não só de lutar, mas também de saltar e chutar nos passos da dança. Os olhos inconstantes, que guardavam segredos. Era apenas a dança que a aquecia. Somente o alívio de saber que conseguia executá-la, saber que da próxima vez não ficaria envergonhada, a fazia sorrir. Apenas o hábito de estar em sintonia com o corpo de Carwell a fazia balançar mais para perto... Os BRAÇOS fortes a seguraram antes que ele se desse conta. Da última vez, a armadura e a plateia que os assistia o protegeram. E a Bessie. Dessa vez, a barreira que as roupas ofereciam parecia delgada, como se ela certamente lhe estivesse sentindo a ereção através da saia do vestido. Dessa vez, estavam sozinhos. Não havia ninguém para testemunhar o que faziam. Finalmente, Bessie se mostrava feliz e à vontade com ele. Carwell sonhara com aqueles lábios e agora os tinha ao alcance dos dele, tentadores, próximos... Bessie enrijeceu o corpo e o empurrou. — Não. Recuso-me a participar destes jogos. Beijos não são ninharias para serem tomadas e postas de lado. Carwell se recompôs rapidamente. A risada, a tranquilidade, haviam desparecido do rosto de Bessie, substituídas pela raiva. E arrependimento. — Quem era ele? — Houvera um homem. Que a machucara, suspeitava Carwell. — Diga-me. O choque estampado no rosto delicado lhe dizia que estava certo. Bessie não tinha sequer a presença de espírito suficiente para negar. — E por que deveria? — Porque me importo com você. Algo que ela não havia percebido até aquele momento. Algo que não queria admitir. Mas Bessie não aguardou a resposta, provavelmente não por não esperar que ele o fizesse. Deixando o momento de fraqueza para trás, voltou a ser a Bessie forte e obstinada. — É assim que costuma fazer? — Os olhos castanhos não se desviavam dos dele. — É assim que mantém seus segredos guardados e arranca o das outras pessoas? Não há nenhum segredo político envolvido nisso. Nada que o beneficiará ou ao rei. Afeta apenas a mim e a mais ninguém. — Ele brincou com seus sentimentos, certo? A cor abandonou o rosto de Bessie e os lábios carnudos se entreabriram, ameaçando um protesto. De repente, tudo ficou claro para Thomas. — Ele a beijou à luz da lua, apalpou-a no estábulo, talvez até mais. Talvez até... — Ele se descobriu incapaz de continuar. A raiva contra aquele homem sem nome o atingiu como uma flecha. — E depois se casou com outra mulher, esperando que você dançasse no casamento deles. Cruzando os braços sobre os seios, Bessie deixou os ombros penderem e virou de costas, olhando para a escuridão. E, enquanto os sons abafados dos alaúdes ecoavam abaixo deles, Thomas se deu conta de que, se não estivesse certo quanto a todos aqueles detalhes, havia chegado perto. — E não. Eu não dancei. — As palavras de Bessie soaram como se a uma grande distância. E desde então nunca mais dançara, Thomas podia apostar. Até aquele momento. — Quem era ele? — Não importa. — Bessie não girou para encará-lo, dirigindo-se firmemente à escuridão. — Um rapaz. Inexperiente e insensível. E quem era eu? Apenas uma menina ingênua, que pensava que o primeiro homem que me beijasse seria o último. Mal consigo me lembrar do rosto dele. Projeto Revisoras

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— Mas se recorda do que ele fez — sussurrou Thomas, como se o tom suave fosse capaz de lhe dirimir a dor. — O quanto ele a magoou. Naquele momento, Bessie girou para encará-lo, fulminando-o de raiva. — E você? Não tem nenhuma cicatriz de algum sofrimento do passado? Alguém de quem se lembre? — Ela sorriu, deixando claro que ele também não era capaz de ocultar seu tormento. — Sim. Posso ver que tem. Todos temos. Quem era ela? Thomas deu de ombros, recobrando o autocontrole. — Como você disse, todos temos. — Ah, estava ávido por dissecar meus segredos. E quanto aos seus? Se tentar adivinhar, como você fez, talvez acerte em cheio. Vejamos... Bessie iria perguntar. Tentar descobrir. Desencavar a dor toda outra vez. O sofrimento que passara anos tentando enterrar. Decidiu por dizer algo que ela já sabia. Qualquer coisa que pusesse um fim àquilo. — Não precisa adivinhar o que é. Você sabe. Angus derrubou meu pai da posição de guardião da fronteira. Isso o destruiu. A compaixão tocou os olhos castanhos. A piedade de uma mulher, cujo pai morrera apenas há alguns meses. — E, por isso, deve destruir Angus. Thomas deu de ombros, não querendo acrescentar mais nada. O pai fora um homem forte, orgulhoso e tão rude quanto um Brunson. Se tivesse se mostrado mais disposto a se curvar, mais hábil em fazer acordos, talvez tivesse mantido seu posto. Ao menos, era isso que dizia a si mesmo. Mas Bessie estava aprendendo a ler nas entrelinhas de seus silêncios. — Mas a injustiça que cometeram com seu pai... não é o motivo pelo qual vive sozinho naquele grande castelo próximo ao mar. — Os olhos castanhos não exibiam nenhuma compaixão agora. Ela se parecia com um animal ferido, ameaçado e, no momento, pronto para destruir seu agressor. — Disse-me que não há mulheres em sua casa. Quem era ela? A mulher que o decepcionou? Sim, ele tinha segredos. E aquele não era da conta dela, nem de ninguém. — Fui casado. Ela morreu. Uma verdade parcial. Talvez fosse suficiente. Bessie deu um passo atrás, hesitando. — Não é fácil falar sobre isso, certo? — Não — respondeu Thomas, por fim, arrependendo-se de ter tocado no assunto. — Não é. A obstinação se dissipou dos olhos castanhos. — Sinto muito. Você tem direito aos seus segredos. — O olhar que ela lhe dirigiu o advertia na mesma medida em que se desculpava. — Assim como eu. Em seguida, Bessie virou de costas, felizmente em silêncio, e começou a descer a escada, deixando-o sozinho com seu passado. Thomas virou o rosto, desejando poder ouvir as ondas do mar, batendo na margem há milhas de distância. Quando se afastara de casa pela primeira vez, tutelado por uma família que morava em terras que não tinham acesso ao mar, Thomas conjurara aquele som em sua mente para induzir o sono. Sentia aquela mesma falta agora. Era como se seu sangue fosse bombeado naquele ritmo antes mesmo de ter nascido. Preciso em sua imprecisão, o mar o preparara para a vida. Desde cedo aprendera que as luas, as marés, os homens, os reis, as alianças... tudo era mutável. Não havia nada que um homem pudesse deter na vida, nada a que se agarrar, exceto à certeza da mudança. E que ele devia estar pronto para acompanhar as mudanças, se adaptar às marés Projeto Revisoras

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para conseguir sobreviver. A vida era tão incerta quanto as areias movediças na margem. Um movimento errado e não haveria mais nenhum movimento. E um homem tinha de se contentar com aquilo. Com aquilo, pensou ele enquanto girava na direção da escada, e com a lembrança de um beijo.

Capítulo Nove

Sem esperar por ele, Bessie desceu a escada, arrependendo-se de cada palavra que dissera. Era uma tolice até mesmo se lembrar daquele beijo no estábulo, tanto tempo atrás. Não significara nada; certamente não para o menino. E não houvera mais nada desde então, portanto a lembrança adotara contornos de um sonho perdido. Dissera a verdade a Carwell. Mal se lembrava do rosto do rapaz. Mas e quanto à noiva? Ah, lembrava-se dela claramente. A moça viera da fronteira oriental e usava mangas com babados, uma corrente de ouro e não possuía dedos calosos. Nunca deveria ter contado nada disso a Carwell. Não tinha talento para o fingimento ou para a eloquência. O único jeito que conhecia de guardar um segredo era mantendo a boca fechada. Ao sopé da escada, relanceou o olhar ao Grande Salão, sem entrar. As damas, em suas roupas brilhantes, continuavam a girar e rodopiar, trajando vestidos, joias e executando movimentos perfeitamente ritmados com as notas tocadas pelos músicos. Todas as coisas pelas quais procurara, antes de sequer imaginar que existiam. Sim, era da noiva do rapaz que se lembrava. E, de alguma forma, pensara que sua vinda à corte a transformaria naquela mulher. Que algo mágico aconteceria, transmutando-a em alguém que valesse alguma coisa para... outro alguém. Oh, amava seu clã e seu lar, mas aquela sensação de que havia algo mais sempre fervilhara sob a superfície. Algo que ainda não vira nem conhecera. E durante aquele momento nos braços de Carwell, durante o beijo, pensara que, finalmente, tinha encontrado o que buscava. E então, o que fizera? Voltara-se contra Thomas Carwell como a pior das megeras. A esposa dele havia falecido. Não era de admirar que ele ficasse triste. Por que motivo pensara que fora outra coisa que lhe causara sofrimento? Antes que ele pudesse alcançá-la, Bessie deixou o Grande Salão, cruzou o pátio e se encaminhou ao quarto que lhe haviam designado, aliviada por não encontrar nenhuma das Marys ali. Em seguida, se aninhou sob o cobertor para dormir. Mas o sono não chegou. Em vez disso, as dúvidas se agigantaram, preenchendo o quarto escuro. Teria descoberto a verdade de Carwell? Ou sua postura garbosa e histórias sobre um pai e uma esposa mortos a haviam enganado? Será que Carwell lhe contara tudo? Seria aquilo o suficiente para torná-lo o homem que era? Agora imaginava realmente qual seria a verdade de Carwell. E por que se importava com aquilo. Apenas porque fora encarregada de descobrir. Apenas porque aquilo podia estar ligado ao motivo pelo qual Carwell os traíra nas fronteiras. Quem era a esposa de Thomas? E como poderia descobrir, sem questioná-lo? Projeto Revisoras

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A porta se abriu e Bessie fechou os olhos com força, não desejando lidar com nenhuma Mary aquela noite. — Shh. Tem alguém aqui. A porta se fechou outra vez. Sons abafados ecoaram no corredor. Uma risadinha. O som de lábios se encontrando. Passos se afastando à procura de outro lugar onde se esconder. Qual das Marys teria sido? E com quem? Bessie manteve os olhos fechados, satisfeita por não saber. Em sua mente, imaginou um salão repleto de dançarinos hábeis e rodopiantes, enquanto ela, longe das bases sólidas de sua casa, sentia como se cada passo que dava a levasse a um terreno mais incerto. E naquele lugar, em meio àquelas pessoas, o indigno de confiança Carwell talvez fosse o ser mais confiável que ela conhecia. Apenas ao final da manhã do dia seguinte, Bessie foi levada às pressas aos aposentos do rei para ser formalmente apresentada.

O MONARCA queria recebê-la a sós, mas, antes de permitir que ela entrasse, Thomas a advertiu para que não falasse a não ser que se dirigissem a ela e dissesse o mínimo possível pelo maior tempo possível. Bem, Carwell não estava com ela naquele momento. Falaria com o rei da maneira que bem lhe aprouvesse. No silêncio, enquanto aguardava que o rei se pronunciasse, Bessie o observou cuidadosamente. Aquele era o homem que fizera de Johnnie um cavaleiro. O homem que, um dia, seu irmão mais novo quisera beneficiar em detrimento aos anseios do próprio clã. O homem a quem Johnnie se afeiçoara como a um irmão. Era um rapaz de boa aparência, com o cabelo ruivo da mesma tonalidade da que ela e Johnnie possuíam. Observou a facilidade com que os dois poderiam ter sido confundidos com irmãos. Bessie dobrou os dois joelhos, executando uma reverência. Era o melhor que conseguia fazer. — Então você é a irmã de Johnnie Brunson. O que Carwell lhe pedira para fazer? Devia sustentar o olhar do monarca ou não? Bem, não era possível perceber nada de um homem se não o olhasse nos olhos. E os do rei eram cor de avelã. — Sim. — É parecida com ele fisicamente. Exceto pelos olhos. — Os meus são castanhos. — Como todos os Brunson, exceto Johnnie. O rei sorriu ao se recordar, uma expressão estranha em alguém tão jovem. — Passamos bons momentos juntos. — Ele diz o mesmo, Vossa Alteza. O olhar sonhador se dissolveu. — Mas agora ele me desagrada. Enviou-a em vez de vir pessoalmente. Johnnie achou que um rosto bonito me suavizaria? Ah, sim. Bessie estava aprendendo que ali se suspeitava da motivação de todos. — Ele teria vindo pessoalmente, mas está recém-casado. De fato estava recém-casado, mas aquele não era o único motivo de sua ausência. Desde quando sua língua aprendera a faltar com a verdade? O sorriso do rei adotou um aspecto malicioso. — E não quer deixar o leito nupcial? — Bessie sentiu as bochechas do rosto quentes e,pela primeira vez, se viu sem palavras. Mas o rei não as havia perdido. — Então está escondido atrás de uma mulher, em vez de vir até aqui para enfrentar minha ira? Projeto Revisoras

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Como ele podia pensar uma coisa daquelas? Ou por que não havia imaginado que esse seria o pensamento do rei, quando insistira em tomar aquela missão para si? — Meus irmãos não estão escondidos. Mas cada um tem suas obrigações e responsabilidades. E no meu clã as mulheres são tão fortes quanto os homens. Embora estivesse longe de se sentir forte, enquanto proferia aquelas palavras. — Mulheres fortes e bonitas? Jamais conheci nenhuma assim. Minha mãe é uma mulher forte, mas, meu Deus, muito inconstante. Amava meu pai, mas ele morreu. Amou Angus e depois deixou de amá-lo. Eu não o amei nem um pouco desde que me fez prisioneiro. E agora ela ama seu novo marido, Hamilton, ou amava. Ontem, estava ansiando por Angus outra vez. — O rei andava ao redor de Bessie enquanto falava, como se inspecionasse uma estátua, e ela percebeu uma mente que trabalhava como a de Carwell. Cheia de opções e possibilidades, sobrevoando em torno da presa como um falcão escolhendo a hora certa de desferir o ataque. Fazendo-a se sentir como um pombo, aguardando o mergulho do falcão. — Então, Elizabeth Brunson, pode ver qual é o meu dilema — disse ele, como se fosse algo óbvio. — Não, Vossa Alteza, não vejo. Sua fala é enigmática. James franziu a testa. — Pedi coisas simples ao seu clã. Lealdade. Homens. Obediência às leis. — As coisas eram simples nas fronteiras. Apenas não compatíveis com o pensamento do rei. — Confiei uma missão a Johnnie. Ele não apenas fracassou... — Ele não fracassou. Os olhos do rei se estreitaram. Ela o interrompera. O que aquela mulher estava pensando? — Johnnie não me enviou homem algum. Não fez nenhum juramento. E, em vez de paz, ouvi queixas de que um Storwick foi morto a sangue frio. — Não exatamente, Vossa Alteza. Ele foi... — Ele está morto, não está? Ao que parecia, reis não podiam ser contestados, mesmo quando estavam errados. — Acredito que sim. — E o mundo ficará melhor por isso. — Nenhum homem Brunson veio lutar ao meu lado, enquanto tentava derrotar o traidor Angus. — Não, Vossa Alteza. Os homens estavam fazendo algo mais importante. — Caçando o vilão Willie Storwick, o Marcado. — Então admite que não foi fracasso, mas sim uma deliberada desobediência! — Tanto a voz quanto os braços do rei se ergueram, como se estivesse se preparando para desferir o golpe fatal. — Até mesmo uma rebelião! De um homem que recebi em meus aposentos particulares! Ouvindo o lamento daquelas palavras, de repente Bessie percebeu que não era mais o rei que lhe falava. Ali estava um jovem que dependera de seu “irmão mais velho” como uma das únicas seguranças que tinha na vida. Alguém que se importava com o homem, não apenas com o rei. Alguém cuja deserção representava uma traição pessoal. Bessie engoliu em seco, procurando as palavras. Porém, o rei não esperou. — E agora, quando pedi que ele apenas viesse até aqui, fazer o juramento pelo seu clã de destruir meu inimigo Angus, o que ele responde? Envia uma mulher inconstante e insegura. O que devo fazer com isso, em sua opinião? Agora Bessie entendia por que Carwell sempre se expressava com cautela. O castelo Stirling podia ter sido construído em um rochedo, mas não havia solo firme ali. E ela não era Elizabeth, mas a simplória Bessie, que deveria assumir sua verdadeira identidade e fazer o que devia. — Vou lhe contar sobre meu clã. Depois Vossa Alteza poderá fazer o que quiser. Projeto Revisoras

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— Sei tudo sobre seus fronteiriços — respondeu o rei. — Johnnie me contou. — Então não lhe disse o suficiente. As linhas que vincavam a testa do rei não eram páreo para as carrancas de Rob Negro. — São todos tão obstinados assim? Bessie assentiu com um gesto de cabeça. — E não sou a pior do bando. O rei gesticulou dando-lhe permissão para seguir em frente. — Conte-me o que quiser. Bessie imaginou se aquilo faria alguma diferença. — Sempre ao ser questionado sobre o que fazer, Vossa Alteza só tem uma responsabilidade e uma maneira de resolver. Pensa no que é melhor para a Escócia. — Claro. — Assim é para um Brunson. A diferença é que a única coisa que temos a fazer é proteger e preservar nosso clã. Foi isso que Johnnie fez. Não poderia fazer outra coisa. — Não poderia fazer outra coisa? Então, o que concluo disso é que os Brunson são traidores. — O calor no rosto de Bessie esfriou. — Sabe por que está aqui, certo? Para persuadi-lo a perdoar meus irmãos. No entanto era mais sensato não dizer aquilo agora. — Como uma garantia pelo bom comportamento de meus irmãos. — Ao menos, era aquilo que o rei pensava. Quanto ao seu esforço para provar a traição de Carwell, nada diria. — Então tenho de mantê-la por perto ou os Brunson não terão razão alguma para fazer o que quero. — Bessie entreabriu os lábios, mas o rei havia sequestrado as palavras de sua garganta. — E sabe o que acontecerá se continuarem as guerras na fronteira? Bessie jamais considerara aquela pergunta. Esperara encontrar o rei, explicar as coisas de modo que ele entendesse e voltar à torre. — O que acontecerá, Vossa Alteza? — Você nunca mais verá sua casa. — Aquilo lhe pareceu uma sentença de morte. — Quer voltar a ver sua casa? Sim. E muito. Os degraus desgastados dos quais se ressentia agora pareciam como amigos queridos suplicando por seus pés. O verde intenso da grama de verão. O vento uivante no inverno. Tudo aquilo. Não voltar nunca mais para casa? Talvez a morte fosse melhor. — Sim. Sim, quero. — Então é melhor esperar que seus irmãos mantenham a paz. E acho bom se preparar para uma estada longa. Uma estada longa. Bessie nunca pensara de fato no que os irmãos fariam se o rei a mantivesse ali. Mas sabia o que esperava que fizessem: o que fosse necessário para proteger o clã.

CARWELL ESPERAVA, andando de um lado para o outro, fora dos aposentos do rei. O guarda o mantinha muito longe da porta para que pudesse ouvir as palavras que eram ditas, mas conseguiu distinguir a voz exaltada do rei. Um mau sinal. E, quando Bessie emergiu do aposento, muito pálida, suspeitou do pior. — O que ele disse? Bessie hesitou, como se relutante em admitir o fracasso. Projeto Revisoras

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— Ele não quis escutar. — Ele é o rei. Não tem de escutar. Thomas a guiou para fora do prédio, em direção ao caminho da ronda ao longo da parede do castelo, onde poderiam evitar ouvidos alheios. O sol de novembro brilhava pálido, mas estavam no meio do dia, e aquela seria a temperatura mais alta de que desfrutariam. — Estou olhando na direção de casa? — perguntou Bessie, saudosa, enquanto observavam o vale. — Para lá. — Thomas apontou para um ângulo e ela seguiu a direção do dedo longo. — Fica muito longe — disse ela, não exatamente para Carwell. — Agora conte-me o que aconteceu. O que disse ao rei? — A verdade. Thomas fechou os olhos, deixando escapar um suspiro. Como seria capaz de desembaraçar aquela teia? — Queria que eu tivesse mentido? — perguntou ela. — Há uma diferença entre mentir e atirar no rosto do rei palavras que ele não quer ouvir. Que verdade em particular lhe impôs? — Apenas que Johnnie tomou a decisão que qualquer fronteiriço tomaria. — Um beicinho obstinado se formou nos lábios tentadores. — Colocar o clã em primeiro lugar. Algo arrepiou na base da espinha de Thomas. Ele teria tomado a mesma decisão. — E o que o rei respondeu a isso? — Que Johnnie estava rebelado. Bessie proferia as palavras com calma, como se não entendesse exatamente o significado delas. Mas ele entendia. — E o que o rei disse depois? — Que, se continuássemos a fazer invasões, eu nunca mais voltaria para casa. Uma refém permanente. Tais coisas aconteciam. O clã teria sorte se aquele fosse o pior castigo. O rei havia ordenado a destruição completa de dois clãs naquele ano. Apenas as mulheres e as crianças tinham sido poupadas. — Eu não lhes disse isso desde o início? — Ainda assim, nem Bessie nem os idiotas dos irmãos levaram seu aviso a sério. — Mesmo que o rei me mantenha aqui, isso não obrigará meus irmãos à sua vontade. Rob e Johnnie protegerão o clã como um todo e não apenas a mim. — Não teria tanta certeza disso — disse ele. Os irmãos Brunson haviam sido inflexíveis quanto ao bem-estar de Bessie, um fardo que agora repousava sobre seus ombros. E aquela estava se tornando uma tarefa cada vez mais difícil. — Johnnie me preveniu de que o rei poderia não ser sensato. — Ela fez um gesto negativo com a cabeça, com um leve sorriso a lhe curvar os lábios. — Ele realmente conhece muito pouco as mulheres. Thomas a olhou, surpreso. Em sua experiência, o rei conhecia muito bem as mulheres. — O que quer dizer? — Ele acha que somos fracas e inseguras. Você é. Thomas conteve a língua rapidamente e remodelou as palavras. — Muitos homens concordariam com ele. — Você concorda? Thomas era esperto o suficiente para não lhe atirar aquela verdade no rosto. Antes de responder, clareou a garganta. — Conheci algumas que precisavam ser... cuidadas. Projeto Revisoras

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Os olhos castanhos encontraram os dele e Thomas reconheceu não a mulher que tropeçara na pista de dança, mas aquela que insistira em vir para Stirling. — Bem, nem você nem o rei jamais conheceram uma mulher Brunson. Aquilo, Thomas estava começando a perceber, era verdade. — São todas tão obstinadas quanto você? — Não conhece a história do Primeiro Brunson? A voz soava surpresa, como se aquela fosse uma lenda que todos deveriam saber. Thomas vasculhou a memória. — O homem que foi abandonado para morrer, depois da batalha no vale? Bessie assentiu e, em seguida, cantou algumas frases da balada, a voz rouca e suave: Largado no campo pelo resto do seu clã, Abandonado para morrer foi o primeiro homem Brunson. Bessie cruzou os braços e encolheu os ombros contra o vento. — E você sabe o que ocasionou a batalha que deixou o Primeiro Brunson às portas da morte? Thomas negou com a cabeça, certo de que ela lhe contaria. — Não. — Eles estavam tentando rastejar pelo terreno inimigo e o Primeiro Brunson pisou em um cardo. Ele engoliu em seco a dor que sentiu, mas o homem ao seu lado não conseguiu. Soltou um grito, estragando a surpresa do ataque. Thomas ergueu as sobrancelhas e segurou a língua. Ouvira aquela história antes, mas contada por outro invasor, em outra parte do país. — E o que aconteceu? — Graças ao alarme, muitos de seus camaradas foram mortos. Guerra. Batalha. Morte. Lendas que qualquer criança das fronteiras sabia de cor. — Mas ele sobreviveu. — Eles o abandonaram para morrer, aqueles que ainda possuíam dois membros intactos para escapar. O Primeiro Brunson estava tão próximo da morte que os inimigos se limitaram a lhe roubar a espada e o punhal antes de partir para suas casas. Thomas deu de ombros. Ferido e sem armas, seria melhor estar morto. — Como ele sobreviveu? Bessie deu de ombros. — Os Brunson são muito obstinados. Pelo fato de ter sobrevivido e o chão sob seu corpo não tê-lo deixado morrer, o Primeiro Brunson decidiu se estabelecer nele. Apossarse dele e nunca mais o deixar. Tampouco ninguém de seu clã depois dele. Obstinados como todos os seus descendentes. Sem dúvida, aquilo o mantivera vivo. E não era de admirar que aquela obstinação estivesse no sangue dos Brunson. A terra os nutria, assim como fazia os cardos florescerem. Mas o que acontecia a um cardo quando era retirado do solo? Não era de admirar que a corte a deixara tão insegura. A raiz da imperturbável Bessie Brunson fora arrancada da terra onde ela florescera por completo, como um arbusto de cardos. Conseguiria ela vicejar em qualquer outro solo que não o seu? Thomas era um fronteiriço, um guerreiro aguerrido como todos nas montanhas, mas sua família vivera próxima ao mar. Conhecia as vazantes e marés, as areias traiçoeiras e as ondas perigosas. Coisas que ensinavam a um homem que não havia nada certo e sólido no mundo. E que uma linha traçada na areia desapareceria com a próxima onda. Contudo, havia algo mais, algo que faltava na história Brunson. — De onde eles vieram? O Primeiro Brunson e seus camaradas? Bessie inclinou a cabeça para o lado. Em seguida, gesticulou com um aceno vaga na direção noroeste. Projeto Revisoras

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— Domar. Thomas pestanejou, confuso. Aquela mulher, cujo clã era o mais arraigado à terra de todos, tivera um ancestral que viera do mar. Bessie girou para encará-lo com olhar penetrante, mas com uma incerteza que ele nunca antes percebera. — O que devo fazer, Thomas Carwell, se nunca mais puder voltar para casa?

BESSIE CONSEGUIA lhe distinguir a expressão do rosto agora. O suficiente para saber que o havia surpreendido. E que ele sabia o quanto aquelas palavras lhe custaram. — Confia em mim o suficiente para fazer o que eu lhe disser? — Bessie aprendera o suficiente naqueles últimos dias para não dizer a primeira coisa que lhe veio à mente, mas não o bastante para impedir que a verdade transparecesse em seu semblante. — Posso ver que não. Mas em quem mais poderia confiar? — O que me diria se pensasse que eu iria escutar? — Para ter cautela com o que diz e se mover com cuidado. Para dar um passo de cada vez e procurar uma abertura — respondeu ele, sorrindo. — Como na dança de Galliard, quando os dançarinos trocam de par. Nesse momento podem surgir... oportunidades. Bessie fez um movimento negativo com a cabeça. — Isso não é um conselho. Quero fazer alguma coisa. — Agora é momento de esperar e observar. Esperar e observar não a aproximaria nem mesmo um passo de casa. — E dançar? Thomas sorriu. — Sim. E dançar. Bessie lutou contra um sorriso que ameaçou se formar em seus lábios e contra a tentação, enquanto ele a guiava de volta para o interior do castelo. Mas, enquanto estivesse ali, teria de fazer alguma coisa além de esperar. Talvez uma mulher fosse melhor conselheira. Talvez ficasse devendo ainda mais às Marys, antes de poder voltar para casa.

Capítulo Dez

Passado uma semana, Bessie se familiarizou com a rotina da residência real. Mas ainda se sentia deslocada, como se fosse de uma linhagem muito alta para trabalhar na cozinha, mas também indigna da posição de dama de honra. Porém, ajudava as Marys em suas tarefas, recebendo mensagens, devolvendo balangandãs esquecidos, conhecendo as escadarias dos aposentos reais e do Grande Salão. Aquilo, ao menos, a fazia se sentir um pouco em casa. Bessie aproveitava todas as oportunidades para perguntar e escutar enquanto elas conversavam. — Qual é o motivo — perguntou ela a Mary Robusta, certa noite, enquanto bordavam à luz das velas — para o rei odiar tanto Angus? Sentiu-se orgulhosa de si mesma por fazer a pergunta de maneira tão indireta. Era Projeto Revisoras

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sobre o ódio de Carwell e não do rei que estava interessada em saber. Mary Robusta olhou por sobre o ombro, embora a porta do quarto estivesse fechada. — Bem, a mãe do rei, a rainha Margaret, ficou viúva tão logo ele nasceu. — Ela assentiu, com expressão de quem testemunhara tudo aquilo. — Eu já a servia naquela época. Eu me lembro bem. Foi um tempo muito obscuro. A pobre dama tinha um filho recém-nascido, facções disputando o poder e o peso do governo em seus ombros. — Sem saber o que aquilo tinha a ver com Angus, Bessie murmurou algo encorajador. Ao que parecia, Mary Robusta sabia de tudo e estava disposta a compartilhar com o ouvido certo. — Tenho certeza de que para você é difícil imaginar, mas ela ainda era jovem e bela. Bessie mordeu a língua. Vira a mulher a certa distância. Mary não era a única que podia ser descrita como “robusta”. — Mas depois... — Mary Robusta deixou escapar um suspiro e cacarejou um som judicioso, que sinalizava que o ápice da história estava por vir. — Deixou-se ser arrebatada por um homem — concluiu, com as sobrancelhas erguidas. Bessie pousou o bordado. Um arrepio lhe percorreu a espinha. — O conde de Angus. Mary Robusta concordou com um gesto de cabeça, como se Bessie fosse uma pupila esperta. — Uma mulher pode ceder à tentação, sabia? A rainha se esqueceu de tudo e se casou com ele, em segredo, pensando que o conde a amava de verdade. Pensando que ele a amava de verdade. Bessie tentou engolir a saliva. — E o que aconteceu depois? Mary Robusta fez um gesto com a mão. — É uma história muito comprida para uma noite só. Ela tornou Angus regente. Os outros lordes protestaram e lutaram pela tutoria do menino. Ela procurou ajuda dos ingleses, franceses... Minha mãe é forte, mas, meu Deus, muito inconstante, dissera o rei. Não era de admirar que seu irmão Johnnie tivesse sido tão importante para ele. E que Carwell a tivesse prevenido sobre a corte. Aliada aos franceses em um dia, aos ingleses em outro. Não havia solo firme ali. Mary Robusta fez uma pausa, dirigindo um olhar desconfiado a Bessie. — Não sabem de nada disso nas fronteiras? — Meus irmãos talvez saibam. — Bessie sempre estivera muito ocupada com o trabalho na cozinha e tinas de roupa suja. — A corte é um lugar muito distante. — E nada que um rei fizesse parecia mudar a vida no vale. — E quanto a Angus? — Bem — Mary Robusta parecia ter gostado do fato de a história ser nova para Bessie ―, a pobre rainha logo descobriu que era seu poder e dinheiro que Angus almejava, não Margaret. Não Margaret. E não Bessie. Não, Thomas Carwell não poderia gostar dela. Então, por quê...? — O homem era cruel — continuou Mary Robusta. — Voltou para a amante e roubou o dinheiro da rainha. — Ela fez um movimento negativo com a cabeça. — E, por fim, lhe sequestrou o filho, manteve-o prisioneiro e governou o país em nome do rei James durante dois anos. Então o monarca conseguiu escapar, na calada da noite, para tomar o controle do próprio país. — E a partir daí ela se lembrava da história. Foi quando Johnnie voltara para casa. — Agora a rainha está livre dele — disse Mary, em um tom de satisfação. — O papa finalmente concordou com seu pedido de divórcio. Bessie pousou o bordado mais uma vez, sentindo a cabeça rodar. Ao que parecia, as famílias reais não eram como as que viviam nas fronteiras. — Então é por isso que ele odeia Angus — disse ela. Projeto Revisoras

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— Ele e muitos outros. Agora. Ali estava a oportunidade de perguntar. Teria disfarçado sua verdadeira pergunta por tempo suficiente? — Thomas Carwell o odeia, pelo que entendi. Por causa do pai. — Ele tem mais razões que essa. Os Carwell são guardiões da fronteira por direito. Sempre ocuparam esse posto. Angus roubou não apenas o cargo do pai dele, mas também sua vida. — Angus o matou? — Não haveria melhor razão para um homem se vingar. Mas Mary Robusta negou com um gesto de cabeça. — Disseram que ele morreu de causas naturais. Eu acho que o homem ficou com o coração partido. — Então não se parecia nem um pouco com o filho! — Carwell era governado pelo cérebro e não pelo coração. Era disso que devia se lembrar. Exceto quando ele falava da esposa... Antes que tivesse tempo de se arrepender de ter deixado escapar aquele comentário, Mary Alta abriu a porta, com uma expressão amuada estampada no rosto. — Mais uma vez ocupado — disse Mary Alta. — Está fazendo quase uma semana que ele não faz nada, além de se reunir com os negociadores. Bessie dirigiu o olhar a Mary Robusta, que gesticulou a cabeça em advertência. Ele. O rei. E Mary Alta estava disposta a se lamentar. — Reuniões pela manhã. Reuniões à noite. Não tem tempo para quase mais nada. Bessie imaginou se ele não estava tendo tempo para Mary Alta apenas por causa das reuniões ou porque o abdome da mulher se tornava cada vez mais abaulado. Em breve, seriam duas Marys “Robustas”. Havia herdado outro vestido como resultado daquilo. Decidiu arriscar uma pergunta. — Negociadores? — Sim — confirmou Mary Alta. — Eles estavam reunidos com os ingleses, tentando um acordo para prorrogar a paz, mas há algumas semanas, quando não conseguiriam chegar a nenhum entendimento, o rei os reconvocou. — E não ficou nem um pouco feliz — acrescentou Mary Robusta. — Portanto,ele precisou de distração — retrucou Mary Alta, o sorriso sugerindo que seus lábios haviam provido o divertimento do rei. — Mas, na última semana, dedicou-se apenas às reuniões. Durante a última semana. Era o período de tempo em que ela estava na corte. ■ — Thomas Carwell está participando dessas reuniões? Mary Alta deu de ombros. — Provavelmente. O que me importa? — Ora, ora. Em breve, todos estarão de volta a Berwick — disse Mary Robusta, em tom suave. — E então o terá todo para si outra vez. Em Berwick para negociar com os ingleses. O que mudara na última semana que acrescentara novas esperanças à negociação falida? Thomas Carwell chegara à corte. O rei deseja meu conselho no tratado com a Inglaterra. Esperar e observar. Sim, era isso que Carwell desejava, mas devia ser a ele que Bessie devia observar. De perto.

