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Escrito por Gleiciane Carvalho


Dedicado a todos os meus amigos que entendem (ou pelo menos tentam) a minha imaginação e o meu humor para coisas surreais. E, é claro, a Larissa (minha eterna estrelinha). Muito obrigada pelo imenso apoio, paciência e ajuda incondicional; Sem vocês eu já estaria maluca!


A única coisa tão inevitável quanto à morte é a vida. — Charles Chaplin


UM. — Anna? Anna! Anna acorda, por favor! — eu estava sendo sacudida levemente. Eu estava exausta, mas do que já estivera em toda minha vida. Tudo que queria era dormir por um século ou dois seguidos — Anna! — meu nome foi dito mais uma vez, era um som distante — Acorda, por favor, estou com medo! — Medo? A palavra pareceu ser dita em um alto-falante. — Hum, o quê? — balbuciei enquanto abria meus olhos. — Estou com medo! — disse Molly, ela estava debruçada em cima de mim e suas pequenas mãos apertavam meus ombros. — Tinha alguém no meu quarto. Eu juro! Eu o vi! Você tem que acreditar em mim! — seus olhos brilhavam em expectativa e algo mais que eu não sabia definir, pois, um: estava escuro e dois: eu estava quase desmaiando de sono. — Moll, — comecei — Não precisa ter medo. Deve ter sido só um pesadelo e... Você achou que fosse real, — obriguei minha mente dormente a pensar em algo mais convincente — Isso acontece comigo às vezes. — Não, Anna. Eu tenho certeza, era real! — ela apertou meus ombros para dar ênfase as suas palavras. — Estou com medo. — Como ele era? — eu não sabia de onde tinha vindo essa pergunta cretina. Numa noite normal, onde eu não estaria apenas com metade do meu cérebro funcionado, eu jamais teria a proferido. O que? Agora eu supostamente quero saber como era o que, sei lá o quê, a imaginação da minha irmã de cinco anos criou em seu quarto? — Bom... Ele era... — ela arregalou os olhos e me olhou assustada — Ele... Ai... Eu não me lembro mais. — ela parecia assombrada. Respirei fundo com meus olhos fechados. — Molly volte a dormir, é sério, foi só sua imaginação. Não tem ninguém nessa casa além de nós duas. — minha voz embargada e abafada pelo travesseiro. O aperto em meus ombros foi diminuindo aos poucos. — Posso ficar aqui com você? Não quero voltar para lá. — eu mal a ouvia, mas afirmei positivamente. Não me lembro de muita coisa depois disso. Quando acordei, ela estava deitada ao meu lado coberta dos pés a cabeça. Eu não me lembrava de como ela tinha vindo parar lá.


Tudo que eu queria era dormir mais um pouco e não ter que ir a escola hoje e nem ter que trabalhar depois dela, mas eu não podia fazer isso. O relógio no criado mudo dizia que já havia passado da hora de eu me levantar. Ás vezes eu queria ser apenas uma adolescente normal. E que não tivesse que trabalhar meio-período depois da escola, agüentar o padrasto idiota e... Ser órfã. Queria ter minha mãe de volta, e consecutivamente minha vida. Eu mal conheci meu pai. Ele morreu quando eu tinha três anos. Minha mãe me criou sozinha desde então. Ela era a melhor mãe do mundo. Mas ai o Harry apareceu em nossas vidas e eles se casaram. Ele parecia ser um cara legal e minha mãe estava perdidamente apaixonada. Quando ela engravidou da Molly ele ficou muito feliz. Era o típico casamento perfeito. Os médicos disseram que minha mãe tinha uma doença grave e que por isso não resistiu e acabou morrendo no parto. Ela nos deixou somente a Molly. De inicio eu a culpei; lembro-me de ter gritado que ela que tinha matado a minha mãe, mas quando eu olhei para aquele rostinho inocente e inofensivo não consegui mais acusá-la de nada. E aceitei o que todos diziam: “Foi uma fatalidade”. Eu não sei o que aconteceu com o Harry, mas ele nunca mais foi o mesmo. Ele raramente está em casa: ou está trabalhando ou está bebendo em um bar. Eu achava que seria só uma fase. Mas me enganei. — Hum, está acordando agora? — fingi que não ouvi o seu comentário depreciável. Coloquei um pouco de leite em um copo e cereal em uma tigela — Deveria ser mais responsável, Anna. Bufei, um sorriso irônico se formou em meus lábios, porém eu não tinha a menor remota vontade de sorrir para ele mesmo que ironicamente — Olha só quem me vem falar sobre responsabilidade. A propósito você tem alguma, Harry? Ouvi o som do baque da caneca de porcelana na mesa da cozinha — Eu trabalho para manter esta casa, eu cuido de você... — Tá, tá, tá. — o interrompi — Ok. Eu já sei o seu discursinho, não precisa repeti-lo — sai da cozinha e voltei para o meu quarto. Molly continuava dormindo coberta dos pés a cabeça. Puxei lentamente o lençol. Sua face de anjo era despreocupada. Eu a invejei por isso. — Molly, — chamei, ela nem se mexeu — Molly, vamos acorda. Estamos atrasadas. — Ela abriu lentamente os olhinhos cor de mel, como os de mamãe, e me encarou. — Bom dia! — disse ainda sonolenta, mas já alegre. Ela sempre acordava assim não importava o dia. Eu costumava ser assim também. — Bom dia — eu instintivamente relaxei, era como se eu tivesse a minha vida de volta por um instante. Uma vida onde as primeiras palavras do dia eram gentis e amorosas e


