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Diรกrio (Nada) Secreto A Gente Pode Tudo Volume 1


Larissa Siriani

Diรกrio (Nada) Secreto A Gente Pode Tudo Volume 1

Sรฃo Paulo 2012


Preparação dos Textos: Larissa Siriani Diagramação e capa: Lucio Pozzobon


Prólogo Oi, e ai galera, beleza? Adolescente é uma coisa mesmo, né? A gente sempre tem uma necessidade de partilhar os nossos problemas, as nossas complicações. Por que tem que ser assim? Por que ser adolescente é tão complicado? E é por isso que eu comecei a escrever, pra início de conversa. Como começo, vou fazer as apresentações rápidas do povo que formou a minha turma desde sempre, porque ai todo mundo se situa. Vocês descobrem quem faz parte dessa zona, e eu posso começar a contar o que vocês querem ler numa boa. Então vamos lá. Antes que eu me esqueça (o que ocorre com muita freqüência), me chamo Lolita e sou eu quem vai narrar esta história. Ta legal, eu não me chamo Lolita, meu real nome é Carlota, mas isso não vem ao caso! Carlota, ninguém merece! E, caso interesse a alguém saber disso, eu sou loira, tipo alemã, desde que eu nasci, embora eu tenha os olhos escuros e isso estrague todo o charme. Mas assim é a vida, não se pode ser perfeito por completo. Na minha turma também tinha a Lana, uma garota meio morena, filha de um negro e uma alemã albina, minha mais ou menos amiga. Ok, sejamos francos, eu nunca fui lá de falar muito com ela, mas ao mesmo tempo que nós não éramos as super amigas nós também não nos odiávamos.Tínhamos um certo respeito, e uma certa amizade uma pela outra, doses pacíficas e moderadas. A Lana tinha um namorado, o Diego, que, assim como eu virei a citar mil vezes futuramente, era um completo e babaquíssimo nerd. 5


Tipo, um cara legal, mas nerd. Escondido atrás de óculos enormes e um cabelo empastado de gel do jeito que nem mais as crianças gostam de usar. Argh! A Lana também tinha dois irmãos, um no 2° ano e um no 3º. O Edson, mais velho, era a cara da irmã caçula, mas meio naquele estilo “sou metaleiro!” que eu detesto, com o cabelo comprido e tudo. Já o Henry, que era o do meio, era alemão de cabelos claros como os meus, um gatíssimo que todas as meninas na escola veneravam. Embora, é claro, todo mundo soubesse que ele não valia nada. A minha melhor amiga, desde o primário, era a Belatriz. Ela era bem (ok, totalmente) estranha, gótica, cabelos tingidos de roxo, lentes violeta nos olhos e unhas negras ou brancas, mas era legal e sincera. A Bela, como a chamavam, tinha uma irmã gêmea que era o total avesso dela. A Suellen malhava desesperadamente e, segundo boatos, tinha bulimia, ao passo que a irmã não estava nem ai. Era a patricinha mais detestável de todo o colégio, era burra e tudo o que tinha era rosa. Pink! Eu juro que sempre tentei ser amiga dela, e mostrar que ninguém a suportava, mas ela sempre foi burra demais pra entender. A Suellen só tinha uma amiga que poderíamos considerar verdadeira: Lua. Nome mais esquisito, não? Pois é, a Lua era a criatura mais biscate que se possa conhecer, então nós podemos imaginar o quanto a Suellen era rotulada... O primo das gêmeas também estudava com a gente. O Daniel era um amor de garoto, e todo mundo sabia que ele tinha não uma queda, mas um tombo pela Suellen desde sempre, e que todo tipo de problema possível já tinha sido causado na família por causa disso. O melhor amigo dele era o Willian, a paixonite da Bela por ser o eterno garoto-problema da escola. Minhas primas, Giovanna e Sabrina, também haviam entrado no colégio naquele ano. A Sabrina cantava numa banda de gothic metal e por isso se dava muito bem com a Bela. A Giovanna era do tipo louca, 6


descontraída e rebelde, o que fazia com que ela brilhasse muito mais que qualquer um dentro daquela escola. E então, tinha o Ricardo. O Ricardo...bem é um problema à parte. Ele andava sempre com o Daniel e o Willian, mas não se parecia em nada com ele. Pelo contrário, era perfeito. Olhos azuis, o cabelo louro escuro liso despenteado, corpo sarado, nem muito alto nem baixo demais, um sorriso branco de pirar a cabeça de qualquer uma. O tipo de cara que precisava de um minuto pra fazer você se apaixonar. Menos, se você fosse eu. Ele era a minha paixão desde a sétima série, ano em que eu dei meu primeiro beijo com ele. Nós não nos falávamos desde então. Não que eu não estivesse disposta a mudar isso. Mas são os fatos. E assim, eu dou a largada para o nosso primeiro ano como alunos do ensino médio. Divirtam-se.

Beijos da nova amiga,

Lolita.

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Recepção Calorosa Ok, ai vão as razões pelas quais eu definitivamente detesto o mês de fevereiro: a) Fevereiro significa que o verão está mais próximo do final, e logo vai começar a esfriar. E eu odeio frio; b) Final das férias de verão; c) Acordar às 6 da manhã é realmente estimulante; d) Ver os professores gritando é ainda mais; e) Lições, trabalhos, provas...; f) Quer mais alguma coisa? Agora, as razões pelas quais eu realmente gosto desse mês: a) Fevereiro também quer dizer que eu tenho alguma coisa pra fazer, afinal, mesmo que seja chato; b) Tem o carnaval; c) E eu vejo o Ricardo; d) É o mês mais curto; e) E eu vejo o Ricardo. Ponto. Mas naquele ano, especificamente falando, eu tinha uma razão a mais para amar e odiar o início de ano. Primas. Amadas primas. Vamos colocar da seguinte forma: eu sou filha única de pais separados. Meu pai é filho único, e a minha mãe tem três irmãs e dois irmãos, sendo que uma tia e um tio meus são solteiros. Meu tio mais novo é casado e tem uma filha de dois anos com uma argentina, motivo pelo qual ele e a família haviam se mudado pra Buenos Aires e vinham pro Brasil somente 9


em datas festivas. Minha tia mais velha tem três filhos, dois homens de 20 e poucos anos cada um e uma garota de uns dezoito, que não aparecia nunca há algum tempo. E a minha tia do meio tinha a Sabrina e a Giovanna. Nós três éramos muito apegadas pela própria falta de parentes mais próximos. Quando crianças, nós brincávamos juntas, brigávamos e até viajávamos juntas, como uma família normal. A distância aumentou um pouco quando meu tio foi transferido pra sede da sua empresa em Minas Gerais, e passamos a nos ver somente nos feriados e nas férias durante os quatro anos que se seguiram. E agora que ele tinha sido transferido de novo pra São Paulo, elas estavam de volta. E tão diferentes... A primeira impressão que eu tive quando olhei para as duas, sentadas no sofá da casa da minha avó materna, era de que estava olhando pra duas estranhas. Sem chance que tivessem mudado tanto em tão pouco tempo sem nos ver, mas tinham. E como. A Giovanna e a Sabrina eram ao mesmo tempo idênticas e opostas. O mesmo carisma, a atenção, facilidade pra lidar e encantar todo mundo, e aquele senso explosivo que é melhor não abusar. Os mesmos cabelos ondulados do meu tio, o mesmo formato da boca e o jeito de sorrir, a mesma palidez e o mesmo corpo magro. Mas enquanto a Sabrina era dócil, meiga e paciente, calma como ninguém, com os cabelos tão castanhos que pareciam chocolate, a Giovanna era louca, impulsiva e enérgica, quase tão loura quanto eu. E, naquele tempo que eu havia ficado sem vê-las, as diferenças estavam ainda mais evidentes. Nana (como nós chamávamos a Giovanna, apelido que ela odeia mais que tudo no mundo) era a mais velha, mas nunca tinha sido a mais alta. Nós três tínhamos exatamente a mesma altura desde sempre. Não agora. Ela tinha crescido uns quinze centímetros pra cima e mais alguns nas medidas laterais, criando formas de um jeito espetacular. Estava fabulosa. Mais do que eu me lembrava. 10


A Sabrina estava também mais bonita, mas de um modo mais delicado. Eu sabia que era cantora, que tinha sua banda lá pros lados mineiros, mas não sabia que ela só usava preto. Nem que as pontas dos seus cabelos estavam pretas. Nem que ela agora usava botas de plataforma pra ficar mais alta, porque tinha crescido tanto quanto eu em todos os sentidos e lados. E isso não era nada bom. As duas me olharam como se eu fosse um ET muito engraçado quando eu parei na porta e disse: - Oi! – sem a menor animação. Imaginei porque elas tinham me olhado daquele jeito. As duas eram verdadeiras moças, e eu tinha a mesma cara desde a quinta série. Fantástico para uma adolescente. - Carlota? – uma outra voz chamou, vinda da cozinha. Eu passei do rosado pro roxo, enquanto as minhas duas primas riam da minha cara – Venha até aqui pra eu dar uma olhada em você! Era a minha tia. Devia estar ocupada com alguma coisa do almoço, então eu fui até lá. Ela, minhas outras duas tias e minha avó estavam cozinhando, ao passo que a minha mãe ainda estava deixando a bolsa em cima da mesa. - Meu Deus, como você cresceu! – minha tia exclamou, e eu forcei um sorriso que diz “eu sei que você está mentindo, mas eu posso fingir ser educada” – Abigail, o que você fez com essa menina? Ela está linda! - Nem imagino! – minha mãe respondeu, meio distraída – Já deu oi pras suas primas? - Ainda não pude conversar com elas. – eu disse, adorando ter uma desculpa pra sair do ambiente que envolvia, acima de tudo, o uso do meu nome. - Então vá, elas estavam doidas pra você chegar! Só saí de fininho. 11


Elas ainda estavam rindo quando cheguei na sala. - Nem... – comecei, antes que elas abrissem a boca – Pensem...nisso! Giovanna se levantou primeiro pra me dar um abraço. Mal tinha passado os braços pelo meu pescoço e estava gargalhando de novo. - Que saudades da prima Carlota! – ela disse, e eu quis morrer. - Por favor, tudo menos isso! – implorei, me soltando pra abraçar a Sabrina. Ela, pelo menos, foi mais complacente. - Tudo bem, Lolita, a gente não brinca mais! – ela me prometeu. E é claro que eu duvidei. Bem, quanto ao meu apelido. Ele não era exatamente antigo. Até a sexta série, eu era a Lota. Pior do que ter um nome escroto é ter um apelido escroto, e eu tinha os dois. Uma criança realmente realizada. Foi então que eu conheci o Ricardo. E me apaixonei. E senti a necessidade de mudar de vez aquele apelido. Passaram a me chamar de Lola. Um dia, alguém foi brincar comigo e me chamou de Lolinha, e a coisa pegou até que virou Lolita. E sou Lolita desde então. Pra todos. Até pros professores. - Como vocês estão? – eu perguntei, por fim, me sentando no sofá com elas. - Cansadas da viagem. – a Giovanna respondeu, passando as mãos no cabelo, que estavam mais ou menos na altura do ombro. - Sua mãe te contou que nós vamos estudar juntas? – a Sabrina parecia animadíssima. Pelo menos alguém estava. - Ela comentou. Aliás... – e então me lembrei – Todas as três juntas, certo? Você repetiu de ano, Nana? - Infelizmente, Carlota. – ela enfatizou meu nome, pra me lembrar que, se eu usasse o velho apelido, ela me chamaria pelo nome. Eu apenas dei risada – Acontece. 12


- Por quê? – quis saber. - Deixa o ano começar e você vai entender por quê. – deu um sorriso felino – Se você passar do primeiro ano, seu futuro está garantido. Ela parecia ter muita certeza disso. Me deu medo. Na manhã do dia 3 de fevereiro, primeiro dia de aula, lá estava eu, sentada no ônibus escolar, parada no trânsito, ao lado da minha melhor amiga, Bela. Que estava, como quase sempre, reclamando. - Ela simplesmente foi até o meu quarto... – estava dizendo. Eu não sabia bem se prestava atenção ou não – Sentou na droga do meu computador e começou a mexer, como se fosse dela. Falou que ia mandar não sei o que pra biscate ou qualquer coisa assim. Eu querendo dormir e ela lá, toda poderosa. - Sério? – eu bocejei, sem o menor interesse. A parte simples de ser amiga da Bela é que você não precisa falar nada se não quiser, e ela não se sente ofendida. Você pode dormir enquanto ela narra as coisas e ela não liga, desde que você deixe ela falar. E ela odeia que as pessoas dêem opiniões nos seus assuntos, o que facilita um bocado. A parte ruim, obviamente, são todos aqueles monólogos demorados e incessantes sobre a sua vida ruim e destruída convivendo com a irmã gêmea-porém-nada-parecida, que a família protegia enquanto ela era sempre a cinderela da história. Escutar reclamações diárias sobre tudo e ouvir o nome da Suellen cinqüenta vezes por dia não era uma tarefa fácil. - Eu tentei falar pra minha mãe tirar ela de lá, mas é claro que ninguém fez nada, porque era a Suellen, e se é a Suellen, então ta tudo certo! – foi em frente. Eu bocejei de novo e fechei os olhos – Ai sabe o que foi que eu fiz? - O quê? 13


- Fui lá e dei uns tapas nela pra ela sair do meu quarto. E sabe o que eu ganhei com isso? - Nem imagino... - Castigo. Duas semanas. Sem merda nenhuma. – e ela bufou – Aquela vaca entra na porra do meu quarto, mexe nas minhas coisas e sou sempre eu quem se fode. Eu devo merecer, devo merecer mesmo! - É... Pra que me preocupar em responder, afinal? Não ia mudar nada. - Ah, eu esqueci de te contar... Ótimo,lá vamos nós de novo. Abri os olhos e fingi estar meramente interessada. - O quê? – perguntei. - Eu vi a lista da nossa sala na semana passada. – Bela me respondeu – Quando eu vim pegar as camisetas do uniforme. - E? - Só tem uma sala de primeiro ano. E o Ricardo está nela. Se eu não estava interessada antes, agora eu estava. Muito. - O Ricardo? – de repente era bastante difícil respirar – O Ricardo? - Ricardo, lindo, perfeito, seu primeiro beijo, sua paixonite, sim, este Ricardo! – a Bela riu da minha expressão maravilhada, e depois ficou séria de novo – Você sabe que eu não acredito realmente que alguma coisa vá mudar, né? - Bela! – nós discutíamos sempre sobre isso. Todo dia de toda semana de todo ano eu tinha esperanças de que o Ricardo simplesmente iria se lembrar de que nós tínhamos um dia sido um casal muito fofo, e então viria falar comigo de novo. A Bela acreditava que eu estava pirando. Até agora, ela estava vencendo – Pára com isso, beleza? - Você... – começou, e eu nem dei chance de ela completar. - Sou a mais idiota desse mundo, legal! 14


- Segunda mais idiota. A primeira é a Suellen. - O que te faz pensar que ele vá me ignorar agora que nós estamos na mesma sala? - Lolita, sinceramente? O que faz você pensar que isso vai mudar alguma coisa? O cara ficou com você na sétima série, maravilha! Ele te ignorou depois disso! - Me aguarde, Bela! – eu dei um sorrisinho malicioso – Eu vou mudar isso, você vai ver! Mas eu não tinha nada em mente. Absolutamente nada. É, ele me ignorava já tinha muito tempo. Nunca mais nos falamos desde que ele decidiu terminar comigo por motivos que eu nunca entendi. Ele já tinha namorado mais garotas da escola do que eu podia contar, enquanto eu... Era a maior perdedora do Santa Rita (nossa escola). Nunca fiquei com mais ninguém. Portanto, o Ricardo não só tinha sido o primeiro cara da minha vida como também tinha sido o único. Um dos motivos pelos quais eu ainda era tão apaixonada por ele. O ônibus parou na frente do colégio e nós fizemos fila pra sair. Na minha frente, estava o Diego, tão mudo como sempre. Ele murmurou um “oi” e ajeitou os óculos na cara antes de descer do ônibus, e então eu desci, seguida da Bela e da Suellen. O Colégio de Ensino Católico Santa Rita de Cássia era uma escola particular dirigida por um padre idoso e estranho que quase nunca era visto. Havia dois prédios, um onde eram as salas de aula – de 5ª série a 3° ano do ensino médio -, e outro que servia de abrigo para as freiras que ajudavam na direção da escola. Mas é claro que, ao contrário do que qualquer um poderia pensar, o Santa Rita não era regado a bons modos e alunos certinhos. Longe disso. Era um verdadeiro antro de adolescentes endiabrados e causadores de 15


problemas, e eu tenho que admitir que fazia parte dessa turma. Da pior turma, pode-se dizer. Tão logo passei pelos portões brancos da entrada, sob o olhar severo da irmã Matilde (a inspetora mais detestável do mundo), me senti em casa. E tão logo olhei pro pátio principal, percebi que a minha assim chamada “casa” ia virar de pernas pro ar logo, logo. Certo, elas não tinham uniformes. Mas por que diabos a Giovanna tinha que me aparecer com uma blusinha com um decote daquele tamanho? E, principalmente, por que a Sabrina estava usando um crucifixo do tipo gótico na porra do pescoço dela? Não entendeu? Vou explicar. Por ser um colégio católico, o Santa Rita tem certas normas estúpidas de etiqueta para a vestimenta e acessórios, que dita coisas como “não usar excesso de maquiagem” para as meninas, “não usar bonés” para os garotos, “não usar brincos demasiado grandes”, “não usar acessórios ofensivos” (como o caso do crucifixo, que parecia ter saído direto de um centro de macumba) e, principalmente, respeitar o uso dos uniformes. Quando o aluno não tivesse posse de uniforme, “utilizar roupas respeitosas” era a regra. E elas estavam ali, paradas, quebrando duas regras numa única vez. Eu estava surpresa de ainda estarem ali, pra falar a verdade. A Bela já tinha sido mandada de volta pra casa por vir com uma camiseta de banda um dia! - Bom dia! – eu disse, e as duas sorriram pra mim. Pude ver a Giovanna escaneando a Bela de cima abaixo. - Bom dia. – elas disseram, quase ao mesmo tempo. - Então... – eu queria rir, mas me segurei – Não foram expulsas ainda? - Quase. – a Giovanna respondeu, de um jeito tão desdenhoso que deixava bem claro que precisaria de muito pra expulsa-la dali. 16


- A Giovanna ameaçou processar o colégio. – a Sabrina nos explicou, rolando os olhos. Do meu lado, a Bela fez uma careta, enquanto a Giovanna se divertia com a própria atitude. - Foi muito hilário! – ela disse – Fala sério, Lolita, que negócio é esse de código de vestimenta? Ninguém me diz o que eu visto ou não! - Certo... – resolvi mudar de assunto – Ahn, Giovanna, Sabrina, essa é a minha amiga Belatriz. Bela, minhas primas. - Oi. – a Bela disse, ainda parecendo meio assustada. Ou enojada. Ou ambos. Então o sinal tocou, e nós seguimos a massa de alunos até o prédio I, onde ficavam as salas de aula. Seguimos as indicações até chegarmos ao terceiro andar. A nossa sala ficava exatamente de frente pra sala da Madre Teresa (não, não é a de Calcutá, pode apostar. A mulher é um animal de tão ignorante), e eu pude apostar que não era mero acaso. Nossa sala sempre causava problemas. Me acomodei na fileira da parede, mais ou menos no meio. A Bela se sentou atrás de mim, a Sabrina atrás dela, e a Giovanna na última carteira, como eu já esperava. Ao meu lado, estava o Daniel e o Willian logo à sua frente. As primeiras carteiras eram, como sempre, ocupadas pelo Diego e pela Lana, o casal mais estranho que eu já tinha conhecido. Do outro lado da sala, a Suellen e a Lua cochichavam e riam meio alto demais. Foi ai que a coisa mais incrível do mundo aconteceu. As duas últimas pessoas entraram na sala. Uma delas era o professor de química, um cara estranho e muito parecido com o Einstein. A outra era o Ricardo. Ele entrou todo ereto, poderoso e lindo no uniforme branco e verde-claro do Santa Rita, com a mochila azul surrada nas costas e um caderno preto nas mãos. Estava sorrindo aquele sorriso que me matava por dentro, e caminhou na minha direção. 17


Ou na direção dos amigos? Afinal, eles estavam do meu lado. Mas foi na minha frente que ele sentou. E definitivamente foi pra mim que ele se virou, ainda sorrindo, e disse: - Oi, Lolinha.

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Jogo de Interesses OXIGÊNIO, ONDE DIABOS ESTÁ VOCÊ QUANDO EU PRECISO? Eu abri a boca pra responder, enquanto ficava vermelha como um pimentão, mas o meu cérebro não conseguia processar nada coerente pra responder. Ao invés disso, ele ficava gritando repetidamente: ELE FALOU COMIGO, ELE FALOU COMIGO, ELE FALOU COMIGO, ELE FALOU COMIGO, ELE FALOU COMIGO, ELE FALOU COMIGO, ELE FALOU COMIGO, ELE FALOU COMIGO, ELE FALOU COMIGO, ELE FALOU COMIGO, ELE FALOU COMIGO!!!!! - E ai, cara? – escutei o Willian dizer, e eu o amaldiçoei por existir. O Ricardo respondeu, inicialmente sem desprender os olhos de mim: - Beleza? – só então se virou, e cumprimentou o amigo – Fala, Dani! - Tudo tranqüilo! – o Daniel disse, batendo na mão do Ricardo – E tu, Lolita? Demorei alguns segundos pra perceber que o Daniel estava falando comigo. Eu me virei pra ele e dei um sorrisinho. - Eu to legal. – minha voz saiu aguda, tímida. Que beleza! - Depois de dois anos... – o Ricardo disse, e eu travei – Estamos na mesma sala de novo. Legal isso, né? - É... – foi o máximo que eu consegui dizer. Então o professor começou a falar e todo mundo calou a boca. Desnecessário dizer que eu não escutei uma única palavra de nada do que o professor estava dizendo. Não precisava. Não queria. Eu tinha 19


um ser humano absolutamente perfeito bem na minha frente, que tinha falado comigo, e isso era tudo de mais importante! O resto era o resto. Quando o sinal tocou anunciando o intervalo e os três garotos já estavam fora da sala, a primeira coisa que eu fiz foi me virar pra Bela, enfiar o dedo na cara dela e dizer, bem alto: - EU DISSE! Ela deu um tapa no meu dedo e fechou a cara. - Isso não quer dizer nada! – insistiu - Ele disse duas frases inteiras pra você e você respondeu como uma débil-mental. Maravilhoso! - Quem era aquele? – a Giovanna perguntou, então. - É a paixonite da sua prima. – a Bela respondeu, com um risinho sarcástico. - Esse é o cara do primeiro beijo? – foi a vez da Sabrina perguntar, meio impressionada. Eu confirmei – Meu Deus, Lolita, ele é muito gato! - Realmente! – concordei. - Você simplesmente tem que ficar com ele de novo! - Esse é o plano! - Eu acho injusto! – a Giovanna brincou, fazendo beicinho – Se você pegar o mais gato, o que sobra pra gente? - Os menos gatos? – sugeri, e ela me deu um tabefe na cabeça. Me levantei e nós quatro saímos da sala em direção às escadas – Tem outros nessa escola! - Não vi nenhum até agora! - A Gi está com crise de carência! – disse a minha outra prima – Ela quer um alvo pra chamar atenção! - A Gi não precisa de um alvo pra chamar atenção! – exclamei, inconformada – Duvido que você não seja a mais cotada antes do fim do mês! 20


- Obrigada pelos elogios, mas mesmo assim. – e então suspirou – Não tem graça chamar atenção só por chamar. Eu quero chamar a atenção de alguém! A Bela empurrou as portas do refeitório e apontou para a massa de alunos do ensino médio. - Então sirva-se. Nós quatro rimos e fomos nos sentar na única mesa livre que pudemos encontrar. Mal nos acomodamos e a Lana surgiu, os cabelos negros presos num rabo alto, os olhos verde-escuros brilhando, um sorriso perfeito no rosto. Carregava uma sacola como se a mesma fosse sua vida. - Oi meninas! – ela disse, e se sentou conosco. - E ai, Lana? – cumprimentei. A Bela apenas deu um aceno e um sorriso desajeitados – Minhas primas, Sabrina e Giovanna. As duas sorriram. - Primas? – Lana as estudou com olhos cuidadosos, provavelmente procurando por alguma semelhança entre nós – Bem, nesse caso, acho que você vai querer levá-las pra minha festa, certo? - Festa? – os olhinhos da Giovanna brilharam. Pelo visto, “Festa” era a palavra mágica. - Eu faço quinze anos no mês que vem, então vai rolar uma festa pra comemorar. – então tirou dois convites prateados de dentro da sacola, dando um para mim e outro para Bela. Em seguida, pegou mais dois e entregou um pra cada uma das minhas primas. - Rebecca? – Sabrina leu, rindo. - Pelo menos você é mulher! – a Giovanna exclamou, erguendo as sobrancelhas finas – João Felipe? Ta brincando! - São da sala do meu irmão, eu não preciso realmente convidá-los se eu não quiser! – a Lana não parecia se importar. E, outra vez, os olhos da minha prima brilharam. 21


- Irmãos? – indagou – Você tem irmãos? - Dois mais velhos. – Lana me olhou, e depois novamente para elas – Por quê? E as minhas duas primas já estavam com aquela cara de quem está planejando algo. - Onde? – Sabrina perguntou, e a Lana esticou o pescoço pra encontrá-los. - Ali. – e apontou pra uma mesa do outro lado do refeitório, onde dois garotos nada parecidos estavam sentados – Bom, vou terminar de entregar meus convites. Até depois, meninas! E, enquanto a Lana ia embora, as outras duas já estavam confabulando. - Você! – e a Giovanna apontou direto pra mim – Você conhece aqueles dois? - Ah, sim! – eu disse, baixando o dedo dela. Ao meu lado, a Bela ria. - Do que você ta rindo? – a Sabrina perguntou, rindo também, ainda que não soubesse por quê. Ela fazia isso com freqüência. - Posso responder, Lolita? – Bela me perguntou, soando petulante. Eu lancei-lhe um olhar fuzilante. - Não começa! – adverti, e ela gargalhou. - Agora eu quero saber! – minha prima mais nova insistiu – Qual é? - É tudo mentira! – eu quase gritei, ao mesmo tempo em que a Bela dizia: - Todo mundo sabe que o Edson morre pela Lolita, e só ela não quer enxergar isso! - Qual deles é o Edson? – a Nana quis saber, encarando a mesa onde os dois estavam sentados, ao mesmo tempo em que roia as unhas. - O cabeludo, mas é claro que isso é o maior papo furado! – respondi, indignada e corada, o coração acelerado pela mera menção ao 22


assunto – O cara pediu pra ficar comigo uma vez, na festa de 13 anos da Lana, mas e daí? A gente não se fala direito a um bom tempo! - Vocês eram melhores amigos! – Bela observou, e eu gaguejei um pouco pra tentar encontrar algo que se opusesse àquilo. - É, mas, bom... – bufei, enquanto as três riam da minha cara – Olha, já faz tempo, ta? Ele simplesmente parou de falar comigo. Ponto. - Então você não ia, sei lá, se importar se... – a loira sugeriu, e eu me apressei em negar. - Claro que não! Vai fundo! - Então que tal uma ajudinha? - Que tipo de ajuda? Ah, sim, eu acabo de arranjar mais uma razão pra odiar MUITO o mês de fevereiro. Querem saber qual? PORQUE, A PARTIR DESTE MÊS, EU TENHO QUE ME EMPENHAR EM SER NOVAMENTE A MELHOR AMIGA DO EDSON, PRA QUE AS MINHAS PRIMAS TENHAM CONTATO COM ELE. Ótimo, realmente ótimo ser usada dessa maneira. Então, naquele dia, eu “acidentalmente” perdi o ônibus da escola pra casa. No ponto de ônibus do outro lado da rua, estavam a Lana, o Henry e o Edson, e lá fui eu. - Que foi? – a Lana pareceu bem surpresa em me ver, mas nenhum dos outros dois pareceu mostrar real interesse. Eu me postei entre ela e o Edson, que sequer se moveu – Perdeu o ônibus? - Pois é... – eu disse, sem ânimo, remexendo minhas coisas em busca de uns trocados – Então, lá vamos nós. Então, fez-se silêncio. 23


Olhei pro lado – e pra cima, o Edson era um cara bem alto – e decidi que talvez fosse uma boa hora pra dizer alguma coisa, puxar assunto com ele, já que eu tinha me proposto a recuperar aquela amizade por não somente interesse próprio. Ele deve ter sentido que eu o estava encarando, porque baixou os olhos e me olhou, de um jeito estranho, difícil de entender. - Tudo bom? – eu perguntei. - Tudo. – ele respondeu, com aquele tom de voz de quem conta uma piada. Riu consigo mesmo – Você fala comigo agora? - Você fala comigo agora? – retruquei, e ele ficou sério de novo. - Eu achei que você preferisse...outras companhias. - Achou errado. – fiz sinal pro meu ônibus, que vinha vindo – Talvez você precise fazer terapia pra parar de achar tanto. E me ouvir, só pra variar. - O que você... – ele começou a falar, mas o ônibus parou e abriu a porta. - Tchau! – e dei um sorriso falso, amargo. Subi, corando e bufando. É, eu não tinha contado nem um quarto da história real pra Giovanna e pra Sabrina. Tinha muito mais confusão no rolo eu-Edson do que elas poderiam jamais imaginar. Era algo que eu odiava me lembrar, pois tinha sido estúpido. Sim, nós dois éramos melhores amigos. Até uma certa época, antes do Diego entrar na escola e grudar na Lana e eles começarem a namorar, eu, ela e a Bela éramos companheiras pra praticamente tudo, então eu estava quase sempre enfiada na casa de uma das duas. Foi por isso que eu comecei a conversar com o Edson. E ele se mostrou um cara legal, fácil de lidar, de conviver. A gente conversava muito, e sempre, e ele sabia tudo sobre mim e eu sabia tudo sobre 24


ele. Quando eu tinha onze anos e ele treze, ele me fazia escutar os clássicos do rock com ele, enquanto a gente jogava tranca ou 21, esperando a Lana tomar banho, ou a Bela chegar pra fazer algum trabalho. Viramos super-amigos. É claro que isso implicava em contar segredos, e nós não tínhamos problemas com isso. O Edson foi um dos primeiros a saber das coisas mais idiotas e/ou importantes da minha vida, tipo meus micos, minhas paixonites, até a minha primeira menstruação – ele riu bastante dessa. E eu também fui a primeira a saber sobre o primeiro beijo dele, as coisas que ele aprontava, as garotas que ele ficava afim, as mentiras que ele contava pros pais. Até, claro, o Ricardo surgir na minha vida. Eu me apaixonei na mesma semana, e na mesma semana, o Edson ficou sabendo. Ele aprovou de início, mas começou a encher muito o meu saco depois de conhecer o Ricardo – disse que ele não era pra mim, que eu merecia cara melhor. Quando o Ricardo pediu pra ficar comigo e eu aceitei, tudo o que ele fez foi aquela expressão de “eu te disse”. Quase não quis ouvir quando fui contar sobre o primeiro beijo. Parecia com raiva. Eu descobri o que estava errado na festa de aniversário da Lana, dois dias depois. Ele me chamou pra conversar e disse que estava afim de mim. Pediu pra ficar comigo. Eu não aceitei, disse que não podia, que não queria, que ele sabia de quem eu gostava. Deixei ele falando sozinho no mesmo quarto dos fundos onde tantas vezes a gente tinha passado horas jogando videogame, e fui atrás do Ricardo. O Edson nunca me perdoou por isso. Não por ter negado, mas por ter sido grosseira – sim, eu fui – e principalmente por ter dado as costas a ele. Nossa amizade acabou ali. Céus, eu devia parecer mesmo muito cretina aos olhos dele! Mas o que havia de errado em reatar uma amizade, afinal? Por interesse? Tudo. 25


- Certo, vamos por partes! O que era mais estranho àquela altura do campeonato? Eu estar me aproximando do Edson pra ajudar as minhas primas a chegarem nele, ou a Lana estar me ligando no meio da tarde, depois de um dia cheio de tarefas? - Do que você está falando? – perguntei eu, sentando no sofá. - Lolita, o que foi aquilo hoje? – ah, sim, era disso – Você e o meu irmão não se falam há, tipo assim, dois anos! - É, eu sei. – suspirei – Sei lá, mas é estranho, certo? - O quê, vocês não se falarem ou você ter falado com ele hoje? Pessoalmente, eu acho a segunda opção muito mais estranha! - As duas coisas. Você não acha que ele foi, sei lá, muito radical? Tipo, estragar a amizade por nada? - Não foi por nada! – a Lana deu uma risada inconformada – Lolita, meu irmão realmente gostava de você! Você podia ter feito tudo com ele, menos ter sido tão direta! Machucou pra valer! - Ta bom, Lana, mas olha quanto tempo já passou! – insisti – Ele também não foi nada fácil, você sabe! - Olha, vocês que se resolvam! – exclamou, por fim – Mas sério, o que te deu hoje de simplesmente perguntar alguma coisa? - A questão é o que deu nele pra ter me respondido! – rolei os olhos – Eu não estou fazendo isso só por mim. - Suas primas? - É. Você ta bem perceptiva, hein? - Eu tento. Você acha que usar o meu irmão desse jeito vai adiantar pra alguma coisa? - A usada aqui sou eu! E, sinceramente, eu não sei. Você acha que elas têm alguma chance? - Eu não sei, é...perai! 26


O telefone ficou mudo um instante, depois escutei a Lana gritando alguma coisa. Mais uns segundos, e ela pegou o telefone de novo. - Ah, Lolita... – ela parecia com vontade de rir. - O quê? – fiz uma careta, e então outra voz entrou na linha. - Lana, desliga. – epa! Que maravilha! - Oi, Lolita. – o Edson disse, do outro lado da linha – Lana, desliga! - Tudo bem, calma! Ouve um barulho chato de telefone sendo colocado no gancho, e então silêncio. Eu estava petrificada demais pra falar. - Eu achei besteira ir pra terapia, então achei melhor... – ele bufou, e parou por um minuto. Eu não conseguia falar – Achei que talvez eu devesse te ouvir. - Eh... – consegui soltar, e aos poucos as palavras vieram – Obrigada. Eu acho. - Sou todo ouvidos. – afirmou então. Certo. Desculpas, explicações, motivos, e o mais importante, pedir pra tentar de novo, de modo que minhas primas – principalmente a Giovanna – não me matassem completamente. - Edson, olha... – era bem difícil. Principalmente porque eu não sabia se me arrependia do que tinha feito – Eu sei que não tem desculpa. Pro que aconteceu. Há dois anos atrás. Ele fez um muxoxo, e eu tive que aceitar isso como resposta. - Foi tudo muito do nada, você entende? – continuei – A gente era amigo, e você sabia das coisas que estavam acontecendo, então eu meio que não pude reagir diferente quando você me disse...aquilo tudo. - Você sabe que não foi esse o problema! – ele disse, com a voz amarga. - É, eu não fui legal em te deixar falando sozinho! – concordei, a contragosto – Mas, na boa, o que você queria que eu fizesse? Que eu ficasse ali, olhando pra sua cara sem dizer nada? 27


- Não, mas... - Então pra que tanta frescura? – agora eu estava empolgada – A gente era tão amigo, Edson! Eu sei que eu errei, e eu realmente quero que você me desculpe por isso! Agora, será que dá pra gente esquecer o que ficou pra trás? - O que você quer? - Ser sua amiga de novo. Talvez não como antes, mas...sei lá, no mínimo que a gente se fale, né? Um minuto de silêncio. - E ai? – insisti, o coração apertado. - Acho... – ele disse, baixinho, e depois mais alto – Acho que sim. - Ótimo. – eu sorri, mais aliviada do que acreditei que estaria – A gente se vê na escola. E desliguei. - E ai eu desliguei o telefone. – eu terminei, com um suspiro, de contar o acontecimento daquela tarde na manhã do dia seguinte, no ônibus, pra Bela. Ela estava quase tão em choque quanto eu. - Vocês são estranhos. – concluiu. - Você é estranha! – brinquei – E o castigo? - Numa boa. Eu ainda tenho o meu violão. - Você não sabe tocar violão, de que adianta? - A sua prima...como é mesmo o nome dela? - A Sabrina? - Ela sabe. Disse que vai me dar umas aulas. - Bom... A conversa parou por ai. Chegamos na escola praticamente ao mesmo tempo em que a Lana chegava com os irmãos. Pela primeira vez em algum tempo, eu 28


andei diretamente até eles, ao invés de esperar que a Lana estivesse sozinha. Os três sorriram quando eu me aproximei. - Oi, Lolita. – o Henry disse, me dando um beijo rápido no rosto, antes de entrar no Santa. - Bom dia, Lolita! – a Lana exclamou, com a voz animada e um sorriso presunçoso. Eu fiz de conta que não percebi e a cumprimentei, e então ela também adentrou o colégio. Demorou um instante antes do mesmo acontecer com o Edson, fosse porque nem eu nem ele sabíamos como começar, fosse porque era realmente estranho estarmos nos falando de novo. Por fim, eu me cansei e tomei a atitude. - Oi. – eu disse, como quem insinua que cumprimentar os outros é também uma questão de educação. - Oi. – ele me respondeu, com aquela cara de quem ainda não consegue acreditar que tudo está do jeito que está. - Então... – eu comecei a dizer, e ele me interrompeu. - Sem brigas. – declarou, e eu pude respirar aliviada – Numa boa. Do zero. - Valeu. Me virei pra entrar, e ele veio atrás de mim. Me senti como um verdadeiro ET, sendo observada por cada um dos rostos fofoqueiros do Santa Rita. Enquanto subíamos as escadas, passamos pela Ariane, uma garotinha detestável do segundo ano que sabia tudo da vida de todo mundo. Toda intriga que começava tinha que obrigatoriamente passar por ela, portanto nunca se sabia o que era ou não verdade das coisas que rolavam de boa em boca no colégio. Quando chegamos ao pátio principal, a coisa piorou. Porque, pelo visto, todos já estavam alertas à nova mudança nos fatos, do mesmo modo como tinham estado quando eu e ele paramos de nos falar. 29


De longe, vi a Suellen ficando meio boquiaberta, e a Lua cochichando qualquer coisa no seu ouvido. Vi a Lana se segurando pra não rir, ao lado do Diego, que parecia perfeitamente indiferente. Vi o Henry falando com os caras da sala dele, e virando pra nos olhar. A Bela olhava de um modo quase tão descrente quanto a irmã gêmea, e as minhas primas comemoravam. Principalmente, eu vi muito bem quando o Ricardo nos olhou de soslaio. Irritado, inconformado. Meu ego inflou ao pensar na possibilidade de ser ciúmes. Até que aquilo poderia ser de interesse geral, afinal. Eu fui me juntar às minhas primas e à Bela e, pra minha total surpresa, o Edson veio atrás. Largou a mochila no chão e se sentou entre mim e a Giovanna, que quase não conseguia disfarçar a animação. O silêncio se instalou por uns instantes enquanto eu e as meninas travávamos uma batalha com os olhos. Virei-me para a Bela. “Como isso é possível?”, os olhos dela me perguntavam. “Não sei”, os meus respondiam. Então, discretamente, olhei pra Giovanna. “Ele é gato!”, foi a primeira coisa que pude ler ali, enquanto ela olhava diretamente para o único homem na mesa. Depois me olhou, e a expressão mudou. “Você é genial!” A Sabrina parecia mais tranqüila. Partilhava da opinião da irmã sobre o Edson, mas não parecia tão fissurada quanto ela. De fato, quando nós nos olhamos, o que eu pude ver foi um “tanto faz”, seguido de um desesperado pedido: “Controle esta maluca!” Claro, isso seria perfeitamente possível! - Então... – o Edson disse, passando a mão no cabelo meio comprido de roqueiro dele – Primas, hã? E apontou pras duas. - Já chegou até você? – indaguei, não muito impressionada. 30


- As notícias decolam aqui dentro. – respondeu, simplesmente, meio que traduzindo meu pensamento. - Giovanna e Sabrina. - Oi. – a primeira disse, abrindo um sorriso capaz de fazer derreter o coração mais duro. A Sabrina se limitou a sorrir. Algo me dizia que agora eu não precisava mais me preocupar com aquilo. Por enquanto. - Você e o Met tão de rolo? – foi a primeira pergunta que me fizeram na sala. Era aula vaga de história, a professora tinha faltado. A Bela estava no banheiro, o Ricardo estava jogando Game Boy, e a Suellen e a Lua acharam que vir me incomodar era uma boa idéia. Agora eu estava de boca aberta, com a resposta na ponta da língua, e sem saber o que responder. E antes que alguém me pergunte, Met é o apelido que algumas pessoas deram ao Edson. Pra maior parte das meninas ele é simplesmente o Dinho, mas ele ficou bem rotulado por ser metaleiro, e como esse adjetivo era comprido demais pra ser usado em conversas casuais, foi abreviado simplesmente pra Met. - De onde surgiu isso? – eu resolvi perguntar antes. As duas trocaram olhares rápidos. - Ouvimos falar. – a Lua declarou, e eu sabia o que aquilo queria dizer. Que elas tinham inventado. - Vocês não se falam há, tipo assim, mil anos, Lolita! – a Su exclamou, rolando os olhos de um jeito que a fazia parecer muito, muito estúpida. Ela sempre parecia estúpida quando tentava mostrar que algo era muito óbvio – As pessoas falam! - Mas estão, não estão? – a Lua insistiu, e eu suspirei, voltando pra posição correta na carteira, encarando a parede (e o perfil do Ricardo) 31


– Ele sempre gostou de você, e agora que você e o... – eu lhe lancei um olhar penetrante e ela reformulou a frase – Agora que você ta solteira, sei lá, podia ser que... - Nem mais uma palavra! – pedi, e as duas ficaram sérias – Eu e o Met somos amigos e só. A gente voltou a se falar e só. Felizes? Não, acho que não. Mas elas saíram mesmo assim. Eu respirei fundo algumas vezes e fechei os olhos. Quando os abri de novo, o Ricardo estava me olhando meio intrigado. - O quê? – perguntei, tentando me conter e não deixar o coração bater rápido demais. - Nada. – me respondeu, baixando os olhos de volta pro Game Boy. - Claro... – murmurei, tentando não olhar pros olhos verdes concentrados, nem pras sobrancelhas claras franzidas, ou o cabelo brilhante e macio que eu tinha tanta vontade de tocar. Um minuto depois, ele voltou o olhar pra mim de novo. - É só que eu entendo porque elas vieram te encher. – o Ricardo disse, e foi a minha vez de ficar confusa. - E seria...? – perguntei. - Você está se comportando como se realmente houvesse alguma coisa a mais. - Mas não há! – eu ri, de um jeito meio histérico; ele era a última pessoa que eu queria que pensasse isso – Não mesmo! - É disso que eu estou falando! – e riu também – Você nega demais pra quem não tem nada a esconder. Se realmente não tem nada, você devia só deixar todo mundo falar. - Eu não gosto que falem de mim. - Eu sei. E ficou quieto, me olhando. Eu sustentei o olhar, sem me intimidar. 32


- Mas tem alguma coisa, certo? – o Ricardo perguntou, por fim, com um meio sorriso que quase me matou do coração – Vocês não voltaram simplesmente a se falar assim, do nada. O Met é um cara durão. Qual é? Eu abri a boca, mas não emiti som. Era melhor que ele soubesse logo que havia algum interesse – que não era meu!!! – em jogo, então ele veria que eu ainda estava lá, de um modo ou de outro, se é que me entendem. Então eu ri e, agradecendo pelo barulho na classe desocupada, respondi: - Tem. Só que ele não sabe. - E seria...? – insistiu, os olhinhos brilhando. Como ele pode ser tão lindo? - Eu me aproximei dele por causa das minhas primas que queriam conhecer ele. – contei. - A Lana está na nossa sala, pra que elas precisariam de você? – quis saber, e eu tive que pensar numa justificativa rápida. - Elas não conhecem a Lana e, bom, a Bela deu a entender que eu teria mais facilidade em lidar com ele nesse caso. - Você não acha que ele está se aproximando de você por sua causa? - Eu duvido que ele ainda tenha alguma coisa por mim. E, na boa, perto da Giovanna quem ia realmente querer saber de mim? O Ricardo sorriu e pareceu que ia responder alguma coisa, mas então desistiu e voltou a jogar. O sinal bateu e eu quis morrer. Por que a gente não tem super-poderes, tipo telepatia, numa hora como essas? Eu faria qualquer coisa pra saber o que ele estava pensando!

