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A MOBILIZAÇÃO SOCIAL NO CONTEXTO POLÍTICO E ELEITORAL


Daniela Rocha Luciana Panke Roberto Gondo Macedo (Orgs)

A MOBILIZAÇÃO SOCIAL NO CONTEXTO POLÍTICO E ELEITORAL

Luiz Ademir de Oliveira Adélia Barroso Fernandes Celene Fidelis Frias Ferreira Daniela Soares Pereira Adolpho Queiroz Rodrigo César Vieira Maria Leonor de Castro Ayala Jeferson Thauny Sylvia Iasulaitis Carmen Pineda Nebot José Geraldo Da Silva Junior Victor Kraide Real Rose Mara Vidal de Souza Isley Borges da Silva Junior Thaís Mocelin


A mobilização social no contexto político e eleitoral Luciana Panke, Roberto Gondo Macedo e Daniela Rocha (Orgs) Comitê Científico Adolpho Carlos Françoso Queiroz Luciana Panke Luiz Ademir de Oliveira Roberto Gondo Macedo Sérgio Roberto Trein Sylvia Iasulaitis Capa Jeferson Thauny Diagramação Rui Fontoura Revisão Noemia Hepp Dados

Internacionais de Catalogação na Publicação (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) A Mobilização social no contexto político e eleitoral [livro eletrônico] / Luciana Panke, Roberto Gondo Macedo, Daniela Rocha (orgs.) . -Capivari, SP : Editora Nova Consciência, 2013. 1 Mb , PDF Vários colaboradores. ISBN 978-85-63448-27-9 1. Campanha eleitoral 2. Comunicação de massa 3. Comunicação e política 4. Mídia 5. Movimentos sociais 6. Opinião pública 7. Participação política I. Panke, Luciana. II. Macedo, Roberto Gondo. III. Rocha, Daniela.

13-02669

CDD-303.38 Índices para catálogo sistemático: 1. Mobilização social no contexto político e eleitoral : Estudos de comunicação de massa e opinião pública : Ciências sociais 303.38

Curitiba: UFPR/Politicom, 2013. Impresso na Imprensa da UFPR

(CIP)


Sumário

Prefácio Luciana Panke‌......................................................................................................................

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Apresentação Daniela Rocha e Roberto Gondo ...........................................................................................

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Espaço público, política e ação comunicativa a partir da concepção habermasiana Luiz Ademir de Oliveira (UFSJ) e Adélia Barroso Fernandes (UNIBH) ..........................

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Aspectos da comunicação pública na cultura da convergência Celene Fidelis Frias Ferreira e Daniela Soares Pereira (UFTO).......................................

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Propaganda Politica e favela: uma leitura do papel das lideranças locais nos anos de 2008 e 2010 Adolpho Queiroz (Mackenzie) e Rodrigo César Vieira (Unimar)......................................

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Movimentos sociais em Ribeirão Preto e Araraquara: um estudo de caso do aumento dos salários dos vereadores em 2012 Maria Leonor de Castro Ayala (Unesp)................................................................................

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Contribuições para o exercício da democracia através dos movimentos sociais virtuais de atuação global: os avanços conquistados pela comunidade Avaaz Jeferson Thauny (UFPR).....................................................................................................

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Websites eleitorais como instrumentos para o cibermarketing, o voto informado ou a participação cidadã? O uso de webs pelos candidatos ao ayuntamiento de Madrid no pleito de 2011 Sylvia Iasulaitis (UFSCar) e Carmen Pineda Nebot (Unesp)................................................

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Conexão e ação: a utilização estratégica da Internet pela “Marcha das Vadias” para mobilização social e ação coletiva no espaço virtual e no território urbano José Geraldo Da Silva Junior (UFPR).................................................................................. 125 Ciclistas, propaganda e eleições 2012: um estudo sobre deliberação e engajamento político na esfera pública online Victor Kraide Real (USP)...................................................................................................... 147 Movimento estudantil no ciberespaço: a mobilização política em redes sociais Rose Mara Vidal de Souza e Isley Borges da Silva Junior (UFU)........................................ 165 Comunicar para mobilizar: a campanha McDia Feliz no Brasil Thaís Mocelin (UFPR).......................................................................................................... 181


Política e mobilização em tempos de comunicação horizontalizada Luciana Panke1

Um dos pontos centrais da política é a participação. Seja em microambiente, como articulações em uma casa legislativa, seja em uma manifestação popular, o posicionamento que os envolvidos tomam, determina o andamento da questão. Propostas que não recebem adesão não prosperam e não passam da etapa da intencionalidade. A conquista do poder, portanto, está diretamente relacionada aos apoios que os atores políticos recebem. Eles necessitam, assim, persuadir os demais a tomar atitudes. E, para ser ouvido, é necessário, em primeiro lugar, ser visível. Neste sentido, a disputa pela visibilidade percorre etapas que articulam fatores contextuais, comunicacionais, ideológicos, partidários e socioeconômicos. Sem dúvida, conquistar adeptos é um processo cuja complexidade abrange diversas áreas. Aqui, o enfoque será a comunicação. A comunicação é entendida enquanto um processo social que se constrói nas relações entre os sujeitos. No sentido etimológico, comunicar adquire o sentido de comunidade, ou seja, tornar comum algo a todos. Independente da corrente teórica, a comunicação enquanto fenômeno, possui várias funções. Entre elas: expressiva, imaginativa, interacional, heurística e regulatória. Cada uma dessas características sinaliza a 1. Doutora em Ciências da Comunicação (USP); Professora da Universidade Federal do Paraná nos cursos de graduação em Comunicação Social (Publicidade e Propaganda) e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação. Vice-Presidente da Sociedade Brasileira de Profissionais e Pesquisadores de Marketing Político (Politicom) e Líder do grupo de Pesquisa “Comunicação Eleitoral”.

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presença intensa da comunicação, no cotidiano. Por isso, ela pode também ser classificada como interpessoal e impessoal. A comunicação interpessoal é conteúdo garantido nos debates sobre relacionamentos afetivos, familiares e pessoais, bem como em inúmeras obras que oferecem um bê-á-bá ou fórmulas mágicas para as pessoas se comunicarem melhor. Não que algumas dicas não sejam pertinentes, entretanto, a eficiência na comunicação é resultado de uma série de fatores psicológicos, culturais, linguísticos, situacionais, só para citar alguns. Aqui se encontra a comunicação horizontalizada, e, quando guardadas as devidas aplicações, dependendo do contexto, é onde indivíduos trocam informações/afetos/opiniões, em um nível mais próximo. Num segundo estágio, a comunicação se torna impessoal enquanto um fenômeno de massa, ou seja, a mesma mensagem é transmitida a milhares de pessoas simultaneamente, com o auxílio dos veículos de comunicação. Nesta perspectiva, inserem-se as discussões acerca da informação e da desinformação, como consequências possíveis devido à massificação. É o que se chama de comunicação verticalizada: um emissor transmitindo conteúdo para receptores que não retroalimentariam o processo. O questionamento sobre a forma de seleção de quem seriam esses sujeitos emissores e, consequentemente, o conteúdo veiculado por eles, gera discussões sobre o que seria a democracia dos meios. Com base em Keane 2 (1991), Prudencio (2010) argumenta que: a questão da democratização da comunicação, para além do ideal liberal de liberdade de imprensa, atenta para a existência de um dilema entre a meta universalista de empoderar todos os cidadãos por mecanismos que os habilitem a expressar suas opiniões coletivamente, e a meta pluralista de assegurar que uma variedade de opiniões possa ser expressa por cidadãos particulares, os quais representariam um ‘público’ (PRUDENCIO, 2010, p. 267).

Entretanto, mesmo que neste modelo verticalizado não haja espaço para uma efetiva troca, ainda que o receptor seja suposto como heterogêneo, há a interpretação que depende de cada sujeito. Al definir su propio significante en el proceso de recepción del mensaje significado, el receptor construye el significado del mensaje a partir de los materiales del mensaje enviado, pero incorporándolos en otro campo semántico de interpretación (CASTELLS, 2012, p. 179).3 2  KEANE, John. The media and democracy. Cambridge: Polity Press, 1991. 3  “Ao definir seu próprio significante no processo de recepção do significado da mensagem, o receptor constrói o significado a partir de elementos da mensagem enviada, mas os incorporando em outro campo semântico de interpretação” (tradução livre)

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Isso favoreceria a construção de um cenário onde as interpretações possam ser compartilhadas por sujeitos diversos. A horizontalização, assim, se configura como uma realidade a partir do momento em que instrumentos de compartilhamento se popularizam, possibilitando troca entre sujeitos que não necessariamente, já se conheciam antes. Castells (2012) crítica a visão do setor da comunicação e dos anunciantes que considerariam o público ainda como objeto e não como sujeitos da comunicação e propõe o que denomina como “audiência criativa”. Para o autor, a diversidade dos canais de comunicação possibilita a escolha do que e como consumir. Além disso, a audiência criativa estaria se inserindo, gradativamente, na “cultura da autonomia” e na autocomunicação de massas. Novos sujeitos ganham visibilidade trocando mensagens, construindo novos espaços e sentidos a partir de múltiplos canais de comunicação. Entre eles, destaca-se a Internet, enquanto plataforma de veiculação que possui formatos diversos para o intercâmbio entre usuários. O destaque para a Internet é inevitável e se deve, em especial, à sua popularização entre diversas camadas da sociedade. “Conduzindo a novas formas de comunidade, a internet proveria um espaço de encontro de pessoas com interesse comuns, independentemente de noções como local, horário, situação econômica, religião e raça” (MATOS, 2009, p. 137). Castells (2012) defende, aqui, a presença da comunicação horizontalizada. Las redes de comunicación horizontales basadas en Internet se activan gracias a sujetos comunicativos que determinan tanto el contenido como el destino del mensaje y son al mismo tempo emisores y receptores de flujos de mensajes multidireccionales (CASTELLS, 2012, p. 181.)4

Há algumas décadas, essa possibilidade de troca múltipla era inviável. “Mientras en el esquema del emisor sólo hablan los que pueden acceder a los medios a través de campañas organizadas, en la era del actor social, la visibilidad es de cualquiera que asume una acción ciudadana ” (AMADO, 2011, p. 26) Enquanto Amado (2011) acredita que a ação cidadã possa ser conquistada a partir da possibilidade do espaço disponível para manifestações, Prudencio (2010) se mostra mais cética ao afirmar que “o ideal da 4  “As redes de comunicação horizontal, baseadas na Internet se ativam graças a sujeitos comunicativos que determinam tanto o conteúdo, como o destino da mensagem e são, ao mesmo tempo, emissores e receptores dos fluxos das mensagens multidirecionais” (tradução livre).

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‘comunicação de mão dupla’ mostra-se difícil de atingir, ainda que haja espaço para interação com os usuários das mídias” (PRUDENCIO, 2010, p. 266). Isso significa que não é porque existe um local para expor opiniões que essas opiniões seriam expostas. Entretanto, quando realizadas, as ações ganham força ao se publicizarem e angariarem adesões, estendendo ações offline para o espaço on-line. “Quando os internautas continuam mantendo seus hobbies e interesses políticos offline, supõe-se que a internet possa contribuir para ampliar os padrões existentes de contato social e de envolvimento cívico” (MATOS, 2009, p. 140). O envolvimento ao qual a autora se refere diz respeito a causas que alguns cidadãos assumem e tomam iniciativa para se unir a outros que pensam igual. De la comunicación de masas dirigida a una audiencia hemos pasado a una audiencia activa que se forja su significado comparando su experiencia con los flujos unidireccionales de la información que recibe. Por tanto, observamos la aparición de la producción interactiva de significado (CASTELLS, 2012, p. 184). 5

O conteúdo produzido, publicizado, articulado pode ganhar proporções que aproximam pessoas com interesses em comum. Assim, a mobilização torna-se uma etapa que ocorre a posteriori quando o engajamento se fortalece. O lugar das TIC’s na comunicação dos movimentos sociais evidencia que a tecnologia não é apenas instrumento de veiculação de informação, mas que opera um processo de mediação e, portanto, um trabalho reflexivo, no qual a estratégia de comunicação interna – a mídia ativista – comunica a estratégia de comunicação externa – as intervenções na mídia (PRUDENCIO, 2010, p. 269).

Vive-se, portanto, um momento de alteração do que se entendia como comunicação social enquanto um sistema verticalizado, unilateral e antidemocrático, para um modelo horizontalizado com potencial para participação e mobilização de múltiplos sujeitos em múltiplos canais. Diante desse quadro, as pesquisas em comunicação também se alteram, observando ações coletivas e entendendo como esse processo se articula. O que, de fato, é inegável, são as mudanças nas relações políticas a partir dessa nova configuração. . O que se espera é que a coexistência entre esses dois modelos gere consequências favoráveis para a sociedade. 5  “Enquanto no sistema de emissor só falam os que conseguem chegar aos meios de comunicação através de campanhas organizadas, na era do ator social, a visibilidade é de qualquer um que tome uma ação cidadã” (tradução livre).

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REFERÊNCIAS AMADO, Adriana. Auditoría de la comunicación. Buenos Aires: La Crujía, 2011. CASTELLS, Manuel. Comunicación y Poder. México: Siglo XXI, 2012. MATOS, Heloiza. Capital social e comunicação. Interfaces e articulações. São Paulo: Summus, 2009. PRUDENCIO, Kelly. Mobilizar a opinião pública: sobre a comunicação dos ativistas políticos. In: MIGUEL, Luis Felipe; BIROLI, Flávia. (orgs) Mídia – representação e democracia. São Paulo: Hucitec, 2010, p. 260273.

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Apresentação Daniela Rocha1 Roberto Gondo2

Historicamente, as grandes transformações sociais se pautam na união e ação daqueles que pleiteiam pelo bem-estar coletivo. Apesar de o Brasil possuir recente entendimento democrático e o advento das novas tecnologias alterarem a conduta e até mesmo os valores de boa parte dos cidadãos, o país galga os passos rumo à democracia deliberativa, na qual os representados possuem voz, junto aos representantes. Nesta obra se comprova que as mobilizações sociais permitem que os cidadãos possuam maior participação junto às decisões pertinentes à sociedade, transparecendo aos representantes políticos que os eleitores não se comportam mais, meramente, como uma massa alienável e receptora de decisões que não condizem com a melhoria de vida da coletividade. Com o advento das novas tecnologias e a diversidade de programas de troca de informações, o ciberespaço se tornou o local onde as insatisfações e as reivindicações dos cidadãos são propagadas e compartilhadas. 1. Mestre em Comunicação Social pela UMESP. Diretora Editorial da Sociedade Brasileira de Pesquisadores e Profissionais de Comunicação e Marketing Político (POLITICOM). Membro do Grupo de Pesquisa de Comunicação Pública e Política (ECA/USP). Consultora política e eleitoral. 2. Doutor em Comunicação Social, com Pós-doutorado em Ciências da Comunicação em desenvolvimento pela Universidade de São Paulo. Mestre em Administração com ênfase em regionalidade pela USCS. Preside a Sociedade Brasileira dos Pesquisadores e Profissionais de Comunicação e Marketing Político – POLITICOM. Docente dos cursos de Pós-Graduação Lato Sensu na Universidade Presbiteriana Mackenzie e Universidade Metodista de São Paulo.Consultor político nas áreas de gestão e comunicação estratégica.

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Torna-se assim, um espaço propício para a articulação de mobilizações que beneficiam a coletividade. É inquestionável que a implantação desse modelo de atividade política participativa é uma tarefa árdua, que requer mobilização, participação, consciência e principalmente, princípios de cidadania e solidariedade bem alicerçados. Entretanto, no transcorrer das páginas desta publicação, se percebe que já existem casos exitosos e representativos. Diante deste contexto, a Sociedade Brasileira de Pesquisadores e Profissionais de Comunicação e Marketing Político, POLITICOM, por intermédio do Comitê Editorial, selecionou dez artigos de pesquisadores renomados nas áreas de comunicação e política, a fim de propagar pesquisas que permeiam a discussão da mobilização social no contexto político e eleitoral, tanto no aparato conceitual quanto nos estudos de casos espalhados pelo mundo. No transcorrer das páginas desta publicação disponibilizam-se estudos que denotam as perspectivas e os problemas dessa nova conjuntura social que gradativamente, influencia as decisões e as posturas de representantes políticos, contribuindo assim, para a construção de uma esfera pública mais condizente com as demandas da população. O livro tem início com a discussão sobre o panorama do pensamento habermasiano a partir da mudança do paradigma da consciência para o paradigma da comunicação. Os autores Luiz Ademir de Oliveira e Adélia Barroso Fernandes discorrem sobre a perspectiva do último representante da Escola Frankfurt que até os anos de 1980 entendia o espaço público como decadente e refeudalizado. Contudo, após se desligar da teoria frankfurtiana, Habermas atesta que “os sujeitos interagem no espaço público e podem interferir na realidade social”, graças aos múltiplos espaços públicos, inclusive o ciberespaço, que permitem a pluralidade de vozes. Já no segundo capítulo, as autoras Celene Fidelis Frias Ferreira e Daniela Soares Pereira enaltecem a importância da adoção, por parte dos órgãos públicos, de práticas comunicativas que estimulem o diálogo e a participação dos cidadãos nas questões públicas, enxergando na cultura de convergência uma forma de interação social e de relacionamento dos públicos com as mídias. Essa constatação estimula os cidadãos à participação pública, tornando-os ativos e corresponsáveis. No terceiro capítulo, acompanha-se um estudo de caso realizado no Conjunto Habitacional Monsenhor João Batista Toffoli, localizado na cidade de Marília, interior do Estado de São Paulo, no qual os autores 14


Adolpho Queiroz e Rodrigo Cesar Vieira constataram que “as populações envolvidas em uma cultura de favela tendem a votar ou a se abster nas eleições a partir das orientações de lideranças locais, e não pela decodificação pessoal do conteúdo midiático produzido pela equipe de marketing eleitoral”. Através de entrevistas com moradores, os pesquisadores fizeram um levantamento das características das lideranças locais e concluíram que “qualquer grupo social reproduz, em algum momento da sua história, as convicções éticas e políticas das figuras de autoridade que o conduzem”. Já no quarto capítulo, a autora Maria Leonor de Castro Ayala analisa os movimentos sociais realizados nas cidades de Ribeirão Preto e Araraquara - ambas localizadas no interior do Estado de São Paulo - fomentados pelas propostas de reajuste salarial dos representantes do Poder Legislativo dos respectivos municípios. Maria Leonor apropria-se da análise das mobilizações no ciberespaço e constata que os movimentos “tiveram característica de interação, descentralização e organização em torno de uma luta por maior inserção no cenário social que são marcas do ciberativismo”. No capítulo cinco, Isley Borges da Silva Junior e Rose Vidal utilizam-se da metodologia de análise documental para resgatar a história da política estudantil brasileira e a recente atuação da União da Juventude Socialista, formada pela juventude do PC do B (Partido Comunista do Brasil). O estudo elenca a participação da UNE (União Nacional dos Estudantes) em programas governamentais no setor de educação como o REUNI (Reforma Universitária) e PROUNI. Entretanto, ressaltam os entraves da atualidade devido às características do sujeito pós-moderno, desapegado das instituições tradicionais. Já no sexto capítulo, Sylvia Iasulaitis e Carmen Pineda Nebot explicitam a utilização do ciberespaço por parte dos eleitores e dos staffs de campanha dos candidatos ao Ayuntamiento de Madrid, no pleito de 2011. Elas constatam que apesar de 55% dos espanhóis terem participação ativa no ciberespaço, o país está entre os que têm menor procura em rede para informação política. Contudo, o ciberespaço é melhor utilizado para a atividade de contrapropaganda do que para a participação ativa e propagação de propostas de governo. Além disso, elas concluem que se instituiu “uma relação vertical e não horizontal entre representantes e representados”. No capítulo seguinte, Jeferson José Thauny resgata a História e analisa a atuação da comunidade Avaaz, movimento lançado em 2007 15


com o objetivo de “mobilizar pessoas de todos os países para construir uma ponte entre o mundo em que vivemos e o mundo que a maioria das pessoas querem”. Para tanto, ele conceitua a mobilização social e enaltece a crise de representativa da política convencional. O estudo comprova a aproximação dos indivíduos com o processo democrático através do compartilhamento de perspectivas de futuro, propagadas em rede. Dessa forma, o artigo aponta que “o ciberespaço e os movimentos sociais permitem a reinserção dos cidadãos ao processo democrático”. No oitavo capítulo, Victor Kraide Real tem como foco de pesquisa os posicionamentos e as mobilizações - civil e governamental – do poder municipal do maior Estado do país e das entidades Ciclocidade e Instituto CicloBR quanto ao crônico problema de mobilidade de São Paulo. Utilizando os conceitos de Habermas, mensurado conceitualmente no primeiro capítulo desta publicação, Real aponta as mobilizações e as repercussões ocasionadas no ciberespaço, focadas na importância do engajamento político na esfera pública. No penúltimo capítulo, José Geraldo da Silva Junior apresenta a história da “Marcha das Vadias” e seus desdobramentos no evento realizado em Curitiba, Paraná, em 2012. No artigo ele faz uma elucidação minuciosa da propagação das mensagens mobilizatórias realizadas no ciberespaço, tomando como parâmetro as diferentes ferramentas de rede utilizadas pelo movimento, como também o teor dos discursos propagados, formado por mensagens de motivação, solidariedade, cidadania, e principalmente, de estímulo à participação civil. Conclui-se a publicação com o estudo de caso da campanha do Mc Dia Feliz, realizada em Curitiba, em 2012. A autora Thais Mocelin enaltece a história da campanha, de abrangência mundial e apresenta a entidade de saúde beneficiada com a campanha curitibana, os voluntários da Rede Feminina de Combate ao Câncer e os questionamentos múltiplos quanto à ação realizada por uma empresa alicerçada pela alimentação fastfood, comprovadamente nociva à saúde. Espera-se que as ponderações, desdobramentos e entraves elencados no transcorrer destes dez artigos que formam esta obra editorial, sejam contributivos para novas investigações no campo, fomentando assim, o entendimento da conjuntura social e comunicacional e os impactos do ciberespaço na construção da democracia deliberativa mundial.

Boa leitura! 16


Espaço público, política e ação comunicativa a partir da concepção habermasiana Public space, political and comunicative action from the conception habermasiana Luiz Ademir de Oliveira1 Adélia Barroso Fernandes2

RESUMO O presente artigo traz uma discussão sobre o pensamento do filósofo Jürgen Habermas, tomando como foco de debate as questões pertinentes ao espaço público, à política e ação comunicativa. Pretende-se mostrar como o autor trabalha tais perspectivas em dois momentos de sua obra. Num primeiro momento, quando Habermas estava ainda vinculado a uma perspectiva crítica próxima do pensamento da Escola de Frankfurt, quando mostra, ao longo do processo histórico, como o espaço público tornou-se decadente e refeudalizado. Num segundo momento, nos anos 80 do século XX, o autor altera seu pensamento ao elaborar a teoria da ação comunicativa e adota uma perspectiva otimista sobre o espaço público, a democracia. Toma como pressuposto o agir comunicativo que alimenta uma permanente interlocução entre os sujeitos nos 1. Mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Mestre e Doutor em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro (IUPERJ). Atualmente, é docente e pesquisador da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) e é Diretor Científico da Sociedade Brasileira dos Pesquisadores e Profissionais de Marketing Político (POLITICOM). 2. Mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Doutora em Linguística pela UFMG. Atualmente, é docente e pesquisadora do Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH).

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Espaço público, política e ação comunicativa a partir da concepção habermasiana

múltiplos espaços públicos. Isso aponta para novos significados, não somente para a compreensão do espaço público, mas para o entendimento da política ou democracia deliberativa. PALAVRAS-CHAVE: Filosofia política; espaço público; ação comunicativa. ABSTRACT This paper discusses the thoughts of philosopher Jürgen Habermas, having the debates related to the public sphere, politics and communicative action as the main focus. It intends to show how the author deals with these perspectives in two different moments of his work. In a firs moment, when Habermas was related to the critical perspective of Frankfurt School. Habermas shows, during the historic process, how the public space became decadent and re-feudaled. In a second moment, in the 1980’s, the autor changes his thoughts, elaborating on the communicative action theory and adopting an optimistic perspective about the public space, the democracy. He takes the stand of the communicative act as feeding a permanent interlocution between the subjects in the multiple public spaces. This points to new meanings, not only about public spaces, but also the politics of deliberative democracy. action

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KEYWORDS: Politic Philosophy; Public space; Communicative


Espaço público, política e ação comunicativa a partir da concepção habermasiana

CONSIDERAÇÕES INICIAIS Ao propor uma discussão sobre o pensamento do filósofo Jürgen Habermas, é importante definir dois momentos cruciais de sua trajetória acadêmica. 3 Da década de 1960 aos anos de 1980, o autor teve as suas obras marcadas pela influência do pensamento da Escola de Frankfurt, sendo considerado um dos herdeiros desta corrente. Trabalhou com Adorno e escreveu livros e artigos em que, assim como os filósofos da Teoria Crítica, apontava uma crise no projeto de emancipação propagado pelos iluministas. Via no Esclarecimento não uma libertação, mas a criação de novas formas de domínio pela racionalidade técnica. 4 Nessa fase do seu pensamento, suas obras são marcadas por uma linha crítica e pessimista em relação ao processo de emancipação do sujeito. Em “Mudança estrutural da esfera pública”, publicado em 1962, o autor traça um panorama da relação entre as esferas pública, privada e íntima da Grécia Antiga ao século XX a fim de demonstrar como o Iluminismo demarcou o início da decadência da vida pública. De forma perversa, provocou uma inversão – a publicização da esfera privada e a privatização da vida pública. Nas suas outras obras, como “Técnica e ciência como ideologia” e “Conhecimento e interesse”, publicadas em 1968, o autor reforça os seus argumentos críticos em relação ao Esclarecimento. No entanto, nos anos de 1980, Habermas mudou seu pensamento e fez uma revisão de suas teses, provocando certa ruptura com o pensamento frankfurtiano. É quando o autor formula a teoria da ação comunicativa, publicada em 1981. Adota, então, uma postura otimista sobre a modernidade e passa a trabalhar com o paradigma da comunicação, compreendendo a sociedade como uma permanente tensão entre o mundo sistêmico e o mundo da vida. A partir do novo paradigma do agir comunicativo, o autor publica   3  Jürgen Habermas nasceu em 1929, lecionou Filosofia em Heidelberg, de 1961 a 1964 e Filosofia e Sociologia, em Frankfurt de 1964 a 1971. De 1971 a 1973 dirigiu em Starnberg, o Instituto Max Planck para Pesquisa das Condições de Vida do Mundo Técnico-Científico. A partir de 1983 voltou a lecionar na Universidade Johann Woflgang Goethe, em Frankfurt. 4  Habermas pode ser considerado o último representante da Escola de Frankfurt, com a morte de Adorno, Horkheimer e Marcuse. Não se limita, no entanto, a continuar a tradição da teoria crítica. Trabalhou com assistente de Adorno na década de 60, mas depois rompeu com a Escola de Frankfurt. Em 1980, com a publicação da “Teoria da ação comunicativa”, o autor dá uma “guinada” em seu pensamento, abandonando a linha pessimista dos frankfurtianos

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Espaço público, política e ação comunicativa a partir da concepção habermasiana

várias obras em que discute a relação espaço público, política, democracia e direito, entre as quais “Consciência moral e agir comunicativo” (1983), “Direito e democracia: entre a facticidade e validade” (1997), “A constelação pós-nacional” (2001). Tais trabalhos têm como ponto comum o novo olhar que o autor lança a partir da concepção de que os sujeitos interagem no espaço público e podem interferir na realidade social. Com base nesses dois momentos da obra do autor, o artigo tem como um dos objetivos traçar um panorama do pensamento habermasiano a partir da mudança do paradigma da consciência para o paradigma da comunicação. Pretende discutir, num primeiro momento, a concepção de uma esfera pública refeudalizada, de uma política esvaziada e de uma razão instrumental sob o domínio da indústria cultural, ligado, ainda, a uma visão frankfurtiana. E, a partir da teoria da ação comunicativa, apresentar a concepção de uma nova proposta de “Esclarecimento”, a partir da concepção de esferas públicas múltiplas, de uma política deliberativa e da ação comunicativa. Parte-se de algumas premissas em relação ao pensamento de Habermas. Em primeiro lugar, pode-se afirmar que há uma mudança do paradigma da consciência presente nos trabalhos ligados à concepção frankfurtiana para o paradigma da comunicação que marca as obras do autor a partir dos anos 80 do século XX. Neste sentido, se antes Habermas via um espaço público refeudalizado e decadente, a partir do novo paradigma, acredita na existência de espaços públicos múltiplos com uma pluralidade de vozes. Da mesma forma, de uma política esvaziada e submetida à mistura entre público e privado, tem-se uma política deliberativa. Emerge, então, uma arena pública em que os sujeitos não são mais vistos como meros objetos da indústria cultural, mas participantes ativos do debate, da negociação e da interlocução. Ao trabalhar com o paradigma da comunicação, Habermas faz uma releitura de sua concepção de Esclarecimento. Para o autor, as pessoas são herdeiras do progresso técnico e do pensamento iluminista, assim como viam os frankfurtianos. No entanto, ele afirma que o Iluminismo gerou uma crise desencadeada pela ciência e pela técnica por um projeto falido da modernidade na sua perspectiva positivista. Por isso, ele propõe uma revisão, uma crítica ao Esclarecimento. Quanto ao seu vínculo com a Escola de Frankfurt, Habermas não abandona muitos dos pressupostos críticos da corrente. No entanto, vê as limitações da Teoria Crítica, principalmente, porque em seus argumentos os frankfurtianos subestimaram as tradições democráticas do Estado de Direito e não consideraram a mudança na estrutura da esfera pública. 20


Espaço público, política e ação comunicativa a partir da concepção habermasiana

A partir do paradigma da comunicação, o pensamento habermasiano pode ser analisado com base em alguns pressupostos: i) a diversificação das fontes de inspiração – ele utiliza o que considera ser a produtividade mediadora, o método construtivista e o círculo hermenêutico; ii) guinada linguística ou pragmática formal, quando busca apoio em quatro teorias (teoria do agir comunicativo, teoria da sociedade, teoria da racionalidade e teoria da modernidade); iii) novo papel da Filosofia – que não deve mais assumir o papel de juiz frente às ciências e à cultura, mas cooperar com as ciências como intérprete num processo dinâmico sem pretensões de verdades absolutas; iv) a hermenêutica macroscópica – que toma como base o paradigma da interpretação e vê no cientista social um intérprete, o que gera uma relativização das ciências. Tomando como base os dois momentos e os dois paradigmas resultantes do pensamento de Habermas, o artigo apresenta a sua concepção sobre espaço público, política e ação comunicativa. O ESPAÇO PÚBLICO SOB A ÓTICA HABERMASIANA NO PARADIGMA FRANKFURTIANO O conceito de esfera pública moderna ou burguesa tornou-se conhecido a partir da obra “Mudança estrutural da esfera pública”, de Jürgen Habermas, publicada em 1962, quando o autor apresenta uma visão crítica em relação à instituição da esfera pública. Habermas (1984) descreve a decadência da esfera pública associando tal processo à consolidação do capitalismo e à emergência dos grandes conglomerados de comunicação de massa, principalmente no século XX. Ao traçar um panorama histórico de como a esfera pública e a esfera privada se estruturaram até chegar a uma mistura entre as duas instâncias na modernidade, Habermas chega a uma visão crítica que aponta a decadência da vida pública. Na concepção do autor, ao longo dos séculos, mais especificamente com a tomada de poder pela burguesia e a emergência do capitalismo, a esfera pública passou a ser progressivamente esvaziada pela expansão de um Estado intervencionista, que tem um caráter semi-público. Para Habermas, é o capitalismo, sob o domínio das grandes empresas, que força o Estado a intervir no setor privado, a favor da economia de mercado. No entanto, é importante retomar o panorama traçado pelo autor 21


Espaço público, política e ação comunicativa a partir da concepção habermasiana

sobre a relação entre o público e o privado para compreender tal mudança estrutural da esfera pública. Segundo Habermas, na Grécia Antiga, nas cidades-estado, a esfera da polis, espaço que era compartilhado por todos os cidadãos livres, era bem distanciada da esfera privada – oikos. Mas para participar da vida pública na polis o cidadão tinha que ter autonomia na sua vida privada. Por isso, estavam excluídos os homens que não tinham bens, as mulheres e os escravos. Apesar da riqueza do modelo de democracia da Grécia Antiga, havia o problema da exclusão de determinadas parcelas, como é o caso das mulheres. No entanto, a vida pública se centrava em debates de interesse coletivo, em que as questões privadas não apareciam. Prevaleciam a participação, a argumentação e a deliberação, pontos cruciais para a compreensão da democracia. Na Idade Média europeia, houve uma junção entre as esferas pública e privada na figura do senhor feudal. Não havia mais uma separação entre esses dois domínios. A autoridade do senhor feudal representava ao mesmo tempo o poder privado sobre a família e os seus vassalos, assim como exercia um controle público sobre a área de seu domínio. Habermas afirma que, com o fim do Feudalismo e o surgimento do capitalismo, novas mudanças ocorreram na distinção entre público e privado. No início do capitalismo, começou a troca de mercadorias e de informações. As primeiras cidades ou burgos surgiram com a queda de poder dos senhores feudais. Foi naquela época que, em busca de uma maior centralização do poder, despontaram as monarquias absolutistas. Hannah Arendt, citada por Habermas (1984), afirma que ocorreu também o processo de formação do social, em que a economia moderna não se orientava mais pela economia doméstica (oikos) como na Grécia Antiga, mas, no lugar da casa, inseriu-se o mercado, transformando-se em economia comercial. A nova esfera privada, então, ficou subordinada ao poder público. Habermas explica que, para atender às exigências desse capitalismo incipiente, surgiu a imprensa na sua primeira fase – a chamada imprensa artesanal que servia como forma de intercâmbio de informações comerciais. Paralelo à emergência de um moderno aparelho de Estado, Habermas explica que surgiu uma nova camada social – a da burguesia, que assumiu uma posição de protagonista no processo histórico. O autor afirma que, a priori, a esfera pública burguesa deve ser compreendida como uma instância de sujeitos reunidos em público. Os burgueses são pessoas privadas, ou seja, não governam, não exercem funções públicas. Daí que surge a crescente pressão da burguesia 22


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contra o Estado. Trata-se da sociedade que se diferencia do estatal e vai cobrar, principalmente, a não interferência deste nas questões privadas. Os burgueses são críticos ao princípio de dominação do Estado. Institui-se uma polarização entre o setor privado (constituído pela sociedade civil) e a esfera do poder público (o Estado). Habermas explica que, como instâncias intermediárias, podem ser citadas a esfera pública literária (clubes, cafés, imprensa etc.) e o mercado de bens culturais. A tarefa política da esfera pública estava relacionada à regulamentação da sociedade civil. O privado também é entendido em duas esferas: o privado ligado à ideia de mercado e o privado que remete ao ambiente íntimo e familiar. Se Habermas aponta uma polarização entre a sociedade (formadas pelos burgueses) e o poder estatal, torna-se compreensível o surgimento de um novo tipo de imprensa. Trata-se da imprensa político-literária, utilizada pelos burgueses para disseminar os seus ideais contra o poder estatal exercido pela aristocracia. Essa imprensa era resultado do que os burgueses discutiam nos espaços públicos, como salões e cafés. Era uma imprensa extremamente opinativa, que reunia o público literário e crítico, tendo em vista os ideais de transformação na época da burguesia. Um dos pontos centrais defendidos pela burguesia, que ainda não estava no poder, era a não intervenção do Estado nos assuntos privados, ou seja, deveria prevalecer o Estado Liberal de Direito, em que fossem garantidos os princípios jurídicos de proteção ao livre mercado. “O Estado de Direito enquanto Estado burguês estabelece a esfera pública atuando politicamente como órgão do Estado para assegurar institucionalmente o vínculo entre lei e opinião pública” (HABERMAS, 1984, p. 101). Fica claro que a ideia burguesa era de que o Estado de Direito pregava, de certa forma, a extinção do Estado. Enquanto não esteve no poder, a burguesia defendeu o Estado Liberal de Direito. Mas Habermas descreve como esse ideal burguês foi pervertido quando ele se refere ao que chama de mudança estrutural da esfera pública burguesa. Na prática, a burguesia começou a agir de forma contrária ao que pregava. Aos poucos, a concepção, por exemplo, de um mercado livre foi sendo substituída pela emergência de mercados oligopolizados e, gradativamente, as diferenças sociais foram se ampliando entre proprietários e assalariados, o que obrigou o Estado a ser mais intervencionista. Os burgueses começaram a se infiltrar no Estado para garantir os seus privilégios. Eles perverteram o princípio básico de distinção entre público e privado. A burguesia passou a privatizar o que é da ordem do 23


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público, isto é, começou a se apossar de bens públicos para atender aos interesses privados, como ocorrem com os grupos e oligopólios até hoje. Por outro lado, houve uma publicização do privado, em que questões que deveriam ser mantidas na esfera privada passaram a ser tratadas como questões públicas. Isso pode ser citado, como exemplo, nos casos em que os líderes políticos são avaliados pelos seus atributos pessoais e não pelos atributos públicos. Habermas afirma que, nos cem anos que sucedem ao período áureo do liberalismo, num capitalismo que pouco se organizou, dissolveu-se a relação originária entre esfera pública e privada, decompondo-se os contornos da esfera pública burguesa. A esfera pública, segundo o autor, perde a sua função política e a publicidade crítica. Com a interpenetração progressiva entre a esfera pública e o setor privado, há uma desfiguração da vida pública. Há uma concentração de capital, e o intervencionismo estatal rompe o modelo liberal de livre concorrência. O Estado intervém constantemente na esfera privada, havendo uma crescente conexão entre a tendência à concentração de capital e um crescente intervencionismo estatal. Habermas afirma que essa nova interdependência de esferas pública e privada rompe com o sistema clássico de Direito Privado. Com isso, têm-se muitas transformações na sociedade. O público crítico e literário dos salões e cafés cede espaço a um público consumidor de cultura, que no século XX dá vigor ao surgimento da chamada indústria cultural. A imprensa entrou, então, numa terceira fase, quando deixou o lado opinativo e passou a se concentrar em conglomerados. O jornal transformou-se em mercadoria. Os bens simbólicos passaram a ser comercializados. Ocorreu, então, a decadência da esfera pública burguesa. Habermas diz que o surgimento dos meios de comunicação de massa acelera esse processo de decadência da esfera pública, uma vez que a cultura difundida pela mídia é a cultura de consumo, com fins manipulatórios. A discursividade adquire a função de seduzir o público. O surgimento da imprensa desencadeou transformações na forma da organização social. Uma mudança relevante, trazida pelo surgimento dos jornais e da , seria a não-necessidade de se compartilhar um mesmo espaço físico para estabelecer um processo comunicativo. O autor argumenta que há um processo que se chama de refeudalização da esfera pública, tendo em vista que os grandes conglomerados de empresas controlam não somente o mercado como interferem no poder estatal. Há uma mistura perversa entre público e privado. A esfera pú24


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blica, entendida como espaço de disputas discursivas e argumentativas, cedeu espaço ao modelo determinado pelo mercado, ou seja, um modelo imposto pela esfera privada. A ideia que permeava a esfera pública, como a instância de participação, argumentação e deliberação, perdeu-se numa esfera de controle por parte de grupos privados. Mesmo com uma visão pessimista, ao inserir em sua discussão questões da ordem cultural na esfera pública, Habermas já sinalizava para mudanças em seu pensamento que ganham força com o lançamento da teoria da ação comunicativa, quando ele adota outra postura a partir do “paradigma da comunicação”. HABERMAS E UMA NOVA PERSPECTIVA SOBRE A ESFERA PÚBLICA Nas recentes análises de Habermas sobre o papel da comunicação e da esfera pública nas sociedades modernas, é possível vislumbrar um prognóstico social mais otimista, já que dá enfoque aos processos emancipatórios da sociedade civil, que força transformações nos padrões hegemônicos tanto da distribuição das riquezas, como dos estatutos legais e até do próprio padrão cultural da sociedade. Habermas distingue o mundo sistêmico, compreendido pela economia e pelo aparato estatal, do mundo da vida, constituído pela esfera da vida privada e associativa. Esses dois universos têm formas distintas de comunicação e são interligados pelas esferas públicas plurais contemporâneas. O mundo sistêmico se pauta na lógica instrumental, nas relações impessoais, na busca de resultados que atendam ao bom desempenho administrativo e técnico do Estado, ao lucro e à produtividade do mercado. Os indivíduos se relacionam no mundo sistêmico pela lógica do consumo de bens e serviços e pela venda da força de trabalho, quando se trata do mercado, e pela lógica do clientelismo (impostos) e da cidadania política (votos e apoio às decisões políticas), quando se refere à relação com o Estado. O mundo sistêmico privilegia a comunicação para o sucesso e é o lugar em que a coordenação de ação prescinde da coordenação de linguagem. Os meios de controle e os meios de integração orientam-se para obtenção de resultados (HABERMAS, 1989) Como explica Bárbara Freitag (1993), ao discutir o mundo sistêmico, Habermas segue o paradigma da modernidade da sociedade formulado por Max Weber, já que o autor identifica a racionalização com 25


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a modernização. Ao partir da tese de que a racionalização se identifica com a modernização, ele conclui que a modernidade é o próprio mundo racionalizado da economia capitalista, do Estado burocrático moderno, das esferas de valor da ciência, arte e moral. Mas Freitag explica que, para a concepção weberiana, a modernidade que ocorreu no Ocidente levou ao desencantamento do mundo, que gerou uma perda de significado e de liberdade para os homens. Freitag explica que Habermas concorda com o diagnóstico weberiano em relação à modernização da economia e do Estado, mas aponta certas simplificações no pensamento weberiano. Conforme explica a autora, na crítica habermasiana, o sociólogo restringe a sua análise pelas formas de institucionalização da ética do trabalho no moderno sistema econômico, sem compreendê-la no contexto das outras esferas da vida. Prevalece apenas a razão instrumental. Como forma de superação, Habermas propõe uma mudança de paradigma – da ação instrumental para a ação comunicativa, da subjetividade para a intersubjetividade. Segundo Freitag (1993), a solução habermasiana está presente nas suas formulações sobre o mundo sistêmico, já apontado por Weber, mas também na compreensão de que existe o mundo da vida. Além do mundo sistêmico já descrito por Weber, para Habermas, existe a vitalidade do mundo da vida que guarda as tradições, a cultura e a linguagem, que tornam a vida humana possível de ser compreendida como natural. O mundo da vida é formado pela coordenação da ação através da comunicação, da linguagem, com sujeitos em interação. Essa linguagem tem estruturas consensuais, um substrato comum, que permite aos sujeitos convencer aos outros com argumentos plausíveis na busca de um consenso. No mundo da vida predomina o agir comunicativo orientado para o entendimento mútuo, em que a comunicação leva a uma busca de acordos. É no mundo da vida que brotam as demandas dos sujeitos por um mundo melhor, por alternativas de vida, por formas mais concretas de atendimento às necessidades, tanto materiais quanto morais. A partir das experiências, construídas pela comunicação, os indivíduos se associam e apresentam em uma esfera pública mais ampla aquilo que consideram como justo e lutam para modificar o panorama social. Há um espaço, engendrado no mundo da vida, para a emancipação dos sujeitos, para o fortalecimento dos laços de solidariedade e das construções das identidades plurais. A dimensão do mundo da vida resiste à intervenção do 26


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Estado e do mercado. A comunicação tem um poder reflexivo nesse processo, ou seja, ao mesmo tempo em que cria condições para mudar os pontos de vista e as ações, pode criar um novo padrão de aceitação e entendimento entre os sujeitos. Essas mudanças voltamse para a interação comunicativa e provocam outras mudanças na linguagem. O mundo da vida tem essa riqueza comunicativa expansiva questionadora, que alimenta não apenas seus participantes mais diretos, mas impulsiona a sociedade democrática, afinal, a pluralidade e a diversificação de modos de vida estão presentes no mundo da vida. Maia (1998) afirma que, numa sociedade complexa e fragmentada, experiências vividas em comunidades específica geram possivelmente, formas diferentes de tematização. É na vida privada, protegida da publicidade, que as pessoas se encontram e promovem interações simples. Forma-se uma rede, um espaço comunicativo “oculto nos interstícios da vida cotidiana”, que proporciona condições espontâneas e dialógicas de formação de opinião. Nos encontros cotidianos acontecem trocas de experiências que propiciam inúmeras formas de discutir e tematizar os problemas. O cotidiano, assim, é passível de ser entendido como o âmbito da vida social em que são produzidos os fluxos comunicativos e realçados os assuntos relevantes, que são discutidos na esfera pública. Boaventura (2000), por sua vez, argumenta que emerge uma força emancipatória que surge das experiências dos sujeitos, das associações, das saídas criativas daqueles que vivem à margem, na fronteira. No processo de regulação da modernidade, a comunidade foi a que mais resistiu e é preciso que os cientistas sociais rompam com o paradigma da modernidade, especialmente o da neutralidade. Também assumam um conhecimento com uma ação direcionada, estimulando as instituições de emancipação, criando novos campos de conhecimento, mais descentralizados e mais democráticos. Essa tensão permanente entre Estado, economia e sociedade aparece na esfera pública, que interconecta a vida privada, as experiências cotidianas, os apelos por justiça e distribuição das oportunidades, aos centros do poder do Estado e do poder econômico e vice e versa. Dizendo de outra maneira, os processos comunicativos da esfera pública ligam os problemas do cotidiano dos homens comuns ao mundo sistêmico e aos centros de decisão política, e tornam visíveis aos cidadãos comuns as decisões do mundo sistêmico e das esferas funcionais, que alteram sua vida cotidiana. 27


