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SUMÁRIO APRESENTAÇÃO

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CAPÍTULO I: A Propaganda Ideológica e o Engajamento Cívico A imprensa partidária como dispositivo simbólico de representação política.............. 9 Nelson Toledo Ferreira (UFF)

O Chavismo e a representação social do governo de Hugo Chávez................................ 24 Mariana Rezende dos Passos (USP)

O voto como agente de exercício democrático no poder executivo municipal: uma análise das eleições municipais de 2012 ................................................................................ 34 Margarete Salles Iwanikow (UMESP), Rafael Iwanikow e Roberto Gondo Macedo (UPM)

Comunicação política, mobilização e engajamento: o caso Reaja Piracicaba ................ 48 Daniela Rocha (ISCA) e Victor Kraide Real (PUC-Campinas)

Comunicação no Terceiro Setor: Relações das organizações sociais com as esferas de poder e a mídia .......................................................................................................................... 62 Carlos Augusto Gonçalves Camilotto (UFJF)

Estratégias de Competitividade Política: Comunicação, Cultura e Tecnologia na Visão do Eleitor no Papel de Consumidor ....................................................................................... 77 Paulo Cezar Rosa (UMESP), Débora Burini (UFSCAR) e Hellen Claudia Donato (Universidade São Caetano do Sul)

CAPÍTULO II: A utilização das redes na (des)construção de imagem Campanhas Eleitorais Online: desafios na produção de presença de candidatos na Ágora Digital ............................................................................................................................. 90 Pedro Sangirardi (UERJ)

Um estudo sobre os processos de construção da agenda do Portal Uol durante os protestos de junho 2013 ...................................................................................................... 103 Marcelo Alves dos Santos Júnior (UFSJ)

Estratégias argumentativas no Facebook do movimentomexicano #YoSoy1321...... 116 Gabriel Alexandre Bozza (UFPR) e Luciana Panke (UFPR)

Nuevos Formatos de la Política y la Internet: la plataforma interactiva Votena Web ............................................................................................................................. 131 Sylvia Iasulaitis (UFSCAR-UFG) e Carmen Pineda Nebot (Universidad Complutense de Madrid)


CAPÍTULO III: Os meios convencionais e suas utilidades A Juventude nas ruas e nas telas: o papel político atribuído aos jovens na cobertura dos protestos pelo Jornal Hoje ........................................................................................... 158 Bárbara Garrido de Paiva Schlaucher (UFJF) e Iluska Coutinho (UFJF)

A construção imagética da cobertura jornalística do câncer de Dilma Rousseff, a partir dos enquadramentos do Jornal Nacional ....................................................................... 175 Allan Gouvêa (UFJF)

Os professores sob a perspectiva do noticiário político do jornal Tribuna de Minas .. 188 Monique Ferreira Campos (UFJF)

A Construção da figura de Lula nos Jingles eleitorais de 1989 a 2006 ........................... 203 Vinicius Borges Gomes (UFSJ) e Luiz Ademir de Oliveira (UFSJ)

Comunicação Política, Hospitalidade Doméstica e Contextos de Recepção nas Casas de Marina.................................................................................................................................. 215 Maria Claudia Setti de Gouvêa Franco (UMESP)


APRESENTAÇÃO Daniela Rocha Em 2013, o XII Congresso Brasileiro de Comunicação e Marketing Político, promovido pela Sociedade Brasileira de Pesquisadores e Profissionais de Comunicação e Marketing Político (POLITICOM) e a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), elucidou a correlação entre a Comunicação, as Eleições e a Redemocratização Brasileira, ponderando os estímulos às manifestações sociais, promovidas em junho daquele ano em várias capitais do país, através de discussões sobre o papel dos partidos políticos e as vozes nas ruas e avenidas brasileiras. O cenário histórico da política brasileira após a redemocratização do país também foi alvo de apontamentos feitos por pesquisadores e estudantes universitários, contribuindo com o aprofundamento de entendimento sobre os motivos e as inquietações que permeiam as mobilizações sociais nos tempos atuais. O encontro anual, realizado entre os dias 17 e 18 de outubro na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), resultou em memoráveis pesquisas no campo da comunicação política e eleitoral, sendo que parte destas compõe a presente publicação que enaltece desde o uso da propaganda ideológica e a formação do engajamento cívico até a utilização da sociedade de rede na construção e desconstrução de imagem pública. No primeiro capítulo, o pesquisador Nelson Toledo Ferreira analisa o uso da imprensa partidária na construção da representação política, debruçado pelos enquadramentos noticiosos das legendas e o desnudamento das estratégias para construir os sentidos de pertencimento, de identificação partidária, de autorização e de vocalização de demandas sociais. A pesquisadora Mariana Rezende dos Passos estuda a representação política de Hugo Chávez e a mistificação do chavismo no imaginário social venezuelano, consolidado por discursos políticos disseminados aos eleitores menos favorecidos do país. Ainda no primeiro capítulo, os pesquisadores Margarete Salles Iwanikow, Rafael Iwanikow e Roberto Gondo Macedo estudam o exercício democrático e cívico do voto e Mestre em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo. Especialista em Gestão da Comunicação Jornalística pela Universidade Metodista de Piracicaba. Coordenadora dos cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda do Instituto Superior de Ciências Aplicadas. Diretora Editorial da Sociedade Brasileira dos Profissionais e Pesquisadores de Comunicação e Marketing Político (POLITICOM) e consultora de imagem pública.

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os percentuais de alternância de poder partidário no pleito de 2012 nas capitais brasileiras, desnudando o principal exercício de cidadania e a demonstração da vontade popular nos processos eleitorais. Os pesquisadores Daniela Rocha e Victor Kraide Real analisam a mobilização social e o engajamento cívico no caso Reaja Piracicaba, movimento promovido por civis do município de Piracicaba (SP) que se indignaram com o reajuste salarial de 66% concedido aos legisladores da cidade. Carlos Augusto Gonçalves Camilotto pesquisa os avanços na comunicação no Terceiro Setor, elucidando o cenário de atuação e as relações estabelecidas entre as organizações sociais e as esferas de poder, através da cobertura jornalística empreendida pelo jornal Tribuna de Minas em relação ao Instituto Cidade. Os pesquisadores Paulo Cezar Rosa, Débora Burini e Hellen Claudia Donato debruçam-se em Castells e Canclini para discutir a forma pela qual o eleitor/consumidor atua diante do ambiente político e traça um paralelo entre o candidato político na sociedade e a busca da sobrevivência na visão do eleitor. No segundo capítulo, o pesquisador Pedro Sangirardi enaltece os desafios vivenciados pelos candidatos nas eleições de 2014 com a propagação de mensagens eleitorais na sociedade de rede, elucidando a relação de riscos e incertezas no meio, por conta da desestabilização promovida na comunicação política eleitoral. O pesquisador Marcelo Alves estuda os processos de construção da agenda do Portal Uol durante os prot estos de junho de 2013, enum erando o grande núm ero de enquadramentos que privilegiam os enfoques em violência, transtornos e ações m ilitares e a disputa pela agenda m idiática dos atores sociais e institucionais. Os pesquisadores Gabriel Alexandre Bozza e Luciana Panke debruçam-se em Perelman e Olbrechts-Tyteca para apontar as estratégias argumentativas no Facebook do movimento mexicano #YoSoy1321, a fim de verificar se o movimento teve continuidade após o processo eleitoral presidencial no México. As pesquisadoras Sylvia Iasulaitis e Carmen Pineda Nebot analisam os recursos de utilização cívica do eleitorado brasileiro, obtido por meio da nova plataforma interativa brasileira: VotenaWeb. O estudo é balizado pela interação dos internautas e a Mestre em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo. Especialista em Gestão da Comunicação Jornalística pela Universidade Metodista de Piracicaba. Coordenadora dos cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda do Instituto Superior de Ciências Aplicadas. Diretora Editorial da Sociedade Brasileira dos Profissionais e Pesquisadores de Comunicação e Marketing Político (POLITICOM) e consultora de imagem pública.

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disponibilidade de informações públicas em três fóruns de debate sobre projetos de lei em tramitação. No terceiro capítulo, as pesquisadoras Bárbara Garrido de Paiva Schlaucher e Iluska Coutinho debatem o papel político atribuído aos jovens na cobertura dos protestos de junho de 2013 pelo Jornal Hoje, destacando as entrevistas veiculadas pelo telejornal e a expressão da disputa por visibilidade pública. O pesquisador Allan Gouvêa discute a visibilidade política obtida através dos veículos de comunicação, estudando a construção de imagem pública de Dilma Rousseff pelo Jornal Nacional, na ocasião em que a então candidata tratava um câncer às vésperas do pleito eleitoral de 2010. A pesquisadora Monique Ferreira Campos avalia como os educadores foram representados nos meses de abril e maio de 2013 pela editoria de política do jornal impresso juiz-forano Tribuna de Minas, elucidando o uso da educação em agendas políticas. Os pesquisadores Vinicius Borges Gomes e Luiz Ademir de Oliveira estudam a construção de imagem pública de Luís Inácio Lula da Silva, através das ideias e das linguagens propagadas nos jingles eleitorais do então candidato, de 1989 a 2006. E finalizando a publicação, a pesquisadora Maria Claudia Setti de Gouvêa Franco analisa a construção de imagem pública da então candidata Marina Silva, através da cobertura jornalística dos jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo, além de entrevistas com a própria candidata, com gestores da campanha e com 11 líderes das unidades “Casas de Marina”. A presente publicação é resultado da compilação de artigos científicos apresentados no XII Congresso Brasileiro de Comunicação e Marketing Político, promovido pela Sociedade Brasileira de Pesquisadores e Profissionais de Comunicação e Marketing Político (POLITICOM) e a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). O evento anual reúne pesquisadores da Comunicação, Política e Ciências Sociais, que visam desnudar os diferentes entraves e recortes que permeiam os respectivos campos de pesquisa. Esperamos que apreciem os estudos! Boa leitura! Mestre em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo. Especialista em Gestão da Comunicação Jornalística pela Universidade Metodista de Piracicaba. Coordenadora dos cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda do Instituto Superior de Ciências Aplicadas. Diretora Editorial da Sociedade Brasileira dos Profissionais e Pesquisadores de Comunicação e Marketing Político (POLITICOM) e consultora de imagem pública.

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CAPÍTULO I

A propaganda ideológica e o engajamento cívico

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A imprensa partidária como dispositivo simbólico de representação política

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Nelson Toledo Ferreira2 Universidade Federal Fluminense

Resumo: A proposta deste artigo é refletir sobre a construção simbólica da representação política dos partidos junto à sociedade por meio de suas próprias produções noticiosas. Nesta perspectiva, apresentamos as transformações da imprensa partidária no cenário político contemporâneo, apontando interfaces com a circulação da informação política, os embates discursivos travados nas modernas arenas midiáticas e as formas não eleitorais de representação política. Como argumento, a noção de que a representação política não se esgota no processo eleitoral, mas se complexifica com as novas tecnologias de comunicação, permitindo-nos inferências de que os enquadramentos noticiosos, produzidos pelas legendas, são estratégias para construir, de forma constante, sentidos de pertencimento, de identificação partidária, de autorização e de vocalização de demandas, em uma sociedade midiatizada, com clivagens sociais cada vez mais plurais. Palavras-chave: Imprensa partidária; representação política; enquadramentos; jornalismo político Introdução Com a constante midiatização dos processos sociais e políticos, o jornalismo assume, a cada dia, o papel de protagonista da esfera pública. As pessoas percebem a sua realidade através dos enquadramentos midiáticos, repercutindo, até mesmo, na construção desta própria realidade. Os embates discursivos nos meios de comunicação travam uma disputa simbólica entre variados partidos políticos, governos, facções, tendências, associações, movimentos populares, líderes de opinião, empresariado e os mais diversos segmentos que apostam em suas próprias produções jornalísticas para que possam legitimar ações, posicionamentos políticos e interesses particulares. Com isso, uma multiplicidade de leituras de fatos e acontecimentos traz à cena política versões da realidade, buscando influenciar a sociedade. Cada qual, criando uma versão que mais lhe seja interessante politicamente.

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Trabalho apresentado ao GT 3 – Jornalismo Político e Eleitoral do XII Congresso Brasileiro de Comunicação Política e Marketing Eleitoral – Juiz de Fora (MG)

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Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense (UFF), Niterói/RJ, bolsista Capes, email: neotolledo@hotmail.com

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Nesta perspectiva, vivemos uma reconfiguração do fazer política, impactando principalmente os tradicionais pilares da representação política. O voto digitado nas urnas, a 3

autorização e o accountabily ficam em segundo plano e novas abordagens sobre o tema ganham a cena principal, complexificando a relação entre representantes e representados. Vivemos um momento em que associações da sociedade civil passam a incorporar o papel de mediação entre as inúmeras clivagens sociais e o Estado, através de dispositivos bem peculiares, apostando na visibilidade midiática para promoção de novos discursos de enfrentamento. Com isso, os partidos políticos começam a apostar em estratégias para que consigam se adaptar a este novo cenário, buscando a legitimação do seu lugar como protagonista das democracias de massas representativas, e não meros coadjuvantes. Com efeito, investem cada vez mais em seus próprios canais de comunicação, o que vem resultando um avivamento da imprensa partidária, nos últimos anos, potencializada pelas novas tecnologias de comunicação, em plataformas multimídias. Em nenhuma outra época, os partidos tiveram que investir tanto na gestão da informação política para buscar o enfrentamento neste concorrido mercado eleitoral, tanto em relação a outras legendas com projetos, ideologias e siglas tão similares, quanto às novas formas não eleitorais de representação política. O desafio maior para os partidos políticos no Brasil, como em outras partes do mundo, se dá pelo crescente descrédito dos cidadãos em relação às formas tradicionais de se fazer política, focadas no processo eleitoral, pelos constantes escândalos de corrupção que depreciam ainda mais o papel dos líderes e partidos políticos na atualidade. Neste imbróglio, os indivíduos direcionam suas perspectivas de mudanças e suas aspirações sociais e políticas a grupos organizados da sociedade civil para vocalizar suas demandas e representá-los nos seus direitos, independente de formas legais de representação como o voto, a proporcionalidade e a territorialidade. Tal fenômeno já vem sendo estudado por autores como Iris Young (2002), Nadia Urbinati (2006), Fabrino (2011), dentre outros. É neste desenho político que se confirma, nos dias atuais, o poder das estratégias comunicacionais para reforçar discursos, garantir visibilidade, forçar agendamentos temáticos, moldar comportamentos, construir imagens e opinião pública favoráveis. Os partidos políticos são pressionados a se apropriarem da gramática dos media e dos recursos tecnológicos para 3

O termo não tem uma definição exata na língua portuguesa, mas refere-se à palavra inglesa Account, que significa orçar, calcular, avaliar. No contexto político, accountability tem o sentido de responsividade, prestação de contas.

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garantirem esta porosidade comunicativa junto à sociedade, caso contrário, correm o risco de serem descartados do jogo político, uma vez que quaisquer tipos de relacionamentos entre os variados agentes sociais e a esfera política passam necessariamente pelos meios de comunicação. O fato é que nos dias atuais, as lógicas do jornalismo com a da política se misturam, na medida em que os dois campos se auto-sustentam e têm na visibilidade e nos discursos suas principais estratégias de reconhecimento. Diversas pesquisas, tanto no Brasil como em outros países, vêm revelando o peso que determinados enquadramentos e frames midiáticos têm na influência e orientação política dos cidadãos e na promoção de candidatos e partidos políticos (ALDÉ, 2011; MIGUEL E BIROLI, 2010; GOMES, 2011; POPKIN, 1994; CHADWICK, 2006, etc). Em conformidade com esta proposição, a objetividade jornalística é desmistificada em sua inocência ética, pois se tornam cada vez mais explícitas as relações partidárias do jornalismo contemporâneo – no sentido de tomar partido de determinada ideologia a favor de diferentes grupos de interesse. Na política contemporânea se tornam comuns e rotineiros embates discursivos entre os meios de comunicação massivos comerciais e os institucionais, nas múltiplas arenas discursivas proporcionadas pelas novas tecnologias, confirmando que nenhuma narrativa jornalística é isenta de interesses de quaisquer grupos que sejam. Atualmente, o que é registrado pelos meios é o que passa a existir na realidade. Como se o que não tivesse a visibilidade nos media não existisse e não tivesse importância. Nisso decorre que as representações midiáticas criam um ambiente em que se definem o pensamento, julgamento e ação dos indivíduos na sociedade. Esta proposição é cada vez mais apropriada por associações, organizações não governamentais, partidos, líderes políticos, dentre outros, na geração e gestão da informação política com o intuito de criar mecanismos de identificação com segmentos sociais, cada vez mais heterogêneos. Neste contexto de múltiplas arenas midiáticas e infinitos enunciados políticos, a imprensa partidária reaparece de forma estratégica. Os antigos jornais e boletins de partidos, antes distribuídos nas portas de fábricas e nas ruas, foram para a Internet com áudios, vídeos, hipertextos, arquivos e uma série de outros recursos possíveis do meio virtual. Mas não só as mutações tecnológicas afetaram a imprensa partidária. As macro transformações na sociedade, das últimas décadas, se refletem também no conteúdo e formato deste tipo peculiar de jornalismo, exigindo novas reflexões.

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Nesta perspectiva, a imprensa partidária passa a ter um papel fundamental para a construção simbólica de sentidos, uma vez que são responsáveis por emitir leituras diferenciadas da realidade, mesmo que apontem de forma explícita seus interesses de grupo, suas ideologias e suas bandeiras de luta. E nestas estratégicas construções simbólicas, as legendas conseguem se reposicionar no sistema político, tecendo laços de pertença com seus segmentos alvos, visando o êxito eleitoral ou desencadeando pressões políticas para efetivar suas bandeiras de lutas. Para discutir tais interfaces teóricas sobre a imprensa partidária como dispositivo de representação política, apontamos as mutações no formato e conteúdo deste tipo de jornalismo, abordando a sua importância no contexto político atual. Tais fundamentações direcionam o debate para as transformações no conceito de representação política, que exigem novos posicionamentos discursivos dos partidos, reforçando nosso argumento sobre a urgência de se pensar a imprensa partidária como uma engrenagem essencial nestas disputas simbólicas, entre as legendas e associações da sociedade civil, travadas no espaço midiático. 1. Dos precários boletins impressos à multimídia partidária Um marco teórico sobre a imprensa partidária é a concepção leninista. Em 1900, a primeira publicação marxista clandestina na Rússia se chamava Iskra, fundada por Lenin, com sede em Munique, Alemanha, na qual ele escrevia diversos artigos com o objetivo de permitir leituras diferenciadas sobre a política que surpreenderam muitas pessoas na época, o que pode ser considerado uma referência sobre as imprensas operárias e partidárias. Para Len in, sem o jornal, “não seria possível realizar de maneira sistemática um trabalho de propaganda e agitação múltipla, baseado em princípios sólidos, que em geral constitui a tarefa principal e permanente da socialdemocracia” (...) (LENIN, 2004, p.100). De acordo com o autor, somente uma imprensa periódica, com freqüência e regularidade da publicação (e difusão) poderia exercer influência sobre o povo e sobre o governo. Ele defendia um jornal único para todo o país que permitisse aglutinar todos os movimentos sociais em um só movimento. Panebianco (2005) ressalta também em suas análises organizacionais dos partidos políticos europeus, a importância de jornais de algumas legendas, como o Partido Socialdemocrata Alemão (SDP), considerado um dos primeiros partidos de massa da Europa, que em 1878 contava com 47 jornais, entre nacionais e locais, mensais e semanais, “(...) uma poderosíssima rede de comunicações” (PANEBIANCO, 2010, p.133). Outro exemplo é o d

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Partido Trabalhista Britânico, um caso emblemático de um partido operário, que mantinha, em meados de 1895, um jornal chamado Labour Leader (PANEBIANCO, 2010, p.168). Observa-se que os jornais partidários, desde o século XIX, sempre tiveram um papel fundamental nesta construção de laços de pertencimentos e de identidade das legendas junto aos seus públicos alvos. No Brasil, Maria Nazareth Ferreira (1988), uma das pioneiras nos estudos sobre imprensa operária já enfatizava a dificuldade de desvincular os jornais produzidos pelos operários e os de partido de operários, na medida em que ambos tinham objetivos idênticos: um instrumento de informação, conscientização e mobilização. Os estudos de Ferreira (1988) revelam que este tipo de imprensa também se mescla com publicações oriundas com aparecimento dos partidos de massa, originados da luta operária, como o Partido Comunista Brasileiro (PCB). Ferreira (1988) explica que a partir da existência do PCB, os principais jornais operários estavam ligados aos partidos, transformando em um instrumental de propaganda e de conscientização. Um dos primeiros jornais partidários, da chamada esquerda, foi o “ A Classe Operária”, em 1925, que circulava com uma tiragem de cinco mil exemplares. Data desta época também as revistas Movimento Comunista e Revista Proletária, mas que não vingaram no mercado editorial por muito tempo. De acordo com Ferreira (1988) em meados de 1932, o jornal aparece como um importante instrumento de emancipação do trabalhador, ao lado dos partidos políticos. Diversos títulos podem ser citados: A Voz do Operário, em 1931(Curitiba), ligado ao PCB; O Povo, em 1930 (Porto Alegre), fundado pelo Partido Operário Nacional; Meu Jornal, em 1933 (Curitiba), vinculado ao Partido Socialista Brasileiro. Com o processo de democratização do Brasil no final da década de 70, os partidos políticos voltam com força total na reconstrução do país, dividido em inúmeras tendências na tentativa de uma organização de esquerda. Surgem inúmeros títulos: O Trabalho, ligado à Libelu, Organização Socialista Internacionalista (1970); Causa Operária, uma dissidência da Libelu (1970); Em Tempo, da Organização Marxista Democrática Socialista e do Partido dos Trabalhadores (1978); O Jornal dos Trabalhadores, do Partido dos Trabalhadores (1983); dentre outros. Nas últimas décadas, os partidos foram aprimorando suas estratégias comunicacionais para se adequar à nova ambiência eleitoral, mais competitiva e voltada à maximização eleitoral. Uma das transformações que mais afetou o cenário político foi a evolução dos meios de

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comunicação de massa com as novas tecnologias - digital e móvel - e o seu impacto no processo de midiatização na sociedade, que obrigou os partidos políticos se apropriarem destes novos formatos discursivos. Diversos estudos sobre a midiatização na política vêm sendo alvo de análises teóricas e empíricas (GOMES, 2008, ALBURQUERQUE, 2011; ALDÉ, 2010; MIGUEL, 2010; SEMENTKO, 2008), no entanto, deixam lacunas sobre o papel da imprensa partidária e seus enquadramentos jornalísticos neste processo de midiatização, permitindo que as legendas também produzam e potencializem suas próprias notícias, vídeos, áudios e construam leituras diferenciadas da realidade para sobreviver aos embates nestas múltiplas arenas discursivas midiáticas, que marcam a contemporaneidade. A maioria dos partidos possui além dos tradicionais publicações impressas, sites, newsletters, revistas eletrônicas, spots, jingles e uma série de produtos de comunicação. Na esteira sobre os estudos referentes à imprensa partidária, algumas análises dos partidos na web, nos últimos anos, já começam a impulsionar novas reflexões sobre as vantagens e as desvantagens do novo meio para a circulação da informação política; a igualdade de oportunidade para partidos pequenos e grandes; o potencial da internet nas relações intrapartidárias; as novas estratégias das legendas na competitividade eleitoral e outras questões (ALBUQUERQUE E MARTINS, 2001; MARGOLIS et al 1997; NORRIS, 2000; VACCARI, 2008). Fato é que o espaço online abre um leque de oportunidades multimidiáticas, que se bem aproveitadas pela imprensa partidária, podem ser utilizadas de forma estratégica para alavancar a promoção dos partidos e suas plataformas políticos eleitorais. 2. O deslocamento discursivo da imprensa partidária Esta trajetória histórica da imprensa partidária revela alterações não só no formato, mas também no conteúdo da mesma em relação aos discursos e objetivos. Se o que caracterizava este tipo de imprensa, desde sua origem, era o seu discurso de apologia à conscientização, à mobilização e à participação popular no enfrentamento à hegemonia política das elites dominantes, nos dias atuais, apela-se mais para as estratégias noticiosas e discursivas com o intuito de se criar laços de identificação e pertencimento dos cidadãos eleitores com os partidos, visando à maximização eleitoral

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Estatísticas revelam que gastos de candidatos e partidos políticos com campanhas eleitorais saltaram de R$ 798 milhões nas eleições presidenciais de 2002 para R$ 4,6 bilhões em 4

2012, as últimas eleições municipais , o que representa um crescimento de 471%. Estes dados refletem um contexto político diferente com os partidos buscando se adequar à competitividade eleitoral e amenizar a rejeição e o descrédito dos cidadãos com a política ao invés de incitá-los para a mobilização e participação, como foi característico em muitas legendas que tinham como principais bandeiras de luta a ideologia pela transformação da sociedade e não tanto a disputa por cargos eletivos, para participação na máquina do Estado. Nisso, decorrem fenômenos como a crise de representação política e o descrédito em relação aos partidos e instituições políticos, agravados pelos constantes escândalos de corrupção, no Brasil e em outras partes do mundo. Um exemplo recente deste descrédito com a política foram os protestos no Brasil, em julho deste ano, quando a população saiu às ruas e fez questão de reafirmar sua luta apartidária, inclusive vaiando militantes e queimando bandeiras de partidos. É fato que existe uma crise de identificação dos cidadãos com os partidos políticos. No Brasil, uma pesquisa realizada pelo IBOPE, em janeiro deste ano, aponta que 56% dos entrevistados afirmaram não ter nenhuma 5

preferência partidária . Diante deste cenário, os partidos tentam uma reconciliação política junto aos seus eleitores através de suas respectivas imprensas. As legendas não ficam reféns da mídia comercial massiva, mas atuam com suas próprias imprensas para pautar a agenda pública e construir simbolicamente uma imagem e um discurso que gerem identificação nos eleitores, favorecendo-os nos períodos eleitorais. As legendas começam a entender que os gastos milionários em campanhas podem surtir efeitos, mas que um trabalho constante e monitorado de comunicação junto à sociedade, ao longo prazo, é fundamental para garantir êxitos eleitorais e legitimidade na representação política. Mas estas mudanças no conteúdo da imprensa partidária não se esgotam nesta preocupação dos partidos com este desgaste junto sociedade, é uma questão muito mais complexa, pois refletem ainda inúmeros fatores decorrentes de uma série de transformações na sociedade, na virada do século, que se estende até os dias atuais, como o surgimento de novas 4

Dados disponíveis em http://www.conjur.com.br/2013-jun-17/gastos-campanhas-eleitorais-cresceram-471-dez-anos Dados disponíveis em http://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2013-01-20/brasileiros-que-se-dizem-apartidarios-jasao- maioria.html

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clivagens sociais, demandando cada vez mais questões específicas e heterogêneas; as mutações do mundo do trabalho, criando também uma variedade de identidades profissionais; a desconstrução da base eleitoral homogênea, que marcou a classe trabalhadora no século passado e inúmeros outros. Todas estas mudanças acabam se tornando responsáveis por este novo desenho político contemporâneo. Afinal, os partidos políticos precisam se reposicionar perante estes novos desafios. 3. O complexo conceito de representação política Pitkin (1967) apontava que para compreender como o conceito de representação entrou no cenário político é necessário contextualizar com o desenvolvimento histórico das instituições, a interpretação sobre o papel das mesmas na sociedade e o próprio desenvolvimento etimológico da palavra. Percebe-se que a complexidade do termo é enfatizada pela autora desde o final da década de 60, mas sempre com o vínculo com as transformações das sociedades. O livro de Hanna Pitkin, The Concept of Representation, publicado em 1967, nos Estados Unidos, é considerado um marco teórico nestes debates, revelando uma visão inovadora da representação política como uma atividade social, fugindo da noção ortodoxa até então empregada para designar a representação. Desde a obra Leviathan, de Hobbes, em 1651, quando foi aplicado a primeira ideia de representação na teoria política, no sentido da agência legal, autorização de alguém para agir por outro, o termo foi sofrendo atualizações na teoria política, passando pelas revoluções democráticas do final do século XVIII e pelas mutações políticas institucionais do século XX. (...) o sufrágio, a divisão em distritos e proporcionalidade, os partidos políticos e os interesses e políticas, a relação entre as funções legislativas e executivas. Estas lutas políticas precipitaram um corpo considerável da literatura, sistematizada de tempos em tempos, enriquecida e redirecionada pela teoria política. Desse material colossal, apenas duas questões conceituais inter-relacionadas podem ser discutidas até aqui: a “polêmica sobre o mandato e a independência” e a relação entre a representação e democracia. (PITIKIN, 2006, p.67)

A autora categorizou a representação política em representação formalista, descritiva, simbólica e substantiva. A primeira enfatiza a noção de representação sob duas dimensões: por autorização prévia e por responsividade, ideias estas defendidas inicialmente por Hobbes e pelo modelo liberal, respectivamente. Já a segunda, dá ênfase à relação entre representantes e representados, como se o primeiro espelhasse por meio das semelhanças o segundo. No terceiro

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caso, leva em conta o significado que o representante tem para aqueles que estão sendo representados. E, finalmente, a representação substantiva refere-se à substância do que é feito, ou seja, são as atividades dos representantes, as ações realizadas em nome e no interesse dos representados, é que são avaliadas. Em todos os casos, observa-se que a representação política ultrapassa o cenário eleitoral para a legitimação do exercício do poder por determinados grupos. Nesta perspectiva, a concepção de representação política já trazia consigo uma exigência de legitimação construída através de processos de identificação entre os representados com seus representantes, o que exigia medidas eficazes para que ocorressem estes sentimentos de pertencimento dos cidadãos a determinados grupos e não a outros, com demandas comuns, discursos comuns, percepções comuns. Nesta configuração, a opinião pública começa a potencializar sua importância nestes debates, inclusive, favorecida pelas tecnologias de comunicação. Em meados de 90, Bernard Manin traz contribuições importantes para o tema da representação, fazendo uma análise da evolução das democracias representativas, buscando um denominador comum entre elas ao longo de suas histórias no que se refere à eleição dos representantes pelos governados, à independência parcial dos representantes, à liberdade de opinião pública e às decisões políticas tomadas após os debates. Sua principal crít ica recai sobre o processo de seleção dos governantes pelas eleições, o que ele considera um arranjo aristocrático das elites. Manin (1995) traz com sua teoria o debate sobre polêmica de que os meios de comunicação estariam substituindo os partidos políticos na mediação entre representantes e representados, reforçando a importância da liberdade da opinião pública neste processo. Com o autor, é reforçada a chamada democracia da audiência, na qual os líderes políticos tinham um apelo maior do que as ideologias dos seus respectivos partidos. (...) Em primeiro lugar, os canais de comunicação política afetam a natureza da relação de representação: os candidatos comunicam diretamente com seus eleitores através do rádio e da televisão, dispensando a mediação de uma rede partidária. A era dos ativistas, burocratas de partido ou “chefes políticos” já acabou. Por outro lado, a televisão realça e confere uma intensidade especial à personalidade dos candidatos. (...) o que estamos assistindo hoje em dia não é a um abandono dos princípios do governo representativo, mas a uma mudança do tipo de elite selecionada: uma nova elite está tomando o lugar dos ativistas e líderes de partido. A democracia de público é o reinado do “comunicador”. O segundo fator determinante da situação atual são as novas condições em que os eleitos exercem o poder. Reagindo a estas mudanças, os candidatos e partidos são ênfase à individualidade dos políticos em detrimento das plataformas políticas. (MANIN, 1995, p.22-23)

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Com as transformações profundas na sociedade, com algumas características deste novo período, o qual alguns teóricos denominavam pós-modernidade, capitalismo tardio ou sociedade pós-industrial, a ênfase recai sobre uma intensa fragmentação dos segmentos sociais e suas novas bandeiras de lutas, que se impõem no cenário político, embaralhando ainda mais a concepção de representação política. As bases que sustentaram os partidos políticos e suas representatividades começam a perder espaço nesta luta simbólica, deixando de ser tão homogêneas e com demandas comuns. Com isso, os partidos políticos enfraquecem nos seus posicionamentos ideológicos, uma vez que tinham como suporte principal as classes sociais para definições de suas representações políticas, repercutindo nos modelos de sistema político que defendiam, cenário que se confirma até os dias atuais. Trata-se de um fenômeno mundial, inclusive na Europa com a forte tradição dos partidos políticos. Chadwick (2006) lembra que um dos principais argumentos para esta crise partidária é que as sociedades pós-industriais já não contam com classes sociais e grupos homogêneos que deram origem aos partidos nos séculos XIX e XX. “(...) como as sociedades tornaram-se fragmentadas, os partidos políticos tem visto suas bases sociais murcharem ou tornarem-se repletas de clivagens sociais. (CHADWICK, 2006, p.145). O autor ainda reforça que os eleitores são agora muito mais propensos a flutuar livres de identificação partidária e a fazer avaliações mais racionais de plataformas políticas. Nisso, as identidades políticas parecem menos fixas, fazendo com que os cidadãos exijam formas mais flexíveis e complexas de expressar diferentes visões políticas e não vêem os partidos como os únicos capazes de acomodar tais diversidades ideológicas (CHADWICK, 2006, p.146). Entram em cena, as organizações da sociedade civil e formas não eleitorais de representação, buscando potencializar a voz de determinados segmentos, até então excluídos do processo político e da tomada de decisões, exigindo, com isso, que suas demandas fossem incorporadas nos debates e assegurassem novos direitos sociais e políticos. Neste contexto, a mídia reforça seu papel crucial na vocalização das demandas destes novos segmentos e suas lutas por direitos na sociedade. Young (2000), no seu livro Inclusion and democracry, traz para o debate uma nova abordagem sobre representação, tendo como foco principal o conceito de “perspectivas sociais”, visando, principalmente, os chamados grupos minoritários que aparecem com mais força no cenário político, como mulheres, negros, homossexuais e outros. Por esta ótica, cada um dos novos segmentos que irrompem no tecido social a partir da década de 90, fruto dos novos tempos,

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tem perspectivas diferenciadas em relação a algumas temáticas, que são necessárias para serem incorporadas nas discussões políticas dos regimes democráticos atuais. Mais uma vez, os processos midiáticos reaparecem como mecanismos de visibilidade das demandas destes novos segmentos. Young (2006) aproxima suas análises de uma visão deliberacionista da democracia e da representação política tentando abarcar a inclusão social destes novos grupos, pois a multiplicidade dos pontos de vistas ampliaria a noção de realidade e contribuiria para o processo democrático. Numa sociedade complexa e com milhões de pessoas a comunicação democrática consiste em discussões e decisões fluidas, sobrepostas e divergentes, dispersas tanto no espaço como no tempo. O que são relações comunicacionais inclusivas em tais sociedades fluidas, descentralizadas de massa? No contexto dessas sociedades as queixas que apontam o caráter excludente das normas de representação. As pessoas muitas vezes reclamam que os grupos sociais dos quais fazem parte ou com os quais tem afinidade não são devidamente representados nos organismos influentes de decisão, tais como legislaturas, comissões e conselhos, assim como nas respectivas coberturas dos meios de comunicação. (YOUNG, 2006, p.140)

Outra pesquisadora que acrescenta novos elementos à discussão sobre representação política, com vínculos com a opinião pública e com a mídia é a italiana Nadia Urbinati. No seu trabalho Representative Democracy: principles and genealogy publicado em 2002, Urbinati (2002) defende a representação política como fundamental para o funcionamento da democracia, baseada no discurso público que valoriza a política democrática, potencializando as vozes dos cidadãos em todo o processo político, não só na escolha dos seus representantes. Nesta perspectiva, Urbinati (2002) considera a representação política vinculada ao estimulo à participação política e à expressão da vontade popular, transformando-se, assim, em uma forma de organização política. Para Urbinati (2002), a representação política amplia a noção de participação, na medida em que considera que um caráter deliberativo permitiria uma constante recriação e aperfeiçoamento do que entendemos por democracia. A autora inclui nesta discussão a noção de advocacy, como uma vontade superior e apaixonada às causas e demandas dos seus constituintes com certa autonomia de julgamento, o que distancia representantes dos representados, reforçando a importância da representação política como mola propulsora dos regimes democráticos. Urbinati (2002) faz uma defesa dos expertises, que seriam porta-vozes aprimorados dos seus representantes, o que é questionado por alguns teóricos sobre a legitimidade desta prerrogativa.

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Em outros textos posteriores ao lançamento do seu livro, Urbinati (2006) reforça que a representação é cada vez mais entendida como um fator intrínseco para a constituição da opinião pública por meio de seu papel reflexivo (deliberação) bem como essencial para definição de vias de influência do Estado (URBINATI, 2006, p.2). Nesta perspectiva, surgem emergentes formas não eleitorais de representação, uma vez que na época atual o mundo está preenchido por atores extraterritoriais, que interferem em todo o processo de representação, como movimentos sociais transnacionais, dentre outros. A autora ressalta que o desenvolvimento das sociedades contemporâneas afetadas pelo mercado, tecnologia e vasto volume de informações fez com que a ideia de representação chegasse a um ponto de ruptura. A idéia do Estado representando povos é parcial e serve, atualmente, apenas para algumas questões. Urbinati (2006) enfatiza que os discursos que fornecem razões de legitimidade são pluralizados e cada vez mais públicos, mesmo que a representação eleitoral continue a ser referência para o poder do Estado, hoje em dia os espaços para reivindicações de representação rompem seus limites e se tornam mais abertos e segmentados por temas e novos sujeitos. Na virada do século XX para o XXI, a discussão sobre representação política reaparece através das instituições representativas como mediadoras entre o Estado e a sociedade, reforçando o papel da esfera pública nos debates. Também neste período começam a aparecer estudos que se concentram na inclusão e exclusão de grupos marginalizados, gerando novas formas de abordagem teórica sobre a representação (FABRINO, 2008; CHADWICK,2006; YOUNG, 2006). As instituições representativas passaram por mudanças importantes que forçam a inclusão do caráter informal discursivo em uma esfera marcada pelo pluralismo e diversidade, como agentes que se auto autorizam (ONGs, fundações, grupos de interesses) e entidades que representam (fóruns deliberativos, painéis, conferências temáticas). Nesta revisão histórica, o objetivo não é discutir detalhes sobre estas teorias e sua validade na formulação dos conceitos de democracia e de representação, mas revelar o papel fundamental e central da mídia e, consequentemente, da opinião pública, nestas discussões, que foi ganhando espaços nas últimas décadas. É através da visibilidade midiática, da potencialização da opinião pública e das transformações impactadas pela centralidade da mídia nos processos sociais, econômicos e políticos, que estes debates ganham intensidade, mostrando que os significados de representação política passam a ter novas leituras e perspectivas relacionais.

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Com isso, a representação política não se esgota no processo eleitoral, mas se complexifica com as novas tecnologias de comunicação e com formas não eleitorais de representação, exigindo estratégias simbólicas, que obrigam uma elaborada e minuciosa gestão da informação política, visando antecipar um novo modelo representativo, que se consolida, posteriormente, nas urnas. Considerações finais Hanna Piktin, uma das autoras referência nos debates sobre representação política, no seu livro The conception of representation, já afirmava, na década de 60, que o conceito de representação política tem que se entendido dentro da conjuntura em que se dá esta relação entre representados e representantes. Esta concepção se transforma na medida em que se modificam as instituições e a própria sociedade. Da mesma forma a imprensa tem que se adequar às mutações sociais, econômicas, culturais e políticas para que possa continuar com o seu papel importante de fiscalizar os poderes instituídos, forçar reflexões e participar deste jogo democrático ao potencializar as inúmeras vozes na sociedade. Nesta sintonia entre estes dois potentes canais de mediação entre sociedade e Estado, são necessários constantes estudos que promovam o entendimento de como estas transformações se mesclam e moldam a política contemporânea. Neste artigo buscamos mostrar mais uma trilha teórica a ser seguida, que foge da maioria dos trabalhos em comunicação política, normalmente voltados à influência dos media comerciais massivos nos processos políticos. O foco de nosso trabalho é estimular a reflexão sobre a imprensa produzida pelos próprios partidos políticos. Trata-se de um jornalismo especializado que mesclam elementos tradicionais das assessorias de imprensa, da comunicação corporativa, do marketing político, enfim, de uma série de estratégias comunicacionais, tentando induzir leituras diferenciadas da conjuntura para promoção de legendas e seus líderes. O objetivo é forçar formas alternativas de reverberação de notícias na sociedade, disputando simbolicamente com outros agentes sociais e políticos, nestas novas arenas midiáticas que emergem na contemporaneidade. Neste novo contexto com clivagens sociais, cada vez mais plurais, que lutam por espaços na sociedade, eclodem formas não eleitorais de representação política, que confrontam o modelo tradicional baseado nos partidos, nas eleições, na proporcionalidade, na territorialidade, complexificando todos os processos sociais e políticos. Os partidos políticos para sobreviverem em suas funções de mediação entre a sociedade e o Estado precisam oxigenar seus discursos e

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tecer seus laços de pertença com estes segmentos sociais tão sedentos de representação para assegurarem seus espaços no jogo democrático. Ao mesmo tempo em que os partidos necessitam fazer frente às outras legendas, neste mercado eleitoral cada vez mais competitivo, precisam competir com outros agentes políticos não autorizados pelo voto, mas que se autoproclamam como legítimos porta-vozes destes grupos sociais tão heterogêneos. E com estes novos desafios, a imprensa partidária revela-se como um importante dispositivo de construção desta representação política, desde que as legendas saibam potencializar suas produções noticiosas, gerenciando de forma eficiente a circulação da informação política para que se beneficiem e se promovam neste conturbado contexto político. Nesta perspectiva, a representação política pode ser desencadeada simbolicamente, de forma monitorada e contínua, favorecendo a identificação partidária, o reconhecimento público e, consequentemente, a maximização eleitoral. Referências bibliográficas ALBUQUERQUE, Afonso de;MARTINS, Ariane Figueroa. Apontamentos para um modelo de análise dos partidos na web. In: XIX Encontro da Compós, 2010, Rio de Janeiro-RJ. Disponível em: http://compos.com.pucrio.br/media/gt3_afonso_de_albuquerque_adriana_figueirola_martins. Acesso em: 08/07/2013. ALDÉ, Alessandra. Cidadãos na Rede: tipos de internautas e sua relação com a informação política online. Contemporanea (UFBA. Online), v. 9, p. 370-389, 2011. Disponivel em: http://www.portalseer.ufba.br/index.php/contemporaneaposcom/article/viewArticle/5809. Acesso em: 10/10/2012. CHADWICK, Andrew. Internet Politics: States, Citizens and New Communication Technologies. New York: Oxford University Press, 2006. FERREIRA, Nazareth M. Imprensa Operária no Brasil. São Paulo, Ática, 1988. GOMES, Wilson. A transformação da política na era da comunicação de massa. São Paulo: Paulus: 3ª edição, 2007. LEAL, Paulo Roberto Figueira: O PT e o dilema da representação política. Rio de Janeiro: FGV, 2005 LENIN, Vladimir Ilich. Que fazer? A organização como sujeito político.Tradução Rubia Prates Goldoni. São Paulo? Martins Fontes, 2006 MANIN, Bernard. As metamorfoses do governo representativo. Revista Brasileira de Ciências Sociais, Anpocs,São Paulo, ano 10, nº 29, 1995. Disponível em: < http://www.anpocs.org.br/portal/publicacoes/rbcs_00_29/rbcs29_01.htm> Acesso em: 10/05/2013.

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O Chavismo E A Representação Social Do Governo De Hugo Chávez

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Mariana Rezende dos Passos2 Universidade de São Paulo

Resumo: O presente trabalho busca iluminar as discussões em relação ao modo como o chavismo – como ficou conhecido o governo do Hugo Chávez na Venezuela – se consolidou no imaginário social venezuelano. Parte-se do pressuposto de que o discurso chavista está presente principalmente nas camadas mais pobres da população da Venezuela, o que proporcionou altos índices de aprovação e popularidade do governo Chávez. A partir daí surge a hipótese de que a consolidação do imaginário social chavista se deu a partir de profundo enraizamento do discurso político de Chávez na sociedade da Venezuela, da mistificação da sua imagem pública e da consequente introdução de ideais específicos por meio da representação social, conceituada por MOSCOVICI (2010). Palavras-chave: Hugo Chávez; Chavismo; Representação social. Introdução Hugo Chávez, um ex-tenente-coronel com extensa carreira militar, disputou as eleições presidenciais da Venezuela de 1998 e foi eleito com 56% dos votos válidos. Ele assumiu a presidência da Venezuela, em fevereiro de 1999, como o presidente mais jovem da história do país e sem ter ocupado nenhum cargo político anteriormente. Segundo Moraes (2010), Chávez chegou ao poder representando a insatisfação popular com os partidos e políticos tradicionais venezuelanos que se revezavam em uma política que ficou conhecida como “Pacto de Ponto Fixo”. O ponto principal dessa insatisfação foi à eclosão do Caracazo, em

1989, que ficou conhecida como a maior rebelião popular da Venezuela.

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Trabalho apresentado ao GT 1 – Propaganda Política e Ideológica do XII Congresso Brasileiro de Comunicação e Marketing Político – Juiz de Fora (MG) 2

Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade de São Paulo (USP), do "Grupo de Estudos de Novas Narrativas" (GENN). maryrpassos@gmail.com

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Chávez e seus companheiros do Movimento Revolucionário Bolivariano estiveram presos por duas tentativas de golpe de Estado ocorridos em 1992. Segundo Marcano e Tyszka (2006), esse período aprisionado foi um dos mais importantes para a consolidação de Chávez como um símbolo no país. Visitantes faziam enormes filas para cumprimentar o líder do golpe de Estado que passou a ser um fenômeno de popularidade. Um sacerdote que visitava Chávez não hesitou em dizer: “Levante-se, que nas ruas você é um herói.” (MARCANO; TYSZKA, 2006, p. 118). Seus companheiros destinavam seus breves telefonemas a familiares e amigos, já Chávez dedicava seus minutos de comunicação para dar entrevistas a jornalistas importantes, pregando seus ideais de luta e conquista do poder. O tenente-coronel começou a criar uma fé messiânica em si mesmo de forma a crer que tinha uma missão a ser realizada na Venezuela. (MARCANO; TYSZKA, 2006). Esse fato sugere que o ano de 1992 foi um marco no início da mistificação da imagem pública política de Hugo Chávez. Esta fé messiânica muito se espelhava na admiração e relação simbólica que Chávez tem por Símon Bolívar. Bolívar era militar e foi um importante líder político da Venezuela no século XIX. Na América Latina é considerado um herói, visionário, revolucionário e libertador. Chávez declarou que “se o mito de Bolívar ajuda a fazer as pessoas e as ideias se moverem, isso é bom” (CHÁVEZ apud KRAUZE, 2011, p. 532). O culto a Bolívar tornou-se uma ideologia da revolução que Hugo Chávez pretendia realizar na Venezuela. Símon Bolívar tornou-se “„nosso Pai infinito‟, „gênio da América‟, „estrela brilhante‟, „formador de repúblicas‟, „verdadeiramente grande herói de nosso tempo‟, „verdadeiro mestre desse processo‟”. (KRAUZE, 2011, p. 534). Logo nos primeiros anos de mandato, Chávez declarou que em homenagem a Bolívar o país receberia o nome de República Bolivariana da Venezuela e a nova Constituição de 1999 seria baseada na doutrina do revolucionário. As cerimônias que cultuavam Bolívar no governo Chávez não tiveram limites a partir de então, tanto na imprensa quanto nas propagandas oficiais do governo, e começaram a fazer parte do cotidiano dos venezuelanos, como relata Krauze (2011): As massas ouviram Bolívar falar através de seu presidente e ao longo dos séculos sobre todos os temas imagináveis: o petróleo, o movimento operário, a revolução social, as vantagens e as necessidades do socialismo. Elas começariam a comprar bananas, arroz e frangos bolivarianos, cortar o cabelo com barbeiros bolivarianos. (KRAUZE, 2011, p. 534).

O bolivarianismo se tornou, portanto, um quadro de referência do plano de governo de Chávez. Mas, de acordo com Krauze (2011), Chávez não apenas apropriou-se das ideias do revolucionário Bolívar, mas apropriou-se do carisma de Bolívar para transformar a si próprio em líder único e também herói venezuelano, contribuindo para a concretização do chavismo. 25


Através dos muitos discursos do líder máximo da Revolução Bolivariana, traços originalmente atribuídos a Bolívar foram progressivamente transferidos pra o homem que parece ser o maior herói de Chávez: ele mesmo. (KRAUZE, 2011, p. 548).

Para o autor, Chávez estaria convencido de que é um líder messiânico e salvador da pátria. Para o presidente Venezuelano, a história não é feita por meio de luta de classes, raças ou nações, mas sim pela determinação de heróis que guiam o povo à glória, e ele seria, portanto, o novo herói da Venezuela. Chávez é reeleito em 2000, 2006 e 2012; ganha quatro referendos constitucionais: dois em 1999, um em 2004 e outro em 2009; e outro referendo revogatório de seu mandato em 2007; e perde apenas um referendo constitucional em 2007. (MORAES, 2010). O ex-presidente da Venezuela faleceu em março de 2013 (o que totalizou 14 anos no poder) em decorrência de um câncer, logo após sua morte novas eleições presidenciais foram convocadas e o sucessor de Chávez, Nicolás Maduro, foi eleito pelo voto da população para continuidade ao legado do chavismo. Para que seja possível compreender a consolidação do chavismo no imaginário social da Venezuela, a noção de representação social de Moscovici (2010) servirá, neste trabalho, como base metodológica, ancorada à noção da construção da imagem de si, bem como da mistificação da imagem pública de Hugo Chávez. 1. O chavismo no imaginário social venezuelano A trajetória política de Chávez apresentada anteriormente leva a uma reflexão sobre o modo como sua construção como herói, messias e líder carismático se deu via crescente e planejado processo de criação de um imaginário social venezuelano do chavismo. O ano de 1992 pode ser considerado como o marco inicial deste processo, já que Chávez, a partir da tentativa de golpe de Estado passou a ser um herói nacional, um líder bolivariano contra a “corruptocracia” instaurada pelo Pacto de Ponto Fixo. A imagem de Chávez está por todos os cantos da Venezuela, desde outdoors que divulgam seus feitos, como exemplo as Missões, a nomes de escolas que o homenageiam. Quando é eleito em 1998, Hugo Chávez, como bem pontua Oppliger (2010), deixa de ser um exlíder de um golpe militar fracassado e passa a ser um centro de atenção absoluta em torno do qual giram todos os assuntos da Venezuela. Segundo Amossy (2008), construir a imagem de si está implícito em todo ato de tomar a palavra. A apresentação de si é efetuada pelo locutor em seu discurso que, por sua vez, condiciona e facilita o reconhecimento a partir da criação de sua “imagem”. Segundo a autora, o 26


termo ethos surge para designar, então, a construção desta imagem de si que é construída para que o discurso obtenha sucesso. Para Barthes (apud AMOSSY, 2008) o ethos comporta: [...] os traços de caráter que o orador deve mostrar ao auditório (pouco importando sua sinceridade) para causar boa impressão: é o seu jeito [...]. O orador anuncia uma informação e ao mesmo tempo diz: sou isto, não sou aquilo. (BARTHES apud AMOSSY, 2008, p. 10).

Essa imagem pré-estabelecida ou ethos pré-discursivo pode vir a ser confirmado, reforçado ou reelaborado durante um discurso. De acordo Maingueneau citado por Amossy (2008, p. 125), nos discursos políticos “os enunciadores que ocupam constantemente a cena midiática são associados a um ethos que cada enunciação pode confirmar ou infirmar.”. Sendo assim, segundo Amossy (2008) a palavra ou o discurso não se tornam mais eficazes somente pelo exterior (ethos institucional) ou pelo interior (ethos discursivo), ambos são complementares. É exatamente esta relação entre o ethos institucional e o ethos discursivo que garantem legitimidade ao discurso do orador e podem vir a produzir impressões favoráveis em seu auditório a partir da interação verbal. Assim, a figura messiânica de Chávez, que se apresenta como o salvador da pátria e do povo, se justifica pela legitimidade discursiva que mandatário traz consigo ao pretender livrar a Venezuela de seus períodos de crise e da burocracia instalada pelo Pacto de Punto Fijo. O “messianismo”, do ponto de vista de Legros entre outros (2007), é “a crença na vinda de um salvador que, depois de um período de fogo e sangue, estabelecerá um reino de paz e de felicidade.” (LEGROS et al, 2007, p. 219). Para Negrão (2001), o messianismo se apresenta de duas formas: a mística e religiosa, que diz de um salvador ou o próprio Deus que é aguardado por todos para instaurar a justiça; e a coletiva e social, que se apresenta “no sentido de concretizar a nova ordem ansiada, sob a condução de um líder de virtudes carismáticas.” (NEGRÃO, 2001, p. 119). Símon Bolívar, ansiado pelo povo venezuelano como o salvador, o grande messias, é substituído pela figura de Chávez nos tempos modernos. A crença do “retorno do messias” é, portanto, agregada à figura de Hugo Chávez, e este a aceita, e até a reforça, instaurando seu projeto revolucionário de governo. Para Marcano e Tyszka (2006), Chávez é um messias que veio do povo, para o povo: De maneira constante, (Hugo Chávez) recorda sua história, a origem humilde e rural. Não sabe inglês e, publicamente, zomba de sua própria e precária pronúncia. Proclama-se um homem feio, popular, sem propriedades, sem educação para as altas galas, sem outra ambição além do carinho simples e o serviço aos mais necessitados. [...] Chávez é o povo. (MARCANO; TYSZKA,, 2006, p. 337).

Importante salientar que, para alguns autores como Martín-Barbero (2004), esse retorno do messianismo político, traduz um momento por que passa a sociedade e as culturas, momento este 27


que está caracterizado por uma sensação de perda do futuro e estagnação no presente. O futuro, portanto, é ansiado: espera-se e é desejado que o futuro aconteça não pelas mãos dos homens comuns, mas sim por algo ou alguém de outra parte, um outsider. Chávez se tornou um fenômeno na Venezuela. A onipresença do mandatário no país é nítida. O presidente possuía seu próprio programa televisivo – Aló, presidente! – que vai ao ar todo domingo, com duração mínima de cinco horas. Na teoria o programa é dominical e dura até cinco horas, mas na prática é diferente. Chávez pode colocar o programa no ar no dia que quiser e no horário que bem entender, sem duração máxima. O programa se alimenta da participação popular através de ligações telefônicas, possui convidados nacionais ou não. A exaltação a Chávez é nítida, todos falam bem do presidente e louvam suas ideias. Neste programa Hugo Chávez mantém contato com os venezuelanos com assuntos diversificados: de esportes à política. Além disso, ele reserva um espaço considerável para agredir a oposição, o imperialismo norte-americano e a imprensa nacional e internacional (quando estas publicam notas que vão contra alguma medida de seu governo). Importante destacar que Chávez é o primeiro presidente da Venezuela que nasceu na era da Televisão, além disso, sua capacidade de lidar com a comunicação e com o público é inegável. Para Chávez, como bem aponta Oppliger (2010): governar é falar e vice-versa. Segundo o autor, o presidente venezuelano está constantemente falando, comunicando, explicando, anunciando, ordenando. O mandatário já chegou ao recorde de duração do seu programa Alô, presidente de edição 100, no qual ficou falando por sete horas e meia, em 7 de março de 2002. Os números são exorbitantes: “entre fevereiro de 1999 e junho de 2009, Chávez somava 2.810 horas falando em rádio e televisão, o que se equivale a 351 jornadas de trabalho de oito horas: quase um ano 3

falando.” (OPLLIGER, 2012, p. 247, tradução nossa) . Em abril de 2010, Chávez abriu sua conta no Twitter, desde então essa mídia social se tornou mais um dos lugares de fala do mandatário. Segundo Courtine (2003), o advento da chamada “conversação-espetáculo” alterou drasticamente o discurso político midiatizado. Sob a égide de uma democracia da expressão passa-se a “ver o homem privado sob o personagem público”. (COURTINE, 2003, p. 24). A política da vida privada exibe intimidades e a política se vê banalizada nas vidas cotidianas. O que bem salienta Marcano e Tyszka (2006) é que a pessoa pública e a pessoa privada de Hugo Chávez eram a mesma figura, a população venezuelana já não conseguia fazer distinção entre uma e outra. É possível compreender a mistificação da imagem de Chávez a partir do conceito de “sistema semiológico segundo” proposto por Barthes (2010):

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“[...] entre febrero de 1999 y junio de 2009, Chávez sumaba 2.810 horas hablando em radio y televisíon, ló que equivale a 351 jornadas laborales de ocho horas: casi um año hablando.”.

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(...) o mito é um sistema particular, visto que ele se constrói a partir de uma cadeia semiológica que já existe antes dele: é um sistema semiológico segundo. O que é signo (isto é, a totalidade associativa de um conceito e de uma imagem) no primeiro sistema transforma-se num simples significante no segundo. (...) o mito apenas considera uma totalidade de signos, um signo global, o termo final de uma primeira cadeia semiológica. E é precisamente esse termo final que vai se transformar em primeiro termo ou termo parcial do sistema aumentado que ele constrói. Tudo se passa como se o mito deslocasse de um nível o sistema formal das primeiras significações. (BARTHES, 2010. p. 205).

Chávez vence as eleições de 1998 e da força ao bolivarianismo por ser uma figura central e imprescindível ao processo da revolução na Venezuela, “portanto, não causa espanto que em determinados momentos o chavismo se confundisse e até mesmo se chocasse com o bolivarianismo, entendido como a totalidade do processo em marcha.” (SEABRA, 2010, p. 215). A ideia de representação social da qual trata Moscovici (2010) corrobora para a compreensão dessa transição do bolivarianismo para o chavismo e da representação coletiva que o ultimo passou a incorporar no imaginário da sociedade venezuelana: Pessoas e grupos criam representações no decurso da comunicação e da cooperação. Representações, obviamente, não são criadas por um indivíduo isoladamente. Uma vez criadas, contudo, elas adquirem vida própria, circulam, se encontram, se atraem e se repelem e dão oportunidade ao nascimento de novas representações, enquanto velhas representações morrem. Como consequência disso, para se compreender e explicar uma representação, é necessário começar com aquela, ou aquelas, das quais ela nasceu. (MOSCOVICI, 2010, p. 41).