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As 7 Coisas que Não Se Deve Fazer Em Uma Festa E aqui vai um detalhe importante pra se atentar durante esta gloriosa narrativa: EU FAÇO SALTOS TEMPORAIS. Com freqüência. Sabe como é, pra não ficar enrolando no que realmente não importa e focar nos fatos que todo mundo quer saber. Não é como se todo dia fosse uma coisa impressionante de se viver, com fatos improváveis e coisa e tal. Não, alguns dias são somente dias. Então, vamos ao nosso primeiro pulo no tempo que nos leva da primeira e turbulenta semana de aula até a primeira semana de Março. Viva! Depois de mais um carnaval estúpido sem nada de interessante pra fazer, estávamos todos de volta à escola, na semana que precedia a primeira e tão ansiada festa daquele ano. Dos 300 alunos do Ensino Médio do Colégio de Ensino Católico Santa Rita de Cássia, pelo menos 200 estavam convidados. Seria uma festa grande, com cerimonial praticamente nulo e presença quase zerada de adultos. O que era basicamente a condição padrão pra uma festa absolutamente inesquecível segundo os padrões dos alunos daquela escola. E a Lana, é claro, estava a todo vapor. - Ah, meu Deus, está chegando!! – ela exclamou, na segunda-feira de manhã. Eu e o Edson (nos falando ainda, calma e freqüentemente) quase rimos. Quase. 35


- Caramba, será que vai dar tudo certo? – ela perguntou, a ninguém em especial, na terça. - Meninas, vocês vão, né? – foi quase uma intimação, na quarta. A Giovanna deu a entender que só iria se tivesse certeza de que algo aconteceria com certo alguém. Não tenho certeza se o certo alguém, sentado entre nós duas (aquilo estava se tornando um hábito muito estranho!) percebeu a indireta. - Eu tenho que pedir pro Diego anotar as coisas pra mim na sexta, eu não vou vir... – comentou, ao acaso, na quinta. E eu fico me perguntando o que ela teria dito se tivesse aparecido na sexta-feira, às vésperas da festa. Não, melhor não imaginar. O fato é que, na sexta-feira, não se falava em nada mais na maioria das bocas dentro da escola. Bilhetes voavam e garotas planejavam com ansiedade suas roupas, suas caronas, o que dar de presente, quem queriam conquistar. E é claro que isso incluía... Bem, a mim. E à Giovanna, claro. E à Sabrina, e à Bela. Ainda que essas duas últimas não estivessem realmente a fim a planejar o que fosse. - Você acha mesmo que tem chance, Lolita? Sério? Por isso eu amo tanto a Belatriz. Sempre tão positiva. Sempre me colocando tão pra cima. É emocionante, sabe? - Sim, eu acho. – respondi, convicta e sem emoção. Ela balançou a cabeça e saiu da sala. Estávamos na sala do meu minúsculo apartamento, que eu dividia com a minha mãe apenas. A Giovanna estava fazendo as minhas unhas enquanto a Sabrina terminava a lição de geografia de nós quatro, e a Bela 36


se contentava em ver defeito em tudo. Era sexta-feira e nós estávamos discutindo as possibilidades da noite que viria. A Giovanna parou de repente, com o vidro de base na mão esquerda. Ela olhou pro corredor por onde a Bela tinha entrado e monitorou, até que ouviu uma porta se fechando. Então virou-se, irritada, pra mim: - Como você agüenta? – ela perguntou, num sussurro. A Sabrina reprimiu um riso. - Ela só ta desse jeito porque ela ta tentando pegar o Willian há um tempão e não consegue! – sibilei de volta, igualmente irritada. - Então, mudança de planos! – destampou a base e começou a passar nas minhas unhas – Se a gente quer fazer isso funcionar, essa garota vai ter que desencalhar. E vai ser amanhã! - Sem chance! – a Sá comentou, e ouvimos a porta se abrir. - Veremos! Eu não duvidaria da capacidade da minha prima mais velha. Principalmente quando ela tem tanta certeza. - Então... – a Bela disse, ainda no corredor, voltando pro sofá onde estava sentada – O que você pretende fazer? - Eu? –indaguei. - É. - Não sei ainda, mas eu to te falando, Bela! – insisti, pela milionésima vez, talvez – Eu vou ficar com o Ricardo amanhã. - Certo... - Você deveria tentar ficar com alguém ao invés de se preocupar com o que a Lolita vai fazer, sabe? – a Giovanna disse, como se só pra puxar assunto, tão séria estava. Ela era ótima! - Não sou disso... – minha amiga respondeu, apenas, e eu pude sentir certo nervosismo ali. 37


- Você nunca ficou com ninguém? – insistiu, e eu franzi a testa pra tentar não rir. Estava difícil. A Sabrina, trêmula de tanto se conter, não estava ajudando nem um pouco. - Que diferença isso faz? - Que diferença faz o que a Lolita vai fazer? Você deveria estar apoiando e procurando alguém pra beijar, pelo amor de Deus! A Bela deu um riso sarcástico. - Isso é tudo o que importa pra você? – perguntou, num tom ácido que ela geralmente dedicava somente à Suellen. - Não, o que me importa é se eu vou ou não ficar com quem eu quero. – minha prima respondeu, sem se abalar, ou sequer olhá-la – Eu tenho vida própria, acho que você sabe o que isso quer dizer. O clima ficou tenso, mas nenhuma outra palavra foi dita, até sobre isso até que a Bela foi embora, uma hora mais tarde. Quando isso aconteceu, a sala pareceu se esvaziar como um balão. A Nana se jogou no sofá, gargalhando, e eu não precisava perguntar para saber do que ela estava rindo. Até eu queria rir. - Certo, eis o que nós vamos fazer... – ela disse, quando parou de rir. Sábado, oito de março, aniversário da Lana, oito e cinqüenta da noite. Estamos paradas no trânsito adorável da cidade de São Paulo, atravessando a cidade para sair do bairro de Santo Amaro em direção à Mooca, onde vai ser realizada a festa. Eu odeio gente rica por isso: pode pagar por um lugar melhor e mais longe, e esquecem que as outras pessoas podem encontrar certa dificuldade em chegar até ele. Mas nós estávamos indo, e íamos chegar. Faltavam dez minutos pra festa começar oficialmente, então nós não estávamos assim tão atrasadas. Ainda. 38


Na realidade, estávamos a mais ou menos três quilômetros de casa e já estávamos paradas no trânsito. A gente não ia chegar NUNCA! É, eu estava meio nervosa com toda a perspectiva da noite. Tinha que rolar, tinha que dar certo! E não ia rolar e nem dar certo se eu simplesmente não chegasse! Tudo parecia conspirando contra nós. Eu, a Giovanna e a Sabrina nos remexíamos no banco traseiro do carro dos meus tios, bem-vestidas – porém, não bem comportadas – e contando os minutos que levava pra cada farol abrir, pra cada trecho congestionado passar. Já eram quase nove e quarenta da noite quando, enfim, meu tio parou na frente de um salão de festas mais do que chique. Requintado. E caro. Podia ver a Giovanna sorrir e soltar exclamações de surpresa enquanto a Sabrina só olhava tudo com muito interesse. Eu não estava muito certa de como estava reagindo – eu conhecia a Lana e a família dela há anos, nada daquilo era muito novo pra mim quando se tratava deles. Todas as festas eram grandes e chiques, por que a mais importante da única garota da família não seria? A entrada do salão era decorada com espelhos enormes e suntuosos, e uma luz baixa e meio avermelhada criava o clima perfeito pra festa que já rolava a toda do lado de dentro. Eu e meu singelo vestido preto de corte reto, sem muito decote ou algo a se mostrar, avancei na frente, um pouco mais confiante do que realmente me sentia. Quando alcançamos as portas principais, de vidro fumê, virei-me para encarar as minhas primas. Elas estavam muito mais bonitas do que eu. Não só por serem realmente muito mais bonitas. Mas também por se arrumarem deveras melhor. A Sabrina não deixava nada muito à mostra. Estava com um conjuntinho básico de calça legue preta e um top azul escuro bordado com contas mais claras, as costas protegidas por um bolero cinza chumbo. 39


Os cabelos escuros estavam amarrados num rabo alto, e brincos pesados de argola pendiam das orelhas. Só de olhar pras botas de bico fino dela, meus pés já doíam. E a Giovanna...bem, ela parecia uma super-modelo de qualquer maneira, certo? Tinha dado um corte no cabelo, e ele agora estava curto e desfiado pra todos os lados ao mesmo tempo, arrumados numa posição que lembrava a de quem tomou um choque, graças ao fixador. Lhe caía bem, como tudo. Incluindo o vestido vermelho apertado e curto, de uma única alça e decote em V, que deixava à mostra... Bem, tudo aquilo que todos os garotos queriam ver. E ela não estava nem aí. Simplesmente porque não precisava estar. Nada nunca importava pra ela, se alguém falava bem ou mal. Ela seria assunto de qualquer maneira. E, ao contrário do que aconteceria com qualquer outra garota naquele vestido, ela não parecia uma puta. Parecia ter saído da capa de alguma revista ousada. Nós três respiramos fundo e abrimos as portas de vidro para adentrar o salão, sendo recebidas por fumaça e música alta. Como já era de se esperar, a festa de quinze anos da Lana estava programada pra ser tudo o que uma festa de quinze anos não costuma ser: algo exclusivamente jovem. Não haviam parentes dela que não fossem primos de no máximo 20 anos, não havia traço de nenhum tipo de tradição, exceto talvez pelos banners gigantescos com as suas fotos estampadas, os fotógrafos e câmeras perseguindo-a por todos os lados, o jantar sendo servido numa extremidade do salão e seu vestido branco bufante como o de uma princesa, balançando alegremente quando ela veio nos receber. - Que bom que vocês vieram! – ela exclamou, mais alegre do que jamais a tinha visto, e nos abraçou – O pessoal ta todo por ai. Lolita, a Bela ta em algum lugar perto da mesa de som, e os garotos alvo da noite estão em pé em algum lugar perto do banheiro, então, mãos à obra, certo? 40


- Não se preocupe! – eu garanti, com uma piscadela nervosa. “Não se preocupe, porque eu já estou me preocupando bastante”, deveria ter dito. Eu estava uma pilha de nervos! - Vocês viram o Diego? – ela perguntou então, parecendo meio triste por um segundo, antes de sorrir para alguém e acenar. - A gente acabou de chegar, desculpe. – a Sabrina respondeu, e a Lana deu um sorrisinho torto, antes de começar a andar de novo em outra direção qualquer. Certo. Então a festa tinha começado. Pra valer! - Prontas, senhoras? – eu perguntei, meio nervosa, mas tentando soar como se fosse uma brincadeira. A Sabrina deu um riso abafado, enquanto a Giovanna empinou o nariz e pareceu ganhar ainda mais imponência. - Prontas pra arrasar. – ela me respondeu, e então nos olhou pelo canto do olho – Pelo menos finjam que vocês estão prontas, pelo amor de Deus! Olhei dela para a Sabrina, que já estava ajeitando a postura e erguendo o rosto, uma imitação perfeita da irmã mais velha. Sem chance que eu conseguisse ficar daquele jeito! Então, simplesmente respirei fundo e saí andando, com as duas em meu encalço. O estranho nisso tudo é que, apesar de toda a minha falta de preparação psicológica e evidente falta de jeito em relação às outras duas, todos estavam olhando para nós. Não pra elas, pra nós, como um todo. Por onde passávamos, os caminhos se abriam, os olhos fitavam primeiro a mim, depois a elas, fazendo crescer minha confiança. Talvez eu não estivesse assim tão mal. Quando alcancei a mesa onde a Bela estava sentada, meu estômago revirou, pois não havia somente uma cadeira ocupada. Haviam duas. 41


Na outra, estava o Edson, olhando de frente pra nós. Paramos em frente a eles e eu levei um segundo pra me lembrar de sorrir. Tudo parecia demais naquela noite, como se eu estivesse prestes a conquistar o mundo, ou cometer um crime. Tudo depende do ponto de vista. Olhei pra mais adiante da mesa, e vi um grupinho de garotos reunido. Na verdade, só vi um em especial. Ele era lindo de qualquer jeito. Era gato de uniforme, suado, sujo, cansado, feliz, triste e com raiva. Era fofo de todos os jeitos, perfeito independente do que estivesse fazendo. Mas o Ricardo de camisa branca e calça social era simplesmente... Sem palavras, meus amores! Foi então que a Giovanna puxou a mim e à Sá, dando as costas à Bela e ao Edson. - O negócio é o seguinte, meninas: - começou, e eu já sabia o que viria então – Se quisermos ter paz essa noite, a senhorita gótica aqui atrás vai ter que desencalhar. Então é hora do plano A. - Certo. – concordei, e nós duas olhamos pra Sabrina. - O que eu faço? – ela perguntou, meio histérica, meio desesperada. Quase me fez rir. - Senta lá e segura aqueles dois ali! – a Nana instruiu, o mais baixo que pôde sem que a voz fosse abafada pela música – Conversa sobre qualquer coisa, e a gente vai conversar com o Wilson. - Willian! – corrigi. - Tanto faz! - Por que eu tenho que segurar o Edson também? – a Sabrina quis saber, parecendo mais nervosa. - Porque eu não quero perder ele de vista, então fica fria! – a Giovanna pegou na minha mão e começou a me arrastar, enquanto a Sabrina ia se sentando, toda sorrisos, sem saber por onde começar. 42


1°: Não planeje rolos pras suas amigas sem a permissão delas. Pode não dar certo. Nós duas andamos alinhadas e perfeitas sobre nossos saltos finíssimos, em direção à extremidade do salão onde estavam reunidos os mais fantásticos e comentados garotos do Santa Rita. Além do Ricardo, o Daniel, o Willian e o Henry estavam presentes. Dois garotos lindos e bronzeados do segundo ano também estavam por ali. Cada um segurava um copo de cerveja. - Olá! – a Giovanna disse, com toda a simpatia que lhe cabia e seu melhor e mais irresistível sorriso. Os garotos retribuíram com curtos “ois” e olhares carregados de adoração por suas curvas – e, sem dúvida, pelo seu vestido!! - Willian, a gente pode levar um papo com você? – minha prima sugeriu, e a reação geral foi imediata. Socos no ombro, exclamações idiotas sobre sua sorte e todo esse tipo de coisa que só possuindo um cromossomo Y pra entender. - Claro, claro... – ele disse, e já começou a desarrumar o cabelo desgrenhado. Ele tinha a aparência desgrenhada, pra falar a verdade. O Willian era aquele cara que não tinha jeito, e aparecia numa festa daquele porte com os mesmos jeans de sempre, seu velho Adidas branco encardido e a primeira camiseta que encontrasse no armário. Tinha o cabelo escuro meio ondulado e olhos amendoados incríveis, que vez ou outra estavam estragados por alguma mancha roxa – olheira ou marcas de briga? Ninguém tinha certeza – ou uma vermelhidão de quem não dorme há dias – ou fuma há dias, quem sabe! E não parecia muito a fim de conversar. - E ai? – ele disse, e a minha prima suspirou. Caras normais não deviam dizer “e aí” para ela, geralmente. 43


Mas o Willian nunca contou na minha lista de caras normais. - Will, nós estamos com um pequeno probleminha. – ela respondeu, ainda muito simpática – O que quer dizer que você está com um pequeno probleminha. - O que eu tenho a ver com os problemas de vocês? - perguntou, confuso. A Nana me cutucou. - Uma amiga nossa está afim de você. – soltei, uma só vez, pra não ter que parar pra pensar ou medir as palavras. - Afim de mim? – e riu – Sei. - É a Bela. – concluí, e ele pareceu impressionado. - Belatriz? - É. - Irmã da Suellen? - É. - Afim de mim? - É! – bufei – Caramba, você é surdo? - Olha, o que nós queremos saber... – a Giovanna interveio a tempo de ele escapar de um tapa na cara – É se rola. Você e ela. - Não sei, ela é meio estranha... - Willian, você é meio estranho! – exclamei, irritada – Ela realmente quer ficar com você e não é de hoje. Só que ela é covarde. Nem sabe que a gente ta aqui falando com você. - Vai ou não? – insistiu a minha prima, e ele ergueu as sobrancelhas. - Não! – ele respondeu, quase num grito, e depois deu risada, parecendo meio sarcástico – Sei lá. Não. E nos deu as costas. A Giovanna bufou, parecendo uma bomba prestes a explodir a festa a pleno vapor. Consultei o relógio. Dez horas. - Hora do plano B. – ela me disse, e eu me limitei a concordar. 44


Tínhamos ido longe demais pra voltar atrás agora. Eu só esperava não me arrepender por isso. - Vou lá, então. – afirmei, e nos separamos: eu de volta pro grupo dos meninos, a Giovanna em direção à nossa mesa. Aquilo não ia prestar. 2°: Não tranque pessoas no banheiro feminino - Henry. – chamei – Você, o Dani e o Ricardo, venham aqui. Os três garotos se olharam e murmuraram qualquer coisa inaudível antes de caminharem até mim. Eu estava tensa. - Fala. – o primeiro disse, curioso. Dei uma olhada rápida para o Ricardo antes de dizer alguma coisa; ele estava sorrindo pra mim. E eu quase derreti. - Eu preciso da ajuda de vocês... – comecei, e percebi o quanto era estúpido pouco antes de dizer em voz alta – Pra trancar duas pessoas no banheiro. Certo, parecia muito mais estúpido depois de dito em alto e bom som! Dá pra entender porque os três riram antes de o Daniel me perguntar: - Quem? - A Bela e o Willian. – respondi, embora desejasse que não tivesse sido necessário. Os três uivaram e gargalharam ainda mais. Que ótimo! - Eu to falando sério! – insisti – Eu tentei por bem, agora vou ter que tentar por mal! - Tudo bem! – o Henry exclamou, ainda rindo tanto que estava a ponto de chorar – O que você quer que a gente faça? - Quando eu der o sinal, vocês vão dar um jeito de atirar esse garoto no banheiro feminino, ou no berçário, o que estiver mais próximo! 45


E ai, eu vou levar a Bela até lá, e é só uma questão de colocá-la junto. - Só isso? - Ahhh, não! Na verdade, preciso que alguém vigie a porta pra ninguém entrar ou sair dela. Eles pareceram relutantes, mas concordaram. Eu agradeci e voltei pra minha mesa – não sem antes sorrir muito pra um certo príncipe de olhos verdes. Quando cheguei, a Giovanna estava sentada entre o Edson e a Bela. O primeiro estava em dúvida se dedicava sua completa atenção a o que quer que a Sabrina estivesse dizendo animadamente, ou à Giovanna e sua beleza monumental. Pobrezinho. Devia ser mesmo difícil. As tentativas da Giovanna de roubar a atenção do Edson foram para o esgoto quando me sentei ao lado da Bela. Consultei o relógio: dez e quinze. Não devia ser muito cedo pra executar um plano maligno, certo? Quanto mais cedo, melhor. - Oi, Bela. – eu disse, sem conseguir disfarçar que tinha realmente alguma coisa errada. Ela me olhou com o canto do olho. - Oi, Lolita. – respondeu, suspeita – Ta tudo bem? - Excelente! - E o que ta rolando? Olhei pra Giovanna. Ela me instigou a responder somente a verdade. Ou parte dela. Virei-me para os garotos, que estavam me observando, e chacoalhei a cabeça de leve. Eles entenderam o recado. Então, de novo para Bela. - Tem alguém te esperando no banheiro. – afirmei, torcendo pra que a minha mentira não desse muito na cara. 46


Se bem que não era ao todo uma mentira. Se pararmos pra pensar, ele estaria esperando. Só que contra a sua vontade. E não sabia pelo que – ou quem – estava esperando. - Como? – ela indagou, com uma careta. - O Willian. – disse, então – Ele está te esperando. No banheiro. - Lolita, o que você fez? - Posso ter dado a entender que você queria ficar com ele... - O QUÊ? – e se levantou – EU VOU MATAR VOCÊ, CARLOTA RODRIGUES PAES! - Bela, relaxa! – e me levantei também – Vai até lá e fala com ele, não custa nada! Ele não está te esperando à toa, acho que ele também quer alguma coisa! - Ah, eu vou mesmo até lá! Mas é pra desfazer essa mentira absurda! A Bela começou a caminhar em direção ao banheiro, e eu fui atrás, seguida da Giovanna. - Eu não acredito que você fez isso comigo! – a Bela gritou – Você não podia, não tem nada a ver com você! Que droga, Lolita, por que você foi se meter na minha vida? Chegamos ao banheiro e ela olhou em volta. Não havia ninguém. Nem mesmo os outros meninos. Eles eram bons! - Cadê ele? – ela perguntou, num grito estridente. E então, as coisas aconteceram rápido. Primeiro, o Daniel surgiu do nada e girou a maçaneta do banheiro feminino. Depois, o Henry e o Ricardo praticamente pularam na nossa frente, cada um segurando um braço da Bela, e ela começou a gritar tão alto que poderia ter chamado a atenção de todos os convidados – se alguém sequer ligasse pra ela. 47


E então, ela também foi trancada no banheiro. Dois garotos que eu nunca vi na vida – provavelmente parentes por parte de pai do Henry, porque eram ambos louros de olhos verdes – apareceram para vigiar a porta. - Bom trabalho, garotos! – exclamei, vitoriosa, enquanto os murros na porta começavam, seguidos de gritos estridentes da minha melhor amiga, implorando pra sair. Não tão cedo, querida... 3°: Não dê as costas ao seu ex e novo melhor amigo sem ter algo para distraí-lo. Estávamos indo em direção à mesa quando topamos com a Sabrina, toda animada. - E aí, deu tudo certo? – nos perguntou. - Claro que deu! – a Giovanna respondeu, igualmente animada – Um plano de Giovanna Mendel Paes nunca falha! - Eu imagino! - Onde você ta indo? – perguntei, então – O banheiro ta interditado temporariamente! - Claro, claro! – ela riu – Eu vou buscar alguma coisa pra beber! Alguma coisa com alto teor alcoólico! - Então eu vou com você! – a Nana disse, e se virou pra mim – Você, vai lá fazer companhia pro Met. Nós não queremos perder ele de vista! - Você não quer! – corrigi – Tragam alguma coisa pra mim! - Sem problemas! Eu voltei para a mesa, onde o Edson ainda estava sentado, uma cerveja na mão, sem mostrar nenhum sinal de animação muito maior do que quando nós chegamos. Me sentei ao lado dele, sorrindo mais naturalmente do que esperava. 48


- E ai, o que foi aquilo? – ele me perguntou, e eu dei risada antes de responder. - Aquilo foi a Belatriz se descabelando pela minha tentativa de facilitar a vida dela! – respondi, e ele riu também. - Facilitar como? - Sabe como é. Tentando fazer ela ficar com o cara que ela quer. Não consigo entender por que isso seria ruim. - A Bela é estranha. - É. - Ta gostando da festa? - Ta legal. Bonita. – então meus olhos distraídos captaram algo, ou melhor, alguém acenando. Chamando. Alguém muito bonito. - Mas pode melhorar. – afirmei, sem pensar, e senti os olhos do Edson pesando sobre mim como uma bigorna de ferro. - Como? – indagou, curioso. - É cedo ainda, tem tempo pra ficar mais animado. – disfarcei, com um sorriso meio sem graça – Por enquanto, pode ficar melhor se as minhas primas aparecerem logo com a minha bebida! - O bar ta um inferno! – o Edson exclamou, e eu fiquei aliviada de ver que ele não tinha percebido que eu estava mentindo. - Considerando que mais da metade dos alunos do Santa Rita está aqui, dá pra imaginar... - Minha irmã chamou muita gente! Gente que ela nem conhece! - Até parece que você não estuda lá há, tipo assim, mil anos! – rolei os olhos – Quando tem uma festa, não interessa se você conhece todo mundo ou se todo mundo vai. Deixe de chamar uma única pessoa e você será linchado pelo resto do ano! - Ainda bem que eu faço aniversário em dezembro então! 49


Nós dois demos risada, e então ficamos quietos. Onde estava a Giovanna quando eu precisava dela, droga? Olhei de novo pra onde tinha visto o Ricardo. Ele ainda estava lá, ainda estava me olhando, e ainda estava me chamando. Fiz sinal pra ele esperar. - Quem é? – o Edson me perguntou, de repente, e eu tomei um susto. - Quem é o quê? – perguntei, soando completamente imbecil. - Você tava acenando pra quem? – insistiu. Merda! - Pra ninguém, eita! – dei um risinho nervoso – Piração! - Ta bom... E então, pro meu alívio, a Giovanna chegou. Sem a Sabrina, mas com a minha bebida, que eu não fazia a menor idéia do que era, mas peguei e bebi um gole mesmo assim. Era boa. - Cadê a Sá? – perguntei, após o primeiro gole – E o que é isso? - A Sá ta em algum lugar por ai, eu perdi ela de vista no caminho. – a Nana me respondeu, sentando-se aonde outrora a irmã estivera sentada – E isso se chama Espanhola. - Ah, ta, valeu. – esvaziei o copo no terceiro longo gole, e me levantei – Eu vou... procurar por ela. Aproveito e falo com a Lana, é capaz até de as duas estarem juntas. - É, vai lá! – a Giovanna instigou, naquele tom de “sai fora” clássico. E eu saí. Mas nem de longe fui procurar pela Sabrina. Meu caminho estava traçado em direção ao Ricardo, parado exatamente no mesmo lugar. E eu não estava preocupada se alguém – O Edson – veria alguma coisa. Ainda porque, ele estava ocupado, não estava? 50


4°: Não induza o namorado nerd da sua irmã a beber. - E aí? – foi tudo o que eu consegui dizer, quando me aproximei. Ele estava lindo. E cheiroso. E me esperando. - Achei que ia me trocar pelo Met. – o Ricardo disse, fazendo um beicinho lindo. Eu dei risada e cheguei mais perto. - Só estava guardando lugar. – virei pra trás, e vi que o Edson e a minha prima conversavam e riam. Sem problemas, então. - Vamos dar uma volta? - Claro! Ele sorriu e passou a mão pela minha cintura. Eu estranhei, mas sorri de volta e fiz o mesmo. Parecíamos um casal que não éramos andando por uma festa lotada de pessoas conhecidas que estariam fazendo fofoca no segundo seguinte. Mas espere um pouquinho: não era isso o que eu queria? A resposta é sim! Razão pela qual eu não reclamei e me deixei guiar. A volta que nós demos foi atravessar o salão, passando pelo bar apinhado de gente, pela cabine do DJ, pela Sabrina, que estava dançando com um copo na mão – bêbada, já, as dez e quarenta e oito da noite? – e pela Lana, que saiu do seu estado de êxtase por si própria para ficar em êxtase por mim. Então, fomos parar na ante-sala de espelhos que levava até o salão principal. Eu não tinha notado quando chegamos, mas havia pequenos sofás pretos espalhados por ali, e o barulho era mínimo. Não havia ninguém ali, exceto por nós dois. Nos sentamos, o Ricardo com o braço passando pelo meu ombro, eu com a cabeça meio tombada no seu ombro. Confortável, segura, insegura. O que viria a seguir? Eu estava prestes a descobrir. 51


- Lolita? – ele chamou. Eu virei a cabeça até estar perto o bastante para poder tocá-lo com o nariz, olhando-o nos olhos. - Eu. – eu disse. Com tantas coisas a dizer, isso é o máximo que eu consigo! Que espécie de ser humano sou eu? - Você ta linda hoje. – afirmou, um segundo depois, me fazendo corar – Sempre. - Obrigada. - Posso te dar um beijo? A resposta que eu queria dar, aquela irracional de quem gosta, de quem deseja, estava pulando na ponta da minha língua enquanto eu o encarava. Mas a que eu tinha que dizer, ou melhor, a pergunta que eu tinha que fazer, estava mais clara no meu cérebro do que nunca. Talvez aquela não fosse a melhor hora. Talvez eu devesse simplesmente ter dito “sim” e ter perguntado o que fosse depois. Mas eu perguntei mesmo assim: - Como eu vou ter certeza de que eu não vou me machucar dessa vez? - Não vai. – ele me respondeu, de maneira simples e direta – Mas as coisas são diferentes agora. Eu sou diferente. E eu realmente te quero dessa vez. - Você gosta de mim? – insisti, me sentindo uma completa idiota. - Eu estaria aqui se eu não gostasse? - Eu não consigo mais acreditar em você... Desviei o olhar e me afastei um pouco, como se precisasse de mais ar pra respirar. Imaginei o que qualquer uma – exceto, talvez, pela Bela diria para mim naquela hora: que eu era mesmo uma idiota. - Então deixa eu provar. – ele sussurrou para mim, e eu me virei novamente. Sem mais tempo para pensar. 52


Foi então que ele me beijou. E foi muito, muito melhor que na primeira vez que nós ficamos! Podem ter se passado alguns segundos ou vários minutos ou mesmo horas, antes que eu fosse chamada ao mundo real de novo. E mesmo assim, isso só aconteceu porque alguém abriu a pesada porta de vidro que levava ao salão e entrou arfando. Parei de beijar o Ricardo para virar e dar de cara com uma cena ridícula que eu nunca esperei ver na vida. Alguém já viu um nerd bêbado? O Diego estava arfando, andando meio torto e com os óculos quase caindo da cara. Andou, andou e, finalmente...caiu. Aos meus pés. - Oh, meu Deus! – eu quase gritei, me levantando assim que ele caiu – Diego! Me ajoelhei ao lado dele e o virei de barriga para cima. O Ricardo se abaixou ao meu lado e deu uns tapinhas nada suaves na cara dele. - Acho que ele bebeu demais. – disse, e eu chacoalhei a cabeça freneticamente. - O Diego não bebe, Ri! – exclamei – Meu Deus, a Lana vai matar tanto ele quando vir isso! Então, a porta abriu pela segunda vez, e quem entrou foi o Henry, seguido do Daniel. Os dois estavam gargalhando. - Ele caiu, cara! – o Henry quase gritou, batendo na mão do Daniel. - Dez conto como ele vai vomitar antes do final da festa! – o outro apostou, e eles apertaram as mãos. Então eu entendi tudo. Levantei e fui até eles. - Henry, você fez isso? – perguntei, boquiaberta. - Não, Lolita, eu ofereci a bebida! – respondeu – Foi ele quem aceitou! 53


- Seu cretino, tem alguma idéia do que a Lana vai fazer quando ela ver o Diego nesse estado? - Ela não vai ver nada, desencana! - E como você pretende esconder isso? - Tem razão. Então, talvez a gente deva esperar pra ver o que acontece. - Não vamos ter que esperar muito! – o Daniel disse, parecendo prestes a ter um colapso de tanto rir. Todos olhamos para as portas de vidro, se abrindo novamente. A Lana vinha entrando com seu vestido bufante. - Alguém viu o Diego? – perguntou, como quem não espera resposta. Eu estava pronta pra dizer alguma coisa, quando os dois garotos saíram da frente, revelando o Diego, que estava começando a tentar se levantar. A Lana guinchou e empurrou quem estava em sua frente – eu incluída – até chegar ao namorado e começar a gritar com ele. - Seu idiota, o que você tomou? - Lana! – eu chamei, mas ela não me deu atenção. - Meu amorziiiinho! – o Diego disse, estendendo os braços para ela. O Henry e o Daniel riram. O Ricardo teve a educação de se conter. - Amorzinho o cacete! – a aniversariante berrou, e o empurrou pra que caísse no chão de novo – Eu não acredito que você resolveu tomar a bosta do primeiro porre da sua vida logo na droga da minha festa! Todo mundo podia morrer de tanto encher a cara hoje, menos você! - Lana! – eu insisti. - Cala a boca, Lolita! – gritou, e eu nem me abalei – Seu idiota, imbecil, burro, eu vou chamar a sua mãe agora pra ela vir te buscar... - Lana! – foi a minha vez de gritar – Dá pra você me escutar? Ela se virou, irada, para mim. Parecia querer me trucidar com todas as suas forças – a mim e a quem mais aparecesse na sua frente. - O que é? – sibilou. 54


- Foi o seu irmãozinho quem fez isso com ele! – contei, e seus olhos se estreitaram até virarem duas fendas. - Como é? - O seu irmão e o Daniel ficaram dando bebida pra ele até ele ficar nesse estado. – ouvi o Diego vomitando, e não pude olhar. Fiz uma careta e continuei – Eu aposto como o Diego nem sabia o que estava tomando! - Você me deve dez. – o Daniel disse pro Henry, com um tapa suave no seu peito. Então saiu correndo pelas portas de vidro, enquanto a Lana ia, decidida e decididamente irada, até o irmão. - Você! – berrou, dando um soco na sua barriga. Ele se inclinou de dor – Não me interessa como, faça ele melhorar! O cheiro de vômito estava ficando mais forte, enquanto o garoto continuava vomitando sabe-se lá aonde – eu não me arriscava a olhar. - Vou chamar os caras da limpeza. – o Ricardo murmurou no meu ouvido, e me deu um beijo rápido antes de sair também. Eu estava começando a passar mal. - O que você quer que eu faça? – o Henry perguntou. - Isso é um problema seu, mas eu quero o meu namorado capaz de ficar de pé e falar, me entendeu? – a Lana apertou as bochechas do irmão de um jeito tão forte que eu senti dor – Se você estragar a minha festa, Henry, eu acabo com você, eu te juro! Ponha esse garoto bem e de pé na próxima hora ou você vai se arrepender de ter nascido na mesma família que eu, ta me entendendo? Ele assentiu bem depressa. Não dava pra duvidar dela numa hora como aquela. A Lana o soltou e disparou para fora da ante-sala. Eu a segui, me sentindo muito melhor no segundo em que entrei no salão apinhado de adolescentes, livre do cheiro de vômito. 55


5°: Não procure nada que não queira encontrar Comecei a atravessar o salão, esbarrando e cumprimentando um monte de gente conhecida, em direção à minha mesa. Até que encontrei com a Sabrina. - Alguma idéia do que aconteceu com a Lana? – ela me perguntou. - Por quê?- questionei. - Ela passou como um furacão por aqui, parecia que o mundo tinha acabado ou sei lá o quê! - Foi mais ou menos isso. O Henry encheu a cara do Diego. - De porrada? - Não! – pensando por esse ângulo, poderia ter sido pior – De bebida! - Ah, meu Deus! E aí? - Ele ficou bêbado, muito bêbado, caiu e a Lana viu. – lembrar da cena me embrulhava o estômago – Foi bem tenso. - Acho que eu consigo imaginar. Onde você ta indo? - Eu to só... Olhei pra frente e deixei a minha frase suspensa no ar. O que eu vi não me pegou completamente de surpresa, mas certamente me fez esquecer por completo o que eu tinha ido fazer ali. - U-O-U! – a Sá exclamou, e eu tive que concordar. - Uou mesmo! Quando eu deixei a mesa, os dois estavam conversando. Agora, quando eu voltei, o estágio tinha avançado da conversa casual para a...bem...pegação. A coisa estava forte ali. O que eu tinha vindo fazer mesmo? - Melhor a gente não incomodar, né? – eu sugeri, agarrando o braço da Sabrina e dando meia-volta, ao mesmo tempo em que ficava corada, vermelha como um tomate. 56


Mas que maravilha! - O que foi aquilo? – a minha prima sibilou com voz aguda no meu ouvido. Eu não respondi. A pergunta era sobre as duas enguias envolvidas num beijo alucinante ali atrás ou sobre a minha reação descabida? - Vamos dar uma olhada na Bela. – resolvi, num átimo, para desviar a atenção dos outros dois. Fomos até o banheiro, onde os dois garotos louros ainda estavam na frente da porta do banheiro feminino, impedindo algumas garotas, que eu reconheci como sendo do segundo e do terceiro ano do Santa Rita, de entrarem. A discussão estava ficando feia. - Com licença! – pedi, cutucando quem estava na minha frente. Para mim, os dois guris abriram passagem, enfurecendo ainda mais as outras garotas presentes. Certo, já fazia o quê, mais de meia hora que eles estavam ali dentro? Se nada havia acontecido ainda era porque não tinha que acontecer! Respirei fundo e destranquei a porta. Fechei os olhos e a abri. - Oh, meu Deus! – foi o quase grito da Sabrina. - Ai, caramba! – os dois garotos disseram, quase num uníssono. - Aquela ali é a... – uma garota começou a perguntar. - É, é ela! – a outra garantiu. - E o... - Ah, fala sério! Foi então que eu abri os olhos. E desejei nunca ter aberto aquela porta. Minha melhor amiga não tinha percebido que todo mundo estava vendo. Não tinha nem noção de que havia umas seis garotas da escola e dois meninos que ela nunca tinha visto na vida observando aquela cena, soltando exclamações, comentários. 57


Ela não notou nada disso porque estava ocupada num amasso sem tamanho com o Willian. E quando eu digo sem tamanho é porque a coisa estava feia – pra quem vê, não pra quem faz! – mesmo! Tipo ser jogada contra a parede. E ter sido erguida até ficar da altura dele, o que quer dizer uns bons dez ou quinze centímetros. E ter desistido de ficar com os pés no chão, e achado mais prático simplesmente passá-las em torno da cintura dele. - Alguém ainda quer usar o banheiro? – eu perguntei, boquiaberta. Era engraçado, horrível, e eu não conseguia parar de olhar. - Não, nada disso! – uma das meninas exclamou rapidamente em resposta, e eu fechei a porta. - A gente usa o dos garotos mesmo! – uma outra sugeriu, e ninguém contestou. - Fiquem de olho! – pedi aos garotos, e eles concordaram. Saí de lá até meio tonta. - Vou procurar o Ricardo. – disse à Sabrina, e ela sorriu, encantada. - Você conseguiu? – perguntou, e eu assenti, quieta. Toda a minha animação por esse fato tinha evaporado nos últimos minutos. - Vai lá, então! Vou procurar alguém pra beijar! - Certo... Nos separamos, mas eu não sabia onde procurar, nem se queria. Eu precisava respirar primeiro. 6°: Não jogue bolo na aniversariante – se puder evitar, claro. O Ricardo me encontrou uns dez minutos depois, no bar. Eu estava pedindo mais uma espanhola, ainda tentando tirar da cabeça as duas cenas desconcertantes – a da Giovanna e do Edson se engolindo e da Bela tirando o atraso no banheiro. Se havia uma vantagem naquilo era 58


que eu não iria mais ficar com nojo se o Diego aparecesse vomitando na minha frente. - Oi. – ele disse, ao meu ouvido, e então beijou o lóbulo da minha orelha. Não deu pra não sorrir. - Oi. – respondi, e peguei a minha bebida. Girei até ficar cara a cara com ele, e ele me deu um selinho. Nós dividimos a bebida, e então andamos até a pista, pra dançar junto com todo mundo. Era estranho e muito bom ao mesmo tempo. Eu me sentia ligada a ele como nunca antes, como se tudo estivesse certo após um enorme período de erros consecutivos. Como alguma coisa poderia estragar aquilo? Então a minha prima arrastou o Edson para a pista, praticamente ao nosso lado, sorrindo pra mim como a garota mais realizada desse mundo, e eu perdi a vontade de dançar. De sorrir. De ficar de pé. Tudo de repente e por nada. - Vamos sentar. – eu disse pro Ricardo, tentando fazer de conta que era uma decisão própria nem um pouco baseada em fatores externos. Ta bom! - Vamos! – ele sorriu pra mim e eu tive dó de enganá-lo daquele jeito. Mas afinal, ele tinha me enganado uma vez, certo? Podia considerar aquilo como um troco. Fomos até a minha mesa, e ali nós voltamos ao que estávamos fazendo antes de sermos interrompidos pelo Diego e seu surto de bebedeira. Dez pra meia-noite, a música parou abruptamente e as luzes se acenderam. Todo mundo parou na pista e começou a gritar, e eu inevitavelmente tive que desviar minha atenção do beijo do garoto perfeito pra entender o que estava acontecendo. 59


- Ei, aqui! – a voz da Lana soou em cheio por todo o salão, ampliada pelas caixas de som. Todo mundo – incluindo eu e o Ricardo – começou a procurar de onde vinha. - Aqui, gente! – ela insistiu, e então eu localizei. Ao lado de onde estivera a mesa de jantar – porque ela tinha desaparecido – havia um mini-palco onde ficava a mesa do bolo e um toldo branco gigante. Nesse toldo, havia uma sombra esguia, que eu entendi que só poderia ser ela. Em instantes, todo mundo já olhava na mesma direção. - Obrigada! – a Lana disse, então. Eu me levantei pra ver melhor, e a sombra começou a andar de um lado para o outro, sempre atrás do toldo. - Já é quase meia-noite... – começou – E eu estou tentando entender por que ninguém cantou parabéns pra mim! Todo mundo riu junto com ela, então as luzes baixaram até sobrar somente o holofote que iluminava o toldo por trás, fazendo surgir a silhueta da Lana. O microfone fez um ruído alto e irritante, de queimar os tímpanos. Quando parou, foi substituído por uma música eletrônica agitada, e a Lana atravessou o toldo. Sim, ela ATRAVESSOU o toldo. Primeiro, abriu um buraco com as mãos. Depois outro com a sandália. E foi abrindo os furos, destruindo até haver um buraco grande o bastante pra ela poder passar. E tudo nela estava novo: o cabelo, a coroa, as sandálias – agora eram douradas, com um tipo de fita que ia se enrolando ao longo da panturrilha até a altura dos joelhos – e o vestido. Nada mais do vestidinho de princesa. Agora era um vestido de balada, branco e dourado, com um decote em coração que jogava seus peitos no teto e saia tipo bailarina. A coisa mais brilhante e mais bonita que eu já havia visto! Sem dúvida, algo a entrar para a história e para as mentes invejosas das garotas da escola! 60


Um funcionário do bufê arrastou a mesa do bolo – ela estava sobre rodinhas! – até a Lana e acendeu as velas coloridas. Os irmãos mais velhos apareceram do nada ao lado dela e puxaram o parabéns, que encheu o salão de uma forma muito mais intensa do que a música. - Vem, Lolita! – disse então alguém atrás de mim, e começou a me puxar. Eu soltei a mão do Ricardo e cedi, notando depois que estava sendo arrastada pela Bela. - Aonde nós estamos indo? – eu perguntei. - Jogar bolo na Lana! – me respondeu. - O quê? – eu quase gritei, e ela riu. - Idéias da sua prima e do Edson! Vamos logo! - Eu não vou fazer isso! – e parei. Ela parou junto. - Fala sério, Lolita! – me puxou de novo – Claro que vai! Ela não vai ligar! - Se ela me matar, a culpa vai ser toda sua! Encontramos com a Giovanna e a Sabrina já perto do palco. A Lana estava cortando o bolo, e o Diego tinha aparecido, milagrosamente de pé e melhor do que eu esperava, ao lado dela, com um sorriso bobo no rosto. Nós quatro subimos no palco ao mesmo tempo em que ela estendia o primeiro pedaço de bolo para o namorado. - Agora! – a Giovanna exclamou para o Edson, e tudo aconteceu muito rápido. Ele e o Henry meteram a mão no bolo. A Lana abraçou o Diego. As minhas primas correram para a mesa do bolo, e puxaram eu e a Bela com elas. A Lana e o Diego se soltaram, e ela se virou para sorrir pros convidados mais uma vez. E então tomou uma rajada de bolo no rosto e no vestido. Junto com o namorado. - Filhos da mããããe! – ela gritou, a princípio, enquanto todo mundo no salão ria. 61


Eu já estava ficando com medo de que ela ficasse puta da vida, quando ela simplesmente afundou a cara dos dois irmãos no bolo e berrou: - Guerra! A próxima coisa que se viu foi todo mundo tomando bolo, água, salgadinho, refrigerante, drinques e o que estivesse mais próximo, na cara. Quando foi declarado o fim da guerra, dez minutos mais tarde, eu estava cheia de bolo e refrigerante no vestido, a Lana estava lavada de todos os docinhos da mesa e cada convidado estava mais sujo do que jamais ficou em festa alguma. Ah, sim. Não sobrou muito do bolo para contar a história. Ou pra ser comido. 7°: Não beba se não souber beber. A festa continuou rolando, e eu continuei junto com o Ricardo. As coisas entre nós estavam ótimas, soberbas, e eu estava no paraíso. Mas também estava no inferno. Eu estava com o cara que eu queria há anos, mas não agüentava ficar num raio de dois metros de onde a minha prima mais velha estava se pegando com o Edson. Era incômodo de uma maneira completamente estranha. Além do mais, eu não podia deixar de perceber como todo mundo me percebia. Olhava pra onde eu ia, falava de mim. Eu não podia ser feliz por um instante que já virava fofoca? Lá pelas três da manhã...as coisas começaram a desandar. Felizmente, não para mim! Estávamos dançando, e alguém teve a brilhante idéia de arrastar algumas mesas para o centro da pista. A primeira a subir foi a Lana, estreando o palco, chamando atenção para o fato de ser a única que agia como louca sem precisar estar bêbada para isso. Para a minha surpresa, o Diego a acompanhou. Não demorou muito até ele estar tonto demais e precisar descer. 62


As mesas continuaram servindo de palco para meninas e meninos subirem, dançarem, provocarem. Cada uma das meninas do segundo e do terceiro ano do Santa Rita ali presentes achou que seria uma boa idéia subir e chamar um garoto, ensaiar coreografias ousadas. Foi engraçado até alcançar o limite, e tornar-se desagradável. Quando elas desceram, foi a vez da Suellen e da Lua subirem. Elas não estavam bêbadas. Nada disso. Elas estavam bêbadas há uma ou duas horas. Agora estavam muito, muito, muito pior! A música mudou. De psy, tornou-se mais lenta. Uma música de strip-tease. - Não! – exclamei, boquiaberta, e olhei pra mesa do DJ. A Bela estava lá. Rindo como louca. Ela e seu novo garoto Willian. Como se eu já não soubesse... - Caraca! – foi o grito do Ricardo, e eu voltei o olhar de novo para as mesas no centro da pista. A Suellen já tinha metade do vestido erguido, revelando nada mais do que a calcinha cor da pele. Os uivos e assobios masculinos eram crescentes enquanto ela enrolava pra tirar o que fosse, abaixava e subia a saia do vestido preto que usava, soltava o cabelo preso, brincava com a sua platéia ansiosa. Mas ao seu lado, a Lua já estava sem o corpete. O sutiã apertava os peitos pequenos, deixando-os maiores do que jamais foram, e ela rebolava, girava, dançava completamente fora do ritmo da música. Fiquei mais do que aliviada quando o meu celular tocou. - Alô? – atendi, quase desesperada. Ao meu lado, o Ricardo já tinha deixado de me dar atenção, mas o choque me impedia de ficar brava. - Carlota, eu estou na porta. – minha mãe disse, do outro lado, e eu quis ajoelhar e agradecer a Deus – Chame as suas primas. - Um minuto! 63


Desliguei o telefone e cutuquei o Ricardo. Ele se virou para mim como se estivesse saindo de um transe ou algo parecido. - Oi! - Eu estou indo. – disse a ele, e pela sua concordância, pensei que não tivesse me escutado. - Tudo bem. - Tchau. Dei-lhe um beijo – ou uma tentativa, porque ele continuava sem prestar atenção em mim – e o deixei para procurar pelas minhas primas. Primeiro encontrei a Giovanna, ainda abraçada ao Edson, alheios à confusão que assomava o salão. A chamei sem olhar diretamente para ela, avisei que estávamos de saída e pedi pra que me esperasse do lado de fora enquanto eu procurava pela Sabrina. Saí rápido demais pra não ter que ver enquanto os dois se despediam. Rodei o salão todo em busca da Sabrina, só pra encontrá-la vomitando num vaso de plantas de mentira. - Cacete! – murmurei para mim mesma, antes de ir até ela, tendo o cuidado de respirar pela boca – Sá? - Oi... – ela respondeu, e voltou-se para mim. Me olhou e começou a rir. Era patético! - Já parou de vomitar? – perguntei, irritada, e ela assentiu, ainda rindo – Vamos, a minha mãe chegou. - Deixa só eu pegar mais um copiiinho! – ela guinchou, tentando ficar de pé e vacilando no processo. Eu a segurei antes que caísse e passei seu braço pelo meu ombro. - Sem copinho! – saí andando, praticamente carregando-a nas costas – Nada mais de bebida! - Como você é chaaata! 64


- E como você é bêêêbada! - Ah, eu sou, há, há, há! Rolei os olhos e a arrastei pelo salão até o lado de fora, onde tive que praticamente jogá-la dentro do carro, dando graças a Deus que tinha acabado aquela noite!

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A Semana Seguinte Claro que eu podia imaginar que a semana seguinte seria diferente. Que o colégio estaria impossível, apinhado de comentários – bons e ruins, principalmente – e que algumas coisas estariam, no mínimo, mudadas. Mas eu não estava preparada pra semana que viria. Nem um pouco. A começar... Pela Bela. Dez entre dez manhãs com ela no ônibus eram um constante falatório sobre meus problemas ou sobre a Suellen. Sempre. Vez ou outra, nossos assuntos cotidianos eram substituídos por algum estudo ou assuntos da escola em geral, mas era tão raro que eu não estava acostumada. Como explicar, então, aquela doce segunda-feira em que o assunto foi o Willian, pra variar um pouco? Culpa minha, claro. Eu perguntei. Mas não tinha a menor esperança de que ela realmente falasse, me contasse alguma coisa. A Bela não era muito do tipo detalhista quando o assunto era garotos, fosse porque ela nunca tinha ninguém, fosse por ser muito reservada. Logo, foi estranha a resposta dela quando eu perguntei: - O que exatamente aconteceu naquele banheiro? PS: Eu não contei a ela que eu e, bem, todos no recinto vimos muito bem o que aconteceu lá dentro. - Ah, claro, deixa eu te contar! – ela exclamou, toda animada de repente. Então, se ajeitou na poltrona o ônibus e começou a me contar. Devo dizer que tive um péssimo desempenho em tentar conter o meu espasmo. 67


- Vocês trancaram a gente lá, e ai ficou aquele silêncio por um bom tempo. – a Bela começou, e então parou quando viu a minha cara – O quê? - Nada, nada. – dei um pigarro, com medo de que ela mudasse de idéia – Continue. - Certo. Bom... – e foi em frente – A gente ficou quieto por, sei lá, dez minutos? Aí, ele me perguntou se aquilo tinha sido idéia minha. - E o que você respondeu? – perguntei, desnecessariamente. - Que era claro que não! - E ele? - Ele não acreditou. Ai ele falou que você tinha ido falar com ele pra tentar agitar alguma coisa, e que se eu quisesse ter ficado com ele eu podia simplesmente ter ido falar com ele. - Ta brincando! - Não! E aí, bom... – ela riu, meio sem graça, meio pervertida – Aí eu disse que se era só disso que eu precisava, tudo bem então, mas que eu não ia falar nada. - Não ia falar nada? - Aí eu beijei ele. A Bela disse isso com tamanha naturalidade que meu queixo caiu. Quem era ela e o que ela tinha feito com a minha melhor amiga? - O.M.G. pra você! – exclamei, atônita, enquanto ela ria. - E foi demais, foi demais, Lolita! – continuou – Eu achei que, sei lá, ele fosse me empurrar ou qualquer coisa, mas não! Ele só me beijou de volta e a gente ficou lá até que alguém abriu a droga da porta, e a gente pôde sair! - Céus! - E mesmo assim a gente ficou a noite toda, e eu sei lá, mas acho que ainda vamos ficar! - Céus duplos! - O quê? 68


- Você definitivamente não é a Belatriz! Quem é você? Nós duas rimos, e então sobrou só o silêncio. - Eu fico feliz por você. – eu disse então, e ela apenas sorriu de um jeito desajeitado. Após algum tempo, foi ela quem me perguntou: - E você e o Ricardo? Ela não parecia com raiva como geralmente ficava quando se tratava dele. Não insinuou que eu era uma idiota e que estava me enganando. Simplesmente perguntou. - A gente ficou na festa. – eu respondi, com um meio sorriso duvidoso – Eu não sei como vai ser daqui pra frente, mas ele meio que deu a entender que gosta de mim. Acho que as coisas vão ser diferentes. - Vão, vão sim. Nós nem tínhamos idéia! Fomos as primeiras a descer do ônibus quando este estacionou na frente da escola. Ainda estávamos conversando sobre a festa, quando eu bati os olhos na nossa mesa de sempre. A Sabrina estava dormindo, debruçada sobre a própria mala. A Lana estava fazendo lição com a ajuda do namorado, Diego. E a Giovanna estava de mãos dadas, conversando e sorrindo para o Edson. Fiz de conta que aquilo não era completamente anormal e me virei pra Bela de novo. - ...e eu não acho que ele queira alguma coisa séria! – ela estava dizendo, de maneira óbvia, e eu assenti. - Também acho que não. – concordei, segundos antes de perceber que eu não fazia a menor idéia do que ela estava falando, mas que a minha concordância cabia muito bem ao que eu estava pensando naquele exato momento: A Giovanna e o Edson não iam durar muito. Não mesmo. 69


Estávamos a meio caminho da mesa, quando o Willian apareceu e abraçou a Bela pela cintura. Eu dei um “oi” rápido pra ele e comecei a andar mais depressa, tendo duas opções excelentes à vista: segurar vela pros dois ali, ou pros outros dois casais na mesa. Escolhi a segunda opção. E não fiquei nada satisfeita por isso. Quando o sinal tocou, eu fui a primeira a me levantar e disparar em direção ao nosso prédio. Ninguém me deu atenção. Ninguém me deu atenção em momento algum. Eu não ia fazer falta. Então, simplesmente fui, e cheguei na sala antes que qualquer outro aluno no prédio o tivesse feito. Acendi a luz e me sentei na minha carteira de costume. A sala começou a se encher de gente, o falatório aumentou. Eu fechei os olhos e encostei a cabeça na parede, desejando estar a quilômetros dali. Quando os abri de novo, somente a carteira do Daniel estava vazia, e o professor já estava escrevendo algumas coisas na lousa. O Ricardo estava sentado à minha frente, como de costume, copiando a matéria. Achei melhor não incomodar e comecei a fazer o mesmo. Os 50 minutos de aula pareceram 50 mil, tão ansiosa eu estava. Precisava falar com o Ricardo e ter certeza de que tudo estava bem entre a gente. Precisava de um mínimo de felicidade pra não me sentir assim tão abandonada como eu estava me sentindo. Mas o tempo simplesmente não queria passar. Então eu desisti de esperar acordada. Debrucei sobre a carteira e fechei os olhos. E aí, bateu o sinal. O professor saiu da sala e eu ajeitei o cabelo, me preparando pra cutucar o ombro do Ricardo, mas outra pessoa chegou primeiro. De maneira muito menos sutil, devo dizer. Meu queixo caiu quando a Suellen soltou um gritinho agudo e veio correndo, saltitante, até a minha fileira. Achei que ela fosse me incomodar 70


por alguma coisa, mas não. Ela veio, e o Ricardo estendeu a mão para ela. E então a puxou até ele. A Suellen se sentou na sua perna esquerda e deu um beijo nele. Na boca. O mundo caiu à minha volta e eu senti uma séria vontade de vomitar. Me levantei e corri pro banheiro, onde eu bati a porta com tanta força que teria sido capaz de quebrá-la com as minhas mãos. Me encostei na porta e deixei as lágrimas caírem em cascata. Que porra era aquela? Alguém bateu na porta e eu funguei. - O quê? – quase gritei. - Abre, Lolita. – era a Bela. - Pra você dizer “eu te disse”? – eu ri, sem achar nenhuma graça, e funguei de novo – Não. Já to mal o suficiente, obrigada. - Não é nada disso, abre. - Bela, vai embora. Eu quero ficar sozinha. Um minuto quieto se passou, mas eu sabia que ela ainda estava lá. Então, ela disse: - Não demora. A Ângela já ta na sala. (Ângela é a nossa professora de religião) Fiquei mais alguns minutos, martelando tudo no banheiro, e então abri a porta. Peguei um papel pra limpar o rosto meio manchado de rímel, que tinha escorrido com todo o choro, e fui pra sala de cabeça erguida. Tudo bem, então era isso. Enganada de novo. Mas ele ia me escutar, e ia me explicar. E então, ia se arrepender. Não prestei atenção em nenhuma das duas longas aulas de religião. Fiquei rabiscando a carteira com o lápis, quase furando a madeira ou quebrando a ponta do grafite. Meu coração parecia a bateria de uma escola de samba, de tão forte e acelerado que estava batendo. Eu queria morrer 71


explodindo, ou matar alguém. De preferência, uma loira biscate que se parecia muito com a minha melhor amiga. Quando o sinal tocou pro intervalo e todo mundo começou a descer, eu cutuquei o Ricardo sem pestanejar. Ele se virou para mim com um ar de surpresa. - Oi, Lolinha. – ele disse, todo simpatia, e eu ignorei o fato de que ele ainda achava que podia usar o apelido que me dera quando nós éramos, de fato, nós. - A gente pode conversar? – indaguei, séria, e ele ergueu uma sobrancelha. - Agora? - Depois que todo mundo sair. - Certo... Esperamos, sentados, eu olhando diretamente para ele, ele fugindo do meu olhar. O vi fazendo sinal pra Suellen, que então saiu, nos deixando, enfim, sozinhos. - Então... – ele murmurou, e eu fiquei de pé. Ele me imitou. - Eu só queria entender... – comecei, e me senti completamente idiota.Tirando satisfação de algo como aquilo parecia perfeitamente infantil – Na festa da Lana, eu achei que tinha rolado alguma coisa. Entre a gente. - E rolou. – o Ricardo afirmou com veemência, e meio confuso. - Não é o que parece. – cruzei os braços – Ricardo, eu te fiz uma pergunta aquele dia, se você não se lembra. Eu perguntei se você gostava de mim. Você disse que sim. - Eu não estava mentindo. - Então de onde saiu essa de você me dizer isso no sábado e estar com a Suellen na segunda? - Lolinha, olha... 72


