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TrapĂŠzio Lucio Carvalho

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TrapĂŠzio Lucio Carvalho

Porto Alegre Valentine /2019 2


Título original em português: Trapézio Todos os direitos reservados. © 2019 por Lucio Carvalho Copyright da 1.ª edição – Edição do Autor / Valentine Revisão: Daniel Zanella Capa e editoração – Edições Valentine http://www.ed-valentine.com ISBN – 9781077291348

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) __________________________________________________________

C331t Carvalho, Lucio Trapézio / Lucio Carvalho. Porto Alegre [RS] : Valentine, 2019. 235 p. ; 15 x 23 cm ISBN – 9781077291348 1. Romance brasileiro I. Título CDU: 821.134.3(81)-3 __________________________________________________________ CRB-10 1337 Edições Valentine

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CONTEÚDO Parte 1 .............. 008 Parte 2 .............. 074 Parte 3 .............. 116 Parte 4 .............. 166

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Scars have the strange power to remind us that our past is real. Cormac McCarthy 6


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Parte 1

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1 Nas escadarias de tijoletas vermelhas do Colégio Nossa Senhora de Lourdes, em Itaborã, somente podia ficar sentado quem fosse amigo do Alexandre ou se fosse seu protegido. Era ele quem determinava quem podia ou não podia, quem era digno ou não, quem ficava além da última sirene ou tinha de esgueirarse pelos cantos das escadas ou pelo portão dos fundos, para ir embora, tentando a sorte de não ser notado nem por ele nem por ninguém da sua turma. Não é que eles não fossem bacanas, todos eram, mas o Alexandre ali tinha mais empáfia e autoridade que o próprio diretor do colégio, o gorducho Padre Anselmo. E ele nunca perdia nem uma oportunidade de deixar isso claro. O Alexandre, na época eu achava isso, parecia ter muitas personalidades. Uma coisa era falar com ele a sós; outra, bem diferente, era quando ele estava com os amigos e protegidos. Parecia que, por temer a reprovação dos demais ou por querer estar sempre os impressionando, ele não relaxava nunca e a maneira que encontrava para confirmar sua liderança era promovendo uma intimidação sistemática contra tudo e todos. O medo e não o respeito, portanto, fez do Alexandre que eu conhecia desde pequeno, porque fôramos vizinhos a vida inteira, alguém um tanto quanto amedrontador. E embora eu sempre procurasse pensar em formas de aliviá-lo dessa imagem, ele sempre acabava dando um jeito de reconfirmá-la, mesmo quando eu tentava convencer a mim mesmo de que, a despeito do que quer que fizesse, ele não fosse má pessoa. Naquela época, na verdade, eu pensava que ninguém fosse inteiramente má pessoa, que, mesmo para os piores comportamentos, haveria justificativas razoáveis, uma razão oculta ou até mesmo uma série delas. O Alexandre nunca seria uma má pessoa pelo que eu pensasse dele, mas, pelas coisas que me levou 9


a fazer, em algum momento eu passei a duvidar disso. Acontece que, nesse mesmo momento, eu começava a duvidar de tudo o mais que eu podia ver e compreender: desde a plena felicidade do casamento de meus pais, da honestidade e solidez moral do vereador Bonifácio, da razoabilidade das ordens e comandos de Júlia, dos professores do Nossa Senhora de Lourdes e até da inocência da minha mãe, que também, às vezes, parecia ter uma cômoda cumplicidade com os gastos alucinados que o pai fazia a cada eleição e, para ser sincero, também no intervalo entre uma e outra. Hoje não vamos a Itaborã como antes. Vamos pouco, apenas no verão. E isso quando, em vez de irmos em direção ao norte, para a Praia de Torres ou acima, em Santa Catarina, tomamos do lado oposto e vamos para o sul, para a fronteira. Até chegar lá é uma estrada sofrível, cada vez mais sofrível. São caminhões sem parar, nos dois sentidos. E o azar de ficar atrás de uma fileira deles compete em andar-se exatamente como uma lesma pelo caminho, já que o risco de ultrapassar é ainda mais imponderável. No entanto, como não vou sozinho, a viagem passa rápido e quase nem se percebe a distância. Sozinho, não. Sozinho, mesmo se fosse de ônibus, sobraria muito tempo para pensar à toa, como nas inumeráveis vezes em que fiz a viagem buscando o teto de casa para descansar alguns dias por ano da vida em Porto Alegre, com a mãe, o pai enquanto ele viveu, com Mariano, meu irmão mais novo, e com Júlia, mas apenas antes do seu casamento. Estou pensando nisso nesse instante, mas a voz ao meu lado me desperta de um sono banhado em verde e azul, confluência das duas paisagens, a do solo e a do céu, que se desbaratam mutuamente pelo caminho. "No domingo vai ser o aniversário dele. Vou fazer o pudim de leite que ele gosta... Tu vai comigo?", a voz da Ana Luiza 10