O que se cria a partir da representação social, na verdade, é um referencial, algo a que se refere para dizer sobre o real estado das coisas. Ou seja, ao dizer que o chavismo é uma representação diz-se que o governo de Hugo Chávez, além de uma ação política, é algo que se transforma em imaginário social, se tornando, assim, uma ideia ou ideologia, “e sua repetição – seja durante uma conversação, ou no ambiente (...) – garante sua autonomia (...).” (MOSCOVICI, 2010, p. 90). Importante salientar que, no presente trabalho, ideologia é compreendia como “um conjunto de ideias e de valores respeitantes à ordem pública e tendo como função orientar os comportamentos políticos coletivos.”. (BOBBIO, 1998, p. 585). A trajetória política e a imagem pública de Chávez conduziram à construção da representação social chavista no coletivo da Venezuela ao longo dos anos. No universo consensual os discursos unem as pessoas, criam nós de estabilidade e recorrência, e uma base de

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significância. Tais discursos, como o discurso chavista, possuem regras que mantêm um complexo de ambiguidades e convenções. Eles capacitam as pessoas a compartilharem um estoque implícito de imagens e de ideias que são consideradas certas e mutuamente aceitas. Esses discursos circulam entre pessoas comuns estabelecendo normas informais que determinam certo código de conduta social. Para Moscovici (2010), as representações sociais, portanto, restauram a consciência coletiva e lhe dão forma, explicando os objetos e acontecimentos de tal modo que eles se tornam acessíveis a qualquer um e coincidem com os interesses imediatos da sociedade. Outra importante contribuição da teoria de representação social para entendimento da consolidação do chavismo na sociedade venezuelana é a compreensão de que, segundo Moscovici (201), a sociedade constrói um mundo estável a partir das diversidades do cotidiano. Sendo assim, a representação social torna-se chave para que as mudanças nesse cotidiano – a eleição de Hugo Chávez em 1989 é um exemplo dessas mudanças – influenciem o pensamento do indivíduo para que o mesmo estabeleça uma estabilidade nas suas representações do imaginário coletivo. (...) o que é importante é a natureza da mudança, através da qual as representações sociais se tornam capazes de influenciar o comportamento do indivíduo participante de uma coletividade. É dessa maneira que elas são criadas, internamente, mentalmente, pois é dessa maneira que o próprio processo coletivo penetra, como o fator determinante, dentro do pensamento individual. Tais representações aparecem, pois, para nós, quase como objetos materiais, pois eles são o produto de nossas ações e comunicações. (MOSCOVICI, 2010, p. 40).

As representações têm duas funções principais: a) elas convencionalizam objetos, pessoas e acontecimentos a partir de condicionamentos anteriores da linguagem e da cultura; b) sendo prescritivas, implicam um elo de sistemas e imagens, uma memória coletiva, em um momento dinâmico entre passado e presente. Quando mais 'antiga' uma representação, mais cristalizada, isto é, ela se naturaliza como algo construído. (MOSCOVICI, 2010). A cooptação dos ideais bolivarianistas de libertação da América Latina da opressão do imperialismo norte-americano/europeu e de igualdade e liberdade dos povos latino-americanos pelo chavismo faz com que a representação social que se construiu do chavismo fosse tão cristalizada quanto a que se construiu anteriormente do bolivarianismo. Por ser parte de ideais antigos ela se naturaliza como algo já constituído, já compartilhado e enraizado na conversação e na troca de informações entre os venezuelanos. Há, portanto, uma associação de signos primeiros (bolivarianismo) para a construção de uma representação social segunda (chavismo).

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Considerações finais Para Moscovici (2010), o conhecimento sobre determinada representação social é sempre produzido pela interação e pela comunicação, sendo que sua expressão está ligada aos interesses humanos que nele estão implicados. A representação não é neutra ou desinteressada, mas sim produto de um grupo, inserido em projetos e contextos específicos. Importante notar que, ainda segundo o autor, as pessoas e os grupos – a população da Venezuela, como é o caso específico do trabalho – não são receptores passivos, mas produzem e comunicam-se o tempo todo e estão cientes da representação social que criam, que recriam e que sustentam. A mistificação da imagem pública de Chávez passou por longa construção tanto midiática como política, social e cultural, desde meados da década de 1990 – principalmente com liderança nas tentativas de golpe em 1992, quando ficou conhecido como o principal responsável pela revolução bolivariana na Venezuela. Tal construção, ancorada ainda na imagem e no mito já constituído de Símon Bolívar, se consolida como uma representação social e, consequentemente, como uma ideologia que está enraizada na sociedade venezuelana. Ao considerar o chavismo como uma representação social do imaginário venezuelano, o presente trabalho ilumina uma ampla discussão acerca dos mitos políticos que se estabelecem em vários países do mundo – com ampla predominância na América Latina e abre espaço para se compreenda um processo mais amplo: as constantes alterações da comunicação política, dos mitos políticos e das representações dessa esfera nas diversas sociedades.

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Referências Bibliográficas AMOSSY, Ruth (Org.). Imagens de si no discurso: a construção do ethos. São Paulo: Contexto, 2008 BARTHES, R. Mitologias. Rio de Janeiro: Difel, 2010 BOBBIO, Norberto, Dicionário de política; trad. Carmen C, Varriale et ai.; coord. trad. João Ferreira; rev.geral João Ferreira e Luis Guerreiro Pinto Cacais. - Brasília : Editora Universidade de Brasília, 1 la ed., 1998. COURTINE, Jean-Jacques. Os deslizamentos do espetáculo político. In. GREGOLIN, Maria do Rosário (Org.) Discurso e mídia: a cultura do espetáculo. São Carlos: Claraluz, 2003. ECO, Umberto. Entrevista Umberto Eco, por Eliseo Verón. In: Transformações da midiatização presidencial: corpos, relatos, negociações, resistências. Org. FAUSTO NETO, Antônio; MOUCHON, Jean; VERÓN, Eliseo São Caetano do Sul, SP: Difusão Editora, 2012. p.15-26 KRAUZE, Enrique. Os redentores: ideias e poder na América Latina; tradução Magda Lopes, Cecília Gouvêa Dourado e Gabriel Federicci. São Paulo: Saraiva, 2011. LEGROS, Patrick et al. Sociologia do imaginário. Tradução de Eduardo Portanova Barros. Porto Alegre: Sulina, 2007. MARCANO, Cristina; TYSZKA, Alberto Barrera. Hugo Chávez sem uniforme: uma história pessoal. Prólogo de Francisco Carlos Teixeira da Silva; tradução Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Gryphus, 2006. MARTÍN-BARBERO, Jesus. Razón técnica y razón política: espacios/tiempos no pensados. Ciencias de la Comunicación - Revista Latinoamericana de Comunicación (ALAIC). 2º Semestre de 2004. Ano I. Nº 1, p. 22-37. MOSCOVICI, Serge. Representações sociais. Investigações em psicologia social. Petrópolis, Vozes, 2010. MORAES, Wallace dos Santos de. Por que Chávez chegou ao poder e como permanece por mais de uma década? Um balanço dos onze anos de chavismo na Venezuela. Análise de Conjuntura OPSA, n. 4, abr. 2010. Disponível em: <http://www.opsa.com.br/images/pdf/ analise/73_analises_AC_n_4_abr_2010.pdf>. Acesso em: 15 out. 2011. NEGRÃO, Lísias Nogueira. Revisitando o messianismo no Brasil e profetizando seu futuro. RBCS, junho/2001 – Vol. 16, nº 46. OPPLIGER, Marcel. La revolución fallida: un viaje a La Venezuela de Hugo Chávez. Santiago: Instituto Democracia y Mercado, 2010.

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SEABRA, Raphael. A revolução venezuelana: chavismo e bolivarianismo. Revista Sociedade e Cultura, Goiânia, v. 13, n. 2, p. 211-220, jul./dez. 2010. Disponível em: <http://www.revistas.ufg.br/index.php/fchf/article/view/13425> Acesso em: 20 out. 2011.

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O voto como agente de exercício democrático no poder executivo municipal: uma análise das eleições municipais de 2012 Margarete Salles Iwanikow 1 Rafael Iwanikow2 Roberto Gondo Macedo3

Resumo: Este artigo tem como objetivo realizar uma análise sobre o resultado das eleições municipais de 2012, com destaque ao desempenho dos partidos observando seu desempenho em nível nacional. Com o objetivo de quantificar o desempenho dos partidos foram considerados os resultados com as seguintes variáveis: comparativo entre os resultados obtidos nas eleições de 2008 e de 2012 com relação ao número de cidades conquistadas, o número de candidatos, o número de eleitos, o orçamento a ser gerido e o total da população governada. Neste estudo de caso também se fez a relação entre as eleições e o Estado Democrático considerando o resultado das urnas como principal exercício de cidadania e demonstração da vontade popular seja pela continuidade ou alternância do poder municipal. Palavras-chave: eleições 2012, alternância de poder, democracia, voto. Introdução Atualmente o Brasil vive seu mais longo período democrático de seu período republicano, e apesar disto, ainda estamos engatinhando ao encontro de um verdadeiro estado democrático, pois segundo BOBBIO (1986): Hoje, se se quer apontar um índice do desenvolvimento democrático este não pode mais ser o número de pessoas que têm o direito de votar, mas o número de instâncias (diversas daquelas políticas) nas quais se exerce o direito de voto [...] (BOBBIO, 1986, pg.56).

__________________ 1

Margarete Salles Iwanikow, jornalista, Especialista em Comunicação e Marketing Político pela Universidade de Taubaté e Mestra em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo. Membro da Assessoria de Imprensa da Rede POLITICOM, e-mail: megsalles@gmail.com 2

Rafael Iwanikow, Consultor Político pós-graduado em Comunicação e Marketing Político na Universidade Taubaté, e-mail: iwanikow@gmail.com 3

Roberto Gondo Macedo, Pós-doutorando em Comunicação Política pela USP (Universidade de São Paulo), Doutor em Comunicação Social, Mestre em Administração Pública e MBA em Marketing. Diretor de Estratégias e Marketing do IGC/Naster. Docente da Universidade Metodista de São Paulo e Universidade Presbiteriana Mackenzie. Presidente da Red e POLITICOM. Email: roberto.macedo@mackenzie.br

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Infelizmente ainda temos muito a avançar considerando esta definição de desenvolvimento democrático, mas, considerando a participação política, o Brasil vive sim um estado democrático e as eleições municipais de 2012 nos oferece grande seara de material para análise política, possibilitando o exercício de técnicas de marketing político aplicadas à análise dos partidos políticos participantes do pleito. Após a divulgação dos resultados de uma eleição municipal pode se analisar e prever os movimentos políticos de partidos e políticos nos próximos anos em nível estadual e federal em vistas das eleições gerais de 2014, pois pode se identificar os partidos que conseguiram sair fortalecidos do pleito. Com o objetivo de analisar a prática do exercício da democracia pelo voto nas eleições municipais, analisou se duas situações distintas com relação à continuídade do poder municipal, analisou se o resultado das eleições nas duas maiores cidades do Vale do Paraíba/SP, São José dos Campos e Jacareí. Na primeira ocorreu alternância de poder com a saída de um partido após 16 anos no governo da cidade (com quatro mandados e dois prefeitos) e na segunda ocorreu a manutenção do partido governante pela quarta eleição consecutiva. 1. A democracia e os partidos políticos Ao analisar a democracia ateniense, berço da democracia, TORRES (2005) nos mostra que esta era embasada nos seguintes princípios: [...] os dois princípios fundamentais da democracia: a liberdade de expressão e a igualdade de direitos. Por meio da liberdade de expressão conquistava-se o direito de discordar dos que controlavam o poder, e pela igualdade de direitos possibilitava-se o acesso livre de qualquer cidadão a esse mesmo poder. (TORRES, 2005, pg. 444)

O conceito de democracia ainda hoje está ligada a liberdade e a igualdade entre os cidadãos, apesar da mudança da forma de exercer o poder, que antes era direta e atualmente ocorre de forma representativa. A vertente que, de fato, veio a prevalecer historicamente afastou do exercício direto do poder o corpo de cidadãos e instituiu a representação política como forma privilegiada de mediar a relação entre governantes e governados. (LIMA, 1993, pg. 13)

Os partidos políticos estão no centro da atual democracia, pois atualmente, o poder é exercido de maneira representativa, com os cidadãos delegando seu poder político (voto) para que seus representantes (prefeitos, vereadores, governador, deputados, senadores e presidente) defendam seus direitos. Fato importante nas eleições sejam elas municipais, estaduais ou nacionais, são as coligações partidárias. Segundo GOMES (2013, p179) “Coligação é o consórcio de partidos 35


políticos formados com o propósito de atuação conjunta e cooperativa na disputa eleitoral”, sendo assim realizadas com intuito voltado às eleições e não à futura gestão muitas vezes essas coligações muitas vezes realizadas sem critérios claros do ponto de vista ideológico. Este fato se explica pela fragilidade dos partidos. A fragilidade dos partidos leva à formação de alianças partidárias, a coligação de partidos com orientações pragmáticas distintas, mesmo em eleições municipais e em eleições legislativas. Embora essa estratégia seja racional para partidos e políticos, que assim conseguem mais recursos eleitorais previstos na lei, para os eleitores torna mais difícil perceber claramente as alternativas eleitorais, em alianças que variam a cada eleição e em cada lugar. (SOARES, 2009, pg. 95)

Conforme citado por SOARES (2009) as estruturas dessas coligações e principalmente algumas incoerências ocorridas entre as coligações nos diferentes níveis de poder (municipal, estadual e federal) torna sua compreensão pelo eleitorado um item de estudo a parte, pois põe em dúvida a representatividade que será exercida pelos governantes eleitos. Sendo assim, muito se questiona sobre essa representatividade, entretanto não é mérito deste trabalho analisar se esta representação ocorre de maneira adequada aos cidadãos e seus interesses e sim analisar sua estrutura conceitual para realizar as análises que são pertinentes. 2. Panorama analítico das Eleições de 2012 O pleito municipal de 2012 contribuiu para nos proporcionar a elaboração de um mapa político eleitoral nacional atualizado e detalhado a partir das eleições municipais. Após a vitória do PT (Partido dos Trabalhadores) no pleito presidencial de 2010, no qual o presidente Lula que, após oito anos de governo, conseguiu eleger sua sucessora em um confronto plebiscitário, conseguindo de maneira espetacular a eleição da primeira mulher ao cargo máximo da política nacional, conjecturou se que o jogo de forças entre os grandes partidos nacionais seria equacionado. Este mapa político nacional pode se iniciar com as eleições municipais de 2012, pois as eleições municipais possuem características que podem ser decisivas aos planos estaduais e nacionais dos partidos políticos, conforme observamos com PETER (2001): (...) cada prefeito, vice-prefeito e vereador tem suas ligações políticas com seus partidos, com deputados estaduais, federais e senadores e com o governador. Serão eles que em cada município, irão apoiar os futuros candidatos a esses cargos, e também os candidatos à Presidência da Republica. (PETER, 2001, p.183).

Sendo assim é importante para um partido conseguir uma base sólida nos municípios, desta maneira quanto maior for à estrutura de um partido nos municípios maior a tendência de 36


sucesso em outros níveis da política eleitoral nacional, pois as eleições municipais são de extrema importância por causa da proximidade com o eleitorado. As eleições municipais são muito importantes, por vários motivos: em primeiro lugar, os vereadores, prefeitos e vice-prefeitos são os representantes mais próximos dos eleitores e de seus problemas. São eles que vão mexer com as dificuldades dos trabalhadores e podem ser fiscalizados com maior facilidade. (Peter, 2001, p.183).

A estruturação do mapa político brasileiro após o pleito de 2012 deve iniciar se com a análise das bases eleitorais dos partidos ao pleito, pois assim é possível o dimensionamento de cada partido antes do pleito, uma maneira segura de avaliar o sucesso do partido após a divulgação dos resultados das urnas. A tabela 1 nos mostra, segundo dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) o número de filiações de cada partido antes do pleito de 2012. Tabela 1 – Número de filiações partidárias em 2012 Posição Nome 1° Partido do Movimento Democrático Brasileiro 2° Partido dos Trabalhadores 3° Partido Progressista 4° Partido da Social Democracia Brasileira 5° Partido Democrático Trabalhista 6° Partido Trabalhista Brasileiro 7° Democratas 8° Partido da República 9° Partido Socialista Brasileiro 10° Partido Popular Socialista 11° Partido Social Cristão 12° Partido Comunista do Brasil 13° Partido Verde 14° Partido Republicano Brasileiro 15° Partido da Mobilização Nacional

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Sigla PMDB PT PP PSDB PDT PTB DEM PR PSB PPS PSC PCdoB PV PRB PMN

Filiados 2.355.472 1.549.180 1.416.116 1.354.479 1.208.095 1.180.954 1.095.099 763.919 577.036 467.230 364.600 337.185 335.836 287.179 216.190

Fonte: TSE - 2013


A tabela 2 nos mostra, por partido, os números de candidatos aos pleitos de 2012, 2008 e uma comparação entre as duas eleições, assim sendo podemos realizar o dimensionamento de cada partido ao longo dessas disputas. Tabela 2 - Número de candidatos e número de eleitos por partido no pleito municipal de 2012

Partido PMDB PSDB PT PSD PP PSB PDT PTB DEM PR PPS PV PSC PRB PC do B PMN PT do B PRP PSL PTC PHS PRTB PPL PTN PSDC PSOL

2012

2008

Candi % datos Eleitos sucesso 2259 1024 45,30% 1622 702 43,30% 1779 635 35,70% 1092 497 45,50% 1074 469 43,70% 1033 442 42,80% 837 311 37,20% 819 295 36,00% 729 278 38,10% 705 275 39,00% 429 123 28,70% 411 96 23,40% 309 83 26,90% 299 78 26,10% 226 56 24,80% 177 42 23,70% 107 26 24,30% 134 24 17,90% 112 23 20,50% 90 19 21,10% 119 17 14,30% 100 16 16,00% 49 12 24,50% 80 12 15,00% 88 9 10,20%

Candi % datos Eleitos sucesso 2551 1201 47,10% 1719 791 46,00% 1618 558 34,50%

348

2

0,60%

1172 852 947 962 1188 883 507 374 237 249 185 163 81 85 92 90 88 86

551 310 352 413 496 385 123 75 57 54 41 42 8 17 15 13 13 11

90 86 274

Comparação Variação Variação 20082008-2012 2012 Candidatos Eleitos -11% -15% -6% -11% 10% 14%

47,00% 36,40% 37,20% 42,90% 41,80% 43,60% 25,40% 20,10% 24,10% 21,70% 22,20% 25,80% 9,90% 20,00% 16,30% 14,40% 14,80% 12,80%

-8% 21% -12% -15% -39% -20% -15% 10% 30% 20% 22% 9% 32% 58% 22% 0% 35% 16%

-15% 43% -12% -29% -44% -29% 0% 28% 46% 44% 37% 0% 225% 41% 53% 46% 31% 45%

16 17,80% 8 9,30%

-11% 2%

-25% 13%

0

0,00% Fonte: TSE - 2013

Tão importante quanto o número de candidatos de um partido durante um pleito e o percentual de sucesso obtido é a análise mais detalhada dos sucessos obtidos, possibilitando verificar a curva de ascensão ou queda de determinado partido de uma eleição à outra.

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A tabela 3 demonstra o sucesso dos partidos no pleito de 2012, além de realizar uma comparação com a disputa de 2008 e verificar a variação entre as eleições. Pode se perceber ao analisar os dados que entre os 10 maiores partidos (com relação ao número de prefeitos eleitos em 2008) apenas dois partidos não perderam cadeiras no pleito de 2012, PT e PSB. Outro fator relevante é a criação do PSD que obteve expressivos resultados no pleito, conseguindo alcançar a marca de quarto maior partido com relação aos prefeitos eleitos. Tabela 3 - Número de prefeituras conquistadas por partido Partido Pleito de 2012 Pleito de 2008 Variação 2008-2012 PMDB 1.024 1.201 -17% PSDB 702 791 -13% PT 635 558 12% PSD* 497 PP 469 551 -17% PSB 442 310 30% PDT 311 352 -13% PTB 295 413 -40% DEM 278 496 -78% PR 275 385 -40% PPS 123 129 -5% PV 96 75 22% PSC 83 57 31% PRB 78 54 31% PC do B 56 41 27% PMN 42 42 0% PT do B 26 8 69% PRP 24 17 29% PSL 23 15 35% PTC 19 13 32% PHS 17 13 24% PRTB 16 11 31% PPL* 12 PTN 12 16 -33% PSDC 9 8 11% PSOL 2 0 100% Fonte: TSE - 2013

Além do número de prefeituras governadas por um partido, existem outras maneiras de se dimensionar a força estrutural de um partido, na tabela 4 observamos outro quesito importante nas estratégias de crescimento e fortalecimento eleitoral de um partido: o número de eleitores.

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Na análise destes dados com os de número de prefeituras conquistadas observamos que os partidos são os mesmos com alterações na ordem em que cada partido aparece. Tabela 4 – Número de habitantes que governará Partido PT PMDB PSDB PSB PDT PSD PP DEM PR PTB PPS PC do B PV PRB PSC PTC PMN PTN PRP PSOL PSL PHS PT do B PRTB PPL PSDC

Habitantes (em milhões) 37,140 30,670 25,180 20,900 11,990 11,840 9,750 8,710 6,250 5,530 3,980 3,120 3,110 2,180 2,100 1,240 0,746 0,677 0,665 0,421 0,402 0,387 0,380 0,358 0,255 0,160

% da população 19,74% 16,30% 13,39% 11,11% 6,37% 6,29% 5,18% 4,63% 3,32% 2,94% 2,12% 1,66% 1,65% 1,16% 1,12% 0,66% 0,40% 0,36% 0,35% 0,22% 0,21% 0,21% 0,20% 0,19% 0,14% 0,08%

Fonte: TSE - 2013

Os dados pertinentes ao número de eleitores nas cidades governadas por determinado partido é importante, pois dimensiona o nível de influencia possível de ser alcançado pelo partido nos próximos pleitos, com esse objetivo a tabela 5 ao demonstrar a votação de cada partido nos dois turnos das eleições de 2012 nos proporciona um comparativo entre o número de eleitores que serão governados por cada partido e a votação alcançada no último pleito.

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Tabela 5 - Votos recebidos no pleito de 2012 (em milhões) 1º Turno 2º Turno Partido Votos % Votos % PT 17,260 16,8% 6,990 30,0% PMDB 16,670 16,2% 1,950 8,4% PSDB 13,940 13,5% 5,640 24,2% PSB 8,660 8,4% 1,670 7,2% PDT 6,250 6,1% 1,550 6,7% PSD 5,850 5,7% 0,602 2,6% PP 5,380 5,2% 0,583 2,5% DEM 4,540 4,4% 0,840 3,6% PTB 4,040 3,9% 0,375 1,6% PR 3,770 3,7% 0,440 1,9% PRB 2,520 2,4% 0,106 0,5% PPS 2,450 2,4% 0,341 1,5% PSOL 2,390 2,3% 0,437 1,9% PV 2,130 2,1% 0,229 1,0% PC do B 1,880 1,8% 0,791 3,4% PSC 1,680 1,6% 0,387 1,7% PMN 0,568 0,6% 0,000 PTC 0,407 0,4% 0,281 1,2% PRP 0,396 0,4% 0,000 PTN 0,348 0,3% 0,000 PRTB 0,318 0,3% 0,084 0,4% PHS 0,311 0,3% 0,000 PT do B 0,295 0,3% 0,000 PSL 0,287 0,3% 0,000 PSDC 0,227 0,2% 0,000 PSTU 0,176 0,2% 0,000 PPL 0,147 0,1% 0,000 PCB 0,045 0,0% 0,000 PCO 0,004 0,0% 0,000

Fonte: TSE - 2013

Assim como o número de eleitores sob a administração e o governo de determinado partido é muito relevante a análise dos recursos geridos por este partido, pois toda eleição tem características próprias, mas, com certeza, a influência financeira é comum a todas, quanto mais realizações determinado partido puder “apresentar” como conquista e realização de seu partido ou de seus apoiadores mais serão ligados a uma imagem positiva de competência gestora e realizadora de um partido e um candidato.

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Na tabela 6 podemos observar a força financeira de cada partido ao gerir os recursos das cidades conquistadas no pleito de 2012, mais uma vez podemos perceber que os dez partidos com maiores receitas são os mesmos que conquistaram mais cidades com alteração na ordem de classificação e podemos observar também que essa ordem é a mesma da tabela 4 que correlaciona os números de eleitores sob governo de determinado partido. Tabela 6 - Receitas a serem geridas pelo partido após o pleito 2012 Partido PT PMDB PSDB PSB PDT PSD PP DEM PTB PR PPS PV PC do B PSC PRB PTC PMN PTN PRP PSL PT do B PHS PSOL PRTB PPL PSDC

R$(em bilhões) 70,340 52,410 40,710 33,010 21,040 17,400 16,060 13,270 8,520 7,100 6,120 5,940 4,570 3,420 2,380 1,870 1,030 0,757 0,730 0,589 0,474 0,467 0,460 0,341 0,293 0,122

% nacional 22,73% 16,94% 13,15% 10,67% 6,80% 5,62% 5,19% 4,29% 2,75% 2,30% 1,98% 1,92% 1,48% 1,10% 0,77% 0,60% 0,33% 0,24% 0,24% 0,19% 0,15% 0,15% 0,15% 0,11% 0,09% 0,04%

Fonte: TSE - 2013

Como exemplo de exercício direto do voto na escolha do destino municipal ilustra se este trabalho com análise da transição de poder nos governos federal, estadual (estado de São Paulo) e

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municipal (com exemplos de duas cidades paulista, uma em que ocorreu a transição partidária no poder executivo e outra em que manteve se a governança municipal). 3. Análise da alternância de poder na Esfera Federal Neste período democrático o Brasil vivenciou seis eleições para a Presidência da República, com os seguintes resultados demonstrados na tabela7. Tabela 7 – Resultados das eleições presidenciais Eleição Candidatos Votação Collor (PRN) 35.089.998 1989 Lula (PT) 31.076.364 FHC (PSDB) 34.350.217 1994 Lula (PT) 17.112.255 FHC(PSDB) 35.936.382 1998 Lula (PT) 21.475.211 Lula (PT) 52.793.364 2002 Serra(PSDB) 33.370.739 Lula (PT) 58.295.042 2006 Alckmin (PSDB) 37.543.178 Dilma(PT) 55.752.529 2010 Serra(PSDB) 43.711.388

% válidos 53,03 46,97 54,28 27,04 53,06 31,71 61,27 39,73 60,83 39,17 56,05 43,95

Turno 2º 1º 1º 2º 2º 2º

Fonte: TSE - 2013

Na esfera federal pode se perceber que a disputa ficou polarizada entre PT e PSDB com a decisão ocorrendo no segundo turno nos pleitos polarizados de 2002, 2006 e 2010. Nos pleitos de 1994 e 1998 as eleições foram decididas em apenas um turno, fator que demonstra a força eleitoral conseguida pelo governo que foi reeleito. Importante ressaltar a presença do candidato Lula em todas as eleições presidenciais desta recente democracia brasileira, sendo que apenas nas eleições de 2010 ele não foi candidato, mas mesmo assim foi personagem decisivo para a eleição de sua sucessora a candidata Dilma Rousseff. Outro fator relevante que merece análise é o fato de que em 2002 o PT consegue interromper um ciclo de três mandatos ligados ao PSDB (pois após o Impeachment do expresidente Collor o governo foi assumido por Itamar Franco no qual FHC exerceu papel determinante) e se mantem no poder também por três mandatos consecutivos. Essa polarização se repetiu em diversos cenários estaduais, se não com os mesmos partidos (PSDB x PT) com partidos aliados, na disputa estadual de São Paulo a polarização repetiu a nacional, inclusive com os partidos.

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4. Análise da alternância de poder na Esfera Estadual Paulista Assim como na esfera federal as disputas no estado de São Paulo nas últimas eleições foram polarizadas entre PT e PSDB, sendo que no estado os resultados foram os seguintes. Tabela 8 – Resultados das eleições estaduais no Estado de São Paulo

Eleição 1994 1998 2002 2006 2010

Candidatos

Votação

% válidos

Mario Covas Junior – PSDB

8.661.960

56,12

Francisco Rossi de Almeida – PDT

6.771.454

43,88

Mário Covas Junior – PSDB

9.800.253

55,36

Paulo Salim Maluf – PPB

7.900.598

44,64

Geraldo Alckmin – PSDB

12.008.819

58,64

Jose Genoíno Neto – PT

8.470.863

41,36

José Serra – PSDB

12.381.038

57,93

Aloizio Mercadante– PT

6.771.582

31,68

Geraldo Alckmin – PSDB

11.519.314

50,59

Aloizio Mercadante – PT

8.016.866

35,21

Turno 2º 2º 2º 1º 1º

Fonte: TSE - 2013

Nas eleições diretas para o governo de São Paulo percebe-se o domínio absoluto do PSDB nos pleitos desde 1994, sendo que nas três últimas disputas a polarização nacional é repetida na disputa estadual. Entretanto, o resultado é diferente, pois na disputa presidencial o partido vencedor é o PT enquanto que no estado de São Paulo o PSDB continua sua hegemonia estadual, sendo que nos dois últimos pleitos a vitória é alcançada ainda em primeiro turno. 5. Alternância no Poder Executivo em São José dos Campos/SP Como exemplo de opção pela alternância no governo municipal cita se a cidade de São José dos Campos/SP, que reflete na esfera municipal o embate ocorrido em nível federal e estadual (São Paulo) com a polarização partidária entre PSDB e PT. São José dos Campos é a maior cidade da Região Metropolitana do Vale do Paraíba, com 643 603 habitantes, 455.440 eleitores e IDHM de 0,805 é cidade com grande viés tecnológico e industrializado, conhecido e importante polo tecnológico com empresas de porte multinacional e importantes centros de pesquisas.

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No comportamento eleitoral das últimas eleições podemos observar pela tabela 9 que a cidade esteve polarizada entre a disputa eleitoral entre os partidos PSDB e PT, refletindo a disputa ocorrida nos cenários nacional e estadual. Na eleição de 2012 ocorreu a alternância de poder no executivo municipal, após quatro mandatos consecutivos do PSDB, o PT consegue vencer a disputa municipal. Tabela 9 – Resultados das eleições municipais em São José dos Campos/SP Eleição Candidatos Votação % válidos Turno Emanuel Fernandes – PSDB 137.339 62,96 1996 2º Pedro Yves Simao – PMDB 80.782 37,04 2000

Emanuel Fernandes – PSDB Angela Moraes Guadagnin – PT

151.018 96.003

57,25 37,39

2004

Eduardo Pedrosa Cury – PSDB Carlos José De Almeida – PT

179.705 101.826

57,65 63,67

2008

Eduardo Pedrosa Cury – PSDB Carlos José De Almeida – PT

187.930 134.428

56,27 40,25

2012

Carlos Jose De Almeida – PT Alexandre Blanco Nema – PSDB

180.794 153.011

50,98 43,15

Fonte: TSE - 2013

Com certeza o novo governo enfrentou grandes desafios para conseguir interromper o longo ciclo de poder do PSDB na cidade. Agora, vencido este desafio, o próximo desafio da gestão municipal é encontrar o ponto de equilíbrio entre manter os acertos da antiga administração e conseguir dar uma dinâmica e uma identidade própria da nova gestão, criando assim uma marca que possa ser reconhecida pelos eleitores e permita iniciar um ciclo de poder do novo partido governante. 6. Continuidade no Poder Executivo de Jacareí/SP Como exemplo de opção pela continuidade no governo municipal citamos a cidade de Jacareí/SP, que também reflete na esfera municipal o embate ocorrido em nível federal e estadual (São Paulo) com a polarização partidária entre PSDB e PT. Jacareí também é cidade da Região Metropolitana do Vale do Paraíba, com 211.214 habitantes, 153.748 eleitores e IDHM de 0,777 é cidade com grande nível de industrialização, mas em sua economia os setores de serviços e comércio tem grande influência na população ativa do município.

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Tabela 10 – Resultados das eleições municipais em Jacareí/SP Eleição Candidatos

Votação

% válidos

1996

Benedicto Sergio Lencioni – PSDB Judith De Oliveira Lima de Alcantara – PT

35.234 23.043

41,36 28,14

2000

Marco Aurélio de Souza – PT Carlos Tokuiti Amagai – PP

52.984 19.931

52,98 19,93

2004

Marco Aurélio de Souza – PT Maurício Aparecido Haka – PSDB

49.204 29.308

44,95 26,77

2008

Hamilton Ribeiro Mota – PT mauricio aparecido haka – DEM

55.319 40.960

48,85 36,17

2012

Hamilton Ribeiro Mota – PT Izaias Jose De Santana

54.203 48.883

47,63 42,95 Fonte: TSE - 2013

Os desafios encontrados pelo prefeito reeleito é realizar a continuidade da gestão na cidade de Jacareí e ao mesmo tempo conseguir trazer inovações a um governo que comanda o município desde o pleito de 2000. Considerações Finais O sufrágio universal democrático foi respeitado nas eleições brasileiras de 2012. Em todo o país, na totalidade dos municípios, os eleitores tiveram a possibilidade de exercer o direito de escolha de seus representantes. Logicamente, por viés técnico e legal da Justiça Eleitoral, nem todos os municípios tiveram a mesma dinâmica de validação de resultados, o que não desmerece em momento algum o processo promovido pelo TSE. Os resultados eleitorais de 2012, já que são eleições municipais, delinearam o mapa político para eleições presidenciais de 2014. Esse dinamismo político faz parte do sistema nacional e permite que os partidos, dentro das suas possibilidades legais, possam articular suas estratégias para conquista de poder e coalizões eleitorais. A conquista de grandes cidades permite que um determinado partido político consiga grande poder de barganha no processo eleitoral macro político. O uso político dos governos municipais abrem possibilidades para o cenário estadual e federal nas eleições de 2014 tanto para os partidos que conseguiram se fortalecer quanto para os partidos que saem do pleito de 2012 um pouco encolhidos. Essas possibilidades, se devidamente trabalhadas e aproveitadas pelos profissionais de comunicação e marketing político dos partidos, podem viabilizar aos partidos políticos criarem uma nova configuração de poder para o próximo confronto com as urnas. Todavia, é pertinente diante das considerações finais lavrar o novo cenário 46


apresentado para as eleições de 2014, depois das inúmeras manifestações sociais ocorridas no primeiro semestre de 2013 em todo o país, demonstrando um descontentamento generalizado na representação política em todas as esferas do poder. As agremiações partidárias e os políticos, seja no executivo ou legislativo, foram colocados em uma situação de fragilidade eleitoral, expostos na mídia e com baixa credibilidade eleitoral. O que será pertinente e interessante ocorrer em todos os partidos, bem como seus respectivos candidatos é a capacidade de articular estratégias comunicacionais eleitorais que contribuam para o fortalecimento das campanhas e consequentemente, a conquista da respeitabilidade do eleitoral. Referências Bibliográficas BOBBIO, Norberto. O futuro da democracia: uma defesa das regras do jogo. Tradução de Marco Aurélio Nogueira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986 GOMES, José Jairo. Direito Eleitoral. São Paulo: Atlas, 2013. LIMA JÚNIOR, O. B. Democracia e instituições políticas no Brasil dos anos 80. São Paulo: Loyola, 1993. PETER, Cynthia. Ecos da Terra. Org Osvaldo Russo. Brasília: Thesaurus, 2001. SOARES, Murilo César. Representações, Jornalismo e a esfera pública democrática. São Paulo – Cultura Acadêmica – 2009 TÔRRES, Heleno Taveira. (coord). Direito e poder: nas instituições e nos vaores do público e do privado contemporâneos. Barueri, SP: Manole, 2005. <http://www .embaixadaamericana.org.br/democracia/what.htm>. Acessado em 18 set. 2013. <http://www .ibge.gov.br> Acessado em 18 set. 2013. <http://www .tse.jus.br>. Acessado em 18 set. 2013.

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Comunicação política, mobilização e engajamento: 1 O caso “Reaja Piracicaba” Daniela Rocha2 ISCA Faculdades Victor Kraide Corte Real 3 UNIMEP e PUC-Campinas

Resumo: Em julho de 2011, a Câmara dos Vereadores do município de Piracicaba/SP votou a favor do aumento salarial de 66% dos vereadores. Apesar de legal, o reajuste foi considerado imoral por uma parcela dos piracicabanos, fato que deflagrou, cerca de um ano depois, a mobilização popular que ficou conhecida como Reaja Piracicaba. O presente texto visa discutir o caso a partir da ótica da Comunicação Política e do Capital Social. Tomando como referência os desdobramentos noticiados pela imprensa local e a repercussão nas redes sociais da internet. O objetivo central é comparar as estratégias de mobilização e de engajamento promovidas pelo Reaja Piracicaba e as ações de contra propaganda coordenadas pela Câmara dos Vereadores de Piracicaba. Palavras-chave: Propaganda Política, Jornalismo, Capital Social, Internet. 1. Comunicação, Esfera Pública e Sociedade de Rede A perspectiva de Habermas, na primeira fase de suas reflexões, marcada pela publicação de “Mudança estrutural na Esfera Pública” no início da década de 1960, considera a esfera pública como “um sistema de alarme dotado de sensores não especializados, porém, sensíveis no âmbito de toda a sociedade”. Assim, “a esfera pública tem que reforçar a pressão exercida pelos problemas, ou seja, ela não pode limitar-se a percebê-los e a identificá-los, devendo (...) tematizálos, problematizá-los e dramatizá-los de modo convincente e eficaz, a ponto de serem assumidos e elaborados pelo complexo parlamentar” (HABERMAS, 2003, p. 91). Segundo Ângela Marques (2008, p. 24) “o conceito de esfera pública aparece ligado à ascensão da burguesia e aos espaços nos quais os integrantes dessa classe se reuniam publicamente para argumentar e expressar razões e juízos acerca de questões e problemas 1

Trabalho apresentado ao GT 5 – Comunicação Política, Pós-eleitoral e Governamental do XII Congresso XII Congresso Brasileiro de Comunicação Política e Marketing Eleitoral – Juiz de Fora (MG)

2 3

Mestre em Comunicação pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), e-mail: danis.rocha@yahoo.com.br Doutorando em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes (ECA/USP), e-mail: realvic@gmail.com

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relativos à coletividade”. A partir disso, a autora menciona a abordagem negativa de Habermas diante dos meios de comunicação como não sendo benéficos à constituição e ao fortalecimento de uma esfera pública voltada para o esclarecimento recíproco. Marques vai além e aponta a influência de Adorno e Horkheimer ao conduzir Habermas a afirmar que: Os meios de comunicação e, principalmente, a imprensa, seriam os responsáveis pela perda da capacidade crítica do público e pelo conseqüente declínio da esfera pública, uma vez que perderam sua função crítica para atuarem „apenas como transmissores de propagandas‟ (MARQUES, 2008, p. 24).

Sendo que o princípio de “publicidade”, nesse contexto apontado por Marques ao citar Habermas, adquire dois sentidos distintos, mas complementares: o primeiro relativo ao “dar a ver”, tornar pública a troca de argumentos entre cidadãos; e o segundo confere à publicidade o status de “regulador” do processo de justificação pública, chegando a impor constrangimentos à ação e ao discurso dos interlocutores. Assim, a crítica de Habermas nessa abordagem inicial de esfera pública relacionada à mídia, destaca que os meios de comunicação passaram a “fabricar” uma opinião “não-pública” cuja origem não é o processo de troca pública de razões, mas o resultado da imposição de vontades particulares (MARQUES, 2008, p. 24). Em suas obras posteriores (1987, 2006), Habermas revê seu posicionamento a respeito da atuação dos media na esfera pública, no entanto Ângela Marques (2008, p. 24) julga necessário ressaltar que “suas críticas feitas permanecem atuais no que diz respeito ao modo como a produção da informação jornalística é limitada por diversos tipos de constrangimentos externos e internos”. Em suas abordagens mais recentes, Habermas não deixa de reafirmar os aspectos contraditórios dos meios de comunicação, mas também considera que algumas características específicas do sistema dos media são “tidas como essenciais ao fortalecimento e à manutenção das estruturas deliberativas que fazem parte da dinâmica democrática das sociedades contemporâneas” (MARQUES, 2008, p. 25). Não pretendemos entrar na discussão a respeito da circulação do poder político, feita por Habermas em “Direito e Democracia” (2003), tendo como referência o esquema de centro e anéis periféricos proposto por Bernhard Peters. Nossa intenção é relacionar os conceitos de Habermas, a respeito dos três tipos de esfera pública, com a tipologia de redes de Nieminen, comentada por Peter Dahlgren (2009). Podemos afirmar, portanto, que não é possível uma reflexão sobre a esfera pública desconectada da noção de sociedade civil. Afinal, segundo Habermas, a sociedade civil:

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não inclui mais a economia constituída através do direito privado e dirigida através do trabalho, do capital e dos mercados de bens, como ainda acontecia na época de Marx e do marxismo. O seu núcleo institucional é formado por associações livres, não estatais e não econômicas, as quais ancoram as estruturas de comunicação da esfera pública nos componentes sociais do mundo da vida (HABERMAS, 2003, p. 99). A sociedade civil, para Habermas, é composta por diferentes movimentos e entidades, “(...) os quais captam os ecos dos problemas sociais que ressoam nas esferas privadas, condensam-nos e os transmitem, a seguir, para a esfera pública política” (HABERMAS, 2003, p. 99). Habermas enfatiza que a sociedade civil ocupa uma “posição assimétrica em relação às possibilidades de intervenção” e que “apesar das limitadas capacidades de elaboração, tem a chance de mobilizar um saber alternativo e de preparar traduções próprias, apoiando-se em avaliações técnicas especializadas” (HABERMAS, 2003, p. 106). O fato de o público ser composto de leigos e de a comunicação pública se dar numa linguagem compreensível a todos não significa necessariamente um obscurecimento das questões essenciais ou das razões que levam a uma decisão. Porém a tecnocracia pode tomar isso como pretexto para enfraquecer a autonomia da esfera pública, uma vez que as iniciativas da sociedade civil não conseguem fornecer um saber especializado suficiente para regular as questões discutidas publicamente, nem traduções adequadas (HABERMAS, 2003, p. 106).

Segundo Habermas (2003, p. 106) a sociedade civil pode, “em certas circunstâncias, ter opiniões públicas próprias, capazes de influenciar o complexo parlamentar (e os tribunais), obrigando o sistema político a modificar o rumo do poder oficial”. Todavia, a chamada sociologia da comunicação de massas não acredita nas alternativas das tradicionais esferas públicas do Ocidente, todas elas altamente dominadas pelo poder e, por conseguinte, pela mídia. Movimentos sociais, iniciativas de sujeitos provados e de foros civis, uniões políticas e outras associações, numa palavra, os agrupamentos da sociedade civil, são sensíveis aos problemas, porém os sinais que emitem e os impulsos que fornecem são, em geral, muito fracos para despertar a curto prazo processos de aprendizagem no sistema político ou para reorientar processos de decisão (HABERMAS, 2003, p. 107).

O filósofo defende a existência de três tipos de esfera pública, de acordo com o nível de densidade da comunicação, complexidade organizacional e alcance: 1) Esfera Pública Episódica: representada por encontros e reuniões casuais entre pessoas conhecidas, por exemplo, em bares e cafés; 2) Esfera Pública Organizada: com finalidades e objetivos melhor definidos, formada a partir de encontro de pais, eventos culturais, reuniões de partidos e congressos de igrejas; 3) Esfera Pública Abstrata: produzida pela mídia, contando com a participação de 50


leitores, ouvintes e espectadores singulares e espalhados globalmente. Inseridos nesses vários tipos de esfera pública: Existem atores que podem ser identificados como partidos políticos ou como organizações econômicas, como representantes de grupos profissionais, de associações protetoras de inquilinos etc., ao passo que outro tipo de atores tem que produzir primeiro as características que os identificam. Isso pode ser constatado claramente em movimentos sociais que atravessam inicialmente uma fase de auto-identificação e de autolegitimação (o que também vale para atores da sociedade civil em geral); mas tarde eles continuam a exercer uma “identity-politics”, paralela às suas políticas pragmáticas – pois, eles têm que certificar-se, a cada passo, de sua identidade (HABERMAS, 2003, p. 109).

Paralelamente, Peter Dahlgren (2009, p. 158) apresenta a morfologia social baseada em redes como uma opção que vem crescendo e sendo utilizada para compreender o mundo moderno. Ele argumenta que as atualizações feitas por Habermas sobre os conceitos de esfera pública (1996, 2006), trabalham basicamente com o modelo de redes, apesar de não mencionar diretamente a Internet naquelas análises. Na sequência de pensamento, Dahlgren considera a expressão “Sociedade de Rede”, ao invés de “Sociedade da Informação”, como uma metáfora mais acessível para estudar as tendências de desenvolvimento e a realidade social. Dessa forma, ele recorre e adapta a proposta de tipologia de Nieminen (2007), que divide as redes em quatro possibilidades: 1) Redes Associativas: mais informais e essencialmente voluntárias (relações de amizade, hobby, por exemplo); 2) Redes Societais: relações de pertencimento a uma categoria (profissional, por exemplo), a partir de certas circunstâncias sociais; 3) Redes Afirmativas ou de Interesse: tem caráter deliberativo e objetivo de influenciar decisões, apresentam viés político e de engajamento público; 4) Redes Impostas: relações de nacionalidade, mais extensas (envolve os cidadãos, por exemplo) e com atribuições de direitos e obrigações. O autor argumenta que podemos viver praticamente a maior parte do tempo entre essas redes sociais. Além disso, vivemos cada vez mais nessas redes com a ajuda das tecnologias da informação. E aqui, Dahlgren (2009, p. 159) retoma a análise de capital social de Putnam (2000), afirmando a importância das redes no sentido de que, quanto mais uma pessoa estiver conectada, melhor poderá exercer sua cidadania. Além disso, ao participar de diferentes redes sociais, as pessoas podem representar pontos de intersecção, por meio dos quais diferentes redes se conectam, dessa forma ela tende a ser bem aceita ou importante nas redes em que participa. E 51


boa parte desse status deriva da capacidade da pessoa de dialogar com a tecnologia e com a internet. Potencialmente, a ação política pode surgir em qualquer dessas redes, mas é no terceiro tipo que a agência cívica geralmente se manifesta. Justamente esse tipo de rede social afirmativa, formada por interesse e com caráter deliberativo, poderia servir como contraponto a esfera pública formada pela mídia, denominada por Habermas como abstrata e que, segundo os argumentos dele, pode funcionar como barreira, já que os jornalistas coletam informações e decidem os temas/questões que ganham visibilidade. “Esses processos de seleção tornam-se fonte de uma nova espécie de poder, ou poder da mídia, o qual não é controlado suficientemente pelos critérios profissionais” (HABERMAS, 2003, p. 110). De acordo com o pensamento de Habermas: Os produtores da informação impõem-se na esfera pública através de seu profissionalismo, qualidade técnica e apresentação pessoal. Ao passo que os atores coletivos, que operam fora do sistema político ou fora das organizações sociais e associações, têm normalmente menos chances de influenciar conteúdos e tomadas de posição dos grandes meios (HABERMAS, 2003, p. 110).

Por fim, o filósofo argumenta que: A personalização das questões objetivas, a mistura entre informação e entretenimento, a elaboração episódica e a fragmentação de contextos formam uma síndrome que promove a despolitização da comunicação pública (HABERMAS, 2003, p. 110).

As questões que aqui permanecem estão relacionadas com a força das redes sociais, especialmente as estabelecidas e/ou fortalecidas pela Internet, com caráter afirmativo, de interesse e de deliberação. Dessa forma, compartilho as mesmas dúvidas apontadas por Wilson Gomes (2011), ao mencionar diversos outros pesquisadores, em seu artigo “Participação política online: Questões e hipóteses de trabalho”: Teria a internet estancado a perda de capital social? Teria o emprego de comunicações, via computadores, conseguido produzir novas formas de participação política e de engajamento cívico? São apenas alguns dos questionamentos que os estudos sobre Esfera Pública e Capital Social ainda não dão conta de responder com precisão, e que pretendo ajudar a responder a partir deste estudo de caso. 2. O movimento Reaja Piracicaba Em meados de 2011, a OAB Regional, a ONG Imaflora e a Associação dos Moradores do Parque 1º de Maio decidiram promover reuniões públicas junto à sociedade piracicabana, a fim de debater assuntos de interesse coletivo, visando à execução da 1ª Conferência Municipal sobre Transparência e Controle Social de Piracicaba, que reuniu 147 pessoas e ocorreu durante todo o dia 22 de outubro, no Centro Cívico de Piracicaba. Após todo o dia de debate foi redigido um 52


4

documento com as 20 propostas do Conselho Social da cidade, que foi encaminhado à Câmara de Vereadores da cidade no mês seguinte. Naquele mesmo período do ano, foram realizadas as conferências estadual e nacional, a fim de fomentar a discussão das práticas políticas em todas as esferas de poder do país. De 5

acordo com uma das mentoras do movimento piracicabano Reaja Piracicaba, Ninfa Barreiros , a entrada do documento à Câmara de Piracicaba objetivava a inserção das temáticas das propostas na pauta de discussão dos vereadores, fortalecendo assim a criação do Conselho Social e de Transparência na cidade. Apesar do intento, segundo Ninfa, “enquanto ocorriam as negociações, a Câmara elaborou projeto que previa o reajuste do subsídio dos legisladores”. Assim, o subsídio que até então pairava nos R$ 6.570,00 mensais, passou a ser acrescido pela proposta dos 66% de reajuste, chegando a cifra de R$ 10.900,00 mensais, destinados a cada edil piracicabano. Os integrantes do Reaja Piracicaba continuaram promovendo reuniões e trocando experiências com movimentos similares espalhados pelo interior do Estado de São Paulo, como eram os casos de Araraquara e Ribeirão Preto que também reivindicavam pela revogação do reajuste abusivo dos legisladores. “O grupo começou a frequentar as sessões de Câmara, promovendo manifestações que pediam a revogação do reajuste, o que não ocorreu. Assim, foram elaborados dois projetos de iniciativa popular: um para revogar e outro para alterar a Lei Orgânica do município na parte em que diz que o reajuste pode ser feito sem precedentes, para o 6

aumento de acordo com a inflação vigente, em todo país” . Apesar das manifestações realizadas dentro e fora do Poder Legislativo da cidade e, principalmente, nas redes sociais e nas aparições midiáticas, o movimento percebeu os entraves das reivindicações. “Tivemos colegas que rasparam a cabeça para chamar a atenção. Fizeram de tudo! Mas coletando assinaturas para o abaixo assinado, nós vimos que a maioria da população não tem consciência do que é o titulo de eleitor. Não sabem nem quem é o prefeito da cidade. Não tem noção que pagando IPTU, comprando uma latinha de massa de tomate estão pagando imposto. O IPVA do carro, a passagem que não é subsidiada. Tudo isso! A população não tem noção de cidadania, nem de seus direitos. Com titulo de eleitor você muda o governo. Você faz 7

política com ele!” .

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Disponível nos anexos ao final deste texto. 5 Entrevista com Ninfa Barreiros cedida à Daniela Rocha, em Abril/2013. 6 Idem. 7 Entrevista cedida à Daniela Rocha, em Abril/2013.

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Autodefinido como apartidário e pacífico, o movimento Reaja Piracicaba passou a fazer parte das sessões da Câmara dos Vereadores de Piracicaba, um termo de compromisso foi redigido pelo grupo e encaminhado a todos os candidatos à eleição de 2012, sugerindo que, caso eleitos, se abstivessem da parcela de R$ 3.156,00, equivalente ao reajuste de 66% dos subsídios. 8

Entretanto, um dos membros do movimento e candidato à vereança em 2012, André Tietz , atesta um dos possíveis erros de mobilização do movimento. “Falam que [o Reaja] é apartidário, que não mexe com política e é tudo mentira. Tá cheio de politica envolvida lá dentro. O Reaja falhou durante a eleição, onde nós tivemos 450 candidatos e só 27 assinaram o termo de compromisso abrindo mão da diferença salarial. Se não bastasse apenas esses 27 candidatos, houve outra grande falha: não conseguiram fazer com que nenhum dos vereadores já eleitos assinassem o termo. Mas pelo menos um entrou: o Paulo Camolesi que está fazendo um excelente trabalho através do mandato coletivo e depositando essa diferença numa conta poupança”.

Eduardo Stella

9

, também membro do movimento discorda de Tietz e afirma que o

movimento sofreu muito com a desqualificação dos vereadores e da própria mídia. “Houve expulsão de membros ao fazer a leitura da bíblia, ou seja, pegaram possíveis erros para expulsar, sumariamente e arbitrariamente. Isso é a prova da falta de senso democrático que impera naquela Casa de Leis. Qualquer arbitrariedade era cometida contra os membros do Reaja Piracicaba. A gente foi tachado de bandido, de maconheiro, de louco, de alcoólatra, sendo que não é assim. Somos pessoas da sociedade civil que voluntariamente se prestam a fazer esse serviço de conscientização”. Um dos acontecimentos mais emblemáticos, noticiado em nível nacional, foi o entrave entre o presidente da Câmara de Vereadores, João Manoel dos Santos, e o membro do Reaja, Régis Monteiro, que se recusou a levantar no momento da leitura da passagem bíblica. Segundo o 10

diretor de comunicação do Poder Legislativo, Carlos Eduardo Gaiad , o tumulto começou com a argumentação de Régis de que o estado é laico, não porque ele se recusara a levantar. “A orientação foi que ele ficasse quieto ou se retirasse e isso acabou ocasionando todo um tumulto em torno desse caso. Em função disso, ele entrou no Ministério Público que enviou uma recomendação à Câmara no sentido em que tornássemos público a não obrigatoriedade de levantar-se na leitura da bíblia”. Régis

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afirma ter sofrido uma imposição autoritária, mas está

contente com a decisão do MP. “A partir de agora ninguém é mais obrigado a ficar de pé enquanto o secretário da mesa lê a passagem bíblica”. 8 Entrevista cedida à Daniela Rocha, em Abril/2013. 9 Entrevista cedida à Daniela Rocha, em Abril/2013. 10 Idem. 11 Idem.

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Quanto ao reajuste, mote que iniciou o movimento concomitante com as deliberações da 1ª Conferência de Controle social e Transparência de Piracicaba, Ninfa

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é incisiva ao concluir

que os vereadores “não consideram a imoralidade da ação [reajuste de subsídios] e a moral é o princípio do controle social da transparência que objetiva tentar acabar com a corrupção, vislumbrar outros canais de participação popular que é justamente para mudar esse sistema que está aí”. 3. O mandato coletivo de Camolesi Eleito com 2.414 votos pelo PV (Partido Verde), tornando-se o vereador mais votado da legenda, Paulo Camolesi

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exerce atualmente sua primeira legislatura na Casa de Leis de

Piracicaba. Ele conta que decidiu assinar o termo de compromisso elaborado pelo Reaja Piracicaba, por julgar imoral o reajuste. Apesar da decisão, confidencia que a situação ainda não está resolvida, uma vez que aguarda posicionamento do Ministério Público quanto ao depósito, atualmente realizado em conta poupança de sua titularidade. “Recebo R$10.900,00, com os descontos resta pouco mais de R$ 8 mil reais. Deste total, deposito R$ 3.156,00, referente ao reajuste, numa conta poupança, enquanto não tenho retorno de meu pedido de uma conta jurídica, a qual o investimento do dinheiro seria definido junto aos membros do mandato coletivo formado por integrantes do Reaja Piracicaba e do grupo Cidadania. É um mandato coletivo, o grupo que vai decidir!”. Camolesi também afirma ter optado pelo mandato coletivo no transcorrer da campanha eleitoral de 2012 objetivando a participação da população nas discussões de projetos e nas opiniões em votações. “Estamos trabalhando também para que esse mandato coletivo seja constituído em regiões da cidade, para que o povo comece a participar ativamente da política municipal. Há cada 15 dias ocorrem reuniões na sala da Câmara com a participação de uma média de 30 pessoas. No mandato coletivo uma pessoa comenta um problema e dizemos para reunir a população para que o vereador e toda sua equipe vá ao local do problema, conversar com os moradores e estimular a população a voltar a se reunir em um mês para dar continuidade ao processo”. 14

Para Camolesi , “democracia é a participação do povo. O povo participando e tomando as decisões. Decisões que vêm ao encontro das necessidades do povo”. O vereador piracicabano 12 Idem. 13 Entrevista cedida à Daniela Rocha, em Abril/2013. 14 Idem.

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defende que toda a população deve buscar conhecer seus direitos, afinal todos são contribuintes e não devem se esquecer da importância do comprometimento. “Primeiramente ele precisa se engajar num grupo. Tudo que é individual se torna egoísta. Acaba sendo uma coisa que não cresce e não contribuiu. Assim, a primeira coisa que o individuo deve se engajar é na sua comunidade, ver o que precisa. Tem que ser teimoso, perseverante. O sucesso de qualquer projeto é a perseverança de quem está na frente e... tem que lutar”. 4. A reação da Câmara dos Vereadores Segundo o Diretor de Comunicação da Câmara de Vereadores de Piracicaba, Carlos Eduardo Gaiad

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, a instituição legislativa do município somente tomou conhecimento da

mobilização promovida pelo Reaja no aniversário da cidade, em agosto de 2011. Na ocasião, membros do Reaja chegaram à Câmara protestando, momentos antes do início da sessão solene que homenageava o município, com algumas pessoas usando nariz de palhaço, a fim de chamar atenção para o reajuste dos legisladores piracicabanos. “Chegaram fazendo uma manifestação ruidosa e querendo de qualquer forma entrar na sessão solene para fazer o protesto com relação ao reajuste dos vereadores. A entrada foi impedida porque era uma sessão solene e eles não estavam devidamente trajados e nós, enquanto Câmara, não poderíamos permitir que um evento solene do aniversário da cidade fosse tumultuado, mesmo porque a maior parte dos vereadores não estavam na sessão e sim na inauguração da Ponte do Mirante”. Como os membros do movimento anunciaram que oito dias após a solenidade seria realizada uma nova manifestação, os funcionários do Poder Legislativo municipal se precaveram e colocaram em prática medidas, que segundo Gaiad, já existiam, porém nunca haviam sido utilizadas. Uma dessas medidas foi a identificação das pessoas que adentravam ao plenário da Casa de Leis e um maior controle da capacidade de participes no local, evitando superlotação. A entrada de pessoas indevidamente trajadas foi proibida. “Diante da possibilidade de uma nova postura agressiva, o risco era maior com o plenário superlotado. Eles se rebelaram de novo, ofenderam os funcionários em serviço, sendo que dos 50 manifestantes que vieram, 35 acabaram entrando. Foram lá dentro, gritaram de novo, manifestaram, fizeram apitaço, fotografaram, enfim, manifestaram da forma como quiseram. Esse é o Reaja Piracicaba que tomamos conhecimento”. Gaiad interpreta como sendo legítimos os movimentos populares, entretanto discorda do que 15 Entrevista cedida à Daniela Rocha, em Abril/2013.