não cretinas ou acusativas — Levante, pequena. Vá para o seu quarto e fique pronta. Seu café está na mesa — eu disse a ela enquanto entrava no banheiro. Logo após tomar um breve, mas nauseante banho e escovar meus dentes, eu tentei dar um jeito no meu cabelo. Mas acabei desistindo, ele sempre ficava do mesmo jeito: estranho. Uma vez Emma tentou me convencer a pintá-lo e eu quase concordei, mas no último instante acabei decidindo que era melhor ter meu cabelo cor de terra do que tê-lo tingido de vermelho-fogo ou de loiro prateado. Algumas pessoas se produzem para a escola como se fossem ir a um evento de moda. Outras como se fossem aparecer na TV. Já eu me vestia com o que tinha e gostava: calça jeans, camiseta e um grande casaco de capuz. Respirei fundo antes de voltar para a cozinha e pude suspirar aliviada quando encontrei somente Molly na mesa. — Não vai tomar café? — perguntou ela. — Não, eu como alguma coisa na escola. — Sabe, Anna, minha professora disse que o café da manhã é a refeição mais importante do dia. E... Que se não comermos acabamos ficando sem energia e doentes. Não quero que você fique doente, então... — OK, senhora — sorri de sua preocupação. Às vezes parecia que era ela a irmã mais velha. — Eu prometo que tomo meu café da manhã mais tarde. Já terminou? — Sim — ela se levantou da cadeira vindo em minha direção. Atravessei o longo corredor que ligava a cozinha à sala. A casa em que morávamos era um pouco rústica em padrão preto e branco. A sala era grande e espaçosa com uma grande lareira para o inverno, já a cozinha era menor com extensos armários e bancadas que fechavam um retângulo ao meio dela; uma pequena mesa de quatro cadeiras; os tons das paredes variavam de preto para o branco, e com alguns detalhes em madeira. Os móveis na maioria eram mognos e os eletros-domésticos brancos. Mamãe a decorou sozinha. Ela era muito talentosa em tudo que fazia. Poderia ter escolhido uma profissão que explorasse mais o seu talento, mas Violet escolheu ser advogada. — Pegou sua mochila? — perguntei, enquanto tirava a minha de dentro do armário. — Sim. O Jardim de infância ficava a poucas quadras da minha escola. Se eu tivesse sorte conseguiria chegar lá e deixar a Molly e ainda teria tempo para correr até a Grand Lake High School antes de o sinal tocar. Se eu tivesse sorte. Na porta de entrada beijei suavemente a bochecha dela — Tchau, boa aula. — Obrigada, para você também — ela sorriu graciosamente — Ah, Anna, quase me esqueci. Harry te deixou um recado antes de sair — ela nunca o chamou de pai — Disse


