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Frente Fria Lucio Carvalho

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Frente Fria Lucio Carvalho

Porto Alegre Valentine / 2019 3


Título original em português: Frente fria Todos os direitos reservados. © 2019 por Lucio Carvalho Copyright da 1ª edição – Ed. do Autor Capa, editoração e revisão – Edições Valentine. http://www.ed-valentine.com ISBN: 9781978238718

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) __________________________________________________________ C331f Carvalho, Lucio Frente fria / Lucio Carvalho. Porto Alegre [RS] : Valentine, 2019. 156 p. ; 15 x 23 cm ISBN – 9781978238718 1. Romance brasileiro I. Título CDU: 821.134.3(81)-3 __________________________________________________________ CRB-10 1337 Edições Valentine

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Sumário 1 - Naquela tarde .......... 007 2 - Naquela manhã .......... 027 3 - Naquele entardecer .......... 039 4 - Um dia antes, pela tarde .......... 047 5 - Naquela noite .......... 055 6 - Duas semanas antes .......... 063 7 - Na outra manhã .......... 075 8 - Um ano antes .......... 097 9 - Cinco anos antes .......... 105 10 - Dez anos antes e menos .......... 121 11 - Seis meses depois .......... 133 12 - Seis meses e um dia depois .......... 141

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1 - Naquela tarde Se alguém tentasse contar em detalhes o que aconteceu para que a viagem imaginada por Mariano Figueira tenha demorado tanto e ele chegou ao seu destino da forma como chegou, poderia começar de muitos lugares. Poderia ser do fim do asfalto da rodovia estadual e do começo da estrada de chão que unia o município de Rosário ao distrito de São Sebastião e então se saberia que ele vinha correndo como um louco; que atropelou um zorrilho no caminho; que o fedor que ele não detestava de todo invadiu por completo a cabine da sua caminhonete, mesmo lacrada pelas vidraças; que ele teria morrido se tivesse atropelado, na velocidade em que vinha, uma das muitas vacas que fugiam pelo arame e ocupavam a estrada ou eram ali deixadas por seus donos para alimentar-se melhor, em virtude dos campos estarem absolutamente secos e amarelados naqueles dias de dezembro, mas Mariano freou em tempo e, logo em seguida, derribou-se numa das muitas valetas ao redor da estrada pedregosa e poeirenta, no intento de evitar o choque. Poderia também contar, se preferisse, desde a hora em que apertou o controle remoto para fechar o portão da garagem do prédio onde morava, em Porto Alegre, e tomou a rodovia, passando pelo túnel da Conceição não se sabe como, porque estava transtornado, e galgou os quilômetros que o separavam do seu destino como se fossem apenas alguns metros até chegar aonde e como chegou. Ou se a partir de quando recebeu o telefonema desse irmão com o qual não falava há anos, porque já não se davam tão bem. Ou, ainda, de quando seja possível 7


desejar ou imaginar, porém nunca antes do seu nascimento, porque do passado de seus pais, os velhos que ele buscava reencontrar sabe-se lá em que estado ao final dessa correria, ele sabia muito pouco, afinal eles sempre foram muito quietos e reticentes ou então ele é que talvez estivesse já se esquecendo das histórias contadas na infância, depois de tanto tempo longe da casa e do lugarejo onde passou os primeiros anos da sua vida. O que aconteceu com Mariano é o que acontece com quase todo mundo que anda por essas estradas: um pneu furado. Culpa das inúmeras pedras lascadas que, rentes à terra, mantêm o lugar a seco, mas possível de trafegar no inverno, quando o saibro cria uma espécie de gosma que agrega poeira, terra e umidade, custando dias a secar mesmo depois do estio. Agora, como era verão, as pedras pareciam lanças que brotassem do chão e mesmo uma caminhonete potente como a dele, de pneus largos e borrachosos, teria dificuldade de passar ali sem causar estilhaços na lataria ou até mesmo outros estragos menores, mas ele nunca que se importou com isso. Para Mariano, carros eram meros meios de transporte. E lentos demais, na maioria das vezes. É como ele os julgava e do que mais uma vez podia ter certeza, justamente quando mais precisava deles para conseguir chegar, em corpo físico, a algum lugar. Naquele buraco, caminho para a propriedade dos pais, o calor era ainda maior. Sem grandes dificuldades, ele retirou o pneu estepe debaixo do forro do porta-malas, mas, ao buscar o macaco hidráulico para erguer o carro, percebeu que o instrumento não estava ali e de que nem tinha a menor ideia de 8