THOMAS SAIU da reunião com o rei sentindo imensa satisfação. A última sessão Projeto Revisoras

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com os negociadores chegara ao fim. Se Deus quisesse, o tratado seria renovado antes do início da temporada de Natal. Talvez tivessem até mesmo Angus em suas mãos até lá. A visão de Bessie, espreitando no salão, o fez diminuir os passos. Ele olhou ao redor, esperando que nenhum dos outros homens tivesse deixado a sala de reuniões fazendo comentários que ela pudesse ter escutado. — Costuma se reunir com frequência com o rei — disse ela. — Sim. Ele pede meu conselho. — Um Brunson poderia lhe dar melhores conselhos. Thomas franziu a testa. Podia imaginar muito bem o que eles diriam. Os arrogantes Brunson nunca se mostraram inclinados a se curvar um pouco para o lado nem mesmo para alcançar algo que estivesse do outro. — Seus irmãos escolheram permanecer em casa, em vez de atender as ordens do rei. — Estava começando a falar com ela com a mesma rudeza com que Bessie se referia a ele. Talvez aquela fosse a única forma de fazê-la entender. — Agora não reclame por ele não escutar os conselhos dos Brunson. Ao percebê-la se encolher, soube que atingira seu objetivo. — Mas, pelo que sei, as negociações do tratado estão para ser retomadas. Thomas lhe estudou a expressão, cauteloso. Bem, aquilo não era segredo. Poucas coisas na corte eram. — Os negociadores partirão para Berwick amanhã. — Ainda assim, há algumas semanas as conversações foram interrompidas e tudo parecia perdido. Bessie se tornara, percebeu ele, mais hábil em questionar. — É assim que funcionam as negociações. Dar e tomar. Uma oferta e uma contraoferta. — E uma oferta secreta? Como ela adivinhara? Thomas se esforçou para manter a respiração normal. — Se houvesse alguma, eu a manteria em segredo. — Se houvesse alguma, suspeito que fosse a que você tivesse trazido. E até mesmo intermediado. — Eu? — Erguer as sobrancelhas seria o suficiente para mostrar surpresa? — Sou o guardião da fronteira, não um embaixador. — E, como guardião da fronteira, encontra-se com mais frequência com sua contraparte inglesa do que muitos diplomatas. Teria Bessie adivinhado? Não. Caso contrário, o estaria acusando e não questionando, já que nem ela nem os irmãos entenderiam por que ele passara parte do último outono se esgueirando para dentro e para fora da Inglaterra para ter conversas confidenciais com o guardião da fronteira inglesa. Os dois haviam finalmente chegado ao acordo que ele apresentara ao rei. Angus não teria imunidade. Teriam permissão de arrancá-lo da Inglaterra se ele fugisse para lá e trazê-lo de volta para julgá-lo por traição e enforcá-lo, se aquela fosse a vontade do rei. E qual seria o preço para isso? Uma moratória temporária para uma vida inglesa inútil. Mas naqueles olhos castanhos acusatórios ele viu refletido tudo aquilo outra vez. Eu o responsabilizarei. E a próxima coisa de que se deu conta foi que Storwick havia fugido e nem a união das forças dos Carwell com os Brunson fora capaz de localizá-lo. — Sim. Esse é o trabalho dos guardiões da fronteira — disse ele, esperando que o traço de condescendência disfarçasse o tremor em sua voz. — Executar as leis da fronteira, juntos. Claro que nos encontramos com frequência. — Entretanto, não confiou em si mesmo para acrescentar mais nada. — Agora, se me der licença, estão esperando por mim no arsenal. Projeto Revisoras

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Thomas a deixou lá, enquanto se afastava, sufocando o sentimento de culpa, incapaz de suportar os questionamentos refletidos nos olhos de Bessie. Depois daquele fiasco, o guardião da fronteira inglesa estava em débito com ele. Ficaria satisfeito quando o tratado fosse assinado e ele pudesse deixar o fardo da culpa para trás. Porém, enquanto os homens cavalgavam na direção sul, para Berwick, no dia seguinte, ele imaginou se o guardião da fronteira inglesa seria digno de confiança. Talvez não fosse sensato confiar em alguém que faria parte daquele tipo de acordo. Incluindo Thomas Carwell.

THOMAS NÃO voltou a vê-la até a noite. O rei aparecera no Grande Salão para o entretenimento daquela noite, dedilhando seu alaúde, de maneira passável o suficiente, com os músicos que eram pagos para tocar. O rei não convidou Bessie para dançar. Mas Thomas o faria. Tinha de adulá-la para que ela esquecesse aquela fixação em suas negociações com o guardião da fronteira inglesa. Era necessário que Bessie não ficasse nem irada, nem desconfiada. Um pouco de lisonja, talvez. Um tom suave. O que concluiu não ser difícil de conjurar quando a viu. Ela trajava um vestido acinturado, de um tom azul que lhe tornava a cor do cabelo ainda mais vibrante. — Está usando um vestido novo — disse ele, fazendo a mesura necessária. A observação tinha uma entonação questionadora suficiente para forçá-la a responder. — E da Mary Alta. Ela está ganhando peso e alguns de seus vestidos não lhe servem mais. Seria aquela mulher tão inocente? Mary Alta tinha reputação de compartilhar a cama do rei. Devia ter compartilhado a de alguém, se aquele abaulamento abaixo da cintura fosse alguma indicação. Thomas se inclinou e sussurrou: — A cintura dela está se alargando porque está grávida. — “Grávida”. Algum dia seria capaz de dizer aquela palavra sem sentir a costumeira pontada de dor no coração? — Do rei. Arregalados, os olhos castanhos encontraram os dele refletindo choque, antes de se dirigir para o lugar onde Mary Alta se encontrava, exultante, próxima à mesa do rei. — Aquele... menino? Thomas exibiu um sorriso mais largo do que pretendia diante do desdém de Bessie. — Chamam-no de “rei do amor”. Bessie revirou os olhos em uma clara demonstração de que não o achava nada atraente, e ele soltou uma risada incomum que chamou a atenção de curiosos. Inclinando-se para perto dele, Bessie lhe sussurrou ao ouvido, fazendo-o sentir seu hálito e imaginar estar tocando aqueles lábios: — Certamente ela não será a rainha. Thomas negou com um movimento de cabeça. Até mesmo Bessie sabia disso. Esperava que Mary Alta tivesse feito algum acordo para um casamento de conveniência. Ter um filho do rei não era uma desgraça. Quatro mulheres haviam dado à luz sete bastardos do rei anterior. Porém, baseado no que Thomas presenciara nos aposentos do rei, os dias de Mary Alta na cama de James estavam contados. Quando ele estava a ponto de dizer alguma coisa, uma das Marys, a mais baixa, fisgou Bessie, afastando-a para se juntarem a um círculo que executava a branle, uma dança de roda francesa. Thomas teve de resistir à ânsia de puxá-la de volta. Aquela era uma das danças comuns, muito parecida com o reel escocês a que Bessie se referira. A roda se movia para a esquerda e para a direita, quebrava para formar uma linha de pessoas que se Projeto Revisoras

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moviam com passadas altas pelo salão. Franziu a testa ao avistar Oliver Sinclair ao lado dela, apertando-lhe a mão e, pelo que podia ver, admirando-lhe o corpete do vestido muito de perto. Ela parecia não notar. Estava sorrindo, os movimentos de esquerda-direita-esquerda com perfeito sincronismo. Bessie que se divertisse. Era apenas uma dança. Mas Sinclair era um farrista devasso e, desde que John Brunson partira da corte, era um dos mais próximos camaradas do rei e uma de suas piores influências. Bessie dançava bem naquela noite. Melhor que da última vez que dançara com ele. As linhas que lhe vincavam a testa se aprofundaram. Desejava ser o guia de Bessie na alegria do movimento e da música. Em vez disso, ela seguia aquele rapaz imaturo com mais facilidade do que o seguira. Thomas desviou o olhar do rosto de Bessie apenas para ser atraído pela visão do “V” do corpete do vestido, descendo até o “V” entre as pernas e os lampejos dos tornozelos que se expunham sob a saia do vestido, quando ela executava um gracioso chute. Droga! Ela não estava tropeçando nos pés daquele homem. E, se não tomasse cuidado, acabaria tropeçando diretamente em sua cama. Thomas pestanejou, surpreso com os próprios pensamentos. Por que estava sequer pensando em levar aquela mulher para a cama? Bem, não estava. Apenas o preocupava a possibilidade de Sinclair fazê-lo. Sua preocupação se devia ao fato de ser responsável pela reputação de Bessie. Mas, agora que refletia sobre aquilo, percebeu que não era a primeira vez que tal pensamento lhe cruzava à mente. Não era algo tão estranho. Era um homem que se encontrava solitário havia mais anos do que desejava contar. Tais pensamentos eram previsíveis. Tudo de que necessitava era de confissão e absolvição. Era óbvio que observar aquela mulher lhe suscitava pensamentos ridículos. Girou para se deparar com o rei James o observando, com um sorriso estampado nos lábios. — Muito graciosa, em um sentido rústico, certo? O jovem dissera aquilo em um tom que combinava escárnio e admiração. Porém, surpreso, Carwell girou e voltou a observá-la, percebendo como a descrição fora apropriada. Olhos castanhos, cabelo ruivo, uma mulher da terra, onde ela nascera. Enraizada, confiante de quem e o que era. Uma mulher em quem os outros se apoiavam. Com quem se podia contar. Quando a dança chegou ao fim e a fila se desfez, o braço de Sinclair se demorou em torno da cintura de Bessie. Os lábios estavam muito próximos da orelha delicada, sussurrando-lhe alguma coisa. Ela era uma mulher sensata, disse Thomas a si mesmo. Muito sensata para ser iludida por aquele homem. Porém, em vez do semblante sério que Bessie normalmente exibia ao mundo, viu os olhos castanhos se iluminarem. Ela não ria, nem mesmo sorria, mas algo nela... brilhava. Aquilo o fez desejar reduzir aquele rapaz a cinzas.

BESSIE ESTAVA satisfeita consigo mesma quando soaram os últimos acordes da música. Fora algo familiar, eram passos mais fáceis que os outros que havia tentado. Ou talvez apenas se sentisse mais livre com Oliver Sinclair, um homem que não significava nada para ela. — Jamie e eu saímos escondidos do castelo, ontem à noite, e vagamos por Stirling — disse ele, com um sorriso malicioso. — Só voltamos após o café da manhã. — Ontem à noite? — Bessie não ouvira o burburinho das preparações e nenhuma trombeta de saudação naquela manhã. Projeto Revisoras

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— Oh, não se tratava de um evento oficial. — Até mesmo os cachos de cabelo do homem pareciam sorrir. — Ninguém soube que ele era o rei. James disse ao dono da taverna que era apenas um chefe de família de Ballengeich. Bessie relanceou o olhar à plataforma onde o rei estava parado conversando com Thomas em sussurros. Mais segredos? — E o que você e o rei fizeram, enquanto vagavam pelas ruas de Stirling, disfarçados de chefes de famílias? Sinclair sorriu. — Nós nos saciamos com algumas damas atraentes — o homem disse aquilo cheio de orgulho, como se quisesse impressioná-la com sua proeza. Bessie ergueu as sobrancelhas. — Mary Alta não é suficiente para o rei? Sinclair relanceou o olhar à mulher em questão e voltou a fixá-lo em Bessie. — Uma mulher nunca é suficiente — retrucou ele, com um sorriso de escárnio. Uma mulher nunca é suficiente. Seria aquela a vida de uma mulher na corte? Não era de admirar que as .Marys fossem tão cínicas. Possuídas em um dia. Favoritas no outro. Descartadas no seguinte. E, mesmo quando recompensadas com o casamento, ao que parecia, uma mulher não podia esperar um marido fiel em sua cama. Aquele era um lugar mais estranho do que imaginara. Depois que a música chegou ao fim, a mão pegajosa de Sinclair não soltou a dela, apertando-a enquanto a guiava para fora da pista de dança até um corredor vazio. Bessie tentou escapar, mas ele lhe bloqueou o caminho e lhe ergueu o queixo com a outra mão, forçando-a a encará-lo. Um ninho de cobras, dissera Johnnie. Era onde Bessie se sentia, olhando para aquele homem, cujos olhos serpenteavam sobre ela como uma cobra. — O que foi? ― perguntou ele, com expressão amuada. — Sem beijos? Acha-se muito boa para mim? Uma onda inesperada de raiva a atingiu, fazendo-a espalmar as mãos contra o peito de Sinclair para empurrá-lo. — E você acha que só sirvo para ser deitada na horizontal? Em casa, a vida de uma mulher se resumia ao trabalho. Ali, onde criados, faziam o trabalho pesado, a mulher tinha o único propósito de prover um tipo diferente de prazer. Ela não pertencia a nenhum daqueles dois mundos. De repente, o braço de Carwell envolvia com força sua cintura, e ela se sentiu escorregar graciosamente para fora do alcance de Sinclair. — Venha, Elizabeth. Está sendo necessária na pista de dança. Bessie não teve tempo de dar vazão à raiva. Enquanto Thomas a afastava dali, tudo que ela conseguia enxergar era outro homem tentando dobrá-la à sua vontade. — Acha que ser forçada a dançar é diferente de ser forçada a beijar? Os passos de Thomas permaneceram suaves. — Não acha? — Bessie negou um gesto de cabeça, desejando apenas escapar de todos. Dos sentimentos conflitantes em relação àquele homem. — Se algo lhe acontecer, seus irmãos me responsabilizarão. A palavra ecoou entre eles, mas Thomas lhe sustentou o olhar surpreso.“Dessa vez”, os olhos castanho-esverdeados falavam, “não a decepcionarei.” A gratidão guerreou com o ressentimento. Não queria se sentir agradecida àquele homem. Não desejava se sentir protegida com sua simples presença, portanto o confrontou com palavras que lhe escaparam mecanicamente. — Disse-lhe que era capaz de tomar conta de mim mesma. Thomas negou com a cabeça. — Aqui, uma mulher necessita de um tipo de cuidado diferente. Acho que acabou de descobrir isso. Projeto Revisoras

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Os dois estacaram à entrada em arco que dava para o salão, e Bessie foi assaltada pelas cores e pelos movimentos. — Podemos... ir lá para fora? — Precisava sentir a terra sob os pés. Encontrar um pouco de equilíbrio. Sem nada dizer, Thomas lhe estudou a expressão e, em seguida, assentiu. De repente, Bessie se viu envolta em uma capa e guiada a um dos cantos do palácio que ainda não conhecia. À distância, a neve cobria as montanhas, e acima, o céu,surpreendentemente limpo, se encontrava estrelado. Bessie inspirou profundamente, feliz apenas de inalar o ar frio, livre de cheiro de especiarias, assados e suor. Acomodando-se, viu-se capaz de voltar a encará-lo e dizer o que era preciso. — Tenho de lhe agradecer. — Thomas assentiu com um gesto de cabeça. Os olhos também pareciam buscar as montanhas, olhando na direção de casa. — É muito zeloso — disse ela. — Conhece os perigos melhor que eu. Ainda assim, não tem nenhuma mulher em sua casa. O corpo de Thomas enrijeceu, os olhos ainda fixos nas montanhas, como se lutasse para não ceder à lembrança dolorosa. — Vivo... sozinho. — Nenhum amigo ou parente? — Bessie tentou imaginar uma vida sem parentes, irmãos ou primos. Mas não conseguiu. — Mas a família Carwell... — Resume-se a mim. — Thomas tentou sorrir. — E a um primo distante. — Então tem de se casar — retrucou ela. Não havia pensando naquilo antes, e a ideia não lhe pareceu agradável. Mas o que lhe importava com o que aquele homem fazia ou com quem dividia sua cama? Ou sua vida? Ele devia um herdeiro a seu clã. — Eu me casei. Thomas não acrescentou mais nada. Era como se uma vez tivesse sido suficiente. Como se não pudesse haver mais nenhuma mulher, além daquela que morrera. E, de repente, Bessie se descobriu com ciúme de alguém que o conhecera e compreendera intimamente. Alguém que Thomas devia ter amado. Uma sensação indesejável. — E agora vai me fazer mais perguntas. Bessie pestanejou várias vezes. Havia considerado não fazer perguntas. — Sou muito rude — disse ela, percebendo, melancólica, que dizia a verdade. Ali na corte ninguém fazia perguntas ou dizia a verdade sem rodeios. — Este não é o meu lugar. — Não — concordou ele, com mais retidão que de costume. — Não é. O silêncio se prolongou entre eles, mas ainda assim ela permaneceu calada, sentindo que Thomas tinha mais a dizer. O cheiro de madeira queimada flutuava pela chaminé dos aposentos reais. Os criados deviam estar tomando as providências para o descanso do rei. — Ela estava grávida. — O quê? — questionou ela, sem saber se entendera o sussurro. — Ela estava grávida quando morreu. E o coração de Bessie sangrou por aquele homem outra vez. Sim, ele havia gerado um herdeiro, apenas para acabar de mãos vazias. — Sinto muito — ela se limitou a dizer. — Faz muito tempo. Mas não tempo suficiente. Era óbvio que ele não esquecera, pensou Bessie.

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Capítulo Onze

Bessie deixou Carwell com suas lembranças e voltou ao Grande Salão, lamentando a própria rudeza, mas ele permaneceu' em seus pensamentos. Suas lições. Sua dor. Seu passado. Estacou para olhar ao redor do salão, feliz por avistar Sinclair entregue à dança de Galliard, com Mary Baixa. Com as instruções de Carwell em mente, podia ver que a colega de quarto se dedicava mais a sorrir dos chutes de Sinclair do que a executar os passos da dança. Um dos pajens do rei lhe tocou o braço. — O rei gostaria de lhe falar. Chamam-no de “rei do amor”. E agora?, pensou ela, desejando o orientação de Carwell. Felizmente, o rei não tinha tais intenções para com ela. A conversa particular se deu à vista de todos, mas não para qualquer outro ouvido que não o dela. — Está gostando da corte — começou o monarca em tom mais jovial do que utilizara na última vez que conversaram. Não era uma pergunta, mas a resposta, para surpresa de Bessie, era “sim”. Embora estivesse se sentindo deslocada e com saudades de casa, aos poucos começava a encontrar seu lugar ali. E, embora tivesse tropeçado, assim como fizera na dança, estava aprendendo a dar um passo de cada vez, a se conduzir com graça. Um dia, todo aquele mundo teria ficado para trás e ela voltaria a ser a Bessie que subia os degraus da torre. Mas, naquele momento, sentia-se contente. Porém estava acostumada a dizer a verdade e, quando aquilo se tornava difícil,permanecia em silêncio. Portanto, o rei recebeu apenas um gesto afirmativo de cabeça como resposta. — Decidi o que será de você — disse ele. Aquilo a estimulou a falar. — O que será de mim? Vossa Alteza me manterá aqui até estar satisfeito com o bom comportamento de meu clã. — Era o que ele lhe havia dito. — E, se duvidar deles, talvez demore muito para que eu volte para casa. O rei negou com um gesto de cabeça. Casa? Como fez o seu irmão desobediente? Não. Seu obstinado clã colocou em risco meu tratado de paz. Isso não acontecerá outra vez. — Pretende me manter na corte? — Pretendo casá-la. — Casar-me? Com quem? — Bessie não sabia nada sobre dialogar com um rei, mas tal pensamento era aterrorizador. — Com Oliver Sinclair. Perplexa, Bessie relanceou o olhar ao homem em questão mais uma vez. Um homem de boa aparência. Melhor que Joe, o Sem Dedo. Um homem com quem talvez tivesse sonhado para marido alguns meses atrás. Não agora. Bessie engoliu em seco, tentando pensar. Disparar uma recusa ao rei apenas lhe suscitaria a ira. Flexível. Não estou me referindo apenas à dança. — Entendo seus motivos para me manter como refém na corte — começou ela, falando com a calma que era esperada. — Mas lorde Sinclair não desejaria uma esposa Projeto Revisoras

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mais sofisticada, com traquejo na corte? — Ele fará o que eu mandar. Uma aliança com um dos mais poderosos clãs das fronteiras o beneficiará tanto quanto a mim. — E como isso beneficiará os Brunson? Tarde demais para morder a língua mordaz que possuía. A raiva já se refletia no olhar do rei. — Honrarei seu clã unindo-a ao meu protegido favorito. Seu protegido favorito. O mais próximo de um amigo que um rei poderia ter. — Meus irmãos jamais concordarão com isso. — Terão de concordar, se quiserem voltar a vê-la. Então aquele era um dever para com seu clã? Casar-se com um homem a quem os irmãos nunca viram, sem a permissão deles e nunca mais voltar a viver na fronteira? Pior ainda, depois que Sinclair a tivesse na cama, escaparia para os braços de outra. Não. Não seria capaz de suportar aquilo, nem mesmo se fosse seu dever. — Não posso concordar. — Não pode discordar — rebateu o rei. — Eu lhe darei uma semana. E então farei o anúncio. Agora vá. Dance com ele. Sinclair a espera. Bessie dirigiu o olhar a Sinclair mais uma vez. Ele os observava. Sorrindo. Sabendo exatamente o que o rei acabara de dizer. Não suportaria passar sequer mais um minuto ao lado daquele homem, o que dizer uma vida inteira. Salve-me outra vez, pensou ela, procurando por Carwell no salão.

ANTES DE retornar ao salão, Thomas varreu as lembranças da mente. Quando entrou, surpreendeu-se ao ver Bessie na plataforma com o rei. Com crescente inquietação, observou-os enquanto conversavam. Distraído pela presença de Bessie Brunson e percebendo a vingança contra Angus ao alcance das mãos, esquecera-se de manter a mente aberta a todas as possibilidades. E ameaças. Permitira-se acreditar que a nomeação do rei significava total apoio a ele, esquecendo que aquele monarca era muito jovem e inexperiente para ser previsível. O que devo fazer agora? Observar e esperar, dissera ele, acreditando que dispunham de tempo, antes de o rei agir. Talvez não restasse tempo. A cabeça de Elizabeth pendia para o lado, os lábios se encontravam comprimidos, como costumava fazer quando queria falar, mas não podia. E então ela se afastou e se aproximou de Sinclair. O homem sorriu. Malicioso. Carwell viu os lábios carnudos se moverem e o homem pestanejar várias vezes, confuso. Thomas sentiu que sorria. Devia ter falado com Sinclair como Bessie Brunson. Aquele rapaz teria de se acostumar com isso. Mas o sorriso se transformou em uma carranca. Não queria que Sinclair se acostumasse com aquilo. Fora ele quem se acostumara. O janota a guiou à pista de dança. Bessie aprendera como se mover ao som da música. A ouvir os acordes, a se curvar a eles. Mas ainda se encontrava enrijecida e tropeçou no pé de Sinclair durante um giro. O sorriso de Thomas retornou. Ela não havia tropeçado nos pés do homem na última vez que estiveram na pista de dança. Voltou a dirigir o olhar à plataforma. O que lhe teria dito o rei James? E por que ela se encaminhara imediatamente a Sinclair depois?

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POUCO DEPOIS o rei declarou a noite acabada e retornou aos aposentos reais na companhia de Sinclair, deixando Elizabeth na companhia de Mary Baixa. Nenhuma das duas sorria. Pouco depois, elas saíram para o pátio e Thomas as deteve, sinalizando para que Mary seguisse em frente, sozinha. — O que aconteceu com o rei? — Agora estava sendo tão direto quanto ela. Incapaz de esperar por respostas. — Por que permaneceu tanto tempo na companhia de Sinclair? Bessie ergueu os olhos e ele percebeu a dor refletida neles. — O rei quer que eu me case com ele. — O quê? — Alguém no pátio girou para olhar para eles. — É o preço que ele pediu por meu clã. Refém. Prisioneira. Isso ele esperara. Mas não uma esposa. O primeiro pensamento que lhe cruzou a mente foi socar Sinclair até transformá-lo em uma massa ensanguentada. E o próximo foi que não estava conseguindo pensar. Naquele instante, ela o encarava, com os olhos opacos e a pele pálida, como se ele pudesse lhe dar respostas. — Não posso me casar sem que meu clã consinta. Ou nem mesmo saiba. Thomas fez um gesto negativo com a cabeça, desejando que fosse tudo tão simples. — Johnnie se casou sem o consentimento do rei. Quer que o casamento dele seja anulado? Bessie franziu a testa, procurando por outra alternativa de escape. — A rainha viúva teve o consentimento de se divorciar do marido. Se for forçada a me casar, poderia fazer o mesmo. Thomas sabia que aquilo era impossível. — Apenas se fosse do interesse pessoal do papa. — Não posso simplesmente dizer “não”? — A pergunta soou cheia de ansiedade. A mulher que cumpria seu dever não importava a que custo finalmente se deparara com um degrau maior que o alcance da perna. Thomas deixou escapar um suspiro. — Dizer “não” foi o que colocou os Brunson nesta situação. Mas, ao olhar para aquela mulher, não conseguia permitir que ela fosse feita refém em um casamento sem amor com um bastardo como Oliver Sinclair. Vivera um casamento como aquele. Bessie merecia coisa melhor. — Mas se o casamento não for consumado... — Havia lágrimas nos olhos castanhos. Frustração? Medo? — Se eu o recusar... Thomas a envolveu nos braços, balançando-a, desejando poder protegê-la com a mesma facilidade com que o fizera naquele torneio. O pensamento de Bessie na cama com Sinclair o ultrajava. E a noção do que aquele homem faria com ela se o recusasse era ainda pior. — O rei me deu uma semana para me acostumar à ideia. E então fará o anúncio. Aquilo significava uma semana para descobrir um modo de burlar o desejo do rei, sem colocar nenhum dos dois em perigo. — Não se casará com ele. Eu lhe juro. Ainda assim, agora, quando ela mais precisava, não tinha a menor ideia de como poderia manter a promessa que fizera aos irmãos Brunson. Ainda envolta nos braços fortes, Bessie se sentia aquecida. O fato de ela lhe permitir abraçá-la deixava mais claro que as palavras que estava com medo. Deus do céu! Não se tratava mais da promessa que fizera a Rob e Johnnie, mas sim do que sentia por Bessie Brunson. Eu o responsabilizarei. Se ele fosse o responsável pelo casamento de Elizabeth Brunson com Oliver Sinclair, não seria apenas os irmãos Brunson que temeria enfrentar. Projeto Revisoras

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Nunca mais conseguiria encarar a si mesmo. Na SEMANA que se seguiu, Bessie não comentou com ninguém a decisão do rei, esperando que a negação de alguma forma pudesse livrá-la daquela situação. Não ouviu nenhum sussurro ou rumor. Nenhuma das Marys disse nada sobre o assunto e elas costumavam saber todas as fofocas da corte. Ainda assim, Mary Baixa, geralmente sorridente, parecia tão taciturna quanto Bessie. À medida que os dias se passavam, ela se descobria procurando por Carwell, olhando para Carwell, como se ele realmente fosse encontrar a solução para seu problema, sem saber quando a dúvida se transformara em confiança. Mas Carwell prometera a seus irmãos que a protegeria. Ele conhecia o modo de agir do rei. Sabia o que era possível fazer. E o que não era. Bessie o vira na companhia do rei mais de uma vez. Viu-os até mesmo inclinados sobre um tabuleiro de xadrez. Teria tocado no assunto com o monarca ou simplesmente analisava a estratégia de jogo para descobrir como contrapô-lo? Porém, à medida que os dias se passavam sem uma resposta, a esperança se transformou em desespero. Ela não pertencia à corte, não fora treinada para dar bons conselhos ao rei enquanto se mantinha em suas boas graças. Era uma Brunson. E, quando chegasse a hora, se não houvesse outra solução, simplesmente diria “não”. Mesmo que aquilo significasse a masmorra. Ou a morte.

A SEMANA estava quase no fim e Carwell descobrira apenas uma solução para aquele dilema. Uma que ele não sabia se o rei ou Bessie aceitariam. Primeiro, tinha de persuadir o rei, porque, no caso de ele não concordar, não queria alimentar as esperanças de Bessie. Esperou para dar início à conversa após o rei ter vencido um jogo de xadrez particularmente difícil. Dessa vez, ao contrário do que fizera no campo do torneio, Carwell jogou com habilidade suficiente para perder. Um criado recolheu ó tabuleiro e o rei sorriu, enquanto pegava seu alaúde. — Elizabeth Brunson me disse que Vossa Alteza sugeriu que ela se casasse. — Não era uma abertura tão suave quanto planejara. Sua língua estava se tornando tão rude quanto a de Bessie. O rei ergueu os olhos sem afastar os dedos das cordas. — Não pensou que permitiria que ela voltasse para casa, certo? Também não pensei que a casaria com um sibarita. — Com quem está pensando em casá-la? — Guiaria o rei devagar, sem revelar tudo que sabia. Aquilo trouxe um sorriso ao rosto do monarca. — Com alguém que acha que esse será o único jeito de tê-la em sua cama. Oliver Sinclair. — Sinclair? — Thomas controlou a raiva, mantendo a voz firme. Insultar o protegido do rei não o levaria a alcançar seu objetivo. Mas não conseguia suportar imaginar Sinclair com Bessie. Estava quase com a idade daquele rapaz quando se casara. E era tolo sobre muitas coisas. — Os irmãos de Bessie a colocaram sobre minha responsabilidade e me encarregaram de cuidar de sua segurança. E reputação. Não quero vê-la perdida, mesmo que seja para o protegido favorito de Vossa Alteza. O rei fez um gesto negligente com a mão. — Ele tentou sem sucesso. Foi por isso que pensei em casá-lo com ela. Thomas engoliu em seco a onda de protestos que lhe subiram à garganta. Perder o autocontrole seria perder qualquer esperança de controlar o rei. Projeto Revisoras

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— Talvez fosse melhor casá-la com um marido fronteiriço. — Mas não o farei — retrucou o rei. — Preciso de alguém que forçará os Brunson a se comprometer e aceitar meu governo. — O monarca ergueu as sobrancelhas em uma expressão inquisitiva. Thomas se manteve em silêncio, refletindo sobre a resposta. O que sabia, mas não diria, era que os Brunson nunca se comprometiam: nem mais cedo, nem mais tarde, nem depois do retorno de Cristo à terra. Limpou a garganta. — E difícil saber o que Rob Negro fará. Está há apenas quatro meses na liderança do clã. — Rob Negro? É assim que o chamam? — Sim. — Porquê? — Porque ele pode ser um homem... de humor imprevisível. — A irmã não tem nenhum. É a mulher mais séria que já conheci. Então não a enxergou de fato, Thomas quase deixou escapar. Mas ele sim. Estudara-lhe os olhos, os lábios, a inclinação do queixo, o corpo quando se pressionara ao dele e quando ela tentara lutar contra si mesma e tropeçara. Mas o rei não percebera nada daquilo. Graças a Deus. — Ela é uma fronteiriça — disse ele, lutando contra uma indesejável onda de orgulho. — Não se sente à vontade na corte. Um cardo, arrancado da terra. O rei soltou uma risada abafada. — Não tenha tanta certeza. Ela me disse que está gostando da corte. E parece estar. — Por um instante, amaldiçoou a habilidade com que a ensinara a dançar. — Não — disse o rei. — Se não há outra forma de domar aqueles Brunson, certamente se comportarão se eu tiver a irmã deles por perto. — Vossa Alteza, não tenho certeza se até mesmo o fato de estar com Elizabeth Brunson os manterá submissos em sua torre. — Na verdade, era mais provável que aquilo os incitasse a invadir o castelo que mantinha a irmã prisioneira. A vida de Bessie se passaria em uma prisão de veludo, sob a sombra de uma espada pairando acima de sua cabeça. — Mas acredita que Sinclair seja o melhor guerreiro para enfrentar o mais poderoso clã da fronteira? James voltara a concentrar a atenção em seu alaúde. — Foi ideia dele, embora eu ache que tenha sido um desejo momentâneo. — As linhas que vincavam a testa do rei se dissolveram. Ao menos, ele se divertirá na cama. Thomas lutou para subjugar a raiva. Não podia pensar em Bessie. Tinha de imaginála apenas como uma das peças daquele tabuleiro de xadrez. — Bem, se Sinclair não se importar, talvez haja uma solução melhor. Aquilo atraiu a atenção do rei. Os olhos de James se estreitaram, prontos para ouvir o que ele tinha a dizer. — Tem de ser alguém em quem confio. — Eu. Uma única palavra. Um passo sobre a areia movediça de onde talvez jamais conseguisse sair. — Você? O solitário Thomas? — Os Carwell precisam de um herdeiro. — Mas aquela era a última das razões, embora mais fácil de ser explicada. O rei sorriu. — E foi ela a mulher que justificou ter atirado o rei de seu cavalo para poder beijá-la. Projeto Revisoras

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Estariam as bochechas de seu rosto tão rubras quanto assentia? Esperava que não. Aquilo não tinha nada a ver com o desejo. Na verdade, o desejo tornava tudo mais difícil. — Os irmãos de Bessie me responsabilizaram por ela, sim, mas isso não tem nada a ver com sentimentos por aquela mulher — respondeu ele. — Mas com os objetivos de Vossa Alteza. Casada comigo, ficaria próxima o suficiente do próprio clã para que os Brunson se lembrem constantemente de se comportar. Do contrário, estariam arriscando a segurança de Elizabeth. O clã se lembraria de lhe arrancar o coração fora, mas o rei não precisava saber que os Brunson o consideravam tão inimigo quanto os Storwick do outro lado da fronteira. — E longe o suficiente para estar fora do meu alcance. — As linhas que vincavam a testa do rei revelavam que ele estava considerando a ideia. — Se ficar com ela, é capaz de manter os Brunson sob controle? O quanto poderia mentir? — Qualquer homem que lhe dissesse isso estaria mentindo. Mas eles cooperaram comigo antes. — É disso que tenho medo. — O jovem monarca o estudou por um longo instante, dedilhando o alaúde. — A experiência de Sinclair com os fronteiriços é... limitada. O rei franziu os olhos. — Disse a Ollie que era um tolo em se casar com ela apenas para levá-la para a cama. — Os dedos de James ainda se moviam sobre as cordas, embora ele tivesse silenciado. Por fim, assentiu com um gesto de cabeça. — Os fronteiriços se merecem. Se está disposto a se casar com aquela simplória, fique com ela, leve-a para casa e faça o que quiser. Lentamente a realidade se infiltrou em seus ossos. Conseguira o que pedira. Um noivado a livraria das garras de Sinclair. E mais tarde, quando estivessem de volta à fronteira e a mente do rei estivesse focada em outro assunto, haveria algum modo de se livrarem um do outro. — Obrigado, Vossa Alteza. O rei, distraído agora que haviam chegado a um acordo, tornou a se concentrar no alaúde. — Vá contar isso a ela. — Ela me aceitará. O rei fez um gesto com a mão, como se não se importasse nem um pouco. Mas para Thomas importava. E em menos de um minuto Thomas Carwell concordara em fazer o que passara quatro anos evitando. Teria em sua vida a única coisa que jurara nunca mais ter. Uma esposa. E ela seria a mulher menos adequada àquele papel. Antes que ele conseguisse alcançar a porta, o rei ergueu o olhar do instrumento musical. — E, Thomas, se depois disso os Brunson continuarem fazendo invasões, eu o responsabilizarei.