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Gomes (2004) explica que a esfera pública, construída por uma rede de comunicação livre e aberta, permite a participação de todos os concernidos e não apenas da “elite” política “preparada” para o debate. Essa ampliação para a entrada de novos atores sociais especialmente dada pela comunicação de massa e pelo advento dos novos movimentos sociais na cena pública, torna aberto o destino da sociedade, possibilita que questões possam sempre ser retomadas e que novos elementos para o debate apareçam e sejam considerados. Para Habermas (1997), a comunicação entre os homens, notadamente intermediada por aparatos tecnológicos, adquire um valor central na constituição do espaço público. A esfera pública é a arena discursiva, livre, aberta à participação e reconhecimento do outro como igual no direito de uso da palavra, lugar onde as interpretações serão negociadas comparativamente. A esfera pública é vista como um fórum importante para onde discussões e debates de questões sociais relevantes são trazidos à luz por indivíduos e coletividades, inclusive por aqueles que eventualmente sintam-se excluídos. Na esfera pública, as minorias tentam defender-se da cultura majoritária, contestando a validade do autoentendimento coletivo, e se esforçam para convencer públicos amplos da pertinência e justeza de suas reivindicações. É nesse espaço, possibilitado pela comunicação, que sujeitos expõem seus pontos de vista, suas experiências e perspectivas do que acham justo e tentam convencer os outros da validade de seus propósitos. Em seus trabalhos atuais, Habermas discute a existência de uma multiplicidade de esferas públicas, em que os sujeitos estão permanentemente reestruturando suas relações e não apenas de uma esfera única totalizante. Há um grau de complexidade na sociedade que impede às pessoas vê-la de forma total. O fim do ideal da esfera pública única e singular faz com que se passe a observar a existência de arenas sobrepostas e conectadas, supranacionais, nacionais, regionais e locais. Habermas (1997) afirma que a esfera pública se descreve como uma rede adequada para a comunicação de conteúdos, tomadas de posição e opiniões; nela os fluxos comunicacionais são filtrados e sintetizados, a ponto de se condensarem em opiniões públicas enfeixadas em temas específicos. Dizendo mais claramente, dada a fluidez e dispersão do fluxo comunicativo, a esfera pública tende a absorver aqueles fluxos que são mais tematizados. 28


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É desse esforço de tornar o mundo comum visível e operar mudanças mais concretas, que surgiu a sociedade civil, contrapondo-se ao Estado e ao mercado. O conceito de sociedade civil aparece para diferenciar Estado e mercado, direito privado e direito público, relacionar os indivíduos sem a intermediação do Estado e reconhecer as instituições que estão entre os indivíduos e o Estado. Além disso, o conceito de sociedade civil revigora a importância da reconstrução da solidariedade. Habermas (1997) assevera que a sociedade civil compõe-se de movimentos, organizações livres, não estatais e não econômicas, os quais captam os ecos dos problemas sociais que ressoam nas esferas privadas, condensam-nos e os transmitem, a seguir, para a esfera pública política. O núcleo da sociedade civil forma uma espécie de associação que institucionaliza os discursos capazes de solucionar problemas, transformando-os em questões de interesse geral no quadro de esferas públicas. A sociedade civil, conforme Habermas (1997) institucionaliza as questões de interesse geral, funciona como uma antena sensível aos temas que percorrem as esferas da família, do trabalho, da vida cotidiana dos sujeitos. A sociedade civil traduz as experiências privadas em apelos políticos válidos e discutíveis na esfera pública mais geral, capaz de modificar as decisões tomadas nos centros do poder. A sociedade civil ocupa um lugar fundamental para a expansão da democracia, mostrando o local onde há uma resistência à lógica do mercado e do Estado. A sociedade civil não quer o controle do poder, mas influenciar as instâncias do poder e a esfera pública geral. Os movimentos sociais são exemplos de como a sociedade civil e seus atores se organizam e lutam por aquilo que consideram mais justo, apresentando novos padrões de aceitação cultural, de formação de identidade e de distribuição das riquezas. É bom lembrar, que as relações entre a esfera pública, a sociedade civil, o mundo da vida e o mundo sistêmico são reflexivas, dinâmicas, uma influenciando o outro. A esfera pública com a participação dos movimentos sociais é uma instância coletiva de deliberação, onde os sujeitos podem refletir, ponderar e avaliar as razões apresentadas sobre uma determinada questão. A deliberação pressupõe a presença do outro, o debate, o esclarecimento das diferenças, dos conflitos, a busca por um acordo que seja válido e justo para todos. A deliberação é um processo argumentativo, o intercâmbio de razões feito em público e ajuda a distinguir as reivindicações particulares, egoístas, daquelas comprometidas coletivamente. Conforme Habermas, os atores coletivos (membros de movimentos sociais, por exemplo) têm 29


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mais chances de participar dos processos de deliberação, pois têm habilidades cognitivas, oportunidades de aprendizagem, escrutínio crítico e motivação para a ação. As pessoas envolvidas no tema apresentam seus argumentos e seus pontos de vista, motivadas a ver esse debate interferir nos resultados. CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao mergulhar no universo habermasiano, muitos desafios são colocados. Em primeiro lugar, trata-se de um dos principais filósofos da contemporaneidade que tem uma obra de grande densidade, tanto pelo diálogo que estabelece com uma gama variada de autores, desde os clássicos até os atuais. Ao propor uma releitura do Esclarecimento, dialoga com Kant, Hegel, Popper, os pensadores da Escola de Frankfurt, entre outros. Apesar de trazer uma linguagem complexa, consegue construir uma argumentação rica. Outro ponto a destacar é a audácia de Habermas tanto em dialogar com diferentes correntes do pensamento quanto em romper com a Escola de Frankfurt e lançar um novo olhar sobre o mundo social a partir do paradigma da ação comunicativa. No campo científico, tais rupturas nem sempre são vistas de forma tranquila. Mas, Habermas ousa e constrói uma teoria do agir comunicativo que revela um avanço no seu olhar sobre a realidade. Em função disso, a discussão sobre espaço público, política e ação comunicativa é pensada de duas formas a partir sdois momentos no pensamento de Habermas. A proposta do artigo foi trazer tais contribuições a fim de que se pudesse compreender como o autor trabalhou a sua argumentação tanto a partir de uma perspectiva crítica e, posteriormente, sob um viés otimista. Trata-se de temáticas que têm uma grande atualidade para se compreender o mundo contemporâneo, a emergência dos movimentos sociais e as novas formas de ação que surgem com as tecnologias digitais. Os argumentos teóricos e conceituais de Habermas são ricos para que se possam entender melhor as novas configurações sociais e os embates que são travados entre o mundo sistêmico e o mundo da vida. A partir da perspectiva construtivista e hermenêutica, é possível utilizar suas teorias para estudar fenômenos que surgem da realidade, da empiria, tendo 30


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em vista que, para o autor, o papel das ciências deve ser relativizado e pensado na sua inserção social. No entanto, os argumentos teóricos e conceituais trazidos aqui da obra de Habermas devem ser compreendidos sob um olhar crítico, tendo em vista que no pensamento social há divergências sobre temáticas tão complexas. O pensamento habermasiano, assim como serve de base para muitos estudos interdisciplinares, também é alvo de muitos questionamentos e críticas por outros teóricos que lançam uma visão diferente sobre o mundo social. Por isso, as premissas teóricas sobre o espaço público e a ação comunicativa devem ser compreendidas mais como hipóteses lançadas por Habermas do que propriamente como verdades, até porque as ciências e o pensamento social têm uma dinâmica e uma complexidade que aponta para o permanente questionamento das teorias.

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REFERÊNCIAS ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995. FERNANDES, Adélia Barroso. O papel reflexivo da mídia na construção da cidadania: o caso do Movimento Antimanicomial - 1987 a 1997. 1999. 197 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social) - Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, Belo Horizonte. FREITAG. Bárbara. “Habermas e a Filosofia da Modernidade”. In: Perspectivas. São Paulo, v.16, 1993, p.23-45. GOMES, WILSON. Transformações da política na era da comunicação de massa. São Paulo: Paulinas, 2004. HABERMAS, Jürgen. A constelação pós-nacional. São Paulo: Littera, 2001. ________________. Consciência moral e agir comunicativo. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1989. HABERMAS, Jürgen. Direito e democracia: entre a facticidade e validade V.II. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997. _________________. Mudança estrutural da esfera pública. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984. _________________. Teoría de la acción comunicativa, II. Crítica de la razón funcionalista. Buenos Aires: Taurus humanidades, 1995. MAIA, Rousiley C. M . A mídia e o novo espaço público: a reabilitação da sociabilidade e a formação discursiva da opinião. In: Comunicação e política, v. V, n.1. Rio de Janeiro: Cebela, 1998. SANTOS, Boaventura de Souza. A crítica da razão indolente. Contra o desperdício da experiência. São Paulo: Cortez, 2000. SIEBENEICHLER, Flávio Beno. Jurgen Habermas. Razão comunicativa e Emancipação. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1989.

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Aspectos da comunicação pública na cultura da convergência Aspects of public communication in the convergence’s culture Celene Fidelis Frias Ferreira1 Daniela Soares Pereira2

RESUMO A comunicação pública que deve priorizar o interesse público nas suas ações é uma aliada importante do Poder Público. O direito constitucional à comunicação deve ser assegurado ao cidadão e priorizado pelas assessorias de comunicação dos órgãos públicos que devem adotar políticas e planejamento estratégicos para alcançar esse fim. Este artigo aponta para a importância da adoção, por parte dos órgãos públicos, de práticas comunicativas para estimular o diálogo e a participação dos cidadãos nas questões públicas. Por meio de pesquisa bibliográfica, demonstra o processo de mudança cultural e comportamental presente na contemporaneidade, advinda da cultura da convergência e a justifica baseada no tripé: convergência midiática, inteligência coletiva e cultura participativa. Neste contexto, a comunicação digital possibilita a participação direta dos cidadãos que, por seu intermédio, adquirem voz ativa, são atuantes e influentes. Estes aspectos relevantes devem ser levados em consideração 1. Mestre em Administração de Empresas, Especialista em Gestão da Qualidade Total, graduada em Direito e em Comunicação Social – Relações Públicas. Professora assistente do Curso de Comunicação Social – Jornalismo da Universidade Federal do Tocantins. E mail: celeneff@uft.edu.br 2. Mestre em Comunicação e Semiótica (PUC/SP), graduada em Comunicação Social – Jornalismo. Professora assistente do Curso de Comunicação Social – Jornalismo da Universidade Federal do Tocantins. E mail: danielasoares@uft.edu.br

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em fatores como reputação e criação de valores e imagens positivas para as marcas. PALAVRAS-CHAVE: Comunicação pública, cultura da convergência, assessoria de comunicação. ABSTRACT The Public Communication, which should prioritize the public interest in their actions, is an important ally for the government. The constitutional right to communication should be provided to citizens and prioritized by consultants Communication of public institutions. should adopt policies and strategic planning in order to achieve this end. This article points to the importance of adoption by government agencies of communicative practices that encourage dialogue and citizen participation in public affairs. Through literature, demonstrates the process of cultural change and behavioral present in contemporary culture stemming from the convergence and justified based on the tripod media convergence, collective intelligence and participatory culture. Digital communication allows direct participation of citizens and thereby come to have a voice, are active and influential, important aspects that must be taken into account factors such as reputation and value creation and positive image for brands. KEYWORDS: Public Communication, convergence culture, counseling communication.

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INTRODUÇÃO O mundo está mudando e é inegável observar os efeitos que o novo cenário tecnológico causa em todos os âmbitos da sociedade. As mídias hoje são onipresentes e a complexidade desse fenômeno desafia as pessoas. O mercado atual exige rapidez, economia e efetividade nos processos comunicativos. A gestão da comunicação passou por profundas transformações nas duas últimas décadas. Ordenada, processual e sustentada por meio de um planejamento global, tornou-se estratégica. Mudou o mundo, mudaram os países, muda a sociedade, mudamos nós. Este processo de mudança permanente interfere no relacionamento entre pessoas, organizações, Estados e, se analisando do prisma de um processo evolutivo, vamos observar que os avanços tecnológicos excitam a política da globalização e esta exige um sistema de comunicação entre pessoas, grupos e organizações, mais dinâmica, ágil, eficiente e eficaz (FARIA, 1996, p.28).

A comunicação pública está no cerne da manutenção das sociedades democráticas e deve cumprir o papel de legitimação da forma democrática de governo, baseada na pluralidade e no livre acesso à informação, pois a experiência democrática não acontecerá sem a participação dos atores locais e de uma mídia ativa e fiscalizadora. Razões como a necessidade de melhorias no processo de comunicação e no relacionamento com os diversos segmentos da sociedade, cumprimento legal do direito à informação por parte do cidadão e dever de informar por parte dos órgãos públicos, postura cidadã e maior transparência nas suas ações e não apenas nas contas, tem iniciado um processo de reflexão nas organizações públicas sobre as suas políticas e práticas comunicativas. A demanda social nos órgãos públicos exige uma nova prática comunicacional que tem como fundamento norteador, uma política de comunicação sedimentada no interesse público, na valorização da cidadania e no compromisso social. A comunicação deve manter “uma relação de mão dupla” entre a comunicação e o público, pois sem comunicação, não há o exercício da cidadania. As assessorias de comunicação dos órgãos públicos que até então estavam muito mais preocupadas em trabalhar com uma comunicação tática, enfatizando aspectos promocionais e de visibilidade dos órgãos, necessitam de uma mudança de postura e de cultura. Carecem implantar políticas de comunicação que favoreçam efetivamente a participação pública. 35


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É esse o interesse deste artigo que retrata a possibilidade de, em tempos de mídias digitais, crescente demanda nas organizações públicas e privadas por profissionais de comunicação regularmente contratados, de se estar atento às mudanças do paradigma profissional e de enfatizar aspectos possíveis de aplicação de práticas de comunicação pública por meio das assessorias de comunicação dos órgãos públicos. Afinal, segundo uma pesquisa da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (ABERJE), publicada em 2008, na revista “Comunicação Corporativa”, publicação setorial do jornal “Valor Econômico”, quase um terço (29,4%) dos coordenadores da área de comunicação de 282 das mil maiores companhias do Brasil são jornalistas (BECK, 2008). A relevância deste estudo bibliográfico está na necessidade de se considerar o contexto atual extremamente favorável ao crescimento da comunicação organizacional na esfera pública enquanto alternativa viável para a melhoria dos processos, do direito e acesso à informação, da transparência e do interesse público, elementos vitais e intrínsecos à boa reputação das organizações, fator intangível que agrega valor competitivo atual. A mudança comportamental e de perfil profissional dos gestores públicos que começam a ocupar cargos de gestão bem como dos cidadãos da geração Y também deve ser motivo de preocupação. O profissional da geração baby boomer e os da geração X possuem diferenças significativas tanto de atitude quanto de personalidade em relação aos profissionais da geração Y que agora detêm cargos de gestão em órgãos públicos. Mais apegados à hierarquia e à posição nas organizações, os baby boomer criam vínculos e por isso. passam longos períodos na organização e no cargo (fazem carreira), enquanto os da geração X buscam associar seus próprios interesses aos da organização. Questionam a hierarquia, mas a aceitam como forma de organização, preocupam-se com o ambiente de trabalho e com a qualidade de vida e utilizam a tecnologia e a informática como ferramentas de trabalho. Os profissionais da geração Y procuram novos desafios para os quais buscam soluções imediatas, almejam crescimento rápido na carreira, não se submetem à hierarquia, querem ser reconhecidos pela sua singularidade e veem a tecnologia como parte da vida. Acostumados a trabalhar em rede, possuem afinidade com a liderança compartilhada. Assim, as perspectivas e o potencial da comunicação pública estratégica justificam por si só a inserção desta discussão no âmbito, não só da comunicação nos órgãos públicos como no âmbito acadêmico, processo reflexivo necessário e viável para o aperfeiçoamento dos processos e práticas pedagógicas. 36


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COMUNICAÇÃO PÚBLICA Tema recente, a comunicação pública tem sua origem precedente da comunicação governamental que, desde 1930 apresenta características de uma comunicação autoritária fazendo uso da censura e do controle de informações. Somente a partir da década de 1980, com a redemocratização, esse cenário mudou advindo de fatos como: a mudança da Constituição Brasileira, a inserção do Código de Defesa do Consumidor, a reforma gerencial iniciada no serviço público em 1995, a atuação de grupos de interesse, de pressão e dos movimentos sociais como também o desenvolvimento das novas tecnologias. Esses fatores transformaram também o papel do Estado que tem agora o dever de informar, a necessidade de zelar pela imagem e reputação, whuffie, e atuar com maior transparência nas suas ações. O Brasil, nos últimos anos, enfrenta um processo de fortalecimento do controle social, mecanismo fundamental para que consiga garantir maior efetividade e eficiência na realização do gasto público. Para que esse controle seja pleno é necessário assegurar a qualificação e a transparência, “ferramentas” que devem ser disponibilizadas à sociedade, garantindo que ela consiga exercer seu papel e controle social. Duarte (2006) entende que as mudanças ocorridas não foram capazes ainda de despertar um sentimento coletivo de valorização da cidadania ou de satisfação com a representação democrática, uma vez que os cidadãos parecem considerar os governos como algo não relacionado às suas vidas e tornam-se um tanto quanto céticos em relação à política e à capacidade dos governantes de buscar o interesse público. “Mais do que simples desinteresse do indivíduo em ser sujeito da ação, muitas vezes a apatia e a falta de formação política são resultado do cruzamento entre desinformação, falta de oportunidades de participação e descrédito com a gestão pública” (DUARTE, 2006, p. 3). A comunicação pública pode ser a alternativa para esse problema, pois ela tem como essência a gestão da comunicação voltada para o interesse público e para o exercício da cidadania. Segundo Duarte (2007), a comunicação pública possibilita trabalhar informações institucionais, de gestão, de utilidade pública, de prestação de contas, de interesse privado, mercadológica e de dados públicos. Por meio dela, conquista-se maior diálogo, facilidade de acesso e disponibilidade da informação e o efetivo respeito ao exercício de expressão, à livre manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato. São direitos legalizados pela Constituição de 37


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1988 e característicos da atual democracia. Assim, entende-se que a liberdade de informação, ou melhor, o direito à informação é um direito humano presente na liberdade de expressão. [...] Adotam-se como referência, para tratar de Comunicação Pública, conceitos como cidadania, democratização, participação, diálogo, interesse público. Mais poder para a sociedade, menos para os governos; mais comunicação, menos divulgação; mais diálogo e participação, menos dirigismo, são algumas das premissas. A ideia-chave talvez seja a de espírito público, o compromisso de colocar o interesse da sociedade antes da conveniência da empresa, da entidade, do governante, do ator político. O objetivo central é fazer com que a sociedade ajude a melhorar a própria sociedade (DUARTE, 2007, p. 2 – grifo nosso).

Apesar de ser um conceito ainda em construção e devido às semelhanças e diferenças entre os termos “comunicação pública”, “comunicação governamental” e “comunicação política”, faz-se necessário explicitá-los para maior compreensão. Enquanto a “comunicação política” também conhecida como “marketing político” visa, por meio da persuasão e visão estratégica de ações de curto prazo, o alcance da formação da opinião pública na conquista de votos no processo eleitoral, a “comunicação governamental” é aquela executada pelos órgãos públicos e centrada na prestação de contas enquanto a “comunicação pública” assume uma perspectiva cidadã na comunicação envolvendo temas de interesse coletivo. Jorge Duarte (2007, on line) assim distingue os termos: • Comunicação política trata do discurso e da ação de governos, partidos e seus agentes na conquista da opinião pública e na obtenção de poder. • Comunicação governamental diz respeito aos fluxos de informação e padrões de relacionamento envolvendo a gestão de um governo e os diversos segmentos da sociedade. • Comunicação pública refere-se à interação e ao fluxo de informação em temas de interesse coletivo. Inclui tudo que diga respeito ao aparato estatal, às ações governamentais, partidos políticos, terceiro setor e, em certas circunstâncias, às ações privadas. A existência de recursos públicos ou interesse público caracteriza a necessidade de atendimento às exigências da comunicação pública (grifo nosso).

Segundo Luiz Gushiken, ex-secretário de Comunicação do Governo Lula, os órgãos governamentais deveriam se pautar por “oitos princípios da Comunicação Pública” quais sejam: 1) o cidadão tem direito à informação, como base para o exercício da cidadania; 2) é dever do Estado informar; 3) deve haver zelo pelo conteúdo informativo, educativo e de orientação social; 4) a Comunicação Pública não deve estar centrada na promoção pessoal dos agentes; 5) deve promover o diálogo e a interatividade; 6) estimular o envolvimento do cidadão com as políticas públicas; 7) os serviços

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públicos precisam ser oferecidos com qualidade comunicativa; e, finalmente, 8) a Comunicação Pública deve se basear na ética, transparência e verdade (ALBUQUERQUE, SOUSA COSTA, 2010, apud CASTILHO, 2000, p.242).

Esses princípios reforçam a importância de se estabelecer uma relação de diálogo entre o público e as instituições públicas, de forma a democratizar, otimizar e qualificar a prestação de serviços. Enfim, deve-se entender a comunicação pública como capaz de levar o cidadão, o Estado e a sociedade civil a um amplo diálogo em prol da coletividade. Afinal, A transparência, o direito à informação, a comunicação pública, o interesse coletivo e a cidadania são, a partir do nosso entendimento, características democráticas essenciais para a organização e a estruturação de uma sociedade. (MAINIERI; ROSA, 2012, p.194).

No entanto, os principais responsáveis pela efetividade da comunicação pública são os profissionais de comunicação ligados aos aparatos estatais e atores políticos. É preciso que os assessores de comunicação dos órgãos públicos tratem a comunicação de forma estratégica. Para isso, devem implantar políticas, processos e práticas comunicativas que valorizem a integridade, a transparência e o diálogo. O cidadão tem o direito constitucional de receber informação de qualidade, assim como é essencial que os servidores estejam socialmente organizados e que haja um comportamento coletivo compartilhado. Cada ação de uma organização representa um ato de comunicação. Torna-se premente então, o planejamento da comunicação para que a organização possa construir uma identidade, imagem e reputação fortes. A cultura da transparência, da democracia e da participação deve permear todas as ações da organização para que o discurso não se desvincule da prática o que poderá levar a um descrédito, perda de imagem e reputação. Por isso, desenvolver um trabalho planejado estrategicamente, em que todos saibam qual a missão, visão, valores, foco, políticas, diretrizes, pontos fortes e fracos representa muito na hora de gerar comprometimento e valor para a organização. É relevante trabalhar no modelo de gestão da comunicação integrada. Sinérgica e com transversalidade é concebida como um processo relacionado diretamente à gestão estratégica das organizações o que possibilita a compreensão da comunicação organizacional muito além do ponto de vista meramente centrado na transmissão de informações e na produção de mídias. Configura as diferentes modalidades que permeiam o seu conceito e as suas práticas, envolvendo concomitantemente a comu39


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nicação institucional, a comunicação interna, a comunicação administrativa e a comunicação mercadológica. Marchiori (2006) estabelece dois níveis de comunicação: tática e estratégica. A comunicação tática é a comunicadora de fatos ocorridos, tem função informativa e básica, sendo determinante que se processe a partir das organizações. A comunicação estratégica é a geradora de fatos, criadora de cenários. É certo que uma comunicação só pode ser considerada estratégica, se for planejada. A assessoria de comunicação cumpre bem esse papel. Engloba as atividades integradas das áreas da comunicação e é parte da estrutura da comunicação organizacional: Entenda-se assessoria de comunicação como um departamento organizacional responsável por coordenar e estabelecer políticas e estratégias que englobam iniciativas nas áreas de Jornalismo, Relações Públicas e Publicidade e Propaganda, além de servir como catalisadora do fluxo de informações entre o assessorado e seus públicos interno e externo (KOPPLIN e FERRARETTO, 2001, p. 11).

Teóricos como Martinez (2003) e Kunsch (2003) defendem que a atividade do assessor de comunicação é diferenciada dos demais trabalhos, sejam eles de jornalista, publicitário ou de relações públicas, por ser mais ampla. A seu ver, o assessor de comunicação precisa ser “um pensador estratégico da informação e de sua veiculação” (MARTINEZ, 2003, p. 218). Vive-se o período da troca dos valores materiais, do tangível para o intangível. Produtos e serviços que se assemelham em preço e qualidade são commodities, não diferenciais. Marca, design, inovação, atributos culturais, responsabilidade social e ambiental, liderança, transparência e reputação são valores intangíveis, possíveis estrategicamente de serem trabalhados pelas organizações e marcas para conquistar atratividade, fidelização, longevidade, engajamento e lealdade. A percepção que os consumidores/cidadãos têm de uma organização, seus produtos, serviços e suas marcas ou de ambas, é uma síntese do pacote de mensagens que recebem ou dos contatos e experiências que tiveram. Portanto, a imagem e a reputação de uma organização é o produto de uma série de fatores. Entre eles, a forma como ela aparece na mídia e se relaciona com os veículos, jornalistas e formadores de opinião. No entanto, vale refletir que por vezes, a mídia divulga informações, mas não necessariamente gera conhecimentos. Somente graças à compreensão e apreensão “do mundo” o ser humano transmuta para o conhecimento, e o conhecimento como desvendamento do mundo, gera 40


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poder, o qual produz ação e consequentemente transformação da realidade. A este respeito, Baccega (2005, apud HOFF, 2005, p.29), acrescenta que: O mundo que nos é trazido, que conhecemos e a partir do qual refletimos é um mundo que nos chega editado, ou seja, ele é redesenhado num trajeto que passa por centenas, às vezes, milhares de filtros até que “apareça” no rádio, na televisão e no jornal [...]. São esses filtros – instituições e pessoas – que selecionam o que vamos ouvir ver ou ler, que fazem a montagem do mundo que conhecemos.

As organizações necessitam projetar positivamente uma imagem congruente e unificada no mercado. Por essa razão, é fundamental que tenham a oportunidade também de demonstrar seus produtos, serviços, políticas e visões e se assegurar de que estão enviando aos seus públicos-alvo, mensagens coerentes sobre a organização, suas marcas e suas práticas. Uma forma (estratégia) de se garantir visibilidade e, por consequência, conquistar credibilidade é por meio do trabalho competente da assessoria de imprensa (AI), atividade que visa divulgar informações da organização (produtos, serviços, profissionais, fatos e notícias) junto aos meios de comunicação. O objetivo é legitimar a identidade e o posicionamento do cliente (assessorado) na mídia, estreitar o relacionamento entre a organização e os veículos/profissionais de comunicação por meio da produção de textos jornalísticos de caráter noticioso. Advindo do modelo norte-americano, a Assessoria de Imprensa (AI) no Brasil, principalmente, a partir da década de 1980 adotou valores mais próximo aos do jornalismo. Acredita-se, entretanto, que o caráter distintivo do trabalho de assessoria de imprensa – e aqui se pode pensar também nas organizações não empresarias (públicas ou do chamado terceiro setor) – reside no fato de que a atividade contribui para a aquisição de credibilidade (capital simbólico fundamental para a imagem-conceito organizacional), porque atua no sentido de conquistar a visibilidade midiática por meio do discurso informativo, o qual, diferentemente do discurso propagandista, precisa “provar a veracidade dos fatos transmitidos” (CHARAUDEAU, 2007, p. 61 apud SARTOR, BALDISSERA, 2010, p.8).

Esse trabalho gera um esforço de associar confiabilidade à imagem de indivíduos/organizações, pois por meio de uma matéria jornalística conquistada pela assessoria, quem diz algo sobre a organização é o veículo (jornal, rádio, TV), que tende a ser identificado pelo senso comum 41


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como “espelho da realidade, capaz de produzir efeitos de verdade”. (CHARAUDEAU, 2007, p. 61 apud SARTOR, BALDISSERA, 2010, p.8). Assim, ao figurar como fonte de notícia ou objeto de matéria jornalística, uma organização disponibiliza informações que recebem o aval de confiabilidade do veículo de comunicação, o que distingue a assessoria de imprensa de outras estratégias de comunicação organizacional. (SARTOR, BALDISSERA, 2010, p.8).

Apesar dessa estratégia adotada pelas assessorias de imprensa, passa-se hoje por uma “crise de imagem”, de legitimidade e de credibilidade do setor público. Precisa-se pensar além das atividades de assessoria de imprensa. Deve-se ter por responsabilidade, tratar a comunicação nas organizações públicas, como realmente deve ser: instrumento de cidadania. Os assessores de comunicação devem fazer cumprir, na comunicação pública, todos os preceitos constitucionais e os princípios que regem a administração pública: dever de informar os atos praticados pela administração pública de maneira clara, completa, correta, transparente, e ética, ouvir e dar acesso aos cidadãos e fazer prevalecer o direito de participação do povo nos “negócios” do Estado, garantia do verdadeiro estado democrático de Direito. Monteiro (2009, p. 39) discorre sobre as principais finalidades da comunicação pública: A comunicação pública tem as seguintes finalidades principais: responder a uma obrigação que as instituições públicas têm de informar o público; estabelecer uma relação de diálogo de forma a permitir a prestação de serviço ao público; apresentar e promover os serviços da administração; tornar conhecidas as instituições (comunicação externa e interna); divulgar ações de comunicação cívica e de interesse geral e integrar o processo decisório que acompanha a prática política.

A partir das tecnologias aplicadas à mídia digital, os consumidores (cidadãos) buscaram conteúdos e experiências em diferentes suportes midiáticos. A Internet, com todo o seu potencial transformador, possibilita a realização de ações voltadas para o trabalho colaborativo, o compartilhamento de informações e a interação, práticas tão necessárias e viáveis para as aplicações comunicacionais nos órgãos públicos em busca da verdadeira cidadania. Uma das principais mudanças provocadas pela Internet e pelas mídias sociais está a capacidade e a rapidez em se conectar, interagir e socializar com outras pessoas com interesses afins, o que aumenta muito as possibilidades de as suas reivindicações e opiniões serem “ouvidas” e 42


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levadas em consideração. É preciso usar os novos formatos de utilização dos meios de comunicação e oferecer possibilidades de interação, participação, dinamicidade, seleção e produção de conteúdos. Ainda se apropriar de novas maneiras de participar e atuar politicamente na rede e proporcionar comodidade aos cidadãos e usuários dos serviços públicos. Afinal, [...] Comunicação não se reduz à informação. Comunicação é um processo circular, permanente, de troca de informações e de mútua influência. A troca de informações faz parte do processo de comunicação. Informação é a parte explícita do conhecimento, que pode ser trocada entre pessoas, escrita, gesticulada, falada, utilizada para tomada de uma decisão. É a principal matéria- prima, um insumo comparável à energia que alimenta um sistema. É o elo da interação e da transmissão do conhecimento. Atores e agentes geram, transformam, buscam, usam e disseminam informações de variados tipos. Mas a simples existência de informação não necessariamente significa comunicação eficiente. Ela pode ser inútil, manipulada, mal compreendida ou não chegar ao momento adequado. Informação é apenas a nascente do processo que vai desaguar na comunicação viabilizada pelo acesso, pela participação, cidadania ativa, diálogo (DUARTE, 2007, p. 4).

Conforme Duarte (2007), deve-se considerar como valores essenciais da comunicação governamental: participação, dinamismo, agilidade e mobilidade, favorecer o intercâmbio entre o governo e a sociedade, numa interação constante de ideias e procedimentos. “Percebemos assim, que os consumidores contemporâneos querem participar, colaborar, falar e serem ouvidos. Em outras palavras, querem ser respeitados. Mas não há relação de respeito sem diálogo” (OIKAWA, 2009, p.02) Esse procedimento certamente exigirá novas habilidades dos profissionais de comunicação. O profissional de comunicação precisa repensar a sua práxis pela urgência em atender um consumidor/cidadão mais exigente, consciente, participante e bem informado. Este, atualmente, pertence a uma sociedade onde a valorização por inovação, tecnologia, serviços, relacionamento, transparência e reputação são cada vez mais prementes. CULTURA DA CONVERGÊNCIA E POSSIBILIDADES DE INTERAÇÃO Alguns conceitos de gestão amplamente utilizados na iniciativa 43


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privada podem e devem ser aplicados na gestão dos órgãos públicos. Vivencia-se o tempo da economia afetiva. Os consumidores que tiverem uma experiência positiva com a marca/produto e a perceberem como valiosa se apropriam e se tornam fãs dela e a partir daí, começam a se engajar numa relação emocional, o que permite maior participação e envolvimento com ela. O fã não só gosta do produto ou da marca, mas se envolve inteligentemente com ela de maneira espontânea. Compartilha seus interesses com outros grupos com as mesmas preferências e tendências comportamentais, além de promover soluções por meio de um engajamento fiel de acompanhamento e participação, o que se considera uma oportunidade de fidelização. Os lovemarkers, assim denominados os fãs das marcas são “pessoas que promovem e defendem suas marcas. Aquelas que preparam a recolocação sugerem melhorias e aprimoramentos, criam sites web e as divulgam. Também são as pessoas que atuam como guardiãs morais das marcas que amam” (ROBERT, 2005, p.170). Não há a pretensão de se afirmar que as manifestações de consumidores/cidadãos e sua capacidade de mobilização são fenômenos que surgiram com a Internet e com as tecnologias digitais, mas é necessário valorizar os relacionamentos a fim de se estabelecer maior conexão e identificação com os consumidores/cidadãos ao passo que os fãs necessitam de compartilhamento, participação, são críticos e envolvidos emocionalmente com as marcas. Na visão de Duarte (2006), conceitos como cidadania, democratização, participação, diálogo, interesse público são essenciais na comunicação pública. Esses são valores intangíveis capazes de agregar valor e se caracterizar como diferenciais competitivos da marca pública. Transparência pública, reputação, dados abertos, novas maneiras de participar na rede e de atuar politicamente são fatores que a longo tempo fidelizarão os cidadãos e criarão lealdade às marcas (estado, governo, político). Contudo, é preciso disposição para a interlocução, participação e o diálogo. Oportunizar isso melhorará a reputação da marca, pois “Sabemos: se não há boa reputação, não há credibilidade. Não há crédito. E a reputação, que é a soma de credibilidade e confiança, sempre se inclui entre os ativos de maior valor das corporações” (HUNT, 2010, prefácio). Jenkins (2008) acredita que por meio do desenvolvimento de uma cultura da convergência, pessoas engajadas serão capazes de buscar soluções para questões com maior amplitude social, política e mercadológica. 44


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Fundamenta seu argumento no tripé: convergência midiática, inteligência coletiva e cultura participativa. O autor entende convergência como um paradigma configurado para representar a mente dos consumidores individuais e que se percebe em suas interações sociais, nas formas de consumo e nas relações dos usuários com a tecnologia contemporânea. Acredita ser esse um processo cultural e que não deve ser pautado apenas pelo determinismo tecnológico. Assevera ser a cultura da convergência uma forma de interação social e de relacionamento dos públicos com as mídias e, por consequência, uma nova forma de agir com os conteúdos. Esse fato proporciona mudanças nas formas de relacionamento dos públicos com os meios de comunicação, possibilita a promoção da aprendizagem significativa e colaborativa dos sujeitos de forma mais autônoma, ampliada e engajada. Na visão do autor, o receptor que um dia foi considerado passivo diante dos meios massivos numa relação de “mão única”, se transformou em um colaborador e tem como perfil o de ser ativo, migratório, conectado socialmente e participativo no fluxo de mídia. Essa ideia nos direciona ao pensamento de Howard J. Pitler (2006), que considera que a tecnologia é mais útil quando usada como parte do enriquecimento educacional por meio da cooperação e do compartilhamento de ideias, imagens, vídeos, músicas, o que resulta em um aprendizado reflexivo (GOSCIOLA, VERSUTI, online).

Transpondo esse conceito para a comunicação pública, torna-se possível potencializar a experiência de construção colaborativa do conhecimento para o exercício efetivo e democrático da cidadania. Albuquerque, Costa & Sousa (2010, p. 3) afirmam que “Comunicação Pública é um processo que se centra no cidadão, não apenas por meio da garantia à informação, mas através do diálogo e do estímulo à participação, tornando-o ativo e corresponsável”. Cita-se o exemplo de Pedro Marcom, blogueiro responsável pelo clone do Blog do Planalto com a área de comentários livres. O blog clonado3 copia na íntegra o conteúdo publicado no blog original4, porém, permite que os usuários comentem o conteúdo. Com essa atitude, Marcom 3  Disponível em: http://planalto.blog.br. Acesso em: 31/08/2012. 4 

Disponível em: http://blog.planalto.gov.br. Acesso em: 31/08/2012.

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alega ter feito uma provocação, em primeiro lugar à rede, pois acredita que o clone do Blog do Planalto, não é uma resposta apenas à falta de comentários, mas às reclamações recorrentes no Twitter e na Internet para a política de comunicação adotada pelo Blog do Planalto. Em segundo lugar, provoca o Palácio do Planalto, que adota essa política, o que demonstra não ser um espaço de interlocução e de abertura para o diálogo. Pedro Marcom acredita que uma janela de comentário aberta é um convite para conversa. Contrapondo essa opinião, Jorge Cordeiro, jornalista e coordenador do Blog do Planalto ressalta que, apesar da falta da área de comentários do Blog do Planalto, acredita que o espaço promove sim, o debate político por permitir que o seu conteúdo livre, licenciado pelo Creative Commons, seja apropriado, replicado e clonado na íntegra e que esse debate ocorre certamente por meio da rede. Segundo ele, o conteúdo espalhado proporciona que as pessoas o comentem nos seus microcosmos. Defende que o espaço de críticas e sugestões do Blog do Planalto não deve estar público. Na teoria da cultura participativa, os “fãs e outros consumidores são convidados a participar ativamente da criação e da circulação de novos conteúdos” (JENKINS, 2009, p. 378), o que caracteriza o comportamento do novo consumidor/cidadão midiático contemporâneo, cada vez mais distante da condição receptor e ser passivo. A cultura participativa permite a democratização do conteúdo. As informações, quando apropriadas permitem a conversa, a discussão sobre o assunto e esse fato deve ser cada vez mais valorizado pelos assessores de comunicação dos órgãos públicos. Os cidadãos estão atingindo níveis de participação que permitem maior experiência com os conteúdos e com as marcas. Neste sentido, percebe-se a adoção de algumas iniciativas implementadas no serviço público e que tem obtido resultados frutíferos. A Prefeitura de São Paulo, no ano de 2009, devido aos problemas de ocupação urbana, construção irregular (não autorizada) e consequências advindas de desmoronamento de casas causadas por fatores climáticos, lançou o Programa “de Olho na Obra5”. Sob a responsabilidade da Secretaria Municipal de Planejamento, Orçamento e Gestão, o serviço permite ao 5  Disponível em: http://www.capital.sp.gov.br/portalpmsp/do/busca?op=viewForm&servicoFor m=true&unidadeForm=false&key=6442&coEstruturaPaiBusca=1&coSeqEstrutura=. Acesso em: 31/08/2012.

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cidadão saber o que está sendo construído ou reformado na cidade desde 1997 e se a documentação está em ordem. É possível acompanhar pelo endereço, se a obra tem ou não alvará e para que ele foi dado. Caso não tenha, o cidadão tem a possibilidade de fazer uma denúncia. O Secretário da Prefeitura de São Paulo, que atua na modernização e inovação da Prefeitura, afirma que a cidade de São Paulo, em 2009, tinha apenas 700 fiscais na cidade o que tornava impossível a fiscalização efetiva, sem a participação dos cidadãos. Na visão do Secretário, essa ação explodiu o índice em 2009, de obras interditadas pela Prefeitura. Segundo Rodrigo, esses são instrumentos disponibilizados para a sociedade na busca de ajuda por parte dos cidadãos para a administração da cidade. Jenkins (2008) coaduna com o pensamento de Pierre Lévy que acredita que no mundo atual as ideias são o capital mais importante e que a inteligência coletiva só se adquire quando as pessoas pensam em conjunto. Acolhe a diversidade de pontos de vista, reúne indivíduos de todo o mundo e estimula o debate de ideias. Segundo Lévy, “O ciberespaço é a principal fonte para a criação coletiva de ideias, de forma que elas sejam usadas para o bem de todos, através da cooperação intelectual”, (LÉVY, online, apud PERRET, 2002, on line). A convergência midiática dá liberdade à inteligência coletiva e ao entrelaçamento das visões. Então, por que não utilizar a inteligência coletiva para solucionar problemas do governo, da cidade e da administração pública? [...] o discurso emergente sobre economia afetiva possui implicações negativas e positivas: possibilita que os anunciantes utilizem a força da inteligência coletiva, direcionando-as a seus próprios fins, mas, ao mesmo tempo, permitem que os consumidores formem seu próprio tipo de estrutura coletiva de barganha, que podem usar para desafiar as decisões corporativas (JENKINS, 2008, p. 96 -97).

A autora americana, Tara Hunt (2010) relata que em fevereiro de 2008 se envolveu numa questão de serviço público, com o transporte público na área da baía de San Francisco. Montou sua experiência baseada no modelo do Transitcamp, evento montado em Toronto, Canadá, em 2007, e que tinha como mote: “Este não é um departamento de reclamações. É um playground de soluções.” O evento foi um enorme sucesso conforme relatos escritos no Harvard Business Review: Em reuniões públicas, na TTC (Toronto Transit Comission) – Comissão de Transito de Toronto, funcionários se encolhiam de medo enquanto motoristas nervosos protestavam contra a infraestrutura antiga do sistema, desde o material circulante,

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às estações e ao site da TTC outrora aclamado. Enquanto funcionários dependentes de salários ficavam na defensiva diante de um enquadramento público, ficou claro que a comunicação estava entre as partes danificadas do sistema – o que impedia a ação construtiva.Esse beco sem saída teria continuado se não fosse pela descoberta por acaso das tecnologias de convergência das redes sociais, um exército em crescimento de nerds da tecnologia e do trânsito, e um novo presidente da TTC de mente aberta chamado Adam Giambrone. Ele aceitou uma sugestão de blogueiros locais sobre como revitalizar o site do TTC: usar as redes vivas dos nerds como condutoras de ideias.Em fevereiro de 2007, Giambrone e outros oficiais da TTC apareceram em um evento ao vivo chamado TransitCamp. Criado por membros da comunidade de blogs de Toronto, o original evento mostrou as cartas para o ativismo dos cidadãos. Por volta de 120 pessoas usaram as ferramentas de colaboração em tempo real da Web 2.0 para se envolverem umas com as outras pessoalmente. (SINGER, GOLDMAN, KUZNICKI apud HUNT, 2010, p.198).

De acordo com a autora: O TransitCamp original pegou esse modelo democrático e aberto à discussão e o aplicou em uma área de processo dirigido: serviços públicos governamentais. Os organizadores imaginaram que, se eles pudessem colocar juntos funcionários da Comissão de Trânsito de Toronto com as comunidades locais de tecnologia por meio de uma estrutura aberta de diálogo, algumas ideias interessantes poderiam emergir. E eles estavam certos. O primeiro TransitCamp foi um sucesso tão grande que os envolvidos continuaram a se encontrar uma vez por mês até hoje, com os mesmos encontros sem estruturas, abrindo-se para um público mais abrangente (HUNT, 2010, p. 199)

Sara Hunt (2010) explana que quando criou o TransitCamp, na área da baía de San Francisco, montou uma programação pré-agendada para convencer os funcionários de que comparecer ao evento faria o tempo deles valer a pena. Ficou surpresa ainda na fase de organização, com a preocupação e envolvimento dos cidadãos com as questões públicas. Revela que recebia vários e-mails solicitando o acréscimo de temas à pauta de discussão do evento. Focada na oportunidade do evento assegurar projetos interessantes e conversações, reuniu aproximadamente, 85 pessoas com todos os tipos de backgrounds. Este fato permitiu inicialmente, várias conexões pessoais o que facilitou o envolvimento e formação de lideranças nas discussões. Relata ainda que por envolver questões polêmicas, o trânsito leva as pessoas a discussões muito passionais, mas mesmo assim, explica que o evento possibilitou a utilização das tecnologias colaborativas abertas (Twitter, Flickr e Get Satisfaction) para um playground de soluções, inclusive, com muitas ideias postadas numa sessão de follow-up da TransitCamp no Get Satisfaction. Além disso, o evento permitiu ampla cobertura em diversos blogs e nas mídias tradicionais. Discorre que: 48


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Também tive diversos encontros com organizações de trânsito para ajudá-las a implementar as grandes ideias que elas haviam ouvido durante esta semana, como por exemplo, usar os feeds do Twitter, começar um podcast para que as pessoas saibam mais sobre seus serviços e integrar fotos de motoristas do Flickr ao material deles (HUNT, 2010, p.202). ... Depois que ajudei as agências de trânsito a abraçarem o caos, elas foram capazes de estabelecer mais relacionamentos com a comunidade criadora, assim como se envolver realmente com cidadãos entusiasmados que ficaram felizes em ajudar. As agências não só ganharam uma porção de novas ideias como também forjaram relacionamentos que persistem até hoje. Elas continuam a construir seu whuffie na comunidade mais ampla ao implantar essas ideias e se abrir cada vez mais à comunicação, integrando a ideia de abraçar o caos em sua rotina diária de trabalho. Somando-se a isso, eles geraram mais whuffie com as pessoas que usam o trânsito diariamente... (HUNT, 2010, p.203).