- Não me chama de Lolinha, eu deixei de ser a droga da Lolinha na sétima série! Ele se calou. Meu tom deve ter-lhe mostrado que eu não estava brincando. Ou talvez fosse meu olhar raivoso. - Lolita, desculpa se eu te passei a impressão errada lá na festa, ta? – me disse, e eu quis quebrá-lo em pedacinhos. - E qual é a impressão certa? – perguntei, quase sem voz. - Foi legal e tudo ter ficado com você de novo, só que...não é o que eu achei que fosse. - Como? - Eu te conheço, você é uma garota legal. Merece mais do que eu. Um cara que goste mais de você. E não sou eu. Eu dei um meio sorriso e respirei fundo pra não começar a chorar. - Ótimo! – exclamei – Muito bom! Se eu soubesse que você ia brincar comigo de novo, talvez eu tivesse me preparado. Que pena que eu esperei mais de você, então. E saí. Não fui para o pátio. Fiquei zanzando pela escola. Ele brincou comigo. Agora, ia pagar. Na terça, eu estava mais calma, e pronta para bancar a superior. O ignorei por completo, da mesma forma como ignorei quase tudo à minha volta – ficava bem mais fácil de suportar qualquer coisa desse jeito. Outra vez, a carteira do Daniel estava vazia, mas isso não foi nem de longe o fato mais interessante do dia. Ou devia dizer problemático? No Santa Rita, as aulas de computação costumam juntar duas ou mais classes pequenas. A minha tinha apenas 27 alunos, um número baixo para um primeiro colegial originado de uma oitava série de mais de 50 73


em seu total. Logo, nós compartilhávamos a aula de computação com o segundo ano, ainda menor do que a nossa sala: 20 alunos, apenas. Sentei ao lado da Sabrina, a atual única solteira no nosso grupo, além de mim. A Giovanna estava cabulando aula pra ficar com o Edson na biblioteca, como a minha priminha tinha me contado. Detalhes que eu preferia não ficar sabendo. Os dois computadores ao lado dela estavam desocupados. Cada garoto do segundo ano que passava dava oi pra ela. Sorria pra ela. Mexia com ela. A Sabrina, educada como sempre, se limitava a sorrir de volta e responder. Me perguntei quando ela tinha ficado assim tão popular. - Você conhece eles? – perguntei, após chegar à conclusão de que nem eu sabia seus nomes. - Não. – a Sabrina me respondeu, direta e simplesmente – Nunca vi! - Então por que eles estão te cumprimentando? – indaguei, meio perdida. - Não faço a menor idéia, mas como eu sou muito educada eu faço de conta que conheço e respondo. - Que maravilha! - Ta assim desde ontem. Uns quatro ou cinco caras do segundo e do terceiro já passaram por mim e me dão oi e eu não faço a menor idéia do por quê! - Você não se lembra? – disse uma voz aguda e maliciosa atrás de nós. Eu não precisei me mover pra saber quem era. A Ariane se sentou ao lado da minha prima, acompanhada de uma oura garota do segundo ano. Eu a conhecia o suficiente para saber que ela só vinha se sentar longe do seu habitual círculo de amizades quando tinha algum objetivo – que geralmente envolvia fofoca – em mente. E eu duvidava que dessa vez fosse diferente. 74


A pergunta era: o que ela sabia? Ou o que estava tentando saber? - E aí... – a Sabrina começou a dizer, olhando de mim para a outra – Ariane? – arriscou. Ainda não tinha decorado os nomes de todo mundo. - Você se lembra de mim! – a Ariane exclamou, deliciada, e a sua amiga riu com gosto enquanto ligava o computador – Que linda! - Eu costumo ter uma boa memória. – a minha prima afirmou, e girou a cadeira para encarar somente a tela do computador. - Mesmo depois de beber? Nós duas a olhamos quase ao mesmo tempo. Estava sorrindo de orelha a orelha. - Do que você está falando? – a Sabrina perguntou, para o deleite da maior fofoqueira da escola. - Sábado. – ela insistiu – Festa da Lana. Umas doses a mais de vodca, cerveja, ou seja lá o que você tomou. Esqueceu disso também? - Não, não esqueci. – o tom da minha prima era cauteloso, e meus olhos passavam entre as duas como se eu estivesse acompanhando uma partida de tênis – Aonde você quer chegar? - Sabrina, não me leve a mal... – tirou uma lixa de unha do bolso da calça e começou a lixar as unhas da mão esquerda – Eu não sei como era lá no interior, mas nós temos uma regra por aqui. Quem brinca com fogo costuma se queimar, sabia? - Então é melhor você não acender o pavio. - Tão nervosinha! Prefiro você quando ta bêbada! Muito mais tranqüila! - Você não sabe de nada! - Ah, eu sei! – a Ariane riu e baixou a voz – Eu sei muito mais do que você sabe sobre aquela noite, pelo visto. E não só eu, pode ter certeza. - Por exemplo? – a Sabrina girou novamente a cadeira, ficando frente a frente com ela. Eu prendi a respiração, temendo o que viria a seguir. 75


- Por exemplo... – e se aproximou de nós duas – Que você ficou com todos os garotos daquela fileira ali, ó! O meu olhar e o da Sabrina acompanharam até onde a Ariane estava apontando. A última fileira da sala de computação tinha os 6 dos 10 lugares ocupados por garotos, todos olhando na nossa direção. Olhei, assustada, para a minha prima, e vi que ela estava corando. - Não fiquei! – insistiu, mas eu vi a incerteza presente na sua expressão. - Eu não espero que você se lembre, claro. – então, a Ariane suspirou – Mas eu não mentiria pra você. Pergunte pra qualquer um que foi à festa se quiser. A Sabrina me encarou, em pânico, a boca aberta para perguntar. Eu estava formulando a resposta, quando fomos interrompidas pela Ariane novamente. - Menos pra sua priminha, claro. Ou pra sua irmã. Elas estavam ocupadas. – eu lhe lancei um olhar destruidor, mas ela não se abalou – Aliás, Lolita, eu soube que você foi substituída. É sério isso? - Vai se fuder. – sibilei, e ela riu. O resto da aula foi tensa. A Sabrina parecia nervosa, enquanto eu estava roxa de raiva e as outras duas não paravam de cochichar e rir. Foi um alívio quando finalmente o sinal tocou e nós pudemos sair daquele inferno. - Eu nunca mais vou beber numa festa! – a Sabrina exclamou, a caminho da sala – Você viu aquilo? Eu não acredito que eu cheguei a esse ponto! - E eu não acredito que você está preocupada com isso! – disse eu – Sá, relaxa, certo? Já foi! - Eu não sou a minha irmã! - Devia ser, numa hora dessas. Que diferença faz se estão falando de você? Ninguém tem nada a ver com a sua vida! 76


- Aquela Ariane é um monstro! - Você agora está oficialmente integrada ao Santa Rita, parabéns! Nós duas rimos, ambas sem ver graça em absolutamente nada. Entramos na sala e a Giovanna já estava lá, parecendo no paraíso. Precisei de muito esforço pra permanecer calma enquanto eu me sentava. Na quarta-feira, os ânimos estavam um pouco mais exaltados, mas por outro motivo. Era dia da primeira prova daquele bimestre, e pra começar seria logo de química. Seria só na última aula, mas todos já estávamos desesperados. O Diego, sempre expert em todo tipo de matéria que envolvia cálculos e fórmulas, tentava explicar, simultaneamente, a matéria para mim, minhas primas e a Bela, com a ajuda da Lana. Não estavam tendo muito sucesso. Eu estava uma pilha de nervos, e bem ao lado do casal do Edson e da Giovanna, os dois de mãos dadas. A Giovanna tinha dificuldade para prestar atenção por causa do Edson. A Bela era um completo fiasco em química, tal como a Sabrina. O grupo menos propício a aprender o que fosse de última hora. Já na sala, enquanto eu tentava enfiar alguma coisa na cabeça, vi o Ricardo e o Willian – o Daniel tinha faltado de novo, a Bela disse que ele estava doente – consultando a apostila de química e fazendo anotações minúsculas num pedaço de papel. Cola. Todo mundo cola quando está na escola. Fato. Mas quantos de nós podem realmente se aproveitar da cola alheia para um outro uso que não na própria prova? Era a minha chance. Fosse porque estávamos todos ansiosos, fosse porque tinha prova, o dia passou num piscar de olhos, e logo já estávamos com somente lápis, 77


caneta e borracha sobre a mesa – alguns de nós. O Ricardo tinha lápis, caneta, borracha e cola sob a borracha – e a prova à nossa frente. Durante meia hora, eu fiz o que pude com as dez impossíveis questões de química que eu tinha que fazer. Pra falar a verdade, tudo o que eu respondi com certeza foi o meu nome, número de chamada e série. Dali pra frente, era nada além de mera suposição. Eu tinha deletado a matéria da minha cabeça como que por magia, e agora desejava mesmo uma varinha de condão pra conseguir resolver aquela prova. Bufei e consultei o relógio que ficava em cima da lousa. Faltavam ainda quinze minutos, e eu não sabia fazer mais absolutamente nada. - Posso entregar, professora? – perguntei, meio alto demais naquela sala milagrosamente silenciosa. Ela assentiu. Eu, então, puxei meu caderno que estava dentro da mochila e arranquei um pedaço de uma das folhas. Escrevi, em letras grandes e claras “O RICARDO TEM UMA COLA EMBAIXO DA BORRACHA” e entreguei a prova. Baixei a cabeça e fingi que estava dormindo. A sala estava quieta o suficiente pra que eu escutasse a professora se levantando e andando até a minha fileira. Ergui ligeiramente meu rosto e abri um dos olhos, a tempo de ver a professora erguer a borracha e encontrar o papel com as anotações que ele fizera. Fiz um esforço bruto pra não rir quando ela tomou a prova do Ricardo, que não teve chance de protesto. Levou-a até a mesa e rabiscou um ZERO robusto no topo. Nada tão doce quanto a vingança, certo? Eu ainda estava rindo disso na quinta-feira, após ter sido aplaudida e parabenizada pela Bela, pela Lana e pelas minhas duas primas. Não era muito o que eu tinha feito, mas no mínimo tinha conseguido fazer com 78


que ele se ferrasse em alguma coisa! Agora eu estava pronta pra ignorá-lo como merecia. Infelizmente para o Ricardo, foi naquela quinta-feira que o Daniel apareceu, recuperado do que quer que ele tivesse. Nós saímos da sala na primeira aula em direção à quadra – era dia de educação física -, que já estava ocupada por um quarteto estranho. De um lado, o Ricardo. Do outro, o Daniel. No meio, o professor e a Suellen. E eu tenho que dizer, a cara do Daniel não era nada boa. - O que ta pegando? – escutei várias pessoas perguntando, e olhei para a Bela e o Willian, ao meu lado. - Já to vendo tudo... – a minha amiga murmurou, e o Willian concordou, em silêncio. - O que foi? – perguntei aos dois. - O Daniel não sabia que o Ricardo tava ficando com a minha irmã. – a Bela me respondeu, e então eu também vi tudo. Eu não sei se eu já comentei, mas a Suellen e o Daniel eram uma história antiga. Dois primos com um histórico longo de casos. Um histórico que todo mundo conhecia. Eles tinham dado o primeiro beijo juntos, ficado escondido e quase chegaram a namorar. A Suellen já tinha, aparentemente, superado aquela fase, mas não o Dani. Ele já tinha tido outras garotas, mas todo mundo sabia que ele gostava dela. E ele não se preocupava em disfarçar. E agora, um dos seus melhores amigos estava com ela. Já era bem difícil pra ele quando qualquer garoto da escola ficava com ela – e olha que já tinham sido muitos! -, imaginem então sendo o Ricardo. - Você acha que ele vai... – comecei a perguntar, mas os cochichos se tornaram cada vez mais altos, se silenciando só quando o Ricardo começou a falar. 79


- Cara, fica frio! – ele pediu – Vamos conversar numa boa! - Eu não quero conversar, velho! – o Daniel quase gritou – Eu quero quebrar a porra dessa sua cara de porrada! - Daniel, pára com isso! – a Suellen exclamou, esganiçada, indo em direção ao primo. Parecia cena de cinema, com direito a público e tudo – Ninguém vai bater em ninguém! - Su, fica na sua, deixa eu resolver isso com ele. – o Ricardo disse, e ela o olhou, meio incerta, antes de se afastar dos dois. - Vamos, garotos, não me obriguem a chamar a direção! – o professor afirmou, e pôs a mão sobre o ombro do Daniel. Ele não desviou os olhos do Ricardo, parecendo furioso. - Você vai se arrepender por isso, cara! – declarou – Muito! Ta me escutando? Ele não respondeu. - Podia ter sido qualquer um, qualquer um! – continuou – Menos você! Você era meu amigo, meu irmão! Aí você vai e pega a Suellen? Somente silêncio. Então o Daniel deu as costas, e todos pensamos que o espetáculo tinha acabado. Os cochichos estavam ameaçando recomeçar quando ele simplesmente girou outra vez e se atirou com tudo pra cima do Ricardo, enfiando o punho no seu rosto com toda a vontade. E repetiu o soco mais duas vezes, depois que caíram no chão. Os gritos ecoaram pelo pátio enquanto o professor, o Willian e, acreditem ou não, o Diego tentavam separar os dois. Os óculos do Diego caíram e se quebraram, o Willian tomou uma cotovelada no nariz – que começou a sangrar – e ninguém parecia forte o suficiente pra segurar o Daniel. Alguém teve a brilhante idéia de chamar os inspetores e as freiras, e a briga tornou-se uma confusão de escalas absurdas. Quando, enfim, eles estavam afastados o suficiente pra avaliar os danos, a camiseta do Daniel estava rasgada e o Ricardo estava sangrando 80


e cheio de marcas no rosto. Não só as freiras apavoradas e os inspetores estavam presentes, como professores e alunos que haviam sido atraídos pra fora de suas classes pra ver a confusão. Os dois foram levados à enfermaria – um de cada vez, cuidando para que tivessem o mínimo de proximidade – e em seguida à sala da coordenação, onde foi dada uma sentença de três dias de suspensão para cada um, mais uma semana de serviços prestados à escola para o Daniel. Eu sorri em silêncio, satisfeita com tudo, quando estava acabado. Se eu não o tinha feito pagar o suficiente, certamente alguém tinha. Eu iria ajudar o Daniel de alguma maneira, como forma de agradecimento!

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Ciúmes Abril. Mês da Páscoa. Do Dia da Mentira. Exatamente o meio do primeiro semestre letivo. E também o mês em que as coisas escolhem para dar errado, ou fugir da sua ordem natural. O que vier primeiro. Começando por... - Lolita! – a Lana quase gritou, pela quarta (ou quinta?) vez naquele dia. Era sábado, dia 4 de Abril, e eu, a Sabrina, a Giovanna, o Diego e a Bela estávamos na casa da Lana preparando o nosso seminário de Geografia sobre as nações subdesenvolvidas. Melhor dizendo, a Sabrina estava pesquisando na internet, o Diego estava enfiado nos livros, a Lana e a Bela estavam recortando fotos, a Giovanna estava no outro sofá abraçada com o Edson sem fazer absolutamente nada, e eu estava encarando os dois. Disfarçadamente, claro. Tomei um susto – de novo – quando a Lana me chamou, e olhei rapidamente pra ela. Ela e a Bela tinham parado o que estavam fazendo e estavam olhando para mim, a Bela parecendo prestes a gargalhar, a Lana parecendo irada. - Pro meu quarto. – ordenou – Agora! Eu nem ameacei discutir. Bufei e acompanhei as duas até o quarto da Lana, onde o Diego ainda estava sentado na cama lendo um almanaque antigo sobre geografia mundial e a Sabrina ainda estava no computador pesquisando. A Lana bateu a porta e sentou no chão junto comigo. 83


- Lolita. Querida. – o tom dela não sugeria nada do tipo “querida”, então eu só pude imaginar aonde ela queria chegar – Vamos conversar. - Sobre? – indaguei, e a Bela se sentou também. - Sobre essa sua obsessão ridícula pelo meu irmão. – a Lana me respondeu, e eu comecei a corar enquanto soltava: - Eu não to obsessiva por ninguém! Meu Deus, de onde saiu isso? - Lolita, nós estamos aqui faz só uma hora e eu não vi você tirar os olhos deles nem por uma droga de segundo! – a Bela exclamou, rindo da minha cara como se eu estivesse sendo absurda. - E antes disso, na escola. – a Lana prosseguiu, me deixando ainda mais boquiaberta – Você passa meia hora encarando os dois e a outra meia hora fingindo que ignora! Você ta achando que eu sou tonta? - Não! – eu teimei, indignada – Claro que não! Eu não faço nada disso! - Faz! – as duas insistiram. Eu me virei para a Sabrina, como que para pedir ajuda. Ela suspirou e me olhou com ar de culpa. - Desculpa, prima, mas faz sim. – e torceu o nariz – A Giovanna faz de conta que não vê nada, só que ela também já percebeu. Todo mundo já percebeu, Lolita. - Gente, não, beleza? – e me deitei no chão, cobrindo os olhos com as mãos – Eu não fico encarando os dois de propósito. Não tem nada, é sério! - Você está com ciúmes. E, pra minha surpresa, não foi nenhuma das garotas que falou. Me sentei, e vi que o Diego tinha tirado os óculos e fechado o almanaque que estava lendo. - Não, Diego, não to. – afirmei, sem nenhuma certeza. - Lolita, eu já vi, ta legal? – ele girou os olhos – Pelo amor de Deus, você é péssima pra disfarçar qualquer coisa! Você ta com ciúmes dos dois. - Por que eu estaria com ciúmes deles? Eu nem gosto do Edson! 84


- Ta legal... - a Bela murmurou, e eu lhe dei um tapa no braço pra que ficasse quieta. - Você pode estar com ciúmes da atenção que ele ta dando pra ela. – o Diego sugeriu, indiferente – Tipo, você tava acostumada com o fato de ele sempre ter gostado de você, e de repente ele nem olha mais na sua direção. Coisa de ego. - Ou... – foi a vez da Lana sugerir, o que me deu arrepios – Você ta muito apaixonada pra ver, ou é muito tonta pra admitir! - Sem essa! - Ótimo. Então faça-me o favor de pelo menos disfarçar melhor o fato de que você não consegue olhar pra outra direção! Ta ficando muito incômodo, sabia? Eu sabia. Estava incômodo pra mim também. Durante o resto do tempo em que ficamos ali, eu não saí mais do quarto. Era mais fácil pra disfarçar o fato de que eu sabia que todos – exceto a Lana – estavam certos quando diziam que eu não tirava os olhos dos dois. Eu não conseguia arranjar uma explicação convincente. Ego talvez fosse a mais fácil de aceitar, e a mais óbvia. Perder o melhor amigo – de novo – e a atenção sempre exclusiva que ele havia me dedicado devia estar mexendo com a minha cabeça, mas ia passar. Claro que ia passar! Não era como se eu estivesse apaixonada nem nada assim, era só um ciuminho bobo de amigos. Não era? Mas a aura de felicidade da Giovanna não ajudava em nada. Eu preferia ficar longe dos dois quando estavam juntos, e pelo visto teria que estender essa preferência também para os momentos a sós com ela. Era como se não houvesse outro assunto, e o mundo girava ao redor da sua paixão e seu namoro ultra-perfeitos, que me faziam querer vomitar! Parecia que ela fazia de propósito! 85


O que, considerando o que a Sabrina havia me dito, não era lá uma suposição muito descartável. Uma semana depois, eu não estava muito melhor do que antes. Num momento de desespero, liguei pra casa da minha tia, pra tentar falar com a Sabrina, mas é claro que meu carma e meu magnetismo pra tudo de pior não ia deixar barato. Foi a Giovanna quem atendeu. - Oi, Lolita! – ela disse, animada como sempre. - E ai? – foi o máximo que a minha voz esganiçada pela surpresa conseguiu dizer. - Tudo bem? - Tudo, e com...a Sabrina ta por aí? - Eu to ótima! – como se eu não tivesse percebido – A Sabrina saiu, Lolita! - Saiu? - É, foi na casa do Diego fazer não sei o quê. Ela só deve voltar à noite. - Certo... - Ah, Lolita! Oh, não! Tom de quem se lembra de algo importante! O que era agora? - Oi. – minha voz era quase inaudível, mas os ouvidos da Giovanna sempre foram algo invejável. - Assim... – ela deu uma risadinha – Semana que vem, eu e o Dinho – olha, ela tinha evoluído de apelido. Que ótimo! – Fazemos um mês juntos. - Que... legal. – demorei uns segundos pra lembrar de alguma expressão positiva. - E como eu sei que vocês são amigos e tal... – a palavra “amigos” foi especialmente enfatizada – Eu queria saber se você pode me ajudar a escolher um presente pra ele, sabe? Meu queixo caiu. 86


Um minuto inteiro se passou, e eu não conseguia falar. Porque era inacreditável demais pra ser aceitável! Ela definitivamente estava fazendo aquilo de propósito! Dava pra sentir! - Lolita? – chamou, e eu ainda estava muda. A regra de educação e postura de “você-está-muito-enganada” que todas nós aprendemos sugere claramente que o correto a se fazer nessa situação seria fingir uma voz indiferente e concordar com o que lhe foi imposto, como se não houvesse nada de errado nisso. Ser cortês e gentil, amiga como sempre. Isso levaria para longe quaisquer suspeitas que pairassem sobre você. Mas nem preciso dizer que não foi isso o que eu fiz. - Olha, Nana... – já comecei errado: apelido proibido – Giovanna... – corrigi – Eu e o Dinho – droga! – Edson...a gente deixou de ser amigo há muito tempo. Eu não sei se eu posso te ajudar! - Mas Lolita, você ainda assim conhece ele melhor do que eu! – minha prima insistiu, me fazendo ter vontade de chorar – Por favor! - É sério, Giovanna! Pede pra Lana, ela vai conseguir te ajudar mais! - Ah, Lolita... - Eu tenho que ir. Diz pra Sabrina que eu liguei. Tchau! E desliguei. Que ótimo. Se antes ela achava que eu estava apaixonada pelo Edson, agora ela tinha certeza. Mais tarde naquele mesmo dia, o telefone tocou. Eu disparei pelo apartamento minúsculo atrás do telefone sem-fio, mas não encontrei. Então corri de novo, lá pelo nono toque, e atendi no quarto da minha mãe mesmo. - Alô! – eu disse, com a voz ofegante. - Lolita? – a voz do outro lado da linha estava trêmula, como quem está prestes a chorar. 87


- Eu. – respondi, com uma careta – Quem é? - É a Lana. – ela suspirou e retomou o controle da voz – Oi. - Meu Deus, Lana, ta tudo bem? - Lolita... – outro suspiro – Me distraia. - Ah... certo. Pra que é isso? - Faça! Fale sobre qualquer coisa, pelo amor de Deus! Tive que afastar o fone uns dois centímetros nessa hora. Uma Lana descontrolada incomoda vários tímpanos! - Ah... – pensei num assunto rápido que fizesse ela se focar em algo que não lhe dissesse respeito – A Giovanna quer que eu a ajude a comprar um presente pro seu irmão. - E o que você disse? – ela me perguntou, tão desinteressada quanto era possível estar. - Pra ela pedir ajuda pra você. – respondi, num átimo, esperando estar ajudando em alguma coisa – Foi... estranho. - Eu já disse, você ta apaixonada pelo Edson! – bufou - Lolita, posso te fazer uma pergunta? - Pode. - Duas, na verdade. - Vai fundo. - O que a Sabrina poderia estar fazendo às...oito e quinze da noite num domingo na casa do meu namorado? Certo. Então era isso. - Eu realmente não sei. – admiti – Você ta assim por isso? - Sim, eu estou. - Ciúmes do Diego é a coisa mais ilógica que eu já escutei! O garoto não tem olhos pra mais ninguém além de você, Lana! - Isso porque nenhuma outra garota deu em cima dele! 88


- A Sabrina não ta dando em cima dele! – acabei dando risada – Você ta sendo paranóica, Lana! Sério, eu conheço a minha prima. Se ela realmente tivesse sentindo alguma coisa por ele, você seria a primeira a saber! Ela não respondeu. Escutei ao fundo que ela estava batucando em alguma coisa, de um jeito forte e irritadiço. Eu realmente não queria ser o Diego! - O que você acha que eu devo fazer? – me perguntou, por fim, muito mais calma. - Primeiro, relaxe. – respondi, com cuidado, pra não despertar mais gritos – Você vai fingir que ta tudo bem, e tudo certo. Não vai brigar com o Diego, e vai falar calmamente com a Sabrina na segunda-feira. - Calmamente? – indagou, dando a entender que não era bem isso que ela estava planejando. - Calmamente. – concordei. - Tudo bem, então. – bufou de novo – Eu vou...me ocupar. A gente se fala amanhã. - Fica bem! - Vou tentar. Tchau. E desligou. Por que eu tinha a impressão de que ela não ia conversar calmamente? - O que é isso? – eu perguntei, pegando um dos folhetos verdelimão de cima da mesa assim que cheguei. O folheto dizia, em letras amarelas, que estaria rolando uma festa no próximo final de semana num clube ali perto. A venda de convites estava sendo realizada pelas garotas do terceiro ano, sendo dez reais antecipado e quinze na porta. 89


- Festa pra arrecadar fundos pra formatura. – o Edson declarou, chamando desnecessariamente a minha atenção para o lado onde ele e a Giovanna estavam sentados. - Open bar! – a Sabrina completou, com um sorriso diabólico. - Open bar? – a Bela repetiu, e tomou o folheto da minha mão para si. Enquanto lia, o Willian lhe abraçava pelas costas e lhe dava um beijo no rosto – Você viu? – perguntou a ele. - Vi. – respondeu – Vocês vão? - Eu tenho que ir, cara! – o Edson afirmou, nada animado. - Se ele vai, eu to dentro. – a Giovanna sorriu. Eca! - Se é open bar, eu já fui! – a Sabrina exclamou, rindo. - E eu só vou se a Lolita for. – a Bela disse, num ultimato. E todos me olharam, esperando a resposta. - Se todo mundo vai... – eu disse, tentando parecer indiferente. Dei um sorriso, mas não ajudou muito – Acho bom ter homem nessa festa! – completei, pra disfarçar. Todo mundo riu, mas não tenho certeza se alguém me levou a sério. Ou, muito menos, quem eu gostaria que tivesse levado. O dia se passou sem maiores incidentes, pelo menos comigo. Passei a seguir o conselho que todo mundo tinha me dado na casa da Lana e comecei a pôr em prática a doce arte de ignorar tudo o que dizia respeito à Giovanna e ao Edson. Não estava funcionando muito bem. Eu precisava me aperfeiçoar MUITO ainda. Mas a tentativa devia valer de alguma coisa. E então, na hora de ir embora, só pude ver a Lana e a Sabrina num canto do pátio. Uma parecia perfeitamente furiosa. A outra, indignada e até meio assustada. Estou certa de que não preciso especificar quem era quem. A Lana saiu tão rápido, então, que eu não tive tempo de falar com ela, mas a Sabrina continuou parada, a observando enquanto ela ia 90


embora. Suspirei e fui até ela, calmamente. Ela tentou sorrir quando eu me aproximei, mas o resultado não foi dos melhores. - O que foi aquilo? – perguntei, com cautela. A Sabrina deu uma espécie de riso que mais parecia um rosnado. - Ela está ficando maluca, Lolita. Completamente maluca. Esse é o problema. – respondeu, semi-cerrando os olhos. Eu fiz uma careta. - Eu devia decifrar isso de primeira? – indaguei, confusa, e a minha prima balançou a cabeça e começou a andar. - Deixa pra lá! Pois sim! Eu a segui, quieta, e nós fomos pro ônibus. A Bela já estava segurando a minha vaga habitual ao seu lado, mas eu fiz sinal dizendo que não iria sentar ao lado dela hoje. Ela concordou e passou os pés pro banco ao lado. A Sabrina se sentou e colocou a mochila no outro banco, como quem diz “não quero que você se sente”. Eu nunca fui muito boa em receber sinais mesmo, então tirei a bolsa e me sentei mesmo assim. - Lolita, eu to meio irritada, então esse pode não ser o melhor momento. – ela disse, sem olhar pra mim. Eu rolei os olhos e cruzei os braços. - Numa boa. Eu tenho o dia todo, se você quiser. - Você não vai me deixar em paz até eu contar, né? - Desculpe, não. - Ok. – virou-se pra mim, e estava lívida de raiva, os olhos marejados – Aquela... biscate... da sua amiguinha Lana, ela... – bufou e girou os olhos – Ela acha que ela é realmente muita coisa pra vir enfiar a droga do dedo dela na minha cara e ficar me acusando. - Te acusando? – perguntei, entendendo menos ainda tudo aquilo – Te acusando de quê? - A Lana acha que eu to afim do Diego, Lolita! – exclamou, baixando a voz pra que ninguém escutasse – Do Diego, acredita? Por que, em sã consciência, eu seria afim dele? 91


Olhei pra trás. A uns bancos de distância, o Diego estava sentado, lendo, com os óculos meio que na ponta do nariz. Ele não era feio. Na verdade, seria lindo se fosse bem arrumado e se parecesse com um garoto de 15 anos, e não com um nerd completo. Até hoje, eu só entendia o namoro dele com alguém como a Lana por ele ser uma pessoa incrível, e só. - Eu entendo o seu ponto de vista. – afirmei, torcendo o nariz – Por que ela acha isso? - Porque eu fui até a casa do Diego nesse final de semana. – minha prima respondeu, inconformada – Não tem nada a ver, Lolita, eu juro. Não é por nada do tipo que eu fui até lá, mas a Lana não poderia saber de nada, ela não pode saber de nada, pra falar a verdade. - O que vocês dois estão aprontando? - Eu não posso te contar até que ele deixe. Mas ela devia ser a primeira... – e deu um soco no banco da frente, fazendo quem quer que estivesse na frente reclamar - Desculpe! – pediu, então – A Lana devia ser a primeira a me agradecer, Lolita. Ela fica me acusando de dar em cima do namorado dela, mas ela não sabe de nada! - Eu imagino. - E eu tive que engolir tudo calada, simplesmente escutar enquanto ela me xingava e dizia coisas horríveis pra mim! Eu to com uma vontade enorme de pegar o Diego pelo pescoço e fazer ele contar tudo o que está acontecendo na real, estragar logo a droga da surpresa! – bufou, e eu arqueei as duas sobrancelhas – Eu não devia ter me metido nessa encrenca! - A Lana é bastante ciumenta. Você comprou uma briga feia. - Eu já percebi. Só espero que valha a pena. Eu também. Porque eu não ia querer me meter entre as duas quando saísse do controle. Já em casa, tive que tirar o telefone do gancho e desligar o celular pra fugir das ligações da Lana. Eu já estava sabendo mais do que devia, 92


e não queria colocar o que quer que o Diego e a Sabrina estivessem planejando à perder. Não era justo, certo? Além do mais, quem merece ficar no telefone escutando as reclamações de uma amiga surtando de ciúmes? Ela não tinha me escutado e tinha sido completamente precipitada ao falar com a Sabrina O que tinha acontecido com a “conversa calma” que eu tinha sugerido a ela? A Lana não podia esperar que tudo ficasse pior pro lado dela, certo? Mas eu estava mesmo era com pena do Diego. Se alguém fosse pagar por aquela história, seria ele. E como iria. Mais à noite, eu tornei a colocar o telefone no gancho e liguei o celular. Mal fiz isso e o celular tocou. O número que apareceu na tela não me era familiar, mas eu atendi mesmo assim. - Lolita? – disse a voz masculina e definitivamente familiar do outro lado da linha. Eu estremeci e endureci de pronto. - Eu. – foi tudo o que pude dizer. - É o Edson – eu já sabia! - Ah, oi. Tudo bem? - Tudo. O que aconteceu com os seus telefones? Eu to tentando te ligar a horas! - Então era você? – engoli a informação, sentindo o rosto ficar quente. Que droga, cara! – Eu achei que fosse a Lana. - Bom saber que você não quer falar com a minha irmã! – e deu risada – Mas então, tudo certo com você? - Tudo, tudo... – o esforço pra não gaguejar era enorme, e eu respirei fundo – Então... pra que me ligando com tanta urgência? - Na verdade eu preciso da sua ajuda. – o Edson respondeu, e meu coração desacelerou. Eu já sabia exatamente pra quê. - Presente pra Giovanna? – perguntei, desanimada. 93


- É... como você sabia? - Eu sei fazer contas. – bufei – Desculpe, eu não posso ajudar. - Por favor, Lolita. Vocês são primas, você vai poder me ajudar melhor que ninguém! - Peça pra Sabrina. Elas são irmãs, se conhecem melhor. - A Sabrina não é a minha melhor amiga. Você é. Pro inferno com esse negócio de melhor amiga, eu queria dizer. Eu não quero ser a porcaria da sua melhor amiga, eu quero que você largue da minha prima e volte a me olhar como antes! Meu Deus, o que é que eu estou dizendo? Deleta, deleta! Eu não estou pensando nada disso! Lolita má, Lolita muito, muito má! - Certo. – me dei por vencida. Eu sou uma idiota mesmo! – Quando a gente pode sair pra ver isso? O meu tom era meio “eu me rendo, mas me mate logo”, mas o Edson não pareceu perceber. Quase pude visualizar o seu sorriso – e que sorriso! – enquanto me respondia: - Amanhã, depois da aula? - Claro, claro. - Você não sabe de nada! - Você nem me ligou! - Até mais! E desligou. O que é que eu estava fazendo? - Você ta estranha, Lolita. Nossa, Edson, que descoberta! Sério, você é tão inteligente que às vezes me dá vontade de te parabenizar pela sua capacidade absurda de perceber as pessoas! Idiota, é claro que eu tava estranha! Andando com ele pelo shopping, 94


procurando um presente pra namorada dele, minha prima, considerando o fato de que nós éramos supostos melhores amigos de novo e que eu estava morrendo de ciúmes dele. Porque eu tinha cansado de tentar fingir que não e tinha resolvido aceitar o fato, abraçando-o como algo inevitável. Só estava piorando a coisa toda. Eu não queria estar ali, mas eu estava. Eu era idiota e estúpida e a culpa era toda minha. Que droga, que droga, que droga! - Impressão sua. – disfarcei, com um sorrisinho torto nada convincente. Talvez eu não quisesse convencê-lo – E aí, já sabe o que você quer dar pra ela? Eu era uma droga como consultora de presentes, mas era pior quando o caso era assim tão complicado. Aquela tarde ia custar a passar. - Na verdade, não. – confessou, mexendo naquele cabelo enorme e lindo dele – Esperava que você pudesse me dizer. - Certo... A sugestão estava na ponta da língua, mas eu não podia dizer. O que eu queria sugerir era “dê um pé na bunda dela”, mas não seria nada educado, muito menos sutil. Eu estava ali como amiga, e preferia continuar daquele jeito pra não piorar o que já estava ruim. Por isso, respirei fundo e fui andando com ele pelo shopping, olhando as vitrines. É claro que eu vi um monte de coisas que eram a cara da Giovanna. Era difícil, na verdade, pensar em qualquer coisa que NÃO combinasse com ela. O Edson poderia dar roupas masculinas sujas e rasgadas pra ela, e ainda assim ela ficaria espetacular nelas. Não era à toa que eu e metade da escola tínhamos uma pontada de inveja dela. Mesmo assim, facilitar não era bem o que eu tinha em mente. Eu não queria que ele escolhesse nada bom demais, pra não parecer que tivesse tido ajuda na hora de escolher. E também não queria que ele desse 95


um presente ridículo. Era completamente retardado, mas eu queria muito ajudá-lo com aquilo, apesar de me doer. O quão masoquista uma pessoa pode ser? Eu estava prestes a achar a resposta. Encurtando a história, eu e o Edson andamos por horas, e justo quando eu estava começando a me divertir e o nosso verdadeiro propósito de estar ali começava a ser esquecido, ele parou numa loja de brinquedos e comprou um ursinho de pelúcia pra Giovanna. A realidade me abateu e eu voltei a ficar pra baixo. Depois, só fomos até o ponto de ônibus e lá nos despedimos. Eu subi no primeiro que passou, e ele ficou lá, esperando um que lhe servisse. E eu fui embora, com o coração rachado em mil na mão.

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Proibido é Mais Gostoso - Oi, mãe! - Oi, filha. - Como a senhora está? - Lolita, o que você quer? Por que toda mãe prevê automaticamente que nós queremos alguma coisa quando somos gentis? Os filhos não têm direito de usar a educação que lhe foi ensinada com suas adoráveis mamães por um mísero segundo sem serem julgados como verdadeiros sanguessugas? Isso é uma grande injustiça, se vocês querem saber o que eu acho! - Festa no próximo domingo? – arrisquei, com uma careta. Até fechei os olhos pra não ver a cara dela. Ah, sim, me lembrei agora por que toda mãe acha isso. Porque, geralmente, elas estão certas. - Num domingo, Lolita? – a sua voz era tipo “você ficou maluca?” – Você ficou maluca? O que foi que eu disse? - Mãe, qual é! – exclamei, fazendo beicinho – Não custa nada! Eu vou com a Sabrina e a Nana e volto com elas. - Você tem aula na segunda-feira, mocinha, pode esquecer. Eu duvido que a sua tia vá deixar, de qualquer forma. - Eu duvido que ela não deixe! Mãe, por favor, eu não vou chegar tarde e eu vou pra droga da escola na segunda de manhã, de qualquer jeito! - Vai, é claro que vai. – deu as costas e começou a andar em direção ao corredor – Principalmente porque você não vai a lugar nenhum no domingo! Bufei. 97


Nota: nenhuma mãe se lembra que foi adolescente. Elas adoram agir como se tivessem nascido adultas, e esquecem que uma única festa num domingo não vai destruir as nossas vidas. E que um dia dormindo na aula não vai mudar nada, porque, afinal, é isso o que a gente faz todos os dias mesmo. Certo, e o que eu ia fazer agora? Sem chance de eu perder uma festa à qual todo mundo ia! Era a oportunidade que eu precisava pra me distrair de todo aquele monte de coisa de ciúmes e vida desmoronando à minha volta. Eu tinha que dar um jeito! Então, na manhã seguinte, resolvi ter uma consulta básica com as especialistas em convencer mães: Giovanna e Sabrina. Na verdade, a minha intenção inicial era pedir ajuda pra Belatriz, porque ela é minha melhor amiga e tem obrigação de me escutar e tentar me dar algum apoio. Mas ela estava ocupada demais aproveitando seu tempo com o namorado, e eu não quis interromper; afinal, se ela voltasse ao seu estado natural SEM o Willian, quem ia agüentar seu falatório incansável sobre seus problemas caseiros com a irmã gêmea nada parecida com ela, seria eu. Então, fui procurar a Sabrina. No entanto, me esqueci que, quando se procura pela Sabrina, a Giovanna é parte do pacote. As duas irmãs super unidas que falam sobre tudo e coisa e tal. Uma ainda estava puta da vida por toda a história com a Lana. A outra tinha aquele sorrisinho prepotente que eu sabia exatamente a quem era destinado. Quase desisti, mas eu já estava enforcada mesmo, certo? - Eu estou com um problema. – declarei, me sentando com elas. Graças a todos os santos, o Edson não estava lá ainda. - Bem vinda. – a Sabrina resmungou e eu fiz um muxoxo. A Giovanna riu. - O que foi? – ela perguntou, e eu me senti grata por pelo menos uma não estar de mau humor. E por ela ser capaz de fingir que não me olha como uma ameaça de vez em quando. 98


- Preciso de uma dica pra convencer a minha mãe a me deixar ir na festa de domingo. – respondi, e a Nana torceu o nariz. - Na dos formandos? - É. - Você disse que nós vamos? - Disse, e não adiantou. - Já pensou em não pedir? Foi a minha vez de torcer a cara. Aquilo não ia dar certo nem em um milhão de anos! - Como, exatamente? – me arrisquei a perguntar – Tipo... mentir? - Mentir é uma palavra muito forte! – a Giovanna exclamou, com uma cara do tipo “que absurdo!” – Mais como arranjar outro compromisso. - A minha mãe não vai cair nessa! - Claro que vai! Você só tem que fazer a coisa do jeito certo. - E como é o jeito certo? Caramba, caramba! Aquilo não ia funcionar NUNCA! Ainda mais comigo! Respirei fundo pra ficar calma antes de entrar na cozinha pra falar com a minha mãe. Era domingo de manhã, e eu tinha passado a semana toda na minha, sem dizer nada. Agora eu estava com o telefone nas mãos, ligado sem ninguém do outro lado da linha, prestes a fazer uma encenação histórica. Onde eu estava com a minha maldita cabeça pra tentar cometer aquele suicídio monumental? - Mãe? – chamei, e limpei a garganta. A expectativa de mentir pela primeira vez pra minha mãe estava me deixando nervosa e sem voz. - Oi, filha. – ela respondeu, de costas pra mim. Estava lavando a louça. Respirei fundo mais uma vez e apertei os dedos em torno do telefone. Minha mão estava suando. 99


- A Bela quer saber se eu posso ir até lá. – eu disse, mordendo o lábio inferior de tanto medo de que ela ligasse os fatos. - Você ta falando com ela? - Eu liguei pra ela. - Hm... – fez um minuto de silêncio, e então se virou. Eu tentei relaxar a expressão e sorrir, apertando o telefone contra o peito – Você sabe ir até lá sozinha? Eu não posso te levar. - Sei, sei sim. – respondi, mecanicamente, tentando não sair pulando e comemorando logo de cara. - Certo, então tudo bem. Dei um sorrisinho, e coloquei o telefone na orelha. Hora da parte mais teatral de todas. - Bela? – fiz uma pausa mínima, como se realmente alguém estivesse respondendo – Oi, a minha mãe deixou eu ir! – outra pausa. Minha mãe ainda estava olhando, e eu fui saindo de fininho. Quando achei que tinha dado tempo suficiente, conclui – Então a gente se vê mais tarde. Tchau. E desliguei o telefone. Eu merecia o Oscar depois dessa!!! Ok, então eu ia àquela festa. O que eu iria vestir? Fui direto pro quarto, tranquei a porta e abri o guarda-roupa. Calças, calças, casacos, calças. Eu era básica demais. Afora o vestido que eu tinha usado na festa da Lana, eu não tinha nada mais curtinho no guarda-roupa – e aquele vestido era social demais pra ocasião! Eu ia pra festa dos formandos acompanhada das duas garotas mais bonitas da escola usando calças? É o que parece. Peguei umas calças e revirei a gaveta de blusinhas e fui aos poucos separando umas peças que podiam servir. Depois que filtrei tudo o que eu achei que prestava, abri a porta do armário que tinha o espelho minúsculo e supostamente de corpo inteiro, e comecei a experimentar as roupas. 100


Só Deus sabe como eu odeio experimentar roupas. Experimentar, comprar, tudo isso me deixa tonta. Eu não nasci pra ser consumista, e definitivamente não tinha sido feita pra ficar horas trocando de roupa pra me olhar num espelho. Como sempre, depois de provar milhões de peças de roupa, todas elas pareciam uma grande porcaria pra mim, mas alguma delas teria que servir! Eu não tinha tempo, nem paciência pra ir arranjar alguma coisa nova. Bufei, e acabei optando por uma calça jeans um pouco mais escura e uma blusinha de pano fino roxa. Teria que servir. Era só me maquiar, pentear o cabelo, pôr uma sandália no pé e pronto. Não importava quantas roupas eu colocasse, quão perfeita eu ficasse, eu ainda estaria entrando com a Sabrina e a Giovanna, e isso é mais competição que uma única garota pode agüentar. Por fim, enfiei tudo de que iria precisar numa mochila, tentando ao máximo não amassar nada, e a pus nas costas. Peguei o dinheiro do ônibus, o celular, meus documentos, dei um tchau rápido pra minha mãe e fui. Bati na casa da minha tia quando já era quase uma da tarde. Aquela era a parte na qual eu não tinha pensado. Minha tia. Se ela dissesse alguma coisa, eu estava ferrada, completamente ferrada. Mas a sorte devia estar do meu lado, porque a primeira coisa que eu percebi quando a Sabrina abriu o portão pra mim foi que o carro dela não estava na garagem. - Cadê a tia? – eu perguntei, meio ansiosa. Minha prima sorriu com satisfação. - Você é uma cretina muito sortuda! Meus pais viajaram ontem e só voltam amanhã! - Aliás, como vou fazer pra voltar? - A gente leva você pra casa. Você marcou algum horário com a sua mãe? - Sabrina, ela acha que eu to na casa da Bela! Ela vai me matar com certeza quando eu chegar de madrugada! 101


- Ela pode te matar depois que você tiver ido! – e deu uma piscadela – Larga de ser tão azeda, vem, a Nana ta escolhendo a roupa dela. Ela devia ter dito “a Nana está destruindo o quarto dela”, porque foi isso que eu vi quando entrei lá. Parecia um campo de batalha. Tudo coberto de roupas, e a Giovanna experimentando, parecendo contrariada com o mundo. Roupas legais, cintura 36 e o poder de ficar perfeita independente do que se coloque no corpo! Eu adoraria poder ser revoltada que nem ela! - E ai, Giovanna? – cumprimentei, da porta. Tinha medo e nenhuma vontade de entrar; desnecessário dizer por quê. - Oi, Lolita. – ela me respondeu, sem tirar os olhos do espelho. Então bufou e começou a arrancar o vestido amarelo que estava experimentando – Isso ta uma droga! - Você é impossível! – a Sabrina exclamou, sentando na cama da irmã, sobre outra pilha de roupas. Convidou-me a sentar com ela, mas eu fiquei onde estava, com medo de ser atingida por uma bomba de seda ou coisa parecida. - Você já escolheu o que vai vestir? – a irmã perguntou em seguida, virando-se pra encará-la, com aquele olhar de “nem venha me criticar”. - Ontem. - Então quer fazer o favor de me ajudar? Eu tenho milhares de roupas e não consigo encontrar nada que preste! - Você tem milhares de roupas e não consegue fazer seu cérebro se adequar a elas! – então, ela se deitou e bufou – Põe qualquer coisa! Tipo assim, você já tem namorado! Não vai lá pra pegar ninguém além dele! Obrigada por me lembrar, Sabrina! Como se eu não pensasse nisso a cada droga de cinco minutos! - Eu posso ficar bonita pra ele? – Giovanna insistiu, azeda. O nó na minha garganta tomou proporções grotescas, mas eu fiquei quieta. 102


- Vá em frente. – a outra respondeu, sem se importar. A Giovanna vestiu então um conjunto de saia e blusinha rosadas e se virou pra mim. NÃO ME FAÇA ESSA PERGUNTA!!!!!!!!!!!!!!!! - Acha que ele vai gostar, Lolita? – me perguntou, num tom inocente. Mas dava pra ver o ciúme e a provocação estampados na cara dela. Cretina sortuda? Experimente burra azarada, priminha! Sua irmã está fazendo da minha vida um inferno, e a culpa é toda minha! - Acho que ele vai gostar de qualquer coisa que você coloque. – respondi, apenas, num tom baixo demais, tentando não olhar pra ela. Mentalmente, completei: como se fosse humanamente possível te achar feia vestindo qualquer coisa que seja! Depois disso, a cada duas provas, era pra mim que a Giovanna se virava. Eu estava realmente afim de sair correndo dali e desistir daquela festa, mas eu já tinha ido longe demais. Eu tinha dito que ia àquela festa, e faltar a ela seria pior do que ir. Não queria dar à Giovanna o gostinho de ver que estava me afetando, e certamente tudo o que eu não queria era que ela confirmasse as suas suspeitas. No fundo, acho que o que eu esperava mesmo era não confirmar nenhuma suspeita pra mim mesma. Eu não estava convencida de nada, e tinha esperanças de que, ignorando aquele monte de sensações simultâneas sobre ela e seu namorado e meu melhor amigo Edson, talvez tudo passasse, sumisse. Como se fosse tão simples se tratando de mim! Eu consigo transformar um rato em um ônibus se o ignorar por tempo demais! As coisas nunca correm a meu favor! Lá pelas cinco horas, eu tomei um banho e troquei de roupa. Era humilhante me vestir e me arrumar no mesmo quarto que a Sabrina – e com a Giovanna no cômodo ao lado. Eu não vou dizer que não me acho bonita; só não sou bonita como elas! Qualquer uma das duas podia fazer uma princesa de contos de fadas se sentir um verdadeiro trapo humano! Imagine eu! 103


Desisti de tentar ficar à altura lá pelas seis e meia, quando já estava vestida e maquiada. O espelho gritava que eu estava um desastre, mas eu olhei pra ele e mostrei a língua. Qualquer garota no meu lugar se sentiria igual, então, eu não devia dar crédito aos meus pensamentos autodestrutivos hoje. Não hoje. Sete horas, saímos de casa. Achei que fôssemos de ônibus, já que meus tios estavam viajando, mas pra minha surpresa, tinha um carro esperando na frente. E nem ao menos era uma droga de um táxi pra ajudar. Nada disso. Era um Corolla modelo antigo, preto meio desbotado, com o banco da frente livre e só mais uma passageira atrás – Lana. Jesus, me salve! Giovanna entrou no banco do passageiro, e Sabrina subiu primeiro no banco de trás. Fiquei espremida atrás da minha prima mais velha, com a visão panorâmica do rosto do Edson, sem muita empolgação, mas bonito como sempre, o cabelo meio comprido preso pra trás. Baixei o olhar rapidamente, me concentrando em questões mais banais do tipo “por que diabos ele está dirigindo?” Eu nem sabia que ele tinha carteira. Na verdade, estava me perguntando se ele sequer estava na idade de tirar a carteira de motorista. - Você já tem dezoito, Edson? – a Sabrina perguntou por mim. Fiquei me questionando se ela tinha visto a questão estampada na minha cara, ou se ela também queria saber. - Já, fiz em janeiro. – ele respondeu, acelerando com o carro. Era charmoso vê-lo dirigindo. Lolita má, pare com isso! - Legal. – a Sá suspirou e deu uma olhadinha no carro – O carro é seu? - Não, é do meu pai. - Hm. 104