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Capítulo Doze

— Casar-me com você? Bessie o encarou, pestanejando, confusa. Thomas a encontrara próximo aos aposentos da rainha viúva e a convidara para conversar. Agora se encontravam em frente à mais quente lareira do Grande Salão, vazio naquela hora do dia. Bessie olhou ao redor, com a cabeça rodopiando, pensando estar sonhando acordada. No instante em que entrara nos salões de Stirling, nenhuma das regras que conhecia se provara verdadeira. Nasceria o sol no leste ali naquela terra? Mas, enquanto o estudava, os olhos castanho-esverdeados se fixaram nos dela, firmes como sempre os vira. — Que vantagem isso nos traria? Mas, ainda assim, algo no ritmo das batidas de seu coração dizia "sim”. Bessie tratou de ignorar a sensação. — É casar comigo ou com Sinclair. Prefere se unir a ele? Bessie sentiu um arrepio percorrendo-a. O calabouço seria melhor que Sinclair. — Por que tenho de me casar com alguém? Por que não posso simplesmente voltar para casa? — Sabe por quê. Avisei-a antes que viesse para cá. Bessie se contorceu. Os olhos de Carwell mostravam menos compaixão do que ela gostaria. Era mais fácil ignorar a lembrança da sensação de estar naqueles braços fortes, que a acalentaram enquanto chorava. — E você prometeu me proteger. — Proteção que ela, obstinadamente, afirmara não precisar. — Se nos casarmos, posso protegê-la. Carwell era cheio de segredos, mas também era o único homem que conseguira perceber algo além da Bessie que ela sempre fora. Ele lhe ensinara a dançar. Acreditara que ela conseguiria. Mas se casar sem o consentimento dos irmãos? Impossível. Casar-se com alguém que podia ser seu inimigo? Nunca. Não. Não confiava nele. Não. Não pertencia àquele mundo. Queria apenas voltar para casa. Tinha uma dúzia de motivos para dizer “não”. E apenas um para dizer “sim”. Resistiu mais uma vez. — E o que fará orei manter a palavra depois que tiver me casado? — Ele tem as mesmas dúvidas sobre os Brunson. — Os lábios contraídos de Carwell a fizeram se lembrar. Não se tratava de seu prazer. E sim de seu dever. — Tanto que quando me casar com você ele me tratará como um Brunson também. — O quê? — Serei responsabilizado pelo comportamento de seu clã. Em silêncio, Bessie ouviu as batidas do próprio coração. Sim, o casamento ligava os clãs, não os indivíduos. Mas aquilo ia além de qualquer coisa que ela esperava de Carwell. De qualquer pessoa. Sentiu um sorriso começar a se formar nos cantos de seus lábios. — Ora, Rob e Johnnie ficarão muito interessados em saber que você será irmão deles. O sorriso de Thomas refletia o dela. Um homem que conhecia seus irmãos, sua vida e montanhas. O único em toda aquela colina que conhecia. O único pedaço de casa que Projeto Revisoras

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possuía. — Estou lhe oferecendo um jeito de evitar se casar com Sinclair. Nada mudará entre nós. Thomas proferiu aquelas palavras como se quisesse lhe dar esperança, mas não havia nenhuma. Noivados raramente se desfaziam. Estavam tão ligados quanto em um casamento em si. — Depois disso, poderei voltar para casa? Thomas não respondeu de imediato. — Mais tarde — disse ele, por fim. — Enquanto estivermos em negociação com a Inglaterra, tenho de permanecer ao lado do rei. — Thomas e Johnnie. Ambos acreditavam que palavras registradas em papel poderiam garantir a paz. — Depois disso — disse ele quando o tratado estiver assinado, veremos. Aos poucos, Bessie percebeu a realidade de tudo aquilo. Sua casa não seria mais o vale onde nascera. Seria um castelo vazio, próximo ao mar, que ela nunca vira. Qual seria seu dever? Sim ou não? Aquele homem poderia ter traído seu clã. Como poderia acreditar em qualquer coisa que ele dissesse? Porque o corpo não mentia. Bessie inspirou profundamente e aprumou os ombros. — Sim. Diga ao rei que concordo. Dizia “sim” para o seu dever. Não por qualquer outra razão. Ou ao menos nenhuma que ousasse alegar.

UM NOIVADO, não um casamento, disse a si mesma. Enquanto crescia, imaginara como seria. Embora o rosto do homem que estaria ao seu lado sempre tivesse sido um mistério, não havia nenhuma dúvida quanto ao resto. Estaria ladeada dos irmãos, no interior das paredes que testemunharam seu nascimento. Em vez disso, se encontrava à deriva, em um mar de estranhos. E seu noivo, um homem de quem nada sabia, era o que mais conhecia. O rei descartara o argumento de que seu clã tinha de aprovar o contrato de casamento. Ele aprovara a união. E os detalhes seriam acertados mais tarde. Cercada de estranhos, comprometida em um noivado sem o conhecimento ou aprovação dos irmãos, poderia considerar aquela união como verdadeira? Ainda assim, o rei decidira celebrá-la com uma cerimônia testemunhada por toda a corte. Portanto, em uma nervosa manhã de dezembro, Elizabeth estava se preparando para se posicionar em frente ao arcebispo, diante da porta da frente da capela real, para trocar os votos do noivado. Olhou além da janela. As pessoas já estavam se reunindo no pátio interno. — Venha — disse Mary Robusta. — O vestido está pronto. As três Marys arrulhavam em torno dela, com romantismo, se lembrando do torneio e do beijo. — Eu disse que ele era lindo — falou Mary Baixa, voltando a se mostrar sorridente, enquanto ajudava Bessie com o vestido novo. A rainha viúva lhe dera um de seus vestidos que não mais usava e designara uma costureira para remodelá-lo. Havia muito tecido sobrando. — Desde o início. Lá estava ele, atirando o rei do cavalo pela chance de beijá-la. — Conheço pelo menos dois homens que perderam a aposta — disse Mary Alta, as mãos agora permanentemente pousadas sobre o ventre cada vez mais abaulado. — Aposta? — Bessie não sabia por que fazia a pergunta. Passara aquela semana inteira como um zumbi. — Apostaram que o solitário Thomas jamais se casaria outra vez. Projeto Revisoras

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Por quê? Mais um mistério em relação ao seu futuro marido. A cada dia sabia menos sobre aquele homem. Mary Robusta prendeu uma corrente de ouro emprestada em torno do pescoço de Bessie, ajustou-a e, em seguida, deu palmadinhas leves sobre a pedra vermelha. — Está com ótima aparência. À cor lhe cai bem. Bessie mal notava o vestido. Baixando o olhar, viu o que parecia ser um vermelho rico, com um aplique de ouro na parte frontal da saia. Emprestado. Pertencia-lhe tanto quanto tudo que a circundava. Recusando-se a permitir que uma capa lhe cobrisse a elegância, as Marys a apressaram pelos degraus da escada, cada passo tão irrevogável quanto os últimos que descera na torre Brunson. Cada um suscitando mais uma dúvida que era obrigada a suprimir. Não pense que Carwell talvez a tenha traído. Não pense que ele ainda ama a esposa morta. Não pense nos lábios dele contra os seus. Não pense no quanto talvez seja fraca e egoísta. Pense apenas em seu clã. Pense apenas que se casar com esse homem significará poupá-los da ira do rei. Ofegou ao alcançar o sopé da escada no pátio interno, o ar gelado lhe envolvendo o pescoço exposto. Olhou adiante, para vê-lo parado à porta da capela real, sem proteção na cabeça, esperando. Bastou olhar para ele para sentir o toque das capas com que ele a cobrira e o calor que o beijo de Carwell fizera aflorar em seu íntimo. E tudo mais lhe fugiu da mente. Cruzou o pátio amplo, cada passo inseguro, até que estivesse ao lado de Carwell, de frente para o arcebispo. Sempre se orgulhara de sua força sólida. Agora, imaginava se tal força não teria vindo dela, mas sim emprestada da terra e das pedras que a cercavam. Em meio àquelas pessoas, não era mais Bessie, e sim Elizabeth. Uma mulher que lhe era tão estranha quanto o homem parado ao seu lado. Um dia seria capaz de conhecê-lo? Ao menos era esse o seu desejo? Enquanto se encontravam parados diante do padre, sem que os corpos se tocassem, Carwell lhe segurou a mão e Bessie apertou a dele. Atirada ao sabor das marés mutáveis daquele lugar, a mutabilidade que desprezara agora lhe parecia uma necessidade.

Thomas ENTRELAÇOU os dedos aos dela. Um noivado, não um casamento de verdade, garantiu a si mesmo enquanto dizia as palavras. Eu me casarei com você, não eu me caso com você. Aquela única diferença deixaria uma oportunidade. Não dissera nada a Bessie, porque não podia prometer nada, mas aquilo lhes daria a chance de sair daquele compromisso de casamento. Mais tarde, depois que a ira do rei esfriasse. Mas, para tanto, o noivado não poderia ser consumado. Caso contrário, não haveria outra saída. Seria considerado um casamento por lei, tão verídico como se o padre os tivesse abençoado. No entanto não teria de encarar aquela tentação ainda. Naquela noite, ninguém iria guiá-los ao leito nupcial. Tampouco procurariam manchas de sangue no lençol na manhã seguinte. Dormiriam nas próprias camas, seguramente separados um do outro. Mas, no momento, ao baixar o olhar à bela mulher ao seu lado, podia respirar aliviado. Cumprira sua promessa e a mantivera em segurança. O noivado, realizado na escada da capela, foi seguido por uma missa e um banquete generosamente oferecido pelo rei. E, durante aquele longo dia ao lado de Projeto Revisoras

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Carwell, ela se mantinha estranhamente silenciosa. Não dissera mais nada durante todo o tempo, exceto as palavras que o padre requisitara. Simplesmente atravessou o dia. A silenciosa e obstinada contração dos lábios falava mais alto que as palavras. Agia por obrigação, apenas isso. Quando o banquete teve início, o rei se levantou, erguendo a taça. — Ao futuro casamento — disse ele, saudando-os, antes de se sentar ao lado de Thomas e sorrir. — Enviarei um mensageiro aos Brunson, dizendo a eles para virem para cá no Dia de Reis. Thomas pousou a taça. Uma ordem oficial daquele tipo acabaria com o mensageiro morto e os Brunson se dirigindo a Stirling prontos para uma batalha, em vez de uma celebração. — Mas isso iria interferir em seu primeiro Natal sem Angus — disse ele. — É melhor esperar. Posso resolver o contrato e concluir o casamento depois. — Acha que pode ser mais persuasivo que eu? — Essa é uma das razões pelas quais sugeri esta união. O rei assentiu. — Então está bem. Está em suas mãos. — O monarca virou na direção de Sinclair, sentando meio que repentinamente do outro lado do rei. Tempo. Ganhara um pouco mais de tempo. Pensaria em alguma coisa. Algo que a salvasse. Que salvasse a ambos daquela união. Bessie se inclinou na direção dele para suspirar: — Disse ao rei que não queria que nosso casamento interferisse nos planos dele. É uma mentira. — Não. Apenas não é a verdade completa. Apenas uma leve lisonja que desviará a atenção dele para o outro lado e nos deixará livres para... — Thomas deixou a frase morrer. — Livres para quê, sr. Carwell? Livres para fingir que somos casados? Bessie tinha a intenção de proferir as palavras de modo cruel, mas, em vez disso, sentiu-as acenderem uma fogueira em seu peito. E as chamas se refletirem em seus olhos. Livres para fingir. Mas o fogo que o consumia não era imaginário e, se sucumbisse a ele, aquele noivado se transformaria em um casamento reconhecido pela lei. Aquilo seria mais difícil do que imaginara.

APÓS o banquete, quando a dança teve início, ninguém mais a chamou para a pista. Carwell ignorou a satisfação que aquilo lhe causou. Também deixou de lado a tentação de convidá-la a dançar. Mas.o rei os homenageara com lugares à sua mesa, lhes serviu vinho francês, e então foi fácil permanecer sentado ao lado dela, ambos olhando ao redor do salão e nunca se encarando. Carwell sorveu um gole do vinho, muito superior àquele que Bessie servira no casamento de John e Cate. Um vinho muito melhor para um casamento muito pior. Mas o salão estava aquecido, o vinho, abundante e, à medida que a noite prosseguiu, um sorriso se plantou nos lábios carnudos de Bessie enquanto observava os dançarinos. Thomas não conseguia desviar o olhar dela. Naquele vestido escarlate novo, com o cabelo vermelho e a corrente de ouro, parecia tão bela quanto qualquer mulher da corte, mas também refletia sua verdadeira personalidade. Era absolutamente a mulher que crescera da terra e se encontrava firmemente ligada a ela. Como pudera pensar em separá-la daquilo?

TARDE DA noite, após os ritmos da corte chegarem ao fim, os músicos entoaram Projeto Revisoras

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acordes mais vivazes. Thomas percebeu o reconhecimento nos olhos castanhos da esposa e a saudade de casa que refletiam ao ouvir o reel escocês. Erguendo-se, ele lhe estendeu a mão. Bessie levantou e o seguiu até a pista de dança, erguendo os braços na direção dele. Agora era Bessie outra vez. Um sorriso lhe iluminava o rosto, enquanto ouvia a música de seu povo. Um que Thomas jamais seria capaz de lhe estampar nos lábios. Os dois se moveram pela pista de dança, não mais seguindo a simetria artificial e coreografada das danças da corte, mas sim a sintonia do corpo um do outro. Como seria na cama. Thomas tropeçou diante daquela imagem. Comprometera-se em se casar com ela, mas não a levaria para a cama. Aquele era o plano. Mas já se sentia muito próximo daquela mulher, desejando coisas dela que havia proibido a si mesmo almejar. Segurá-la tão próximo do corpo, ver o cabelo ruivo oscilar nas costas delicadas, os lábios carnudos entreabertos em um sorriso, os olhos castanhos faiscando de alegria, eram estímulos que ele esperara evitar. Quando a dança chegou ao fim, Bessie se encontrava ofegante e sorridente, recostada contra ele. Com os seios macios pressionados ao seu peito, Thomas teve de trincar os dentes contra a tentação. De fato a desejava. Naquele instante. Queria se apossar de mais do que aqueles lábios carnudos. Desejava... — Senhor? Thomas girou na direção de um servente. — Sim? — Bessie estava ao seu lado, olhando ao redor do salão, como se, de repente, se desse conta da plateia que os assistia. Afastou o cabelo para trás dos ombros, que aprumou de imediato, antes de alisar a saia do vestido. Ótimo. Aquela era a Bessie que ele conhecia. E à qual podia resistir. — Vou levá-los ao quarto que ocuparão agora. — As palavras não faziam sentido. — Que quarto? — Ora, o quarto que dividirão esta noite. O rei ordenou que fossem tomadas providências especiais. Por sobre o ombro do criado, Thomas podia ver o monarca sorrir. Usara de sua prerrogativa de consumar o noivado para torná-lo um casamento. E ao seu lado, de repente, Bessie ficou séria. ENQUANTO ERAM guiados até o quarto, ela prendeu a respiração. O cômodo era pequeno, contudo, muito mais próximo aos aposentos reais que aquele que Bessie dividia com as Marys. Uma tapeçaria, repleta de folhas e tão verde quanto uma floresta, cobria uma das paredes. A ampla cama era provida de cortinado para protegê-los das correntes de ar. Bessie reconheceu seu pequeno baú, que os criados haviam transferido para ali como em um passe de mágica. Reparou que ao lado da cama se encontrava uma jarra de vinho e taças, como se aquela fosse uma verdadeira noite de núpcias. A porta se fechou. — Tentando não dirigir o olhar a Thomas, ela se manteve ao lado da cama e escorregou os dedos pelas flores bordadas em profusão sobre o tecido azul. — Quem tem tempo para bordar isso tudo? — O rei possuiu bordadeiras. É o trabalho delas. As palavras encheram a atmosfera. A conversa tinha o objetivo de preencher o tempo. Assim não teria de virar o rosto para encará-lo. Para encarar... — Bessie. — Agora era obrigada a se virar. E tinha de olhar. Seja forte. É capaz de sustentar o olhar desse homem sem se atirar em seus braços. E assim o fez. Se algum dia pensara que conhecia aquele homem, seu noivo, vê-lo parado à sua frente, envolto em sombras, ao lado da lareira, foi o bastante para convencê-la de que não sabia nada sobre ele. Projeto Revisoras

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— Eu lhe disse que nada mudaria — começou ele. — E não mudará. — Então, não seremos... — Bessie dirigiu o olhar à cama que parecia chamá-la — íntimos. — Não. — Thomas deixou escapar um suspiro. Bessie não sabia dizer se de exasperação ou desapontamento. Caminhou pelo quarto, mas não havia onde se esconder, nenhum modo de escapar daqueles olhos penetrantes. Fixou o olhar na lareira, do outro lado do quarto, se lembrando daquela primeira noite. Ela o insultara, sugerindo que Thomas queria dividir sua cama. O corpo não mente. Ele ouve suas dúvidas. Seria capaz de lhe ouvir os desejos também? Aqueles olhos castanho-esverdeados e o sorriso de dentes brancos escondiam mais do que revelavam. Porém, quando a música começou a tocar, o modo como se olhavam dizia coisas que as palavras nunca seriam capazes. Agora, o calor que se erguia em seu íntimo não vinha da lareira, mas sim das chamas de tudo que sempre imaginara e nunca fizera. Cada desejo que fora suavizado a cada nascer do sol, enquanto servia o restante da família. A Bessie rude. Fora assim que Thomas a chamara. E tentara lhe ensinar as delicadezas da fala que muito lhe seriam úteis na corte. Mas ele não sabia o que espreitava em seus silêncios. Frases que começavam com “eu quero”. Perguntas que nunca tivera coragem de fazer a si mesma. Era sempre: o que o clã queria? Qual era seu dever? O que era necessário? Nunca: O quem quero? Não se fizera tal questionamento por medo de ouvir a resposta. Porque o que desejava agora era Thomas Carwell. Impassível, ele se encontrava parado ao lado da porta, enquanto Bessie colava as costas à parede oposta, o mais distante que aquele quarto permitia. Levá-la para casa em segurança e intocada: aquela fora a missão da qual seus irmão o incumbiram. Mas tinha de ser tocada. Por aquele homem. Por aquele lugar. Por estar em outro lugar, ser outra pessoa. Não Bessie, mas Elizabeth. Lá fora, o luar beijou a neve. — O que diria se eu... ? — Ela engoliu em seco, ainda observando as montanhas. O som de passos ecoaram no quarto e, então, Thomas se encontrava atrás dela. As mãos firmes, porém gentis, estavam em seus braços. — O quê? Thomas a girou para que o encarasse e, naquele momento, ela não teve dúvidas do que via naqueles olhos. Desejo. Tão intenso quanto o dela. — Se eu disser que o quero?

Capítulo Treze

Os olhos castanho-esverdeados escureceram. Descrença? Desejo? — Quer? Não havia mais dúvidas. Nem mais tempo a perder. Bessie atirou os braços em torno do pescoço largo e pressionou os lábios aos dele. Não tinha muita experiência em beijos e menos ainda no que viria depois. Mas Projeto Revisoras

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naquele momento de choque, quando o corpo de Carwell tocou o dela, percebeu que havia mais do que aquilo, muito mais do que jamais imaginara. E que o encontro dos lábios era apenas o começo. O corpo se encontrava encostado ao dele em uma proximidade muito mais tentadora que na dança, mas descobrira algo sobre Carwell durante todas aquelas pavanas e danças de Galliard. Mesmo sem música, sentiu o que viria depois. Aquele corpo forte falava tão claramente quanto os olhos de Thomas. Os quadris procurando, frenéticos, os dela. As mãos que lhe seguravam a cabeça, gentis. Os lábios se mostravam ansiosos em saborear os seus. E então tudo cessou. Carwell a afastou, com os braços esticados e a respiração tão ofegante quanto a dela. — Nada... — Ele inspirou profundamente, antes de tentar outra vez. Bessie esticou a mão para lhe tocar a pele do rosto e a sentiu quente contra seus dedos. Carwell lhe segurou a mão, como se o toque o tivesse queimado. E então, com uma reverência deliberada, beijou-lhe a palma e a soltou para dar um passo atrás. — Nada mudará. Bessie, baixou o olhar à própria mão, pendendo, flácida e inútil, na lateral do corpo. Perplexa, paralisou. E recuou. Recolheu-se à mulher calada e observadora que sabia ser. O que fizera? Mas sabia a resposta para aquela pergunta. E por quê. Ainda sentia o corpo latejar com o desejo, com ânsias mais fortes que a fome ou a sede. Tão intensas e profundas que lhe embotavam o pensamento e lhe impediam a fala. Ânsias que acreditara que Carwell também sentisse. Estava errada. Mais uma vez se enganara com aquele homem. Ainda não sabia nada sobre ele. Carwell não me deseja. Da mesma forma que o outro. Também agira por pura obrigação. Para cumprir a promessa que fizera. Ou, pior, talvez por pena. — Sinto muito — disse ela. E então percebeu que dissera uma mentira. Carwell podia ser um mistério, mas ela se recusava a se abrigar na proteção do silêncio. Engolira em seco muitas palavras ao longo dos anos que quase acabaram por sufocá-la. Ergueu a cabeça e o encarou. — Não. Não é verdade, não sinto muito. — Com medo, sim. Temia olhar nos olhos castanho-esverdeados e perceber que seria rejeitada outra vez. Mas, se tivesse de ser assim, primeiro Carwell ficaria sabendo tudo sobre ela. — Passei... — começou, sem saber por que, mas ciente de que era importante falar — minha vida inteira em silêncio, à sombra dos Brunson que rugiam, vociferavam e mesmo daqueles que usavam o silêncio como arma. — Ele a chamara de rude. Você tem de aprender a observar e esperar. Não saberia Carwell que ela passara a vida inteira observando os outros? Os irmãos e todos em sua torre? Era atenta aos sentimentos de todos, antes que dessem voz a eles, nunca se permitindo ser indiscreta. Bessie inspirou profundamente. — Só uma vez, queria... — Lágrimas odiosas lhe banharam os olhos. Aquele era o motivo pelo qual permanecera sempre silenciosa, a razão pela qual enterrara seus desejos tão fundo a ponto de não senti-los tentar ver a luz do sol. O motivo por que nunca ousara esticar a mão para alcançar o que queria. Porque o que desejava estava sempre fora do alcance. Ali, ao menos, Bessie pensara que as coisas seriam diferentes. Que ela seria diferente. Bastava de mais sonhos ou imaginação. Ela era Bessie Brunson, a mulher que sempre conhecera. As lágrimas se foram. A dor foi devidamente enterrada. Não haveria mais dor. — Ao menos uma vez, fiz o que tinha vontade. Não farei isso outra vez. Projeto Revisoras

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Bessie passou por ele, na direção da porta. Tinha de sair dali. Agora. Ou se provaria uma mentirosa.

THOMAS esticou a mão e lhe segurou o braço, sentindo-se o maior tolo do mundo. Nada estava saindo como planejara. O homem capaz de navegar nas mudanças das marés estava se enterrando nas areias movediças. — Acha que também não a desejo? Os olhos castanhos não vacilaram. — Deixou claro que não. — Deixei claro que não devo. — Carwell lhe procurou o olhar, não sabendo quem era aquela mulher que acabara de beijá-lo e desvendar o âmago de sua alma. Aquela mulher, fundamentada e firme, que julgara imperturbável ... Acabara de magoá-la ao tentar não magoá-la. Agora, através de algumas rachaduras na névoa do desejo, se lembrou do homem que a beijara e amara outra mulher. Sem dúvida, Bessie o julgava igual. Como poderia lhe explicar, sem revelar tudo? Coisas que nunca dividira com ninguém e que não compartilharia com ela? Dizendo-lhe a verdade mais óbvia. — Estou fazendo isso para protegê-la. Mais tarde, quando deixarmos a corte e retornarmos à fronteira, se não tivermos... consumado o noivado... você poderá ser livre outra vez. — Livre. — A palavra soou como se ela não lhe conhecesse o significado. — E você também seria livre. Livre? Não. Mas seria solitário. Como queria ser. Sim, era tentador. Mas ele enterraria aquele desejo, ainda mais fundo, se aquilo fosse possível, do que todas as coisas que Bessie enterrara. Porém, com mais facilidade, já que sabia como ocultar seus pensamentos. Do guardião da fronteira inglesa, do rei e até mesmo dela. — Durma na cama. Eu me acomodarei no chão. Porque, caso se deitasse ao lado de Bessie, não poderia se responsabilizar pelo que seu corpo faria no escuro.

AO QUE parecia, o rei não podia imaginar que haviam dividido o mesmo quarto, mas não a mesma cama, portanto fez poucas perguntas. Para as quais Thomas não lhe deu respostas. Sentindo-se magnânimo, James permitiu que o casal ficasse com o quarto. Para Bessie, nada mudou, exceto as noites. Em algumas, havia risadas no salão. Em outras, o rei desaparecia para farrear nas tavernas com Stirling, sem dúvida pensando que podia se disfarçar. E a cada noite Carwell acompanhava-a até a porta do quarto, beijava-lhe a testa e dava as costas, deixando-a sozinha até presumir que ela havia se vestido e, quem sabe, dormido. A desculpa do “pé machucado” de Bessie fora convenientemente ressuscitada, portanto não mais dançavam. Aquilo a agradou. Até mesmo o mais leve roçar dos dedos a faria lembrar o quanto desejava aquele homem. Disse a si mesma que era melhor assim. Tentou se convencer de que Carwell tinha razão de deixá-los livres para pôr um fim àquele casamento. Lembrava a si mesma de que ainda não conseguira nenhuma prova de que ele traíra os Brunson mais de uma vez. Franziu a testa por ter sido tão fraca em deixar o desejo dominá-la. E, apesar de se encontrar em uma corte lotada de pessoas, agora dormia só. Sem Projeto Revisoras

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marido ou clã, as Marys se tornaram suas irmãs. Sempre que podia, passava horas à noite em companhia delas. Em uma daquelas ocasiões, estavam reunidas próximas uma das outras, em torno da lareira no quarto das Marys, enquanto Mary Alta tocava seu alaúde. — Então, como é estar casada? — perguntou Mary Baixa. Os olhos indagavam ainda mais. Questionavam como era dormir com um homem? Bessie engoliu em seco as palavras desejando dizer: eu o desejo, mas ele não me quer. — Acho — retrucou ela, querendo ser, ao menos em parte, sincera — que não há muita diferença de antes. Os olhos de Mary se arregalaram. — Então se deitou com ele antes do noivado. Bessie sentiu as bochechas do rosto queimarem. As duas Marys interpretaram a resposta como uma declaração de que foram íntimos antes da noite de núpcias, e não de que estavam sendo castos desde então. A frase não foi dita em tom judicioso. Mary Alta frequentava a cama do rei e Bessie estava certa de que Mary Baixa tinha razões íntimas para estar satisfeita por Oliver Sinclair ter permanecido solteiro. Bessie ansiou pelo talento de Thomas em discursos oblíquos. — O que quis dizer é que, na corte, não há nada que seja seu — respondeu, percebendo o quanto aquilo era verdade. Viviam no castelo do rei, importavam-se com os assuntos do rei, só desfrutavam de entretenimento quando o rei desejava. As coisas que homens e mulheres casados faziam, como construir um lar e protegê-lo, não eram possíveis na casa do rei. E quanto a construir uma família? Bem, Carwell deixara isso claro. Aquilo era a última coisa que ele desejava. Mary Alta ergueu o olhar do alaúde. — Ouvi dizer que ele foi casado, antes. — Sim, ela morreu — retrucou Bessie, dirigindo o olhar a Mary Alta. Não era necessário acrescentar que estava grávida para uma mulher que, em breve, enfrentaria os riscos do nascimento de um filho. Bem, Bessie não correria esse risco, se as coisas continuassem como estavam. O nascimento de um filho. De repente, tudo que Thomas fizera ganhou um novo significado. Seu cuidado protetor. A recusa em consumar o noivado. Ele dissera que queria lhes permitir a possibilidade de uma anulação, mas o casamento da rainha viúva fora anulado, após ter dado à luz uma criança. Havia algo mais. Sim, Carwell sofria a perda da esposa. E ela morrera dando à luz seu filho. Julgaria Bessie Brunson fraca a ponto de perecer enquanto cumpria seu dever natural? Sim, mulheres faleciam durante o parto. Mas nenhuma Brunson jamais constara entre elas. Thomas Carwell devia saber disso. Decidida, se ergueu na intenção de confrontá-lo. — Aonde vai? Bessie entreabriu os lábios para responder, mas percebeu como seria ridículo abordar Carwell e lhe dizer que era mais forte que a esposa que ele perdera. Seus passos se tornaram mais lentos. — Ao banheiro. Volto já. Seguiu pelo corredor para se recompor. Não. Não poderia se apresentar diante de Carwell e anunciar que estava preparada para dar à luz um filho dele. Tinha de descobrir outra forma de lhe sondar os sentimentos para se certificar do que faria. Um modo menos direto e mais sutil. Projeto Revisoras

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Bessie Brunson aprendera algumas coisas durante as semanas em que estava na corte. Ou assim pensava. Durante os dias que se seguiram, tentou induzir uma aproximação entre os dois. Ficava ao lado dele quando a dança tinha início, erguia os lábios na direção dos dele, quando Carwell a acompanhava até a porta. Mas a cada passo sutil que dava na direção daquele homem o percebia recuar outro. Carwell começou a vir para o quarto cada vez mais tarde, até que temesse que ele não voltasse mais a dormir lá. Portanto, na noite seguinte, se deitou nua sob as cobertas, esperando. Tentou manter a respiração regular quando a porta se abriu e continuou de olhos fechados enquanto o ouvia se movimentar pelo quarto. Ele não acordava os escudeiros quando se deitava muito tarde, removendo a própria espada e botas e, por fim, se acomodando no chão duro, acolchoado apenas por um cobertor. O fogo se apagou. O quarto se tornou frio. E a respiração de Carwell adotou um ritmo regular. Certa de que ele estava sonhando, Bessie saiu com cuidado da cama, e cruzou, pé ante pé, o aposento para observá-lo. Ele havia virado e o cobertor escorregara, expondolhe o peito e a lateral do quadril. Prendendo a respiração, ela mordeu o lábio inferior e engoliu em seco. Depois do que estava a ponto de fazer, não haveria como voltar atrás. Deveria puxar o cobertor? Beijá-lo? Ou simplesmente deitar sobre aquele peito musculoso na tentativa de lhe suscitar o desejo? Uma vez excitados, os homens não precisavam ser forçados. Na verdade, quando dominado pelo desejo, a mulher não seria capaz de conter um homem, assim como ele também não era capaz de se controlar. Estava contando com isso. Contando que ele a possuísse, antes que estivesse totalmente desperto. Antes que pudesse reconhecê-la e rejeitá-la. Bessie estacou. Talvez, nos sonhos, Carwell pensasse que era aquela outra esposa, a que ainda amava. Aquela que ele ainda devia amar. Talvez então Carwell pudesse amá-la como ela desejava. O que você quer? Quero que ele me ame, e não a ex-esposa. Bessie se deitou no cobertor, esticou-se ao lado dele e uniu os lábios dos dois.

A PRINCÍPIO, Thomas se entregou ao sonho, mesmo sabendo que o corpo o estava torturando. Não, o corpo não mentia. Bessie era sua esposa. Ele a desejava. Portanto, manteve os olhos fechados, não desejando acordar, querendo aproveitar o sonho, a segurança da ilusão, naqueles poucos instantes em que poderia amá-la sem que houvesse nenhum sofrimento. Para nenhum dos dois. Mas então, com os olhos ainda fechados, soube. Aquilo não era um sonho. Os seios expostos lhe incineravam o peito. Os lábios, com beijos ainda inexperientes, brincavam em torno de sua boca. E, a julgar pela ereção, estava mais do que apto a possuí-la. Carwell abriu os olhos e desejou que não o tivesse feito. Tudo com que sonhara se encontrava na mulher deitada ao seu lado. O cabelo, tão vermelho quanto as chamas de uma labareda, cascateava sobre os ombros tão pálidos quanto os seios firmes. Os contornos das curvas graciosas dos lábios, das sobrancelhas, dos seios, dos quadris, cada um fazendo eco com o outro. E pareciam se encaixar com perfeição ao seu corpo. Os olhos castanhos estavam fechados, portanto Bessie não havia percebido que ele acordara. Thomas lhe segurou os punhos, afastando-lhe os braços, fazendo-a rolar para Projeto Revisoras

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longe dele, deitada de costas. E então os olhos de Bessie encontraram os dele e, nas chamas do desejo que se apagavam, ele percebeu o desapontamento. E a dor. — Estava pensando em uma artimanha que me tornasse seu marido de fato? — Uma artimanha? Para que fizesse algo que deseja tanto quanto eu? Lá estava a sinceridade de Bessie outra vez. Aquela sinceridade fatal. — Conhece as razões pelas quais não devemos. — E não me importo nem um pouco com elas. Ele a soltou e se sentou, esticando a mão para o cobertor que estava sobre a cama para lhe envolver o corpo, tomando cuidado para que as mãos não lhe roçassem a pele. — Sabia — começou ela, com a voz mais firme que pôde conjurar — que você é a primeira pessoa que percebe que eu também sinto frio? Thomas a encarou. Quando passara a perceber aquelas coisas em relação a ela? Desde o início. — As mulheres que conheço são... delicadas. A risada de Bessie soou curta e áspera. — Eu não sou. Thomas se levantou. Quanto mais próximo estivesse dela, mais difícil seria não tocála. — Tem certeza? — A flor do cardo não é delicada. Thomas não conseguiu suprimir um sorriso diante daquelas palavras. Ele a julgara tão espinhosa quanto um cardo. Um dia. — Até mesmo um cardo morre quando arrancado da terra. — É isso que acha? — Bessie também se levantou, aproximando- se e o fazendo recuar de costas na direção da cama. — Que fui arrancada de meu clã, atirada no meio do castelo Stirling e que agora vou murchar e morrer? — Algumas pessoas morreriam. — Bessie estava se aproximando demais. Ele estava se aproximando muito, perto ò suficiente de revelar coisas que não queria que ninguém soubesse. — Estou tentando protegê-la. — Quer me proteger? Acho que é a você mesmo que quer proteger. — Que bobagem! — Prefere voltar para seu castelo vazio e lamentar a morte de sua esposa? Thomas girou a cabeça bruscamente para encará-la. E o choque não se devia ao fato de ela ter descoberto seu mais oculto temor, mas sim por perceber que não lamentava a morte da esposa há muito, muito tempo.

