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Down House, 1858 o inquĂŠrito de Arthur Lucio Carvalho


Down House, 1858 o inquĂŠrito de Arthur Lucio Carvalho

Porto Alegre Valentine/2019


Título original em português: Down House, 1858: o inquérito de Arthur Todos os direitos reservados. © 2019 por Lucio Carvalho Copyright da 1ª edição – Ed. do Autor / Valentine. Capa, editoração e revisão – Edições Valentine. http://www.ed-valentine.com ISBN – 13: 978-1978147966 ISBN – 10: 1978147961

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) __________________________________________________________ C331d

Carvalho, Lucio Down House 1858: o inquérito de Arthur / Lucio Carvalho. Porto Alegre [RS] : Valentine, 2019. 174 p. ; 15 x 23 cm ISBN – 13: 978-1978147966 ISBN – 10: 1978147961 1. Romance brasileiro I. Título CDU: 821.134.3(81)-3 __________________________________________________________ CRB-10 1337 Edições Valentine


Para Glauce, Viviane e Isabel.


"There are secrets in all families, you know..." Jane Austen, Emma. "Pour écrire cette histoire, il ya des sources abondantes et lacunaires, éloquent et plants, fermés dans les secrets de l'intimité." Michelle Perrot, História da Vida Privada, vol. 4. Da Revolução Francesa à Primeira Guerra.


Emma Darwin e Charles Waring Darwin, em daguerreรณtipo de 1857.


CONTEÚDO Prólogo ....... 11 Nosso pobre bebê, 1 ....... 21 O inquérito de Arthur, 1 ....... 39 Logo ao nascer ....... 51 O inquérito de Arthur, 2 ....... 73 O batizado ....... 83 O inquérito de Arthur, 3 ....... 97 O mundo que chegou pelo correio ..... 107 Nosso pobre bebê, 2 ..... 121 O inquérito de Arthur, 4 ..... 151 Epílogo ..... 163 Fontes bibliográficas ..... 167 O Memorial de Charles Waring Darwin ..... 169 Índice onomástico ..... 173


Prólogo Como não poderia deixar de ser, a vida do naturalista inglês Charles Darwin, ao longo de mais de um século, foi das mais extensamente biografadas, com maior ou menor extensão, com maior ou menor apuro. Mesmo por aqueles que ainda refutam suas teorias, Darwin é reconhecido universalmente como um dos grandes gênios da humanidade de todos os tempos e o impacto científico e cultural de sua obra, além de ser ainda vigente, é fundador da ciência moderna e um de seus lastros fundamentais. Embora reafirmar isto seja desnecessário, seu legado diz respeito a todos, mesmo àqueles que porventura ainda hoje ignorem ou desprezem sua contribuição ao conhecimento humano, afinal diz respeito a toda a humanidade. Porque a jornada científica de Darwin é tão bem conhecida quanto seu próprio nome, não seria um trabalho de ficção, como este, que pretenderia divulgá-la ou revelá-la sob um possível ângulo oculto. Além de ser um esforço tolo, pois dificilmente chegaria próximo às biografias que se produziram nos últimos anos, principalmente quando estivemos próximos ao centenário de sua morte, neste caso seria desinteressante, porque o foco de interesse aqui se limita a um momento específico de sua vida familiar que mesmo as melhores biografias circundam sem se deter por muito tempo e o qual, a despeito da extensa documentação biográfica de Darwin e sua família, resta pouco compreendido ainda hoje. Aquilo que a investigação histórica não consegue esclarecer, mas que, por força do tempo histórico, indubitavelmente 11


passou-se, é um hiato o qual a ficção por sua vez pode ocupar, porque se são escassas as fontes específicas e proliferam outras que demonstram as condições de vida da época, a imaginação ficcional adquire trânsito onde o historiador deixa de entrar, pois a este faltam elementos e seu objeto só pode ser o real e suas fontes. Na ficção, entretanto, os objetos são outros e podem dizer sobre o imaginário, as ideias e o comportamento familiar e cultural na Inglaterra vitoriana, espaço-tempo onde Darwin engendrou sua ciência e teve sua vida, ao lado de sua esposa Emma e seus dez filhos. A curta vida do seu décimo filho, Charles Waring Darwin, é o tema desta novela. Nela, muitas vezes aparecem seus outros filhos, pelo menos aqueles que viveram no mesmo período e muitas outras pessoas reais, ao lado de outras ficcionais, entre serviçais, parentes e amigos da família. Pessoas que estiveram pessoalmente em Down House, residência da família Darwin, ou que foram lembradas ou mencionadas pelos seus moradores. De Charles Waring, ou simplesmente Charlie - como era chamado em casa - os registros não são muitos. Os mais expressivos são uma fotografia obtida pelo primogênito da família, William Erasmus Darwin, na qual o bebê Charlie repousa no colo de sua mãe, e um memorial escrito pelo próprio Darwin, transcrito ao final da novela e no qual ele tece comentários a respeito da natureza excepcional da criança. A fotografia de Emma e Charlie se encontra no English Heritage, em Londres. O memorial é o Apêndice V do volume The Correspondence of Charles Darwin:1858-1859 (vol. 7) (ISBN12