Então olhei pra além dela e vi a cara emburrada da Lana, e tudo ficou claro. Ela não tinha visto nada na minha cara, nem queria saber, estava apenas fazendo um favor pra si mesma e se distraindo pra não ter que se lembrar que a garota que a odiava mortalmente no momento estava sentada bem ao lado dela. Realmente, seria uma viagem tremendamente agradável! Felizmente, o trânsito deu uma trégua naquele domingo, e conseguimos chegar ao clube em menos de mai hora. Edson dirigia bem, embora tivesse um fraco pela faixa do ônibus e não fosse muito fã de parar nos faróis vermelhos. Mas nunca acelerava demais, nem fazia ultrapassagens indevidas, e não causou nenhum problema enquanto o semáforo estava verde. E, por fim, chegamos. Edson preferiu estacionar o Corolla do lado de fora do clube. Quando deixei o carro, fiquei confusa se deveria acompanhar minha prima ou a Lana, uma vez que ambas eram minhas amigas e uma não estava falando com a outra. Me senti dividida, e isso era bem desagradável. Por fim, olhei pra Sabrina, e ela fez sinal pra que eu seguisse a Lana, já uns bons passos à nossa frente. Corri até ela. - Oi, Lana. – cumprimentei. Ela sorriu e fez um muxoxo. Que ótimo. Está escrito “saco de pancadas” na minha testa, droga? - Ta estressada por causa daquela história ainda? – eu ia dizer “da Sabrina”, mas achei que isso seria bem chato se fosse ouvido lá de trás. Além disso, ela sabia muito bem do que eu estava falando. Lana bufou e virou pra mim, uma ruga funda na testa entre as sobrancelhas. - É, eu to. – me respondeu, a voz mais tranqüila do que eu esperava. Balançou a cabeça e voltou o olhar pro chão à frente – O Diego não vem hoje. - Por quê? – indaguei, mesmo sabendo que talvez aquilo fosse um erro. Uma pergunta errada era sinônimo de gritaria com a Lana, sempre. 105


- Acho que ele está bravo porque eu briguei com ele por causa daquilo. - Desculpe, mas eu também ficaria. E, de repente, ela me olhou, furiosa. Opa, eu tinha ido longe demais. - Você acha que eu estou errada, Lolita? – perguntou, a voz meio alterada agora – Sinceramente! - Calma, Lana, não disse nada disso, beleza? – mas não disse que você estava certa, tampouco. Medi bem minhas palavras antes de responder à sua pergunta – Olha, eu entendo os seus motivos. Talvez eu também ficasse puta no seu lugar, eu sei lá. Só que você está dando muito pouco crédito a uma relação de mais de um ano, não acha? - Não é nele que eu não confio. – e olhou de esguelha pra trás, pra Sabrina. Bufei. Lembrei do que a Sabrina me disse, que ela estava ajudando o Diego e a Lana, mas eu não podia dizer nada. Primeiro porque não sabia muito mais que isso, e segundo porque a Lana não iria acreditar em mim. - Relaxa, ok? Vamos tentar esquecer tudo hoje, pelo menos hoje! A Lana me olhou desconfiada, captando no ar uma informação que eu tinha deixado escapar. “Vamos” não tinha sido uma boa fala. Queria dizer que eu tinha coisas a esquecer também. Coisas que, no momento, andavam bem ao lado da “coisa” dela. Ela entendeu rapidinho e ficou quieta, e eu agradeci em silêncio. A última coisa que eu precisava era que a Lana me jogasse na cara o que eu não queria admitir. Já dentro do clube, a festa estava rolando. O salão era pequeno, e só tinha espaço pra pista de dança e um balcão com bebidas. Nada pra comer. Muita gente, muita música, muita bebida, pouco espaço. Não era uma combinação das melhores. Fomos recebidos logo de cara pela Suellen, acompanhada do meu ex-alguma-coisa Ricardo, que deu um sorrisinho torto quando passamos por ele. Dei um “oi” rápido pra Su, mas o ignorei por completo. Ele provavelmente sabia que o negócio da cola denunciada durante a prova 106


era culpa minha, e eu queria que ele pensasse isso. O que eu tinha feito era muito pouco perto do que ele merecia que eu fizesse. Então passamos pelo Daniel, fumando, quietinho num canto, apoiado numa mureta. Nem eu nem Lana estávamos muito animadas, então fomos até ele. Lana sentou-se na mureta ao lado dele, e eu me sentei ao lado dela. O pobre do Dani parecia tristonho. E eu sabia o motivo. Suellen, Suellen, a única garota com quem ele realmente se importava. Não fazia diferença se eles fossem parentes em primeiro grau, o Daniel sempre seria apaixonado por ela, e ela sempre faria pouco caso. Tadinho. - E aí, Dani? – eu disse, olhando o movimento. Ele balançou a cabeça em resposta, soltando uma nuvem de fumaça. - Isso aí é cigarro mesmo? – a Lana perguntou, com uma careta. Rolavam vários boatos de que ele usava drogas pesadas, e ele já tinha estado estranho demais pra confirmar, mas nós nunca tivemos certeza de nada. O Daniel riu, deu uma tragada e jogou a fumaça na nossa cara. Definitivamente cigarro. Então, pra minha surpresa, a Lana esticou o braço, pegou o cigarro dele e começou a fumar também. Tentei não deixar o queixo cair. O que ela estava fazendo? Tipo, eu não tenho problema nenhum com pessoas que fumam, mas acho isso totalmente errado! Autodestruição prazerosa? Cadê a lógica nisso? A Lana expirou a fumaça e devolveu o cigarro. Olhou pra mim e pros meus olhos chocados, e começou a rir. Rir tipo gargalhar. - O que foi? – eu perguntei, ainda mais confusa. O Dani parecia em alfa, alheio a tudo o que estava acontecendo, distraído. - A sua cara foi ótima! – exclamou, apenas, e eu dei de ombros. - Aprendi que fumar é errado. – declarei, tentando soar indiferente, mas não conseguia. A Lana pegou de volta o cigarro e tragou de novo. - Não dizem que o proibido é mais gostoso? - Só esqueceram de mencionar que nem sempre é o mais saudável! 107


- Pelo amor de Deus, Lolita, você tem 15 anos ou 50? – pegou minha mão e me deu o cigarro – Toma, tenta. - Para com isso, Lana! – joguei o cigarro no chão e pisei em cima. O Daniel fez cara feia primeiro, depois puxou outro do bolso e acendeu – Vou tomar alguma coisa. - Beber também é errado! - Tchau, Lana! Me afastei, mas ela veio comigo. Eu tinha certeza de que a Lana não estava no seu normal. Ela era o tipo certinha e intelectual, não a porra louca que sai por ai fumando. Ela devia estar completamente alterada com essa crise de ciúmes por causa da Sabrina. Mas, no fim das contas, ela tinha razão. O proibido era mesmo mais gostoso, e eu estava caminhando pra mais uma coisa que eu tinha aprendido a não fazer: beber. Eu tinha 15 anos e nunca tinha tomado mais que um copo de alguma coisa alcoólica. Aquilo não era lá muito comum nesse meu século vinte e um. Não sou muito Maria-vai-com-as-outras, mas me senti tentada a experimentar, só daquela vez. Ora, eu queria ou não esquecer? Quem liga se beber é certo ou errado? Então, ao invés de eu pegar só um copo, eu peguei uma garrafa. Os relatos a seguir são imprecisos, devido ao excesso de álcool consumido pela narradora desta história. Qualquer semelhança com a realidade NÃO É mera coincidência. Nunca são. Eu nem sei como a primeira garrafa acabou, mas sei que eu não terminei com ela sozinha. Eu ainda estava bem consciente, só bem mais lenta. Então, a Lana foi buscar uma outra garrafa pra gente. O Daniel estava parado exatamente no mesmo lugar, fumando e bebendo enquanto a festa fervia. Depois de um tempo, a Bela passou, levando 108


o Willian consigo. Parou quando percebeu que a garota torta escondida numa nuvem de fumaça de cigarro do cara ao lado era eu. Fez uma careta. - E ai, Lolita? – arriscou. Atrás dela, o Willian ria da minha cara. Levantei a mão, mas não disse nada. Eu não estava muito afim de mexer a boca, sabe como é. - Então... você... – abafou uma risada, e se recompôs – Vai ficar aí sentada com o Daniel? Foi nesse momento que a Lana chegou. Desta vez com duas garrafas. Eu nem olhei o que era, só comecei a abri-la, sem sucesso. O Willian tirou-a das minhas mãos e a abriu antes que eu causasse algum acidente com ela. Me devolveu, e eu dei um gole. Aquilo era boooom... - Você bebe? – a Bela me perguntou, meio descrente. Certo, vindo dela isso era mesmo uma piada! - Você não bebe? – perguntei, notando que a minha voz saía meio grave demais – Que engraçado. – e comecei a rir – Você viu que engraçado? - O que é engraçado? – embora ela também estivesse rindo, e a Lana também, e o Willian e todo mundo num raio de dez metros que pudesse me ouvir. - Minha voz! Hihi! - Tchau, Lolita! - Tchau, Belaaaa... Minha voz foi sumindo, e eu bebi mais um pouco. Ainda rindo, bati minha garrafa na da Lana. O tilintar me deu vontade de rir, e a minha risada me deu mais vontade ainda. Tudo era muito engraçado, e o que quer que houvesse naquela garrafinha era bem gostoso. As luzes picando eram engraçadas, mas me deixavam meio tonta. Vi a Lana dançando, e entendi que talvez dançar melhorasse a tontura. 109


Comecei a me mexer e a pular, mas não ajudou muito. Na verdade, meu estômago estava uma droga. Alguém esbarrou em mim, e eu xinguei. Não sei a quem exatamente. Eu não estava enxergando muito. Talvez eu precisasse de óculos. Ok, eu estava bem mal agora! Tinha alguém segurando o meu cabelo enquanto eu encarava o vaso sanitário. O fundo branco e a água me encaravam, enquanto o estômago gritava e eu pedia pra vomitar, mas não saia nada. Meu Deus, quanto eu tinha bebido? A propósito, de quem era aquele banheiro? Eu ainda estava escutando um barulho, então eu acho que não devia ter saído daquela festa... onde era a festa mesmo? O celular vibrou e tocou, mas ninguém atendeu. Fez eco, e eu sabia exatamente quem estava me ligando e como eu estava ferrada, mas tudo bem. No momento, eu só precisava vomitar. - Perdeu a vontade? – uma voz perguntou atrás de mim. Acho que era Bela, mas meus ouvidos estavam abafados, como ficam quando a gente passa muito tempo perto duma caixa de som. - Não sai... – gemi, de um jeito meio anasalado. Eu estava torta, mas estava falando a verdade. Então Bela, ou tanto faz quem estava comigo, puxou minha cabeça pra trás e enfiou o dedo na minha boca semi-aberta. E aí eu vomitei. Muito. - Lolita, nós chegamos. Me cutucaram várias vezes, e eu vi que estava na frente do meu prédio. Ótimo. Devia ser umas 4 da manhã, duma manhã de segunda-feira, e minha mãe obviamente estaria puta da vida! 110


Se é que ela estava acordada, o que já servia de consolo. O Edson, o mais são de todos nós porque estava ao volante, deu a volta e abriu a porta pra que eu descesse do carro. Eu cambaleei, e recusei sua mão quando ele tentou me ajudar. Meu estômago estava revirado, minha cabeça estava doendo e a minha boca parecia um deserto. Perfeito! Então eu segui, meio torta demais, até entrar no prédio, e de lá me segurei pra não cair até chegar no elevador. A única coisa que eu mantinha em mente era: não caia, não durma. Deixe pra fazer isso quando chegar em casa. Pelas próximas duas horas antes de ir à escola. Meu Deus, eu estava completamente ferrada! Me mantive de olhos abertos enquanto aquele elevador idiota subia até o meu andar, e precisei de cinco minutos inteiros pra achar a chave e enfiá-la na fechadura. Fui meio barulhenta demais quando entrei em casa, mas tudo bem. Abri, entrei, tranquei a porta e tirei os sapatos. E desabei no sofá.

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Quem tem medo do Lobo Mau? - Carlota Rodrigues Paes! Meu Deus do céu, quem foi que ligou a voz da minha mãe em amplificadores e colocou vinte caixas de som de potência máxima bem no meu ouvido? Abri os olhos, e dei de cara com o chão da sala. Eu não fazia a menor idéia de como tinha ido parar ali. Opa, peraí, eu lembrava sim. O Edson tinha me levado até em casa, e eu deitei ali porque estava mais perto. Mas antes disso... O gosto na boca me deu uma dica. Vômito. Muito vômito. E pela dor de cabeça, a minha noite tinha sido cheia. Onde é que eu estava mesmo? - Carlota, quer levantar e olhar pra mim? – minha mãe tornou a falar, cada palavra soando como uma orquestra inteira tocando bem na sala minúscula do nosso apartamento. Levantei e logo percebi que aquele era um erro fatal. Minha cabeça girou e eu tombei no sofá de novo. Tive vontade de rir, mas me contive, porque eu tinha certeza de que a minha mãe não ia achar a menor graça. Ainda mais me vendo daquele jeito. Eu estava de ressaca. Pela primeira vez, e era uma ressaca braba! Daquelas que torcem o seu pescoço e amassam o seu cérebro, que te derrubam por um dia inteiro. Era o tipo de dia que você deitava pra nunca mais levantar. Mas era também uma segunda-feira, então eu estava ferrada. - Você foi àquela festa, Carlota? – me perguntou. 113


A resposta mal educada estava na ponta da língua, mas não era hora pra isso. Eu já estava fudida o suficiente pra fazer algo que piorasse a situação agora. Eu podia muito bem ficar de bico calado. - Fui. – respondi, e fiquei impressionada por quão rouca eu estava. Será que eu tinha gritado ontem? - Você enlouqueceu? – começou a gritar, furando o meu crânio e explodindo meus ouvidos por dentro – Num domingo, sem a minha permissão? Você mentiu pra mim, foi numa festa e se embebedou sabendo que você tinha AULA no dia seguinte! Você não tem juízo, menina? Cadê a sua responsabilidade, as coisas que eu te ensinei? Pronto. Ia começar. O despejo de mãe sofredora que batalha pra criar os filhos, que crescem e pisam em cima de tudo o que elas fizeram. Todas as mães são iguais! Bem, eu não era obrigada a ficar escutando aquilo, era? Achei que não. Fiz uma cara de “estou morrendo” – que era inteiramente verdadeira -, pus a mão na cabeça pra tentar conter a dor iminente e fui andando pelo apartamento até a cozinha. Minha mãe foi atrás, falando consigo mesma, enquanto eu caçava um remédio pra enxaqueca, ressaca ou qualquer outro comprimido que pulasse dançando na minha frente. Engoli um comprimidinho branco simpático e fui pro meu quarto. Minha mãe ainda estava falando. Isso é que é energia! Peguei meu uniforme e uma calcinha e fui pro banheiro. Ela ainda estava discursando e me dando bronca enquanto eu tomava banho. A água quente do chuveiro ajudou, mas não resolveu muita coisa. Mesmo depois de eu escovar os dentes, minha boca ainda estava seca e com gosto ruim. Minhas roupas fediam a vodca com fumaça de cigarro, e eu rezei pra não ter fumado enquanto estava... fora de mim. Além disso, nem um milhão de banhos seriam capazes de anular minha dor de cabeça e minha ânsia de vômito. Eu estava um verdadeiro caco. 114


Quando saí do banheiro, devidamente vestida, minha mãe havia parado de falar e estava na sala, com cara feia. Fui pro quarto, peguei a mochila e consultei o relógio. Atrasada pra pegar o ônibus, mas ainda não para a escola. Ótimo. Era, de fato, o melhor dia pra pegar carona com a minha mãe! Eu sou mesmo um acúmulo de azar ambulante! - Vamos logo. – minha mãe disse, irritada. Eu nem me dei ao trabalho de responder. Só peguei minhas chaves e fui. Desnecessário dizer que ela falou o caminho todo. Eu dormi durante uma parte do trajeto – e da bronca, por tabela -, mas tive que me distrair durante o resto. Quando cheguei na escola, eu estava um pouquinho pior do que antes. - Quando eu chegar em casa, nós vamos ter uma conversinha! – ela exclamou, enquanto eu ia saindo. Como se eu já não soubesse! Entrei no Santa Rita exatamente quando o sinal tocou, sem nenhuma vontade de subir. Vários alunos do Ensino Médio pareciam se encontrar no mesmo estado de ânimo que eu. Eu podia apostar que a maioria estaria de ressaca. Aquela seria uma manhã e tanto! - Oi, gente. – eu disse, quando cruzei com a Lana subindo, abraçada ao Diego, andando lado a lado com a Giovanna e o Edson. Nem sinal da Sabrina, ou da Bela. Ótimo. - Oi, Lolita. – o Diego cumprimentou. Ele era o melhor entre todos nós. Parecia animado, porém silencioso. A Lana, cujos olhos escuros estavam adornados por olheiras roxas bem fundas, se limitou a sorrir e a minha prima nem isso – apenas bocejou, sem nem me dar atenção. Edson foi o único que veio até mim e me deu um beijo no rosto, me fazendo corar e deixando a Giovanna puta da vida. 115


Aquilo bastou pra que ela me fuzilasse o dia inteiro. Entramos na sala, e nem mesmo depois que todos os alunos entraram – Bela chegou e se sentou atrás de mim, com a cara de quem poderia rir de mim a qualquer instante – a Sabrina não apareceu. Me segurei pra não perguntar o que estava acontecendo. Meu contato com a Nana nos últimos dias era o mínimo necessário, e ainda assim qualquer pequeno diálogo virava uma completa catástrofe. Então, era melhor eu ficar na minha. A aula começou, e eu simplesmente não podia prestar atenção. Em quase 15 anos, eu nunca tinha estado tão cansada. Nem com tanta dor de cabeça. Lá pelos 25 minutos de aula, que mais pareceram 25 anos, a Bela me passou um bilhete. Que noitada, hein. A letra da Bela estava melhorando com o tempo, mas ainda era ruim. Sempre borrada e meio torta, grossa e forte demais. E dava quase pra sentir o riso dela na minha nuca. Tremi de medo. O que foi que eu fiz? Eu perguntei, exprimindo meus próprios pensamentos em palavras escritas. Passei o bilhete de volta, e dessa vez realmente escutei-a rindo. O que você NÃO fez é a questão, Lolita! Você faz alguma idéia do quanto você bebeu? Na verdade, não. Eu vou te contar. Quando eu te vi pela primeira vez, você já estava bem alegrinha. Cada hora que eu te via você tava com uma bosta duma garrafa diferente. GARRAFAS, Lolita! Oh, céus! O que eu fiz, Bela? Por favor, diga que pelo menos ficou assistindo, já que não se mexeu pra me fazer parar de beber! Ah, mas eu tentei. Você quem não deixou. De qualquer jeito, eu vi você beijando um garoto que eu nunca vi na vida, e teve uma hora que 116


começou a quebrar as garrafas na parede. Isso foi muito sinistro, mas eu consegui te conter a tempo! Jesus! E eu vomitei! É, eu lembro que eu vomitei! É, eu enfiei o dedo na sua garganta. Eca! Isso é bem nojento, você tem coragem! E estômago! De nada. J Eu estava realmente cercada de pessoas problemáticas. O dia todo, Giovanna me observou. Seus olhos me diziam a verdade que eu não queria escutar da boca dela, porque o dia em que seus lábios se abrissem pra dizer o que ela queria falar na minha cara, ela certamente começaria a berrar. Eu a conhecia o bastante pra saber disso, e não era algo que eu viveria pra contar. Mais e mais, tudo o que eu sentia e tudo o que viria a acontecer por causa disso me sufocava, e eu me via cercada. Meu maior alívio foi subir no ônibus pra voltar pra casa. A ressaca tinha me pegado de jeito, e eu ainda estava mal, com dor de cabeça, dor no corpo e vontade de vomitar. Preferi guardar esses detalhes pra mim. Não ia querer que Bela enfiasse o dedo na minha goela de novo. Embora estivesse realmente precisando. Bela se sentou do meu lado após sabe-se lá quantos minutos de despedida do seu namorado – como ela me lembrava a caba dois minutos com seus comentários incansáveis. Me fazia desejar voltar à época em que ela só falava da Suellen. Pelo menos eu não sentia inveja. Quando ela se sentou, eu não pude segurar a minha língua. Eu precisava falar. Eu precisava admitir em voz alta. E nem esperei o ônibus entrar em movimento pra soltar: - Você está certa. – parei. Ela me olhou, com uma sobrancelha erguida – Todo mundo estava certo. Eu sabia o tempo todo. Eu... 117


Eu não consigo falar. Eu não consigo dizer nem pensar nisso sem me sentir completamente horrível e assustada e com vontade de morrer, porque era a pior verdade do mundo e a pior coisa pra acontecer no pior momento!!! - Você... – minha melhor amiga me encorajou a continuar. Não foi de muita ajuda. - Eu realmente... – bufei – Eu realmente gosto do Edson. Disse isso tão baixinho que não sei bem se ela me escutou. Primeiro me olhou, ainda confusa, então afrouxou a cara e pareceu tranqüila. - Obrigada por admitir isso. – Bela afirmou, por fim, com ar de vitória – Tava me dando nos nervos ter que discutir com você sempre que você, sei lá, olhava demais. Vai facilitar minha vida por isso! - Eu imagino... – suspirei e fui afundando no banco duro do ônibus da escola, me sentindo cada vez mais miserável – Eu estou ferrada! - Por? - Minha prima, ela vai me matar quando souber! - Até parece que ela já não sabe... - Obrigada, Bela, ajudou muito. - Esqueça isso! – Bela puxou os fones por dentro da camiseta e pôs um na orelha esquerda – Ela é sua prima, tipo, família. Geralmente isso vem antes! - Viria antes pra você? – indaguei, indicando Suellen, sentada no banco do lado com Lua. Bela rolou os olhos. - Sempre há exceções... – respondeu, apenas – A Giovanna é uma boa pessoa, e ela te adora. Você me contou que costumavam ser amigas. Eu não entendo qual é o problema. - O problema é que faz umas décadas que isso não é mais verdade, e a minha prima é uma adolescente completamente ciumenta, que sabe que eu gosto da droga do namorado dela! – chequei pra ver se ninguém 118


tinha ouvido, e continuei – Ela não vai me dar um desconto só porque nós somos parentes! - Você está exagerando! - Não to, não! Se ela descobrir... - Ela já sabe! - Se ela resolver admitir isso como eu estou fazendo, aí a coisa vai pegar fogo! – e acrescentei, num murmúrio – Como se já não estivesse... - Como assim? – a Bela perguntou, curiosa. Rapidamente, resumi pra ela meus últimos confrontos silenciosos com a Giovanna, no qual ela me forçava a assistir enquanto ela ganhava o pr6emio que nós duas queríamos. Quando terminei de contar, Bela apenas ficou calada. Por muito tempo nós permanecemos aqui. O ônibus foi esvaziando, até que só havíamos eu, ela e Suellen. Enfim, Bela se virou pra mim, com aquela cara pensativa, me obrigando a olhar pra ela. O fiz, e de imediato ela soltou: - Sabe por que a Giovanna está fazendo isso, né? Te ameaçando? - Ah... – pensei por um instante, e nenhuma razão além do puro ciúmes me vinha à mente – Não. - Porque no fundo ela sabe... – Bela me disse – Que se ela fraquejar por um instante com você e você se aproximar do Edson e mostrar a ele que está gostando dele, ele não pensaria duas vezes. - Não pensaria em quê? - Você é burra? Ele não pensaria duas vezes em largar dela pra ficar com você! Aquilo me pegou de surpresa. Eu nunca havia pensado nisso desde que eu e ele havíamos voltado a nos falar. Parecia uma perspectiva distante que o nosso relacionamento e os sentimentos de tempos atrás voltassem a ser o que eram. Eu nunca achei que isso pudesse se tornar verdade. 119


- Você acha? – indaguei, de modo meio vago. Bela deu um risinho abafado e sarcástico. - Você tem alguma dúvida? Eu não sabia. Não mesmo. Eu não estava exatamente apavorada quando ouvi a porta do apartamento ser destrancada. Minha mãe podia ser meio durona, mas eu sabia que nossa conversa seria mais uma conversa entre dois seres humanos do que uma série de gritos ensurdecedores seguidos de um castigo que seria pior do que ficar amarrada num tronco levando chicotadas. Ou pelo menos era nisso que eu queria acreditar. Porque a dona Abigail parecia bem puta da vida quando me viu jogada no sofá numa ressaca daquelas. Fiquei no meu quarto, preferindo esperar que ela viesse me pegar pela orelha do que ir diretamente pisar sobre a bomba. Não tinha certeza se aquela minha atitude ia melhorar ou piorar alguma coisa, mas mesmo assim. Ouvi toda a fúria da mamãe ser descontada na porta, nas chaves, nos pratos e nos talheres enquanto ela batia as coisas umas nas outras, fazendo um estardalhaço desnecessário para as seis horas da tarde. Fiquei na minha, com o rádio desligado e o computador quieto, apenas sentada na minha cama sem fazer nada. Eu tinha que admitir. Agora eu estava apavorada. Ela ia comer meu fígado!!! - Lolita! – ela berrou, quando já eram quase sete. Minha própria mãe me chamando de Lolita? Cara, isso chega a dar medo! Me apressei a ir até ela. Na minha cabeça, até o menor dos atrasos seria um problema. E, pela cara da minha mamãe enfurecida na mesa da cozinha, ela pensava a mesma coisa. 120


- Sente-se. – ordenou, em voz de comandante. Me sentei. Embora a janela aberta da cozinha fosse algo muito mais tentador. Mas a queda não valeria o esforço. - Agora você vai me explicar exatamente o que aconteceu ontem. – continuou, e eu bufei, nervosa. Então eu disse que tinha a festa e que eu queria ir. Disse que não havia ninguém do outro lado da linha quando eu fingi que a Bela tinha me ligado, e que eu nunca fui pra casa da Bela quando saí de casa, mas sim direto pra festa – não queria meter minhas primas nessa confusão. Disse que fiquei lá até quatro horas da manhã e bebi mais do que devia. Não contei que a Bela enfiou o dedo na minha garganta, nem que a Lana tinha ficado pior do que eu, nem que eu não fazia a menor idéia do que tinha acontecido enquanto eu estava muito louca de tanta pinga. Minha mãe não parecia contente quando finalizei minha narrativa. Parecia pior. Suspeitei que estivesse ficando roxa de tanta raiva. E, sem mais nem menos, ela começou a gritar. - VOCÊ ME DESOBEDECEU E MENTIU PRA MIM E DIZ ISSO COMO SE NÃO FOSSE NADA? NÃO ACREDITO QUE VOCÊ SIMPLESMENTE SAIU NUM DOMINGO E ENCHEU A CARA, VOCÊ TEM NOÇÃO DO QUE PODIA TER ACONTECIDO? E SE TIVESSE TIDO ALGUM ACIDENTE? E SE VOCÊ TIVESSE ENTRADO EM COMA ALCÓLICO? QUE TIPO DE RESPONSBILIDADE É ESSA, MOCINHA? Meu Deus, porque toda mãe acha que a gente não escuta? Tipo, se elas simplesmente falassem com a gente num tom humanamente aceitável para manter os ouvidos intactos, nós iríamos escutar do mesmo jeito. Se eu ficar surda quando for velhinha, eu já sei a quem culpar! 121


- AGORA OUÇA BEM, MOCINHA! – como se eu não estivesse ouvindo!! – VOCÊ ESTÁ DE CASTIGO, ESTÁ ME ENTENDENDO? DE CASTIGO! É DA ESCOLA PRA CASA E DE CASA PRA ESCOLA, E EU NÃO QUERO OUVIR A PALAVRA “FESTA” DENTRO DESSA CASA. DE AGORA EM DIANTE VOCÊ NÃO SAI MAIS PRA LUGAR NENHUM, ATÉ MOSTRAR QUE EU POSSO CONFIAR EM VOCÊ! - Sim, mamãe. – concordei, baixinho. Não funcionou pra que ela baixasse a voz. - SUMA DA MINHA FRENTE! E eu fiz isso bem rapidinho. Quando eu for mãe, nunca vou gritar com o meu filho. Vou ser calma e me esforçar pra mantê-lo na minha sem precisar acabar com seus tímpanos pra isso. Mas de uma coisa eu tinha certeza: minha vida agora seria um verdadeiro inferno. Na verdade, eu adoraria que a minha mãe fosse o maior dos meus problemas. Maio chegou e eu ainda estava de castigo. Pra piorar, notas. O segundo bimestre estava apenas começando, e eu recebi o boletim do bimestre anterior. Minhas notas me deram um susto. Quando minha mãe assinasse aquilo, ela ia me deixar de castigo pro resto do ano. A média no Santa Rita era 6, e eu tinha 5 em matemática, 4,5 em física e 5,5 em química e geografia. Eu estava completamente ferrada! - As recuperações começam na semana que vem. – a professora de química explicou, depois de terminar de passar a matéria. Eu estava tão preocupada com o que fazer com aquele boletim que nem tinha prestado atenção na aula. Eu ia precisar de uma boa desculpa pra ficar no colégio até mais tarde. Isso sem contar que ia precisar assinar o boletim no lugar da minha mãe! 122


- Tragam os boletins assinados até sexta-feira, quando irão receber o cronograma das provas. – ela continuou, segundos antes do sinal bater – Até a próxima aula! A professora saiu, e virei pra encontrar uma Bela num estado muito mais atônito do que o meu. - O quê? – perguntei, com uma careta de dor. - Eu fiquei com 4,5 em RELIGIÃO! – ela quase gritou – Tipo assim, quem além do Willian fica de recuperação em religião? - É uma matéria muito difícil! – exclamou o namorado, do outro lado da sala. Bela mostrou a língua pra ele. - Eu to de castigo e peguei quatro recuperações, Bela! – eu exclamei, me sentindo uma derrotada – Minha mãe vai me matar! - Quer que eu assine pra você? - Por favor! Mas ainda preciso de uma desculpa pra justificar porque eu vou ter que ficar na escola até mais tarde na semana que vem. - Diga que tem um trabalho pra fazer comigo! – a Sabrina sugeriu, vinda do nada e se abaixando na nossa frente – Peguei quatro recuperações também. Só que... – deu uma olhada rápida no meu – Inglês ao invés de geografia. - Eu não sei do que vocês estão reclamando! – Bela bufou, impaciente – Peguei recuperação de religião, inglês, matemática, física, química e história. Eu vou passar uns cem anos de castigo e estudando enquanto apanho! - A menos que tire dez em todas as provas. – completei, rindo. - O que é completamente impossível, porque eu ainda tenho que fazer os trabalhos e as lições de casa que nunca acabam! Eu odeio a escola! - Junte-se ao time! – Sabrina resmungou. Então o professor chegou e todo mundo ficou quieto. Bela assinou meu boletim e eu dei a desculpa do trabalho pra minha mãe. Ela ligou pra casa da minha tia, e ela confirmou. Aposto que 123


ela não faz a menor idéia de que a Sabrina está com quatro recuperações e a Giovanna com três. Eu tinha aprendido com os anos escolares que quanto menos se contar sobre a escola pros seus pais, melhor. Você não quer dar mais um motivo pra eles gritarem com você. Então a semana seguinte chegou e, já na segunda-feira, lá estava eu, pra fazer a prova de geografia. Nem a Sabrina, nem a Bela e, graças a Deus, nem a Giovanna estavam no colégio à tarde. Aquele dia era apenas pra recuperação de geografia, e não havia muita gente ali. O que era péssimo, pois indicava que eu fazia parte de um seleto grupo de inúteis completos para a sutil e simples arte de decorar informações que se escutam todos os anos da escola. Tinha acabado de almoçar e estava subindo pra estudar um pouco na biblioteca antes da prova, quando tropecei com o Edson no caminho. De todas as pessoas, ele. Meu coração tremeu e pulou e acelerou. Ele deu um sorrisinho nervoso pra mim. - Geografia, hã? – brincou – Somos dois. Toca aí! Abriu sua mão enorme e eu bati. Fiquei meio surpresa quando ele abraçou meus dedos com os dele, e precisei de um esforço mental enorme pra tirá-los dali. - Então... – eu disse, pra quebrar aquele silêncio que me deixava encabulada – Estudou? - Nem um pouco. – o Edson admitiu – Fiquei tocando guitarra. A Sabrina me mostrou as músicas dela e eu estava tocando. - Legal... – murmurei, pensando em quanto tempo ele devia passar na casa da minha prima pra que pudesse até pegar acordes das músicas da Sabrina, que ela nunca mostrava nem pra mim. Todo mundo devia estar bem íntimo. - E você? - Fingi que estudei. Minha mãe me pôs de castigo, você sabe. 124


- É verdade. Muita encrenca por causa daquele domingo, hã? - Eu estava bem mal. Edson fechou a boca, tremendo. Eu sabia que ele queria explodir de dar risada às minhas custas, e imaginei qual era a novidade da bêbada do dia. - Vá em frente. – encorajei, mal humorada. Ele escancarou a boca e gargalhou. Era uma delícia ouvi-lo rir. Ainda que ele estivesse rindo por eu ter sido uma bêbada maluca completa há uma semana atrás. - Desculpa. – ele pediu, e não parecia estar realmente sentido por isso – É que você bêbada é uma coisa muito louca, e aí você me lembrou disso e não deu pra segurar! - Qual é, você nunca tomou um porre? – brinquei, e ele foi aos poucos parando de rir. - Tomei uma vez, naquela festa em que eu te disse... Emudeceu e parou de rir. O desconforto foi instantâneo. Nenhum de nós gostava de lembrar daquele dia. Especialmente quando agora estávamos tão bem. Ok, “bem” talvez não seja a melhor palavra. “Melhor” se encaixa com mais eficiência à nossa situação. Pois, dado ao nosso passado e à atual posição das coisas no presente momento, eu supunha que não estávamos exatamente bem. Não pra mim, pelo menos! - Di? – uma voz melodiosa chamou. E não tardou até meu pesadelo aparecer, em uma forma loira e escultural. Giovanna não gostou de ver que nós estávamos sozinhos no andar silencioso da biblioteca. A sua mudança de expressão foi drástica e óbvia até pro Edson, que olhou de mim pra namorada, e de novo pra mim. Eu murmurei alguma coisa, e saí de fininho. 125


Mal tinha chegado ao piso térreo quando a minha prima apareceu. Ela parecia furiosa, e eu sabia que o confronto que eu tanto temia tinha chegado. Eu só esperava que ninguém ouvisse. Não era exatamente o tipo de coisa que eu queria que caísse nas graças da Ariane, por exemplo. Publicidade sobre a minha vida pessoal na escola era tudo o que eu menos precisava àquela altura. A Giovanna, no entanto, não parecia muito preocupada com nada disso. Eu suspeitava que ela nem se lembrava mais que estávamos no colégio, e iria começar a gritar a qualquer minuto. Preparei os ouvidos no momento certo, quando ela soltou, alto, porém não aos berros: - Eu não quero que você fique perto do meu namorado. Por um instante, não soube o que dizer. Eu não sabia como lidar com a situação, porque eu não tinha o que dizer em minha defesa. De que ia adiantar se eu dissesse que não tinha procurado pelo Edson? Nada que eu dissesse poderia deixar aquilo melhor, apenas pior. - Antes que você possa dizer alguma coisa... – ela continuou, então – Vamos deixar tudo bem claro. Eu sei o que ta rolando aqui. Vocês dois têm um passado. Ele já me contou isso. O Edson já me contou tudo. Aquilo foi realmente uma surpresa. Considerando o fato de que nós dois nunca mais havíamos dito nada um ao outro sobre o assunto, e eu evitava falar disso com qualquer pessoa, eu estava completamente chocada de saber que ele havia mencionado isso justamente com ela. Ainda por cima que teria dito tudo a ela. - O que ele não sabe é que você ta afim dele agora. – minha prima foi em frente, me deixando cada vez mais presa no chão, paralisada de surpresa – Eu sei, Lolita. Eu sei que você gosta do meu namorado. Então, vamos deixar as coisas bem claras, certo? Ela se aproximou, e naquele segundo, eu achei que fosse me bater. Imaginei que me dava um soco bem forte e dolorido no meio da cara e me 126


xingava ou alguma coisa do tipo. Aquelas cenas de briga bem sangrentas que se vê em filmes. Mas a Giovanna parou a questão de centímetros do meu rosto, olhando diretamente pros meus olhos enquanto ameaçava: - Chegue perto dele e eu acabo com você. Deu as costas e foi embora. Agora eu tinha certeza de que estava muito, muito ferrada mesmo!

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Verdades e Declarações Eu preciso dizer a verdade a ele. Eu tenho que dizer a verdade a ele. Eu não consigo dizer a verdade a ele. Quanto mais eu pensava nisso, mais minha cabeça girava. Eu ainda estava de castigo, ainda estava apaixonada pelo Edson e ainda estava morrendo de medo da Giovanna. E por isso, estava considerando seriamente a opção de dizer a verdade. Sabe como é, chegar nele e abrir o jogo. Embora eu não visse de que isso pudesse adiantar. Claro que a conversa que eu havia tido com a Bela no ônibus vivia se repetindo quando eu estava distraída demais pra controlar meus pensamentos. “Ele escolheria você,” a Bela da minha mente repetia. Eu não queria acreditar, mas era nisso que eu me agarrava toda vez que pensava em ser sincera. Na possibilidade do Edson realmente largar a linda e loura Giovanna pra ficar com a menos linda, mais gorducha e loura menos brilhante Lolita. Eu tinha as minhas qualidades. Não era esse o problema. O problema era que competir com a Giovanna em qualquer quesito era pedir pra perder, e perder feio. Não só ela gostava de ganhar como nunca perdia. Eu a admirava por isso, mas ultimamente vinha apenas invejando-a. - Você sabe que não é disso que eu estou falando! – a Bela argumentou no ônibus, na manhã de terça-feira da semana seguinte à das recuperações – Não é por isso que ele iria te escolher. Felizmente o Edson não é o Henry e não escolhe garotas baseado nas aparências. 129


Henry tinha dado o fora na Suellen naquele domingo, depois que ela havia trocado o Ricardo por ele. Bela tinha me ligado exclusivamente pra comemorar o fato de que sua irmã gêmea estava trancada no quarto chorando. Muito fraternal da parte dela. A razão, aparente e obviamente, tinha sido outra garota. Bela não sabe, mas liguei pro celular da Suellen assim que nós desligamos. Tentei conforta-la, mas não obtive muito sucesso. Ela só fazia chorar. Então, disquei o número do Daniel e mandei que fosse vê-la. Ele me agradeceu muito por isso. - Eu sei que ele não é assim. – concordei – Mas é que... sei lá, Bela. Você fala com tanta certeza, e a verdade é que já se passou muito tempo desde que ele gostava de mim. - Não se passou tempo nenhum, porque ele ainda gosta! – minha melhor amiga insistiu. Eu balancei a cabeça. - Se ele ainda gostasse, ele teria feito alguma coisa, Bela. Falado comigo. - Olha, Lolita, quando vocês voltaram a se falar, você estava toda jogada pra cima do Ricardo e a Giovanna apareceu com tudo pra cima dele. O que você queria que ele fizesse? - Sei lá, me procurasse? - Ele só começou a ficar com a sua prima pra te causar ciúmes. - Funcionou! – resmunguei, e Bela riu. - Não o bastante pra você virar pra ele e dizer, “ei, seu filho-damãe, eu estou apaixonada por você, sabia?” – até eu ri com a voz de mano que ela fez - Era isso que ele estava esperando que você fizesse! - Mas eu não faço esse tipo de coisa! – exclamei. O ônibus parou pra recolher outro aluno, e eu voei pra frente. Bela riu da minha cara. - Devia começar a fazer. Você está é perdendo tempo. O Daniel entrou, e eu vi que ele foi direto pro banco onde a Suellen estava sentada, sozinha e parecendo triste. Ele também tinha feito isso 130


ontem. Observei os dois por um instante, achando uma graça o jeito como se tratavam. Ele gostava dela, independente do que a relação consangüínea pudesse determinar. - Como a Su ficou depois de domingo? – perguntei, sem tirar os olhos deles. A Bela bufou. - Podemos, por favor, não falar da Miss Vaca do Universo? – pediu, e eu fiz uma careta. - Ela é sua irmã! E ela está sofrendo! - Ela é uma ameaça alienígena e ela não tem sentimentos! - Pelo menos o Daniel me ouviu e está falando com ela. Um minuto inteiro se passou, e a Bela não retrucou. Só então olhei pra ela. Parecia que tinha sido atingida por um caminhão desgovernado. - Você falou pra ele ir falar com ela? – balbuciou, tropeçando nas palavras. Meleca! - Eu liguei pra ele depois que nós desligamos. - Não acredito que você está ajudando a pior pessoa do planeta! - Qual é, Bela, a garota estava mal quando eu falei com ela, não parava de chorar e eu só pensei que ela gostaria de ter alguém que realmente ajudasse! Só aí eu percebi o quanto tinha acabado de piorar tudo. - Você falou com ela? – Bela explodiu – Ligou pra minha irmã, nas minhas costas? Pra ajudar? - A Su também tem sentimentos, Bela, desculpe por enxergar isso! – respondi, zangada. O ônibus parou na frente da escola, e o barulho do pessoal descendo abafou nossos gritos. - Su. A Su tem sentimentos! – fez um som que fazia parecer que estava vomitando – Eu não acredito, Lolita! Não acredito mesmo! Desceu sem me esperar. 131


E não falou comigo o dia todo. Agora me respondam, o que foi que eu fiz de errado? Na terça-feira, eu estava uma pilha. De castigo, Bela brigada comigo, Giovanna me olhando torto e, pra coroar tudo, o Edson já tinha me ligado umas cinco vezes só na noite de segunda-feira. Como você explica pra uma pessoa que não pode falar com ela porque sua prima (e namorada dessa pessoa) está te ameaçando? No mínimo ele ia rir da minha cara. Ou pior (e melhor), ia terminar com ela, e a Giovanna ia me culpar e me matar muito mesmo! De todas as maneiras, eu estava cozida. Por isso, não fiquei nada feliz quando o Diego veio me procurar na hora do intervalo. Eu estava fazendo a lição de física e, embora a ajuda dele fosse realmente muito bem vinda, eu tinha certeza de que não era pra isso que ele estava ali ao invés de estar com a Lana. A propósito, pensei eu, a Lana era exatamente o que estava faltando. Ela já estava tendo um ataque de ciúme pra cima da Sabrina, bem que poderia ter um pra cima de mim se visse que eu e o Diego estávamos sozinhos na biblioteca. Seria realmente o máximo! - Oi. – o Diego disse, baixo e rapidamente, olhando pros lados. A bibliotecária ranzinza não estava em nenhum lugar visível, de onde poderia saltar pra comer nossas línguas por estarmos falando na biblioteca preciosa dela. - Oi. – resmunguei de volta. Fechei o livro de física, deixando a página marcada com o lápis – O que foi? - Preciso da sua ajuda. Uma das coisas que eu mais gostava no Diego era que ele não se metia na vida de ninguém. Apesar de eu estar obviamente mal humorada, 132


ele não tinha virado pra mim e dito algo como “que bicho te mordeu”. Ele era capaz de manter uma conversa com alguém sem fazer perguntas particulares ou se meter na particularidade alheia. E uma das coisas que mais me intrigava era como ele poderia precisar da ajuda de alguém algum dia. Ele era um crânio pra tudo, e todo mundo pedia ajuda pra ele ao invés de dar. E agora, ali estava o grande nerd Diego, sentado na minha frente, pedindo ajuda. Era hilário. - Em quê? – perguntei, deixando de ficar mal humorada pra ficar muito curiosa. - É o seguinte... Fui ficando boquiaberta à medida que ele me contava. Porque era realmente inacreditável. De todos os homens do mundo, era dele que eu menos esperava. E, no fundo, parei pra pensar e vi que, se tinha de esperar algo daquele tipo de alguém, seria dele. Concordei em ajudar, já avisando que ele ia precisar convencer também a minha mãe. Diego se foi com a promessa de ligar em casa ainda naquela noite pra falar com ela. Quando já estava sozinha na biblioteca, parei e pensei. Então era por isso que ele vinha passando tanto tempo com a Sabrina, e era por isso que ela não tinha dito nada pra mim. Garoto esperto! - Alô? - Lana? - Isso. Quem é? - É a Lolita, sua bobona! – eu disse, rindo – Tudo bem? - Tudo... – respondeu, a voz num desânimo de dar pena – E você? - Tudo indo. – afirmei, tentando deixar de lado o meu desânimo – Desculpa estar te ligando a essa hora. To interrompendo alguma coisa? 133


A Lana gostava de estudar até bem tarde. Eu preferia dormir, mas hoje, nem isso eu podia fazer. - Não, eu não consigo estudar mesmo. – a Lana suspirou – Está tudo uma droga, Lolita. Briguei com o Diego de novo. - Não me diga! – exclamei. Porque eu já sabia disso – Sabrina de novo? - Sua prima não dá um tempo, sabe? Ela tem passado mais tempo com o meu namorado do que eu! - Lana, você sabe que não é nada disso. - Talvez eu saiba. – e fez questão de ressaltar o talvez – Mas como é que não se pensa nada ruim numa hora como essas? E ele não me conta as coisas, Lolita! Eu não sei o que há de errado com o Diego, na boa! Então, ouvi barulho. Um barulho melodioso. - Que barulho é esse? – perguntei, tentando não dar bandeira. A Lana hesitou por um instante. - Não sei, vem lá de fora... – murmurou, de um jeito quase impossível de entender – Acho que tem alguém lá fora. Peraí. Duas janelas se abriram ao mesmo tempo. De uma, saltou a cabeça da mãe da Lana, pasma. Da outra, saltou todo o tronco da Lana, rindo, chorando e gritando ao mesmo tempo ao ver a cena. Estava um frio e um vento desgraçado, mas lá estávamos nós sob a janela dela. O Diego e a Sabrina tocavam um violão cada um, acompanhando a mim, à Bela e ao Daniel num coro que cantava “I’m With You”, da Avril Lavigne. Nunca tinha visto a Lana tão feliz na vida. Quando já estávamos no último refrão,um vento gelado bateu, e começou a chover forte. A Lana ria e eu xingava até a última geração do Diego por estar me fazendo passar por aquilo tudo. E o Diego, sem mais esperar, gritou: - Acredita que eu te amo agora? 134


O Edson e o Henry apareceram numa outra janela. O mais velho sorriu pra mim, e foi impossível não sorrir de volta. - Claro, claro! – a Lana berrava, pulava. - Então abre a droga dessa porta! – exclamei. Porque estava chovendo muito e eu estava realmente com muito frio. Me encolhi ao lado da Sabrina sob o telhado mínimo que cobria a porta da frente. Quando o Edson a abriu, nós duas caímos pra dentro. Na verdade, a Sabrina caiu. O Edson me segurou. O contato e a proximidade me fizeram tremer, e não tinha nada a ver com estar encharcada da cabeça aos pés. A Sabrina percebeu, e deu um assobio agudo. Como todo mundo estava pingando, fomos pra cozinha, enquanto a mãe da Lana arranjava toalhas e mudas de roupa seca. A Lana nem se importou em nos agradecer, preferindo ficar abraçada com seu amor molhado. Maravilha. Liguei pra minha mãe e esperei enquanto ela vinha me buscar, de mau humor, e reclamando porque eu a tinha tirado de casa. O meu casal nerd preferido podia ter se reconciliado, mas eu não conseguia me sentir feliz. Porque tudo estava uma droga. Nas semanas que se seguiram, Bela foi aos poucos voltando a falar comigo. Quando percebi, já estávamos no final de maio, sentadas no ônibus, voltando pra casa, trocando as mesmas trivialidades de sempre. Se é que “trocando” possa ser mesmo o verbo adequado. A Bela falava e eu escutava. O assunto de hoje era a última briga dela com o Willian. Eles brigavam tantas vezes por semana que eu tinha deixado de escutar depois dos primeiros dias de namoro. Pelo menos estavam dando certo. Ao invés de prestar atenção nela, comecei a observar a Suellen e o Daniel, um pouco à nossa frente. Desde que ela tinha sido chutada, ele vinha conversando muito com ela. Os dois eram primos, e tinham 135


uma relação saudável, mas eu não me enganava: eu sempre soube que havia alguma coisa além disso. Pelo menos da parte dele. Eu sempre tinha enxergado um sentimento a mais no Daniel. E eles agora tão próximos... me fazia esquecer que eles eram parentes. Nessas horas, me perguntava se isso realmente importava. Quero dizer, primos não são irmãos. E todo mundo já quis ter um caso com um primo. Exceto eu, que só conheço minhas primas mulheres. Felizmente, nunca quis ter um caso com elas. Eca. Estava ainda pensando nisso quando cheguei em casa, depois de me despedir da Bela, fazendo de conta que tinha escutado tudo. Deitei no sofá e fechei os olhos. Aí, o telefone tocou. - Alô? – respondi, sem fazer questão de fingir uma voz educada. - Lolita, prepare-se. – era a Sabrina. E estava com o coração na mão, aparentemente. Sentei no sofá, tão rápido que minha cabeça girou. - O que foi? – perguntei, tentando não parecer histérica. - O Edson terminou com a Nana. Há uns... – parou por um segundo – Cinco minutos atrás. - Essa não! - Ela vai atrás de você. Fica ligada! E até eu escutei quando a Giovanna berrou ao fundo: - Sabrina! - Meu Deus! – exclamei, apavorada. Ela estava uma fera. - Vou cuidar dela. Até amanhã. E desligou. Mas tenho certeza de que ela murmurou um “boa sorte” antes disso. Eu estava completamente ferrada! É claro que, quando se trata da minha vida, as coisas sempre viram uma bola de neve. Eu achava que já estava no meio de uma bola 136


do tamanho de um carro, mas na verdade ainda era pequena como uma bicicleta. Aumentou quando a campainha tocou. E eu olhei pelo olho-mágico. Meu Deus do céu, o que ele está fazendo ali? Não vou abrir a porta, não vou abrir a porta, não vou abrir a porta, não vou abrir a porta... - Lolita, eu escutei você falando no telefone! – exclamou do outro lado, dando vários socos na porta – Abre logo! Eu não estava ferrada o suficiente? Já não bastava que a Giovanna me matasse por algo que eu não tinha culpa, e agora ele estava ali pra deixar tudo pior? Meu Deus! Abri a porta. Já estava tremendo. - Oi, Edson. – murmurei. A voz quase não saiu. Ele não esperou convite. Parecia ansioso, apressado. Entrou, me puxou pela mão e bateu a porta. Sentou-se no sofá sem cerimônias e me pôs sentada ao seu lado. Eu esperei enquanto ele se... concentrava. Porque eu sabia o que viria a seguir. Bela tinha razão, não é mesmo? Ela enfim tinha percebido, e tinha mudado sem piscar duas vezes. Era tudo o que eu mais sonhava e o pior pesadelo que eu poderia desejar. E agora estava ali, entregue, na minha sala. E eu não sabia o que fazer com isso. - Eu terminei com a Giovanna. – ele disse, e sem um pingo de arrependimento na voz. Era como se estivesse falando de alguma coisa tipo levar o cachorro pra passear. - Eu sei. – consegui soltar, como um sopro de ar. Minha testa e minhas costas (sim, eca!) suavam. - Não vai me perguntar por quê? – desafiou. Eu tinha opção? - Por quê? – indaguei. Ele sorriu e mexeu naquela bagunça que era o cabelo dele. 137