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chama de “ríspida atuação” do movimento aqui abordado. “Alguns dos manifestantes estavam visivelmente alterados. Nós temos imagens de manifestantes bebendo cerveja, bebendo vodka. Temos imagem de um deles chegando no grupo e dizendo: eu não vim aqui por negócio de política. Meu negócio é anarquia, porque anarquia também é cultura. Então havia diversos grupos num movimento só”. Para Gaiad o que mais chamou a atenção nas manifestações do movimento foi o período em que ele foi deflagrado. “Em agosto de 2011 já fazia um ano e um mês que os subsídios tinham sido reajustados. Nesses 13 meses não houve nenhuma manifestação, apesar da imprensa ter noticiado e algumas pessoas se posicionarem contrariamente na sessão de cartas dos jornais”. O diretor de comunicação do Poder Legislativo

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ainda pontuou que o prazo para se fazer valer,

legalmente, a reivindicação de menor reajuste já havia sido expirado, e apesar de reconhecer que tal informação não foi propagada pela mídia, argumentou que existem ex-vereadores inseridos no movimento que sabiam do tempo em que a readequação poderia ser efetuada de forma legal. “Existe o período de anterioridade, existe um prazo, uma legislatura que mexe nos subsídios da posterior, mas tem um prazo. Quando o Reaja postulou pela redução dos subsídios, se mexesse nos salários, tinha que revogar a lei e se revogasse não tinha mais salário, então não tinha mais o que fazer. Eles defendiam uma causa indefensável”. Gaiad reconhece que inúmeras medidas preventivas foram usadas para minimizar “a ríspida atuação” do movimento, argumentando que os ataques começavam a macular a imagem do Poder Legislativo e não dos vereadores em si. “A instituição estava sendo ameaçada, porque a agressão aos vereadores não era uma agressão a cada um dos vereadores, e sim à instituição. Ouvíamos: Na Câmara só tem vagabundo, na Câmara só tem ladrão!‟, no Facebook recebemos uma série de mensagens ofensivas. A página do presidente da Casa recebeu mensagens racistas, pesadas, tanto que em duas mensagens ele foi chamado de macaco. Como a Câmara vai dialogar com um movimento desses?” Para o Diretor de Comunicação, o projeto de iniciativa popular é oriundo da constatação da perda de forças por parte do movimento e também não possui validade legal. “O projeto de iniciativa popular pode versar sobre qualquer tema, menos salário, porque é competência exclusiva do legislador. Eles tinham o apoio da OAB então não pode alegar desconhecimento jurídico, mas mesmo assim mantiveram o abaixo-assinado”, afirma Gaiad que conclui em nome 16 Entrevista com Carlos Eduardo Gaiad cedida à Daniela Rocha, em Abril/2013.

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do Poder Legislativo de Piracicaba: “A Câmara em nenhum momento foi contrária às ideias do movimento, mas contra a forma que o movimento se manifestou. Ela [Câmara] reagiu a uma provocação, a uma ofensa. Nós nunca ofendemos o Reaja, apenas reagimos aquilo que foi feito. Entendemos que todos os movimentos populares são legítimos. Sabemos que nós, Câmara, temos erros, temos também as pessoas que erram, pois somos todos seres humanos. A Câmara sempre se manteve aberta e vai se manter aberta às conversas, a colher sugestões, desde que estas venham de uma forma organizada, ordeira”. Considerações Finais Atualmente, a participação dos membros do Reaja Piracicaba é mais modesta, prospectando a aprovação do projeto de iniciativa popular e o aprimoramento das bases tecnológicas que recrutarão dados dos vereadores para informar a população através das redes sociais. Mas, apesar do trabalho continuar, não resta dúvidas que a ânsia pelo espaço e pela voz dentro do Poder Legislativo ocasionou diferentes entraves à própria imagem do movimento. Tanto que no começo dos debates, a imprensa local abordava o movimento com credibilidade e apelo social, mas com o passar do tempo, a abordagem mudou. A prova disso veio nas urnas: dos 16 vereadores que acompanharam as manifestações enquanto representantes do povo, um decidiu não se candidatar e dois não conseguiram se reeleger. Quanto aos demais, todos foram reeleitos, sendo que o mais alvejado pelo movimento, o vereador Laércio Trevisan (PR) conquistou 100 votos a mais do que na última campanha eleitoral. Não há dúvidas que movimentos populares que visam o bem coletivo crescem em nosso país. Um bom exemplo é o projeto Ficha Limpa, manifestação em rede que resultou em uma das maiores barreiras eleitorais da história da política brasileira promovida pela população. Entretanto, para que tais movimentos tenham validade e credibilidade junto à sociedade civil é necessário comprovar o apartidarismo da mobilização, afinal, os brasileiros demonstram descontentamento com a política partidária do país e não são acostumados a seguir bandeiras “ideológicas”, decidindo o voto através da personificação dos candidatos e não pela escolha de legendas. Na visão oficial da Câmara dos Vereadores de Piracicaba, a justificativa é clara e considera que a população não abraçou a causa do movimento. Já para os membros do Reaja, a falta de compromisso com a política por parte da população é muito grande, mas novos projetos

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como o “Adote um Vereador” estão a caminho para estimular os eleitores a fazerem valer o voto de confiança depositado nos legisladores, afinal a transparência política é imprescindível dentro de um sistema democrático. Mas será que o mandato coletivo caminha para essa vertente democrática ou trata-se de mais mote eleitoral? Mas essa pergunta só deverá ser respondida nas eleições de 2016. Por enquanto, o movimento Reaja Piracicaba continua recrutando a população quinzenalmente e estimula o questionamento aos projetos e votações da Casa de Leis. Com menos de um ano de mandato, o vereador pevista (Paulo Camolesi) consegue harmonizar os grupos que o acompanham para debater os esforços legislativos e essa medida, no mínimo, serve para conscientizar ao menos esses seguidores, quanto ao papel dos três poderes que nos regem e a importância da participação popular nestes debates. Referências Bibliográficas DAHLGREN, Peter. Media and Political Engagement: Citizens, Communication and Democracy (cap. 7). New York: Cambridge, 2009. GOMES, Wilson. Participação política online: Questões e hipóteses de trabalho. In: MAIA, Rousiley; GOMES, Wilson; MARQUES, Francisco Paulo (ORGs). Internet e participação política no Brasil. Porto Alegre: Sulina, 2011. p. 19-46. HABERMAS, J. O Papel da Sociedade Civil e da Esfera Pública Política (cap. VII). In: Direito e Democracia: entre facticidade e validade, livro II. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2003. Trad. Flávio B. Siebeneichler. MARQUES, Ângela C. S. Os meios de comunicação na esfera pública: novas perspectivas para as articulações entre diferentes arenas e atores. Em: Revista Líbero, Ano XI n. 21, junho de 2008.

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ANEXOS Imagens disponĂ­veis em: https://www.facebook.com/reajapiracicaba

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COMUNICAÇÃO NO TERCEIRO SETOR 1 Relações das organizações sociais com as esferas de poder e a mídia Carlos Augusto Gonçalves Camilotto 2 Universidade Federal de Juiz de Fora

Resumo: O artigo tem como objetivo analisar o cenário de atuação e as relações estabelecidas entre as organizações sociais, as esferas de poder e o papel da comunicação social no espaço midiático. Para situar a questão, buscamos contextualizar parte do cenário da atuação do Terceiro Setor no Brasil e a importância do expressivo crescimento desse segmento. O estudo de caso refere-se à cobertura jornalística empreendida pelo jornal Tribuna de Minas em relação ao Instituto Cidade, entre o período em que foi capaz de promover o agendamento de temáticas desenvolvidas pela instituição e a fase em que passou a ter sua atuação investigada. Palavras-chave: Terceiro Setor, comunicação, organizações sociais.

1. Identificação dos espaços de atuação das esferas de poder A sociedade, no atual patamar organizacional que vivenciamos, é uma formação derivada de tensões e ajustamentos, analisados cientificamente e influenciados pela trajetória histórica. Desde a aceitação da necessidade de criação dos Estados, com diferentes graus de autonomia, buscamos premissas capazes de alicerçar um conceito artificialmente introjetado: a justiça. O que é justo? Como as implicações para a resposta dessa pergunta dependem do ponto vista e do ângulo de quem responde, ressaltamos a diversidade de óticas possíveis. O fato é que essa questão influencia substancialmente na construção da cidadania e das identidades, cenário no qual verificamos o constante realinhamento das correntes ideológicas. Os paradigmas de gestão estatal vêm sendo consolidados de formas distintas, como o Estado interventor e o liberal. O Intervencionismo é uma corrente pautada na teoria de Thomas Hobbes, que utilizou a metáfora do Leviatã, alusiva ao polvo 1

Trabalho apresentado ao GT 3 - Jornalismo Político e Eleitoral no XII POLITICOM – Juiz de Fora

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Aluno especial da Disciplina Comunicação, Política e Identidades do Programa de Pós-graduação em Comunicação da UFJF; email: cagcamilotto@gmail.com

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mitológico e seus diversos tentáculos, para representar a segmentação das atividades estatais. Uma forma de exercício do poder político que busca mediar relações e submeter cidadãos a um controle centralizado. Já o Liberalismo, postulado por John Locke, argumenta em prol da livre regulamentação. O Estado funciona, segundo essa premissa, como “vigia noturno”, atuando somente na medida do indispensável. Os liberais se posicionam de forma contrária ao controle e a intervenção estatal a partir desse conjunto de princípios e teorias políticas, que apresenta como ponto principal a defesa da liberdade política e econômica. O Neoliberalismo consiste na retomada dos ideais liberais, defendendo a liberdade de mercado e a restrição da atuação do poder central. Na Inglaterra, foi implementado durante a gestão da primeira ministra Margaret Thatcher. O processo foi adotado nos Estrados Unidos pelo governo do presidente Ronald Reagan e chegou ao Brasil nas gestões dos presidentes Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso. O crescimento das demandas e a incapacidade de enfrentamento estatal para todas as questões promoveram a busca por uma nova ordem. Essa articulação, mais sofisticada e abrangente, contempla uma divisão em campos sociais, segundo (MANTOVANI, 2009, p. 29). Um “campo” é definido como “um espaço social estruturado”, um “campo de forças”, onde existem dominantes e dominados, relações constantes e permanentes de desigualdade, de luta e concorrência entre os agentes. São essas lutas e disputas internas que definem a posição e as estratégias que vão adotar para se manter na disputa.

A delimitação dos campos em nossa sociedade demarca espaços coletivos, corporativos e individuais. O resultado desse processo é que os indivíduos trazem incrustadas identidades que delineiam em sua trajetória. Características inerentes ao sentimento de pertencimento a um determinado segmento social. O artigo transita por um território com características singulares. As esferas aqui estudadas são marcadas, por um lado, pelos interesses sociais inerentes ao Terceiro Setor, que devem guiar inexoravelmente as ações empreendidas. E, por outro lado, pelo enquadramento midiático. Para melhor compreensão da delimitação dos âmbitos que integram este escopo é fundamental a apresentação de alguns conceitos, como a definição do que é sociedade civil. Rossy (2006, p.51) salienta que:

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Para Gramsci, é o espaço das corporações ou das organizações que expressam interesses coletivos mais ou menos estruturados na sociedade, enquanto a sociedade política é o espaço onde emergem os interesses individuais do indivíduo. Se no primeiro espaço encontramos em nossas individualidades como membros de uma igreja X, um sindicato Y, e um clube Z, na sociedade política nos encontramos em nossa universalidade como indivíduos revestidos de direito.

A sociedade civil figura, dentro desse cenário complexo, como agente de legitimação da atuação social, sustentando a busca por um ambiente salutar. Outro conceito que perpassa os interesses representados pelas distintas instâncias aqui analisadas é o da esfera pública. Esse espaço, permeado por discussões engendradas por atores públicos e privados, constitui o local adequado para interação na defesa de anseios. O processo de diálogo entre as visões de mundo e estratégias de atuação sociais corroboram para a tentativa de formação de consenso, contribuindo para que correntes discrepantes encontrem um ponto de equilíbrio. Dentre a multiplicidade de fatores e interesses, em simbiose ou concorrentes, o questionamento habermasiano discute o poder constituído através da atuação das empresas de comunicação social, salientado em função de sua influência no contexto. Estudos

empreendidos acerca dos desdobramentos das análises de Jürgen Habermas demonstram a tensão decorrente dessas forças, conforme discute Lubenow (2007, p.104). Segundo as análises do autor, o modelo de esfera pública apresenta problemas estruturais no âmbito discursivo da comunicação pública. De um espaço de discussão e de exercício da crítica, a esfera pública torna-se uma esfera dominada pelos meios de comunicação de massa, infiltrada pelo poder. Esse diagnóstico negativo de uma esfera pública despolitizada apresenta o problema da efetiva realização do princípio da esfera pública e as condições institucionais para o seu exercício, e deixa em aberto a questão sobre uma possível repolitização da esfera pública, uma possibilidade de identificar possíveis estratégias para preservar o princípio normativo da esfera pública, mas diferente das formas burguesas.

Na interseção dos anseios da sociedade civil, no contexto da esfera pública, temos a ascensão e a consolidação do Terceiro Setor, como nicho capaz de fomentar, em caráter universal, melhores condições sociais. Com o enfraquecimento da atuação do Estado em algumas áreas, é no Terceiro Setor que vêm sendo tratada parte das questões sociais. Em nosso contexto socialmente estratificado, a análise weberiana é citada pela autora Maria Celi Scalon (1999, P.32) com ênfase para aquilo que o indivíduo pode oferecer ao mercado. A primazia dos aspectos econômicos é defendida por Max Weber em detrimento de outros.

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Segundo ele, classes não são necessariamente agentes sociais, e a distinção entre classes é definida como componente causal das oportunidades de vida, que, por sua vez, são determinadas pelas posições ocupadas pelos indivíduos dentro do mercado. A dedução possível é que as desigualdades nas oportunidades de vida decorrem da alocação diferenciada dos indivíduos em posições de classe.

Segundo essa análise, classes não são necessariamente agentes sociais, e a distinção entre classes é definida como componente causal das oportunidades de vida, que, por sua vez, são determinadas pelas posições ocupadas pelos indivíduos dentro do mercado. Por outro lado, Amartya Kumar Sen, (2001, p.15) que, entre outros trabalhos relevantes, participa, desde 1990, da elaboração do Relatório do Desenvolvimento Humano, defende em seus postulados que: ...por descortinar o problema da conversão. É claro que o bem-estar de uma pessoa está conectado com o domínio que ela tem sobre bens econômicos tradicionais. Mas as oportunidades que ela tem (em termos de escolhas que pode fazer e realizações) em sua vida não são limitadas apenas por seu conjunto orçamentário e outros fatores de riqueza ou renda.

De acordo com as análises empreendidas por Amartya Kumar Sem, o bem-estar social é constituído pelo somatório de aspectos materiais e subjetivos. É tácito que não há como obter qualidade de vida sem condições econômicas favoráveis. Mas, neste complexo sistema, esta não pode ser a única premissa abordada. Para aprimorar o entendimento contextual, a lógica de funcionamento do segmento precisa ser compreendida de forma integrada ao bojo do tecido social. De acordo com (FERNANDES, 1994, p.21): AGENTES

FINS

SETOR

Privados

Para

privados

=

Mercado

Públicos

Para

públicos

=

Estado

Privados

Para

públicos

=

Terceiro Setor

Públicos

Para

privados

=

Corrupção

A tabela acima mostra como a dinâmica de nossa organização social pode ser definida de forma simplificada. Quando recursos públicos são alocados no exercício das atribuições estatais temos a ação legítima do Estado. No momento em que a iniciativa

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privada, dentro de suas prerrogativas, visa maximizar seus investimentos, verificamos uma lógica mercantilista. Recursos públicos, empregados de forma indevida para beneficiar instituições privadas, constituem corrupção. Já, quando a iniciativa privada converge esforços para alavancar projetos de interesse público, temos o Terceiro Setor. Vale salientar que Primeiro Setor é uma terminologia sociológica que se refere ao setor público. Ou seja: ao Estado e ao Governo. E, que o Segundo setor, dentro da mesma ótica, representa o mercado, o conjunto de empresas, o que é privado. 2. Papel da Comunicação nas Organizações Sociais Cumprir missões originalmente estatais envolve ainda dedicação e disseminação de espírito de uma nova boa vontade. A Comunicação Social constitui assim ferramenta necessária tanto na captação de recursos, como no relacionamento com os stakeholders, uma vez que possibilita a mobilização e motivação dos diversos públicos. Não basta uma atuação consciente com vistas a alavancar o progresso de nossa sociedade, torna-se imprescindível a divulgação das ações empreendidas para propiciar seu êxito, aprimoramento, geração de efeito multiplicador, afirmação e construção identitária. Por outro lado, ao defender que administradores conscientes percebem que suas empresas precisam ajudar para serem ajudadas, sendo beneficiados na medida em que, ao colaborarem para construir um mundo melhor, associam suas respectivas marcas a imagens positivas, temos outro produto: o marketing social. A partir dessa delimitação apresentada, as estratégias de comunicação e de marketing ganham uma nova dinâmica sob o olhar de Philip Kotler. O equacionamento das questões sociais passa, indubitavelmente, pelo envolvimento da sociedade civil com as causas de interesse público. Indivíduos, empresas e entidades precisam se posicionar acerca da participação e intervenção para o aprimoramento de nosso tecido social. Ao atingirem esse estágio, passam a cobrar atitudes de seus fornecedores, contribuindo para a criação de um ciclo virtuoso. Para Kotler (2010, p. 4), trata-se de um novo cenário emergente. Hoje, estamos testemunhando o surgimento do Marketing 3.0, ou a era voltada para os valores. Em vez de tratar as pessoas simplesmente como consumidoras, os profissionais de marketing as tratam como seres humanos plenos: com mente, coração e espírito. Cada vez mais, os consumidores estão em busca de soluções para transformar o mundo globalizado num mundo melhor.

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Kotler (2010) afirma que, em nossa sociedade, as pessoas desejam que as empresas abordem suas necessidades de justiça social, econômica e ambiental em sua missão e valores. As empresas cujas metas não se enquadrem nessas questões tendem a ser estigmatizadas ou até mesmo “proscritas” por consumidores conscientes. Ricardo Voltolini, (2004, p. 161) considera o marketing como uma ferramenta útil para este segmento, afirmando que: As menções anteriores à relevância da imagem como valor para as trocas procuram reforçar um ponto de vista: a maneira pela qual uma organização social é percebida por seus públicos de interesse está longe de ser uma questão marginal em marketing. É, pelo contrário, um de seus enunciados centrais, uma espécie de princípio orientador que pode ser substanciado pela velha máxima de que “tão importante quanto ser é parecer ser”.

Dentro de uma estrutura social dinâmica como a que vivemos, a gestão do processo de comunicação precisa estar alinhada com as demandas institucionais. A organizadora do livro Terceiro Setor: Dilemas e Polêmicas, Solange Maria P imenta (2006, p.50), tece importantes considerações acerca de questões implicadas no processo de comunicação: Hoje em dia, não se trata mais de uma simples questão de capitanear pessoas para uma determinada causa, mas a própria arena política na qual se trata a legitimação desses movimentos é fortemente impactada por variáveis que até pouco tempo atrás se acreditava estarem vinculadas apenas ao domínio da comunicação das grandes organizações, com a imagem (ou a reputação), os símbolos e mecanismos, por exemplo, assim como as tentativas articuladas de pautar a imprensa.

Cabe a Assessoria de Comunicação Social criar uma imagem positiva da organização. Esse poder está intrinsecamente relacionado com o processo de construção, reconhecimento e consolidação das identidades. O processo abarca os âmbitos individual e coletivo, variando também na condição temporária ou na busca pela perpetuação dos arquétipos engendrados. A teoria do agendamento analisa as especificidades das formas através das quais os meios de comunicação social são capazes de nortear o pensamento e os diálogos, influenciando a própria visão de mundo de parcela da população. O agendamento refere-se à forma como o conteúdo veiculado pela imprensa possui força para delimitar a compreensão de parte dos indivíduos acerca de uma determinada temática. 67


A reflexão de Rossy (2006, p.70) permite maior compreensão da relevância da questão do agendamento. O agendamento refere-se, então, à inclusão de um determinado assunto na lista dos temas sistematicamente abordados pela mídia e à visibilidade que um determinado assunto adquire ao integrar o discurso jornalístico. Aos assuntos que não conseguem a visibilidade pública conferida pela mídia está naturalmente reservado o obscurantismo, na medida em que não alcançaram a arena pública da discussão.

Portanto, a invisibilidade, divulgação ou veiculação maciça de um assunto, relacionado a um segmento qualquer pode ser utilizada em finalidades diversas. Servindo para o “bem” ou para o “mal”, educando ou alienando. Promovendo a justiça ou execrando. O contra-agendamento refere-se ao processo de luta pela incorporação de demandas, realizado por instituições representativas da sociedade civil, aos assuntos relevantes a serem tratados pelos meios de comunicação. Para que a comunicação coadune com os aspectos sociais, faz-se imprescindível o estabelecimento da via de mão dupla em relação à construção da pauta, conforme salienta Silva (2005, p. 2) O contra-agendamento compreende um conjunto de atuações que passam estrategicamente pela publicação de conteúdos na mídia e depende, para seu êxito, da forma como o tema-objeto-de-advocacia foi tratado pela mídia, tanto em termos de espaço quanto em termos de sentido produzido. Pode-se então afirmar que o contra-agendamento de um tema pode ser parte de uma mobilização social ou parte do plano de enfrentamento de um problema corporativo ou coletivo.

No caminho da promoção do contra-agendamento, uma opção para as organizações sociais é promover a educação da mídia. Não se trata de um processo de ingerência sobre a atuação das empresas de comunicação ou cerceamento de suas atividades, mas de esclarecimento. É preciso disponibilizar contribuição substancial para que os meios de comunicação ofereçam informações corretas e de qualidade. Outra prática importante é o processo de advocacy, termo que significa defender uma causa de forma ampla, buscando criar mecanismos para que esse assunto ganhe visibilidade e legitimidade entre a população, a imprensa e o meio político, conforme explicação de Rossy (2006, p.11) abaixo. Advocacy é um termo em inglês que pode ser traduzido por advocacia, no sentido de advogar, defender. Tem significado, porém, mais amplo,

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representando iniciativas de grupos, atores sociais ou entidades com o objetivo de produzir pressão política por meio de ações articuladas de mobilização, seja de grupos específicos, na defesa de seus interesses, ou da sociedade civil organizada, na defesa de interesses sociais.

O Terceiro Setor é articulado por uma lógica que almeja a reciprocidade, como uma empresa convencional, porém, existem peculiaridades advindas do caráter distinto da lógica capitalista, que integra as iniciativas. A comunicação aqui é tão importante quanto em outras esferas da sociedade. A diferença é que neste segmento a prioridade é colaborar com quem mais necessita e mostrar aos mantenedores que estão investindo no lugar certo. A transformação de causas em marcas não constitui um processo de mercantilização das causas sociais. Trata-se de uma forma de buscar uma sociedade mais justa e preencher a lacuna criada pela retirada estratégica do Estado. Uma das palavras chave para definir ação social é o termo somatório. Para tentar cumprir sua missão, uma organização precisa fortalecer os laços entre os participantes que, isoladamente, em pouco podem contribuir para uma mudança visceral no contexto. Outro ponto importante são os diferentes níveis de formação dos colaboradores. Na maioria das organizações, os voluntários compõem um grupo composto por pessoas que possuem desde a alfabetização até doutorado. Nesse contexto, é preciso adequar a transmissão de informações, criando uma cultura de interação capaz de assegurar a fluidez dos fatos entre os setores, abrangendo a organização como um todo. Paulo Clemen, (2005, p.34) afirma que: É preciso fazer com que o público interno tenha referências sólidas em meio a tantas transformações culturais, à globalização, à internet, à fluidez da informação. É preciso criar massa crítica para um posicionamento dos Cidadãos Corporativos frente ao caldeirão de pensamentos e princípios que funcionam como um verdadeiro turbilhão de sentimentos que podem adoecer as pessoas.

As pessoas podem adoecer por uma gama de situações geradas em nosso quadro social. Trata-se aqui de cuidar, acima de tudo, para que o bojo da organização não corra riscos oriundos dos ruídos no intercâmbio de informações entre membros. Alguns “antídotos” contra esses males podem ser adotados. Termos como capacitação, formação continuada, transparência e sustentabilidade integram parcela significativa das soluções de longo alcance para as organizações sociais.

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3. Estudo de caso: Instituto Cidade O Instituto Cidade tem embrião no âmbito acadêmico como projeto de extensão da Universidade Federal de Juiz de Fora. A iniciativa era a “Escola de Cidadania”, com a meta de capacitar comunidades sobre os direitos e deveres dos cidadãos. Com o passar do tempo, a ação sofreu uma cisão, ocasionando dois novos projetos com a mesma proposta e nome. Um, levado para a Câmara Municipal de Juiz de Fora, graças ao apoio do legislativo local, deixou o circulo universitário para atender mais comunidades, levando até elas sessões periódicas. A outra parte se transformou na Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), denominada Instituto Cidade. Coube à entidade levar a iniciativa para municípios vizinhos, como Lima Duarte. E nessas incursões, foi-se percebendo que as comunidades necessitavam de outros apoios. Além de noções de direitos e deveres, faltavam também oportunidades. O Instituto se transforma, então, em protagonista de uma série de projetos, inclusive nas áreas rurais, com temáticas variadas, como meio ambiente, geração de emprego e renda, assistência social, saúde, educação, reciclagem e desenvolvimento sustentável. Cumprindo os requisitos legais e promovendo ações efetivas, o Instituto Cidade foi se consolidando. No entanto, sua grande expansão aconteceu a partir da ascensão de integrantes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) a cargos de chefia no Ministério do Esporte e com a respectiva proximidade desses agentes políticos com membros da organização. A atuação do então Ministro dos Esportes Orlando Silva e de Wadson Ribeiro, que na época ocupava o cargo de secretário executivo do Ministério, foram estratégicas para o fechamento de contratos que impulsionaram o incremento das atividades do Instituto. Até então, os projetos desenvolvidos eram bem direcionados e envolviam um número reduzido de pessoas. Eram iniciativas como o “Tecendo no Orvalho”, no distrito do município de Lima Duarte, que contemplava um pequeno grupo de mulheres artesãs. A realização de palestras ou de programas para geração de renda para lideranças locais, além do incentivo às noções de cidadania. Cabia a entidade, por exemplo, intermediar parcerias que possibilitassem a cessão de espaços para a realização das ações. Em outras palavras, a instituição iniciava

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os trabalhos, capacitava, auxiliava na montagem da infraestrutura e partia para um próximo projeto, deixando aquele público atendido como dono do seu negócio, buscando alcançar o legítimo empoderamento desses líderes e membros da comunidade. Com o fechamento do primeiro convênio com o Ministério do Esporte para a execução do Programa Segundo Tempo, em 2006, ampliou o atendimento, conquistando a administração de 10 núcleos de atividades em bairros de Juiz de Fora e cidades da região, incluindo o município de Porto Firme, situado a 200 quilômetros de Juiz de Fora. Participavam duas mil crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social. Com a renovação dos convênios, a organização conquistou novos núcleos. Em 2010, o atendimento triplicou. Cerca de seis mil crianças chegaram a ser atendidas simultaneamente. Segundo as normas do Ministério, cada núcleo deveria ser coordenado por um profissional de Educação Física. No entanto, no entendimento dos gestores da Oscip, somente pessoas da comunidade, conheceriam as reais necessidades locais e teriam comprometimento e conhecimento suficiente para transformar a vida dos participantes. Com isso, nos lugares onde não havia profissionais da área, eram contratadas lideranças, muitas já com algum projeto em execução. Os profissionais e estudantes de Educação Física ocupavam cargos de monitores. Mas, para respeitar as exigências e suprir demandas de locais onde não era possível a ida de pessoas com formação acadêmica específica, o Instituto Cidade, em parceria com a UFJF, criou um curso de extensão na Faculdade de Educação Física e Desportos para capacitação, atendendo as principais demandas do projeto nas comunidades. De práticas recreativas a primeiros socorros, passando por reciclagem, comunicação e política. O estudo de matérias jornalísticas, veiculadas no jornal Tribuna de Minas, que, segundo Brinati (2010, p. 49), “passou a circular efetivamente em 1º de setembro de 1981, no formato standard e desde então foi publicado durante seis dias da semana. De propriedade do médico e empresário Juracy Neves, a Tribuna de Minas se manteve como um dos principais jornais impressos de Juiz de Fora”, mostra a discrepância entre os enquadramentos adotados antes e depois da crise por que passou o Instituto Cidade com diversas denúncias e investigações policiais relativas à irregularidades em suas atividades. A metodologia utilizada visa compreender a evolução da cobertura jornalística dos projetos desenvolvidos pela organização e os fatos que, paulatinamente, geraram o desgaste e comprometimento da imagem da instituição. A análise de discurso, prática 71


que necessita ser reinventada para adaptação contextual, possibilita descortinar parte considerável desse caminho. A abordagem do jornal Tribuna de Minas segue influenciada, ora pelo material disponibilizado pela instituição, ora pelas evidências levantadas pela investigação empreendida pelo Departamento de Polícia Federal. A compilação desses objetos possibilita uma análise fidedigna, realizada à luz do necessário distanciamento, conforme salienta Laurence Bardin (1977, p. 29). Apelar para estes instrumentos de investigação laboriosa de documentos, é situar-se ao lado daqueles que querem dizer não à ilusão das transparências dos fatos sociais, recusando-se ou tentando afastar-se dos perigos da compreensão espontânea. Desde que se começou a lidar com comunicações, que se pretende compreender para além dos seus significados imediatos, parece útil o recurso da análise de conteúdo.

O estudo não tem como objetivo tecer críticas à cobertura jornalística realizada. Podemos ressaltar a possibilidade de uma maior clareza conferida pelo olhar histórico, propiciado pela análise posterior ao período retratado. Esse enfoque privilegiado é reiterado por Eni Orlandi (2012, p.10). O pensamento político e histórico tenta compreender os acontecimentos e as condições que permitem agir sobre eles. Compreensão difícil de atingir e a que não se chega se não se aprender a distanciar o olhar. A ver sempre mais longe, no desvio. Em análise de discurso, por em relação o que é dito com o que não é, o que é dito com o que é dito em outro lugar, etc.

No período compreendido entre abril de 2005 a março de 2009, o Instituto Cidade conseguiu pautar suas temáticas desenvolvidas. Em um exemplo de contraagendamento, uma vez que, a execução dos trabalhos era assimilada como totalmente voltados para os anseios das comunidades, com articulação de parcerias. Com destaque para a promoção de eventos, como o Campeonato Nacional de Futebol Indígena. O Exército Brasileiro irá abrigar os cerca de 600 atletas que estarão em Juiz de Fora para disputar o Campeonato Nacional de Futebol Indígena, que será realizado na cidade de 18 a 21 de janeiro. Esta é a primeira vez que o evento acontece no estado de Minas Gerais e é uma realização da ONG Instituto Cidade, que tem a parceria do Exército, da Prefeitura e da Universidade Federal de Juiz de Fora (TRIBUNA DE MINAS, 2006, p.5)

Assim, atividades desenvolvidas, como o Programa Segundo Tempo, figuravam na mídia de forma positiva nas páginas do jornal Tribuna de Minas.

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O Instituto Cidade e o ministro interino do Esporte, Wadson Ribeiro, assinarão na segunda-feira, dia 14 de janeiro, convênio de ampliação do programa Segundo Tempo, projeto do Ministério do Esporte cujo objetivo é democratizar o acesso à prática esportiva. Graças ao convênio, serão ampliados de 10 para 30 Núcleos Esportivos, aumentando de 2 mil para 6 mil crianças e adolescentes de 7 a 17 anos beneficiados pelo programa (TRIBUNA DE MINAS, 2008, p.4).

Na etapa seguinte da cobertura, situada entre outubro de 2011 e fevereiro de 2012, verificamos o agendamento de questões ligadas ao Instituto Cidade pelo jornal Tribuna de Minas, em decorrência dos indícios que culminaram com as investigações desenvolvidas pela Polícia Federal. Dezesseis malotes com material referente à contabilidade da organização não governamental (ONG) Instituto Cidade foram apreendidos ontem pela Polícia Federal em operação deflagrada para apurar supostas irregularidades nos convênios firmados entre o Ministério do Esporte e a entidade, sediada em Juiz de Fora (TRIBUNA DE MINAS, 2011, p.3).

Com a expansão das atividades da organização, transpareceram deficiências administrativas em termos de recursos financeiros, materiais e humanos. Soma-se a isso a abordagem, no jornal, de falhas na gestão de projetos, como a Fábrica de Material Esportivo, criada para a produção de uniformes, bolas, redes, bandeiras e os principais equipamentos usados pelo Programa Segundo Tempo. A princípio, o veículo não fazia nenhuma referência de cunho negativo ao fato de o Ministério do Esporte liberar recursos para a montagem de infraestrutura, compra de matéria-prima e pagamento de pessoas pela Oscip. Mesmo porque, para atender ao Programa Segundo Tempo, outras fábricas já operavam no Brasil e a promessa seria que a juiz-forana se tornasse uma das principais. A implantação da fábrica permaneceu em pauta sem divergências com os interesses da assessoria de comunicação da entidade. Por outro lado, a partir de indícios sobre o mau funcionamento do Programa Segundo Tempo, o jornal Tribuna de Minas mudou seu enquadramento sobre o assunto, encontrando outros pontos que colocaram em xeque a capacidade da instituição de gerenciar suas atividades.

O Ministério dos Esportes determinou ao Instituto Cidade, com sede em Juiz de Fora e responsável por convênios assinados com o órgão ministerial, a devolução aos cofres públicos de R$ 2.960.519,60, valor já atualizado com juros. A quantia é referente ao contrato 732.104/2010, cujo número original é 29.352/2010, celebrado para a produção de materiais esportivos por

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comunidades em situação de vulnerabilidade social (TRIBUNA DE MINAS, 2012, p.3).

O estabelecimento de relações entre as esferas da sociedade compõe um processo em constante realinhamento. No contexto do Terceiro Setor, boa parte das práticas ainda encontra-se em construção. A importância de situações como a que se busca analisar é o comprometimento de premissas para a estruturação setorial. A adoção de práticas coerentes pode contribuir para que essa rede possa ser tecida de forma salutar em menor tempo. Considerações Finais O aprimoramento das esferas sociais interfere na vida das pessoas. Essas mudanças precisam ser acompanhadas de adequações em âmbito coletivo. A sociedade é regida por um sistema legal, regulamentado, cujos direitos encontram-se delimitados pela Constituição Federal. Entretanto, sempre que avançamos, é preciso reformular paradigmas, por exemplo, no caso do Terceiro Setor. O Brasil é a um país de dimensão continental, paralelamente, é uma das maiores concentrações de renda do planeta. O compromisso com a questão social precisa estar presente e ser parte relevante da adequação. Muito além da equidade, precisamos atentar para o futuro das novas gerações. O fechamento da Oscip acima apresentada e as investigações em processo, praticamente extinguiram todas as ações implementadas pelo Instituto Cidade. Algumas se mantêm graças à capacidade local de continuar por conta própria. A manutenção se dá através do empenho de indivíduos que assumiram efetivamente suas missões, seguindo compromissados com os reais interesses do público alvo em detrimento do dolo processual dos envolvidos na apuração judicial. Algumas questões transcendem o escopo deste artigo, constituindo objeto para um estudo mais aprofundado versando sobre assuntos como, por exemplo, a ligação entre o andamento das investigações e o cacife político das pessoas envolvidas e toda a regulamentação das atividades empreendidas pelo Terceiro Setor. Referências Bibliográficas ARBEX, Daniela. Devolução de R$ 2,9 milhões à União. Tribuna de Minas, Juiz de Fora, 12 out. 2012. Editoria Cidade.

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Estratégias de Competitividade Política: Comunicação, Cultura e Tecnologia na Visão do Eleitor no Papel de Consumidor1 Paulo Cezar Rosa2 Universidade Metodista de São Paulo Débora Burini3 Universidade Federal de São Carlos Hellen Claudia Donato 4 Universidade São Caetano do Sul

Resumo: O presente trabalho tem como principal objetivo refletir sob a perspectiva das teorias do consumidor, aliada as tecnologias contemporâneas, e descrever quais estratégias de competitividade política o eleitor, no papel de consumidor, adota na ‘era do informacionalismo’. Discute a forma pela qual o eleitor/consumidor, que observa a naturalidade em obter conhecimento com a tecnologia, atua diante do ambiente político, que se articula com a comunicação, e traça um paralelo entre o candidato político na sociedade e a busca da sobrevivência na visão do eleitor. Parte dos estudos das tecnologias contemporâneas através das obras de autores como Manuel Castells e John B. Thompson, para uma compreensão sobre o processo tecnológico de conhecimento e informação na sociedade, e Néstor Garcia Canclini com as transformações culturais geradas pelas últimas tecnologias. Palavras-chave: comunicação; tecnologias; político; eleitor; competitividade política.

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Trabalho apresentado ao GT 2 – Marketing Político e Eleitoral do XII Congresso Brasileiro de Comunicação Política e Marketing Eleitoral – Juiz de Fora (MG). 2

Doutor em Comunicação Social pela UMESP. Mestre em Controladoria pela PUC - SP. Docente dos cursos de Pós-Graduação Lato Sensu da UMESP e SENAC. Responsável pela Diretoria Financeira da Sociedade Brasileira dos Pesquisadores e Profissionais de Comunicação e Marketing Político – POLITICOM (Triênio 2011-2014), email: paulocezarrosa@uol.com.br

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Doutora em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo. Docente na UFSCar - Universidade Federal de São Carlos, Departamento de Artes e Comunicação, Graduação em Imagem e Som, email: dburini35@terra.com.br 4 Mestre em Administração pela USCS. MBA em Gestão Financeira, Auditoria e Controladoria pela FGV. Docente dos cursos de Pós-Graduação Lato Sensu SENAC e de Graduação na UNINOVE, email: hellen.claudia@hotmail.com

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Introdução Em sociedades com baixo índice de leitura e acesso a bens culturais em geral, como é o caso do Brasil, a construção do imaginário social passa a ser determinada, em grande parte, pelo poder cultural e simbólico da comunicação em suas múltiplas formas de mediação e suportes, que estabelecem consensos “fabricados” e não “negociados”, como seria próprio de sociedades democráticas. A historicidade mediada faz parte do cotidiano das pessoas em que a realidade é elaborada não mais a partir de experiências, mas pelas informações fornecidas pelos meios de comunicação, que oferecem “uma janela para o mundo”. Nessa perspectiva, apesar da globalização da comunicação, da desterritorialização do espaço e do tempo provocados pela comunicação por satélite, e pela web, a população brasileira ainda repete, diariamente, a rotina descrita por Bosi (1972) em seu clássico livro “Dialética da Civilização”, da década de 70. Um processo corrente de difusão na sociedade de consumo, onde os bens simbólicos são consumidos principalmente pelos meios de comunicação de massa. Os meios de comunicação, portanto, assumem um papel importante no momento em que transferem de maneira veloz aos cidadãos informações e mensagens, que poderão alterar ou definir novas formas de mobilização entre as pessoas. Em paralelo, a competitividade política tem crescido a cada ano, e vem sendo analisada mundialmente, pois a maneira de disseminar, instituir e consumir informação e cultura está se transformando pelo uso da tecnologia nos diversos meios de comunicação. Em união gradativa de desmaterialização e transformação em bits, há diversas lógicas de funcionamento desses meios, com tendências voltadas para a acessibilidade da tecnologia digital, e inclusão do consumo de produtos culturais, que são popularizados de forma veloz e contínua. Isso ocorre devido à facilidade no compartilhamento de informações pela internet, que incentiva uma „cultura do remix’, aquela observada quando recortar, copiar, e colar informações em determinadas áreas promove a criação de algo novo, ou melhor dizendo, presumidamente novo. Ou ainda, quando uma sociedade acostumada a compartilhar, transformar e editar conteúdos, o faz com a prática da popularização dos recursos de produção de conteúdo e da facilidade de divulgá-los através das plataformas na internet. Este contexto da nova era de informações disseminadas com os avanços tecnológicos e suas sofisticações contínuas na dimensão globalizada ou na intimidade doméstica, expressa “fantasia de comunicação” com evolução do sistema de controle em uso na sociedade, fato este que origina a afirmação “sou um homem, sou uma máquina? Não há mais resposta para essa 78


questão antropológica” (BRAUDILLARD, 1990). Nesse sentido, há possibilidade de analisar diversas ideias políticas com sucesso, para originar uma nova proposta, com objetivo de atrair os eleitores. A verdade não pertence aos meios de comunicação, mas à sociedade. No campo comunicacional a diversidade de opiniões garante a liberdade de escolha como um princípio inalienável da cidadania. (VIEIRA In PERUZZO e ALMEIDA, 2003, p. 21)

O direito e o acesso à informação multifacetada e produzida por diferentes atores sociais têm um papel fundamental para garantir a diversidade cultural, e contribuir para a formação crítica do cidadão, o que permite tornar-se sujeito de sua própria história. A evolução mundial nas relações internacionais sobre cultura e comunicação com facilidade no acesso aos conteúdos e opções de customizar serviços faz com que o atual consumidor, que também é um eleitor, atente-se na possibilidade de intervenção, inibindo a competitividade natural dos padrões de mercado (MATTELART, 2005). Ao citar os padrões de mercado, também se contempla o setor político, pois essas reivindicações transitam em dois poderes: privado e público. No poder privado foca-se o incentivo de fidelização do público com inovações e combate de eventuais situações que prejudiquem a relação com o consumidor e/ou eleitor. Já no poder público apresenta-se pelo consumidor, a exigência de estrutura funcional e eficaz no contexto cotidiano, focando a posição de eleitores em pleitos sazonais. Assim, a abrangência de um pensamento diferente na produção integrada de conteúdos é vital na sobrevivência de qualquer segmento, incluso a política, no atual cenário onde o veículo de comunicação em massa é estratégico, e conversa com a sociedade e diversas culturas onde os eleitores possuem seus próprios costumes, valores, conhecimento e crenças sobre determinado assunto, como descreve Canclini: A organização em redes possibilita exercer a cidadania para além do que a modernidade esclarecida e audiovisual fomentou para os eleitores, os leitores e os espectadores. Diariamente estão sendo difundidas informações eletrônicas alternativas que transcendem os territórios nacionais e são desmentidos em milhares de webs, blogs e e-mails os argumentos falsos com que os governantes “justificam” as guerras, a tal ponto que as emissoras de rádio e televisão, que repetiam a falsidade, às vezes se vêem obrigadas a reconhecer o embuste. (GARCIA CANCLINI, 2008, p. 30)

Visto isso, entende-se que a atual sociedade é uma ‘era do informacionalismo’, que para Castells (1999) direciona-se para a evolução tecnológica, com acúmulo de conhecimento 79


desenvolvido pelo processo de comunicação e informação por meio de símbolos. Esta evolução faz com que mercado e produtores atuem com um novo público, ou seja, aqueles que querem intervir desde a indústria até na política. A facilidade permite que seja possível o indivíduo exercer mais de um papel concomitantemente, sendo um leitor, ouvinte, jogador, crítico, produtor cultural e um novo estilo de eleitor, que observa a naturalidade em obter conhecimento com a tecnologia. Esse novo modelo, com informação e desenvolvimento tecnológico com acúmulo de conhecimento é chamado por Castells (2006) como informacionalismo. Neste contexto, buscou-se nas referências bibliográficas sobre a comunicação, interfaces tecnológicas e cultura, a visão do eleitor no papel de consumidor, mediante os desafios apresentados na era da informação. Assim, de acordo com o exposto, esta pesquisa tem por objetivo descrever quais estratégias de competitividade política o eleitor, no papel de consumidor, adota na era do informacionalismo. 1. A Interface com a Comunicação e Tecnologia Thompson (1998) discute as transformações provocadas pela mídia em novas e modernas formas de interação entre os indivíduos. A quase interação mediada cria certo tipo de situação social através da qual os indivíduos são conectados por meio de um processo de comunicação e de troca simbólica. Nestor García Canclini assim descreve que: Perceber que as transformações culturais geradas pelas últimas tecnologias e por mudanças na produção e circulação simbólica não eram responsabilidade exclusiva dos meios comunicacionais induziu a procurar noções mais abrangentes. (GARCIA CANCLINI, 2003, p. 284)

A interface com a comunicação e tecnologia, no contexto contemporâneo, contempla mudanças no comportamento da sociedade devido à evolução contínua. Trata-se de um sentido que se origina da interação social por meio do processo de enunciação (CHARADEAU, 1999). Entretanto, a tecnologia difunde-se em públicos com baixa renda, para um público de consumidores, que também são eleitores, que observam a variação entre os produtos produzidos em países asiáticos, como a China, que possuem menor valor agregado versus as marcas tradicionais com valores bem mais altos, cada uma focando um determinado público por meio de atrativos como o preço gerando uma popularização tecnológica. Esse mesmo cenário ocorre nas estratégias de competitividade política, no qual o eleitor encontra-se no papel de consumidor ao analisar as propostas políticas que são focadas em

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públicos alvos, normalmente sem tanto discernimento da situação exposta, fornecendo atrativos como benefícios, e com possibilidades de situações com popularização eleitoral. A popularização faz com que um maior número de pessoas seja usuárias de recursos tecnológicos, e tenham acesso a diversas informações, por exemplo, da internet, proporcionando uma sociedade interconectada com todos os níveis de qualidade, marca e conhecimento de produtos (CASTELLS, 1999, 2006; CHARAUDEAU 1999). Em contrapartida, há informações por meio dos acessos a internet como as redes sociais, reportagens com ações políticas negativas que são opostas as divulgadas nas campanhas, por exemplo, que faz com que o eleitor assista a política como um produto, e tenha liberdade de expressão como um cidadão. A comunicação abrange as estratégias competitivas tanto no mundo corporativo como no político, sendo assim, há necessidade de avaliar as ações desempenhadas em cada papel que sinalizem fragilidade na estrutura ocasionando desde uma falência, em caso de empresa, até o fim de uma carreira política no caso de um candidato. Com isso, esse instrumento de comunicação é para o poder público e privado uma competitividade estratégica, que corrobora na elaboração de planejamento com práticas focadas na melhoria comunicacional, incluso a sustentação da imagem pública ou corporativa. Mediante ao exposto, a acessibilidade do eleitor aos meios de comunicação, na condição de protagonista, no cenário de ofertas de recursos tecnológicos, proporciona reflexão do individuo ao colocar-se como consumidor nesta interface assumindo o papel de eleitor. Para Peruzzo (2004), quando ocorre protagonismo é desenvolvida pelas organizações de interesse social, uma possibilidade maior de se colocar os meios de comunicação a serviço do desenvolvimento comunitário, e desse modo ampliar os direitos à liberdade de expressão para todos os cidadãos. Assim, na conjuntura pública atual, com comunicação no foco político e eleitoral sugere-se uma estratégia competitiva nos planos eleitorais e pós-eleitorais no desenvolvimento dos trabalhos políticos, pois a integralização da inovação tecnológica e a comunicação são ferramentas de planejamento e acompanhamento com transparência nas informações, para um fortalecimento democrático entre a sociedade e os problemas sociais cotidianos. Entretanto, “como ator social coletivo e, portanto, agente de práticas discursivas, a organização estabelece relações constantes com outros agentes discursivos, no caso específico, os grupos que interagem com a organização” (OLIVEIRA, 2008, p.65). A interface com a comunicação e tecnologia, proporciona melhor transparência informacional em situações que não foram apresentadas a sociedade com maior exposição dos atores sociais mediante a 81


população, para o ambiente corporativo e poder público. O processo de formação do eleitor não se dá apenas na época de eleição. É um processo permeado pela educação formal e não formal, pela participação na vida da comunidade, pela influência dos meios de comunicação. O período eleitoral apenas reflete essas influências, na ação do voto, seja ela consciente ou alienada. Em um país onde as experiências democráticas foram entremeadas por períodos de exceção, informar e incentivar o aprendizado do cidadão eleitor é indispensável. Uma opinião pública melhor preparada tende a uma participação maior no debate proporcionando uma opção pública mais consciente. Neste cenário, os meios de comunicação de massa têm grande responsabilidade no processo de formação de eleitor, tanto pela sua força de argumentação quanto pela sua penetração na sociedade. Os meios de comunicação não só se infiltram em nossas experiências das realidades externas, como também penetram na própria experiência interior. Proporcionaram novas identidades e aspirações do que gostaríamos de ser, e o que gostaríamos de aparentar. Proporcionaram modelos de comportamento que nos oferecem um novo conjunto de valores para nossa própria personalidade. (MILLS In FORACCHI e MARTINS 1977: 318)

Mais uma vez a temática da democratização da comunicação e sua relação com a democratização do país é colocada em pauta, confirmando a posição do sociólogo francês Dominique Wolton (2009) durante conferência de abertura do XXXII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Intercom, na cidade de Curitiba. Na ocasião ele afirmou: “não há democracia sem comunicação”. Para Wolton comunicação não é simplesmente compartilhar ideias, mas, colaborar para democratizar a informação valorizando e respeitando a inteligência do receptor. Habermas (2003, p.108) avalia que a esfera pública passou a ter o “status normativo de órgão de auto-mediação da sociedade burguesa com um poder estatal que corresponda às suas necessidades” e Poulantzas (1978) define o Estado como “a condensação material de uma relação de forças entre classes e frações de classe”. Surge uma nova morfologia social em nossa sociedade apropriada para a economia capitalista voltada para a inovação, globalização e a concentração descentralizada do trabalho. Uma cultura de desconstrução e reconstrução contínuas. Uma organização social que visa à suplantação do espaço e invalidação do tempo. Nesse sentido: A Antonio Gramsci pode ser creditada a idéia de que a cultura popular, fragmentada e desprovida de prestígio, refletiria uma subalternidade. O pensador

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italiano observava, porém, que a cultura popular é capaz de opor resistência, aderindo, a seu modo próprio, Às condições materiais impostas pela vida social e ás mudanças trazidas pelo tempo, constituindo-se em um vetor de transformação política. (POLISTCHUK e RAMOS TRINTA, 2003, p.130)

Esse “tecido cultural”, por assim dizer, é marcado por características múltiplas, onde se situam, por exemplo, no mesmo patamar o culto e o popular, o tradicional e o contemporâneo. Dominique Wolton (2004) enseja que a referência à noção de cidadão multicultural não significa a instauração de um multiculturalismo, mas de um indivíduo que tem acesso a várias formas de cultura por meio das mídias. 2. Comportamento do Eleitor/Consumidor com a Inovação Tecnológica O comportamento no consumo sofre alterações com a inovação tecnológica contribuindo para um direcionamento de novas oportunidades e demandas. Este fato é incorporado em uma diferente maneira de viver, incentivando as aquisições e a curiosidade por objetos ou informações independente da necessidade do indivíduo. Para Morace (2009, p.15) “as novas tecnologias têm contribuído em modificar os comportamentos mentais que cada um tem absorvido com novos parâmetros do pensar, do decidir e do avaliar”. Essa mudança do comportamento ocorre também no campo político, quando o eleitor tem maior acesso às informações, ou quando os meios de comunicação estão disponíveis para fornecer as informações, e ampliam a liberdade de expressão do cidadão. De acordo com Peruzzo (2004) é um conjunto de valores que giram em torno da vida do eleitor e/ou consumidor com “atitudes desenvolvidas e formadas ao longo do tempo, por meio de várias fontes: experiências pessoais, família, grupos de referência, informações de anúncios, entre outras” (YAMAGUTI et al, 2008, p.240). Os eleitores buscam nas fontes de comunicação a credibilidade e expertise, pois tendem a analisar se quem transmite a informação conhece o assunto sobre o qual informa ou emite determinada opinião. Isso ocorre devido aos eleitores, no papel de consumidores, usarem as novas tecnologias para modificarem sua maneira de refletir e decidir sobre determinados temas (YAMAGUTI et al, 2008; MORACE, 2009). Este fenômeno contemporâneo que permite facilidade na obtenção da informação é crescente nos países em desenvolvimento, e contribui para uma melhoria na distribuição de renda. Isto ocorreu no Brasil na ultima década, e despertou nos eleitores e/ou consumidores, um poder para aquisição de bens de consumo e conhecimento de diversos assuntos, inclusive político, por meio dos veículos de comunicação para a tomada de decisão. 83


Segundo Gohn (2001, p.30) a participação é um processo de vivência que imprime sentido e significado a um movimento social, desenvolvendo uma consciência crítica e gerando uma cultura política nova. A gestão desta participação pode muitas vezes significar um afastamento do público/eleitor de uma atuação enquanto membro da comunidade. E isso ocorre pela desconstrução do ser político, barrando uma participação efetiva e a construção e desenvolvimento da cidadania. Para Gadbem (2008, p.63) “conceito de sociedade de consumo está ligado ao da economia de mercado, e por fim, ao conceito do capitalismo, o que nos indica que a Classe C parte à procura de mais capital para sua evolução”. Essa visão não significa que somente a classe C desperta em busca de evolução capital, pois as demais classes de menor renda também focam este caminho e obtém capital tanto para consumo de bens como para investir em capital intelectual. Os fatos expostos fornecem um novo panorama de comunicação por meio da tecnologia com o uso da internet, além de consumidores mais exigentes com relação à infraestrutura e atendimento, mesmo que no primeiro momento apresente-se como invasivo aos olhos do consumidor (TIGRE, 1999, p.92). Na visão de Sá (2008, p.182) “hoje, o ponto-de-venda é o grande responsável pela decisão de compra. Enquanto a propaganda cumpre papel de comunicar sobre o produto ou serviço e despertar o desejo, o ponto-de-venda é quem envolve o cliente para a decisão de compra”. O poder de consumo proporciona reflexões sobre novas oportunidades de desenvolvimento para consumo nas cidades, estados e países, assunto este, que é liderado e fornecido pelo poder público e seus dirigentes, que foram ou serão escolhidos por eleitores que gradativamente possuem maior conhecimento. Contudo, realiza-se a análise com dois pontos de vista: 1) o consumidor e/ou eleitor com expectativas e dependência de no mínimo infraestrutura para expandir sua apreciação nas compras eletrônicas com segurança nas redes e; 2) o poder público, colocando-se do outro lado da mesa, ao proporcionar evolução dos recursos tecnológicos para facilitar o acesso e inserção dos consumidores, que são também eleitores, cria um costume e aceitação da interface da comunicação com a tecnologia. Esse comportamento do eleitor com a inovação tecnológica possibilita a confiança e liberdade de expressão, por meio de veículos de comunicação de uso oficial e pessoal, em redes sociais, envio de notícias para amigos e/ou ambiente de trabalho com ações individuais, que fornecem poder de divulgar e compartilhar os assuntos, que de acordo com os valores de cada indivíduo são relevantes para si e o grupo em que se encontra inserido. 84


Em contrapartida, origina-se também para o poder público uma competitividade estratégica no uso destes mesmos veículos de comunicação, para fornecimento de conhecimento para os eleitores, sendo que as informações são fornecidas de maneira clara e oficial, pois estão contemplados em um ambiente sem limite, ao qual não são dirigentes. 3. O Eleitor no Papel de Consumidor no Cenário de Estratégia de Competitividade Política Os cenários expostos pelos veículos de comunicação com inovação de tecnologia faz com que se apresentem ações de estratégias de competitividade política, onde cada poder busca conquistar o maior número de consumidores dos seus produtos, ou seja, eleitores que estejam alinhados aos determinados partidos políticos, após as informações sobre suas propostas de melhoria contínua para os cidadãos. Com isso, os eleitores no papel de consumidores observam, em momentos de crises, quais ações são desenvolvidas pelo poder público para melhor reflexão sobre a tomada de decisão. Esse fato faz com que as estratégicas competitivas políticas sejam renovadas, pois como afirma Gibson (2005), “o fato é que o futuro não será uma continuação do passado. Ele será uma série de descontinuidades” e complementa com a visão de que “repensar o futuro é um processo que não tem fim”. Em complemento a competitividade política, a globalização das indústrias expõe uma necessidade de afunilar o foco para determinados segmentos, Gibson (2005). Esta situação também reflete na competitividade política que se direciona para um público específico de eleitores. Contudo, há também profissionais especializados em marketing político que sugerem atenção em públicos específicos, pois estes exigem melhores informações, possuem maior poder aquisitivo e influência. Kotler (2006, p.184) afirma que “os profissionais de marketing deixarão de enfocar segmentos grandes para voltar seu alvo para nichos específicos. A riqueza está nos nichos”. O marketing é uma estratégia política competitiva, visto que, com a inovação tecnológica, e o fácil acesso as informações, faz com que inúmeros eleitores sejam alimentados por diversos canais de comunicação. Rifkin (2001, p.233) “considerava fundamental assegurar uma participação no mercado”, sendo que “o marketing torna-se a estrutura central da nova economia de rede, e controlar o cliente passa a ser a meta da atividade comercial”. Essa participação contempla uma massificação e direcionamento de eleitores que estão 85


com pensamento na era do informacionalismo. Para Rocha (2005, p.46), a interpretação para comunicação em massa é uma porta com inscrição na ordem social, com imagem de uma cultura com troca de emoções, mitos, representações, valores e até estilo de vida. Sendo assim, inicia-se um processo de distinção de consumidores que na visão de Yoram (2003) dividem-se em: os ciberconsumidor, que são usuários do mundo virtual para comunicação, aquisição, venda e até trabalho. E o consumidor tradicional, que confia e aguarda o fim do mundo virtual. E, por fim, o mix destes consumidores que é o chamado centauro. Sugere-se uma reflexão entre os distintos consumidores que também são os chamados eleitores, e utilizam os mesmos veículos de comunicação de compra para captar informações e conhecimento sobre diversas áreas, desde cultura, lazer, trabalho até notícias políticas. Por esse motivo, há possibilidade do planejamento e do uso de estratégias competitivas na política, representarem na visão do eleitor, no papel de um consumidor, mecanismos de controle, visto que, ensejam na tomada de decisões e influenciam no consumo de ideologias partidárias. Considerações Finais Estamos diante de um novo cenário da sociedade civil onde o espaço público passa a ser ocupado por eleitores/consumidores, que anteriormente não tinham tal espaço e, sequer, tinham o direito de reivindicar ante o Estado, mas que a partir deste momento servem como canal de expressão e atendimento das demandas sociais populares, numa clara e evidente forma de desenvolvimento. Através da participação política os eleitores/consumidores alcançam a sua autonomia, tão importante para a emancipação social. Edgard Morin (2004) aponta que a missão da educação para a era planetária é fortalecer as condições de possibilidades emergentes numa sociedade-mundo constituída por cidadãos protagonistas, conscientes e criticamente comprometidos com a construção de uma civilização. Nesse sentido a utilização plena e eficaz das tecnologias antevê uma desmistificação do seu papel como ferramenta de solução dos problemas. Acreditar que a era do informacionalismo funcione apenas como um mediador para os excluídos do sistema social e político é restringir o potencial de alcance que o ambiente prevê. A interface da comunicação com a tecnologia, aliada a estratégias de competitividade política, permite que o eleitor no papel de consumidor descubra seu valor na sociedade e expresse suas opiniões diante do ambiente político que o cerca, e desta forma possa contribuir na construção de uma sociedade ainda melhor. 86


Pluralidade de idéias e livre circulação de bens simbólicos de comunicação e informação são alicerces tão caros à democracia quanto o ideal de liberdade individual com igualdade social. Referências Bibliográficas BAUDRILLARD, J. A Transparência do mal: ensaios sobre os fenômenos extremos. Campinas: Papirus, 1990. BOSI, Alfredo. Dialética da Colonização. Cia das Letras, São Paulo, 1972. CANCLINI, Néstor Garcia. Leitores, espectadores e internautas. São Paulo: Iluminuras, 2008. ______________________. Culturas Híbridas: Estratégias para Entrar e Sair da Modernidade. Trad. Heloíza Pezza Cintrão, Ana Regina Lessa. 4ªed. São Paulo: EDUSP, 2003 e 1ªed.1997. CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999. ________________. A Era da intercomunicação. Le Monde: Diplomatique/Brasil, 2006. CHARAUDEAU, Patrick. Análise do discurso: controvérsias e perspectivas. In: MARI, Hugo et alii (Org.) Fundamentos e dimensões da análise do discurso. Belo Horizonte: Carol Borges. NAD/FALE/UFMG, 1999. p.27-43. GADBEM, Adriano. O aumento do consumo da classe C e os reflexos gerados na comunicação de mercado. In : GALINDO, Daniel. Comunicação mercadológica: uma visão multidisciplinar. São Bernardo do Campo: Metodista, 2008. GIBSON, Rowan. Repensando o futuro. São Paulo: Makron Books, 2005. GOHN, Maria da Glória. Educação não-formal e cultura política. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2001. HABERMAS, Jürgen.. Mudança estrutural da esfera pública. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2003. IDG. Caso Sony. Disponível em <http://idgnow.uol.com.br/seguranca/2011/04/29/caso-sony-criminosos-vendem-2-2-milhoesde-numeros-cartoes/>. Acesso em 10. Jun.2012. KOTLER, Philip. Administração de Marketing. São Paulo: Pearson, 2006. MATTELART, Armand; MATTELART, Michèle. História das Teorias da Comunicação. São Paulo: Loyola, 2005. MILLS, C. Wright. A sociedade de massas. In FORACCHI, Marialice Mencarini e MARTINS, José de Souza (compilação de textos por). Sociologia e Sociedade. Leituras de introdução à sociologia. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1977. MORACE, Francesco. Consumo Autoral. Trad. Kathia Castilho. São Paulo: Estação das 87


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CAPÍTULO II

A utilização das redes na (des)construção de imagem

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Campanhas Eleitorais On-line: desafios na produção de presença de candidatos na ágora digital

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Pedro Sangirardi 2 Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Resumo: Este artigo visa contribuir com o debate teórico sobre o estágio de desenvolvimento dos estudos de campanhas eleitorais na internet. Seu objetivo é refletir sobre os desafios que serão enfrentados por candidatos nas eleições de 2014, no sentido da produção de presença no ambiente digital. A internet, preponderante nos processos que resultaram nas manifestações da chamada “primavera brasileira”, será pensada em relação aos riscos e incertezas que oferece aos candidatos, por conta da desestabilização que promove na comunicação política. Palavras-chave: comunicação política; campanhas eleitorais; internet. Introdução As ondas de mobilizações ocorridas no Brasil em junho de 2013 trouxeram a política para o centro da opinião pública e expressaram a crise por que atravessa o modelo de representação política nas democracias ocidentais contemporâneas. Partindo de uma reinvindicação relativa ao preço de tarifas de transporte, o movimento aglutinou afetos negativos latentes no corpo social, que convergiram na manifestação da frustração com um sistema político cada vez mais autônomo e distanciado dos anseios populares. Diante de toda a incerteza quanto a estes acontecimentos, um argumento talvez incontestável é o de que os representantes foram cobrados em relação à urgência da reconfiguração de seus canais de relacionamento com a sociedade. Outro é o de que a pulsação multitudinária coletiva não pode ser pensada dissociada do fenômeno de emergência das plataformas de comunicação digital, que em seu comando descentralizado permitiu uma mobilização sem precedentes, na esteira de acontecimentos similares ocorridos em diversos países do mundo.