ERA JUSTO, pensou ela, enquanto lhe estudava a expressão do rosto. A mulher de Carwell morrera ao dar à luz e ele queria poupá-la do mesmo destino. Bessie esticou a mão para tocá-lo, mas a deixou pender, quando ele se desviou e virou de costas. Um plano tolo. Esperanças vãs. Agora fizera com que Carwell se lembrasse da dor. Trouxera-a de volta, tão próxima e real que o impediria de fazer amor com ela. Bessie tossiu, tentando abrir caminho para as palavras. — Então, ao que parecesse, nunca seremos de fato noivos. Mas se não vamos nos casar, então voltarei a dormir com as mulheres. — Não volte para o quarto das Marys — ele disse. — Isso nos envergonharia e o rei ficaria tentado a entregá-la a Sinclair. Bessie negou com um gesto de cabeça. — As mulheres Brunson são fortes — as lágrimas que lhe banhavam os olhos desmentiam a afirmativa ―, mas não sou forte o suficiente para me deitar ao seu lado e Projeto Revisoras

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não desejá-lo. Carwell juntou as roupas e se vestiu com rapidez. — Então deixarei que durma aqui. Sozinha. A porta se fechou com um barulho ensurdecedor.

Capítulo Catorze

Bessie se arrependeu daquilo tudo ao acordar. As mulheres Brunson eram fortes. Uma bravata fútil. Ela fora fraca. Procurara prazer em vez de se dedicar ao seu dever. Permitira-se ser seduzida e não apenas por Carwell. Deixara-se distrair com a música, a dança e as correntes de ouro emprestadas, pensando que poderia de fato dançar, como Carwell fazia, entre o dever e o prazer. E fracassara. Agora, aos olhos de todos, se encontrava casada com um homem que não queria dormir com ela. Um que não poderia deixar, mas com quem também não poderia viver. Confiara em Carwell em vão e se lembrou, tarde demais, que jamais deveria tê-lo feito. Ele lhe traiu as esperanças, assim como havia traído seu clã. E, a não ser que o rei perdoasse seu clã e a deixasse voltar para casa para desfazer aquele maldito noivado, seria a refém eterna de Carwell.

PARA O alívio de Thomas, os negociadores retornaram de Berwick no dia seguinte. Com o tratado assinado, estaria livre para partir da corte, embora o Natal fosse na semana seguinte e o rei, sem dúvida, o pressionaria a ficar para as celebrações de fim de ano. James mandou chamá-lo em seus aposentos, assim como a outros lordes e conselheiros, para a leitura dos termos. A reunião foi aberta com o linguajar burocrático usual e Carwell descobriu a mente vagando com pensamentos sobre uma ruiva e o fogo de uma lareira. — Que parte é essa? — perguntou o rei. — Sobre o salmão? — A violação do comércio. Vossa Alteza se recorda. Pelos comerciantes de Edimburgo? — Ah, sim. — O rei gesticulou para que ele continuasse. Thomas forçou a mente a afastar as imagens de Bessie e se focar no tratado. Aquilo era a culminação de tudo por que trabalhara. Para garantir a punição de Angus. Porém, à medida que a leitura prosseguia, o linguajar se tornava cada vez menos familiar. E não apenas as partes que se relacionavam ao salmão. Thomas escutava com crescente terror, enquanto a próxima seção era narrada. Angus perderia todas as suas terras e castelos, mas lhe seria permitido viver em exílio na Inglaterra. — Não! — gritou ele, mal percebendo que havia se levantado. — Não posso aceitar isso. — Você? — O rei o encarou com um olhar que não tinha nada de jovial. — Você não tem de aceitar nada. Projeto Revisoras

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— Não foi isso que acordamos. — Não podia revelar mais nada sobre as negociações diante dos olhares vigilantes dos embaixadores oficiais fixados nele. — Eu concordo — retrucou o rei. — Deveria estar satisfeito. — Mas era para ser acordado de outra forma. — O quanto poderia revelar? E que diferença fazia agora? — Está acordado desta forma. — O rei parecia lamentar tanto quanto Thomas. — Meu tio, o rei, tem uma ligação irracional com aquele homem. Iria me atormentar até eu... — Deu de ombros. Desistir. O jovem rei, que havia fracassado em capturar seu pior inimigo, não conseguira se manter firme. O grande juramento que exigira de seus lordes permaneceria exatamente assim: palavras ao vento. Angus, o homem que ele e o rei juraram destruir, escaparia através da fronteira, desarmado, para aproveitar a vida e a liberdade, sem dúvida, na corte do rei inglês. Thomas se deixou afundar na cadeira. Tudo aquilo por nada. Traíra os Brunson? Bem, poderia justificar aquilo. Willie, o Marcado, podia ter escapado uma vez, mas Angus não escaparia. O ex-regente precisaria ser preso e punido. Aquilo desculparia tudo que fizera. Agora não poderia mais racionalizar. A leitura do tratado foi retomada, dissipando o estranho silêncio. E, à medida que as palavras eram proferidas, o terror de Thomas aumentava. Mais uma vez, se levantou. — Não podemos aceitar estes termos. Permitirão que os guardiões da fronteira inglesa invadam a Escócia para manter a paz. — Apenas se você não for capaz de fazê-lo — retrucou o rei. — Mas isso... — A fúria quase o fez se engasgar diante do pensamento de o guardião da fronteira inglesa entrar em Liddesdale para impor a própria justiça aos Brunson. — E impossível de aceitar. Mande de volta um... — Está assinado. Sem palavras, Thomas encarou o rei, sentindo como se o sangue lhe tivesse sido drenado do corpo, deixando-o frio e vazio. — Assinado? — Forçou a palavra através dos lábios ressequidos. James sorriu. — Cinco anos de paz. Concordado e providenciado. — Mas lhes dar permissão para atravessar a fronteira, invadir... O rei James falou com rapidez, como se tivesse assimilado o acordo: — Eles já têm esse direito se estiverem perseguindo um invasor que lhes roubou. — Então teremos o mesmo direito. De invadir o território deles. — Não. — Não? O rei se apressou em prosseguir. — Ouça. Aqui, nesta outra parte. — A voz do monarca estava se elevando. — Leia. O negociador obedeceu. — E os guardiões da fronteira devem se encontrar em fevereiro de 1529, para marcar o Dia da Trégua... — Isto. Esta parte. — O rei dirigiu o olhar a Thomas. — Você e os outros guardiões irão manter os Dias de Trégua regularmente. Enquanto a paz for mantida, não haverá razão para que eles cruzem a fronteira. — E nenhuma razão para resolverem disputas também. Se têm o direito de invadir, por que concordariam com o que for estabelecido no Dia da Trégua? Os outros olharam ao redor, incomodados. Carwell recolheu a própria espada e saiu pisando duro, não esperando mais nada. Projeto Revisoras

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Não conseguiria ouvir nem mais uma palavra. Enquanto cruzava os corredores de Stirling, percebeu que passara tempo demais tentando orquestrar as coisas nos bastidores. Os interesses do rei divergiram dos daqueles que viviam nas fronteiras, como previram os Brunson. E nenhuma de suas maquinações conseguira impedir aquilo.

THOMAS CIRCUNDOU os muros sob a neve de dezembro até que a primeira onda de raiva abrandasse e percebeu, com crescente temor, que teria de contar a Bessie o que acontecera. Há algumas semanas, pensara seriamente em confessar tudo. Que havia conspirado com o guardião da fronteira inglesa. E por quê. Pensara em fazer isso quando, triunfante, pudesse anunciar que seu arqui-inimigo Angus havia sido capturado para que a justiça fosse feita e a vingança, alcançada. Os Brunson, mais que qualquer pessoa, entendiam o que significava vingança. Mas não agora. Não quando Angus estaria se refestelando na corte do rei Henrique. Não haveria justiça, nenhuma conclusão, nenhum modo de justificar um acordo que lhe pareceu legitimar tudo que fizera. Agora, restava apenas o fracasso. E as expectativas do rei de que ele prosseguisse com aquela farsa, agendando o Dia da Trégua.

THOMAS A encontrou, após uma longa procura, na escura e quente. cozinha sob o Grande Salão, parecendo tão à vontade quanto se estivesse em sua casa. Por outro lado, os criados não pareciam nada relaxados. Quando ela o avistou, não lhe fez perguntas. Limitou-se a retirar o avental de imediato e segui-lo até o quarto que lhes fora designado. Uma mulher forte. Que reconhecia o valor do silêncio. A cama se avultava, acusatória, diante dele, mas aquele era o único lugar onde poderiam conversar sem serem ouvidos. Thomas começou de modo abrupto, as palavras melífluas o desertando agora. — O tratado foi assinado. — Não parece satisfeito com isso. — Os termos não são os que eu imaginei. Seus irmãos também não ficarão contentes. Thomas lhe deu uma breve explicação, mantendo a voz suave quando acrescentou as cláusulas sobre Angus. — E... ? — perguntou Bessie, quando ele concluiu. — Qual é a pior parte? — Se os ingleses não estiverem satisfeitos com uma punição para os escoceses, terão permissão para invadir e obter sua reparação. Os olhos castanhos se arregalaram. — Então as obrigações do guardião da fronteira... — Sim, se tornarão inúteis. — Estranho. Aquele era o aspecto que menos o aborrecia. O cargo lhe parecera o pináculo de seus anseios meses atrás. — Sinto muito. — Bessie lhe tocou o ombro e ele permitiu, necessitando daquele consolo. Após todos aqueles anos de desgosto, esperara que as assinaturas dos reis o fizessem se sentir inteiro outra vez. No entanto os reis não o fizeram e não o fariam. Agora via aquilo claramente. Mesmo se Angus fosse decapitado e ele feito guardião da fronteira pelo resto da vida, no fim lhe restaria apenas o castelo vazio e o som do mar. Mas agora, aquela mulher, a quem pensara em proteger, o consolava. E ele aceitaria aquele conforto. Deus o perdoasse, mas ele o aceitaria. Projeto Revisoras

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O beijo, suave e hesitante a princípio, se tornou ávido, as mãos que, há muito, se encontravam vazias, desejando ser preenchidas pelos seios fartos e lhe dar prazer. O sangue que lhe corria nas veias e até mesmo seu sêmen desejavam criar uma vida, por fim. Querendo deixar o passado e a perda para trás e criar algo novo. Mesmo que não conseguisse visualizar aquilo, ou saber de que se tratava. Sabia apenas que envolvia aquela mulher. O corpo não mente. Dissera isso, sem entender de fato o significado daquelas palavras. Estivera tentando mentir. Para si mesmo. Para Bessie. Tentando proteger seu castelo, pensando que, se não permitisse ninguém entrar, mais nenhum mal lhe aconteceria. E agora suas paredes estavam ruindo. Não podia possuí-la com avidez. Não quando aquela era a primeira vez de Bessie. Há quanto tempo não se deitava com uma mulher? Porém, aquela não era como o espectro pálido de sua ex-esposa. Era forte. Bessie assim afirmara. Forte o suficiente para recebê-lo, como a terra seria capaz de vicejar com um temporal. Thomas estacou, embora soubesse que não podia esperar nem mais um instante, e lhe encontrou o olhar. Bessie sabia qual era o questionamento refletido naqueles olhos castanhoesverdeados. Segurando-lhe as mãos, ela as pousou em seus ossos ilíacos. — Não. As mulheres Brunson nunca morreram dessa forma. Pensando que sua ex-esposa falecera ao dar à luz. Pensando em tranquilizá-lo de que isso não lhe aconteceria. Thomas inclinou a cabeça para se apossar dos lábios carnudos outra vez. Deixaria que Bessie acreditasse naquilo. Era melhor assim.

A PRINCÍPIO, ela se mostrou tão desajeitada na dança do amor quanto jamais estivera na dança de Galliard. Era possível encaixar o nariz aqui? Um braço ali? Como os corpos se uniam? Nunca amara um homem antes, mas logo o corpo de Bessie passou a se mover em sintonia com o dele como se estivessem dançando, como se não fosse necessário lhe ensinar os passos. Ali, não havia ninguém para criticar o ritmo que pertencia apenas aos dois. E então Bessie não conseguiu pensar em mais nada. Percebeu vagamente que aquele era o motivo pelo qual sempre haveria filhos. Porque as famílias se perpetuavam ao longo das eras. Aquele não era um beijo tímido de um casal de adolescentes, mas sim a força da natureza. Firme como as estrelas, forte como o vento... cantavam sobre os Brunson. E aquilo? Era mais forte que tudo mais. Thomas era gentil e feroz ao mesmo tempo. Tocando-a, a princípio, com mãos gentis. Segurando-lhe a cabeça, acariciando-lhe os braços, erguendo-lhe o queixo... oh... com tanta ternura! E ela, ciente das mágoas que sangravam o coração de Thomas, também tentava ser terna. Elevar-lhe o ânimo, assim como lhe estimular o corpo, por mais que ambos lhe fossem desconhecidos. Mas logo a gentileza e a ternura cederam à avidez do desejo que refletia o do outro. Ali não havia passos calculados para seguir o ritmo de uma dança, ou beijos dados como prêmio após um torneio, encenados para uma plateia. Havia apenas a impetuosidade de um reel escocês, girando em ritmos muito íntimos para serem testemunhados. E então Thomas estava dentro dela, desfrutando de todos os segredos que ela tentara ocultar em seus silêncios. Projeto Revisoras

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Bessie enrijeceu o corpo. Resistiu. Perdeu o ritmo daquela nova dança. Toda a força de que se gabara de repente fraquejou. Como um homem poderia estar tão profundamente enterrado dentro dela, tão próximo, e não se fundir em seus ossos? Certamente, aquele homem deveria conhecê-la mais do que qualquer outra pessoa a conhecera. Mais do que conhecia a si mesma. Aquilo deveria significar que também deveria conhecê-lo. Bessie permaneceu imóvel, tentando lhe perceber os segredos. Sentiu a vulnerabilidade, misturada à força. E então percebeu que se rendia ao desejo de Thomas. E ao dela. Forte, vigoroso, urgente, explorador. Indomável como o vento nas montanhas. Ou as ondas no mar. Instantes depois, Thomas estremeceu e paralisou, como se tivesse atingido o topo da montanha e não necessitasse mais escalar. Envolta nos braços fortes, aquecida e segura, Bessie refletiu sobre aquilo. Haveria algo mais... que devia sentir? Bem, teria tempo para descobrir isso, também. Por aquela noite, estava satisfeita. E o abraçou até que os dois adormecessem, enquanto uma parte enevoada da mente lhe sussurrava em sonhos. Você está noiva. Por mais falso que tivesse sido aquele noivado, agora era real. Mais real que qualquer coisa que tivesse sentido em sua vida.

Ao DESPERTAR, a realidade do que fizera atingiu Thomas como uma onda gigantesca. Prometera protegê-la. Em vez disso, casara-se com ela, dizendo que aquilo iria poupá-la e ao clã Brunson de qualquer perigo. Dizendo a si mesmo que aquele noivado seria desfeito e que não se casaria de verdade. Ainda assim, apesar da jura que fizera de nunca mais se responsabilizar por uma mulher, cada passo daquela dança os aproximara. E agora a tornara sua. Thomas se sentou na cama, sem noção do dia e da hora. Dirigiu o olhar a Bessie, esparramada nos lençóis ao seu lado. Entregara-se ao ato de amor com tanta avidez que nem ao menos esperara satisfazê-la plenamente. Ainda assim, um sorriso curvava os lábios carnudos durante o sono. Não iria sorrir quando acordasse. Sua primeira esposa nunca sorrira.

AMARA Annabell. Ao menos, fora isso que dissera a si mesmo. A ex-esposa era uma mulher baixa, delicada, com cabelo dourado, uma risada estrondosa e a mais bela que ele já vira aos 22 anos. E justificava a insatisfação sexual da esposa pelo fato de ela ser muito delicada. Annabell era a filha mais nova de um lorde de Lothian. E, embora o castelo Carwell fosse o mais opulento em Dumfries, vinho francês e músicos itinerantes eram raros no oeste longínquo. Ela sentia falta daquilo tudo. Embora tocasse o alaúde e executasse a dança de Galliard com perfeição, não tinha habilidade, e muito menos interesse, em cuidar dos guerreiros. Após os primeiros meses, passava a maior parte de seus dias olhando o mar, com uma leve expressão amuada e o lábio inferior trêmulo. Projeto Revisoras

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Thomas tentara fazê-la feliz, no entanto, o rei era pouco mais que um menino naquela época. Facções guerreavam por ideais políticos. Clãs combatiam na fronteira. O pai de Thomas era guardião da fronteira e nunca estava presente. A mãe há muito tinha falecido. O castelo Carwell não oferecia nada a Annabell, além da companhia do marido. Mas ao menos lhe provia segurança. Ou assim ele pensara. Quando Annabell não estava observando o braço de mar, desaparecia para caminhar ao longo da margem. Thomas a preveniu várias vezes sobre as areias traiçoeiras quando as marés baixavam. Porém, depois de algum tempo, ela pareceu não mais lhe dar ouvidos. Parecia não ouvir mais nada. De repente, aparecia com a saia do vestido úmida e suja de areia e lama, logo após a cheia da maré que se aproximava com a mesma velocidade de um galope. E Thomas sentia um arrepio ao perceber que ela se colocara em perigo outra vez. Imaginando até mesmo se não deveria trancá-la no castelo para protegê-la. Depois de. algum tempo, embora demonstrasse repulsa pelo ato sexual, disse a ele que estava grávida. A alegria que Thomas sentira fora incomensurável. Aquele seria o primeiro filho de muitos. Annabell encontraria um propósito na vida com a maternidade. Ele teria um herdeiro. Talvez, um dia, uma prole de crianças como as dos Brunson. Filhos que amariam uns aos outros como na família da mulher que agora dormia ao seu lado. Baixou o olhar para se deparar com os olhos abertos de Bessie. Ela sorria como se estivesse feliz. Bessie não tinha motivo para estar feliz. Ainda assim, os lábios de Thomas se curvaram para cima, em resposta. Devia tê-la agradado. — Gostaria que a dança fosse assim tão fácil para mim. Thomas se permitiu um sorriso largo, sem nada a esconder. — E será. Quando permitir. Parece feliz. Bessie se aninhou ao corpo forte. — E estou. As pessoas me observaram, esperando que uma recém-casada sorrisse. E franziam a testa quando não viam a alegria estampada em meu rosto. Agora verão. — Seus sentimentos pertencem apenas a você. — Thomas nunca os demonstrava. Bessie deixava transparecer deliberadamente alguns, para ocultar o restante. — Sorria ou feche o semblante para quem você quiser. Ninguém mais. — Até eu vir para a corte, ninguém se importava com meus sentimentos. Thomas imaginou se aquilo incluía os irmãos, mas não a questionou. A maioria dos homens não chacoalharia um barco firme. — Eu me importo. — As palavras o surpreenderam. Uma afirmação perigosamente próxima do ciúme. Certamente, não queria que ninguém a conhecesse melhor que ele. Bessie se sentou na cama, erguendo os joelhos e os encostando ao peito. Em seguida, se envolveu em um cobertor. — Importa-se com meus sentimentos, mas não quer ficar algemado a mim como marido e mulher. Não queria ficar algemado a ninguém como marido e mulher. Carwell rolou para fora da cama e se levantou, como se a distância entre os dois tivesse alguma importância agora que era tarde demais. Agora que, a despeito de sua intenção inicial, não poderiam mais se separar. Ainda haveria alguma possibilidade? Se tivesse tempo para pensar... Mas Thomas ainda estava muito próximo. O suficiente para que ela lhe segurasse a mão e o puxasse de volta para a cama. Projeto Revisoras

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— Fui mais sem jeito que... ela? — Quem? — Sua outra esposa? O mundo pareceu ruir. Ele não esperava aquela pergunta e não estava preparado para mentir. — Não. Bessie voltou a sorrir. Aliviada. — Não me disse quase nada sobre ela. Nem ao menos quem era. — Agora não é o momento certo para isso. — Nu, na cama, desejando aquela mulher outra vez. Não. Não queria as lembranças de Annabell naquele quarto. — Estamos casados de fato agora. Não pode me contar a verdade? — A verdade? Por que acha que a verdade é tão preciosa? — As mentiras são melhores? — Mentiras não são necessárias. — Não na maioria das vezes. Apenas um desvio da verdade. O pecado da omissão. — Em vez disso, deixe-me revelar meus sentimentos — disse ele, escorregando para baixo das cobertas. — Quero fazê-la minha outra vez. Bessie sorriu e abriu os braços. Não poderia lhe contar agora. Não suportaria vê-la o odiando se revelasse a verdade. Um dia, Bessie descobriria tudo. Sobre o tratado. Sobre o que ele fizera no Dia da Trégua. Até mesmo como havia fracassado antes. Mas não agora. Não ainda.

Capítulo Quinze

Depois daquele dia, Bessie acordava sorrindo todas as manhãs. Estava aprendendo a conhecer o corpo do marido e o dela. Um passo de cada vez e chegaria ao topo da montanha. Sabia que haveria um fim. Algum dia. Podiam estar casados de fato, mas Carwell não queria uma esposa. Não para sempre. Não tinha dúvidas de que, até mesmo agora, ele estava pensando em uma forma de desfazer aquele noivado, depois que o perigo passasse. Mas agora, naquele dia, ela estava na corte do rei, onde uma horda de criados proveria banquetes e dança para celebrar a temporada, casada de verdade com o homem que amava, mesmo sendo uma insensatez. E, durante aqueles poucos dias, percebeu, surpresa, que não estava com saudades de casa. Com o tratado assinado, o rei colocara de lado todos os pensamentos sobre governo, política e guerra. Estavam na temporada de Natal. Ele festejaria. Logo, as celebrações noturnas tiveram início. Bessie se posicionou ao lado de Thomas, enquanto os primeiros acordes da música soavam. Ele girou, executando a mais formal das reverências, e estendeu a mão. — Dá-me o prazer? Música, cores e risadas a cercavam, além dos aromas deliciosos da comida preparada por outras mãos que não as dela. E ali, com a palma da mão virada para cima, Thomas a tentava a penetrar no meio daquilo tudo. A ser uma pessoa diferente. Uma Projeto Revisoras

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mulher que ria e dançava graciosamente, até mesmo com despreocupação. Alguém que nada tinha a ver com Bessie Brunson. Mas que podia ser Elizabeth, a esposa do lorde Thomas Carwell. Uma mulher chamada Elizabeth talvez dançasse com leveza durante toda a noite, sem tropeçar nos próprios pés ou nos de outra pessoa. Talvez fosse capaz de atrair os olhares dos homens e mulheres espalhados pelo salão. Pousando a mão sobre a do noivo, saiu para a pista de dança, como se seu nome fosse Elizabeth. A palma era firme e quente. O sorriso, genuíno, enquanto ele a guiava pelo círculo. O salão rodopiava ao redor dela, enquanto a mão forte de Carwell a mantinha segura e confiante. Esqueceu a lógica da mente que contava passos e antecipava as batidas. Em vez disso, deixou que a música lhe falasse direto aos pés, que se moviam por vontade própria, no tempo perfeito, em sintonia com os dele. Era como se os corpos de ambos estivessem de alguma forma conectados e capazes de refletir um ao outro. Algo flutuou no fundo da mente de Bessie, mas, afogado pelo vinho, afundou, permitindo que ela se erguesse e baixasse no ritmo da ondulação da música que mudava constantemente. De alguma forma, se via capaz de mudar com os acordes. Os dançarinos fluíam. Chegou a hora de trocarem de par. Teriam os dedos de Carwell se demorado nos dela? Não havia tempo para refletir sobre aquilo, porque a próxima mão a segurar a dela foi a do rei. Bessie ofegou, perdendo o fluxo dos movimentos por um instante, mas inspirou profundamente. Era como em um sonho. Ainda era Elizabeth, flutuando pela pista de dança. Em seus sonhos, muito tempo atrás, dançava diante do rei. Agora, dançava com ele. Naquela noite, James tinha um sorriso malicioso e feliz estampado no rosto, embora, durante os instantes em que fazia par com ela, Bessie pensou ter visto uma carranca nos rostos de Mary Alta e de Carwell. Não importava. Aquela noite, era Elizabeth. E dançava com o rei.

AGORA foi Thomas que quase tropeçou, tentando observar Bessie dançando com o rei, através da horda de dançarinos rodopiantes. Era melhor assim, pensou sua mente calculista, se tinham alguma esperança de o monarca perdoar seus obstinados irmãos. Mas o que aconteceria se Bessie agradasse muito ao rei? E se o preço por aquele perdão fosse muito alto? Não era a promessa que fizera a Rob e John que o atormentava naquele momento. Era algo muito mais profundo e perigoso. Tratava-se da forma como se sentia em relação àquela ingênua, obstinada e bela mulher. Com o fluxo da dança, Bessie voltou a fazer par com ele, sorridente e rubra. Ela usava um daqueles chapéus pontudos, que se inclinara para o lado, para cobrir o cabelo, deixando que uma mecha se desprendesse e lhe cascateasse sobre o ombro. E tudo que Thomas desejava era levá-la de volta para a cama que dividiam. — Dançou com o rei. — As palavras soaram mais rudes do que pretendia. O sorriso que curvava os lábios carnudos se apagou diante daquele tom. Em seguida, Bessie ergueu o queixo. — E não tropecei. Thomas lhe ensinara os passos e agora ela estava apta a executá-los em companhia de outra pessoa. Não quero que dance com ele. Não quero que dance com ninguém, além de mim. Thomas se sentiu boquiaberto com tal percepção. Como passara a gostar tanto daquela mulher? Projeto Revisoras

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— Ele tem mãos frias. — O quê? — Thomas forçou a mente a se concentrar no momento.― Quem? E lá estava a expressão determinada nos lábios de Bessie. — O rei, claro. Thomas assentiu, engolindo um lampejo de satisfação. — É mesmo? — A expressão irritada se suavizou. — Dançou maravilhosamente. E então ela voltou a sorrir, como se o elogio valesse mais que a dança vigente. — O rei — disse ela, com um sorriso moldado para provocá-lo — é muito bom dançarino. Megera. Mas vê-la tão relaxada em sua companhia o fez retribuir o sorriso. — O rei tem predileção pelo brintle. Uma pequena ruga se formou entre as sobrancelhas de Bessie. — Não conheço essa dança. — Posso ensiná-la — disse ele, com um olhar na direção da ala, onde ficava o quarto que lhes fora designado. — Em particular — retrucou Bessie. — Onde ninguém possa me ver tropeçar. Thomas estendeu a mão. E podia perceber, pelo sorriso que curvava aqueles lábios carnudos, que Bessie entendera que não havia nenhuma dança com o nome“brintle”.

A CADA madrugada, Thomas se lamentava. No Dia de Reis, James partiria de Stirling para Edimburgo, onde o Parlamento voltaria a se reunir para sancionar o tratado oficialmente. Aquilo lhe deixava a questão do que fazer com Elizabeth. Muito tempo atrás, planejara levá-la de volta aos irmãos em segurança. Depois,pensara em protegê-la com um noivado apenas no nome, para que pudesse ser desfeito quando estivessem a salvo, longe de Stirling. Nunca planejara aquilo. Nunca planejara levá-la para a cama. Tampouco gostar dela. E seu cuidado excessivo e fraqueza amorosa os haviam prendido em uma armadilha. O rei ignorara de bom grado o fato de que o clã Brunson não havia consentido ou tampouco sido informado sobre o casamento. Aquela seria sua primeira tarefa: voltar a Liddesdale e negociar com os irmãos de Elizabeth, para ver se, juntos, poderiam encontrar uma maneira de anular aquele casamento. Se não o matassem primeiro. Mas o rei esperava que ele se encontrasse com o guardião da fronteira inglesa para combinar a data do Dia da Trégua. Um homem que, sem dúvida, o acusaria de traição quando descobrisse que a semântica do que haviam cuidadosamente elaborado fora atirada nas águas de Berwick Bay. Para cumprir a data estabelecida no tratado, teria de ir direito para casa, o que, obviamente, lhe parecia ainda menos atraente. Levaria Bessie para o castelo Carwell, onde ela invadiria o santuário que Thomas expurgara de todas as lembranças do casamento anterior. Não queria a presença de nenhuma mulher lá. O que desejava era se recolher ao seu castelo, sozinho, onde poderia se livrar dos sentimentos em relação àquela mulher. E cada dia que passavam juntos tornava aquilo ainda mais difícil.

No DIA em que os presentes foram trocados, a rainha viúva presenteou o rei com o castelo Stirling. O presente que Bessie daria a Thomas não seria assim tão suntuoso. Imaginara até mesmo se devia presenteá-lo. Prendas frívolas não era um costume Projeto Revisoras

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entre os Brunson. Mas, ali, o rei era presenteado por seus súditos adoradores. Se estivesse se sentindo generoso, retribuía. Portanto, no dia de Ano-Novo, Bessie acordou cedo e se sentou na cama, ansiando que o noivo acordasse, — Aqui está — disse ela, no instante em que Thomas abriu os olhos. — Isto é para você. — Colocou o pacote embrulhado com esmero sobre o peito musculoso, sem esperar que ele se sentasse. Thomas olhou para o presente e, em seguida, ergueu a cabeça para encará-la. Mesmo à luz frouxa, Bessie reconheceu a tristeza naqueles olhos castanho-esverdeados. Pousando-o suavemente sobre a cama, Thomas se sentou de modo desajeitado. — Não tenho nenhum presente para você. — Deu uma taça de prata ao rei e disse a ele que era dos Brunson. Este presente nem de longe consegue retribuir o que ficamos lhe devendo. E você me deu... — O que poderia dizer? Durante aquelas semanas, Thomas lhe dera um mundo que ela nunca sonhara conhecer, incluindo aquele que florescera dentro dela. — Muito. Em silêncio, ele baixou o olhar ao pacote. — Vá em frente. Abra. Thomas puxou a fita e colocou de lado o tecido que o envolvia. Dentro, aninhado sobre o invólucro, encontrava-se um pedaço de tecido quadrado e bordado. Bessie prendeu a respiração. — É um cardo. — Uma extravagância. Algo que não serviria para mais nada a não ser como peça decorativa. — Gostou? Thomas ergueu o olhar para encontrar o dela. É digno de se dar ao rei. Foi você quem o bordou? Bessie negou com a cabeça. — Uma bordadeira o fez — respondeu ela, orgulhosa por ter lhe dado um bordado digno de presentear a realeza. — Talvez, quando chegar em casa, possa colocá-lo para adornar a... sua cama. Ainda assim, nas mãos de Thomas, o retalho parecia pequeno comparado aos vários metros de cortinado que os envolvia. Não seria suficiente nem mesmo para cobrir um travesseiro. — Obrigado. Isto me fará lembrar do Primeiro Brunson. Bessie sorriu. — Aquele que pisou em um cardo. — E engoliu em seco a própria dor. — Thomas colocou o presente de lado com cuidado, segurou-lhe o rosto entre as mãos e a beijou. E os dois não voltaram a falar durante um longo tempo. Mas Bessie guardou o agradecimento do marido em seu coração. Gastara a preciosa moeda que Johnnie lhe dera para pagar à bordadeira. Assim, Thomas ficaria com algo que lhe dera. Depois. “FESTA DE Tolos” era como chamavam aquela temporada. E Bessie se deixou ceder à tolice, dançando durante aqueles dias, sem pensar no que viria depois, porque não queria saber. Mais alguns dias, dizia a si mesma a cada madrugada. As celebrações chegariam ao fim no Dia de Reis, mas o que aconteceria depois ela não questionava. — Voltarão para casa, depois? — perguntou Mary Baixa certa tarde. — Para viverem a vida de casados lá? Se voltassem para casa, não era provável que houvesse casamento algum. — Não... conversamos sobre isso. Projeto Revisoras

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Mary Baixa exibiu um sorriso malicioso. — Acho que não estão perdendo tempo com conversas, posso apostar. Bessie sentiu as bochechas do rosto esquentarem. Não. Não estivera conversando. Ou questionando. Thomas pouco revelara sobre o que aconteceria a seguir e, apesar de sua língua afiada, não perguntara. — Quando cheguei aqui — começou ela, dirigindo o olhar às montanhas -, mal podia esperar para voltar para casa. — Casa. O lugar que achara difícil, quase impossível, deixar para trás. — Sentirá saudade de Stirling? Bessie negou com um gesto de cabeça. — Esta não é a minha casa, também. — Era um mundo traiçoeiro como John a prevenira. Onde a dança e a música disfarçavam os perigos. Onde um passo em falso no escuro da noite poderia fazer alguém despencar de um desfiladeiro ou cair em desgraça com o rei. Um monarca que tocava alaúde escrevia poesias e assistiria de camarote esse alguém caminhar para o calabouço. Ainda assim, também era um lugar onde a vida fora mais fácil, onde a beleza suavizava as arestas ásperas do perigo. E onde um homem se importava que estivesse aquecida e a ensinava a dançar. — E como é em sua casa? A primeira palavra que veio à mente de Bessie foi “difícil”. — E o clã. O dever. — Tudo que o pai lhe ensinara. Em sua casa, em Liddesdale, voltaria para um mundo de trabalho, de Jock, o Estranho, do uivo do vento nas montanhas e o brilho das estrelas. — As coisas são... perenes. Porém, enquanto falava da única casa que conhecia, pareceu-lhe cada vez mais distante. Como se fosse apenas uma lembrança, e não um lugar real. Não teria vontade de reencontrar os irmãos? Pensou em Johnnie, agora construindo uma vida ao lado de Cate. O irmão de quem sentira tanta falta durante todos aqueles anos em que ele estivera fora. E em Rob, o rude e resmungão Rob, assumindo seu novo papel como líder do clã. Ainda os amava, mas Johnnie e Cate estavam casados agora. Algum dia, Rob também teria sua esposa, uma mulher que seria mais importante para ele que uma irmã. E quem ou o que Bessie seria, além de uma mulher solitária, subindo as escadarias do castelo Brunson? Esticou as mãos e as virou, estudando as palmas e os dedos. Encontravam-se em pleno inverno e, ainda assim, estavam macias e suaves. As calosidades e os cortes haviam quase desaparecido. A renda delicada margeava as luvas douradas. Renda que seria destruída em apenas um dia de trabalho, assim que chegasse em casa. Portanto, seria guardada para adorná-la no dia de sua morte. O pai tinha razão. Os Brunson não dançam. Ou se adornam com rendas. Seduzida pela música, dança, roupas e Carwell, esquecera-se de quem era. Se não voltasse para casa, não seria mais uma Brunson. E se não fosse uma Brunson, quem ou o que seria? A esposa de Thomas Carwell? Iria ele tomá-la como uma esposa de verdade? Ou encontraria uma forma para se esgueirar das juras e da consumação do noivado, que o transformara em um casamento? Bessie fingia conhecê-lo, confiar nele, porque seu corpo o conhecera, mas nada sabia sobre o sexo ou sobre outros homens. Não podia confiar mais em si mesma do que confiava em Carwell. Apesar de sua falta de confiança, dera um passo de cada vez ao lado dele. Agora se encontrava perdida em uma paisagem tão desconhecida como Tarras Moss. Sim, perdera seu caminho. Quem era ela e o que queria? Esquecera-se até mesmo de seu dever de descobrir se Carwell havia traído seu clã. Projeto Revisoras

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AQUELA NOITE. Aquela noite, lembrou Thomas a si mesmo, era a última da “Festa de Tolos”. Fête de Fous, chamavam os franceses. E como fora tolo em se permitir possuir aquela mulher. Não uma vez, mas uma após outra. E, pior, deixar que as emoções o dominassem novamente. O rei ordenara que a celebração daquela noite fosse como nenhuma outra. Música. Dança. A leitura e a representação de um poema diante da corte. Uma comemoração tão grandiosa quanto seria se Angus tivesse sido enforcado em vez de libertado. A última noite naquele mundo pantanoso, onde o brilho disfarçava as areias movediças. Durante toda a semana burlara o assunto que viria a seguir, surpreso com o fato de Bessie não tê-lo questionado. Retardara uma decisão como se esperasse que aquilo a tornasse mais fácil. Mas de nada adiantara. E agora, enquanto dançava, ela ainda sorria. Como se o dia seguinte fosse tão certo quanto o presente.