- Porque não é como se tivesse acontecido a tanto tempo que eu possa esquecer, Lolita. – Edson respondeu – Nós dois. O passado. O que eu sentia. O que eu... sinto. Não falei nada. Eu não ia conseguir abrir a boca pelas próximas horas porque estava tão feliz e tão apavorada que, bem, estava em choque. - Você sabe que eu sou uma droga pra falar de sentimentos. – continuou, juntando nossas mãos – Mas você já entendeu o que eu quero dizer, né? Que eu gosto de você. De novo. Ainda. É. Eu tinha entendido. E, meu Pai do Céu sabe, como eu gostaria de dizer que também gostava dele. Que ele vinha me tirando do sério ultimamente e que tudo estava errado do jeito que estava. Que no fundo eu estava berrando de alegria por ele ter terminado com a minha prima. Mas eu estava com medo demais pra fazer isso. - Isso ta errado. – eu disse, então. Sentindo que a errada, na verdade, era eu – Eu também... – não, Lolita, não! – Eu não quero que a minha prima sofra. Foi quando eu funguei que eu percebi que estava chorando. - Ela não liga se você vai sofrer. – Edson apontou, com uma careta. Soltei nossas mãos, cruzando-as pra tentar me manter longe dele. - Eu não sou igual a ela. – determinei – E eu me importo com o que ela sente. Ela gosta de você, e não vou ser eu quem vai fazer da vida dela um pesadelo. – funguei de novo – Quero dizer, vocês acabaram de terminar, droga! Ele ficou sério por um segundo, e então voltou a sorrir. - Dar tempo ao tempo? – sugeriu. Era engraçado como ele sempre me entendia. Eu nem tinha precisado falar. Não de verdade, com todas as palavras. Mas ele sabia. Do mesmo modo como eu sabia o que se passava com ele. 138


- É. – limitei-me a concordar, com um meio sorriso – Bem isso. - Então a gente se fala quando você achar que for a hora. E dizendo isso, levantou-se e foi embora. Me deixando pregada no sofá. Porque tinha sido o dia mais incrivelmente assustador e totalmente feliz da minha vida. No dia seguinte, um sábado, resolvi ligar pra Bela pra contar o que tinha acontecido. Não só porque eu precisava conversar com alguém sobre isso, mas também porque eu sabia que ganharia pontos na nossa amizade se ela fosse a primeira a saber. E, dada a confusão daquela semana que a levou a ficar sem falar comigo, Deus sabia como eu precisava de pontos com ela! Sendo assim, no sábado, depois do meio-dia – porque a Bela nunca acorda antes disso – eu disquei o número da casa dela e esperei. Foi a Suellen quem atendeu. - Oi, Su, é a Lolita. – eu disse, depois que ela disse “alô”. Se você está se perguntando como eu diferencio a voz das gêmeas, só tenho uma coisa a dizer: elas são diferentes. Bela e Suellen não são diferentes apenas porque uma se manteve loira enquanto a outra tingiu os cabelos de preto. Porque uma engordou 9 quilos e a outra se esforça pra perder mais 5. Porque uma é patricinha e a outra é completamente pirada. Elas são diferentes porque, pra mim, nasceram diferentes. Só tem o mesmo rosto. Até as vozes soam diferente pra mim. Ou talvez seja o jeito de falar. Tanto faz. Um mês na convivência delas e você já aprendia a diferenciá-las por algo que não fosse a aparência física. - Oi, Lolita. – ela disse, parecendo até animada. O Daniel estava fazendo milagres. Milagres que eu não queria saber quais eram. 139


- Tudo bem? – resolvi perguntar. Não pela educação, mas porque estava realmente preocupada. - Melhorando. – admitiu, com um suspiro. - Que bom! Tinha te achado tão caidinha! - O Dani me contou que você ligou pra ele. - É. Você estava precisando. - Obrigada, Lolita. Mesmo. - Não foi nada. – parei uns segundos, já esquecendo do por que tinha ligado – Pode chamar a Bela pra mim? - Não tem jeito, né? – resmungou. Então ouvi, um pouco mais longe, ela gritando “MONSTRA, TELEFONE”. Meu Deus, elas são tão adoráveis uma com a outra. Então a Bela pegou o telefone e gritou, dessa vez no telefone, me dando um baita susto: - PRONTO, OBESA! A Suellen ia chorar horas por isso, eu tinha certeza. Faça o que fizer, não a chame de gorda. - Ficou de conversa com a minha irmã? – a Bela perguntou, então, em tom zangado, porém, felizmente, mais ameno. Eu não mereço! - Só bobagens. – respondi, tentando me segurar pra não perguntar qual era o problema dela – Tenho que contar uma coisa! - Quer que eu chame a Suellen? Vocês parecem tão amiguinhas! - Bela, quer parar com isso? – e dessa vez eu estava quase gritando – Que droga! Posso falar ou não? - Fala logo! Deus tem que me dar não só uns parabéns, mas um prêmio de agradecimento por ter conseguido passar tantos anos ao lado da Bela sem pirar completamente! Respirei fundo e comecei a falar. 140


Quando terminei de contar tudo, a Bela não me respondeu nada, e eu também não ousei abrir a boca. Preferia esperar que ela desse o seu decreto. Que com certeza ia ser algo do tipo que quebra a sua cara. Ela tinha o dom pra fazer isso. - Você tem que ir até lá. – sentenciou, por fim. O que não ajudou em nada, porque eu nem sabia onde era “lá”. - Lá aonde, Bela? – perguntei, pacientemente. - Até a Giovanna. Falar com ela. – respondeu, como se fosse muito simples e muito óbvio. Só que não só não era nada óbvio como não era nada simples na prática. Não era ela quem ia ter uma morte muito dolorosa pelas mãos da própria prima! - Nem pensar! – exclamei, na hora. - Você tem que ir, Lolita! – insistiu, frisando o “tem” – Enfrenta-la antes que ela venha te enfrentar. Mostrar que não está com medo! - Mas eu estou com medo, droga! - Então faça de conta que não, porcaria! Vai até a merda da casa das suas primas e vai falar com ela. - E vou falar o quê? “Desculpe, mas eu estou apaixonada pelo seu ex-namorado e ele bateu na minha porta ontem pra dizer que gosta de mim também”? Não vai rolar! Um minuto de silêncio. Acho que a Bela entendeu meu argumento. - Só vá até lá, certo? – Bela repetiu, enfim. E eu me senti derrotada. Então desliguei e fui tomar um banho. Porque, no fundo, ela estava certa, e um pensamento que não foi dito, mas que com certeza ela também tinha pensado, passou pela minha cabeça. Fosse agora, fosse mais tarde, eu e a Giovanna íamos ter que conversar. E colocar tudo em pratos limpos. E, quanto mais tarde, pior. 141


Retiro tudo o que eu disse. Eu podia adiar, certo? Ela ia me matar de qualquer jeito! Eu podia simplesmente esperar e aproveitar meus últimos segundos de vida! Lolita burra! O que você está fazendo parada na frente do número 1026, então? Já toquei a campainha, então é meio tarde pra voltar atrás. Estou ferrada. Estou ferrada. Estou... - Oi, tia! – sorri, o mais convincente que pude, quando minha tia abriu o portão pra mim. - Lolita, que bom que você veio! – ela exclamou, soando mesmo aliviada – A Nana está que não para de chorar! Ela vai gostar de ter você aqui! - É mesmo? – minha careta foi inevitável. Sim, ela ia adorar me ter por perto. Me fazer em pedacinhos ia fazer com que ela se sentisse tão melhor! – O que aconteceu? – disfarcei. - O Edson terminou com ela. – trancou o portão e voltou a me acompanhar – Eu sempre soube que ele não gostava dela, sabe? Dava pra ver isso. Mas eu nunca pensei que ela fosse ficar desse jeito, coitadinha. Sempre achei que fosse tão forte, e agora... Obrigada, tia. Você está mesmo tirando o peso do mundo das minhas costas. Fala sério! Entramos, e ela me mandou subir, que a Sabrina estava no quarto com a Giovanna havia mais de uma hora. Respirei fundo várias vezes pra ver se tomava coragem, e parava de sentir vontade de sair correndo por onde eu tinha vindo, inventando alguma desculpa idiota. Então, comecei a subir. Não havia barulho algum no segundo andar. Se elas estavam conversando, era aos sussurros, e tive uma súbita onda de alívio ao imaginar que Giovanna poderia estar dormindo, me dando uma janela de mais algumas horas até minha morte inevitável. Claro que eu não dei tanta 142


sorte. Quando parei à frente da porta aberta do quarto dela, ela estava lá, sentada, encolhida, chorando e muito acordada pra me ver. Essa não!!! - Oi. – murmurei, ali da porta. Eu estava com os pés completamente presos ao chão. A Sabrina, que ainda não tinha me visto, me olhou como se eu fosse um fantasma. A Giovanna continuava inexpressiva – o máximo que seu rosto dilacerado pelas lágrimas conseguia ser. Eu não sabia se isso era bom ou ruim. - Entre. – a Nana disse, após um longo silêncio. Não parecia brava. Parecia apenas... triste. O que não me ajudava em nada, se vocês querem saber! Entrei, devagar, como se o chão fosse se abrir se eu pisasse fundo demais. Cheguei o mais perto que eu conseguia ir apesar do meu medo. Na minha cabeça, Giovanna ia se atirar no meu pescoço pra me estrangular se eu chegasse um centímetro mais próxima. Engoli em seco e abaixei a cabeça. - Nana, eu... – comecei a dizer, embora não fizesse idéia do que fosse dizer pra ela. Giovanna me interrompeu. - Não!... – exclamou, mais alto do que antes – Me chame... – continuou, baixando o tom – De Nana! Dei um sorrisinho aliviado. Ela não estava tão mal que não pudesse me dar uma bronca pelo apelido. Aquilo devia servir pra alguma coisa. - Eu sinto muito. – murmurei. E não era mentira. Eu sentia muito mesmo, não porque ela e Edson eram um assunto terminado, mas porque aquilo tudo, o sofrimento dela, era tudo culpa minha. Ainda que só indiretamente. - Não sinta. – murmurou, abrindo um sorrisinho mínimo – Vem cá. – e me estendeu a mão. 143


Hesitei por um instante, olhando pra Sabrina. O seu olhar me dizia que eu devia obedecer, e eu sabia que ela não estava pra brincadeira. Então o fiz. Dei minha mão pra Giovanna e deixei que ela me puxasse até a cama, me colocando sentada entre ela e a irmã. Giovanna apertou minha mão, soltando mais algumas lágrimas, e pousou sua outra mão sobre a minha, de modo a me segurar o mais firme que conseguia. O que não era muito. A impressão que eu tinha ao olhar pra ela era que ela ia desmoronar. - Eu não... – deu um soluço, engoliu as lágrimas e prosseguiu – Eu não culpo você, Lolita. Eu só estou arrependida. Eu fui uma idiota com você nos últimos tempos, estraguei nossa amizade. - Não estragou. – afirmei. E não sabia se estava ou não sendo sincera. - Eu devia ter confiado mais em você e menos nele. – Giovanna continuou, como se eu não tivesse dito nada – Me desculpe por ser uma vaca. Sério. Eu não quero que você se sinta mal porque nada disso é culpa sua. Inevitavelmente, eu comecei a chorar. Coitada da minha prima. Ela estava quebrada por dentro, e ainda acreditava que eu era inocente. Acreditava que eu realmente não tinha nada a ver com aquilo. E eu estava deixando. Mas se eu dissesse que eu tinha, porque gostava do Edson e tinha deixado transparecer até ele perceber e chuta-la pra tentar ficar comigo de novo, ela só ia se sentir pior. Não ia ajudar em nada. Então, optei por ficar quieta. Não uma mentira; uma omissão. - Você vai ficar bem? – perguntei, por fim, com um suspiro. Ela sorriu, embora só parecesse uma careta de dor. - Se nós ficarmos bem! – respondeu, e eu sorri também – Garotos vêm e vão, Lolita. Amanhã vou estar melhor. Vou mostrar pra ele, você vai ver. Eu não preciso dele. Ele é só mais um na minha vida. 144


Ela tentava se fazer de forte, mas por dentro, eu sabia que ela estava gritando. E a culpa era toda minha.

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Junina Junho é uma época feliz! Ok, na verdade, não tanto. Junho é o aniversário da minha mãe, o aniversário da Sabrina, e a época tenebrosa em que nós, do Colégio de Ensino Católico Santa Rita de Cássia, tínhamos que nos desdobrar e virarmos mutantes na hora de arrumar uma festa junina de arromba. Porque assim eram as festas juninas do Santa Rita. Lotadas. Duradouras. Legais. E a missão de arrumar a festa era dos alunos do primeiro ano. Eu. Nós. Que beleza. A parte boa era que ninguém tinha que enfiar a mão no bolso pra nada, porque o colégio fornecia tudo de que a gente viesse a precisar pra decorar e todas essas coisas. Além do mais, eu perdia as contas de quantas aulas a gente perdia desde o primeiro dia de aula do mês de Junho, até o dia da festa junina, que era sempre o primeiro final de semana depois do dia 13. Que naquele ano, era o dia 16. E, cá pra nós, dezesseis dias pra fazer tudo o que a gente precisava fazer era tipo uma tarefa ninja. - A partir de hoje, eu quero ver todo mundo dessa classe trabalhando como nunca! – exclamou a nossa coordenadora mala – Todos os anos, a Festa Junina do nosso colégio é tradicional e movimentada. Eu realmente espero poder contar com vocês pra que esse ano não seja diferente! Ninguém respondeu. Não havia muita opção quanto a isso. 147


Eu esqueci de mencionar que isso valia nota? - Vocês irão dispor de todas as aulas de artes, educação física, religião e português para os preparativos, contando com o auxílio dos professores. – continuou – Começando na próxima aula. Era uma segunda-feira, e a segunda aula era português. Fiquei aliviada de saber que teríamos tanto tempo por dia. Porque tínhamos aula de artes de segundas e quartas, educação física nas terças, e português e religião todos os dias. Era bastante tempo. Todo mundo estava cochichando e tendo idéias, e aguardando ansiosamente a hora em que o sinal iria bater e nos levar ao início de um trabalho absurdo que nos deixaria com calos nas mãos, dor nas costas e notas a mais. Mas, pra falar a verdade, eu não estava nem um pouco preocupada com isso. Olhei pra trás e vi a Sabrina e a Giovanna conversando. Unidas e fingindo sorrir. Desde o início daquela manhã, a Giovanna estava fingindo como nunca. Deu oi pra todo mundo como se nada tivesse acontecido, e não olhou pro Edson do instante em que ele sentou à nossa mesa até a hora do sinal pra primeira aula bater. E, embora ela estivesse bancando a forte muito bem, e eu não a tivesse visto sequer ameaçar começar a chorar, eu sabia muito bem que ela estava aos pedaços. E a culpa que batia em mim por causa disso era uma droga. Então o sinal bateu e eu respirei fundo. Lá vamos nós. Local: ginásio do colégio. Status: bagunça completa. Resultado: nenhum ainda. 148


Já haviam se passado 40 minutos de aula, dos 50 dos quais nós dispúnhamos, e nada havia sido decidido. Os materiais estavam aguardando para serem usados, eu estava ficando impaciente, e ninguém era capaz de decidir por uma coisa. Porque alguns queriam desenhos, e outros achavam que as palavras estavam boas, alguns pensavam que as barracas precisavam de uma reforma, e outros que não estavam nem aí. Não ajudava muito. - Ah, que porcaria! – a Lana exclamou, surgindo do meu lado, com o Diego logo atrás dela. O falatório era tanto que parecia ter trezentas pessoas ali, ao invés de trinta. - Isso aqui ta uma zona! – eu reclamei, torcendo o nariz. A Lana cruzou os braços, pensando. - Quer saber? – bufou – Dá um grito ai, Lolita. - Pirou? - Dá logo uma porcaria dum berro pra todo mundo parar e a gente organizar essa zona. Você berra, eu falo. Girei os olhos. Lana maluca. E ainda assim eu gritei: - GENTEEEEEEEEEEEEE! E fiz isso tão alto que a minha garganta doeu, e todo mundo parou no mesmo instante e virou pra nossa direção. Foi a primeira vez no dia que vi a Giovanna rindo. Da minha cara. O que, eu suponho, é um bom sinal. - A Lana... – tentei soltar, com muito esforço – Quer falar. Eu provavelmente ia ficar sem falar ou engolir direito por uns dois dias depois dessa. Que beleza! - Olha, isso aqui ta muito desorganizado! – a Lana assumiu, num tom forte que só ela sabia usar – Vamos organizar essa bagunça. 149


Sem resposta. Graças a Deus, eu não queria ter que gritar de novo! - Quem for a favor de desenhos, além dos escritos, levanta a mão! – ordenou. Várias mãos se ergueram no ar. Praticamente metade da sala. A Lana contou e passou a informação pro Diego, que tirou uma caneta do ar e anotou na palma da mão. Nerd! - Quem quer só a parte escrita, levanta a mão! O pessoal restante ergueu a mão. Outra vez, a Lana contou e repassou pro namorado. - Quem é a favor de reformar as barracas, levanta a mão. De trinta, uns 3 não se manifestaram. Lana contou, repassou e suspirou. - Quem não liga pra nada? – perguntou. Eu ergui a mão, bem como a Bela e o Willian. Me senti completamente inútil, mas se eu dissesse que sou uma não seria completamente mentira. A Lana riu e repassou pro Diego. - E quem precisa da nota que a gente vai receber? – perguntou, por fim. E só ela e o Diego mantiveram as mãos abaixadas. A Lana puxou a mão do Diego e releu o que estava escrito. Torceu o nariz e inspirou profundamente. - Então ficou assim: - anunciou – Vamos reformar as barracas, colocar desenhos onde der pra colocar e ganhar nota! Vários “uhuls!” e “viva!” saíram do pessoal, comemorando. Mas então, o sinal tocou, e, naquela aula, nós não tínhamos mais tempo pra fazer nada. - Depois do intervalo, mão na massa! – ela berrou, com a concordância de todo mundo presente. 150


Com um último suspiro, fui me juntar às minhas duas primas. Elas ainda estavam conversando, de braços dados. - Oi. – eu disse, com um meio sorriso. Acho que eu ainda estava com medo que a Giovanna me atacasse. - Oi. – as duas responderam, praticamente ao mesmo tempo. - Está melhor? – perguntei pra minha prima mais velha, com uma careta. Ela assentiu, devagar. - Eu vou ficar bem. – afirmou, sorrindo. - Nós estávamos pensando no meu aniversário! – Sabrina exclamou, parecendo animada – Tipo, eu faço aniversário dia 17, no dia seguinte da Festa Junina e num domingo! Mas vou fazer 15 anos, então eu tenho que fazer alguma coisa! - Claro que tem! – concordei, pensando que os meus 15 anos ainda estavam longe pra que eu começasse a planejar alguma coisa que substituísse a super-festa que algumas garotas tinham a sorte de ter. Como a Lana – Já pensou em alguma coisa? - Em um monte de coisas! – respondeu – Mas ta difícil porque cai num domingo, e eu duvido que a minha mãe deixe eu fazer alguma coisa num domingo! - Passa pro outro final de semana. - Odeio fazer isso. Meu aniversário cai num final de semana, então vou fazer no dia! - Então, o que você tem em mente? A Sabrina deu um sorriso diabólico, olhando de mim pra irmã mais velha. - Você vai ver! Na terça, o ginásio estava um caos. Mesmo com a Lana gritando, e um monte de gente colaborando, ainda havia aquela parcela que não queria nem a pau fazer parte de nada. 151


E você pode entender isso como sendo Ricardo, Willian e Daniel com uma bola de futebol. Enquanto todo mundo trabalhava, eles davam chutes que acertavam as pessoas. Nada divertido. Eu estava lá, sentada no chão junto com a Bela, recortando as letras enormes que iriam decorar as barracas. Depois de recortadas, ainda teríamos que pintar e colocar glitter em todas elas. Meus dedos já estavam caindo de tanto manejar a tesoura. - Ah, chega! – a Bela exclamou, irritada como de costume, largando tudo no chão e deitando na quadra imunda. - Bela, a gente tem mais umas mil letras pra recortar e eu não vou fazer meleca nenhuma sozinha! – avisei – Se você ta tão cansada, por que não busca a besta do seu namorado pra ajudar? - Deixa o Will pra lá. - Eu deixo, se ele pegar essa bola e enfiar... - Tudo bem, tudo bem, eu falo com ele. Ela se levantou, e foi até onde o Willian, o Daniel e o Ricardo estavam jogando. Falou alguma coisa, obteve umas respostas, falou mais um pouco e... Começou a jogar com eles. Eu mereço. Meu alívio foi quando o sinal tocou e eu pude levantar e sair dali. Ainda faltava uma aula pro intervalo, mas quem liga? Qualquer coisa tinha que ser melhor do que cortar letras até seus dedos criarem bolhas! Eu estava a caminho da sala, começando a subir as escadas quando alguém puxou o meu braço. Quando eu olhei, era o Edson. Meu coração deu um duplo carpado dentro do peito. Respirei fundo, tentando me conter de todas as formas possíveis. Embora eu não soubesse muito bem o que aconteceria se eu não me contivesse. 152


- O que foi? – eu perguntei, meio petrificada. - Quer matar aula comigo? – Edson retrucou, e eu dei um risinho. Quem liga pra aula, afinal? Assenti, e ele me puxou, subindo pela escada secundária até o último e sempre vazio andar. Sentamos por ali, um ao lado do outro. E eu ainda estava rindo sozinha. - Ta rindo de quê? – quis saber. Olhei pra ele, com um sorriso bobo na cara. - Eu já vi todo tipo de convite estranho, mas o seu foi o pior de todos! – brinquei, e ele riu comigo. - Eu apenas fui original! – afirmou, e eu rolei os olhos. - Claro, claro! Os risos foram diminuindo, e no minuto seguinte só se ouvia nossa respiração e o meu coração martelando. Eu não devia estar ali. Não estava nada certo. Se eu queria evitar que alguma coisa entre nós acontecesse cedo demais, eu devia estar evitando a presença dele, e não me entregando a ela. Mas eu sou uma burra teimosa, e estava ali. E eu sentia que podia acontecer a qualquer instante. - O que vocês estão fazendo aqui em cima? – uma outra voz perguntou, severa e dura. Então eu olhei, e então o Edson olhou, e a coordenadora nos olhou de volta. O-ou. - Mãe, você tem que assinar a minha advertência. Foram as piores palavras e mais difíceis de dizer da minha vida. Porque, quando eu disse isso, eu sabia que qualquer chance de sair do meu castigo estava destruída pra sempre. Depois dessa advertência, eu 153


ficaria surpresa se minha mãe não me amarrasse num tronco pra me encher de chibatadas. - Sua o quê? O tom que ela usou foi ainda pior do que eu estava imaginando que seria. Eu era uma Lolita morta! - Advertência. – repeti. Minha mãe estendeu a mão. - Deixa eu ver isso. – mandou. Eu estendi o papel, onde a coordenadora tinha escrito que havia me encontrado no meio da terceira aula cabulando aula no terceiro andar. Minha mãe fez uma cara que só podia ser comparada com a expressão feroz de um serial killer. - Cabulando aula, Lolita? – ela quase gritou. O que não era bom, pois eram oito da noite, e os vizinhos podiam reclamar – Eu não acredito! Assinou o papel com tanta força que poderia rasgar. - Eu não sei mais o que esperar de você! – me devolveu a advertência – Suma da minha frente! Eu nem pisquei pra atender ao pedido. Na manhã de quarta-feira, a primeira coisa que eu recebi ao entrar no ônibus foi uma Bela muito irritada. Não era exatamente uma surpresa. Eu só precisava sentar e ouvir as reclamações. Ser amiga da Bela de vez em quando era bem simples. - Você não vai acreditar! – ela exclamou, furiosa, quando eu me sentei ao seu lado. Dois bancos atrás, a Giovanna e a Sabrina conversavam sobre alguma coisa, que devia ser muito mais interessante e divertida que qualquer coisa que a Bela pudesse ter a dizer naquele estado de nervos. Mesmo assim, me sentei. “Melhor amiga”, eu pensei, repetidas vezes. “Ela é sua melhor amiga”. É isso ai. Eu posso me considerar um tipo de mulher-bomba! 154


- Tente. – encorajei. A Bela bufou antes de começar. - Ontem, eu estava conversando com o Willian e a minha irmã passou de mãos dadas com o Daniel. – contou. Também não foi nenhuma surpresa. Não para mim – E o Will deu a entender que tem alguma coisa rolando, mas quando eu perguntei o quê, sabe o que ele me disse? - Não. - Que não vai me contar, porque eu vou tentar ferrar o lance dos dois! Olhei para a Bela, com a maior cara de “qual é o seu problema?” do mundo. Ela me devolveu com um olhar duro de raiva. - Primeiro: - comecei – Se você soubesse de alguma coisa, Bela, sinceramente, o que você faria? Ela não me respondeu. Provavelmente porque ela sabia que não ia adiantar mentir pra mim, nem que era necessário dizer a verdade. Ela sabia melhor que eu que qualquer chance que ela tivesse pra ferrar com a vida da irmã gêmea, ela agarraria. - E segundo: - prossegui – O Willian te deu a resposta sem querer, e você nem se ligou! - Ele o quê? – me perguntou, com uma careta. - Ele disse que você ia “tentar ferrar com o lance dos dois”. – expliquei – Então quer dizer... - Que tem um lance. – então ela sorriu, e pôs as duas mãos no rosto, comemorando – Ah, Lolita, você é demais! Tem um lance! Tem um lance! Me arrependi de ter aberto a boca, então. Eu tinha entregado tudo nas mãos dela pra destruir uma coisa legal de duas pessoas que se gostam. Essa não! O pior é que eu não podia fazer nada sem deixar a Bela uma fera comigo de novo. Se eu tentasse alertar a Suellen e ela descobrisse, quem ia dançar seria eu. Se eu tentasse desdizer o que eu tinha dito, ela ia dizer que eu estava protegendo a Suellen e ia fechar a cara de novo. Independente do que eu tentasse fazer pra reverter tudo, era eu quem ia me ferrar. 155


Eu tinha libertado o monstro. Lolita muito má! Tentei tirar tudo isso da cabeça quando o ônibus parou na frente da escola e nós descemos. A Bela ainda sorria, e eu sabia que a sua cabecinha estava matracando alguma coisa. O que eu preferia nem saber. Quem sabe se eu não soubesse, eu seria menos culpada nessa história. Não. Eu duvido muito disso. Lana e Diego já estavam na nossa mesa, fazendo uma lição qualquer que eu ia precisar copiar depois. Estava para pedir esse favor a eles quando a Sabrina chegou e atirou uma pilha de convites na mesa. Convites de um rosa intenso, com letras coloridas. Brilhava tanto que chegava a doer. - O que é isso? – a Lana perguntou, pegando um convite. Minha prima mais nova se sentou, animada ao lado dela. Era estranho vê-las como “amigas” depois dos tempos tensos que elas tinham passado há não mais de um mês. - Os convites do meu aniversário! – anunciou, entregando um pro Diego, um pra Bela e um pra mim – Festa na piscina, domingo! Era o que dizia o convite. Pra comemorar seus quinze anos, ela tinha decidido fazer uma festa na piscina, numa chácara escondida em algum lugar de São Paulo. Pensei na minha mãe, furiosa com a minha advertência. - Acho que não vou poder ir. – soltei, e ela e Giovanna me olharam como se eu tivesse dito algo como “eu matei um cachorro pra comer no almoço”. - O quê? – Sabrina quase gritou – Por quê? - Ainda estou de castigo, lembra? – só pra não citar que eu tinha me ferrado mais por ter cabulado aula ontem. Com o Edson. Alguém ali perto não precisava saber desse tipo de coisa. - Ah, você vai! – a Giovanna sentenciou, com uma determinação perigosa – Pode deixar que a gente convence a tia! 156


- É, somos suas primas, família, ela não vai te impedir de ir nessa festa! – a Sabrina exclamou, com um sorriso – Você vai presenciar a melhor festa do ano, priminha! Eu só podia sonhar com o que esperar dessa festa. É incrível a velocidade que o tempo passa quando a gente tem a cabeça atolada de coisas. Passei aqueles dias que precederam a festa junina sofrendo pra agüentar os gritos da Lana e a falta de cooperação da Bela, que preferiu juntar-se ao namorado do que me ajudar. Vi minhas primas de cochicho, se recusando a me contar o que tanto falavam uma com a outra. Perdi os dedos fazendo decorações, e me estressei com tudo que tivesse a ver com São João, São Pedro e Santo Antônio. E, enfim, era dia 16. Como se não bastasse tudo o que eu já vinha passando por conta daquela droga de festa junina, ainda tive que chegar logo pro primeiro turno das barracas. Eram ainda onze horas quando eu cheguei, de cabelo trançado, batom vermelho e até umas sardinhas. E lá fui eu pra barraca do algodão doce. O movimento durante a parte da manhã era mínimo. A maior parte das pessoas só chegava depois do meio-dia. No primeiro turno, éramos eu, Bela, Ricardo e mais umas três pessoas da minha sala com quem eu quase não conversava. Tudo estava bastante parado, então eu pude simplesmente sentar e observar como tinha ficado legal o nosso trabalho. E foi uma surpresa muito grande quando eu simplesmente pisquei e o Edson se materializou na minha frente. - Quando é o algodão doce? – ele quis saber, abrindo um sorriso. Ele estava vestido como geralmente ficava fora da escola. O cabelo preto caía até mais ou menos embaixo da orelha, desajeitado de um jeito 157


que só ficava legal nele. A camiseta hoje era do Dream Theatre, preta com uns desenhos estranhos em cores fortes. A calça jeans escura e o All Star preto destruído completavam o visual. - Um real. – respondi, me sentindo meio boba ao perceber o meu próprio sorriso pra ele. O Edson riu. - Achei que você pudesse fazer de graça pra mim. – brincou, e eu dei de ombros. - Eu faria, mas sabe como é essa escola! - Sei. Mercenária. - Exatamente. - Então... cadê? Estou esperando. Só então me dei conta de que ele estava falando sério sobre o algodão-doce: tinha até uma nota de um real estendida pra mim. Peguei um palito e fui pra máquina, tentando não olhar pra ele pra não me distrair e destruir o doce. - Pronto. – e entreguei o palito com o algodão-doce meio desfigurado para ele. Com a outra mão, peguei a nota e puxei. Tinha alguma coisa embaixo. - A gente se vê. – e saiu. Guardei a nota na caixinha, mas mantive na mão o pedaço de guardanapo dobrado que o Edson tinha me dado junto com o dinheiro. Meu coração martelava forte, e eu respirei fundo, abrindo-o. Bela chegou no último segundo e me deu um susto imenso gritando: - O que é isso? Eu dei um grito, e ela riu. Puxou o bilhete da minha mão, e eu o peguei de volta antes que ela lesse. Te vejo na festa hoje, dizia o bilhete, na letra estranha que ele tinha. Me observe. 158


- Oh, meu Deus! – a Bela exclamou, aparentemente se contendo pra não gritar. Eu apenas assenti, pois não sabia o que dizer. “Oh, meu Deus” parecia ser uma ótima definição do que eu estava sentindo. - Bela, o que eu vou fazer? – perguntei, meio pasma, meio feliz, meio preocupada – A Giovanna vai estar lá! - A Giovanna vai estar preocupada demais enchendo a cara pra prestar atenção, Lolita! – minha melhor amiga falou, relendo o bilhete – Até parece que você nunca foi a uma festa com ela. - E até parece que eu não conheço minha prima o bastante pra saber que ela vai estar de olho mesmo se estiver caindo e vomitando! – rolei os olhos – Não vai rolar. - Vai rolar, é claro que vai rolar! Eu posso te dar cobertura. Mordi o lábio, confusa. “Não vai rolar”, minha mente insistia. Não vai dar certo. É claro que não. Não pra mim. Eu ainda não conseguia acreditar que a minha mãe tinha deixado que eu saísse do castigo para ir à festa da Sabrina, sem que ela estivesse por perto. Fosse o que fosse que minhas primas tinham dito pra ela, havia funcionado, e ali estava eu. Sem nem ao menos um horário pra voltar pra casa. Apesar de ser Junho, e teoricamente estar começando a esfriar segundo a estação do ano, o domingo começado bem quente. A Sabrina devia ser uma bruxa do tempo, porque uma hora antes da festa, eu já estava suando e sonhando com a piscina. E agora que eu estava lá... eu simplesmente não entrava. Eu estava sentada numa das espreguiçadeiras dispostas ao longo da área da piscina do buffet que ela tinha alugado. O DJ tocava as 159


melhores músicas enquanto tinha um churrasco rolando em algum lugar. Pra uma festa organizada em poucos dias, estava muito boa. E cheia. Definitivamente cheia. Os 15 anos da Sabrina estavam sendo, até agora, com umas duas horas de festa, a festa de aniversário mais cheia a que eu já tinha ido. Nem mesmo a festa da Lana tinha estado tão lotada. Mal tinha espaço na piscina. Um dos motivos pelos quais eu não estava entrando. O outro era que, depois de ver a Giovanna naquele corpo absurdo dela desfilando de biquíni, resolvi que não vali a humilhação. Convenhamos, eu estava uns cinco quilos acima do peso e meu bumbum tem mais celulite do que é permitido pelo Ministério da Saúde. Eu estava mesmo era poupando as pessoas. Por isso, eu me limitava a ficar com o biquíni por debaixo do vestido bem largo azul claro, com meus chinelos e meus óculos de sol, assistindo o movimento. Acompanhada da minha melhor amiga e completamente anti-sol, mar e piscinas, Bela. - Cara, aquele biquíni que a Ariane está usando é um horror! – ela comentou, em voz baixa, só para mim, me fazendo rir – Aliás, você viu a Suellen? Eu não ia comentar, mas eu a tinha visto sentada com o Daniel bem longe de onde todo mundo estava. Enquanto eu procurava pelo Edson. Mas isso não vem ao caso. - E você parece a Ariane reparando no que as pessoas estão usando! – brinquei, embora o biquíni dela fosse mesmo um horror. Verde com uns desenhos estranhos. E pequeno demais. Eca. - Eu não devia ter vindo, sabia? – bufou – O Will disse que não vem, e eu odeio essa droga desse sol na minha cara. Me lembre por que eu estou aqui, por favor. 160


- Pra me dar cobertura. – quase sussurrei. Estava apavorada com a idéia de a mina prima descobrir alguma coisa. - Aliás, onde está esse indivíduo? – Bela se sentou, ergueu os óculos de sol e começou a olhar em volta – Qual é a dele, afinal? - Talvez ele esteja esperando todo mundo ficar louco o suficiente pra que ninguém sinta a nossa falta. Pensar nisso me deu um calafrio, uma agitação na boca do estômago. Dois fugitivos, dois amantes escondidos. Nos imaginei buscando algum lugar pra se esconder – o vestiário, perto das árvores, dentro da cozinha? – e o que aconteceria então. Só de pensar em beija-lo, de verdade, pela primeira vez, era como se... Como se eu fosse explodir. Mal ouvi quando a Bela comentou: - Não vai demorar muito. Então olhei pra frente, pra ver a pilha crescente de latas e garrafas de cerveja, enquanto a Giovanna dançava, empoleirada nos ombros de um cara do terceiro ano. É. Não ia demorar muito. Já era entardecer quando o vi pela primeira vez. Edson chegou usando chinelos, bermudas e, pasmem, uma camisa branca de manga curta, aberta até a metade. Mesmo de longe, ver seu peito nu e o começo da sua barriga foi como receber uma descarga elétrica, mas eu fiquei onde estava. Ele sorriu pra mim, e começou a caminhar. Foi e foi cada vez mais longe. Olhei de novo pra piscina. O mesmo cara que tinha erguido minha prima estava agora aos beijos com ela. Metade das pessoas estava comendo, ou dançando. A maior parte estava bêbada. É, acho que ninguém ia sentir a minha falta. - Fica de olho nela. – pedi pra Bela, antes de me levantar. Ela ergueu as sobrancelhas e fez uma careta de nojo. 161


- Pode deixar comigo. – respondeu, a contragosto. Eu levantei e fui andando na direção em que tinha visto o Edson ir minutos antes. Ele tinha andado rápido, pois não estava em nenhum lugar à vista. Continuei andando. A verdade era que eu não sabia onde procurar, e não poderia fazer um sinal, tipo chamá-lo, sem que eu também chamasse atenção de alguém que pudesse estar por perto. Fui até bem embaixo, no estacionamento, e voltei. Nada. Onde estava ele, droga? Então ouvi risos, e palavras que não faziam sentido. Vinham de algum lugar mais à frente, pensei, enquanto subia, em direção à piscina. Seguindo o som, fui parar até um pouco atrás do vestiário. Eles não me viram, mas eu os vi dali onde estava, atrás de uma árvore. A Sabrina estava sentada com as pernas meio tortas e uma garrafa de vodca na mão. Ela ria e falava coisas sem sentido. O Edson estava de pé ao lado dela, com uma cara confusa, olhando pros lados. Ela estava tão obviamente bêbada que tive pena dele. Estava para ir até lá, quando, de repente, a Sabrina largou a garrafa e agarrou o braço dele com as duas mãos, puxando-o. - Qual é, Sabrina? – ele perguntou, com uma risada meio rouca. Parei e fiquei assistindo. - Eu preciso te contar um segredo! – ela falou, e, aos poucos, o Edson foi abaixando, rindo. Ela levou um dedo ao lábio e fez – Shiu! É segredo! - Tudo bem. – concordou, como quem não tem escolha. Minha prima ficou de joelhos – com certa dificuldade, meio que tombando pros lados – e se inclinou no ouvido dele, com as mãos em concha, pra ninguém mais ouvir. Pareceu ter levado horas pra dizer o que fosse, tamanha era a minha curiosidade em saber o que ela estava cochichando. 162


Mas ela estava bêbada, então não devia ser nada de importante. - Você...? – Edson começou a dizer, mas foi subitamente interrompido. Por um beijo. Um beijo dela. Um beijo que ele não parou. Então eu dei as costas e fui embora, porque não queria ver mais nada.

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Beach, Bitch! Segunda-feira pela manhã, eu estava um lixo. Não havia bebido. Mal havia comido. Não havia dançado, nem me divertido. Cheguei em casa cedo e fui pra cama cedo. Mas quem disse que eu conseguia dormir? Pior do que passar meses assistindo as cenas torturantes do namoro da Giovanna com o Edson era vê-lo beijando a minha outra prima quando eu achei que a droga do pesadelo tinha acabado. Quero dizer, era a minha vez, não era? Ele não tinha entregado aquele bilhete sem motivo nenhum! Então por que diabos ele não simplesmente empurrou a Sabrina quando ela foi pra cima dele? Por que ele deixou? Por que ele beijou de volta? De tanto pensar nisso, não consegui dormir. No ônibus, nem tentei fazer de conta que estava prestando atenção a qualquer um dos lamentos usuais da Bela, e uma hora ela simplesmente desistiu. No banco da frente, a Sabrina e a Giovanna conversavam. Será que a Sabrina lembrava? Ela estava bêbada, mas tão bêbada a ponto de não saber o que estava fazendo? Será que a Giovanna sabia? Se soubesse, será que se importava? Eram perguntas demais. Eu tinha que parar com aquilo. O ônibus parou na frente da escola, e eu desci. Passei direto pelo Edson, encostado no portão. Não sabia se ele estava esperando por mim, mas eu sabia que não estava nem um pouco afim de falar com ele. Simplesmente entrei e subi, quinze minutos antes que o sinal batesse. Ia ser uma semana daquelas.

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Tive prova logo na primeira aula. Respondi a maior parte das coisas sem prestar atenção ao que estava fazendo. Eu já estava detonada no boletim de qualquer maneira. Demorei dez minutos pra fazer a prova e entregar, antes de me afundar na carteira. Meu celular vibrou no meu bolso e eu, cuidadosamente, o puxei. Mensagem de texto. Precisamos conversar. Era a Sabrina. Eu não tinha certeza se queria conversar com ela. Então, não respondi. Senti um farfalhar no meu pescoço e pus a mão, recebendo um pedaço de papel. O abri no colo, e Bela tinha escrito: Gênio, me passa a questão 7. Eu não tenho a menor idéia de qual é a resposta, Bela. O que você fez na prova? Desenhos? Basicamente. Qual é o seu problema? Pode olhar pra ver se alguém respondeu a questão 7 pra mim? Não. Chata. Amassei o papel tão logo o recebi de volta, mal humorada demais pra levar a discussão adiante. Bufei e me inclinei sobre a carteira, mas meu celular vibrou antes que eu pudesse fechar os olhos. Lolita, é sério! Dá pra me encontrar na hora do intervalo? Que porcaria! Essas pessoas não têm o menor senso de respeito? Se tivessem, saberiam que às vezes os outros não gostam de conversar logo depois de presenciar algo perturbador! O que há de errado com ela? Me dá um tempo, droga! Digitei, furiosamente, e apertei enviar. Menos de dois minutos depois, ela havia respondido. Tudo bem. Mas não vai fugir de mim pra sempre. 166


Não. Só tempo suficiente pra que eu supere tudo isso. O que pode levar um ano ou dois. Não respondi, e ela, graças a Deus, não me escreveu de novo. Cada vez que eu fechava os olhos, só conseguia visualizar a droga do beijo que era pra ter sido meu. Era tão injusto. O que quer que ela tivesse pra me dizer só ia piorar as coisas. Dava pra sentir. Era melhor eu continuar na ignorância. As semanas se passaram, e eu não voltei a falar com a Giovanna, muito menos com a Sabrina. Eu parecia um zumbi ambulante, sempre quieta, só olhando e escutando. Ou fingindo escutar. O Edson não tentou me procurar. Diferente da minha prima, acho que ele me conhecia o bastante pra saber que eu queria distância dele – pelo menos por um tempo. Embora eu não soubesse bem por quanto tempo. Eu nem sabia direito o que eu estava fazendo. Pois, nessas semanas, não vi ele se aproximando de nenhuma das minhas primas nem uma única vez. O que me dava duas possibilidades: a) ele e a Sabrina estavam tendo um rolo escondido, ou b) tinha sido só um beijo e eu estava sendo ridícula. Fosse o que fosse, eu não chegava perto demais pra saber. Passei o resto do mês de junho lutando pra não ficar com mais de uma recuperação, e consegui. Quando chegou o boletim no final do bimestre, eu tinha no mínimo um 6 em todas as matérias. Já era alguma coisa. Esse boletim, pelo menos, eu poderia mostrar pra minha mãe. Foi o que eu fiz. Ela olhou, fez uma careta, e então assinou. - Já é alguma coisa. – afirmou, ecoando meus pensamentos – Está livre do castigo. O que não significava coisa alguma quando não se tem a menor vontade de sair. Então eu comemorei com um saco de pipoca e “Um Amor Para Recordar” na televisão. 167


Eu estava na parte em que ia começar a tão esperada peça de teatro, quando o telefone tocou. Eu estava vidrada, então puxei-o do gancho e atendi mecanicamente, sem nem parar pra olhar no identificador de chamadas. - Alô? - Ahn, a Lolita, por favor? – disse uma garota do outro lado da linha. Engoli mais um punhado de pipoca antes de responder. - Sou eu. - Ah, oi. É a Sabrina. Pausei o filme e me sentei no sofá, sem saber o que dizer. De repente, era como se a minha pressão tivesse caído, e eu me sentia meio tonta. Respirei fundo. - Oi. – eu disse. Minha voz tremeu um pouco. - Eu queria conversar com você, Lolita. – minha prima pediu, com a voz cuidadosa – Será que eu podia passar por aí? - São sete e meia da noite. – eu afirmei, como se fosse um grande problema. - Não importa. Acho que a gente precisa se resolver. Parei de respirar por uns instantes. Não conseguia sequer pensar direito. - Tudo bem. – concordei, lentamente. “Eu acho,” acrescentei, em pensamento. - Bom.Te vejo daqui a pouco. A Sabrina desligou antes que eu tivesse a chance de fazê-lo. Fiquei uns bons minutos encarando o telefone antes devolve-lo ao gancho. Então dei play no filme de novo, mas não conseguia mais prestar atenção. Quarenta minutos depois, o interfone tocou. Ouvi minha mãe reclamando lá do quarto dela, então corri até a cozinha e o atendi. Era o porteiro, perguntando se autorizava a entrada da Sabrina. Autorizei. 168


E fiquei de plantão com a porta aberta pra minha mãe não reclamar da campainha. Minha prima chegou com o rosto sério, sem nem se esforçar pra dar um meio sorriso que fosse quando me cumprimentou. Deixei que ela entrasse, e então a levei pro meu quarto. Ela se sentou na minha cama meio desarrumada, e eu me sentei na cadeira da escrivaninha. Por um bom tempo, ninguém disse nada. Eu, porque não tinha nada que eu pudesse dizer, e ela, provavelmente porque não sabia por onde começar. Eu apenas fiquei ali, olhando pra ela, esperando que ela dissesse alguma coisa que eu não queria escutar. Porque eu tinha certeza de que nada de muito positivo viria daquela nossa conversa. Nem sei quanto tempo se passou, até que ela bufou e disse suas primeiras palavras: - Eu sinto muito. - Pelo quê? – eu perguntei. Não queria dar uma de cretina, mas queria ouvir ela dizer. Queria que ela dissesse pra mim o que tinha feito. Ela bufou de novo. - Por ter beijado o Edson. – respondeu, tão baixo que mal era audível – Na minha festa. – acrescentou, um pouco mais alto. Ouvi-la dizer só me fez sentir pior, e eu tive vontade de chorar. Mas eu me segurei. - Você estava bêbada. – constatei. Mas era mais uma pergunta que uma afirmação. Ela balançou a cabeça. - Eu sabia o que eu estava fazendo, Lolita. – me disse – E na hora eu realmente achei que fosse uma ótima idéia. Eu só me dei conta de que você tinha visto depois que você desapareceu. Não respondi nada. Talvez, se eu abrisse a boca, eu começasse a soluçar e chorar. Era melhor ficar calada. 169


- Eu gosto dele, Lolita. – afirmou, e fez uma pausa. Talvez pra deixar a faca entrar bem fundo no meu peito e dilacerar o meu coração, porque aquilo doeu como nada antes – Não de um jeito idiota como a Giovanna, e com certeza nada como o que você sente. Mas eu gosto dele. E eu sempre fiquei na minha. Senti as lágrimas escorrendo, e continuei em dizer nada. O que poderia ser dito numa hora como essas? “Que legal”? - E eu disse isso pra ele na festa. – continuou – Antes de... você sabe. – riu consigo mesma – Eu não sei de onde eu tirei que eu poderia ter chance. Quero dizer, nem a Nana teve, certo? Sabe o que ele me disse depois que eu o soltei? Balancei a cabeça negativamente. Eu não sabia onde ela queria chegar, mas só estava piorando. Eu ia começar a soluçar a qualquer segundo. - Ele me disse que não podia fazer nada, porque ele gosta de você. Olhei para ela, meio surpresa, meio feliz, e ainda chorando. Não era como se eu não soubesse que ele realmente sentia. É só que, sei lá. Por um instante – ou melhor, por umas semanas – tinha sido muito difícil de acreditar. - É, ele disse isso. – a Sabrina reafirmou, passando a mão pelo cabelo sedoso – E eu vou te falar, Lolita, doeu. Mas eu não me importo, sabe? Eu não ligo mais, porque eu sempre soube que eu não teria a menor chance. E eu só quero que você seja feliz. Que ele seja feliz. Que vocês sejam felizes juntos. Eu dei um sorrisinho. Era realmente legal da parte dela. Mas eu ainda não conseguia dizer nada. - Me desculpe por ter sido uma vaca, ok? Foi um momento de fraqueza! - Está tudo bem. – eu afirmei, fungando, e verdadeiramente acreditando nas minhas próprias palavras. A Sabrina sorriu. - Não suma nessas férias. – pediu, se levantando. 170


- Não vou sumir. E então ela se foi. Na semana seguinte, já era a primeira semana das férias de Julho. Bela disse que ia pra Campos do Jordão com a família, então não falei mais com ela, enquanto morria de tédio no meu apartamento, isolada do mundo. Isso até meu telefone tocar naquela tarde de quinta-feira. - Vai arrumar as suas malas agora! – a Giovanna exclamou, do outro lado da linha, antes mesmo de eu terminar de dizer “alô”. - Pra ir aonde? – eu perguntei, confusa, já me levantando e indo pro quarto. - Vamos pra praia, Lolita! Eu, você, a Sa, mamãe e papai. - E a minha mãe...? - Já falamos com a tia, ta tudo em cima. A gente passa ai em umas duas horas. Ceeerto. Eu nem tive tempo de responder, porque ela já tinha desligado na minha cara. Então corri pro quarto e comecei a puxar as coisas do armário. Menos de duas horas depois, nós já estávamos com o pé na estrada. Minhas primas com as janelas abertas, uma em cada ponta, meus tios conversando na frente, e eu espremida no meio, falando com a minha mãe pelo celular. - ...e não se esqueça de passar protetor antes de ficar no sol. – eu odeio recomendações de mãe. Elas acham que a gente tem o quê, dois anos de idade? Eu fico surpresa por ela não me lembrar de tomar banho! – E, filha, vê se não come muita porcaria, certo? Tenta se alimentar direito. - Pode deixar comigo. – resmunguei. A pior parte era fazer de conta que eu estava prestando atenção. 171