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Trabalho apresentado ao GT 4 – Imagem, Opinião Pública e Democracia, do XII Congresso Brasileiro de Comunicação e Marketing Político – Juiz de Fora (MG). 2 Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UERJ e Mestre em Comunicação e Cultura pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO-UFRJ). E-mail: pedrosangirardi@gmail.com

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Com o recado das ruas e a proximidade das eleições de 2014, os aspirantes a cargos eletivos têm pela frente o desafio de se remodelarem para competir por um eleitorado mais exigente, demandante de propostas detalhadas para múltiplos temas, e que dispõe de canais de interlocução renovados e vias de expressão mais efetivas, por conta da evolução dos recursos tecnológicos destinados a atividades colaborativas. Assim, os atores políticos brasileiros terão nas próximas eleições um duplo desafio: o reajustamento às expectativas de um público que protestou duramente contra eles; e para tal atuar mais efetivamente neste ambiente que apresenta tantas fontes de incerteza e insegurança para os candidatos: a internet. A proposta deste artigo é iniciar as reflexões pertinentes ao estudo do desenvolvimento das campanhas on-line, que terá como objeto as eleições de 2014, que serão um importante laboratório para a pesquisa em comunicação política no Brasil. A oportunidade de realizar este trabalho parece interessante pelos seguintes motivos: 1) desde 1989 não se avizinha cenário de sucessão presidencial tão disputado quanto o esperado para o próximo pleito; 2) as manifestações da “primavera brasileira” tiveram impacto nas projeções para o ano que vem, com previsão de 3

prejuízos eleitorais consideráveis para praticamente todos os partidos ; e 3) a internet possibilitou 4

tecnicamente o levante de proporções como as registradas , sendo de se esperar a valorização e o investimento das campanhas às estratégias de comunicação nos seus domínios, a despeito dos riscos envolvidos, como veremos ao longo do artigo. 1. Breve histórico das campanhas eleitorais na internet Nas primeiras experiências de campanhas brasileiras na internet, que remontam às eleições de 2002, a comunicação por correio eletrônico e a manutenção de um website, que tinha praticamente a função de um panfleto eletrônico, eram suficientes para assegurar uma presença destacada no ambiente digital. Neste estágio, a literatura construía a tese da ausência de 3

A coluna “Panorama Político”, do jornal O Globo, publicou em 21/07/2013 a nota “A massa na rua e as eleições”: “Os deputados de todos os partidos estão mais preocupados do que de costume com as eleições de 2014. Os protestos ocorridos no Brasil são a razão de tanta inquietude. Normalmente, a renovação na Câmara é de cerca de 50%. Mais ou menos 25% dis putam outros cargos, ou largam a política, e outros 25% saem derrotados do pleito. Agora, ninguém sabe o que vai acontecer. Nem se a renovação será ainda maior que de costume. A única certeza que eles têm, é que a insegurança deve ampliar bastante os gastos com a campanha. São muitos os que temem ser derrotados pelo espírito das ruas, sobretudo nos grandes centros onde os eleitores tendem a ter mais informação”.

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“Mais de 700 protestos em 360 cidades, invasões ou tentativas de invasão de câmaras, assembleias, palácios estaduais, ministérios e Congresso (manifestantes estiveram a alguns passos da entrada do Palácio do Planalto); seis pessoas mortas, 250 presas e cerca de 100 feridas; bloqueio de rodovias, tentativa de bloqueio do Porto de Santos, e um govern ador de Estado que não consegue entrar em casa, porque bloqueiam seu prédio” (Fonte: Mario Sergio Conti, programa Roda Viva, 01/07/2013).

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interatividade entre candidatos e eleitores, que iria predominar no debate realizado no período sobre a influência das novas tecnologias de informação e comunicação nas campanhas eleitorais. Em artigo publicado em 2005, Marques conclui que “a plataforma digital de comunicação não possui uma lógica de produção específica” (p. 144), e que “a internet parece atuar de modo mais consistente como um canal complementar” (p. 145, grifos no original). Deste modo, até então a lógica de produção de conteúdo on-line reproduzia padrões convencionais de comunicação política, sem representar necessariamente uma nova linguagem midiática. Em período subsequente, relativo às eleições de 2006, as preocupações de pesquisa se detiveram nas possibilidades de maior paridade de disputa por candidatos com menos recursos financeiros e estruturas partidárias mais modestas, enfatizando o potencial da internet em equalizar oportunidades de acesso de concorrentes grandes e pequenos aos meios de comunicação (GOMES & AGGIO, 2009). Basta se pensar na valorização do tempo de televisão na disputa eleitoral, para ter uma noção do que representava para o debate acadêmico a ideia da internet como um meio liberto dos limites de tempo e espaço das mídias impressas e audiovisuais. Portanto, o potencial aumento na paridade de condições de disputa contagiava a literatura (especialmente os estudos de democracia), atenta às oportunidades de aperfeiçoamento dos dispositivos democráticos. Os partidos menos influentes aumentavam seu potencial de expressão com a internet, onde a ausência de filtros noticiosos possibilitava a emergência de narrativas concorrentes às versões oficiais dos fatos políticos, antes monopolizadas pela grande mídia corporativa. Ainda assim, neste período as campanhas brasileiras ainda estavam longe de explorar as propriedades desse ambiente que o diferenciavam da mídia massiva tradicional. A web era entendida como um espaço mais experimental, usado para fazer ataques mais diretos ou menções menos respeitosas aos opositores, e para testar ideias antes da veiculação na televisão e no rádio. A perspectiva àquela época era complementar o Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral televisivo; por exemplo, o que não podia ser transmitido a fim de evitar punições por parte dos tribunais eleitorais era divulgado, sem maior fiscalização ou controle, no ciberespaço (STEFFEN apud MARQUES & SAMPAIO, 2011, p. 210).

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De 2003 a 2009, a ênfase da literatura esteve nos potenciais de mobilização das campanhas on-line, especialmente através das mídias sociais (AGGIO, 2013). Já as eleições de 2010 representam um ponto de virada nos modos de utilização das plataformas digitais, especialmente das redes sociais, que ganham relevância na opinião pública, em muitos casos chegando a pautar a grande mídia. Em estudo que analisa as rupturas e continuidades nos padrões midiáticos nas campanhas on-line neste ano, Jamil & Sampaio (2011) constatam que “as exigências tecnológicas feitas aos candidatos se tornam cada vez maiores”, e registram a transferência das exigências de aperfeiçoamento da democracia aos próprios concorrentes. Com efeito, exige-se dos candidatos que aperfeiçoem os mecanismos de diálogo público na condução de suas campanhas na internet. Tal exigência ganha rigor à medida que se agrava a crise de representação política, com o crescente fluxo de mensagens negativas e a proliferação de escândalos que pautam a mídia, acabando por gerar: Uma noção generalizada de artificialidade, formando-se assim, na verdade, uma imagem reduzida e altamente pejorativa do político, como alguém que se preocupa apenas com o poder e a projeção pessoal, não se afeta com os problemas da maioria das pessoas e é incapaz de falar com sinceridade (COLEMAN & BLUMLER, 2009, p. 60).

A imagem negativa da classe política refletida na queda nos índices de aprovação dos governantes foi agravada com a “primavera brasileira”, que marcou definitivamente o desgaste de um modelo de representação personalista e autorreferente. Com isso, aumentam as pressões sobre os candidatos, exigindo o reposicionamento em relação à opinião pública, o que depende de um uso qualificado e estratégico das plataformas e canais da world wide web. Pesquisas interessadas em verificar o impacto destes acontecimentos na construção das imagens públicas em período eleitoral poderão esclarecer se as possibilidades interativas advindas com a internet estão sendo aproveitadas pelos candidatos para o incremento da participação do público nas campanhas – no esforço de diminuir o fosso entre representantes e representados –, ou se as técnicas de persuasão permanecem de acordo com os moldes da comunicação de massa tradicional. Colocando a questão nos termos de Braga et al.: Se tais mecanismos de interação possibilitam, de fato, a criação de novos formatos de deliberação e participação política ao cidadão-internauta, ou apenas estão sendo utilizados pelos candidatos como ferramentas de ostentação de sua

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personalidade ou replicação da linguagem do marketing político tradicional (2013).

Mas a apropriação do ciberespaço pelos candidatos é mais complicada do que pode parecer à primeira vista, gerando uma situação conflituosa para as assessorias de partidos e candidatos. Stromer-Galley (2013) aponta três razões principais para que os candidatos não invistam em canais de interação humana na internet – pelo menos não tanto quanto permitem os recursos tecnológicos: 1) os altos custos envolvidos com a manutenção de equipes de atendimento às demandas dos eleitores; 2) o risco de perda do controle sobre seus ambientes de comunicação; e 3) a perda da possibilidade de manter uma posição de ambiguidade em relação a questões polêmicas, que possam desagradar segmentos do eleitorado, ou de defesa de medidas impopulares, neste caso arriscando votos que podem ser fundamentais para a vitória eleitoral. Ao detalhar suas posições políticas em um amplo leque de questões, é impossível para o candidato agradar a todos, sendo comum a estratégia de escamotear determinadas posições para não perder eleitores. A manutenção da ambiguidade, favorecida pelo formato top-down da comunicação de massa, é difícil de ser sustentada no contexto de múltiplos canais e aumento vertiginoso do volume de informação política, como se configura a realidade na web. 2. Das “Mídias de Massa” à “Massa de Mídias”: reflexos na Comunicação Política O cenário midiático fragmentado das comunicações em rede desestabiliza em profundidade a comunicação política, exigindo um reposicionamento por parte dos seus atores e tendo como motor transformacional a crise na representação política que atravessa o regime democrático brasileiro. Em sua estrutura horizontal e sistêmica, a internet “empodera” o anonimato nas comunidades virtuais e viabiliza redes difusoras de narrativas concorrentes das versões oficiais dos acontecimentos. Assim, está em foco a passagem da comunicação invasiva e unilateral dos meios massivos, para aquela distribuída por processos interativos nas redes sociotécnicas, isto é, trata-se da transição de um modelo de distribuição de mensagens one to many para outro, many to many, no qual um padrão comunicacional top-down é afetado pelo alargamento de canais de comunicação estruturados segundo uma lógica bottom-up. Os estudos de campanhas na internet devem em uma direção ajudar a esclarecer se é possível identificar inovação nas estratégias de comunicação, e em outra direção procurar

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entender em que medida as campanhas reproduzem os enquadramentos consagrados pelo marketing político, reforçando a perspectiva de complementaridade da internet em relação à mídia tradicional. Assim, a discussão será realizada à luz das tensões entre a comunicação de massa e a interconexão de redes (representadas respectivamente pela televisão e pela internet), relacionando as formas e expressões da propaganda política às especificidades dos meios tecnológicos de mediação. As diferenças entre as propriedades dos meios de mediação da era da comunicação de massa, como o rádio e a televisão, e as especificidades de tecnologias como celulares inteligentes e tabuletas, sugerem transformações na gramática e na linguagem dos meios por onde o discurso político circula, assim como nos padrões cognitivos do público na sua recepção e decodificação. A comunicação política está avançando em direção a um modelo que já não fala ao cidadão consumidor de candidatos embalados por técnicas e preceitos do marketing comercial, oferecidos em suportes desenhados para um formato de comunicação unidirecional, próprio à mídia de massa, a qual perspectivas de pesquisa sustentam ser a grande responsável pelo desânimo e descrença dos cidadãos (STROMER-GALLEY, 2013, p. 36, grifos meus). No estágio para o qual nos direcionamos, o receptor das mensagens não está mais indiferenciado na massa, mas gerenciando ativamente seu perfil de produtor e emissor de conteúdo, expandindo sua influência e abrindo canais de cooperação organizacional através dos recursos colaborativos das TIC. O uso instrumental da informação filtrada marca a passagem de um mercado de massa para um de nichos. E a reboque das transformações proporcionadas pelas tecnologias, as campanhas políticas não podem prescindir da presença no ambiente virtual para estarem em contato com esse eleitor volátil, infidelizado e crítico, que não se sente representado por candidatos portadores de discursos padronizados e anacrônicos para as dinâmicas sociais hodiernas. No Brasil, desde a eleição de Fernando Collor, acompanha-se a crescente profissionalização das atividades relacionadas ao marketing político, com a expansão de oportunidades para profissionais especializados em media training, assim como para os marqueteiros, que enquadram seus clientes para que estejam o tanto quanto possível adequados a expectativas dos eleitores – que decidem seu voto através de mecanismos cognitivos similares aos mobilizados nas escolhas que fazem como consumidores. A incorporação de preceitos de marketing para a construção da imagem pública de candidatos na mídia de massa tradicional teve

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seu apogeu na transformação do combativo sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva na sorridente figura do “Lulinha Paz&Amor”, como ficou caracterizada a persona pública do candidato petista na eleição presidencial de 2002. Dilma Rousseff também foi submetida a ajustamentos de imagem e postura para cumprir o script dos estrategistas de comunicação de sua campanha em 2010. Desta forma, um padrão de perfil é ajustado às regras, formatos e necessidades do meio televisivo, por onde circulam preferencialmente as imagens dos candidatos, em movimento que reforça o fenômeno da personalização da política (MCALLISTER, 2005). Creio ser possível fazer um paralelo entre a gradual incorporação destes preceitos em nossa cultura política – do início dos anos 1990 até hoje –, com a ampliação e sofisticação no emprego de plataformas digitais em campanhas eleitorais, tendo a eleição de Barack Obama em 2008 como um marco da aplicação integrada dos recursos dos ambientes digitais para fins de mobilização eleitoral. Com isso, quero dizer que tal como o marketing tradicional foi se profissionalizando na “confecção” do candidato para a disputa no palco televisivo, sua vertente digital vai gradualmente integrando o rol de preocupações de assessorias de partidos e candidatos, embora não se possa afirmar se ela reforça ou enfraquece a tendência à personalização nos processos comunicacionais da política. 3. A pesquisa em Comunicação Política Digital A internet é um objeto de pesquisa que possibilita o arranjo de princípios quantitativos e qualitativos, muito embora o campo de pesquisa em comunicação e política hoje experimente a larga predominância de estudos baseados em análises quantitativas. Há uma notável preocupação, por parte dos pesquisadores, em recorrer a modelos estatísticos para explicar os dados, na tentativa de afirmar a cientificidade de seu campo de pesquisa. A aproximação com as chamadas ciências duras para obter maior rigor metodológico é uma iniciativa que só tem a contribuir com a qualidade da pesquisa. Entretanto, não se pode perder de vista que a comunicação política exige atenção permanente a aspectos qualitativos, e um dos motivos para isso é sua íntima relação com as emoções e o simbolismo. Um exemplo de como pode ser arriscado fazer uma análise instrumental pura das ferramentas digitais é fornecido por Gomes et al. (2013), a respeito de livro de Bimber & Davis, Campaigning online, de 2003:

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O resultado é muito interessante e consistente, mas o conjunto dos achados resultantes de tanto esforço mal pode ser empregado para compreender as eleições de 2004, apenas um ano depois da publicação do livro, e não possui praticamente valor explicativo algum para o funcionamento e o efeito das campanhas on-line de 2008.

É preciso considerar a extrema rapidez da transformação tecnológica para não correr o risco dos resultados perderem validade tão logo termine a pesquisa. Enfoques empenhados em destrinchar com alto grau de detalhamento as estruturas funcionais das ferramentas estão arriscados a enfraquecer a discussão conceitual e recair no vazio do determinismo tecnológico e até em certo fetichismo metodológico. Acabam, não raro, interessados pelas medidas de teste em si mesmas, e seus desenvolvimentos passam a não ser outra coisa que a própria descrição do método. Para evitar que isso aconteça, é necessário explorar uma dimensão analítica que ultrapasse as funcionalidades das ferramentas, que seja capaz de considerá-las no interior de um sistema mais amplo, que experimenta as tensões das assimetrias entre formatos comunicacionais desenhados para oferecer experiências distintas do ponto de vista democrático. Becker (2007) chama a atenção para o que classifica de “operacionalismo”, a valorização de técnicas de mensuração em detrimento de definições conceituais: Muitos pesquisadores contemporâneos [...] agem no seguinte sentido: escolhem, como “indicador” do fenômeno sobre o qual querem falar, alguma coisa que tem uma relação imperfeita, por vezes extremamente imperfeita, com o próprio fenômeno, e depois tratam o indicador como se ele fosse aquele fenômeno (p. 147).

Essa corrente pode ser caracterizada pelo pragmatismo de desprezar quaisquer abstrações teóricas, acreditando poder com isso evitar dificuldades crônicas com discussões sobre definições, enunciando os conceitos de maneira simples, como aquilo que mediam com as operações usadas para estudar o fenômeno investigado. Sem a devida atenção conceitual, o aparato técnico e estatístico destas pesquisas acaba não sendo capaz de ultrapassar os resultados diferenciais – a verificação precisa de variações entre grandezas classificadas de maneira arbitrária –, contribuindo pouco com conclusões relevantes que possam ser extraídas dos resultados quantitativos, já que o “monitoramento em si não é um dado puro de realidade” (SILVA & SANTOS, 2013, p. 471). Nosso interesse está na observação e descrição dos mecanismos de disponibilização de informações, na análise do modo como os diferentes canais on-line servem ao complexo

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estrategico mobilizado para a obtenção do maior número possível de votos. Também é necessário atentar aos subsídios simbólicos e às condições proporcionadas para a emergência de sentidos preferenciais para a construção da imagem dos candidatos por parte dos usuários. Para isso, não podemos nos limitar a mensurar os níveis de utilização dos recursos, sem uma 5

consideração qualitativa às opções de design dos portais , e aspectos semióticos relativos às mensagens transmitidas através de textos, sons, fotos, vídeos e recursos multimídia. Trata-se de reconstruir, a partir dos circuitos por onde é produzida a presença do candidato na rede, o modelo de eleitor-consumidor para o qual as estratégias são direcionadas.

4. Questões para o desenvolvimento do estudo de campanhas on-line De acordo com o calendário eleitoral, a propaganda estará autorizada na internet a partir de 6 de julho de 2014. Como esta modalidade de campanha é caracterizada pela convergência midiática, os websites oficiais dos candidatos e seus perfis oficiais nas redes sociais poderão compor o corpus de uma diversidade de pesquisas no próximo ano. Os componentes deste corpus não poderão ser analisados de maneira estanque, mas nas vias da sua utilização integrada em ações de marketing digital. A propaganda política, sob este viés, é pensada menos nos termos estáticos de peças de campanha, do que no movimento de ações articuladoras de diversos recursos e artifícios. Em relação aos websites oficiais dos candidatos, as análises poderão colaborar com a tentativa de responder às seguintes perguntas de pesquisa, formuladas oportunamente por Iasulaitis (2013) e adaptadas aos nossos propósitos: 

Há indícios de interesse por parte dos coordenadores de campanha em incentivar e mesmo promover a participação do público em seus websites eleitorais? Quanto a este quesito a autora sugere a identificação de constrangimentos e incentivos relacionados ao gerenciamento dos fóruns on-line no processo de moderação por parte da equipe de campanha. 

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A interação entre política e tecnologia a partir da ciência do design, como nos lembra Steibel, “vai muito além de imaginar esteticamente como portais colaborativos são visualizados, para focar-se na expectativa normativa de como a interação governocidadão deve se dar” (p. 75).

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Tais espaços serviram ao propósito de promover um debate mais plural sobre o cenário político em geral e sobre o programa de governo do candidato em particular, ou acabou reforçando posições pré-estabelecidas e servindo predominantemente como abrigo para ataques a adversários? Este ponto reaviva o debate acerca de como a internet contribui para a polarização política e para aglutinar partidários das mesmas causas e interesses,

que vem sendo feito por autores como Prior (2007) e Bennett & Iyengar (2008).  

De que maneira se dão as trocas comunicativas entre candidatos e eleitores, e que recursos estéticos, discursivos e mesmo informáticos são trabalhados pelos especialistas em marketing digital? É possível construir um modelo de eleitor para o qual são dirigidas as estratégias persuasivas? Elas operam com o princípio de segmentação do eleitorado ou reproduzem os formatos unilaterais e padronizados da comunicação de massa?  Para Steibel, “analisar o design de portais colaborativos é primeiramente imaginar o que a

interação entre tecnologia e política pode e deve desempenhar enquanto experiência democrática” (2012, p. 77). As pesquisas de campanhas on-line podem ajudar a esclarecer se os objetivos da comunicação política em período eleitoral conservam o caráter monológico da era da comunicação massiva, ou se podem ser identificadas mudanças com a injeção de elementos inovadores na relação entre representantes e representados mediada pela tecnologia. Dito de outra forma, verificar o potencial da comunicação política digital de produzir transformações no plano de mediação capazes de proporcionar mudanças na prática da representação política (ITUASSU, 2012, p. 770). Nos termos de Stromer-Galley: É importante notar se candidatos e indivíduos estão interagindo genuinamente entre si em processos de deliberação, ou se a maioria das pessoas, na verdade, apenas têm acesso aos artefatos que contêm apenas aquilo que os candidatos desejam que os cidadãos vejam, leiam ou acreditem (2013, p. 50).

Nesse contexto, cabe verificar se as transformações sensoriais, cognitivas e culturais produzidas pela imersão on-line poderão justificar a emergência de linguagens persuasivas inovadoras, ou se ainda estão em relação de mera complementaridade com a forma tradicional de comunicação política realizada em período eleitoral. Perspectivas de pesquisa também poderão se interessar em averiguar se os candidatos estão aprimorando seus canais de relacionamento com o público a partir das potencialidades das tecnologias, ou se a lógica

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persuasiva conservadora ainda é predominante no gerenciamento estratégico das informações na rede. Em suma, se as exigências de aperfeiçoamento democrático feitas aos atores políticos estão sendo assimiladas pelos comandos das campanhas. Considerações Finais A internet é um terreno que reconfigura dinamicamente os padrões cognitivos de consumo, seja de produtos, de modelos de vida ou de candidatos a cargos políticos. A emergência de dispositivos móveis conectados, por sua vez, transfigura ainda mais radicalmente tais padrões, possibilitando formas de expressão e ação que vêm sendo exploradas pela multidão ávida por maior participação nas decisões políticas. A ênfase da literatura acadêmica na mobilização dos eleitores vai adquirindo relevo em compasso à sofisticação dos recursos e ferramentas interativas nos ambientes de sociabilidade digital, enquanto a reflexão teórica sobre as campanhas on-line se volta para os mecanismos de promoção de canais de relacionamento com maior potencial deliberativo entre as campanhas e os usuários-eleitores. Na impossibilidade de controlar os intensos fluxos comunicacionais que correm por esta multiplicidade de vias, as campanhas se apressam em compreendê-los, para tornarem-se capazes de criar estratégias específicas para o alcance de resultados positivos nas urnas. A onda de manifestações talvez tenha contribuído para acelerar o processo de incorporação do estado da arte do marketing digital às campanhas eleitorais brasileiras, sendo essa a tendência a ser estudada em 2014. Vimos como a lógica da intercomunicação de redes experimentada com o desenvolvimento da internet opera na contramão da personalização característica da comunicação política de massa, e como essa dissonância demanda dos candidatos estratégias renovadas e sensíveis às propriedades dos ambientes digitais. As exigências de aperfeiçoamento à democracia vêm sendo transferidas para os representantes públicos eleitos (e aos ainda candidatos), que são cobrados no aprimoramento dos mecanismos deliberativos de suas campanhas e mesmo de seus mandatos. A internet colabora decisivamente para acentuar o contexto da ultramidiatização criadora do efeito nomeado por Gomes (2004, p. 114) como “campanha permanente” ou “eleição interminável” – em que os mandatários cortejam a esfera civil para reconhecer seus humores e tendências e elaborar estratégias alinhadas.

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Caberá aos pesquisadores em comunicação política compreender como os candidatos e suas assessorias criarão oportunidades para atuar em duas direções aparentemente contraditórias que vêm sendo demandadas do ator político: se beneficiar dos fluxos criados pela inteligência coletiva, aumentando seu capital social como portador de um discurso de modernidade, fomentador de práticas participativas e deliberativas; e ao mesmo tempo manter o controle sobre seu ambiente de comunicação, impedindo a ação dos adversários e gafes e deslizes que comprometam o objetivo de qualquer campanha, que é eleger seu candidato. Referências Bibliográficas BECKER, Howard S. Segredos e truques de pesquisa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007. BENNETT, W. Lance; IYENGAR, Shanto. “A New Era of Minimal Effects? The Changing Foundations of Political Communication”. In: Journal of Communication, n. 58, 2008. COLEMAN, Stephen; BLUMLER, Jay G. The Internet and Democratic Citizenship: Theory, Practice and Policy. Cambridge: Cambridge University Press, 2009. GOMES, Wilson. Transformações da política na era da comunicação de massa. São Paulo: Paulus, 2004. GOMES, Wilson; AGGIO, Camilo. “Campanhas online: o percurso de formação das questões, problemas e configurações a partir da literatura produzida entre 1992 e 2009”. I Seminário Nacional Sociologia & Política, UFPR, 2009. GOMES, Wilson; FERNANDES, Breno; REIS, Lucas; SILVA, Tarcízio. “Politics 2.0”: a campanha online de Barack Obama em 2008”. In: MARQUES, Francisco Paulo Jamil Almeida; SAMPAIO, Rafael Cardoso; AGGIO, Camilo (Orgs.). Do clique à urna: internet, redes sociais e eleições no Brasil. Coleção E-livro, EDUFBA, 2013. IASULAITIS, Sylvia. “Modalidades de participação política em websites eleitorais: uma análise de fóruns de discussão com uma proposta metodológica.” In: MARQUES, Francisco Paulo Jamil Almeida; SAMPAIO, Rafael Cardoso; AGGIO, Camilo (Orgs.). Do clique à urna: internet, redes sociais e eleições no Brasil. Coleção E-livro, EDUFBA, 2013. ITUASSU, Arthur. Internet, Democracia e Mediação: a Universidade como lugar privilegiado para o avanço de espaços comunicativos mediadores da representação política no Brasil. In: Contemporanea: comunicação e cultura. v.10, n.03, set-dez 2012 – p. 759-776, ISSN: 18099386. MARQUES, Francisco Paulo Jamil Almeida. Sobre a comunicação político-partidária na Internet: um estudo dos informativos digitais do PT e do PSDB. In: Revista Galáxia, São Paulo, n. 10, p. 129-146, dez. 2005.

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MARQUES, Francisco Paulo Jamil Almeida; SAMPAIO, Rafael. Internet e eleições 2010 no Brasil: rupturas e continuidades nos padrões mediáticos das campanhas políticas online. In: Revista Galáxia, São Paulo, n. 22, p. 208-221, dez. 2011. MCALLISTER, Ian. The Personalization of Politics. Australian National University, Oxford Handbook of Political Behavior, 2005. PRIOR, Markus. How media choice increases inequality in political involvement and polarizes elections. New York: Cambridge University Press, 2007. SILVA, Tarcízio; SANTOS, Nina. Monitoramento dos sites de redes sociais nas eleições brasileiras de 2010: apontamentos sobre os usos do monitoramento na comunicação digital nas eleições brasileiras de 2010. In: MARQUES, Francisco Paulo Jamil Almeida; SAMPAIO, Rafael Cardoso; AGGIO, Camilo (Orgs.). Do clique à urna: internet, redes sociais e eleições no Brasil. Coleção E-livro, EDUFBA, 2013. STEFFEN, C. A política nos espaços digitais: a campanha presidencial de 2002 na internet. Dissertação (Mestrado em Ciências da Comunicação). São Leopoldo: Universidade do Vale do Rio dos Sinos, 2004. STEIBEL, Fabro. Consultas públicas online e o marco digital no processo legislativo brasileiro. In: Cadernos Adenauer XIII (2012) nº3, 2012. Disponível em <http://www.kas.de/wf/doc/93051442-5-30.pdf>. Acesso em 26/07/2013.

STROMER-GALLEY, Jennifer. Interação on-line e por que os candidatos a evitam. In: MARQUES, Francisco Paulo Jamil Almeida; SAMPAIO, Rafael Cardoso; AGGIO, Camilo (Orgs.). Do clique à urna: internet, redes sociais e eleições no Brasil. Coleção E-livro, EDUFBA, 2013.

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Um es tudo sobre os processos de construção da agenda do Portal Uol durante os protestos de junho 2013 1 Mar celo Alv es 2 Un iv er sid ad e Fed er al d e São Jo ão d el- Rei

Resumo: A relação entre os campos de m ídia e política é, muitas vezes, controversa, tensa e conflitiva, envolvendo negociações, barganhas e críticas. Esse trabalho se propõe a estudar a form ação da agenda m idiática e dos enquadram entos m ajoritários por meio da análise de conteúdo das 535 notícias publicadas pelo Portal UOL durante a onda de protestos de junho de 2013 no Brasil. Encontra -se grande núm ero de enquadram entos que privilegiam os enfoques em vio lência, transtornos e ações m ilitares. O controle da agenda m idiática é disputado pelo governo , partidos, movimentos sociais, analistas e público em geral. Palavras-chave: jornalismo político; framing, agenda-setting. Introdução Junho de 2013 foi um mês histórico para a política brasileira: milhões de pessoas foram às ruas, em todas as regiões do país, para se manifestar, extravasar, reclamar contra a corrupção, problemas no sistema de saúde, educação, transporte, entre outras reivindicações. Os jornalistas apontaram que uma nova energia política havia surgido. Muito foi publicado naquele mês. Poucas vezes se viu temas políticos serem comentados com tanta veemência pelo povo: a opinião pública estava inflamada; assim como as escolas, universidades, bares, restaurantes. Inegável que a agenda pública foi inundada por uma enxurrada de conteúdo produzido sobre os protestos. Esse trabalho lança um olhar acerca das instâncias de construção e influência da agenda midiática, tentando pincelar quais assuntos ganharam espaço no Portal Uol durante o mês de junho, destacando enquadramentos majoritários, fontes primárias, analistas e o embate entre governo e oposição durante a repercussão dos discursos oficiais. Essencial notar que o fluxo 1

Trabalho apresentado ao GT 1 – Propaganda Política e Ideológica do XII Congresso XII Congresso Brasileiro de Comunicação Política e Marketing Eleitoral – Juiz de Fora (MG) 2 Aluno do curso de Comunicação Social com ênfase em Jornalismo da Universidade Federal de São João del-Rei, e-mail: marceloalves.ufsj@hotmail.com

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de comunicação do agendamento partiu do povo e, numa tendência crescente, ocupou a mídia e, por fim, chegou integralmente aos locais de negociação, formação de políticas públicas e deliberação institucionais. A ação comunicativa é reflexo da nova reconfiguração contemporânea da política em tempos de globalização, capitalismo financeiro, da cultura do acesso, planos de democratização da internet, visibilidade, dialogismo e outros aspectos. Isso posto, é desenvolvida a análise de conteúdo das notícias do Portal Uol sobre os protestos no mês de junho de 2013. A análise tem a preocupação qualitativa de encontrar, contextualizar e articular indícios dos procedimentos complexos, contraditórios e circulares de formação da agenda midiática; identificando como se comportou a agenda da mídia e como a proximidade da eleição presidencial de 2014 foi fator importante para orientar a postura dos possíveis candidatos, bem como traçar cenários de debate, que contribuem para a construção social da imagem dos atores políticos. 1. Referencial Teórico 1.1 A Teoria do Agendamento A teoria de agenda-setting completou 40 anos de fundamentação teórica em 2012. Os modelos pioneiros criados em 1972 por McCombs e Shaw já foram aplicados em mais de 40 países, com uma gama diferenciada de metodologias e de objetos. Uma investigação proeminente é a agenda-building ou construção da agenda, que estuda os processos de origem da agenda midiática. A literatura da área explica que a mídia sofre influência de diversas instâncias nos momentos de construção de sua pauta diária. A lista é extensa e concerne a atividades dos três poderes, movimentos sociais, empresas, assessorias de imprensa, agências de notícia, veículos de comunicação concorrentes, agenda do público, normas sociais e valores profissionais. Durante a cobertura jornalística cotidiana, os temas competem entre si para encontrar espaço na imprensa. A construção da agenda da mídia acontece de forma conflituosa, circular e complexa. No entanto, o estudo do processo de formação da agenda midiática de um veículo foi pouco explorado no Brasil. Esta análise promove maior conhecimento sobre a linha editorial dos meios

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de comunicação e das forças que influenciam as pautas jornalísticas; bem como um aprofundamento da aplicação dos valores-notícia e trabalho da imprensa. Rogers, Dearing e Bregman (1993) propõem três componentes que constituem o processo de agendamento: a agenda midiática (media agenda-setting), que estuda os conteúdos da mídia; agenda pública (public agenda-setting), que analisa a importância dos acontecimentos da esfera pública; e agenda governamental (policy agenda-setting), que investiga a agenda das políticas públicas governamentais. De acordo com Colling (2001), a teoria do agenda-building estuda como é formada a agenda da mídia e por quais outros agentes sociais ela pode ser influenciada. “A construção da agenda, ou agenda-building, estuda como e quem determina as agendas, quem tem o poder de controlar a agenda e como isso é realizado” (COLLING, 2001, p.94). A metáfora da cebola, de McCombs (2009), demonstra que a formação da agenda da mídia é influenciada por uma série de fatores: no nível mais externo, estão as fontes das notícias, indo em direção ao centro, às outras mídias, ao newsmaking e à agenda da mídia. 1.2 Enquadramento David H. Weaver (2007) explica que a teoria do enquadramento é uma das ramificações acadêmicas que se seguiram à multiplicação e aprofundamento dos estudos de agenda-setting. Nem todos os acadêmicos concordam com as múltiplas definições que o termo recebe, relacionado a fatores como: estruturas macrossociais, definições de problemas, interpretações casuais, avaliações morais, recomendações, temas-chave, frases e palavras. Porto (2001) aponta que o conceito de enquadramento começou a ser utilizado em diversas disciplinas depois de cunhado, em 1974, por Erving Goffman, como princípios de organização que os sujeitos utilizam para apreender os eventos sociais. “Neste enfoque, enquadramentos são entendidos como marcos interpretativos mais gerais, construídos socialmente, que permitem às pessoas dar sentido aos eventos e às situações sociais” (PORTO, 2001, p. 78). Segundo Goffman (1986, p.10), “definições de uma situação são construídas de acordo com o princípio de organização que governam os eventos – pelo menos os sociais – e nosso envolvimento subjetivo nesses eventos”.

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Scheufele e Tewksbury (2007) escreveram um artigo sobre a evolução teórica dos modelos de priming, agenda-setting e framing. Ao estudar os conceitos, afirmaram que os efeitos da mensagem sobre a audiência estão relacionados com a forma de a notícia é apresentada. Os estudiosos definem o enquadramento como a forma pela qual os assuntos são tratados e abordados pela mídia e como eles são compreendidos pelo seu público-alvo. De acordo com a pesquisa, o enquadramento possui um nível macro e uma construção de nível micro. Como micro-construto, Scheufele e Tewksbury argumentam que o conceito descreve como as pessoas aplicam as informações e impressões que eles têm a partir de um tema específico. O macro-construto refere-se à apresentação da notícia, elaborada por jornalistas e comentaristas. Nesse sentido, os repórteres usam quadros para explicar temas complexos e tornálos acessíveis ao público. Em outro artigo, Scheufele (1999) resume as abordagens anteriores à pesquisa e desenvolve um modelo processual de enquadramento. No texto, ele define a enquadramento como uma extensão ou o segundo nível do agenda-setting, descrevendo o impacto de certos aspectos da cobertura da mídia sobre a interpretação do público. "No âmbito da comunicação política, o enquadramento deve ser definido e operacionalizado a partir do construtivismo social" (SCHEUFELE, 1999, 105). Nisbet, Brossard, e Kroepsch (2003) desenvolveram uma análise de enquadramento sobre a negociação entre jornalistas e fontes na definição de quadros de notícias. No artigo, eles afirmam que a mídia de massa é em si uma instituição política e tem um papel na formação do sistema político. Assim, certos grupos de interesses conflitantes (governos, empresas, celebridades) tentam influenciar o processo de elaboração e, portanto, mudar o ponto de vista sobre um assunto. Em consequência, os estudiosos acreditam que os jornalistas e as fontes negociam em favor da noticiabilidade de questões que são facilmente dramatizadas ou narradas, em oposição às histórias complexas. 1.2 Mídia e Política em busca da influência da agenda Com o aumento da importância e reconhecimento da esfera da comunicação na sociedade contemporânea, o campo da política precisa ter acesso a ela para chegar aos eleitores, apresentar seus projetos, debater ideias e encontrar apoio eleitoral: a mídia se tornou o principal palco do

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embate político. Rodrigues (2004) acredita que o poder político busca, incessantemente, controlar as representações que os meios de comunicação veiculam. “É este o objetivo que o poder acalenta em relação ao campo dos media: discipliná-la, converte-la e mantê-la como regime policial das opiniões livres” (RODRIGUES, 2001, p.169). Walgrave e Aelst (2004) preocupam-se em lançar luz ao debate acerca da medida em que os meios de massa determinam a agenda política e em quais circunstâncias isso ocorre. Os autores enfatizam que a razão mais importante para elucidar a transferência de saliência é o fato de a cobertura midiática ser associada à opinião pública. “´[...] Políticos acreditam que as notícias de TV e os jornais determinam as os temas públicos prioritários” (WALGRAVE, AELST, 2005, 15). Wilson Gomes (2004), por sua vez, afirma que existe uma relação tensa entre o campo da política e a esfera dos meios de comunicação por terem naturezas bem distintas. O autor afirma que a política é a esfera da negociação, da argumentação e das barganhas a portas fechadas. Já as indústrias de mídia são regidas pela lógica da visibilidade, da velocidade, do entretenimento e da audiência. Os campos entram em conflito na definição dos enquadramentos das notícias, considerando que os jornalistas tentam retratar o lado obscuro dos políticos, o caixa-dois, os erros de campanha; e os políticos visam a garantir uma exposição favorável, com matérias sobre pontos positivos de sua personalidade, projetos de sucesso e atuação junto à comunidade. Miguel (2002), no entanto, pontua que não há uma relação de predomínio de um campo sobre o outro. Ao contrário, o balanço de forças é muito complexo. “Há um processo permanentemente tensionado de embate entre as lógicas do campo midiático e do campo político, que necessita ser observado em detalhe e dentro de sua complexidade” (MIGUEL, 2002, p.180). Rubim (2001) enfatiza que a sociedade está ambientada pela mídia. Para Blumler e Kavanagh (1999), a tensão entre os campos reflete-se em uma cultura de adversarismo nas relações entre políticos e jornalistas. Isso acontece quando os políticos traçam estratégias para construir uma imagem positiva junto aos meios de comunicação; contrapostas ao foco jornalístico em incidentes dramáticos, escândalos, rachas internos e deslizes dos candidatos. De acordo com Thompson (1998), os líderes políticos contemporâneos adotam estratégias para lidar com a visibilidade midiática e desenvolver estratégias para administrar sua imagem junto à sociedade. “Renunciar à administração da visibilidade através da mídia seria um ato de suicídio político o uma expressão de má-fé de quem foi tão acostumado à arte da auto-

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apresentação” (THOMPSON, 1998, p.124). Ele ressalta que os atores políticos devem estar permanentemente atentos à sua exposição na imprensa, tendo em vista que pequenas falhas e gafes podem prejudicar a imagem do político de forma, às vezes, irreparável. Nesse sentido – e tendo em vista que os jornais tentam resistir às estratégias empregadas pelos políticos para controlar sua aparição na mídia - entram em cena marqueteiros, publicitários, analistas de mídia, consultores, assessores, e jornalistas. Um grupo de profissionais irá cuidar da comunicação da campanha e administrar a imagem pública dos candidatos, com o objetivo de ganhar a opinião pública, a imprensa e os votos dos eleitores. A profissionalização transforma as eleições em uma batalha midiático-publicitária de peças, campanhas, narrativas, declarações e acusações. 1.4. Jornalismo Político e Internet Portanto, o campo da política também se apropriou das novas tecnologias de comunicação online para desenvolver suas campanhas eleitorais, melhorar a interlocução com os eleitores, realizar levantamento de dados, pesquisas de intenção de votos, propaganda ideológica e outras atividades. A interface entre público e privado aumentou ainda mais com a chegada da internet, que pode destruir ou elevar reputações, e testar ou descartar rumores em minutos. As especificidades técnicas da internet reconfiguram o cenário da comunicação política e da interface midiática. Gurevitch, Coleman e Blumler (2009) argumentam que o texto digital é fluido e propenso à viralidade, à interatividade e à remixagem. A comunicação política, segundo eles, torna-se muito mais propensa a ruídos e à disfunção. A integridade monolítica das mensagens está acabada. Assim que qualquer conteúdo é publicado na internet, o material está sujeito a alterações, cortes, adições e re-interpretações. No mundo online, todos podem ser produtores, editores e comentaristas. À disposição dos cidadãos, existe uma vastidão incomensurável de fontes de informação, o que nem sempre garante a pluralidade igualitária de vozes. As pessoas sofrem uma sobrecarga de notícias e se sentem incertas do que merece credibilidade, apontam os acadêmicos. Em consequência, os cidadãos mais questionadores, que acompanham e criticam, encaram as frustrações tradicionais da ineficiência do processo político.

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O novo ecossistema de comunicação promove a convergência entre mídias. Meios tradicionais diversificaram seus negócios, tomaram forma de empresas, firmando joint-ventures, atingindo outros mercados e expandindo seus produtos de jornal, rádio, televisão para telecomunicações, internet, provedores, cinema, gestão cultural, redes sociais, entre outros. Os conteúdos também adquirem formatos diversos e, muitas vezes, as antigas classificações maniqueístas entre analógico e digital não são aplicáveis. Os jornais, por exemplo, levaram seu conteúdo aos tablets, celulares, portais; e também produzem podcasts, sabatinas e conteúdo especial para as mídias sociais. Antes mesmo do fenômeno de convergência entre as mídias, os teóricos identificaram o agendamento intermídia. “A mídia noticiosa de elite frequentemente exerce uma influência substancial na agenda de outros veículos” (McCOMBS, 2009, 174). Nesse sentido, nota-se que as grandes organizações jornalística, equipadas com mais recursos humanos, tecnológicos e financeiros são responsáveis por definir temas de debate público e ainda transferir essa saliência para diversas outras agências de produção de conteúdo. 2. Estudo de Caso 2.1. Metodologia Segundo Yin (2009), o estudo de caso é um das diversas metodologias das ciências sociais. Sua tipologia prevê seis passos: planejamento, design, preparação, levantamento de material, análise e compartilhamento. Ele explica que esse é um método rigoroso, que começa com extensa e profunda revisão bibliográfica da área, seguida por cuidadosa definição das questões e objetivos, além dos procedimentos, pelos quais será realizada a pesquisa. Ao contextualizar as formas de análise mais aplicadas em ciências sociais, Yin afirma que cada uma possui características adequadas a determinadas situações, hipóteses e objetos. O estudo de caso é indicado quando se analisa eventos contemporâneos, sem o controle comportamental. Na definição do autor, estudo de caso é uma pesquisa empírica que investiga em profundidade um fenômeno atual da vida real, especialmente quando as fronteiras entre o fenômeno e o contexto não estão evidentes. “A aplicação mais importante é explicar os links casuais nas intervenções da vida real que são muito complexas para questionários ou estratégias

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experimentais” (YIN, 2009, 19). Com isso, entre as três formas de pesquisa elencadas pelo autor, descritiva, explicativa e exploratória, será aplicado o estudo de caso explicativo. Seguindo essa metodologia, foi investigado como corpus de análise 535 notícias do Portal Folha/UOL, um dos veículos de cobertura política com mais abrangência e acessos, durante o mês de junho e os discursos oficiais de Dilma Rousseff, em busca de traçar uma análise comparativa entre a agenda presidencial e a agenda midiática, enfatizando os enquadramentos utilizados. No que concerne à dimensão temporal, o estudo focou-se nos protestos de junho no Brasil, tendo em vista como a Presidente da República, Dilma Rousseff (PT), e o representante da oposição, Aécio Neves (PSDB), posicionaram-se em relação à criação de cenários possíveis de um embate eleitoral. 2.2. Análise de Conteúdo A primeira notícia sobre as passeatas foi publicada pelo Portal Uol em 06 de junho de 2013. O texto aponta o trajeto dos cerca de 2.000 manifestantes pelo centro de São Paulo, posterior confronto com a Polícia Militar e prisão de 15 pessoas. Desde então, houve uma enxurrada de notícias tratando do assunto, desde análises acerca das demandas e tratativas políticas, até o lucro que cada vendedor de rua ganhava vendendo água e refrigerante. No total, entre 06 e 30 de junho, o site publicou 535 matérias sobre o tema, com pico entre os dias 17 e 21; e 24 e 28. A construção da agenda midiática, nesse período, influenciou e foi influenciada pela grande movimentação na opinião pública. Os temas tomaram as capas de jornais e figuraram por muito tempo no topo de portais jornalísticos. Segundo Habermas (2002), o poder da ação comunicativa na democracia deliberativa parte das pautas da esfera pública, organiza-se em forma de discurso e ação, até atingir a imprensa e os centros políticos. “´[...] descobrimos que as decisões impositivas, para serem legítimas, têm que ser reguladas por fluxos comunicacionais que partem da periferia e atravessam as comportas dos procedimentos próprios à democracia e ao Estado de direito” (HABERMAS, 2002, 88-9). As matérias do começo do mês se focaram no enquadramento violência, buscando mostrar os prejuízos causados a prédios, sistemas de transporte e vias públicas. Ainda houve destaque para confrontos com a PM e prisões realizadas. “Presidente do Sindicato dos

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Metroviários é preso durante protesto de estudantes em SP” (06 de junho de 2013); “Metrô aponta prejuízo R$ 73 mil com vandalismo em manifestação e diz que vai processar autores; "Confronto na Paulista foi „revolta popular‟ após ataque da PM, diz líder estudantil"; "Polícia joga bombas em manifestantes na marginal Pinheiros; 1 pessoa é ferida” (07 de junho de 2013). No que tange à disputa pelo agendamento e à seleção de fontes, foi caráter marcante a repercussão dos pronunciamentos das autoridades e entidades oficiais. "Para Alckmin, atos de protesto foram absurdos" (07 de junho de 2013); "Aumento da tarifa de ônibus no Rio está dentro de regras estabelecidas‟, diz Paes" (09 de junho de 2013); “Plínio de Arruda Sampaio classifica de "grupelho" os envolvidos em vandalismo em protestos” (13 de junho de 2013). Miguel (2004) enfatiza que os agentes que detêm maior capital político possuem maior possibilidade de orientar o noticiário (e, por consequência, a agenda pública), tendo em vista que são, com frequência, fontes primárias dos repórteres. “O controle sobre a agenda e sobre a visibilidade dos diversos enquadramentos alicerça a centralidade dos meios de comunicação no processo político contemporâneo” (MIGUEL, 2004, 171). A notícia do dia 16 de junho "Protestos e onda de violência põem segurança no foco da disputa eleitoral em SP" enfatiza o agendamento do tema como um dos balizadores da próxima eleição governamental em São Paulo. “As duas principais forças políticas paulistas, PSDB e PT, se posicionam no tabuleiro da disputa pelo Palácio dos Bandeirantes no ano que vem. De ambos os lados, a certeza é uma só: o tema segurança pública será o foco do debate”. O corpo do texto chama a atenção para as estratégias pré-eleitorais adotadas pelos possíveis candidatos para se posicionarem em relação à segurança pública. O Portal UOL deu espaço, também, para as declarações dos manifestantes, que denunciavam o excesso de força da PM nos primeiros dias e a tentativa de dar seguimento a passeatas pacíficas. "Confronto na Paulista foi „revolta popular‟ após ataque da PM, diz líder estudantil" (07 de junho de 2013). Há, contudo, poucas notícias sobre negociações e tentativa de atendimento às demandas. "Haddad vai pedir ajuda de Dilma para baixar passagem" (08 de junho de 2013); "Haddad nega proposta levada pelo MP e diz que não irá suspender aumento da tarifa" (13 de junho de 2013). Nesse momento, os atos já haviam crescido de uma média de 2.000 participantes para 60 mil e começavam a se espalhar pelas capitais e grandes cidades, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belém, Distrito Federal, Curitiba e Belo Horizonte. “A mídia pode politizar o quotidiano

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tornando-o visível e observável em maneira que antes não eram possíveis e, portanto, tornando os eventos quotidianos um catalisador para ações que vão muito além dos locais imediatos onde ocorrem” (THOMPSON, 2002, p. 215). Em breve nota divulgada pela Secretaria de Comunicação Social, a Presidente da República, Dilma Rousseff (PT), afirmou que "as manifestações pacíficas são legítimas e próprias da democracia. É próprio dos jovens se manifestarem". Foi a primeira resposta aos casos de violência e ao próprio protesto, sem mostrar um direcionamento ou abertura de negociação no Planalto. A agenda midiática assumiu diversos enquadramentos, conciliando variada gama de temas e fontes. A oposição ganhou figura na pessoa do senador mineiro, Aécio Neves (PSDB). O político mais cotado para ser o candidato tucano na eleição presidencial de 2014, atacou o governo e ressaltou o crescimento da insatisfação popular. Sua declaração deixa claro o potencial eleitoreiro da conjuntura política e da efervescência pública. “Aécio Neves diz que há insatisfação nas ruas”; “Brasil precisa de um novo rumo, diz Aécio sobre protestos” (18 de junho de 2013). No dia 18, após 10 mil pessoas terem ocupado ruas de Brasília e parte deles subido na marquise do Congresso Nacional por quase cinco horas, Dilma veio a público e disse que o Brasil havia acordado mais forte. A presidente distribuiu elogios: aos protestantes, Polícia Militar e ao governo, aplaudindo a ação popular e criticando atos de violência. O Brasil hoje acordou mais forte. A grandeza das manifestações de ontem comprovam a energia da nossa democracia. A força da voz da rua e o civismo da nossa população. É bom ver tantos jovens e adultos, o neto, o pai, o avô juntos com a bandeira do Brasil cantando o Hino Nacional, dizendo com orgulho eu sou brasileiro e defendendo um país melhor. O Brasil tem orgulho deles. Alguns dias depois, em 21 de junho, a presidente deu um pronunciamento de dez minutos em cadeia nacional de rádio e televisão, comentando a onda de protestos que se replicava em dezenas de cidades brasileiras. “Como presidenta, eu tenho a obrigação tanto de ouvir a voz das ruas, como dialogar com todos os segmentos, mas tudo dentro dos primados da lei e da ordem, indispensáveis para a democracia”. Em nota oficial, Aécio Neves, contudo, acusou o PT de tentativa oportunista de apropriação das manifestações. Postura essa que, segundo ele, colocava em risco as pessoas que

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saiam às ruas com bandeiras e símbolos. "Trata-se de decisão irresponsável que desrespeita o sentido apartidário dos protestos, colocando em risco, inclusive, a segurança de seus próprios militantes, alguns deles hostilizados ontem em várias partes do país". Após o pronunciamento da Presidente, o tucano disse que, sem reconhecer os erros e as responsabilidades do governo, Dilma havia perdido a oportunidade de se conectar com as ruas e havia repetido a postura rechaçada nas ruas de todo o país; “Presidente perdeu oportunidade de se conectar com a população, diz Aécio” (22 de junho de 2013). Dilma Rousseff mencionou os atos em 12 dos seus 18 discursos. A Presidente convocou governadores e prefeitos das capitais para seguidas reuniões e anunciou um pacote de medidas, os Cinco Pactos. Ela também passou a receber lideranças de movimentos sociais, tentando mostrar a disposição do governo federal para receber e ouvir a população. Além disso, considerando que o ano anterior às eleições já é tomado por estratégias de gestão de imagem e de construção das candidaturas, algumas matérias do Portal Uol avaliaram o impacto dos protestos de junho sobre a popularidade de Dilma Rousseff e Aécio Neves, que se colocou como principal opositor do governo. De acordo com pesquisa CNI/Ibope, a aprovação recorde que o governo de Dilma detinha em março, 79%, caiu para 45% em julho. Além disso, as pesquisas de intenção de voto traçavam determinados cenários eleitorais para 2014. Em 11 de junho, a pesquisa CNT apontou que a presidente teria 52,8% das intenções de voto, contra 17% do senador, Aécio Neves (PSDB-MG); 12,5% da ex-senadora, Marina Silva (Rede Sustentabilidade) e 3,7% do governador, Eduardo Campos (PSB-PE). Na publicação da próxima pesquisa, o Portal Uol destacou a abrupta queda da presidente. “Em um mês, intenção de voto em Dilma cai 19 pontos, diz pesquisa CNT/MDA”, (16 de julho de 2013). Segundo o levantamento, Dilma Rousseff teria 33,4% dos votos, contra 20,7% de Marina Silva; 15,2% do senador Aécio Neves (PSDB-MG) e 7,4% do governador Eduardo Campos (PSB-PE). Ao lado da queda de Dilma e Aécio Neves, notam-se nos dados uma transição de pontos para Marina Silva (figura que sempre se colocou como uma alternativa independente e, mais recentemente, apartidária).