QUANDO A música começou naquela noite, Bessie sorriu, como se não pensasse em mais nada além do prazer. Apenas mais uma noite. Mais uma noite de música, dança e risos. O dia seguinte, com suas verdades, chegaria muito em breve. E então eles dançaram. A dança basse. A pavana. A dança de Galliard. Até mesmo a La Volta, que a deixou ofegante e segura com firmeza nos braços fortes do marido. Apenas esta noite, repetiu ela. Estou aqui, em meio às damas refinadas da corte do rei, dançando com um homem que diante do arcebispo prometeu ser meu marido. Aquela noite de alegria poderia nunca se repetir. Talvez fosse o vinho que lhe permitia tal ousadia. Vinho tinto francês como nunca provara nas fronteiras. A bebida lhe embotava a mente e a língua. Ajudava-a a respirar com mais facilidade, embora não soubesse o que aconteceria quando o sol nascesse. Ajudava-a a relaxar apenas por aquela noite. E quando o poema de Sir Lindsay, Dreme, passou do momento de Remembrance para Inferno, com toda corte ainda cativa do rei e da grande celebração, Thomas lhe apertou a mão e os dois se esgueiraram pela porta do Grande Salão, sem nada dizer até que fechassem a porta do próprio quarto. Os lábios se encontraram. Os corpos se pressionaram. Nenhum dos dois falava. Não faziam perguntas. Não agora. Agora, Bessie confiava apenas em que o corpo de Thomas não mentia.

QUANDO, estranhamente, ele a deitou de costas sobre a cama e baixou a cabeça entre as pernas de Bessie, ela permitiu, mesmo sem saber o que aconteceria depois. Um toque. A língua quente e ousada. Tentando-a. Confundindo-a. Sentimentos que não pertenciam à mulher que ela julgara ser. A mulher que fora forte e firme agora se contorcia de prazer, o corpo bailando ao som de acordes que apenas os dois escutavam. A música que haviam criado. E então Bessie se sentiu explodir em milhões de pedaços. Mas ele não a soltou. Segurou-a, com o rosto próximo ao dela outra vez, como se aquelas mãos fossem capazes de lhe juntar os pedaços de modo que Bessie pudesse se rearranjar na mulher que ele a tornara. Projeto Revisoras

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E então Thomas fez amor com ela outra vez. E Bessie o recebeu fundo dentro dela. Abraçando tudo que ele era com todo o seu ser, certa de que agora conhecia Thomas. E que ele nunca mais lhe causaria nenhum mal.

DURANTE ALGUNS instantes, ele cochilou, sem deixá-la escapar de seus braços. Em seguida, a música abafada do Grande Salão se expandiu para o pátio interno subindo até a janela do quarto. Thomas abriu os olhos, inclinou o peso do corpo sobre um dos cotovelos e baixou o olhar para observá-la. O sorriso de Bessie era suave e o olhar, tão nebuloso quanto o dele. Falar seria um desafio. Ele clareou a garganta. — O rei irá para Edimburgo amanhã. Bessie fechou os olhos e aumentou a força com que o abraçava. — O amanhã ainda não chegou. — Sei que prometi devolvê-la em segurança aos seus irmãos. — E com a reputação intacta. Bem, mantivera a reputação de Bessie intocada, embora não sua inocência. O sorriso de Bessie vacilou, enquanto ela assentia com um gesto de cabeça. — O rei permitirá que faça isso? — Tudo que importa ao rei é que os Brunson mantenham a paz, não como conseguirei isso. Bessie fez um movimento negativo com a cabeça, o sorriso cauteloso que lhe curvava os lábios refletindo o dele. — O rei não conhece meus irmãos. — Sim — concordou ele. O noivado apenas o fizera ganhar tempo, não paz. — Mas ainda não posso levá-la de volta a Liddesdale. — Bessie assentiu, estranhamente calada. — O Dia da Trégua, o tratado... — Ele que sempre tivera palavras suaves para dizer, mas agora tropeçava naquelas. — Antes tenho de voltar ao castelo Carwell para fazer alguns acordos com o guardião da fronteira inglesa. Depois disso, encontrarei uma forma de desfazer esse noivado. Bessie se sentou na cama, com um travesseiro lhe protegendo as costas. Por um instante, com a cabeça mais alta que a dele. — Já que não ficaremos casados, não há necessidade de eu o acompanhar. Basta me deixar na torre Brunson, no seu caminho. — E permitir que Rob Negro me mate? — Ele exibiu um sorriso forçado. — Se não contarmos a ele, Rob nunca saberá... — Bessie deixou a frase morrer. Era a primeira vez que sugeria uma mentira em sua vida. E, embora tivesse feito aquilo com certa facilidade, ele discordou. — Impossível. — Havia outra razão pela qual Thomas não conseguiria se separar dela agora. Uma que seria mais difícil abordar. — Vou percorrer uma rota mais direta, pelo norte e leste. Não passaremos perto das terras Brunson. Bessie pestanejou várias vezes, os olhos mais arregalados que de costume. — Então, quando chegarmos, pode designar alguns homens para me acompanharem à torre, até que possamos... resolver o que fazer a seguir. A mulher que acabara de se desnudar de corpo e alma recuava, e Thomas se viu diante daquela que guardava seus segredos em silêncio. Mas, agora, Bessie não conseguia enganá-lo tão facilmente. Tivera um vislumbre de sua verdadeira face. — Não é tão simples. — Ele não questionou a relutância em se afastar dela. — Também tenho de convencer o rei da obediência de seu clã e persuadir seus irmãos a baixar as armas. Os termos do tratado tornaram isso tudo mais complicado. Projeto Revisoras

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— E o que farei no castelo Carwell, enquanto trata de assuntos tão... complicados? — Bessie exibia a mesma calma de quem discutia a compra e venda de gado. Sem paixão. Como se estivessem completamente vestidos no meio do dia, em vez de nus e saciados. Mais uma vez, Thomas se via confrontado com a maldita obstinação que ela demonstrara nos primeiros dias de viagem. Uma mulher que fazia perguntas nas quais ele deveria ter pensando antes de optar por aquele curso. Porque, antes que pudesse desfazer o noivado e devolvê-la aos irmãos, tinha de estar seguro. — Você ficará lá — retrucou, com o máximo de calma que era capaz de conjurar. — E fará o que quiser até que eu me certifique de que não está esperando um filho meu. O rosto de Bessie não poderia ter ficado mais tenso se ele a tivesse esbofeteado. Bem, era ela quem costumava utilizar a linguagem direta. Certamente poderia experimenta-la. — Poderíamos ao menos mandar notícias? — perguntou Bessie, por fim. — Para que meus irmãos saibam que estou em segurança? — Devemos dizer a eles também que estamos noivos e que talvez esteja esperando um filho meu? — Bessie baixou o olhar. Em seguida, negou com a cabeça. — Quanto tempo? — perguntou Thomas, quando ela não respondeu. — Quanto tempo levará até... que tenha certeza? Bessie sentia o rosto em chamas agora. — Semanas. Três. Quatro. Nem sempre fico... Cada vez pode ser diferente... Agora foi a vez de o rosto de Thomas enrubescer. Aquele não era um assunto sobre o qual deveriam estar falando. — Partiremos amanhã. Esteja pronta. — Bessie assentiu. — Pode ao menos dizer “sim”? Bessie inclinou a cabeça para o lado, como se confusa por ele lhe ter pedido. — Sim. — Sim, pode dizer “sim” ou sim, estará pronta para partir? — Thomas podia lhe sentir a irritação e o próprio tom de voz se erguer. — Sim, posso dizer “sim”. E já lhe disse que estarei pronta. — Tão concisa quanto qualquer fronteiriço que conhecia. — Então, boa noite. — Ele se virou de costas para ela. A última noite de ilusão destruída pela realidade. Ainda assim, Thomas imaginou se conseguiria controlar as próprias mãos nas horas que precediam o nascer do dia. A princípio, Bessie não se moveu, mas por fim se aninhou debaixo das cobertas, e se virou de costas, tomando cuidado para não se encostar nele. Thomas concentrou-se no que devia fazer, esperando que aquilo lhe abrandasse o desejo. O tratado. Os Brunson. O rei. Tão logo estivesse de volta ao lugar a que pertencia, onde estava acostumado a viver sozinho, seria mais fácil se distanciar dela. E, quando pensou que Bessie estivesse adormecida, ouviu uma voz sonhadora atrás dele. — Nunca vi o mar. E, naquele sussurro, percebeu todo o perigo daquele curso, tanto para ele quanto para Bessie.

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Capítulo Dezesseis

Na manhã seguinte, Bessie dobrou os vestidos de Mary Alta com todo cuidado e, enquanto Thomas preparava os cavalos e os homens, apressou-se em devolvê-los à verdadeira dona. O rei também estava partindo naquele dia, embora a rainha viúva ficasse. Mary Robusta e Mary Baixa se encontravam atarefadas, ajudando nos preparativos de última hora. Bessie pousou os vestidos sobre a cama. — Trouxe-os para devolvê-los a Mary Alta, com meus agradecimentos. — Os dedos de Bessie se demoraram sobre o tecido. Preto. Azul-escuro. Não usaria mais trajes como aqueles. — Fique com eles — disse Mary Baixa. — Ela não precisa mais deles agora. — Mas precisará depois que o bebê nascer. — Mal podia pensar em bebês agora. Quanto tempo levará até... que tenha certeza? — Ela partiu — disse Mary Robusta, enquanto se encaminhava à porta. — Enviada para se casar com um lorde em Perth. Partiu. Tão rapidamente quanto a mulher que acabara de deixar o quarto. Mary Alta, que se deitara com o rei, que criaria um filho dele, enviada para se casar com outro homem, como se não passasse de uma égua reprodutora. Ela teve sorte, pelo que ouvi dizer — disse Mary Baixa. — O homem não é tão velho quanto poderia ser. Bessie ergueu os vestidos e os apertou contra o corpo. Não eram apenas suas roupas que não pareciam adequadas para Stirling. Teria Mary Alta pensado conhecer o homem com quem compartilhara a cama? Teria sido muito crédula também? Não. Apenas fronteiriças rústicas eram tão ingênuas. Ficará me devendo, dissera Mary Baixa. Ainda assim, estava deixando a corte sem nem mesmo a moeda de Johnnie para lhe dar. Moeda que gastara para presentear um homem que apenas achava que conhecia. — Tome. — Colocou os vestidos nos braços de Mary Baixa. — Fique com eles. — Muito pouco, percebeu Bessie, por tudo que aquela mulher fizera por ela. — Sei que estou lhe devendo, mas isto é tudo que tenho. Mary baixa negou com um gesto de cabeça. — Você é que deve ficar com eles. Deu-me mais do que pode imaginar. — Os lábios de Mary Baixa se curvaram em um sorriso feliz. — Johnnie pode estar casado, mas Oliver Sinclair ainda é um homem solteiro. Bessie mordeu a língua. Ao que parecia, todas as mulheres eram cegas para os defeitos dos homens. Um bom lembrete. Naquele lugar, no topo de um desfiladeiro, comera, bebera, se vestira e dançara como se ela também pudesse viver como a realeza. Agora estava na hora de voltar à terra, abrir os olhos e encarar a verdade sobre Thomas Carwell. E a verdade era que não conhecia nada sobre aquele homem. Os temos não são os que eu imaginei, dissera ele. Mas, até àquele último dia, Carwell parecera feliz. Tão logo haviam chegado à corte, as negociações foram retomadas. Bessie ainda suspeitava que isso se devia a algo que ele fizera. Ainda assim, dissera-lhe que o desfecho o decepcionara. Teria mentido? Teria elaborado um tratado que, quando assinado, permitiria aos ingleses cruzar a fronteira, quando se sentissem ultrajados? Projeto Revisoras

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Mary baixa a envolveu em um abraço. — Seja feliz. Feliz? Pensara o bastante sobre o próprio prazer. O que farei no castelo Carwell? Agora Bessie sabia. Faria o que prometera aos irmãos, quando partira de casa: descobriria a verdade sobre Thomas Carwell e suas mentiras. Aquela era a razão pela qual concordara em fazer aquela viagem. A única razão. Não era muito boa em mentir. Até para si mesma.

QUANDO PARTIRAM de Stirling, mais tarde, naquele mesmo dia, gansos voavam e o céu tinha a nuança branca-acinzentada do linho lavado. Os homens Carwell enviados para ajudar o rei no cerco ao castelo de Angus agora retornavam com eles, portanto formavam um grupo de quase cem pessoas na jornada. Muitos para serem alimentados com facilidade, poucos locais de parada amistosos, onde um destacamento pudesse se abrigar na despovoada rota para o norte. Nenhuma cama aquecida para duas pessoas que haviam sido forçadas a noivar para tranquilizar o rei. Portanto, cavalgavam o máximo de tempo possível e, no quarto dia, penetraram o vale do rio onde ficavam as terras Carwell. À medida que se dirigiam ao sul, a terra se tornava mais plana até que, mais tarde, naquele mesmo dia, perderam a visão das montanhas e se encontraram cercados pela área pantanosa. Uma paisagem ainda mais estranha que Stirling, onde ao menos o horizonte ainda espraiava as montanhas. Nevara durante a noite, e um tapete branco cobria até mesmo aquela terra plana. E então a estrada se curvou e o castelo Carwell assomou. Uma forma escura contra o céu pintado com as suaves nuanças rosadas do ocaso. Stirling a impressionara, mas aquele castelo, cercado por um fosso, tocou-a de forma diferente. Torres arredondadas, quando as dos Brunson eram quadradas. Em meio às terras planas, em vez das montanhas. E, no lugar do vento, o som das ondas. Ao menos, era o que Bessie pensava ser aquele ruído. Nunca ouvira o mar. Entraram no pátio, com todos os homens montados nos lombos dos cavalos, embora tudo fosse resolvido com presteza e eficiência. Um mordomo apareceu com uma bacia de água para limpar a poeira e uma caneca de cerveja para afastar a sede. Nenhuma mulher, dissera ele. E as poucas que Bessie via eram todas criadas. A mulher do mordomo. As cozinheiras. As empregadas que cuidavam da casa. E, em meio a toda aquela atividade, ninguém a notou a princípio. E então Thomas se aproximou e a ajudou a descer do pônei. Bessie percebeu os olhares inseguros. Os homens que viajaram com eles permaneceram em silêncio, mas o mordomo e os criados do castelo recuaram, tentando disfarçar os olhares, tão confusos sobre sua posição naquela casa quanto ela. Mas não daria tempo à imaginação daquela gente. — Sou Elizabeth Brunson. A futura esposa de Thomas Carwell. O braço musculoso se apertou contra o dela. Após lhe dirigir um olhar áspero, ele deu as costas e voltou a ser o senhor do castelo. — Agradaria ao rei ver-nos casados. Por favor, peço que lhe dispensem todo o respeito. ― Thomas virou de costas. — E o quarto ao fim do corredor oeste. Do lado oposto do meu. E assim a colocou em seu lugar. Longe dele. Bessie inclinou a cabeça, como se aquela fosse a decisão que lhe pedira para tomar. A multidão ao redor deles irrompeu em aplausos e sorrisos, como se estivessem Projeto Revisoras

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diante de uma nova senhora e um herdeiro. Em silêncio, Carwell se afastou, deixando-a diante dos sorrisos da mulher do mordomo. Bessie impediu as perguntas da mulher, alegando fadiga. Seria melhor assim, pensou ela, enquanto a guiavam para a torre norte. Seria poupada dá tentação de dividir a cama de Carwell. Era óbvio que os criados ansiavam por um herdeiro. E parecia mais claro ainda que aquela não era a vontade de Thomas. Ao menos não um que ela concebesse. Ficaria ali apenas por tempo suficiente para provar que não carregava nenhum filho no ventre. E seria mais fácil procurar provas da culpa daquele homem se ele não estivesse observando cada movimento seu. Descobriria que Carwell era culpado. Pela fuga de Willie Storwick, pelos terríveis termos daquele tratado, por alguma coisa. Qualquer coisa. E, quando conseguisse, talvez deixasse de amá-lo.

THOMAS ESPERARA encontrar paz quando chegasse em casa. Mas não seria possível. Bessie estava ali. Designara-lhe um quarto distante do dele. Tentara mantê-la o mais longe possível de suas vistas para que pudesse se manter firmemente resistente. Na jornada de volta de Stirling, a logística de organizar cem homens o mantivera ocupado, mas agora Bessie entrara no castelo e anunciara que seria sua esposa. Sob o mesmo teto, ela o assombrava assim como o fantasma de Annabell sempre o fizera. Pior, os criados se encontravam agitados com a expectativa. Uma senhora. Um herdeiro. Os homens que o acompanharam testemunharam o noivado. Contariam como fora a cerimônia com todos os detalhes, sem dúvida. Assim que encontrasse uma forma de desembaraçar toda aquela situação e ficar em paz com os Brunson, retornaria para encontrar uma criadagem desapontada. Talvez estivesse na hora de nomear o primo formalmente como herdeiro. E então talvez abandonassem a esperança de que ele mudasse de ideia e gerasse outro filho. A ideia de trazer Bessie para o castelo não o agradara, mas não podia confrontar os Brunson com a notícia de que se casara com a irmã deles e deixara os ingleses livres para invadir a Escócia sem que sofressem qualquer punição. Isso tudo sem conseguir capturar Angus. Não até que tivesse certeza de que Bessie não esperava um filho seu. Thomas se orgulhava de sua habilidade em antecipar os acontecimentos, deixar uma brecha, pisar com cuidado para nunca cair em uma armadilha. Contudo, se comportara como o mais simples dos escudeiros, dominado pelo desejo em vez do cérebro. Mas aquilo chegara ao fim. Ao menos ali, no interior daquelas paredes, manteria Bessie em segurança. O castelo Carwell não temia nenhum cerco, assim diziam. O mar, a fronteira e o fosso o protegiam. Ninguém poderia entrar, a menos que tivesse sua permissão. Mas ele permitira que Bessie entrasse. Porém, o castelo era enorme. Não havia necessidade de dividirem uma cama ali. Nem mesmo de se deparar com ela. Não precisava sair do escritório ou de outro cômodo e topar com lembranças, fossem elas novas ou antigas. Agora, podia retomar ao modo de vida que levava antes. Sozinho. Do jeito que queria.

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UMA VEZ, Bessie o acusara de se esconder em seu castelo próximo ao mar. Descobrira que era isso e muito mais. Não estava cercada por seu clã. Nenhuma das Marys ressonando no mesmo quarto quando à escuridão caía. O castelo Carwell era grande o suficiente para que todos os homens Carwell e os criados dormissem afastados e para lhe prover um quarto exclusivo. Mas o sono não veio com facilidade. A cama era muito ampla. Os cobertores não tinham a quentura do peito de Carwell contra suas costas. Em casa, o vento varria as montanhas incessantemente, mas, às vezes, fazia uma pausa. O mar, nunca. Por fim, o som abafado e regular das ondas acabou por lhe induzir os sonhos. Sonhos com Thomas. Seus lábios, braços e... O despertar não lhe trouxe maior alívio que o sono. Mas o som das ondas, sim. Aquele som cadenciado lhe trouxe um bem-estar que Bessie nunca imaginara. Thomas a trouxera para seu castelo próximo ao mar, mas não como esposa. Ali, onde a amada esposa morrera, ele parecia mais distante que nunca. Era como se aquela mulher, ou seu fantasma, ainda assombrasse as paredes. Carwell julgara a ex-esposa fraca, mas ainda assim ela fora mais forte na morte do que Bessie em vida. Agora, tinha de ser mais forte do que jamais fora. Dentro de quantos dias saberia se estava grávida ou não? Três semanas? Mas havia algumas coisas a esclarecer naquele intervalo de tempo. Quando o dia amanheceu, Bessie atirou os cobertores para o lado. Estava na hora de voltar a ser Bessie Brunson outra vez.

ENCONTROU Thomas na sala reservada, atrás do espaço público, onde os arrendatários entravam para pagar aluguéis ou apresentar disputas. Os aposentos de Thomas eram mais iluminados que os da torre onde ela morava e a mesa de trabalho, coberta de registros e livros-razão, estava mais desorganizada que a de Rob. — Não tem nenhuma mulher para dirigir os criados. Vou avaliar a cozinha e a área de lavagem para ver se necessitam de melhorias... — Bessie comprimiu os lábios, percebendo, de repente, que a afirmação poderia têlo insultado. — Com sua permissão — acrescentou, tardiamente. Thomas assentiu com um gesto breve de cabeça. — Pedirei ao mordomo que atenda as suas sugestões. — Os olhos castanhoesverdeados encontraram os dela. — Exceto aqui. Bessie tentou exibir um sorriso suave, enquanto baixava o olhar à mesa de trabalho. Talvez, assim como muitos homens, quisesse apenas um canto para si mesmo. A mesa se encontrava apinhada, enquanto a de seu pai estivera vazia. Seria aquilo tudo apenas o trabalho de um guardião da fronteira, que não deveria atrapalhar? Ou haveria provas de sua culpa enterradas sob uma daquelas pilhas de papel? Bessie inclinou a cabeça para o lado, certificando-se de não as- sentir. Aquilo seria se comprometer. — Gostaria de me fazer útil enquanto estou aqui. — Já que Thomas não a achava mais interessante na cama. Por que havia ousado pensar que ele acharia? Por que tentara ser alguém que não a Brunson que era de nascença? E, então, ela o fitou nos olhos. Não havia como confundir o que viu refletido neles. Testemunhara aquele desejo noite após noite. Cerrou os punhos, lutando contra as lembranças. Fora dela a culpa por induzi-los àquele caminho. Atirara-se ao pescoço de Carwell e o beijara. Que homem não teria aceitado o que uma mulher oferecia tão ostensivamente? O que toda mulher tem e todos os homens desejam. Não. Carwell nunca se importara com ela, apenas com o prazer que lhe Projeto Revisoras

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proporcionara. Agora, ela não passava de um estorvo. Uma responsabilidade. Um problema a ser resolvido. Felizmente, ele piscou e, quando voltou a sustentar o olhar de Bessie, também havia se controlado. Não. Nenhum dos dois sucumbiria agora. Tinha de esperar passar as próximas semanas, provar a traição de Carwell e então poderia retornar à sua torre e voltar a ser Bessie Brunson, a mulher que sempre fora. E ele, o homem que sempre suspeitara que fosse. O olhar de Thomas endureceu. — Faça o que quiser dentro deste castelo. Apenas não saia sozinha. A margem pode ser traiçoeira e as areias, letais. Uma rajada de vento soprou em uma curva do castelo. O som das ondas bravias rebentando contra a margem não mais a confortavam como na noite anterior. Não, sair não lhe parecia convidativo. Mas, em breve, poderia parecer tão convidativo quanto um córrego gelado em novembro. Bessie plantou seu meio-sorriso firmemente no rosto. O castelo e as terras pertenciam a Carwell. Ela, como ele mesmo deixara claro, não. Se desejasse andar sozinha na margem, assim o faria. BESSIE deu início à sua campanha naquele mesmo dia. Hew, o mordomo, não estava acostumado a se curvar para uma senhora naquele castelo, mas parecia ávido em provar seu valor para a mulher com quem o patrão se casaria. Orgulhoso, levou-a para um tour pelo castelo, tão amplo e grandioso quanto parecera além daquelas paredes. Fora projetado objetivando a força e o conforto, explicou o mordomo nos mínimos detalhes. As torres duplas da estrutura fortificada à entrada do castelo poderiam servir como a derradeira defesa em caso de ataque, de um jeito similar à própria torre. — Até mesmo o primeiro inglês, Edward, não seria capaz de tomar este castelo. Podemos subir a ponte sobre o fosso — explicou ele. — As câmaras de guarda de cada lado abrigam os homens. Flechas podem ser atiradas do teto ou de dentro. — O mordomo relanceou o olhar à escada sinuosa. — Os aposentos do senhor são no último andar. — Mas não se ofereceu para mostrá-los. Bessie lhe seguiu o olhar. O quarto superior foi concebido como último refúgio. O lugar onde uma família faria a última resistência contra o inimigo. — Não são luxuosos. O mordomo fez um movimento negativo com a cabeça. — O seu e os mais novos, no corredor oeste, são os mais confortáveis, mas o sr. Carwell prefere esse. Aquele, onde poderia estar sozinho e protegido. Além das fortificações da entrada, o castelo se estendia em um triângulo, maior e mais antigo que a torre Brunson. Bessie contou, no mínimo, sete quartos, cada um provido de uma lareira ornada por um escudo Carwell entalhado na cornija. — Os Carwell vivem aqui desde o tempo do último Alexandre — disse ele, com tanto orgulho na voz quanto se também tivesse aquele nome em sua linhagem. Em vez de emanarem o calor de gerações da família, os aposentos pareciam superficiais e vazios. Talvez Thomas Carwell não fosse o único reservado naquela família. — Conte-me sobre o pai do sr. Carwell — Bessie pediu, interrompendo a extensa descrição que Hew fazia dos orifícios para lançamento de flechas na base da torre oeste. — Você o conheceu? Hew pestanejou, confuso. — Servi os Carwell durante toda minha vida. E meu pai antes de mim. — Continuaram caminhando e Bessie tentou pensar no que dizer. — Ele era... Thomas é parecido com ele? Os olhos do mordomo se estreitaram. Projeto Revisoras

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— Na aparência física, o senhor puxou à mãe, acho eu, embora o alcance de sua espada faça me lembrar... — Estou me referindo ao temperamento. — O que poderia dizer que não insultasse Carwell? — O pai de Thomas era assim tão... cuidadoso com as palavras? — Nem um pouco parecido com o pai, supunha ela. Estaria certa? Hew negou com um gesto de cabeça. — O pai era um homem de fala mais simples. Sempre pronto a dizer o que pensava, quer gostassem ou não. Uma pista para o mistério que era Thomas Carwell, ao que parecia. — E o conde de Angus não gostava. Mais uma vez, o mordomo gesticulou negativamente a cabeça. — Mas Thomas e o pai tinham algo em comum. Ambos eram guardiões da fronteira antes de ser Carwell. O dia em que seu irmão trouxe a proclamação do rei, nomeando o sr. Carwell para o cargo, foi o dia que ele esperava desde que Angus destituiu seu pai. — O velho Carwell morreu logo depois, pelo que sei. — Sim — concordou o mordomo, a tristeza da recordação lhe tocando o olhar. — Perder o cargo o matou. Foi o que eu sempre disse. Ficou com o coração partido, dissera Mary Robusta. Talvez estivesse certa. Ao ouvir passos no chão de pedra, os dois se viraram na direção do Grande Salão, que formava a base do triângulo. Uma tapeçaria se encontrava pendurada, isolada, no centro da parede longa retratando uma imagem repleta de carroças, cavalos e mulheres trajando vestidos nas cores vermelha e azul. Parecia necessitar de uma boa limpeza. — O Triunfo da Morte sobre a Castidade — anunciou Hew, seguindo-lhe o olhar. — Um presente de casamento do pai de lady Annabell. O título a fez sentir um arrepio, e não por causa da lareira apagada. Que mensagem triste para começar um casamento. — Quanto tempo faz? Desde que ela morreu? — Thomas nunca lhe contara. — Dois anos antes de o velho Carwell falecer. Quatro anos, então. Um longo tempo para um homem permanecer enlutado. O mordomo olhou ao redor do salão negligenciado. — Este aposento não vê um banquete há muitos anos — disse ele. Um pedido de desculpas. — Desde a morte de lady Annabell? — Bessie forçou a pergunta para ajudá-la a lembrar. Aquela era a mulher que Carwell ainda amava e pela qual sofria. Seu noivado com Bessie fora apenas uma maquinação. E dormirem juntos, um erro. O mordomo negou com a cabeça. — Mesmo antes disso. Ela não era... forte. Estava grávida quando morreu. Será que aquela mulher não fizera nada a não ser permanecer deitada na cama? Não era de admirar que Carwell considerasse as mulheres tão delicadas. — Ela não era uma fronteiriça? Mais uma vez, Hew gesticulou a cabeça em negativa. — Era da região mais próxima a Edimburgo. Bessie experimentou uma pontada de compaixão. Uma mulher com tantas montanhas a protegendo dos ingleses. Talvez tivesse esperado dançar na corte do rei, tão deslocada ali quanto ela se sentira em Stirling. Hew limpou a garganta. — Podemos planejar um banquete de casamento em breve? O mordomo parecia tão esperançoso que Bessie não suportou a ideia de lhe contar a verdade. — Thomas deve cumprir os termos do tratado, encontrar-se com o guardião da Projeto Revisoras

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fronteira inglesa, marcar o Dia da Trégua... — Depois disso, talvez? — Talvez. Mas o homem pareceu tão decepcionado que Bessie se viu incapaz de não acrescentar mais alguma coisa. — Mas agora seu senhor está em casa. E isso é motivo de celebração, certo? Os dois trocaram um sorriso. — Sim, isso mesmo. — Então será uma celebração que teremos. E, no processo de preparar o banquete, teria uma desculpa para explorar cada canto e recanto daquele castelo. E do passado de Carwell.

THOMAS mal viu Bessie nos primeiros dias após a chegada ao castelo. Parecia estar sempre virando uma esquina, na extremidade de algum corredor ou fora de vista. Era melhor assim. Enterrara-se nos preparativos e negociações, não apenas do Dia da Trégua, como todos presumiam. Embora tivesse prevenido o rei de que os ingleses teriam pouco estímulo para honrar do Dia da Trégua, o primeiro deles estava especificado no acordo. O lorde Acre, o guardião da fronteira inglesa, provavelmente concordaria. No entanto algo mais a discutir com o homem. Algo que não queria que o rei ou qualquer outra pessoa soubesse. O tratado dera a Angus o direito de deixar a Escócia e viver na Inglaterra, sossegado. Mas nada poderia garantir que vivesse uma vida longa e saudável uma vez que cruzasse a fronteira. Willie Storwick certamente não vivera. E, embora o rei inglês tivesse certa predileção por Angus e suas políticas, não via nenhuma razão pela qual o guardião da fronteira inglesa tivesse alguma simpatia por um lorde escocês exilado. Ao menos, esperava que não. Portanto, mensageiros iam e vinham do castelo Carwell para Carlisle, levando acordos escritos e não escritos. Em breve, Thomas cruzaria a fronteira pessoalmente. Lá, iria sentar-se diante do guardião da fronteira inglesa, olhá-lo nos olhos e encarar as perguntas sobre a fuga e a morte de Willie Storwick, o tratado negociado, o tratado assinado, tudo que se passara desde o último outono até agora. Então, cada um deles teria de tomar uma decisão. Poderiam confiar um no outro dessa vez?

