Page 1

livro mazuras-especial.indd 96

29/03/12 21:33


Na intimidade dos postos Os postos de estrada hoje são autênticos entrepostos. Celeiros de todos os tipos imagináveis de artigos – de pães de queijo a chaves de fenda made in China – esses estabelecimentos há muito tempo deixaram de ser especializados apenas na venda de combustíveis e derivados. Ao longo da 101, todos também oferecem refeições, ou no mínimo lanches e os indefectíveis salgadinhos, em especial as coxinhas, que parecem ser a preferência nacional. Alguns são grandiosos e se tornaram referências da estrada. Entre os maiores da 101 estão os de Santa Catarina como o Rudnick, em Joinville, o Maiochi, na cidade de Araquari, e o Santa Rosa, em Itajaí. No Espírito Santo reina o gigantesco Parada Ibiraçu, na cidade de mesmo nome. O posto não teve dúvida em adotar o slogan “Um Oásis na BR-101”. Além deles, temos as grandes redes, como a Graal. Embora com toda essa superprodução, o personagem principal desse enredo ainda é o frentista. Por todo o país, são eles que calibram pneus, trocam cheques e auxiliam motoristas perdidos – com uma precisão mais simpática que a dos GPS. No Espírito Santo, em São Mateus, conversamos com Cláudio de Aquino, 22 anos, frentista desde os 18. Sempre falante com os motoristas, assegura que só uma vez teve problemas: “Falei que a bomba era mais lenta que a justiça. E não é que o dono do carro se zangou, dizendo que era juiz?”.

livro mazuras-especial.indd 97

29/03/12 21:33


Na Bahia, no distrito de Humildes, altura de Feira de Santana, conhecemos Idália Ferreira dos Santos, 36 anos. Frentista há um ano e quatro meses, ela nos garante que o ofício não é mais tão raro entre as mulheres. “Quando alguém chega aqui estressado e com grosseria, respondo com um ‘Bom dia’ e desarmo o sujeito”, diz. Ela se livra facilmente de gracejos. “Os assanhados me chamam de princesa. Eu respondo que a princesa já é rainha e mostro minha aliança”, ri. Por imposição do sindicato local, todos os frentistas da região trabalham com máscara de proteção. Em Santa Catarina, encontramos duas frentistas no mesmo posto, na altura da entrada para Florianópolis: Fernanda de Souza, 24 anos, e Cibele Cristiano, 30. Elas trabalham nas bombas de abastecimento há mais de 4 anos e garantem que conquistaram a credibilidade e o respeito dos motoristas. “No começo havia mais piadinhas e gracejos, mas hoje estão todos acostumados”, garante Fernanda. De inusual está o desmoronamento do posto num dia de chuva. “Aquilo sim foi fora de série, pois caiu um temporal violento e o teto veio abaixo. Eu vi muito machão correndo e soltando gritinhos suspeitos”, comenta Fernanda Em Malhada dos Bois (SE), trabalha Rogério de Assis, 21 anos, com seu chapéu de palha, típico das festas juninas. “Essa é uma ocupação provisória, espero estudar e daqui alguns anos conseguir um outro emprego. Mas não acho ruim aqui não, você conhece gente do país inteiro”, comenta. Cláudio Borges, 37 anos, possui uma vida mais contemplativa. Ele é frentista do posto Moraes, entre Torres e Mostardas, no Rio Grande do Sul. É a única bomba de combustível num trecho de quase 80 km – o fluxo de veículos é bem modesto por lá. Ele atende uma média de 15 veículos por dia. “Aqui as pessoas ainda têm tempo de conversar com a gente, até convidam o frentista para um cafezinho”, garante.