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Considerações Finais O clima pré-eleitoral e a efervescência da opinião pública, somados à reconfiguração da comunicação política e ao uso das novas tecnologias, propiciaram um mês de grande circulação de notícias, nas quais puderam ser identificados diversos enquadramentos e múltiplos assuntos tomando lugar na imprensa. A pesquisa mostra indícios do caráter conflitivo encontrado na relação entre as instâncias de produção de notícia, fontes e atores políticos, que, frequentemente, traçam estratégias para influenciar a mídia a seu favor. Dado o caráter de tensão e negociação entre os campos sociais e a celeridade com que o Portal Uol publicou as matérias, notaram-se um encadeamento e uma articulação entre variados pontos de vista, inclusive com a presença do adversarismo e troca de ataques políticos, no que pode ser uma prévia do ambiente eleitoral de 2014. Referências Bibliográficas BLUMER, Jay. KAVANAGH, Dennis. The Third Age of Political Communication: Influences and Features. Political Communication, pp.16:209–230, 1999. COLLING, Leandro. Agenda-setting e framing: reafirmando a teoria dos efeitos limitados. Revista FAMECOS. Porto Alegre, nº 14, abril 2001. GOFFMANN, Erving. Frame analysis. Nova York: Harper y Row, 1974. GOMES, Wilson. As transformações da política na era da comunicação. São Paulo: Editora Paulus, 2004. GUREVITCH, M., COLEMAN, S., & BLUMLER, J. Political communication – old and new media relationships. The Annals of the American Academy of Political and Social Science, 625 (1), 164-181, 2009. HABERMAS, Jurgen. Direito e democracia: entre facticidade e validade. Volume 02. Biblioteca centro universitário. Rio de Janeiro. 2003. HOHLFELDT, Antonio. Os estudos sobre a hipótese do agendamento. In: Revista Famecos. Porto Alegre: Edipucrs, número 7, 1997. LIPPMANN, W. Public opinion. New York: Free Press Paperbacks, 1997. MCCOMBS, Maxwell. A teoria da agenda: a mídia e a opinião pública. Petrópolis: Vozes, 2009.

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MIGUEL, Luis Felipe. Influência e resistência: em busca de um modelo complexo da relação Disponível em: mídia/política. <http://vsites.unb.br/fac/comunicacaoepolitica/LuisFelipe2001.pdf>. Acesso em: 08 nov. 2011 ________________. Os meios de comunicação e a prática política. Lua Nova, São Paulo, n.5556, p. 155-184, 2002. NISBET, Matthew C. Brossard, Dominique, and Kroepsch, Adriane. Framing Science: The Stem Cell Controversy in na Age of Press/Politics. Journal of Communication, Vol. 57, No.1, pp. 36-68, 2003. PORTO, Mauro. A Mídia Brasileira e a Eleição Presidencial de 2000 nos EUA: A Cobertura do Jornal Folha de S. Paulo. In Cadernos do Ceam, As Relações entre Mídia e Política, N. 6, Universidade de Brasília, 2001. RODRIGUES, Adriano Duarte. Estratégias da Comunicação. Lisboa: Editorial Presença, 1990. SCHEUFELE, D. A. Agenda-setting, priming, and framing revisited: Another look at cognitive effects of political communication. Mass Communication and Society, 3,297–316. 2000. SCHEUFELE, D., TEWKSBURY, D. Framing, Agenda Setting, and Priming: The Evolution of Three Media Effects Models, Journal of Communication, vol. 57 n. 1, 2002. THOMPSON, J.B. A mídia e a modernidade. Petrópolis: Editora Vozes, 1998. __________. Escândalos políticos. Petrópolis: Editora Vozes, 1998. WALGRAVE, Stefaan and Peter van AELST. ‘The Mass Media’s Political Agenda Setting Power: Toward an Integration of the available evidence’, APSA Political Communication preconference, Chicago, Setembro de 2004. WEAVER, D. H. Thoughts on Agenda Setting, Framing, and Priming. Journal of Communication, 57: 142–147, 2007. YIN, Robertk. Case Study Research Design and Methods. Los Angeles, Sage, 2009.

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Estratégias argumentativas no Facebook do movimento mexicano #YoSoy132

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Gabriel Alexandre Bozza2 Universidade Federal do Paraná (Brasil)3 Luciana Panke PPGCOM/UFPR Universidade Autônoma Metropolitana (México)

Resumo: Esse trabalho apresenta o estudo de caso do movimento #YoSoy132, criado em maio de 2012, durante as eleições presidenciais do México. A pesquisa mostra que a hashtag foi criada por estudantes universitários em apoio aos estudantes da Universidade Iberoamericana, que protestaram contra o candidato à Presidência Enrique Peña Nieto. O objetivo principal é verificar pela análise da rede social virtual Facebook, no período pós-eleitoral, quais as estratégias argumentativas usadas pelos ativistas em seus discursos, conforme a teoria da argumentação proposta por Perelman e Olbrechts-Tyteca (1996). Analisamos quantitativamente o corpus composto por 142 postagens no Facebook no período de 03 de julho de 2012 a 03 de dezembro de 2012. Não houve seleção ou exclusão de postagens coletadas. A justificativa de coleta póseleição ocorreu para verificar se o movimento deu continuidade em suas ações. Palavras-chave: comunicação

política;

eleições;

movimento

estudantil;

México,

#YoSoy132. Introdução Um movimento social “é uma interação sustentada entre pessoas poderosas e outras que não têm poder: um desafio contínuo aos detentores de poder em nome da população cujos interlocutores afirmam estar ela sendo injustamente prejudicada ou ameaçada” por isso (McADAM, TARROW, TILLY, 2009, p. 21). Uma dos pontos em comum entre os movimentos é o confronto. Há necessidade de haver um tema conflitivo entre os detentores de poder e as bases populares. Além dos motivos racionais da discordância, as emoções guiam vários participantes e, também, é a emoção que pode atrair novos participantes. Os momentos de grande confronto geram eixos emocionais e norteiam a

futura direção do movimento (TARROW, 2009, p. 145).

1

Trabalho apresentado ao Colóquio Binacional Brasil-México de Comunicação Política - Juiz de Fora (MG) Jornalista, mestrando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPR, e-mail: gabrielbozz@gmail.com Bolsista Reuni. 2

3

Atualmente em estágio pós-doutoral na Universidade Autônoma Metropolitana (UAM- México). Doutora em Ciências da Comunicação (USP); Professora da Univers idade Federal do Paraná na graduação em Comunicação Social (Publicidade e Propaganda) e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação. Vice-Presidente da Sociedade Brasileira de Profissionais e Pesquisadores de Marketing Político (Politicom) e líder do grupo de Pesquisa “Comunicação Eleitoral”. Bolsista Capes.

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Esses conflitos são parte da definição de que “os movimentos sociais são formados por mensagens comunicativas de raiva e esperança” (CASTELLS, 2009, p. 301). Eles revelam atos de comunicar que podem ajudar na mobilização de atores da sociedade civil. “Algumas emoções como o amor, lealdade e reverência são claramente mais mobilizadoras do que outras como desespero, resignação e vergonha” (TARROW, 2009, p. 145). Por sua vez, “algumas como a raiva, são “vitalizadoras” e é mais provável que estejam presentes na deflagração de atos de resistência, enquanto que outras, como a resignação ou depressão (...) nas fases de desmobilização” (TARROW, 2009, p. 145). Os movimentos sociais geridos principalmente pelos mais jovens são, em não raras vezes, espontâneos e por vontade emocional gerando “os novos movimentos emocionais” (WALGRAVE, MANSSENS, 2000; WALGRAVE, VERHULST, 2006 citados por LAER, 2010, p. 412). Um exemplo de movimento social estudantil emocional é o movimento mexicano #YoSoy132, que analisaremos a seguir, cuja criação deu-se em 2012, durante as eleições presidenciais mexicanas, Neste trabalho, primeiramente contextualizamos o movimento. Depois, a metodologia que desenvolvemos envolve um estudo de estratégias argumentativas do grupo na página oficial Facebook. O corpus para análise consiste de 142 postagens no período pós-eleitoral mexicano com o objetivo de verificar como se deu a continuidade do movimento. 1. O caso #YoSoy132 4

O #YoSoy132 surgiu em meio à campanha eleitoral presidencial do México, como resultado de uma visita do presidenciável do Partido Revolucionário Institucional (PRI), Enrique Peña Nieto, ao campus da Universidade Iberoamericana (UIA), em maio de 2012. A tentativa do então candidato de expor o seu programa de governo aos estudantes do ensino superior durante o encontro “Buen Ciudadano Ibero” teve um desfecho inesperado quase ao final de sua explanação. Alguns estudantes o questionaram sobre o massacre policial ocorrido há seis anos no caso de San Salvador Atenco, Estado do México, quando o candidato era governador entre 2005 a 2011. A ação policial resultou na morte de dois jovens, um com 14 anos e o outro com 20 anos, 26 4

Tradução livre: #EuSou132

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estupros de mulheres foram contabilizados pela Comissão Nacional de Direitos Humanos (CNDH) e 206 pessoas foram lesionadas e torturadas, sendo alguns casos de menores de idade. 5

Ao todo foram violados dez direitos humanos a 209 pessoas . Os acusados não foram punidos. Peña Nieto respondeu aos estudantes: Antes de concluir, ainda que já fizesse, o havia feito, vou responder a este questionamento sobre o tema de Atenco, fato que vocês conheceram e que sem dúvida, deixo muito claro, a firme determinação do governo, de fazer respeitar os direitos da população do estado do México, que quando se viram afetados, por interesses particulares, tomei a decisão de empregar o uso da força pública para restabelecer a ordem e a paz e que no tema, lamentavelmente houve incidentes que foram devidamente solucionados e que os responsáveis dos fatos foram consignados diante do poder judiciário, mas reitero, reitero, foi uma ação determinada pessoalmente, para restabelecer a ordem e a paz, e no legítimo direito que tem o estado mexicano, de fazer o uso da força pública, como devo dizer-lo, foi validado pela suprema corte de justiça da nação. Muito obrigado. (PEÑA NIETO, 11/05/2012)

As declarações de Enrique Peña Nieto causaram revolta em vários estudantes de diferentes cursos, se unindo ao protesto nos corredores da universidade por não ficarem satisfeitos com as respostas dadas pelo candidato. O presidenciável, líder nas pesquisas de opinião desde dezembro de 2011, precisou de escolta para deixar a universidade. Importante assinalar que a Ibero é a universidade mais elitizada do país, trazendo comportamentos mais conservadores. A repercussão das manifestações dos jovens ganhou proporção, a ponto de modificar o discurso eleitoral de Peña Nieto que passou a focar uma fala mais amena com vistas à conciliação com este público. No dia seguinte à manifestação, a equipe do candidato começou a veiculação de vídeos com falas de jovens a seu favor e também divulgou a sua versão da palestra na Ibero. No dia 13 de maio, divulgou outro vídeo em seu canal oficial no Youtube chamado "Oportunidades para os Jovens", no qual defendia ideias genéricas de geração de empregos, uma demanda social que, em especial, esta camada da população demandava. Desmentindo as acusações feitas por Enrique Peña Nieto de que o protesto na Ibero seria uma armação da oposição, 131 estudantes gravaram um vídeo em que apresentam as carteiras universitárias com os seus números de matrículas. Eles dizem no vídeo que “ninguém os treinou

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Disponível em: <http://eleconomista.com.mx/columnas/columna-especial-politica/2012/05/21/pena-nieto-atenco>. Acesso em: 12 de maio de 2012.

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6

para nada”. A produção de 11 minutos intitulado “131 Alunos da Ibero respondem” foi postado no YouTube e obteve mais de 1 milhão de visualizações em poucos dias, a ponto de tornar-se um viral nas demais redes sociais virtuais. 7

O grupo criou também um site chamado “Más de 131” que utiliza o slogan “A verdade nos fará livres”

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, no qual exigiu dos candidatos, instituições e meios de comunicação um

processo democrático honesto. Reivindicou ainda liberdade de expressão e democratização dos meios de comunicação durante as eleições. Outro objetivo era convocar os mexicanos para a participação do processo eleitoral, visando que eles estivessem bem informados. A hashtag #YoSoy132, marca comumente empregada na rede social Twitter, foi criada simbolizando a adesão de outras pessoas às causas defendidas. O movimento tornou-se um dos assuntos mais comentados nas redes sociais pelo 9

mundo. Segundo o Google Zeitgeist 2012 , entre as dez notícias mais buscadas no país no referido ano, o tema “eleições” ficou em segundo lugar, o movimento “#YoSoy132” ocupou o nono lugar e em décimo ficou “Enrique Peña Nieto IBERO”. “A qualidade substantiva do #YoSoy132 reside na conversação do diverso. A mais radical diversidade contida é a de reunir em um mesmo espaço jovens de origem popular e das elites econômicas” (ARIAS, 2012). 2. A retórica do #132 Apesar de reconhecermos que as redes virtuais representam um recorte de discurso de ativistas do movimento, elas apresentam validade para investigar quais as estratégias argumentativas utilizadas que norteiam o pensamento do movimento social estudantil emocional mexicano #YoSoy132, segundo técnicas de análise propostas por belga Chaïm Perelman e por Lucie Olbrechts-Tyteca (1996). A partir de uma divisão originária de Aristóteles, Perelman e Olbrechts-Tyteca esboçam um esquema argumentativo, composto por auditório (público que vai realizar uma ação), acordos (premissas presentes no discurso na qual se parte uma fala) e técnicas (estratégias linguísticas para organização do discurso) (PANKE, 2010, p. 40). A argumentação envolve um processo comunicativo entre indivíduos, “inerente ao próprio ato comunicativo porque transita por elementos constitutivos básicos, como dois (ou 6

Vídeo “131 Alumnos de la Ibero responden”: http://www.youtube.com/watch?v=P7XbocXsFkI “Mais que 131”. O coletivo da Universidade Iberoamericana utiliza o site www.somosmaisde131.com e mantém suas contas ativas no Facebook <https://www.facebook.com/mas131> e Twitter <http://www.twitter.com/masde131> 7 8 9

“La verdad nos hará libres”. Expressão contida no evangelho de São João 8, 31-33. O que o mundo pesquisou em 2012?: <http://www.google.com/zeitgeist/2012/#mexico>

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mais) interlocutores, códigos, decodificação, ruídos, contexto, retroalimentação e feedback” (PANKE, 2010, p. 40-41). As pesquisas sobre argumentação podem demonstrar a força dos discursos, mediante o dimensionamento do mundo, ordenação de fatos e apresentação de recortes de realidades. “É por causa das relações que a argumentação possui com a ação – pois ela não se desenvolve no vazio, mas numa situação social e psicologicamente determinada – que ela compromete praticamente os que dela participam”. (PERELMAN, OLBRECHTS -TYTECA, 1996, p. 65) A argumentação, assim, transmite pensamentos, ideologias e visões de mundo de quem faz o uso da palavra (PANKE, 2010, p. 29). As técnicas argumentativas abrangem a tríade “auditório, acordo e técnicas”, com a finalidade de que o discurso conquiste um auditório e o leve a ação (PANKE, 2010, p. 48). Elas permitem a análise de argumentos quase-lógicos, isto é, os racionais, e os argumentos baseados na estrutura do real, os emocionais, na paixão. A argumentação fundada na razão é baseada em dados de pesquisas, gráficos e suscetíveis à contestação, tendo o orador o objetivo de persuadir com conceitos, valores e sentimentos subjetivos (PANKE, 2010, p. 49). A argumentação fundada na emoção é baseada nas experiências, condutas, acontecimentos, valores e juízos, em que o uso do conhecimento do orador e auditório para levar a aprovação (PANKE, 2010, p. 51). Assim, adotaremos algumas das principais técnicas argumentativas empregadas na teoria de Perelman e Olbrechts-Tyteca aplicáveis para o estudo de atores coletivos, que analisaremos no nosso caso: o movimento #YoSoy132. No grupo dos argumentos quase-lógicos selecionamos as técnicas: contradição, identidade, justiça, transitividade, inclusão da parte no todo e probabilidades. 1) Contradição – revela que as teses combatidas levam a uma incompatibilidade e podem mostrar falhas no discurso oponente e a consequente negação. 2) Identidade – Aliar uma marca a uma ideia resultante de conceitos, classificações ou induções não evidentes, que possibilitam uma justificação argumentativa. 3) Justiça – Estabelece a coerência de uma conduta. Tenta aplicar as mesmas regras para duas proposições. 4) Transitividade – A noção de identificação de situações, no caso do argumento de justiça acima, é indireta nessa regra de argumentação. Uma situação pode ser afirmada se a é igual a b, b é igual a c, então a é igual a c.

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5) Inclusão da parte no todo – É a inclusão de determinadas partes em um todo. Geralmente tratado por um ângulo quantitativo, e resultada em dizer que o todo engloba as partes, normalmente homogêneas, e é mais importante que ambas. 6) Probabilidades – Reflete a indicação de estatísticas e cálculos de probabilidade para ilustração de uma tendência, como dados de institutos de pesquisa ou medição de popularidade. Os argumentos baseados na estrutura do real, ou seja, na emoção, buscam estabelecer um elo de solidariedade entre juízos. Conforme descreve Panke (2010, p. 51), “as experiências, condutas, acontecimentos, valores e juízos são o objeto dos argumentos baseados na emoção (baseados na estrutura do real).” Elas são dividas em duas linhas básicas: ligações de sucessão e de coexistência. Dentre as ligações de sucessão usadas para a análise, isto é, aquelas que revelam um vínculo causal como papel essencial, incluem-se o argumento pragmático, os fins e meios, desperdício, direção, superação e a pessoa e seus atos, conforme veremos abaixo: 1) Argumento pragmático – permite a apreciação de determinado acontecimento ou ato mediante as conseqüências, presentes ou futuras, sejam elas favoráveis ou não, comumente aceitas, verificáveis ou não, para determinada ação. São juízos de valor como numa relação de causa-efeito e não requerem nenhuma justificação para aceitação pelo senso comum. 2) Argumento de fins e meios – É usualmente relacionado às técnicas modernas da publicidade e propaganda para explorar a plasticidade da natureza humana. Para Perelman e Olbrechts-Tyteca (1996, p. 312) “é útil mostrar que, se até agora não se obteve sucesso, é que se haviam ignorado os bons meios, ou que se havia descurado de servir-se deles”. 3) Argumento do desperdício – Refere-se a aceitação por parte do outro de que, caso iniciado algum progresso ou obra, elas precisam ser mantidas na mesma direção, independente da não aprovação. É um argumento para retratar uma “oportunidade única, que consiste em, de certa forma, forçar uma ação mais rápida instigando o medo de não haver outra possibilidade” (PANKE, 2010, p. 52). 4) Argumento de direção – Busca responder como se dará o desfecho de determinada proposta, estabelecendo pontos de referência e indicando fins parciais para aquela ação. Pode ser entendido como um temor de algo, mas não explica como o objetivo vai ser

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alcançado. A indagação do auditório é até que ponto essa medida adotada vai influenciar e encaminhar algo. 5) Argumento de superação – Busca entender que é possível ir mais longe num certo sentido, sem um limite nessa direção estabelecido. Segundo Perelman e OlbrechtsTyteca, (1996, p. 327), “\os argumentos de superação insistem na possibilidade de ir sempre mais longe num certo sentido, sem que se entreveja um limite nessa direção, e isso com um crescimento contínuo de valor”. As ligações de coexistência são aquelas que “(...) ressaltam o orador como objeto argumentativo. As ações dele e do grupo que o apoia são tomadas como referencial para valorizar e justificar os argumentos” (Panke, 1999, p. 92). Os argumentos dessa ligação, utilizados para a construção da imagem de quem fala, a serem analisados são: da pessoa e seus atos, autoridade, discurso como ato do orador, o grupo e seus membros e a ligação simbólica. 1) Argumento da pessoa e seus atos – Busca reforçar que a imagem do orador é relevante para o público. Na campanha está relacionada com a moral e o direito para julgar o ato e o agente e reforçam as atitudes, valores e realizações e conceitos de auditório específico. 2) Argumento de autoridade – Está condicionado ao prestígio. É a palavra de honra mais condicionada da visão que outros possuem da outra pessoa ou grupo. São usados atos ou juízos da pessoa/grupo para provar uma tese. 3) Argumento de discurso como ato do orador – O discurso é o ato do orador e esse tipo de argumento relaciona a pessoa ou grupo com suas atitudes. Pode ter casos em que a conversa de dá por mecanismos de forma extrovertida ou persuasão. O uso de discurso de aproximação e jargões é muito próprio desse tipo de técnica. 4) Argumento do grupo e seus membros – É a relação estabelecida entre o grupo e seus membros, “sendo estes a manifestação do grupo, assim como o ato é a expressão da pessoa” (PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA, 1996, p. 366). O orador se apresenta como integrante de algum grupo, “ele passa a ser usado como argumento porque os envolvidos criam uma ligação entre os participantes que o qualificam para defender uma determinada tese” (PANKE, 2010, p. 55-56). 5) Argumento da ligação simbólica – É a relação de participação evocada pela relação do símbolo e o que evoca. São os elementos figurativos que representam uma pessoa ou

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grupo para despertar alguma reação. O significante e o significado variam culturalmente e permite uma transferência de valores. A seguir serão aplicadas as 16 técnicas de argumentos detalhadas acima visando demonstrar quais são as que sobressaem nos discursos do #YoSoy132 na página do Facebook. O canal oficial do Facebook

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utilizado desde o início para organizar estratégias e ações ajudou o

movimento em sua visibilidade. Houve uma iniciativa de pré-institucionalização com corpo diretivo constituído, como o grupo operativo midiático, jurídico e de direitos humanos. “No Facebook há mais espaço e é possível articular cadeias mais propicias ao reconhecimento de quem as integram e (...) com melhores condições para o intercâmbio de opiniões ” (DELARBRE, 2012). O método consistiu na verificação dos argumentos contidos em cada um dos discursos expostos na rede social, isto é, as postagens. Para o processo analítico, leva-se em consideração que mais de um argumento pode ter sobressaído em cada postagem. Consideramos todas as postagens realizadas pelo próprio perfil e aquelas compartilhadas por ele de outros perfis. O corpus para análise consiste de 142 postagens, sendo 46 delas do mês de julho, 20 em agosto, 14 em setembro, 3 em outubro, 38 em novembro e 21 em dezembro, no período de 03 de julho de 2012 a 03 de dezembro de 2012. Nesse trabalho, a variação do número de postagens por mês é considerada irrelevante e não afeta a análise das técnicas argumentativas. Não houve seleção ou exclusão de postagens coletadas para análise. O mês de outubro aparentemente apresentou-se como um período de desmobilização do movimento num ciclo de confronto político, reativado no mês seguinte. A partir da análise constatou-se a predominância dos argumentos emocionais de ligação simbólica (21%) e grupo e seus membros (16%) e de identidade (19%). Diante dos valores obtidos em percentual na análise de seis meses constata-se que a representatividade de cada argumento em relação ao total de postagens é abaixo de 10% em dez dos 16 argumentos: contradição 6%, identidade 19%, justiça 5%, transitividade 5%, inclusão da parte no todo 10%, probabilidades 0,07%, pragmático 13%, dos fins e meios 6%, desperdício 2%, direção 10%, superação 5%, pessoa e seus atos 8%, autoridade 8%, discurso como ato do orador 9%. Pode-se observar pelos indicadores acima que mesmo com a predominância de dez técnicas de argumentos baseadas na estrutura do real – emocionais –, os argumentos quase10

<http://www.facebook.com/yosoy132>

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lógicos – racionais –, foram evidenciados nas postagens, com exceção do argumento de probabilidades. No mês de junho, o argumento quase-lógico de identidade (17%) sobressaiu, assim como entre os meses de setembro a dezembro, com variação de 15% a 67%. Em agosto outra técnica de argumentação pode ser observada que não a de identidade, a contradição (10%). Nas postagens no segundo mês pós-eleição observamos a busca por mostrar aos seguidores do perfil a incompatibilidade do discurso do oponente, o presidente eleito Enrique Peña Nieto. Abaixo (GRÁFICO 1) pode ser observada a variação dos argumentos quase-lógicos em cada um dos cinco meses analisados. No mês de agosto, o argumento de contradição sobressai, em outubro o de identidade, justiça em setembro, parte no todo em dezembro. O argumento de transitividade não teve variação significativa e o de probabilidade é linear.

80% 70% 60% 50% 40% 30% 20% 10% 0%

Contradição Identidade Justiça Transitividade Parte no todo Probabilidades

Julho A go sto

Setembro

Outubro

Nove mbro

Dezembro

GRÁFICO 1 – VARIAÇÃO DE ARGUMENTOS QUASE-LÓGICOS POR MÊS FONTE: BOZZA, 2013.

Entre os argumentos baseados na estrutura do real em cada um dos cinco meses analisados estão àqueles classificados como ligações de sucessão, ou seja, os que revelam um vínculo causal como papel essencial. Destacamos a predominância dos argumentos pragmático e de direção em cada um dos meses analisados. O argumento pragmático é maior em outubro, o de fins e meios em setembro e dezembro. Os argumentos de desperdício e direção foram mais expressivos em agosto e o de superação em outubro (GRÁFICO 2).

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35% 30% 25% 20% 15% 10% 5% 0%

Pragmático Fins e meios Desperdício Direção Superação Julho Agosto

Setembro

Outubro

Novembro

Dezembro

GRÁFICO 2 – VARIAÇÃO DE ARGUMENTOS DE LIGAÇÃO DE SUCESSÃO POR MÊS FONTE: BOZZA, 2013.

Observamos ainda (GRÁFICO 2) que o argumento de desperdício é insignificante em todos os meses, assim como o argumento de superação nos três primeiros meses, mas é um dos destaques nos meses de outubro e novembro, que coincide com o movimento vislumbrando de que o progresso é possível de ser ampliado. Não existe limite para o desenvolvimento de ações, como as determinações legais do movimento. Na esfera governamental o investimento no setor de educação. O argumento pragmático segue um padrão quase linear. Em julho, ele é destaque sobre os demais em razão de acontecimentos previstos recentemente e com forte juízo de valor numa relação de causa-efeito, muitas vezes não comprováveis, como a compra de votos por dirigentes do partido de Enrique Peña Nieto. No exemplo de 05 de julho é possível perceber isso pela postagem: “Essa é uma parte da entrevista de Enrique Peña Nieto à BBC World News. O que estarão pensando os que não receberam seus “centavitos” pela venda de seu voto? Difundam, por favor, em contrapartida com os vídeos do “Sorianagate” e os vídeos das pessoas que estão manifestando e exigindo o pagamento de seu dinheiro.” Nos argumentos baseados na estrutura do real, regidos por ligações de coexistência, constata-se a importância dos argumentos de grupos e seus membros e de ligação simbólica – dois dos três argumentos, que são emocionais, e de destaque entre as 16 técnicas argumentativas. Nos meses de julho, agosto e novembro o argumento de ligação simbólica prevalece ao unir elementos figurativos que representam uma pessoa ou grupo visando reação, como no exemplo abaixo de 06 de julho em que aparece o uso de elementos figurativos na representação de um grupo empregando uma reação:

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FIGURA 1 – EXEMPLO DE ARGUMENTO DE LIGAÇÃO SIMBÓLICA NA POSTAGEM DE 06 DE JULHO DE 2012 FONTE: FACEBOOK OFICIAL DO #YOSOY132

O argumento de ligação simbólica perde relevância nas postagens em três únicos meses: em setembro quando o discurso como ato do orador passa a ser destaque em virtude do uso de mecanismos de forma extrovertida ou persuasivas e relacionadas à atitude do próprio movimento social estudantil emocional mexicano, e em outubro e dezembro, em que prevalece o argumento do grupo e seus membros, onde são destacadas teses e defendidas por integrantes do movimento. No último mês analisado, o indicador reflete um manifesto organizado pelo #YoSoy132 reprimido por força policial. Esse último argumento, inclusive, mesmo não sendo tão relevante quanto ao de ligação simbólica, é predominante no mês de julho, quando são investidos esforços na tentativa de provar ilegalidades no pleito, com a compra de votos.

35%

Pessoa e seus atos

30% 25%

Autoridade

20% 15%

Discurso ato orador

10%

Grupo e membros

5%

Ligação simbólica

0% Julho

Agosto

Setembro Outubro Novembro Dezembro

GRÁFICO 3 – VARIAÇÃO DE ARGUMENTOS DE LIGAÇÃO DE COEXISTÊNCIA POR MÊS FONTE: BOZZA, 2013.

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É possível concluir (GRÁFICO 3) que o argumento de pessoas e seus atos é maior em agosto e novembro, os de autoridade e grupo e seus membros em outubro, discurso ato e orador em setembro e ligação simbólica em julho. Observou-se com base na análise dos três gráficos que a predominância dos 16 argumentos geralmente nunca é superior a 40%, com exceção do argumento quase-lógico identidade que em outubro figurou com 67% entre todos os argumentos analisados. Entre os seis argumentos quase-lógicos existe uma regularidade de aparição independente dos meses analisados. Enquanto nas outras dez técnicas pertencentes aos argumentos baseados na estrutura do real a não-linearidade dos indicadores reflete as diferenças de emotividades em cada um dos seis meses. Considerações Finais Uma linha de estudos que demanda investigação envolve o entendimento da relação entre movimentos sociais e eleições. Hoje, as análises de ambos são realizadas em paralelo, as tentativas de aliá-los têm mostrado pouco êxito (McADAM, TARROW, 2010, p. 532, McADAM; TARROW, 2011, p. 21-22). Na história mundial, os sindicatos também, por exemplo, mostram-se como aliados aos movimentos estudantis e das mulheres. (DELLA PORTA, DIANI, 2006, p. 211-212).. Existem movimentos, todavia, como os novos movimentos emocionais, em que cidadãos aderem espontaneamente às reivindicações. Os movimentos emocionais acontecem quando os eventos são espontâneos por vontade emocional, “sem organizações do movimento claros envolvidos na realização do evento, e sem uma clivagem clara em torno do qual os participantes são mobilizados”, atraindo um grupo muito diversificado e amplo de cidadãos (LAER, 2010, p. 412). O levantamento do Cepal, de 2011, na América Latina, apresentou alguns dados indicativos de emotividade. Ele mostrou que 49% dos jovens entre 16 e 29 anos disseram não ter preferência partidiária. Outros 51% disseram possuir simpatia por algum(ns) partido(s). Quando se falou em adesão aos movimentos sociais, apenas 20% dos jovens mexicanos disseram não estar dispostos ao apoio. Os indicadores favoráveis de predisposição à participação deles em movimentos demonstram a vontade de pertencimento, propensão ao envolvimento emocional para participação social. Exige-se entender as redes sociais, digitais, polissêmicas, não unívocas “como processos em andamento e busca construir metodologias para captar as conexões entre o global e o local, suas interações cognitivas a partir de rastros deixados pela comunicação e mídias digitais” (GOHN, 2012, p. 25).

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O movimento #Yosoy132 se mostrou como um coletivo que segue representando posicionamento ideológico que o gerou, mesmo após o período de auge do confronto. Para isso, mantem os canais de comunicação digital com seu público e se destaca, ainda, como um dos grupos que se manifesta contra o presidente eleito, Enrique Peña Nieto. Em nossa análise quantitativa das técnicas argumentativas empregadas no período pós-eleitoral, observamos que as técnicas: autoridade, grupo e seus membros, pragmático, superação e identidade tiveram picos de utilização. Os argumentos de autoridade e grupo e seus membros refletem um raciocínio que privilegia a união de esforços. De fato, um movimento para seguir ativo deve realçar a qualidade de grupo e fortalecer os laços entre os integrantes. O argumento de identidade, corrabora com os de autoridade e de grupo pois visa gerar mecanismos de identificação entre seus membros. Isso significa que o movimento adotou um discurso com o emprego de símbolos, elementos figurativos para despertar a reação das pessoas. Por sua vez, os argumentos pragmáticos e de superação mostram o direcionamento para as ações tomadas pelo movimento. Apesar de não termos realizado uma análise qualitativa dos discursos, é possível deduzir que a adoção dessas técnicas se dá pelo fato de mostrar o que já foi alcançado e o que ainda deve ser feito. O reforço de que o movimento pode ser considerado emocional está expresso também no total das técnicas encontradas. Os argumentos de ligação simbólica (21%), grupo e seus membros (16%) e de identidade (19%) predominaram o que nos leva a inferir que a união entre os integrantes é, em parte estimulada, pelos vínculos emocionais que proporciona. O simbolismo de pertencer a esse grupo mais o estabelecimento do inimigo em comum, desperta nos jovens a tendência ao questionamento, típica nesta fase da vida. Este levantamento inicial dos discursos pós-eleitorais, por outro lado, abre possibilidades de aprofundamento da pesquisa, visando analisar o discurso empregado pelo #Yosoy132. Se o apelo emocional está evidente nos dados quantitativos, resta conhecer como o discurso materializou essas técnicas.

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Nuevos F ormatos de la P olítica y la Internet: la plataforma interactiva VotenaWeb 1 Sylv ia I asu laitis 2 UFSCar / UFG Carmen Pined a Nebo t 3 Universidad Complutense de Madrid

Resumo:El objetivo de esta comunicación es analizar los nuevos form atos de la política m ediante el uso de las Nuevas Tecnologías de la Comunicación y la Información (TICs). Se trata de analizar el website brasileño de comprom iso cívico VotenaWeb (http://www.votenaweb.com .br), que presenta los proyectos de ley en tram itación en el Congreso Nacional y m ediante el cual los ciudadanos pueden opinar y tom ar posición en contra o a favor de las propuestas. El corpus empírico serán tres foros de debate sobre tres proyectos de ley en tram itación. Analizaremos la form a en que lo s internautas inte ractúan entre sí a partir de esa herram ienta, la form a y el contenid o de los intercambios discursivos realizados allí y sus im plicaciones para la transparencia del parlamento y para la dem ocracia. La evaluación de la calidad de las discusiones se llevará a efecto m ediante diversas dimensiones de análisis basadas en las variables m etodoló gicas DQI - Discourse Quality Index, que serán operacionalizadas con algunos indicadores cualitativos y cuantitativos. Palabras-clave: Internet; Fórums de discusión online; Parlamento. Introducción El interés suscitado por la incorporación de las Nuevas Tecnologías de la Comunicación y de la Información – TIC‟s en el ámbito de la política guarda relación con la calidad democrática. 1

Trabalho apresentado ao Colóquio Binacional Brasil-México de Comunicação Política - Juiz de Fora (MG) Doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de São Carlos – SP, pesquisadora do Grupo de Pesquisa “Comunicação Política, Partidos e Eleições da UFSCar e professora da Universidade Federal de Goiás, e-mail: siasulaitis@hotmail.com. 3 Licenciada em Direito pela Universidad Complutense de Madrid, Licenciada em Ciência Política e da Administração pela Universidad Autónoma de Madrid. Investigadora em vários projetos sobre governos locais. Membro da comunidade GIGAPP, email: carmenpinedanebot@hotmail.com. 2

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Observando en las últimas décadas la difusión de la democracia por el mundo, y dada la consolidación de gran parte de las experiencias democráticas, se han modificado los términos del debate, que pasaron a centrarse en cómo mejorar este sistema de gobierno: “In recent years, social scientists as well as democracy practitioners and aid agencies have sought to develop means of framing and assessing the quality of democracy” (Diamond; Morlino, 2004:1). En las democracias occidentales

se percibe una progresiva preocupación entre los

académicos y los líderes políticos por la desvinculación de los ciudadanos de la política (Putnam, 2000; Patterson, 2002; Cappela; Jamieson, 1997). En el intento de implicar a la ciudadanía con la política, la llegada de Internet, en concreto, fue recibida con optimismo fundamentalmente por la nueva capacidad de interacción en comparación a los medios de comunicación tradicionales (Gibson, 2008). El rápido crecimiento durante las dos últimas décadas del uso de Internet en las democracias occidentales ha provocado mucha especulación sobre sus implicaciones sociales y, especialmente, políticas. Ha interesado el uso de la potencialidad de las nuevas tecnologías para ampliar la conexión entre los ciudadanos y los políticos, así como la calidad democrática de esas relaciones (Dahlgreen, 2003; Norris, 2005; Bennett, 2003; Chadwick, 2006). Diversas experiencias del uso de las herramientas interactivas de Internet y de las redes sociales están desarrollándose en el mundo aunque todavía, hay pocos estudios científicos sobre tales experiencias empíricas. Considerando que la literatura sobre el tema propone diversas hipótesis sobre la calidad democrática en estos nuevos formatos, pero aun excesivamente impregnada por conjeturas y un limitado conocimiento empírico, iniciamos el análisis del uso y la prueba de una herramienta interactiva en una website brasileña de compromiso cívico, denominada “VotenaWeb”, como medio para conocer su potencial democrático, las posibilidades y los límites de esta iniciativa digital. Coincidimos con Ferreira (2010:106) que “es de particular interés comprobar la utilidad en términos políticos de los espacios públicos virtuales en la determinación de las agendas, en la toma de decisiones políticas, en la negociación de las divergencias o en la obtención de acuerdos”. El VotenaWeb (http://www.votenaweb.com.br) presenta de forma sencilla y resumida los proyectos de ley en tramitación en el Congreso Nacional, mediante ella los ciudadanos pueden opinar y tomar posición en contra o a favor de las propuestas. En nuestro trabajo analizaremos la

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forma en que los internautas interactúan entre sí a partir de esta herramienta, la forma y el contenido de los intercambios discursivos realizados en ella y su implicación para la transparencia del parlamento y para la democracia. 1. Discusión Teórica La red, tal y como la conocemos actualmente, posee recursos técnicos que amplían las posibilidades y acaban por modificar estructuralmente las formas de interacción social. La interactividad es la principal característica de Internet. El término “interactividad” destaca la participación activa del beneficiario de una transacción de información (Lévy, 1999: 79) e “indica la superación de las formas monologales y autoritarias por las formas dialogales y conflictivas de circulación de la información y de la relación social” (Signates, 2002:8). De acuerdo con Ferber, Foltz y Pugliese (2007), la definición clásica de “interactividad” sugiere que para que un mensaje sea interactivo este debe ser marcado por el intercambio de información, o sea, por una conversación, por un diálogo. La interactividad, para Rafaeli (1988 apud Ferber; Foltz; Pugliese, 2005) 4 , es una propiedad del proceso de comunicación y la comunicación sincrónica 5 es su elemento clave. Haeckel (1998: 63 apud Ferber; Foltz; Pugliese, 2005) describió “la esencia de la interactividad como un intercambio”. En sistemas interactivos, un ciudadano controla el contenido de la interacción solicitando o produciendo información. Kiousis (2002) ofrece una definición bastante completa de interactividad, mostrando un ambiente en el cual los participantes pueden comunicarse en diferentes formatos: de uno en uno, uno con muchos y muchos con muchos, simétrica y asimétricamente, participando del intercambio de mensajes recíprocos: The degree to which a communication technology can create a mediated environment in which participants can communicate (one-to-one, one-to-many, and many-to-many), both symmetrically and asymmetrically, and participate in reciprocal message exchanges (third-order dependency). With regard to human users, it additionally refers to their ability to perceive the experience as a simulation of interpersonal communication and

4

Para una revisión de la literatura temática sobre interactividad, ver FERBER, Paul; FOLTZ, Franz y PUGLIESE, Rudy. The Internet and Public Participation: State Legislature Web Sites and the Many Definitions of Interactivity. Bulletin of Science, Technology & Society, vol. 25, n. 1, p. 85-93, February 2005. 5 Interaciones on-line simultáneas y en tiempo real.

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increase their awareness of telepresence (Kiousis, 2002: 372 apud Lilleker; Malagón, 2010: 27).

Interactividad, de este modo, no consiste, simplemente, en una función tecnológica o en la habilidad para interactuar en una website, sino, fundamentalmente, en un proceso dialógico entre el usuario de una website y su creador. De acuerdo con Ferber, Foltz y Pugliese (2007), las websites políticas pueden posibilitar no solo la comunicación en dos direcciones, sino también la comunicación en tres direcciones destinadas a influir en terceros, proporcionando un mecanismo para la deliberación pública. Resumiendo, la interactividad es una particularidad de la red que posibilita al individuo afectar y ser afectado por otros en una comunicación que se desarrolla en un sistema de dos o tres direcciones. La primera consecuencia de ello es que la comunicación “de uno para todos”, característica de la comunicación jerárquica de los medios de comunicación tradicionales, da lugar a otra más flexible, en la cual existe la “oportunidad de hablar así como de escuchar. Muchos hablan con muchos y muchos les responden” (Dizard, 2000:23). De esta forma, con la posibilidad de asumir el control de la tecnología, “usuarios y creadores pueden convertirse en la misma cosa” (Castells, 1999:51). La finalidad de este estudio es verificar como estas innovaciones en el campo de la técnica y sus respectivas características tecnológicas han afectado a la política. La pregunta genérica de como la tecnología puede transformar de hecho a la democracia suscita respuestas curiosas. La relación entre Internet y la política suscita dos categorías de discursos: (1) de fortalecimiento de la forma de democracia vigente o (2) de anuncio de una nueva categoría democrática, implicando enfoques de hecho y normativos. Para Harto (2006), el debate oscila entre dos posiciones: por un lado, aquellos que consideran la utilización de las nuevas tecnologías como un medio para mejorar la calidad de la democracia representativa y, por otro, aquellos que intentan superar la democracia representativa y substituirla por mecanismos de democracia directa. Entre los dos extremos se sitúan las posiciones intermedias. En esta misma dirección Gomes (2007) afirma que existen dos ideas subyacentes al concepto de democracia digital: (1) una digitalización de las democracias efectivamente existentes, o sea, un enfoque de hecho de la democracia y de la democracia digital, según el cual dado el hecho

de que existen regímenes democráticos de gobierno, la democracia, como

situación de fondo, se transfiere para todas las prácticas e iniciativas relacionadas con el arte de la

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política, con el gobierno del Estado y con la elaboración de leyes y con la justicia, incluso para aquellas de naturaleza digital íntegramente o para las que sólo tengan desarrollos o aplicaciones importantes en tecnologías y ambientes digitales y (2) ampliación, refuerzo o corrección de la democracia, un enfoque normativo, asociado con fuerza a la idea (o a ideas y modelos) de democracia. En ese caso, la democracia digital no es cualquier iniciativa digital relevante en un régimen democrático, sólo aquellas dirigidas a aumentar, corregir o reforzar la democracia de conformidad con modelos normativos. Hay, pues, una división entre una idea de democracia digital como extensión cualificada, para el universo digital, de los regímenes democráticos reales (la idea de democracia digital como digitalización de la democracia) y otra noción de democracia digital como forma de corrección de los déficits democráticos o de implantación de formas y experiencias democráticas en Estados y circunstancias deficitarios democráticamente (la idea de democracia digital como ampliación, refuerzo o corrección de la democracia) (Gomes, 2007:2). Es posible, por tanto, comprobar que en gran medida las propuestas desarrolladas por los teóricos de la ciberdemocracia poseen un carácter normativo, o que tienen relación con sus visiones y nociones básicas sobre democracia. Siendo así, el papel atribuido a las TIC‟s, las propuestas y conjeturas sobre Internet dependen del modelo de democracia que desean: […] which type of democracy can be strengthened by ICTs? As is well argued by Barber (2004), to specify the model of democracy assumed as a reference point is of key importance in identifying the role played by ICTs (Bentivegna, 2006: 334).

Para un conjunto de teóricos, Internet es considerado el espacio de discusión ideal para promover deliberaciones informales por medio de grupos, listas de e-mail, foros de discusión y, así, implicar a los ciudadanos en un discurso racional-crítico. Los foros de discusión hacen posible que los ciudadanos expresen sus opiniones, pidan explicaciones sobre los asuntos públicos y envíen propuestas a sus representantes y administradores y habilitan la comunicación en los dos sentidos y la reciprocidad. (Dahlberg, 2001:168). Internet, según este punto de vista, puede ofrecer múltiples oportunidades a los ciudadanos para compartir ideas, efectuar intervenciones políticas, debatir y compartir opiniones. Y es precisamente mediante el encuentro de visiones opuestas cuando prospera la deliberación: “nada es más negativo para el proceso deliberativo que un coro orquestado de opiniones que no permite divergencias” (Thompson, 1995:222 apud Ferreira, 2010: 104). En este sentido, hay que

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destacar el uso de Internet por organismos de la sociedad civil de manera independiente y libre de las limitaciones que condicionan a los medios de comunicación, como la agenda setting o el framing (Gimmler, 2001:33 apud Ferreira, 2010: 104). Los defensores de la ampliación de la participación han interpretado frecuentemente la tecnología como un medio para alcanzar su meta. Internet se muestra como un medio para alterar fundamentalmente la extensión y la naturaleza de la participación pública. Las nuevas tecnologías son presentadas como contrapunto a la apatía del elector y a la falta de efectividad de la ciudadanía [disempowerment] (Barnett, 1997: 194). Se aventuró que Internet podría conformar nuevas prácticas políticas y fomentar formas cualificadas de interacción entre ciudadanos y políticos, solucionar los problemas de la participación del público en la política, haciéndola más fácil, ágil, útil y cómoda y permitir de ese modo [...] una relación sin intermediarios entre la esfera civil y la esfera política, bloqueando las influencias de la esfera económica y, sobre todo, de las industrias de entretenimiento, de la cultura y de la información de masas, que en este momento controlan el flujo de la información política; [...] internet permitiría [también] que la esfera civil no fuese solamente consumidora de información política, o impediría que el flujo de la comunicación política fuese unidireccional, con un vector que normalmente va de la esfera política a la esfera civil. Finalmente, internet representaría la posibilidad de que la esfera civil produjese información política para su propio consumo y para la fundamentación de su decisión (Gomes, 2005: 318).

Esa esperanza depositada en Internet para reavivar la participación es, en el fondo, una apuesta por la posibilidad de desarrollar una democracia más participativa y dialogante.

2. El acceso à internet y el perfil político del internauta brasileño Los indicadores sobre la penetración en 2009 de Internet en Brasil, divulgados por el Instituto de Investigación Económica Aplicada (IPEA) en “Panorama de la Comunicación y de las Telecomunicaciones en Brasil” nos dicen que el número de ciudadanos conectados a Internet en Brasil, en términos absolutos, en aquel año estaba en torno a los 76 millones (International Telecommunication Union, 2009 apud Silva; Vieira, 2010). En términos porcentuales, significaba que el 39% de la población se conectaba. Brasil tiene el record mundial en tiempo medio de

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conexión, por delante de Japón y Estados Unidos; el internauta brasileño pasa 3 veces más tiempo online que viendo TV (Deloitte, 2008). Utilizando los estudios realizados por el Instituto Brasileño de Opinión Pública y Estadística (IBOPE), datos que son utilizados en el Latinobarómetro (apud Schlegel, 2009) para analizar el acceso a Internet en Brasil, se confirma que la escolaridad tiene mucha importancia como determinante del acceso a la red. Los datos del IBOPE, citados por Schlegel (2009), recogidos en el tercer trimestre de 2008 dan cuenta de una fuerte diferencia entre los intervalos de escolaridad: mientras que solo el 45% de los que poseen hasta segundo año de escolaridad usan Internet, aumenta hasta el 79% entre aquellos con estudios superiores incompletos, hasta alcanzar el 92% entre el grupo con estudios superiores completos o de postgrado. En relación al sexo, los hombres se muestran más implicados con la tecnología, afirmando el 73% de ellos que acceden a ella, frente al 64% de las mujeres. El acceso se daba más en el hogar (45%) que en el centro de trabajo (30,8%) o en la escuela (31,9%). La edad es inversamente proporcional al nivel de acceso: entre el público de 16 a 24 años el 90% tienen acceso; ese porcentaje va cayendo en cada escalón de edad, hasta llegar al 23% en las personas con más de 65 años. En los modelos de regresión construidos por Schlegel (2009) a partir de los datos del Latinobarómetro, el interés por la política es un determinante efectivo del acceso. Controladas las otras variables de ese modelo, quien declaró mucho o algún interés por la política tiene 1,884 veces más opciones de conectarse que una persona que no tiene interés. Pertenecer o haber pertenecido a un partido, sindicato o iglesia no fue determinante para el acceso, mientras que participar en una asociación deportiva, de ocio o cultural, sí. Según Schlegel (2009) se supone que en Brasil ese tipo de entidad ofrece al público puntos de acceso a Internet. El modelo de regresión presentado en la tabla 1, que incluye como variables independientes el consumo de medios de comunicación tradicionales, demuestra que solo la lectura frecuente de periódicos

se mostró como determinante adicional del uso regular de

Internet. En lo referente a la participación política tradicional, utilizando el análisis de medias para comprobar si los internautas brasileños se diferencian del resto de la población, se constató que, como en Argentina y en Chile, en Brasil el usuario de Internet es un tipo de ciudadano más participativo si lo comparamos al resto de la población. Las diferencias confirmaron significación

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estadística, lo que permite rechazar la presunción de que, en la población, las medias entre los dos grupos serian iguales. Tabla 1. Comparación de medias - Brasil - Uso regular de Internet x Participación

Latinobarómetro (2007 apud Schlegel, 2009) Valor hasta p<= 0,05

Fuente:

Valor hasta p<= 0,001

Analizando la diferencia de opiniones de los usuarios de Internet en Brasil en comparación al resto de la población, los resultados demuestran que el internauta brasileño confía menos en el Gobierno, en el Congreso y en la Iglesia; confía más en las empresas privadas; es más sensible a la desigualdad de renta y más tolerante en relación al aborto. En los otros seis apartados no se observaron diferencias consistentes en las actitudes de los dos segmentos de público. Tabla 2. Análisis de medias – Brasil – Uso regular de Internet x Actitudes

Fonte: Latinobarómetro (2007 apud Schlegel, 2009) Valor hasta p<= 0,05 Valor hasta p<= 0,001

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3. Estrategias Metodológicas El examen de las interfaces interactivas representa un gran desafío metodológico, visto que solamente es posible hacer afirmaciones claras sobre que la arquitectura de participación sea efectiva, democrática o no mediante una observación directa de los foros, a partir de la experimentación del uso del dispositivo. Como afirma Velasco (2002), el trabajo de campo es la condición indispensable para que el investigador sea coparticipe de las experiencias de los otros, a partir de la introducción en sus circuitos de comunicación y entrando en sus redes sociales. Para los propósitos de este estudio, se realizó una mezcla de técnicas que dieron como resultado un aparato metodológico específico, incluyendo observación de las interacciones hechas a través del ordenador, recogida de datos y análisis de contenido. Tomamos como referencia la literatura que analiza foros de debate sobre temas polémicos, como el aborto, la publicidad infantil, el feminismo y la comunidad Usenet (Davis, 1999; Witschge, 2002; Wojcik, 2008; Grönlund et al.,2007; Schneider, 1997), en especial las investigaciones empíricas de evaluación de la calidad de la deliberación online (Steenbergen et al., 2003; Dahlberg, 2002, 2004; Bächtiger et al, 2009; Stromer-Galley, 2007; Wales et al., 2010; Sampaio; Maia; Marques, 2010; Mendonça; Pereira, 2011), sobre todo la propuesta analítica Discourse Quality Index (DQI), sus variaciones y sus diversas aplicaciones (Sampaio; Maia; Marques, 2010; Mendonça; Pereira, 2011, Iasulaitis, 2012). La evaluación de la calidad de las discusiones se realizó según seis dimensiones de análisis, que fueron operacionalizadas con algunos indicadores, cualitativos y cuantitativos, como se explicita en la Tabla 3. Dimensión de Análisis

Tabla 3. Modelo de análisis de los foros de discusión

I. Limitaciones e incentivos a la participación

II. Inclusividad y Diversidad de la Participación

Indicador

Clasificación

Reglas formales, papel del moderador y dirección por parte del staff

Función del moderador do foro como Gestor, Arbitro o Mediador

Número de mensajes colgados y concentración de posts por participante

One timer o escala numérica (2 a 5, 6 a 10, 11 o más)

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III. Reciprocidad do debate

Porcentaje de comentarios basados en la presentación de tipos de reciprocidad

Monológico o Dialógico Respetuosa o Neutra

IV. Respeto mutuo

V. Identificación VI. Grado de Heterogeneidad

Nivel de respeto o de no respeto (flames) y en relación a quien, mediante el uso de estereotipos y descripciones ofensivas

Perfil del participante: auto-identificación o participación anónima

Diversidad de opiniones, argumentos y pontos de vista

Sin respeto: descortés o grosero

No respetando a: participantes, argumentos, terceros (individuos, adversarios), grupos o instituciones Identificada, Anónima

Consenso o posición crítica

Fuente: Elaboración propia

4. La plataforma interactiva votenaweb: presentación y análisis de los datos VotenaWeb (http://www.votenaweb.com.br) es una website brasileña de compromiso cívico, desarrollada por la empresa Webcitizen, que busca ampliar el compromiso cívico, proporcionar más apertura, transparencia y democracia en la administración pública, fomentando un diálogo público colaborativo, en el sentido de una comunidad accesible y clara. La empresa asume que algunos de los servicios que ofrece se mantienen por los ingresos de publicidad y que la website, por tanto, puede mostrar anuncios y promociones. En lo que se refiere a la cuestión de la Privacidad, la empresa informa que el usuario debe conocer que las informaciones obtenidas en la website serán utilizadas para informar sobre nuevos productos, servicios, noticias y eventos, optimizar el uso y la experiencia interactiva durante la navegación del usuario en el site, elaborar estadísticas generales, cumplir decisiones legales o judiciales, entre otras finalidades. La website presenta de forma sencilla y resumida los proyectos de ley en tramitación en el Congreso Nacional y permite que los ciudadanos puedan opinar y tomar posición en contra o a favor de las propuestas. Los resultados de la participación popular son trasladados, para que los conozcan, a los diputados y senadores. Tales opiniones, a su vez, pueden o no ser tenidas en

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cuenta por los diputados y senadores en el momento de la votación de los referidos proyectos de ley en el pleno.

Figura 1. Imagen de la website VotenaWeb

La estructura y el layout de la VotenaWeb es bastante atractiva y participar de los debates en el interior de esta plataforma interactiva es muy fácil. Basta con realizar un registro sencillo, con email y pasword, o sino efectuar la entrada por las redes sociales Facebook y Twitter. El internauta también puede personalizar su perfil incluyendo una foto personal o escogiendo un ícono. Después de efectuar el registro en el site ya es posible votar y decidir de cuantos proyectos de ley quieres, además de visualizar los mapas de votación, leer íntegramente las propuestas y enviar mensajes directamente a los parlamentarios. La VotenaWeb presenta los proyectos de ley con el nombre de su autor, el partido al cual pertenece, la fecha de presentación del referido proyecto, en que cámara se está tramitando el proyecto, a que categoría pertenece, el archivo original íntegro (en pdf) y un resumen de la propuesta. Los ciudadanos pueden manifestarse votando si o no y justificando su voto. Cada proyecto está acompañado de gráficos con el resultado de las votaciones: número de votos a favor, número de votos en contra, relación entre los dos tipos de voto, Estado del votante y su edad y género. Se muestran, también, el número de comentarios e información sobre la clasificación del proyecto para los ciudadanos: si es urgente, relevante, valiente, inviable, irrelevante o absurdo. El corpus empírico de este análisis fueron los mensajes colgados y disponibles en el foro más votado, comentado y participativo, referente al PLC n. 5120-2013, bajo el título “Reconocerá

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el matrimonio civil y la unión estable entre homosexuales, modificando el Código Civil”. El PLC n. 5120/2013 fue propuesto por dos diputados: Érika Kokay (PT) y Jean Wyllys (PSOL). Se presentó el 13/03/2013 con el siguiente resumen: “El proyecto modificará el Código Civil, alterando las leyes que tratan del matrimonio y la unión estable, reconociendo o el matrimonio civil y la unión estable entre personas del mismo sexo. Según los autores del proyecto, el matrimonio civil entre personas del mismo sexo deberá ser igual y tener los mismos requisitos, efectos, y derechos que el matrimonio civil entre personas de distinto sexo”. El referido proyecto de ley recibió 15.624 votos, siendo 9.436 votos favorables y 6.188 votos contrarios. Este proyecto ha sido ampliamente debatido, y hasta el momento tuvo 9.883 comentarios, aunque no todos han sido publicados (como veremos en el análisis más adelante). Recibió 7.390 clasificaciones, siendo considerado por el 41% de los votantes como urgente, por el 4% como relevante, por el 16% valiente, por el 6% irrelevante y por el 27% como un proyecto absurdo. Figura 2. Clasificaciones sobre el PLC n. 5120/2013

El resultado de la votación fue que el 60% de los usuarios votaron favorablemente la propuesta, mientras que el 40% lo hicieron en contra. Al visualizar el resultado por género, se vio que el 54% era contrario a la propuesta mientras que el 75% de las mujeres eran favorables. La aprobación del proyecto era directamente proporcional a la franja de edad: cuánto más jóvenes estaban más de acuerdo con el proyecto.

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Gráfico 1. Porcentaje de votación del PLC n. 5120

En las siguientes subsecciones analizaremos el foro de debates sobre este proyecto de ley de acuerdo con las dimensiones de análisis presentadas en el apartado metodológico. 5. Limitaciones e incentivos a la participación En el apartado de limitaciones e incentivos a la participación de los ciudadanos, la website VotenaWeb y el foro de debates sobre el PLC 5120/2013 “Reconocerá el matrimonio civil y la unión estable entre homosexuales, modificando el Código Civil” fueron analizados con el fin de identificar el perfil de la dirección de los foros, las reglas formales e informales que regeneran los debates online, el papel de los moderadores (Gestor, Árbitro o Mediador) y el nivel de control ejercido por los mismos. En lo que se refiere a las reglas formales, la VotenaWeb posee un código de conducta y para iniciar la utilización de los servicios de la website el usuario debe estar de acuerdo con sus Términos de Uso que prevén, en el punto 5.7 que “el usuario deberá adoptar, al utilizar los Servicios, una conducta que no represente daño , material o moral, a la Webcitizen o a terceros, quedando claro que será el único responsable de sus actos y opiniones ” y en el punto 5.8 que “el usuario

está de acuerdo en que la

Webcitizen podrá, sin previo aviso, borrar cualquier

comentario de los usuarios dentro de su Servicio”; y también en el 8.3 que “la Webcitizen se reserva el derecho (pero no tiene ninguna obligación) de preseleccionar, revisar, marcar, filtrar, modificar, rechazar o cambiar de lugar cualquiera o todo Contenido de cualquier Servicio” y también en el item 13.2 está previsto que “la Webcitizen pueda, en cualquier momento, finalizar el contrato con el usuario si: 1. el usuario hubiera violado alguna cláusula de los Términos (o

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hubiera actuado de forma que claramente muestre que no pretende o no puede cumplir las cláusulas de los Términos); o se exigiera a la Webcitizen por ley (por ejemplo, cuando la provisión de los Servicios al usuario fuera o se convirtiera ilegal). Por tanto, los foros en la VotenaWeb pueden tener un formato pre y pos moderado, o sea, o los mensajes no son publicados o son aceptados y quedan pendientes de la exclusión a posteriori por el equipo de moderadores. En lo que respecta a la moderación en los foros de discusión, desarrollamos una tipología basada en la literatura temática (Wojcik, 2008; Coleman; Götze, 2001; White, 2000) y clasificamos el papel de los moderadores en tres posiciones: gestor, árbitro y mediador. En esta investigación, entendemos que el moderador en el papel de gestor actúa como organizador del foro, proponiendo temas y cuestiones, y conduce el debate estando especialmente atento al tema principal, cronogramas y listas de tareas. El moderador cuando actúa como gestor busca mantener a los participantes en el asunto o clasifica los mensajes de acuerdo con el tema, puede cumplir también un papel de help desk ofreciendo instrucciones técnicas a los participantes y puede, también, ser un especialista en un tema específico. En el ejercicio de las funciones de árbitro, el moderador controla lo que es o no publicado en el foro y la manera o la forma que los mensajes pueden tener. En este caso, actúa como un gatekeeper, censurando o trasladando los

mensajes que no respeten las reglas del foro,

dirigiéndose al mismo tiempo a los remitentes para darles explicaciones sobre el traslado de los contenidos, para que puedan readecuar sus mensajes y colgarlos otra vez. El papel de árbitro es probablemente el más conocido de los papeles de los moderadores, en el que intentan que los participantes respeten las reglas del debate. El árbitro puede basar sus actos en criterios técnicos o ideológicos. Finalmente, cuando asume la función de mediador, el moderador actúa en el sentido de estimular el debate, toma posición cuando los participantes entran en conflicto, facilita el intercambio entre los políticos y los ciudadanos, y sistematiza los resultados de la participación, o sea, los datos, los temas y las contribuciones que llegaron al parlamentario autor de la propuesta debatida. Considerando que tales papeles no son exclusivos, pudiendo superponerse unos a otros en la actividad de cualquier moderador, buscamos analizar en qué medida los moderadores del foro sobre el PLC 5120/2013 cumplieron las tres principales funciones arriba descritas.