Os nascidos na rede, conhecidos como geração Y estão usando o seu senso crítico e sua inquietação para propor mudanças positivas no cenário político. Exemplifica-se como o Partido Pirata, movimento que tem o objetivo de inserir a geração weeks na política da forma interativa, digital e transparente. Na sua página6 declara: O Partido Pirata é um movimento que surgiu no Brasil no final de 2007 a partir da rede Internacional de Partidos Piratas, organização pela defesa ao acesso à informação, o compartilhamento do conhecimento, a transparência na gestão pública e a privacidade – direitos fundamentais que são ameaçados constantemente pelos governos e corporações para controlar e monitorar os cidadãos [...]. O Partido Pirata do Brasil defende ainda a inclusão digital, o uso de softwares livres e a construção de políticas públicas de forma efetivamente participativa e colaborativa [...] O Partido Pirata não se parece em nada com a instituição “Partido” a qual estamos acostumados: burocráticas, hierárquicas e verticalizadas. Atuamos de forma descentralizada e não hierárquica. Essa forma de agir, compartilhando e construindo conjuntamente as propostas, se associa diretamente a nossa própria identidade e à sociedade que queremos construir. Àqueles que buscam modos abertos e transparentes de se fazer política, fica o convite para o ingresso no Partido Pirata.

Em campanha para a transformação do movimento em partido e em busca de maior engajamento dos jovens aos seus princípios, o Partido Pirata criou e disseminou na rede uma série de panfletos virtuais que eles denominam “propaganda pirata7”. Mesmo esbarrando em muitas limitações e responsabilidades, inclusive de ordem legal, o poder público precisa adotar meios de comunicação que possibilitem a discussão, a participação e a interação com a so6  Disponível em: http://partidopirata.org/quem-somos.html. Acesso em: 31/08/2012. 7  Disponível em: http://partidopirata.org. Acesso em: 31/08/2012.

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Fig.01 – Propaganda Pirata

Fonte: Partido Pirata do Brasil

Fig.02 – Propaganda Pirata - Fonte: Partido Pirata do Brasil 50


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ciedade. Percebe-se que as discussões na rede ainda estão muito centradas no debate político e no embate de bandeiras. Os governantes necessitam entender que a presença deles na Internet não pode ser necessariamente um espaço de comunicação política ou de propaganda política. Afinal, os cidadãos contemporâneos estão cada dia mais ativos, “falantes” e conectados. Deixar que eles atuem como sujeitos ativos na construção dessa nova ordem política que valoriza o interesse público não é mais uma questão de escolha e sim, condição para o sucesso dos órgãos públicos nessa conjuntura inovadora. Por outro lado, os órgãos públicos que souberem construir essa relação dialógica com seu público ganharão uma importante recompensa: cidadãos defensores, fiéis e colaborativos. CONSIDERAÇÕES FINAIS A comunicação pública deve assumir relevância na esfera governamental por estar relacionada à viabilidade da construção de espaços públicos que visam à participação dos sujeitos na gestão pública. Novas tendências tecnológicas e comportamentais surgem a cada dia. O mundo está cada vem mais digital e interconectado. As tecnologias digitais são utilizadas como plataforma de expressão dos consumidores/ cidadãos e tornam-se um importante canal de relacionamento entre as organizações públicas e seus usuários/cidadãos. As organizações públicas que não estiverem preparadas para estabelecer uma relação aberta e transparente com seus usuários e cidadãos perderão espaço e credibilidade, pois a sociedade está mais ativa, participativa, atenta e proativa. Nesse contexto, quando os cidadãos não encontram transparência e democratização da conversa (abertura de canais de comunicação de duas vias entre o representante e o representado) assimilam que não existe o interesse da comunicação, o que em tempos atuais significa valor intangível negativo para a marca. Imersos na cibercultura, os recursos tecnológicos devem ser incorporados pelos órgãos públicos como elementos capazes de contribuir para o bem comum na busca de uma sociedade mais justa, igualitária e integrada. É fato que a participação coletiva é ainda ínfima no contexto da discussão da comunicação de interesse público, mas esse cenário 51


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tende a se modificar. É importante inclusive estimular os cidadãos nesse processo de participação púbica na tentativa legítima de usar a rede como mecanismo de governança. Afinal, convive-se apenas com aproximadamente 20 anos de tradição democrática e as pessoas ainda estão aprendendo a se comunicar em rede. Precisa-se convidar as pessoas para o debate e participação pública no sentido de criar condições para que o processo de aculturação do brasileiro na rede promova nos cidadãos, maior consciência política.

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Propaganda política e favela: uma leitura do papel das lideranças locais nos anos de 2008 e 2010 na cidade de Marilia/SP Political propaganda and favela: a reading of the role of local leaders in the years 2008 and 2010 in the city of Marilia / SP Adolpho Carlos Françoso Queiroz1 Rodrigo César Vieira2

RESUMO Partindo desse um contexto de favela, o artigo traz uma pesquisa realizada em um bairro do município de Marília, interior de São Paulo, logo após as eleições presidenciais de 2010. Tendo como objetivo estudar os meios pelos quais a população local pratica política, assim como as convicções individuais e sociais acerca do voto, o artigo teve como procedimentos metodológicos entrevistas aos moradores do bairro Toffoli, aliadas a uma breve revisão de literatura sobre Folkcomunicação. Como considerações, foi possível observar, entre outros aspectos, que as populações envolvidas em uma cultura de favela tendem a votar ou a se abster nas eleições a partir das orientações de lideranças locais, e não pela decodificação pessoal do conteúdo midiático produzido pela equipe de marketing eleitoral. ção.

PALAVRAS-CHAVE: Propaganda Política; Favela; Folkcomunica-

1. Pós-doutor em comunicação pela Universidade Federal Fluminense, Professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie. adolpho.queiroz@mackenzie.br 2. UNIMAR – Universidade de Marília. rodrigo@psicologiasocial.org.br

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ABSTRACT From this a context slum, the article brings up a survey in a neighborhood of the city of MarĂ­lia, SĂŁo Paulo, shortly after the 2010 presidential election. Aiming to study the means by which local people practice politics as well as individual and social beliefs about the vote, the article had the methodological procedures interviews with neighborhood residents Toffoli, together with a brief review of literature on folk communication. Considerations, it was possible to observe, among other things, that people involved in a favela culture tend to vote or to abstain from the elections guidelines of local leaders, and not by decoding the personal media content produced by the marketing team election. KEYWORDS: Political advertising; neighborhood; folk communication.

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INTRODUÇÃO A palavra Favela é um termo típico da língua portuguesa do Brasil, e segundo Aguiar, o primeiro escritor a utilizá-lo foi Euclides da Cunha na obra Os Sertões. -[...] a palavra favela tem acepção meramente geográfica, o autor assim escreve: - todas traçam, afinal, elíptica curva, fechada ao sul por um morro, o da favela, em torno de larga planura ondeante onde se erigia o arraial de Canudos – e daí, para o norte, de novo se dispersam e decaem até acabarem em chapadas altas à borda do São Francisco‘ (AGUIAR, 1999). Estudiosos consideram a origem da palavra a partir de suas hipóteses. Uma delas é descrita por Ávila como sendo[...] um termo latino que significa pequena fava. Historicamente, é o nome de uma pequena colina de uma região da Bahia, de onde provieram os migrantes que se instalaram, pela primeira vez, no Rio de Janeiro, nas imediações da Estação Pedro II da Central do Brasil. Ocuparam, na ocasião, uma pequena elevação, que, pela semelhança com a colina baiana, chamaram de favela. Daí o nome se estendeu a todas as aglomerações de barracos construídos na cidade do Rio de Janeiro, seja em escarpas, seja em regiões planas, em geral alagadiças [...] (ÁVILA, 1972). Ao longo dos anos, o crescimento dos grandes centros desencadeou mudanças na semântica da palavra favela; concomitante à falta de planejamento urbano em inúmeros municípios brasileiros, seu significado hoje é pejorativo, somando-se a ele conceitos como violência, tráfico de drogas e prostituição. A cidade de Marília, no interior de São Paulo, é um exemplo dessa realidade. Com aproximadamente 220.000 habitantes 3, hoje possui favelas distribuídas em diversas regiões da cidade. De acordo com pesquisa realizada pela Gestão Urbana de Trabalho Organizado – um subprojeto responsável pelo Mapa da Exclusão / Inclusão Social e Qualidade de Vida de Marília –, em 2003 eram aproximadamente 17 favelas e a segunda maior em número de habitantes se localizava na zona sul, no Conjunto Habitacional Monsenhor João Batista Toffoli. Com pouco mais de 220 casas – descrição que para os moradores locais é expressa como barracos –, na região do Toffoli, a população

3  www.marilia.sp.gov.br acesso em 15 de novembro de 2010.

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de pouco mais de mil habitantes sobrevive com uma renda familiar per capita de R$ 42,61. Esses dados foram obtidos com uma Organização Não Governamental denominada Psicologia e Integração Social (CNPJ 09.147.388/0001-22), uma entidade que vem, há cerca de sete anos, desenvolvendo um trabalho de tratamento e prevenção para dependentes químicos e alcoolistas. Em parceria com a ONG em questão, um roteiro de seis perguntas foi elaborado, tendo como público alvo os moradores da própria favela do Toffoli. Assim, para a realização do projeto foi feito um levantamento das lideranças locais e identificadas nove pessoas capazes de exercer forte influência na comunidade. Tal influência acontece a partir de quatro traços psicossociais: capacidade de articulação e expressão linguística; habilidade para solucionar conflitos locais; poder aquisitivo; e envolvimento com o tráfico de drogas. É importante destacar que dentre essas lideranças existe uma pessoa que, mesmo estando presa há aproximadamente quatro anos, consegue, de dentro da penitenciária, afetar a comunidade e o poder de escolha das pessoas, inclusive quanto a posições políticas. Pela impossibilidade de comunicação com o detento, as perguntas foram adaptadas para que o pai dele pudesse responder. O PERFIL DAS LIDERANÇAS Esperando conhecer um pouco sobre o perfil psicológico e as intenções de votos locais, os seguintes questionamentos foram propostos nos dias 8, 15 e 16 de outubro de 2010. 1. Quais são os maiores problemas que o seu bairro enfrenta? 2. Para você, o que é política? 3. Neste ano de 2010, quais foram os candidatos a presidente? 4. O que o (a) leva a votar? O candidato, o partido político ou a plataforma de campanha? 5. Pensando nos atuais problemas do seu bairro, o que está ao seu alcance para solucionar ou amenizar essas dificuldades? 6. Em quem você votou para presidente? Por quê? Objetivando preservar a identidade dos entrevistados, que não se sentiram à vontade para falar mediante gravações de áudio ou vídeo, os dados formam descritos a partir das seguintes informações: quatro homens nas idades de 23, 32, 45 e 52 anos – cinquenta e dois é a idade do pai que foi entrevistado, o filho detido tem 26 anos –; e quatro mulheres com 21, 49, 51 e 38 anos. O primeiro entrevistado, de 23 anos, cujo respeito local se dá por 58


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força de coerção, ou seja, pelo envolvimento com o tráfico de drogas e aplicação de violência física, mora no bairro há cerca de oito anos. A narrativa de respostas ocorreu da seguinte forma: -O bairro tem muitos problemas, e o pior deles é a competição por conta da droga. O lugar é pequeno, e tem muita gente aqui pra querer mandar... Não dá pra confiar em ninguém, quer dizer, quase ninguém! Você me perguntou o que é política... Não sei dizer, não entendo muito sobre o assunto – talvez seja por isso que eu não goste! Nem os candidatos eu conheço. Sei da Dilma e do Serra; também sei que tem outros, mas não lembro o nome... ah, tem a Marina. O que me leva a votar? Faz tempo que eu não voto, não acredito que o meu voto possa fazer alguma coisa! E se fosse votar votaria na pessoa; gosto do Lula, talvez eu votasse na Dilma por causa dele. Quanto aos problemas do bairro, os meus parceiros e eu cuidamos de quem entra e sai daqui; dos ‘nóias’4 que querem perturbar o pessoal. Também cuido da minha família, o meu filho é o que eu tenho de mais precioso na vida! O segundo entrevistado tem 32 anos e reside na favela há aproximadamente 10. Sua influência comunitária acontece pela habilidade inata em se expressar linguisticamente e pela capacidade de articulação política – tendo neste contexto o entendimento de política como relações humanas e não partidária. Em uma cultura de favela é muito comum existirem disputas acerca do tráfico de drogas, e como consequência, a desfragmentação da comunidade em subgrupos locais. O entrevistado consegue transitar por praticamente todos esses grupos, relacionando-se e alcançando o respeito da população. A seguir temos um trecho da conversa: -O que não falta aqui é problema. Vamos dar uma andada logo ali em baixo pra você ver o esgoto a céu aberto. Fora isso, não tem nada pra gente se divertir; tinha uma piscina aqui perto, mas a prefeitura aterrou o lugar pra construir uma quadra que ninguém usa. O postinho de saúde tem um monte de problema, falta gente pra trabalhar, é terrível! O que é política pra mim? ... Difícil falar! O que sei é que nós estamos assim por causa deles, dos políticos que só vêm aqui em época de campanha! Agora, dos candidatos eu posso falar: tem a Dilma, o Serra, a Marina, o Plínio – acho que é esse o nome dele – e mais alguns que eu não conheço; sei deles por causa do debate que passou na Record, e o Plínio, e na minha opinião, é o que fala melhor. Vendo eles eu escolho em quem votar... acho que o certo é votar na pessoa. Apesar de que eu não voto faz tempo. Pelo meu bairro...? Eu tenho feito pelo meu bairro aquilo que eu posso. No Natal e 4  Nome dado aos usuários de crack.

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no Dia das Crianças, eu faço os meus “corre”5, procuro empresário, gente de bem e de respeito pra conseguir doação pras crianças. Também mando carta pro correio porque eles conseguem ajudar algumas crianças... Acho que é isso. Como falei, não voto faz tempo e não acho que o meu voto fez falta... No final das contas, tudo vai continuar como está. Mas se fosse votar, votaria na Dilma por causa do Lula: ele pensou nos pobres! O terceiro entrevistado do sexo masculino tem 45 anos e é filiado ao PCdoB há aproximadamente 20 anos. De todos os entrevistados, é o único que não trabalha informalmente, e partindo desse preceito, foi possível observar que o fato de possuir um vínculo empregatício formal acarreta o respeito da população local. -O bairro? O que mais tem aqui é problema: o tráfico, a falta de saneamento básico, as casas construídas em local de risco... Eu ficaria horas falando disso, mas melhor do que olhar os problemas é pensar a solução. Política: pensando na sua pergunta, ela é uma forma de melhorar os problemas do bairro. Mas você pediu uma definição... há tanto tempo que as pessoas tentam definir, e quem sou eu para fazer isso? De qualquer forma, arrisco uma: é a arte de administrar pessoas. Quanto aos candidatos, além dos quatro mais conhecidos (Serra, Dilma, Marina e Plínio), tem o pessoal do PCO e PSTU e outros que, sinceramente, nem lembro o nome... isso porque eu me considero uma pessoa politizada. Imagina o resto da população! A princípio, voto no partido e na plataforma de campanha. Mas é claro que esses três pontos são importantes e devem se completar. Quanto ao bairro, eu já tentei fazer muito pelo pessoal daqui: fui um dos primeiros moradores da favela, isso há mais de quinze anos, vim pra cá no começo dos anos 90... vi esta favela crescer. Já tentei articular com a câmara, com o vereador do meu partido, fazer projeto e distribuir pra gente influente; mas o pessoal não colabora. Quando falo em pessoal, falo dos próprios moradores daqui. Vou te dar dois exemplos: quase todos da favela gostam do Lula pela política social dele, mas você acha que alguém se empenha para lutar pela Dilma? Outra coisa, se você olhar bem, vai perceber a área verde à nossa volta. Daria pra fazer um ótimo trabalho de preservação ambiental... você acha que os moradores cuidam disso aqui? Já tentei fazer muito, hoje, tento cuidar da minha vida e olhe lá! Quanto às eleições, votei na Dilma porque o meu partido apoiou a campanha dela. Mesmo estando meio decepcionado com o meu partido, ainda assim resolvi dar mais um voto de confiança a eles; mas essa conversa de decepção a gente deixa pra outro dia. 5  Nome dado às atividades diárias, responsabilidades cotidianas

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A entrevista a seguir foi feita com uma pessoa do sexo masculino, 52 anos, pai de um jovem de 26 anos que é tido pelos moradores da favela do Toffoli como uma importante liderança local, que, no entanto, está preso há aproximadamente quatro anos por tráfico de drogas. -Pra mim é difícil estar respondendo por ele, mas acho que o meu filho pensa como eu: o pior problema da favela é a pobreza e o tráfico. Não é fácil falar isso porque a gente sobrevive do tráfico, mas ele acaba com a vida das pessoas aos poucos, tanto com quem compra como com quem vende. O que é política? Aí você me pegou... Não sei, e nem vou tentar dizer o que é. Os candidatos eu até lembro: a Marina, a Dilma e o Serra. No que eu voto? Se é na pessoa, no partido ou na proposta? Em nenhum: faz tempo que eu não voto. E quanto ao meu filho, que eu saiba, antes de ser preso ele também não votava. Não sei como é que funciona essa coisa de voto dentro da cadeia, talvez ele até vote... vou ficar te devendo essa resposta. Mas pra não falar que ele nunca se envolveu com política, uma vez o Vinícius Camarinha saiu pra prefeito e o meu filho falou pro pessoal não votar nele. Não me pergunte o porquê, só sei que o povo obedeceu. Não é porque é meu filho, mas ele manda e desmanda aqui. Claro que não é só ele, os “pilotos”6 também dão o aval, mas de qualquer jeito o pessoal respeita. Pelo bairro a gente faz o que pode: protege e ajuda os menos favorecidos com comida, casa, advogado – afinal, tem muito doutor que compra droga da gente... – a gente colabora com o que dá. A primeira entrevistada do sexo feminino tem 21 anos e foi morar na favela quando tinha 11 anos. A exemplo do primeiro entrevistado, também é envolvida com o tráfico de drogas. Segundo ela, o fato de ter um poder aquisitivo elevado e não fazer uso de nenhuma droga comercializada legal ou ilegalmente é o que lhe confere o respeito das pessoas. -Os problemas daqui não são diferentes de outros lugares. É briga de família – marido e esposa, pai e filho –, briga de vizinho, falta de dinheiro, coisa que você encontra em qualquer lugar. O que eu entendo sobre política? Acho que nunca parei pra pensar nisso porque não me interesso pelo assunto... Política é aquilo que um país faz pelas pessoas que moram nele... Está boa a resposta? Pra presidente eu soube da Dilma, do Serra e da Marina. Também tiveram outras pessoas7, mas eu não lembro... acho que nem ouvi o nome deles. Eu voto sempre no candidato, mas nesse 6  Nome dado às pessoas ligadas ao Primeiro Comando da Capital que possuem um cargo de liderança interna. 7  Para a população local, o consumo do álcool é mais condenado do que o de drogas ilícitas.

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ano foi diferente: votei na Dilma, não por causa dela, mas pelo Lula; ele fez diferença no país! Ele pensou nos pobres, e fora isso, a minha mãe é fã dele; acho que também dei o meu voto por causa da influência dela. O que está ao meu alcance para melhorar o bairro? Acho que nada! Pra não falar nada, o que eu posso fazer é cuidar do meu filho, coisa que aqui muita gente não faz. O moleque dá trabalho e eles (os pais) colocam a culpa nos traficantes, nos professores, na favela, mas nunca neles mesmos... É só isso que eu devo fazer! A segunda mulher a ser ouvida, de 49 anos, é mãe da entrevistada anterior e também tem envolvimento com o tráfico de drogas. Diferente da filha, porém, se mostra interessada pelo tema política, relatando ter sido filiada ao Partido dos Trabalhadores: -Me liguei ao PT em 1990, quando morava em São Paulo, e de lá pra cá sempre tive no Lula uma pessoa de admiração; ele é uma inspiração pra mim e pros meus filhos. Aqui em Marília já tentei me envolver com política... quer dizer, eu não, o meu bairro. Já trouxe candidato a vereador pra falar aqui na favela em época de campanha, já cobrei candidato que não veio aqui depois da campanha... Lá na câmara o pessoal não quer me ver pintada de ouro porque eu já arrumei muita confusão lá! E pra ser sincera, nunca fiz nada demais, só cobrei promessas e os meus direitos como cidadã. Mas como você deve saber, político não gosta de ser cobrado. Aqui no bairro a gente tem o problema do tráfico – e quem sou eu pra falar disso já que quase toda a minha família é envolvida? –, da falta de atenção do prefeito quanto ao postinho de saúde, e o pior de tudo, a mentalidade pequena do pessoal que mora aqui: a favela parece um vício, depois que a pessoa muda pra cá e se envolve no dia a dia dela não consegue mais abandonar! Falando em política, quando o filho do Camarinha se candidatou pra prefeito ele veio com uma história de colocar posto policial no bairro porque o lugar tava muito violento... Pura mentira! Quem mora aqui sabe que o bairro é seguro, que os “meninos”8 não querem que tenha roubo e confusão pra não chamar a atenção da polícia e atrapalhar o trabalho deles; a gente se cuida por conta própria, não precisamos deles pra isso! Tivemos que fazer campanha contra o Vinícius porque não tem cabimento trazer policial corrupto pra cá (e pra ser sincera, a gente se vira com algumas polícias, eles não mexendo com a gente e a gente sustentando o vício deles)... No final das contas, o pessoal do bairro – pelo menos da favela – não votou nele. Pra mim, política é o ato de se mostrar pro povo e cuidar dele; o proble8  Traficantes locais.

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ma, é que hoje em dia as pessoas só querem se mostrar e ganhar dinheiro com isso. Os candidatos desse ano foram a Marina Silva, Dilma Rousseff e o José Serra; tem mais um senhor que era do PT e que eu não lembro o nome. Bem, respondendo a sua pergunta, depois que eu conheci a grande São Paulo e o PT nunca mais parei de votar nele. Pra presidente sempre votei no Lula, e agora votei na Dilma por causa dele e do partido. O que eu posso fazer pra melhor o bairro? Acho que nada! Como te disse, já tentei fazer muito através da política, mas não deu certo. Agora, o que eu faço é cuidar da minha vida e da vida dos meus filhos! É claro que quando alguém precisa de uma cesta básica, de uma ajuda pra comprar remédio a gente acaba fazendo um “corre”, mas é isso e mais nada. A próxima entrevistada, de 51 anos, relata ser mãe de cinco filhos e ter alcançado o respeito da comunidade pela maneira como educou todos eles. -Todo mundo aqui me admira porque sabe a boa mãe que eu sou, e os que me criticam fazem isso por inveja, aliás, aqui na favela, isso é o que mais tem. Além do “olho gordo”, o que mata muita gente aqui – não mata o corpo, mas mata os sonhos. Além do “olho gordo” o tráfico acaba com o lugar, e esse, mata mesmo! Não sei dizer o que é política; política é uma palavra que eu sempre ouvi, mas não sei explicar... Estranho! Eu nunca me interessei por política, acho que é pela quantidade de ladrão que tem nela. Na política, quem já não é, um dia ainda vai ser ladrão! Eu conheço a Dilma e o Serra. Tem também a Marina, o pessoal da minha igreja vai votar nela... acho que são esses os candidatos. O que me leva a votar? Eu não voto. Já votei, mas faz muito tempo que eu não vou até a urna. Uma porque eu não sei ler direito, e outra porque não adianta nada votar: todo mundo é igual! Eu posso não votar, mas faço muito pelo meu bairro. Não pelo bairro todo porque, como eu te disse, muita gente aqui tem inveja, e eu nem me aproximo deles. Mas pra quem quer ajuda eu dou conselho, se precisar dou uma “mistura”, faço faxina e ajudo gente doente. Acho que foi pra isso que eu nasci, pra ajudar as pessoas. Mas uma coisa eu te digo: não é todo mundo que pede ajuda que quer ser ajudado! A última pessoa do sexo feminino a participar da pesquisa, com idade de 38 anos, afirmou ter sido filiada por mais de 10 anos ao PCdoB, e quando indagada acerca dos principais problemas do bairro disse: -Mesmo sendo na favela, eu lutei muito pra conseguir a minha casa. Catei papelão, fiz artesanato, trabalhei como empregada e fui tratada como lixo por essa sociedade burguesa, mas consegui meu canto. Mesmo feliz por tudo isso, o que me mata aqui é a cabeça pequena desse povo que só quer saber de olhar a vida dos outros e fofocar... Conversar sobre o Plano Di63


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retor da nossa cidade e sobre o desfavelamento ninguém quer! Política...? Não sei dizer o que é política pra você, mas sei dizer o que ela foi pra mim: pra mim foi o sonho de ver o trabalhador no poder, lutando por um país mais justo. Você sabe que eu já fui militante do PCdoB... hoje eu estou muito decepcionada. Quando o meu partido pode fazer alguma coisa pela nação, acaba jogando essa possibilidade fora. Recentemente aconteceu algo parecido em uma secretaria da nossa cidade. Desde que o Bulgareli foi eleito, o meu partido saiu da oposição e começou a apoiar ele, tanto é que foi criada uma nova secretaria pra nós, a Secretaria da Juventude. Não sei por que – quer dizer, eles disseram que foi por divergência ideológica, mas não sei não – o PCdoB brigou com o prefeito e perdeu todos os privilégios de liderança... Não entendo essas coisas, a pessoa luta tanto pra conseguir o poder e quando consegue não administra!? Os candidatos à presidência? Marina, Serra, Dilma – que aliás, é apoiada pelo “meu” partido –, Plínio e outros que se “dizem” defensores da causa operária; nem acredito que estou falando nesse tom de ironia, mas é que eu ando meio pessimista com esse lance de política! Sempre votei por ideologia, e isso pra mim significava votar no partido e nas pessoas que o partido apoia. Mas como você percebeu, o meu pensamento mudou. Esse ano, por exemplo, não fiz questão de votar na Dilma, e também não me peça pra dizer em quem foi...! Quanto ao meu bairro... Bem, pelo meu bairro eu já fiz de tudo: já fiz parte da Associação de Moradores, já participei de uma cooperativa de reciclagem – que por sinal não deu certo por questões políticas –, já me envolvi com universitários e ONGs, mas ultimamente não tenho feito nada. Na verdade, tenho pensado na minha família, no meu ganha-pão e só! COMO PANO DE FUNDO, A PRESENÇA DA FOLKCOMUNICAÇÃO Segundo Beltrão, a -[...] comunicação coletiva não se faz entre um indivíduo e outro como tal, mas em forma colegiada: o comunicador é uma instituição ou uma pessoa institucionalizada, que transmite a sua mensagem, não para alguém em particular, mas para quantos lhe desejam prestar atenção. (BELTRÃO, 1967).9 Partindo de tal pressuposto, a comunicação política em uma cultu9  http://www2.metodista.br/unesco/luizbeltrao/luizbeltrao.htm#_ftn2 acesso em 7 de novembro de 2010

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ra de favela – a exemplo do bairro Monsenhor João Batista Toffoli – pode ter como base dois grandes momentos pelos quais a informação transcorre: em uma primeira etapa por Meios de Comunicação de Massa, no qual uma proposta política é midiaticamente exposta; e em um segundo momento por Meios de Comunicação de Folk quando lideranças locais decodificam a plataforma política dos candidatos para a população em questão. (BELTRÃO, 1980).10 Na tentativa de aplicar as afirmações acima ao cotidiano do bairro estudado, tomam-se como exemplo as eleições para prefeito em 2008 na cidade de Marília. Elas aconteceram sob a disputa de quatro candidatos, sendo que os dois mais votados foram Mário Bulgareli, filiado ao PDT, e Vinícius Almeida Camarinha do PSB. Nesse sentido, o resultado foi determinado pela eleição de Mário Bulgareli com 55.480 contra 40.666 votos do candidato do PSB. 11 Das muitas ciências que compõem a interdisciplinaridade de saberes da Comunicação, a Sociologia e a Psicologia Social proporcionam a possibilidade de estudar instituições a partir da identidade dos líderes que a compõem. Tal introdução é feita apenas para justiçar um preceito: toda instituição é o reflexo da sua liderança – qualquer grupo social reproduz, em algum momento da sua história, as convicções éticas e políticas das figuras de autoridade que o conduzem. Desse modo, de forma colegiada, pessoas que ocupam uma alta posição no Primeiro Comando da Capital podem ser um dos muitos fatores que colaboram para os resultados políticos em uma comunidade. A exemplo do entrevistado de 52 anos cujo filho está preso: -uma vez o Vinícius Camarinha saiu pra prefeito e o meu filho falou pro pessoal não votar nele. Não me pergunte o porquê, só sei que o povo obedeceu. Não é porque é meu filho, mas ele manda e desmanda aqui. Claro que não é só ele, os “pilotos” também dão o aval [...]. E dentro da mesma perspectiva, nas palavras da entrevistada de 49 anos: -[...] quando o filho do Camarinha se candidatou pra prefeito, ele veio com uma história de colocar posto policial no bairro porque o lugar tava muito violento... Pura mentira! Quem mora aqui sabe que o bairro é seguro, que os “meninos” não querem que tenha roubo e confusão pra não chamar a atenção da polícia e atrapalhar o trabalho deles [...] Tivemos que fazer campanha contra o Vinícius [...] no final das contas, o 10  http://www2.metodista.br/unesco/luizbeltrao/luizbeltrao.documentos.htm acesso em 2 de novembro de 2010 11  http://www.asclaras.org.br/2008/ acesso em 2 de dezembro de 2010.

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pessoal do bairro – pelo menos da favela – não votou nele. Como Meio de Comunicação de Massa, a proposta do candidato do PSB no âmbito da segurança, e a contrapropaganda dessa mensagem por uma liderança local (Meio de Comunicação de Folk e pessoa institucionalizada), tendo como efeito a não aceitação do candidato, pode ser confirmada pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo.12 Dos três colégios eleitorais que abrangem os moradores do bairro Toffoli, houve neste ano um total de 2675 votos para Mário Bulgareli contra 2176 votos computados para Vinícius Almeida Camarinha. -[...] porque o comunicador pessoal é movido por interesse particular, a sua mensagem tem um caráter predominantemente interesseiro. (BELTRÃO, 1967).13 Objetivando não olhar a situação eleitoral de 2008 como algo isolado na história da favela do Toffoli, mas como um fenômeno capaz de se repetir em semelhantes aspectos e contextos, é importante retomar a afirmação de que toda instituição ou grupo social se molda nas convicções pessoais das lideranças que a compõem, sejam elas atuantes de modo coercivo ou não. Tal fato foi verificado também nas eleições de 2010, tendo como foco principal o estudo das abstenções. Durante as entrevistas para este artigo, observou-se que dos nove líderes entrevistados apenas quatro exercem regularmente o direito ao voto – sendo que dessa amostra três pessoas declararam intenção de voto para a então candidata Dilma Rousseff e seis explicitaram uma visão altamente pessimista quanto à política. Constatações como estas podem indicar que um número expressivo de moradores da favela está à margem da sociedade não apenas por fatores econômicos, mas também por não participarem do processo eleitoral do país, um reflexo da indiferença política das lideranças locais. Ao mencionar a intenção de voto para presidente, o terceiro entrevistado do sexo masculino, de 45 anos, disse que -[...] quase todos da favela gostam do Lula pela política social dele, mas você acha que alguém se empenha para lutar pela Dilma? Na tentativa de decodificar esse questionamento, uma revisão sobre os resultados da disputa entre José Serra e Dilma Rousseff nos três principais colégios eleitorais do bairro foi realizada, obtendo o seguinte resultado: nesses três locais de votação, a vitória de Serra foi unânime, em uma somatória de 3972 votos contra 2419 para a então candidata Dilma 12  http://www.tre-sp.gov.br acesso em 18 de novembro de 2010. 13  http://www2.metodista.br/unesco/luizbeltrao/luizbeltrao.htm acesso em 1 de novembro de 2010.

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Rousseff. Retomando na década 60 os conceitos de Luiz Beltrão com relação aos rituais religiosos como veículo jornalístico, na Folkcomunicação Informativa pode-se pensar a informação e a manifestação de opiniões em uma via oral, de lideranças para a comunidade, como no exemplo da contrapropaganda citada em 2008 por traficantes locais. Contudo, o silêncio também comunica. O hábito da abstenção política por parte de líderes incorre indiretamente na não manifestação da opinião do povo – que a exemplo da última entrevista tem na candidata apoiada por Lula a vontade da maioria –, da não prática dos desejos pessoais e coletivos. CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao ser iniciado o planejamento e elaboração do artigo, a presente pesquisa tinha como objetivo investigar os meios de comunicação política em uma cultura de favela, assim como as motivações de voto nas pessoas envolvidas. E seguindo essa linha de pesquisa, foi levantada a hipótese de que os resultados em uma eleição não expressam o pensamento do grupo social que a compõem: entre a intenção de voto e a efetivação dessa vontade um longo caminho precisa ser percorrido. Os dados obtidos nos levam a crer que além do exercício político em uma favela estar intimamente ligado aos exemplos pessoais reproduzidos socialmente, como à violência comunicada de Retornos Direto e Indireto por parte das lideranças locais – tanto nos interesses individuais de voto dos líderes, como no aspecto da abstenção –, o conteúdo midiático produzido e exposto pelas equipes de marketing eleitoral conseguirão um alcance ínfimo caso a propaganda não avalie o contexto psicossocial em que essas lideranças estão inseridas. E como descrito nas primeiras páginas deste texto, ainda de que forma empírica, observou-se o seguinte: a capacidade de articulação e expressão lingüística; a destreza para solucionar conflitos locais; o poder aquisitivo – e nesse ponto também podem ser incluídas as pessoas que não estão na informalidade, mas possuem um vínculo empregatício –; e o envolvimento com o tráfico de drogas podem ser considerados como os principais traços de personalidade capazes de construir a imagem de um líder em uma favela. 67


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REFERÊNCIAS

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Movimentos sociais em Ribeirão Preto e Araraquara: um estudo de caso do aumento dos salários dos vereadores em 2012 Movimientos sociales en Ribeirão Preto y Araraquara: un estudio del caso del aumento de los salarios de los concejales en 2012. Maria Leonor de Castro Ayala1

RESUMO O presente trabalho mostra, analisa e procura entender como em cidades como Ribeirão Preto e Araraquara, localizadas no interior do Estado de São Paulo, formaram-se movimentos sociais de cunho popular contra o aumento abusivo dos salários e subsídios dos vereadores, justamente no ano de eleições municipais. Através de entrevistas feitas com dois ativistas dos movimentos “Panelaço Ribeirão” e “Movimento Reage Araraquara” apresenta-se detalhadamente como foram coordenadas as manifestações, quem estava à frente de cada movimento nos municípios, o que os manifestantes pregavam, o andamento dos protestos e o desfecho das histórias. Em ambos os casos a organização se realizou através da rede social Facebook, onde é possível criar páginas e eventos, juntar simpatizantes e debater livremente. Como é uma marca do ciberativismo, a mobilização tem como característica a interação entre diversos grupos de pessoas que buscam o mesmo objetivo. Outro ponto importante é que os movimentos aconteceram independentes um do outro e também não inteiramente simultâneos, e assim, a notícia do que houve em Ribeirão Preto (a primeira cidade a se levantar conta a decisão dos legisladores 1. Licenciatura plena em Ciências Sociais, Universidade Estadual Paulista – Campus de Araraquara, leonordecastromaria@gmail.com.

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municipais) chegou até os manifestantes araraquarenses (onde já estava começando a mobilização) e foi um grande propulsor para fortalecer o movimento. O fator que os manifestantes mais enfatizaram foi que nos dois casos, não houve participação política alguma, autodenominando-se apartidários. Este fato denota inteira organização e mobilização popular, que, em busca dos seus direitos como cidadãos, protestaram contra a falta de transparência e democracia na Câmara Legislativa, que seria o órgão público mais próximo da população. PALAVRAS-CHAVE: vereadores, salários, movimentos sociais, Internet. RESUMEN El presente trabajo busca mostrar, analisar y entender como en ciudades como Ribeirão Preto y Araraquara, localizadas en el interior del Estado de São Paulo, se formaron movimientos sociales de carácter popular contra el aumento abusivo de los salarios y subsidios de los concejales, justamente en el año de elecciones municipales. A través de entrevistas hechas com dos activistas de los movimientos “Panelaço Ribeirão” y “MOVIMENTO REAGE ARARAQUARA” se buscó presentar detalladamente como se coordenaron las manifestaciones, quienes eran los que estaban a frente de cada movimiento de cada municipio, lo que era dicho por los manifestantes, como se estaban poniendo en marcha las protestas y el desenlace de cada historia. En ambos casos la organización se há hecho a través de la red social Facebook, a donde es possible crear páginas y eventos, juntar simpatizantes y debatir livremente. Como es una marca del ciberactivismo, la mobilización lleva como característica la interación entre diversos grupos de personas que buscan el mismo objetivo. Otro punto importante que debe ser exaltado es de que los movimientos sucedieron independientes uno del otro y también no fueron enteramente simultáneos, y de esa manera, la noticia de lo que hubo en Ribeirão Preto (la primera ciudad que se levantó conta la decisión de los legisladores municipales) llegó a los manifestantes araraquarences (donde ya se empezaba la mobilización) y fue un gran propulsor que ajudó a fortalecer el movimento. El factor que es más enfatizado por los manifestantes es que en ambos los casos no hubo participación política alguna, autodenominandose apartidarios; lo que denota una entera organización y mobilización popular, que, al intentar buscar sus derechos como ciudadanos, protestaron contra la falta de transparencia y democracia en la Camara Legislativa, que seria la institución pública más cercana del los ciudadanos. PALABRAS CLAVE: concejales, salarios, movimientos sociales, Internet. 70


INTRODUÇÃO O objetivo deste trabalho é apresentar de que forma aconteceram os movimentos sociais, que foram coordenados na Internet, mais precisamente com a ajuda da rede social Facebook, contra o aumento abusivo dos salários dos vereadores nas cidades de Araraquara e Ribeirão Preto - localizadas na região central e noroeste do Estado de São Paulo, respectivamente – e quais foram as consequências de tais atos. Para tanto, foram entrevistados dois ativistas, José Elias Domingos do movimento “Panelaço Ribeirão” e Fernando Mauro Moraes Filho do “Movimento Reage Araraquara”, um de cada cidade. No primeiro momento, o sociólogo José Elias disse como surgiu esse movimento em Ribeirão Preto. Perguntou-se a ele se o “Panelaço Ribeirão” seria uma ONG, ao que respondeu que não, por não ser um grupo estatuariamente organizado e chamou-o, portanto, de iniciativa que começou quando em meados de abril de 2012 a indignação popular fomentou forte movimentação ante o aumento do subsídio dos vereadores de Ribeirão Preto. Em Araraquara, apesar de o movimento ter ocorrido depois, mas durante o de Ribeirão Preto, ele aconteceu independentemente daquela cidade (as cidades ficam a 80 km de distância aproximadamente). Mais tarde houve certo intercâmbio de informações, mas ao que tudo indica, no início não houve contato. Em seguida, se mostrarão os movimentos com detalhes, a fim de compreender como foi o “passo-a-passo” das mobilizações online. Por se estar em ano eleitoral, reitera-se a importância deste estudo para a Ciência Política, no que tange ao tema da ciência na atualidade, mostrando como se pode administrar situações contextuais e, consequentemente, afetam as pessoas, pois, a vida política influi diretamente no meio social - algo de que muitos ainda não tem consciência para relacioná-los. Assim sendo, analisar acontecimentos sociais nas cidades traz o conhecimento real das situações que a população passa, sem perceber. Além disso, trata-se aqui, também da questão do ciberativismo e democracia participativa, quando o primeiro demonstra o tipo de ação política tomada pelos manifestantes e o segundo, o objetivo final de toda a mobilização. Portanto, primeiramente se exploram os pontos teóricos para, em seguida, tratar dos acontecimentos.

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MARCO TEÓRICO Segundo Santos (2002), os casos de democracia participativa iniciam-se com uma tentativa de disputa pelo significado de determinadas práticas políticas – como dos vereadores de Ribeirão Preto e Araraquara – e há uma tentativa de ampliação da gramática social bem como da incorporação dos novos atores ou de novos temas na política da cidade. Basicamente, democracia participativa é a redefinição das ideias de Direito, que leva a uma redefinição dos novos atores sociais. Ao atentar ao acontecido em Ribeirão Preto e em Araraquara, pode-se notar que a participação popular se tornou o novo ator, que faz parte da agenda de decisões políticas, podendo se instituir numa nova soberania democrática. Participar significa influir diretamente nas decisões e controlar as mesmas(...) Se estamos em uma nova fase no pais, é possível e é preciso que o movimento comunitário avance e influa diretamente, apresentando propostas, discutidas e definidas pelo movimento sobre o orçamento [público] (UAMPA, 1986; SILVA, 2000, p. 122 apud SANTOS, 2002, p. 58).

Boaventura de Sousa Santos trata da democracia participativa como aquela que impulsionou a libertação de alguns povos do colonialismo: O que está em causa nestes processos é a constituição de um ideal participativo e inclusivo como parte dos projetos de libertação do colonialismo - Índia, África do Sul e Moçambique - ou de democratização - Portugal, Brasil e Colômbia (SANTOS, 2002, p. 57).

Diz também que, Os processos de libertação e os processos de democratização parecem partilhar um elemento comum: a percepção da possibilidade da inovação entendida como participação ampliada de atores sociais de diversos tipos em processo de tomada de decisão. Em geral, estes processos implicam a inclusão de temáticas ate então ignoradas pelo sistema político, a redefinição de identidades e vínculos e o aumento da participação, especialmente no nível local (SANTOS, 2002, p. 59).

Desta forma, os acontecimentos nessas cidades demonstram claramente a vontade popular de participar das decisões legislativas, acompanhar de perto as deliberações, se informar sobre as novas propostas, ou seja, uma troca transparente de informações entre os que detêm o poder e os que são representados. Os acontecimentos são verdadeiros exemplos de movimentos sociais. O papel dos movimentos sociais atuais é o de promover a democra72


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tização das relações sociais dentro da sociedade civil, através da redefinição de papéis, normas, identidades (sejam elas individuais ou coletivas), conteúdos e modos de interpretação de discursos existentes na esfera pública (PEREIRA, 2011). Através dos movimentos sociais é possível construir novos atores e novos cenários públicos, sendo esta a configuração da sociedade civil democratizada. Ao passo que uma sociedade em determinada cidade se torna mais informada e crítica, a pressão em relação aos que fazem as leis ou as executam aumenta, pois o cidadão sabe dos seus direitos, e contesta atos que os contrariam. Assim, a sociedade de Ribeirão Preto e Araraquara, com o crescente auxílio das novas tecnologias, principalmente a Internet, se mobilizou contra os vereadores demonstrando o descontentamento. Um ponto interessante a se levantar é o uso cada vez mais frequente da Internet para mobilizar pessoas que buscam uma causa em comum, ou até para informar as demais sobre questões que lhe dizem respeito, por fazerem parte da sociedade. Segundo Marcus Abílio Pereira (2011), a modernidade se define politicamente por instituições democráticas e no âmbito social e cultural, pela civilização eletrônica. Consequentemente, o tempo e o espaço sofrem severas modificações por influência dos sistemas de informação e comunicação, transformando assim, os sistemas de produção (CASTELLS, 1996; TOURAINE, 1981; MELUCCI, 1996; BARBER, 1999; SANTOS, 2002 apud PEREIRA, p. 2, 2011). Surge, portanto, o paradigma tecnológico como forma de análise das novas teorias sociais. Pelo fato da Internet oferecer espaços e condições para que “um processo reflexivo das mensagens aconteça” (PEREIRA, p. 7, 2011), os movimentos sociais encontraram nela meios de fornecer canais informativos e comunicativos que vão contra os mass media. Apesar de tudo, a Internet é um meio acessível para as camadas menos abastadas e também funciona como amplificadores das esferas sociais, que levam às esferas públicas certas questões que permaneciam em silêncio. Os meios de comunicação massiva funcionam como uma espécie de filtro entre o que deve ser noticiado, destacado ou deturpado e ocultado. A Internet rompe com essa intermediação. Por isso, pode facilitar que os agentes das notícias também sejam os agentes que fazem esse acontecimento chegar até o conhecimento da sociedade (MORAES, 2000, p. 146).