onde pudesse estar. Na garagem do edifício, talvez, em algum cantinho esquecido e oculto, porém não se lembrava de ter encostado no objeto há muito tempo. Então possivelmente estivesse noutro lugar, mas não sabia qual. Talvez na oficina onde mandava revisar o carro, conforme ordenavam a revenda e seus vendedores insistentes. Só poderia ter sido. Apenas aconteciam roubos e estragos quando ele mandava o carro para a revisão e era isso justamente o que ele berrava enquanto chutava toda a porta da caminhonete com suas botinas, alternando os pés. Ele gritava e parecia ter esperança que alguma daquelas vacas e ovelhas que pastavam por dentro das cercas e mesmo aquelas que estavam do lado de fora delas, em ambos os lados da estradinha, pudessem vir em seu socorro, mas elas mal alçavam a cabeça para observar seu movimento. "Merda! Puta que os pariu!! Filhos da puta! Ladrões de merda!" Dali a um momento, quando já cansara de variar a ordem dos palavrões que gritava ao Deus dará, finalmente ele se deu por vencido. Pegou da mochila do banco do carona, do telefone celular, da mala do seu computador portátil e foi caminhando procurar chegar à sombra de um cinamomo, a cerca de meio quilômetro dali, pelo que julgava ao olhar. Para proteger a cabeça, nada. E nesse instante parece que se lembrou de quando era criança e a mãe, na porta da casa, gritava para ele: "Leva um chapéu, menino, pra não te assolear! Protege essa cabeça!" Ele nunca levava. Não gostava de obedecer à mãe e nem a ninguém. A mãe sempre insistia um pouco mais, mas não tanto que surtisse efeito, e ele acabava sempre fazendo só o que queria, do jeito que 9


melhor imaginasse e decidisse. O caminho ele ainda se lembrava de qual era, mais ou menos. Tentou usar o posicionador do aparelho telefônico, mas ele não funcionava ali e nem sinal da operadora havia para avisar quem quer que seja do que quer que fosse. Ele seguiu caminhando até perceber, pelo cansaço e pelo agravamento do calor, que talvez fosse quilômetro e meio de onde deixara a caminhonete até à árvore e não apenas quinhentos metros como pensara inicialmente. E seguiu caminhando, puteando-se ainda: "Puta merda! Ladrões filhos da puta!" Nesse andar penoso, sudorento, lembrou-se de que logo após a curva do cinamomo, no alto de um cerro baixo que se acotovelava no barranco da estrada, era onde ficava e deveria estar ainda a venda do velho Antenor Menezes, na parte da frente da casa da sua família. A esperança de encontrar por ali, e se possível aberta, a vendinha, deu-lhe mais coragem que a sombra do cinamomo para seguir sua caminhada, mas Mariano não deixava de lembrar que lá do alto, como uma torre entre as coxilhas, também era possível distinguir, entre o verde ondulado do campo, o arvoredo que cercava a casa dos pais, como um borrão impreciso no horizonte encurvado. "Se passasse um infeliz aqui, eu comprava o cavalo", ele dizia para si mesmo. "Mas quem vai se enfiar num lugar desses? Só eu mesmo!", continuava, como se falasse com alguém, entretanto nem sombra de viva alma cruzava aquele lugar. E as pedras espetavam as plantas dos pés, atrapalhando ainda mais a jornada. Parando um pouco para secar a testa do suor com a man10

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Frente fria  

Após a separação causada pela negligência com seu filho autista e com a vida em frangalhos, Antônio recebe a notícia de que o pai, idoso, te...

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