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Cumpliendo un papel de gestor, los moderadores do VotenaWeb organizaron los foros clasificándolos por temas y proyectos de ley, ofreciendo un resumen sencillo para que lo entendiera el ciudadano corriente. En el ejercicio de las funciones de árbitro, los moderadores controlaron, lo que era o no publicado en el foro. Verificamos que diversos mensajes fueron movidos, justamente en el momento en que el debate se volvía muy acalorado, lo que nos hace suponer que contenían palabras ofensivas y groseras y, por tanto, no respetaban las reglas del foro. Figura 3. Conjunto de comentários excluídos del foro

Es posible suponer, también, que los moderadores mandaban explicaciones a los remitentes sobre los contenidos eliminados, para que pudieran readecuar sus mensajes y volverlos a montar, como explicamos anteriormente. F. B No 29 Jun 2013 Si, yo llegue a modificar mi comentario entendiendo que no era adecuado antes de que usted colocará el suyo aquí (o antes de que yo me diera cuenta de que estaba aquí). Discúlpeme por no entenderlo. No consideraba que lo había atacado, pero reconozco que no fue muy elegante. Cuando dije que usted estaba colocado fue solamente con el fin de hacer

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comparaciones un tanto forzosa (en mi opinión), pero ahora estoy demostrando que respeto su opinión, y reafirmando que elogió su amplio conocimiento del asunto. Quede bien. (Mensaje colgado en el foro online de la website VotenaWeb, 2013). (Traducción de las autoras)

En el foro hubo también usuarios excluidos. Probablemente por reincidir en las actitudes irrespetuosas. Comprobamos, además, que los moderadores cumplieran la función de mediadores en los foros de la VotenaWeb. Aunque, esta mediación está concebida para hacer llegar a los parlamentarios el informe de los debates sobre el proyecto de ley. Los moderadores no cuelgan mensajes, no estimulan, inducen o inhiben el debate. Solo sistematizan los resultados de la participación. 6. Inclusividad, Diversidad de la Participación y Reciprocidad del Debate

Con el objeto de evaluar la inclusividad y la diversidad de la participación en el foro, medimos la concentración y el número de mensajes colgados por participante. La literatura indica que el dominio de la discusión por pocos usuarios pode inhibir la participación de otros ciudadanos (Sampaio; Maia; Marques, 2010) y el efecto one-timer demuestra que no hay monopolización del debate por pocos participantes, pero, por otro lado, hay poca reflexividad (Jensen, 2003) y supone un desafío para la creación de reciprocidad en la discusión (Graham; Witschge, 2003 apud Mendonça; Pereira, 2011). Los datos indican que la participación en el foro sobre el matrimonio civil y la unión estable entre homosexuales fue bastante concentrada, pues cerca del 80% de los mensajes colgados lo fueron por el 4% de los participantes. Este descubrimiento de la monopolización de la participación tiene el mismo patrón que el encontrado por Schneider (1997: 85) en su estudio sobre un foro sobre el aborto (talk.abortion), por Wojcik (2007) en foros deliberativos franceses y por Davis (1999) en los foros Usenet. El efecto one-timer, o sea, participantes que enviaran un único post, fue bastante bajo (3,5%). Eso se debe principalmente al hecho de que pocos participantes (en especial uno de ellos) se encargaba de comentar cada post que se hacía e iniciaba un debate con aquel internauta. Este

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comportamiento estimuló el debate y, al mismo tiempo, causó malestar en algunos participantes, como ilustra el post de abajo: V.M.O 26 Jun 2013 Usted está defendiendo bastante el proyecto: D sólo lo veo a usted comentando cada respuesta de quién vota no, desearía tener más paciencia para intentar mostrar otra posición a esas personas, además de tener tempo para ello…(Mensaje colgado en el foro online de la website VotenaWeb, 2013). (Traducción de las autoras) No verificamos posts de los propios diputados autores de las propuestas; sin embargo, se observó que personas que les apoyaban (o asesores) del diputado Jean Wyllys participaron activamente en el debate y realizaron una defensa vehemente de sus proyectos. Para evaluar la reciprocidad de la discusión, se buscó evaluar si las propuestas estaban suscitando debate entre los participantes del foro o si, al contrario, los internautas colgaban sus mensajes sin mostrar interés en leer y comentar las propuestas de los otros participantes. De este modo, todas las propuestas que no incluían algún tipo de referencia o comentario fueron clasificadas como Monológicas y todas aquellas que provocaran algún tipo de debate, comentario o respuesta fueron clasificadas como Dialógicas. En esta cuestión, el foro analizado fue altamente dialógico, pues cerca del 85% de los mensajes del foro fueron comentados o produjeron algún tipo de referencia por parte de los otros participantes, en especial por el comportamiento del internauta V.H.R.F, que comentaba sobre todo cada post contrario al proyecto, buscando argumentar y disuadir a sus autores de la idea de votar contra la propuesta, lo que, muchas veces, suscitaba acaloradas discusiones.

7. Heterogeneidad y debate crítico racional Para evaluar el grado de heterogeneidad en el interior del foro analizamos si allí existía diversidad de opiniones, si las manifestaciones producían la sensación de intervenciones críticas o solamente de adhesión y consenso ideológico (Dader; Cheng, 2011). Parte de la literatura sobre el tema destaca la importancia de los foros electrónicos para el intercambio público de opiniones, en la medida en que estos ambientes se demuestran adecuados para el surgimiento de tensiones, haciendo más visibles los puntos de vista y las demandas ciudadanas. Este aspecto es relevante para autores como John Dryzek (2000 apud WOJCIK,

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2007), Mutz (2006) y Thompson (2008 apud Mendonça; Pereira, 2011), entre otros, para los cuales cierto grado de desacuerdo en el interior de los foros es fundamental para la existencia de deliberación. Es evidente, sin embargo, que tal diversidad de opiniones, que Gutman y Thompson (1996 apud Wojcik, 2007) denominan "falta de entendimiento deliberativo", debe manifestarse en un ambiente respetuoso. Hubo heterogeneidad en los argumentos, aunque, básicamente en dos grandes bloques: los favorables al proyecto, con una diversidad de argumentos en los que predominan las posiciones militantes, pero también técnicas y, por otro lado, los contrarios al proyecto, en gran parte invocando argumentos religiosos, como podemos ver a continuación: M.A.No23 Ago 2013

Esta contra la palabra de Dios, es pecado y soy testigo de que Dios no lo aprueba! (Mensaje colgado en el foro online de la website VotenaWeb, 2013).

Z. Z No22 Ago 2013

La depravación homosexual no es un derecho, sino al contrario, una ofensa gravísima al derecho, que atenta contra la honra y la dignidad de la Nación y destruye a la Familia brasileña que es la raíz de todo lo que tenemos más sagrado e intocable, sin la cual, nuestra sociedad se hunde en un pantano de inmundicias y cae por el camino de la violencia y la pérdida total del propio sentido de la vida. Ese es un atentado a la honra y a las buenas costumbres. (Mensaje colgado en el foro online de la website VotenaWeb, 2013).

E. R. S. No22 Ago 2013

No acepta el matrimonio gay, porque va contra la naturaleza humana. Soy Creacionista. Por tanto, si Dios hizo al hombre y a la mujer para ser un matrimonio, lo que se desvíe de eso, es anormal y equivocado. (Mensaje colgado en el foro online de la website VotenaWeb, 2013).

8. Respeto mutuo e identificación La literatura temática enfatiza la importancia del respeto mutuo en los debates online, siendo este uno de los requisitos señalados por Dahlberg (2002 apud SAMPAIO; MAIA; MARQUES, 2010) para un “Ideal Role Taking”.En este apartado, analizamos el nivel de respeto o

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de falta de respeto entre los participantes, a partir de la existencia o no de flames y en relación a quien. Según Davis (1999) flaming, el envío de mensajes ofensivos en grupos de discusión, es un término que no formaba parte del léxico hace una década, sin embargo se convirtió en uno de los principales aspectos tratados cuando se analiza la participación online. Gran parte de la literatura sobre Internet y la política teme el peligro de los flames en los foros online, considerándolos dañinos para la democracia. De acuerdo con lo propuesto por Wales et al. (2010) y en el mismo sentido que Mendonça y Pereira (2011) en el artículo que analizan otros foros de discusión del VotenaWeb, optamos por fijarnos en las señales explícitas de falta de respeto y categorizamos todos aquellos mensajes en los que no hubo faltas de respeto explícitas como respetuosos o neutros. Clasificamos los mensajes irrespetuosos siguiendo la tipología de Papacharissi (2004) como descorteses o groseros. Los mensajes “descorteses” (unpolite) son fruto de las emociones humanas y, por tanto, con la posibilidad de desdecirse públicamente y no son, necesariamente, groseros. Los mensajes groseros son una seria amenaza a las discusiones políticas y a la democracia en sí, pues ofenden la dignidad. Fueron categorizados como Descorteses aquellos posts donde el tono era áspero, se notaba animosidad, pero no se atacaban valores democráticos. Los mensajes calificados como Groseros, a su vez, fueron aquellos en los cuales existían insultos, discursos con ideas preconcebidas, descripciones ofensivas en relación a personas o grupos, odio o ataque contra principios democráticos.

Gráfico 2. Porcentaje de posts a partir de los indicadores de respeto

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Fuente: elaboración propia Como demuestra el gráfico 2 en el foro analizado existían mensajes considerados irrespetuosos. Del 28,50% de posts considerados irrespetuosos en el foro de VotenaWeb, el 9,8% fueron mensajes groseros y el otro 18,7% fueron descorteses. Al igual que Davis (1999), Wales et al. (2010: 13) y Mendonça y Pereira (2011) optamos por una clasificación sobre el foco de la falta de respeto y categorizamos los mensajes descorteses y groseros en relación a: los argumentos reprimidos en posts anteriores, por miedo a que no sean a priori considerados, en referencia a grupos (organizados o no organizados) e instituciones o, finalmente, en referencia a individuos (participantes o no de los foros), por el uso de estereotipos y descripciones ofensivas. Los temas irrespetuosos fueron argumentos contenidos en los posts anteriores, al grupo de homosexuales e a los individuos participantes en el foro. Ilustra la clasificación los siguientes posts publicados en el foro analizado en la website VotenaWeb, que contenían contenidos fuertemente ofensivos y estereotipados, que fueron clasificados como descorteses y groseros:

D. F. L. NoA22 Ago 2013 Hahahahahaha. Ricos que viajan... Si quieren igualdad denme su dinero a mí

Ejemplos de posts que no consideraban o faltaban al respeto argumentos contenidos en posts anteriores: T. L. S. G.No08 Ago 2013 Familia es HOMBRE MUJER = HIJOS. Dentro de poco van a querer también legalizar la Zoofilia, Necrofilia y Pedofilia como "familia" Ustedes son patéticos!

C. F. Sí Es patética su ignorancia.

R. S. NoCaio França22 Ago 2013

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Patética es su vida, patético es el hecho de ser gay

N. F.Sí07 Ago 2013 Si!.... Sin homofobia. Quien quiera entregar el culo o comer pastel de cabello, tiene que tener derecho y nadie tiene nada que decir sobre ello! En términos de identificación, constatamos que los participantes se identificaban, porque así lo requería la inscripción en la VotenaWeb.

Consideraciones Finales

La interactividad que hacen posible las TICs es importante por la forma en que resitúan el tema de la participación democrática. De acuerdo con Lijphart (1997) la participación desigual es interpretada como un persistente dilema democrático no resuelto. Las reivindicaciones de los grupos con más poder para imponer sus agendas y hacer llegar sus preferencias al sistema político tienden a ser más aceptadas por los mecanismos que procesan esos inputs. Por otro lado, aquellos que no tienen acceso privilegiado al poder político, a los medios de comunicación, que no poseen otras modalidades de poder, en especial del poder económico, disponen de menores posibilidades de hacer llegar sus agendas (SCHLEGEL, 2009). Es en este sentido en el que el debate sobre proyectos de ley entre ciudadanos por medio de Internet puede ser una manera importante de agregación de las preferencias por parte de los representantes políticos y de manifestación de las demandas por parte de los ciudadanos. Nuevos ambientes de comunicación política, como foros online, fueron recibidos con entusiasmo debido también a su potencial deliberativo. Para Stromer-Galley (2001), la interacción humana vía websites políticos es la base para la deliberación pública, en la medida en que puede servir para identificar demandas, elaborar propuestas políticas e determinar cómo implementar soluciones. Sin la intención de descartar tales perspectivas normativas, la investigación empírica realizada en esta comunicación, teniendo en cuenta la forma de utilización de herramientas

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interactivas en contextos políticos específicos, induce a una saludable adecuación de las expectativas. Entendemos que una adecuada evaluación de las implicaciones políticas de Internet requiere un enfoque no esencialista, que no se limite a constatar sus características innovadoras, como la interactividad, y de ahí deducir, casi automáticamente, mayor democratización. Un problema de los enfoques tecnológicos deterministas es la tendencia a la aprensión estática de Internet, tomándola como un objeto con características intrínsecas (positivas o negativas). El grupo de debates sobre el matrimonio civil y la unión estable entre homosexuales tiene importancia democrática si consideramos el contacto básicamente entre dos grupos polarizados de argumentos: los de militantes homosexuales contra los de personas religiosas. Aunque se debe destacar que esta polarización implica la eliminación de diversos mensajes descorteses y groseros, hay que señalar que la eliminación de argumentos llevo a algunos participantes en el debate a repensar sus puntos de vista, como demuestra esta modificación de mensajes: V. H.R.F.Sí23 Jul 2013 V., llegó a leer usted el texto? Está disponible en el link "Leer el artículo completo (pdf)"arriba. Es muy importante informarse antes de expresar su opinión. V.M.No 24 Jul 2013 Sí, me ayudó a entender. En ese caso, si la iglesia no va a implicarse, estoy menos en contra.

A pesar de eso, evaluamos el foro analizado más como un espacio para expresar opiniones, colgar comentarios y recoger informaciones

que como mecanismo de debate y

deliberación sobre propuestas políticas. Para Cardenal y Batlle (2006), la comunicación binaria instantánea no fomenta la deliberación ni la búsqueda de consenso, pero se revela como un mecanismo de agregación de preferencias individuales, pues evita el debate político que ocurre, por ejemplo, en las instituciones representativas. Los autores citan a Sunstein (2003) para afirmar que “el efecto polarizador de unas TICs que «protegen» a los individuos de los argumentos contrarios a sus posiciones iniciales”. Al analizar cómo los ciudadanos se apropian de tales herramientas y el perfil de los cambios discursivos realizados en los foros de discusión en la dimensión de civismo y respeto

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mutuo, constatamos en esos espacios el mismo nivel cualitativo de la red, en donde no toda discusión política sigue los principios democráticos Uno de los requisitos para un “Ideal Role Taking” es el respeto mutuo (DAHLBERG, 2002).No obstante, identificamos en el interior del foro mensajes groseros colgados por participantes, episodios de homofobia y discursos de ideas preconcebidas en relación a los homosexuales. La existencia de flames y mensajes groseros en el foro analizado desautoriza las visiones idílicas de que la participación online es sinónimo de democratización y los enfoques que asocian deterministicamente el potencial interactivo de Internet con la revitalización de las prácticas políticas. La tecnología puede servir tanto para la democracia como para lo contrario. Como afirma Maia (2006: 33), “las nuevas tecnologías, en la dirección antidemocrática, contribuyen para coordinar acciones de grupos de orientación xenófoba o antisociales que se encontraban dispersos”. En los análisis sobre las interacciones dialógicas online es altamente saludable evitar el ciberoptimismo ingenuo, típico de la primera ola de estudios, y descartar concepciones holísticas y esencialistas, que colocan a la sociedad civil como el reino de la moral y la conciben bajo “tamaña estilización conceptual normativamente reforzada” (LAVALLE, 2003:108), que terminan por producir generalizaciones de carácter normativo que no se corresponden con la realidad. Concluimos que, aunque con las limitaciones mencionadas, las iniciativas de crear plataformas abiertas para el debate son importantes para aumentar la transparencia del Parlamento, la conexión entre ciudadanos y el sistema político, así como permitir a los ciudadanos el contacto con diferentes puntos de vista.

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CAPĂ?TULO III

Os meios convencionais e suas utilidades

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A Juventude nas ruas e nas telas: o papel político atribuído aos jovens na cobertura dos protestos pelo Jornal Hoje1 2

Bárbara Garrido de Paiva Schlaucher e Iluska Coutinho

3

Universidade Federal de Juiz de Fora

Resumo: O presente artigo tem como principal proposta perceber como os jovens manifestantes são representados nas matérias sobre a onda de protestos contra o aumento das passagens do transporte coletivo em São Paulo, veiculadas no Jornal Hoje, Rede Globo. A partir da análise do material informativo que foiao ar entre os dias 07 e 21 de junho de 2013, pretendemos verificar qual(ais) papéis foram atribuídos ao longo das edições aos jovens enquanto atores políticos. Destacamos, especialmente, a análise das entrevistas, um dos elementos característicos do telejornalismo e expressão da disputa por visibilidade pública. Dessa forma, as falas diretas da parcela da população alvo de nossa investigação e o seu teor, bem como o conteúdo das sonoras dos demais entrevistados, constituíram-se como as principais variáveis de nosso estudo. Palavras-chave: telejornalismo; representação; juventude; atores políticos; entrevistas. Introdução A construção de identidade do/no cidadão enquanto membro de um organismo social está na contemporaneidade atrelada à produção jornalística, já que, a todo o momento, os indivíduos se nutrem de conteúdos mediados pelas grandes empresas de comunicação a fim de saberem o que está acontecendo. Uma vez veiculadas, as narrativas midiáticas constituem-se em discursos ou potencialmente em atalhos para os olhares do homem sobre si mesmo, e o mundo que o cerca, sua natureza e localização na ordem social. O alcance do Jornalismo aumenta na medida em que oferece narrativas que estão muitas vezes além das experiências imediatas dos indivíduos. Com a desvinculação entre espaço e informação possibilitada pelos avanços tecnológicos a partir do século vinte, os veículos de comunicação tornaram-se aptos a nos apresentar realidades fora de nosso contexto sociocultural, estabelecendo, assim, percepções sobre fatos, locai s, povos e culturas que nem mesmo conhecemos. Portanto, os produtos jornalísticos, junto com outras instituições sociais, nos proporcionam, por meio de processos de identificação, a possibilidade de conhecer e assumir

1

Trabalho apresentado ao GT 3 – Jornalismo Político e Eleitoral do XII Congresso XII Congresso Brasileiro de Comunicação Política e Marketing Eleitoral – Juiz de Fora (MG) 2 Jornalista e mestranda na linha de pesquisa Comunicação e Identidades do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFJF, com bolsa Capes. E-mail: babischlaucher@gmail.com 3 Jornalista, mestre e doutora em Comunicação. Profes sora do Departamento de Jornalismo e do Mestrado em Comunicação da UFJF. Bolsista Produtividade 2 do CNPq, desenvolve pesquisa sobre o Telejornalismo nas emissoras públicas. E-mail: iluskac@globo.co

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variadas posições de sujeito e de estabelecer um ol har sobre os Outros que nos cercam a partir dos papéis sociais representados. Nesse sentido, o presente artigo tem como proposta o estudo da representação das coletividades juvenis nas narrativas audiovisuais sobre os protestos contra o aumento das passagens do transporte coletivo na cidade de São P aulo – manifestação liderada pelo Movimento Passe Livre (MPL). Nosso principal objetivo é investigar a inserção dos jovens em temáticas políticas nos telejornais brasileiros, a fim de identificar o papel e o lugar da juventude nas tramas noticiosas. Nosso interesse em relação às coletivid ades juvenis se deu em função do atual lugar de destaque ocupado por essa parcela da população. A seguir, refletimos sobre as possíveis relações entre juventude e mídia e apresentamos nos so objeto de estudo. 1. Quem é o Jovem? Sobre a caracterização do personagem No mundo contemporâneo, o jovem se estabelece como o novo modelo do “ser” em sociedade. A mídia, enraizada na cultura, percebe a emergência dessa parcela da população e passa a impulsionar a eterna busca pela juventude por meio dos conteúdos publicizados. Nesse sentido, Maria Rita Kehl (2004) compreende a juventude enquanto um estado de espírito, um consumidor em potencial, uma categoria social e de mercado da qual todos os indivíduos querem fazer parte. Nesse contexto, “a televisão, com seu potencial de massificação cultural, é acusada de exibir mitos de beleza e juventude, atuando como a principal fonte de orientação do comportamento dos jovens” (MATTOS, 2010, p. 138). Ainda segundo o autor, do mesmo modo que o “espírito” da juventude invade a telinha, aquilo que é transmitido pela televisão pode influenciar as atitudes do jovem na atualidade, e sobretudo, a percepção sobre essa parcela da população. Isso acaba por reforçar nosso interesse sobre a representação dessas coletividades e o processo de construção do imaginário coletivo acerca dessa categoria. Vale ressaltar que a juventude também é comumente apresentada nas narrativas audiovisuais enquanto um problema social. A partir da segunda metade do século XX, a juventude surgiu como um grupo relevante e tornou-se “foco de preocupação do Estado e de diversos setores sociais, entre eles a mídia, a partir de temáticas como Educação, Delinquência e Trabalho” (COUTINHO; MATA, 2010, p. 248). José Machado Pais (1993) aponta a juventude enquanto um grupo heterogêneo, complexo e marcado pela instabilidade – afinal, trata-se de uma fase de transição da infância para a vida adulta, momento em que o indivíduo passa por transformações biológicas e psicológicas enquanto busca se afirmar e ser aceito socialmente. Tal fase de crise, tormentos e descobertas contribui para que a percepção dessa categoria na mídia, principalmente nas narrativas audiovisuais jornalísticas, esteja, na maioria das vezes, relacionada às tensões a ela associadas e por ela suscitadas na vida em

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comunidade. Tal concepção foi também observada em pesquisa realizada por uma das autoras desse trabalho acerca das identidades de integrantes de coletividades juvenis representadas nas tramas noticiosas veiculadas na cobertura das Eleições 201 0 no Jornal Nacional (JN) (SCHLAUCHER, 2011). Apesar de presentes na narrativa audiovisual, os jovens eram meros personagens coadjuvantes, em uma quantidade pequena e restrita dos conteúdos veiculados pelo JN no que diz respeito ao recorte analisado. Os papéis personificados pelos jovens representados giraram essencialmente em torno do “estudante”, da “vítima” e da “promessa de futuro”, três estereótipos comumente associados à juventude e, na maioria das vezes, trabalhados pela mídia de maneira que não contempla a complexidade e diversidade inerente a essa parcela da população. As tensões relativas às coletividades juvenis constituíram-se em objeto das discussões presentes nas campanhas eleitorais e, consequentemente, estabeleceram-se como geradoras de pautas jornalísticas no JN, como por exemplo, as questões ressaltadas pelos candidatos referentes à segurança, à educação, à falta de oportunidades par a alguns jovens e ao combate às drogas. Quase sempre vistos a partir do olhar de um “superior”, no caso um adulto atuando como político, os jovens não tiveram a oportunidade de expressar por meio de sonoras suas próprias vontades e expectativas em relação aos temas presentes nas pautas dos candidatos à presidência. As preocupações, necessidades, aspirações e obrigações da juventude brasileira são estabelecidas, muitas vezes, na voz desses adultos, que se posicionam no centro das narrativas, enquanto os jovens habitam as margens das tramas noticiosas. É importante destacar ainda que os conteúdos relacionados à juventude discutidos ao longo das campanhas eleitorais, não exploraram toda a complexidade característica da categoria. Os contextos nos quais os jovens estavam inseridos somados ao modo como foram retratados pelo JN contribuem para a manutenção de uma visão estereotipada e às vezes pré-conceituosa dessa categoria social. Não houve espaço para abordagens de destaque que revelassem lideranças jovens, práticas cidadãs e iniciativas políticas juvenis; e nem para a discussão de temas que contribuíssem para o desenvolvimento crítico dos jovens e para a consolidação da cidadania dos mesmo s. Sendo assim, intensifica-se a percepção da juventude como uma classe homogênea e despolitizada (SCHLAUCHER, 2011). 4

Atualmente, podemos observar ainda o olhar sobre a juventude enquanto "protagonista" no que diz respeito ao domínio das novas mídias digitais, condição que teria sido relevante para a organização das manifestações de junho de 2013 – fato que, naturalmente, merece ser estudado futuramente. Nascidos em uma sociedade já conectada, os jovens do século XXI veem a Internet como uma espécie de “contra-poder”, utilizada para se auto-afirmarem. A possibilidade de interagir com a informação, criticar, sugerir, compartilhar e produzir conteúdos é encarada com naturalidade por parte dessa nova geração, fazendo com que seu relacionamento com os meios de comunicação

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de massa, com destaque para a televisão, seja bastante diferente daqueles estabelecidos até o final dos anos 80 e início dos anos 90. O público jovem é mais ativo no que se refere ao consumo de informação e não se expõe ao f luxo televisual da mesma maneira que antigamente, e busca, muitas vezes, produzir, ele mesmo, conteúdos. Tal cenário contribui para o processo de migração da juventude dos meios tradicionais para as novas mídias, onde podem atuar simultaneamente enquanto emissores e receptores, buscando certo protagonismo nessa relação. É a partir desse contexto que nos propomos a analisar a representação da juventude nas narrativas de telejornais brasileiros no que diz respeito à cobertura das manifestações de junho de 2013 em São Paulo. Ainda que em tese, os atos que mobilizaram milhares de pessoas na maior cidade do país foram liderados e protagonizados por jovens, de modo que sua voz pudesse ganhar espaço na arena política audiovisual que se constitui o telejornalismo brasileiro (COUTINHO, 2002). A seguir, voltamos nosso olhar para nosso objeto de estudo. 2. A representação da juventude na tela de TV: a cobertura dos protestos no Jornal Hoje Mesmo que o advento das mídias digitais represente atualmente uma transformação cultural no que concerne aos hábitos informativos dos indivíduos, a comunicação de massa ainda é o modelo mais expressivo de produção e consumo de informação. É nesse sentido que Simone Maria Rocha (2009) ressalta a importância dos conteúdos veiculados pela televisão, meio de comunicação mais consumido no Brasil. Segundo a autora, as narrativas transmitidas por meio da TV, em especial, proporcionariam aos indivíduos uma forma de ver e conhecer a realidade social. Atualmente, segundo dados da Secretaria de Comunicação (Secom) da Presidência da República Federativa do Brasil, 94,2% da população costuma assistir TV – sendo que a maioria tem o hábito de ver apenas a televisão aberta (77,2%). Desse modo, a televisão se estabelece como uma das mais importantes fontes de informação, cultura e distração para milhões de pes soas, exercendo importante papel social no que diz respeito ao acesso ao conhecimento e ao entretenimento. Segundo Dominique Wolton (1996), o veículo teria ainda a função de integrar, destacando-se como um lugar de identidades e comunicação. Não podemos, contudo, atribuir à televisão a responsabilidade total pela configuração de nossa sociedade e definição de nossas identidades. A TV incorpora-se à dinâmica cultural, a constituindo e sendo constituída por ela, o que relativiza a onipotência e onipresença muitas vezes atribuída ao veículo (JACKS, 1997). Vários fatores entram em negociação a fim de “moldar” o mundo social e os indivíduos nele inseridos. A TV, assim como outros meios, é apenas um deles. Porém, seu destaque na sociedade contemporânea evidencia sua capacidade de agir sobre nossas percepções.

161


4

As aspas justificam-se porque ao longo desse discurso há o tensionamento da suspeita de que exista algum controle outro das manifestações, ou mesmo no domínio da técnica, que esteja além dos jovens colocados em cena.

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Este processo se dá não só por meio de programas ficcionais e/ou de entretenimento, mas também ocorre nos telejornais veiculados diariamente em rede para todo o país. Segundo dados da Secom, o noticiário de TV é considerado a programação televisiva mais relevante por 64,6% da população. Logo, o telejornalismo continua sendo reconhecido enquanto uma atividade de importância social – cumprindo uma função pública n o que diz respeito ao exercício do direito à informação de todos os cidadãos. Nesse artigo, selecionamos o Jornal Hoje (JH) como objeto de nosso estudo empírico. Veiculado em rede nacional desde 1974 pela Rede Globo de Televisão, o telejornal diário, além de apresentar as notícias mais recentes do Brasil e do mundo, busca destacar as matérias que atrairiam principalmente as audiências jovem e feminina, parcelas da população que compõem seu público5

alvo (MEMÓRIA GLOBO, 2013) . Sua linguagem leve e informal e a tentativa de atualizar sua identidade enquanto um programa que busca acompanhar os avanços tecnológicos – aspecto que pode ser observado em sua presença na Internet e nas redes sociais e em quadros como “Jovens do Brasil” e “Câmera do JH” – poderiam ser interpretadas como indícios de uma estratégia do telejornal a fim de promover uma maior participação, proximidade e diálogo com o público. Será que a busca por um relacionamento mais estreito com sua audiência, formada em grande parte por jovens, sujeitos de nossa investigação, significaria também uma representação política diferenciada dessa parcela da população durante a cobertura das manifestações de junho de 2013 na cidade de São Paulo? É isso que buscamos observar ao longo dessa reflexão que tomou como orientação metodológica a perspectiva da dramaturgia do telejornalismo (COUTINHO, 2013), ao colocar em cena no discurso telejornalístico diferentes personagens. Iluska Coutinho (2002) chama atenção para os telejornais enquanto espaço de disputa de poder, de fala e de legitimidade, que confeririam aos entrevistados, vozes externas à emissora, certa autoridade de fala. Para a autora, a Rede Globo de Televisão iria além da representação, se transformando em um espaço ativo do jogo político, uma “democracia eletrônica”, porém não tão plural como em tese deveria ser. Nessa “arena política”, conforme coloca a autora, os entrevistados seriam a expressão máxima na disputa por visibilidade.

5

http://memoriaglobo.globo.com/Memoriaglobo/0,27723,GYN0-5273-237470,00.html Acesso em 03/07/2013.

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Através das falas, texto de um programa jornalístico veiculado em rede nacional, as diversas vozes que compõem seu discurso, os “falantes” estariam também em busca de obtenção de uma visibilidade e/ou legitimidade públicas, ou ainda da capacidade de direção intelectual e moral que conferem à classe dominante, ou aspirante ao poder, o papel de guia, de detentora do consenso em determinada cultura ou sociedade, característica da hegemonia em termos gramscianos (COUTINHO, 2002, p.02).

A visibilidade pública também foi assunto levantado por Wilson Gomes (2009) em estudo acerca dos atores políticos no Jornal Nacional. Ao identificar o telejornal como um dispositivo fundamental para a produção de visibilidade pública nas sociedades de massa, o autor foca sua investigação na dimensão que é ocupada pela fala do ator político e pela menção ao seu nome, definida como “audioesfera”. Segundo Gomes (2009, p . 184): A visibilidade pública, enquanto norma democrática,há de se materializar em espaços concretos onde o público possa ver, ouvir, tomar conhecimento, eventualmente discutir, os negócios de interesse comum e a própria política como atividade crescentemente especializada. Da qualidade dessas janelas, por onde o cidadão acompanha os assuntos públicos e os lances e comportamentos dos atores que a eles se dedicam, vai depender o padrão de democracia instalado.

Atualmente, conforme avalia Gomes, contamos com indústrias de informação e entretenimento especializadas em produzir e capturar a atenção pública e do público e que se constituem em centros de visibilidade, onde atores e ações são representados. Em uma nação cujos índices de analfabetismo são significativos e a média de leitura da população chega apenas

seis a quatro livros por ano (2,1 até o fim), a televisão se estabelece como o meio de comunica ção que mais concentra a atenção coletiva. No que diz r espeito aos fatos do cotidiano, às atualidades, os telejornais seriam “a grande vitrine da visibilidade pública nacional”. Assim como Wilson Gomes (2009), entendemos como atores políticos aqueles que são socialmente reconhecidos como detentores de um papel na política, sejam profissionais, como, por exemplo, governadores, prefeitos e ministros, ou representantes de grupos e interesses particulares, como ativistas, sindicalistas, lideranças regionais, etc. No âmbito desse texto, consideramos os jovens manifestantes atores políticos na luta por visibilidade e legitimidade públicas no disputado palco que se constitui a Rede Globo – e, consequentemente, seus telejornais de rede –, cujo patamar mais elevado se concretizaria nas entrevistas exibidas para todo Brasil. Desse modo, concordamos com Coutinho (2002) quando a pesquisadora ressalta que as entrevistas exibidas nos telejornais sejam analisadas “como expressões de uma disputa por poder de fala”, em que os atores políticos convertidos em “falantes” assumiriam a co-autoria no texto socialmente legitimado do (tele)jornalismo, aquele que organiza e (re)apresenta a realidade nacional, ainda que a partir de enquadramentos previamente estabelecidos. Sendo assim, Os discursos e falas que são veiculados nesse espaç o, além de adquirirem visibilidade

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nacional, [...] também recebem uma espécie de marcade relevância, ou simplesmente, os entrevistados seriam investidos do “poder de fal a”, com o reconhecimento de um tipo de autoridade midiática ou televisiva, ainda que apenas expressa em poucos segundos (COUTINHO, 2002, p. 7-8).

Em nosso estudo, tomamos como ponto de partida os procedimentos adotados por Iluska Coutinho (2002) em investigação realizada pela auto ra sobre os telejornais como espaço de disputa por hegemonia política e cultural. A fim de analisar como os jovens estão representados nas narrativas audiovisuais sobre os protestos contra o aumento das passagens do transporte coletivo em São Paulo, submetemos 18 edições do Jornal Hoje, veiculadas entre os dias 03 e 22 de junho de 2013, ao método de Análise de Conteúdo Telejornalístico, com o objetivo de identificar matérias que pudessem compor uma unidade de análise. A partir daí, foram selecionadas apenas as edições/matérias que tratam principalmente das manifestações na cidade de São Paulo, local onde tiveram início as ondas de protesto pelo país.

6

Ver pesquisa divulgada em notícia disponível em http://oglobo.globo.com/educacao/brasileiro-le-em-media-quatro-livrospor-ano-revela-pesquisa-4436899 Acesso em 20/08/2013.

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Desse modo, enfatizamos a análise textual do material informativo 7 veiculado entre os dias 07 e 21 de junho de 2013, momento auge das manifestações. Durante esse período foram transmitidas 16 matérias sobre o tema, em um total de nove edições. Nesse estudo, destacamos especialmente as sonoras 8, um dos elementos característicos do telejornalismo. Dessa forma, as narrativas proferidas em voz direta pela parcela da população alvo de nossa investigação e o seu teor, bem como o conteúdo das falas dos demais entrevistados presentes nas tramas noticiosas investigadas, constituíram-se como as principais variáveis de nossa análise. Observamos principalmente o número de entrevistas em cada matéria, quem fala e por quanto tempo e a identificação ou não do entrevistado. Seguindo o modelo proposto por Coutinho (2002), classificamos as vozes externas à emissora em categorias de falantes, como o objetivo de ressaltar qual(ais) parcela(s) da sociedade o entrevistado representa e identificar quem seriam os manifestantes. Partimos, então, para nossas observações. O material analisado somou 46 minutos e 28 segundos (2788 segundos). Verificamos um total de 52 entrevistas – em média, 3,25 sonoras por matéria. Juntas, as entrevistas representaram 605 segundos do recorte empírico, o equivalente a 21,7% do tempo total – um espaço relativamente pequeno e, consequentemente, muito disputado. As sonoras duraram, em média, 11,6 segundos

9

.

Vale ressaltar que do material informativo analisado, 11 matérias foram classificadas como 10

reportagens , sendo que uma delas começa ao vivo com a repórter que dá o gancho para a exibição do VT

11

. Contabilizamos ainda quatro flashes ao vivo, a maioria associada a entrevistas e/ou

imagens, e uma nota coberta. A fim de contextualizar nosso estudo, descrevemos brevemente os principais temas abordados no material informativo analisado. No dia 07 de junho, foi veiculada uma reportagem sobre os protestos contra o aumento da passagem, que, segundo a matéria, terminaram em confusão em quatro capitais brasileiras, com destaque para São Paulo. No dia 08, o assunto foi abordado em uma nota coberta que destacava os prejuízos para o trânsito na capital. No dia 12, a matéria veiculada tratava de novo protesto que O texto telejornalístico é composto por elementos como texto, som e imagem e ainda por formatos, ritmo e edição, aspectos observados na análise. 8 O termo “sonora” significa “entrevista” no jargão dos telejornais. 9 Assim como o número de entrevistas por matéria, aduração de 11,6 das sonoras é apenas uma média, jáque o tempo de fala dos entrevistados, assim como o número de sonoras, variou bastante. A mais curta durou apenas 1segundo e a mais longa, veiculada com a pergunta do repórter, teve 1 minuto e 09 segu ndos de duração. As maiores, na maioria das vezes, estavam associadas a declarações feitas em coletivas de imprensa. 10 Em nossa pesquisa, consideramos reportagem os VTs editados que apresentam offs, passagem e entrevistas/ sonoras. 7

11

Videoteipe, equipamento usado para a gravação de v ídeos.

166


terminou em confronto em SP. Já no dia 14, o tema volta a ter destaque com a reportagem sobre o quarto protesto em oito dias na capital, com ainda mais tumulto, segundo os apresentadores. Na mesma data, foi veiculada uma matéria sobre a ação da Polícia Militar, que prendeu mais de 200 pessoas durante a manifestação. No dia 17 de junho, a reunião entre representantes do Ministério Público, integrantes dos protestos e o Secretário de Segurança Pública de São Paulo foi abordada em um flash ao vivo associado a imagens de manifestações. O destaque foi a decisão do Secretário de não usar balas de borracha durante os protestos. No dia seguinte, a reportagem, que começa ao vivo, ressaltou a realização de um protesto pacífico que reuniu 65 mi l pessoas nos principais pontos de SP. Na sequência, vem a matéria sobre um grupo de pessoas que decidiu tentar invadir o Palácio dos Bandeirantes. No dia 18 de junho, o Jornal Hoje fez um flash ao vivo do local onde ocorreu uma reunião entre Fernando Haddad, prefeito de São Paulo, e ativistas do MPL. O destaque foi a declaração de Haddad sobre não ter dinheiro para revogar o aumento das passagens. O flash trouxe ainda duas sonoras, uma com o prefeito e outra com uma representante do movimento. Já no dia 19, foi ao ar uma reportagem sobre o sexto ato contra as tarifas, que reuniu mais de 50 mil pessoas. No mesmo dia, um flash ao vivo abordou o posicionamento da prefeitura sobre as negociações com os manifestantes, a redução nas passagens e o vandalismo, a partir de uma entrevista à imprensa de Fernando Haddad. O flash estava associado a uma sonora do prefeito. Em seguida, foi exibido um VT sobre os tumultos e o vandalismo da noite anterior. Ainda no dia 19, o telejornal destacou os diversos pontos de manifestação registrados desde cedo na região. No dia 20 de junho, ocorreu uma entrevista com os líderes do MPL. Ao vivo, o repórter destacou a conquista da redução da passagem. O flash trouxe duas declarações de representantes do MPL à imprensa. Também no dia 20, o JH veiculou uma reportagem sobre a busca da Polícia pelos baderneiros infiltrados no protesto pacífico em São Paulo. A última matéria analisada foi ao ar no dia 21 de junho. A reportagem destacou a manifestação que reuniu cem mil pessoas na Avenida Paulista, com tom de festa e celebração. Vale ressaltar que ao final da matéria, a apresentadora anuncia uma sonora com o porta-voz do MPL. A partir das descrições acima e com base em nossa análise de conteúdo e nos estudos de Wilson Gomes (2009), classificamos o material referente à cobertura das manifestações como

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12

pertencentes ao grupo de matérias de interesse social . Segundo o autor, seriam matérias “sobre questões de interesse da sociedade (ou comunidade política) que convocam ou implicam a política (a administração pública ou a fiscalização legislativa). O seu objeto é “o que é do interesse da sociedade, entendida como a comunidade dos cidadãos” (p. 191). Conforme ressaltado anteriormente, os entrevistados foram divididos em diferentes categorias de falantes, estabelecidas a partir da classificação proposta por Iluska Coutinho

13

. Assim

como a autora, nos baseamos na apresentação d o repórter, na identificação nos créditos e no contexto/conteúdo de cada matéria para distribui os entrevistados presentes na narrativa. Nas sonoras analisadas, verificamos quatro grupos de falantes: populares, técnicos/funcionários públicos, movimentos sociais e autoridades políticas. Os populares são cidadãos de diferentes classes sociais, níveis culturais e localidades. A classificação desse grupo se fundamenta no conteúdo de suas entrevistas: as falas dos populares se baseiam em experiências vividas cotidianamente. Nas sonoras em questão, ganharam direito à voz trabalhadores, estudantes, mães, moradores e do nas de casa. Os técnicos e funcionários públicos são os representantes dos diversos órgãos públicos do Brasil, como, por exemplo, os policiais civis, militares e federais. No recorte empírico analisado, foram ouvidos, por exemplo, o comandante do Policiamento de Choque, o coronel e o major da PM, um delegado da Polícia Civil e o diretor geral da Fundação Teatro de SP. O grupo dos movimentos sociais, com base nas edições analisadas, contou com a participação de integrantes do MPL. E a categoria intitulada autoridades políticas, contou com sonoras do prefeito, do governador do estado e do secretário de Segurança Pública de São Paulo. Os populares foram as fontes mais expressivas numericamente. As 31 sonoras somaram 191 segundos. Logo, 6,85% do tempo total referente ao recorte empírico e 31,57% do tempo das sonoras foi destinado à voz dos cidadãos comuns. Em seguida, destacam-se as autoridades políticas, com sete entrevistas (176 segundos), o equivalente a 6,31% do tempo total e 29,09% do tempo das sonoras. Na sequência, aparecem os representantes dos movimentos sociais, com sete entrevistas com duração total de 168 segundos (6,02 % da soma das 16 matérias e 27,76% do

12

Em estudo sobre os atores políticos no Jornal Nacional (2009), Wilson Gomes ressalta que, do ponto de vista da política, o material informativo do JN poderia ser distribuído em três tipos de conteúdo: interesse geral, interesse social e interesse político. A partir daí, o autor sugere a classificação de mat érias em três classes: matérias de política, matérias de interesse social e matérias de interesse geral. Para mais detalhes, ver Gomes, 2009. 13 Ver Coutinho, 2002.

168


tempo das sonoras). Por fim, o grupo dos técnicos/funcionários públicos, também com sete inserções, somam 71 segundos (2,54% do tempo total e 11,73% do tempo das entrevistas). Destacamos que, apesar dos elevados números referentes às sonoras de populares, contabilizamos 31 falantes diferentes, o que nos leva à média de 6,16 segundos de fala para cada entrevistado. O tempo total de duração das sonoras pertencentes a esse grupo se dá em função da quantidade de pessoas ouvidas e não da relevância d e seus depoimentos. Comparativamente, o grupo das autoridades políticas, com 176 segundos de entrevista distribuídos em sete sonoras, contou com apenas três vozes diferentes, uma média de 58,66 segundos de fala para cada entrevistado (todos sempre creditados). Nesse caso, os representantes dessa categoria obtiveram muito mais visibilidade pública, além de adquirirem autoridade midiática por meio de falas que validam e legitimam o conteúdo analisado transmitido pelo Jornal Hoje. É importante ressaltar, também, algumas observações relacionadas à inserção de créditos nas matérias. Na categoria composta por populares, dos 31 falantes, apenas 11 foram creditados. De modo geral, a voz desse grupo tem apenas a função de ilustrar os acontecimentos, compor os cenários, dimensionar os fatos noticiados a partir de aspectos passionais e confirmar o discurso dos jornalistas, seja aprovando ou reprovando as manifestações, ou ainda, testemunhando cenas de violência e “momentos históricos”. A função de legitimar a informação cabe aos demais entrevistados. No que diz respeito ao grupo movimentos sociais, também com sete sonoras (168 segundos de fala), verificamos a presença de cinco entrevistados diferentes (todos creditados). No caso, apenas uma representante do MPL foi fonte recorrente, com três inserções. Mas, ainda assim, suas aparições apresentaram inconsistências quanto à inserção de sua ocupação nos créditos. Na primeira vez em que aparece no vídeo, a jovem entrevistada é colocada na posição de integrante do Movimento Passe Livre; na segunda vez é identificada como ativista; e na terceira como estudante. Um dos representantes do movimento também foi destacado com uma posição diferente daquela ocupada no momento de sua fala: o entrevistado foi creditado como bancário. É possível inferir que o número de falantes comparado ao número de sonoras e somado a essas pequenas inconsistências dificultaria a identificação do público com os representantes do MPL, prejudicando a construção de uma identidade para os entrevistados e a identificação imediata dos líderes do movimento – o que não acontece com as autoridades políticas. Por outro lado, evitaria a personificação do movimento em uma única pessoa pública, reforçando o apelo popular da causa. De um modo ou de outro, os integrantes desse grupo detém um lugar de fala autorizado: conforme o texto dos âncoras, eles repr esentariam um dos “dois lados” das manifestações, ao apresentarem os protestos como um a disputa entre manifestantes, de um lado, e governo e policiais, do outro. Assim como as categorias autoridades políticas e movimentos sociais, os técnicos e

169


funcionários públicos estiveram representados em sete sonoras, porém, com um total de 71 segundos de fala e sete fontes diferentes (apenas um policial não foi creditado). Apesar de significativo destaque nas imagens e no texto dos repórteres, o que contribuiu muito para a visibilidade do grupo, sua participação por meio de entrevistas esteve mais evidente nas primeiras sete matérias, quando a cobertura ainda generalizava as manifestações como protestos violentos. A partir da oitava matéria, o grupo não teve mais direito à voz. Ainda assim, recorrer à fala de policiais era utilizado como estratégia para dar credibilidade ao texto dos jornalistas. No que diz respeito mais especificamente à representação dos jovens manifestantes, percebemos que os participantes dos protestos estão representados nas matérias por dois grupos: populares e movimentos sociais. Ao todo, contabilizamos 14 falantes populares entre os 31 ouvidos e sete entrevistas com integrantes do MPL, totalizando 21 sonoras de manifestantes. Desse total, 19 são proferidas por jovens (12 populares e todos os representantes do movimento). As entrevistas dos jovens manifestantes somaram 254,5 segundos, o equivalente a 9,12% das matérias analisadas e 42,06% das sonoras. A título de comparação, as falas de policiais somadas a das autoridades políticas, ou “o outro lado”, totalizaram 13 sonoras, com 235 segundos ao todo (8,42% do tempo total e 38,84% das sonoras). Entretanto, se levarmos em conta a autoridade conferida às falas e a média de tempo por pessoa – 13,39 segundos no caso dos jovens manifestantes e 26,11 segundos no caso dos policiais e do governo) – observamos que somente os jovens diretamente relacionados ao Movimento Passe Livre têm poder de fala reconhecido socialmente como fonte legitimadora das tramas noticiosas veiculadas, já que as falas dos demais manifestantes seriam, de certo modo, superficiais e pouco contribuiriam para o conhecimento e formação cidadã do telespectador. Como exemplo, citamos alguns depoimentos representativos durante o recorte analisado: “Vinte centavos, vamos lutar contra isso”; “eu acho realmente um absurdo o preço”; “não tem cansaço. 14

Tem que lutar pelo país, tem que fazer o que é bom” ; “eu acredito no nosso povo, na nossa voz e acredito que a gente tem razão em tudo que a gente está brigando”; “eu vi ontem na televisão, senti que eu devia estar lá e estava em casa. Então, saí do trabalho hoje e vim pra cá”; “agora a gente está contra a corrupção geral”

15

; “você acha que eu vou enfrentar um PM que tem

apontado pra mim uma escopeta? Você acha que eu vou agredir ele? Eu não sou louco”

16

.

É importante destacar também a mudança de tom das reportagens veiculadas ao longo da 17

cobertura das manifestações durante o período analisado. Até a sexta matéria , quando começamos a observar mudanças na edição, os protestos, de modo generalizado, estavam associados a palavras como vandalismo, medo, confusão, descontrole, violência, prejuízo, confronto e destruição. Os participantes foram textualmente representados, principalmente, por meio de termos como “manifestantes” “grupo”, “eles” , “Movimento Passe Livre”, “estudantes” – utilizados

170


indiscriminadamente pelos jornalistas e fontes para se referirem a todos os presentes. Citamos como exemplo os depoimentos de passantes e um trecho do texto do repórter na 18

primeira matéria veiculada : “Não sou contra a manifestação, quando você quer um direito tem que ir atrás, mas não dessa forma que eles fazem”; “A gente tava aqui trabalhando e tal, começou a tumultuar, soltaram bomba e tiro. Foi em segundo que destruíram tudo. Depois de uns três minutos, quatro minutos a polícia veio, mas foi um terror. Foi terrível”. O texto dos repórteres também é ilustrativo: “A administração de um shopping que fica na região fechou as portas, depois que os estudantes apedrejaram um carro que estava em exposição. Os manifestantes colocaram fogo no lixo, derrubaram um posto policial e depredaram três estações de metrô”. O mesmo enquadramento pode ser observado ainda na fala de policiais e autoridades políticas: “O que eu vi foi a tropa da Polícia Militar sendo agredida no Parque Dom Pedro. Por quê? Porque eles queriam simplesmente invadir o terminal rodoviário. Vários deles falando que queriam invadir o terminal pra incendiar ônibus. E aí a gente fez uso da Força Tática pra dispersar esses manifestantes” (Marcelo Pignatari, Coronel da Polícia Militar); “Isso é inaceitável e não é possível ter tolerância em relação a esse tipo de comportamento em prejuízo da coletividade” (Geraldo Alckmin, governador de SP).

19

Vale ressaltar que a sonora da representante do MPL, inserida logo

após a fala do Coronel da PM, não tem relação alguma com as acusações anteriores e nem com a fala do governa dor, que vem na sequência. Mayara Vivian diz: “É que esse diálogo seja claro, que essa negociação seja claramente pra negociar como revogar o aumento e daí para mais. A gente começar a pensar em tarifa zero, linhas noturnas”.

14

Matéria “Protesto pacífico reúne 65 mil pessoas e percorre os principais pontos de São Paulo”, veiculada no dia 18/06/2013. Disponível em: http://globotv.globo.com/rede-globo/jornal-hoje/v/protesto-pacifico-reune-65-mil-pessoas-e-percorre-osprincipais-pontos-de-sao-paulo/2641237/ Acesso em 07/09/2013. 15 Matéria “Mais de 50 mil pessoas participam do sexto ato contra as tarifas”, veiculada no dia 19/06/20 13. Disponível em: http://globotv.globo.com/rede-globo/jornal-hoje/v/mais-de-50-mil-pessoas-participam-do-sexto-ato-contra-as-tarifas/2643381/ Acesso em 07/09/2013. 16

Matéria “São Paulo vive o quarto protesto em oito dias”, veiculada no dia 14/06. Disponível em: http://globotv.globo.com/redeglobo/jornal-hoje/v/sao-paulo-vive-o-quarto-protesto-em-oito-dias/2634771/ Acesso em 07/09/2013 17

Matéria “Governo de SP promete não usar balas de borracha durante protestos”, veiculada no dia 17/06/ 2013. Disponível em: http://globotv.globo.com/rede-globo/jornal-hoje/v/governo-de-sp-promete-nao-usar-balas-de-borracha-duranteprotestos/2638942/ Acesso em 17/06/2013. 18 Matéria “Protestos contra aumento de passagem terminam em confusão em quatro capitais”, exibida no di a 07/06/2013. Disponível em http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2013/06/protestos-contra-aumento-do-onibus-terminam-em-confusaoem-capitais.html Acesso em 07/09/201

171


Entretanto, conforme citado anteriormente, a edição das matérias começa a apresentar alterações significativas a partir do dia 17/06. Notamos um cuidado maior na fala de apresentadores, repórteres e fontes ao se referirem aos manifestantes; uma tentativa de enfatizar a separação entre a maioria pacífica e os acusados de

vandalismo. Essa mudança de tom ocorre

quando as acusações contra a “repressão excessivame nte violenta”

20

da PM começam a ganhar

corpo. Neste momento, os falantes lançam mão de expressões que buscam diferenciar os manifestantes –“multidão pacífica”, “imensa maioria ”, “grupo pacífico” – dos acusados de dano ao patrimônio – “vândalos”, “pequeno bando de bader neiros”, “grupo pequeno de arruaceiros”. Surgem, ainda, matérias que buscam associar os protestos a ideia de celebração, festa, paz, sentimentos nacionalistas e apartidários. Um exemplo é o texto da reportagem veiculada no dia 19/06: “Agora, com os rostos pintados e com bandeiras do Brasil, eles diziam ser os filhos da revolução”. A fala do Tenente Coronel da Polícia Mi litar, José Rodrigues de Oliveira, exibida no dia 18/06, também é representativa da mudança que corre nas reportagens e na fala dos entrevistados: “você percebe que tem um grupo pacífico, a grande maioria, mas tem um grupo pequeno de arruaceiros, de baderneiros, que estão querendo fazer arruaça, que estão longe de querer acertar alguma coisa. E é esse grupo que tentou entrar e a gente não pode permitir isso”. A partir das marcações acima, percebemos a emergência de diferentes identidades atribuídas aos jovens manifestantes. A uma parcela dos jovens ouvidos, os representantes do MPL, é concedida uma autoridade de fala, muito em função do acontecimento noticiado. São eles os “líderes” do movimento, jovens dotados de capacidade crítica, bem articulados, politizados,

19

Matéria “Manifestação contra aumento de passagem t ermina em confronto em SP”, exibida no dia 14/06/20 13. Disponível em: http://globotv.globo.com/rede-globo/jornal-hoje/v/manifestacao-contra-aumento-de-passagem-termina-em-confronto-emsp/2630295/ Acesso em 07/09/2013. 20 Trecho da reportagem “Governo de SP promete não us ar balas de borracha durante protestos”, veiculada no dia 17/06/2013. Ver nota 16.

172


capazes de negociar tête-à-tête com os governantes e o Ministério Público e dar entrevistas coletivas à imprensa. Junto deles, outros jovens exercem papel coadjuvante, é a “multidão”, o “mar de gente”, cuja fala emerge apenas para confirmar o discurso do Jornal Hoje. Temos, ainda, os baderneiros, os irresponsáveis e inconsequentes, estereótipo que no início da cobertura era indiscriminadamente atribuído a todos os jovens manifestantes e estudantes. Entretanto, passam a concorrer com outra visão estereotipada, a dos jovens enquanto “promessa de futuro”, os “filhos da revolução”, que de cara pinta cantam o hino nacional, pedem paz e gritam palavras de ordem contra a corrupção, os que querem mudança. Assim, a s manifestações de junho de 2013 vão do vandalismo ao status de “momento histórico” com clima de festa e celebração. Para protestar “com alegria e sorriso no rosto”, até as mães levam seus filhos para se juntar à multidão que acordou. Mas quem estava dormindo? Referências Bibliográficas

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174


A construção imagética da cobertura jornalística do câncer de Dilma 1 Rousseff, a partir dos enquadramentos do Jornal Nacional Allan GOUVÊA2 Universidade Federal de Juiz de Fora

Resumo: A crescente tendência por uma tentativa de se obter visibilidade política por meio dos veículos de comunicação estabelece uma série de enquadramentos possíveis no âmbito da atividade jornalística. A inclinação desse personalismo político como elemento preponderante para a decisão do voto é o objeto de estudo deste artigo. A partir da hipótese de que o câncer vivido por Dilma Rousseff, diagnosticado e tratado em 2009, lhe possibilitou uma visibilidade maior nos noticiários, pretende-se identificar e mapear os sentidos jornalísticos que, pressupostamente, permitiram a construção de uma imagem favorável para aquela que, naquele momento, era um dos nomes mais cotados para a sucessão presidencial do país. O escopo de análise do trabalho é constituído pela cobertura realizada pelo Jornal Nacional, da Rede Globo, ao longo de 2009 sobre o tratamento do linfoma protagonizado pela presidenciável. Palavras-chave: personalismo político; telejornalismo; Dilma; câncer; eleições.

Introdução Os estudos realizados no âmbito da comunicação e saúde e, mais especificamente, nas relações entre o telejornalismo e a cobertura do câncer, apontaram, em diversos momentos, para questões de dimensão política. Em primeiro lugar, porque a doença quase sempre aparece nos noticiários de televisão por ocasião do diagnóstico de figuras públicas, muitas das quais são líderes e representantes políticos, entre eles: Dilma Rousseff, Luiz Inácio Lula da Silva, José de Alencar e Hugo Chávez. Nesse aspecto, são mobilizados os sentidos dessa abordagem em relação aos desdobramentos políticos que a doença traz e, concomitantemente, os telejornais passam a oferecer informações sobre saúde, a fim de explicar os elementos que permeiam a doença. Por outro lado, a presença da temática saúde na mídia também, esporadicamente, fala das políticas públicas vigentes ou de sua ausência.