que quer que você faça um jantar... Descente — ela revirou os olhos ao som da palavra — Vai trazer alguém para casa esta noite. Meu estomago se revirou de horror e nojo. Com certeza ele tinha encontrado alguma... Enfim, e vai trazê-la para casa essa noite. Nossa casa. Minha e da Molly. Eu queria bater na cabeça do Harry. Eu queria que ele fosse embora e nunca mais voltasse para arruinar nossas vidas. Eu queria... Atenuei meu rosto o quanto pude e tentei dar um último sorriso de despedida para ela. Continuei meu caminho para a escola. Faltavam exatamente dois minutos para o sinal tocar. O caminho do Jardim de Infância até a Grand Lake dura uns cinco minutos. Talvez eu conseguisse fazê-lo em três. O ensino médio, para mim, nada mais é do que uma barreira que tenho que ultrapassar. A maior barreira, aliás. As coisas não são fáceis quando você não se encaixa em nenhum grupo. Há muito tempo atrás eu tentei me enturmar com alguém da Grand Lake. Mas é claro que foi um completo fracasso. Depois disso eu me acostumei a ser a ―anti-social‖. Eu acho que se não fosse por Emma, minha melhor amiga, todos achariam que eu tinha alguma deficiência mental ou psicológica. Emma Newton é a minha melhor amiga desde sempre. Minha mãe era a melhor amiga de Rose, a mãe dela. Elas eram tão ligadas que acabaram ficando grávidas no mesmo ano. Depois da morte de mamãe, Rose tem sido a coisa mais próxima de mãe que eu e Molly temos. Eu corri praticamente todo percurso até a escola. Eu deveria ser poupada das aulas de Ed. Física por semanas, eu posso jurar que meu condicionamento físico é melhor do que o da maioria dos alunos. Havia poucas pessoas no corredor da escola. Entre eles estava Emily Morgan, a ―rainha soberana da Grand Lake High School”. Seu cabelo loiro claro quase prateado reluzia conforme seus pequenos movimentos, enquanto ela passava o gloss labial encostada em seu armário. Na sua frente estava Ryan Brandon seu ex-passatempo preferido. Ryan é o capitão do time de basquete da escola, então se Emily é a ―rainha‖, é claro, que Ryan é o ―rei‖. Ou era. — Eu sei que tinha prometido te ligar ontem à noite, baby. Mas... — ele pausou. Estava mais do que claro que ele tentava inventar um desculpa de última hora. — Você sabe, tive que respeitar meu toque de recolher. Emily se manteve indiferente. Eu não tive tempo e nem quis ouvir sua resposta, apenas passei por eles apressada. Minha primeira aula já tinha começando há cinco minutos. O Sr. Norton, meu professor de inglês, odeia atrasos, — o boato é que no dia de seu casamento com a Sra. Norton, ela acabou se atrasando tanto que até o padre foi embora e desistiu de fazer o casamento — mas ele tenta manter-se calmo e não gritar com os alunos que chegam atrasados — assim como ele deve ter feito quando sua esposa entrou na igreja de véu e grinalda, enfim, tudo lindo, maravilhoso e nos conformes, exceto por não haver mais nenhum convidado restando e por o padre ter ido embora.


Quando eu entrei na classe o Sr Norton, por sorte, não havia começado a aula. Pude ver o olhar desaprovador que ele me lançou por cima de seus óculos quadriculados quando passei por ele para ir para o meu lugar. Eu era a única na classe que tinha a grande mesa branca somente para mim — traduzindo: Eu era a única excluída da classe — e por isso sempre deixava meus livros jogados na cadeira ao meu lado. Mas hoje ela estava ocupada... — Hum-hum — o Sr Norton pigarreou chamando a atenção de todos para ele — Temos um aluno novo na classe. Seu nome é Oliver Coleman. Espero que se dêem bem com o novo colega — ele disse isso olhando inquisitivamente para mim. Eu apenas acenei com a cabeça incapaz de dizer algo como: ―boas-vindas‖ para o meu novo parceiro. Eu não sei exatamente o que estava acontecendo comigo e nem o porquê de eu não conseguir olhar para o meu novo ―parceiro‖. Tudo que entrava em meu campo de visão eram suas mãos brancas e seu pulso um pouco descoberto pela blusa branca de manga comprida. Mas o que estava me deixando quase louca eram as sensações estranhas que varriam meu corpo, e o modo como meu coração ficou acelerado quando seu perfume doce e excêntrico entrou por minhas narinas. E é claro, havia algo que eu não sabia identificar exatamente o que era. Algo que me repelia a olhar para ele; algo que me dizia para sair do seu lado o mais rápido possível; algo que me dava medo. E então eu percebi o que estava acontecendo comigo, não interiormente, mas fisicamente. Minhas mãos não paravam de tremer, — apesar de eu não sentir nem um pouco de frio — e minha respiração era tão instável que era como se eu estivesse tendo um ataque de asma, só que sem a asma. Enfiei minhas mãos no bolso do meu casaco e tentei me acalmar desviando a atenção das mãos brancas que estavam ao meu lado para olhar para o Sr Norton. Mas o cheiro era embriagante e parecia que tomava todo o ar, apesar de ser suave, — era como uma névoa doce que cortava todos os meus outros sentidos e que me deixava arrepiada dos pés a cabeça. — É uma tarefa simples. E eu quero que vocês a façam com a mesma empolgação que têm para ir a uma festa. — eu escutei alguns risos debochados atrás de mim e um coro de ―Uhul‖ seguidos de ―Ahhh‖. — Eu estarei supervisionando vocês. Quero que passem o maior tempo possível com seus parceiros. — arregalei meus olhos, tentando ver através da névoa, percebendo que eu havia perdido algo. — Sim, Srtª Tanner? — Tipo, como assim todo o tempo? — Stacy Tanner, a segunda garota mais popular da escola e melhor amiga — ou como Emma a chama: cópia — de Emily Morgan, perguntou. Ela estava sentada apenas uma fileira a minha frente. Antes que o Sr. Norton pudesse abrir a boca para respondê-la, Rick Ashton respondeu: — Tooodo o tempo, baby! Saiba que eu adorarei observar você... Toooodo o tempo! Isso é que é por a matéria em prática!