rompeu o silêncio da cabine do carro enquanto ao mesmo tempo acomodava o ventre levemente crescido entre um travesseiro que havia colocado entre seu corpo e o cinto de segurança. Custei a responder e acho que minha vontade era de continuar em silêncio, mas aquela era uma pergunta simples que pedia apenas um "sim" ou um "não" e ela não toleraria que eu não a respondesse. A Ana Luiza, bem como o Alexandre, tem um humor belicoso. Acho que se não fossem sabidamente irmãos, um dia se descobririam casualmente filhos da mesma mãe ou do mesmo pai. Do mesmo pai, provavelmente, porque sempre me disseram que fora dele, do avô do meu filho ou filha que nascerá em mais alguns meses, de quem ambos teriam herdado o temperamento. Então, mesmo sabendo o que aquilo me custaria dali em diante, eu disse apenas: "Não. Não vou. É claro que não vou...". Ela olhava para fora, para o horizonte, e não parecia surpresa com a minha resposta, mas mesmo assim não escondia a contrariedade silenciosa; idêntica, aliás, a que vinha expressando a cada vez que me recusava a tratar do assunto "Alexandre". "Tá bom. Eu nem sei por que ainda pergunto, mas ele ia gostar de te ver", disse. "Eu sei que sim...", complementou com uma resposta que começou a entabular ela mesma dentro da boca, num grunhido. Eu ouvi sua resposta como um apelo, mas um apelo ao qual ela intimamente sabia que eu não poderia ceder e do qual eu duvidava que ela mesma tivesse um pingo de razão. Não, certamente ele não gostaria de me ver pela frente, talvez nem em outra vida. No caso, se desse a entender que poderia reconsiderar sobre a visita, imagino que ela acabaria interpretando isso como uma espécie de concordância, até mesmo como se estivesse atestando um resquício de um remoto perdão ao irmão. Isso é muito estranho porque ela também nunca parecia certa em fazê-lo; se eu o fizesse, acho que ela se sentiria 11


mais à vontade também. E o Alexandre, bem, mesmo que ele tenha sido o meu melhor amigo por tanto tempo, eu nunca o perdoaria por tudo o que fez, principalmente ao meu pai. Se ela o compreendeu, perdoou, ou o que seja, eu acho que esse não é um problema meu, afinal, ele é o seu irmão e não o meu e jamais pensei em intrometer-me em seus sentimentos familiares, desde que não me constrangesse a nada. Temos vivido bem nesse acordo. Ao nos aproximarmos da cidade, no entanto, me parece normal que ela mais uma vez tente me demover. Só que, infelizmente, continua a ser em vão. Se sinto pena, piedade? É claro que sinto, mas não me atrevo a dizer nada a esse respeito. Procuro até nem pensar muito nisso. Quando sinto que a sombra de um menor remorso deseja surgir para mim, lembro-me de como ele me tomava por cúmplice desde criança e também de como nunca hesitara em ameaçar a mim ou a quem quer que fosse, quando preciso. No fundo, imagino é que ele desejaria que até fosse eu mesmo a estar no seu lugar. Eu ou qualquer outra pessoa. Eu, especificamente, serviria muito bem para este objetivo, não que isso lhe fizesse alguma diferença. Mas, seja como for, não é por isso que estamos indo dessa vez a Itaborã. Uma ou duas vezes ao ano vínhamos para ver com os próprios olhos o estado dos velhos que, como velhos, continuavam ano a ano a envelhecer, enferrujar ou, o pior de tudo, adoecer ou morrer. Dessa vez, viemos por causa do meu velho, o vereador Bonifácio, ainda que há anos o seu coração tenha desistido de vez de animá-lo, depois das safenas e reanimações. Enquanto tomamos das últimas bifurcações da rodovia, penso nessa homenagem que a Câmara de Vereadores resolveu fazer ao pai. Desse compromisso extemporâneo eu jamais fugiria, nem por hipótese, e mesmo que seja preciso encarar os dias mais quentes do ano num lugar que é muito conhecido pelo frio, mas é 12

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Trapézio  

Num final de semana do verão de 1999, um escritor e sua mulher, grávida, retornam a uma cidade do interior do Rio Grande do Sul para uma hom...

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