Portanto, com o uso da Internet e as demais tecnologias de informação e comunicação formou-se o paradigma tecnológico, marco da modernidade. O seu uso é extremamente interativo. Com isso, Dênis de Moraes (2000) trata da Internet como um ambiente tendencialmente interativo, cooperativo e descentralizado, e que tais componentes foram 73


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introduzidos nas lutas sociais a partir dos anos 1990. Tais características possibilitam a difusão das reivindicações dos partidos políticos, sindicatos, ONGs e grupos guerrilheiros, por exemplo. Ou seja, o espaço que a Internet possibilita é de descentralização, cooperação e multidirecional. Além disso, a Internet sobrepuja os filtros ideológicos e as políticas editoriais da grande mídia (MORAES, 2000). Moraes (2000) acredita que para além do e-mail, entretenimento e pesquisas, a Internet projeta-se como fórum online capaz de revitalizar lutas e movimentos civis, na atmosfera de permutas própria da cultura das redes. A Internet funciona, portanto, como uma caixa de ressonância da sociedade civil, representando lutas e reivindicações. Nas palavras de María Peñuelas apud Moraes (2000, p. 145,) “na Internet, até mesmo as pequenas entidades têm oportunidade de divulgar, a baixo custo, suas atividades ao conhecimento de segmentos mais amplos da sociedade. Apesar de muito anárquica, a rede é também muito mais democrática, permitindo que todo mundo se expresse.” Um termo bastante usado pelos pesquisadores é o “ciberativismo”, que quando empregado nos contextos de movimentos sociais especifica essa onda de movimentos que surge através das novas mídias sociais utilizadas pela sociedade civil. É uma “nova” maneira de reagir às crescentes ondas de autoritarismo, é um meio de reivindicação dos direitos políticos, sociais e civis, declaração da vontade geral, entre outros, através das NTICs. O ciberativismo é, em suma, o uso da Internet por movimentos politicamente motivados para alcançar objetivos comuns (RIGITANO, 2003, apud UTSUNOMIYA e REIS, 2011). Sem dúvida, o termo ciberativismo surgiu antes das redes sociais mais utilizadas na atualidade como o Facebook, que nasceu em fevereiro de 2004; o YouTube, em fevereiro de 2005; e o Twitter, no ano de 2006. [...] uma parte da sociedade civil que se organiza, em torno de uma luta por maior inserção no cenário social e político, legitimada, principalmente por dois fatores: a) a impossibilidade de resolução das grandes questões sociais globais, através apenas de ações governamentais ou de mecanismos de mercado; b) pela atual situação de descrédito nos sistemas de representação política (UTSUNOMIYA e REIS, 2001, p. 4).

A partir destas teorias sobre democracia participativa, encontradas em Santos (2002) e as teorias sobre movimentos sociais e ciberativismo, compreende-se como os movimentos sociais modernos se organizam e debatem suas questões. Em seguida, apresenta-se com detalhes o trabalho realizado nas cidades de Ribeirão Preto e Araraquara durante os meses de março a maio de 2012. 74


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RIBEIRÃO PRETO No dia 22 de março, em sessão extraordinária, os vereadores de Ribeirão Preto votaram pelo aumento dos seus salários em 40%. O rendimento de um parlamentar passaria de R$ 9,2 mil para R$ 12,9 mil a partir do segundo mandato. O entrevistado desta pesquisa, José Elias, contou como iniciou o protesto contra este ato: um rapaz chamado Caio começou uma campanha usando o Facebook, chamando amigos e conhecidos para se juntarem a ele em frente à Câmara dos Vereadores da cidade, munidos de panelas, a fim de protestar contra a atitude dos legisladores municipais. O ponto curioso é que esse rapaz indignado convidou dois amigos para participar os quais convidaram mais dois amigos, e assim por diante. Foi na página do Facebook que ele dinamizou as ações na perspectiva de uma ação colaborativa. No evento criado na rede social, mais de 500 pessoas confirmaram presença, diferentemente do dia da manifestação, quando aproximadamente 150 pessoas compareceram com cartazes, faixas, apitos e nariz de palhaço, o que representou um início de manifestação contra algo que não condizia com uma democracia. Nesse dia começaram os debates sobre a possibilidade de ir à Câmara assistir às sessões. Chegaram à conclusão de que deveriam fazê-lo, o que aconteceu durante todo o mês de abril. O nome “Panelaço” proveio dos meios de comunicação, segundo José Elias. Como consequência da presença constante dos insatisfeitos os vereadores revogaram parte do aumento. Aliás, alguns dos vereadores tiveram problemas internos por propor a revogação. Tratar–se-á deste assunto em breve. Havia um objetivo primordial nessas demonstrações: incentivar a iniciativa e explanar a importância daqueles atos ao restante da população. Outro ponto de importância para os que estavam envolvidos era a de evitar qualquer forma de liderança, verticalidade nas deliberações e atrelamento partidário. Assim, enfatizaram - durante a entrevista - que nunca almejaram consolidar um estatuto, um nome específico, lideranças ou mesmo qualquer pretensão de carreira política. Diziam que, por ser um grupo, qualquer pessoa poderia participar, opinar e colaborar. “Então, acreditamos muito na perspectiva de uma democracia participativa, no maior engajamento da população nas deliberações políticas e na ciência dos fatos...hoje a Internet é uma ferramenta importante de perpetuação da comunicação por meio das Tecnologias de Informação.” (trecho da entrevista concedida por José Elias Domingues, 2012). Segundo José Elias, o “Panelaço” foi um propulsor de iniciativas, 75


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e a partir dele, outros movimentos surgiram como o “Se Vira Ribeirão”. No dia 19 de abril, numa sessão do Plenário, a vereadora Silvana Resende apresentou um projeto de resolução para revogação do reajuste de quase 40% (39,8%). O citado projeto de resolução podia ter sido votado imediatamente, em regime de urgência, ressalto, na mesma sessão em que foi apresentado, pelos vereadores, conforme preleciona o Regimento Interno da Câmara de Vereadores de Ribeirão Preto, notadamente nos artigos 137 e 138. Contudo, não foi pedida a urgência para o aludido projeto no mesmo dia em que foi apresentado e a sessão foi concluída sem a análise do projeto. (MONTERO, Bencsik Raquel, 2012, que também acompanhou as manifestações na Câmara dos Vereadores de Ribeirão Preto).

No entanto, no dia 24 de abril, a mesma vereadora fez o pedido de urgência para a votação do projeto que apresentara na semana anterior, mas, por maioria de votos esta solicitação foi negada. No entanto, na sessão desse mesmo dia um projeto apresentado pelo vereador Gilberto Abreu que previa o aumento de 17,93% teve seu pedido de urgência aprovado, e assim, votado. Portanto, os vereadores mudaram de ideia em relação ao percentual de aumento, ou melhor, revogaram parte dele e em 24 de abril os vereadores votaram o novo reajuste, de aproximadamente 19%. Provavelmente, a manifestação do movimento “Panelaço” auxiliou na mudança de posicionamento dos vereadores. Convém ressaltar o uso da Internet pelos indignados de Ribeirão Preto como instrumento de ação política e social. Como por exemplo, o Facebook que se fez eficaz ao agrupar pessoas de diferentes locais da cidade a se reunir em prol de um mesmo objetivo. Para o entrevistado “a internet é uma ferramenta essencial porque possibilita justamente o acesso ao conhecimento, e a história humana é a história das restrições ao conhecimento, porque conhecimento é poder. Uma população informada é uma população com possibilidade de construir novas demandas políticas. É dessa maneira, portanto, que entra a questão de uma democracia participativa.” ( Entrevista feita no dia 05/09/2012). Perguntou-se a José Elias como ele via a questão da Internet em Ribeirão Preto: se estava se inserindo cada vez mais na população, ao que ele respondeu: [...] em Ribeirão a receptividade é grande, eu penso, e é em detrimento de alguns fatores: o não vínculo partidário, a liberdade total de manifestação, postagem e expressão, o caráter não violento das manifestações. Percebemos que existe uma carência da população em boas referências quando o assunto é política. (trecho da entrevista concedida por DOMINGUES, José Elias 2012).

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ARARAQUARA Para entender como aconteceu a mobilização na cidade de Araraquara, entrevistou-se o comerciante Fernando Mauro. Ele disse ter gosto por política e em acompanhar as sessões do Legislativo Municipal pela TV Câmara, e foi justamente por esse meio que ele iniciou o movimento de protesto. Na terça-feira, 17 de abril, Fernando estava assistindo à TV Câmara, quando ouviu que umas das pautas daquela reunião seria a votação para o aumento dos subsídios dos vereadores de R$ 5.042 para R$ 8.000 (quase 60%). “Foi um choque para mim e comecei a postar no Facebook”, afirmou Fernando. Ele disse ter postado frases aludindo a ida às ruas caso a votação fosse positiva para o aumento e chamou a atenção dos demais para esse fato. Segundo ele, assim que o projeto entrou em votação, em menos de 30 segundos, o Legislativo o aprovou, por maioria de votos, 9 a favor; 2 contra; 1 ausência e 1 abstenção. Devido a esse fato, Fernando, inconformado com a decisão, decidiu postar no Facebook um convite para as pessoas se juntarem a ele e montar uma barraca para coletar assinaturas, fomentando, assim, um projeto de iniciativa popular. O resultado foi que alguns de seus contatos na rede social se interessaram e se reuniram, então, nove inconformados com a situação. Decidiram pela iniciativa popular para a qual precisavam da assinatura de 5% dos eleitores de Araraquara. Como consequência, surgiu o “Movimento Reage Araraquara”. O grupo montou um roteiro que começou no dia 18 de abril até 23 do mesmo mês quando fizeram as devidas divulgações para chamar a atenção do maior número de pessoas. No dia 24 começaram os trabalhos. Usaram basicamente o Facebook com postagens em nome do “Movimento Reage Araraquara” para divulgar o projeto de iniciativa popular, apartidário, contra o aumento abusivo dos subsídios dos vereadores e contra o aumento das cadeiras de vereadores. Segundo Fernando Mauro, logo no dia 19 de abril, a imprensa entrou em contato com ele: um repórter do blog “Aracoara” e outro da TVAra, lançando assim, na imprensa o “Movimento Reage Araraquara.” A coleta de assinaturas se realizou nas escadarias da Câmara dos Vereadores a partir das 18h do dia 24, terça-feira. Nessa data, quando os organizadores do movimento chegaram a esse local por volta das 13h, já havia pessoas concentradas, aguardando-os, com seus títulos de eleitor em mãos. Desse modo, o movimento que estava previsto para o fim da tarde, foi antecipado para o seu início. A intenção, naquele dia, era a de também se manifestar no plená77


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rio. Eles entrariam na sala e ficariam de costas para os vereadores, demonstrando a insatisfação pela decisão dos legisladores. O presidente da Câmara, Aluisio Braz (PMDB), vulgo Boi, no entanto, julgou o ato de má fé, “já que a Câmara existe para que a população possa debater as questões”, segundo depoimento dado ao jornal “Tribuna Imprensa”. Fernando relatou que o movimento não tinha nenhum apoio financeiro, por isso, cada um dos participantes se responsabilizou pela confecção de sua camiseta e auxiliava no que podia: um levou cadeiras, outro mesas, outro ajudou com seu notebook, e assim por diante. Aproximadamente às 20h daquela terça de abril, a calçada e as escadarias estavam lotadas de pessoas que se juntaram para se solidarizar e apoiar a causa; os relatos Figura 1 - Pessoas reunidas em frente à Câmara dos Vereadores de Araraquara – 24/04/12. dizem que o trabalho seguiu até às 23h. Assim, passado o primeiro dia, o grupo começou a se revezar em frente à Câmara ao longo do dia. Como fazia muito calor e os manifestantes não tinham nada que os protegesse do sol, o pessoal do SISMAR (Sindicato dos Servidores Municipais Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/ ribeiraopreto/1083473-reage-araraquara-espera-atingirde Araraquara) os aju-meta-de-assinaturas-ate-o-dia-8.shtml dou com uma tenda. Essas atitudes comprovam o interesse pela causa. Fernando contou que no segundo dia angariaram cerca de mil assinaturas, um montante bastante satisfatório para apenas dois dias de coleta. Surgiu, porém, outra dificuldade: para validar um Projeto de Lei de Iniciativa Popular, é necessário que na hora da coleta da assinatura, o que assina precisa fornecer o número do título de eleitor, e este não é um documento que as pessoas têm em mãos usualmente. Portanto, fizeram uma consulta ao site TSE (Tribunal Superior Eleitoral) quando o SISMAR ajudou novamente, cedendo um modem 3G. Tudo corria bem, pois, até o fim de 26 de abril haviam coletado aproximadamente duas mil assinaturas - até que Fernando, ao tomar um café ao lado do gabinete dos vereadores, entrou na sala do vereador João Farias (PRB), que o recebeu com a seguinte informação: o Projeto de Lei que o movimento tentava não seria válido, pois a matéria era restrita à mesa diretora, a qual era a única que poderia interferir nessa Lei. 78


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Por isso, no dia seguinte, Marcelo Bonholi, outro integrante do movimento, dirigiu-se ao Ministério Público, conversou com um Promotor sobre a impossibilidade jurídica, o qual o informou que continuasse a coletar as assinaturas e caso o Projeto de Lei, realmente, não fosse possível, que o transformassem em um abaixo-assinado. No dia 28 de abril o grupo contava com cerca de 4 mil assinaturas e já se falava em revisar o percentual dos subsídios. O local onde se instalou a tenda tornou-se ponto de aglomeração de civis apoiando a causa, políticos locais e até de sindicalistas. A todo o momento, membros do movimento erguiam-se e pelo megafone incentivavam as pessoas a assinarem e participarem. Na véspera do feriado do Dia do Trabalho, mais ou menos 5 mil assinaturas constavam na relação do movimento e os ânimos estavam exaltados. No feriado, devido à Festa do Trabalhador, transferiram a tenda para frente do Estádio Municipal do Botânico, conseguindo ali mais de 800 assinaturas. Fernando explicou que naquele dia surgiram rumores que ele se candidataria a vereador nas próximas eleições, porém como ele fazia parte de um movimento apartidário, não seria possível. Assim, o ativista foi ao Cartório Eleitoral (que estava aberto no feriado do trabalhador), retirou um certificado que comprovava que não era filiado a nenhum partido político. Com esse documento, esclareceu que não poderia se candidatar, pois segundo a Lei, só se candidata a um caro político aquele que tiver vínculo partidário. Por volta das 13h do feriado, Fernando foi ao Estádio do Botânico – onde estava montada a tenda. Até o final do dia, afirmou, coletaram mais de 800 assinaturas, e, durante a festa membros do grupo falaram no megafone, deixando alguns vereadores presentes acuados. No dia 2 de maio o “Movimento Reage Araraquara” voltava às suas atividades em frente ao Legislativo Municipal, com uma reação inusitada dos vereadores: o presidente da Câmara, Aluisio Braz postara num grupo no Facebook da cidade, denominado “Muro Branco” um convite a Fernando Mauro e Marcelo Bonholi para, na próxima terça-feira (dia do plenário) utilizassem a Tribuna Popular, e de forma transparente e ao vivo, debatessem as questões, o que fortaleceria as discussões. Para Fernando, a atitude do vereador tinha sido “um tiro no pé”, pois muitas pessoas apoiavam o “Reage Araraquara”, e aconselharam Fernando o que deveria fazer. A única resposta que ele deu ao vereador foi: a Tribuna será usada em momento oportuno. No entanto, no dia seguinte, ao ligar o rádio para ouvir o noticiário da manhã, ouviu o vereador Aluisio Braz dizer que os membros do movimento não eram mais que anarquistas, que pregavam voto nulo etc., 79


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desmoralizando completamente o movimento. Como resposta, Mauro procurou o jornal para se informar do direito à resposta às alegações de Braz. Mas, o jornalista responsável respondeu que quando o jornal quisesse ouvir o movimento, chamaria os representantes. Não conformado com a resposta, Fernando escreveu nas redes sociais que a democracia araraquarense funcionava na base da mentira, pois, os vereadores podiam acusar os mobilizados, e estes não tinham voz política perante os legisladores. A solução para o impasse se verificou em meados de maio, quando os vereadores reviram o aumento e o fixaram em 27%, seguindo os mesmos índices dos funcionários públicos municipais.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao relatar com detalhes ambos os acontecimentos tem-se a clara noção de que os movimentos de cunho popular tiveram grande influência sobre as decisões e deliberações dos vereadores. Ao se verem pressionados, mudaram seus votos, consequentemente, as decisões, para que não houvesse mais manifestações desse tipo. Além de serem importantes, as manifestações demonstraram um transparente descontentamento relacionado à atitude dos vereadores em relação aos seus projetos e decisões. Essa constatação leva a crer que só com levantes de tal envolvimento popular é possível ter um mínimo de transparência e democracia. A população tem direito de saber e ser informada sobre o que se delibera na Câmara e deveria assistir constantemente aos plenários para dar voz às suas opiniões. O uso cada vez maior das redes sociais para mostrar descontentamento, postar notícias, apresentar insatisfações e debater sobre certas questões é um ponto de fundamental importância para a Ciência Política atual, e também deveria ser para os políticos municipais, estaduais e federais. A fácil interação, o acesso e troca de informações cria uma sociedade mais informatizada, consciente e com forte opinião sobre questões políticas. A Internet, juntamente com suas redes sociais, pode transformar uma sociedade por ter a característica de fazer com que cada um seja transmissor e receptor de informações. Tanto José Elias quanto Fernando Mauro utilizaram o Facebook para transmitir o que se passava nos movimentos e dias de campanha de arrecadação de assinaturas em Araraquara e em idas ao plenário em Ribeirão Preto, e centenas de usuários tiveram 80


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acesso a tais postagens. Mostraram, por exemplo, que em Araraquara o próprio presidente da Câmara dos Vereadores escrevera uma mensagem diretamente para Fernando Mauro, como sendo o líder do movimento, e este lhe respondera através do mesmo grupo. Ou seja, a Internet fomenta discussões e aproxima as pessoas ao debate. Dessa forma, as mobilizações em Ribeirão Preto e Araraquara tiveram essa característica de interação, descentralização e organização em torno de uma luta por maior inserção no cenário social que são marcas do ciberativismo. Além disso, os movimentos se autodenominavam apartidários, sem lideranças políticas ou verticalidade. Ambos se abriram para o debate, a cooperação e as opiniões podiam ser expostas sem censuras. A Internet possibilita um fluxo de trocas muito grande, já que a instantaneidade em que ocorrem os fatos é característica comum, e faz com que as pessoas exponham suas opiniões e sugestões e imediatamente todos os interessados têm acesso livre para ler e responder. A Internet atua também como divulgadora desses acontecimentos; enquanto uma notícia tarda um determinado tempo para ser veiculada, absorvida e entendida, a Internet permite que esses passos sejam feitos mais rapidamente. Em suma, os movimentos sociais possuem uma característica de revolta, descontentamento e insatisfação massiva, levando ao constrangimento dos políticos, pois aqueles que supostamente deveriam apoiá-los estão indo contra seus atos. A população tem um poder imenso frente às questões políticas, o ponto é saber usá-lo, aclamando os direitos e agindo conscientemente. As redes sociais na Internet, como o Facebook, são ferramentas necessárias nos tempos atuais, tanto pelo número de pessoas que o utilizam quanto pela facilidade em acessar as informações e opiniões das mais diversas.

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REFERÊNCIAS

DOMINGOS, José Elias. Entrevista em profundidade realizada 05/09/2012 às 14h MONTERO, Raquel Bencsik. “Conquistamos mais e o panelaço continua!”. Blog. Disponível em: <http://raquelbencsikmontero.blogspot.com. br/>. Acesso em: 10/09/12. MORAES, Dênis de. Comunicação virtual e cidadania: movimentos sociais e políticos na Internet. Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, v. XXIII, n°2, jul/dez de 2000. MORAES, Fernando Mauro Filho. Entrevista em profundidade realizada no dia 05/09/2012 às 20h. PEREIRA, Marcus Abílio. Internet e mobilização política – os movimentos sociais na era digital. IV COMPOLÍTICA, 13 a 15 de abril de 2011. SANTOS, Boaventura de Sousa; AVRITZER, Leonardo. Introdução: Para ampliar o cânone democrático. In: SANTOS, Boaventura de Sousa (Org.). Democratizar a democracia: os caminhos da democracia participativa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002, p. 39 a 84. UTSUNOMIYA, Fred Izumi; REIS, Mariza de Fátima. Reflexões sobre o alcance do agir comunicativo da sociedade civil em redes sociais: o ciberativismo em questão. SIMSOCIAL, 13 a 14 de outubro de 2011.

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Contribuições para o exercício da democracia através dos movimentos sociais virtuais de atuação global: os avanços conquistados pela comunidade Avaaz Contributions to the exercise of democracy through social movements with virtual and global presence: the advances by the Avaaz community. Jeferson Thauny 1

RESUMO Partindo dos apontamentos sobre a crise da representatividade, que configura uma ruptura estrutural na democracia, este trabalho propõe uma reflexão sobre a possibilidade dos movimentos sociais online atuarem como uma alternativa para a manifestação dos representados. Propõe, assim, a análise da organização virtual Avaaz, seu alcance, influência e ferramentas para participação individualizada. Ainda, aponta a atividade do movimento social de escala global como capaz de revigorar a discussão sobre os limites e contribuições democráticas existentes nos movimentos de atuação virtual. PALAVRAS-CHAVE: democracia; ativismo virtual; Avaaz; movimentos sociais; democracia digital.

1.Publicitário e mestrando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPR, sob orientação da prof. Dra. Luciana Panke. Bolsista Reuni. email: jefersonth@gmail.com.

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ABSTRACT Based on the notes about the crisis of representativeness, that sets a structural break in democracy, this paper proposes a reflection on the possibility of online social movements act as an alternative to the manifestation of those represented. Therefore, it proposes the analysis of virtual organization Avaaz, their reach, influence and individualized tools for participation. This work still points to social movement activity on a global scale as able to reinvigorate the discussion on the limits and contributions existing democratic movements of virtual work. KEYWORDS: democracy; virtual activism; Avaaz; social movements; digital democracy.

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INTRODUÇÃO Nas últimas décadas uma série de estudiosos e pesquisadores apontaram imperfeições no exercício da democracia. Questões sobre a participação dos cidadãos e a esperança de uma atuação potencializada pela propagação de novas tecnologias ganharam espaço na pauta dos estudos democráticos. Norberto Bobbio define democracia representativa como: A expressão democracia representativa significa genericamente que as deliberações coletivas, isto é, as deliberações que dizem respeito à coletividade inteira, são tomadas não diretamente por aqueles que dela fazem parte, mas por pessoas eleitas para esta finalidade. Ponto e basta” (BOBBIO, 1986, p. 44).

Para um exercício legítimo da democracia, Novelli (2011) destaca ainda que “a representação política, então definida também por sua forma institucional legislativa e parlamentar, precisa de mecanismos de inter-relação para ser funcional, efetiva e estabelecer a conexão comunicativa entre representantes e representados” (NOVELLI, 2011, p.246). Conclui-se então que, apesar do poder sobre as decisões ocuparem as mãos dos representantes, a defesa dos interesses dos representados no processo democrático é essencial para que se credite legitimidade ao sistema. É necessário então, fazer vir a público tais interesses do cidadão. Algumas das principais críticas sobre a democracia pairam justamente na falta de canais de comunicação eficientes entre tais representantes e representados, o que caracteriza a atual crise na representatividade. Novelli observa que tal modelo de representatividade, que não representa, compromete a democracia em sua forma estrutural (NOVELLI, 2011, p.245). Para a autora, a solução da crise está na promoção de práticas políticas mais participativas, que engajem a sociedade de forma consistente no processo de tomada de decisão. O conceito Web 2.0 de Internet participativa (O’REILLY, 2005), através da qual é possível ao usuário a produção de conteúdo independente e interações diretas, desenhou um novo cenário no processo de comunicação entre as duas esferas, que agora podem se apropriar da tecnologia para reestabelecer um canal direto de comunicação, o que por sua vez poderia resolver a crise citada. Rousiley Maia (2011) retoma que além da participação democrática, o entusiasmo sobre a Internet, principalmente durante a década de 1990, ponderava que ela poderia fortalecer a sociedade civil e revigorar a democracia (RHEINGOLD, 1993; GROSSMAN, 1995; CASTELLS, 1997 apud MAIA, 2011). 85


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No entanto, o que se verifica é que as prospecções para acréscimos de participação e oportunidades não justificaram o otimismo das décadas anteriores. Gomes (2010) destaca que os participacionistas mais radicais, que acreditavam em uma experiência de democracia direta através da web, foram tomados por certo sentimento de frustração e desânimo com o resultado da maioria das pesquisas empíricas, pelo menos até aquele momento. Elas apontavam para o fato de que a Internet representava mais instrumentos nas mãos dos poucos que já participavam, do que um aumento no número de interessados em participação (GOMES, 2010). Dominique Wolton (2007) e Pierre Levy (1999) pontuam que por trás das novas tecnologias existem ainda os interesses do homem e muitas vezes tais interesses não traduzem necessariamente uma utilização do meio em todo seu potencial. Ainda que o usuário individualmente utilize timidamente a web no exercício da democracia, Rousiley Maia observa, em seu debate acerca dos efeitos das redes de ativismos online e a possibilidade dessas modificarem o jogo político em favor da esfera civil, que os movimentos sociais se beneficiam da estrutura de comunicação digital com maior eficácia. Porém, pondera que apesar das instituições com políticas hierárquicas mais antigas ou mais consolidadas se valerem da rede para uma melhor organização interna, tal fato não transforma substantivamente a ação política pré-existente. Entretanto, redes com vínculos horizontais, os chamados “movimentos sustentados por computador” (JURIS, 2005, p.196 apud MAIA, 2011), vivenciam uma lógica operacional configurada pela Internet, e quando empregadas em favor da participação democrática, facilitam mobilizações com abrangência local, regional, ou global, principalmente pela utilização da nova tecnologia sem fronteiras. Sendo assim, a partir do observado acerca de uma perda da essência da democracia, caracterizada pela baixa participação do cidadão (NOVELLI, 2011), o capítulo pretende, através de uma breve análise dos resultados atingidos pela organização Avaaz, como rede de vínculos horizontais, oxigenar a discussão sobre a participação popular promovida pelos movimentos sociais virtuais de atuação global na retomada do exercício democrático exercido pelos representados. Em outras palavras, verificar a amplitude da atuação do movimento sob a luz da democracia, para atualizar a discussão sobre os limites e contribuições democráticas para a sociedade civil existentes nos movimentos de atuação virtual.

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MOVIMENTO SOCIAL VIRTUAL Para um melhor entendimento do campo utilizado se faz prudente revisitar alguns conceitos teóricos. Na sociedade contemporânea, a maioria dos estudos enquadra sociedade civil como uma das três divisões da realidade, somada aos conceitos de Estado e mercado. Porém, enquanto os dois últimos referem-se a relações de racionalidade e poder, configura-se a sociedade civil como “composto por forças sociais heterogêneas, representando a multiplicidade e diversidade de segmentos sociais que compõem a sociedade, está preferencialmente relacionada à esfera da defesa da cidadania e suas respectivas formas de organização em torno de interesses públicos e valores, incluindo-se o de gratuidade/altruísmo” (SCHERER-WARREN, 2006, p.4). Rousiley Maia (2011) complementa e destaca que diferentes autores de várias filiações teóricas entendem a sociedade civil como uma comunidade ética, construída através de um conjunto de valores e morais, pressupondo, como parte integrante do conceito, distintas formas de solidariedade. Em outras palavras, sociedade civil seria o campo ocupado pelas associações voluntárias, os movimentos sociais e outras formas de comunicação pública, como os media. A fim de definir melhor a que movimento se dedica este estudo de case, vale recorrer, de forma concisa, ao conceito de ações coletivas e movimentos sociais. Para Ilse Scherer-Warren o termo “ações coletivas” é utilizado para “se referir a toda e qualquer forma de ação reivindicativa ou de protesto realizada através de grupos sociais” (SCHERER-WARREN, 2006, p.1). O emprego do termo de forma genérica e abrangente aglutina os diferentes níveis de atuação indiscriminadamente, abraça desde os grupos com operação territorial restrita, até movimentos com alcance universal. Por sua vez, a expressão “movimentos sociais”, segundo o estudo de Alberto Melucci (1996), refere-se a ações coletivas que contemplem 3 exigências: 1. Envolva solidariedade. 2. Manifeste um conflito. 3. Exceda os limites de compatibilidade do sistema em relação à ação em pauta. Para aprofundar o conceito dos movimentos, faz-se necessária a distinção de novas categorias a fim de buscar um melhor entendimento sobre a complexidade das interações em rede. Scherer-Warren (2006) novamente evolui o conceito ao definir tais classificações. Em seus estudos, 87


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as “redes sociais” referem-se a comunidades de sentido, estruturadas na simples ligação entre seus participantes em torno de objetivos comuns, seriam os “nós” da rede e traduzem organizações de estrutura simples como família, amizade, grupos religiosos e recreativos, que apresentam sempre continuidade e estruturação. Um segundo conceito seria conduzido após a ligação entre diferentes “redes sociais” que possuam conexões empiricamente localizáveis ou de comum interesse. Para a autora, o conceito “coletivo de redes” traduz essas ligações, que podem se transformar em “nós” de uma rede mais ampla de movimentos sociais, que se caracteriza como uma rede de redes. Enquadram-se nesse conceito as redes de ONG’s, ou ainda, as conexões do campo político. Neste capítulo, o terceiro conceito é o que mais interessa. Finalmente, “movimentos sociais” como categoria, amplifica a atuação territorialmente limitada do “coletivo de redes”. Movimentos sociais, enfim, são redes sociais complexas, que transcendem organizações empiricamente delimitadas e que conectam, de forma simbólica, solidarística e estratégica, sujeitos individuais e atores coletivos em torno de uma identidade ou identificações comuns, de uma definição de um campo de conflito e de seus principais adversários políticos ou sistêmicos e de um projeto ou utopia de transformação social. (SCHERER-WARREN, 2006, p.3). [grifos da autora]

Findada a reflexão acerca das ramificações de ações coletivas, verifica-se que nos “movimentos sociais”, enquanto categoria, ou ainda “rede de movimentos sociais”, encontra-se, facilitada pela ultrapassagem da barreira territorial, o maior potencial expressivo das ações sociais. Naturalmente, um objetivo para qualquer mobilização social que busca proporções internacionais. Se romper fronteiras obviamente é desejável a tais movimentos internacionais, a complexidade se dá através da questão: como fazê-lo? Mesmo facilitada pelo intenso movimento de globalização, é difícil imaginar que apenas através das raras inserções conquistadas nas mídias generalistas, tais movimentos conseguiriam o alcance necessário para se consolidar como estratégias de atuação global. Edu Santaela, ativista e colunista do blog oficial da rede Greenpeace, destaca que “Antes da Internet uma atividade ou protesto do Greenpeace levava algumas horas para chegar ao público. Até que as fotos e vídeos fossem revelados/editados e chegassem à imprensa (e através dela ao resto do mundo) era necessário um certo tempo, tempo esse que poderia definir o sucesso de uma intervenção e o apoio da opinião pública.”2 Pontua ainda a importância da Internet na organização, que permitiu tro2  Disponível em http://www.greenpeace.org/brasil/pt/Blog/greenpeace-e-a-web/blog/278/.

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ca de mensagens instantâneas, facilitou a interação da organização com sua audiência e derrubou fronteiras. Santaela destaca também que a Web 2.0 permitiu à organização ir além: “as redes de relacionamento online, os sites de vídeos e fotos, os comunicadores instantâneos e a mídia online permitiram o acesso imediato e colaborativo das campanhas do Greenpeace por todo o mundo. Sem elas nossas vitórias diante das injustiças e enganos com nosso planeta seriam mais difíceis, já que é com pessoas como eu e você que o Greenpeace tem força de mobilização”. O discurso do colunista é confirmado em diversas outras publicações oficiais do grupo, reverberando a afirmação de que através da Internet os grupos conquistaram a visibilidade necessária para atuar em escala global e conquistar seguidores. Em seu estudo sobre intervenções na web em franca oposição à ideologia neoliberal sustentada pela mídia global, Dênis de Moraes destaca que a web potencializa a formação das redes e a participação do indivíduo “os usuários têm a chance de atuar, simultaneamente, como produtores, emissores e receptores, dependendo de lastros culturais e habilidades técnicas” (MORAES, 2007, p. 2). Pontua ainda que a Internet proporciona uma teia gigantesca de conexões, onde não predominam conceitos de centro e periferia, e sim, de entrelaçamentos de percurso, se opondo dessa forma, às noções de seleção e estratificação que condicionam os processos midiáticos. No entanto, Moraes ressalta a necessidade de ponderar que, apesar de facilitar a atuação de movimentos sociais através de sua técnica, a Internet possui limitações que devem ser contornadas para uma melhor utilização da rede como espaço para manifestações da sociedade civil: Em paralelo, um dos questionamentos recorrentes diz respeito à insuficiente interferência das webmídias no conjunto da sociedade civil. Os ecos se restringem a segmentos politizados e formadores de opinião. Prováveis motivos: inadequação de linguagens ou de formatos, excessiva instrumentalização político-ideológica dos discursos informativos, escassa penetração da Internet nas zonas populacionais carentes, ausência de políticas coordenadas de comunicação eletrônica (MORAES, 2007, p.13).

A possível interferência insuficiente dos movimentos sociais virtuais na sociedade civil possui uma das razões na observação de Wolton (2007) de que a Internet, ao priorizar o individual, caducaria com a noção de grande público. Em outras palavras, justamente pela falta do público de massa, pouco se participa das questões de democracia online porque o que é divulgado através da web se perde em meio à grande quantidade de conteúdo disponível. Não existe uma centralização visualizável por um grande público, como um noticiário em emissora aberta, por exemplo. A saída convencional para o impasse, que caracteriza um paradoxo do 89


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ativismo online, é a necessidade de uma divulgação em massa através dos meios de comunicação offline, estabelecendo, dessa forma, parcerias midiáticas entre o virtual e os meios generalistas tradicionais. Entretanto, as parcerias acima citadas, geralmente, são dependentes de uma ação com limites territoriais. É difícil imaginar a quantidade de elos necessários para estabelecer uma parceria midiática em escala global. Gomes (2008) descreve a grande dificuldade das mobilizações em adentrar a pauta dos noticiários dos media passivos. Diógenes Lycarião (2011) conduziu um estudo de análises mediáticas a respeito de manifestações do Greenpeace, para concluir, entre outros, que a “espetacularização” dos atos proporcionados pela instituição são estratégias com maior eficiência no desafio de virar notícia e ganhar repercussão, mesmo que raramente signifique a repercussão integral desejada pelo movimento. Porém, o impasse continua à medida em que se verifica que nem todas as movimentações sociais possuem força para ganhar a mídia tradicional e atingir o grande público, ou ainda, causas que permitam “espetacularizações” constantes para pautar a mídia. Mas, até que ponto é realmente necessária a cobertura midiática generalista para que os movimentos virtuais atinjam seus objetivos? A Internet, que hoje ultrapassa a marca de 2,4 bilhões de usuários (34,2% da população total)3, ainda não teria força suficiente para reunir públicos engajados em escala global? Recorrem-se os apontamentos de Rousiley Maia (2011) sobre os “movimentos sustentados por computador” (JURIS, 2005, p.196 apud MAIA, 2011) para buscar caminhos que permitam respostas para as questões colocadas. Segundo as observações, enquanto organizações já consolidadas antes da proliferação da Internet aproveitaram a rede virtual para “ampliar o escopo de suas ações e reduzir custos operacionais” (MAIA, 2011, p. 74), os movimentos horizontais, sustentados com estrutura flexível e descentralizada, podem encontrar uma nova forma de trabalho e representar uma revolução na utilização da rede virtual em sua estrutura. O ponto a se considerar é que a análise da maioria dos trabalhos no campo ainda se remete a estruturas com nível hierárquico pré-estabelecido antes da Internet, como o Greenpeace, por exemplo. Tal análise geralmente irá exigir a participação da pauta noticiária, pois é esse o modus operandi da organização. Porém, novos movimentos surgem, com maior aptidão ao segundo modelo citado, e esses parecem render melhor sobre a técnica, muitas vezes eliminando a exigência de estar presente nas mídias generalistas. Abaixo se cita o caso da Avaaz, um dos novos movimentos sustentados por computador, que pretende, amparado 3  Fonte: http://www.internetworldstats.com/stats.htm

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quase que exclusivamente pela Internet, promover mobilizações globais e manifestos políticos, com o intuito de conferir no estudo do case a real possibilidade de vivenciar um movimento online com interferência substantiva na sociedade civil em escala global, reinserindo a participação dos cidadãos no exercício da democracia. ESTUDO DE CASE: AVAAZ Lançado em 2007, o movimento Avaaz, que significa “voz” em várias línguas europeias, do oriente médio e asiáticas, se apresenta com uma complexa missão: “mobilizar pessoas de todos os países para construir uma ponte entre o mundo em que vivemos e o mundo que a maioria das pessoas querem”. 4 Diversos comunicados oficiais da comunidade reiteram o discurso, posicionando os cidadãos como democratas com poder de participação política, como no exemplo abaixo: “Algo grandioso está acontecendo. Da Praça Tahrir a Wall Street, de um incrível coletivo de jornalistas-cidadãos corajosos na Síria a milhões de cidadãos vencendo campanha após campanha online, a democracia está em movimento. Não a democracia do passado, aquela do circo midiático, dos corruptos, das eleições a cada 4 anos. Algo muito, muito mais profundo. Dentro de nós mesmos estamos nos dando conta de nosso próprio poder para construir o mundo com o qual todos sonhamos..” (EMAIL-MARKETING Avaaz). [grifos do comunicado].

O modelo adotado pela Avaaz mobiliza milhões de pessoas para agir em causas internacionais urgentes, desde a pobreza global até os conflitos no Oriente Médio, apostando na combinação de forças individuais online para composição de forças coletivas internacionais. Destaca-se a operação da comunidade em 16 línguas, com equipes distribuídas em quatro continentes e a participação superior a 19 milhões de membros virtuais, divididos em 194 países, caracterizando um perfeito enquadramento no conceito de “movimentos sociais” (SCHERER-WARREN, 2006), sustentado pelo computador (JURIS, 2005) e de hierarquia horizontal (MAIA, 2011). A forma de mobilização estruturada na plataforma online acontece geralmente através do recolhimento de assinaturas para petições virtuais, que são destinadas aos governos interessados na causa em voga. Porém, o movimento muitas vezes excede o ambiente virtual, mobilizando protes4 http://www.Avaaz.org/po/about.php

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tos, eventos de rua e organizando ligações telefônicas aos governos responsáveis. Vale destacar que mesmo quando atinge o ambiente offline, a organização sempre se inicia através do online. O próprio site www. Avaaz.org fornece ferramentas para que qualquer membro possa realizar uma denúncia, ou sugerir alguma mobilização para o movimento. Categorizado neste trabalho como “movimento social”, conforme conceito de Ilse Scherer-Warren, a Avaaz parece ter como objetivo derrubar antigos conceitos sobre mobilizações virtuais, e assim, revigorar a sua contribuição no exercício da democracia. O primeiro remete às discussões apontadas sobre a insuficiente participação online. Se, normalmente, recai sobre tais movimentos virtuais a ideia de que não possuem grande abrangência e participação, os números surpreendentes da Avaaz contestam essa tendência. Além da já citada participação de usuários e abrangência global, mesmo em países onde a Internet ainda está em processo de evolução 5, pontua-se a impressionante marca de envolvimento em 113 milhões de ações. No discurso de seus membros, observa-se uma nova ruptura no exercício da democracia através do mundo virtual. Se antes a Internet parecia uma ferramenta a mais na mão dos usuários, agora, a Avaaz aglutina cidadãos que antes nunca participaram de movimentos sociais. Frases como “eu costumava pensar que não poderia influenciar qualquer mudança e que a única coisa que restava a fazer era lamentar a nossa situação” 6, ressaltam a participação de indivíduos que antes se sentiam afastados do processo democrático. Outro ponto a que se propõe reflexionar este estudo é sobre a participação do movimento como ferramenta para diminuir a crise na democracia representativa (NOVELLI, 2011). Novamente, a contribuição do site é considerável. Ao realizar petições online, e até mesmo divulgar oportunidades de votações populares ao redor do mundo, o movimento consegue somar indivíduos e lhes atribuir poderes políticos - até para influenciar legislações. Foi o que se observou na consulta popular organizada pelo Reino Unido sobre novas zonas de conservação ambiental, onde a participação de membros da Avaaz contribuiu com mais de 85% das respostas pedindo apoio aos habitantes das ilhas e que fosse banida a pesca comercial, sendo decisiva para elaboração da legislação sobre o 5  O grupo orgulha-se de ter membros em escala global, que variam de: Brasil e França, com mais de um milhão de membros cada, até Montserrat e Nauru, com 30 e 33 membros respectivamente. Destaca-se ainda a presença de mil usuários em países como Madagascar, onde a internet está disponível para menos de 400 mil pessoas. Fonte http://www.internetworldstats.com/stats1.htm e http:// www.Avaaz.org/po/community.php#memberstories 6  Virginia Marroche, membro da comunidade Avaaz, na área de depoimentos do site: http://www. Avaaz.org/po/community.php#memberstories.

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assunto no país 7. A fim de não se alongar demasiadamente, pode-se concluir que o trabalho desenvolvido pelo movimento configura sim, um contraste nos antigos pressupostos sobre os limites da web como ferramenta no exercício de democracia. Apresenta também um aperfeiçoamento na utilização da técnica, capaz de representar um avanço relevante sobre o conceito de amplitude dos movimentos sociais através da rede. É óbvia a constatação de que, antes da popularização da Internet, raramente se observou tal participação popular com assídua frequência. Porém, há de se conter as expectativas, pois, se representa um marco no ciberativismo, o movimento também sofre com a descrença inerente aos novos movimentos sociais sustentados por computador. Qualquer pesquisa na Internet retornará com uma série de acusações de que a organização não cumpre com tudo que é noticiado, não permite ferramentas capazes de combater assinaturas forjadas ou irreais, e que se apropria de causas conquistadas por outras instituições. Não cabe a esse estudo de caso analisar as acusações como eloquentes ou levianas, mas ponderar a dificuldade de legitimidade em movimentos virtuais quando não ocupam a mídia generalista, objeto de pesquisa aqui exposto. A crença ainda é de que a mídia necessita averiguar as causas dos movimentos para que se ateste veracidade. é a mídia que nos dias de hoje detém o maior poder de dar a voz, de fazer existir socialmente os discursos. Então, ocupá-la torna-se tarefa primordial da política da diferença, dando vazão à luta das minorias no que ela tem de mais radical: poder falar e ser ouvida (BARBALHO, 2005, p. 36).

Apesar de que uma mudança nas relações de confiabilidade da sociedade com os movimentos de ativismo virtual ainda parece longe de ser observada, é necessário evidenciar que reverter um Projeto de Lei talvez não seja a principal contribuição do movimento, mas sim, a possibilidade de que o cidadão se faça ouvido em escala global. Se não existem ferramentas que creditem uma petição amparada pela lei, ao menos tais ferramentas possuem a capacidade de expressar o desejo popular nas questões democráticas, contribuindo para a retomada de canais de comunicação entre os representados e representantes em escala global, revigorando o exercício da democracia.