1

Trabalho apresentado ao GT 3 – Jornalismo Político e Eleitoral do XII Congresso da Sociedade Brasileira dos Pesquisadores e Profissionais de Comunicação e Marketing Político – Juiz de Fora (MG). 2 Jornalista diplomado, mestrando do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora (PPGCom-UFJF), com bolsa Capes, e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo, Imagem e Representação da UFJF, e-mail: allangouvea@yahoo.com.br.

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Dessas noções iniciais, depreendemos a ideia de que a política está intimamente ligada à saúde e ambos, ao serem representados pelos meios de comunicação, são ressignificados, influenciando diretamente na realidade social. Isso porque o telejornalismo, enquanto uma das principais atividades da Comunicação, trabalha fundamentalmente com a linguagem, que, a seu turno, opera símbolos e sentidos que vão repercutir no seio social. Na verdade, há muito tempo se sabe que a linguagem não é apenas designativa, mas principalmente produtora de realidade. A mídia é, como a velha retórica, uma técnica política de linguagem, apenas potencializada ao modo de uma antropotécnica política – quer dizer, de uma técnica formadora ou interventora na consciência humana – para requalificar a vida social, desde costumes e atitudes até crenças religiosas, em função da tecnologia e do mercado (SODRÉ, 2006, p. 26).

Às relações de poder conferidas aos meios de comunicação, soma-se a cultura de valorização dos meios audiovisuais e a centralidade que caracteriza a televisão e o telejornalismo. O último, por manter um discurso que busca evidenciar uma “vontade de verdade” (FOUCAULT, 2009), adquiriu um status quo de credibilidade frente ao grande público. A audiência da televisão pode ser considerada como aquela que está reunida por um laço social, tal como proposto por Dominique Wolton (1996), cuja ideia designa que a telinha é o meio pelo qual a população está unida para se indignar, emocionar, entreter e se informar simultaneamente. Podemos acrescentar nesse debate que o telejornalismo é a prática que vai agendar o que será debatido pela opinião pública, formar idiossincrasias e interferir nos rumos do país. É por essa tamanha relevância que compete à academia problematizar o fazer jornalístico, analisar o seu habitus (BORDIEU, 1983), investigar os significados que produz e, numa perspectiva macro, avaliar a qualidade do serviço que é ofertado à população; uma vez que as transmissões televisionadas utilizam um espaço público que, em tese, devem estar a serviço dos cidadãos. Dessa forma, pretende-se apresentar um exame acerca do papel do jornalismo durante a cobertura do linfoma que vitimou Dilma Rousseff, no ano que antecedeu a sua vitória nas urnas para o mais alto cargo do Executivo. Parte-se da hipótese de que essa representação nos meios de comunicação auxiliou a construção de uma imagem favorável à então presidenciável, que comandava a Casa Civil e era considerada o “braço direito” do presidente Lula. Como objetivos

176


secundários, este trabalho propõe analisar as dimensões políticas e de saúde que atravessam o discurso jornalístico, tomando como amostra as reportagens veiculadas durante o ano de 2009 pelo Jornal Nacional (JN) – o principal telejornal da emissora de maior audiência do país. O JN ocupa o horário nobre da grade de programação e se constitui como uma experiência jornalística consolidada. Sua missão, como já foi reiterada diversas vezes por seu editor-chefe, é mostrar ao público tudo o que “de mais importante aconteceu no Brasil e no mundo naquele dia” (BONNER, 2009, p. 17). Em síntese, objetiva-se identificar em que medida as fronteiras entre jornalismo político e de saúde se converteram em experiências que determinaram um jornalismo eleitoral, que iria representar e, por que não, interferir na corrida presidencial que garantiu a manutenção do PT no poder, sob o comando de Dilma. 1. Personalismo Político, Espetáculo, Dramaturgia e Poder Desde a redemocratização do Brasil, ocorrida na década de 1980, o país acompanhou um boom de partidos políticos, já que a nova legislação promulgada previa uma liberdade ideológica e de expressão, que viria acompanhada por um regime pluripartidário. Nesse sentido, parece haver uma tendência cada vez mais fortalecida de se valorizar o desempenho da figura política, do representante, do líder; em detrimento dos ideais, por exemplo, preconizados pelos partidos políticos – que estariam, supostamente, banalizados por conta da existência de inúmeras legendas. [...] com o declínio da percepção de que são os fatores sociológicos ou a identificação partidária os responsáveis pelo voto, consolidou-se a perspectiva de que determinantes contingentes (a imagem do candidato, sua performance, temas de campanha) são cruciais no processo eleitoral. (LEAL, 2002, p. 68 apud BRINATI, 2010, p. 31).

Para os autores, essa inclinação personalista, observada no âmbito eleitoral, seria potencializada pelos meios de comunicação, que enaltece os fatores desse processo, ao operar os símbolos identitários que lhes são peculiares. O personalismo na política (ou, para Wattenberg, a ascensão da política centrada no candidato) decorre dessa lógica: a ênfase na escolha de pessoas, no lugar de partidos ou de programas políticos, pode ser explicada pelo fato de o personalismo ser um critério mais econômico, pois aproxima informações novas aos estereótipos já existentes. Focando personalidades, e não ideias ou ideologias, as comparações são mais óbvias e fáceis. (LEAL, 2002, p. 71 apud BRINATI, 2010, p. 32, grifos nossos).

177


Aliado à inclinação personalista da política, ressaltada pela mídia, observa-se um movimento, principalmente no ambiente televisivo, de se valorizar o caráter espetacular dos eventos cotidianos, aquilo que ocorre de mais inusitado e que vai assegurar a audiência por conta do interesse humano, no pleno exercício da lógica comercial. E é exatamente nesse contexto que podemos utilizar, para a compreensão dessa estratégia midiática, o conceito de sociedade do espetáculo, a partir da concepção de Guy Debord. O autor afirma que “toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação” (DEBORD, 1997, p. 13, grifo do autor). Segundo essa perspectiva, o que é representado como sendo a vida real adquire relevo apenas nos aspectos realmente espetaculares da vida. Com esse mesmo ponto de vista, tornou-se hegemônico o modelo narrativo de dramaturgia do telejornalismo (COUTINHO, 2012), inerente à sua materialidade, ao cadenciar áudio e vídeo na tentativa de contar (e construir) as histórias reais, cuja constituição vai ao encontro dessa visão de que a sociedade moderna valoriza sobremaneira o que é representado, o que está no nível da aparência e da superfície. Esse modelo também está relacionado com o paradigma do personalismo, porque esse drama precisa ser protagonizado por alguém que, nesse caso, é um ator social que possui um papel estratégico para a sociedade brasileira. Em suma, o conceito de dramaturgia do telejornalismo consiste na visão de que “as aç es são representadas na tela como dramas cotidianos”, na medida em que as reportagens são construídas a partir de personagens colocados em estórias, compostas por cenários, contextos e referências temporais. Trata-se de uma tendência intrínseca ao veículo, que desenvolve a função de informar, entreter e educar, e que, talvez, tenha passado a mesclar suas finalidades em seus produtos, a exemplo do telejornal. A personalização com especial enfoque à imagem política pode ainda ter outras razões de ordem cultural. A chamada “despolitização” midiática ou tecnológica resulta, por sua vez, do enfraquecimento ético-político das antigas mediações e do fortalecimento da midiatização. Sob a égide da produção informacional da realidade, a tecnointeração toma o lugar da mediação, desviando os atores políticos da prática representativa concreta (norteada por conteúdos valorativos ou doutrinários) para a performance imagística (SODRÉ, 2006, p. 34).

178


Portanto, partindo dos pressupostos teóricos de que a imprensa encontrou na cobertura do câncer vivenciado pela hoje presidente, Dilma Rousseff, os ingredientes necessários para uma receita de sucesso – que formaria o prato especial da audiência –, lançaremos mão de uma investigação que tem por finalidade a descoberta de um eventual atrelamento desse fazer jornalístico à vitória nas urnas, oriunda de um longo processo de construção imagética. Essa formação, é claro, vem acompanhada de um marketing político, mas que provavelmente foi fortalecido pelo telejornalismo, ao colocar em evidência, hipoteticamente, uma personalidade política forte, capaz de vencer o bom combate e, por consequência, de governar o país. 2. Os enquadramentos de Dilma no Jornal Nacional Com o fito de estabelecer o recorte de análise para este paper, realizamos, em primeira instância, uma pesquisa exploratória pela web para resgatar os conteúdos noticiosos que foram ao ar em 2009, sobre o tema selecionado. A partir dessa busca pelos verbetes “Dilma” e “câncer” no site

3

do Jornal Nacional, encontramos oito produtos noticiosos, entre VTs e notas, que

contemplaram as informações referentes ao diagnóstico e ao tratamento do linfoma de Dilma. Todo o material audiovisual foi visualizado e analisado criticamente, a fim de identificar os enquadramentos dessa cobertura. A noção de enquadramento adotada nesse trabalho coaduna com a descrição de news framing, proposta por Erving Goffman (1985). Enquadramento de mídia é o termo que se refere aos modelos de interpretação e seleção que definem coisas e assuntos que serão destacados ou excluídos, com o intuito de organizar o discurso. A partir desse conceito, também usado por Todd Gitlin (1980), avançou-se nos aspectos de interface com os meios de comunicação: tornou-se mais compreensível o entendimento de como o jornalismo não faz uma cópia fiel, não apresenta um reflexo da realidade – na verdade, ele a constrói. As notícias jornalísticas são molduras (frames), fragmentos da realidade, ou seja, apenas uma das maneiras, dentre tantas possíveis, de enxergar o fato (SANGLARD, 2012, p. 24).

Abaixo, sistematizamos os produtos encontrados para que seja possível ter uma dimensão do espaço dedicado pelo telejornal para a abordagem do caso em questão.

Formato

Veiculação

Título/chamada

Tempo

1.

VT

25/04/2009

“Dilma vai fazer quimioterapia para tratar câncer”

5‟29‟‟

2.

VT

27/04/2009

“Ministra volta ao trabalho após retirar câncer”

3‟30‟‟

http://g1.globo.com/jornal-nacional/

3

http://g1.globo.com/jornal-nacional/ (Acesso em 10 ago 13.)

179


3. 4. 5. 6. 7. 8.

Nota

14/05/2009

VT VT Nota VT Nota

19/05/2009 20/05/2009 04/06/2009 25/06/2009 21/12/2009

“Dilma Rousseff faz a segunda sessão de quimioterapia em São Paulo” “SP: Dilma Rousseff é internada com dores” “Dilma recebe alta do hospital” “Dilma passa por nova sessão de quimioterapia” “Dilma faz a última sessão de quimioterapia” “Dilma aparece pela primeira vez sem peruca”

2‟04‟‟ 49‟‟ 25‟‟ 44‟‟ 21‟‟

Tempo total

13’42’’

Tabela 1: Súmula das matérias analisadas (o tempo das notas é uma estimativa)

20‟‟

A quantidade de produtos encontrados e o tempo dedicado pelo telejornal para a cobertura já demonstram que a doença de Dilma Rousseff era um fato relevante para o JN, logo que satisfez os seus critérios de noticiabilidade e suscitou uma necessidade de acompanhamento do caso, com vistas ao registro dos seus desdobramentos. Em linhas gerais, é possível afirmar que o telejornal cobriu amplamente o câncer de Dilma, apontando alguns aspectos relativos à afetação que isso iria causar do ponto de vista político e, ainda, as informações do estado de saúde, com enfoque para a explicação da doença, do tratamento e das chances de cura. Tendo em vista que estamos buscando o mapeamento dos sentidos evocados pelo discurso jornalístico, nossa análise irá privilegiar, sobretudo, o conteúdo textual da narrativa construída pelo programa televisivo, a partir da transcrição do texto falado. Nesse sentido, ter-seá a noção de que: o estilo do discurso da televisão, escrito para ser lido, resulta, antes de mais nada, num impasse: ora se revela elaborado, segundo as convenções mais rígidas da gramática, aproximando-se da língua escrita, ora demonstra claramente sua intenção de aproximar-se da língua falada (...) a aproximação da fala natural – parece mais frequente e atende mais diretamente aos objetivos de lazer da audiência. (...) pode-se notar o flagrante contraste entre esse estilo lido e a naturalidade da fala, quando se observam os breves depoimentos colhidos de improviso, que escapam do implacável corte do trabalho final da edição. (PRETTI, 1991, p. 234 apud COUTINHO, 2012, p. 53).

A primeira matéria que trata do câncer de Dilma Rousseff não anuncia o diagnóstico do tumor. O enfoque é o fato de que a ministra irá passar por um tratamento de quimioterapia, destacando sua afirmação de que ela não vai parar de trabalhar. Esse acontecimento vem a público por meio de uma entrevista coletiva convocada pela própria ministra, quando informa que já passou por um procedimento cirúrgico para a retirada de um gânglio linfático na axila esquerda. A reportagem também destaca que as chances de cura são superiores a 90%, segundo

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os médicos. Interessante observar essa estratégia de se noticiar a doença, após o diagnóstico e a cirurgia, em um momento de estabilidade, talvez para evitar especulações. O telejornal afirma que Dilma ganhou projeção política após ser apontada como provável candidata do PT à presidência em 2010. A matéria deixa um espaço significativo para a fala da presidente, que tem ensejo de contar detalhadamente como chegou ao diagnóstico até a confirmação de que o tumor havia sido retirado com sucesso. “A própria ministra fez questão de dar a notícia de que está fazendo tratamento contra um câncer” (JN, 25/04/2009). Há informações detalhadas sobre os procedimentos aos quais a ministra foi submetida, narrando, por exemplo, na fala do médico, que a cirurgia durou 45 minutos e que ela estava sedada. Importante ressaltar que também o médico e diretor do Hospital Sírio-Libanês, Riad Younes, contou que no mesmo dia do procedimento cirúrgico, Dilma voltou a trabalhar, já que tinha uma reunião agendada em Brasília. Parece haver uma preocupação dos atores sociais, que é enaltecida pelo discurso telejornalístico, em reiterar que a doença e o tratamento não impedirão que a ministra se afaste de seus compromissos políticos. Apesar do êxito da retirada do tumor, Dilma teria que passar por uma quimioterapia, com sessões programadas para até quatro meses. Nesse momento, o produto noticioso também demonstra uma preocupação em relação à aparência e à imagem estética da possível candidata, uma vez que o médico é perguntado se os cabelos de Dilma irão cair. A resposta é que esse efeito depende do paciente. Em três oportunidades, a edição reafirma que são altas as chances de cura. Novos depoimentos de Dilma são inseridos para que ela possa se pronunciar a respeito da prevenção, numa tentativa de aproximação com o público. Ela conta que descobriu o seu câncer na fase inicial, a partir de exames de rotina, o que facilitou a remoção das células cancerosas e impediu que a doença se desenvolvesse. “Dilma Rousseff não pretende mudar a sua rotina por causa da doença. „Eu queria dizer para vocês de que eu estou certa que vai ser algo que será superado. Vocês verão que o meu ritmo de trabalho não vai ter nenhuma diminuição‟” (JN, 25/04/2009). A matéria é finalizada com a agenda da ministra para os próximos compromissos. A segunda matéria do JN sobre Dilma é transmitida dois dias depois. Nesse momento, enfatizam-se mais detalhes sobre a doença, incluindo a explicação sobre onde está localizada, o que é afetado e o tratamento que é realizado nesses casos. Novamente, nota-se uma repetição de enquadramentos: “Ministra volta ao trabalho”, “ela deve levar uma vida normal”, “os cuidados

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não vão atrapalhar a rotina de trabalho”; além de “a chance de cura de Dilma Rousseff é de mais de 90%”, “uma paciente com as características dela tem excelentes chances de cura”, “as chances de cura dela são maiores que 90%” (JN, 27/04/2009). A textualidade jornalística insiste em enfatizar que a doença não vai afastar Dilma do trabalho e que muito provavelmente ela estará totalmente curada. Busca-se um atrelamento com a figura política de Lula, que chega a se pronunciar sobre o assunto, cuja fala vem mobilizar um discurso de que, diante daquela situação, era necessário manter uma postura firme, de enfrentamento ao problema, de modo a tentar construir uma imagem de que Dilma era uma pessoa forte: Lula: “Eu penso que a Dilma está se comportando do mesmo jeito que ela se comportava antes de saber da notícia e até porque nessas horas não tem porque a gente fraquejar, ou seja, a gente tem é que ficar de cabeça erguida, encarar a realidade e trabalhar” (JN, 27/04/2009, grifos nossos).

Uma sonora com a ministra integra a sequência audiovisual, com vistas à explicação do por que “decidiu falar sobre um assunto tão delicado” (JN, 27/04/2009): Dilma: "Você deve satisfação à população, então eu comuniquei à população de forma transparente. A doença, do ponto de vista dos médicos, foi curada. Agora eu tenho que fazer um tratamento preventivo para que ela não volte. E tenho que ter reconhecimento de muita sorte, porque eu detectei no estágio inicial, que eles chamam de 1A" (JN, 27/04/2009)

A reportagem ouve um outro especialista, além do médico de Dilma, para confirmar que são altas as chances de cura. Há um alerta sobre o fato de que esse profissional não conhece a fundo o caso de Dilma, mas oferece informações a partir do que foi veiculado. Também existe uma preocupação sobre os cuidados que devem ser tomados com o término do tratamento quimioterápico: “Após o fim da quimioterapia, qualquer paciente tem de se submeter a controles mais frequentes nos quatro primeiros anos. O objetivo é monitorar o risco de recaídas, que é baixo. „A chance é muito pequena, ela varia de 6% a 20%‟” (JN, 27/04/2009). O caso de Dilma volta ao JN no dia 14 de maio de 2009, dezessete dias depois da segunda matéria, para comunicar que a ministra realizou em São Paulo a segunda sessão de quimioterapia. Em uma nota curta, o telejornal faz esse anúncio e também afirma que Dilma já está de volta a Brasília (como pano de fundo, trata-se de uma demonstração de que ela não se afastou do trabalho).

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O quarto episódio do caso Dilma no JN é constituído por um evento inesperado. O telejornal informa que a ministra-chefe da Casa Civil foi internada em São Paulo em decorrência de “dores fortes nas pernas”. Ao narrar com minúcias o acontecimento, o telejornal afirma que o diagnóstico era uma miopatia – dores musculares provocadas pelo tratamento contra o câncer no sistema linfático. No entanto, a reportagem conta, por exemplo, que os médicos chegaram a especular que as dores podiam ser decorrentes de uma trombose. Por conseguinte, detalham-se os procedimentos realizados para o diagnóstico e a medicação ministrada. Fala-se rapidamente sobre a doença de Dilma e, pela primeira vez, apresenta-se a informação de que ela precisará de uma licença médica: “Por causa deste novo susto, os médicos vão recomendar que ela fique em repouso por dois a três dias depois de cada sessão. Uma nova avaliação será feita para saber se Dilma Rousseff poderá ter alta na quarta-feira” (JN, 19/05/2009). Na quinta repercussão midiática, um dia após a internação de Dilma, o JN transmite um novo VT para informar que a ministra já recebeu alta. O conteúdo audiovisual retoma algumas informações do dia anterior, mas traz o dado novo de que as dores foram ocasionadas “pela suspensão brusca de um medicamento, dias depois de uma sessão de quimioterapia” (JN, 20/05/2009). A própria ministra declara que os médicos decidiram diminuir as dosagens gradativamente, a fim de evitar a reincidência dos sintomas. Mais uma vez a reportagem demonstra uma preocupação em relação à aparência de Dilma, talvez pela mudança estética que se observou antes do diagnóstico, muito provavelmente em virtude de uma pretensão eleitoral. Dilma: “Eu estou usando uma peruquinha básica, como vocês podem notar. Também é uma coisa que eu espero parar de usar logo que o cabelo começar a crescer e estiver em um comprimento mais ou menos como o dos cabelos masculinos. É muito chato usar peruca” (JN, 20/05/2009).

No dia 4 de junho de 2009, o telejornal leva ao ar uma nota seca para comunicar que a ministra passou por nova sessão de quimioterapia, que durou cinco horas e foi a terceira desde a cirurgia realizada há dois meses. Dessa vez, informa-se que Dilma estava se sentindo bem; possivelmente porque a última sessão gerou efeitos colaterais. Na penúltima matéria que integra o corpus de análise deste artigo, novamente o valornotícia é uma nova sessão de quimioterapia pela qual passou Dilma Rousseff. No entanto, trata-se da última, o que permitiu ao telejornal anunciar que o médico afirmou que, naquele momento, não havia evidências de câncer no sistema linfático. A personagem agora admite que o tratamento

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lhe impôs algumas limitações, embora a todo momento ela tenha afirmado que a doença não a impediria de levar uma vida normal: “A última sessão de quimioterapia abre daqui pra frente uma perspectiva muito boa, porque aí eu deixo de ter as limitações que obviamente toda quimioterapia faz com as pessoas” (Dilma, em entrevista ao JN, 25/06/2009). O produto informa, ademais, que a ministra passará ainda por sessões de radioterapia, visando complementar o tratamento quimioterápico. O encerramento da cobertura do câncer protagonizado por Dilma Rousseff se dá com uma nota coberta no dia 21 de dezembro de 2009, oito meses após a entrevista coletiva, para informar que a ministra aparecera publicamente, pela primeira vez, sem a peruca que havia usado durante o tratamento do linfoma. Essa abordagem está para o depoimento anterior de Dilma, que havia asseverado que quando os cabelos atingissem a altura de um corte masculino, ela deixaria de usar a peruca. O telejornal torna a evidenciar a angulação de uma preocupação imagética daquela que representava um dos nomes mais cotados para a corrida presidencial de 2010. A seguir, aduzimos uma sequência de imagens referentes às aparições de Dilma no telejornal durante o recorte estabelecido para a investigação:

Figura 1: Dilma em 25/04/2009 (antes do tratamento)

Figura 3: Dilma em 20/05/2009 (durante o tratamento)

Figura 2: Dilma em 27/04/2009 (antes do tratamento)

Figura 4: Dilma em 25/06/2009 (durante o tratamento)

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Figura 5: Dilma em 21/12/2009 (depois do tratamento)

Apesar de estar passando por uma situação delicada, fica patente uma tentativa de transparência e de visibilidade da ministra, ao longo de todo o tratamento do câncer. Esse processo é contrário, por exemplo, ao de Lula, cuja aparição no noticiário, durante o seu tratamento (por ocasião do diagnóstico de um tumor na laringe), foi mínima, praticamente ocultada, como foi possível constatar em outro estudo analítico (GOUVÊA; COUTINHO, 2012). O caso de Lula ocorreu depois do seu mandato como presidente da República, quando sua visibilidade não acarretaria implicações eleitorais imediatas. As imagens de Lula eram sempre de arquivo ou gravadas à distância, bem ao contrário de Dilma, que inclusive concedeu entrevistas. Considerações Finais Apesar de ser uma doença que quase sempre está caracteriza pela dor e pelo sofrimento, a abordagem do câncer de Dilma Rousseff nos telejornais veio marcada por uma sequência de outros símbolos possíveis, embora tenha se mantido um quê de sensibilidade e humanização no tratamento jornalístico. Fez-se mais efetivo um tom espetacular e dramático, como já se espera de uma narrativa telejornalística. Não obstante o momento delicado pelo qual passava, Dilma fez questão, e deixou isso claro em seu discurso, que não iria se afastar de seu trabalho, nem de seus compromissos políticos. Ela própria vem a público falar de sua doença e reiterar que a enfermidade não a impediria de cumprir suas funções. Pode-se interpretar, dessa observação, que a ministra tinha interesse de reafirmar para a sociedade que não deixaria o governo de lado, muito provavelmente porque naquele momento já se cogitava o seu nome para o pleito presidencial do ano seguinte. Essa reiteração é favorecida pela cobertura jornalística, que repete esse e outros enquadramentos, como os de que Dilma havia enormes chances de cura e o de uma preocupação

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com a aparência estética da ministra, tendo em vista a perda capilar que o tratamento quimioterápico provoca nos pacientes. Os elementos que constituem as matérias analisadas demonstram que há a presença de aspectos de saúde, a exemplo dos esclarecimentos da doença sobre tratamento, profilaxia etc., e ainda elementos de política, ao evidenciar os compromissos de Dilma e Lula com o fato reiterado de que ela não iria se afastar do trabalho, mesmo após as sessões de quimioterapia. Há sempre uma abordagem relativa a projeções futuras, no que tange às chances de cura, ao monitoramento pós-tratamento e à duração das sessões; talvez para que se saiba se ela precisará (ou não) do afastamento de seus compromissos. Seria difícil, por esse aspecto, definir se esses produtos são da editoria de Política ou de Saúde, por exemplo. Como dissemos, ao contrário de Lula, Dilma esteve efetivamente presente nos noticiários, concedendo entrevistas e falando sobre o tratamento. Isso também pode representar uma tentativa de dar manutenção a um processo de construção de uma imagem pública, já que Dilma, até então, nunca havia participado de uma corrida eleitoral. Sua projeção se dá no governo Lula, que realiza o que se pode denominar de “apadrinhamento político”, a partir da pressuposta visão de que ela vinha executando um bom trabalho no comando da Casa Civil. Da mesma maneira como foi percebido em outro trabalho, endossamos a concepção de que “fica evidente como um drama pessoal é levado ao espaço público com intenção políticoeleitoral e como a espetacularização do discurso midiático é o combustível que alimenta o debate, criando mitos, construindo imagens e estreitando ainda mais a tênue fronteira entre TV e Poder” (PORCELLO; GADRET, 2009, p. 1). Tudo isso parece ser potencializado pelo sentido predominante de que a sociedade moderna está propensa a estabelecer um culto à personalidade, em detrimento de uma valorização dos ideais políticos que, talvez, consistiriam num instrumento mais adequado para a decisão eleitoral, que, por conseguinte, fomentaria desenvolvimento civilizatório. As reflexões hauridas neste trabalho não vêm, contudo, revelar um modelo novo de tratamento jornalístico, descoberto a partir do objeto de estudo selecionado. Ao contrário, o caso em questão é apenas mais um exemplo de um habitus que se tornou hegemônico nos meios de comunicação – como já foi percebido por diversos outros autores, por meio de outros inúmeros casos. Verifica-se que a cobertura do câncer de Dilma é mais uma amostra potencial desse modelo, com aspectos que lhe conferiram uma imagem favorável para fins eleitorais.

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Os professores sob a perspectiva do noticiário político do jornal Tribuna de Minas

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Monique Ferreira Campos2 Universidade Federal de Juiz de Fora

Resumo: O presente artigo faz uma análise do jornalismo político por meio das concepções históricas e teorias que tratam da construção da notícia. Também faz uma reflexão sobre a educação e a docência enquanto assuntos das editorias de política dos jornais. A partir dessas relações, este trabalho tem o propósito de avaliar como os professores foram representados nos meses de abril e maio de 2013 pela editoria de política do jornal impresso juiz-forano Tribuna de Minas, com o foco nos aspectos selecionados para compor o texto jornalístico e ainda nas fontes escolhidas para emitir opiniões. Palavras-chave: jornalismo político; educação; professores

1. Informação e política: encontros estabelecidos no jornalismo A reflexão sobre as interfaces entre jornalismo e política nos remete, primeiramente, a uma contextualização histórica da própria imprensa. A atividade jornalística partiu de uma prevalência do gênero opinativo, enquanto instrumento de influência e engajamento político, para uma postura intitulada “isenta”, que busca trabalhar o assunto “política” a partir de uma perspectiva informativa. No Brasil, assim como em países que foram influenciados por modelos da imprensa européia, o jornalismo se estruturou, no passado, com base em relatos subjetivos. Ao longo de sua trajetória, a atividade veio de encontro a uma narrativa precisa e objetiva, na tentativa de formular noticiários mais fieis aos fatos e menos ao engajamento político. A relação entre jornalistas e a imprensa de opinião teve seu início durante a vinda de panfletários franceses oriundos dos movimentos que aquele país vivenciou ao longo das revoluções burguesas. Os franceses trouxeram ao Brasil não apenas suas ideias como também as primeiras tipografias (PENNA, 2007). Portanto, a imprensa de opinião se multiplicou em termos de circulação, passou a interferir na vida social e predominou até o advento do regime

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Trabalho apresentado ao GT 3 – Jornalismo Político e Eleitoral do XII Congresso Brasileiro de Comunicação Política e Marketing Eleitoral – Juiz de Fora (MG). Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social (PPGCOM) da UFJF, na linha de pesquisa Comunicação e Identidades. Jornalista e especialista em Comunicação Empresarial pela UFJF, email: moniquecampos@hotmail.com.

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republicano. Com isso, marcou a história do jornalismo brasileiro, uma vez que fundamentou e operacionalizou o trabalho da imprensa operária, já nos primeiros anos do século XX. E na medida em que começava a se massificar a política nos espaços públicos, também crescia essa maneira de fazer chegar à opinião que, por si só, é de evidente natureza política, até porque ninguém opina para si próprio. Em pouco tempo, essa imprensa ganha igualmente os benefícios dos novos engenhos a serviço da humanidade, e, com isso, se transforma, mediante a adoção de recursos técnicos e tecnológicos. Surge, então, a imprensa empresarial, mais do que nunca política e ideológica, porquanto surgia concomitantemente uma opinião pública decorrente da expansão da ação política dos periódicos (PENNA, 2007, p. 9).

Até meados do século XX, a imprensa opinativa era hegemônica, tornando-se uma correspondência com a própria atividade jornalística. Nos termos de Marques de Melo (2008, p. 90), “o jornalismo torna-se o locus privilegiado da atividade política, galvanizando a irresistível corrente da opinião pública”. Mas foi a partir das mudanças no jornalismo que se tornava empresarial, conforme citou Lincoln Penna (2007), que a imprensa informativa e supostamente imparcial se expandiu. A partir do advento dos formatos industrial e massivo, os padrões de imparcialidade e objetividade foram substituindo a opinião dentro dos jornais. Ao longo dos anos, a política perdeu o caráter de essência do fazer jornalístico e se tornou uma seção dentro dos veículos informativos. O jornalismo deixou de gravitar exclusivamente em torno da órbita política, incorporando áreas ausentes da cobertura noticiosa (como economia, esporte e cultura), consideradas como “outras demandas sociais”. Foi inevitável a conversão da política em rubrica ou editoria dos jornais e periódicos, o que acarretou uma brusca alteração na conduta dos profissionais (MELO, 2008, p. 91). Em termos de normas de redação, essa mudança corresponde ao próprio distanciamento da política da atividade jornalística, enquanto concepção de um fazer, de uma estética e ética profissional. As restrições de texto passaram a embasar o que foi concebido como jornalismo noticioso, obedecendo a um padrão industrial. Isso se deu a partir da lógica da pirâmide invertida – ordem decrescente de relevância das informações dentro do texto – sendo que o modelo do jornalismo noticioso se dava no entendimento de que a informação era o espelho da realidade. Tais aspectos passam então a nortear o jornalismo político, enquanto seção especializada dentro dos jornais. Retomando Marques de Melo (2008), a as atividades dos jornalistas que trabalham no noticiário classificado como “política”, fazem o acompanhamento de

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acontecimentos, vida partidária, trabalho dos corpos legislativos e dos atos da administração pública que tenham implicações políticas, seja no âmbito federal, estadual e municipal. O autor divide o jornalismo político em quatro grandes grupos de atuação: acompanhamento dos organismos oficiais (Presidência da República, governos estaduais e municipais, incluindo os respectivos ministérios, secretarias e departamentos); organismos eleitorais (Justiça Eleitoral); organismos partidários (partidos políticos e outras agremiações da representação democrática) e organismos administrativos (serviço público em geral, desde os órgãos da administração direta às autarquias, empresas estatais, das forças armadas ao funcionalismo civil). Além disso, a tradição da imprensa na cobertura de política envolve a prática reivindicativa, no contexto dos movimentos sociais organizados enquanto sujeitos de discurso político. A editoria de política aborda, portanto, as práticas e debates que movimentam as representações da sociedade civil. Nesse contexto, a imprensa objetiva se autodefine enquanto instrumento do cidadão, no sentido ético de jornalismo a serviço das sociedades democráticas, “tornando-as transparentes, visíveis nas suas contradições, abertas à intervenção da cidadania” (MELO, 2006, p. 51). Contudo, uma questão evidente nos debates contemporâneos é se a dimensão política ainda pertence à prática jornalística, mesmo com a profissionalização da atividade em torno dos padrões da objetividade. Para os teóricos da linha construcionista do jornalismo, a produção dentro dos critérios de noticiabilidade e rotinas especializadas não deixa de ser um exercício político, na medida em que os jornalistas desempenham, assim, um papel ideológico. “Apreender fatos e relatá-los por intermédio de veículos de difusão coletiva significa, nada mais, nada menos, que projetar visões de mundo” (MELO, 2006, p. 56). Além disso, a realidade política está definida histórica e culturalmente, logo, trata-se de um produto discursivo e por isso dependente da prática jornalística. Conforme Miguel Alsina (2009), a mídia tem papel decisivo na configuração de uma realidade simbólica, pública e cotidiana e a maneira de ser dos noticiários contribuem para ditar percepções e atribuir sentidos a essa realidade. Cada sujeito ou grupo fará uso social das mensagens, resignificando-as no campo da cultura. Portanto, a relação entre jornalistas e seus destinatários se dá por um “contrato pragmático fiduciário social e historicamente definido”, em que jornalistas têm a incumbência de recopilar os acontecimentos e temas importantes dando-lhes sentido.

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Portanto, podemos dizer que os jornalistas têm um papel socialmente legitimado e institucionalizado para construir a realidade social como realidade pública e socialmente relevante. Essas competências são realizadas no interior de aparatos de produção específicos: a mídia (ALSINA, 2009, p. 47).

Isso nos remete à teoria interacionista de Berger e Luckmann (2007), no entendimento de que o jornalismo é uma prática institucionalizada de geração de sentidos sobre a sociedade e seus percursos. O conhecimento produzido dentro da sociedade se estabelece enquanto “real” e “verdadeiro”, com papel decisivo das instituições, entre elas o jornalismo. A transmissão do conhecimento por meio do conteúdo noticioso, enquanto uma verdade objetiva, vai sendo interiorizada como realidade subjetiva. E, assim, configura-se o papel social do jornalismo enquanto condutor da vida diária, sobretudo enquanto participante do processo de socialização dos indivíduos. Nessa perspectiva, o jornalismo constrói realidades políticas, através das quais narra e faz enquadramentos de acontecimentos políticos, assim como representa atores políticos. Na visão de Perseu Abramo (2003), não só a dimensão política é presente na atividade jornalística como também os veículos de comunicação se comportam como partidos políticos. Estes usam padrões de manipulação de informações para recriar a realidade à sua maneira, de acordo com seus interesses políticos e mercadológicos dentro da indústria da informação. Assim, é sustentável a afirmação – pelo menos em caráter de hipótese de trabalho – de que os órgãos de comunicação se transformaram em novos órgãos de poder, em órgãos político-partidários, e é por isso que eles precisam recriar a realidade onde exercem esse poder, e para recriar a realidade precisam manipular as informações. A manipulação, assim, torna-se uma necessidade da empresa de comunicação, mas como a empresa não foi criada nem organizada para exercer diretamente o poder, ela procura transformar-se em partido político. Aliás, os grandes e modernos órgãos de comunicação, no Brasil, parecem-se efetivamente muito com partidos políticos (ABRAMO, 2003, p. 44).

Em um contexto marcado pela midiatização, fenômeno da maior influência da mídia nas relações sociais, é crescente o papel dos veículos de comunicação na construção do cenário político contemporâneo. Há uma esfera pública onde opiniões, comportamentos e estilos são disponibilizados através da mídia, assim como o acesso a bens culturais, informações governamentais e processos decisórios necessários para a vida pública. Como define Antônio Fausto Neto (2004), a rede de mídias tornou-se o espaço privilegiado da luta política na atualidade, tanto em momentos excepcionais, a exemplo das eleições, quanto no dia-a-dia da

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política. Dessa maneira, houve uma adequação da política ao novo ambiente (midiático), com mudanças relevantes em sua dinâmica. Podemos dizer que num passado recente, e também nos dias atuais, a ordem da midiatização se constitui num “sujeito operador” de estratégias, especialmente sobre momentos de funcionamento da política e das suas possibilidades discursivas. Como se observa em várias ocasiões do processo político brasileiro mais recente, o campo das mídias e a TV, de modo particular, não se constitui apenas num dispositivo de representação do que se passa na cena política, mas se converte, segundo estratégias discursivas distintas em dispositivos que não só narram, mas agem sobre o espaço político, avocando a si, muitas vezes, a condição de um poder a partir do qual põe em funcionamento estratégias de onde se aponta os caminhos e os destinos da política e os dos seus atores” (FAUSTO NETO, 2004, p. 120).

Dessa maneira, a própria política entra no jogo de formulação de sentidos e representação de identidades ditados pela mídia. Manin (1995 apud OLIVEIRA E CASTRO, 2010, p. 5) apresenta o conceito de “democracia de público” para tratar da emergência de uma nova forma de representação política a partir da vigência do espaço midiático. Segundo explicam os autores, os partidos entraram em crise e, com isso, passou a prevalecer a importância dos chamados líderes personalistas e a mídia no papel de mediadores. As eleições tornaram-se mais plebiscitárias com os partidos em segundo plano, caracterizando o fenômeno de personalização do processo político. Os jornalistas e veículos de comunicação passam a ser também fiscalizadores da ação dos governantes. Ao mesmo tempo, este modelo de fazer política impulsiona candidatos e governantes a dominar técnicas de comunicação enquanto necessidade de pertencimento à esfera pública midiática. Ao construir perspectivas políticas, conformar imagens de candidatos, partidos, governantes e movimentos, a mídia constrói a notícia por meio de numa dimensão estética muitas vezes espetacular da política. Na impossibilidade de uma relação direta, não mediada, com a realidade, a representação da política torna-se dispositivo imprescindível para determinar valores e posicionamentos sociais. A política supõe sempre um conjunto de instituições, práticas e atores capazes de produzir sua apresentação e sua representação de forma visível na sociedade. A plasticidade desses inevitáveis regimes de visibilidade obriga a política a possuir uma dimensão estética que não pode ser desconsiderada, em particular em uma sociedade como a contemporânea, na qual a visibilidade adquiriu relevância por meio da nova dimensão pública de sociabilidade. A necessidade de considerar tal dimensão torna-se essencial nessa nova circunstância societária (RUBIM, 2004, p. 190)

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Outro debate sobre jornalismo e política que envolve a questão da espetacularização refere-se ao favorecimento ou não da participação cidadã no cenário de maior influência da mídia. Sobre essa temática, Wilson Gomes (2005) considera que as sociedades são deficitárias no que diz respeito aos requisitos adequados para a participação civil devido ao controle do gatekeeping do Estado ou do jornalismo. Assim, produzem uma crise de efetividade da vida política e democrática. O imperativo de atendimento às necessidades do mercado de notícias e entretenimento levaram a comunicação de massa a assumir características que, numa lista aleatória, vão do sensacionalismo à simplificação das questões e informações políticas, da seleção e ordenação das matérias políticas segundo interesses de competição e consumo a distorções, voluntárias ou involuntárias, em virtude de a pauta política estar orientada pelos imperativos de venda. O resultado seria um baixo teor de informação política e um nível ainda menor de informação política qualificada, a que se contrapõe um volume considerável de representações que desqualificam sujeitos, procedimentos e princípios do campo político. Com isso, o campo político se aparelha para tentar dobrar o fluxo da comunicação política aos seus interesses, com alto padrão de profissionalização no gerenciamento da informação e com o desenvolvimento de ferramentas e habilitações agilmente manejadas com os quais busca administrar não apenas o que exibir e o que proteger da esfera de visibilidade mediática, mas também busca manipular ou, em geral, ter supremacia sobre os agentes da indústria da notícia, no controle da informação política circulante. Na tensão entre os dois campos, então, seria gerada uma espiral que conduziria a níveis cada vez mais baixos de participação política. (GOMES, 2005, p. 62).

Nessa conjuntura, o discurso do próprio jornalismo sobre noticiar o campo político objetivamente visa demonstrar o atendimento ao exercício democrático. O jornalismo político se converteu em instrumento indispensável de mediação entre acontecimentos políticos e público receptor de notícias, cidadão e eleitor. Mas é importante considerar que o noticiário parte de uma organização econômica e também política; a partir deste viés são estabelecidas as representações de instituições e indivíduos. Partindo dessa perspectiva crítica sobre jornalismo e política, nosso objetivo no próximo tópico será trazer contribuições teóricas sobre a educação enquanto campo da política. A partir disso, fazer uma análise sobre a prática educativa, sobretudo a docência, noticiada pelo jornalismo político. Como as editorias de política trabalham os sentidos da educação e, assim, dos seus agentes diretos que são os professores?

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2. Educação e a prática dos professores sob o foco do noticiário político O projeto educacional de uma sociedade é um projeto político na medida em que visa o exercício de cidadania e qualificação para o trabalho. Logo, a política está embutida no modelo de formação de alunos e professores, em termos de estrutura curricular, e na determinação do conhecimento necessário para um papel produtivo e para a vida. A imprensa, nesse sentido, entra no processo de significação dos valores educacionais, o que é feito cotidianamente para fomentar a estrutura política e o modelo de cidadania vigente. “A educação é a forma como a própria sociedade prepara seus membros para viverem nela mesma” (ORSO, 2008, p. 50). Portanto, para compreender a educação é preciso compreender a sociedade, pois a educação tende a expressar o nível de compreensão dos que a fazem, a partir de uma época, etapa de desenvolvimento e das relações sociais estabelecidas (Ibidem). Também implica entender como a sociedade trabalha os sentidos dados à educação através de suas narrativas, considerando, assim, o jornalismo enquanto instrumento de linguagem e representação. Assim como a política, a educação é um ato ideológico, sendo base da estratificação social e definição de identidades sociais. E a política educacional indica os sentidos de cidadania a que governos e sociedade civil estão em busca, assim como a cultura pedagógica a ser estabelecida. De acordo com William Doll Jr. (1997), as escolas modernas foram concebidas enquanto “fábricas produtivas”, baseadas na eficiência e padronização, e os professores seguidores dos ideais do sistema industrial. A política sempre desenvolveu relações entre conhecimento, desempenho e poder sendo que, nas primeiras décadas do século XX, valorizava o currículo científico de docentes e alunos. Já nas perspectivas contemporâneas da política educacional e estruturas curriculares, a competência e o planejamento ganham maior ênfase. O padrão valorizado é o dos objetivos préestabelecidos, seleção, direcionamento de experiências e avaliação, na “visão utópica de um mundo melhor através da ordem e do controle” (DOLL JR., 1997, p. 71). Os paradigmas político-educacionais ganham os noticiários, na medida em que estes assumem as referências para proporcionar o debate público. Principalmente pelo fato da educação, no caso brasileiro, ser constitucionalmente um direito universal e atribuição do poder público. Logo, a imprensa trabalha a representação dos professores enquanto atores políticos na

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definição da realidade educacional. Mas dentro do campo midiático, disputas são travadas com a proposta de definir papéis sociais, tanto dos professores quanto do próprio sistema educacional. Este cenário envolve os valores remetidos à docência na função transformadora da realidade, os investimentos aplicados pelo país, o entendimento da educação enquanto direito essencial, questões de remuneração, condições de vida e trabalho dos professores. Cabe a discussão sobre quais são os valores da educação na agenda política, sendo, portanto, pauta na imprensa. Do ponto de vista da atualidade, pequenas informações sobre a área dentro da editoria de política, cotidiano ou cidade demonstram, pelo espaço e tempo dedicado, que a temática não é prioridade de investigação jornalística. Há uma fixação nos fatos noticiosos de concursos, vestibulares e temáticas do ensino superior, ignorando o ensino de base. Outras marcas são o estigma e a criminalização dos professores e sindicatos, falta de reflexões sobre a política governamental de educação e reforço de estereótipos sobre educação pública e privada. “Isso mostra que a angulação do material jornalístico nas grandes publicações presta um desserviço à agenda pública e uma incapacidade de compreender as dinâmicas do setor” (MONTEIRO E GONÇALVES, 2012, p. 4). Característica do noticiário de política e economia está a educação sob o aspecto mercantil ao invés de um direito social, algo que marca suas concepções desde a década de 1990 no Brasil, seja no controle do conteúdo do conhecimento, nos métodos de sua produção ou na socialização, autonomia e organização docentes (FRIGOTTO, 2011, p. 240). Os mecanismos de construção da realidade educacional, como a imprensa, convocam uma imagem da escola pública ineficiente para justificar as políticas de parceria público-privado; atacam a formação docente; estimulam a disputa entre escolas com base em conceitos de sucesso e fracasso e premiam os padrões de docência e produtividade visados pelas políticas educacionais. Conforme Gaudêncio Frigotto (Idem, p. 252), “(...) aprisionamo-nos ao cronômetro da “pedagogia de resultados” e deslizamos na intoxicação e fugacidade mercantil de informações. Produzimos, enfim, pouco conhecimento”. Outra representação política forte dentro do jornalismo, quando este se volta para a temática educacional, é a do movimento docente. A imagem do professor ator social da militância, prática reivindicativa e participação política é reforçada pela imprensa ao pautar assuntos do associativismo e organização sindical na área da educação. O próprio processo de profissionalização dos professores, formador de uma identidade, tem a correlação histórica com o

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movimento de organização da categoria, que no Brasil do século XIX já era uma prática política importante (VICENTINI E LUGLI, 2009, p. 117). Conforme demonstra a pesquisa desenvolvida pelas autoras (2009), os próprios professores se ressentem do tratamento recebido por parte dos poderes constituídos, não só pela indiferença quanto às reivindicações por melhores salários como também pela implementação de reformas que controlam o trabalho e desconsideram a capacidade docente de solucionar problemas educacionais. Há ainda a disseminação de um processo de culpa pelas mazelas do ensino brasileiro. A imprensa evoca quase que prioritariamente a baixa remuneração e as péssimas condições de trabalho, atuando na construção do “mal-estar docente”, de acordo com o conceito das autoras. Com esse quadro da situação atual do professorado no Brasil se produz uma imagem de seus membros que pode ser sintetizada da seguinte forma: um profissional mal preparado e com uma remuneração insuficiente que goza de pouco prestígio na sociedade e cuja legitimidade está sob constante ameaça. Em razão da intensa carga de trabalho, adoece facilmente, mas pode faltar às aulas com grande frequência sem prejuízo financeiro para os seus parcos rendimentos. Além disso, tem pouca possibilidade de interferir nas reformas empreendidas no sistema de ensino em que atua e o seu trabalho está cada vez mais sujeito ao controle das instâncias superiores e dos especialistas da educação que, de modo geral, desqualificam as suas práticas e as opiniões apresentadas sobre a sua própria profissão (VICENTINI E LUGLI, 2009, p. 156).

3. Representação dos professores em seu papel político no jornal Tribuna de Minas Tendo em vista as reflexões apresentadas nos itens anteriores, como o jornal Tribuna de Minas, em seu noticiário sobre política, representa a categoria docente? Quais aspectos do professor, enquanto ator político, são enfatizados no noticiário da Tribuna? O recorte empírico desta análise é composto pelas notícias dos meses de abril e maio de 2013, uma amostragem da pesquisa em realização para o Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UFJF. A análise tem como foco a representação identitária dos docentes no jornal Tribuna de Minas e nos impressos do Sindicato Único dos Trabalhadores da Educação de Minas Gerais (SindUTE). Neste caso específico, a finalidade é refletir sobre quais as temáticas escolhidas pelo veículo para a construção do noticiário sobre os professores na editoria “Política” e também na editoria “Brasil”, quando esta trouxe acontecimentos da política de educação nacional. Além

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disso, que fontes foram ouvidas e quais gêneros jornalísticos escolhidos nesse trabalho de mediação entre fatos/assuntos e os leitores. A opção por este jornal impresso se deve à credibilidade e maior recorrência nas coberturas dos fatos educacionais, mobilizando o debate público sobre essa temática e também pautando outras mídias na cidade. O Tribuna de Minas foi escolhido também em virtude da sua tradição: é o mais antigo entre os impressos e responde pelo maior número de vendas em banca. Entre os dias 2 de abril e 31 de maio de 2013, o jornal Tribuna de Minas trouxe 26 matérias que mencionaram, direta ou indiretamente, os professores na editoria “Política” e 3 na editoria “Brasil” (foram selecionadas as notícias sobre política educacional). As matérias políticas demonstraram, prioritariamente nesses dois meses analisados, uma concepção do professor enquanto ator social da militância e prática reivindicativa. Um número relevante de notícias – 21 no total – deu notoriedade às práticas sindicais e de mobilização, acompanhando protestos, paralisações na rede pública e, especificamente, os fatos relacionados à greve dos professores municipais. A imprensa reforça a imagem de associativismo na área da educação, o que ficou marcante nas imagens sociais da docência presente nos noticiários. No caso da greve dos professores, o jornal deu destaque para a trajetória das negociações entre Prefeitura e docentes, desenvolvendo uma narrativa dentro das edições. Os acontecimentos foram permanentemente acompanhados como repercussões, conforme demonstram as notícias: “Professor pressiona por um terço”, “Governo Bruno enfrenta 1ª greve em sua gestão”, “Permanece impasse entre PJF e Sinpro”, “Greve de professor completa uma semana”, “Prefeitura insiste em Lei do Piso para 2014”, “PJF oferece índice escalonado de 6,5%” e “Professor volta às aulas 2ª”. Da mesma forma, estiveram presentes personagens: o prefeito Bruno Siqueira (PMDB), o Sindicato dos Professores (Sinpro), o Secretário de Administração e Recursos Humanos, Alexandre Jabour, vereadores e o Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Ficam evidentes, assim, alguns aspectos da transformação do acontecimento em notícia descritos por Alsina (2009, p. 130). A mídia torna os acontecimentos um material de possível consumo repetitivo e transmite um imaginário coletivo, sendo o local das projeções sociais e dos conflitos. Entre os fatores que determinam a seleção de notícias estão a consonância (tornar interessantes os acontecimentos e corresponder às expectativas da audiência) e continuidade (gerar mais notícias e um clima de opinião) (Idem, p. 158-159), o que se pode verificar no noticiário sobre educação tratado no campo do jornalismo político.

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Também foi notória a maior ênfase na figura do prefeito e no seu governo em algumas notícias sobre o movimento pré-grevista e grevista. Os docentes perderam o protagonismo nas reivindicações, sendo que o sujeito das ações e, desse modo, das manchetes e leads, foi a Prefeitura e o prefeito Bruno Siqueira. Matérias como “Cem dias com o „pires na mão‟”, sobre as tentativas do Prefeito de efetivar projetos de gestão e angariar recursos, demonstram essa característica. Assim como “PJF tenta impedir greve de professor”, sobre a primeira contraproposta do governo, apresentada em coletiva de imprensa. A ameaça de greve e abertura de negociações com os professores são tratadas como “provas de fogo” e “queda de braço com o Executivo” no noticiário, ressaltando o ponto de vista do governo municipal. Há ainda outros exemplos nas manchetes “Professores iniciam 1ª greve do Governo Bruno” (capa) e “Governo Bruno enfrenta 1ª greve em sua gestão”, em que o movimento se desliga dos professores para ganhar tratamento na perspectiva do Executivo. No primeiro parágrafo da matéria “Governo Bruno enfrenta 1ª greve em sua gestão”, o jornal enfatizou que a greve teve início “em menos de quatro meses de gestão”, expressão que aparece em outra notícia sobre negociação com funcionários da Prefeitura. O noticiário de política apresentou desdobramentos do que vinha sendo veiculado na editoria “Geral”, como por exemplo, a série de dificuldades enfrentadas pelos professores com a ausência de condições de trabalho, motivos que desencadearam a greve e, portanto, fizeram conexões com a pauta política do jornal. Sobre esse aspecto, há uma distinção entre normalidade e anormalidade, acordo e discrepância, enquanto determinante do acontecimento exposto por Alsina (2009, p. 154-155). Entram em jogo valores sociais que são colocados para assinalar aceitação social e também para recopilar a polêmica existente sobre a sua aceitação. As notícias relativas à política apresentaram, mesmo que superficialmente, um quadro das deficiências na educação e, com isso, no papel exercido pelos professores. Falta de condições de trabalho, baixa remuneração, direitos conquistados que não podem ser exercidos dentro da docência, financiamento insuficiente na educação, cenário de precarização e privatizações, além de adoecimento (em um ano foram dez mil licenças na Prefeitura) são temáticas recorrentes nos meses de abril e maio. Esse quadro de dificuldades apresentado nos noticiários, ao mesmo tempo que faz um alarde e justifica ações da greve, constrói o personagem de “professor-vítima” no campo da política, evocando referências negativas da profissão, como o desprestígio.

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O jornal reforça a adesão ao movimento, com imagens e textos sobre assembleias e protestos cheios. Mas ao destacar os problemas da educação enquanto desafios do governo, diminui o poder de fala dos professores enquanto agentes políticos. Nesse sentido, pode-se observar que as fontes oficiais governamentais estão sempre presentes nas matérias, sobretudo nas que trataram das negociações durante a greve, apresentando suas versões sobre o movimento e o atendimento à Lei do Piso. É freqüente também a participação da fonte representativa da categoria (dirigentes sindicais) que assume a fala dos professores, enquanto coletivo. Nesse caso, a voz da liderança é enfatizada em relação à personificação. Conforme demonstra Alsina (2009, p. 154), “o exercício do poder, político, econômico, judicial, etc. é objeto de especial atenção por parte da mídia”. Também é evidenciada a articulação dos dirigentes para adesão de cidadãos e autoridades à pauta do movimento, como na notícia “Professor da PJF busca apoio da Câmara”. Na concepção das entidades representativas, os professores são agentes dos projetos curriculares e pedagógicos em constante construção, portanto, agentes da política. Isso leva muitas vezes a embates com o poder governamental, em função da insuficiente legitimidade dos professores para se pronunciarem como especialistas em questões de ensino e, portanto, como capazes de indicar as decisões corretas a serem tomadas em termos da política educacional. Tais disputas, que estão evidentes no contexto dos meses de abril e maio no jornal analisado, envolvem a busca por maior legitimidade e visibilidade, adesão de outros segmentos sociais na defesa das reivindicações do professorado e intervenção nas políticas educacionais. Já os professores pesquisadores, enquanto fontes especializadas em educação, não estiveram presentes nas notícias sobre política, de forma que não foram tratados como fontes oficiais nos meses de abril e maio para análise das questões educacionais. Um exemplo que evidencia tal observação é a notícia “Crianças terão que ir para escola aos 4 anos”. O texto aborda a nova legislação brasileira sem oferecer espaço de fala para professores, pesquisadores e dirigentes no tocante às consequências estruturais para atender as novas regras. Algumas dessas falas só aparecem em uma edição posterior, mas na editoria “Geral”, trazendo uma abordagem mais relacionada ao cotidiano do município. Fica esvaziada, assim, a dimensão política desses debates no campo do jornalismo. Pautas políticas como o financiamento da educação, que envolvem uma discussão mais aprofundada sobre os processos de trabalho de professores e seus aspectos sociais, são mais

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presentes nos artigos assinados do que nas notícias do jornal Tribuna de Minas. Ganham mais destaque as abordagens de aspecto econômico (quanto custa aumentar o salário dos professores, mudar a carga horária e aplicar leis educacionais) em relação às discussões mais amplas, como por exemplo, para onde as políticas públicas conduzem a educação. A própria pauta da greve – pelas falas do sindicato e pelas escolhas editoriais do jornal – recebe tratamento pelo viés econômico dentro das notícias. O noticiário informativo (padrão objetivo, organizado no sistema de pirâmide invertida) foi preterido na editoria “Política” nos dois meses analisados. Da mesma forma, as três notícias sobre política educacional analisadas da editoria “Brasil” não privilegiaram o gênero interpretativo como forma de aprofundar os debates sobre a nova Lei de Diretrizes e Bases, o Exame Nacional do Ensino Médio e o currículo do professor universitário. Com isso, a tendência do jornal Tribuna de Minas foi a de convocar fontes oficiais governamentais e não educacionais, concluindo as matérias de forma objetiva, porém em uma via de pensamento. As notícias sobre professores apareceram mais nas retrancas das matérias sobre administração municipal e negociação com as categorias em campanha salarial do que especificamente a partir de pautas sobre educação e docência. As exceções foram as notícias do início da greve (“Governo Bruno enfrenta 1ª greve em sua gestão”), da negociação (“Prefeitura insiste em Lei do Piso para 2014”) e fim da greve (“Professor volta às aulas na segunda”). Considerações Finais As notícias analisadas apresentam o complexo quadro da educação no campo do jornalismo político: lugar das disputas ou dos consensos? O que prevalece atualmente? Ao fazermos a relação entre as demandas de um modelo de noticiário comercial e “apartidário” e as prerrogativas da política educacional, podemos observar que estão implicados interesses de órgãos públicos, privados e dos próprios cidadãos. É nesse sentido que se dá a disputa: os atores políticos buscam o poder de representação, tanto para atribuir determinados significados à docência quanto na implantação de projetos educacionais. Conforme demonstram as teorias reunidas no artigo, o campo midiático é hoje mediador da política contemporânea para muitas culturas, logo, transforma-se no lugar privilegiado dessa disputa. O jornal Tribuna de Minas, nos dois meses analisados, traz um demonstrativo dessas observações. Os apontamentos sobre a lógica vigente na educação e as necessidades de mudança

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estão nas narrativas construídas sobre os professores. Enquanto há um acompanhamento das ações do governo, também há das intervenções políticas de professores que, devido à própria cobertura da imprensa, afetam diretamente o debate sobre cidadania, valores e comportamentos. O veículo cumpriu o papel de acompanhar o processo reivindicatório dos professores, mesmo que com pouco aprofundamento e sem estabelecer estreitas relações com as problemáticas da educação. Principalmente se comparado com outros veículos de comunicação, trata-se de uma pauta ou de fontes muitas vezes silenciadas. Do ponto de vista dos estudos na área de jornalismo político e educação apresentados no artigo, encontramos muitas correspondências com o material do jornal: reforço da identidade sindical e militante dos professores, falta de protagonismo nas questões referentes à política de educação e predomínio do jornalismo conciso e de poucas abordagens quando se trata da docência. Portanto, resgatamos a questão apresentada por Wilson Gomes de que há pouca informação política, portanto, pouca participação política. O que o Tribuna de Minas promoveu em termos de abordagens e tratamentos define, assim, as possibilidades de participação da comunidade de leitores diretos e indiretos. Percebem-se também novas atitudes políticas dos personagens nas notícias, integrantes das sociedades midiatizadas. No caso dos dirigentes sindicais anunciados pelos noticiários, está evidente o empenho por representação na esfera midiática, em busca da visibilidade e aceitação. Da mesma forma acontece com os governantes municipais que se comportam pensando na exposição midiática, como por exemplo, no fato de convocarem uma coletiva de imprensa para apresentar propostas aos professores. Dessa meneira, provoca-se a reflexão pela melhoria do papel do jornalismo político enquanto instância a serviço de uma sociedade civil. Faltam vozes que consigam promover um processo democrático e de socialização onde deve se encontrar a área de educação. Portanto, ao nos referirmos a uma sociedade em que a mídia exerce ampla influência, também deveríamos ter, como referência, um jornalismo mediador entre os cidadãos e a política educacional desejada. A docência como pauta recorrente, mas também tratada enquanto promotora de cidadania.