10: 0521385644), organizado e publicado pela Cambridge University Press em 1992. Muitas especulações têm sido feitas, na ausência de outras fontes, por historiadores e outros interessados, a respeito das condições de saúde desta criança a partir de documentos e relatos posteriores. Se o exame da fotografia aponta para a possibilidade do bebê Charlie ter nascido com o que hoje se entende ser a síndrome de Down, a hipótese nunca pode ser confirmada, apesar de que tampouco refutada. Haveria muitas outras hipóteses diagnósticas para explicar o atraso de desenvolvimento de Charlie, incluindo contaminações por mercúrio ou outros elementos químicos, privação de oxigênio ao nascer e outras, principalmente doenças que à época não respondiam aos tratamentos médicos disponíveis nem contavam com diagnóstico preciso. De outro lado, a idade avançada da mãe - Emma tinha 48 anos na data de nascimento - aliada ao exame fenotípico a partir da fotografia obtida por seu filho mais velho, William, podem ser indícios muito significativos de que o bebê possa realmente ter nascido com a síndrome descrita posteriormente pelo médico inglês John Langdon Down em 1867; coincidentemente, Down foi um dos muitos cientistas contemporâneos com os quais Darwin se correspondeu, muito antes de que a ciência moderna comprovasse a etiologia genética da síndrome. Elucidar tais hipóteses, entretanto, não é um objetivo que a ficção pode pretender realizar. Além de constituir um atentado ao conhecimento científico da época, seria uma imposição histórica sem nenhum cabimento. Efetivamente, os dados 13


históricos são poucos, mas mesmo considerando sua escassez, a reconstituição, por meio da ficção, desse momento tão crucial na vida familiar de um dos maiores gênios da humanidade será sempre impositiva. Por isto, o foco narrativo desta novela se desloca para outros personagens; não a fim de documentar o momento, mas de registrá-lo sob a ótica de quem o compartilhou, mesmo que a partir de um lugar menos íntimo ou especializado. Trata-se de uma opção narrativa que se pretende coerente unicamente com a própria novela, uma vez que seria bem mais complexa, ou mesmo impossível, assumi-la a partir da posição do próprio Darwin ou um de seus familiares. De todo o modo, há razões para as escolhas feitas que a própria leitura esclarecerá em seu tempo. Por razões óbvias, os diálogos e situações narradas nesta novela não serão todos encontrados na volumosa documentação e correspondência do espólio de Darwin. Apesar disso, boa parte deles se aproveita de alguns desses momentos, mesmo que observados indiretamente através de seu principal narrador. Se há nesta novela qualquer tipo de deturpação histórica e biográfica, isto é algo que não se pode saber, pois mesmo a reconstituição puramente histórica pressupõe uma recriação suscetível à influência de informações e fontes posteriores e nem mesmo com toda a documentação disponível é possível obter clareza absoluta sobre a vida doméstica da família de Darwin. Por essa mesma razão, os elementos fundamentais da narrativa são apenas suposições. Alguns fatos em si mesmos são, de fato, acontecimentos reais e relatados, mas nem todos. O acréscimo de 14


situações tem como único objetivo sustentar a narrativa, porém o tempo psicológico e a compreensão dos personagens é uma construção inteiramente ficcional que deriva exclusivamente do argumento

narrativo,

todo

baseado

em

uma

hipótese

fundamentada na evidente realidade de que a vida privada é território especulativo sobre a qual todas as cautelas devem ser tomadas. A abundância de fontes e documentos a respeito da vida pessoal de Darwin é um fator de incrível facilidade para qualquer pessoa que se decida a examinar sua biografia e a de sua família. Somente a correspondência completa de Darwin foi reunida em cerca de 20 extensos volumes, organizados e publicados pela University of Cambridge, além de republicada em coletâneas inúmeras vezes. Entretanto, mesmo a vida dos grandes gênios pode apresentar lacunas importantes. É muito compreensível que a situação de saúde do bebê Charles Waring tenha suscitado os temores comuns à época e sua breve existência não tenha sido objeto de intensa exposição pública, mas isso não significa que sua vida não tenha se integrado à da família e isto parece muito bem reportado pelo próprio Darwin. É preciso considerar muito claramente que a compreensão científica disponível a respeito da etiologia das doenças mentais e deficiências intelectuais, à época, eram bastante precárias ou mesmo quase nulas. Darwin, todavia, era um homem movido por extrema curiosidade e dotado de perspicácia notável. Um artigo seu, de 1877, intitulado A Biographical Sketch of an Infant, realiza um apanhado criterioso de observações do desenvolvimento de seus 15

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Down House 1858: o inquérito de Arthur  

Em 28 de junho de 1858, o naturalista inglês Charles Darwin e sua esposa Emma perderam seu décimo filho, Charles Waring Darwin, vitimado pel...

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