7  A organização descreve o discurso do Ministro de Relações Exteriores do país, que destacou “mais de 221.000 respostas coordenadas pela Avaaz, vindas de 223 países”. Fonte: Avaaz. - http:// www.Avaaz.org/po/highlights--natural-world.php.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS A participação do representado é vital para o exercício da democracia. Sua ausência no processo, além de configurar uma crise na representatividade, é uma das grandes responsáveis pela desconfiança dos eleitores e corrompe a estrutura da democracia (NOVELLI, 2011; GOMES, 2010). Porém, disponibilizar canais de comunicação que permitam manifestações dos cidadãos não é uma prática muito recorrente, e mesmo sendo necessária, quando disponibilizada encontra a barreira da falta de interesse do indivíduo nas questões políticas (GOMES, 2008; MAIA, 2011). Os movimentos sociais, (SHERER-WAREN, 2006) surgem como ferramentas capazes de reinserir esse cidadão no processo democrático. Quando de escala global e sustentados pela Internet, objeto desse estudo, encontram ainda novos obstáculos, como a falta de legitimidade. Sobre tais movimentos virtuais, paira ainda a crença de sua influência como insuficiente na sociedade civil e a desconfiança de que seu alcance não representa avanços significativos na participação democrática, principalmente porque “dependem” de uma visibilidade proporcionada pelas mídias de massa. Se é verdade que a mídia generalista, como intermediadora, atesta veracidade, legitima e potencializa causas desses movimentos, também é real a afirmação de que muito do que se é analisado a respeito dos movimentos sociais virtuais está condicionado ao modelo de “espetacularização”, difundido pelo Greenpeace. Avaaz contradiz o pressuposto de que somente através de inserções na mídia generalista as ações iniciadas no virtual poderiam conquistar representatividade global. O modus operandi do movimento, sustentado pelo computador, busca unificar forças virtuais individualizadas, garantindo a força da coletividade, através principalmente de petições online. Ao redimensionar os esforços para a web – é possível participar da democracia sem sair da frente da tela – o movimento parece ter encontrado interessante direcionamento para ganhar expressão política, provavelmente, a operação ideal para explorar a técnica nos movimentos de hierarquia horizontal. O número de participantes e o alcance territorial conquistado pelo movimento corroboram a ideia de que o método adotado pela Avaaz representa um avanço substancial na participação do cidadão no processo democrático. O representado, através do movimento, tem voz ativa, tem poder de decisão e opinião, sente-se parte do processo e se reconstrói, em parte, a estrutura da democracia representativa. O case analisado demonstra ainda que o movimento, mesmo não 94


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sendo exceção nas críticas e desconfiança sobre os resultados, representa relevante contribuição na divulgação de causas e possibilidades de participação democrática. A própria Avaaz define sua atuação como “um megafone para chamar atenção para novas questões; como um catalisador para canalizar as preocupações públicas dispersas em uma única campanha específica e concentrada”. É preciso revitalizar os debates sobre a participação dos movimentos sociais virtuais, abandonar discursos pertencentes a uma época onde a web não tinha a representatividade atual e atualizar, tão rápido quanto a utilização da tecnologia, o entendimento de que sua aplicação também possibilita revigorar o processo democrático. Sem vangloriar demais a técnica, que ainda possui um grande acervo de limitações, entender que suas ferramentas podem, principalmente através de movimentos sociais, promover um reestabelecimento da participação do representado no processo democrático.

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REFERÊNCIAS

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Websites eleitorais como instrumentos para o cibermarketing, o voto informado ou a participação cidadã? O uso de webs pelos candidatos ao ayuntamiento de Madrid no pleito de 2011 Websites for election as tools cybermarketing, or vote informed, or citizen participation? The use of the web for candidates for the city of Madrid in 2011 elections Sylvia Iasulaitis1 Carmen Pineda Nebot2

RESUMO Este artigo investiga como os partidos e candidatos com representação municipal desenvolveram suas campanhas online durante as eleições ao Ayuntamiento de Madrid, em 2011. O enfoque se baseia na elaboração de um mapa dos recursos e funções dos websites dos candidatos Gallardón (PP), Lissavetzky (PSOE) e Pérez (IU). Verifica-se se o uso de websites em campanhas políticas se dirige ao aumento da qualidade do debate político, amplia a participação cidadã ou unicamente serve como uma ferramenta de marketing para mobilizar apoios. Os websites refletiram mais a função top-down (de cima para baixo), ou seja, proporcionaram informação com um enfoque próprio para recrutar militantes e apoio e fazer propaganda online, pois priorizaram o envio de informação em um único sentido, one-way, mais do que a função bottom-up (de baixo para cima). Assim, descuidaram de outros aspectos e deixaram de 1. Doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de São Carlos – UFSCar, foi investigadora convidada na Universidad Complutense de Madrid. É pesquisadora do grupo de estudos Comunicação Política, Partidos e Eleições, da UFSCar. 2. Licenciada em Direito pela Universidad Complutense de Madrid e em Ciência Política e da Administração pela Universidad Autónoma de Madrid. É consultora de Administração Pública.

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aproveitar as possibilidades interativas dos novos meios de comunicação para promover um diálogo de mão dupla, two-way, com o eleitorado e permitir a participação dos cidadãos via Internet. PALAVRAS-CHAVES: websites eleitorais; campanhas online; eleições para o Ayuntamiento de Madrid 2011.

ABSTRACT This article aims to investigate how parties and candidates with municipal representation carried out their online campaigns during elections to the City of Madrid in 2011, with an approach based on a mapping of resources and functions of the websites of the candidates Gallardón (PP), Lissavetzky (PSOE) and Perez (IU). Seek to verify whether the use of websites for political campaigns is aimed at enhancing the quality of political debate, increase citizen participation or only as a marketing tool to mobilize support. The websites reflect more the “top-down” (top down), or provide information in their own framework, recruit members and supporters and make online advertising, so that more priority to the provision of information in a single direction (one-way) that the “bottom-up” (bottom up), taking advantage of some and neglecting the interactive possibilities of new media to promote two-way dialogue (two-way) with the electorate and enable citizen participation via the Internet. KEY WORDS: election websites, online campaigns, elections to the City of Madrid 2011.

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INTRODUÇÃO A Internet é crescentemente utilizada enquanto lócus de comunicação política durante as campanhas eleitorais em grande número de democracias contemporâneas. Entre as principais funções que a rede eletrônica desempenha, enquanto ferramenta de campanha, a depender de sua forma de utilização pelos candidatos, está a disseminação de informações com enquadramento próprio, a distribuição de materiais de campanha, a mobilização de apoiadores, bem como propiciar a participação dos cidadãos no processo eleitoral. Do ponto de vista da formação de opinião, as Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (NTIC’s) oferecem aos atores políticos a possibilidade de contatar diretamente os cidadãos, uma vantagem em comparação às mídias tradicionais. Assim, os partidos controlam o conteúdo e a dosagem de informação política oferecida pela Internet, sem que ela passe por filtros ideológicos nem pelos crivos dos gatekeepers (RÖMMELE, 2003, p. 9). De acordo com Römmele (2003), as NTIC’s têm sido utilizadas prosperamente para promover a organização partidária da campanha, para simplificar os processos administrativos cotidianos e acelerá-los por intranets, por meio das quais a coordenação de filiais e comitês locais de campanha se torna mais fácil e menos onerosa. Esta se torna uma importante estratégia, por ser um canal adicional para a distribuição de materiais e orientações partidárias, por exemplo. Constitui, portanto, um meio para construir uma infraestrutura organizacional que evita os custos habituais de sedes regionais. O alto volume e a velocidade de transmissão de informações pela Internet proveem uma base substantiva para fazer campanha em comparação às outras mídias; a individualização do meio, em termos de controle do usuário, torna possível que os partidos identifiquem e coloquem como alvo eleitores com perfis específicos e personalizem suas mensagens procurando atingi-los diretamente. Ademais, a Internet abre a possibilidade de uma comunicação de “muitos a muitos” a um baixo custo, algo que antes não era possível (KARAKAYA, 2005) e, finalmente, o potencial interativo da tecnologia permite aos partidos oferecer novas possibilidades para a participação de filiados e eleitores. De acordo com um conjunto de teóricos de uma vertente mais ciberotimista, o uso da Internet poderia ser particularmente interessante 101


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para fomentar a participação do cidadão. A utilização de ferramentas interativas durante as eleições beneficia o processo democrático “incluyendo más gente corriente en los procesos de formación de opinión política y de toma de decisiones” (LANDTSHEER; KRASNOBOKA; NEUNER, 2001). A participação do candidato ou líder político em salas de bate-papo e fóruns de discussão com quantas pessoas queiram interpelá-lo provavelmente gera uma corrente de simpatia e curiosidade com eco midiático multiplicador (LANDTSHEER et al., 2000). A participação política via Internet representa um tipo distinto de engajamento cívico que se diferencia das atividades tradicionais; a popularidade da Internet gradualmente atrai mais pessoas para o processo democrático, o que se acredita ser particularmente importante para os grupos atualmente desengajados politicamente, tais como as gerações mais jovens, tal como argumentam os teóricos da mobilização, questionando a teoria do reforço (ANDUIZA et al, 2009). A Internet proporciona novas formas de comunicação horizontal com a capacidade de alargar a variedade e o alcance das vozes pluralistas ouvidas na esfera pública. Para Norris (2001, p. 42) se mais vozes forem ouvidas a respeito dos assuntos públicos por meio de uma diversidade de websites partidários e eleitorais, fortalece-se o pluralismo da comunicação e amplia-se a diversidade da informação disponível para balizar as escolhas eleitorais. Portanto, para um conjunto de teóricos, a web pode criar eleições mais competitivas, fato que, por sua vez, aumentaria o interesse dos cidadãos pela política (CORRADO, 1996 apud JOHNSON; KAYE, 2003). Ao menos teoricamente, em campanhas políticas virtuais é possível superar as relações verticalizadas entre políticos e cidadãos e diminuir a lacuna existente entre eles (CORRADO; FIRESTONE, 1997 apud GIBSON et al., 2003), na medida em que os eleitores contatam diretamente os candidatos se ferramentas interativas estiverem disponíveis nos websites. Dispositivos como fóruns de discussão e chats instauram formas de comunicação bottom-up (de baixo para cima), uma vez que ao internauta é possibilitado expressar suas preocupações e demandas, questionar os agentes políticos e candidatos e exprimir suas opiniões. Essas possibilidades certamente ampliam a influência dos cidadãos comuns na construção da agenda política e até mesmo, na formulação de políticas públicas. De acordo com este posicionamento, o debate iniciado na campanha política pode se perpetuar durante um possível mandato e influenciar nos outputs do sistema político. 102


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Tais características interativas possuem um potencial para ativar e mobilizar os cidadãos e fomentar sua participação. Por esses motivos, autores ciberotimistas avaliam a Internet com potencial de contribuir tanto para melhorar a qualidade da representação quanto para abrir novos canais de participação aos eleitores, portanto, revigorar a relação entre candidatos e cidadãos (BENTIVEGNA, 2000). Nem todas as possibilidades acima descritas são oferecidas em websites eleitorais, cuja oferta claramente depende da estratégia adotada pelos partidos e candidatos para utilização da rede eletrônica. Este artigo tem como propósito investigar como os partidos e candidatos levaram a cabo suas campanhas online durante as eleições ao Ayuntamiento de Madrid, em 2011, cujo enfoque será mapear os recursos e funções dos websites. As seguintes perguntas de pesquisa norteiam a investigação: (1) Quais são as características, conteúdos e principais finalidades dos websites eleitorais? Qual a ênfase dada a uma variedade de funções, tais como a produção de informação e disseminação de propaganda que busque visibilidade da mídia, a participação do eleitor online e a mobilização de apoio? (2) Os partidos políticos e candidatos têm utilizado as potencialidades interativas da Internet para aumentar a qualidade do debate democrático e estreitar os laços com o eleitorado durante as campanhas políticas? Qual o tipo de contato prioritário das campanhas online: de mão única, one-way, e de cima para baixo, top-down, ou seja, informações dadas dos líderes para os militantes e eleitorado ou a função de baixo para cima, bottom-up? DISCUSSÃO TEÓRICA: AS HIPÓTESES DE EQUALIZAÇÃO E NORMALIZAÇÃO Análises empíricas do uso de websites eleitorais ou partidários são desenvolvidas especialmente com o intuito de averiguar se as campanhas online mudam ou reproduzem os padrões típicos de campanha eleitoral offline. É neste sentido que se desenvolveram duas hipóteses antagônicas a respeito do uso da Internet em processos eleitorais. A primeira delas é a hipótese de equalização ou inovação (BENTIVEGNA, 2002). Seus autores afirmam que as características específicas da Internet como hi103


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pertextualidade, interatividade, multimídia e capacidade de informação contribuem para uma mudança fundamental na maneira como a política é apresentada ao público (RASH, 1997 apud GIBSON et al., 2003). Para tais pesquisadores, as campanhas online oferecem uma oportunidade de revitalizar os ideais racionais do discurso democrático que foram perdidos com a comunicação política moderna. Como consequência, autores como Blumler e Gurevitch (2001) identificam atualmente, uma crise da comunicação para a cidadania. Tal entusiasmo com as novas mídias, em particular com a Internet, decorre, em grande medida, de duas suposições: First, that the traditional or “old” media have, for a variety of reasons, become irredeemably hostile to the cause of democracy and are even serving to undermine it. Second, new media will be able to compensate for the impoverished state of political communication by allowing for the operation of a more direct or enhanced democracy (BARNETT, 1997, p. 194).

Tal expectativa, no entanto, é contestada pelos defensores da hipótese de normalização, por exemplo, Margolis e Resnick (2000), os quais argumentam que a World Wide Web é modelada pelas características do mundo real no tocante às relações de poder ou valores culturais (FOOT; SCHNEIDER, 2006; RESNICK, 1998). Durante as eleições, essas características são transferidas aos sites dos partidos e candidatos, em detrimento ao potencial genuíno das novas TICs. Como consequência, a hipótese de normalização sustenta que a campanha on-line leva não a uma revolução, mas sim, a um reforço de padrões típicos da comunicação política offline, levando, assim, a uma “política como de costume” (MARGOLIS; RESNICK, 2000, p. 54). Busca-se no presente artigo testar tais hipóteses em um contexto empírico específico, para verificar se o uso de websites em campanhas políticas está voltado a aumentar a qualidade do debate político, ampliar a participação cidadã ou apenas como uma ferramenta de marketing, para mobilizar apoio. ESTRATÉGIAS METODOLÓGICAS O corpus empírico desta investigação foram os websites dos candidatos, dos partidos com representação ao Ayuntamiento de Madrid, 104


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no pleito de 2011: Alberto Ruiz-Galladón, candidato do Partido Popular (http://www.gallardonconmadrid.es/), Jaime Lissavetzky, do Partido Socialista Obrero Español (http://www.laclavequecambiamadrid.es/) e de Angel Pérez, da Izquierda Unida (http://www.angelperez.es/). Os websites dos candidatos do PP, PSOE e IU foram analisados adotando a estratégia metodológica de análise de conteúdo de websites políticos, um sistema de codificação de dados por meio da categorização em torno dos fluxos de informação e comunicação que cada recurso indica (GIBSON; WARD, 2000). Realizou-se uma análise funcional, functional analysis, dos websites eleitorais dos candidatos Gallardón, Lissavetzky e Pérez, aplicando-se diversas variáveis dicotômicas, que indicam a presença ou ausência de vários elementos estruturais, com o intuito de identificar os diferentes propósitos dos websites (SCHWEITZER, 2005). Além de identificar a presença ou ausência dos elementos, testou-se sua funcionalidade a partir da experimentação do uso dos dispositivos, por exemplo, encaminharam-se email aos candidatos, para verificar se e como eram respondidos, postando mensagens na seção de comentários e participando de fóruns online. A intenção foi ser coparticipes das experiências dos outros a partir da introdução nos circuitos de comunicação propiciados nos websites eleitorais. Neste estudo, os aspectos funcionais, functional analysis, foram divididos em três categorias: Participação (v=25), Informação (v=25) e Mobilização (v=27), compostas por diversas variáveis (v): Participação (v=25): elementos para gerar interesse político e interação entre os usuários da Internet, candidatos e coordenadores da campanha ou dos próprios usuários entre si, por meio da página. Por exemplo, chat-room [sala de bate-papo], e-mail, enquetes, possibilidade de comentar notícias, entre outros. Informação (v=25): características de apresentação, distribuição, volume, atualização e qualidade das informações sobre os candidatos, a coligação, os partidos, as propostas e os programas de governo, eventos políticos e documentos diversos (agenda do candidato, boletins informativos, releases para a imprensa, documentos oficiais, notícias, fotografias, links, etc.); Mobilização (v=27): opções para ativar o apoio eleitoral dos usuários da Internet como, por exemplo, voluntariado, angariação de fundos, acesso a materiais de campanha, etc.. Ainda, estruturas para coordenar e embutir a comunicação partidário-eleitoral interna à World Wide Web 105


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por meio de Intranet, hyperlinks, comitê on-line, atrativos persuasivos e disseminação de campanha negativa contra os adversários. Cada uma das variáveis dicotômicas foi codificada como presente (1) ou ausente (0) e foram calculados índices para cada uma das categorias acima mencionadas para comparar os componentes dos websites dos diferentes candidatos de um modo claro e uniforme (NEWELL, 2001). Para tanto, foi dividido o número de variáveis presentes no site de cada candidato pelo número total de variáveis possíveis naquela categoria de análise resultando, assim, em um índice para cada categoria entre 0 (todos os elementos ausentes) e 1 (todos os elementos presentes). Este índice se visualiza na seguinte equação:

I=

vpC vtC

Onde I= índice de apropriação das variáveis; vp= variáveis presentes; vt= total de variáveis e C=categoria. RESULTADOS DA ANÁLISE FUNCIONAL Analisando o nível de penetração da Internet na Espanha, os dados mais recentes demonstram que 55% da população está online. A cada ano é maior o número de usuários que acessam a Internet com frequência diária (quase três a cada quatro) e, sobretudo, de casa (88%), ainda que quase um de cada quatro navegue também no trabalho (INFORME TATUM, 2011). Onze das dezessete Comunidades Autônomas possuem índices de penetração acima de 50%. As que possuem os índices mais altos são Madrid, La Rioja e Baleares, que ostentam 60% de acesso à Internet (INFORME TATUM, 2011). Considerando, portanto, o índice de 60% de acesso à Internet em Madrid, é estratégico aos candidatos estabelecerem presença online, ainda que as análises comparadas situem a Espanha entre os países com níveis mais baixos de busca de informação política através da Internet: 45% dos internautas consultam informação política online e 19% já visitou a web de um partido político (CIS, 2010). No que se refere à mobilização política por meio da web, os dados demonstram que 32% dos internautas espanhóis recebem algum e-mail com conteúdo político e que os estímulos negativos (e-mails criticando a um candidato) são mais 106


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frequentes do que os positivos (e-mail de apoio a um partido ou candidato): 27% frente a 11%, respectivamente (CIS, 2010) 3. Ainda que já tenha sido utilizada plenamente durante as eleições autonômicas catalãs de novembro de 2006 e nas eleições municipais de maio de 2007, foi nas últimas eleições gerais de 9 de março de 2008 que a rede eletrônica desempenhou um papel importante nas campanhas eleitorais na Espanha: “Internet ha entrado en campaña, y ha entrado de manera diferente a como lo había hecho hasta ahora, no sólo en unas elecciones generales, sino en cualquier elección en España” (PEYTIBI; RODRÍGUEZ; GUTIÉRREZ-RUBI, 2008, p.3). A Internet se fez presente no rol de ferramentas utilizadas durante a campanha eleitoral dos candidatos a Alcadia de Madrid, em 2011. Abaixo se apresentam as principais características e funções de seus websites eleitorais.

Gráfico 1. Índices de todas as funções, análise funcional, das webs eleitorais em perspectiva comparada. Fonte: elaboração própria.

Analisando o perfil dos websites eleitorais dos candidatos ao Ayun3  Análise realizada por Anduiza et al. (2010), a partir da pesquisa de opinião 2.736 (Opiniones y Actitudes – Internet y participación política en España) do CIS – Centro de Investigaciones Sociológicas.

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tamiento de Madrid, no pleito de 2011, verifica-se que transmitir informação com um enquadramento próprio para os usuários e recrutar militantes foram os principais objetivos das campanhas online dos candidatos Gallardón, Lissavetzki e Pérez. Esses dados confirmam as hipóteses de partida dos trabalhos de Dader, Vizcaino, Campos e Cheng (2011; 2009), de acordo com as quais, os partidos políticos e os candidatos espanhóis experimentaram um importante avanço na dimensão Estética e Atrativo Persuasivo, apresentam níveis aceitáveis – com destaque para alguns aspectos – em Facilidade de Uso e Atualização, oferecem um repertório muito completo em alguns setores na dimensão Informação (sobretudo, os partidos de maior envergadura e protagonismo parlamentar), mas seguem com grandes lacunas na dimensão de Interatividade (DADER, 2009). Os partidos e candidatos espanhóis dedicam maior cuidado aos aspectos de atrativo estético e apelo sensorial do que ao resto dos recursos habilitáveis em suas páginas. A Interatividade é a dimensão pior atendida, a curta distância da Facilidade de Uso e Ajuda Instrumental, ambas a uma distância muito considerável daquelas melhores atendidas (DADER et al., 2011). É possível comprovar que a intenção foi utilizar os websites dos candidatos como um portal, reunindo conteúdos de diversos tipos, como vídeos, fotos e links a redes sociais. Os candidatos buscaram, assim, transmitir um ar de modernidade tecnológica, mediante o uso da tecnologia RSS 4. Nas eleições gerais de 2008, o uso das redes sociais foi uma novidade da campanha eleitoral e parece haver inaugurado uma tendência das campanhas eleitorais espanholas, pois, nas eleições de 2011 ao Ayuntamiento de Madrid, um aspecto comum nas três candidaturas foi a presença (ainda que em alguns casos ainda tímida) nas redes sociais. De acordo com os dados da terceira onda do Observatorio de Redes Sociales, elaborada por The Cocktail Analysis apud Informe Tatum (2011) a rede social com maior penetração na Espanha é o Facebook, com 78% de usuários com conta ativa, enquanto que o Tuenti “vive un momento de afianzamiento” (35% de penetração) e o Twitter está crescendo (de 9% em 2009 a 14% em 2010). As páginas web dos três candidatos oferecem link aos perfis: no Facebook, às suas contas no Twitter e a seus canais próprios o YouTube. 4  Tecnologia que permite aos usuarios receber feeds, RSS, que emitem notificações automáticas quando o conteúdo do website é atualizado.

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Gallardón e Lissavetzky possuíam link a suas contas no Flickr, uma rede social cujo objetivo é a difusão de fotos. O único que tinha link em sua página web com a rede social Tuenti, foi Jaime Lissavetzky. Este candidato também se destacou em relação a links para blogs, a Blogosfera progresista, uma rede de cerca de mil blogs socialistas que estão organizados por temas e territorialmente. Tal estrategia já fora utilizada durante a última campanha de Zapatero (PEYTIBI; RODRÍGUEZ; GUTIÉRREZ-RUBÍ, 2008). Nas próximas seções analisam-se individualmente, as características gerais dos websites dos candidatos. WEB DE GALLARDÓN (http://www.gallardonconmadrid.es/) A página web do prefeito e candidato à reeleição Alberto Ruiz-Gallardón do PP, seguiu uma estratégia típica de mandatários. Seu principal objetivo, no uso da Internet, foi disseminar informações com enquadramento próprio, invocando de forma recorrente os símbolos do cargo, a ênfase em realizações e a associação à administração em curso (FIGUEIREDO et al., 1998). No que se refere ao perfil das informações veiculadas, se por um lado constatou-se a ausência de determinados insumos relevantes para o voto informado e o controle social efetivo, pois não se verificaram informações sobre o perfil do candidato, sobre a lista eleitoral ou declaração de bens, deu amplo destaque às ações de gestão ¿Quieres ver lo que ya hemos hecho? O próprio espaço destinado à apresentação do programa de governo buscava faturar a partir de obras e ações de governo do que propriamente apresentar propostas, embora estas não estivessem ausentes. Alguns internautas criticaram o caráter genérico das propostas: Sé que lo que voy a decir va a parecer que lo estoy diciendo con sorna, pero nada más lejos de la realidad. A estas palabras, muy bonitas por cierto, le faltan objetivos. No veo que diga vamos a hacer esto en concreto, simplemente mejorar, mejorar la calidad de vida, ¿con qué? ¿ampliando aceras del centro?. ¿Creando más carriles bici? (Participação de um internauta no website http://www.gallardonconmadrid. es/).

A estratégia da campanha de Gallardón não visava a utilização da web como dispositivo de participação e comunicação de duas ou três vias (entre eleitores e candidato ou de eleitores entre si). Não se tratava, portanto, de utilizar o website eleitoral como um veículo de diálogo, e sim, 109


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fundamentalmente, como uma ferramenta para transmitir e receber informações. Figura 2. Imagem do website de Gallardón

Fonte: http://www.gallardonconmadrid.es/

Considerando que algumas possibilidades de participação foram abertas aos internautas (cf. Tabela 1), mas sem esclarecer seus objetivos, verificou-se insatisfação dos usuários com determinadas iniciativas. Ao abrir a página para recebimento de sugestões ao programa de governo, a equipe de Internet de Gallardón criou a expectativa de um diálogo da campanha com os cidadãos, o que não ocorreu. Conforme relatado pelos próprios coordenadores da campanha virtual, considerando que em nenhum caso as mensagens foram contestadas de forma individual, esta circunstância gerou dúvidas quanto à efetividade da iniciativa. Como consequência, foi avaliada por alguns participantes não como a abertura de um canal de diálogo com o candidato para fazer com que as demandas e anseios dos cidadãos fossem ouvidos, mas, como estratégia de puro marketing eleitoral. Para desconstruir esta imagem negativa, a coordenação de campanha foi a público pedir desculpas pelo fato da metodologia ter dado uma falsa impressão. A forma que encontraram para demonstrar que as mensagens eram lidas e consideradas, foi a partir da publicação de di110


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versos gráficos que mostravam o número de propostas recebidas (1862) por categorias. Estas mensagens dos internautas, no entanto, não foram divulgadas. Por outro lado, os internautas podiam comentar as propostas e mesmo os comentários críticos não eram removidos. Não se tratava de comentários anônimos, embora fosse possível a utilização de codinome. Para encaminhar um comentário, era obrigatório um breve cadastro, com nome e e-mail. Exemplos de posts críticos publicados foram no item Madrid en bici, onde se discutia um sistema de mobilidade sustentável: No entiendo por qué debemos aceptar como propuesta algo por lo que no se ha apostado en absoluto en todos los años en los que ha estado de alcalde el Sr. Gallardón. Solo espero que esto sea verdad y no habladurías. Porque en esta legislatura lo único que se ha hecho en este sentido es el más absoluto ridículo (Participação de um internauta no website http://www.gallardonconmadrid.es/).

WEB DE LISSAVETZKY(http://www.laclavequecambiamadrid.es/) A estratégia de cibercampanha do candidato do PSOE ao Ayuntamiento de Madrid, Jaime Lissavetzky, foi típica de desafiante, incluindo apelo à mudança, ofensiva quanto a temas e críticas ao prefeito candidato à reeleição e à administração em curso. Tais notícias veiculadas na Sala de Prensa demonstram tal estratégia: El P.P. se ha olvidado de los barrios. Y se ha olvidado de ellos tanto más cuanto más lejos se hallan del centro, cuanto más forman parte de la periferia urbana. Para el PP, el ciudadano de Madrid es una persona pasiva, desmotivada, sin mucho interés por casi nada…La política ambiental de Gallardón ha sido cobardeLissavetzky felicita a Gallardón por “reconocer sus errores” mientras defiende un PGOU que apueste por equilibrio Jaime Lissavetzky analiza, para DCTV, la ‘fiebre obrera’ de Gallardón (Notícia publicada no website http://www.laclavequecambiamadrid.es/).

Ainda, para ilustrar tal estratégia estava o incentivo de envio de fotos-denúncia pelos internautas e o ícone Lo que quieres cambiar, para que os cidadãos participassem com suas críticas à forma como Madrid estava sendo administrada e a possibilidade de envio de propostas para melhorar a cidade en Danos tu clave para cambiar Madrid 5. Era possível participar escolhendo o distrito e selecionando a categoria da clave. Para 5  Esta ferramenta de incremento à interatividade entre partido-candidato e cidadão continuou, em termos gerais, no espaço Mil ideas, mais utilizado por Zapatero durante a campanha de 2008 (PEYTIBI; RODRÍGUEZ; GUTIÉRREZ, 2008).

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tanto, era necessário um cadastro simples com nome, e-mail e a resposta a uma pergunta anti-spam. Embora bastante centrado na estratégia de crítica ao adversário, o website de Lissavetzky foi o mais informativo e participativo6. No que tange às informações, foi o único website em que se encontraram dados sobre a candidatura e a lista, de modo que os eleitores pudessem conhecer o perfil das pessoas que conformavam a lista para a candidatura a Alcaldía de Madrid. Foi também o único candidato que divulgou sua declaração de bens, o que demonstra um esforço de maior transparência. Não obstante ao esforço de informação, notou-se pouca real participação no website de Lissavetzky, embora este tenha sido, dos três websites analisados, aquele em que se encontrou o maior número de dispositivos para participação do internauta. Entre eles cita-se a possibilidade de contatar o candidato por e-mail, de enviar mensagens, de comentar notícias do site, de enviar de artigos e vídeos para publicação no site e dados de contato do candidato. Para testar a funcionalidade de seu website, encaminharam-se mensagens que foram efetivamente publicadas (políticas públicas para as mulheres), inclusive, uma delas frequentemente citada pelo candidato (reabilitação do estádio de Vallehermoso).

Figura 2. Imagem do website de Lissavetzky Fonte: http://www.laclavequecambiamadrid.es/

6  Estes dados corroboram os achados de investigação de Dader et. al. (2011) baseados na análise da página web do PSOE durante as eleições de março de 2008. Nela a web obteve a maior pontuação global e não obteve nenhuma associação estatística negativa.

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Em detrimento da participação, deu maior ênfase à estratégia de mobilização de campanha negativa ao adversário, com divulgação do caderno de campanha e agenda do candidato e publicação de endossos de amigos de Lissavetzky. Oferecia, ainda, enlaces com as redes sociais, a blogosfera de apoio à Lissavetzky, bem como ao voluntariado PSOE. Outro objetivo do website de Lissavetzky foi atrair a atenção da mídia, a partir da criação de uma Sala de Imprensa, com notas de imprensa, fotografias, vídeos, áudios e subscrição para jornalistas receberem materiais e atualizações. WEB DE ANGEL PÉREZ (http://www.angelperez.es/) O website do candidato da IU a Alcaldía de Madrid, Angel Pérez, era um perfil de site de mobilização para diminuir os custos de implicação dos militantes e simpatizantes com a campanha. O alto índice de características de mobilização (gráfico 1) demonstra que o público-alvo primordial eram os segmentos de eleitores interessados pela política e orgânicos à candidatura, que não precisavam ser influenciados em relação à sua decisão de voto. Neste sentido, o website desempenhou mais a função de cristalizar votos e como ferramenta adicional de mobilização, visando facilitar a ação de internautas pré-dispostos a contribuir com a campanha eleitoral. Este uso da Internet possibilita a muitas pessoas colaborarem assumindo níveis de responsabilidade muito pequenos, o que Chadwick (2008) denomina granularity.

Figura 3. Imagem do website de Pérez

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Fonte: http://www.angelperez.es/

O website eleitoral de Pérez teve como propósito servir de comitê online. Neste contexto, a descentralização de materiais com propostas bem segmentadas por distritos facilitou a organização da campanha (panfletos e vídeos na TV a Pie de Barrio). A Internet propicia esta personificação da campanha, podendo criar diferentes peças de campanha e mensagens para cada subgrupo do eleitorado, ao contrário dos meios de comunicação de massa, como a TV e o rádio, nos quais a comunicação é massificada. No caso de Pérez, a segmentação seguiu o critério geográfico, ao criar materiais para cada distrito madrilenho. Por intermédio da Internet, disseminaram os materiais e manuais de marca para imprimir nos mais diversos locais, ou mesmo, para que os próprios militantes realizassem a produção das peças gráficas artesanalmente. Pérez foi o único candidato que ofertou tais materiais para produção individualizada e também uma Intranet de uso exclusivo a usuários autorizados com cadastro e senha. Utilizou, portanto, de estruturas para coordenar e embutir a comunicação partidário-eleitoral interna à World Wide Web, de modo a tornar a coordenação de comitês locais de campanha e o trabalho voluntário mais fáceis e menos onerosos.

Figura 4. Materiais de campanha na website de Pérez

Fonte: http://www.angelperez.es/

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Do ponto de vista da estrutura de argumentação, assim como o de Lissavetzky, o website de Pérez seguiu uma estratégia típica de desafiantes, enfatizando os problemas de Madrid e apontando o bom mundo possível, caso fosse eleito: “Una ciudad más equilibrada, más participada y más ecológica. Una ciudad más equilibrada en la calidad de vida, con mayor participación de los vecinos en las decisiones que afectan a sus distritos y barrios y más sostenible medioambientalmente” (http://www.angelperez. es/). O diferencial de Pérez foi apostar no uso do senso de humor e ironia, como ilustra tal notícia: Bienvenidos a CaraBAnCHEl. Sin necesitarlo ni pedirlo los vecinos de Carabanchel cuentan con un campo de golf en sus calles. Basta cambiar el césped por asfalto y los agujeros por unos baches que amenazan la integridad de vehículos y peatones. El estado del pavimento es deplorable sin que el Ayuntamiento de Madrid se dé por enterado de las quejas de los vecinos (http://www.angelperez.es/). Figura 5. Notícia no website de Pérez

Fonte: http://www.angelperez.es/

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Tabela 1. Características de participação nas webs eleitorais

Fonte: elaboração própria.

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Tabela 2. Características de informação nas webs eleitorais

Fonte: elaboração própria.

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Tabela 3. Características de mobilização das webs eleitorais

Fonte: elaboração própria.

ANÁLISE DE ACESSIBILIDADE E QUALIDADE WEB Fazendo uso de softwares específicos e aplicativos disponíveis no http://www.tawdis.net/, analisaram-se os níveis de acessibilidade alcançados pelos design das páginas web dos candidatos, de modo a permitir 118


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o acesso a todas as pessoas, independentemente de suas limitações particulares. T.A.W é um conjunto de ferramentas para a análise da acessibilidade de sítios web, alcançando de forma integral e global todos os elementos e páginas que o compõem. O sistema analisa as páginas baseando-se nas Pautas de Acessibilidade ao Conteúdo Web 1.0 e Web 2.0 e gera um informe demonstrando os problemas de acessibilidade encontrados que devem ser corrigidos automaticamente ou manualmente pelos webmasters, os quais são apresentados com ícones que representam os três níveis de prioridade, que podem ser: Prioridade 1 (cor vermelha). Prioridade 2 (cor laranja). Prioridade 3 (cor verde).

Na tabela seguinte se podem ver os resultados das análises de acessibilidade das páginas web dos candidatos, realizadas com as ferramentas mencionadas, em duas datas distintas da campanha eleitoral, em 7 e 14 de maio. Nela constava que a página mais acessível, com significativa diferença, foi a do candidato Lissavetzky e a menos acessível foi a de Pérez, além do fato de que esta última piorou de uma da outra de análise. Tabela 4. Análise de acessibilidade das páginas web

Fonte: elaboração própria.

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Quanto ao design e a aparência dos websites, em relação às cores utilizadas, se observou uma contraposição entre azul e vermelho, o que expressava a polarização ideológica entre a forças políticas implicadas na disputa. Enquanto o candidato Gallardón7 utilizou em sua página os tons azul e branco, seguindo a identidade visual do site de seu partido, o PP, no site de seus opositores houve predomínio da cor vermelha, com alusão à esquerda e ao socialismo. Além disto, o website de Lissavetzky seguiu o manual de identidade corporativo de seu partido, o PSOE. A primeira versão da página, apresentada antes da campanha eleitoral, causou um grande impacto. A página com somente duas cores, vermelho e branco, era visualmente muito agressiva, “estaba llena de animaciones y parpadeos muy molestos” (EL PAÍS, 3 de marzo de 2011). A web de Pérez também utilizou cores chamativas e fez uso de artifícios que propiciaram um ar de entusiasmo. Em termos de navegação, os três websites analisados dispunham de mapa do site e sistema de busca. No que se refere à estética e multimídia, elas eram dotadas de recursos como vídeos, fotos, banners e gráficos. CONSIDERAÇÕES FINAIS Analisando o uso de websites eleitorais pelos candidatos ao Ayuntamiento de Madrid, no pleito de 2011, verificou-se que os objetivos primordiais foram mobilizar apoiadores e passar informações com enquadramento próprio. Portanto, mais uma ferramenta de marketing do que de participação cidadã. Apesar de algumas iniciativas para participação dos cidadãos, fundamentalmente no que se refere ao envio ou publicações de mensagens, não houve de fato, interação entre eleitores e candidatos. Assim, para promover participação e interação direta com os eleitores, os candidatos ficaram muito aquém, tendo em vista o potencial oferecido pela Internet. Não se verificou comunicação dialógica entre eleitores e candidatos em nenhum dos websites analisados. Não houve participação dos candidatos nem de representantes das campanhas em fóruns de discussão, chats e as perguntas encaminhadas pelos internautas não eram respondidas. 7  A página foi notícia pela fotografia na página inicial (splash page), na qual o candidato posava rodeado de cidadãos, que eran daneses, ao invés de espanhóis. As críticas o fizeram mudar a imagem (EL MUNDO, 23 de febrero de 2011).

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Os websites refletiriam mais a função top-down (de cima para baixo), ou seja, de prover informações com um enquadramento próprio, recrutar militantes e apoiadores e fazer propaganda online, portanto, priorizar mais o fornecimento de informações de mão única, one-way, do que a função bottom-up (de baixo para cima). Exploraram pouco os recursos e negligenciaram as possibilidades interativas da nova mídia para promover um diálogo de mão dupla, two-way, com o eleitorado e possibilitar a participação do público via Internet. Assim sendo, notou-se uma subutilização das características interativas da Internet por parte dos candidatos de Madrid. O atributo da Web 2.0 mais enfatizado, a interatividade, que claramente a distingue dos meios de comunicação de massa, não foi empregado para promover efetiva participação dos cidadãos e interação destes com os candidatos durante a campanha eleitoral. O modelo de estratégia de campanha permanece top-down8 com um controle firme e centralizado. Os partidos políticos e candidatos criaram sua própria abordagem no que se refere à utilização do potencial interativo da Internet, que é um híbrido entre a Web 1.0 e a Web 2.0, a Web 1.5 que reflete alguma utilização da arquitetura de participação, mas um uso muito mais baixo de sua estrutura democrática. Este modelo é mais utilizado para gerar mensagens de forma efetiva, em um monólogo unidirecional, do que para abrir um canal de diálogo (LILLEKER; JACKSON, 2008). Verifica-se que o uso de websites como ferramenta de campanha esteve ligado às estratégias de persuasão típicas à posição dos competidores no pleito. A estrutura de argumentação dos candidatos, a partir de suas respectivas interpretações, seguiu duas vertentes: “Madrid atualmente está ruim, mas ficará boa” ou “Madrid atualmente está bem, e ficará ainda melhor”. Diante dessa lógica da competição eleitoral, coube ao candidato da situação, Gallardón, exaltar o “bom mundo atual” e “o melhor ainda mundo futuro possível”, e à oposição, representada pelos candidatos Lissavetzky e Pérez, desqualificar a interpretação da situação e oferecer outro “bom mundo possível”. Em termos retóricos, exaltar o “bom mundo atual” significou, fundamentalmente, mostrar as realizações e associar o candidato à reeleição, a elas. Desqualificar a interpretação da situação, por outro lado, significou criticar o que foi e o que deixou de ser realizado, apelar para mudanças e tomar a ofensiva quanto a temas. 8  Esta relação estabelece uma relação vertical e não horizontal, entre representantes e representados. Nela o grau de intervenção e participação do cidadão no meio político é considerado muito baixo, podendo aumentar o nível de desconfiança pela percepção de falta de transparência (SAMPAIO, 2009).

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Conexão e ação: a utilização estratégica da Internet pela “Marcha das Vadias” para mobilização social e ação coletiva no espaço virtual e no território urbano Connection and action: the strategic use of the internet by “Slut Walk” for social mobilization and collective action in the virtual space and urban territory José Geraldo da Silva Junior1

RESUMO Partindo da hipótese de que durante a fase de mobilização social para a “Marcha das Vadias” em Curitiba, a comunicação na Internet foi articulada estrategicamente pela organização para gerar e manter vínculos fortes entre o movimento e seu público. Ainda, estimulá-lo a divulgar a marcha e participar de ações coletivas tanto no espaço virtual como no território urbano. Neste contexto, o artigo apresenta os resultados de uma pesquisa que, através da observação das estruturas comunicativas utilizadas pelas ativistas na dimensão virtual, procurou compreender suas características e eficácia mobilizadora. PALAVRAS-CHAVE: movimentos sociais, mobilização, Internet.

1.Jornalista, especialista em “Comunicação Política e Imagem” (UFPR), mestrando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social (UFPR), sob orientação da prof. Dra. Kelly Prudencio, e membro do grupo de pesquisa “Comunicação e Mobilização Política”. E-mail: jota_geraldo@hotmail. com

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Conexão e ação: a utilização estratégica da Internet pela “Marcha das Vadias” para mobilização social e ação coletiva no espaço virtual e no território urbano

ABSTRACT Assuming the hypothesis that during the period of social mobilization for the “Slut Walk” in Curitiba, Internet communication was articulated strategically by organization to generate and maintain strong ties between the movement and its audience as well as to encourage him to publicize the march and participate in collective actions in virtual space and the urban territory, the article presents the results of a survey that, through observation of communicative structures used by activists in the virtual dimension, sought to understand their characteristics and effectiveness mobilizing. KEYWORDS: social movements, mobilization, Internet

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Conexão e ação: a utilização estratégica da Internet pela “Marcha das Vadias” para mobilização social e ação coletiva no espaço virtual e no território urbano

INTRODUÇÃO Este artigo analisa as estratégias comunicativas articuladas a partir da Internet pela organização da “Marcha das Vadias”, em Curitiba, durante a etapa de mobilização2 que antecedeu a realização da segunda edição do evento na capital paranaense. A hipótese é que nesse período, a comunicação na Internet foi utilizada estrategicamente pela organização da marcha para gerar e manter vínculos entre o movimento e seu público. Ainda, motivá-lo a divulgar a marcha e participar de ações coletivas tanto no interior da própria rede, como no espaço público. Partindo do conceito de Toro & Werneck (1996), em que a mobilização é compreendida como um processo de convocação de vontades para uma mudança de realidade, por intermédio de objetivos comuns e consensuais, Henriques (2004) situa a necessidade de uma comunicação estrategicamente planejada na estruturação de um projeto mobilizador, pois, segundo ele, as pessoas precisam sentir-se como parte do movimento e abraçar verdadeiramente a causa. Sendo a participação uma condição intrínseca e essencial para a mobilização, a principal função da comunicação em um projeto de mobilização é gerar e manter vínculos entre os movimentos e seus públicos, por meio do reconhecimento da existência e importância de cada um e do compartilhamento de sentidos e de valores (HENRIQUES, 2004, p.20).

Neste contexto, objetiva-se pesquisar se a comunicação articulada pela organização da marcha no interior das estruturas comunicativas virtuais cumpriu o que Henriques chama de “função básica” da comunicação em projetos de mobilização, ou seja, estabelecer e manter vínculos fortes dos públicos com o movimento. Além disso, pretende-se observar se foram cumpridas outras funções que, segundo Henriques (2004), devem ser atreladas e devidamente articuladas à “função básica” como, difundir informações, promover a coletivização, registrar a memória e fornecer elementos de identificação com a causa e o projeto. Antes, porém, do aprofundamento da observação participante das estruturas comunicacionais virtuais da “Marcha das Vadias” se apresenta um breve histórico deste movimento social no mundo, no Brasil, e em Curitiba. 2  Este estudo compreende que a fase de mobilização da “Marcha das Vadias”, em Curitiba (PR), estende-se do dia 26 de maio de 2012 (data em que foi promovido um ato local em apoio à marcha nacional) até 13 de julho de 2012, um dia antes da marcha na capital paranaense.

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HISTÓRICO “Marcha das Vadias” é o nome de um movimento social internacional iniciado no Canadá, depois que um policial de Toronto pediu às mulheres que não se vestissem como vadias para não serem estupradas. A principal crítica da marcha é a culpabilização da mulher em casos de agressão sexual. Na pauta constam também reivindicações clássicas feministas como, por exemplo, o fim da discriminação contra as mulheres, da violência sexual e da violência doméstica, além de outras temáticas, consideradas polêmicas pelos setores conservadores da sociedade brasileira, como a descriminalização do aborto. Entre suas características estéticas pode-se elencar a irreverência, as cores, os corpos pintados, os cartazes com slogans irônicos e provocativos, além dos discursos e gritos de guerra que discutem abertamente temas tabus. Segundo Rodrigues (2012), a Marcha das Vadias recupera uma irreverência que, no seu entendimento, perdeu-se a partir dos anos 90, quando o feminismo se institucionalizou, e tem o mérito de atrair a juventude. Outro aspecto apontado por Rodrigues como constituidor da identidade do movimento é a entrada em cena do direito à diversidade sexual, “tema com o qual a juventude pós-gênero tem grande afinidade. Entre as “vadias”, há homens, travestis, transexuais, transgênero, lésbicas e gays” (RODRIGUES, in ESTADÃO, 2012).3 O primeiro protesto aconteceu em abril de 2011, no Canadá. A ação foi nomeada Slut Walk. O modelo se espalhou pelo mundo e marchas ocorreram em diversos países como Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, França, Holanda, Portugal, Israel, Índia, Argentina, México, Nicarágua e Colômbia. No Brasil, o movimento recebeu o nome de “Marcha das Vadias”, denominação que gera debates envolvendo a apropriação do termo “vadias” para se autodesignar. Conforme Rodrigues, o termo é uma paródia que pretende debochar dos discursos morais que o sustentam, subvertendo o significado corrente de “vadias”, com forte carga pejorativa. Todavia, aponta a pesquisadora, a marcha ainda sofre rejeição de alguns setores da sociedade que não consideram possível resignificar o termo. Em consonância, com o pensamento de Rodrigues, a organização da “Marcha das Vadias” de Curitiba considera que: 3  RODRIGUES, Carla. O deboche das vadias. In: O Estado de S. Paulo, 3 Jun. 2012. Disponível em: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-deboche-das-vadias,881691,0.htm. Acesso em: 12 out. 2012

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Tem que ter é muito peito para vestir a camisa de vadia, quebrar tabus, romper barreiras. Vestir esta camisa é um gesto de solidariedade sim, saber que irá ouvir milhões de besteiras e mesmo assim abraçar centenas de mulheres que sofrem violência e são apontadas como culpadas. É simples entender o nome quando abrimos a cabeça; uma mulher foi chamada de vadia por ter sido violentada, foi considerada culpada por ter sido violentada porque se comportou como uma ‘vadia’... Depois disso, mulheres se uniram em um só grito; se uma é vadia todas somos vadias, simples assim... Vamos quebrar esse termo pejorativo criado para ofender e denegrir a mulher... Pensando em todo esse contexto ser vadia é ser livre... Portanto queremos mesmo é ser vadias porque queremos ser quem somos, sem julgamentos, sem rótulos. Curitiba não foi mais a mesma desde o dia 16 de julho de 2011. Curitiba mudará ainda mais depois do dia 14 de julho de 2012 (MARCHA DAS VADIAS, 2012).