livro mazuras-especial.indd 98

29/03/12 21:33


livro mazuras-especial.indd 99

29/03/12 21:33


O reino encantado das concessionárias Um dos vaticínios das rodovias dita: “Quem gosta de estrada é viajante; caminhoneiro gosta de caminhão”. Além desse apelo existencial, os caminhões são produtos caros e de engenharia complexa. A manutenção desses veículos, que em pouco tempo ultrapassam a marca de um milhão de km rodados, não pode depender de remendos de última hora. Transportadoras e profissionais autônomos aprenderam que a correta atenção à máquina significa segurança, pontualidade e resguardo do patrimônio. Não faz tanto tempo assim, a BR-101 corria o Brasil em terra batida. Transportar cargas nessas condições tinha tintas de aventura épica – e não de uma rigorosa operação de logística. No deserto da paisagem e da falta de infraestrutura aos caminhoneiros, quem primeiro ocupou as margens da rodovia foram as concessionárias de caminhões, muito antes dos superpostos de combustível. “As concessionárias foram o primeiro porto de apoio aos caminhoneiros, tanto que até hoje elas são conhecidas e tratadas como casas”, lembra Luiz Carlos Taoni Neto, diretor da Associação Brasileira de Concessionários Scania. A forma de oferecer serviços e segurança aos clientes levou os concessionários a estreitar as relações com os caminhoneiros e transportadoras. “As casas foram as primeiras a oferecer dormitórios, refeições e todo suporte para quem está na estrada”, frisa Taoni. Um caso ficou emblemático: certa vez,

livro mazuras-especial.indd 100

29/03/12 21:33


livro mazuras-especial.indd 101

29/03/12 21:33


um motorista com o caminhão parado telefonou de um orelhão para o mecânico da concessionária de sua cidade, centenas de kms distante. O mecânico pediu para o caminhoneiro ligar o motor perto do telefone, a fim de ouvir os ruídos. E assim, ele orientou o reparo e fez o diagnóstico do problema. Afinal, cuidava daquele caminhão desde o dia em que deixou a fábrica. Era uma espécie de médico de família. Sempre que um caminhoneiro precisa de socorro local ou de guincho, os concessionários nunca se esquecem de em primeiro lugar providenciar um lanche. “Ele pode estar há horas parado, sem ter o que comer; primeiro vamos atender o caminhoneiro, depois o caminhão”, garante Taoni. Com o tempo, esse apoio se sofisticou. Além de uma série de programas de manutenção, com hora marcada, atendimento local, etc., as redes funcionam até como avalistas. Se alguém precisa de um reparo, mesmo a milhares de km de sua base, pode procurar uma casa da mesma bandeira e ser atendido sem dinheiro – a concessionária de origem aprova o pagamento. O gerente da concessionária Mevepi, de Itajaí (SC), Celso Santos (foto ao lado), nos exemplifica esse tipo de relação estreita. “Nós aqui trabalhamos na entrada do porto de Itajaí, um dos mais movimentados do país. Por isso, recebemos caminhões de todo o Brasil e precisamos fazer com que todos se sintam em casa”, garante. Entre as muitas comodidades oferecidas está o atendimento na longa fila de caminhões que se forma em tempos de safra na entrada do porto. “Vamos fazer o reparo no local, pois quem sai da fila perde a vaga”, assegura Santos.

livro mazuras-especial.indd 102

29/03/12 21:33


livro mazuras-especial.indd 103

29/03/12 21:33


livro mazuras-especial.indd 104

29/03/12 21:34


livro mazuras-especial.indd 105

29/03/12 21:34


Os vigilantes da estrada A figura charmosa dos policiais rodoviários conquistou o imaginário brasileiro desde os anos 1960, com o sucesso de um seriado de televisão, no qual o inspetor Carlos e seu cão, o valoroso Lobo, desbaratavam toda e qualquer contravenção perpetrada nas rodovias. De lá pra cá, os tempos são menos românticos para o dia a dia desses homens da lei. Longe de zelar apenas pelas legislações de trânsito, os oficiais levam uma vida dura no combate direto ao crime, desde suas variantes mais ordinárias até o tráfico de drogas e contrabando de armas pesadas. Números da Polícia Rodoviária Federal mostram que a corporação é responsável por nada menos que 10% das prisões realizadas em todo território nacional – na maioria gente com pendências não acertadas com a Justiça e que trafegava despreocupada pelas rodovias. Nas abordagens, além de checar o veículo, a Polícia Rodoviária passa um pente fino nos condutores e ocupantes. Os policiais foram nossos principais guias nessa jornada, por saberem tudo da estrada

livro mazuras-especial.indd 106

– infelizmente acabaram relegados neste livro, pois só podem aparecer em fotos ou dar entrevistas com autorizações expressas de seus comandantes. Eles são requisitados para todo tipo de ocorrência, de pequenas colisões a bloqueios da estrada, contendas entre moradores até perseguição de suspeitos de sequestro. “Uma rodovia como a BR-101 é um microcosmo do país. Aqui coabitam motoristas responsáveis e bêbados, honestos e bandidos, carros em perfeito estado e caminhões com cargas irregulares com mais de 100 toneladas”, resume um oficial em Pernambuco. O bloco de multas deixou de ser a única arma com a introdução dos sistemas de radares. Mesmo assim, a irresponsabilidade parece não ter fim. “O excesso de velocidade deve ser uma doença incurável do motorista brasileiro”, garante um policial do Rio Grande do Sul. “É inacreditável que um sujeito trafegue a 160 km/h numa rodovia com velocidade máxima permitida de 100 km/h. O que mais nos espanta é o ar desentendido do abordado em flagrante. É sempre assim:

29/03/12 21:34


‘Mas eu não tava correndo, seu guarda...’” Uma das maiores dificuldades da Polícia Rodoviária ao longo de toda a 101 é preservar a carga de um caminhão tombado. Isso acontece de norte a sul do país. “Basta um caminhão virar, e pode ser no lugar mais deserto da estrada, para que em segundos aquilo vire um formigueiro. Pode ser carga de papel higiênico ou de televisor: tudo acaba roubado”, comenta um policial de Alagoas. Esse tipo de ocorrência geralmente é atendida por uma dupla. “Como vamos fazer para prender cem pessoas?”, perguntam. Um oficial catarinense teve uma ideia. “Eu agora fotografo os saqueadores e entrego tudo para a promotoria. Fazer o quê?” Motoristas alcoolizados e caminhoneiros sob efeito de rebites (comprimidos estimulantes) ainda são ocorrências rotineiras. No caso dos caminhoneiros, falta consciência da categoria sobre a carga horária ao volante e seus limites. Aos embriagados falta responsabilidade, pois mesmo em doses moderadas, o álcool altera a capacidade de reação do condutor. 107

livro mazuras-especial.indd 107

29/03/12 21:34


Fernando Pitanga, vencedor do prêmio Melhor Motorista de Caminhão do Brasil; competição teve provas práticas (foto abaixo)

livro mazuras-especial.indd 108

29/03/12 21:34


Dicas de segurança com o Melhor Motorista de Caminhão do Brasil O baiano Fernando Pitanga, 36 anos, não esconde o sorriso largo quando ouve a apresentação: “Esse é o vencedor da competição Melhor Motorista de Caminhão do Brasil de 2010”. Ele brilhou na terceira edição do evento ao se destacar entre os 28.500 concorrentes de todo o país. A disputa, dividida em três fases, começou com as inscrições em concessionárias. A seguir, uma prova teórica selecionou 1.200 candidatos. O filtro avançou para os 30 finalistas, que se enfrentaram na fase final, exibindo as habilidades em check-list, percurso e manobras. Pitanga começou a dirigir caminhões aos 19 anos. Como bom baiano, ele tem verdadeiro xodó pela BR-101. “Ela passa pelo litoral todo, sempre dá para ver uma praia numa parada”, justifica. “A 101 não recebe a mesma atenção das autoridades que a 116, precisariam investir mais. Além dos problemas nas pistas, falta infraestrutura. Na 101, é difícil achar um bom lugar para almoçar depois da uma da tarde”, completa. Mesmo com esses percalços, a 101 é a queridinha dos caminhoneiros. “Todo mundo

livro mazuras-especial.indd 109

prefere viajar por ela”, reafirma Pitanga. A principal dica do melhor motorista do Brasil para seus colegas caminhoneiros é simples e direta: “Cuide primeiro de você, depois confira o caminhão”. A manutenção do equipamento é fundamental, mas as longas jornadas – em média de 12 horas – exigem cuidados redobrados de saúde. Caminhoneiro precisa dormir bem. “E parar por 15 minutos a cada duas horas. Isso não perde tempo. A gente dirige melhor e a estrada rende mais”, garante. Outra regra de ouro de Pitanga é puxar uma poderosa soneca após o almoço. “Sempre durmo uns 45 minutos depois de comer e acordo novinho em folha. Aquele que sabe administrar essas coisas roda o mesmo que o cara que estica”, completa. O bom motorista precisa de interação com a sua máquina. “Para dirigir bem é preciso conhecer seu equipamento a fundo, saber os recursos que o caminhão oferece e a maneira certa de utilizá-los”, garante. Para Pitanga, aquela história de aprender o ofício com o pai ou companheiros mais velhos é coisa