Capítulo Dezessete

Quase uma semana depois que retornaram para casa, no final da tarde, Thomas ergueu a cabeça para se deparar com Bessie parada à porta de seus aposentos particulares. Colocou de lado o livro-razão e controlou a respiração, feliz por estar sentado. Era mais fácil ignorar o desejo sufocante que sentia por aquela mulher se não a visse. Ainda assim, mesmo com Bessie longe de seus olhos, podia sentir os novos e apetitosos aromas vindos da cozinha. Ouvira até mesmo o som da voz feminina cantando, infiltrando-se pelos cantos do castelo que deveriam estar em silêncio. Projeto Revisoras

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— O que deseja? — Sugeri que fizéssemos uma celebração — começou ela, com um sorriso suave a lhe curvar os lábios. — Um banquete para dar as boas-vindas ao sr. Thomas Carwell. — Não preciso e nem desejo nenhuma celebração. — Thomas baixou o olhar à mesa para não ver aqueles lábios tentadores. — Talvez não — retrucou ela, recusando-se a ser dispensada. — Mas sua gente, sim. Garantia a segurança de sua gente. E aquilo devia ser o suficiente. Ergueu o olhar, tentando decifrar a expressão de Bessie. Segurança não era o suficiente para ela. Talvez desejasse algo mais. Baixou o olhar ao ventre de Bessie, imaginando se poderia ver algum abaulamento lá. Desejaria Bessie que aquele casamento se concretizasse? Não. Nenhum dos dois queria aquilo. — Não celebrarei nosso noivado diante deles. Isso apenas tomará tudo mais difícil. Depois. Depois. Quando ele encontrasse um jeito de desfazê-lo. Bessie negou com um gesto de cabeça. — Esse não é o motivo da celebração. Disse a Hew que não haveria casamento algum tão cedo. Então não era por isso. Ainda assim, Thomas não se sentiu aliviado. — Sendo assim, não há nenhuma razão para festejar. Bessie se aproximou perigosamente e ele agradeceu pela mesa ampla que os separava. — Thomas, seu sofrimento se tornou o deles. Rastejam pelos corredores com medo de rir, com medo da vida. Você viaja para a corte. Dança, ri e depois volta para cá, onde não ri e nem fala. — Thomas lutou contra o sentimento de culpa. Bessie vira o que ele deveria ter percebido anos atrás. Mesmo sabendo que jamais se casaria outra vez, sua gente vivia no limbo, imaginando quando veriam um herdeiro naquele castelo. Refletindo o que acontecia com ele. — Você estava na corte, portanto não celebraram o Natal — continuou ela. — Então deixe-os celebrar a Candelária e o fim da estação de cavalgadas para proteger as fronteiras. E então Thomas soltou uma risada. — Invasores não seguem nenhum calendário. Bessie deu ombros. — As noites estão ficando mais curtas. — Sim. — Havia menos tempo para um homem invadir sob o escudo da escuridão. — Mas, à medida que o inverno declina, a despensa se torna menos abastecida. O que sobra para se servir em um banquete? Bessie inclinou a cabeça para o lado, como se não o tivesse escutado direito. — Vive sem uma mulher há muito tempo, Thomas Carwell, se não sabe que podemos fazer muito com pouco. Sim, era verdade. E agora estava começando a entender que tipo de esposa uma mulher de verdade seria. — Se eu concordar, terá de me prometer não dizer nada sobre nosso noivado para o resto dos Carwell. Teriam suas palavras causado o sofrimento que via refletido sob aquele olhar? — O que quer que eu diga? — perguntou Bessie, na voz calma que ele conhecia. — Nada que terá de negar depois. Bessie assentiu. O silêncio como resposta. Thomas queria argumentar contra tal ideia. Reunir a família, preparar um banquete e festividades poderia apenas complicar o precário equilíbrio atual, uma situação tão Projeto Revisoras

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delicada que poderia colapsar a qualquer instante. Por outro lado, aquilo lhe ofereceria uma oportunidade para pôr fim a uma incerteza. — Vá em frente. Pode fazer o banquete. — O planejamento e a preparação iriam mantê-la ocupada e longe de suas vistas. — Hew sabe como contatar as pessoas que devem vir. O primo estaria entre elas. Estava na hora de nomeá-lo seu herdeiro e pôr um fim na expectativa de sua gente ou de qualquer um de que ele voltaria a se casar. Bessie assentiu e girou para partir. — Espere. Estacando, ela entreabriu os lábios, com um lampejo de esperança no olhar. Que ele deveria dissipar. Thomas engoliu em seco, lutando contra o próprio desejo. — Não haverá dança. Dançar com ela fora o que o levara àquela situação estapafúrdia.

MAIS tarde, naquela mesma semana, o tempo melhorou e Bessie o observou guiar os homens para reconstruir a cabana de pesca que os homens de Storwick haviam incendiado no último outono, quando escaparam da fronteira onde vivia Bessie. Rob e John sempre suspeitaram que tal destruição fora apenas um embuste e que Carwell conspirara para impedir a captura daquele homem. E, apesar de todas as promessas que fizera, Bessie nada descobriu para provar a culpa de Carwell. Qualquer lugar, menos aqui, dissera ele. Bem, agora que Carwell se encontrava além do fosso, ela teria tempo para procurar. Estacou à porta do escritório de Thomas, decifrando o homem pela aparência de seu aposento. Julgara a mesa mais desorganizada que a do irmão, mas, agora que poderia explorá-la, percebeu que cada coisa tinha seu lugar. Tão impecável quanto sua cozinha na torre. Talvez essa fosse a única razão pela qual Thomas não queria que entrassem ali. Bessie também não gostaria que ele lhe tirasse as panelas de lugar. E aquilo não significava que tinha algo a esconder. Deu um passo para dentro do aposento, imaginando o que fazer em seguida. Sabia ler e escrever muito pouco. Mesmo que tivesse todo o dia para analisar cada documento naquele escritório, pouco lhe adiantaria. O que esperava encontrar ali? E por que prometera aos irmãos que provaria a culpa daquele homem? Para que eles a deixassem ir com ele, a memória lhe sussurrou. Agora, após todas aquelas semanas e todas as oportunidades, não possuía prova alguma. Nada a mostrar. Era familiarizada com a linguagem simples, e não a de subterfúgios. Não era melhor espiã que dançarina. Aquilo havia sido provado muitas vezes. A não ser que Carwell confessasse ou tivesse conspirado com alguém que confessasse, nunca saberia a verdade sobre ele. Bessie olhou ao redor, desesperada por se agarrar a alguma coisa. Cada pilha se parecia com a outra. Apenas uma coisa destoava. Sobre uma mesa abaixo da janela, em um lugar de honra, Carwell colocara um grande pergaminho de proclamação. O selo preto de cera do rei James pendia da extremidade inferior. Ela se aproximou e, após alguns instantes, entendeu o significado daquilo. Nomeava lorde Thomas Carwell o guardião da fronteira. Um guardião de fronteira antes de ser um Carwell Um guardião de fronteira acima de um casamento ou mesmo de um herdeiro. Talvez aquela fosse a única verdade que necessitasse saber. Projeto Revisoras

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Virou as costas para aquilo tudo e fechou a porta quando saiu. Havia mais um lugar para ir. O outro quarto do castelo, que ela não vira.

O VENTO soprou do oeste, apressando a maré que estava por vir. Thomas estacou para ouvir e avaliar a velocidade. Os restos queimados da cabana de pesca estavam localizados na margem da praia. Eles a estavam construindo mais afastada da costa, ainda assim, logo a água inundaria o pântano, como o fazia duas vezes por dia. Fosso, mar, pântano. O castelo estava bem protegido. Uma choupana de madeira não podia ser considerada uma perda. Mais uma razão que levantara a suspeita dos Brunson. Será que todos os seus pensamentos o levavam a Bessie Brunson? Gesticulou para que os trabalhadores pousassem os martelos e se dirigiu ao mordomo, enquanto guardavam as coisas. — Como vão os planos para o banquete? Thomas não perguntara nada sobre a festividade até aquele momento. Hew sorriu. — Creio — respondeu ele — que ficará satisfeito. Sem dúvida. Ao menos, com os preparativos. Comparecera ao banquete que Bessie planejara, há menos de três meses, para celebrar o casamento do irmão. Comida, vinho e música brindaram os convidados. Até mesmo seus homens, inesperados e indesejados, haviam sido tratados como se fossem daquele clã. E, agora Thomas recordava, ela havia feito quase tudo sozinha. — Pode ter certeza — retrucou, enquanto retornavam ao castelo, empoleirado na inclinação da margem de terra que se erguia acima do pântano — de que ela não necessitará de muitos criados. Está acostumada a trabalhar sozinha. Hew ergueu uma das sobrancelhas. — Sua noiva é uma mulher forte e habilidosa. Ao contrário da ex-esposa. Na verdade, descobrira que Bessie Brunson não tinha nada em comum com Annabell. Mas aquela não era razão suficiente para que ele ignorasse todas as complicações daquela situação. Tinha de colocar o mordomo a par do que aconteceria. — Sim, houve um noivado, mas por razões pragmáticas. Não espere que haja um casamento. Hew comprimiu os lábios, mas caminhou em silêncio por alguns instantes. — Espera viver para sempre, sr. Carwell? — perguntou ele, por fim. Uma pergunta estranha. — Claro que não. — Então precisará de um herdeiro. Thomas franziu a testa. — Está com uma língua muito afiada hoje. As palavras lhe fizeram o íntimo se contorcer de desejo. Não por um herdeiro, mas pela mulher que talvez o estivesse carregando no ventre. Nos dias desde que chegaram, mantivera-se o mais longe possível de Bessie, esperando que aquele sentimento se dissipasse com a distância. Em vez disso, havia se intensificado, moldado pelo desejo de ter mais do que apenas seu corpo. Sentia falta do calmo equilíbrio que ela possuía. Tinha saudades dos sorrisos sedutores e de puxar os cobertores para lhe cobrir os ombros à noite... Dirigiu o olhar de volta a Hew. Criticado, o mordomo nada mais acrescentou, mas a expressão de seus olhos dizia tudo. Estava mais do que na hora de colocar um fim àquilo. Havia enviado uma Projeto Revisoras

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mensagem particular com o convite que fizera ao primo. Sim, iriam celebrar o novo herdeiro Carwell no banquete.

BESSIE ENTROU no quarto vazio e prendeu a respiração. Era impossível, mas ainda assim a presença de Thomas parecia gravada nas paredes e impregnada no ar. Não está aqui para lamentar um amor perdido, Bessie, minha jovem. Está aqui para provar que esse homem é culpado de traição. Certamente, munida daquela prova, seu desejo por Thomas desapareceria. Havia menos o que examinar naquele quarto do que na mesa de trabalho, no escritório. Mas aquele não era como o frio quarto de dormir dos Brunson. Sim, era simples, mas uma tapeçaria aquecia a parede. Ao contrário daquela que vira no Grande Salão, essa não retratava a cena de uma batalha. Em vez disso, ao fundo de incontáveis folhas verdes salpicadas com flores um lorde e sua lady de mãos dadas pareciam executar os passos de uma dança. Bessie fechou os olhos com força contra a imagem e as lembranças. Por que pensara em entrar naquele quarto? Não por achar que encontraria alguma coisa. Não. A verdade era que ansiava por ter uma visão dele e, mesmo dividindo aquele teto, aquilo seria o mais próximo que poderia chegar de Thomas. Girando de costas para a tapeçaria, Bessie voltou a abrir os olhos. Agora a cama a tentava, assomando diante dela, envolta em um cortinado verde-escuro, grosso o suficiente para defendê-lo contra qualquer corrente de vento noturna. Bessie caminhou naquela direção e correu os dedos pelo cortinado tecido em algodão como aqueles em Stirling. Foi quando viu algo escondido pelo cortinado na cabeceira da cama. Em cima do travesseiro se encontrava o cardo bordado que ela lhe dera. Esticou a mão para o pedaço de tecido, com os dedos trêmulos. Lá estava o segredo que esperara encontrar. Não a prova da culpa, mas de que Thomas gostava dela, apesar de seus esforços em negar. Isso não é prova nenhuma. Aquele era um pedaço de tecido valioso. Thomas podia vendê-lo se quisesse. Então por que o mantinha ali?, argumentou o coração de Bessie. Atravessara o castelo, da torre ao porão, fizera perguntas a Hew e a outros criados e, ainda assim, não descobrira nada que qualificaria Thomas Carwell como qualquer outra coisa que não um dedicado guardião de fronteira. Um homem que, se não a amava, ao menos lhe dedicava alguma afeição. Aquilo significaria...? Da escada da torre soou a voz e os passos de Thomas, que subiam para encontrála. Não podia ser surpreendida ao lado da cama dele, suspirando sobre o travesseiro. Bessie correu na direção da porta, entretanto era tarde demais para desaparecer. Todavia, se a encontrasse do lado de fora da porta, não precisaria sabe se ela havia cruzado a soleira ou imaginar o que teria visto. Thomas franziu a testa ao alcançar o topo da escada. — O que está procurando aqui? — As palavras soaram ásperas. Ao lado dele, Hew alternava o olhar entre ambos, em silêncio. — Não me proibiu de vir até este quarto — respondeu ela, para evitar ter de responder. Ainda assim, não conseguiu suprimir um sorriso. Se ele a amava, não lhe retribuiria o sorriso? — Não proibi — disse ele, sem nenhum sorriso a lhe curvar os lábios. Estaria Thomas lutando contra o desejo de abraçá-la? Ou vendo apenas o reflexo da própria vontade? Ele não esperou que ela dissesse mais nada. — Mas não há razão para você estar aqui. Projeto Revisoras

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— Roupa de cama — retrucou ela, rapidamente. — Para nossos convidados. Pensei que tivesse mais algumas em seu quarto. — Não tenho. — Nem mais uma palavra ou um olhar, além disso. Bessie assentiu, ocultando o desapontamento no silêncio. Em seguida, se encaminhou à escada. — Procurarei em outro lugar, então. Mas, quando passou por ele, os dedos de Thomas lhe roçaram a manga do vestido. — Da próxima vez, pergunte a Hew ou a um dos criados para procurar o que você quiser. — Hew estava com você e não queria atrapalhar o trabalho dos outros. — Atender a um desejo seu não é nenhum incômodo, minha senhora — disse Hew, com um aceno de cabeça para cada um, enquanto cruzava a soleira da porta que Thomas acabara de proibi-la de transpor. — Bessie — a voz de Thomas se suavizou no instante em que Hew desapareceu de vista ― Não precisa fazer tudo sozinha. Você faz. Mas ela nada falou e um sorriso triste lhe curvou involuntariamente os lábios. O solitário Thomas, assim o chamavam. Agora sabia por quê. Ele não tinha esposa, família e nenhum plano de construir uma, pelo que podia ver. Ao menos não uma que incluísse Bessie Brunson. Os dedos longos ainda lhe circundavam o braço. Ele baixou o olhar ao seu ventre. Tentando reconhecer algum lampejo de esperança na expressão do belo rosto másculo, Bessie levou a mão ao local onde teria uma criança e fez um movimento negativo com a cabeça. — Ainda não. Thomas assentiu e a soltou, um sinal de que estava sendo dispensada. Bessie virou de costas e partiu. Talvez, outra vez, precisasse de algo mais intenso que um sorriso.

A NOTÍCIA de que o rei James havia restabelecido o cerco contra Angus não chegou a Thomas através de um mensageiro real, mas sim por meio de uma mensagem do guardião da fronteira inglesa. O rei lhe enviara um recado muito diferente. Nele, convocava todos os súditos escoceses a honrar o novo tratado com os ingleses “sob pena de morte”. Porém, na outra mensagem, por escrito, assinada por William, o lorde Acre, veio a notícia de que o castelo de Angus fora mais uma vez sitiado, com o novo comandante do rei atirando balas de canhão contra as paredes. Thomas alternou o olhar entre as mensagens, enquanto o sol baixava e a luz se tornava frouxa. Refletiu sobre as implicações, tentando avaliar o significado de cada uma. Seu primeiro impulso foi reunir seus homens e partir para lutar contra seu arquiinimigo, embora, na opinião de Thomas, atirar balas de canhão contra as paredes espessas de um castelo rodeado dos três lados pelo mar fosse um desperdício de artilharia. Mas soava exatamente como uma atitude do jovem rei: fazer um último e desvairado esforço para conseguir a vingança que se tornaria impossível quando Angus escapasse pela fronteira para se abrigar na Inglaterra. No entanto, o rei não o convocou. Pior, nem mesmo o notificou do ataque. O que aquilo refletia de seu relacionamento com o rei? Que as areias estariam se movendo. Tornou a fixar o olhar na mensagem do lorde Acre. Embora a notícia de que o ataque de um rei escocês a um lorde escocês viesse de um guardião da fronteira inglesa, os detalhes pareciam reais o suficiente para fazê-lo acreditar. Projeto Revisoras

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O que não sabia era por que Acre lhe enviara aquela mensagem. Queria acreditar que aquilo significava que sua contraparte inglesa estaria disposta a capturar Angus se ele escapasse para a Inglaterra. No entanto, o que supunha era que a mensagem era uma ameaça velada, cujo significado era que, se a Escócia violasse os princípios do tratado, a Inglaterra poderia violar o seu conteúdo. E que sua viagem através da fronteira para encontrar o guardião da fronteira em Carlisle talvez fosse mais arriscada do que imaginara. Bem, aquilo não o surpreendia. Sabia os perigos da vida que levava e geralmente era capaz de evitar os piores. O que o surpreendeu foi o pensamento que veio a seguir. Não era medo da morte, nem a resolução de nomear o primo como herdeiro para que a sucessão dos Carwell fosse garantida. Era algo muito mais simples e primitivo. Se eu morrer, quem cuidará de Bessie?

Capítulo Dezoito

Bessie trabalhou de modo incansável durante toda a semana, e o resultado, embora nada que rivalizasse com Stirling, foi um salão repleto de sorrisos. Os convites em cima da hora e o tempo frio justificavam o grupo pequeno e predominantemente masculino. No verão, uma maior parte do clã Carwell compareceria. Se ela ainda estivesse ali, quando chegasse a estação da luz. Tanto os homens quanto as mulheres a estudavam com olhares curiosos, mas o clã Carwell não era inclinado a fazer perguntas diretas. Bessie se sentiu agradecida pela circunspeção que possuíam, embora devesse ser evidente que os criados estavam recebendo ordens dela, algo que não combinava com a história conveniente que engendraram sobre a visita de Bessie. Estávamos em Stirling para os festejos de Natal com a corte. Carwell se ofereceu para me acompanhar até em casa. Sim, em breve. Os deveres dele como guardião da fronteira tinham prioridade. — Ah, então se conheceram na corte. — A tia de Thomas, Canny Carwell, de repente sorriu, com interesse. Viúva, estava ali em companhia do filho que acabara de completar 16 anos. — E é verdade que o rei James agora governa com plenos poderes? Bessie assentiu, decidindo que não havia razão para explicar exatamente quando e onde conhecera Thomas. — Sim, é verdade. — Tenho certeza de que ele e meu George logo se tornarão amigos — disse a mulher, a voz baixando para um sussurro. — George é o herdeiro de Carwell. Ou será, em breve. Seja gentil, moça Bessie, lembrou a si mesma. — Oh? Quer dizer que ele é seu herdeiro, até que Thomas se case e gere o próprio herdeiro? — Uma espécie de instinto a fez tocar o ventre, embora estivesse perdendo a esperança de que ali estivesse se formando algum bebê. Um sorriso condescendente curvou de leve os lábios da tia de Thomas. — É estranha aqui, portanto não sabe — respondeu ela. — Meu sobrinho nunca mais se casará, a despeito de seu dever, embora não possa culpá-lo. Todos pensamos Projeto Revisoras

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que Annabell, bem... A mulher fez um gesto negativo de cabeça, deixando as palavras morrerem. A misteriosa Annabell. Um dia, Bessie pensara que a primeira esposa de Thomas era um amado paradigma, alguém com quem ela nunca poderia competir e que ele nunca substituiria. Mas, desde que viera para o castelo Carwell, ouvira sussurros e percebera evidências que colocaram sua rival invisível sob um novo prisma. Talvez aquela mulher lhe dissesse por quê. — O que pensavam dela, exatamente? O choque e a desconfiança foram as primeiras emoções a se refletirem no rosto da tia de Thomas. A mulher engoliu em seco e olhou por sobre o ombro para se certificar de que não estavam sendo ouvidas. Em seguida, se inclinou mais para perto e sussurrou: — Ela não pertencia a este mundo. E, com isso, virou as costas e se afastou.

ENQUANTO A noite seguia, Thomas observou o rapaz, George, e descobriu sua convicção fraquejar. O primo não tinha mais do que a idade do rei James, se sua memória não o traísse, e era mais de dez anos mais novo que ele. Tinha idade suficiente para ser considerado um homem, embora jovem o bastante para agir como um garoto. Uma combinação perigosa. — Quando contará para eles? — O menino olhou em volta do salão, sorrindo, como se esperasse o momento em que seria o centro das atenções. Thomas baixou o olhar ao rapaz que ainda não atingira a estatura completa. E, ao que parecia, a educação. — Ainda não decidi. — Disse ao rei que agora sou seu herdeiro? — O rei James e eu temos assuntos mais importantes a tratar. — Quando vou conhecê-lo? Thomas franziu a testa. — Pensei que iria perguntar primeiro o que eu e o rei discutimos. — Não que ele fosse contar. Ainda assim, George não perguntou. — Quero ir para a corte; Minha mãe prometeu que eu iria para a corte. Thomas suprimiu a frustração. — Antes de se preocupar com a corte, deveria se esforçar para aprender os deveres de um lorde Carwell e do guardião da fronteira. George deu de ombros. — Só depois de sua morte, e você me parece bem saudável. Thomas colocou uma das mãos sobre o ombro do rapaz em um gesto austero. — Antes de se encontrar com o rei, deveria ser esperto o suficiente para aprender a expressar alguma humildade e gratidão. Ou talvez eu mude de ideia. — Não pode fazer isso. Sou o próximo na linha de sucessão. Thomas o soltou, desejando atirá-lo de volta à companhia da mãe. Não enviaria George à corte. O rei James comeria o primo vivo. Se Thomas não o matasse primeiro.

ASSIM COMO exigira Thomas, não foram planejadas danças, embora houvesse música: as novas baladas dos Carwell e, quando Bessie conseguia seguir a melodia, erguia a voz para cantar sozinha. Thomas também cantava, embora se deixasse misturar aos outros. Uma voz passável, pensou ela. Não que conseguisse rivalizar com a de Rob Negro. Projeto Revisoras

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Sim, Bessie podia não ser uma dançarina, mas nascera com o dom da voz. Quando a canção chegou ao fim, Thomas olhou para ela, admirado. — Tem a voz de um anjo. Estranho pensar que ele nunca a ouvira cantar. Bessie sorriu. — Os Brunson cantam. Eles não dançam. As palavras do pai, que ela lhe dissera naquela primeira noite. — Poderia cantar para nós? — Era Canny Carwell quem perguntava. Bessie dirigiu o olhar a Thomas para receber permissão. Em seguida, correu os olhos pelos convidados, relaxada após a noite que ela havia criado e, por um instante, se sentiu em casa. — Cantarei para vocês a Balada dos Brunson. E então começou. Esta é a história, há muito contada De um viking de olhos castanhos, um homem de uma era remota Largado no campo pelo resto do seu clã Abandonado para morrer foi o primeiro homem Brunson Abandonado para morrer foi o primeiro homem Brunson Eram os versos emitidos através dos séculos desde o Primeiro Brunson até seu pai. Logo, o restante dos convidados se juntou a Bessie, quando recitou o familiar refrão. Silencioso como o nascer da lua, firme como as estrelas, Forte como o vento que varre o Carters Bar. As notas estavam no sangue de Bessie, as palavras, tatuadas em seus ossos. Toda a estranheza que sentira em Stirling finalmente se dissipou. Era uma Brunson. E, se escolhesse se dar como esposa a Thomas Carwell, ele seria um homem de sorte. Naquela noite, lembraria isso ao noivo.

THOMAS NÃO se juntou ao coro dessa vez. Limitou-se a escutar. Reverente. Era estranho pensar que levara aquela mulher para a cama e não soubesse que sua voz era capaz de lhe cariciar a pele como o veludo. Ouvira palavras rudes escaparem daqueles lábios carnudos e os silêncios de que eram capazes, mas nunca escutara notas elevadas de uma canção lhe emergirem da garganta e encherem o ar. Até aquele momento, a voz de Bessie havia carregado notas firmes e fortes. Mas se mostrou trêmula ao entoar o próximo verso. Era o último, percebeu ele. Aquele que se referia ao seu pai. Um saqueador de fronteira nato Nunca existiu homem mais leal Leal até a morte e mais além Leal até a morte e mais além Os acordes finais feneceram em um silêncio enlevado, a admiração mais intensa que os aplausos. Bessie sorriu para ele. — De fato, os Brunson cantam — disse Thomas. — Sim. — concordou ela. — E alguns de nós também dançam. Projeto Revisoras

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De algum lugar no grupo, alguém fez soar um violino. Outro logo de juntou e todos começaram a formar um círculo, prontos para dançar. Não haveria dança, prometera Thomas. Mas não podia impedir seus convidados de se divertirem. Bessie se posicionou na frente dele e estendeu a mão. — Venha. Thomas hesitou, temendo não conseguir tocá-la sem tomá-la nos braços e levá-la para sua cama outra vez. Ainda assim, era uma dança em círculo, composta por todos os convidados. Enquanto estivessem sob os olhares alheios, no salão, estaria seguro. Ele aceitou a mão estendida e a guiou para o círculo.

BESSIE JAMAIS gostara tanto de uma dança. Após cantar a balada dos Brunson, sentira a suspeita do clã Carwell enfraquecer. Agora, seguindo o ritmo ditado pelo duelo de violinos, todos circundavam o salão, trocando de parceiros, sorrindo, rindo e até mesmo errando os passos sem que ninguém se mostrasse crítico. A dança a separou de Thomas, mas os olhos castanho-esverdeados pareciam segui-la, bem como seu sorriso. É assim que deveria ser, Bessie desejou dizer. Poderíamos ter uma casa cheia de música e risadas. Teria Thomas ouvido seus pensamentos do outro lado do salão? Será que os compartilharia?

Ao FINAL da dança, Thomas se encontrava na fileira em frente, diante de Bessie. Parecia-lhe muito distante. Sorrindo, ela afastou o cabelo para trás, revolto pela dança. Um rubor lhe coloria as bochechas do rosto e ela se encontrava ofegante. Um primo distante de Carwell se inclinou para lhe dizer algo e Thomas deu dois passos na direção dos dois. Não havia razão para o homem estar tão próximo... Porém, a tia Canny se interpôs em seu caminho. — Está na hora de fazer o anúncio, não acha? — A mulher não esperou que ele respondesse, chamando a atenção de todos no salão, gesticulando para que se aproximassem. — Carwell tem novidades para nós. Venham, escutem. Por sobre o ombro da tia, Thomas percebeu o sorriso estampado no rosto de Bessie se transformar em perplexidade. E, depois, em preocupação.

BESSIE o observou do lado oposto do salão e prendeu a respiração. Não havia alegria no rosto de Thomas. Teria alguém descoberto sobre o noivado? Seria forçado a revelá-lo? Nada que terá de negar. E ela não dissera nada. Bessie olhou ao redor do salão. Talvez um comentário descuidado de algum criado. Um diálogo ouvido por terceiros. Qualquer coisa era possível. Mas, se alguma palavra houvesse escapado, não importaria agora. Não faria diferença alguma o fato de não ter sido ela. A raiva de Thomas seria a mesma. Ou, talvez, fosse outra coisa. Algo... pior. Canny Carwell se afastou para o lado, com expressão iluminada. O herdeiro... ou que será em breve. Porém, a postura da mandíbula, a compressão dos lábios, o brilho mortal nos olhos de Thomas... nada disso refletia boas notícias. Projeto Revisoras

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— Tenho prazer em recebê-los todos aqui — começou ele. — E agradeço a viagem que fizeram no frio do inverno. Sei que as coisas têm sido... — Bessie o observou procurar a palavra certa. — Nos últimos anos, desde a morte de meu pai... — Murmúrios de “Deus lhe guarde a alma” flutuaram pelo salão. Dedos fizeram o sinal da cruz. E os convidados trocaram olhares confusos. Thomas limpou a garganta. — O rei James subiu ao trono e tirou o conde de Angus do poder. O cargo de guardião da fronteira nos foi restituído. Um tratado foi assinado com a Inglaterra, prolongando a paz. Uma nova era chegou. Isso é motivo de celebração. — Ele ergueu a caneca de cerveja. — Ao rei James V. Que possa reinar por muito tempo! Enquanto todos erguiam suas bebidas em resposta, alguém gritou ao fundo: — E a Thomas Carwell. Vida longa a ele! Um sorriso curvou de leve os lábios de Thomas. Pestanejando, ele assentiu em um agradecimento silencioso. E, enquanto todos sorviam goles de suas cervejas, Bessie observou Canny Carwell, que parecia ter acabado de se deparar com um rato morto no fundo da caneca.

Ao FINAL da noite, Bessie deixou que Hew acompanhasse os convidados aos devidos quartos e seguiu Thomas pelo corredor. — O que disse — começou ela. — Sei que sua gente aprovou. — Acha? Bessie tentou lhe decifrar a expressão, mas a luz bruxuleante das velas não tinha firmeza. Assim como ela. — O que quer dizer com isso? — Pensou que eu deveria rir e dançar. Acha que isso foi suficiente para eles? Thomas perguntava sua opinião. Como se ela tivesse o direito de dá-la. Como se fosse sua esposa, embora não tivesse anunciado o noivado. Bessie pressionou a lateral do corpo ao dele, entrelaçou os braços de ambos e recostou a cabeça ao ombro largo. — Sim — respondeu. — Acho. Suficiente por ora. Poderíamos ser tão felizes, teve vontade de dizer. E então os dois se encontravam à porta do quarto. Bessie lhe envolveu o pescoço com os braços, guiando-o suavemente para dentro do aposento. Agora. Certamente agora. — Sou sua esposa, Thomas. Quer a vida siga um curso bom ou ruim daqui para a frente. Não importa o que meus irmãos escolham fazer, estamos noivos aos olhos de Deus e nossa união se consumou. — Ela sorriu. — Mais do que uma vez. Está na hora de eu assumir meu lugar ao seu lado. — Gesticulou com a cabeça na direção oposta do corredor. — E em sua cama. Bessie o sentiu ceder, oscilar na direção dela. Ergueu os lábios para encontrar os dele. E, em seguida, com os braços entrelaçados e os corpos pressionados um ao outro, pôde sentir a excitação deThomas... E então os lábios se afastaram. Ele a soltou e se afastou até ficar fora do alcance de Bessie. — Estamos cansados e nossos pensamentos não estão muito claros. Trabalhamos duro nos últimos dias. Durma bem. — Thomas deu um passo na direção de seus aposentos e olhou para trás. — Terei partido quando você acordar. Você é uma Brunson. Lembre-se disso. Mas a onda de humilhação lhe afogou o orgulho. O cardo que mandara bordar e que agora adornava o travesseiro de Thomas nada significava. Ele não a desejava. Não mais do que aquele primeiro desejara. Nada Projeto Revisoras

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poderia estar mais claro. — Para onde vai? — Ao encontro do guardião da fronteira inglesa, planejar o Dia da Trégua. Como o tratado requer. — Cada palavra parecia ter ásperas arestas. — E quanto voltará? — Quando eu voltar... saberá. Thomas abriu a porta para que ela entrasse no quarto. Bessie manteve a cabeça erguida até que a porta se fechasse. E então caiu em prantos.

THOMAS partiu antes do amanhecer porque não queria arriscar tornar a vê-la. Na noite anterior a vira forte, direta e obstinada e quisera responder “sim”. Tomá-la nos braços, possuí-la, proclamá-la sua esposa e mantê-la ao seu lado. Anunciar na presença de todos que se encontravam no banquete que estavam noivos e que Bessie compartilharia sua vida agora. Mas sabia que não podia fazê-lo. E se arrependeu de tudo outra vez. Maquinações, planos, as tentativas de salvá-la e protegê-la. A loucura dos dias da Festa de Tolos, que passara nos braços daquela mulher. Cada passo, concluía agora com uma percepção tardia, fora mal calculado. Um passo de cada vez e havia penetrado, inadvertidamente, nas areias movediças da afeição. E todas as razões que conjurara, tanto para ele quanto para Bessie, foram apenas desculpas. Porque, se algum dia descobrisse a verdade, seria ela a deixá-lo.

Capítulo Dezenove

No dia em que Thomas partiu, Bessie caminhou pelas areias da praia pela primeira vez. Acordou com os olhos inchados para ouvir o tropel dos cavalos atravessando a ponte móvel e deixando o castelo. Primeiro o dele. Em seguida os dos demais convidados. Depois disso, restou apenas o silêncio atordoante e vazio preenchido pelo ruído das ondas. Thomas não se encontrava mais ali para mantê-la afastada de seu escritório ou da praia. Bem, como ele mesmo deixara claro, não tinha intenção de ser seu marido, portanto não tinha a menor obrigação de lhe obedecer as ordens. O vento havia acalmado, mas Bessie calçou botas e se envolveu em uma capa e um xale, antes de descer a escada, atravessar o salão vazio e, em seguida, o pátio. O mordomo e os criados não haviam se acostumado à sua presença no castelo, portanto seguiu em frente, atravessou a ponte ainda baixada para permitir a travessia dos homens. Por fim, se encontrava lá fora. Livre. O portão dava para a parte interior do território, portanto Bessie contornou o fosso para se dirigir à margem. Para chegar ao mar, alguém havia construído um dique elevado, mas as tempestades do inverno o desgastaram. Deveríamos reconstruí-lo quanto chegasse a primavera, pensou ela. Como se nessa Projeto Revisoras

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época ainda estivesse ali. Como se houvesse um “nós”. Seriam os cardos capazes de florescer à margem? Quando a alcançou, uma revoada de pássaros se ergueu, grasnando, assustada. Gansos, cisnes, não sabia ao certo o que via, mas, enquanto subiam na direção do céu, o coração de Bessie pareceu se elevar com os pássaros. E, ao final do caminho, a maré estava baixa e a areia se estendia plana e ampla como o assoalho do Grande Salão de Stirling sob seus passos. Quanto mais se aproximava da água, mais macia se tornava a areia. Cada passo era esponjoso sob seus pés e, se virasse de costas, podia ver as pegadas que imprimira na areia, mais fundas que as dos gansos. Inspirou profundamente, enchendo os pulmões com o aroma do mar, algo para lhe clarear a mente da asfixia dos últimos dois meses. De intrigas reais, danças estranhas e sexo em um quarto pequeno com um homem que, ao que parecia, não se apaixonara por ela depois disso tudo. Quem era ela agora? Não Elizabeth. Não a mulher que podia dançar ao lado do rei e contornar cuidadosamente qualquer perigo. Não a mulher digna de ser a esposa de Thomas Carwell. Ainda assim, aprendera a dançar. Tampouco era Bessie Brunson. Não a mulher que não tivera nenhum outro anseio na vida, além das paredes da torre em que nascera e do trabalho que executava lá. Aquela mulher jamais caminharia por uma praia fria, castigada pelo vento, sentindose em casa. Nunca teria esquecido que os Brunson jamais confiaram em Thomas Carwell. E jamais confiariam. Bessie girou para observar o castelo que assomava adiante, lançando uma sombra cinza no fosso e na margem. Quem, afinal, era ela? E ainda assim, passada meia hora, Bessie não encontrara respostas na areia. Girou na direção de casa e se aproximava do caminho que levava ao castelo, quando, de repente, Hew e meia dúzia de homens surgiram diante dela. — Minha senhora, o que está fazendo? — o mordomo e os outros a guiaram para a margem da areia, de volta ao dique enlameado. Os ombros largos proviam um escudo bem-vindo contra o vento. — Estou caminhando — respondeu ela. E lá se foi o pensamento de que os criados não lhe notavam a presença. — Nunca mais venha para cá. Bessie lhe dirigiu um olhar digno da senhora do castelo. — Não tem o direito de me proibir. — Se não o fizer, o senhor me decepará a cabeça. — Por quê? — Bessie olhou em volta. Inspirou o vento, sentiu o balanço das ondas e, de repente, percebeu que se lhe proibissem frequentar aquele lugar perderia o único divertimento que lhe restara. — Não há perigo aqui. — Sim, há, minha senhora. Foi aqui que lady Annabell Carwell morreu. Nas areias movediças.