- Me liga quando chegar, tudo bem? - Ta. Mas não vou te ligar todo dia! - É claro que não. Filhos. - É, isso aí. Tchau, mãe! - Se cuide! Desligar foi um alívio. Mas olhar pela janela e perceber que o tempo não está nenhum pouco desejoso de praia... isso não foi. Nem um pouco. A casa que meus tios haviam alugado em Itanhaém – uma cidade a umas duas horas de São Paulo, no litoral paulista – era simples e confortável. Dois quartos, dois banheiros, sala e cozinha.Uma mesa de plástico com quatro cadeiras e uma rede na varanda. Uma churrasqueira desmontável e uma máquina de lavar velha nos fundos. O suficiente. Enquanto eu e as minhas primas desfazíamos nossas malas e lutávamos por um espaço no único guarda-roupa do nosso quarto – que também tinha um espelho, um beliche e uma cama de casal -, meus tios saíram pra comprar comida. A Giovanna, por ser a mais velha, imediatamente reivindicou a cama de casal, e eu e a Sabrina – o clima entre a gente meio tenso ainda – tiramos no par ou ímpar para ver quem ficava com a parte de baixo do beliche. Ela perdeu. Eu, em compensação, perdi espaço no armário. Já que eu não ia ter lugar pra colocar as minhas coisas mesmo, simplesmente tirei da mala os lençóis, arrumei minha cama e larguei a mala onde estava, no chão, ao lado do beliche. Abri a janela e fui fazendo o mesmo pela casa inteira. Agora que eu estava ali, estava meio enérgica. Fui arrastando os chinelos até a varanda. O tempo estava meio nublado, porém quente. Me apoiei no portão baixo, olhando para as casas e para o movimento – ou falta dele – na rua. Eu estava distraída demais pra dar atenção a coisas simples como alguém me observando. Deve ter sido por isso que eu não vi quando ele 172


parou, bem ali, do outro lado do muro, e ficou me olhando com cara de bobo. E tomei um susto quando escutei sua voz, tão familiar e tão ausente por tanto tempo, dizendo: - Lolita? Me virei num salto, o coração na boca, sem acreditar no que eu estava vendo. - Edson? – balbuciei. De todas as praias no mundo ele tinha vindo parar na mesma que eu. De tantas ruas e tantas casas na cidade, ele estava na minha rua, na casa ao lado. Eu devia ter mesmo muita sorte! - O que você ta fazendo aqui? – ele perguntou, tão incrédulo quanto eu. Era estranho vê-lo de camiseta branca ao invés de preta e com uma bermuda azul. Claro demais pra ele. - Passando as férias? – dei um risinho nervoso, mas não tinha graça nenhuma – Isso é muita... - Coincidência? – Edson rolou os olhos – É um jeito de ver as coisas. Resisti ao impulso de perguntar como ele via as coisas. Eu estava dividida por dentro entre a parte que adorava tê-lo ali, tão perto, e a parte que queria que eu pegasse o próximo ônibus de volta pra São Paulo. Respirei fundo. - Eu vou ver se elas precisam de ajuda lá dentro. – eu disse, arranjando uma desculpa pra sair logo dali. Estava quase entrando quando ele perguntou: - Elas? Quem mais está ai com você? - A Sabrina e a Giovanna. – respondi, sem me virar pra olhá-lo. Mas acho que ele entendeu o recado. Entrei e parei logo na sala, caindo sentada no sofá duro. Era realmente inacreditável o tamanho da minha sorte idiota. Eu ainda estava 173


considerando voltar pra casa quando as minhas primas apareceram na sala, cada uma com uma vassoura. - Com quem você estava falando? – a Giovanna quis saber. Eu fiz cara de idiota. Não porque queria me fazer de idiota – não tinha nenhuma possibilidade de a Giovanna aceitar isso como resposta -, mas sim porque eu estava tão abismada com o que tinha acabado de acontecer que não conseguia processar a pergunta que ela tinha me feito. - Nós ouvimos vozes. – a Sabrina explicou, demonstrando um pouco mais de compreensão – Lá fora. Pensei por um segundo antes de responder. O que seria melhor? Esconder a verdade e esperar que elas descobrissem sozinhas, ou simplesmente prepara-las para o fato de que o conhecido ex da Giovanna, o cara que só eu sabia que tinha beijado a Sabrina semanas atrás e o garoto por quem eu estava apaixonada, exatamente aquele cara estava passando as férias na casa ao lado? Ia ser complicado. Mas decidi que mentir não era a melhor saída. - O Edson é nosso vizinho. As duas caíram sentadas e boquiabertas no sofá ao lado. - Ele está sozinho? – Giovanna perguntou, baixinho. Dei de ombros. - Imagino que não. - Isso é muita... – Sabrina começou a dizer, e eu não consegui me controlar pra completar a frase. - Coincidência? – sugeri. Ela assentiu – É, acho que sim. Algo me dizia que aqueles dias não iam ser nada fáceis. Dia 1: Eram seis da tarde do primeiro dia. Eu estava na minha cama, olhando pro nada, pensando em nada, fazendo nada. 174


Mal tínhamos chegado e eu já fazia questão de ir embora, correndo se fosse necessário. Onde estava a justiça desse mundo? - Ei, Lolita? – alguém me chamou. Olhei pro lado, tão rápido que me senti meio tonta. Era a Sabrina. - Ah, oi. – respirei fundo e esfreguei a cara nas mãos. Minha prima sentou na cama ao meu lado. - Eu e a Giovanna vamos dar uma volta na praia. Vamos? – convidou, e eu torci o nariz. - Acho que eu vou ficar. - Você não vai se esconder nesse quarto só porque o Edson está na casa ao lado, vai? - Claro que não! – rolei os olhos, como se a idéia fosse ridícula. Mas era exatamente aquilo que eu estava planejando. Então encarei a Sabrina, e ela olhava pra mim com aquele de ar de “então pode me dizer que merda você está fazendo?” Bufei e me levantei. - Vamos logo. – eu disse, calçando os chinelos. Ainda estava bem quente lá fora quando começamos a andar pra praia. Eu não estava nem um pouco animada, e precisei de muito esforço pra não olhar pra trás enquanto deixávamos nossa casa (e a do vizinho) pra trás. A praia estava bem vazia quando chegamos. Nenhuma de nós falou muito enquanto caminhávamos à beira mar. O barulho da água me acalmou um pouco, bem como o pôr do sol. Não sei quanto nós andamos antes de decidir que era hora de voltar. O problema estava na volta. Eu os vi antes de chegarmos perto o bastante pra que eles nos vissem. O sol estava se pondo ainda, e na nossa direção vinham Lana, Diego, Henry e, é claro, Edson. A primeira coisa que eu fiz foi emitir um muxoxo. Sabrina me olhou, e então olhou pra onde eu estava olhando, e imitou o som. Só a 175


Giovanna não percebeu nada. Pelo menos, não até estarmos realmente próximos, e a Lana acenar, com um sorriso. - Oi, gente! – ela disse, e então me olhou e a compreensão emanou nos seus olhos por um instante antes da sua expressão se recompor. - Coincidência, hein? – Henry brincou, mexendo no cabelo louro perfeito. Com certeza! - Oi, Met. – ouvi a Giovanna dizer. Decidi que não ia dar atenção a eles, mas a Lana, o Diego e a Sabrina estavam falando baixo demais pra me impedir de ouvir. - Oi. – ele respondeu. De um jeito educado, porém seco. - Eu queria levar um papo com você. – minha prima pediu. Sua voz era baixa, como se estivesse sufocando. De dor, eu podia imaginar. Dor de vê-lo ali, tão perto, e não poder fazer nada. Bem-vinda ao meu mundo, Nana! - Pode ser? – ela completou, lentamente. Não olhei pra ver a expressão de nenhum dos dois, preferindo olhar diretamente pro mar, belo e inacabável ao meu lado. Mas ouvi quando Edson bufou. - Claro. – concordou. Eu não sabia por que exatamente, mas de que isso importava? Eu nem sabia qual era a situação entre nós dois! - Eu vou nessa. – falei pra Sabrina. Ela olhou de mim para a irmã, já andando ao lado do Edson, e assentiu. - Eu vou com você. Nos despedimos do resto do pessoal, e não dissemos mais nada no caminho pra casa. Não era necessário. Cheguei e fui direto pra cama.

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Dia 2: Eram sete e meia da manhã quando eu acordei. Levantei devagar, e fui até a cozinha comer alguma coisa. Nem meus tios tinham acordado ainda. Eu me sentia meio zumbi enquanto pegava a manteiga e o leite na geladeira. Minha cabeça doía. Ótimo. Eu estava com ressaca agora, além de todas as outras coisas? Era definitivamente tudo de que eu precisava. Depois de comer, lavar o rosto e escovar os dentes, eu já me sentia melhor. Abri a porta da sala sem fazer ruído e me sentei na varanda. Pensei em pegar a rede e estende-la, mas faria barulho demais, e a última coisa que eu queria era acordar alguém. Eu estava bem com o silêncio. Então ouvi uma porta se abrindo, e já pensei em toda a calmaria indo embora. Respirei fundo, torcendo pros meus tios, ou, principalmente, para as minhas primas – ou eu deveria dizer prima mais velha? – não terem a idéia brilhante de vir me dar bom-dia. Mas aí eu olhei pro lado, só por um segundo, sem nenhum motivo aparente, e vi que não tinha sido na minha casa que a porta tinha sido aberta. Edson estava lá, e estava me encarando. Seus olhos escuros estavam confusos, o cabelo preto estava todo desgrenhado, e ele estava de camiseta furada e samba-canção. Seria uma cena engraçada, da qual eu poderia rir e até brincar com ele se as coisas não estivessem... delicadas entre a gente como vinham estando desde o início do ano. Desde antes disso. Uma lembrança aflorou na minha memória e veio à tona antes que eu pudesse controlar meus pensamentos. Era da primeira vez que eu tinha dormido na casa da Lana depois de eu e o Edson virarmos grandes amigos. Aquele dia tinha sido engraçado. Eu e ela estávamos fazendo dupla num trabalho de ciências, e o Edson, que sempre tinha sido muito bom com tudo que envolvia seres 177


vivos por ser simplesmente apaixonado por animais, estava nos ajudando. Eu não entendia ainda porque ele me olhava tanto enquanto eu andava pra cá e pra lá no meu pijaminha, tão pequeno pra espantar o calor. Que boba que eu era. Se eu soubesse, se eu não tivesse sido tão boba, tão cega, poderia ter poupado sofrimento dele. Poderia ter visto quem eu realmente queria, e poupado o meu sofrimento. Naquele dia, vi o Edson sem querer de samba-canção e sem camiseta na cozinha. Já era bem tarde, e eu tinha descido pra tomar um copo de água antes de dormir. A cena bem embaraçosa me deixou com uma vergonha danada, mas ele não pareceu se importar muito. Pra disfarçar, usei da nossa liberdade como amigos e brinquei, dizendo que ele parecia um sem-teto vestido daquele jeito. A verdade, agora que eu paro pra pensar, é que ele estava realmente gato daquele jeito. Ele era gato de todas as formas, e eu estava com a mente bloqueada e cheia de Ricardo demais pra conseguir ver. E agora, aqui estávamos nós, num estágio em que brincadeiras só faziam tudo ficar mais desconfortável. Como tinha parado naquele ponto? Quando olhei de volta, Edson não estava mais ali. Bufei e me pus de pé. Eu precisava dar uma volta. No momento em que eu cheguei na praia, eu já estava cansada e de mau humor demais pra continuar andando, então me sentei. Afundei na areia da praia, ainda meio vazia. O mar ia e vinha, naquele movimento chato que estava me deixando tonta. Ia e vinha como a minha vida estava fazendo naqueles últimos tempos, incerta, incapaz de ficar parada num lugar onde tudo dê certo. Talvez porque esse lugar não exista. É uma utopia, um sonho maluco, esse negócio de vida perfeita, estável, feliz. Sempre teria algo faltando e, no meu caso, sempre teria muita coisa fora do lugar. Me senti boba por pensar essas coisas, e ri sozinha. Eu estava falando como se tudo estivesse um desastre, mas do que é que eu 178


estava reclamando? De uma confusão com o ex-melhor amigo e a minha prima e ex-namorada dele? Tem gente passando por coisa bem pior que isso! Ouvi um suspiro e olhei pra trás. Ninguém. Mas quando voltei a cabeça pra frente de novo, notei que o Edson estava sentado bem do meu lado. E ainda de samba-canção. - As pessoas estão olhando pra você, sabia? – eu disse, numa voz monótona, uma tentativa inútil de fazer piada, sem um mísero tom de quem diz algo engraçado. - Eu tenho estilo. – Edson me respondeu, quase na mesma seriedade. Eu bufei. - O que você veio fazer aqui? – acabei perguntando, olhos fechados pra não ter que olhar pra ele. Demorou um tempo até que ele respondesse. - Nós temos uns assuntos pendentes. - Assuntos pendentes? Minha voz estava cheia agora. Do que, eu não sabia. Mas estava vindo, e estava vindo muito rápido. Tudo aquilo que eu tinha guardado, subindo na minha garganta. Olhei pra ele com tanta intensidade que ele teve que baixar os olhos. Ou talvez tivesse sido meu tom de “você só pode estar ficando muito maluco”. - Nós temos algum assunto pendente ainda, Edson? – eu indaguei de novo, sentindo a raiva e a tristeza virem em forma de lágrimas que eu tinha que lutar pra segurar – Da última vez que eu achei que nós fôssemos resolver alguma coisa, você acabou beijando a minha prima. E nem mesmo foi a Giovanna, porque se fosse, talvez eu tivesse entendido! Como você tem coragem de me dizer que tem algum assunto pendente? Ele abriu a boca pra responder, só que eu não dei chance. Agora que eu tinha começado, ia botar tudo pra fora. 179


- Ela gosta de você, Edson. – dei um risinho – Talvez seja coisa de família, né? Todas apaixonadas pelo mesmo cara. Mas eu fiquei na minha, e eu sei que não foi por causa dela que você terminou com a Giovanna. Ou você mentiu pra mim quando foi na minha casa aquele dia? – ele negou com a cabeça, mas eu não o deixei falar – Então porque você não, sei lá, empurrou a Sabrina quando ela veio pra cima de você? Porque você simplesmente beijou ela de volta? A lembrança era como uma ferida sendo aberta de novo. Era quase impossível me segurar e não chorar. - Me ajude a entender tudo isso, por favor! – eu pedi, com um suspiro – Eu não agüento... te olhar e não saber. Não saber o que você está sentindo. Por pelo menos uns dois minutos, ninguém falou nada. Eu não olhava pra ele, e ele não olhava pra mim. Então o Edson fez um muxoxo. - Eu acho que eu gosto de você. – ele murmurou. Eu balancei a cabeça. - Não é o suficiente. – eu respondi. Porque não era. Há meses atrás, teria sido uma bênção, mas agora, só me deixava mais perguntas. Então ele apareceu de joelhos na minha frente e pegou minhas duas mãos. Olhou pra elas por um tempo indeterminado antes de subir os olhos pra encontrar os meus de novo. - Eu acho que eu gosto mesmo de você, Lolita. – disse, então, a voz mais forte dessa vez – Porque se eu não gostasse, eu não teria dito isso pra Sabrina. E se eu não gostasse, eu realmente não teria cometido o suicídio de ter contado pra Giovanna. Meu queixo caiu. - Você... – eu não conseguia nem falar. De medo, de choque, de confusão – Por quê? – soltei, e ele sorriu. - Relaxe. Vai ficar tudo bem. 180


E, naquele momento, eu pude acreditar, porque estava tudo bem, ainda que só por um instante. Naquele momento, quando ele me puxou e tocou a minha boca pela primeira vez, era impossível pensar que algo pudesse possivelmente dar errado. Mas era a minha vida, não é? Ficamos juntos o dia inteiro. Eu podia sentir os olhos de todo mundo nos seguindo, mas eu fiquei na minha e não conversei com ninguém sobre o assunto. A Lana sorria, o Diego sorria, o Henry não estava nem aí e a Sabrina bancava a indiferente. E a Giovanna... Estava estranhamente calma. Dia 3: Dormi até meio dia. Eu estava realmente cansada. Ser feliz deixa a gente com uma fadiga gostosa, tenho que admitir. Quando deitei, não consegui dormir com horas, ainda elétrica demais por tudo que estava acontecendo. Porque eu estava com ele e tudo estava bem. Quando levantei, o relógio marcava meio dia e cinco. Minhas primas não estavam mais ali. Corri pro banheiro e escovei os dentes, e então corri pra varanda. O Edson estava sentado na varanda da casa dele, ouvindo música. Abriu um sorriso enorme e tirou os fones quando me viu. - Bom dia! – eu disse, e ele me deu um beijo. Na boca. Meu coração pulou, palpitou, gritou e fez dancinhas dentro do peito. Ele ia acabar me matando sem querer. - Boa tarde, bela adormecida! – brincou – Já são... – tateou os bolsos, e fez uma careta – Cadê a droga do meu celular? Bom, não importa. Já é mais de meio dia, sabia? 181


- Desculpe, alguém me impediu de dormir essa noite! – exclamei, e ele riu. - Espero não ter nada a ver com isso. Eu ia me sentir tão mal... Então ele me beijou de novo, e outra vez. Eu podia aceitar meu coração no ritmo descompassado se tivesse que morrer daquele jeito. Feliz e com ele. - EDSON, VEM ARRUMAR ESSA DROGA DESSE QUARTO! – uma voz gritou lá de dentro, e eu reconheci como sendo a mãe dele. Corei, e ele olhou pra trás, e então me deu outro beijo. - Te vejo depois? – perguntou. Eu assenti. - Tudo bem. Eu preciso descobrir onde estão os meus tios, de qualquer maneira. – respondi, com um sorriso de orelha a orelha. Outro beijo rápido, e ele se foi. Não o vi mais o resto do dia. Achei melhor não ficar monitorando, pra não dar uma de paranóica e perseguidora. Meus tios e minhas primas apareceram no final da tarde, e nós jantamos e conversamos. A Giovanna se ofereceu pra ir comprar sorvete, se trocou e foi. Eu me sentei no quarto com a Sabrina, que já estava me olhando toda hora, obviamente cheia de perguntas pra fazer. Era bom que a Giovanna tivesse saído. Eu não queria que ela fizesse parte dessa conversa. - Então... você e o Edson, hein? – ela sorriu, e eu não pude deixar de sorrir também – Eu to feliz por você, Lolita! – pegou minha mão e apertou – Sério. - Obrigada por isso. – afirmei, com sinceridade – Eu não quero que o meu lance com ele fique no meio de mais uma amizade. - A Nana vai superar, sabia? – Sabrina me garantiu, e eu torci o nariz – É sério. A minha festa foi um passo, e quando ela e o Edson conversaram, foi outro. Acho que saber que ele gosta de você ajudou a Giovanna a entender que não tem mais volta. 182


- Eu espero que sim. Eu não quero que ela sofra por minha causa. - Minha opinião? – assenti – Não vai durar muito mais. Você viu como ela ficou ontem. Ela ta na dela. Pode relaxar que o pior já passou. Eu sorri, me sentindo realmente mais relaxada, e então meu celular vibrou na minha cama. O peguei e chequei. Me encontre na praia. Era o Edson. Pelo visto ele tinha achado o celular. Sorri ainda mais e me levantei. - O amor te chama? – minha prima me perguntou, um tom de ironia na voz. Eu ri. - Te vejo mais tarde! Avisei aos meus tios aonde estava indo e fui, correndo, feliz da vida, até a praia. Estava escurecendo quando eu cheguei. O sol estava quase posto, e as luzes na praia eram aquelas que vinham dos quiosques. Mesmo assim, eu vi a silhueta do Edson, mas não tão parada quanto eu desejava que estivesse. Ele estava se mexendo, como se estivesse conversando com alguém. Então ele se mexeu, andou pro lado oposto, e eu vi que tinha alguém com ele. Eu estava grudada ali, à meia-luz de um dos quiosques, e percebi que aquele alguém era a Giovanna. Claro que era a Giovanna. Quem mais estaria conversando com ele e deixando ele tão puto? Vi o Edson discutindo com ela, mas não conseguia distinguir o que estavam dizendo. O som do mar, já mais bravo àquela hora, me impedia de escutar o que fosse. Então me limitei a assistir, observar enquanto eles brigavam, esperar pelo final. Eu não devia me intrometer. Eu tinha certeza de que, fosse o que fosse, não ia nos afetar, não agora. E definitivamente também vi quando a Giovanna simplesmente se atirou pra cima dele, os braços no seu pescoço, e lhe deu um beijo daqueles. Que ele não parou. Essa não. De novo? 183


Dia 4: - Onde você está indo? Eram onze da manhã, e eu estava fazendo as minhas malas. Estava chorando desde a noite anterior, quando a cena miserável na praia me fez sair chorando como da última vez. A Giovanna dormia pacificamente, e só a Sabrina tinha acordado com a minha movimentação até agora. Meus tios não estavam em casa. - Eu vou embora. – eu respondi, friamente, quando ela perguntou. Terminei de arrumar o que estava faltando na mala, e a ergui. Estava bem pesada. - Como assim vai embora? – logo, a Sabrina estava tirando a mala da minha mão e jogando de volta no chão – Vai a pé? - Até a rodoviária, sim. – respirei fundo – Não dá, Sabrina. Eu só tenho que ir. – peguei minha mala – Tchau. - O que aconteceu? – ela insistiu, me seguindo. - Pergunte pra Giovanna. Sai e abri o portão sem olhar pra trás. A rodoviária ficava a uns três quarteirões de distância. Eu tinha dinheiro que bastasse pra passagem, e quando chegasse, podia pegar um ônibus ou o trem de volta pra casa. Tudo o que eu precisava era estar bem longe dali o mais rápido possível.

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Dia dos Pais Mal-Assombrado Minhas férias estavam arruinadas a partir do momento em que eu subi no ônibus. Minha mãe deixou para fazer as perguntas quando eu estava em casa, mas eu não estava em estado emocional de responder. Passei dias chorando e ignorando ligações. Depois de um tempo, eu não atendia mais nenhuma, não importava que número aparecesse no identificador de chamadas. Eu simplesmente queria ficar quieta, na minha, em casa enquanto ainda podia. Porque logo, eu teria que voltar pra escola. Eu estava considerando mudar de escola, de cidade, de país naqueles dias, mas sabia que não ia rolar. Eu estava condenada a voltar pro Santa Rita em algumas semanas e encarar tudo de que eu estava fugindo: meus amigos, minhas primas, e, principalmente, o Edson. Como ele tinha feito aquilo comigo? Depois de tudo? Depois do que ele me disse, depois da nossa conversa, depois do nosso dia juntos? Depois de tudo ter começado a dar certo, como ele tinha tido coragem de estragar tudo de novo? E pior, como eu ia agir quando o visse de novo? Eu estava certa de que não tinha condições de me segurar quando isso acontecesse. Porque, por mais que eu estivesse magoada, eu gostava dele o suficiente pra simplesmente... me atirar nele assim que o visse. Eu sei. É patético. Mas acho que quando a gente gosta de alguém, não tem limite entre o que é racional e o que o coração manda. Só se faz e ponto. E eu realmente não queria ultrapassar minha barreira racional e fazer algo de que eu pudesse me arrepender. 185


O primeiro dia de aula do segundo semestre chegou, e eu não estava preparada psicologicamente para ele. Respirei fundo quando o ônibus chegou, já sabendo que teria que enfrentar uma Bela furiosa por eu não atender nem retornar suas ligações, e por ter que passar pelas minhas primas, que já deviam estar no ônibus. Pra minha sorte, a Bela tinha pego o terceiro assento pra nós. Me joguei e afundei, antes que ela pudesse dizer (ou gritar): - ONDE VOCÊ ESTEVE? Em casa morrendo? Aproveitando minha própria tristeza e solidão? Sucumbindo à minha loucura interior, depois dos piores, e também melhores, quatro dias da minha vida? Tudo isso seria resposta, mas duvido que fosse uma que a Bela fosse aceitar. - Desculpe. – pedi, então, tão baixo que ela poderia não ter me escutado – Eu tive um mês difícil. - UM MÊS DIFÍCIL? – acho que ela não conseguia escutar a própria voz. Ou não percebia que pessoas ali dentro estavam ouvindo – VOU TE CONTAR O QUE FOI UM MÊS DIFÍCIL! VOCÊ TEM IDÉIA DO QUANTO EU PRECISEI DE VOCÊ? Eu não estava triste demais pra ficar indignada, contudo. - Desculpe, Belatriz Fernandez da Costa, mas você não foi a única a precisar de alguém, certo? – eu não estava gritando, mas quase. Todo mundo no ônibus tinha parado de respirar pra nos ouvir, o que não era difícil – É uma pena que você seja egoísta demais pra entender que o mundo NÃO GIRA EM VOLTA DE VOCÊ, droga! Então me levantei e mudei de banco. Será que você pode me desculpar? Eu fui uma idiota. Você é sempre uma idiota. Bela. Me deixa em paz. Eu preciso ficar quieta. 186


Lolita, é a quinta aula e você não abriu a boca ainda. Todo mundo já tentou falar com você. Dá pra ficar mais quieta que isso? Amassei o papel e deixei-o de lado na mesa. Contive uma lágrima a tempo e me segurei. Eu não precisava dar escândalo. Não depois da minha manhã turbulenta no ônibus, onde eu já tinha virado assunto pra todo mundo. Bela que me desculpasse, mas eu não precisava dela agora, nem dos seus problemas sempre iguais. Eu precisava era ficar na minha. Três dias inteiros se passaram desse jeito. Eu ia pra escola muda e saía sem emitir um som. Lana tentou falar comigo, mas eu não dei ouvidos. Do mesmo jeito como não prestei atenção quando foi a vez da Sabrina. Tudo o que eu enxergava era o rosto inexpressivo da Giovanna quando olhava pra mim, e toda a dor na expressão do Edson. Mas era meio tarde pra doer. Ele já tinha me machucado. Eu não ia perdoá-lo por isso. Por mais que todo o meu coração quisesse. Sexta-feira, eu ainda estava quieta. Era cômodo não falar nada, mas já estava virando uma rotina chata. Bufei quando o interfone tocou, dizendo que tinha uma moça ali pra me ver. Pensei que devia ser a Bela, ou a Lana, então nem pensei em pedir um nome antes de deixar subir. Mas quando eu abri a porta, não era nenhuma delas quem estava ali. Nem perto de disso. Considerei seriamente fechar a porta e ir pro meu quarto chorar, mas ela já estava ali, em pose de modelo, vestida pra matar – como sempre – e me olhando com o rosto sério. Giovanna. - Posso entrar? – perguntou, nem sei quanto tempo depois. 187


Mentalmente, eu dizia vários nomes nada legais. Mandava ela pro inferno, batia a porta na cara dela. Podia até imaginar como seria se nós duas saíssemos no tapa ali, no meio do hall. O escândalo, os gritos, os vizinhos olhando. Mas eu sempre fui educada demais pra minha própria saúde mental, então, eu apenas assenti e dei espaço pra ela passar. Minha prima entrou e jogou a bolsa no sofá. Eu fechei a porta com cuidado, como se tivesse medo até mesmo do barulho que isso pudesse produzir. Respirei fundo, mas não conseguia sequer perguntar o que ela tinha vindo fazer na minha casa. - Tudo bem com você? – ela me perguntou. Cretina. - Vou sobreviver. – eu respondi, seca – Você? - Na medida do possível. – ela me deu as costas e andou até a janela da sala. Ficou parada ali uns minutos e voltou, parando a alguns centímetros de mim. De repente, era como se eu não conseguisse respirar. Fosse a tensão do ambiente, fosse a minha raiva, era como se não houvesse oxigênio ou espaço suficiente pra nós duas. Eu não conseguia sustentar o olhar intenso que a Giovanna me lançava – tampouco conseguia entender o que exatamente aquele olhar queria me dizer. Eu precisava perguntar, mas as palavras, a voz, nada saía de mim. E aí, sem mais nem menos, ela me abraçou. Fiquei sem reação por pelo menos um minuto. Parte de mim queria empurra-la pra longe e gritar com ela, mas minha metade racional demais pra ser violenta simplesmente indicava que eu deveria devolver o abraço primeiro pra depois dar uma de louca. Foi o que eu fiz. Eu não queria perder a razão, não quando eu era a pessoa que estava certa ali. 188


Giovanna me soltou depois de um tempo indeterminado. Eu ainda estava surpresa, pasma com o que tinha acabado de acontecer. Meu coração martelava forte, confuso. De onde aquilo tinha surgido? Como ela podia simplesmente me abraçar depois de tudo? Ela não achava realmente que uma droga de um abraço ia compensar tudo o que ela tinha me feito passar, achava? - Desculpe. – ela pediu, baixinho depois de me soltar. - Pelo abraço ou pelos últimos meses? – questionei, sem fazer a menor questão de esconder meu tom enojado. Ela precisava saber que eu não estava feliz e eu precisava demonstrar isso antes que eu ficasse maluca. - Por tudo. – me respondeu, torcendo o nariz e franzindo a testa, numa expressão de pesar que não me convencia – É sério. - Giovanna, foi muita coisa, ta? – cruzei os braços e bufei – Não é um pedido de desculpas que compensa... tudo. - Eu sei que eu fui uma vaca, uma chata, uma intrometida, idiota e que eu te fiz sofrer. - Que bom que você admite. - Só que eu realmente sinto muito, Lolita. Você é minha prima, minha amiga, e é muito mais importante do que qualquer garoto. Além do mais, não é de mim que o Edson gosta. Aquilo só fez doer mais. - Você deveria ter percebido isso tudo mais cedo. – afirmei, dando as costas a ela pra que não me visse chorar – Já faz mais de um mês desde a sua última mancada, Giovanna. Todo esse tempo, você poderia ter aparecido nessa porta e me dito o que você está me falando agora. Mas eu não devo ser tão importante assim, se você pôde simplesmente sentar e esperar os dias passarem. Ela não me respondeu, e eu fiquei agradecida. Se ela dissesse alguma coisa, me faria explodir, porque eu estava tão coberta de razão que não ia suportar ser contestada. 189


- Lá na praia... – começou a dizer então, com cuidado – Não foi sem querer. Quando o Edson me disse que gostava de você eu fiquei... muito... muito brava. Eu decidi que ia deixar vocês dois se acertarem primeiro pra agir. Que ótimo. Agora eu preciso saber tudo o que se passou na cabeça dela antes de ela puxar o meu tapete? Muito obrigada, Giovanna, mas o que eu preciso saber eu já sei: você é uma vagabunda! Mas eu fiquei quieta ainda assim e deixei ela falar. Maldita educação. - Eu queria fazer vocês dois sofrerem. – continuou, me fazendo chorar mais – E eu consegui. Depois, eu me arrependi, mas achei que vocês fossem se resolver de novo. - Que pena que nem tudo no seu plano deu certo. – zombei, tentando não soluçar. Eu já estava fungando. - Lolita, você não viu tudo naquele dia. – a Giovanna disse, então, e eu virei levemente para trás – Você saiu correndo, e não viu nem metade. Não viu quando ele me empurrou, nem quando gritou comigo. Não escutou as coisas horríveis que ele me disse, nem viu o desespero dele quando eu disse que você tinha visto tudo. - Isso é sério? - É! Eu nunca vi o Edson tão bravo. Ele nem esperou até que eu devolvesse o celular dele. Ele ficou tão irado... e as coisas que ele me disse quando a Sabrina contou que você tinha ido embora... – ela riu consigo mesma – Ele correu até a rodoviária atrás de você, mas o ônibus já tinha ido embora. Tentou te ligar, mas é claro que você não atendia. E depois disso, ele também voltou pra casa mais cedo. Tudo aquilo mudou completamente minha cabeça. Ele realmente tinha feito tudo aquilo? Mas então por que... - Então porque ele não me procurou mais? – indaguei, olhando pra Giovanna de novo. Ela mordia o lábio inferior, aflita – Por que ele me evitou tanto quanto eu o evitei na escola? 190


- Eu não sei. – ela me disse, balançando a cabeça – Ele nunca mais falou com nenhum de nós. Não senta nem perto da gente. Por minha causa, eu tenho certeza. – bufou – Isso tudo é minha culpa, Lolita, e me desculpe por ter sido tão vaca. Você não merece. Você gosta do Edson, e o Edson gosta de você, e vocês merecem ficar juntos. Giovanna me abraçou de novo, e eu já sentia meu coração menos pesado. A raiva estava indo embora. Eu não precisava dizer nada em voz alta, mas lá no fundo, eu sabia que a estava perdoando. - Eu estou oficial e definitivamente desistindo. – disse ao meu ouvido – Vai atrás dele! Me soltou, pegou sua bolsa e foi embora. Eu não procurei o Edson, contudo. Eu sei. Me crucifiquem, sou uma idiota. Talvez eu realmente fosse, mas queria que ele me procurasse. Eu não tinha feito nada errado. Ele que superasse o medo, ou o orgulho, e viesse falar comigo. Eu não ia correr atrás dele. Irônico falar de orgulho quando se é orgulhosa, não? Mas acho que eu tinha esse direito. Além do mais, eu tinha coisas mais urgentes com as quais me preocupar naquele momento. Como a conversa que eu e minha mãe tivemos na terça-feira seguinte. Se é que se podia chamar aquilo de conversa. Eram oito horas, e nós tínhamos acabado de jantar comida chinesa direto do China In Box. Percebi que ela me olhava com o canto do olho, mas não disse nada. Com a minha mãe, o melhor às vezes era não pressionar. - Seu pai ligou. – ela disse, então. O camarão estava estragado ou era a minha boca com gosto ruim de repente? 191


- E? – eu falei de volta, de um jeito ríspido, tentando ignorar o fato de que a minha fome tinha ido pro espaço. E eu não estava nem na metade da caixa ainda. Geralmente eu ficava com fome até depois de comer tudo. - Ele queria te ver no Dia dos Pais, domingo que vem. Aquilo era demais. Soltei a caixa em cima da mesa, junto com aqueles pauzinhos legais que se usa pra comer. Eu olhava pra minha mãe com descrença. - E é claro que você disse que eu não ia, certo? – indaguei, num tom meio ameaçador. Minha mãe baixou os olhos pra comida e pegou mais um pedaço de carne. - Eu disse que você estaria esperando por ele na Pizza Hut. – me respondeu, e minha reação foi perfeitamente lógica, gritando: - VOCÊ FICOU MALUCA? - Baixe a voz, Carlota! – minha mãe ralhou, e eu me contive – Ele é seu pai, droga. Você vai se encontrar com ele sim, senhora! - Ele não é meu pai só porque assina um cheque todo mês! – antes que eu percebesse, já estava de pé. E minha mãe estava furiosa. - E é esse cheque todo mês que ajuda a te sustentar! Sente-se! – obedeci – Agora, eu sei que ele não é sua pessoa favorita no mundo... - Ele não aparece há cinco anos! - ...Mas se ele ligou, quer dizer que ele está tentando. Então você vai até lá, banca a filha legal, volta pra casa e assunto encerrado! Um silêncio tenso caiu sobre nós, e eu não disse nada por uns bons instantes, minha cabeça girando. Aquilo tudo era tão ilógico. Minha mãe, mais que qualquer pessoa, devia me apoiar na decisão de ficar longe dele. Ela tinha que me entender. Por que estava fazendo aquilo comigo? - Ele é seu pai, Lolita. – minha mãe disse, de novo, após um bom tempo – Só faça o que ele pediu, certo? Só estou te pedindo pra fingir por algumas horas que vocês são pai e filha no próximo domingo. 192


- É pedir demais! – exclamei, mal humorada, e levantei de novo – Perdi a fome. – foi tudo o que eu disse antes de ir pro meu quarto. Eu ainda não acreditava no que eu estava fazendo quando minha mãe me deixou na Pizza Hut, dez minutos antes do horário combinado. Na porta, dei o nome do meu pai, e fui levada até uma mesa para quatro pessoas reservada aos fundos do restaurante, na janela. Pus minha bolsa na cadeira ao lado e me sentei, me perguntando qual o propósito de pegar uma mesa pra quatro se éramos apenas dois. Mas meu pai era maluco mesmo. Certas coisas não se discutem. Cinco minutos depois de eu ter chegado, já estava entediada. Pedi uma coca e peguei meu MP3. Red Hot Chilli Peppers não serviu pra melhorar o meu humor. Dez minutos depois, nada. Perdi as contas de quantas músicas eu tinha escutado, mas tinha ido de RHCP pra Christina Aguilera. Quando me lembrei que “Hurt” era basicamente uma música que se referia a saudade de um pai – provavelmente o dela – bufei e mudei de música. Eu definitivamente não me sentia daquele jeito com relação ao meu pai. Mais quinze minutos. Pedi outra coca. Vi os empregados irem e voltarem, vi as pessoas entrarem, comerem e saírem. Preferi nem consultar o relógio, com medo de passar raiva demais a ponto de começar a gritar. Então o telefone tocou. Atendi sem pensar duas vezes. - Filha, tudo bem? – meu pai disse, do outro lado da linha. Num tom que dava a entender que, pra ele, não havia nada errado. - Onde você está? – eu quis saber, ignorando sua pergunta – Eu estou sentada nesse restaurante há quase uma hora! - Eu tive um imprevisto, filha. – ele respondeu, e eu senti a raiva se acumular na minha garganta – Não vou poder ir. 193


O impulso de gritar e quebrar tudo à minha volta era enorme, mas eu resisti. Ao invés disso, senti toda a raiva sendo canalizada pros meus olhos, em forma de lágrimas. - Tanto faz. – afirmei, numa voz dura, entrecortada pela raiva – Você nunca aparece mesmo. Desliguei o telefone antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa. Chamei o garçom e pedi a conta, ainda lutando contra as lágrimas. Deixei uma nota de dez e não esperei pelo troco antes de sair dali às pressas. Mas para onde eu ia? Ligar pra minha mãe? Ela certamente ia me dar uma bronca quando eu contasse o que tinha acontecido, e eu não precisava de mais motivos pra ficar com raiva. Decidi pegar um ônibus para encontrar alguém com quem eu pudesse conversar. No ponto, peguei o celular e disquei o número do celular da Bela. Foi preciso nove toques pra que ela me atendesse, a voz meio agitada. - Lolita, eu to meio ocupada aqui. – ela me disse, sem nem se preocupar com a boa educação de dizer pelo menos um “alô”. - Desculpa. – eu respondi, enquanto deixava as lágrimas caírem. Minhas mãos tremiam de raiva. Desliguei. Entrei no primeiro ônibus que parou, pensando em quão burra eu devia ser pra escutar a minha mãe e me dar àquele nível de humilhação. Era ridículo que eu esperasse que meu pai realmente aparecesse depois de tanto tempo. E era ainda mais ridículo admitir que um pedaço de mim realmente tinha esperança, vontade de que ele aparecesse. Eu era tão burra! Todo mundo no ônibus me olhava enquanto eu fungava. Curiosidade, pena, espanto, repreensão. Eles não faziam idéia do que eu estava passando. Então, meus olhos molhados e cansados enxergaram o sobrado de pedra que sequer tinha passado pela minha cabeça até então. Dei sinal 194


pro motorista parar, e ele o fez, metros adiante. Desci e corri de volta pro sobrado, apertando a campainha com força. Eu estava soluçando incontrolavelmente quando Edson abriu o portão e veio me receber. Fiquei agradecida pela sua ausência de palavras enquanto me deixava entrar e me acompanhava até a sala. Edson sentou comigo no chão, com as costas apoiadas no sofá, e me deu colo enquanto eu chorava, sem dizer uma só palavra. Não faço idéia de quanto tempo se passou até que eu parei de chorar e me controlei. Me levantei e fui até o banheiro, lavei o rosto e assoei o nariz. Meu reflexo no espelho me mostrava minha cara, já redonda, inchada e vermelha, os olhos cansados, o nariz escorrendo. Não era uma visão muito agradável. Voltei pra sala. Edson não tinha se mexido muito mais do que se ajeitar, sentado no sofá. Respirei fundo e me sentei ao lado dele, juntando as pernas e abraçando os joelhos. Ele me olhou com cuidado e curiosidade por uns instantes. Parecia querer me decifrar antes que eu pudesse dizer alguma coisa. Como se estivesse tentando adivinhar o que eu estava pensando, como a gente costumava fazer quando éramos melhores amigos. Eu sempre ganhava. - Vai me dizer o que aconteceu? – ele perguntou, então, em tom baixo e tranqüilizador. Tentou alcançar minha mão, mas eu não deixei. - Foi... – bufei – Horrível. Descansei o queixo nos joelhos enquanto falava. Falei de como tinha sido horrível aquela semana, da conversa que eu e Giovanna tínhamos tido, do meu sentimento sobre o meu pai e como ele tinha me largado sozinha lá, esperando. Então parei de falar e ficamos assim, num silêncio confortável, por um ou dois minutos. Suspirei, subitamente me sentindo cansada. 195


- Obrigada por ter me escutado. – falei, baixinho – Eu estava precisando. - Sinto muito por tudo isso. – o Edson me disse, então – Principalmente pela parte que me envolve. Olhei pra ele, no fundo dos seus olhos escuros. Ele parecia em agonia. Percebi que eu não ia escapar por nem mais um instante daquela conversa inevitável, e percebi que não queria. Porque, graças a essa confusão toda, minha mente estava mais clara. Eu sabia exatamente o que precisava e iria falar agora. - Eu fui um idiota, Lolita! – exclamou, com veemência – E mais de uma vez. Eu te machuquei, e fiz isso de novo, e eu nunca vou conseguir falar o quanto eu me arrependo disso! Eu apenas o olhei de volta, lábios crispados, esperando eu ele terminasse de dizer o que tinha pra dizer. - Eu sei que eu não mereço e você tem todos os motivos do mundo pra me odiar pro resto da sua vida, mas será que você consegue me perdoar por isso? – pediu, então. Uma súplica. - Eu te perdôo. – eu respondi. Ele sorriu e, sem aviso prévio, me abraçou. O abraço, o seu cheiro, o seu toque, me fizeram derreter. Me recompus rapidamente e então o soltei. - Mas eu não esqueço. – acrescentei, e o Edson tornou a fechar a cara. - Eu entendo... – disse, mas pelo seu tom, estava óbvio que ele não entendia. Respirei fundo de novo. - Edson, foi difícil, ok? – abracei os joelhos de novo, com medo de chorar de novo – Eu só acho que... talvez não seja a nossa hora. - O que você quer dizer com isso? - Que eu acho melhor a gente começar de novo. Sei lá, retomar a confiança, a amizade, e então a gente vê no que isso vai dar. – encostei a 196


testa nos joelhos – Eu não quero me machucar de novo, eu não consigo me propor isso. Eu quero ter certeza de onde eu to pisando. Senti sua mão quente na minha nuca, e ergui a cabeça. Ele estava bem perto de mim agora, mas não fazia nada além de acariciar a minha cabeça e sorri de um jeito fraco. - Vai ser do jeito que você quiser. – me disse – Eu não vou desistir de você, Lolita. Vou fazer o que for preciso. Só precisa me dizer o quê. - Então me ajude a confiar em você de novo. – pedi, tocando seu rosto de leve, rapidamente – Só isso. Eu não disse mais uma palavra. Me levantei, decidindo que era hora de ir embora, e ele não tentou me conter. Levantou-se comigo, me levou até o portão e me assistiu partir.