Em Curitiba, a primeira marcha aconteceu no dia 16 de julho de 2011. Depois, em 26 de maio de 2012 foi realizado um ato em apoio à Marcha Nacional das Vadias que aconteceu simultaneamente em 14 cidades do país, entre elas São Paulo (SP), Florianópolis (SC), Rio de Janeiro (RJ), Belo Horizonte (MG), Brasília (DF), Recife (PE), Salvador (BA) e Natal (RN). A segunda edição da “Marcha das Vadias”, na capital paranaense, ocorreu no dia 14 de julho de 2012. A violência contra a mulher e a violência de gênero encabeçaram as reivindicações nesta edição da marcha. O Brasil é o 7° país do mundo que mais mata mulheres. O Paraná é o 3º estado no ranking e Piraquara é a 2º cidade brasileira com maior número de assassinatos de mulheres. O Paraná é o segundo estado mais homofóbico do país. Em Curitiba a cada 1 dia e ½ uma pessoa LGBT é brutalmente assassinada. Em 2011, no Paraná, mais de 17 mil mulheres foram agredidas e mais de 4 mil foram vítimas de crime sexual. Em 2012, quase 5 mil mulheres foram vítimas de violência. Em Curitiba, 115 mulheres foram assassinadas em 2011 e 30 mulheres foram mortas no início de 2012 (MARCHA DAS VADIAS, 2012).

ESTRUTURAS A comunicação da etapa de mobilização da “Marcha das Vadias” foi centralizada na Internet, que funcionou como canal aberto de emissão, recepção e organização de informações. As estruturas comunicacionais virtuais utilizadas pela Marcha das Vadias de Curitiba foram: mídia social, Facebook, Blog, Youtube e e-mail. 1. ESTRUTURAS EM MOVIMENTO Neste tópico se apresentam os usos das estruturas virtuais acionadas pela organização da Marcha durante a fase de mobilização. O objetivo 129


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foi avaliar se elas operaram como dispositivos estratégicos por meio dos quais se estabeleceu uma comunicação capaz de criar e reforçar vínculos entre o movimento e seu público. Ainda, provê-lo de informações sobre a marcha, estimulando-o a se sentir corresponsável pelo seu sucesso, divulgando-a em suas redes de contato e participando ativamente das ações coletivas propostas e coordenadas pela organização. Supõe-se também que através da emissão contínua e estratégica de informações, através de canais específicos na Internet, a organização tornou valores, símbolos, ideias e ideais da marcha fortemente presentes no imaginário dos ativistas e estimulou-os a ações múltiplas no espaço virtual e no espaço público. Além disso, manteve-os conectados e em “estado de tensão” até o ponto culminante da etapa de mobilização, ou seja, a marcha propriamente dita. “A linguagem e a comunicação desempenham um papel fundamental na construção da realidade social. Esta só existe na medida em que a comunicação permite que exista um mecanismo de relação (de interação) entre os indivíduos” (CORREIA, 2007, p. 58). 1.1 FACEBOOK Entre as ferramentas virtuais empregadas no período de mobilização, a mídia social Facebook foi a que alcançou maior destaque e repercussão pública. As possibilidades interativas da ferramenta foram amplamente empregadas para a emissão, recepção e arquivamento de dados textuais, imagéticos e sonoros. Entre os recursos do Facebook, foram explorados: a Fan Page4, o sistema Evento e o Grupo5. 1.2 FAN PAGE Entre as ferramentas do Facebook a Fan Page “Marcha das Vadias Curitiba”6 foi a mais utilizada durante a fase de mobilização social, configurando-se em um espaço de alto fluxo de entrada, processamento e saída de informações. As postagens feitas pelo perfil “Marcha das Vadias Curitiba” envolveram, desde proposição e agendamento de reuniões, divulgação de oficinas, eventos, passando pela publicação de links para blogs e sites, vídeos, documentários, textos jornalísticos, poéticos e científicos. Incluíram exposição de fotografias de simpatizantes com mensagens de apoio à causa, 4  De acordo com o Facebook, uma Fan Page é uma interface específica para a divulgação de uma empresa, marca, banda, etc. 5 

Grupo “Marcha das Vadias Curitiba”: http://www.facebook.com/groups/116778641743387/

6 http://www.facebook.com/pages/Marcha-das-Vadias-Curitiba/124764304276481

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solicitações de ajuda para divulgação da marcha na Internet e nas ruas e comercialização de camisetas e ecobags para angariar fundos e divulgar o movimento. A seguir, se detalham alguns recursos da Fan Page aproveitados pela organização da “Marcha das Vadias.” Material de mobilização Na sessão “álbuns” da Fan Page foram disponibilizados materiais de mobilização usáveis tanto no período de publicização da marcha quanto no próprio dia do acontecimento. a) Cartazes: Um mês antes da marcha foi criada na sessão “álbuns” uma pasta intitulada “cartazes” na qual foram postados cartazes para compartilhamento, download e/ou impressão. Este material gráfico forneceu elementos de identificação e interação simbólica com a causa e com o projeto mobilizador, ao traduzir imageticamente seus valores. Cabe à comunicação uma articulação entre valores e símbolos no processo de construção da identidade de um movimento, estabelecendo de uma maneira estruturada a produção de elementos que orientem e gerem referências para a interação dos indivíduos, possibilitando, assim, um sentimento de reconhecimento e pertencimento capaz de torná-los co-responsáveis (HENRIQUES, 2004, p. 23).

- Cartaz símbolo: Este cartaz amarelo traz em destaque na região superior da página o símbolo da marcha: uma silhueta feminina estilizada com uma araucária no seu interior. Na parte inferior da página escrito em letras grandes, o nome do ato público: “MARCHA DAS VADIAS CURITIBA” e, por fim, os dados espaciais e temporais do evento: “Sab. 14 de julho, 11 horas, Passeio Público”. Esta imagem foi compartilhada 425 vezes entre o dia em que foi postada (15 de junho de 2012) e o dia da marcha (14 de julho). Neste cartaz, a inserção da imagem no interior da silhueta feminina tem uma dupla função: a) situar a Marcha na capital do Estado (a araucária é a árvore símbolo do Paraná); b) conectar um símbolo cultural e socialmente reconhecido para aproximar a marcha às mulheres paranaenses. De acordo com Correia (2007), os elementos simbólicos “funcionam como mapas que representam, simbolizam e estão no lugar da realidade e, ao mesmo tempo, condicionam a vivência dessa realidade” (CORREIA, 2007, p. 60). - Cartaz reflexão: Este cartaz vermelho contém no seu centro a inscrição em letras pretas: “A sociedade ensina “não seja estuprada” ao invés de “não estupre”: No topo do cartaz uma ilustração de um corpo nu com 131


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estigmas e no canto inferior direito, uma senhora com a mão no queixo com um balão cheio de interrogações sobre sua cabeça. No canto inferior esquerdo, o nome da marcha, a cidade, a data e o horário. - Cartaz liberdade: O fundo deste cartaz mostra a região torácica de uma mulher com um lobo tatuado. Sobre a “testa do lobo” a palavra “venha”, do lado esquerdo “ser”, do lado direito “livre” e um pouco mais abaixo “vadiar”. Na parte superior do cartaz, o nome da marcha, a data da marcha, o horário e o local de saída. Na região inferior do cartaz, o símbolo da “Marcha das Vadias de Curitiba”. - Cartaz manchete: Cartaz contendo manchetes de jornal com casos de mulheres vítimas de violência no Paraná. Segundo Snow (1986), referenciado por Tarrow (2009), “os movimentos conectam quadros culturais existentes a uma questão ou problema particular” (TARROW, 2009, p. 144). - Cartaz concentração - No dia 20 de junho, o perfil da “Marcha das Vadias” publicou a mensagem abaixo reforçando data da marcha, horário e local de concentração: “Curitiba, 14 de julho, 11horas , concentração no Passeio Público”. Ao lado da mensagem um desenho com quatro mulheres, sendo que uma delas segura um cartaz com a inscrição “Respeito!”. No canto esquerdo do cartaz lê-se o nome da marcha. - Cartaz fluxograma: Este cartaz contém diversas dúvidas frequentes em relação à “Marcha das Vadias”. Cada pergunta é seguida de uma resposta que leva a uma nova pergunta até chegar a um quadro que diz “venha para a Marcha das Vadias de Curitiba”. - Cartazes foto-mensagem: Estes cartazes contêm a fotografia de uma mulher, o nome da marcha, a data, o local e uma frase. “O comprimento da saia não serve de medida para o respeito”, “nosso grito é por liberdade”, “luto por mim e por você e até por quem nem quer saber”, “se você acha que decote profundo é um convite, suas ideias estão muito rasas”, “meu corpo é minha casa, eu que sou a dona”, “o corpo é seu, a escolha também” e “feminismo é a ideia radical de que mulheres são gente” são algumas das frases encontradas nestes materiais. b) Adesivos: Uma pasta com o nome “Adesivos Marcha das Vadias” continha uma série de trabalhos confeccionados especialmente para impressão e transformados em adesivos para colar na ‘pele’ da cidade. c) Campanha “Sou 100% Marcha das Vadias CWB”: Na sessão de fotos foram postadas imagens de ativistas acompanhadas de frases como “Sua ignorância é muito mais escandalosa que a minha sexualidade”; “mãe, dona de casa e jornalista. Mulher que como todas, quer e merece respeito e igualdade de direitos”; “Sou mãe solteira e quero respeito pela 132


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minha luta”; “Mulheres trans são nossas irmãs”; “Sou professor e minha identidade política e militante é travesti e transexual”. d) Camisetas: A venda de camisetas com o símbolo da “Marcha das Vadias” também foi anunciada na página. Nestas postagens, um mulher ou um homem aparecem vestidos com a camiseta. As imagens eram postadas antecedidas pela mensagem: “Camisetas da “Marcha das Vadias” estão à venda! Preço: R$20,00. Temos a cor branca, preto, roxo, lilás, rosa, amarela, laranja, verde e vermelha! Compre a sua e ajude a Marcha!” 1.3 EVENTO NO FACEBOOK. No dia 16 de Junho, criou-se o evento “Marcha das Vadias Cwb – 2012” no Facebook. O número de convidados de acordo com o contador da página era de 14.0487. 1.4 GRUPO NO FACEBOOK. O Grupo “Marcha das Vadias Curitiba” 8, criado em 2011, na ocasião da primeira marcha, é um espaço virtual destinado às pessoas com vínculos mais fortes à organização da “Marcha das Vadias”. Para fazer parte dele - que funciona na modalidade “fechado” - é necessário aguardar permissão dos administradores. O grupo opera também ao longo do ano e serve como um espaço de troca contínua de informações relativas às pautas da marcha e outras que os ativistas consideram ser de interesse aos quadros do movimento. 2. BlogS Os blogs9 operaram como mecanismos de difusão de informações textuais e imagens (vídeo/fotográficas), direta ou indiretamente relacionadas à Marcha, além de funcionarem como acervo histórico virtual das ações do movimento, cumprindo a função de registrar sua memória. “A existência de um banco de dados e outros modos de organização do acervo e da memória do movimento como o intuito de registrar sua trajetória é também fundamental para fortalecer a mobilização” (HENRIQUES, 2004, p.22).

7  No dia 23 de junho este número subiu para 17.245 e contava com 1.780 aceites. No dia 13 de julho o número de convidados era de 20.741 pessoas e tinha 2.829 confirmações. No dia 14 de julho, dia da Marcha, o número de convidados era de 20.816 e de confirmações de comparecimento de 3.089. 8  O Grupo “Marcha das Vadias Curitiba” possuía 1.828 membros no dia 14 de julho de 2012 9 http://marchadasvadiascwb.blogspot.com.br e http://marchadasvadiascwb.wordpress.com.

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3. YOUTUBE O canal10 “marchadasvadiascwb” no YouTube disponibilizou vídeos de militantes confirmando presença na marcha e vídeos curtos (teasers), com imagens e informações. 4. E-MAIL O e-mail marchadasvadiascwb@gmail.com foi disponibilizado pela organização para contatos, resolução de dúvidas e sugestões. MENSAGENS VIRTUAIS As mensagens articuladas pela organização da “Marcha das Vadias” nos espaços virtuais de informação visaram engajar os simpatizantes da causa em ações de divulgação da Marcha em suas redes de contato e também a participarem de determinadas ações coletivas de organização da Marcha. A seguir, se elencam algumas mensagens veiculadas nos canais do Facebook, que operaram neste sentido. MENSAGENS NO FACEBOOK FAN PAGE: 15 de junho de 2012: “Amad@s! Quem vai ajudar a gente hj...?? Vamos sair colando cartazes... Menos de um mês pra marcha! MAIS AMOR POR FAVOR!” 15 de junho de 2012: “Toda ajuda é muito bem vinda! Fiquem a vontade para produzir material, para divulgar os materiais que temos em redes sociais e etc. O movimento é de todxs!” 19 de junho de 2012: “Já confirmou sua presença no nosso evento? Venha e convide amigxs!”

PÁGINA EVENTO: 21 de junho de 2012: Sexta é dia de nos encontrarmos na boca maldita. Sábado, dia 23/6 às 10h na Rua Ébano Pereira 164 sala 44, tem reunião formal, muita coisa pra deliberar, muitas novidades boas! O movimento tá fluindo... Tá lindo de ver essa irmandade. Somos vadi@s de respeito!

Na mensagem acima se destaca a ideia de “deliberação”. Já na 10 http://www.youtube.com/user/marchadasvadiascwb?feature=watch.

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mensagem abaixo, percebe-se o anseio da organização da Marcha de personalizá-la de acordo com símbolos culturais dos participantes. 21 de junho de 2012: Amad@s! Sugestão... Que tal postar músicas que vocês querem ouvir na marcha? Se apropriem...

Uma hora antes do horário previsto para a concentração no Passeio Público, uma das organizadoras solicitou às pessoas que se libertassem e participassem da marcha. 14 de julho de 2012: Marcha das Vadias 2012: é hoje pessoxl! Desamarre-se, hoje é o dia de ser você mesmx! Vista sua máscara ou a tire! Vá para a rua como quiser! Nos vemos na lutx gente bonitx!

GRUPO: A mensagem abaixo, publicada no “Grupo Marcha das Vadias Curitiba” por uma de suas organizadoras, precedeu um link para a página “Evento” 6 de julho de 2012: Ajudem a gente divulgar! Contagem regressiva!

A mensagem a seguir antecedeu um link para a Fan Page11 “Marcha das Vadias Curitiba”, no Facebook. 6 de julho de 2012: Curtam nossa Fan Page! Olhem só que linda que tá!

No dia anterior à Marcha, as mensagens se direcionaram para a concentração no Passeio Público. 13 de julho de 2012: Concentração amanhã às 10h no Passeio Público! Saída 11h em ponto! Vadi@s pontuais e organizadas!

No mesmo dia, precedido da mensagem abaixo, foi disponibilizado em todos os canais de informação virtuais do movimento um roteiro para impressão com todas as atrações da Marcha. 13 de julho de 2012: Roteiro da Marcha das Vadias de Curitiba para amanhã, 10 horas. Artística, irreverente e colorida, como no ano passado, o roteiro deste ano segue o mesmo fluxo, mas com atrações diferentes. Em ano de eleição, o mote principal são as políticas públicas para a mulher e essa discussão será levantada durante o trajeto, além da especial homenagem às mulheres latino-americanas e às 11  Até este dia, 2.088 haviam “curtido” a Fan Page da “Marcha das Vadias de Curitiba” no Facebook. No dia 13 de julho, um dia anterior à Marcha, este número era de 2.317. No dia 14 de julho, uma hora antes do horário de concentração da Marcha, este número aumentou para 2.393.

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brasileiras, em particular.

GRAMÁTICA DA MOBILIZAÇÃO As mensagens postadas na Internet pelo perfil da “Marcha das Vadias Curitiba” não fazem distinção de gênero e neste sentido, objetivam falar para todos, como esclarece Melucci. [...] os movimentos contemporâneos são profetas do presente. Não têm a força dos aparatos, mas a força da palavra. Anunciam a mudança possível, não para um futuro distante, mas para o presente da nossa vida. Obrigam o poder a tornar-se visível e lhe dão assim forma e rosto. Falam uma língua que parece unicamente deles, mas dizem alguma coisa que os transcende e, deste modo, falam para todos (MELUCCI, 2001, p. 21).

Aspecto marcante da gramática empregada na Internet é a abolição do gênero das palavras. Para obter tal efeito gramatical no lugar do “a” e “do “o”, que designariam se determinada palavra se refere ao gênero feminino ou masculino é utilizado o “X” e o “@”, que suprimem a distinção de gênero. Por exemplo: “amad@s”, “todxs”, convidaxs (“Todxs estão convidadxs para oficina de Visibilidade Trans”), paradx (“Só não vale ficar paradx na pista!”), bem-vindx (“Quem quiser contribuir será bem-vindx”). AÇÕES NO ESPAÇO PÚBLICO Uma série de ações se desenvolveu no espaço público. Supõe-se que com o intuito de dar visibilidade social à Marcha, atrair e integrar novos ativistas, criar vínculos afetivos entre os ativistas e reforçar os já existentes, com foco no cerne da mobilização, isto é: a Marcha em si. Estas ações dialogam indiretamente com o “modelo de iniciativa externa” de Roger Cobb que, de acordo com Esteves (2005), consiste num processo de construção da agenda, centrado no exterior do sistema político, com base no apoio e mobilização da opinião pública. De acordo com o autor, não se exclui a intervenção dos media. No caso da “Marcha das Vadias”, estas ações foram difundidas a partir da Internet, mas, a elaboração da agenda tem sua origem no plano da linguagem cotidiana: na conversação, nos círculos de debate informais e nos contactos nos tópicos subsequentes. O sentido dos media e os limites das suas possibilidades nesta perspectiva, são

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definidos em função de uma imanência comunicacional (e não de uma vida própria dos dispositivos, que supostamente transcende - e anula – os indivíduos): a natureza e os aspectos técnicos das estruturas de comunicação pública são sempre objeto de uma dada apropriação social, e é a este nível que se define o lugar próprio do humano e a possibilidade de uma comunicabilidade da experiência (ESTEVES, 2005, p.38).

- “Ato Vadio”: - Em maio, as ativistas paranaenses organizaram “Ato vadio em apoio à Marcha Nacional das Vadias 2012” Ato em apoio a Marcha Nacional das Vadias 2012! Movimento pelo fim da culpabilização da mulher em casos de agressão sexual. Vamos apoiar o movimento nacional, que irá marchar neste dia 26/05, e lançar a campanha da Marcha das Vadias CWB 2012. Serão feitas panfletagens, colagens e decoração de postes de luz. Vamos invadir o centro da cidade informando as pessoas sobre o propósito do movimento. A nossa marcha, MARCHA DAS VADIAS CWB, vai pra rua dia 14/7 às 11h. Concentração no Passeio Público! Quem quiser contribuir será bem-vindx. Venha com disposição, apoiar a Marcha Nacional das Vadias. Sábado, 26 de Maio de 2012, 18:00.

- “Reuniões formais”: Anunciadas no Facebook, as reuniões formais tinham o objetivo de reunir os ativistas, face-a-face, para a construção coletiva da marcha em si, além de estimulá-los a divulgá-la, tanto na Internet quanto no espaço público. Segundo Henriques, como estratégia de comunicação dirigida, “a interação face-a-face retoma os contextos interativos de co-presença, promovendo uma maior proximidade entre os indivíduos e possibilitando ações mais coesas” (HENRIQUES, 2004, p.19) A mensagem abaixo, convocando os ativistas para uma reunião foi postada no dia 20 de junho de 2012: Amad@s! Que tal uma reunião formal, no sábado dia 23/6 pela manhã ás 10h no ap da Ébano Pereira, no centro. Pauta: Criação dos atos: 1) Pensar no material pra instalação da legalização do aborto (árvores e flores) 2) música para um flash mob na Maria Lata d água, ensaios possíveis. 3) Show na boca. 4) Performance: Trans são nossas irmãs. Divulgação Presencial: Lambs, estêncil, colar cartazes em terminais, postos de saúde. Construir blocos (políticos, artísticos, crianças) e direcionar/ sugerir figurinos. Criação da coordenação: Confecção de cartazes, camisetas e estampas. Ps: Divulguem o evento da marcha!

- “Café Vadio”: Série de encontros na região da Boca Maldita para discussões, articulações e deliberações. - “Chá com bafafá e bolo de fubá – Itaqui”: No dia 17 de junho de 2012, a organização da Marcha promoveu no Bairro Itaqui, em São José dos Pinhais, um evento denominado “Chá com bafafá e bolo de fubá”, no qual as ativistas compartilharam alimentos com a comunidade e dialogaram sobre temáticas políticas, sociais e culturais. 137


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Conforme Henriques (2004), a comunicação adequada à mobilização social é dialógica, libertadora e educativa. Dialógica, na medida em que defende uma causa de interesse mútuo, que deve ser compartilhada entre os sujeitos, comprometidos com um fim comum a todos. Libertadora, por que não deve invadir ou manipular o outro, mas, com o outro, problematizar um conhecimento sobre uma realidade concreta, para melhor compreender esta realidade, explicá-la e transformá-la. E “adotando um caráter educativo, a comunicação deve gerar referências para ação e para a mudança de atitudes e mentalidades nos indivíduos” (HENRIQUES, 2004, p.28). - “Festa da Marcha das Vadias CWB (Matinê dançante)” Deixe a timidez em casa, vista seu modelito mais elaborado e venha celebrar a liberdade com a gente! Vale a breguice, a ironia, o ridículo, a transgressão. Só não vale ficar paradx na pista! Liberte a Vadiagem, crie um personagem, uma fantasia, seja você mesmx! E vambora festar! Se você tem um repertório legal de músicas divertidas e dançantes, bora discotecar com a gente. Traga o seu som e arrase na festa. Domingo, 1 de Julho de 2012 18:00 92 Graus The Underground Pub. Av. Manoel Ribas,108. Curitiba Entrada: R$10,00

- Oficina de Visibilidade Trans. A Marcha das Vadias de Curitiba com o apoio do Transgrupo Marcela Prado promove a Oficina de Visibilidade Trans. Teremos um bate-papo com a Carla Amaral, presidente do Transgrupo, e apresentação do documentário “Geração Trans”. Domingo, 1 de Julho de 2012, 15:00

- Oficina “Orientação jurídica em casos de violência”.

Na semana que antecedeu a Marcha, as ações do movimento se intensificaram na rede virtual e no espaço público. A oficina “Orientação jurídica em casos de violência: desafios do feminismo contemporâneo e a ameaça da violência de gênero e da discriminação” aconteceu no dia 10 de julho com o objetivo de “discutir a lei Maria da Penha e a melhor forma de agir juridicamente”. No dia 13 de julho, um dia antes da Marcha, aconteceu a oficina “Os desafios do feminismo contemporâneo e a ameaça da violência de gênero e da discriminação” com a presença se Sara Winter, fundadora do Femen BR.

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REPERCUSSÕES MIDIÁTICAS NA FASE DE MOBILIZAÇÃO Segundo Henriques (2004), os media adentraram o cenário das reivindicações sociais influenciando na maneira como os movimentos se apresentam. Neste contexto, os movimentos sociais procuram transformar as lutas por reconhecimento em lutas por visibilidade. Fazer-se ver e ouvir encontra-se no centro das turbulências políticas do mundo moderno. A busca pela visibilidade vem em função da necessidade de que as reivindicações e preocupações dos indivíduos tenham um reconhecimento público, servindo de apelo à mobilização dos que não compartilham o mesmo contexto espaço/temporal (HENRIQUES, 2004, p.18)

Durante a fase de mobilização, a “Marcha das Vadias” conseguiu enquadrar algumas de suas pautas em veículos de comunicação, tanto impressos como virtuais, ampliando dessa forma, a visibilidade e a discutibilidade pública de suas propostas. No dia 3 de julho, o site “Bem Paraná” destacou a mobilização virtual articulada pela organização da Marcha e seu propósito político. Virtualmente foram mobilizadas 30 mil pessoas em torno da discussão sobre agressão sexual. Diferente, ousada e artística, a marcha foi considerada um dos eventos mais bonitos da cidade, a reivindicação foi colorida, lúdica e com diversas atrações culturais o que será repetido na marcha deste ano (BEM PARANÁ, 2012).

No mesmo dia, o portal de notícias “Bonde” utilizou o “Cartaz Símbolo” para ilustrar o texto “Vadias voltam a marchar na capital paranaense” em que recuperou informações sobre a marcha em 2011 e trouxe dados sobre o evento de 2012. Já o site “Paraná Extra”, além de informações sobre a marcha em 2011, encerrou o texto “Marcha das Vadias volta a acontecer dia 14, em Curitiba”, divulgando a programação completa do ato nas ruas da cidade. No dia 4 de julho, a Marcha figurou na capa do Jornal do Estado: “Marcha das Vadias acaba confirmada para 14 de julho”. Na página 10 do impresso, o texto “Marcha das vadias será no dia 14” trouxe informações sobre o movimento e dados numéricos sobre a violência contra a mulher, no país e no Estado. No dia 12 de julho, dois dias antes da marcha, a “Gazeta do Povo”, jornal de maior circulação no Estado, publicou no seu site o artigo “Vem aí a Marcha das Vadias. E por que esse nome?”, no qual, além de divulgar o movimento, cedeu espaço para que as militantes explicassem a expressão “vadias”. O site de notícias “Banda B” também colocou em pauta a ques139


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tão do nome ouvindo uma das organizadoras da Marcha que falou ainda sobre a violência contra a mulher no Estado e sobre o trabalho de mobilização. “A mobilização está muito maior. Hoje temos inúmeras pessoas engajadas para a realização da Marcha e isto também pode ser visto nas redes sociais” (BANDA B, 2012). Também foram publicados textos sobre a “Marcha das Vadias de Curitiba” nos sites “Debate Público”, “Band News FM”, “Jornal de Colombo” e “Paraná Online”. REPERCUSSÕES MIDIÁTICAS DA MARCHA Logo após a realização da Marcha, procurou-se identificar a sua repercussão midiática nos meios. Conforme Fernandes (1999, p.1 apud HERNIQUES, 2004, p.18), na contemporaneidade, a grande mídia é um espaço privilegiado para que os movimentos sociais exponham suas causas e ações, pois oferece “visibilidade ampliada das disputas e controvérsias existentes na vida social e se torna central para a divulgação das produções simbólicas que acontecem nos diversos campos sociais”. O jornal “Gazeta do Povo”, com base em estimativas da organização e da Polícia Militar, apontou que a marcha reuniu “cerca de mil pessoas em Curitiba” (GAZETA DO POVO, 2012), dado que mostra que nem todas as pessoas que confirmaram presença na página do “evento” “Marcha das Vadias CWB 2012” no Facebook, efetivamente, marcharam do Passeio Público à Praça Osório. O número de convidados uma hora antes da Marcha era de 20.816 pessoas e o número virtual de confirmações de comparecimento de 3.089 pessoas. Embora a questão numérica seja relevada no texto, outras informações foram apresentadas, inclusive o tema da violência contra a mulher, principal pauta do movimento. Durante o discurso de abertura, Máira chamou atenção à realidade paranaense que é o terceiro estado onde mais morrem mulheres assassinadas, de acordo com o Mapa da Violência 2012, divulgado pelo Instituto Sangari. A incidência é de 6,3 mulheres mortas para cada 100 mil pessoas do sexo feminino, contra 4,4/100 mil no país (IDEM).

A reportagem também trouxe uma galeria de imagens mostrando a movimentação na região do Passeio Público, manifestantes com cartazes de protesto: “respeito é sexy”; “homem, deixe o feminismo te libertar”; “isto não é sobre sexo, é sobre violência”; duas mulheres sem 140


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camiseta, uma mulher discursando, uma mulher com seu filho no colo e uma mulher grávida com a seguinte inscrição na barriga “continuamos esta luta”. No texto “PR: mulheres tiram blusa em Marcha das Vadias” o site BAND informou que “o movimento pede o fim da violência contra mulher e igualdade de gênero” (BAND, 2012) e destacou que “mesmo com o frio, as manifestantes tiraram a blusa e fizeram topless durante a passeata”. Posicionando-se na contramão de uma ampla produção acadêmica que aponta para a espetacularização da comunicação política como um dos efeitos negativos trazido pelo crescimento da centralidade das práticas massivas de comunicação para a esfera pública, Lycarião (2011) entende que “sob determinadas circunstâncias e lógicas de ação, os atores cívicos podem se valer de formas estético-expressivas de comunicação (incluindo aí a espetacularização) para ganhar visibilidade pública” (LYCARIÃO, 2011, p. 258-259) O site G1 abriu a reportagem “Mesmo com frio, mulheres tiram a blusa em Marcha das Vadias no PR”, destacando o fato de diversas manifestantes terem tirado a blusa na manhã “mais fria do ano com mínima 3,9°C” (G1, 2012). Neste texto, percebe-se que houve uma preocupação do repórter em compreender o porquê de algumas mulheres exibirem seus seios ouvindo uma das manifestantes que declarou: “a mulher pelada é utilizada o tempo todo pela mídia. Hoje a gente está tirando a blusa por um motivo muito mais justo que é o feminismo e a igualdade”. A reportagem enfatizou também a mobilização por meio do Facebook, entrevistou uma mulher vítima de violência, ressaltou o ato simbólico realizado na Praça 19 de Dezembro, em que as manifestantes lavaram a estátua da “Mulher Nua”, “passaram batom na boca da estátua, colocaram-na uma coroa de flores e um lenço no pescoço, ao som de “Maria, Maria”, música de Milton Nascimento”. Na ocasião, ainda cedeu espaço para que a coordenação da marcha comentasse sobre a apropriação do termo “vadia”. Nós achamos que a reapropriação do termo ‘vadia’ é essencial para discutir a violência, porque quando o homem bate na mulher, ele faz isso chamando ela de vadia. Quando o homem estupra, ele faz isso porque considera que ela é vadia. Queremos que essa palavra deixe de ser ofensiva e se torne uma palavra de luta (G1, 2012).

Segundo Henriques (2004), a visibilidade alcançada na mídia tende a ser efêmera e não se presta para a geração de vínculos em longo prazo. Por outro lado, o autor considera que “pode ser importante instrumento de apoio para lançar o movimento e propor a sua causa, como também para reforçar as suas ações pontuais, seja por uma cobertura da imprensa, seja pelo seu uso publicitário” (HENRIQUES, 2004, p.48). 141


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Embora as reportagens que noticiaram a Marcha tenham destacado, com certa ironia, o fato das mulheres, apesar do frio, exibirem os seios, todas trouxeram informações sobre a “Marcha das Vadias” em si, e sobre suas reivindicações, além de dados estatísticos relacionados aos altos índices de violência de gênero no Estado. Esse fato mostra que a organização conseguiu acionar nos media um quadro interpretativo capaz de revelar um problema à sociedade, sugerir uma compreensão do movimento e de suas motivações sociais, políticas e estéticas, e sustentar um debate na esfera pública.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este trabalho mostrou que a comunicação foi um recurso essencial no processo de mobilização da “Marcha das Vadias”, com destaque para a comunicação estruturada a partir das ferramentas virtuais da Internet. A sua avaliação neste artigo, permitiu perceber que além de cumprir as funções básicas de gerar e manter vínculos com os simpatizantes, a comunicação cumpriu outras funções, como difusão de informações, promoção de coletivização, registro de memória e fornecimento de elementos de identificação com a causa e com o projeto mobilizador. Apropriando-se de forma criativa de ferramentas disponíveis na Internet, a organização da “Marcha das Vadias de Curitiba” estabeleceu canais emissores de valores normativos e simbólicos, transmitiu vídeos, disponibilizou cartazes e adesivos para impressão, compartilhou notícias, textos, manifestos, arquivos de áudio, promoveu festas, oficinas e debates e criou espaços de registro de suas atividades. Assim, atraiu novos simpatizantes e reforçou vínculos com simpatizantes mais antigos, estimulando-os a sentirem-se corresponsáveis pela marcha e contribuírem ativamente com o processo de mobilização social na Internet e fora dela. Neste sentido, ao alinhar as potencialidades técnicas da Internet a uma comunicação estratégica, a organização atingiu seu objetivo principal: produzir um fato social, “Marcha das Vadias, Curitiba, 2012”, na esfera pública, capaz de mobilizar para suas pautas, a atenção da opinião pública, dos meios de comunicação e da esfera política. É válido ressaltar ainda que a mídia social Facebook, que neste mo-

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mento é uma “febre12“ no país, demonstrou-se logisticamente útil para a organização da Marcha, permitindo-lhe divulgar datas, horários, locais e informações sobre eventos e ações públicas com antecedência, esclarecer dúvidas e comunicar-se tanto internamente com seus membros diretos e simpatizantes quanto com outros movimentos sociais de outras cidades do Estado, como de outros estados da federação e mesmo de outros países. Observou-se também que o contato direto com os diversos segmentos simpatizantes foi um aspecto altamente valorizado pela organização da marcha concretizado através da coordenação de uma série de eventos como chás, festas, debates, oficinas e mostras de documentários. Nestes casos, a Internet funcionou como mecanismo de divulgação de tais eventos que aconteceram no tecido social da metrópole polifônica, o que indica que a ação urbana continua a ser um aspecto importante no contexto dos movimentos sociais. Diversas mensagens emitidas na Internet pela organização da “ Marcha das Vadias”, na fase de mobilização, apontavam para a necessidade de chamar a atenção das pessoas no espaço urbano, no “mundo da vida”, como, por exemplo, o “café vadio” com “sabor político” divulgados “on line” e saboreados na região da Boca Maldita. Ocupamos a Boca Maldita, um espaço político de discussões. A Boca é de todxs, a Boca é um reduto livre. Venha! Aproprie-se do movimento. Venha conosco somar, conhecer as propostas da Marcha das Vadias.13

12  Conforme artigo publicado no jornal “O Estado de S. Paulo”, em outubro de 2012, o Facebook tem “950 milhões de usuários no mundo inteiro” (ESTADÃO, 2012). 13  Frase de um cartaz postado na Fan Page da “Marcha das Vadias” no Facebook.

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REFERÊNCIAS

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Ciclistas, propaganda e eleições 2012: um estudo sobre deliberação e engajamento político na esfera pública online Victor Kraide Corte Real1

RESUMO O presente texto oferece subsídios para o desenvolvimento de um estudo a respeito do impacto nas propagandas políticas dos candidatos à Prefeitura de São Paulo, em 2012, diante das discussões levantadas pelas entidades Ciclocidade e Instituto CicloBR sobre a situação atual da mobilidade urbana na capital paulistana. Para tanto, serão abordados conceitos sobre esfera pública, deliberação e engajamento nas redes sociais online, além da apresentação de um modelo teórico-metodológico de análise das discussões na Internet. Paulo.

PALAVRAS-CHAVE: Propaganda política; Internet; bicicleta; São

1. Doutorando em Ciências da Comunicação da ECA-USP. Docente da PUC-Campinas e da UNIMEP-Piracicaba. Email: realvic@gmail.com.

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ABSTRACT This text provides grants for the development of a study about the impact on political advertisements for candidates for mayor of São Paulo in 2012, before the discussions raised by the authorities and the Institute Ciclocidade CicloBR about the current situation of urban mobility in the city of São Paulo. So it must be addressed concepts of public sphere, deliberation and engagement in online social networks, beyond the presentation of a theoretical-methodological analysis of the discussions on the Internet. KEYWORDS: Politics advertising; Internet; bicycle; São Paulo.

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INTRODUÇÃO

Em maio de 2012, a Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo – Ciclocidade e o Instituto CicloBR de Fomento à Mobilidade Sustentável, lançaram uma consulta pública pela Internet para obter respostas para o seguinte questionamento: “O que o próximo prefeito e os vereadores podem fazer para melhorar as condições dos ciclistas e estimular o uso de bicicletas em São Paulo?” O questionário ficou aberto até o dia 03/06/2012 e foi divulgado em diversos sites, blogs e perfis nas redes sociais relacionados ao universo dos ciclistas paulistanos, entre eles: Ciclocidade.org.br; Vadebike.org; Catracalivre.folha.uol.com.br. Segundo as entidades organizadoras, o projeto tem como finalidade promover eventos e discussões com os candidatos ao Legislativo e ao Executivo, a fim de formular uma carta garantindo o compromisso público dos futuros representantes da população com a mobilidade urbana, em São Paulo. Neste sentido, além do questionário eletrônico, também foi programado um encontro presencial no dia 02/06/2012, aberto a todos os cidadãos, para debater os temas em questão. FIGURA 1 - IMAGENS DE DIVULGAÇÃO DA CAMPANHA.

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Diante do caso mencionado acima, é possível tecer uma análise relacionando os traços de engajamento e deliberação proporcionados a partir da manifestação de um determinado setor da esfera pública (ciclistas 149


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paulistanos), e os possíveis impactos dessa ação na propaganda eleitoral dos candidatos às eleições municipais de São Paulo, em 2012. Para tanto, é necessário recorrer, primeiramente, aos percursos de Jürgen Habermas ao formular o conceito de Esfera Pública, considerando que sua abordagem passou por algumas revisões ao longo do tempo. A perspectiva de Habermas, na primeira fase de suas reflexões, marcada pela publicação de “Mudança estrutural na Esfera Pública” no início da década de 1960, considera a Esfera Pública como “um sistema de alarme dotado de sensores não especializados, porém, sensíveis no âmbito de toda a sociedade”. Assim, a esfera pública tem que reforçar a pressão exercida pelos problemas, ou seja, ela não pode limitar-se a percebê-los e a identificá-los, devendo (...) tematizá-los, problematizá-los e dramatizá-los de modo convincente e eficaz, a ponto de serem assumidos e elaborados pelo complexo parlamentar (HABERMAS, 2003, p. 91).

Segundo Ângela Marques (2008, p. 24) “o conceito de esfera pública aparece ligado à ascensão da burguesia e aos espaços nos quais os integrantes dessa classe se reuniam publicamente para argumentar e expressar razões e juízos acerca de questões e problemas relativos à coletividade”. A partir disso, a autora menciona a abordagem negativa de Habermas diante dos meios de comunicação como não sendo benéficos à constituição e ao fortalecimento de uma Esfera Pública voltada para o esclarecimento recíproco. Marques vai além e aponta a influência de Adorno e Horkheimer ao conduzir Habermas a afirmar que: Os meios de comunicação e, principalmente, a imprensa, seriam os responsáveis pela perda da capacidade crítica do público e pelo conseqüente declínio da esfera pública, uma vez que perderam sua função crítica para atuarem ‘apenas como transmissores de propagandas’ (MARQUES, 2008, p. 24).

O princípio de “publicidade”, nesse contexto apontado por Marques ao citar Habermas, adquire dois sentidos distintos, mas complementares: o primeiro relativo ao “dar a ver”, tornar pública a troca de argumentos entre cidadãos; o segundo confere à publicidade o status de “regulador” do processo de justificação pública, chegando a impor constrangimentos à ação e ao discurso dos interlocutores. Assim, a crítica de Habermas nessa abordagem inicial de Esfera Pública relacionada à mídia, destaca que os meios de comunicação passaram a “fabricar” uma opinião “não pública” cuja origem não é o processo de troca pública de razões, mas o resultado da imposição de vontades particulares (MARQUES, 2008, p. 24). 150


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Em suas obras posteriores (1987, 2006), Habermas revê seu posicionamento a respeito da atuação dos media na Esfera Pública. No entanto, Ângela Marques (2008, p. 24) julga necessário ressaltar que “suas críticas feitas permanecem atuais no que diz respeito ao modo como a produção da informação jornalística é limitada por diversos tipos de constrangimentos externos e internos”. Em suas abordagens mais recentes, Habermas não deixa de reafirmar os aspectos contraditórios dos meios de comunicação, mas também considera que algumas características específicas do sistema dos media são “tidas como essenciais ao fortalecimento e à manutenção das estruturas deliberativas que fazem parte da dinâmica democrática das sociedades contemporâneas” (MARQUES, 2008, p. 25). Na recente ação promovida pelas entidades Ciclocidade e o Instituto CicloBR, tendo em vista a discussão pública da mobilidade urbana na cidade de São Paulo, encontram-se poucos indícios de repercussão na mídia de massa convencional. Contudo, a repercussão junto aos públicos de interesse ocorreu de forma bastante consistente e organizada através da articulação da Esfera Pública na Internet e da promoção de encontros presenciais. Neste sentido, parece válido relacionar os conceitos de Habermas, propostos em “Direito e Democracia” (2003), a respeito dos três tipos de Esfera Pública, com a tipologia de redes de Nieminen, comentada por Peter Dahlgren (2009). A formulação dos autores mencionados pressupõe não ser possível uma reflexão sobre a Esfera Pública desconectada da noção de sociedade civil. Afinal, segundo Habermas, a sociedade civil atualmente, não inclui mais a economia constituída através do direito privado e dirigida através do trabalho, do capital e dos mercados de bens, como ainda acontecia na época de Marx e do marxismo. O seu núcleo institucional é formado por associações livres, não estatais e não econômicas, as quais ancoram as estruturas de comunicação da esfera pública nos componentes sociais do mundo da vida (HABERMAS, 2003, p. 99).

A sociedade civil, para Habermas, é composta por diferentes movimentos e entidades, “(...) os quais captam os ecos dos problemas sociais que ressoam nas esferas privadas, condensam-nos e os transmitem, a seguir, para a esfera pública política” (HABERMAS, 2003, p. 99). O mesmo autor enfatiza que a sociedade civil ocupa uma “posição assimétrica em relação às possibilidades de intervenção” e que “apesar das 151


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limitadas capacidades de elaboração, tem a chance de mobilizar um saber alternativo e de preparar traduções próprias, apoiando-se em avaliações técnicas especializadas” (HABERMAS, 2003, p. 106). O fato de o público ser composto de leigos e de a comunicação pública se dar numa linguagem compreensível a todos não significa necessariamente um obscurecimento das questões essenciais ou das razões que levam a uma decisão. Porém a tecnocracia pode tomar isso como pretexto para enfraquecer a autonomia da esfera pública, uma vez que as iniciativas da sociedade civil não conseguem fornecer um saber especializado suficiente para regular as questões discutidas publicamente, nem traduções adequadas (HABERMAS, 2003, p. 106).

Segundo Habermas (2003, p. 106) a sociedade civil pode, “em certas circunstâncias, ter opiniões públicas próprias, capazes de influenciar o complexo parlamentar (e os tribunais), obrigando o sistema político a modificar o rumo do poder oficial”. Todavia, a chamada sociologia da comunicação de massas não acredita nas alternativas das tradicionais esferas públicas do Ocidente, todas elas altamente dominadas pelo poder e, por conseguinte, pela mídia. Movimentos sociais, iniciativas de sujeitos provados e de foros civis, uniões políticas e outras associações, numa palavra, os agrupamentos da sociedade civil, são sensíveis aos problemas, porém os sinais que emitem e os impulsos que fornecem são, em geral, muito fracos para despertar a curto prazo processos de aprendizagem no sistema político ou para reorientar processos de decisão (HABERMAS, 2003, p. 107).