Referências Bibliográficas

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A Construção da figura de Lula nos Jingles eleitorais de 1989 a 2006¹ Vin íciu s Bor ges Go mes 2 Luiz Ademir de Oliveira3

Resumo:Este artigo busca traçar um panoram a comparativo das ideias e linguagens usadas nos Jingles Eleitorais usados nas campanhas do Presid ente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT), tomando como recorte as eleições de 1989, 1994, 1998, 2002 e 2006. Para isso recorre -se ao estudo do m arketing político e eleitoral, além de um olhar sobre a relação entre m ídia e política. Num cenári o de campanhas , pretende-se ainda relacionar eventos históricos a construção dos Jingles e entender como estes contribuíram para construir a im agem de Lula como ator político. Palavras-chave: marketing eleitoral; Lula; Jingles; Política. Introdução “Varre, varre vassourinha! Varre, varre a bandalheira”. Quem viveu a época das eleições presidenciais que elegeram o presidente Jânio Quadros certamente lembra a melodia que acompanhava essa frase. Mas, mesmo aqueles que não acompanharam a propaganda da vassourinha, podem ter ouvido a música ou conhecido seu contexto. Estamos falando das músicas usadas em eleições, ou, em termos técnicos do marketing político, de jingles eleitorais. Peças publicitárias que, como a vassoura do Jânio, grudaram na memória e dificilmente são esquecidas. O jingle é a música de letra quase sempre simples e direta que serve para fixar uma ideia no seu público alvo. Usa da emoção, da aproximação e da fácil leitura e assimilação. O seu uso se dá primeiramente no meio publicitário já no início do rádio. E ele não tardaria a aparecer nas campanhas eleitorais. ______________________________________________________________________________ 1 Trabalho apresentado ao GT 2 – Marketing Político e Eleitoral do XII Congresso XII Congresso Brasileiro de Comunicação /Política e Marketing Eleitoral – Juiz de Fora (MG) 2 Graduando em Comunicação Social – Jornalismo pela UFSJ e bolsista de iniciação científica (PIBIC/CNPq/UFSJ).

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Luiz Ademir de Oliveira é Doutor (2005) e Mestre (1999) em Ciência Política (Ciência Política e Sociologia) pela Sociedade Brasileira de Instrução - SBI/IUPERJ, Mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e graduado em Comunicação Social - Jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)

No Brasil, o primeiro candidato a Presidente que utilizou o mecanismo foi Júlio Prestes, quando derrotou Getúlio Vargas em 1929. O jingle chamado de “Seu Julinho Vem” provocava o adversário e promovia Julio Prestes. Martins (2008) lembra que antes disso haviam muitas composições musicais que tomavam partidos em eleições geralmente com tons de crítica, embora não fossem encomendadas por candidatos e nem apoiassem alguém em específico. O que difere essas músicas do Jingle é exatamente essa palavra: encomendar. As músicas criadas para as eleições partem de um briefing, ou seja, uma consulta ao partido e/ou candidato sobre que ideia quer transmitir naquele momento. É a partir dessa consulta que surgem os Jingles. Exatamente por essa peculiaridade que esse artigo se debruça sobre os vários Jingles criados para um candidato que disputou cinco eleições presidenciais consecutivas: Luiz Inácio Lula da Silva. Num intervalo de 17 anos (1989 a 2006) muita coisa mudou na história e as estratégias formuladas pelo “Lula lá” de 1989 foram bem diferentes do “É Lula de novo com a força do povo” de 2006. A participação em vários eleições, que se dá em momentos históricos muito distintos, permite perceber a evolução do discurso usado nos Jingles de campanha; alguns deles eternizados na memória e utilizados até hoje em outros contextos. A importância desse olhar é mais que uma recuperação histórica, mas é, sobretudo, um estudo de como se desenvolvem estratégias eleitorais e de que forma essas estão relacionadas a determinados momentos históricos. Busca ainda entender fenômenos de identificação popular com a política por meio de lideranças carismáticas ou ainda como se dá a aproximação do eleitor com a ideia de partido. 1. COMUNICAÇÃO E POLÍTICA 1.1.

Mídia e Política A primeira eleição direta para Presidente da República após a ditadura militar se deu em

1989, quando Fernando Collor de Melo derrotou Lula em segundo turno. Já naquele ano, os candidatos e partidos utilizam do Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral (HGPE) na televisão

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e no rádio. Era o cenário perfeito para o uso massivo dos Jingles. O “Lula lá”, por exemplo, surgiu em clipes com artistas globais e cantores famosos. É interessante observar aqui a aproximação entre Mídia e Política. Sua relação próxima se dá não só pelo uso eleitoral que a segunda faz da primeira. É mais que isso: segundo Lima (2001), dentre vários Cenários de Representações Sociais, existe também o Cenário de Representação Política (CR-P). Este é constituído pela linguagem midiática e é um espaço de visibilidade a agentes políticos. Gomes (2004) diz que a relação entre política e mídia é tensa. Os atores políticos precisam se adequar à lógica midiática e as suas diversas regras. Recursos como retórica e emoção servem para seduzir o telespectador ou, de forma mais objetiva, o eleitor. É observando isso que fica perceptível a importância de se apropriar da mídia para obter êxito em campanhas eleitorais. Cada vez mais o discurso da TV recebe mais atenção do que o comício. Ao avaliar os Jingles de Lula ao longo das eleições que o mesmo disputou, cabe também entender a importância que cada um deles foi tendo em cada momento histórico. A mídia não pode mais ser desprezada. Ela ocupa uma posição de centralidade. Lima (2006) defende essa ideia com sete teses: (1ª) a mídia ocupa uma posição de centralidade nas sociedades contemporâneas; (2ª) não existe política nacional sem a mídia; (3ª) mass media exercem hoje funções tradicionais dos partidos políticos; (4ª) a mídia alterou radicalmente as campanhas eleitorais em função da crescente profissionalização que acontece, principalmente, no HGPE; (5ª) as empresas de mídia são hoje atores econômicos fundamentais e integram grandes conglomerados empresariais articulados em nível global; (6ª) as condições sociais em que os mass media foram implantados no Brasil no período da ditadura militar, em que os índices de exclusão social e analfabetismo eram muito elevados; (7ª) as condições políticas e históricas do surgimento da mídia no período de regimes autoritários. É importante destacar ainda que a relação entre mídia e política é ampla e não envolve apenas campanhas eleitorais. Envolve toda uma dinâmica comunicacional e de representação. Mas, em se tratando aqui de Jingles eleitorais, é de fundamental importância falar de marketing.

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1.2. Marketing Político e Marketing Eleitoral Em uma campanha eleitoral está cada vez mais em uso a figura do “marqueteiro”. Figura que define estratégias, pensa detalhes da comunicação com o eleitor e contribui na elaboração de todas as peças publicitárias, incluindo os Jingles. Cabe aqui conceituar marketing. Segundo Torquato (2002, p.167), “marketing é o conjunto de atividades destinadas a promover relações de troca entre um emissor e um receptor, no momento certo, por meio de canais adequados e mensagens apropriadas que atinjam o foco de interesses de seguimentos chave” Marketing é, portanto, um conjunto de mensagens. Sua associação com a ideia de venda é natural, uma vez que se trata sim de convencimento para vender. Mas é mais do que vender um produto, mas uma ideia. E é assim também na política, especialmente em eleições. O marketing político é diferente do marketing eleitoral. Embora haja entre eles uma relação próxima, cabe diferenciar ambos conceitos. Queiroz (2005) explica que o marketing político é multidisciplinar: está relacionado à administração quando se trata de procedimentos burocráticos para uma campanha, como levantamento de recursos; se relaciona também com a psicologia quando trabalha a persuasão e características pessoais de candidatos; está também estritamente ligado à própria dimensão política com as dimensões eleitorais e, por fim, com a publicidade eleitoral (slogans, jingles e discursos). Percebe-se, assim, que o marketing político é bem mais amplo. O seu público está para além do eleitorado e seu estudo compreende todas as ações que envolvam determinado ator político em sua posição pública ou sem sua liderança. Já no marketing eleitoral, o foco se dá nos eleitores e nas estratégias de conquista desse eleitorado por meio de estratégias publicitárias. Existe uma diferença entre o Marketing político e o Marketing eleitoral. O Marketing político é algo mais permanente, é quando o político no poder se preocupa em sintonizar sua administração com os anseios dos cidadãos. Isso acontece através de pesquisas regulares, boa assessoria de comunicação, correção em possíveis falhas, publicidade dirigida, etc. Já o Marketing eleitoral aparece na hora do “vamos ver”, quando todos os candidatos saem à procura de um mandato (FIGUEIREDO, 1994, p.11).

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O marketing eleitoral é, portanto, voltado ao espectro das eleições. Envolve estratégias, direcionamento publicitário e um discurso comprometido em conquistar votos. Cabe aqui o olhar apurado sobre o eleitor: seus anseios, metas e desejos. E o Jingle faz parte dessas estratégias. Uma peça publicitária que tem objetivo claro e específico: vender o candidato. O desejo final é o voto. Figueiredo (1994) lembra que pensar uma campanha passa por definições de estratégias, que vão desde estudo dos adversários até as características do eleitorado. É um trabalho complexo e profissional. 2. OS JINGLES E A TRAJETÓRIA ELEITORAL DE LULA 2.1. O que é Jingle? Como explicado na introdução, o Jingle é uma peça publicitária criada a partir de uma consulta a quem contrata a composição (briefing). Nas eleições este tipo de publicidade tem o objetivo de convencer o eleitor a votar em um candidato. Para isso, utiliza-se das estratégias comuns às propagandas. “As pessoas ouvem e não esquecem. É aquilo que a sabedoria popular denomina de „chiclete de orelha‟. A vantagem dos jingles, em razão do formato, é que essas peças musicais contêm, além da mensagem, o clima, a emoção objetivada e um expressivo poder de „recall‟” (SAMPAIO, 2003, p.79). Essas características citadas por Sampaio ajudam a entender o surgimento de jingles eleitorais que se tornaram lembrados por diferentes gerações, ainda que seu uso fosse pensado para apenas uma eleição. 2.2. Análise dos Jingles das Campanhas Eleitorais de Lula 2.2.1. “Lula lá”: a campanha de Lula em 1989 O cenário eleitoral de 1989 teve como uma das principais características o excesso de candidaturas: 23 no total. Lula foi o segundo colocado no primeiro turno e perdeu o segundo para Fernando Collor de Melo. O candidato do Partido dos Trabalhadores ficou conhecido por sua militância à frente de greves sindicais no ABC paulista. Foi naquela campanha petista que surgiu

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um dos jingles mais conhecidos da história política nacional: “O Lula lá”. A principal característica dessa música é a emoção. A melodia explora uma motivação para afirmar o apoio a Lula de forma ampla. As expressões “sem medo de ser feliz”, “com sinceridade” e “com toda a certeza” motivaram militantes e apoiadores. No contexto de 1989, a figura de Lula era temida por grande parte dos brasileiros por acusações de que o mesmo representaria mudanças radicais, como o “calote” da dívida externa ou o confisco das poupanças. A utilização da palavra “medo” acaba se relacionando com esse cenário. No entanto, a característica da música atendeu muito mais a uma reafirmação daquilo que já estava assimilado por quem votou em Lula do que propriamente um convencimento para aqueles que ainda desconfiavam do candidato. Vale observar que, no caso desse Jingle, a função transcendeu a função publicitária. A música foi quase um hino de campanha e sua letra ia de encontro a isso: eram palavras de orgulho entoadas por quem aderiu a candidatura Lula. Não há referências claras a um plano de governo ou a propostas, mas há um tom motivacional. O uso fonético da expressão “Lula lá” remetia à ideia de levar Lula à Presidência. O “lá” é o poder, o governo. Outro destaque fica para a expressão “meu primeiro voto”, uma vez que naquele ano o Brasil realizava a primeira eleição direta depois de muitos anos. Há também a referência ao partido com a expressão “brilha uma estrela”, com destaque ao símbolo do PT. O jingle acabou sendo usado por muitos anos e campanhas, inclusive no segundo turno de 2002. Deve-se ressaltar que o Jingle do PT teve tanto impacto, que dos programas do HPGE ganharam as ruas e até hoje é reutilizado em campanhas petistas. 2.2.2. “Lula Brasil” – a campanha de Lula em 1994 Depois de se mostrar competitivo na eleição anterior, com a implantação do Plano Real em julho de 1994, o então ministro da Fazenda do presidente Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso (PSDB), ganhou grande popularidade. Lula, que até então liderava as pesquisas, a partir de julho, começou a perder apoio. O candidato do PT perdeu ainda no primeiro turno. Fernando Henrique Cardoso venceu já no primeiro turno embalado pelo sucesso do Plano Real. O refrão do Jingle “Lula lá” voltou a ser usado. Aliás, o título do Jingle virou uma expressão forte nas campanhas e peças publicitárias. O jingle de 1994, intitulado “Lula Brasil”,

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tem letra bem simples e fala da construção de um novo país. Não traz nenhuma referência de convencimento e é mais voltado para a motivação emotiva. A “estrela serena clareando caminhos” é outra referência ao partido. Não há nenhuma convocação direta ao eleitor. Os recursos são indiretos e recorre-se ao refrão do “Lula lá”. 2.2.3. “Coração Brasileiro” – a campanha de Lula em 1998 Um recurso que seria usado em outros jingles apareceu no jingle de Lula em 1998. A música “Coração brasileiro” trouxe a expressão “Lula sou eu. Lula é a gente”. O termo aproximava o candidato do povo e quis trazer de forma mais forte a ideia que permeou todas as campanhas do ex-presidente: a de que ele era homem do povo. “Coração Brasileiro” buscou aproximar o eleitor com a ideia de um candidato que representava o país e que colocava “gente em primeiro”. Houve ainda a tentativa de se desvencilhar da imagem de alternativa eleitoral que representa um perigo. Para isso, foram utilizadas expressões como “o bem tem que vencer o mal”. O termo maniqueísta tentou se aproximar de críticas aos problemas sociais do país, especialmente a desigualdade social. Ela foi lembrada no trecho que diz “na vida tão desigual”. Novamente, não houve referências claras de propostas e houve a tentativa de construir uma figura emotiva e de bondade em torno da figura de Lula. O “coração brasileiro” foi o termo usado para unir o eleitor num tom de sentimentalismo à figura do candidato. O homem que a música apresentava era alguém ligado a sentimentos: “a alegria pode vir num repente”. Num cenário desfavorável, Lula perdeu a eleição novamente com a reeleição de Fernando Henrique Cardoso, que baseou seu discurso no controle da inflação e nos ganhos do Plano Real. Mesmo com uma popularidade bem inferior à de 1994 e numa grave crise econômica que atingia os países ocidentais, Fernando Henrique conseguiu convencer que era melhor ter um presidente preparado do que arriscar a colocar Lula até pelas suas posições de esquerda. Mesmo o tom mais ameno da campanha do PT e a ampliação de alianças, não surtiu o efeito eleitoral esperado.

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2.2.4. “Bota Fé” – a campanha de Lula de 2002 Em 2002 o Jingle de Lula manteve o tom da emoção, mas mudou o seu texto completamente. A criação da música fez parte do conjunto de estratégias encabeçadas principalmente pelo publicitário Duda Mendonça. Embora a peça recorria a estratégias usadas em campanhas anteriores, é a primeira vez que a própria música convocava o eleitor a “botar fé” em Lula. Antes a própria música trazia expressões parecidas em primeira pessoa. Se antes o tom era afirmativo, agora o Jingle convocava. A música começava com uma série de negativas. A ideia é mostrar que não será possível barrar Lula dessa vez, mesmo depois de três derrotas seguidas. Usavam-se fenômenos naturais que eram impossíveis de serem alterados e ligavam-se os mesmos à figura do próprio eleitorado. Houve uso de imperativos de forma aberta: “bote essa estrela no peito, não tenha medo ou poder, agora eu quero você, te ver torcendo a favor”. O “medo” volta. Se em 1989 o próprio eleitor cantava que não tinha medo de ser feliz, agora a própria campanha afirmava que ele deve ser deixado de lado. A palavra “pudor” remetia ainda a um preconceito que existe por parte da população com a própria figura do metalúrgico que queria ser presidente. Lula não era um candidato para se envergonhar. A expressão do “bote fé” veio ao encontro ao momento eleitoral de ter que fazer crer ao eleitor que as chances de vitória são reais. Havia o medo do descrédito após o desgaste de três eleições perdidas. O resultado foi uma vitória em primeiro e segundo turno, quando derrotou o candidato do governo à época, José Serra do PSDB. 2.2.5. “Lula de novo” e “Deixa o homem trabalhar – campanha eleitoral de 2006 O ano de 2006 foi, sem dúvidas, o mais peculiar de todos aqueles em que Lula disputou uma eleição. Isto porque ele tentava se reeleger. A linguagem publicitária de seus jingles mudou muito com relação a tudo aquilo que havia sido apresentado antes. Foram usados dois jingles principais: “Lula de novo” e “Deixa o homem trabalhar”. A negativa com que o Jingle “Lula de Novo” era iniciado lembrava o mesmo recurso utilizado em 2002. Mas agora a primeira estrofe era em primeira pessoa e, embora trouxesse o

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“não adianta tentar me calar”, tinha uma grande afirmativa: “nunca ninguém vai abafar a minha voz”. O tom dramático desse início veio acompanhado de uma melodia mais lenta. O recurso lembrou o contexto eleitoral daquele período: se antes Lula era o opositor e representava a mudança, agora ele era o alvo de todos os outros candidatos, especialmente do PSDB que disputou com Geraldo Alckmin. A principal característica do Jingle “Lula de novo” era o uso da palavra “povo”. Criava-se uma forte identidade da figura do então presidente com o eleitor. A música fez o próprio eleitor se ver representado na figura de Lula, especialmente no trecho “são milhões de Lulas povoando esse Brasil” e “onde o Presidente é povo e o povo é Presidente”. Vale perceber que a opção era em destacar a figura carismática do próprio candidato e não as ações do seu governo. A música usava palavras recorrentes em outras músicas, como coração e esperança. O refrão acabou se tornando o grande slogan da campanha. Outro jingle usado em 2006 foi o “Deixa o homem trabalhar”. Este usou chavões populares, o que demonstrou mais uma vez a aproximação que se buscava com o eleitor. “A voz de Deus é a voz do povo” e “não troco o certo pelo duvidoso” foram os principais ingredientes para a composição desse Jingle. Se no Jingle “Lula de novo” havia quase nenhuma referência ao governo em si, nesse Jingle era apresentado um cenário positivo quando usava-se a afirmação “está tudo andando direitinho”. A ideia central era dizer que o país estava bem e podia melhorar. O resultado das eleições foi mais uma vitória de Lula derrotando Geraldo Alckmin em segundo turno. 3. A Construção de uma figura de Liderança Bernard Manin (1995) afirma que vivemos a “democracia de público” em substituição ao que ocorria anteriormente na chamada “democracia de partido”. No lugar dos partidos políticos, despontam líderes personalistas que tendem a agregar os interesses momentâneos do eleitorado.É nítido observar que o Jingle busca construir a figura de um líder, que está para além do seu próprio partido. Embora o PT tenha capilaridade e força com sua base, é na figura do líder que se constrói a ideia de conquista do eleitorado.

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As referências partidárias resumem-se à citação da “estrela”. Ela está presente nos Jingles de 1989, 1994 e 2002. Ainda que, de forma indireta, em algumas situações a citação da mesma busca a identificação com o partido. Mas, de modo geral, as músicas querem apresentar Lula como um candidato que pode ser confundido com o próprio eleitor, ou, de forma mais objetiva, como próprio povo brasileiro. Há uma mudança de discurso a partir da eleição de 2002. Até então os Jingles apelavam para o tom de emoção e não havia uso de verbos imperativos que convocassem o eleitor a aderir ao projeto de Lula Presidente. Com o Jingle “Bota fé”, os verbos de convocação aparecem e a música assume um tom mais ousado. Ainda assim persiste a ideia da aproximação da figura de Lula como povo, especialmente aquele chamado de “pobre, mas nobre e trabalhador”. Já no ano da reeleição, uma característica presente no “Lula lá” de 1989 volta: o ufanismo e a afirmação. O próprio eleitor canta: “nós estamos aqui de novo cantando um sonho novo pra sonhar”. A ideia é reafirmar o compromisso de quem já elegeu Lula em 2002 para que novamente o faça nessa eleição. É aqui também que fica claro tudo aquilo que permeou o histórico dos Jingles das campanhas de Lula: a ideia do homem do povo. Um líder que é ligado aos sentimentos, que tem o “coração do Brasil” (1998) e a “alma do povo” e a “cara da gente” (2006). O líder que é povo e afirma que “o povo é presidente”. A grande ideia foi a construção de uma aproximação com o eleitor que foi se delineando. Demorou para que os Jingles se aproximassem de modo incisivo com o eleitor, o que aconteceu em 2002, mas, a partir daí, a retórica do “presidente do Povo” foi a principal estratégia, que acabou surtindo efeito com duas vitórias eleitorais. Considerações Finais Entender a construção de figuras de liderança, sejam elas políticas ou não, é uma tarefa difícil. Todo o processo de reconhecimento por parte das pessoas passa não só pelas estratégias publicitárias, mas por outros elementos sociais e históricos que fogem até do controle do marketing ou são aproveitados por ele.

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Vale lembrar que a figura de Lula continua presente no cenário político e que ele ainda apareceu no Jingle da Presidenta Dilma Rousseff na campanha de 2010. A ideia era transferir a popularidade adquirida por ele à candidata do PT. O resultado foi a eleição de Dilma. Percebemos ainda nos Jingles a forte presença de traços culturais do povo brasileiro. Nos Jingles de Lula, a emoção foi um ingrediente comum em todas as peças publicitárias criadas. Sérgio Buarque de Holanda (2004) discorre sobre essa característica de “cordialidade” presente no povo brasileiro. Já se disse, numa expressão feliz, que a contribuição brasileira para a civilização será a cordialidade – daremos ao mundo o “homem cordial”. A lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro, na medida, ao menos, em que permanece ativa e fecunda a influência ancestral dos padrões de convívio humano, informados no meio rural e patriarcal. Seria engano supor que essas virtudes possam significar “boas maneiras”, civilidade. São antes de tudo expressões legítimas de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante (HOLANDA, 2004, p.146-147).

Em um povo marcado pela emoção, a música atua como forte instrumento de persuasão. Os Jingles tornaram-se e ainda são fortes instrumentos de convencimento ou motivação. É por isso que eles ficam na memória e nos ajudam, por vezes, a lembrar da história. Da “vassourinha”, passando pelo “Lula lá” até o “Ei, ei, Eymael” vamos sempre ter lampejos na memória de lembrar um pouco da história de nossa política e de nossa democracia, que estão indissociavelmente ligadas aos traços que marcam o povo brasileiro. Referências Bibliográficas FIGUEIREDO, Rubens. O que é marketing político? São Paulo: Editora Brasiliense, 1994. GOMES, Wilson. As transformações da política na era da comunicação de massa. São Paulo: Paulus, 2004. HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. LIMA, Venício de. Mídia e Política. Brasília: Editora da UNB, 2001. LIMA, Venício de. Mídia. Crise política e poder no Brasil. São Paulo: Perseu Abramo, 2006.

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MANIN, Bernard. As metamorfoses do governo representativo. In: Revista Brasileira de Ciências Sociais (RBCS), São Paulo, ano 10, n. 29, out. 1995. MARTINS, Franklin. Som na caixa. Disponível http://www.franklinmartins.com.br/som_na_caixa_lista.php, acesso em: 11/09/2013

em:

QUEIROZ, Adolpho, Org. Marketing Político brasileiro. Piracicaba: Edição do Organizador, 2005. SAMPAIO, Rafael. Propaganda de A a Z. São Paulo: Campus Editora, 2003. TORQUATO, Gaudêncio. A velha era do novo. Visão sociopolítica do Brasil. São Paulo: editora G. Torquato, 2002.

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Comunicação Política, Hospitalidade Doméstica e Contextos de 1 Recepção nas Casas de Marina Maria Claudia Setti de Gouvêa Franco 2 Universidade Metodista de São Paulo

Resumo: Comunicação Política e a Hospitalidade doméstica no contexto de recepção nas casas de Marina na campanha eleitoral de Marina Silva à Presidência da República em 2010 são o tema central deste texto. O estudo empreendido articulou os processos de construção da imagem midiatizada junto à própria candidata e a correligionários “anfitriões” de “Casas de Marina”, nome dado a comitês eleitorais de natureza comunitária. O referencial teórico da pesquisa incorporou os conceitos comunicação pública, hospitalidade e marketing político. A pesquisa empírica envolveu a análise da cobertura jornalística dos jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo além de entrevistas com a própria candidata, com gestores de sua campanha e com 11 líderes das unidades “Casas de Marina”. Espera-se com este texto pensar de forma mais abrangente a relação entre os movimentos da sociedade civil e a participação política institucional, evidenciar que a “dádiva entre os modernos”, circula e fundamenta as relações determinadas com base nas mediações culturais nas quais se efetiva. Como procurei mostrar, a hospitalidade no ambiente doméstico, assim como no ambiente virtual, propiciam as bases para a formação dos vínculos de natureza política em um mundo cada vez mais competitivo e conflituoso. Palavras-chave: comunicação política; hospitalidade; casas de Marina. Introdução Os dois eixos de reflexão apresentados: comunicação política, hospitalidade tem como palco as Casas de Marina, juntos, possibilitam identificar elementos que demonstrem quais os fatores que interferiram na forma como cada eleitor “anfitrião” das “Casas de Marina”, fez suas escolhas para decidir apoiar a candidata. O conceito de hospitalidade define, como pano de fundo, os ritos necessários para que a ação mediadora cumpra seu papel de instrumento de criação e restauração do vínculo social, no contexto das relações políticas, entre candidato e eleitor. A

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Trabalho apresentado ao GT 2 – Marketing Político e Eleitoral do XII Congresso Brasileiro de Comunicação Política e Marketing Eleitoral – Juiz de Fora (MG) 2

Doutora em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo, e-mail: claudiagouvea@linkbr.com.br

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comunicação viabiliza o espaço adequado para o jogo político, no caso os ambientes de hospitalidade doméstica. Os espaços destinados à hospitalidade política nascem da criatividade representativa que o homem tem de transformar ações de campanha em momentos de criação, manutenção ou mesmo de ruptura de vínculos. A comunicação, enquanto área de conhecimento estuda as relações de comunicação, seu conteúdo e o meio de interação entre as pessoas. Ocupa-se das causas e consequências desse processo levando em consideração as informações transmitidas à sociedade pelos meios comunicacionais. O estudo e a forma de execução desse conteúdo é tarefa da comunicação social. O processo de comunicação política, de acordo com Domenach (1963, p.10), de certa forma, determina as estratégias que a comunicação política que cada campanha adotará diante do cenário eleitoral proposto e quais ações podem confirmar e instituir poder, bem como defender as crenças do partido, do candidato(a) e as propostas de modificação de comportamento. As ações de comunicação política buscam conquistar militantes, simpatizantes ou adeptos a um determinado candidato e seu partido, ou seja, é uma das possíveis ferramentas para a execução de um projeto político. Daí a pertinência de uma análise mais profunda das Casas de Marina, com o intuito de fundamentar as ações comunicacionais utilizadas na campanha de Marina Silva em 2010.

1. Hospitalidade, Comunicação, Casas de Marina O conceito de Hospitalidade como possível paradigma para estudos comunicacionais de natureza política, nos quais é privilegiada a fundação de vínculos com base no conhecimento do outro, respalda a reflexão de como a Hospitalidade esteve presente na campanha de Marina Silva a Presidente da República em 2010, mais precisamente no fenômeno Casas de Marina, de forma a reforçar a identidade individual e coletiva dos sujeitos políticos envolvidos no pleito. A presença de indicadores propostos pelos teóricos da hospitalidade pode direcionar a análise dos ambientes observados, considerados hospitaleiros ou não, e auxiliar a elaboração de estratégias eficazes para melhor aparelhar campanhas eleitorais. O primeiro conceito norteador do paradigma da hospitalidade a ser contemplado é o da dádiva, ou dom, como prefere Maurice Godelier em O enigma do Dom (2001): O título escolhido por Godelier reflete a natureza simbólica do papel do dom na produção e reprodução social, é neste contexto que o dom, como ato, mas também como objeto, pode representar, significar e totalizar o conjunto de 3 relações sociais. 3

Disponível em: < http://encipecom.metodista.br/mediawiki/images/e/e6/POLITICOM2008ebook.pdf> Acesso em 2fev2012.

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De forma exemplar, pode-se tecer comparações no tocante às diferentes situações em que se encontram os representantes ou futuros representantes do povo. A propaganda política visa conquistar militantes, simpatizantes ou adeptos a um determinado partido, a uma um projeto político, assim como a adesão às ações de um candidato ou partido. A peculiar candidatura de Marina Silva nas eleições de 2010 pode ser caracterizada como uma candidatura do tipo migrante, ou seja, a candidata deixou o Partido dos Trabalhadores (PT) para tentar se eleger, pela primeira vez, por um outro partido, o Partido Verde (PV). Marina, contudo, não precisou conquistar seu espaço no seu da nova legenda uma vez que seu capital político enquanto bem simbólico era mais que suficiente para enfrentar essa mudança. Apesar de não ter sido eleita, foi vitoriosa nas urnas, o que lhe concedeu uma espécie de passaporte para qualquer outro partido, ou mesmo para criar seu próprio partido. A Hospitalidade também pressupõe uma dádiva, a dádiva do espaço do lugar de acolhimento onde se oferta alguma coisa. A hospitalidade é a forma de ritualização do que vai ser oferecido, de trazer o estranho para o espaço pessoal de modo a transponha barreiras, mas sem eliminá-las. A hospitalidade cria os mecanismos para ampliação ou rompimento dos vínculos. Na definição de Luiz Octávio de Lima Camargo (2004, p. 31), a hospitalidade sob o aspecto de expressão não escrita “é um processo de comunicação interpessoal, carregado de conteúdos verbais e não verbais que constituem fórmulas rituais que variam de grupo social para grupo social, mas ao final são lidas apenas como desejo ou recusa de vínculo humano”. Essa abordagem se encaixa perfeitamente no contexto apresentado, uma vez que as campanhas políticas fazem parte de um processo eleitoral, em que são estabelecidos ritos tidos como os melhores e mais eficazes para a comunicação do candidato com seus pares, colaboradores em todos os níveis, seu partido e com os demais partidos com os quais ele se comporá no decorrer da campanha, tomando o cuidado para que a leitura destes ritos seja feita da forma correta. A hospitalidade é uma das possíveis respostas ao mundo na era da hipermodernidade, um mundo pós-ocidental emergente onde a necessidade de criar espaços para o diálogo cresce em uma velocidade que confunde diariamente nossa percepção de temporalidade. As Casas de Marina se mostraram nova opção de espaço para o diálogo político. A gênese da dimensão epistemológica do conceito de hospitalidade está no pensamento do grupo de Émile Durkheim que visava constituir uma ciência propriamente social. da hospitalidade que desvela e privilegia o processo de comunicação (CAMARGO, 2004, p. 12).

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Entender a hospitalidade como um fenômeno de qualidade humana, o qual se manifesta tanto no plano dos indivíduos quanto na esfera social, é fundamental para a análise das diversas abordagens possíveis sobre o tema (GIDRA; DIAS, 2004, p. 129). Um dos desafios propostos aos estudiosos da hospitalidade é o de oferecer dados referentes aos atores sociais envolvidos na ação, de forma que estes tenham condição de traduzir interesses e expectativas ocultos em cada uma dessas ações. Diante de algumas possibilidades de aplicação do conceito de hospitalidade tanto no estudo quanto na elaboração de ações comunicacionais de cunho político, a abrangência do conceito permite abertura para novas abordagens como a possível reflexão sobre as Casas de Marina. Na Antiguidade, a comunicação política se dava na Ágora grega e, desde então, os espaços comunicacionais foram se adaptando às formas e ferramentas criadas pelo homem para estabelecer relações com os seus pares, e aos mecanismos utilizados na propagação de ideias no complexo campo das relações interpessoais, em especial as de natureza política. Esta é a gênese das “Casas de Marina” enquanto comunidade suprapartidária, que anima uma mitologia própria e ensaia certo número de técnicas de propaganda que, aplicadas correntemente e dinamizadas no dia a dia da campanha, rompem os limites dos clubes fechados, das assembléias, das comissões e alcança a população civil. Neste contexto, surge um novo tipo de militante, o eleitor “anfitrião”, assim denominado pelo gesto de abrir sua residência e transformá-la em comitê doméstico. O fato de as “Casas de Marina” serem fruto do Movimento Marina Silva determina o primeiro traço do perfil desses ambientes de hospitalidade doméstica abertos para práxis política. O site oficial da campanha define “Casa de Marina” como residência ou local de trabalho “de quem quer ver Marina Silva na Presidência” e deseja interagir com a sua comunidade para “tornar 4

esse sonho possível”. O site ensina como fazer da “sua casa” uma “Casa de Marina” orientando o eleitor a colocar um banner em local bem visível e, até mesmo, ensinando como prepará-lo com o estêncil disponível para download. Ali, também há informações sobre onde encontrar os banners prontos, caso o “anfitrião” não queira confeccioná-lo, entre outras indicações aos voluntários. A proposta é deixar que o “anfitrião”, eleitor e cabo eleitoral descubram o seu próprio jeito de participar e tornar conhecidas as ideias e a plataforma de governo de Marina Silva sugerindo que 4

Disponível em: www.minhamarina.org.br/home/home.php. Acessos em: 1º de junho de 2010 a 26 de outubro de 2010, todas as terças-feiras.

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a “Casa de Marina” seja um polo distribuidor de material de campanha, e um centro de convivência onde sejam realizados encontros e debates com as pessoas da vizinhança para criar e fortalecer os laços comunitários, enfim, um espaço de decisões políticas. As “Casas de Marina” constituíram-se em ponto de encontro de desejos e interesses. A proliferação de tais espaços durante a campanha de 2010 garantiu a formação de uma militância política reunida em torno de um desejo comum, ou seja, engajada, apesar de segmentada e diferenciada pelos seus interesses e gostos. As “Casas de Marina” fortaleceram elos sociais possibilitando uma espécie de reinvenção da antiga Ágora, porém menos excludente. A “Ágora” proposta pela coordenação da campanha da candidata à Presidência da República pelo Partido Verde, Marina Silva, buscou, antes de tudo, a integração. A hospitalidade doméstica suscita, por exemplo, a reflexão sobre as representações de gênero. A figura da mulher no processo eleitoral, não apenas como eleitora, mas como sujeito ativo nas ações propostas pela campanha. O elemento gênero passa a ser mais uma abordagem passível de análise. Cada “Casa de Marina” assumiu uma identidade própria, o que demonstra que cada residência se apropriou das representações culturais propostas pela coordenação da campanha de formas diferentes, de acordo com suas referências culturais específicas. A dimensão oculta dessas representações sociais encontra respaldo na teoria da “tríplice obrigação”: dar, receber e retribuir de Mauss. A circularidade desta livre obrigação – digo livre por não ser pautada por nenhum contrato escrito – seria responsável pela formação e manutenção das redes de sociabilidade que possibilitaram a abertura e funcionamento das Casas de Marina, lembrando que a Hospitalidade Doméstica está sujeita à influência da herança cultural que orienta o comportamento do homem e da sociedade de forma a legitimar a ordem vigente. A Antropologia define cultura tradicionalmente como “o modo de vida de um povo”, definição que reporta aos comportamentos dos membros de uma determinada sociedade que acabam por criar o que Mathews (2002) chamou de “comunidades imaginadas”. A práxis política não acontece de forma diferente, Cada “Casa de Marina”, por exemplo, reflete essas escolhas de acordo com o modo de vida do “anfitrião”, com os fatores determinantes do gosto pessoal pela candidata e com as apropriações feitas pelo morador que oferece sua residência e pelos visitantes em relação às propostas e a candidata. O lar do “anfitrião”, travestido de comitê eleitoral, absorve os elementos disponíveis e estrategicamente planejados pelos responsáveis pela comunicação política da campanha de Marina Silva. A candidatura de Marina Silva ofereceu ao eleitor um leque de opções pautadas em diversos aspectos de sua biografia, tais como: (1) a classe social da candidata, de origem humilde

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e sem recursos; (2) o gênero, uma candidata mulher à Presidência da República, casada e mãe, pois apesar de haver outra mulher concorrendo nas eleições presidenciais de 2010, a figura feminina de Marina foi bastante evidenciada; (3) a fé e sua crença religiosa confessa arregimentou um verdadeiro exército ecumênico; (4) a etnia defendida em palavras e representações, na forma de se vestir e no uso de acessórios; (5) a jornada como cidadã engajada em lutas sociais ligadas às questões do meio ambiente e sustentabilidade, enfim, sua militância política como um todo. A apropriação de determinadas representações culturais produz o sentimento de pertencimento, o sentimento de fazer parte de um determinado grupo, no caso, que preza e defende a candidatura de Marina Silva, com a finalidade de formular sentidos de identidade cultural. Esse movimento acontece de dentro para fora em contraponto ao movimento de fora para dentro apesar da pressão exercida pelo mundo social ao nosso redor. A riqueza dessa luta invisível é a fonte patrocinadora do engajamento político dos cidadãos e, consequentemente, das mudanças que ocorrem na sociedade a partir da práxis política. As relações sociais que reúnem os frequentadores das “Casas da Marina” se aproximam das relações de vizinhança e de bairro, consideradas as suas maneiras específicas de ver e de se mostrar. O espaço público representa lugar de encontro. Este é definido pelos indivíduos de classes sociais, de raças e de etnias diversificadas como lugar de multiplicidade. Entretanto, certos nichos dos espaços públicos são apropriados por grupos específicos, muitas vezes, chegando a limitar o acesso de outros, ocasionando a ruptura da relação social, a recusa de misturas sociais e culturais e a perda do sentimento de “pertença” coletivo (WEBER, 2000). O tempo e o espaço, considerados como “lugares” em que se encontram inseridos os interlocutores no período que antecede e precede as eleições presidenciais de 2010, constroem sentidos para as representações que ocorrem durante a campanha eleitoral e as apropriações feitas por parte dos eleitores que se dispuseram a abrir seu espaço privado para utilização pública. Uma nova combinação de espaço/ tempo surge tornando a experiência da práxis política mais próxima da realidade, de forma que o cidadão se sinta mais próximo do seu candidato. Com as distâncias encurtadas, os eventos passam a ter um impacto maior sobre as pessoas e consequentemente sobre o sistema de representações culturais. A separação proposta por Giddens (1990) entre espaço e lugar é adequado à análise das “Casas de Marina”. O “lugar” é específico, concreto, conhecido, familiar, delimitado: o ponto de encontro de práticas sociais específicas que moldam e formam e com as quais nossas identidades estão estreitamente ligadas (HALL, 2005, p.72). Os lugares são fixos. Os espaços, não. As “Casas de Marina” seriam espaços diferentes entre si em consequência de uma história de práticas sociais e políticas diferenciadas. A dimensão de espaço desenvolvida por Milton Santos abre caminhos para reflexões entre o público e o privado, aprofundadas pelo paradigma da 220


hospitalidade. Durante a campanha de 2010, as “Casas de Marina” foram residência ou local de trabalho de quem queria ver Marina Silva exercendo a função de presidente do Brasil e buscava interagir com sua comunidade para tornar este sonho possível. No mapa do movimento foram cadastradas 2.287 casas de pessoas que declararam seu apoio à candidatura de Marina. Cada casa ofereceu o melhor de si e seus moradores se dedicaram à campanha conversando com amigos e familiares, distribuindo materiais nas ruas, enviando mensagens eletrônicas ou postando comentários nas redes sociais. As condições específicas nas quais as Casas se encontravam no período pré-eleitoral propiciaram a reorganização das relações familiares, seja no âmbito das relações pessoais ou nas relações que envolviam a organização do espaço doméstico, de modo a efetivar nele novos ritos. O modelo de morar favorece trocas, quando membros de famílias estendidas habitam o mesmo domicílio. É certo que as famílias nucleares se expandem, mas dificilmente eliminam práticas habituais, o que pode acontecer é uma redefinição das mesmas. A experiência tipicamente brasileira vivida nas “Casas de Marina”, no período que antecedeu as eleições à Presidência da República em 2010, caracterizou-se pela vida comunitária integrada à vida nuclear das famílias anfitriãs, prevalecendo os hábitos protecionistas e as conexões pessoais. Na modernidade, a acepção de espaço em que as pessoas se socializam enfraqueceu e afastou o indivíduo de sua casa, uma vez que passou a vivenciar longos períodos do dia fora de casa, trabalhando ou envolvido em atividades de lazer. O lar, contudo, permanece como uma referência de identidade para o sujeito. A existência dos espaços reservados para encontros de desejos e interesses do ser humano sejam as pessoas conhecidas ou desconhecidas, é fundamental para que haja uma migração do indivíduo do chamado “mundo rural” para o mundo do diferente, do Outro. Essa migração propicia a aceitação do Outro, estabelecida mediante a oferta de assuntos que permitam iniciar uma conversa cujo assunto provoque alguma vibração. No caso a eleição de Marina Silva presidenta do Brasil. As ações de Comunicação Política da campanha da candidata do Partido Verde, em particular as relacionadas ao movimento “Casas de Marina”, foram incorporadas à identidade dos diversos sujeitos envolvidos na implantação e condução dessas Casas. O espaço doméstico onde foram implantadas é naturalmente constituído por estruturas de sentimentos em seus muitos significados. Uma vez transformadas em “moradas de sociabilidade”, celebraram a união dos ritos domésticos e políticos feitos e desfeitos em práticas sociais expondo relações de gênero, raça/etnia, classe e gerações em suas muitas interseções e complexidades. O desenvolvimento do conceito de casa, assim como o da sua diferenciação do simples

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conceito de abrigo, ocorre em paralelo à definição de conceitos como território e lugar. A casa, como propriedade, estabelece relações entre indivíduos e entre grupos sociais, passando eventualmente a ser identificada com a ideia de poder. Os comitês domésticos da campanha da candidata do PV conferem a seus residentes, ao “anfitrião” e sua família “poder”, fruto de um processo sócio-cultural que evoluiu de maneiras diversas em cada “Casa de Marina”. A motivação dos “anfitriões” das “Casas de Marina” tem início em uma aposta, ou seja, é necessário dar um passo em direção ao outro sem nenhuma garantia de retorno, o que acontece devido a uma motivação, ou seja, existe um interesse, nesse ponto é possível encontrar aderência ao conceito de Hospitalidade. A natureza do interesse que dá início à experiência da hospitalidade é diversa, mas sempre busca um determinado valor para o sujeito. No caso dos “anfitriões”, pode-se dizer que buscam um valor pelo lugar que ocupam no processo eleitoral, ou seja, as “Casas de Marina” podem ser consideradas como exemplo da relação entre o espaço e o valor do homem (SANTOS, M., 2000, p.89). A ideia de casa está tradicionalmente associada à família, de tal forma que a palavra costuma ser usada com este significado. Uma visão também tradicional a respeito da estrutura de uma sociedade considera a família como sua unidade fundamental. Por este prisma, a família, como núcleo central das “Casas de Marina”, representa uma força multiplicadora de engajamento que envolve as diversas faixas etárias que compõe o núcleo familiar e as suas respectivas práticas sociais, resultando em várias formas e distribuições de funções diferentes, visão que a candidata Marina Silva endossa e defende. A hospitalidade, de acordo com Godbout (1999), é um dom do espaço utilizado para contemplação. Suas qualidades são a superfície, a acessibilidade, o conforto, a estética, a historicidade. A compreensão desse fenômeno passa forçosamente por uma análise da sua forma de ocupação e utilização. Identificar as qualidades da hospitalidade apontadas por Godbout (1999), as categorias de hospitalidade desenvolvidas por Grinover (2006) a respeito de um ambiente hospitaleiro, e os tempos e espaços da hospitalidade sistematizados por Camargo (2004) nos ajuda a entender o fenômeno Casas de Marina. A simbologia presente na história de cada um dos imóveis que abrigaram as “Casas de Marina” continua presente nessas residências, quando transformadas em “comitês eleitorais”. Normalmente, funcionaram em imóveis pertencentes ao patrimônio pessoal do “anfitrião”, suas próprias residências, ou de algum membro da família. Nas “Casas de Marina” o tipo de envolvimento sugere uma nova forma de relacionamento entre o eleitor e seu candidato, mas o elemento doação continua presente, de forma que é possível identificar a hospitalidade, enquanto dádiva fundadora de vínculos.

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As “Casas de Marina” inauguraram um novo tipo de doação quando a prática usual, em períodos eleitorais, é a de um amigo pessoal do candidato ceder um imóvel onde o candidato passa acolher seus eleitores; um modelo centralizado de organização de campanha no estilo “quartel general”. Em alguns casos, o imóvel é alugado e o custo da locação fica por conta de um colaborador. Tanto este tipo de apoio como aqueles dados por um “anfitrião” de uma “Casa de Marina” demonstra que sua candidatura foi aceita, pois existe um interesse de acolhimento, o desejo de abrigar o projeto político do seu candidato. O modelo mais comum busca abrigar a máquina eleitoral. Nas “Casas de Marina”, entretanto, o significado é muito mais abrangente porque rompe as fronteiras que separam o público do privado e permite ao “anfitrião” expor seu desejo de acolher o projeto político de uma candidatura com a qual se identifica. Desta forma, a identidade da candidata, em todas as suas várias nuances, acaba refletida na identidade do “anfitrião”. Na prática, o acúmulo de funções torna os ambientes mais agitados, questão contornada pelo exercício da paciência e do respeito pelo outro, indispensáveis para a hospitalidade pública ou doméstica. A estética dos imóveis onde funcionaram as “Casas de Marina” é variável de acordo com o perfil socioeconômico do “anfitrião”. Algumas sugerem simplicidade, austeridade, composição estética que se contrapõe à sofisticação de outras. Quase sempre, contudo, o frequentador das “Casas de Marina”, seja ele eleitor, cabo eleitoral ou militante, identifica-se ou mesmo se apropria da estética de acolhimento que reflete a imagem da candidata e seus ideais como mulher. Reforça-se que o senso estético para o local agrega valor à campanha a partir do que disponibiliza um ambiente que vai ao encontro da identidade do eleitor engajado, aliás, ele é quem escolhe a “Casa de Marina” na qual vai exercer sua parcela de cidadania. Para finalizar, vale lembrar que colaboradores e patrocinadores das campanhas dificilmente visitam as “Casas de Marina”, preferem que esses encontros sejam agendados em outros espaços, que preservem suas identidades. O termo acessibilidade se encontra presente na lista de qualidades de um espaço hospitaleiro, segundo Godbout (1999), e nas categorias de hospitalidade desenvolvidas por Grinover (2006). As “Casas de Marina” facilitam a acessibilidade dos eleitores, cabos eleitorais, militantes e visitantes. A preservação da identidade desses espaços deve ser resguarda tal qual a identidade de quem frequenta a Casa uma vez que, cada uma representa um aspecto da identidade política da candidata, e a forma como o eleitor se apropriou do que ela representa.

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A legibilidade tem por premissa facilitar a entendimento, a identificação do bem por qualquer pessoa (GRINOVER, 2006). No caso dos imóveis que abrigam as “Casas de Marina”, a legibilidade constitui uma das categorias de análise importantes para a conformação do ambiente hospitaleiro. A legislação atual limita o material de campanha, proibindo o uso de outdoor, o que prejudica a legibilidade dos espaços, uma vez que cumpriam a função de aproximar, acolher para viabilizar vínculos. A legislação, todavia, forçou uma limpeza visual ao substituir os outdoors por cartazes de proporções bem menores. Por isso, as dimensões dos textos e das imagens, etc para confecção de todo material são orientadas pela coordenação da campanha. Godbout (1999), em sua análise sobre as diversas naturezas do espaço hospitaleiro, lembrando que a hospitalidade é o dom do espaço, faz uso do termo superfície como uma dessas naturezas, interpretada como uma possível forma de se referir à categoria legibilidade desenvolvida em Grinover (2006). A hospitalidade é móvel em virtude da sua capacidade, enquanto prática social, de se transferir de um espaço social, no qual o processo se desenrola: doméstico, público, comercial ou virtual, para outro, conforme as necessidades dos tempos sociais da hospitalidade de receber/acolher pessoas, hospedá-las, alimentá-las e entretê-las (CAMARGO, 2004, p.52). No caso das residências que passaram a ser utilizadas como “Casas de Marina”, é possível observar que o acúmulo de funções nesses espaços, em decorrência de necessidades específicas do período de campanha, provocou mudanças no tocante aos tempos de hospitalidade, uma vez que o espaço assumiu características mais marcantes da hospitalidade pública. O ato de recepcionar pessoas, de forma intencional ou casual, constitui uma permanência à qual se pode aplicar as tipologias “anfitrião” e hóspede aos envolvidos neste ato. Destaca-se a forte presença do referencial familiar, de modo que os valores familiares e os vínculos são tratados com muito zelo, enquanto representação de gênero. Na construção simbólica cultural, por meio da qual nos relacionamos com o outro, o papel da mulher foi histórica e socialmente construído e internalizado de forma que a ela coube a responsabilidade do zelar. As percepções de ordem simbólica reforçam essa função e vinculam de forma, quase definitiva, a mulher a essa função que passa a ser socialmente legítima. Essa seria umas das dimensões construídas da mulher nos contextos da hospitalidade doméstica vividos nas “Casas de Marina”. Pode-se dizer que as “Casas de Marina” se caracterizam como espaço de inclusão no âmbito de poder. A proposta das “Casas de Marina” procura romper com essa tradição de distância ao estabelecer uma nova forma de aproximação entre eleitor e candidato baseada na inclusão e na possibilidade criação de espaços para discussões. Pode-se dizer, portanto, citando novamente Barreira, que candidaturas como a de Marina Silva “almejam a inclusão, criam oportunidades para discussões de rica complexidade. Em lugar de simplesmente aludirem ao

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processo eleitoral, apontaram valores culturais, estratégias de comunicação e, mesmo, dimensões individuais que se radicalizam no propósito de exacerbação das diferenças”. A candidatura de Marina Silva é expressão de um percurso que se fundamenta na busca de uma identidade referenciada na relação entre a candidata e grupos sociais organizados (BARREIRA, 1992, p. 4-5), situação que se faz evidente na diversidade de perfis dos anfitriões. A trajetória política de Marina Silva inclui as concepções culturais e subjetivas que se relacionam às práticas de participação política. Ao abrir sua casa, o “anfitrião” deseja ter uma participação mais efetiva no pleito eleitoral, quer fazer parte do processo e usufruir dessa cadeia de relações e experiências de aprendizado político. Transformar a própria residência em uma “Casa de Marina” confere aos seus moradores, na condição de novas lideranças, uma espécie de passaporte para o ingresso nos canais institucionalizados de representação. Sendo tal capacitação uma reserva de saber, trata-se, consequentemente, de dotação de capital político (BARREIRA, 1992). No interior de movimentos sociais deste tipo existe uma rede de sociabilidade (SCHERER-WARREN, 1987) e espaços de transmissão de experiência, pois se trata de um aprendizado não formalizado, embora relevante para instituir um trajeto de mobilidade social e política. Essa aquisição de saber não institucionalizado é construída cotidianamente, a partir experiência concreta das diferentes Casas. (BARREIRA, 1992). Categorias ligadas à cultura e ao cotidiano abrem espaço para repensar sobre outra forma de fazer política, distinta dos critérios convencionais de delegação de poderes e representação (EVERS, 1982). Essas dimensões ampliam a sociabilidade e constituem uma identidade baseada em interesses distintos criando no interior dos movimentos um imaginário de comunidade (DUHRAN, 1984) que pode ser amplamente explorado pela Comunicação Política de qualquer campanha. As “Casas de Marina” são exemplos de um movimento social basicamente urbano que se constituiu como suporte para candidatura de Marina Silva e se justificou pela sua participação política na esfera institucional com base em princípios valorativos, como: priorizar a "nossa política" em lugar da política "dos outros” (CALDEIRA, 1984). As “Casas de Marina” se mostraram importantes espaços de mobilização, lugares de crítica política, re-elaboração de crenças e valores produzidos por esse lugar relevante de enunciação simbólica, atuante no período de redemocratização da sociedade brasileira (BARREIRA, p. 1992). Essa cadeia de relações confere aos “anfitriões” e seus convidados uma espécie de passaporte para as diversas representações possíveis.

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Considerações Finais Incorporar conceitos de comunicação política e hospitalidade, como pano de fundo para o estudo de como se compõem os vínculos de natureza política adotando como referência para a análise os ambientes comunitários domésticos das Casas de Marina é o objetivo da reflexão acima descrita. Foi possível verificar que o acordo social selado por Marina Silva autorizou o Outro a se sentir próximo da candidata, tal qual um fã perto do seu ídolo em espaço que lhe pertence. Esse cenário exacerba a relação eleitor-candidato que caracteriza a relação dos eleitores com Marina e demonstra que a hospitalidade está presente nas ações de comunicação política que regem as campanhas eleitorais e possibilita novas estratégias de divulgação de candidaturas, sob uma nova ótica onde o reforço do pensamento acadêmico confirma a sua importância na área do conhecimento cientifico. Abordagens de técnicas de propaganda que privilegiam a necessidade de se conhecer outro se mostra recurso eficaz para melhor aparelhar as campanhas, amenizando possíveis impactos. Essa pequena contribuição ganha corpo na área da comunicação política, carente de novas reflexões de cunho acadêmico. As “Casas de Marina” compõem o limite proposto para a pesquisa dos ambientes de hospitalidade doméstica a serviço da política criado na campanha de 2010. As “Casas de Marina” abertas na cidade de São Paulo se mostraram um desafio para pesquisa devido às dificuldades logísticas e de análise, uma vez que a capital paulista é peculiar enquanto cenário de relações interpessoais, o que interfere no campo das relações políticas. São Paulo vive o paradoxo da busca de ser uma cidade acolhedora, embora não negue sua identidade de metrópole em que predomina o individualismo, onde o “Outro”, na verdade, é apenas um próximo. Com certeza, a ausência de alguns dos indicadores de hospitalidade: acessibilidade, legibilidade e identidade interferiram na dinâmica das “Casas de Marina”. As entrevistas deixaram claro que o desejo de cada “anfitrião” era o de acolher os possíveis eleitores de Marina Silva, uma vez que a necessidade de objetivar a comunicação entre os eleitores, identificados como pares nesta relação é um desejo crescente e natural do ambiente democrático. A Comunicação Política da campanha de Marina Silva fez das Casas de Marina espaço adequado para construção da sua imagem. As Casas cujos “anfitriões” foram entrevistados ainda se parecem muito com comitês, apesar de a maioria dos “anfitriões” negar essa realidade mesmo que suas residências tenham apenas cumprido um papel de centro distribuidor de material de campanha. A identidade das Casas se define a partir do momento em que os “anfitriões” estão capacitados a exercer seu papel.

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No imaginário do eleitor “anfitrião”, o fato de suas residências se tornarem “Casas de Marina” denota uma aproximação com a candidata, ele passa e ser “co-anfitrião” do processo eleitoral e ganha status na comunidade. Como o tempo da campanha é muito breve, as Casas podem continuar ativas até as próximas eleições, cabe às equipes coordenadoras da campanha buscar novas possibilidades para orientar as ações comunicacionais de modo a torná-las atrativas enquanto espaços comunicacionais. É importante ressaltar, contudo, que o universo da pesquisa que respalda essa reflexão ficou restrito a 11 entrevistados. A presente reflexão pode ser aprofundada se as entrevistas contemplassem outras regiões do Brasil, ou mesmo outras cidades do estado de São Paulo, que não só a Capital. Considerando o exposto é de fundamental importância a elaboração de um plano de ação, no qual a comunicação política, valendo-se dessa proposta conceitual, atue de forma mais ampla e, consequentemente, mais eficaz, lançando um olhar estratégico sobre a forma de conduzir as ações de propaganda que sustentem a aposta da vitória nas urnas. Entender a maneira os scripts se entrelaçam implica na observação da relação entre o Eu e o Outro em todos os seus significados simbólicos. Esse entendimento abriu espaço para análise do político, do papel do desejo de ser igual, de ser identificado como membro da mesma “tribo”, pois essa é a importância política da formação da teia de relacionamentos que sustentam tanto os ambientes de hospitalidade doméstica. Finalizando ressalto a importância do estudo da hospitalidade no universo político a partir de alguns estudos pontuais como um estudo de gênero mais aprofundado, uma vez que o crescente aumento da presença feminina na vida política nacional e na estreita relação da hospitalidade com o gênero feminino é campo promissor para estratégias de campanha. Da mesma forma, novos estudos sobre a importância de questões culturais e a crescente interferência cultural no surgimento de novos formatos de eventos políticos podem ser desenvolvidos. Informações que subsidiam uma reflexão mais abrangente sobre a relação entre movimentos da sociedade civil, sua participação na política institucional pautando as ações de Comunicação Política. Referências Bibliográficas BARREIRA, Irlys Alencar Firmo. A Representação como espelho: universo cultural e político das candidaturas populares. In: XVI ENCONTRO ANUAL DA ANPOCS, 1992, Caxambu. CALDEIRA, Tereza Pires. A política dos outros. São Paulo: Brasiliense, 1984. CAMARGO, Luiz Octávio de Lima. Hospitalidade. 1ª. ed. São Paulo:

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Comunicação, eleições e redemocratização brasileira  
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