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Letra e Música Puxei meu telefone já no ônibus para casa. Eu tinha nove ligações não atendidas. Duas da Bela, sete da minha mãe. Não sabia para quem ligar primeiro, quem eu queria xingar mais naquele momento: minha Mãe por ter me metido em mais uma furada com o meu pai, ou a Bela pela sua grande amizade num momento de extrema necessidade. Acabei discando o número de casa. Eu precisava tranqüilizar minha mãe, que provavelmente já tinha ligado pro meu pai e descoberto que nós não estávamos juntos, e devia estar como louca atrás de mim, já que já eram quase sete e eu ainda não estava em casa. - LOLITA, POR QUE VOCÊ NÃO ATENDE ESSE TELEFONE? ONDE VOCÊ ESTÁ? EU FIQUEI TÃO PREOCUPADA... Os gritos da minha mãe eram tão altos que todo mundo no ônibus ficou olhando pra mim. Esperei que o lapso dela passasse e voltei a encostar o fone na orelha. - Não precisa gritar, eu estou te ouvindo muito bem. – bufei – Já estou no ônibus para casa. - Por que você não me ligou assim que seu pai te avisou que não ia? – mamãe exigiu, parecendo uma ditadora usando aquele tom de voz sério-sem-gritar – Eu teria ido te buscar. Você tinha que ter me avisado! - Mãe, eu estava brava, ok? – bufei de novo – Ainda estou muito brava com tudo o que aconteceu. Eu precisava de um tempo. Quando eu chegar em casa a gente conversa. E desliguei na cara dela. 199


Então mandei uma mensagem pra Bela. Amanhã, na sua casa, depois da escola, digitei rapidamente. Enviei, e menos de um minuto depois, a resposta profunda chegou, fazendo meu celular vibrar. OK. Maravilha. Talvez ela tivesse me ligado duas vezes só pra dizer algo ridículo como “ok”. Ela ia se arrepender de ser tão negligente quando eu contasse tudo pelo que eu tinha passado. Meu celular vibrou de novo e começou a tocar. Olhei, e não era minha mãe. Era a Sabrina. Atendi. - Alô? - Lolita, você viu meu caderno de músicas? – ela disparou, e eu gostaria que ela pudesse ver minha careta numa hora dessas. - Oi pra você também. – resmunguei – E não. Eu nem sabia que você tinha uma! - Claro que sabia! – minha prima exclamou, agitada com alguma coisa do outro lado da linha – Um caderno preto que eu colei umas estrelas adesivas brilhantes na aula de geografia, lembra? Que você desenhou na contracapa? Ah, agora eu sabia do que ela estava falando. No meio de uma aula de geografia, há mais ou menos dois ou três meses, eu estava fazendo dupla com a Sabrina pra fazer uns exercícios, mas ao invés de responder questões eu fiquei desenhando naquele caderno enquanto ela dormia. Eu tinha achado o tempo todo que era o caderno de geografia dela. - Eu não vejo esse caderno há uns três meses desde que eu desenhei nele. – respondi, então – Você perdeu? - É, eu levo ele pra escola todo dia, ele vai comigo pra onde eu vou, mas eu não faço a menor idéia de onde ele está! – pela voz, parecia que ela tinha perdido um filho, não um caderno – Todas as minhas músicas estão lá, algumas tem até as cifras, droga! 200


- Onde mais você foi esses dias, além da escola? – perguntei, então, me sentindo até mais feliz com toda a confusão da minha prima e seu caderno desaparecido. - Eu tive que ir no shopping ontem comprar um presente, mas... – a voz foi morrendo, e então apenas silêncio – PORCARIA! DROGA, DROGA, MELECA, MERDA, AAAAAH! - O que foi? – o povo no ônibus devia achar que eu tinha problemas, porque eu olhava pro telefone, segurando-o como se minha vida dependesse disso. - A MINHA BOLSA QUEBROU NO ÔNIBUS, E EU ACHEI QUE TINHA PEGO TUDO QUE EU DERRUBEI, MAS... – ela berrava a plenos pulmões. A mulher ao meu lado se levantou e saiu, discretamente – EU NÃO ACREDITO! EU NUNCA MAIS VOU VER MEU CADERNO! UM ANO E MEIO DE MÚSICAS, UM ANO E MEIO! AAAAH! E então desligou. Minha família tinha sérios problemas mentais. Desci no ponto perto de casa e me apressei até o meu prédio. Era noite e só quem vive em São Paulo sabe como é perigoso. Me senti um pouco melhor quando peguei o elevador e subi pro meu andar. O sentimento se esvaiu quando eu abri a porta e dei de cara com a minha mãe. - Até que enfim você chegou! – ela começou a dizer, antes mesmo de eu conseguir entrar e fechar a porta – Eu estava preocupada! Você tem noção das coisas horríveis que eu pensei quando não conseguia te encontrar? Por que você não me ligou? O que aconteceu? Sim, mãe, eu imagino tudo o que se passou pela sua cabeça, porque você é mãe, e mãe é paranóica por natureza. Eu já passei por esse discurso mais de uma vez, obrigada. 201


Bufei e joguei minhas coisas no sofá, sem energia pra discutir. Eu só queria acabar de vez com todas as conversas daquele dia, dormir e, de preferência, acordar no dia seguinte com a página virada. Então, com calma, contei pra minha mãe tudo o que tinha acontecido no meu dia. Deixei de fora a parte que incluía minha conversa com o Edson sobre, bem, nós dois, simplesmente porque ela não sabia de nada e eu preferia que continuasse sem saber. Ainda mais agora, quando tudo o que eu queria era começar de novo. Contar a ela ia levantar perguntas que iam desenterrar o passado e me fazer sofrer. Não, obrigada. Fiquei aliviada quando enfim eu anunciei que ia dormir, e minha mãe não me parou. Tomei banho, escovei os dentes e me troquei o mais rápido que pude, e dormi tão logo havia me deitado. A escola estava estranha no dia seguinte. A primeira coisa que eu percebi foi que o Diego e a Lana não estavam se falando. Ele olhava pra ela com olhinhos esperançosos, e ela permanecia dura, impassível. Teriam brigado de novo? A segunda coisa foi que nem Bela nem Willian estavam por perto. A Suellen estava do outro lado do pátio, conversando com o Daniel – perto demais -, mas nada da Bela. Então, logo ao lado da Lana, com fones no ouvido e um caderno apoiado no colo, estava a Sabrina. Eu não havia vindo com o ônibus naquela manhã, então não tinha tido como perguntar se ela tinha encontrado o caderno. Pelo que eu podia dizer, não. E por último, mas não menos importante, a Giovanna. Ela foi a única que se levantou, agitada e animada, e veio de encontro a mim quando me viu. O que era realmente estranho, a julgar por todos os acontecimentos passados e nosso relacionamento em reconstrução. 202


Mas, ei, era uma nova página, certo? - Lolita, você tem que me ajudar! – ela exclamou, e seu tom parecia mais de ordem que de pedido. Estranhei que ela viesse pedir ajuda justamente a mim, mas só de olhar pro clima da nossa mesa, dava pra entender o desespero. - Claro. – concordei, sem conseguir imitar seu tom animado – Em que posso ser útil? - Aqui! – ela se sentou ao lado da Sabrina, que nem pestanejou, abrindo a bolsa. Eu deixei minha mochila no chão e me sentei ao lado dela, meio hesitante. Giovanna me entregou um papel branco com várias coisas impressas. Uma ficha de inscrição. - Um concurso de modelos? – eu perguntei, lendo a inscrição no topo que dizia “Concurso Garota do Brasil”. Ela sorriu, toda animada. - Eu tinha ouvido falar, e dei uma olhada, e é pra maiores de dezesseis anos residentes no Brasil e blá, blá, blá. – suspirou – Na verdade, eu to super animada, mas não sei se devo me inscrever. - Se você pode, eu acho que deve. – afirmei – Quero dizer, você tem potencial. Tem corpo e tem carisma. Tem que tentar. - Ah, obrigada! – voltou a sorrir – Era só disso que eu precisava, mas a Sabrina está psicótica demais pra me ajudar, e opinião de mãe nunca vale! - Certo. – o sinal bateu, e nós nos levantamos – Vai fundo, você consegue! - Claro que consigo! Então por que foi que me perguntou, caramba? A Bela não apareceu na segunda aula, nem na terceira, nem em aula nenhuma. Quando perguntei à Suellen, ela disse que não tinha visto a Bela de manhã, e simplesmente não tinha esperado por ela – como se eu já não soubesse. 203


Na hora do intervalo, o Edson estava lá, me esperando na saída da classe. Meu coração bateu forte, e eu estranhei, dada a nossa conversa na tarde de domingo. Eu estava confusa, mas fui com ele, sem dizer nada, até o pátio. Ele se sentou no chão mesmo, na parte ensolarada. Eu o imitei. - Então, como foi seu dia? – ele quis saber, num tom amigável. Sorri, percebendo que tudo o que ele estava fazendo era pra tentar “começar de novo”, como eu havia sugerido. - Foi legal. – menti. Porque eu tinha passado a manhã inteira em transe, pensando em mil coisas, e isso não tinha sido muito legal – O que aconteceu com a sua irmã e o Diego? – perguntei então, pra conseguir arranjar assunto. - Ah, você sabe, eles brigaram de novo. – Edson rolou os olhos e riu – Acontece que o Diego teve um compromisso de família bem no dia em que eles iam sair, e esqueceu de avisar. A Lana ficou plantada do shopping sei lá por quanto tempo esperando. - Ela deve ter ficado uma fera. - Ah, ficou. Quando ela chegou em casa, me dava até vontade de rir, porque ela estava tão histérica que parecia a ponto de jogar as coisas na parede. – nós dois rimos – Você está rindo porque não foi com você! - E por que você está rindo, então? – desafiei. Ele pensou nisso um instante. - Porque agora que eu lembro, é engraçado. – ele riu um pouco mais alto – Mas sério, na hora me deu até medo. Ela tava, sei lá, vermelha e chorando, e gritando com ele no telefone. - Coitado do Diego... - Eu não queria ser esse cara. Lembra daquela vez... E assim se foram os nossos vinte minutos de intervalo. Era legal conversar com ele, sobre qualquer coisa. Fluía sem dificuldade. Ainda que fosse pra falar e relembrar os ataques histéricos da Lana ao longo dos anos. 204


Quando o sinal tocou, eu não queria sair de perto dele. Mesmo assim, me levantei e fui pra minha sala. Quando entrei no ônibus, na hora da saída, Giovanna acenou freneticamente, me convidando a sentar com ela, mas eu ignorei. Primeiro porque eu tinha certeza de que ela só queria minha companhia porque a Sabrina estava realmente chata hoje. E segundo porque eu não estava preparada pra voltar a ser amiga dela em nenhum termo. Tínhamos que ir mais devagar com essa nossa reconciliação. Então, me esgueirei pro lado da Suellen. - Oi, Lolita. – ela disse, abrindo um sorriso e enrolando uma das mechas do seu cabelo perfeito no dedo. - Oi. – sorri de volta, sem poder deixar de prestar atenção nela. Não só porque a Suellen era muito bonita, ou porque parecia muito feliz, mas principalmente porque, cada vez que eu olhava pra ela com atenção, eu tentava imaginar a Bela. Não dava. O rosto podia ser o mesmo em muitos aspectos, mas não só as gêmeas faziam questão de serem diferentes, como seriam mesmo que não quisessem. Eu não sei se já comentei isso, mas elas eram cheias de detalhes. A Suellen era um pouco mais alta, e inegavelmente mais magra – a Bela tinha engordado pelo menos uns oito quilos desde a sétima série. Além disso, enquanto a Suellen mantinha o cabelo intactamente louro natural, a Bela tinha tingido de umas cem cores diferentes nos últimos anos, estacionando no preto desde o ano passado. E os olhos da Bela eram mais verdes que os da Suellen. Não sei quanto tempo levei pra pensar nisso tudo de novo. Mas, quando dei por mim, o ônibus já estava andando, e a Suellen estava rindo da minha cara. 205


- Ta viva, Lolita? – ela perguntou, entre os risos. Esfreguei os olhos, antes de me lembrar que aquilo ia manchar todo o meu lápis de olho. - Desculpa, eu tava pensando. – respondi, e ela deu um sorrisinho. - Sei. Uma das coisas que eu mais gostava na Suellen era que ela não fazia perguntas. Ela era fofoqueira, galinha, interesseira até onde eu me lembrava de tudo o que eu sabia ou tinha ouvido falar, mas em momento nenhum, naqueles anos todos que a gente se conhecia, ela tinha me feito uma pergunta repentina como se apenas pra saber alguma fofoca. - Então, como estão as coisas? – perguntei, sabendo que, se a Bela soubesse que eu estava ali, conversando numa boa com a Suellen, eu poderia me considerar morta. - Estão bem! – exclamou, feliz, desviando os olhos de mim. Fez uma pequena pausa, então olhou pra mim de novo. Eu sustentei o olhar, e ela riu. Eu nem sabia do que ela estava rindo, mas ri também. Talvez porque o riso dela era feliz e contagiante, talvez porque eu estivesse me sentindo feliz hoje também. Mais leve. - Lolita, você poderia guardar um segredo? – indagou-me, quando parou de rir. Estava sorrindo, ainda, mas seu tom era sério. Aquilo me pegou de surpresa. Quero dizer, eu não tinha problemas contra a Suellen, mas nós não éramos amigas. Nunca tínhamos dividido nada, muito menos segredos. Ainda assim, por alguma razão e contra todas as minhas leis de sobrevivência – porque, sim, a Bela ia me matar se algum dia descobrisse – eu assenti e disse: - Claro. - Eu não sei nem porque eu estou te contando isso. – começou. Nem eu, Su, nem eu. – Quero dizer, é bobo. Eu não sei de onde eu tirei essa idéia, mas não sei, parece tão lógico às vezes, e só... 206


- Fala logo! – pedi, fazendo com que ela risse. Parou, respirou fundo, e declarou: - Acho que o Daniel está apaixonado por mim! E disse isso como se fosse, sei lá, o anúncio de um super método pra acabar com o aquecimento global. Uma novidade inesperada. - O quê? – ela acrescentou, confusa, ao ver minha expressão do tipo “você só percebeu agora?” - Suellen... – não tinha jeito de ser gentil numa hora dessas – Você só percebeu agora? – traduzi. E, pro meu desespero, ela pareceu ainda mais perdida. - Su, já faz, sei lá, anos que ele gosta de você! – exclamei, e ela esbugalhou os olhos. - Ta falando sério? – indagou, num tom surpreso e meio inconformado. - Ahn, sim. - Como... como eu nunca percebi? - Isso eu já não sei. Mas acho que ele sempre gostou de você. O ônibus parou em frente à rua dela, então. Onde eu também ia descer. Acho que a Bela não poderia me culpar de chegar junto com a irmã dela se ambas estávamos indo pro mesmo lugar. A Suellen não disse mais nada desde a hora em que saímos do ônibus até a hora em que entramos na casa. Foi pra cozinha, enquanto eu subia pro quarto da Bela. Bati na porta, e minha melhor amiga abriu, ainda de pijama, e me colocou pra dentro. - Por que você não foi na escola hoje? – fui logo perguntando, e a Bela caiu sentada na própria cama, o olhar vago. - Eu não tava afim. – respondeu. Baixo demais para o seu tom normal de voz. Mas acho que ela não estava muito normal hoje. 207


- O que aconteceu? – indaguei em seguida, me sentando ao lado dela. Bela respirou fundo, caiu deitada pra trás e me disse, numa voz rouca: - O Willian vai embora. - Ele o quê? – eu quase gritei – Por quê? De onde saiu isso? - O pai dele trabalha numa empresa idiota que transferiu ele pra Curitiba. – ela não estava chorando. Estava mais calma e controlada do que eu provavelmente estaria. Mais calma e controlada do que a Belatriz que eu conhecia geralmente era – Então, lá se vai a família. - E quando... vai ser isso? - No próximo mês. – Bela se sentou de novo, os olhos marejados, mas sem deixar cair uma lágrima – Lolita, isso é um segredo, tudo bem? Ninguém sabe que ele vai, e ele não quer que ninguém saiba. Assenti, devagar. Ela devia estar sofrendo um bocado sem botar pra fora. Tão Bela. Prefere morrer do que admitir que está sofrendo. - Como você está se sentindo? – perguntei, com cuidado. Bela deu de ombros. - Como eu deveria me sentir? – deu um riso abafado e esfregou os olhos – Eu to tentando não pensar muito no assunto. Talvez seja melhor. - Talvez... Bela bufou mais uma vez e fingiu sorrir. - Mas e ai, o que aconteceu com você? – me perguntou. Eu não sabia se era certo agora culpa-la por não estar ali quando eu precisava, quando eu tão certamente não tinha estado no lugar esperado quando ela estava precisando. Também não achava justo enche-la com os meus problemas quando ela já tinha os seus próprios. Mas não é isso que amigas fazem? Se enchem com problemas uma das outras? É algo tão básico numa amizade que eu nem pensei muito antes de começar a falar. Contei sobre o domingo cheio que eu havia tido. Sobre o meu pai que não apareceu, e a raiva que eu tive. Contei sobre como eu tentei ligar 208


pra ela e tinha ficado puta quando ela não me deu atenção, mas que agora eu entendia. Então contei pra quem eu corri quando isso aconteceu. Falei sobre as minhas horas na casa do Edson, sobre ter chorado no colo dele e descarregado toda a minha raiva. Contei então sobre a nossa conversa sobre o assunto que realmente interessava: nós dois. Falei sobre a minha decisão, e sobre como as coisas estavam sendo agora, o quão melhor e pior aquilo podia ser. Quando terminei, nós duas nos jogamos pra trás, deitadas na cama, encarando o teto em silêncio. Eu me sentia melhor só de ter falado aquilo pra ela, do mesmo jeito como tinha me sentido melhor de ter botado minha raiva sobre o meu pai pra fora na casa do Edson. - Você acha que eu fiz certo? – perguntei – Sobre o Edson. Olhei pra ela. Bela pareceu pensar por alguns instantes, ainda virada pro teto. - Achei uma boa idéia você colocar um ponto final na palhaçada. – concluiu, me fazendo dar uma risadinha – É sério. Você tomou uma decisão muito boa, eu acho. Mas, na boa? - O quê? – nunca vinha coisa boa quando ela dizia os seus “na boa”. - Isso não vai dar certo. - Acho que já está dando. As coisas entre nós estão bem mais leves. - Não, Lolita, não to falando disso. To falando que com certeza isso não vai durar muito tempo. - Por que não? - Porque nenhum de vocês vai agüentar ser só amigo por muito tempo. Ela disse isso com uma certeza que me dava até medo. Preferi fazer como ela tinha dito e não pensar sobre o assunto. O tempo diria. - Obrigada. – falei, de repente. Bela sorriu. - Obrigada também. 209


A semana foi um pouco melhor daí por diante. Achei incrível a capacidade de esconder os fatos que a Bela e o Willian haviam adquirido. Ninguém fazia idéia do que tava rolando entre eles – ninguém além de mim. Eles agiam tão naturalmente como se não fossem se separar em um mês. Mereciam um Oscar pela atuação! Todos os dias, o Edson me buscava na porta da sala na hora do intervalo, conversava comigo durante todo aquele tempo e me levava de volta quando o sinal tocava. Eu ainda não conseguia fazer meu coração entender que aquilo já tinha se tornado cotidiano, que ele podia parar de acelerar toda vez que isso acontecia. Era inevitável. E na quinta-feira... - Oh, meu Deus! – a Sabrina me deu um susto, surgindo, virada para trás no banco à frente do meu no ônibus da escola. Ela parecia cem por cento melhor. - O que foi? – perguntei, respirando fundo pra me recuperar do susto. Minha prima se levantou e sentou no banco ao meu lado, vazio. A Bela tinha perdido o ônibus. - Acharam o meu caderno! – ela exclamou, com um sorriso de criança – Um cara achou o meu caderno, e tinha meu número na capa, e ele me ligou! - Ah, isso é ótimo! - Não é? E ele disse que quer me devolver o caderno, e marcou comigo amanhã depois da escola. - Você vai realmente se encontrar com um cara que você não conhece? - Não sozinha. Franzi a testa. Ela estava me olhando com aquela cara de cachorro pidão que só podia significar uma coisa... - Não, chame a Giovanna pra ir com você! – exclamei, rolando os olhos. A Sabrina balançou o meu braço como uma criança mimada. 210


- Ela vai fazer as fotos praquele concurso idiota! – argumentou – Vai comigo, por favor. Eu preciso pegar esse caderno de volta! Bufei. - O que eu não faço por você certo? - Ah, obrigada, Lolita! - Acho bom esse caderno valer tudo isso. Eu durmo de sexta-feira à tarde. - Vale a pena, eu juro! - Sei, sei. Lá estávamos nós. O “depois da escola” dela era mais ou menos seis da tarde, e nós estávamos num tipo de barzinho no centro da cidade, cercadas de um monte de gente fazendo Happy Hour, ou o que quer que seja. Nós éramos, de longe, as criaturas mais jovens naquele ambiente. Eu não entendia sequer como tinham nos deixado entrar. E nada do tal cara ainda. Já estávamos lá havia uma meia hora. Mais à frente, instrumentos eram montados em um palco improvisado. Nada além de dois violões e um teclado. Suspirei. Pelo menos música ao vivo seria mais legal do que ficar esperando feito uma idiota ali, sentada, em meio a um monte de gente que já tinha no mínimo emprego e/ou uns dois anos de faculdade. - Você tem certeza de que esse cara vem? – perguntei, remexendo meu copo de coca-cola. Era o máximo que a gente podia sonhar em tomar ali. - Claro que tenho! – a Sabrina exclamou, olhando o relógio do celular pela centésima vez naqueles dez minutos – Ele ligou hoje pra confirmar. É claro que ele vem! - Olha, mais meia hora e... - Sabrina? 211


A voz veio de trás de mim, e eu me virei, assustada, pra ver quem era. Era firme, grossa e bonita. Máscula. Olhei pra trás, só pra encontrar um cara enorme, de cabeça raspada e olhos escuros. Ele era alto e forte. E um gato. - Eu. – ouvi minha prima dizer, e quando me virei de volta pra ela, ela já estava de pé, indo até ele. Assisti enquanto se cumprimentavam e se apresentavam. Claro que eu fiquei de lado. Então, quando a Sabrina se sentou – babando – ele se virou pra mim e me estendeu a mão. - Kauê. – se apresentou. - Lolita. – eu disse. Ele franziu a testa – Acredite, você não quer saber o meu nome de verdade. - Tudo bem. – respondeu, rindo. Então voltou-se pra Sabrina de novo, tirando algo das costas, provavelmente preso na calça, ou sei lá. - Ah, meu Deus! – minha prima exclamou, aliviada, abraçando o caderno como se fosse um filho – Obrigada! - Eu não sei se você vai ficar chateada nem nada, mas eu meio que li as coisas que você escreveu ai. – confessou. E ela corou. Eu não sabia se era exatamente porque ele tinha lido, ou porque tinha chamado as músicas e poemas dela de “coisas”. - E o que você achou? – ela perguntou, confirmando a minha primeira teoria. Vi Kauê chegar mais perto, embora eu tentasse não olhar diretamente pra eles. - Brilhantes. – respondeu, e vi minha prima dar um sorriso bobo. - Vou ao banheiro. – avisei, meio baixo, e me levantei. Mas não fui até o banheiro. Fui até o lado de fora, respirar um pouco. Mas estava frio, e eu voltei e me sentei num daqueles banquinhos legais perto do bar. Todo mundo, bartender incluído, me olhava como se eu fosse uma garotinha perdida. 212


É, talvez eu fosse. Só não na conotação que eles imaginavam. - E então ele disse que tinha adorado meus poemas, e que as músicas eram tão perfeitas que ele conseguia até ouvir as melodias por trás delas! – a Sabrina exclamou, em êxtase, pra mim e pra Giovanna no quarto dela. Eu tinha decidido dormir ali, e agora estava convencida de que essa era uma péssima idéia. - E então? – a Giovanna perguntou, e eu fiquei em dúvida se ela realmente queria saber ou se estava apenas se fazendo de interessada. - E ai que eu disse que eu tocava, e ele disse que tinha uma banda, e ele disse que nós devemos tocar juntos um dia desses! – ela suspirou – Seria demais. Quero dizer, ele é um gato! - Quantos anos esse cara tem? – eu perguntei, franzindo o cenho. Ele tinha cara de ser velho demais pra ela. A Sabrina tinha feito quinze anos em julho, e o cara era meio, sei lá, enorme. - Dezenove. - Ele não tem cara de dezenove. - Quem liga pra quantos anos ele tem? – a Giovanna disse, indo até a escrivaninha e sentando na frente do computador da irmã, mexendo em alguma coisa na internet – Vai fundo, maninha! Bufei e cai pra trás, deitada na cama da Sabrina. Algo me dizia que nada daquilo ia acabar muito bem.

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13

Não aprendi a dizer adeus Setembro chegou. E com isso, eu sabia o que viria. Eu e Bela sabíamos. Ela não mostrava, mas eu sabia que por dentro, ela estava acabada. Dava pra ver quando ela me olhava por tempo demais que tudo o que ela queria era morrer ou algo do tipo. Ela tinha esperado por tanto tempo pra conseguir – com uma ajudinha básica – o cara d quem ela sempre gostou, e agora ele estava indo embora. E não havia nada que ela pudesse fazer sobre isso. Por mais que eu quisesse fazer com que ela se sentisse melhor, eu não conseguia. Tampouco conseguia sofrer com ela, quando tudo estava indo tão relativamente bem pra mim. Eu e o Edson com a nossa amizade retomada indo melhor do que nunca, Giovanna fora do meu pé, a Sabrina preocupada demais em escrever e cantar com o tal do Kauê e todos os meus outros amigos bem com as suas vidas. Até mesmo a Lana e o Diego tinham se resolvido – de novo. Talvez eu fosse uma má amiga por isso. Por não compartilhar um pouco da dor dela, quero dizer. Eu sempre senti que amigas deviam dividir e sentir tudo ao mesmo tempo, mas como isso era possível quando eu estava feliz? Isso não me impedia de tentar levanta-la, claro. Nem de levar um “não” bem grande na cara cada vez que eu tentava. Mas podia ser pior. Pelo menos eu tentava. Até aquela sexta-feira fatídica em que eu subi no ônibus e ela estava com cara de quem ia explodir. Essa não. 215


- O que foi? – já fui logo perguntando. Era engraçado como a gente sabia quando a outra não estava legal. Não que não fosse óbvio na cara dela naquela manhã especificamente. Na verdade, era tão óbvio que até doía. - Amanhã vai ser a festa de despedida do William. – ela soltou, baixinho. E antes que eu pudesse perceber, ela já estava no meu colo, chorando como um bebê. Era meio... engraçado ver a Bela chorar. Não era algo que acontecia com muita freqüência, e eu achava meio comigo o jeito como ela fazia um beicinho e enrugava os olhos, e suas bochechas ficavam enormes e vermelhas, mais vermelhas que os seus olhos inchados. Só que agora, não tinha graça nenhuma. Se antes eu me sentia ruim por não partilhar da dor dela, então agora eu estava recebendo um castigo. Toda a dor dela estava em mim, e eu queria chorar junto. Sem querer, me imaginei no lugar dela, se o Edson estivesse indo pra outra cidade, pra longe de mim. Não. Não ia ser nada engraçado. Definitivamente. E o pior era saber que nada que eu pudesse pensar em dizer ajudaria em alguma coisa. Não havia consolo – como geralmente não há. No fundo, a gente sempre sabe, quando está consolando alguém, que consolo é uma coisa inútil, e que a única solução é deixar que as pessoas chorem tudo o que precisem chorar e gritem e desabafem o que as está deixando daquele jeito. Palavras nessas horas não servem pra nada. Palavras não tiram a nossa dor. Além de que é óbvio que, quando se trata da Bela, qualquer coisa que eu dissesse se transformaria num caminhão desgovernado aos seus ouvidos distorcidos pela tristeza. Se eu tentasse dizer algo do tipo “eu entendo”, talvez ela voasse no meu pescoço. É, com a Bela o melhor mesmo era ser um ombro amigo silencioso. 216


Então foi isso o que eu fiz. Deixei que ela chorasse. Quando chegamos à escola, ela parou e limpou na manga do casaco as lágrimas, deixando uns rastros de maquiagem borrada. Não estava muito bonita, mas não seria eu a dizer isso pra ela. Eu queria estar viva por mais algum tempo. - Vai ficar tudo bem. – eu disse, automaticamente, e ela fungou e riu da minha cara. - Não, não vai ficar nada bem. – discordou, com a voz meio rouca e sarcástica – Mas valeu a tentativa. Então, sexta-feira à noite, lá estávamos nós. A festa de despedida do William estava sendo no salão de festas do prédio dele – nada mais que um espaço desconfortável com umas mesas, cadeiras, um rádio com música alta e um limite de pessoas e de horário pra festa durar. Eu estava sentada numa mesa bem no meio, e todo mundo estava conversando e zoando e bebendo cerveja. Eu nem tinha aberto a latinha que me tinha sido oferecida. Eu só conseguia me focar em vigiar a Bela enquanto ela fingia agir normalmente – fazendo ela se parecer com algum tipo de zumbi – e tentar não desviar minha atenção pra procurar pelo Edson. - Ta sentada ai por que, garota? – a Giovanna disse, surgindo de algum lugar atrás de mim, e se sentando na cadeira vaga ao meu lado. Eu ainda estranhava a nossa amizade recém-retomada, mas estava me acostumando aos poucos. Ainda porque, ela não me dava tempo pra me acostumar com a idéia. Ela me afogava nela. - Sei lá. – eu respondi, dando de ombros – Tudo bem? - Tudo certo. Tirando a Sabrina... - O que tem ela? 217


Nada gentilmente, a Giovanna girou minha cabeça pro lado direito, até eu encontrar a Sabrina e o Kauê de pé, encostados na parede, conversando. - Eu não acredito que ela convidou esse cara pra vir! – a Giovanna exclamou, soando meio amarga – Fala sério, ta muito na cara que ele não vai levar ela a sério! Tipo, a menina tem quinze anos e ele tem dezenove! - O que isso muda? – eu perguntei, franzindo a testa. - Eu sei lá! – ela exclamou, e nós duas acabamos rindo – Mas sério... – continuou, conforme foi parando de rir – Eu não acho que isso vá dar certo. Ele tem cara de aproveitador. - Aproveitador? Em que século você vive. - No século em que caras abusam de menininhas inocentes e apaixonadas como a minha irmãzinha. - Eu acho que você só está com ciúmes porque não tem ninguém dando em cima de você! Ela me olhou com cara de ultraje, boquiaberta, e então relaxou, suspirando. - Talvez. – disse, me fazendo rir – Mas espere só até eu ganhar aquele concurso! Não vai ter um que não dê em cima de mim! - Você já mandou as fotos? – perguntei – Nem me deu pra ver! - Desculpa, a única pessoa que eu pedi pra olhar não me deu atenção! – girou os olhos e bagunçou o cabelo com a mão – Juro, a Sabrina e essa história de “letra e música” ta me tirando do sério! Não tem uma droga de segundo que ela não fale dele! - Quem vê pensa que você era menos irritante que isso quando gostava... Fechei minha boca de repente. Eu não sabia o quão delicado o passado ainda podia ser pra ela, nem mesmo pra mim. Ela me olhou, sorrindo. 218


- Do Edson. – completou – Pode falar. Isso não é mais um problema. Eu não respondi, mas fiquei aliviada de escutar isso. Parte da tensão entre nós morreu. - E, é, eu era realmente muito chata nessa época. – admitiu, rindo de si mesma com uma careta – Mas que bom que as coisas mudam, certo? É. Que bom mesmo. Eu estava começando a ficar depressiva. Eu sei. É ridículo. Mas só de olhar pra Bela, me dava vontade de chorar. Pois, conforme a festa foi chegando ao final – e o Edson não tinha aparecido -, ela foi ficando mais e mais pra baixo, até que estava simplesmente incontrolável quando só havíamos eu, ela e a Lana no salão. O Willian estava se despedindo de uns garotos da escola do lado de fora, e ela sentou entre nós duas e soluçou de tanto chorar. E me doeu. Enquanto eu a segurava, tentando acalma-la sem dizer nada, olhando desesperada pra Lana, eu sentia que também iria chorar se ela não parasse. Só que ela não ia parar. - Tenta ficar calma... – eu cometi o erro de sussurrar para ela. Então a Bela se soltou de mim, se levantou e me olhou com raiva, fungando. - Ficar calma? – ela perguntou, com a voz tão irada que era impressionante que não estivesse gritando – Tente passar por isso, Lolita. Ai você me diz se dá pra ficar calma. - Eu só estou tentando... - ENTÃO PARA DE TENTAR! 219


A próxima coisa que eu ouvi foi ela dando um grito, um grunhido sem sentido, e então quem apareceu foi o Willian em nosso socorro. As lágrimas estavam paradas, prontas pra sair, enquanto eles se afastavam. - Não foi sua culpa. – a Lana me disse, segurando minha mão e fingindo sorrir – Ela só está nervosa. Você conhece a Bela. - Eu nunca vi ela desse jeito. – arranjei voz pra falar, sentindo umas duas lágrimas escaparem. Respirei fundo e as recolhi com o dedo. - Ela vai ficar melhor. Só precisa de tempo. - Ei, Lana! – uma outra voz gritou da porta do salão. O Edson. Bem na hora que eu mais precisava de um abraço. De um abraço dele. - Vamos? – ele indagou, chegando mais perto de nós duas. Mas olhando pra mim. - Claro. – a Lana concordou, se levantando – Te vejo segunda. – acrescentou pra mim. Eu sorri e assenti com a cabeça. Ela começou a andar pra porta, mas o Edson ainda estava me olhando. - Você ta legal? – quis saber, com uma careta. - Sei lá. – respondi, com um suspiro. Ele passou a mão no meu rosto e nos meus cabelos com cuidado. - Me liga quando chegar em casa. – pediu. Me deu as costas e começou a ir embora. Então eu me dei conta de que eu não podia deixar ele ir embora. Não se eu tinha escolha. E se eu estivesse no lugar da Bela, e fosse o Edson quem estivesse se mudando? O que eu iria gritar? Que não queria perdê-lo? Ele sequer era meu! E a culpa era minha. Toda minha, porque eu estava deixando ele ir, quando estava bem ao meu alcance. 220


Eu era mesmo uma idiota! - Espera! – me vi gritando, de pé e correndo até ele, que já estava na porta. Quando o Edson virou pra trás, eu já estava com ele, segurando as suas mãos. - Eu não sei por que eu demorei tanto tempo pra perceber. – falei, e ele fez uma careta confusa. - Perceber o que? – perguntou. - Que eu sou uma idiota, que tudo isso é ridículo! - Tudo isso o que? - Isso! – apontei pra nós dois – Fingirmos que somos amigos. Fazer de conta que não tem nada do que a gente sabe que tem. Fazer de conta que eu não quero estar com você o tempo todo, fingir que a gente precisa de um tempo fingindo mais do que a gente fingiu esse tempo todo! Ele não disse nada. Acho que estava ocupado demais tentando assimilar tudo o que eu estava dizendo sem nem parar pra respirar. - Eu não tenho mais nada pra descobrir sobre nós dois que eu já não saiba! – continuei – Eu gosto de você e você gosta de mim, e isso devia ser suficiente. - Não. – ele balançou a cabeça – Não mesmo. Você ta errada. Foi a minha vez de fazer cara de interrogação. - Eu não gosto de você. – disse, passando uma mão pelo meu pescoço e me puxando pra perto – Eu amo você. Então ele me beijou. Longa, intensamente. Do carro, a Lana apertou a buzina. - Eu nunca mais vou deixar você ir. – afirmei, abraçando-o. - Eu nunca vou querer que você deixe. – me garantiu. Beijou o topo da minha cabeça e foi embora.

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14

Meus quinze anos Setembro foi embora com uma velocidade estonteante. Fosse porque eu estava extremamente feliz com o meu novo namorado – embora ele não tivesse me pedido nada -, fosse porque Bela estava se recuperando, tudo parecia estar perfeito. Não havia nada que eu quisesse mudar àquela altura: éramos de novo uma turma perfeita. Bela e suas piadinhas e seu senso de humor negro, Giovanna atirando pra todos os lados, Sabrina caidinha e de rolos com o tal de Kauê e todo mundo tão bem quanto poderia estar. O que começou a me incomodar foi quando, no primeiro dia de outubro, a pergunta fatal chegou: - E ai, animada pros seus quinze anos? Foi Lana quem me questionou isso, numa tarde em que nós duas estávamos na casa dela, eu esperando enquanto o Edson tomava banho, ela fazendo a lição de química que eu iria copiar mais tarde. Eu suspirei, me lembrando do quão não-animada eu sempre ficava antes de todos os meus aniversários. - Não vai ter nada demais. – afirmei, dando de ombros, tentando disfarçar o quanto isso me deixava frustrada. No fundo, eu queria uma festa. O primeiro, e provavelmente o último aniversário decente da minha vida depois de seqüências intermináveis de aniversários fracassados. Mas fazer uma festa de quinze anos exigia um dinheiro que eu não tinha, o que significaria pedir ao meu pai. Coisa que eu não iria fazer. Se eu tivesse uma festa de quinze anos, de qualquer maneira, meu melhor presente seria que ele não aparecesse. 223


- Como assim, Lolita? – a Lana parou de escrever e me olhou, indignada – É o seu aniversário de quinze anos, você tem que comemorar de alguma maneira! - Eu não sou muito fã de comemorar os meus aniversários. – respondi, mordendo o lábio – Sem querer ser pessimista ou dramática, mas sempre sai alguma coisa errada. - Isso é besteira! Você no mínimo tinha que sair pra fazer alguma coisa. - Eu prefiro ficar na minha até o dia 15 de outubro passar. Além do mais, é um feriado! - Então você podia ir viajar! - Sem sugestões. – determinei – E não fale nada sobre isso com o Edson! Ela fez que sim e não disse mais nada. Mas claro que o meu pedido não adiantou em nada. Eu até podia contar com a Lana pra não abrir a boca sobre o assunto, mas não podia confiar nele pra esquecer que o meu aniversário estava chegando. Mesmo na nossa época de melhores amigos, anos atrás, ele sempre me aporrinhava com o negócio sobre o meu aniversário. Por isso, por mais esperanças que eu tivesse, eu não precisei esperar muito tempo além de nós estarmos na fila do cinema pra ele dizer a frase do mês: - Então, seu aniversário está chegando, hein? Eu bufei, e ele apertou minha bochecha. - Ei, qual é? – brincou – Ta desanimada porque vai ficar velhinha? - Mais ou menos. – respondi, beliscando a bochecha dele de volta. Só que mais forte, e por isso ele fez: - Ai! – massageou a bochecha vermelha – Isso doeu! - Era mesmo pra doer. 224


- Agora, falando sério. Vai querer o que no seu aniversário? - Uma casa e um carro importado. - Eu disse pra falarmos sério! - Eu estou falando sério! O Edson fez uma careta e me mostrou a língua como uma criança. Eu ri, e mostrei a língua pra ele também. Demos uns passos pra frente na fila pra comprar os ingressos, então ele passou um braço sobre os meus ombros. - To falando sério, amor! – exclamou, e o jeito como ele me chamou de “amor” fez meu coração derreter como manteiga – Eu não quero que você fique pra baixo no seu aniversário. Me peça qualquer coisa ao alcance da minha carteira, e você terá! Dei risada do seu tom profundo, e fiz que ia pensar enquanto ele comprava as nossas entradas. Íamos assistir um tal de “Abismo do Medo”. Eu não curtia muito filmes de terror, mas o Edson era fascinado. Concordei por pura falta de opção. - Já sei o que eu quero! – eu disse, de repente, quando ele apareceu ao meu lado de novo. - Você é rápida! – exclamou, fingindo estar impressionado – Não abuse da minha mesada, por favor! - Quero ficar com você o dia todo. – respondi – Quero que você me faça uma surpresa. Nem eu sabia de onde eu tinha tirado aquilo. Eu só precisava de uma resposta, e aquela era uma solução rápida que me parecia muito boa. Ele me deu uma risadinha diabólica. - Boa pedida! – afirmou – Pode deixar comigo! Decidi que não ia mais pensar no assunto enquanto entramos na sala de cinema. Mas é claro que não adiantou. 225


Antes do dia dez, eu já estava a mil. Ninguém sabia de nada, e o Edson se recusava a dar uma única dica. O que ele estaria aprontando? Só de imaginar, me davam calafrios. E eu também não podia deixar de pensar que tudo ia dar errado, de alguma forma. Como em todos os aniversários – o carma da minha vida. Mas eu tinha que tirar aquilo da cabeça. Esse ano, iria ser diferente. Não tinha que ser algo inevitável, essa coisa da má sorte. Nem tinha que ser má sorte. Não, dessa vez ia dar tudo certo. Não ia? Faltavam três dias pro meu aniversário, e também era um feriado. Além de ser Dia das Crianças, era o dia da padroeira do Brasil. Enquanto os fiéis de Nossa Senhora de Aparecida lotavam as igrejas, eu estava em casa, assistindo televisão e tomando sorvete com a minha mãe. E, por mais incrível que pareça, ela não tinha me feito nem uma pergunta sobre o meu aniversário ainda. Obviamente eu estava achando aquilo tudo muito estranho. Não era o comportamento normal dela, simplesmente ignorar que o meu aniversário seria dali a três dias e nem me perguntar se eu queria aquele livro que eu tinha visto de presente. Ela estava muda demais. O que só podia significar uma coisa. - Você sabe, né? – perguntei, de repente. Ela me olhou e deu outra colherada na mistureba de sorvete de flocos com calda de caramelo e pedaços de bolacha Negresco. - Sei o quê? – perguntou, com a maior cara de cínica. Era tão fácil saber quando a minha mãe mentia e/ou estava tentando disfarçar alguma coisa. Ela erguia as duas sobrancelhas pra olhar pra mim, e distraía mãos e boca com alguma coisa – no caso, o sorvete – pra não começar a rir. Os cantos da boca dela tremiam de vontade, e 226


ela fazia uma cara de inocência tão forçada que era realmente difícil de acreditar. - Você sabe! – exclamei, rindo, e batendo nela com uma almofada – Ah, meu Deus, como eu sou idiota, é claro que você sabe! - Eu não sei do que você está falando. – minha mãe insistiu, virando-se novamente pra televisão e tomando mais um pouco de sorvete. As sobrancelhas ainda estavam erguidas. - Ele te contou o que ele ta aprontando, né? – perguntei – O Edson? - Talvez... - Não seja cínica, mãe! Você nem me perguntou o que eu quero de presente até agora, é claro que você ta metida nessa! - O que você quer de aniversário, aliás? Joguei uma almofada que pegou em cheio na cabeça dela, e ela começou a rir. Às vezes, estar com a minha mãe era mais parecido com estar com uma adolescente do que quando eu estava com a Bela, por exemplo. E ela ria tão descontroladamente de mim que eu comecei a rir também. - Mãe, droga, é sério! – exclamei, parando aos poucos de rir – O que ele te contou? - Ele me pediu ajuda. – ela respondeu, com um suspiro. Franzi a testa e torci o nariz. - Ajuda pra quê? - Pra surpresa que ele vai te fazer! - Ah, meu Deus! O que é a surpresa pra ele precisar de ajuda? - Eu não posso contar, Carlota, é uma surpresa! - Eu não acredito que vai me deixar morrer na curiosidade! - Claro que eu vou! Ele pediu segredo! - Droga! – bufei e terminei de tomar meu sorvete. Me levantei e comecei a ir pra cozinha, mas parei no meio do caminho – Mãe? 227


- Eu! – disse, me olhando com a mesma cara cínica que me fazia querer dar risada. - Você pode começar a me chamar de Lolita como presente de aniversário. – pedi, e ela riu. - Tudo bem, mas só a partir do dia quinze. Se eu sobrevivesse até lá. Eu ainda estava tentando decifrar o mistério quando sentei na frente do computador. Eu não fazia isso com muita freqüência. O computador, quero dizer. Nossa internet era discada e um pesadelo de lentidão, mas hoje era feriado e, apesar da velocidade continuar não sendo das melhores, pelo menos o acesso era mais barato. Abri a janela de conexão e fui arrumar meu quarto enquanto ele conectava, fazendo aquele barulho irritante. Caiu umas três vezes só as tentativas antes de conectar. Que ótimo. Enfim, conectou. Eu sabia que todo cuidado era pouco com aquela internet desastrosa, então, a primeira coisa que eu fiz foi abrir a página da internet. Verifiquei os meus e-mails e os da minha mãe. Então minimizei a tela e abri o MSN, pacientemente esperando ele entrar. Então abriu, e, depois de alguns minutos esperando o computador fazer a gentileza de destravar, consegui abrir uma janela com a Bela, uma das poucas almas online naquele feriado. Lo.Li.Ta diz: Oi, Bela J Bela Atriz (hehe) diz: E ai? Lo.Li.Ta diz: Tudo bem por aqui. E ai? 228


Bela Atriz (hehe) diz: Sei lá. Lo.Li.Ta diz: Nossa, acredita que o Edson ligou aqui pra casa pra pedir ajuda da minha mãe pra tal surpresa do meu aniversário? To morrendo pra saber o que é! Bela Atriz (hehe) diz: Lolita... agora não, ta? Lo.Li.Ta diz: ? Bela Atriz (hehe) diz: To sem paciência pra esse tipo de assunto besta. Se você parasse de olhar pro próprio rabo, talvez soubesse. Lo.Li.Ta diz: Bela, de onde saiu isso? Bela Atriz (hehe) diz: Fala sério. Desde que você começou a namorar com o Edson, você simplesmente esqueceu da nossa amizade! Lo.Li.Ta diz: Você fez exatamente a mesma coisa enquanto tava com o William e eu não reclamei, Bela! As coisas mudam quando a gente namora! Bela Atriz (hehe) diz: Então o que, você ta fazendo de propósito? Lo.Li.Ta diz: Não seja ridícula, você sabe que não. Bela Atriz (hehe) diz: Eu sei? A única coisa que eu sei de você ultimamente é que você está namorando. A gente mal conversa. 229


Lo.Li.Ta diz: Ok, me diz então, o que você quer que eu faça? Que eu peça desculpas por ser uma amiga ruim nos últimos tempos? Bela Atriz (hehe) diz: Não. Eu quero que você mude, droga! Que pare de esquecer que eu existo! Lo.Li.Ta diz: Isso parece conversa de namorado ciumento. Bela Atriz (hehe) está offline. Meu Deus, isso só pode ser brincadeira! Ou isso, ou a Bela estava seriamente depressiva e descontando na minha pessoa. Porque realmente parecia conversa de namorado ciumento. Só que ela com ciúmes do meu namoro era uma idéia completamente ridícula demais até pra ser considerada. Quero dizer, a gente era amiga há uns cem anos. Nem mesmo com o Ricardo, minha paixão de anos, ela tinha sido um problema maior do que dizer que não ia dar certo. E agora isso? Bom, talvez fosse apenas por causa de todo esse negócio do William ter ido embora. Ela devia mesmo estar se sentindo sozinha, e eu tinha começado a entrar de novo na aura de felicidade justamente no pior momento dela. Eu realmente não tinha sido a melhor das amigas desde isso tudo – me dividir entre ela e o Edson há quase um mês (fiquei feliz de me lembrar da data) deixava meu tempo muito limitado. E, eu tinha que admitir, se eu tivesse que escolher entre passar uma hora beijando o Edson e uma hora tentando animar e conversar com a minha melhor amiga e depressiva Bela, eu nem ia pensar muito antes de escolher a primeira opção. 230


Era isso. Não era ciúmes. A Bela estava certa. Eu estava mesmo sendo uma amiga péssima. Então ele surgiu e me chamou no MSN e eu esqueci disso por um bom tempo. A Bela não falou comigo no dia seguinte. Eu nem sabia direito como estava me sentindo. Eu era 50% raiva pelas coisas que ela tinha me dito, e 50% tristeza porque ela estava certa e graças a isso nós não estávamos nos falando. E o fato de que o Edson não apareceu na escola não ajudou nada. - Cadê o seu irmão? – perguntei pra Lana, na segunda aula. Como eu e a Bela não estávamos exatamente bem uma com a outra, saí do meu lugar de costume na frente dela e vim parar na segunda carteira do outro lado da sala, logo atrás da Lana e ao lado do Diego. E era aula de inglês, então ela podia se dar ao luxo de virar pra trás e me dar uma resposta. - Ele disse que tinha umas coisas pra fazer. – ela me respondeu, mas ainda com as costas viradas pra mim. Bufei. - Você sabe, né? – me vi indagando, logo em seguida – Da surpresa? - Sei. - E não vai me contar? - Por que eu faria isso? Meu irmão ta se esforçando muito pra que você não saiba! Fiquei quieta. Numa coisa ela estava certa, ele estava se esforçando muito. Porque ele completamente estava conseguindo! - Nem uma diquinha? – fiz a última tentativa, olhando de relance pro Diego, com uma cara de cachorro pidão. Ele riu e ajeitou os óculos. - Não olhe pra mim! – ele disse – Você sabe que eu sou o lado fraco pra segurar segredos! 231


- Lana! – insisti, e ela virou pra mim, balançando a cabeça. - Nada feito. – afirmou – Pode sossegar, só faltam mais dois dias! - Diego, pela nossa amizade! – apelei, e ele riu – Por favor, só uma coisinha mínima! Ele fez uma careta, erguendo os óculos nas bochechas de um jeito hilário. A Lana olhou pra ele de um jeito meio “decida-se, eu não vou falar nada”. Forcei mais meu olhar de desespero. - Digamos... – começou, e meu coração deu uma guinada – Que vai colocar a minha surpresa pra Lana no chinelo. Assenti, fingindo que aquilo era o bastante. Não era. Só aumentava a minha curiosidade. Porque, quero dizer, o que pode ser ainda maior, melhor e mais totalmente encantador do que uma serenata debaixo de chuva, levando os amigos para um poço de vergonha? Ah. Meu. Deus. Aqueles dois dias se passaram tão lentamente que mais pareceram cem anos. Eu nunca tinha estado tão ansiosa pra um aniversário antes. Nunca tinha tido nenhum motivo pra ficar na expectativa, apenas com medo, porque eu sabia que alguma coisa ia dar errado. Era a primeira vez que alguém estava ali, se esforçando pra que desse certo, pra que fosse inesquecível. Eu ainda não acreditava que tinha deixado o Edson me fazer uma surpresa. Eu era tão idiota. Eu já estava comendo os braços de curiosidade. Mas agora só restava um dia até o temido – e, agora, desejado – dia 15 de outubro. Logo, a espera estaria acabada e eu ia sorrir e ficar feliz da vida com a surpresa linda que ele estava preparando. 232


Isso se a minha sorte não estragasse tudo e viesse um furacão que iria sugar todo o trabalho dele ou algo do tipo. Deus me livre! Pra piorar tudo, minha mãe estava me evitando pra que eu não fizesse perguntas cujas respostas ela não conseguiria segurar, e a Bela ainda não falava comigo. Eu nem conseguia pedir desculpas pelo meu comportamento, porque cada vez que eu chegava perto ela saia de cena. O que é uma droga quando você tem que admitir que está errada. Talvez eu devesse mandar o Edson segura-la e obriga-la a me ouvir falar. Ou talvez eu devesse esperar as coisas se acalmarem e, do jeito como ela era bipolar de vez em quando, ela simplesmente ia voltar a falar comigo quando a necessidade fosse mais forte que o orgulho, e ela precisasse do único ombro amigo paciente que ela tinha. O que não deveria demorar muito, já que o humor dela estava tão péssimo que ela devia estar arranjando encrenca em todos os lugares onde pisava. Preferi não pensar nisso, optando por me preocupar unicamente comigo e com o meu aniversário de quinze anos. E com a surpresa que estava por vir. Fui dormir naquela noite de quarta-feira com o coração martelando forte e a cabeça girando de curiosidade. Quando eu acordei, estava sozinha em casa. Minha mãe não atendia o telefone. Tampouco o Edson. Eu tinha o estranho e óbvio pressentimento de que os dois estavam juntos armando alguma coisa para o dia, ainda mais quando encontrei a nota, sobre a mesa da cozinha, escrita com a letra dele: “Fique quietinha em casa. Eu te busco quando chegar a hora,” dizia. Ótimo. Maravilhoso. 233


Foi um dia calado. O telefone não tocou nenhuma vez enquanto eu esperava e via as horas passarem, lentamente, ansiando e ameaçando comer os braços de tanto nervosismo. A manhã se foi, e levou a tarde com ela. Eu estava fazendo furos no chão de tanto andar de um lado pro outro, telefone na mão, discando ou esperando alguém ligar. Nada. Meu Deus, eles tinham me esquecido ou o quê? Oiee, tem uma aniversariante desesperada aqui esperando, sabiam? Eu estava pensando em gritar isso para o alto quando a porta da sala se abriu e eu me assustei. Eu ainda estava vestindo os meus pijamas, e estava refazendo o caminho do quarto para a sala com o telefone na mão pela terceira ou quarta vez nas últimas duas horas. Era a minha mãe. Ela entrou e fechou a porta, e ficou me olhando com aquela cara de “você tem problemas?” Mas eu não tinha problema nenhum, exceto aquela surpresa misteriosa sobre a qual ela sabia e não queria me contar. Ah, sim. Eu citei que é meu aniversário e ninguém me ligou nem me deu parabéns? Contando minha própria mãe? Obrigada, dona Abigail! - O que você ta fazendo de pijama ainda, menina? – ela perguntou, ignorando o fato de que era meu aniversário, eu era sua única filha e nós não tínhamos nos falado nem nos visto o dia todo – Já são quase seis horas. SEIS HORAS? Que ótimo. Considerando que eu acordei às 10, eu estou sozinha há exatamente oito horas. Legal pro dia do nosso aniversário, né? - Você estava com o Edson? – eu fui logo perguntando. Se ela podia ignorar as coisas, eu também podia. 234


- Estava. – mamãe me respondeu, passando por mim como ela faria em um dia qualquer – E você devia ficar pronta. Ele disse que ia passar pra te pegar às sete. - Ah, muito obrigada por toda a consideração do aviso! – exclamei, ironicamente, girando os olhos. A verdade é que eu estava bem puta da vida com toda essa história de surpresa. Eu achava bom que fosse algo realmente grande, pra compensar tudo o que eu estava passando por causa disso! Fui pro meu quarto e abri o guarda-roupa. Eu nem fazia idéia do que vestir, simplesmente porque não tinha idéia do que podia esperar. Bufei e peguei uma calça jeans e uma blusinha azul aberta nas costas. Era outubro, e estava até que bem quente. Então peguei minha toalha e fui tomar banho. Eu era mais ou menos rápida pra me arrumar, mas o tempo que custou a passar durante todo aquele dia foi cruelmente veloz na minha última hora de espera. Quando eu vi, mal tinha começado a maquiagem e já eram cinco pras sete. Rezei pra que ele se atrasasse. E pra que desse tudo certo. Embora uma coisa não fizesse o menor sentido combinada à outra. O interfone tocou quando eu estava quase acabando e já passava um pouco das sete. Minha mãe atendeu quando percebeu que eu não o faria e o deixou entrar. Então bateu na porta do meu quarto. - Ele chegou. – disse, do outro lado. Parecia animada. Pelo visto, não animada demais pra me desejar um feliz aniversário. Calcei minhas sandálias sem salto num pulo e corri pra porta no exato momento em que soou a campainha. - Oi. – eu soltei, numa lufada de ar. Ele estava vestido exatamente como sempre, e me olhava com um sorriso do tipo “estou escondendo alguma coisa”. 235


- Pronta? – me perguntou. Eu assenti, sem dizer nada, e ele me estendeu a mão. Peguei-a e saí, fechando a porta atrás de mim. Nenhum de nós falou nada, e eu achei melhor só deixar que ele me levasse pra onde quer que nós estivéssemos indo. Quando chegamos no piso térreo do meu prédio, ele parou e procurou uma coisa nos bolsos. - O que foi? – acabei perguntando, confusa. Ele tirou um lenço enorme do bolso, do tipo que se usa na cabeça, e começou a tampar meus olhos. - Faz parte da surpresa. – disse, apenas, e eu mascarei um bufar com uma risada sem humor. - Que ótimo! Ele pôs as duas mãos nos meus ombros e me empurrou de leve, me fazendo voltar a andar. Não pude evitar colocar as mãos pra frente, como uma múmia, tentando desnecessariamente me proteger de alguma coisa que pudesse me atingir, e em vão descobrir pra onde eu estava indo. Só pude ouvir música. E sentir um ventinho gelado de começo de noite me atingindo, me deixando arrepiada. O Edson continuou me levando, me conduzindo Deus sabe pra onde. Mesmo de olhos vedados, eu sabia que tinha um pouco de luz onde quer que a gente estivesse. Abanei as mãos, mas não atingi nada que pudesse me ser útil. Então ele parou e meu coração chacoalhou, a mil, dentro do meu peito. Devagar demais, como se fosse em câmera lenta, ele desamarrou o lenço que cobria os meus olhos e o tirou. Meus olhos doeram a princípio, acostumando-se à nova claridade. Olhei para os lados, meio zonza. Estava todo mundo ali. Bem, não todo mundo, mas a maior parte. A Suellen, o Daniel, a Lana e o Diego, minha mãe, a Giovanna e a Sabrina, e até mesmo o Henry. Todos de branco. 236


Meu coração se apertou. A Bela não estava lá. A primeira lágrima escapou, e eu não sabia se era de tristeza ou de emoção. Fiquei boquiaberta ao perceber que estávamos na área da piscina. Ela estava cheia de pétalas de flores, e havia velas iluminando toda a área ao redor.Tinha uma mesa de plástico com refrigerantes e algumas coisas pra comer. Eu não sabia o que dizer. Só sentia as lágrimas escorrerem e o queixo cair, e uma risada louca me escapou quando todo mundo gritou ao mesmo tempo: - SURPRESA! Eu não conseguia nem dizer obrigada. Só sei que, de repente, estava uma fila e todo mundo estava me abraçando, me desejando felicidades, e eu não conseguia parar de chorar. Quando o movimento acabou, me virei pro Edson e me atirei nos braços dele, dando um abraço forte que o fez balançar um pouco pra trás. Ele riu. - Obrigada! – consegui choramingar no seu ouvido – Obrigada, obrigada, mil vezes obrigada! - Ei, eu não fiz nada disso pra te ver chorando, certo? – me deu um beijo, e eu ri. - Eu estou tão feliz! – rir e chorar ao mesmo tempo me fez soluçar um pouco, e eu funguei – Essa foi a coisa mais linda que alguém já fez pra mim! Ele ia responder, quando a Giovanna gritou, perto da mesa de comida: - E a valsa? Quinze anos tem que ter valsa! Eu e ele nos olhamos e começamos a rir enquanto ela colocava uma música no rádio. Era lenta, mas não era valsa. Ele passou uma mão pela minha cintura, e pegou minha mão com a sua livre. 237


- Acho que é só um passo pra um lado e outro pro outro, certo? – brincou, e eu assenti. - Como você fez tudo isso? – perguntei, maravilhada, ele deu de ombros. - Tive a ajuda da sua mãe, e só precisei concordar em limpar tudo depois. – o Edson sorriu – Valeu a pena. - Esse é o melhor aniversário da minha vida! - Eu vou fazer com que todos sejam os melhores da sua vida. - Eu te amo. - Também te amo. A minha felicidade ultrapassava todos os limites naquele momento.