do passado. “Hoje precisamos de cursos, de treinamentos específicos, de preferência com o fabricante, para conhecer a máquina. Além disso, é essencial se especializar nos diferentes tipos de cargas”, conclui. Pitanga também não dispensa a velha e boa conversa nos rádios PX com os irmãos da estrada. Além de garantir companhia na viagem, o rádio alerta sobre ocorrências na rodovia. Na linguagem desenvolvida pelos caminhoneiros, surgiu um idioma próprio da estrada. Seguem alguns exemplos desse dialeto: Pé Rachado: boi, cavalo, ou outro animal na pista Bota: polícia Secador de cabelo: radar manual QRM: acidente Chá de urubu: cafezinho no posto Panela no meio da rodagem: buraco na pista Quarenta janelas: ônibus Geladeira deitada: caminhão com câmera fria Travesseiro de presidiário: caminhão de cimento Palito de gigante: treminhão com eucalipto Suco de confusão: caminhão com carga de cerveja ou cachaça

29/03/12 21:34


livro mazuras-especial.indd 110

29/03/12 21:34


Caminhões versus automóveis, uma batalha sem vencedores O caminhão é um senhor das estradas. Não tem a velocidade e a agilidade dos carros pequenos, mas compensa tudo com sabedoria e experiência. Além da qualificação profissional e da experiência, os caminhoneiros contam com uma perspectiva melhor da estrada, por conta de seu ponto de vista privilegiado pela altura do próprio veículo. Mesmo assim, a maioria dos motoristas de automóveis continua a desdenhar dessas máximas. Para Pitanga, então, a situação poderia ser assim resumida: “Sem querer ofender, mas dá pra dizer que os motoristas de automóvel são os analfabetos das estradas”. Ele vai além: “Posso dizer que eles fazem maldades na estrada, mas por pura inocência”. Além da imprudência – caracterizada pelo abuso da velocidade – a impaciência dos automobilistas pode ser resumida na falta de conhecimento sobre os caminhões. “Acho que deveria haver um treinamento nas autoescolas sobre caminhões, mesmo para quem nunca vai dirigir um na vida. Os motoristas deveriam saber qual é o tempo de frenagem, de aceleração, quais são as cargas perigosas. Muitos acreditam que freio de caminhão foi

livro mazuras-especial.indd 111

feito para ser usado, não sabem que ele é só para emergências”, exemplifica. Para ele, caminhoneiros acabam como babás dos motoristas de carros. “A gente ajuda no alerta das condições da rodovia. Eu, por exemplo, consigo enxergar a profundidade de um buraco, quem tá num carro não”, diz. “Daí muito motorista fica nervoso achando que a gente não dá passagem, mas eu sei que ele vai cair num buraco antes da curva. Eu zelo pela segurança dele”, resume. Caminhões trafegam com velocidade controlada. Por isso, são clássicos os sinais dos caminhoneiros para que os carros realizem ultrapassagens seguras. Pisca ligado à direita é sinal de “pode ir”. Já o pisca esquerdo é sinal de espera. E o pisca alerta ligado é aviso de buraco, acidente ou algum defeito na pista. Nunca ultrapasse nessa situação. “Quando um caminhoneiro dá sinal de passagem, ele até já olhou como está a situação do acostamento, se tem declive. Isso é muito importante no caso de alguém atravessar na contramão. Sabemos que se for o caso, somos nós que teremos de tombar o caminhão no

acostamento numa situação de colisão frontal”, lembra. “Não podemos deixar alguém perder a vida por conta de imperícia”, completa. Outra situação clássica do confronto entre carros e caminhões se dá em ultrapassagens em estradas com quebra-molas. “O motorista acelera tudo e depois joga o carro na frente do caminhão por conta do quebra-molas. Por isso, nós reduzimos quando somos ultrapassados”, recorda. “E o sujeito ainda fica nervoso quando a gente segura ele atrás... Pois eu estou vendo o obstáculo, ele não”. Outro sinal que os caminhoneiros desenvolveram nesse trabalho de anjos da guarda é o de desnível de pista. “É o sinal que o caminhoneiro faz com a mão, parecido com o de fim de jogo dos juízes de futebol”, explica Pitanga. Tal cuidado salvou a vida de muitos motoristas e, mais ainda, de motociclistas. Os toques de farol são outro sinal clássico. Alertam sobre qualquer perigo adiante – não são apenas para avisar da presença da polícia. Por todo esse zelo, os caminhoneiros apreciam os dois toques de saudação de buzina, em sinal de companheirismo de seus colegas de carro.

29/03/12 21:34


BR101  

Teste BR101

Advertisement
Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you