O filósofo defende a existência de três tipos de Esfera Pública, de acordo com o nível de densidade da comunicação, complexidade organizacional e alcance: 1) Esfera Pública Episódica: representada por encontros e reuniões casuais entre pessoas conhecidas, por exemplo, em bares e cafés. 2) Esfera Pública Organizada: com finalidades e objetivos melhor definidos, formada a partir de encontro de pais, eventos culturais, reuniões de partidos e congressos de igrejas. 3) Esfera Pública Abstrata: produzida pela mídia, contando com a participação de leitores, ouvintes e espectadores singulares e espalhados globalmente. Inseridos nesses vários tipos de esfera pública, existem atores que podem ser identificados como partidos políticos ou como orga-

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nizações econômicas, como representantes de grupos profissionais, de associações protetoras de inquilinos etc., ao passo que outro tipo de atores tem que produzir primeiro as características que os identificam. Isso pode ser constatado claramente em movimentos sociais que atravessam inicialmente uma fase de auto-identificação e de autolegitimação (o que também vale para atores da sociedade civil em geral); mas tarde eles continuam a exercer uma “identity-politics”, paralela às suas políticas pragmáticas – pois, eles têm que certificar-se, a cada passo, de sua identidade (HABERMAS, 2003, p. 109).

Paralelamente, Peter Dahlgren (2009, p. 158) apresenta a morfologia social baseada em redes como uma opção que vem crescendo e sendo utilizada para compreender o mundo moderno. Ele argumenta que as atualizações feitas por Habermas sobre os conceitos de Esfera Pública (1996, 2006), trabalham basicamente com o modelo de redes, apesar de não mencionar diretamente a Internet naquelas análises. Na sequência de pensamento, Dahlgren considera a expressão “Sociedade de Rede”, ao invés de “Sociedade da Informação”, como uma metáfora mais acessível para estudar as tendências de desenvolvimento e a realidade social. Dessa forma, ele recorre e adapta a proposta de tipologia de Nieminen (2007), que divide as redes em quatro possibilidades: 1) Redes associativas: mais informais e essencialmente voluntárias (relações de amizade, hobby, por exemplo). 2) Redes societais: relações de pertencimento a uma categoria (profissional, por exemplo), a partir de certas circunstâncias sociais. 3) Redes afirmativas ou de interesse: tem caráter deliberativo e objetivo de influenciar decisões, apresentam viés político e de engajamento público. 4) Redes impostas: relações de nacionalidade, mais extensas (envolvem os cidadãos, por exemplo) e com atribuições de direitos e obrigações. O autor argumenta que se pode viver praticamente a maior parte do tempo entre essas redes sociais. Além disso, vive-se cada vez mais nessas redes com a ajuda das tecnologias da informação. Aqui, Dahlgren (2009, p. 159) retoma a análise de Capital Social de Putnam (2000), afirmando a importância das redes no sentido de que, quanto mais uma pessoa estiver conectada, melhor poderá exercer sua cidadania. Além disso, ao participar de diferentes redes sociais, as pessoas podem representar pontos de intersecção, por meio dos quais diferentes redes se conectam. Dessa forma ela tende a ser bem aceita ou importante nas redes de que 153


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participa. Como consequência, boa parte desse status deriva da capacidade da pessoa de dialogar com a tecnologia e com a Internet. Potencialmente, a ação política surge provavelmente, em qualquer dessas redes, mas é no terceiro tipo que a agência cívica geralmente se manifesta. Justamente esse tipo de rede social afirmativa, formada por interesse e com caráter deliberativo, poderia servir como contraponto à Esfera Pública formada pela mídia, denominada por Habermas como abstrata e que, segundo os argumentos dele, funciona possivelmente como barreira, já que os jornalistas coletam informações e decidem os temas/ questões que ganham visibilidade. “Esses processos de seleção tornam-se fonte de uma nova espécie de poder, ou poder da mídia, o qual não é controlado suficientemente pelos critérios profissionais” (HABERMAS, 2003, p. 110). De acordo com o pensamento de Habermas, os produtores da informação impõem-se na esfera pública através de seu profissionalismo, qualidade técnica e apresentação pessoal. Ao passo que os atores coletivos, que operam fora do sistema político ou fora das organizações sociais e associações, têm normalmente menos chances de influenciar conteúdos e tomadas de posição dos grandes meios (HABERMAS, 2003, p. 110).

Por fim, o filósofo argumenta que, a personalização das questões objetivas, a mistura entre informação e entretenimento, a elaboração episódica e a fragmentação de contextos formam uma síndrome que promove a despolitização da comunicação pública (HABERMAS, 2003, p. 110).

As questões que aqui permanecem estão relacionadas com a força das redes sociais, especialmente as estabelecidas e/ou fortalecidas pela Internet, com caráter afirmativo, de interesse e de deliberação. Assim, é possível compartilhar as mesmas dúvidas apontadas por Wilson Gomes (2011), ao mencionar diversos outros pesquisadores, em seu artigo “Participação política online: Questões e hipóteses de trabalho”: Teria a Internet estancado a perda de capital social? Teria o emprego de comunicações, via computadores, conseguido produzir novas formas de participação política e de engajamento cívico? No caso específico abordado neste breve texto, a respeito da discussão levantada pelas entidades Ciclocidade e o Instituto CicloBR, visando formular uma carta de compromisso público dos futuros representantes da população com a mobilidade urbana, em São Paulo, levantam-se ape154


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nas as hipóteses sobre os efeitos desse engajamento da Esfera Pública nas campanhas das eleições municipais de 2012, já que até o fechamento deste artigo ainda não foram consolidadas e apresentadas as respostas obtidas durante os questionamentos propostos durante o mês de maio/2012. No entanto, é possível resgatar uma ação anterior, também organizada pelos ativistas do grupo CicloBR, durante as eleições municipais paulistanas de 2008. Naquela ocasião, eles também formataram questões sobre a mobilidade urbana em São Paulo e as levaram até os candidatos do segundo turno à Prefeitura: Marta Suplicy e Gilberto Kassab. A íntegra das entrevistas obtidas por Willian Cruz, em 24/10/2008, está disponível no site Vadebike.org. Reproduzem-se a seguir apenas três questões consideradas mais relevantes para o presente estudo: CICLOBR: A bicicleta sempre esteve associada à Secretaria do Verde e Meio Ambiente (SVMA) e nunca à Secretaria de Transportes. A CET tem três funcionários especialistas em bicicleta e 4.300 especialistas em carro. Devido a essa discrepância, a SVMA não consegue fazer uma ciclovia. Para fazer uma ciclovia ela tem que fazer parceria com o Metrô, Subprefeituras. No seu governo, você pode criar um órgão que cuide apenas da Bicicleta? MARTA: Não sei se posso fazer essa promessa, mas pôr no Transportes tenho certeza que eu posso. É um absurdo ela estar na SVMA, você tem toda a razão. Acho que podemos levar para o transporte e criar um pequeno núcleo, com gente que entende que possa pensar. O que eu acho inadmissível é criar qualquer nova via, sem pensar na ciclovia. KASSAB: Depois de muitos anos, nós temos na cidade de São Paulo, efetivamente uma política voltada para o ciclista. Nós inauguramos recentemente a ciclovia da Radial Leste, com recursos da Prefeitura transferidos para o Metrô, para que ele pudesse fazer com mais facilidade, porque é uma área vizinha ao Metrô em toda a sua extensão. Fizemos a ciclovia de Parelheiros, estamos em conjunto com o Governo do Estado fazendo o projeto da ciclovia das marginais. É evidente que na medida em que a gente avança numa política pública de criar novas ciclovias você precisa ter mais recursos humanos porque vai crescer a necessidade de voltar um pouco da administração pública para o processo de administração das ciclovias. Infelizmente essa é uma constatação da realidade vinda de governos anteriores que está se mudando em nosso governo. CICLOBR: Em algumas cidades fora do Brasil, o sentimento de segurança, em relação ao ciclista, não vem do fato de haver ciclovias, e sim, do respeito por parte dos motoristas em relação aos ciclistas e pedestres. Você se compromete com uma campanha educativa para que o motorista passe a respeitar ciclistas e pedestres, ou mesmo, daqui 4 anos podemos ter a certeza que o motorista vai respeitar a faixa de pedestre, como manda a Lei? MARTA: Eu adorei a sua questão porque eu acredito que isso é muito factível aqui em São Paulo. Primeiro, tem que partir de duas coisas. Educação para o ciclista, isso tem que ser feito. Do motorista para o ciclista, mas mais que tudo, se a gente conseguir fazer fluir o trânsito dentro de uma normalidade, com mais corredores de ônibus, e a partir disso diminuir, com um transporte público melhor, menos carros nas ruas, nos conseguimos ordenar, para o Motoboy, para o Ciclista, para todos. Eu concordo com você, que o ideal seria o motorista do carro, ter a percep-

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ção do respeito que ele tem que ter. Isso é uma questão de fazer projetos educativos. Acho que podemos inclusive criar os pequenos empregos, jovens que podem trabalhar nessa área… KASSAB: Com certeza, é fundamental as campanhas educativas para que o cidadão que não é ciclista saiba respeitar o ciclista. CICLOBR: Você aceitaria ir ao trabalho uma vez por semana, ou por mês, utilizando outro meio de transporte que não seja carro nem helicóptero? MARTA: Eu me comprometo a melhorar o transporte público, eu me comprometo, se eleita prefeita, daqui a quatro anos, você ter uma fluidez muito maior no trânsito. Comprometo-me a ter os corredores de ônibus, 228 km de corredor. Comprometo-me a qualquer rodovia, ou via, ter ciclovia. Isso eu posso me comprometer. O resto, eu andar no transporte público ou não tanto faz, não vejo diferença. KASSAB: Eu não vou falar que posso assumir esse compromisso, mas posso te dizer que tenho feito mais que isso. Tenho rotineiramente usado o transporte público até para avaliar o nível do serviço. Vou com a minha assessoria, saio cedo de casa, ando de Metrô, ando ônibus, entre os terminais, então eu nem precisaria assumir esse compromisso, pois já faço.

A ciclovia da Radial Leste foi totalmente concluída apenas em outubro/2010, enquanto a de Parelheiros, também mencionada por Kassab na entrevista acima, foi desativada em março/2011. Por outro lado, a recente notícia “Primeiras escolas de bicicleta do mundo estão funcionando em São Paulo”, publicada no dia 04/06/2012, no site prefeitura. sp. gov.br, apresenta ainda alguma preocupação do poder público com a relevância das bicicletas como alternativa para a mobilidade urbana na cidade de São Paulo: A partir desta segunda-feira (4/6), bicicletas de bambu, antes inéditas no Brasil, passam a circular pela cidade São Paulo pelas mãos dos alunos da Rede Municipal de Ensino. O programa Escolas de Bicicletas, único de formação de ciclistas urbanos do mundo, criado pela Secretaria Municipal de Educação, acaba de formar a primeira turma de alunos no CEU São Mateus, localizado na Zona Leste. O projeto começou em março. Até dezembro, os 45 Centros Educacionais Unificados (CEUs) da cidade e o Centro de Convivência Educativo e Cultural de Heliópolis terão cerca de 4,6 mil estudantes formados. “Eles são o espelho do programa que atingirá todos os cantos da cidade”, afirma Daniel Guth, coordenado-geral do programa que une educação e sustentabilidade. Cada Escola de Bicicleta terá até o fim de 2012, cem alunos ciclistas, entre 12 e 14 anos, que farão diariamente o trajeto casa-CEU-casa em comboios de 15 a 25 estudantes. Dentro da escola eles têm paraciclos para o estacionamento das bikes e monitores treinados pela Secretaria e pelo Instituto Parada Vital, que ensinam desde noções de equilíbrio até regras de trânsito e manutenção das bicicletas. Ultrapassados os muros da escola, os alunos ganham juntos as ruas do bairro, em ciclo-rotas criadas por uma equipe do CEU, pedaladas e aprovadas por ciclistas experientes.A Secretaria Municipal de Educação investiu R$ 3,1 milhões na implantação do programa. O investimento para manter o programa é de R$ 1,4 milhão por ano.

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FIGURA 2- IMAGENS DE DIVULGAÇÃO

Fonte: www.prefeitura.sp.gov.br.

Considerando as intenções de voto e alianças projetadas para o pleito de 2012 na cidade de São Paulo, encontram-se nos resultados da pesquisa Ibope, divulgada no dia 09/05/2012, o seguinte cenário: GRÁFICO 1 – INTENÇÃO DE VOTO PARA PREFEITO.

Fonte: IBOPE, 09/05/2012.

Segundo a expectativa dos analistas, deverá ocorrer uma polarização da disputa entre José Serra (PSDB) e Fernando Haddad (PT), possibilitando na sequência, o surgimento de uma terceira força representada por Gabriel Chalita (PMDB) ou Celso Russomano (PRB). Esse panorama é bem representado pela ilustração do jornal o “Estadão”, de 08/03/2012: 157


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CHARGE 1- DISPUTA PELA PREFEITURA DE SÃO PAULO.

Fonte: “ESTADÃO”, 08/03/2012.

Diante disso, o presente estudo serve como ponto de partida para analisar o impacto da discussão levantada pelas entidades Ciclocidade e Instituto CicloBR na propaganda política dos candidatos à Prefeitura de São Paulo, em 2012. Para tanto, se tomará como base a estrutura metodológica de análise das discussões na Internet, apresentada por Rafael Sampaio no artigo “Quão deliberativas são discussões na rede? Um modelo de apreensão da deliberação online” (2011, p. 197-230). Um dos pressupostos apresentados por Sampaio (2011, p. 197) na abertura de seu artigo, considera as eleições como efetivamente, a única forma de controle dos cidadãos sobre seus representantes, mas, não são suficientes para legitimar as decisões políticas. Para defender essa posição, o autor cita Fung (2004), Dryzek (2004), Gutmann e Thompson (2007), e Habermas (1997). Outro pressuposto que, na verdade, considera-se como o principal motivador da pesquisa de Sampaio, propõe que “os cidadãos deveriam ter papéis mais efetivos nas escolhas públicas ou, ao menos, mais e melhores meios e oportunidade de enviarem demandas e necessidades aos representantes políticos” (SAMPAIO, 2011, p. 197). A justificativa de Sampaio para o modelo de análise que ele indica no texto, se apoia na abordagem de autores que ele chama de “deliberacionistas”, os quais afirmam que a participação dos cidadãos deve ser qualificada. Explicando melhor, conforme Sampaio (2001, p. 198) essa linha 158


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defende “uma política mais deliberativa, na qual os cidadãos consideram os problemas públicos através de uma racionalização conjunta, que visa à melhor forma de resolver essas questões através do discurso”. Neste ponto, parece pertinente se recorrer ao texto de Guilherme Nobre (2011), “Capital social, comunicação pública e deliberação: a gestação do capital comunicacional público”, no trecho em que ele apresenta uma relevante conceituação sobre a deliberação: Avritzer (2000) apresenta duas ênfases diferentes para a deliberação: em uma delas a deliberação está ligada ao processo argumentativo que se desenvolve na esfera pública de discussão; na outra, abrange o processo de produção de decisões. Ele mesmo chama a atenção para o fato de que ambos os conceitos são faces de uma mesma moeda, já que argumentar (avaliar e discutir) e decidir (resolver e agir) são componentes da definição da palavra “deliberar” (NOBRE, 2011, p. 269).

As questões levantadas pelo trabalho de Sampaio procuram justamente encontrar condições para testar esse “discutir” e “agir”, pertinentes aos atos deliberativos, porém ele direciona o olhar, especificamente, aos espaços de diálogo e participação na Internet. O pesquisador indica que “diversos deliberacionistas passaram a ver a internet como um possível caminho para uma democracia que valorize mais a deliberação entre seus cidadãos”. A linha de pesquisa adotada por Sampaio (2011, p. 199), baseia-se em indicadores de qualificação de deliberações aplicados em debates realizados na Internet, numa perspectiva denominada como “deliberação online” ou “deliberação na rede”. O modelo proposto por Sampaio é representado por tabelas com subdivisões, nas quais são lançadas as constatações obtidas a partir de um determinado espaço online de conversação. Depois de distribuídas em forma de planilhas, as informações são analisadas de maneira crítica, respeitando determinados recortes metodológicos definidos pelo próprio pesquisador, de acordo com o objetivo do estudo. Em alguns casos, Sampaio sugere que sejam feitas surveys complementares, junto aos participantes dos debates, para obter mais informações qualitativas e maior profundidade sobre as manifestações dos participantes. Por serem importantes para a avaliação de deliberação e também de participação, os autores concluem que são necessárias pesquisas de opinião (surveys) ou entrevistas em profundidade com os usuários para apreender tais dados (SAMPAIO, 2011, p. 203).

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A estrutura de estudo de Sampaio toma como autores de referência: Dahlberg (2001, 2002), Janssen e Kies (2005), e Jensen (2003). Reunindo componentes de análise dos autores mencionados, Sampaio divide sua análise em duas partes principais: a primeira, destinada à contextualização do fórum de discussão online em questão, “o objetivo de tal análise é entender os diversos fatores ‘externos’ que podem moldar a deliberação” (SAMPAIO, 2011, p. 203); e a segunda, é voltada ao processo discursivo em si. Quanto à contextualização, Sampaio define três critérios, e os subdivide em itens identificados e preenchidos na análise: 1)Estrutura comunicativa. a. Identificação: participantes são anônimos ou se identificam. b.Abertura e liberdade: qualquer pessoa pode participar, as conversas são “dominadas” por poucos ou todos podem se expressar. c. Agenda da discussão: os temas são livres ou propostos pelos responsáveis pela hospedagem do fórum. d.Moderação: os responsáveis exercem algum tipo de interferência; controlam, organizam ou promovem os debates. e. Espaço público forte ou fraco: os participantes sentem que seu envolvimento é reconhecido ou gera resultados políticos concretos. 2)Cultura política e ideologia. a. Diferenças culturais entre regiões: perfil geral dos participantes. b.Tipo do ator político a hospedar o debate: características relevantes sobre os responsáveis pelo fórum. c. Ideologia dos participantes: preferência expressa abertamente pelo público, em alguns casos, é necessário realizar uma survey para obter a confirmação. d.Tópico de debate: assunto principal em discussão. 3)Design e conteúdo. Design define-se como a descrição a respeito da funcionalidade do site em que o fórum acontece, relacionado com a facilidade de navegação e de uso das ferramentas de participação e deliberação. Quanto ao conteúdo, Sampaio (2011, p. 205) explica que “deve ser claro, conciso e permitir tanto uma leitura rápida quanto uma pesquisa aprofundada sobre o assunto, considerando, assim, os diferentes níveis de informação dos usuários”.

Em relação ao Processo Discursivo, Sampaio define cinco critérios e os subdivide em itens identificados e preenchidos na análise, servindo neste caso, a constatações de ordem quantitativa (critérios de 1 a 3) e qualitativa (critérios 4 e 5). É importante explicar que as anotações sobre os critérios de 1 a 3 devem ser feitas para cada mensagem postada, sendo mais facilmente visualizadas em forma de planilhas com percentuais. Sampaio (2011, p. 205) também argumenta sobre a necessidade de se realizar uma primeira filtragem nas mensagens para análise, para com160


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putar apenas aquelas consideradas “relevantes”, e define as que devem ser desconsideradas, como: As mensagens irrelevantes geralmente não tratam do tópico discutido (off-topic), são propagandas (spam) ou ainda sem demandas. (...) tratam como irrelevantes as mensagens que não tenham perguntas, respostas ao tópico, sugestões ou simplesmente demandas em relação a outros atores ou ao assunto (SAMPAIO, 2011, p. 205).

A principal preocupação do autor citado (2011, p. 206), relacionada às mensagens irrelevantes, é que um alto índice delas pode indicar um baixo comprometimento com a discussão, e consequentemente, sugere um baixo índice de deliberatividade. O mesmo autor também julga pertinente comentar se a mensagem é um questionamento inicial, inaugurando uma nova discussão, ou se é uma resposta a um tópico já aberto. Seguem os critérios do Processo Discursivo: 1)Tematização e crítica racional. a. Dialógica: mensagens com respostas, item também denominado como Reciprocidade. b.Monológica: mensagens sem respostas. c. Justificação externa: usuário cita fontes externas para justificar seu argumento (fatos, dados, notícias, entre outros). d.Justificação interna: utiliza valores e pontos de vista próprios, baseados em histórico pessoal (testemunho). e. Posição: afirma uma posição, mas não apresenta justificativa. 2)Reflexividade. a. Persuasão: sinais de que um usuário se sente persuadido pela argumentação de outro participante. b.Progresso: usuário reflete sobre outra postagem, responde com novos argumentos. c. Radicalização: reação negativa a outra postagem, usuário radicaliza sua opinião anterior e não demonstra possibilidade de rever sua posição inicial. 3)Ideal role taking. Essa expressão se traduz como “tomar o lugar do outro”. Define situações de respeito para escutar e dar atenção às colocações dos outros 161


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participantes. Segundo Sampaio (2011, p. 208), “é praticamente o primeiro pré-requisito de uma deliberação de qualidade”. a. Respeito implícito: não há posições negativas, mas também não há positivas. b.Respeito explícito: quando há pelo menos uma posição positiva explícita. c. Sem respeito – rude: ofensas, ironias, ataques pessoais, etc.. d.Sem respeito – incivil: preconceito ou ataque contra princípios democráticos. e. Continuidade: média de mensagens por dia. 4)Inclusão e igualdade discursiva. Os dados qualitativos identificados no critério acima podem já ter sido obtidos na parte da contextualização, portanto, o fundamental aqui é reunir informações para verificar o grau de inclusão digital dentro da cobertura de participação do fórum online. Devem-se observar os dois itens abaixo. a. Pessoas com acesso à Internet b.Número de postagem por pessoa. 5)Autonomia do Estado e do poder econômico. Refere-se à análise qualitativa da atuação de instituições que mantêm ou financiam o fórum online. CONSIDERAÇÕES FINAIS O modelo de análise de deliberação online proposto por Sampaio, no artigo comentado nestas páginas, oferece bases metodológicas bastante consistentes para pesquisas científicas sobre debates empreendidos na internet. Neste sentido, o presente texto tem a finalidade de oferecer um ponto de partida para o desenvolvimento de uma análise mais aprofundada a respeito da discussão sobre mobilidade urbana promovida pelas entidades Ciclocidade e o Instituto CicloBR, durante o mês de Maio/2012, e os decorrentes efeitos desse engajamento da esfera pública online na campanhas de propaganda política das eleições municipais de 2012, na cidade de São Paulo. 162


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REFERÊNCIAS DAHLGREN, Peter. Media and political engagement: citizens, communication and democracy (cap. 7). New York: Cambridge, 2009. GOMES, Wilson. Participação política online: questões e hipóteses de trabalho. In: MAIA, Rousiley; GOMES, Wilson; MARQUES, Francisco Paulo (orgs.). Internet e participação política no Brasil. Porto Alegre: Sulina, 2011, p. 19-46. HABERMAS, J. O papel da sociedade civil e da Esfera Pública política (cap. VII). In:_______. Direito e democracia: entre facticidade e validade, livro II. Trad. Flávio B. Siebeneichler. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2003. MAIA, Rousiley; GOMES, Wilson; MARQUES, Francisco Paulo (orgs. Internet e participação política no Brasil. Porto Alegre: Sulina, 2011. MARQUES, Ângela C. S. Os meios de comunicação na esfera pública: novas perspectivas para as articulações entre diferentes arenas e atores. Revista Líbero, ano XI, n. 21, junho de 2008. NOBRE, Guilherme Fráguas. Capital social, comunicação pública e deliberação: a gestação do capital comunicacional público. In: MARQUES, Ângela; MATOS, Heloiza (orgs.). Comunicação e política. Capital social, reconhecimento e deliberação pública. São Paulo: Summus, 2011, p. 255-272. SAMPAIO, Rafael Cardoso. Quão deliberativas são discussões na rede? Um modelo de apreensão da deliberação online. In: MAIA, Rousiley; GOMES, Wilson; MARQUES, Francisco Paulo (orgs.). Internet e participação política no Brasil. Porto Alegre: Sulina, 2011, p. 197-230. http://catracalivre.folha.uol.com.br/2012/05/candidatos-a-prefeitura-querem-saber-o-que-voce-acha-do-ciclismo/ http://vadebike.org/2008/10/entre-ista-com-os-candidatos-a-prefeitura-de-sao-paulo/ http://vadebike.org/2012/05/entidades-querem-opiniao-dos-ciclistas-para-eleicoes-2012/ http://www.ciclocidade.org.br/noticias/226-eleicoes-2012-e-a-bicicleta-em-sao-paulo http://www.prefeitura.sp.gov.br/portal/a_cidade/noticias/index.php?p= 163


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Movimento estudantil no ciberespaço: a mobilização política em redes sociais Student movement in cyberspace: a policy mobilization in social media Rose Mara Vidal de Souza 1 Isley Borges da Silva Junior2

RESUMO Este estudo apresenta uma pesquisa sobre o movimento estudantil no ciberespaço por meio da mobilização política em redes sociais. Para o desenvolvimento do tema, se analisam teorias de cibercultura e tribalismo pós-moderno. A pesquisa será norteada pela análise documental, como método e como técnica. PALAVRAS-CHAVE: Movimento estudantil; mobilização política; comunicação; ciberespaço.

1. Doutoranda e Mestre em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo, com MBA em Marketing Político pela Universidade Católica de Brasília. Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Tocantins. Professora da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e da Escola Superior em Administração e Marketing (ESAMC). Contato: rosevidal@yahoo.com.br. 2. Graduando em Jornalismo pela Universidade Federal de Uberlândia. Diretor Executivo de Política do Centro Acadêmico da Comunic. Social/UFU. Membro do Grupo de Pesquisas e Estudos em Análise do Discurso Crítica e Linguística Sistêmico-Funcional (ILEEL-UFU). isleyborges@hotmail.com.

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ABSTRACT This study aims to present research on the student movement in cyberspace through the political mobilization on social networks. To develop the theme will be analyzed theories of cyberculture tribalism and postmodern. The research will be guided by the document analysis as a method and as a technique. KEYWORDS: Student movement; mobilization policy, communication; cyberspace.

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INTRODUÇÃO O Movimento Estudantil (ME) brasileiro figurou durante as décadas de 1960 e 1970 como irradiador dos anseios do pensamento da esquerda intelectualizada. O Brasil vivenciava, na época, a efervescência da política norteada pelo regime da Ditadura Militar 3. A mobilização dos estudantes tinha como base as dezenas de organizações representativas de âmbito universitário como os DCEs, representados por Diretórios Centrais dos Estudantes: os estaduais - as UEEs - Uniões Estaduais dos Estudantes; o nacional representado - a UNE - União Nacional dos Estudantes. (CANCIAN, 2012, p. 01). O ME teve um papel decisivo na história social e política brasileira, afirma Gullar (2004): Essa posição é compartilhada por outros indivíduos, os quais tiveram participação marcante na história não só do ME, mas, sobretudo, na história recente do Brasil. Acho que a gente foi parte de uma mudança muito geral. Não pelo o que fizemos como movimento estudantil, mas como pessoas [...] Nós começamos a amar de forma livre, quebramos preconceitos, quebramos a estrutura familiar, mudamos os horizontes culturais e, além disso, brigamos por um mundo diferente (PALMEIRA, 2005, p 20).

Com a redemocratização, a partir de 1984, o país ganhou novos contornos políticos e o boom da revolução digital, com a popularização da Internet no Brasil, em 1995, deu o tom para o novo modelo de sociedade que se iniciara. Segundo Hall (2004), o sujeito pós-moderno possui um desapego pelas instituições tradicionais (como sindicatos, igreja, entre outros). As palavras de ordem da sociedade atual são: individualismo, fluidez, hedonismo4, consumo e instantaneidade. Esses fatores se espalham em todas as camadas sociais e na juventude, principalmente. Ficou

3  Pode-se definir a Ditadura Militar como o período da política brasileira em que os militares governaram o Brasil. Esta época vai de 1964 a 1985. Caracterizou-se pela falta de democracia, supressão de direitos constitucionais, censura, perseguição política e repressão aos que eram contra o Regime Militar (DITADURA, 2011). 4  Palavra formada a partir do grego, edonê, que significa prazer. O hedonismo é uma doutrina que defende o prazer como meio correto para atingir o objetivo supremo do homem, a saber, a felicidade que tem como essência precisamente, o prazer. A moral, para o hedonista, deve ser ordenada segundo o modelo que é dado pela busca do prazer, quer dizer, é considerado moral tudo aquilo que dê prazer e imoral tudo o que faça sofrer. Esta doutrina resulta da observação de que todos os seres buscam o prazer e tentam escapar do sofrimento (INFOPÉDIA, on line).

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também evidente a não visibilidade dos movimentos estudantis. Segundo Santos (2007), as alterações nas relações humanas na configuração do espaço público solicitam novos requisitos de funcionamento e de comunicação entre os diferentes atores políticos – partidos, Estado e sociedade. Assim, a comunicação constitui-se como uma fonte de poder que se confronta com outros poderes, inclusive o político. O ME busca espaço em outros meios que se identificam de uma maneira eficaz na sociedade pós-moderna, como a divulgação de seus ideais no ciberespaço5. Um desses movimentos é a União da Juventude Socialista – UJS. Neste artigo apresenta-se como é feita essa mobilização na ágora virtual. DA FUNDAÇÃO DA UNE AO HODIERNO Com a chegada da Família Real Portuguesa ao Brasil, em 1808, o primeiro curso superior foi criado no Brasil. De acordo com Martins (2002), naquele ano criaram-se a Escola de Cirurgia e Anatomia, em Salvador, atualmente, Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia; a de Anatomia e Cirurgia, no Rio de Janeiro, hoje, Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro; e a Academia da Guarda Marinha, também no Rio de Janeiro. Ao longo do século XX, contudo, os estudantes cresceram não apenas em número, mas também em importância. A primeira organização estudantil de que se tem notícia é a Federação dos Estudantes Brasileiro, fundada em 1901, que convocou, em 1910, o I Congresso Nacional de Estudantes, realizado em São Paulo. Segundo o portal6 da União Nacional dos Estudantes (UNE), hoje, a principal entidade estudantil brasileira, “a partir da Revolução de 1930, a politização do ambiente nacional levou os estudantes a atuarem firmemente em organizações como a Juventude Comunista e a Juventude Integralista”. 5  Ciberespaço é a denominação dum espaço que existe no mundo de comunicação em que não é necessária a presença física do homem para constituir a comunicação como fonte de relacionamento, dando ênfase ao ato da imaginação, necessária para a criação de uma imagem anônima, que terá comunhão com os demais. É o espaço virtual para a comunicação disposto pelo meio de tecnologia (SANTAELLA, 2004). 6  Acesse o portal da União Nacional dos Estudantes: http://www.une.org.br.

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Sendo assim, no dia 11 de agosto de 1937, na Casa do Estudante do Brasil, no Rio de Janeiro, o então Conselho Nacional dos Estudantes criou a União Nacional dos Estudantes (UNE), para ser a entidade máxima de representação dos estudantes brasileiros. Martins (2002) nota que o período entre 1931 e 1945 – antes, durante e após os tempos de fundação da UNE – caracterizou-se por disputas constantes entre lideranças laicas e católicas pelo controle da educação brasileira. Como as ambições da Igreja Católica eram grandes, criaram, na década seguinte, as suas próprias universidades como é o caso da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, criada em 1946. Mal nascia a UNE e eclodia a II Grande Guerra Mundial. Os estudantes, recém-organizados politicamente, tiveram papel indispensável no tocante à oposição desde o início, ao nazi-fascismo de Hitler e à pressão que deveria ser feita ao governo Getúlio Vargas para uma posição firme durante o grande conflito. Naqueles tempos ocorreu, também, a ocupação do Clube Germânia , que se situava no Aterro do Flamengo, na cidade do Rio de Janeiro, para que se tornasse sede a UNE. Martins (2002, s. p.) oferece uma análise dos anos posteriores ao Estado Novo (1937-1945): O período de 1945 a 1968 assistiu à luta do movimento estudantil e de jovens professores na defesa do ensino público, do modelo de universidade em oposição às escolas isoladas e na reinvidicação da eliminação do setor privado por absorção pública. Estava em pauta a discussão sobre a reforma de todo o sistema de ensino, mas em especial a da universidade. As principais críticas ao modelo universitário eram: a instituição da cátedra, a comparti mentalização devida ao compromisso com as escolas profissionais da reforma de 1931 (que resistiam à adequação e mantinham a autonomia), e o caráter elitista da universidade. O catedrático vitalício, com poderes de nomeação ou demissão de auxiliares, era tido como empecilho à organização de uma carreira universitária e passou a simbolizar a rigidez e o anacronismo. O elitismo se refletia no atendimento de parcela mínima da população, sobretudo dos estratos mais privilegiados. O que se pretendia era a extinção da cátedra, com organização departamental dependente de decisões democráticas.

O tempo passou, não obstante, os estudantes da atualidade continuam defendendo o ensino público, a reforma universitária feita com a qualidade devida, que a universidade se pinte de povo e não seja segregadora ou elitista. Além disso, o período situado entre 1945 e 1964 – grande parte já analisado acima por Martins (2002) – corresponde a um momento especial da história do país e, consequentemente, do ME Brasileiro: o entremeio de duas ditaduras, o Estado Novo e a Ditadura Militar. Para alguns estudiosos da área, como Ianni (1975), o período em questão ca169


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racteriza a “República Populista”. Segundo Araújo (2007, p. 59), o “pacto populista” teria tido origem em Getúlio Vargas e apontava para determinadas características de nossa realidade política: uma república que repousava não no funcionamento regular de instituições políticas, mas no carisma de um líder, que se relacionava diretamente com a sociedade, com as massas populares e com os representantes das classes dominantes.

Outros estudiosos, entre eles, Gomes (1998) observam que o termo “República Populista” é pejorativo e diminui a experiência democrática pela qual o Brasil passou naquela época. Araújo (2007) aponta que as principais tensões do ME e da esquerda política da época se referiam à cultura e à relação entre cultura, povo e projeto político, o que culminou na criação do projeto UNE volante o qual, in nuce, serviu para a divulgação das principais bandeiras da União naquele período. O objetivo era pulverizar a política estudantil – já que a mesma estava concentrada, sobretudo, na região centro-sul do país e para estabelecer um elo mais profundo entre estudantes e ME. O Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE estava em plena efervescência no início dos anos de 1960, produzindo atrações teatrais, musicais e, de um modo geral, culturais, quando o golpe de Estado de 1964, se fez realidade no Brasil. Nesse contexto, José Serra, com 21 anos de idade, ocupava a presidência da UNE e fez emocionante discurso no comício de 13 de março de 1964 na Central do Brasil, no Rio de Janeiro. O golpe anunciado e já dito por Serra em seu discurso amanheceu em desenvolvimento no 1º de abril de 1964: militares golpistas depuseram João Goulart e perseguiram todos aqueles que defendiam o regime democrático. Martins (2002, s. p.) completa dizendo que “o regime militar iniciado em 1964 desmantelou o movimento estudantil e manteve sob vigilância as universidades públicas, encaradas como focos de subversão, ocorrendo em consequência o expurgo de importantes lideranças”. Os tempos obscuros do regime civil-militar no Brasil possibilitaram a tortura e a morte de muitos jovens militantes que compunham a UNE. Para o aprofundamento da temática da UNE da resistência à Ditadura Civil-Militar no Brasil, recomendam-se os trabalhos de Almeida Junior (1981); Coelho (1987); Alves (1993) e Borrego (2000). Contudo, em 1979 sopraram os ventos da redemocratização no Brasil: a Lei da Anistia foi aprovada e inúmeros foragidos e exilados vol170


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taram em festa para o seu país de origem. A UNE iniciou, então, o seu processo de reconstrução. Em 1984, em sua agenda de tarefas voltadas à redemocratização, a organização tornou-se protagonista do movimento pelas eleições diretas, o “Diretas Já” e apoiou Tancredo Neves à presidência da República. Além disso, Aldo Arantes (ex-presidente da UNE) conseguiu aprovar em 1985, no Congresso Nacional, o projeto que traria a UNE de volta às luzes da legalidade. Segundo o portal da UNE, a entidade posicionou-se, em 1989, contrária ao projeto defendido pelo candidato Fernando Collor de Melo à república e teve papel fundamental na mobilização dos jovens “caras-pintadas” que pediram a saída do mesmo após a divulgação de sucessivos escândalos de corrupção. Depois de significativas turbulências da redemocratização no Brasil, a UNE posicionou-se, em 1994, contra a mercantilização da educação – promovida pela gestão de Fernando Henrique Cardoso – e conviveu em um cenário ainda tensionado, mas, mais estável politicamente. Em 2002, os estudantes conduziram o metalúrgico e sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva ao cargo de Presidente da República, pois, a UNE declarou apoio à candidatura de Lula após plebiscito em todas as universidades. Durante o governo petista, a organização apoiou a Reforma Universitária (REUNI) implantada e o Programa Universidade para todos (PROUNI), que garante bolsas em universidades particulares para alunos de baixa renda. Além disso, em 2007 a entidade conquistou a posse do local onde era sua sede antes da Ditadura Militar, o Clube Germânia, incendiado e demolido em dias de golpe, em 1964, no Aterro do Flamengo, na cidade do Rio de Janeiro. Nos dias de hoje, a UNE abriga diversas forças políticas partidárias e estudantes independentes, como indica estudo realizado por Mesquita (2003). A juventude do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), intitulada União da Juventude Socialista (UJS) é direção majoritária da entidade desde 1991, quando elegeu a primeira presidente advinda da UJS, Patrícia de Angelis. Entre os anos de 1970 e 1980, as forças de juventude do Partido dos Trabalhadores (PT) e as forças da juventude do PCdoB construíram a direção majoritária, ora, a primeira ora, a segunda, já que a UJS foi criada em 1984. O movimento estudantil é um espaço educacional alternativo, não formal e, por esta razão, assume os princípios de uma educação libertadora. Segundo Paulo Freire (1986, p. 47), “a educação libertadora deve ser compreendida como um momento, ou um processo ou uma prática onde 171


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estimulamos as pessoas a se mobilizar ou a se organizar para adquirir poder”. Considerando esta afirmação, enfatiza-se que a luta por espaço e voz é constante no movimento estudantil. Para o exercício de uma educação libertadora, Freire aponta a necessidade de um mediador: na escola, o professor, no movimento estudantil, as lideranças, ou, como pontua Dimenstein & Alves (2003), o “aprendiz há mais tempo”. O movimento estudantil é considerado pelos que nele militam como um movimento social, já que reivindica, sobretudo, melhores condições para a educação no Brasil, por que e educação é elemento constitutivo fundamental de uma sociedade. Os estudantes, de nível fundamental e médio, organizam-se nacionalmente: UBES – União Brasileira de Estudantes Secundaristas; estadualmente - UEES – União Estadual dos Estudantes Secundaristas; municipalmente - UMES – União Municipal dos Estudantes Secundaristas; nas instituições de ensino - GE – Grêmio Estudantil; e em suas turmas -Representantes de turma. Já os estudantes do nível superior, organizam-se nacionalmente - UNE – União Nacional dos Estudantes; Executivas e Federações de cursos de graduação; estadualmente - UEE – União Estadual dos Estudantes; nas instituições de ensino - DCE – Diretório Central dos Estudantes; nos cursos das instituições - CA’s e DA’s – Centros e Diretórios Acadêmicos; e em suas turmas-representantes de turma. CIBERESPAÇO E MOBILIZAÇÃO POLÍTICA O ME, assim como vários outros movimentos sociais, utiliza a Internet como forma de divulgação e promoção. No entanto, acontece um fato inusitado, semelhante aos dos sindicatos, que é a não visibilidade na rede. Algo contraditório para o ME, já que na época da Ditadura Militar este movimento ganhou notoriedade às escondidas e sem 1/3 da facilidade de comunicação que se vivencia atualmente, na era da informação. Talvez neste termo “informação” resida o problema. De acordo com Wolton (2006, p. 19), o fim das distâncias físicas revela a incrível extensão das distâncias culturais. Nunca foi tão fácil enviar e receber mensagens, no entanto, não se sabe se a mensagem é entendida por seu receptor. As técnicas são homogêneas, mas o mundo é heterogêneo. Teoricamente, esse cenário faz parte da cibercultura. Segundo Lemos (2002), a cibercultura solta as amarras e se desen172


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volve de forma onipresente, o que faz com que não seja mais o usuário que se desloca até a rede, mas a rede que envolve os usuários e os objetos numa conexão generalizada. Essa grande conexão se amplia cada vez mais. Uma das ferramentas mais importantes no ciberespaço são as redes sociais: Uma rede social é definida como um conjunto de dois elementos: atores (pessoas, instituições ou grupos; os nós da rede) e suas conexões (interações ou laços sociais) (Wasserman e Faust, 1994; Degenne e Force, 1999). Uma rede, assim, é uma metáfora para observar os padrões de conexão de um grupo social, a partir das conexões estabelecidas entre os diversos atores. A abordagem de rede tem, assim, seu foco na estrutura social, onde não é possível isolar os atores sociais e nem suas conexões (RECUERO, 2009, p. 24).

Segundo pesquisa da International Telecommunication Union, existe mais de um bilhão de usuários no mundo que utilizam as redes sociais como forma de divulgação individual e coletiva. É um reflexo também de outro paradigma da sociedade em rede: o tribalismo pós-moderno. Segundo Maffesoli (2006), a sociedade está entrando em um novo paradigma cultural, deixando para trás os traços da chamada Modernidade e adotando um ponto de vista mais emotivo, hedonista, dionisíaco em relação ao mundo. Antes de ser político, econômico ou social, o tribalismo é um fenômeno cultural. Verdadeira revolução espiritual: revolução dos sentimentos que ressalta a alegria da vida primitiva, da vida nativa; revolução que exacerba o arcaísmo no que ele tem de fundamental, estrutural e primordial. O tribalismo está muito afastado dos valores universalistas ou racionalistas, próprios dos detentores dos poderes atuais. O ME está, de certa forma, dentro destas características, pois nele habita o pseudossentimento de pertencimento a uma “tribo”, porém, incapaz de fazer o estudante dedicar-se ao movimento de corpo e alma, como outrora. O tribalismo lembra, empiricamente, a importância do sentimento de pertencimento a um lugar, a um grupo, como fundamento essencial de toda vida social. Nota-se em vários lugares certa desafeição pelas grandes instituições sociais, como os partidos políticos e os sindicatos, entre elas o ME.

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JUVENTUDE ESQUERDISTA “Acreditando nos homens / Foi que viração brotou / Na certeza que um dia / Seja lá que dia for / Exista uma mesa farta / Toda enfeitada de flor”. Este poema fez parte do material de divulgação da campanha pelo Diretório Central dos Estudantes na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), em 1982. O líder da chapa “Viração” era Aldo Rebelo, hoje jornalista e atual Ministro dos Esportes do Brasil. A chapa, homônima ao movimento universitário, queria conquistar a UFAL, já que Aldo estava deixando, naquela época, a presidência da União Nacional dos Estudantes (UNE). O grupo “Viração”, nome dado à juventude do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), criado na década de 1970 – enquanto o partido estava na clandestinidade – foi um movimento nacional que disputava força política no interior da UNE. Com o objetivo de se aproximar de maneira efetiva de toda a juventude brasileira, não somente dos que estavam inseridos na universidade, mas dos estudantes universitários, dos estudantes secundaristas e dos estudantes trabalhadores, foi que se fundou a União da Juventude Socialista (UJS), em 22 de setembro de 1984 – quando o Brasil engatinhava para se tornar uma república democrática. A UJS é, de acordo com a sua atual direção nacional, “uma organização juvenil, política, humanista, patriótica, internacionalista, de defesa e propaganda do socialismo cientifico, onde participam jovens estudantes, trabalhadores, artistas, esportistas, cientistas e intelectuais”. A UJS esteve presente em momentos emblemáticos para o país: no movimento “Fora Collor”, na luta pelo voto aos 16 anos, no movimento “Diga Não à ALCA”, na luta pela reserva de vagas nas universidades e institutos federais para alunos oriundos da escola pública e, mais recentemente, na luta pelos 10% do Produto Interno Bruto Brasileiro (PIB) para a educação. De acordo com a tese7 apresentada em seu 16º Congresso Nacional, ocorrido de 07 a 10 de junho de 2012, na cidade do Rio de Janeiro, a organização tem como seus principais objetivos: 1) defender e conquistar direitos da juventude referentes à liberdade, ao trabalho, à educação, à saúde, ao esporte, ao lazer e à cultura; 2) divulgar para e estudar com a 7  Tenha acesso à tese “Nas redes e nas ruas: lutando pelo Brasil dos nossos sonhos”, na íntegra, através do link: http://goo.gl/PClZL.