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Amizade x Lealdade Os dias e semanas se passaram rápido depois disso. Assim como a minha alegria. Foi fácil ficar feliz enquanto a festa durou. Meus amigos, meu namorado, uma pequena parte da minha família, todos ali por minha causa. Bebida (moderada), comida e música, todo mundo conversando e brincando. Um aniversário memorável, realmente. Então eu piscava, e percebia que ela não estava ali. Consultava o celular, e notava que ela não tinha me ligado. Olhava para os lados e percebia que ela não estava chegando. Por fim, chegou a hora do final da festa, e a Suellen me abraçou, repetindo seus votos pelo meu aniversário e acrescentando: - Eu tentei fazer com que ela viesse, Lolita. – aquilo fez meu estômago balançar e minhas pernas bambearem – Eu sinto muito. Sorriu e foi embora. Mas eu não ia chorar naquela noite. Nada disso. Me despedi de todo mundo, deixando o Edson pro último – ele me expulsou quando me ofereci pra ajudar a limpar a bagunça – e fui pro meu apartamento. Dei boa noite pra minha mãe, agradeci pela surpresa e me tranquei no quarto. Não chorei. Não era justo que eu soltasse uma lágrima sequer de tristeza naquele dia que tinha sido tão... perfeito! Ela não ia fazer isso comigo! Então me deitei e adormeci. Mas no dia seguinte... 239


No dia seguinte e em todos os outros dias, eu não pude evitar ficar completamente triste e arrasada pelo que tinha acontecido. Porque nós duas tínhamos brigado por um motivo idiota, pela internet, e ela não tinha sequer me dado a chance de me redimir. E ela tinha faltado naquele que era basicamente o dia mais importante da minha vida. A Bela nunca tinha me deixado em um único aniversário naqueles anos todos, nem mesmo nos piores. Ela sempre tinha estado ali, firme, rindo e me fazendo rir com aquele jeito estranho dela. Onde estava minha melhor amiga agora? Ela ainda era minha melhor amiga? Ah, droga, por que tinha que ser daquele jeito? Por que eu tinha que ter estragado tudo? Já era começo de Novembro, e nada tinha mudado. Nós ainda não nos falávamos e eu ainda queria me matar por isso. Ainda no final de outubro, percebi que ela não usava mais o ônibus pra ir pra escola. Me evitando, será? Naquela quarta-feira em particular, primeira semana de novembro, lá estava eu, sentada sozinha no meu banco de sempre no ônibus – que costumava ser o nosso banco. Olhei pela janela e logo fechei os olhos, encostando a testa no vidro. - Lolita? A voz conhecida me chamou e eu virei a cabeça tão rápido pra ver quem era que estalei o pescoço. Mas era só Suellen, e ela fez uma careta com o barulho dos meus ossos. - Isso deve ter doído! – exclamou, com uma risadinha. Eu estava tão desesperada que estava confundindo a voz da Bela com a voz da Suellen. Meu Deus! - Oi, Su. – forcei um sorriso, mas não estava funcionando muito bem. Abandonei a tentativa, e a Suellen suspirou. 240


- Você ta mal mesmo! – disse, então, e eu não respondi – Lolita, não vale a pena ficar assim por causa da Bela, é sério. - Ela não ta falando comigo, Su. – afirmar aquilo em voz alta trouxe lágrimas aos meus olhos – Ela faltou ao meu aniversário, e ela nem deixa eu me explicar. E é tudo culpa minha, porque eu fui uma péssima amiga quando ela mais precisava! - Nada disso é culpa sua! – a Suellen balançou a cabeça, séria, cenho franzido, e passou o dedão pelas minhas lágrimas que estavam escorrendo – Olha, eu conheço a minha irmã. Não importe o quanto a gente brigue nem o quanto ela me odeie, eu não a odeio e nós ainda somos gêmeas. Eu tenho essa coisa de sempre saber o que ela está sentindo, sabe? - Então me diz o que é, por que eu não agüento mais ficar tentando adivinhar e não conseguir! - Ela está com medo, Lolita! Ela perdeu o Willian e não quer perder você, e ela vai te sufocar pra que isso não aconteça! – ela bufou e recolheu minhas lágrimas de novo – É tudo ciúmes. Eu queria rir disso, mas eu não conseguia. Não conseguia porque, no fundo, eu sabia que era verdade. - Mas nós somos amigas a tanto tempo... – comecei a falar, e a Suellen ergueu as sobrancelhas, como se fosse óbvio. - É exatamente por isso! – me interrompeu – Por vocês serem amigas a tanto tempo. Ela tem medo que você abandone ela agora que tem alguém na sua vida que é tão importante, ou mais importante que ela. - Mas isso é ridículo! – contestei, fungando. Tinha parado de chorar, pelo menos – Ninguém vai roubar o lugar dela, é totalmente diferente! - Eu sei disso, Lolita, você sabe disso. Mas faz anos que a amizade de vocês é algo muito... sei lá, exclusivo, entende? Vocês não confiam nos outros como confiam uma na outra. E agora tem alguém pra competir com ela. E você sabe como a Bela é por atenção. 241


Assenti. Sim, eu sabia. Ela sempre queria todas pra ela, não por ser exibida, mas por pura necessidade. Chegamos na escola, então. Esperamos o ônibus esvaziar um pouco, então a Suellen se levantou e eu fui atrás delas. Passei pelas minhas primas, a Sabrina tentando acordar a Giovanna, e sorri um pouco. Saímos do ônibus e eu respirei fundo. - Eu nunca achei que você fosse tão... sábia. – declarei, olhando pra Suellen. Aquela devia ser a primeira conversa de verdade que nós tínhamos em muito tempo. O mais estranho eram as circunstâncias. - Eu sei. – ela riu – Eu sou sempre a patricinha fútil e burra, certo? - Mais ou menos. - Então deixa esse ser o nosso segredo. Concordei, e entramos no colégio, uma ao lado da outra. De longe, vi a Bela sentada, afastada de todo mundo. Ela nos lançou um olhar ferino, que logo derreteu pra se tornar o olhar de uma criança acuada. - Você acha que eu devia ir tentar falar com ela? – perguntei, insegura e sem tirar os olhos dela. Ao meu lado, a Suellen respirou fundo. - Depois de hoje, ela vai acabar te procurando. – respondeu, e eu torci o nariz. - Você acha mesmo? - Lolita, ela pode aceitar te perder pro Edson, mas em hipótese nenhuma ela vai aceitar te perder pra mim. Eu não disse nada. Eu não tinha certeza se queria que ela estivesse certa. Aquele papo de ciúmes estava me deixando assustada. A partir daquele dia, as coisas começaram a ficar... diferentes. Eu conversava cada vez mais com a Suellen. E fui gostando cada 242


vez mais dela. Percebi que, no fundo, ela só se fazia de boba, e que era uma garota legal e meiga, coisa que eu nunca tinha me dado ao trabalho de perceber depois de tanto ouvir a Bela falando. E a Bela... Ela passou de raivosa a triste e desesperada. Dava pra ver nos olhos dela toda vez que eu chegava na escola. Ela não pegava mais o ônibus pra não encontrar comigo, e ficava todo dia sentada no mesmo lugar perto do portão, assistindo às pessoas passarem. Me esperando chegar. O pior era saber que ela estava sofrendo. Ver que ela estava sofrendo. E sabe que eu não podia ajudar em nada, porque ela não permitiria. Ter certeza de que nem todo o meu sofrimento e nem mesmo o sofrimento dela bastariam pra fazer com que ela desse o braço a torcer. Como nós tínhamos chegado àquele ponto? Como eu tinha permitido que chegasse àquele ponto? E se a Suellen estivesse total e realmente certa? Não, eu não podia pensar nisso. Quero dizer, é da Bela que eu estou falando! Ela não liga pra nada, não liga pra ninguém, é doida e despreocupada e possessiva e escandalosa, e completamente briguenta. A única pessoa em que eu confio. Ou era a única. Meu Deus. Quanto mais eu tento defende-la, mas eu acabo acusando. Me doía pensar desse jeito. Pensar no passado, como se a nossa amizade não existisse mais. Me ver apontando o dedo pras suas qualidades e defeitos, julgando-a sem querer. Mordi o lábio. Outra semana havia se passado sem que eu falasse com ela. Outra noite que eu ia dormir na esperança de que, no dia seguinte, tudo fosse melhor e ela de repente me ligasse num dos seus surtos de cinco minutos e agisse como se nada nunca tivesse acontecido. E nós voltaríamos à nossa amizade de antes, porque era assim que as coisas rolavam entre a gente. 243


Deitei, exausta, mesmo sendo só nove horas. Era sexta-feira, e eu devia estar sentada no sofá vendo filmes antigos no Telecine Cult com a minha mãe, ou sentada brigando com a internet discada do meu computador até as duas da manhã. Ao invés disso, eu não tinha ânimo pra nada e ia dormir mais cedo. Mas, mesmo deitada e de olhos fechados, eu não conseguia dormir. Me lembrei do que eu havia conversado com o Edson mais cedo naquele mesmo dia. Ele me perguntou o que eu tinha que estava tão pra baixo, e eu soltei como me sentia com toda essa coisa da Bela. E então ele me disse: - Você tem que parar de esperar que ela deixe você procura-la. Você sabe que ela nunca vai deixar, Lolita. - Então o que você sugere que eu faça? – perguntei, sem conseguir reprimir um olhar mal-humorado. - Vai atrás dela, caramba. – meu namorado afirmou, como se fosse muito simples e muito óbvio – Põe ela contra a parede e obrigue ela a conversar com você! Faça ela te dizer qual é o problema. O que eu não havia dito era que eu suspeitava sobre qual era o problema. E que eu não queria ouvir ela dizendo que eu estava certa. - Você faz parecer simples, mas quando se trata da Bela... – comecei, e ele bufou e balançou a cabeça. - Você está é inventando desculpas porque está com medo de como ela possa reagir! – o Edson exclamou – Larga de ser covarde e vai logo resolver essa história! Eu não gosto de te ver desse jeito. Não conversamos mais sobre isso. Eu fiquei chateada de ele ter me chamado de covarde, mas no fundo eu sabia que ele estava certo. Eu estava morrendo de medo do que ela ia me dizer quando, e se o momento de nós duas conversarmos chegasse. Porque eu não queria estar certa. Eu queria que ela virasse e me dissesse que ela estava em crise e que não tinha nada a ver comigo. Que 244


ela inventasse uma desculpa, uma mentira que fosse, qualquer coisa em que eu pudesse acreditar e me agarrar pra parar de pensar que ela estava sentindo ciúmes. Qualquer coisa que me fizesse parar de sentir culpada. Na semana seguinte, nada havia mudado, contudo. Eu não a procurei e ela não me procurou, embora tudo indicasse que nós realmente sentíamos falta uma da outra. O ano escolar estava acabando, e eu estava pendurada. Essa foi a conclusão que eu cheguei quando, na sexta-feira da penúltima semana de Novembro, nós recebemos nossos boletins com as médias do quarto bimestre, e eu cai sentada de boca aberta, olhando pro meu boletim. - Eu não acredito que aquela cadela me deu 8,5! – ouvi a Lana reclamando – Eu tipo, gabaritei na porcaria da prova! De onde ela tirou essa nota? - Você esqueceu de entregar o trabalho sobre “A Megera Domada”. – o Diego lembrou, e então se sentou, ao meu lado, atrás da Lana – Lolita, você ta legal? Parece que vai vomitar ou alguma coisa assim! - Eu vou morrer! – soltei, de uma vez, e passei meu boletim pra ele – Pior do que isso. Eu vou repetir de ano! Aquelas palavras me trouxeram pra dura realidade que a Giovanna tinha contestado para mim no começo daquele ano. O primeiro colegial era mesmo um pesadelo. Em todos os sentidos. - Caramba, a coisa ta ruim! – o Diego exclamou, ajeitando os óculos – Como você conseguiu juntar só 18 pontos em física? - Eu não faço a menor idéia! – eu disse, desesperada, puxando o boletim de volta – Você tem noção de que eu só fechei em Português, Inglês, Educação Física, Religião e História? Eu sou tão incapacitada que eu estou devendo dois pontos em Geografia! 245


- Que exagero! – a Lana se intrometeu, pegando o meu boletim. Mas precisou de um minuto analisando pra fazer uma careta – Esquece. Você está ferrada. - Obrigada, Lana! – bufei – O que eu vou fazer? - A gente pode te ajudar a estudar. – ela propôs, mordendo o lábio – Mas Lolita, a coisa ta ruim. Eu acho que você vai precisar fazer mais que só recuperações pra passar de ano. - A minha mãe vai comer o meu fígado! Eles não discutiram. Eu sentia vontade de chorar só de olhar praquele pedaço miserável de papel. O sinal tocou e depois de me despedir do Edson sem dizer pra ele que eu ia, indubitavelmente, repetir o primeiro ano, subi no ônibus. Minhas primas estavam sentadas juntas, ambas discutindo médias, provas e afins. Pensar nisso fez minha cabeça girar. Eu estava procurando um banco vazio quando a Suellen me chamou. - Lolita, você precisa me ajudar! – ela disse, em tom de súplica. Pobrezinha. Se soubesse da minha situação, ela ia implorar pra que eu a deixasse me ajudar. Mas eu queria me distrair daquilo tudo, então assenti e forcei um meio sorriso. - Claro. – respondi – O que foi? - Eu vou sair hoje à noite com o Daniel. – ela me contou, mais baixo agora, pra que só eu escutasse – Sair tipo... – e então sussurrou – Casal, sabe? - Oh... - Só que eu não posso deixar que minha irmã saiba que eu vou sair com ele, porque ela já desconfia de tudo, e eu não quero que ela complique as coisas. – a menção à Bela doeu em mim, mas eu fiquei quieta – Você poderia, sei lá, aparecer hoje lá em casa, por volta das 6, e ir comigo? 246


- Eu não sei, Su... – pensei na minha mãe, e na sua reação quando visse meu boletim. Ela não ia me deixar sair de casa pelas férias inteiras. - Por favor! – ela implorou, os olhinhos brilhantes – Chame o Edson pra encontrar com a gente lá. É importante, Lolita. Eu não pude olhar pra ela com aqueles olhinhos pidões e simplesmente ignorar. Acho que eu podia guardar aquele desastre em preto-e-branco por mais um dia. - Tudo bem. – concordei, por fim, e ela sorriu como se tivesse ganhado na loteria – Eu chego lá umas seis horas. - Valeu! – e me abraçou. Se eu ia ficar de castigo por séculos e sem a minha melhor amiga pra sempre, no mínimo eu podia tentar fazer alguém feliz. Eram seis e dez quando eu cheguei e toquei a campainha da casa da Bela e da Suellen. Meu corpo inteiro estava tremendo, porque a última coisa que eu queria era que a Bela abrisse aquela porta. Eu esperava sinceramente que ela estivesse enterrada no quarto e não saísse até que nós tivéssemos ido embora. A mãe delas abriu a porta e me mandou entrar. Disse que a Suellen estava terminando de se trocar e perguntou que filme nós íamos assistir. Eu nem sabia que mentira ela tinha inventado, então apenas respondi um “vamos decidir na hora” que engana qualquer um e sorri. Não sabia se devia subir e tentar a sorte no corredor em direção ao quarto da Suellen. Eu inevitavelmente teria que passar pelo quarto da Bela, e Deus sabe como eu não queria que isso acontecesse. Qualquer desculpa pra não ter que cruzar com ela. Então sentei no sofá da sala de visitas e esperei. Mas desde quando a sorte anda do meu lado? 247


Não precisei esperar cinco minutos antes que a Bela aparecesse. Ela estava usando seu pijama de gatinho, cujas mangas e gola ela tinha cortado com uma tesoura super-afiada quando nós estávamos na sétima série. O pijama estava ainda mais detonado dois anos depois. Ela me olhou com uma intensidade que podia estar perfurando minha pele. Seus lábios estavam crispados numa linha fina, e eu não conseguia definir todas as expressões que estavam balançando o seu rosto sempre tão firmemente sarcástico. Fiquei imaginando como estava a minha cara naquele momento. Melhor não imaginar! - Então é verdade. – ela disse, tão baixo que nem parecia a Bela falando. - O quê? – indaguei de volta, no mesmo tom de voz. Não porque queria manter a conversa num tom saudável, mas porque minha voz não saía. - Você vai sair com ela. – ela riu de um jeito debochado – Sério, Lolita? De todas as pessoas, você vai sair com ela? - Foi você que virou as costas pra mim. – soltei, sem perceber o que estava dizendo. Me arrependi no mesmo instante. - Então é por isso que você está saindo com ela? – seu tom de voz foi subindo - Pra me machucar? Pra me deixar com ciúmes? - Acho que eu não preciso te deixar com ciúmes, Bela. – deixei minha voz subir também – Você fez isso muito bem sozinha. - Do que você está falando? - Bela, por favor! Todo aquele papo de como eu só dou atenção pro Edson. De todas as pessoas no mundo, você devia saber que eu não sou esse tipo de pessoa. Eu nunca te dei as costas, mesmo quando você pisava na bola ou virava a cara pra mim! Ela não respondeu. Ameaçou, mas hesitou e fechou a boca. Então respirou fundo. - Pode ser... – começou a dizer – Que seja um pouco de ciúmes. Mas 248


você era a minha melhor amiga, Lolita. É normal esse tipo de coisa! - Talvez, Bela! – exclamei, me levantando do sofá – Mas amigas resolvem os problemas conversando. Amigas não viram a cara por dois meses e deixam de ir às festas de quinze anos uma da outra só porque estão fazendo pirraça! - Me desculpe pela sua festa! - E me desculpe por aparentemente não ter sido companheira o suficiente. – bufei – Mas o quê? Agora a gente se abraça e esquece tudo o que aconteceu? Desculpa, mas eu não posso fazer isso! - Por que não? – a expressão nos olhos dela era desesperada e devastadora – É assim que é entre a gente, não é? Passa uma borracha e bola pra frente. - Bela, eu não consigo esquecer, ta legal? – toda a raiva e toda a tristeza estavam saindo em quase gritos histéricos de dentro de mim – O que você fez comigo machucou! Eu fiquei me culpando por meses! - Esqueça isso! Só... vamos esquecer, só isso! Eu ia responder quando uma outra voz, mais distante, gritou: - Lolita, já to descendo, mais dois minutinhos! Me afastei da Bela sem olha-la nos olhos e peguei minha bolsa. Quando a olhei de volta, todo o desespero tinha sido substituído por raiva e um olhar ameaçador. - Eu não acredito que você vai me trocar por ela. – sibilou, e eu balancei a cabeça, lutando contra as lágrimas. - Eu não estou trocando ninguém por ninguém. – afirmei, a voz meio rouca – E pare de agir como se ela fosse sua inimiga, Bela. Só você vê a coisa desse jeito. A Suellen é sua irmã, e ela te ama. - Foi ela quem te contou isso? – o deboche tinha voltado à sua voz – Vocês são melhores amigas agora? Trocam segredos e vão pro cinema juntas? Ótimo, Lolita. Bom saber que você supera as coisas rápido. 249


Eu não conseguia acreditar no que eu estava ouvindo. Escutei a Suellen descendo as escadas e dizendo alguma coisa e me adiantei em direção à ela, já na porta. A Bela, contudo, entrou na minha frente. - Eu estou te dando uma última chance de se redimir comigo. – falou, a voz firme – De consertar a nossa amizade. Se você sair por aquela porta com aquela garota, nunca mais precisa olhar pra mim de novo. Hesitei. Olhei pra Suellen, confusa e apressada, parada em frente a porta, e para a minha ex-melhor amiga completamente enlouquecida à minha frente. Então tudo ficou claro demais pra mim, e eu passei por ela, deixando a casa com a Suellen sem olhar pra trás. Ninguém assistiu ao filme. Suellen e Daniel estavam ocupados demais se divertindo um com o outro, e eu estava ocupada demais chorando um rio de lágrimas no ombro do Edson.

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16

As luzes de São Paulo - Mãe, eu preciso que você assine meu boletim. Aquelas foram as palavras que eu mais sofri pra dizer. Depois de voltar do cinema, passei metade da noite em claro tentando pensar num jeito de escapar da minha mãe. Eu poderia falsificar a assinatura, entregar o boletim, e fazer todas as recuperações sem que ela soubesse. Nada disso. Não tinha a menor chance da minha mãe não perceber que eu estava me matando de estudar logo no fim do ano e que eu chegaria tarde praticamente todos os dias, ficando até pelo menos cinco horas na escola pra fazer as provas de recuperação. Ou eu podia simplesmente virar pra ela e dizer as palavras acima, precedidas de um “mãe, por favor, não fica brava!” Como se fosse adiantar muita coisa. Ela ia ficar brava independente do que eu argumentasse. E eu não tinha argumentos. O que resultava numa Lolita-no-espeto como prato principal. Me lembrei da fúria dela quando eu cheguei completamente bêbada em casa e dormi no sofá. Me lembrei dos meses de castigo, da bronca que eu levei. Me lembrei que por causa dessas festas eu tinha deixado de estudar e tinha me ferrado em todas as provas. Parabéns, Lolita. Agora, a fúria da mamãe não vai chegar nem perto de ser tão suave. Ela vai pegar uma serra elétrica, cortar seus braços e acender uma fogueira pra queimar você viva quando perceber que, ei, sua filha única, pra quem ela paga um colégio católico privado nada barato, está repetindo de ano! 251


Eu sou de longe a pior filha do mundo. Por isso, depois de tanto dizer aquela frase simples e sofrida em frente ao meu espelho, eu precisei de uns bons três minutos em frente à minha mãe, sem ar, sem voz e sem coragem, até conseguir fazer a fala sair e dizer: - Mãe, eu preciso que você assine o meu boletim. Ela estava comendo iogurte e assistindo “Sexta-Feira Muito Louca” no Disney Channel quando eu disse isso. Me olhou com aquela cara suspeita, e eu entreguei o boletim pra ela. Me sentei, assistindo seu rosto e suas expressões mudarem. Ela foi de desconfiada a pasma, então ficou furiosa, e logo parecia completamente inconformada. - Lolita! – ela exclamou, num tom inconformado, misturado com decepção – Filha, o que é isso? O que são essas notas? - Eu sei... – meus olhos se encheram de lágrimas. Como se eu já não estivesse emotiva o suficiente desde ontem! - Carlota, você vai repetir de ano! – ela quase gritou, chacoalhando o papel na minha frente, e o fato de estar usando meu nome só me deu a certeza do quão brava ela estava – Você precisa fazer recuperações pra praticamente todas as matérias! Como você deixou as coisas chegarem nesse ponto? - Eu não sei! – ainda me atrevi a responder, começando a chorar, com todo aquele peso, somados aos demais, parecendo afundar meu cérebro e tirar tudo de dentro dos meus dutos lacrimais – Eu não liguei, eu dei mais importância pras outras coisas... - Claro! Porque festas e namorados são realmente mais importantes do que o seu futuro! – ela se levantou e começou a andar de um lado para o outro – Eu não acredito que você está fazendo isso com você mesma! Fazendo isso comigo! Depois de tudo o que eu sofro pra te manter naquele colégio, pra não estragar a sua vida, pra te deixar num lugar que você goste... - Me desculpe! 252


- NÃO! – ela atirou o pote de iogurte no chão, fazendo o conteúdo decolar e atingir a porta da sala e as paredes, manchando o carpete. Mamãe pôs a mão na testa, tremendo – Quantas vezes você já me pediu desculpas, Carlota? E quantas vezes você já errou de novo? Olha pra esse boletim, você acha que eu vou te perdoar por isso? Eu não conseguia parar de chorar. Tudo me deixava culpada, tudo me dizia que eu estava errada, e eu estava soluçando. Minha mãe ainda não parava de andar pela sala. - E sabe o que é pior? – continuou, como se tudo o que estivesse me dizendo já não fosse ruim o bastante – Eu não tenho nada pelo que te desculpar! Você está pedindo desculpas pra mim, mas devia estar pedindo desculpas pra você mesma! Você é a única que vai sair dessa história prejudicada. E eu espero que isso te ensine um pouco de uma coisinha chamada responsabilidade. Não respondi, apenas balancei a cabeça afirmativamente. - De hoje até o começo do próximo semestre na escola... – minha mãe disse, e eu me preparei pra bomba – Você vai de casa pra escola, e de lá vem pra casa. Se o Edson quiser te ver, ele que venha até aqui, e ele é o único que eu vou permitir que te visite até o fim dessas provas. Você tem autorização para ficar na escola estudando antes das provas, mas só sai de dentro dessa casa comigo. Estamos claras? - Estamos. – respondi, rouca, baixinho e fungando. - E eu acho bom você passar de ano, Carlota. – sua voz estava trêmula e ameaçadora – Porque eu juro que se você não passar você vai ficar um ano inteiro de castigo e morando com o seu pai! Concordei rápido dessa vez. Qualquer coisa pra não ter que morar com ele. - Vou limpar essa sujeira. Vá pro seu quarto. Obedeci, ainda chorando. Me tranquei no quarto e me afundei na cama. 253


Os dias que se seguiram foram provavelmente os mais difíceis da minha vida. Eu não era muito de estudar. Verdade seja dita, eu odeio estudar. Mas depois de anos sendo uma aluna no mínimo dedicada, ter que batalhar pra conseguir passar de ano na última hora era mais difícil do que eu tinha imaginado. O Diego e a Lana estavam me dando a maior força. Eram os únicos. Minhas primas estavam perdidas nos próprios mundinhos, e o Edson estava estudando pra segunda fase do vestibular da USP. Se eu não tivesse os dois maiores crânios da sala sentados todos os dias comigo no pátio depois das aulas pra me ajudarem a estudar, eu provavelmente já teria entrado em colapso. Não que eu ainda não estivesse. Porque eu estava num estado de nervosa que poderia me fazer explodir caso eu não me controlasse. Então, todos os dias, eu saia da aula, almoçava qualquer coisa na cantina do colégio e sentava no pátio com livros, cadernos, lapiseiras e borrachas pra estudar pra todas as matérias que eu precisava refazer provas pra passar de ano. Naquela tarde em questão, estávamos eu e o Diego. Era a tarde da minha prova de física, e ele era o melhor da sala naquela matéria. Como se ele não fosse o melhor da sala em todas as matérias!... - Gravidade é uma parte bem fácil da física. – ele começou, depois que todo o material estava na minha frente – A teoria é simples, você só vai ter que decorar algumas fórmulas e o que cada letra representa. Abre a apostila na página... – e folheou a sua própria – 276. Ele continuou me dando instruções e me ajudando a fazer os exercícios. Minha cabeça estava girando quando ele me deixou fazer alguns sozinha. Eu tentei. E tentei de novo. E continuei tentando. - Eu não consigo! – e joguei a lapiseira na mesa. O Diego olhou pra mim com cara de espanto, mas não disse nada. 254


Bufei e passei as mãos pela cabeça, pressionando pra tentar mandar a dor embora. Eu fechava os olhos e só via números na minha frente. - Eu não vou passar de ano! – constatei, como se fosse uma grande novidade – Eu não vou conseguir, Diego. Isso é... muita coisa! Eu não consigo, não dá! - Claro que você consegue! – o Diego insistiu, e pegou o meu caderno. Olhou e circulou algumas coisas – Você acertou dois de cinco exercícios. É metade, se você considerar que o começo do terceiro está... - Dois de cinco não vão me fazer passar de ano! – exclamei, tão alto que foi quase um grito. Ele fez uma careta e coloco o caderno de volta na mesa. E então me senti mal por ter gritado e comecei a chorar. - Me desculpe! – quase implorei – Você e a Lana só têm me ajudado, têm feito de tudo por mim, você ta aqui comigo, perdendo o seu tempo pra tentar me ensinar, e eu to gritando com você, me desculpe! - Esquece isso, Lolita. – ele murmurou, então bufou – Eu entendo. Você está irritada, e cansada, e decepcionada. Eu também acho que é muita coisa! Você tem que aprender a matéria de um ano todo pra uma única prova! - Mas isso não me dá o direito de gritar com as pessoas que me ajudam, eu sinto muito mesmo! - Isso te dá o direito de gritar quantas vezes você quiser! É melhor do que ficar guardando as coisas. Limpei o rosto com as costas da mão e tentei sorrir. - Obrigada. – eu disse, a voz rouca – Por tudo. Você e a Lana têm sido muito legais comigo agora que eu estou precisando, eu realmente não sei o que eu faria sem a ajuda de vocês! - Você iria repetir de ano! – afirmou, e então sorriu e me deu uns tapinhas no ombro. Bem o jeito dele – Mas isso não vai acontecer porque 255


eu vou te fazer passar de ano nem que seja a última coisa que eu faça! Então acho bom você começar a me ajudar nisso! - Eu vou, eu vou! Só preciso assoar o nariz e tomar um pouco de água. - Vai lá, vou separar uns exercícios pra você fazer. Me levantei e baguncei o seu cabelo arrumadinho. Ele não se importou. - Obrigada mesmo! – repeti – E me desculpe de novo! Fui ao banheiro, me acalmei e voltei a estudar. Provas. Provas. Erros, acertos, nervosismo, ansiedade, espera. Eu não via o Edson há mais de uma semana e não fazia nada além de estudar a pouco mais de duas semanas. Minha mãe continuava brigando comigo periodicamente todos os dias, e eu estava ficando louca. Mas eu tinha enfiado na minha cabeça que ia passar de ano. Eu simplesmente tinha que passar! Eu já tinha feito prova de Física, Matemática, Biologia e Geografia. Faltava só Química e terminar um trabalho idiota de Artes. Estava acabando. Graças a Deus. O que não queria dizer que estivesse sendo mais fácil pra mim. A Lana e o Diego não conseguiam enfiar Química na minha cabeça, minha mãe não me deixava em paz, eu não falava com o meu namorado por conta dos compromissos acadêmicos de ambos, eu não tinha mais uma melhor amiga, estava de castigo até o começo do próximo semestre e ainda não tinha o resultado de nenhuma prova que eu tinha feito até então. Como se não bastasse, faltavam dez dias pro Natal e eu ainda estava na escola, arrastando meus amigos comigo. Não estava nada fácil. 256


Por isso, eu não esperava nenhuma boa notícia quando o telefone de casa tocou bem na hora do jantar. O clima entre a minha mãe e eu estava tão bom quanto tinha estado desde que ela assinou meu boletim, e nós comíamos em silêncio na cozinha. Então o telefone tocou e ela me mandou, numa ordem baixa, ir atendê-lo. - Alô? – eu disse, sem animação, quando atendi. - LOLITA, SUA MÃE TA EM CASA? – a voz histérica e superanimada da Giovanna berrou do outro lado da linha. Afastei um pouco o fone da orelha. - Está, a gente tava jantando. - ENTÃO CHAMA ELA E PÕE ESSA PORRA DESSE TELEFONE NO VIVA-VOZ! Fui pra cozinha, ouvindo uma gritaria do outro lado da linha que estava me dando medo. Cheguei na cozinha e coloquei o telefone no vivavoz. Minha mãe me olhou com cara feia. - É a Giovanna. – expliquei – Pode falar, ela está escutando também. – acrescentei, pro telefone. - AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH! – a Giovanna gritou. Ou não só ela. Parecia que o mundo todo estava gritando dentro da minha cozinha. - Para de gritar! – minha mãe exclamou, sem conter sua irritação pra usar somente comigo – Fala logo o que aconteceu, menina! - O CONCURSO! EU GANHEI O CONCURSO! - Do que você está falando? – eu e mamãe trocamos olhares. Nem me passou pela cabeça de que ela estava falando daquele concurso. - O CONCURSO DE MODELOS, EU GANHEI, EU VOU PRA FRANÇA! Então eu olhei, em choque, para a minha mãe. E logo, nós duas começamos a gritar. Foram minutos exclusivos pra comemorações e gritos e pulinhos histéricos. Eu e minha mãe até me abraçamos, como duas crianças 257


contentes com um brinquedo novo. O berreiro no telefone continuava, e o jantar esfriava. - EU VOU FAZER UMA FESTA PRA COMEMORAR AMANHÃ! – a Giovanna continuou, a voz trêmula, feliz, impossivelmente feliz – VOCÊS TÊM QUE VIR! A alegria da minha mãe foi pelo ralo. - Sinto muito, a Lolita ainda está de castigo. – afirmou. Um soco no meu estômago feliz. - TIA, FALA SÉRIO, É COISA DE FAMÍLIA! – ela insistiu, e logo a Sabrina interferiu na linha, também berrando. - VOCÊS DUAS VÃO VIR AQUI E ENCHER A CARA COM A GENTE AMANHÃ, ESTÃO ME OUVINDO? - Nada feito. – mamãe declarou, e eu bufei. - Mãe, pelo amor de Deus! – eu exclamei – Eu vou estar com você! E você deixou bem claro que eu só saía dessa casa com você! - TA VENDO? – a Sabrina continuou. Ela mesma parecia meio bêbada no momento – VOCÊS VÊM PRA CÁ AMANHÃ E DEPOIS VOCÊ PRENDE ELA DE NOVO. FÁCIL ASSIM. - Obrigada, Sabrina! – rolei os olhos, e ri. - DE NADA! UM BRINDE À MODELO MAIS GATA DO MUNDO! E então a linha caiu. Botei o telefone de volta na base e voltei a comer meu macarrão gelado. Minha mãe parecia bem mais feliz agora. - Caramba, você consegue acreditar que ela ganhou? – mamãe comentou, num tom tão natural que não parecia ser dela. - Eu acharia estranho se ela não tivesse ganhado! – respondi – Ela é linda, e leva jeito. - É... O assunto acabou ai. 258


O dia seguinte foi só comemoração. Tentei ligar pro Edson pra pedir pra ele aparecer, mas o celular só caía na caixa postal e o telefone só dava ocupado. Me arrumei e fui com a minha mãe pra casa dos meus tios, onde a festa estava armada. A Giovanna gritava e pulava e ria e bebia. A Sabrina estava com o Kauê conversando com o pai – apresentando-os? Fiz o favor a mim mesma de desaparecer de perto da minha mãe tão logo eu vi a Lana e o Diego no sofá da sala. - Oi. – murmurei, e me sentei ao lado da Lana. Eles olharam pra mim e sorriram. - E ai, Lolita? – a Lana perguntou, com aquela cara de pena que só ela sabia fazer – Se sentindo melhor agora que todas as provas acabaram? - Quase todas. – corrigi – A de química é na segunda-feira. - Eu acho um absurdo eles deixarem provas de recuperação pra até uma semana antes do Natal! – ela exclamou, com uma careta. - E quando saem os resultados? – o Diego perguntou, e eu bufei. - Na terça. – encostei a cabeça no sofá e fechei os olhos – Eu to tão cansada! Eu queria que eles, sei lá, corrigissem tudo na hora e me dissessem no que eu passei! É bem melhor do que ficar esperando pra receber todas as bombas de uma vez! - Você fala como se só fosse receber notícias ruins! – a Lana apontou, e eu balancei a cabeça. - Eu sei, eu sei, eu tenho que pensar positivo, certo? - Isso ai! – os dois concordaram. Eu dei um meio sorriso. - Valeu, gente. – me levantei – Vou dar parabéns pra Nana. - Vai fundo! Então eu fui. Esqueci um pouco os meus pesares mergulhando na alegria alheia. 259


Geografia. Última prova de recuperação. Eu estava comendo até os dedos quando entrei na sala pra fazer a prova. Comigo, apenas o Ricardo e o Daniel. Ficar de recuperação em Geografia era excesso de inutilidade. Me sentei na última carteira da fileira do meio, entre os dois garotos. O professor nos deu a prova e disse que tínhamos 50 minutos pra fazer. Respirei fundo, escrevi meu nome e comecei. 1. A globalização da economia é um fenômeno mundial que está aí. Sobre ele, é correto afirmar que, EXCETO: a) os blocos econômicos perdem sua importância com o avanço do capital sem pátria. b) os oligopólios suplantam os Estados no controle das economias nacionais. c) a mundialização do capital faz-se sob a hegemonia da economia norteamericana. d) o grau de liberdade das economias periféricas recua frente ao capital sem fronteiras. e) a difusão dos avanços tecnológicos contribui para a redução dos custos da produção. A palavra “mundialização” sequer existe? Não divague, Lolita, não divague! Certo, todas as respostas parecem iguais. Talvez eu devesse fazer uni-duni-tê. Eu fiquei louca? Jogar minha nota na sorte não era uma boa idéia! Eu penso nessa pergunta depois. PRÓXIMA.

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2. Cite e explique duas causas da Guerra Fria. Ok, eu podia responder essa. Respondi e passei pra próxima. 3. Marque a opção que apresenta um acontecimento relacionado com as origens da Guerra Fria. a) Construção do Muro de Berlim (1961). b) Intervenção militar norte-americana no Conflito do Vietnã (1962). c) Criação da Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN (1949). d) Eclosão da crise dos mísseis em Cuba (1962). e) Invasão da Baía dos Porcos (1961). Ótimo, mais uma. Continuei a prova, trêmula e ansiosa, apreciando cada segundo que eu tinha. A espera de exatamente 14 horas desde a minha última prova até o resultado das recuperações era tensa. O Edson me ligou quando eu cheguei da escola, me perguntou como eu tinha ido, e brincou dizendo que eu podia relaxar, porque eu teria o meu resultado em algumas horas, enquanto ele teria que esperar até Janeiro. Então me encheu de coisas bobas do seu dia, me contou sobre o seu próprio vestibular e me distraiu até que a minha mãe chegou e me mandou desligar o telefone. Mas nada do que ele me dissesse poderia mudar o fato de que a notícia mais importante do ano, e que determinaria o meu próximo ano, estava a algumas horas de distância. Custei a dormir naquela noite. 261


Ok, respira! Respirar, andar, me controlar estava difícil naquela manhã. Eram pouco mais de oito da manhã quando eu cheguei na escola, vazia, exceto pelos alunos pendurados como eu. Me juntei ao Ricardo e ao Daniel, ambos parados em frente à sala dos professores, onde eles estavam reunidos decidindo quem ficava retido e quem passava de ano. - Eles vão demorar ainda? – perguntei, baixinho, ao Daniel. Ele deu de ombros. - Quando eu cheguei, a inspetora disse que eles estavam ai desde as 7. Então eu acho que não. – respondeu, com um sorrisinho. Eu agradeci e suspirei. Dez minutos se passaram. Me assustei quando ouvi alguém correndo, e me virei rapidamente, dando de cara com um Henry cheio de pressa. Ele arfou e encostou na parede ao meu lado, respirando fundo. Parecia que tinha corrido até aí. - Eles já falaram? – quis saber. - Não. – eu e o Daniel dissemos ao mesmo tempo. Henry assentiu e continuou recobrando o fôlego. Mais e mais, os alunos foram chegando. Eu não fazia idéia de que tinha tanta gente pendurada dentro do Santa Rita. Provavelmente porque eu nunca tinha ficado de recuperação final antes. Mas mesmo assim. Era muita gente! O volume da conversa e de pessoas já estava aumentando drasticamente quando, finalmente, a porta da sala dos professores se abriu e a coordenadora saiu com um papel na mão. O silêncio foi imediato. Então, sem nenhuma palavra de conforto ou preparação, ela começou a despejar os nomes. Mas, pra minha infelicidade, ela foi em ordem alfabética dos SOBRENOMES. 262


Não escutei direito, até que ela disse: - Calil Alves, Daniel. – ele se enrijeceu ao meu lado – Aprovado para o segundo ano do Ensino Médio pelo sucesso em recuperar suas médias. Então ele relaxou e sorriu pra mim, aliviado. Mais alguns nomes. Chegando mais perto da letra F. - Fräuler Lemos, Henry. – uma pausa dramática. Henry não parecia preocupado, mas eu pude ver seus olhos verdes se estreitando – Retido no segundo ano do Ensino Médio por insuficiência de notas em Matemática, Física e Inglês. Ela continuou com sua lista e eu me virei pra ele. O Henry estava boquiaberto, pasmo, mais branco que o normal. E sem dizer nada. Mas eu também não conseguia dizer nada, pois não havia nada positivo que eu pudesse dizer numa hora dessas, mesmo que eu quisesse. Então eu apenas me calei, enquanto o Daniel batia no ombro do amigo e eles saíam dali. Aos poucos, o pessoal foi recebendo seus veredictos e indo embora. Havia eu e mais uma meia dúzia de pessoas quando a coordenadora disse, em voz alta como se usasse um microfone (pelo menos pra mim): - Rodrigues Paes, Carlota. Eu devia pedir pra mudar de nome. Eu devia processar a minha mãe por manchar minha imagem com um nome tão feio. O segundo mínimo que antecedeu a parte seguinte pareceu durar um ano. Eu prendi a respiração e fechei os olhos. - Aprovada para o segundo ano do Ensino Médio pelo Conselho de Professores. AH. MEU. DEUS. Eu queria gritar e comemorar e pular, mas ao invés disso, eu apenas agradeci e saí de lá, boquiaberta. 263


Fui para casa imersa num transe que só o alívio é capaz de trazer. Quando cheguei, a primeira coisa que eu fiz fui pegar o telefone e ligar pra casa do Edson. Seis toques depois, a Lana atendeu, com a voz meio sonolenta. - Lana, eu te acordei? – perguntei, mordendo o lábio. Eu sentia que ia explodir, mas não pude evitar ser educada. - Não, você não. – ela bufou – Meu irmão chegou faz uma meia hora e contou que repetiu de ano. Ta uma gritaria aqui em casa. - Eu imagino. Será que você pode passar pro Edson? - Claro, eu vou chamar. – um momento de silêncio – Espera! – ela disse, de repente – Você passou? Então eu não pude me conter. - PASSEI! – gritei, tão agudo e tão histérico que com certeza devo ter machucado o ouvido dela. - AH, MEU DEUS! – ela gritou também, e riu – Cara, to muito feliz por você, sério! - Eu nem sei como te agradecer pela ajuda, Lana! – exclamei, animada como eu não me sentia há semanas – Você e o Diego foram o máximo! - Você pode agradecer NUNCA MAIS FAZENDO ISSO! – ela riu – Vou chamar o Edson, peraí. Esperei na linha por alguns minutos. De longe, eu conseguia ouvir o bate-boca que estava rolando, obviamente dos pais com o Henry. Coitados. Todos eles. - Oi, amor! – a voz cansada do meu namorado disse, me enchendo ainda mais de alegria. - Eu passei, amor! – eu disse, me segurando pra não gritar de novo – Eu passei! - Sério? – ele parecia aliviado – Nossa, que bom! Sério, eu estava mais nervoso que você com isso! 264


- Duvido! Você só pensa em USP ultimamente, nem tem espaço pra mim! - Mentirosa! Eu penso em você até estudando! - Eu realmente espero que não! Eu quero que você passe nesse vestibular! - Eu vou passar! Um segundo de silêncio. Eu respirei fundo e me joguei no sofá da sala, me sentindo tão leve, tão feliz... - Vamos sair pra comemorar hoje? – ele sugeriu, mas eu hesitei. - Eu não sei se o fato de eu ter passado de ano vai fazer minha mãe me tirar do meu castigo. – afirmei, incerta, e ele fez um “tsc”. - Esquece a sua mãe! – mandou – Depois desse sufoco você merece comemorar! - E o que você sugere? - Vai ser uma surpresa. Eu te pego às sete. - Outra surpresa? Você quase me matou da última vez! - É, mas dessa vez você só vai ter que esperar algumas horas. Te vejo à noite. - Te amo! - Também. E desligou. À noite, quando minha mãe chegou, a primeira coisa que eu fiz foi descarregar, antes mesmo de ela ter trancado a porta: - EU PASSEI DE ANO! Ela parou o que estava fazendo e me olhou, lágrimas nos olhos. - Eu não acredito! – começou a dizer, repetidamente – Eu não acredito, você passou! Me abraçou, e nós pulamos e comemoramos. Finalmente, vi minha mãe sorrir pra mim. 265


Mas eu ainda não tinha terminado. - O Edson vai passar pra me pegar em meia hora pra gente comemorar. – eu disse então, e ela me olhou feio. - Você ainda está de castigo, mocinha! – afirmou – Só porque você conseguiu não quer dizer que eu vá te liberar. - Mãe, por favor! Só pra comemorar! Não venha me dizer que eu não mereço. Ela me deu as costas e foi pra cozinha. Eu encarei o chão, derrotada. Então ela apareceu de novo no corredor. - Só hoje, e quero você em casa antes das onze. – declarou – SÓBRIA. Eu não pude segurar o riso, e corri a abraça-la de novo. - Obrigada! – exclamei no ouvido dela. Ela me abraçou de volta e me soltou. - Vai se trocar. - Não precisa pedir duas vezes! - Pra onde nós estamos indo? - Meu Deus, você realmente não reconhece o caminho? - Ah, na verdade, não. - Então espera pra ver. Estávamos dentro do Corolla, e o Edson dirigia por uma avenida larga que era familiar, mas que eu não sabia pra onde levava. Desde que nós tínhamos saído de casa, ele se recusava a dizer pra onde estava me levando. Continuamos nosso caminho, e logo o trânsito ficou mais parado. Ele aproveitou a deixa pra me dar um lenço escuro. - Tampe os olhos. – comandou. Eu peguei o lenço e olhei pra ele, incrédula. 266


- Você só pode estar de brincadeira! – resmunguei, mas tampei os olhos mesmo assim. Tampei e esperei, impaciente. Ouvi buzinas, e abri a janela pra tentar identificar alguma coisa pelo cheiro ou pelo som. Senti cheiro de pipoca. Torci o nariz. Que lugar era aquele? Mais uns minutos, e ele finalmente estacionou o carro. - Espere ai. – disse, pra mim. Concordei, a contragosto, e esperei. Logo, ouvi a porta ao meu lado se abrir e senti a mão do Edson pegando a minha. Com cuidado, o acompanhei e o ouvi trancar o carro. Logo, ele estava me levando, e o cheiro de pipoca misturado com barulho de crianças estava mais forte do que nunca. Seria um circo? - Pode tirar. – ele disse, então. E eu tirei a venda dos olhos. Não era um circo. Tinha pipocas, criança, e muita gente, mas não era o circo. Era a praça da Árvore de Natal do Ibirapuera. - Eu lembrei que você disse pra mim que nunca tinha visto a Árvore ao vivo. – o Edson me contou – Isso faz alguns anos, mas eu achei que você ainda não tivesse visto. Eu sorri e o abracei. - É linda! – eu exclamei, ainda olhando pra Árvore e suas luzes dançantes – É linda, é mais bonita que na televisão! - Então eu acertei na escolha? - Claro que acertou! – suspirei – Faz anos que eu queria vir aqui e ninguém nunca me trazia! - Agora eu te trouxe. – olhou pro lado – Quer pipoca? - Não. Eu quero um beijo. Ele riu e me beijou, sob as luzes que iluminam o Natal de São Paulo. 267


Epílogo Mais um ano se passou. Mais um ano bem vivido, cheio de coisas pra contar. E cheio de coisas que eu prefiro não lembrar. E por mais que no final (quase) tudo tivesse terminado bem, algumas perguntas ainda ficavam. Como ia ficar entre eu e a Bela? Ia ficar de algum jeito diferente do que estava agora? Nós algum dia faríamos as pazes? Como seria quando a Giovanna voltasse da França, toda modelo e glamour e fama? Ela ainda seria a mesma ou aquilo subiria à sua cabeça? Ela seria legal ou voltaria ao seu estilo bitch de viver a vida? E, o mais importante de tudo: O que iria acontecer no ano seguinte? Isso tudo são perguntas que eu não podia responder. Ainda. Me aguardem. Da já amiga,

Lolita.

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Sobre a autora Larissa Siriani Ribeiro Nogueira é uma paulistana que nunca fez a menor idéia do que queria fazer da vida - até começar a escrever. Realimentando o sonho de quando era criança, começou a escrever contos e pequenos livros, e então dando lugar a estórias cada vez maiores, até decidir que queria realmente ser escritora. Hoje, vive na mesma casa em que sempre viveu desde os 3 anos de idade com o pai, dois irmãos mais velhos e quatro cachorros, faz faculdade de cinema, e já tem três livros publicados de forma independente - Vermelho Sangue, Toda Garota Quer e Ardente Perigo - e As Bruxas de Oxford, lançado pela Editora Multifoco. Links: http://www.larissasiriani.com.br/ http://larissasiriani.blogspot.com/


Lolita e sua turma de amigos acabaram de entrar no primeiro ano do colegial, e é claro que isso implica mudanças. Mas agora, além de ter que lidar com o colégio católico cheio de regras e garotas nada puritanas, as complicações da vida amorosa que a perseguem desde anos antes e o fardo de ter que adotar um apelido que encubra seu nome verdadeiro - e vergonhoso -, Lolita tem mais um problema: as duas primas, Sabrina e Giovanna, chegaram do interior para estudar com ela, e muita coisa vai mudar. Não necessariamente pra melhor. O primeiro volume da série que trata de adolescentes típicos mas não tanto - é baseado em fatos reais, mostrando o cotidiano que poderia ser de qualquer um, exceto por um detalhe: neste diário, nenhum segredo se esconde de ninguém por muito mais tempo do que o necessário para se tornar um fator problema.

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Diário (Nada) Secreto - Larissa Siriani  

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