AS PRIMEIRAS palavras proferidas pelo guardião da fronteira inglesa foram as últimas que Thomas queria ouvir. — Os Brunson invadiram as terras Storwick na semana passada. Construções foram queimadas e o gado, roubado. É a você que responsabilizarei, dissera o rei. Ainda assim, postergara a volta ao vale Brunson, desejando resolver a teia do noivado com Bessie primeiro. Agora seria um Projeto Revisoras

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homem marcado pelos dois lados. Aqueles eram assuntos que não deveria dividir com o lorde Acre. Teria sorte se o homem não descobrisse que estava noivo de Bessie Brunson. Caso soubesse, o guardião da fronteira inglesa perderia toda a confiança nele. Claro que aquele sentimento era mútuo. — Nosso primeiro Dia da Trégua desde o tratado será muito agitado. — Não vejo necessidade de esperarmos. O tratado me dá o direito de invadir em busca dos Brunson. — Um tratado que não foi o que acordamos. E o que está sugerindo seria um começo desfavorável a um acordo de paz. O rei esperaria que ele impedisse o inglês de invadir através da fronteira. Invasões fronteiriças, gado e ovelhas roubadas eram uma coisa. O guardião da fronteira inglesa, acompanhado de uma centena de homens em direção a Liddesdale, era outra. — O tratado também ordena que marquemos o Dia da Trégua para o fim do mês. Se invadisse primeiro, estaria violando um acordo soberano entre as nações. Um acordo que o rei prevenira Thomas de manter “sob pena de morte”. O homem exibiu uma carranca, a disputa terminando sem um vencedor. Thomas deixou que o silêncio se prolongasse, antes de abordar o novo tópico. — Você me escreveu dizendo que o castelo de Angus está novamente sitiado. Acre assentiu. Thomas se inclinou para trás, cruzando os braços. — E por que se importa com isso? — Não me importo, mas o meu rei, sim. E você também. — Eu? — Thomas sentiu um arrepio lhe percorrer a espinha. Então o homem estava pronto para barganhar. — E com que se importa? — Com os Brunson. Tinha de ter cuidado com as palavras agora. A mesma cautela com que se desviava das areias movediças. — Então está interessado nos Brunson? — Com ou sem Dia da Trégua, tenho o direito de invadir o território deles. Porém, durante o processo, talvez perca mais homens do que aqueles filhos de Lúcifer valem. — Mais uma razão para estabelecer o Dia da Trégua, como o tratado exige. — Thomas proferiu as palavras como se aquilo não lhe importasse, nem um pouco. Como se a decisão estivesse sendo pesada e medida pela lógica. — A não ser que alguma coisa acontecesse aos Brunson antes disso. — O guardião da fronteira inglesa deu de ombros. — Isso nos pouparia o trabalho de um julgamento e não seria algo surpreendente. Homens perecem todos os dias. Ora, o lorde de um dos mais proeminentes clãs da fronteira morreu em uma invasão no outono passado. — No outono passado, quando o líder de um complô para sequestrar o rei morrera convenientemente em uma simples invasão. Da qual Carwell participara. — Portanto — Acre concluiu ―, se isso acontecer, se os Brunson tiverem de se deparar com um final extemporâneo, bem, Angus talvez desapareça assim que cruzar a fronteira. E lá estava. A vingança que tanto almejara durante os últimos dois anos: Angus morto para vingar a morte do pai. Morto como merecia estar. O preço? Os irmãos de Bessie. — Por que está tão silencioso, Carwell? Ambos teremos o que desejamos. Ninguém precisa ser o mais esperto. E de repente não havia mais nenhum questionamento, nenhuma cautela, nenhuma avaliação. Nenhum passo cuidadoso. Nenhum desejo de deixar uma brecha para que pudesse mudar sua posição mais tarde. Nada disso. Não importava o que acontecesse agora, o rei o consideraria um Brunson. Thomas descruzou os braços e se ergueu. Projeto Revisoras

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— Não. — Não? — A surpresa se misturou à raiva no rosto de Acre. — Não. Esperaremos pelo Dia da Trégua. — Isso apenas retardará a justiça. Os Brunson não comparecerão e eu serei obrigado a invadir a Escócia para capturá-los. — Não comparecerão? Está se referindo ao modo como você não compareceu e permitiu que Willie Storwick escapasse da forca que merecia? Os olhos do guardião da fronteira inglesa se estreitaram. — Foi isso que combinamos. — Sim. E Thomas se arrependia daquilo até hoje. — Como combinamos — prosseguiu ele. — E, ainda assim, Willie Storwick está morto. — Está? — Thomas deu de ombros, mantendo os braços soltos e as palmas das mãos visíveis. — Nunca ninguém o viu morto. Tampouco encontraram seu Corpo. Talvez Deus tenha se cansado de nossa demora e da perversidade de Storwick e simplesmente o tenha enviado ao inferno. Acre resfolegou. — Ambos sabemos que ele está morto e pela mão de um Brunson, que permanece impune. O guardião da fronteira inglesa cruzou os braços, com expressão frustrada. — Agora, podemos marcar uma data para o Dia da Trégua, como o tratado exige, e fingir que os Brunson comparecerão, mas nós dois sabemos que isso não acontecerá. E era verdade. Depois que haviam permitido a fuga de Storwick, sabia que os Brunson nunca mais confiariam nas leis da fronteira. E Thomas estava começando a compartilhar aquele ceticismo. Mas agora precisava protelar. — Quer apareçam ou não — disse ele. — Meu rei espera que eu cumpra o que determina o tratado. — Thomas manteve um sorriso no rosto e o discurso suave. — Agora, podemos voltar a nos sentar e marcar uma data? Acre fez um gesto negativo de cabeça, resmungando, mas obedeceu e os dois negociaram um lugar e um dia, várias semanas adiante. Quando Thomas se levantou para partir, Acre se recusou a lhe apertar a mão. — Se os Brunson não comparecerem, vou partir direto de lá para invadir Liddesdale. Thomas sabia que aquelas palavras eram uma promessa. E apreciou o aviso. Não. Thomas Carwell não poderia garantir a presença dos Brunson no Dia da Trégua. Na verdade, os aconselharia a não comparecer.

ENQUANTO Thomas estava fora, Bessie encontrou consolo na praia. Embora estivessem no inverno e os ventos cortantes soprassem do oeste, ela enfrentava o frio, encontrando conforto no incessante erguer e baixar das ondas. Todos os dias, observava as marés, indo e vindo, sempre diferentes uma das outras. Aprendeu a cronometrar a caminhada para que pudesse desfrutar da maior expansão de areia para passear. Para aplacar a preocupação de Hew, levava consigo urna bengala, quando caminhava, e lançava mão da audição seletiva quando o mordomo explicava como aquelas areias podiam ser perigosas. Hew não lhe contara mais nada sobre a morte de Annabell. Não lhe dera qualquer outra informação sobre a mulher. Houve um tempo em que pensara que aquele silêncio significava que a ex-esposa de Thomas era culta, bela e dançava como um anjo. Agora, tinha uma visão diferente. Poderia ter sido um anjo do outro mundo, mas o que quer que tivesse ensinado aos criados em relação às tarefas domésticas há muito fora esquecido. Bessie aperfeiçoara a mistura de ervas utilizada no castelo para fazer a cerveja e insistiu que alvejassem cada pedaço de roupa branca mesmo diante das Projeto Revisoras

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ruidosas reclamações sobre coletar a urina necessária ao processo. Ao menos poderia dar aquelas coisas a Thomas. Coisas que lhe tornariam a vida mais confortável quando não estivesse mais ali. Quando voltar; você saberá. E agora sabia. Não haveria um bebê.

DEZ DIAS após a partida de Thomas, desabou uma tempestade. A chuva castigava o solo. Rajadas de vento sopravam as ondas contra a margem, até que Bessie temesse que o mar transbordasse para o fosso. A água deixada nas tinas durante a noite amanheceu congelada. — O tempo será o mesmo onde Thomas está? — perguntou Bessie ao mordomo. Estará ele seguro? Perguntas que uma esposa faria. E que ela não poderia evitar. Hew negou com um gesto de cabeça. — O tempo aqui é independente. Algumas milhas adiante e o sol poderá estar brilhando. E quando, no dia seguinte, o sol retornasse, mal podia esperar para sair outra vez. Mas o dever vinha em primeiro lugar. Os dois inspecionaram o castelo à procura de vazamentos e pedras perdidas. Quando Bessie escapou para fazer seu passeio, a maré havia baixado, deixando a praia lavada. Antes de vir para o castelo Carwell, a água representava pouco mais que algo necessário para a lavagem. As águas Liddle não foram um atrativo para Bessie. Eram os irmãos que mergulhavam no córrego e jogavam água um no outro. Mas ali, ah, ali as águas eram diferentes. Sem nenhuma testemunha, sem que ninguém esperasse o que ela pudesse fazer, Bessie esticou os braços e girou, gritando, sem saber se de dor ou de alegria, junto às gaivotas que voavam em círculos. Acalentara a esperança de estar grávida, mesmo diante das circunstâncias desfavoráveis, porque daquela forma ela e Thomas estariam ligados para sempre. Como começara a amar aquele homem com tanta profundidade e rapidez? Como passara a amar aquele lugar tão diferente de seu vale distante? De onde viera o Primeiro Brunson? Viera do mar. Bessie parou de girar, cambaleando na areia. Do mar. Sempre acreditara que ser uma Brunson significava estar naquele lugar. Naquele vale. Sempre pensara que suas raízes estavam fincadas naquelas montanhas. Porém, ali, diante da visão do mar, era como se algo em seu sangue, dormente durante anos, reconhecesse que aquele lugar era seu lar. Que vir para Thomas e para o mar era chegar em casa. Haviam enviado Johnnie para longe e ele se encontrou quando voltou para casa. Bessie nunca saíra de casa. Nunca desejara fazê-lo. E, ainda assim, agora queria ficar para sempre naquele lugar. Seria Thomas capaz de aceitar aquilo? De aceitá-la? A maré havia mudado, subindo pela praia, onda por onda, e Bessie corria para dançar com elas, praticando os chutes e saltos da dança de Galliard com o oceano como parceiro. Permitindo que as ondas frígidas estourassem a seus pés quando não conseguia se afastar rápido o suficiente. Bessie estremeceu, relembrando o calor de Thomas e sua preocupação com ela. E caminhou de volta ao dique, se distanciando bastante da maré crescente. Em breve, Thomas voltaria para casa. E então, o que aconteceria? Bessie caminhava com passadas largas, desejando poder caminhar mais veloz que suas preocupações. O ritmo das ondas as haviam dissipado por algum tempo, mas ela não Projeto Revisoras

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poderia permanecer ali o dia todo. O sói já não estava mais a pino. Bessie virou as costas para o astro luminoso, retornando ao castelo. O próximo passo foi fundo e, em vez de conseguir prosseguir, o pé direito afundou até o tornozelo. Bessie puxou o pé, esperando se soltar, mas a areia apenas se colou com mais força, puxando-lhe o pé para baixo. Mais uma vez, ela tentou, puxando a perna, mas a areia era mais forte que ela. Foi então que Bessie percebeu que seu outro pé também estava afundando. Era ali que morreria. Nas areias movediças. O medo lhe causou uma pontada de dor no peito. Bessie lutou contra a sensação. Thomas chamara a ex-esposa de delicada. Muito delicada para caminhar pela praia, sem dúvida. E Bessie? Bem, fora muito cabeça-dura para escutar os avisos. Olhou em volta, tomando cuidado para manter a bengala fora da areia, e a sacudiu acima da cabeça. Alguém do castelo poderia vê-la. Mas ela havia feito a curva. À luz frouxa, o castelo não se encontrava mais à vista. E a maré estava subindo.

Thomas queria ter retornado mais cedo, contudo a tempestade se abatera sobre eles e os homens permaneceram abrigados por mais um dia além do que planejara. Agora, estava ansioso por chegar em casa. O castelo fora construído para suportar tempestades muito mais fortes que aquela. Ainda assim, Bessie tivera de enfrentar a tempestade sem ele. Devia ter ficado assustada... Um sorriso lhe curvou os lábios. Não. Não Bessie. Mas devia ter sentido frio sem ele para abraçá-la durante a noite. Ela devia ter trabalhado com todos os criados e ele não estava lá para cuidar dela. Para fazê-la se sentar e descansar. Para mantê-la aquecida. Para permitir que ela dançasse. Mas ainda restava um longo dia de cavalgada de volta. Nas últimas milhas incitou o cavalo a um galope forte. Estava quase lá. Podia ver o sol se pondo atrás do castelo. As nuvens haviam se dissipado o suficiente para servirem apenas para pontuar o ocaso como bolas de algodão. As cores rosa e azul do céu se refletiam nas águas paradas do fosso. Gaivotas ruidosas se aglomeravam em busca de abrigo para passar a noite. Conhecia aquela sensação. Ele também estava voltando para o seu ninho. Para sua esposa. Passou pela ponte sobre o fosso e, por fim, cruzou o pátio. Procurando por ela, mesmo antes de apear. Hew pegou as rédeas no instante em que Thomas desmontou. — Onde está minha noiva? — Era uma sensação maravilhosa se referir a Bessie daquela forma. Seria ainda melhor quando lhe pedisse para assumir o papel de sua esposa. — Não sei, meu senhor. A calma o desertou. — O que quer dizer com “não sei”? — Provavelmente está caminhando pelas areias. Está fazendo isso quase todos os dias. O passado se ergueu, afogando seus róseos sonhos de um futuro. — Como pôde deixá-la fazer isso? O mordomo deu de ombros, menos preocupado do que Thomas esperava. — Eu a preveni, mas como poderia impedi-la? E que tolo fora em lhe dizer “não” e esperar que ela lhe desse ouvidos. Obstinada. Sempre muito obstinada. Projeto Revisoras

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Teve vontade de enforcar Hew, mas aquilo lhe tomaria alguns preciosos segundos. — Chame os homens. Temos de procurá-la. Agora! — dizendo isso, transpôs a ponte correndo na direção do mar.

UM PASSO de cada vez. Um passo de cada vez. Agora os dois pés estavam presos. Não haveria mais passos a dar. Quanto mais lutava e puxava, mas fundo se enterrava na areia. Tentou respirar. Tentou pensar. Tentou gritar, mas as ondas e o grasnar das gaivotas lhe sobrepujavam os berros por socorro. Está afastada da areia sólida e das pedras agora, Bessie. Se pertence ao mar, deve provar isso. Tem de sobreviver a esta situação. Agora percebia por que Thomas insultara aquelas areias. Por que se tornara um homem que pisava cuidadosamente, sensível às mudanças. Ela não fora cuidadosa ou rápida o suficiente, mas ainda tinha muito a aprender, se estavam destinados a viver lado a lado. Ela e o mar. Mais uma vez olhou na direção do castelo. Em breve, Hew sentiria sua falta e viria procurá-la. A praia, porém, era grande, a maré estava se elevando rapidamente e ela se distanciara mais do que de costume, após ter ficado enfurnada dentro do castelo durante quase todo o dia. Inspirou profundamente e forçou o pé a ficar parado. Aquilo retardou seu afundamento. O corpo não mente, dissera Thomas. Mas a mãe de Bessie também tinha dito: não se pode escutar a mente quando o corpo está gritando. Esquecera-se daquilo na noite em que se entregara a Thomas. Agora, precisava aquietar o corpo para permitir que a mente trabalhasse. A areia lhe chegava até os joelhos agora e a maré se aproximava.

AO FIM da margem, onde a areia encontrava a terra, ele estacou, olhando, frenético, para todos os lados, tentando enxergar à luz frouxa do ocaso. — Elizabeth! Bessie! — gritou a todos os pulmões. Mas tudo que ouviu foi o som das ondas. A praia fazia uma curva fechada para a direita, contornando um rochedo. Sabia que do outro lado se expandia outra vez. A esquerda, se estendia e alargava. Uma caminhada mais fácil. Mas, na escuridão, o que normalmente seria uma visão clara desbotava nas bordas. Ainda assim, não havia sinal dela. — Bessie! Você está aí? Seria ela capaz de ouvi-lo acima dos rugidos das ondas? Ou poderia responder? Thomas olhou para trás. Seus homens o seguiriam, mas não chegariam cedo o suficiente. Tinha de fazer uma escolha. Mais uma vez, dirigiu o olhar à direita. E correu naquela direção.

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Capítulo Vinte

Bessie observou a água se arrastar constantemente na direção da margem. Já estava a meio caminho. Em breve, a espuma gelada que havia lhe congelado os pés a alcançaria. O que acontecerá depois?, pensou ela. Será que me afogarei? Fez um gesto negativo com a cabeça, tentando escutar, tentando pensar, mas a mente se tornara lenta, como se estivesse endurecendo como gelo, não mais capaz de funcionar. O que Hew lhe dissera nas vezes que mal o escutara? Boiar, rolar, se agitar. Como poderia fazer aquilo? Os braços estavam adormecidos pelo esforço de segurar a bengala longe da areia, mas era a única coisa que podia fazer, a última coisa com que poderia se segurar. Se a bengala, sua terceira perna, afundasse, não haveria mais nenhuma esperança. Poderia a bengala ajudá-la a boiar? Bem, seu tempo estava se esgotando. A não ser que tentasse, não saberia se aquela era uma ideia tola. Estendeu a bengala sobre a areia como uma ponte estreita e, em seguida, tentou esticar as costas sobre ela. As pernas estavam pendidas para o lado, ainda presas. Para sua surpresa, parou de afundar. O alívio a fez soluçar. Ainda não está vencida, moça Bessie. Cheia de esperança, puxou a perna direita, mas o esforço pareceu apenas aumentar a força com que a areia a prendia, tão apertada como uma algema. Bessie paralisou. Seu momento de paz fora estilhaçado. A bengala a mantinha segura. Não estava mais afundando. Mas a maré continuava subindo.

Eu o responsabilizarei. As palavras se revolveram em sua mente, mais altas que o som das ondas. Thomas correu, mantendo-se o mais perto possível da margem, sabendo que ali não haveria areias movediças. Ainda assim, não era tão cauteloso quanto costumava ser, testando cada lugar, antes de pisar. Não havia tempo. Quando contornou o rochedo, imergiu no vento e nas ondas, perdendo a proteção da angra. O sol se pusera, deixando apenas o arrebol róseo, mas ainda não parecia totalmente escuro. E a maré estava subindo. — Elizabeth! Aqui... De fato escutara aquela palavra? Deixou o olhar vagar pela praia, caminhando na direção do som. E então algo tomou forma, deitada na areia como uma trouxa de farrapos. E Thomas começou a correr.

TERIA ESCUTADO seu nome? O frio, a fadiga e o medo haviam sequestrado parte de sua racionalidade, bem como Projeto Revisoras

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seus sentidos. Não tinha certeza, mas tentou. Tentou responder. E não sabia se havia logrado êxito. E então, como em um sonho, sentiu as mãos dele em sua testa e, em seguida, lhe segurando os pulsos. Bessie permitiu que os olhos se abrissem. E sorriu. Engoliu em seco e tentou fazer seus lábios funcionarem. Eu o amo. Havia conseguido proferir as palavras? Bem, ao menos se declarara a ele, antes de morrer. — BESSIE! — Thomas lhe apertou a mão. Trêmula, desorientada, ela permanecera no frio por muito tempo. O cabelo espalhado ao redor sobre areia parecia algas marinhas vermelhas. Precisava acordá-la. Não poderia simplesmente puxá-la para fora. Tentar medir força com as areias apenas lhes dava mais potência. Bessie teria de rolar. — Bessie, preciso que seja forte. Os olhos castanhos voltaram a se abrir e ela o encarou, como se tivesse descoberto que não estava sonhando. — Thomas? — Agora o sorriso era genuíno, embora os olhos ainda parecessem não focá-lo. — As mulheres Brunson são fortes. Gesticulando a cabeça em negativa, ele sufocou um sorriso melancólico. — Sim. E obstinadas, também. — Thomas atirou a capa sobre ela e, em seguida, relanceou o olhar à maré. — Vou tirá-la daí. — Talvez restassem apenas 10 ou 12 ondas, antes de serem engolfados. E então a areia poderia se tornar ainda mais instável. Ambos poderiam ser sugados, antes que os homens fizessem a curva para procurar naquela parte da praia. Mas Bessie fora esperta o suficiente para boiar em vez de se debater. Agora, ele tinha de ser igualmente sagaz. Thomas avaliou a areia. Teria de se aproximar ainda mais para poder ajudá-la, mas sem se deixar ser sugado também. — Agora, vamos fazer movimentos de rotação com a sua perna. Não puxe, apenas a gire, como se estivesse mexendo uma panela. Bessie tentou, mas a luta e o frio haviam lhe dissipado as forças. Apenas a capa com que Thomas a envolvera não seria suficiente para lhe devolver a resistência. Até mesmo a mente havia se afastado dele. E então ele viu tudo se repetir. Annabell. Pequena e delicada. Os olhos que pareciam não reconhecer... nada. Nem o marido e nem o castelo, que era sua casa. Tampouco as areias que a sugavam e ao bebê até a morte. Não fora capaz de salvá-la e agora estava perdendo Bessie. Não. Não aquela mulher. Esticou a mão para lhe segurar a perna, movendo-a quando ela não era capaz. A luz frouxa era difícil ter uma visão acurada, mas após várias tentativas a areia se dispersou e não voltou com tanta rapidez. Poderia lhe puxar a perna um pouco mais para fora. E depois repetir a operação enquanto as ondas rebentavam cada vez mais próximas. Thomas relanceou o olhar às águas revoltas. Viu Bessie fazer o mesmo e trincar os dentes, não por medo, mas pela determinação. — Um passo de cada vez — murmurou ela, com a mandíbula contraída. E ele nunca a amara tanto antes. Thomas lhe encontrou o olhar e pôde ver claramente que algo voltara. A força. A confiança. Não. Bessie Brunson não era mulher de entregar os pontos. Nem para ele nem para as areias. Era diferente. Poderia ele ser diferente também? A próxima onda estourou ainda mais próxima do que ele esperara e a água do mar escorreu para formar uma poça na areia movediça. Bessie se moveu para a posição sentada e puxou o pé com força, mas em vez de soltá-lo se viu presa outra vez. Projeto Revisoras

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Tentou puxar de novo, rapidamente. — Deite-se! Agora com mais suavidade e lentidão. Mais uma vez. Bessie assentiu e inspirou profundamente, mas não lhe dirigiu o olhar ou respondeu. Simplesmente segurou-lhe a mão com força e tentou outra vez. E então conseguiu libertar a perna direita. TODO O ar pareceu lhe abandonar os pulmões de tanto alívio, mas a maré não esperaria por uma celebração. Thomas lhe equilibrou a perna cuidadosamente sobre a bengala e, em seguida, lhe segurou a mão. Aquela era a única parte do corpo de Bessie que não havia congelado. — Agora — disse ela, com toda a calma que pôde conjurar. — A outra. — Como se aquilo não passasse de uma série complicada de saltos da dança de Galliard que tinha de dominar. Mas Bessie aprendera a velocidade e o ritmo requeridos. E, quando os músculos trêmulos não conseguiam lhe mover a perna, Thomas o fez. Ela fechou os olhos para não ver a água. Para que não apressasse o processo ou entrasse em pânico, colocando-o em risco, também. A perna esquerda emergiu lentamente, até o tornozelo. — Minha bota está... — Largue-a aí. Bessie contorceu o pé, conseguindo livrá-lo do calçado, e escapou do pequeno buraco na areia lamacenta, antes que voltasse a ficar presa. — Quando se libertar — disse ele, ainda a segurando ―, role rapidamente para longe de mim. A areia naquele lado é firme. A areia começou a colapsar na direção do pé de Bessie. Thomas esticou a mão para segurá-lo, contudo, ela foi mais rápida e puxou o pé. Foi então que Thomas perdeu o equilíbrio. A mão que esticara se enterrou na areia até a altura do ombro. Erguendo o olhar, ele a viu rolar para longe e deitar, em segurança, sobre solo firme. — Corra! Saia daqui. O vento açoitava o cabelo ruivo em todas as direções, quase o fazendo em nós, à medida que os fios os chicoteavam. Bessie olhou para ele e depois na direção do castelo. — Onde estão Hew e os outros? — Sim. Vá. Busque ajuda. — Ajuda que não chegaria a tempo. Thomas amaldiçoou o destino. Sua tolice. O homem que construíra uma vida evitando passos em falso encontrara sua sina. Mas, em vez de partir, Bessie se encaminhou cuidadosamente até o outro lado da areia movediça. Deitou de barriga para baixo quando a água se aproximava, como se fosse capaz de deter o mar. — Sabe o que fazer — disse ela. — Então, faça. Thomas não desperdiçou fôlego discutindo, mas não dispunha de nenhuma alavanca para mover o braço. Se tentasse se apoiar na outra mão, corria o risco de afundá-la na areia movediça também. Bessie percebeu tão bem quanto ele o apuro em que se encontrava e lhe segurou o ombro. Apesar de enfraquecida como se encontrava, conseguiu mover o braço musculoso da mesma forma que mexia uma panela de sopa grossa. Felizmente, braços eram mais fáceis de ser movidos do que pernas, por serem menos pesados. Thomas não estava enterrado tão fundo. Mas a maré não esperava. Avançava, começando a encher a poça, sequestrando o terreno que haviam ganhado. — Deixe-me e saia daqui! — gritou Thomas. — Não a salvei para que ficasse aqui e morresse. Projeto Revisoras

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— E eu não sobrevivi para deixá-lo morrer. Agora, mova-se! — Bessie continuou a executar movimentos rotativos, uma, duas, três vezes e conseguiu soltá-lo no instante em que uma última onda cobriu a poça por inteiro.

THOMAS A segurou com força em um dos braços e os dois rolaram com as ondas que surgiam, a princípio se engasgando com goles da água fria e salgada. E então ele conseguiu se levantar e a puxou para que fizesse o mesmo. Os dois cambalearam de volta ao castelo, amparando-se um ao outro. O braço esquerdo de Thomas pendia flácido na lateral do corpo, e as pernas de Bessie estavam enfraquecidas. Hew e os outros homens haviam feito a curva e os cercaram antes que alcançassem o caminho da margem. Um dos homens carregou Bessie, já que Thomas se via incapaz de fazê-lo. — Para os meus aposentos — disse ele, ignorando os olhares de Bessie e Hew. E então os dois foram banhados em água quente, enrascados na mesma cama sob cobertores e deixados para se aquecer no fogo da lareira.

DEVIAM ter dormido, porque a escuridão era completa e o castelo se encontrava imerso em silêncio quando Thomas abriu os olhos e ouviu a respiração suave ao seu lado. Durante o restante da noite, ele a observou, mas não conseguiu voltar a dormir. Do lado de fora, as ondas que quase a mataram ainda iam e vinham açoitando suas terras. E as lembranças faziam o mesmo. Recordações da última vez que encontrara uma mulher na praia, presa nas areias movediças, quando era tarde demais. Nunca deveria ter trazido Bessie para ali. O homem que sempre pisara com cuidado e considerara cada ângulo finalmente fora capturado. Preso em uma armadilha. Em uma posição em que nenhuma opção era certa e cada escolha representava um desastre. Voltara para casa pensando, esperando que pudessem, construir uma vida juntos. Sonhando com banquetes, danças e crianças enchendo os salões. Sonhos aos quais jamais ousara se entregar depois de Annabell. Confrontado com a escolha, optara pelo clã de Bessie em vez de sua vingança. Apesar de todo o conflito, até mesmo da traição no passado, talvez houvesse um jeito... Mas o dia anterior provara que ele não tinha direito a Bessie. Não conseguiria protegê-la da mesma forma que não conseguira salvar a ex-esposa. E, se não podia protegê-la, não a merecia. Amanhã, pensou ele. No dia seguinte, teria de levá-la para casa.

Capítulo Vinte e Um

Bessie acordou ao lado dele, nua, segura e com a certeza de que tudo estava certo no mundo. Thomas voltara para salvá-la. Ele a trouxera de volta para sua cama, onde um cardo bordado adornava o travesseiro. Projeto Revisoras

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A vida era aconchegante e doce. Girou a cabeça na direção dele e sorriu. Thomas se encontrava sentado, movendo com cuidado o braço que ficara preso na areia movediça. Provavelmente estava tão dolorido quanto suas pernas. Bessie elevou o corpo para se sentar ao lado dele, procurando por um sorriso e não o encontrando. Bem, devia ser a primeira a confessar, antes que pudessem seguir adiante. — Não estou grávida. Um alívio escancarado se refletiu no rosto de Thomas, mais ostensivo do que ela esperara. Ele saiu da cama, ficando fora de seu alcance, mas onde Bessie ainda podia admirar a largura dos ombros e a força das pernas musculosas. — Ótimo — retrucou ele. — As coisas se complicaram. Ainda haveria segredos por trás daquele olhar? — Como? — Seus irmãos cruzaram a fronteira, invadiram a Inglaterra e atacaram as terras Storwick. O guardião da fronteira inglesa está furioso. Serão julgados no Dia da Trégua à luz do novo tratado. — Com você como guardião da fronteira escocesa. — O pensamento era tão perturbador quanto o apuro que havia passado na praia. Durante meses temera que Carwell estivesse secretamente em desacordo com os irmãos. Mas agora não havia mais segredos. Como guardião da fronteira, seria requisitado a impingir as leis. E Bessie não duvidava que os irmãos a tinham infringido. Não seria a primeira vez. Deviam esperar ter de pagar a punição. Seu dever agora era para com seu marido. Não. Aquilo ia além do dever. — Partiremos tão logo você esteja bem. Bessie moveu os pés desejando dizer que estava ótima, mas a verdade era que cada músculo de suas pernas doía. — Partir para onde? O Dia da Trégua será em Kershopefoote outra vez? — Vou levá-la para casa. — Casa? O que quer dizer com isso? — De volta para seu clã, como lhe disse, antes de partirmos de Stirling. Como você desejava. — Não me ouviu dizer que o amo? — Ou teria apenas sonhado com aquelas palavras? Thomas enrubesceu. — Se disse isso, estava delirando. Bessie atirou as pernas sobre a lateral da cama, desejando encará-lo de pé, mas teve de se amparar à cabeceira para conseguir. — Está é a minha casa. Sou sua esposa. Quero ficar aqui com você. Muito ousada. Muito direta. Muito tarde para quaisquer outras palavras. Certamente aquela dor refletida no rosto de Thomas era amor, certo? Mas seria por ela? Agora. Tinha de saber agora. — Estava disposto a morrer por mim. Está disposto a viver comigo? Bessie observou a mudança nos olhos castanho-esverdeados, esperando, imaginando. — Não entende? Não quero perdê-la também. — A voz de Thomas vibrava com uma dor que ela nunca o vira expressar antes. Também. Como perdera a elusiva esposa que os assombrava como um fantasma. Bessie abriu a boca para argumentar. Sou mais forte que ela. Mas, antes que pudesse proferir as palavras, percebeu que não faziam sentido. Era como se estivesse diante dele, prometendo que nunca morreria. O que quase acontecera na noite anterior. Projeto Revisoras

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Não era de admirar que Thomas tivesse se tornado um solitário. Daquela forma, não haveria mais ninguém a perder. Não fizera o mesmo se trancando em sua vida dentro da torre? Segura. Imutável. Familiar. Mas, desde que a torre desaparecera atrás dela, na neblina, não houvera nada certo ou seguro. Apenas um passo desajeitado e incerto de cada vez. Estava pronta a dar o próximo passo agora. Estaria Thomas? — Não foi apenas a mim que esteve protegendo. — Era sensível a cada arrepio de frio que ela tivesse. Tentava desviá-la de qualquer perigo. — Mas também a si mesmo. Thomas contraiu a mandíbula, recusando-se ou se vendo incapaz de responder. — Não posso perder outra pessoa. Nunca mais. Tentando deter o mar. Tentando deter a morte. — Então devo perdê-lo para que você não me perca? Bessie tentou sorrir. E Thomas também. Mas nenhum dos dois conseguiu. Bessie esticou a mão sobre a cama que os separava. — Conte-me sobre ela. Essa mulher forte o suficiente para nos separar.