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juventude, o socialismo científico; 3) proteger a democracia, a soberania e a independência nacional; 4) defender o meio ambiente e o desenvolvimento sustentável, deixando bem claro que não quer o “capitalismo verde”; 5) promover a luta anti-imperialista, lutar contra a guerra imperialista e pela paz do mundo; 6) estimular e cultivar a solidariedade e 7) combater as opressões de gênero, cor, etnia, orientação sexual e religiosa. Castro (2008) percebeu em seu estudo que os jovens militantes da UJS são bastante empenhados nas atividades da União e que, para eles, a participação em uma organização dessa natureza “garante-lhes uma autorização para agir, permitindo um sentimento de eficácia subjetiva por meio de sua contribuição social e política no presente, reforçando o sentido de pertencimento a um todo maior” (CASTRO, 2008, s. p.). Desde 1991, a UJS dirige majoritariamente a União Nacional dos Estudantes (UNE) e representa, em congressos da UNE, sempre mais que 50% de todos os estudantes presentes. A organização ofereceu à UNE presidentes como Patrícia de Angelis, Lindberg Farias, Fernando Gusmão, Orlando Silva Junior, Ricardo Garcia Cappelli, Wadson Ribeiro, Felipe Maia, Gustavo Lemos Petta, Lúcia Stumpf, Augusto Chagas e, atualmente, Daniel Illiescu. A tese apresentada no último congresso da União discute análises de conjunturas locais, nacionais e internacionais, os desafios que o Brasil enfrenta para melhorar a sua educação e as políticas públicas para a juventude; a Reforma Universitária implantada de 2008 a 2012 (REUNI); o Plano Nacional de Educação 2011-2020 (PNE); o Programa Universidade para Todos (PROUNI); o Programa de Bolsas Internacionais para o Ensino Superior (Ciência sem Fronteiras); as drogas e a criminalização da pobreza, o feminismo, o combate ao racismo e à homofobia; o passe-livre para estudantes secundaristas e universitários; a democratização da comunicação e a luta pela reforma agrária. No contexto atual de crise da democracia formal, as redes eletrônicas cumprem papel político fundamental, oferecendo à sociedade a possibilidade de contestação dos sistemas postos. Os indivíduos praticantes da “política 2.0” estão, constantemente, controlando e esclarecendo informações variadas. Não é por acaso que os meios de comunicação, já há algum tempo, são considerados meios de instituição/manutenção de poder (MOTTA, 2004). Corroborando com essa lógica, Manuel Castells destaca que “o pensamento coletivo (que não é a soma dos pensamentos individuais em interação, mas sim um pensamento que absorve e difunde tudo no con175


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junto da sociedade) elabora-se dentro do campo da comunicação” (CASTELLS, 2003, p. 1). Ao considerar o posicionamento de Castells (2003) a presente investigação avança no sentido de compreender se nos espaços virtuais oferecidos pela UJS, os participantes encontram as condições necessárias para verem e serem vistos e para ouvirem e serem ouvidos – ingredientes fundamentais para a edificação da verdadeira política, a saber: 1) o portal oficial da UJS (http://www.ujs.org.br) e 2) o grupo UJS - Brasil, na rede social Facebook (http://www.facebook.com/groups/ujsbrasil). Investiga-se, secundariamente, por meio de questionários, de que forma os integrantes da UJS utilizam as redes sociais para a pulverização da política defendida pela organização. METODOLOGIA Considerando que o estudo proposto busca informações de natureza documental para identificar, caracterizar e interpretar como é utilizada a mobilização política nas redes sociais do movimento estudantil, adota-se, por força de suas características tipológicas e metodológicas, a pesquisa de análise documental, como método e como técnica. O uso da análise documental pelos estudiosos do campo da Comunicação no Brasil, não apresenta a mesma tradição que se observa nas áreas mencionadas. Em parte, por constituir um recorte mais recente do campo científico, em constante e mutante processo de delimitação, o recurso da análise documental costuma ser utilizado no resgate da história de meios de comunicação, personagens ou períodos. As fontes mais comuns são os acervos de impressos: jornais, revistas, catálogos, almanaques. Mas também, serve como expediente à consulta a documentos oficiais, técnicos ou pessoais: arquivos particulares reunindo originais. Esta última categoria, no entanto, é mais rara e realizada apenas quando o acesso é permitido ao pesquisador (MOREIRA, 2005, p. 269 e 270). Ainda de acordo com Moreira (2005), conforme explica a própria designação, a análise documental compreende a identificação, a verificação e a apreciação de documentos para determinado fim. No caso da pesquisa científica, é, ao mesmo tempo, método e técnica. Método, por que pressupõe o ângulo escolhido como base de uma investigação. Técnica, por que é um recurso que complementa outras formas de obtenção de 176


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dados, como a entrevista e o questionário. Portanto, ao se considerar que o objeto do estudo está inteiramente voltado a um contexto político no tempo presente e, tendo-se em conta também os objetivos almejados, apresenta-se, a seguir, um delineamento inicial com vistas à consecução da pesquisa: • Mapeamento das características da maior organização estudantil brasileira (UJS) – especialmente, se executará durante a 8ª Bienal da UNE, a se realizar em janeiro de 2013, em Recife/PE. • Aplicação de questionário, com os líderes da UJS, sobre a questão identitária e uso das ferramentas em redes sociais – aplicados durante a 8ª Bienal da UNE, a se realizar em janeiro de 2013, em Recife/PE, para ativistas da UJS presentes, de todos os estados do Brasil. • Coleta de dados • Processamento dos dados. • Análise e interpretação dos dados • Elaboração do relatório de pesquisa. Importa ressaltar que esse delineamento poderá sofrer alterações se os interesses de pesquisa assim o exigirem. CONSIDERAÇÕES FINAIS A escolha de “Movimento estudantil no ciberespaço: a mobilização política em redes sociais” como objeto de estudo, se deu a partir da ideia de que a temática está inserida na História do Brasil e estudar o Brasil faz parte da vida. Ao se entender como o ME brasileiro divulga seus ideais no ciberespaço, procura-se compreender as estratégias de comunicação e identidade desse movimento, além de estimular a participação do indivíduo na realidade social. Não é casual o fato de se estudar História desde as séries iniciais. Este estudo permite de certa forma, um resgate da história política estudantil brasileira e o desdobramento dessa história na atualidade. Além disso, possibilita uma reflexão sobre a utilização dos meios de comunicação atuais, com destaque para as redes sociais, no tocante à política das massas individuais, ou política contemporânea. Como decorrência das políticas de exclusão e precarização social e como próprio sintoma da 177


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chegada da pós-modernidade, que tem o seu auge desde o final dos anos de 1980, novos fenômenos são produzidos nas relações sociais. Isso talvez justifique a atual descrença pela política formal e a escassa bibliografia acerca do ME brasileiro Propõe-se, então, uma perspectiva analítica e reflexiva sobre a temática. Acredita-se que esta pesquisa seja relevante para todos os interessados na conexão comunicação-política, pois traça um mapeamento das características e análise de dados de uma grande organização inserida no ME do país, proporcionando uma visão panorâmica de um campo de estudos complexo.

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Comunicar para mobilizar: a campanha Mcdia Feliz no Brasil Communicate to mobilize: the campaign McHappy Day in Brazil Thaís Mocelin1

RESUMO O McDia Feliz é uma campanha mundial promovida pelo Instituto Ronald McDonald, em prol de crianças e adolescentes com câncer. Entre os países participantes, o Brasil tem se destacado a cada ano e registra a maior média de arrecadação. Este trabalho tem por objetivo apresentar este caso do ponto de vista da mobilização social e alguns apontamentos a respeito do sucesso obtido pela ação no país, analisando o papel da comunicação neste processo. Serão trabalhadas noções sobre mobilização, transformação social, atuação em rede e desafios da visibilidade. Para isso, além da pesquisa bibliográfica, serão utilizados números gerais e dados de uma das instituições beneficiadas em Curitiba: o Hospital Erasto Gaertner, através da Rede Feminina de Combate ao Câncer - grupo de voluntários que atuam em diversos setores dentro e fora do Hospital. Os principais marcos teóricos do trabalho são José Bernardo Toro, Nísia Duarte Werneck, Márcio Simeone Henriques e Ilse Scherer-Warren. Tam1. Mestranda em Comunicação (UFPR), sob orientação da prof. Dra. Celsi B. Silvestrin. Integrante do grupo de pesquisa Comunicação e Mobilização Política. Graduada em Comunicação Social – Jornalismo (PUCPR) e Tecnologia em Comunicação Institucional (UTFPR). thais.mocelin@gmail.com

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bém se incluem na discussão depoimentos de voluntários envolvidos na campanha. PALAVRAS-CHAVE: McDia Feliz, mobilização social, comunicação, câncer infanto-juvenil. ABSTRACT The McHappy Day is a global campaign sponsored by the Institute Ronald McDonald, on behalf of children and adolescents with cancer. Among the participating countries, Brazil has excelled every year and records the highest average revenue. This paper aims to present this case from the standpoint of social mobilization and some notes about the success obtained by the action in the country, analyzing the role of communication in this process. Notions will be worked on mobilization, social transformation, and challenges in network performance visibility. For this, besides literature, will be used in addition to overall numbers, data of the beneficiary institutions in Curitiba: Erasto Gaertner Hospital, by the Rede Feminina de Combate ao Câncer (Women’s Network Against Cancer) - group of volunteers who work in various sectors within and outside Hospital. The main theoretical frameworks of labor are José Bernardo Toro, Nísia Duarte Werneck, Márcio Simeone Henriques and Ilse Scherer-Warren. Also included in the discussion testimonials from volunteers involved in the campaign. KEYWORDS: McHappy Day, social mobilization, communication, children’s cancer.

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INTRODUÇÃO Uma vez por ano, acontece o McDia Feliz – a data que registra um grande movimento nas lojas da Rede McDonald’s. Todo o recurso arrecadado neste dia com a venda de sanduíches Big Mac (exceto impostos), além de materiais promocionais e tíquetes antecipados, é revertido para instituições de apoio e combate ao câncer infanto-juvenil. Trata-se de uma campanha mundial que teve início há 35 anos. Os objetivos são: despertar a atenção da sociedade e sensibilizá-la para a causa; captar recursos e concentrar esforços para a realização de projetos prioritários em nível local, regional e nacional e contribuir para o aumento do índice de cura da doença. No Brasil, a ação é coordenada pelo Instituto Ronald McDonald (IRM) e completou 24 edições, em 2012. Neste ano beneficiou 76 projetos de 58 instituições. De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (INCA), assim como em países desenvolvidos, o câncer representa a primeira causa de morte por doença entre crianças e adolescentes de 1 a 19 anos, em todas as regiões brasileiras. No entanto, nas últimas quatro décadas, o progresso no tratamento na infância e na adolescência foi extremamente significativo2. A mudança desse cenário está ligada aos avanços da ciência, com a formação e especialização de profissionais, o desenvolvimento de novos medicamentos e equipamentos mais eficientes, bem como a disseminação de mais informação sobre diagnóstico, tratamento e prevenção. Neste sentido, os resultados obtidos pelo McDia Feliz são representativos para o investimento na modernização e no aumento da capacidade de atendimento de diversas instituições. Este é o evento que mais arrecada recursos em prol de crianças e adolescentes com câncer no Brasil. Desde 1988, a campanha já destinou cerca de 130 milhões de reais a instituições sem fins lucrativos que atuam no combate ao câncer infanto-juvenil. A arrecadação de 2011 foi a maior já atingida no país: 17.323.022 reais (33% a mais que no ano anterior), com a venda de 1,6 milhão de sanduíches Big Mac. Esta marca também é um recorde internacional. Atualmente, 2  Hoje, em torno de 70% das crianças e adolescentes acometidos de câncer podem ser curados, se diagnosticados precocemente e tratados em centros especializados. A maioria deles terá boa qualidade de vida após o tratamento adequado. A estimativa registrada, no Brasil, em 2009, foi de 9.000 casos novos. Já o número de mortes foi 3.021 em 2007. Mais informações: http://www.inca.gov.br

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o McDia Feliz é realizado em 16 países3. Destes, o melhor desempenho é do Brasil. A cada ano, os brasileiros atingem as metas estipuladas pelo Instituto Ronald McDonald e superam os resultados já conquistados. Os números são tão expressivos que aqui o evento é realizado em agosto, enquanto nos outros países acontece em novembro. Qual é o papel da comunicação na obtenção desses resultados? Existe, de fato, comunicação para a mobilização? De que formas as instituições beneficiadas divulgam suas ações e cativam participantes? Estas e outras questões nortearão este artigo, relacionadas principalmente às contribuições teóricas de José Bernardo Toro, Nísia Maria Duarte Werneck e Márcio Simeone Henriques. HISTÓRICO DA CAMPANHA O Sistema McDonald’s incorporou a causa do câncer infanto-juvenil às suas ações há quase 40 anos. Em 1974, foi fundada a primeira Casa Ronald McDonald4, na Filadélfia, nos Estados Unidos. Com o objetivo de ser “uma casa longe de casa”, o programa oferece hospedagem, alimentação, transporte e suporte psicossocial aos pequenos pacientes e suas famílias que estão fora de suas cidades devido ao tratamento. Em 1977 foi criado o McDia Feliz no Canadá. Com o passar dos anos, expandiu-se a outros países e instituições dedicadas a mesma causa se tornaram parceiras da campanha. No Brasil aconteceu pela primeira em 1988, em São Paulo. Em 1989, também no Rio de Janeiro e desde 1990 atingiu nível nacional, envolvendo o restaurante da Rede McDonald’s no país. Papel decisivo nesta história é da família Neves, que, na década de 1990, teve o filho mais jovem, Marcos, diagnosticado com leucemia linfóide aguda. Por não haver expectativa de cura no Brasil, amigos e parentes se mobilizaram para que a criança fosse tratada no exterior. Por três meses, enquanto o filho era atendido no Memorial Hospital de Nova Iorque, pai e mãe ficaram hospedados em uma Casa Ronald McDonald. 3  Argentina, Austrália, Áustria, Brasil, Canadá, Estados Unidos da América, Finlândia, França, Guatemala, Hungria, Inglaterra, Irlanda, Noruega, Nova Zelândia, Suécia e Suíça. 4  Existem 315 Casas Ronald McDonald em mais de 50 países. Mais de 10 milhões de famílias já se hospedaram nessas casas em todo o mundo. Nestas, mais de 30 mil voluntários dedicam mais de um milhão de horas de seu tempo a cada ano.

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Marcos não resistiu, mas a família se engajou para que existissem as mesmas condições de tratamento em território nacional. A iniciativa apresentada ao McDonald’s Brasil reuniu apoiadores e ganhou forma. O dia 8 de abril de 1999 marcou a data de fundação do Instituto Ronald McDonald (IRM)5, que desde então tem Francisco Neves (pai de Marcos), como superintendente. O Instituto tem como missão: “Promover a saúde e a qualidade de vida de crianças e adolescentes com câncer”. Para implantação dos programas em âmbito nacional, trabalha com a articulação de uma rede de instituições parceiras que atuam pela mesma causa nas diversas regiões geográficas brasileiras. O desenvolvimento das ações do IRM conta com o apoio da comunidade científica e de voluntários. Ele é mantido por meio de contribuições regulares de empresas (membros mantenedores) e de pessoas físicas (membros contribuintes), e também através das doações depositadas em cofrinhos (caixas-troco) distribuídos pelos restaurantes da rede McDonald’s. Mas, a contribuição mais significativa é proveniente do McDia Feliz. Somando as edições, mais de 130 milhões de reais já foram destinados a mais de 100 instituições brasileiras, em 20 estados6. Em entrevista ao Portal Responsabilidade Social, publicada em 2006, o superintendente do IRM, Francisco Neves disse: O Instituto Ronald McDonald recebeu um legado do McDonald’s na área social, principalmente através do McDia Feliz, mudando o panorama do câncer infantil no país. Antigamente, uma criança com câncer era vista e tratada como um adulto em miniatura, pois não havia equipamentos apropriados, nem profissionais especializados no tratamento do câncer infantil. Esses movimentos em prol de crianças e adolescentes com câncer estimularam debates e discussões que ajudaram a quebrar o tabu que girava em torno da doença. A abordagem do tema mudou e as pessoas passaram a se envolver mais com a causa, divulgando e ajudando a criar a consciência de que o câncer tem cura e do quanto é importante o diagnóstico precoce.

Segundo os relatórios de atividades disponíveis no site do Institu5  O Instituto foi estruturado nos moldes da Ronald McDonald House Charities, que atua em outros 49 países e atualmente, integra um sistema beneficente global que já viabilizou cerca de 400 milhões de dólares em doações para programas voltados à infância e adolescência. Mais informações: http:// www.instituto-ronald.org.br/ 6  O evento garante o dia de maior movimento em mais de 600 restaurantes McDonald’s, contando com uma mobilização de mais de 30 mil voluntários. Ao longo de 24 anos de realização da campanha, os recursos obtidos com o McDia Feliz contribuíram para o expressivo crescimento do índice de cura da doença no Brasil: de 15%, no final da década de 1980, podendo chegar a 85% atualmente caso diagnosticado nos estágios iniciais. Fonte: http://www.instituto-ronald.org.br/

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to, os recursos têm viabilizado a implantação de unidades de internação, ambulatórios, salas de quimioterapia, casas de apoio e unidades de transplante de medula óssea, entre outros projetos. Todos têm sua execução acompanhada, são auditados e fazem prestação de contas. Em Curitiba, duas instituições são beneficiadas: a Associação Paranaense de Apoio à Criança com Neoplasia (APACN) e o Hospital Erasto Gaertner (HEG). Na sequência, dados deste último serão utilizados para demonstrar o processo da mobilização social e analisá-lo conforme pressupostos teóricos. O Hospital Erasto Gaertner faz parte desta iniciativa há 18 anos, através da Rede Feminina de Combate ao Câncer (RFCC)7. Em 2011, o valor arrecadado foi um recorde (quase 220 mil reais), com a venda de mais de 17 mil tíquetes antecipados e produtos promocionais. A solidariedade e a busca por igualdade de condições estão presentes na Constituição da República Federativa do Brasil e, muitas vezes, servem ao propósito de legitimar as mobilizações. Angela Zanlorenzi, que coordena a campanha da Rede Feminina, acredita que existem diferenças entre o Brasil e outros lugares: O sucesso da campanha no Brasil já serve de exemplo para o resto do mundo, pois gestores estrangeiros do IRM têm vindo aprender com os brasileiros como se faz um McDia Feliz! Muito deste sucesso vem da dedicação e profissionalismo da equipe diretora do IRM que foca exclusivamente durante o ano todo no desenvolvimento e planejamento do McDia Feliz. Também o povo brasileiro tem um perfil mais solidário e não vivencia grandes campanhas como esta com tanta frequência, como acontece em outros países e isso gera maior adesão para os movimentos. A credibilidade e transparência da campanha também colaboram para seu sucesso!8

Este artigo não tem a pretensão de verificar em que medida o que está escrito no documento se aplica na prática, tampouco confirmar a declaração da voluntária ou mapear campanhas desta natureza realizadas nos países participantes. A proposta é analisar se o McDia Feliz cumpre as dimensões básicas para estruturar um projeto de mobilização social e de que forma isso aparece nos materiais de comunicação de uma instituição beneficiada.

7  Fundada em 1954, a Rede Feminina de Combate ao Câncer reúne voluntários que atuam em diversos setores dentro e fora do Hospital Erasto Gaertner. Foi responsável pela arrecadação de fundos para construção do HEG, inaugurado em 1972. Atualmente, conta com aproximadamente 400 pessoas. 8  Entrevista concedida à autora, em julho de 2012.

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COMUNICAÇÃO PARA A MOBILIZAÇÃO Márcio Simeone Henriques (2010, p. 71) afirma que se está diante de uma realidade na qual os mais variados grupos se unem com a intenção de alcançar a potência necessária para interferir na vida coletiva, dão visibilidade às causas, propõe debates sobre temas que os afetam e lutam por seus direitos. Como superintendente do IRM, Fernando Neves assegura: A mobilização é importante, pois chama a atenção para um problema até então desconhecido da maioria das pessoas. Depois que o McDia Feliz foi criado, o espaço destinado à divulgação do câncer infanto-juvenil aumentou expressivamente e trouxe a consciência de que o câncer tem cura. Depois desse movimento, o número de instituições de apoio cresceu, assim como a quantidade de médicos especializados na área e o apoio psicossocial oferecido aos portadores da doença. A mobilização possibilitou, ainda, a criação de casas de apoio, que aumentaram a aderência dos doentes aos tratamentos e fizeram com que muitos hospitais precisassem expandir sua estrutura, para atender à demanda crescente de pacientes.

O que será que ele entende por mobilização? Estaria de acordo com o que teóricos escrevem sobre o tema? A definição elaborada por Henriques e colegas pesquisadores leva em consideração a geração de uma responsabilidade compartilhada, a existência de um problema de interesse público e a produção de acordos e vínculos grupais. Mobilização social é uma reunião de sujeitos que definem objetivos e compartilham sentimentos, conhecimentos e responsabilidades para a transformação de uma dada realidade, movidos por um acordo em relação a determinada causa de interesse público (BRAGA; HENRIQUES, MAFRA apud HENRIQUES, 2010, p. 72).

José Bernardo Toro e Nísia Werneck (1997, p. 11) explicam que a mobilização ocorre quando um grupo de pessoas, uma comunidade, uma sociedade decide e age com um objetivo comum, buscando continuamente os resultados esperados por todos. “Mobilizar é convocar vontades para atuar na busca de um propósito comum, sob uma interpretação e um sentido também compartilhados”. Sendo assim, caracteriza-se como um ato de escolha, pois as pessoas são livres para aceitar ou não o chamado para integrar o movimento. 187


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Para os autores, são dimensões básicas para estruturar um projeto de mobilização: a formulação de um imaginário comum (um propósito, um horizonte atrativo que sintetize os principais objetivos e convoque a emoção das pessoas); os atores que dão início a um processo de mobilização social, campo de atuação (formas de participar, definição de ações que possam ser realizadas no dia a dia pelas diferentes pessoas mobilizadas); coletivização9 de ações e metas e acompanhamento de resultados. No caso analisado neste artigo, pode-se dizer que o imaginário está ligado ao desejo de que todas as crianças e adolescentes com câncer tenham possibilidade de cura. Este ideal geral, ganha forma mais concreta nas metas específicas de cada instituição (etapas de obras, reformas, melhorias de infraestrutura, entre outros). Estimular a participação passa pela demonstração de que sempre existe algo que uma pessoa pode fazer para a obtenção dos objetivos. É necessário, portanto, deixar claro que todos têm motivos e maneiras de participar10. Vale, porém, enfatizar que a mobilização social não se resume à participação. “Compreende um processo amplo e permanente de engajamento dos cidadãos e das instituições no processo político democrático” (HENRIQUES, 2010, p. 71). Neste sentido, pode-se dizer que aqueles doadores que apenas adquirem tíquetes ou compram sanduíches no dia do McDia Feliz têm reconhecida participação na campanha, mas suas ações são pontuais, não se caracterizam como mobilização. Esta é realizada, de fato, pelos voluntários que trabalham em todo o processo e pessoas que colaboram frequentemente, no dia a dia. O autor colombiano aborda, como outro fator que serve de incentivo à adesão, a experiência de quem está mais adiantado no processo de transformação. Toro (1997) defende que, embora a comunicação massiva tenha sua importância, a comunicação pessoal e a troca de experiências têm maiores chances de efetividade. Questionada sobre qual seria a melhor forma de cativar novos participantes, a coordenadora das voluntárias que atuam na Pediatria do Hospital Erasto Gaertner, Rosana Dalberto, 9  “O processo de coletivização acontece quando as percepções e ações se deslocam todo o tempo do individual para o coletivo, quando os problemas são percebidos e tratados como de todos e quando se permite visualizar um entendimento comum desses problemas. (...) No entanto, o processo de coletivização não se completa sem um processo de grupalização – formação de grupos dispostos a defender a causa, iniciar a mobilização, gerar e manter as condições para que o processo coletivo realmente ocorra” (HENRIQUES, 2010, p. 95-96). 10  “A participação, em um processo de mobilização social, é ao mesmo tempo meta e meio. Por isso, não podemos falar da participação apenas como pressuposto, como condição intrínseca e essencial de um processo de mobilização. Ela de fato o é” (A. TORO; WERNECK, 1997, p. 26).

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respondeu: “Uma boa conversa, explanando a importância da campanha, e até mostrando o que a campanha já nos proporcionou. E assim incentivamos as pessoas a fazerem parte desse grande desafio”. O que dá estabilidade a um processo de mobilização social é saber que o que eu faço e decido, em meu campo de atuação quotidiana, está sendo feito e decidido por outros, em seus próprios campos de atuação, com os mesmos propósitos e sentidos (A. TORO; WERNECK, 1997, p. 12).

Toro e Werneck (1997) destacam a importância de haver um objetivo pré-definido e um projeto de futuro, visto que mobilizar, além de ter a ver com paixão, afeto e emoção, é um ato de razão. Pressupõe uma convicção coletiva de relevância, um sentido de público, daquilo que convém a todos. Essa é a dupla dimensão do processo. O depoimento da voluntária Rosana11 ilustra o que os autores defendem: A campanha representa para a Pediatria um tudo, porque assim temos a possibilidade de construir, como foi feito com a UTI Pediátrica, com a quimioterapia ambulatorial, laboratório de análises... E isso nos proporciona a melhora do atendimento as crianças e adolescentes que lá fazem tratamento. Eu me sinto feliz e agradecida a Deus, por ter me dado a oportunidade de arregaçar as mangas e colaborar para que essa maravilhosa campanha seja realizada. Tudo depende de nossas atitudes e somos fortes e unidos o bastante para concretizar nossas metas.

Para que interpretações e sentidos sejam compartilhados, entende-se que a mobilização é, em essência, um ato de comunicação. Por isso, os processos mobilizadores devem ser compreendidos como processos comunicativos. (...) os grupos que se mobilizam têm que se engajar numa prática comunicativa intensa, gerando para si mesmos uma identidade. Essa identidade é importante não só para garantir o vínculo de corresponsabilidade entre o projeto e seus públicos, mas também a causa que defende. Permite gerar um sentimento de pertencimento dentro do próprio grupo e, para fora dele, um reconhecimento do projeto e da causa (HENRIQUES, 2010, p. 73).

O site do INCA destaca o papel da comunicação no combate ao câncer e melhoria da qualidade de vida da população: O câncer é hoje uma das principais preocupações da agenda global de saúde. A 11  Entrevista concedida à autora, em julho de 2012.

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comunicação e a informação têm papel fundamental para diminuir a incidência da doença, ampliando o conhecimento técnico-científico e potencializando ações que visam à promoção da saúde, à prevenção e detecção precoce da doença, e ao atendimento com qualidade ao paciente. A comunicação e informação são recursos estratégicos para a interação e troca de informações entre as instituições, comunidades e indivíduos.

Sendo assim, comunicar é uma forma de legitimar as mobilizações. Para a voluntária Angela Zanlorenzi: É fundamental a comunicação e a divulgação da campanha para que o Brasil em toda a sua extensão saiba dos benefícios que esta ação traz em prol do combate ao câncer infanto-juvenil. Também importante para a pulverização de informações sobre o diagnóstico precoce que salva inúmeras vidas e poupa crianças e adolescentes de tratamentos mais invasivos ou mutilantes.

Os materiais de comunicação utilizados pela Rede Feminina de Combate ao Câncer são produzidos no próprio Hospital Erasto Gaertner, pelo Departamento de Marketing (jornalista e designer). Em 2011, desenvolveram: releases e notícias; faixas e banners; folder com prestação de contas, obras realizadas com os recursos da campanha nas últimas edições e meta daquele ano; folheto “Hoje é dia de comer Big Mac”, que continha a lista das lojas do McDonald’s que beneficiariam o Erasto (metade dos estabelecimentos em Curitiba era da APACN); e-mkt (comunicados enviados por e-mail) para voluntárias, funcionários do Hospital, doadores já cadastrados pelo telemarketing, imprensa, empresas e comunidade em geral; “carta-condomínio” (para que as voluntárias distribuíssem entre os vizinhos); banners eletrônicos para postagem no site e nas mídias sociais; quadros de aviso (comunicados fixados nos 15 murais espalhados pelo Hospital); cartas e e-mails de agradecimento. A impressão foi doada por gráficas parceiras. O conteúdo mais presente se relaciona ao campo de atuação citado por Toro. São as maneiras de colaborar com a campanha: aquisição de tíquetes antecipados do Big Mac12, financiamento ou compra de produtos promocionais (camisetas, bonés, chinelos, chaveiros); participação no dia do evento adquirindo o sanduíche Big Mac; voluntariado e apoio na divulgação. Especificamente para pessoas jurídicas, também há a opção de apadrinhamento de uma das lojas, que consiste no investimento de 12  O tíquete antecipado possui o valor correspondente a um Big Mac e pode ser trocado em qualquer restaurante da Rede McDonald’s na data do evento. É adquirido diretamente com as instituições participantes e a renda é totalmente revertida para elas.

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aproximadamente dois mil reais para que a marca da empresa esteja nas faixas e banners expostos no local no dia do evento. Baseando-se no que Henriques (2010, p.111) descreve como “informação qualificada”, os textos que expõem como participar (inclusive com indicação de contato da instituição) podem ser assim considerados. Ou seja, são informações essencialmente didáticas que possibilitam a ação dos sujeitos no processo mobilizador. Todos os materiais da RFCC seguem um padrão gráfico e de linguagem, estipulado pelo Instituto Ronald McDonald. Além de regras para utilização das logos, as orientações incluem o emprego de imagens que transmitem leveza e esperança, com crianças de aspecto saudável, reprovando a “vitimização”. Mas, para cada público que precisava ser sensibilizado, houve adaptação de texto, conforme as particularidades dos receptores. A ideia é que as peças tenham um caráter convidativo e agradável. Tendo por base o conceito de mobilização como convocação de vontades, é essencial que fique evidente na comunicação esta natureza convocatória. “Participe! Seja um multiplicador desta ação!”: a frase que encerrava os textos longos produzidos no HEG ilustra esta recomendação. Essas e outras diretrizes são apresentadas e reforçadas a cada ano, em encontros que reúnem representantes do Instituto e de todas as instituições brasileiras beneficiadas. O IRM realiza workshop pré e pós-evento, faz análise crítica dos resultados e busca melhorias nos processos e principalmente, na comunicação e divulgação da campanha. Esses eventos acontecem cada vez em uma região diferente. Outra estratégia do Instituto, para aumentar os esforços das instituições relativos à comunicação, é a Gincana McDia Feliz, criada em 2010. Além de cumprir uma meta de venda de tíquetes antecipados, criar produtos promocionais inovadores e garantir que todas as lojas tenham a presença de voluntários no dia do evento. As tarefas incluem: inserções de notícias e anúncios em veículos impressos, online, televisão e rádio; número mínimo de postagens no Twitter e no Facebook; curtição da fanpage do IRM; envio de fotografias e divulgação de visitas de funcionários do McDonald’s às dependências dos projetos beneficiados; apoio de celebridades (McAmigos) ou perfis com mais de 5.000 seguidores nas redes sociais; realização de evento de lançamento local da campanha, entre outras. Ao todo, em 2012, fotam pontuadas 21 atividades. As três instituições com melhor desempenho recebem uma bonificação em dinheiro. 191


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Em 2011, a RFCC ficou com o 15º lugar no ranking nacional. “Muita coisa está sendo profissionalizada para que se atinjam os objetivos. As instituições envolvidas tiveram que desenvolver técnicas, treinamentos, se aperfeiçoar para acompanhar o ritmo da campanha”, afirma Angela Zanlorenzi13. Para não ficar para trás, a RFCC promove fóruns de treinamento para seus voluntários, boletins informativos e diálogo aberto com sua diretoria. “A ideia é que todos falem e compartilhem as mesmas informações e entendam o conceito da campanha”. A ação da Rede Feminina também conta com o trabalho da assessoria de imprensa terceirizada que atende ao Hospital. Ela é responsável pelo envio de releases, negociação de pautas com os veículos de comunicação e monitoramento dos resultados de divulgação. Outra responsabilidade da assessoria são as mídias sociais do HEG (perfil no Twitter e página no Facebook), espaços em que a divulgação do McDia Feliz é intensa e obtém maior número de interações. O trabalho em conjunto de profissionais de comunicação garantiu a qualidade dos materiais e potencializou seus resultados, pois possibilita planejamento e uso estratégico14. Mas esta não é uma tarefa fácil. Como a divulgação da campanha dá visibilidade também a uma empresa privada (McDonald’s), muitas pautas são recusadas ou modificadas, atendo à linha editorial dos veículos. “Nenhuma causa social se forma e se sustenta sem que um grupo que a defenda componha razões que a justifiquem e sem a exposição pública dessas razões”, alerta Henriques (2010, p. 97). Por isso, os grupos mobilizados tendem a aproveitar oportunidades (ou criá-las) para chamar a atenção da imprensa com a finalidade de dar visibilidade às causas (defendendo-as como relevantes,justas e legítimas) e conquistar ampliação, crescendo em volume de participantes e simpatizantes. Como contrapartida aos principais doadores e maneira de manter o bom relacionamento com eles, também divulgam as logomarcas e nomes das empresas que colaboram com a campanha, com contribuição financeira ou fornecimento de materiais necessários à divulgação. 13  Declaração durante o Fórum da Rede Feminina, evento realizado no auditório do Hospital Erasto Gaertner, no dia 22 de junho de 2012. 14  Segundo relatório da assessoria de imprensa (página 1 Comunicação), as divulgações sobre o McDia Feliz 2011 começaram dia 15 de julho, com envio de release para as revistas, e foram até o dia 30 de agosto, com nota pós-evento. Considerando veículos impressos, online e televisão, no total foram 40 inserções no valor estimado de 110.640 reais. Destaque para notícia sobre voluntariado que incluiu o McDia Feliz, veiculada pela ÓTV. Dados de rádio não foram computados. Os meses de trabalho do McDia Feliz apresentam os indicadores mais expressivos do ano, com números superiores ao dobro da média mensal de veiculação.

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DESAFIOS DA VISIBILIDADE Ainda que o processo de mobilização seja planejado e cumpra as condições apresentadas, não há garantia de sucesso. Ele também depende do contexto social, dos atores envolvidos e da reação dos públicos sensibilizados. Henriques (2010, p. 79) lembra que “há uma permanente tensão entre o que se manifesta no plano individual, privado, de cada cidadão ou cada grupo em particular, e uma dimensão coletiva mais ampla, pública, por onde passam interesses divergentes”. Uma notícia do portal do Projeto Repensar é um exemplo de crítica à campanha. O trecho a seguir sintetiza argumentos que costumam ser usados: Mais um ano e mais uma vez a rede de lanchonetes McDonald’s faz o seu já tradicional “Dia de Combater a Imagem Ruim que Causamos”. Como tudo no McDonalds, o McDia Feliz não é nada mais que marketing. E de marketing eles entendem, investem tanto nisso que têm uma das melhores comunicações do mundo, é inegável. E todo esse investimento em publicidade não é à toa, eles são a maior rede de lanchonetes do mundo por conta de seu marketing. Só no Brasil, são vendidos mais de 53 milhões de BicMacs por dia! Os brasileiros consomem cerca de 33 mil lanches destes por minuto. Mais de 18 milhões de calorias a cada 60 segundos (27/08/2011).

“O conceito negativo do fast food sem dúvida é um dos maiores desafios a superar na campanha”, afirma Angela Zanlorenzi. “E em seguida vem o vínculo comercial com a cadeia McDonald’s que limita a participação da grande fatia do mercado concorrente no setor alimentício”. Segundo a equipe de nutricionistas do McDonald’s, o valor calórico de um Big Mac é equivalente a um prato de macarrão à bolonhesa15. A tabela nutricional de todos os produtos está disponível no site do restaurante, mas, essa informação não aparece nos materiais da campanha ou no próprio site do Instituto. Para observar a repercussão negativa gerada, na sequência estão alguns comentários que foram postados no mural do evento criado pelo perfil do Hospital Erasto Gaertner no Facebook, em 201116.

15  Informação apresentada às voluntárias no workshop pré-evento, realizado em 2012. 16  Depoimentos retirados do artigo de Elaine Prada (2011), transcritos conforme os autores postaram.

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É bom contribuir, porque depois de pegar câncer comendo tanto McDonalds na vida, provavelmente você vai precisar do Hospital em bom estado (Andrey Andreata).

O comentário obteve 12 interações e foi seguido de outros com enfoque semelhante. Isso é muito show. Dê um pouco de Colesterol, Pressão Alta e porque não Câncer para uma criança (seu filho ou um outro parente) e ajude uma outra criança que já tem câncer e isso tudo. Amo muito tudo isso. Quer ajudar verdadeiramente faça um deposito diretamente na conta do Erasto Gaertner (Elza Miranda Claudinei Godinho).

Abaixo deste comentário, a internauta postou o link do site do HEG com as opções para doação através de depósito bancário ou boletos. Independentemente da posição contrária à campanha, essa também pode ser considerada uma “informação qualificada”, na medida em que contém uma explícita alternativa para a ação. Durante os treinamentos para o McDia Feliz, as voluntárias são preparadas para apresentar argumentos que defendam a causa frente às críticas (estas, em quase sua totalidade, são direcionadas à Rede McDonald’s e não aos projetos beneficiados). Na Internet, a instituição não respondeu a estes e outros comentários negativos. Mas houve quem se manifestasse para isso: Atenção!!!! Antes de se falar bobagens, explico. Sou voluntário e auxilio com pequenas ações o ERASTO GAERTNER E A REDE FEMININA DE COMBATE AO CÂNCER. O MC DIA FELIZ, É UM ACORDO COM O INSTITUTO RONALD MC DONALDs. E QUEM NÃO APRECIA O LANCHE, PODE COMPRAR OS TICKETs NO VALOR DE R$9,75 E DOAR PARA A REDE FEMININA que CEDE A CRIANÇAS E ATÉ IDOSOS NA COMUNIDADE DO PAROLIN EM CURITIBA, É EMOCIONANTE, POIS TO...DOS SÃO PESSOAS QUE NUNCA EXPERIMENTARAM UM LANCHE DO MC!!!! E OUTRA, QUALQUER PESSOA SABE, QUE QUEM TEM UMA ALIMENTAÇÃO E VIDA SAUDÁVEIS E PRATICA EXERCÍCIOS, DE VEZ EM QUANDO NÃO TEM PROBLEMA INGERIR UM LANCHE MAIS CALÓRICO EM POUCAS OCASIÕES, DESDE QUE SENDO UMA EXCEÇÃO. A REDE FEMININA DE COMBATE AO CANCER EXISTE DESDE A DÉCADA DE 50, E QUEM CONHECE E TEVE CASOS DE PESSOAS COM A DOENÇA NA FAMILIA SABE E CONHECE O TRABALHO DESTAS MARAVILHOSAS SENHORAS (Jogger Kaminski).

Este comentário aborda várias questões discutíveis. Além de responder às críticas ao aspecto calórico, o internauta apresenta uma solução para quem não quer ingerir o sanduíche e fala de história, tradição, e busca a identificação de quem conhece a instituição e o trabalho reali194


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zado por ela. É um exemplo de interação que contém tanto argumentos racionais quanto emocionais. Idealizada pela coordenadora da campanha na Rede Feminina, a opção de comprar tíquetes e doá-los novamente à Rede Feminina para a ação na Vila Parolin17 é um argumento utilizado também para não excluir o público vegetariano. Outro argumento presente nos materiais de comunicação do Hospital e muito usado pelas voluntárias tem relação com a abrangência dos resultados. Toda a verba obtida é, obrigatoriamente, destinada à Pediatria. No entanto, para justificar tantos esforços destinados a uma ala que representa a menor porcentagem de atendimentos, explica-se que este investimento deixa de ser um custo para a instituição e, portanto, mesmo que indiretamente, as outras áreas também são beneficiadas. TRABALHO EM REDE Mais uma maneira de superar as dificuldades é conhecer o trabalho realizado por outros grupos mobilizados, assim como não restringir a participação à proximidade geográfica. As facilidades dos meios de comunicação promoveram transformações na circulação de conteúdo simbólico, nas relações sociais e na organização do tempo e do espaço. Essa mudança de cenário trouxe como conseqüência “uma atenção dos sujeitos cada vez menos exclusiva aos assuntos locais, expandida para problemas e causas sociais nos mais variados graus de abrangência, até mesmo em nível global” (PAIVA apud HENRIQUES, 2005, p.3). As redes de movimentos sociais possibilitam, nesse contexto, a transposição de fronteiras territoriais, articulando as ações locais às regionais, nacionais e transnacionais; fronteiras temporais, lutando pela indivisibilidade de direitos humanos, representados por diversas gerações históricas destes e de suas respectivas plataformas; fronteiras sociais, em seu sentido amplo, compreendendo o pluralismo de concepções de mundo dentro de determinados limites éticos, o respeito às diferenças e a radicalização da democracia através do aprofundamento da autonomia relativa da sociedade civil organizada. Esta é a nova utopia do ativismo: mudanças com engajamento com as causas sociais dos excluídos e discriminados e com defesa da democracia na diversidade (SCHERER-WARREN, 2012, p. 15-16). 17  Em 2011, 1540 lanches foram distribuídos para crianças e adolescentes da Vila Parolin. Esta ação paralela no dia do evento conta com voluntários externos e esforços de logística para que todos os lanches sejam entregues no horário do almoço.

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A pesquisadora Ilse Scherer-Warren acredita que a sociedade civil organizada do novo milênio tende a ser uma sociedade de redes interorganizacionais e de redes de movimentos. Ainda de formação de parcerias entre as esferas públicas, privadas e estatais, para criar novos espaços de governança com o crescimento da participação cidadã. Vale lembrar que a atenção dos cidadãos é disputada pelos movimentos e projetos mobilizadores. Frequentemente, eles competem entre si e sobrevivem como iniciativas isoladas. Mas, muitas vezes, procuram articular-se com outros ligados a mesma causa ou temas conexos. Esta configuração pressupõe a existência de cooperação entre os agentes, com um intenso intercâmbio de informações e experiências. Dessa forma, “estes movimentos não se restringem ao ativismo, mas, por meio de sua própria ação, configuram ‘redes de aprendizagem’” (HENRIQUES, 2005, p. 9). Assim, se constituem verdadeiras redes de colaboração e solidariedade. CONSIDERAÇÕES FINAIS Apesar de ser a área responsável pelo menor número de atendimentos, a Pediatria é a ala mais moderna do Hospital Erasto Gaertner. Além de disponibilizar uma equipe altamente qualificada e especializada (médicos e profissionais multiprofissionais18), a infraestrutura é adequada para fornecer o melhor tratamento possível e o ambiente é acolhedor. Este cenário certamente não seria possível apenas com a verba repassada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) ou ainda pelos recursos provenientes de atendimentos através de convênios ou particulares19. Por ser uma organização filantrópica, o Hospital não teria condições de arcar com todas as despesas. Sendo assim, o Instituto Ronald McDonald, por meio do McDia Feliz, assume um papel de protagonista na construção da realidade da instituição. Essa importância está, inclusive, “estampada” nas placas indicativas com a logomarca da campanha20, em cada obra realizada. O McDia Feliz envolve uma marca conhecida e bem sucedida mercadologicamente no país. É mais fácil trabalhar com a ideia do “valor social” da participação quando a pessoa que faz a doação (adquirindo 18  Enfermeiros, fisioterapeutas, farmacêuticos, nutricionistas, psicólogos e assistentes sociais. 19  Mais de 90% dos atendimentos realizados no Hospital Erasto Gaertner são pelo SUS. 20  Esta é mais uma das exigências para auditoria do Instituto Ronald McDonald.

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tíquetes ou produtos, por exemplo) recebe algo em troca. Mas, além disso e da divulgação massiva nacional promovida pelo Instituto nas vésperas do evento, acredita-se em outros fatores facilitadores no projeto de mobilização da RFCC. Quando as voluntárias abraçaram a campanha, elas já constituíam um grupo organizado e atuante em outras ações, o que facilitou a coletivização e a grupalização. A profissionalização dos materiais de comunicação aumenta seu alcance, mas as voluntárias continuam investindo no “boca a boca” e no relacionamento com os doadores. Também, o próprio o estatuto do voluntariado (relembrado nos treinamentos) diz que todos devem participar das campanhas. Embora nem todas as voluntárias se envolvam com a ação da mesma forma (ou, em alguns casos, tenham envolvimento nenhum), a Rede Feminina de Combate ao Câncer é, de fato, um grupo mobilizado. Sua atuação atende aos pressupostos teóricos enumerados pelos autores que fundamentaram este trabalho e não se restringe à época em que acontece o McDia Feliz. Podem-se perceber elementos de coesão e continuidade, assim como a existência de argumentos tanto racionais como emocionais. A comunicação que parte da Instituição, assim como do Instituto, também é mobilizadora. Os materiais não foram analisados em profundidade do ponto de vista técnico, pois o foco era mais amplo: seu papel transformador, representando a capacidade dos indivíduos de se posicionarem, promover mudanças nas realidades que os cercam e defender a causa na esfera pública. É evidente na Instituição, além da vontade, a necessidade de superação a cada ano. Crê-se que isso também se deve à concorrência da APACN e ao receio de que o Hospital Pequeno Príncipe (dedicado ao atendimento infantil) ocupe o lugar de instituição beneficiada, caso o HEG não cumpra as metas. Outros aspectos da campanha ainda poderiam ser explorados e ficam de sugestão para próximos trabalhos: questões culturais e a solidariedade no Brasil, concepção contemporânea de democracia e cidadania, enquadramento na categoria de “novos movimentos sociais” de Melucci e Castells, construção de vínculos, caracterização da comunicação pública e relação com o poder público e cidadãos.

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Comunicar para mobilizar: A campanha Mcdia Feliz no Brasil

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A mobilização social no contexto político e eleitoral  

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