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ANA VITÓRIA MUSSI

26 de maio a 17 de junho de 2018 Estudio Dezenove - Rio de Janeiro


O uso da frase do pensador indiano do século XII, Kabir, “Onde quer que você esteja, esse é o ponto de partida”, pode pertencer já ao imaginário globalizado/googlizado, mas também pode manter suas constantes vitais, reviver o conflito cultura-arte, mídia-literatura, consumo-pensamento... Aliás, a linha do horizonte da frase promete um start que não é só espacial nem temporal, mas sobretudo espiritual. Adolfo Montejo Navas

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Ato Visual (Através) Adolfo Montejo Navas

Estamos quase sempre vendo as coisas através das grades das mediatizações, de malhas interpretativas, porque, a rigor, nos prometem alguma instrumentalização ontológica conveniente ou, pior, engano, o sentido como publicidade ou propaganda. A intervenção na Vitrine Efêmera de Ana Vitória Mussi toca nesse cerne delicado, se configurando numa situação espacial específica - criando um local que parece meditar-se a si mesmo explorando a sua razão de ser –, através do uso de algumas estruturas metálicas superpostas (originalmente partes de um secador de gravuras) que provocam à sua vez um olhar apurado, sintomaticamente, em estado de crise, acidentado (como já fizeram a seu modo, Cildo, Muntadas ou Raul Mourão, com situações próximas pelos elementos iconográficos e objetivos críticos). No caso, via uma textualidade

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visual, aqui transportada a suporte fotográfico como matéria e parte de uma instalação que mexe com nossas coordenadas espaço-temporais. De fato, o uso da frase do pensador indiano do século XII, Kabir, “Onde quer que você esteja, esse é o ponto de partida” (um redemoinho verbal e conceitual), pode pertencer já ao imaginário globalizado/googlizado, mas também pode manter suas constantes vitais, reviver o conflito cultura-arte, mídia-literatura, consumo-pensamento... Aliás, a linha do horizonte da frase promete um start que não é só espacial nem temporal, mas sobretudo espiritual. Reposiciona o valor do espaço como origem, o local in situ como metáfora projetiva para outros movimentos, além do culto à velocidade. O contrário de um não lugar, por exemplo. E daí provem a tríplice potência do trabalho


da artista, na inscrição de três circunstâncias do punctum escritofotografado-instalado: primeiramente, pela conversão do texto em imagem, numa situação perceptiva de nova leitura, ainda mais quando a frase encontra-se quase vulgarizada na web e se resiste é milagrosamente, aqui já em formato de fotografia. Além desta mudança de suportesituação, em que a visualidade textual se contempla através de algumas grades, outra trama, também se pode reconhecer uma potência que anula aquele “arranjo” acomodado de sentido na maioria das entradas na internet e, em troca, se religa a uma inquietude primitiva, fora já da história recente e do percorrido funcional que certo cultural faz, graças à criação de uma visibilidade e significação que está em relação a outro patrimônio do comum. À possibilidade, quase quimera em nossos

dias, de se questionar, de forma abissal, se o sendeiro escolhido de qualquer biografia/projeto/política resiste à prova das interrogações: se cabe então a capacidade de impromptus, a conquista da leveza do inaugural. A frase continua ecoando como uma matriz não só imagética. Se conseguimos ver através - uma poética sempre confessa da artista - na maranha iconográfica de hoje, signos livres, não neutralizados, compreenderemos melhor a imagem de Ana Vitória Mussi como um indispensável ato visual. Ao mesmo tempo, uma inquietante indagação paralela sublinha o trabalho da artista, a dúvida de que "a conquista da ubiquidade", como dizia Paul Valéry nos finais dos anos 20, seja uma nova meta da arte, outro elán vital dela, numa dinâmica que religa espaçotempo-imagem já de outro modo... (Foz/16 de maio de 2018)

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ANA VITÓRIA MUSSI

Estudou pintura e desenho com Ivan Serpa de 1967 a 1971, fotografia no SENAC de 1972 a 1973 e serigrafia na Escola de Artes Visuais do Parque Lage de 1989 a 1990. Entre 1979 e 1989 trabalhou como repórter fotográfica. Em 1990 retomou seu trabalho como artista, tendo como suporte a fotografia e outros meios de reprodução. Nas interferências sobre fotografia publicadas em jornais (série Barreiras) ou interferindo diretamente nos jornais, à captação das imagens da TV (série Na TV, 1975) ou do Cinema (série Cinema, 2009), Ana Vitória interroga a imagem em interlocução com os poderes e a sedução dessas mídias. Com suas incursões na serigrafia, o uso de negativos e kodalites, de objetos que se assemelham a dispositivos de exibição da imagem (como os tijolos de vidro) a artista cria jogos de ocultamento e transparência, de intimidade e exibição, turvando as fronteiras entre privado e público, interrogando o olhar entre a solidão da visão e a sociedade do espetáculo. Participou de diversos salões e coletivas no Brasil e no exterior e possui obras na Coleção Gilberto Chateaubriand, Museu de Arte Moderna, MAM - RJ, Coleção Pirelli, MASP - SP, Coleção Museu de Arte do Rio, MAR, RJ e na Coleção da Bienal de Cerveira, Portugal. Vive e trabalha no Rio de Janeiro.

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Agradecimentos Adolfo Montejo Navas  André Mussi  Christina Bocayuva Gráfica Falcão  Julio Castro  Lucilia Zardo Marcio Zardo  Sergio Viveiros  Suraya Ramos

Curadoria e Expografia Adolfo Montejo Navas Coordenação e Produção Julio Castro Fotos André Mussi  Christina Bocayuva  Julio Castro Lucilia Zardo  Marcio Zardo Edição do catálogo Lucilia Zardo

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Travessa do Oriente 16 A Santa Teresa Rio de Janeiro RJ CEP 20240-120 CoordenaçaĚƒo Julio Castro

+ 55 (21) 2232 6572 (whatsApp) + 55 (21) 99895 8111 dezenoveestudio@gmail.com www.estudiodezenove.com

Vitrine Efêmera - Estudio Dezenove  

Vitrine Efêmera “Onde quer que você esteja esse é o ponto de partida” da artista visual Ana Vitória Mussi, com curadoria de Adolfo Montejo N...

Vitrine Efêmera - Estudio Dezenove  

Vitrine Efêmera “Onde quer que você esteja esse é o ponto de partida” da artista visual Ana Vitória Mussi, com curadoria de Adolfo Montejo N...

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