A PERGUNTA o desnudou. Thomas virou de costas, bloqueando-a. Bloqueando a expressão de piedade, a que deixava claro que ele amara aquela mulher em vez de se sentir aliviado com sua morte. O que poderia dizer de Annabell que ainda não havia dito? — Ela era... delicada. Estava grávida. E morreu. Não era a verdade sobre a mulher que Thomas havia escondido. E sim a dele. — Disse-me isso antes. Fez-me pensar que ela morreu no parto. Thomas girou para encará-la outra vez. — Quem... ? — Ele a havia deixado sozinha ali. Qualquer um poderia ter lhe dito... qualquer coisa. — Não era apenas o corpo dela que era delicado, certo? — Bessie deu um passo vacilante, mantendo a mão amparada no colchão para se manter de pé. — O que quer dizer com isso? — Ela não sabia como alvejar as roupas de cama, alimentar a tropa ou fermentar a cerveja. Dançava e tocava alaúde, mas não arcava com o fardo próprio de uma esposa. Não conseguia encarar a vida. — A cada palavra, cada passo, Bessie se aproximava da verdade. Não. Annabell não fizera nada daquilo. Vivera em um mundo imaginário. Um mundo no qual não havia um marido. Bessie esticou a mão para tocá-lo. Pousou a mão no braço forte para se amparar e se colou ao corpo esguio de modo que não houvesse nenhuma barreira entre eles, exceto a pele. — Ela morreu na praia, nas areias movediças. — Aumentou a força com que lhe segurava o braço e o sacudiu, forçando-o a encará-la. — Mas eu não. Eu, não! E então Thomas a estava envolvendo nos braços, beijando-a, e ela o correspondia. E ele teve a certeza de que aquela mulher era forte o suficiente. Até mesmo para salvá-lo. Esperava ter forças suficientes para amá-la. E DE repente ambos se encontravam deitados na cama, com Bessie estirada sobre o corpo musculoso. A pele macia dialogando com a dele, o cabelo ruivo lhe cobrindo o peito. A dança do amor, estabanada, ao fraco sol do inverno. As dores de Bessie. As dele. Braços, pernas, narizes que colidiam. Mas ela não se importava. A inabilidade só aumentava a ânsia. Não desistiria. E então, com um gemido, Thomas rolou com ela, deitando-a de costas e a possuiu. Bessie se abriu, erguendo os quadris para que ele a penetrasse fundo. Algo rodopiou em seu íntimo, com a mesma velocidade com que ela, quando criança, girava com os braços Projeto Revisoras

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abertos e a cabeça erguida para o céu, até que não mais aguentasse e caísse no chão. Dessa vez, a alegria vertiginosa a erguia às alturas. Em uma espiral, girando cada vez mais alto até fazê-la explodir entre as estrelas. E, por fim, despencando não na terra, mas nos braços do amado. Ao som do mar.

MAIS uma vez, Thomas despertou para se dar conta de que Bessie nunca demonstrava repugnância durante o ato de amor e seus gritos não eram de dor, mais unicamente de felicidade. E ele deixou que a felicidade lhe inundasse a mente. Permitiu-se escutar quando ela se sentava ao lado dele na cama, conversando, animada, sobre o que deveriam dizer a Rob e Johnnie Brunson. Permitiu que a ingenuidade de Bessie o transportasse a um mundo no qual não havia presente ou passado para interferir na felicidade de ambos. — Posso começar — disse ela, como se planejasse um banquete — dizendo aos meus irmãos que o rei nos forçou a casar. Thomas ergueu as sobrancelhas. — Isso não os sensibilizará nem um pouco. Bessie colocou a língua para fora e enrugou o nariz. — Então direi a eles que sou como o Primeiro Brunson e que minha casa é o mar. — A bela e rude esposa se tornara fantasiosa. Teria de ser ele a recorrer ao discurso direto. — Não pedirei nada aos seus irmãos por você. — Um casamento geralmente exigia um dote. Não queria o gado ou as ovelhas dos Brunson. Mais uma prova de que estava apaixonado e a mente, enfeitiçada. Bessie negou com um gesto de cabeça. — Eles recusarão favores. — Então, se quiserem me dar algo de valor, aceitarei a promessa de que não guerrearão contra os desígnios do rei. A lembrança varreu o sorriso dos lábios carnudos. Thomas a puxou contra o corpo, envolvendo-a nos braços. Um dia, fora um homem confiante de que conseguiria resolver qualquer problema. Que tolo arrogante fora! O rei seria capaz de considerá-lo um Brunson. Até mesmo guardião da fronteira inglesa talvez duvidasse de suas lealdades. Mas, para Bessie, o clã era tudo. Podia afirmar que o amava, contudo, algum dia seria capaz de conciliar seu dever para com o clã e o casamento com ele? — Sei que foi sacrificada — disse ele. — Sei que fez tudo que podia por seu clã. Até mesmo se casar comigo. Bessie se afastou até ficar fora de alcance, mas onde ele pudesse vê-la. Face a face. Algo parecia flutuar por trás daquele olhar, surgindo de muito distante. Algo que ela tentara esconder. Ou suprimir. Bessie cerrou os punhos como se tentasse evitar, mas aquilo continuava vindo. Traspassou-Ihe os olhos em forma de lágrimas e a garganta, onde cessou o discurso em vez de fluírem as palavras diretas. Porém, por fim, transbordou. Palavras vacilantes escaparam de lábios trêmulos. — Não fiz isso por eles. — Bateu como punhos cerrados no peito. — Fiz por mim.

BESSIE NÃO conseguia acreditar que dissera aquilo. Ou acreditar que era verdade. Fiz por mim. Sempre fora uma mulher equilibrada e abnegada. Não causava problemas. Projeto Revisoras

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Suportava qualquer fardo, sem que lhe fosse requisitado. Dissera até mesmo que ir para a corte, se fazer refém, era algo que fazia pelo bem comum. Mas não era verdade. Aquilo não passara de um ardil. Um pretexto. A busca secreta e cheia de culpa por algo que, de outra forma, jamais conheceria e que agora se encontrava completamente desvendado. Detonado em suas mãos. Bessie se lançara em busca de alguma coisa que desejava, pensando que daquela forma ninguém seria prejudicado. Em vez disso, suscitara a ira do rei, colocara seu clã em uma posição ainda pior e se casara com um homem cuja lealdade se estendia para além dos Brunson. E o que mais lhe intensificava o sentimento de culpa era o fato de não lamentar nada daquilo. Bessie ergueu o olhar para ele, não mais capaz de ocultar o anseio. — Aí está a verdade. Pegue-a e a transforme no que quiser. Os olhos castanho-esverdeados se alteraram, com a mesma velocidade da maré invasora. — Quis se casar comigo? E não somente por seu clã? — Bessie engoliu em seco, negando com um gesto de cabeça. — Por quê? Sim, por quê? Os irmãos a protegiam, claro. Interpunham-se entre ela e os perigos do mundo, com as espadas em punho. Baluartes tão fortes quanto as paredes de pedra da torre. Mas não se importavam com ela, como aquele homem o fizera. Oh, Carwell também empunharia a espada para defendê-la. E o fizera. Mas, além disso, percebera quando ela estava com frio e precisava de alguma coisa que lhe aquecesse as costas, o pescoço e os braços. Que ela também dormia com as cobertas sobre os ombros. E que, quando estava em silêncio, nem sempre era por que não tinha nada a dizer. Mais uma vez ergueu o olhar para encará-lo, sabendo que Thomas aguardava. — Porque você me tratou como se eu tivesse algum valor. E ENTÃO ele se apossou dos lábios carnudos, pronto para se perder naquela mulher outra vez, apto até mesmo para alimentar esperanças... Uma batida na porta. Thomas reconheceu como sendo de Hew. Bessie enrijeceu e ele a soltou, relutante. Em seguida, ajudou-a a ajustar o cobertor sobre os ombros, cobrindo-a até o queixo. — Entre. O mordomo abriu a porta, mas deu apenas um passo para dentro. — Um mensageiro, senhor. Do rei. A vida se infiltrou rapidamente nos sonhos. — Leve-o para meu escritório. Descerei em um minuto. Hew assentiu e fechou a porta ao sair, após relancear um olhar a Bessie. Uma mensagem do rei. As implicações daquilo não o agradavam. O homem devia ter deixado Edimburgo, antes de o Parlamento sancionar o tratado. Bessie atirou as cobertas para trás ao mesmo tempo em que ele, estendendo a mão para o vestido, apenas para se lembrar de que o traje estava agora reduzido a um trapo ensopado de água salgada. — Envie-me uma das criadas. Peça que me traga um dos vestidos que estão no meu quarto. Thomas abriu a boca para protestar, mas ela ergueu uma das mãos para silenciar a tentativa. — Se o rei nos enterrou em areias movediças, teremos de juntar nossas forças para poder escapar.

Pouco TEMPO depois, Thomas cumprimentou o mensageiro do rei. Insensível e Projeto Revisoras

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servil, o homem não ergueu o olhar para Bessie, que se encontrava ao lado do marido. Thomas imaginou se o mensageiro sabia quem ela era. O homem entregou um pergaminho a Thomas, mas não esperou que ele o lesse. — Esta é uma notificação oficial — começou. — O rei James declarou como foras da lei todos os clãs que não o apoiarem em sua guerra contra o traidor Angus. — Ao lado de Thomas, Bessie enrijeceu e paralisou. — E incumbiu o senhor, como guardião da fronteira escocesa, de trazê-los para Edimburgo. Para serem enforcados. Eu o responsabilizarei pelos Brunson, dissera o rei. Mas agora o estava forçando a escolher. Seu rei. Ou sua esposa.

Capítulo Vinte e Dois

A alegria foi drenada do corpo de Bessie. Ela dirigiu o olhar a Thomas, incapaz de lhe decifrar a expressão. Leve-os a Edimburgo. Para serem enforcados. Estaria ele refletindo sobre o assunto? Até mesmo escolhendo entre o rei e os seus? A escolha de Bessie era ainda mais difícil. O marido ou os irmãos. Deveria saber que aquele seria o desfecho de tudo aquilo. Noites de dança e sexo. Momentos de felicidade. Pensando que poderia escolher o prazer ao dever. Ao menos para o irmão, o prazer e o clã haviam se fundido em Cate, a mulher que o fizera encontrar a si mesmo. Mas ele nascera um Brunson. Thomas nascera um Carwell. Seu dever como guardião da fronteira fazia parte dele, da mesma forma que o vale para os Brunson. E, ainda assim, Thomas permanecia em silêncio. ― Tem uma resposta? — perguntou o mensageiro, por fim. — Que resposta pode um homem dar ao rei? Aquela não era uma resposta. Agora Bessie sabia que o marido nunca dizia uma mentira, mas às vezes sonegava a verdade. O mensageiro, porém, não sabia disso. Partiu e ela esperou que Hew se incumbisse de lhe dar de beber e comer, além de um lugar para dormir, antes que ele partisse. Coisa que ela não seria capaz de fazer. A porta se fechou, deixando-os a sós e em silêncio. Tão rápido como a mudança da maré, Bessie soube que tinha de voltar para casa. — Quando partimos? — perguntou, por fim. — Não partiremos. Não ouviu o que o mensageiro disse? Seus irmãos foram declarados traidores. Estará em perigo na companhia deles. — Perigo vindo de você? Thomas se ergueu, segurou-lhe o rosto nas mãos e a encarou com um olhar tão penetrante quanto um beijo. — Nunca. Mas não lhe impôs um beijo. Bessie o observou, tentando guardar aqueles olhos na memória, sentindo a marca do corpo de Thomas no dela. Projeto Revisoras

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— Ainda assim. Devo voltar. — Qualquer que fosse o desfecho, tinha de estar lá, e não sozinha naquele castelo. — Irei com você ou sozinha. Thomas suspirou e deixou as mãos penderem nas laterais do corpo. — Então partiremos amanhã. — Tentará prendê-los? — Ele não conseguiria, mas quem morreria na tentativa? — Tentarei encontrar... outra saída. Mas aquela era uma armadilha mais perigosa que as areias movediças. Uma, temia Bessie, da qual nem mesmo Thomas Carwell pudesse escapar.

VIAJARAM POR dois dias com mais homens que ele levara ao casamento, há pouco menos de dois meses. Quantitativo o suficiente para lutar, se assim escolhesse. Bessie cavalgou ao lado dele, à frente dos homens, para que os irmãos não atirassem neles. Além disso, não conseguia pensar em nada, a não ser em rezar para que houvesse outra saída. E que Thomas a descobrisse. Confiava que ele fosse capaz de entregá-la aos irmãos sem atacá-los. E esperava estar certa. Mas, quando a torre familiar surgiu em seu campo de visão, algo lhe pareceu errado. Com um cheiro errado. Bessie incitou o pônei a um galope e, atrás dela, os homens a imitaram. Era tarde demais. Os invasores já haviam atacado e partido. Os prédios externos estavam queimados. Até mesmo a torre, a defesa final, tinha fuligem grudada nas pedras, como se as chamas tivessem se tornado furiosas ao constatarem que não podiam queimá-la. Bessie foi a primeira a alcançar o portão de entrada e viu Rob parado ao muro, alto e forte como sempre. Chamavam-no de Rob Negro, mas a expressão do irmão agora estava ainda mais fechada que antes. Era como se o fogo do inferno tivesse se erguido ao redor dele, permitindo-lhe ver o rosto do demônio refletido nas chamas. Rob ergueu a balestra e apontou para Carwell. — Entre, Bessie. Carwell, se você e seus homens derem mais um passo, terão uma flecha enfiada na garganta. Alguns homens se juntaram a ele, acrescentando suas ameaças às do líder. — Deixe-os entrar, Rob — disse ela. — Eu me responsabilizarei por eles. E ficou satisfeita pelo fato de Rob não perguntar por quê.

CARWELL esperou até que Rob, que não era nenhum tolo, o desarmasse mantendo a lança apontada para ele enquanto o fazia, antes de entrar no pátio. Cercada pelas cinzas de sua casa, Bessie se grudou ao braço de Rob. Os dois oscilaram, como se as pernas tivessem sido feridas da mesma forma que a fortaleza. Bessie não procurou consolo no marido. Os telhados de colmo da cozinha e do prédio público no pátio haviam queimado e colapsado. Mesas e baús estavam reduzidos a cinzas. Bessie vagou pela cozinha, um dia seu orgulho e domínio exclusivo, e ergueu uma panela de cobre carbonizada. Thomas percebeu os olhos castanhos se encherem de lágrimas. Que não foram derramadas. Bessie dirigiu o olhar a Rob, como se de repente tivesse percebido o que aconteceu. — Perdemos...? Rob assentiu. — Jock, o Estranho. Eles, porém, perderam mais. — Uma nota de orgulho vibrou na voz do irmão. Projeto Revisoras

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— E onde estão Johnnie e Cate? — Percorrendo o clã. Certificando-se de que não atacaram mais ninguém. — Foram os Storwick? — perguntou Carwell, esperando que a resposta fosse simples assim. Seria pior se fosse Acre. Rob lhe sustentou o olhar. De um guerreiro para outro. — Sim. E mais alguns. Achei ter visto alguns Graham e Rugledge. Até mesmo as cores de Acre. Thomas olhou a redor da destruição. Provavelmente Acre juntara forças com os Storwick e enviara alguns de seus homens para somar forças. Rob franziu a testa. — E não quero ouvir nenhum sermão sobre levá-los ao Dia da Trégua. — Não — respondeu Thomas, tentando antever o que viria a seguir. — Não ouvirá. Porque o que fizeram não é mais uma ofensa. A tristeza se aprofundou nos olhos de Bessie. O marido lhe dissera aquilo, mas os termos de um tratado, eram abstratos. Apenas agora compreendia com clareza. Mas aquilo tudo era novidade para Rob. — O que quer dizer com isso? Você é o guardião da fronteira. Conheço as leis da fronteira, mesmo quando as violo. Thomas sentiu a garganta se estreitar como se um punho o estivesse sufocando. — O novo tratado dá aos ingleses o direito de impor a lei se decidirem que eu não consegui fazê-lo. — E não temos o mesmo direito? — Rob rosnava como um animal ferido. — Não. — Acrescentar mais alguma coisa não tornaria a resposta mais suave. — O rei de Fife pensa que ficaremos de braços cruzados e permitiremos que os ingleses nos ataquem a seu bel-prazer? — A raiva que Rob não pôde desferir contra seus atacantes agora se voltava contra Thomas. — É essa sua justiça, guardião da fronteira? Não. Não era. Os ingleses nunca admitiriam que um ataque era apenas um ataque. Sempre haveria punição para crimes impunes, reais ou imaginários. — A minha, não. Mas a do guardião da fronteira inglesa, acho eu. — Você se encontrou com ele — disse Bessie, o escárnio e a incredulidade na voz. — Você sabia que ele faria isso e não os avisou? Thomas negou com um gesto de cabeça. — Sim, ele ameaçou fazê-lo, mas depois me prometeu respeitar o Dia da Trégua. — Assim como prometera que os ingleses aceitariam o tratado que haviam negociado. Tudo que aquele homem lhe dissera fora uma mentira. Uma meia-verdade. Um subterfúgio. E o que Thomas fizera se não o mesmo? BESSIE observou o marido, o homem que amava. A vida de repente reduzida a cinzas, tão frias quanto aquelas em que pisava. — O guardião da fronteira inglesa “disse” e você acreditou? — Ela procurou convicção nos olhos de Thomas. Conheceria de fato aquele homem? — Como pôde confiar nele? Mas ela não fizera o mesmo? Não acreditara em um homem que a havia traído? Seria mais fácil culpá-lo, responsabilizá-lo e odiá-lo. Mas nem ao menos conseguia se sustentar sobre aquele solo firme. Não era apenas em Thomas que não confiava. Imaginou se poderia confiar em si mesma. O corpo não mente. Ou mentiria? Pensara conhecer aquele homem. Disse a si mesma que ele lhe tinha afeição. Deixara-se seduzir a ponto de esquecer quem era e onde residia seu dever. E agora seu clã pagara por seu egoísmo. O olhar de Thomas encontrou o dela, claro e direto. — Não devia ter acreditado nele. Não foi a primeira vez que ele me traiu. Projeto Revisoras

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As palavras a fizeram enrijecer, de alguma forma sabendo o que estava por vir. O que sempre suspeitara. Para o que havia encontrado uma desculpa, quando não queria mais acreditar. Rob desembainhou a espada e a apontou para o peito de Thomas. — Fale. Thomas permaneceu calmo, a cabeça erguida e os ombros aprumados. — No último outono, me encontrava em negociações secretas com o guardião da fronteira inglesa sobre o tratado: — Ele falava para Bessie, como se estivessem sozinhos. — Você me responsabilizou pelo que aconteceu naquele dia e de fato estava certa. O acordo fora que ele me entregaria um líder inglês que tramava contra o rei James. Em troca, ficaria com Willie, o Marcado, no Dia da Trégua. Tudo que Bessie temia e não quisera acreditar era verdade. Thomas Carwell deixara o raptor de Cate escapar. Mas Thomas não tinha conhecimento daquilo. Do pior dos crimes de Storwick. Apenas cinco pessoas tinham conhecimento do que acontecera a Cate no passado. E uma delas estava morta. Ainda assim, Bessie protestou, tentando desculpar o marido: — Mas você se juntou a nós. Ajudou a caçá-lo. — E nunca o pegamos — disse Rob. — Foi o que eu e Johnnie sempre dissemos. Ele estava informando os Storwick sobre todos os nossos planos. Carwell negou com a cabeça. — Não. O restante foi tudo acaso. Rob resfolegou. — Não acredite nele. — Não há razão nenhuma para acreditar, mas é verdade. Disse ao lorde Acre que ele poderia capturar Willie, o Marcado. Nunca disse que poderia ficar com ele. Bessie alternou o olhar entre os dois. Qual seria a verdade? — Então sabia sobre o tratado durante todo o tempo? — perguntou Rob. — Sabia o que eles fariam. Mais uma vez, Thomas gesticulou a cabeça em negativa. — Tudo que acordamos foi mudado. Tudo que fiz foi por querer que Angus fosse levado a julgamento pelo que fez ao meu pai. — Por um instante, Bessie reconheceu a compreensão no olhar do irmão, mas a espada que Rob mantinha apontada para o peito de Thomas não vacilou. — E — acrescentou Thomas — essa também era a vontade do rei. Ou assim disse ele. Rob fez um movimento negativo com a cabeça, como se Thomas fosse um ingênuo. — Os reis fazem o que querem. — E agora — começou Bessie, referindo-se ao irmão — o rei quis declarar os Brunson criminosos. — Não voltou a dirigir o olhar a Thomas. Se o fizesse, temia não conseguir desviá-lo. — Carwell deve levá-los a Edimburgo para serem enforcados. Pela primeira vez, Rob sorriu. — Carwell é quem será enforcado. — Empurrou Thomas, forçando-o a se ajoelhar. Desarmado, o marido permaneceu indefeso, à mercê de Rob. O irmão pegou uma corda em seu cavalo e a amarrou em torno do pescoço de Thomas. Algo se remexeu no íntimo de Bessie. Ali estava ela, de volta à casa. Forte, em solo Brunson, rodeada de pedras Brunson e irmãos Brunson. Deveria estar se sentindo uma Brunson completa outra vez. Bastava de perguntas sobre qual seria sua identidade ou onde residia sua lealdade. Bessie dirigiu o olhar a Rob, sabendo que o irmão esperava seu apoio incondicional. Ainda assim, ela pousou uma das mãos no ombro de Thomas, que ergueu o braço e lhe apertou os dedos. Projeto Revisoras

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— Não sem antes me enforcar primeiro ��� disse ela. — Thomas é meu marido. — Marido? — Chocado, Rob deixou a corda afrouxar. — Eu a coloquei sob sua responsabilidade e foi isso que aconteceu? — Apenas um noivado ― retrucou Thomas, como explicara tantas vezes para ela. — Para evitar que o rei a colocasse em mãos piores. Ainda assim, Bessie se viu incapaz de suprimir as palavras furiosas. — Pior que as suas? — Mãos, lábios, olhos em que não podia confiar. Não mais do que podia confiar em si mesma. Ou poderia? — Quando eu o matar, não será noiva de mais ninguém. Bessie prendeu a respiração, esperando se sentir aliviada ou justiçada. Tentando se sentir como uma Brunson outra vez. Mas não conseguiu. Quando partiu daquela torre, deixou um mundo tão imutável e seguro quanto as montanhas. Era uma Brunson. Nada mais lhe era viável. A decisão dos Brunson, a decisão de Rob era clara. Carwell devia morrer. Mas sua resposta, seu coração, diziam o contrário. Pousou a mão na espada do irmão e a afastou. — Não o matará. Ele é meu marido. Thomas girou na direção dela com um movimento brusco. — Não tem de fazer isso. Está em casa. Como lhe prometi. Não há necessidade... Mas ela negou com um gesto de cabeça. — Jamais teria outro. — Apesar de...? — Apesar. Bessie o equilibrou quando ele se ergueu, com os olhos repletos de inconfundível alegria. Quando Thomas tentou falar, ela lhe pousou um dedo nos lábios, dispensando as palavras. E então ele a envolveu nos braços, deixando que os lábios falassem de outra forma. Atrás dela, Rob tentou gritar. — Não lhe darei permissão. Bessie interrompeu o beijo, reclinando-se contra o marido e tomando cuidado para se posicionar entre ele e a espada de Rob. — Não a pedi. A espada do irmão oscilou. — Se fizer isso, não será mais uma Brunson. Sim, serei. Mas serei algo mais. Um dia, quando Rob se apaixonasse, entenderia. — O rei me disse que, se os Brunson continuassem a invadir, iria me responsabilizar. — As palavras de Thomas ribombaram em seu peito. — Portanto, acho que isso me torna em parte um Brunson. A agonia retorceu as feições de Rob. Seu pobre irmão. O mais velho. Líder do clã. Jamais conhecera outro mundo. Nunca lhe deram outras escolhas. Nunca fora afastado de sua torre, como ela e Johnnie, e forçado a repensar tudo que pensava saber. Bessie temia o que poderia acontecer se algum dia se visse confrontado com algo que fendesse os muros seguros de seu mundo. Rob baixou a espada. — Mas por que, Bessie? Por que nos abandonar para ficar com ele? Bessie dirigiu o olhar ao marido, com um sorriso nos lábios. Tudo que julgara firme sob seus pés se movera. E ainda assim se encontrava de pé. — Porque — respondeu ela — ele me ensinou a dançar.

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O Lorde Thomas Carwell, guardião da fronteira escocesa, não levou os Brunson a Edimburgo para serem enforcados. Em vez disso, enquanto o guardião da fronteira inglesa permanecia, sozinho, na rua principal de Kershopefoote, a parcamente protegida torre Storwick sofria um dos ataques mais violentos de invasores. Hobbes Storwick, líder do clã, foi sequestrado e levado pela fronteira, não se soube para onde. Mas sabiam quem o fizera. O clã Brunson. E atacando ao lado deles estavam os homens de Carwell

Epílogo

A PRIMAVERA chegou ao castelo à beira do mar. Cardos floriam próximo à torre. Gradualmente, a esperança de ter notícias dos irmãos se dissipou. Brunson e Carwell haviam atacado lado a lado, mas aquela trégua fora apenas temporária. Ao contrário da ira de Rob. Enquanto isso, ela e Thomas esperavam, sabendo que o silêncio do rei também era temporário. Algum dia, o rei James viria pessoalmente à fronteira. Mas agora Bessie se dedicava a conhecer a terra e a gente de Carwell, e eles conhecerem sua nova senhora. Ela ainda caminhava pelas areias, mais cuidadosa agora, e observava o mar, imaginando, de vez em quando, se o Primeiro Brunson costumava pensar na família distante, depois que fizera daquele vale a sua casa. Um dia, ao final da primavera, Thomas a acompanhou na caminhada. À medida que o céu se tornava escarlate e o sol se despedia, voltaram ao castelo pela praia. — Tenho algo para lhe contar — disse ela. Thomas sorriu. Como aquele sorriso se tornara aberto e amoroso! Enfim, o mundo particular dos dois era pleno de confiança. — O que é? Agora que havia chegado a hora, Bessie engoliu em seco, insegura quanto às palavras que devia usar. — Estou grávida. Thomas pareceu se encolher, as lembranças apagando a felicidade que ela esperara ver. — Tem certeza? — Era como se ele esperasse que pudesse haver outra resposta. — Sim. ― Bessie entrelaçou os dedos aos dele e os apertou. ― Não foi o parto que a matou. Thomas sorriu, envergonhado por ela ter lhe percebido o medo com tanta facilidade. — Quando? — Será na estação das cavalgadas para proteger as fronteiras. — Quando o mar se tornava gelado e as ondas, gigantescas. Thomas a envolveu nos braços, a princípio com força. Porém, logo baixou o olhar ao ventre de Bessie e a soltou, dando um passo atrás. Puxando-o de volta, ela o apertou contra o corpo. — Pode me abraçar à vontade. Não amassará o bebê. Projeto Revisoras

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— Será necessário ter alguém ao seu lado. Bessie concordou com um gesto de cabeça. — Pedirei a Cate para vir para o castelo. — Ele permitirá? Agora foi Bessie a ser assombrada pelas lembranças. — Espero que sim. — Rob permitira que Carwell atacasse ao lado deles, mas aquilo não significava perdão. Obstinado como um Brunson. Bessie estava aprendendo o quanto eram obstinados. O marido a segurou a um braço de distância e a estudou em silêncio, da cabeça aos pés, como se tentasse ver o interior de sua mente tão bem quanto via o corpo. — Está se sentindo bem? Bessie ergueu uma das mãos, como se esperasse que ele fizesse uma reverência, antes de lhe pedir para dançar. — Bem o suficiente para executar a dança de Galliard. Thomas esticou o pé à frente, se inclinou diante dela e saíram dançando no caminho até o castelo, movendo-se no ritmo do mar. Agora Bessie Brunson foi para a corte. Para salvar os irmãos. E lá uma Brunson aprendeu a dançar Como a espuma sobre as ondas do mar. Mas depois se casou com um homem Carwell Amou-o de corpo e alma Um homem em quem os Brunson não podiam confiar Uma escolha da qual pensaram que ela iria se lamentar As fronteiras eram terras de clãs e batalhas. Ambos continuados por várias gerações. Às vezes, as batalhas terminavam de maneira surpreendente, como Rob Negro ainda iria de descobrir. Mas essa é uma canção para outro dia.

Posfácio da Autora Mais uma vez mesclei personagens e eventos reais com fictícios. Os Brunson, os Carwell, o guardião da fronteira inglesa, são todos fictícios. O rei James, a rainha viúva, o conde de Angus e as linhas gerais do tratado de paz entre a Escócia e a Inglaterra são reais. A história de como o rei James V assumiu seu “papel no reinado” é como a descrevi. Filho do rei James IV e Margaret Tudor, irmã do rei Henrique VIII da Inglaterra, o jovem James se tornou rei quando era um bebê de 17 meses. Cresceu sob o governo de uma série de regentes, inclusive da mãe. Como aludi neste livro, a rainha viúva de fato se casou com Archibald Douglas, o conde de Angus e, subsequentemente, se divorciou dele para se casar outra vez. Ao final, Angus era odiado tanto pela rainha quanto pelo filho, a quem o conde fez prisioneiro, mas que acabou por escapar do padrasto, fugindo no meio da noite. Nos primeiros meses após tomar o poder, James de fato passou muito tempo tentando se vingar de Angus, e a situação do padrasto era o fator chave da negociação do tratado com a Inglaterra. Por mais odiado pelo rei James que Angus fosse, o rei Henrique o favorecia porque o conde buscou a aliança entre a Escócia e a Inglaterra, em Projeto Revisoras

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vez de favorecer os tradicionais laços do país com a França. Por fim, Angus teve permissão de viver em exílio na Inglaterra e deixou a Escócia pouco depois do período coberto por este livro. No entanto, o rei nunca o perdoou e Angus não retornou à Escócia até a morte de James V. Segundo rumores, durante esse período, atacava com os ingleses em invasões à fronteira, contra os escoceses. As danças que descrevi eram muito conhecidas no período renascentista, embora não possa confirmar que a dança de Galliard, que tanto frustrou Bessie durante algum tempo, era praticada na corte de James V, em 1528. Muito provavelmente, James a aprendeu durante a viagem que fez à França em 1537, mas espero que meus leitores me perdoem por condensar os anos. Devo confessar também que a data do primeiro Dia da Trégua, após o tratado, foi estipulada para janeiro de 1529. Com o objetivo de facilitar a cronologia da minha história, alterei-a para fevereiro. A corte que Bessie visitou, embora não tão suntuosa quanto mais tarde se tornou, ainda dispunha de muito mais arte e cultura do que as fronteiras. Alguns anos mais tarde, James V se casou com mulheres ligadas ao trono francês, que trouxeram muito da cultura do continente com elas. Ainda assim, mesmo antes de seus casamentos, James era grande entusiasta da arquitetura, poesia, música e outras artes. De fato, tocava alaúde, e algumas músicas são tradicionalmente atribuídas a ele. O palácio real que ele construiu no castelo Stirling — após o período deste livro — é considerado um dos mais admiráveis exemplos daquela era. O rei também tinha o hábito de escapar “disfarçado” de homem comum e, aparentemente, sua reputação luxuriosa era bem merecida. A história registra nove filhos ilegítimos com uma variedade de mães. Oliver Sinclair de fato era um dos “protegidos” favoritos do rei ou amigos homens, embora não haja provas de que os dois vagavam pelas ruas de Stirling juntos. Quanto à história do Primeiro Brunson e o cardo, estudantes escoceses talvez possam ligar sua ascendência à famosa lenda. A história relata que um exército invasor nórdico, talvez semelhante àquele do Primeiro Brunson, avançava em silêncio para surpreender o exército escocês, quando um escandinavo pisou em um cardo e, ao contrário do Primeiro Brunson, gritou. Isso alertou os escoceses, para o ataque. Consequentemente, o cardo que protegeu a Escócia se tornou o símbolo nacional.

AMOR RENEGADO TERRI BRISBIN Lilidh MacLerie, filha mais velha do laird MacLerie e conde de Douran, olhou para fora de sua janela e tentou analisar suas opções. Este horário silencioso entre o fim do dia e o começo da noite era seu favorito quando ela precisava tomar decisões e fazer escolhas. Lembrando agora que tinha tomado a decisão que a levara para este tempo e Projeto Revisoras

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lugar a fez refletir. Talvez devesse esperar até de manhã, em vez disso? Virando-se da janela e olhando ao redor da câmara grande e bem mobiliada, soube que tinha pouco tempo ou opção... novamente. O pergaminho permanecia onde ela deixara, e Lilidh ergueu-o, inclinando-o," de modo que a luz de diversas velas possibilitasse a leitura. Pelo que parecia a centésima vez, falou as palavras e não conseguiu decidir o que mais escrever, quando tão mais era necessário.' Para o conde e condessa de Douran, começava a carta, usando os títulos formais deles, primeiro. Pai e Mãe, em seguida. E então, as palavras desapareciam. Como ela poderia explicar o sofrimento particular por trás da morte muito pública de seu marido, apenas dois meses atrás? A morte de MacGregor tinha sido mantida em segredo, até que o herdeiro dele, o irmão mais novo, fosse aprovado, pelos mais velhos do clã, como chefe. O propósito de Lilidh no casamento... unir os clãs deles e produzir um herdeiro para os MacGregor... tinha fracassado. Todavia, mesmo como uma jovem inocente entrando naquele casamento, ela entendia que as coisas não eram o que deveriam ter sido entre ela e Iain MacGregor. O pergaminho em sua mão moveu-se na corrente de ar quente criada pelo calor das velas e relembrou-a que esta tarefa também não estava terminada. Sentando-se à mesa, ergueu a pena, bateu-a de leve no tinteiro, de modo que não respingasse, e escreveu as palavras que tanto a embaraçariam quanto a humilhariam aos olhos de seus pais e do clã. Eu me encontro precisando de seu conselho em relação à situação de minha posição aqui na casa de Iain MacGregor, com a família dele. Como sua viúva, embora sem esperança de produzir um herdeiro, eu sei... O que ela sabia? Casara-se com ele sob um contrato negociado por seu tio e assinado por seu pai. Sua parte do dote de noiva estava protegida para seu uso, e ela tivera a escolha de permanecer ali, como parte do clã de seu marido, ou retornar para seu próprio clã. Seu tio tinha se certificado de protegê-la no contrato, mas dar-lhe tal escolha tornava as coisas mais difíceis do que se ela tivesse simplesmente recebido ordens do que fazer. Se Lilidh permanecesse, haveria outro casamento arranjado para ela, com um homem elegível, a fim de manter os elos fortes entre os clãs. Se ela voltasse para casa, haveria outro casamento, mas também enfrentaria o desapontamento de sua família por seu fracasso. E sem ter como explicar, e sem ter com quem falar sinceramente sobre aquilo, o que poderia dizer? Lilidh mergulhou a pena na tinta fresca e posicionou a ponta da mesma sobre o pergaminho. Estava sendo tola. Seus pais a amavam, e a aceitariam de volta, com ou sem explicação. Sua mãe era a única com quem Lilidh podia conversar sobre assuntos pessoais. Como fizera antes de seu casamento, mesmo se aquela conversa não explicasse o que tinha acontecido, ou, mais precisamente, o que não tinha acontecido entre marido e esposa. Olhando para a chama da vela, ela repirou fundo e exalou, e fez a única coisa sensata que poderia: pediu permissão para voltar para casa.

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Blythe gifford - clã brunson 2 - o limite da paixão