— Hamm, Sr. Ashton sinto informá-lo, mas o trabalho não visa invadir a privacidade de sua colega e sim para que possa conhecer melhor a sua personalidade e talvez até que possam ser amigos. — ele frisou bem o, ―amigos‖. Eu estava visivelmente atordoada. Sim, eu havia entendido o trabalho e sim eu entendi exatamente qual a sua finalidade, o que estava me deixando assim era o fato de que eu não sabia nada sobre o meu ―parceiro‖, quer dizer, ninguém sabia exatamente nada sobre ele. E sem contar que eu ainda não havia nem olhado para ele direito. — Bom, eu vou deixar vocês livres para conversar com seus parceiros. Podem começar o trabalho hoje. Eu estarei observando da minha mesa. Se eu perceber que não estão conseguindo se socializar, tirarei ponto da nota dos dois. Ah, e nem pensem que podem me enganar com qualquer coisa, eu estou de olho em vocês. — ele tentou deixar sua voz sombria no final, mas sua tentativa de nos deixar assustados foi um fracasso, porque todo mundo sabe que nem Sr. Norton e nem ninguém daria conta de supervisionar todos os alunos da classe. Todos começaram a tagarelar com seus parceiros sem parar, e eu... Bem o único movimento que fiz foi apoiar meus cotovelos na mesa. O meu plano inicial era esperar os próximos quarenta minutos passarem para que eu pudesse respirar um pouco de ar limpo longe daquela sala e longe do meu ―parceiro‖. Mas eu sabia que havia uma parte de mim que queria que os ponteiros do relógio andassem bem devagar para que eu pudesse ficar ali sentindo aquele delicioso cheiro que parecia dar descargas elétricas no meu coração. — Algum problema, Srtª Mathers? — o Sr. Norton me olhava fixamente de sua mesa. — Não, nenhum. — eu fingi um meio sorriso enquanto dava de ombros. Ele continuou olhando para mim, então lançou um olhar para o meu ―parceiro‖, e depois abaixou o olhar para o papel em suas mãos. Eu dei um longo suspiro, sabendo que não haveria alternativa a não ser me socializar com ele. Porém, como eu uma não-sociável de repente me socializarei assim num passe de mágica? E como eu poderia ignorar as sensações estranhas que eu estava sentindo simplesmente só de estar perto dele? Como eu poderia observá-lo sendo que eu mal consigo olhá-lo? Eu disse a mim mesma que eu estava sendo ridícula e que não era necessário observá-lo, bastava perguntar algumas banalidades, escrever suas respostas num papel e depois entregar para o Sr. Norton. Mesmo que a minha nota não fosse boa ela, com certeza, não mancharia o meu boletim impecável. Então, eu respirei fundo sentindo o seu doce aroma inflamar meus pulmões e não pude deixar de pensar em escrever no número um da lista: Ele cheira muito bem — é claro que eu nunca escreveria isso na redação — mesmo que seja pura verdade. Eu fui vagando meu olhar casualmente pela mesa e quando meus olhos fitaram seus ombros virei minha cabeça de uma vez para vê-lo. E então foi como se seus olhos estivessem me levando para dentro de um profundo e hipnotizante buraco.


DOIS. Eu queria me olhar em um espelho e dar uma boa olhada para a minha expressão. Choque e incredulidade deveriam ser o que eu veria. Céus, o que era aquilo? Era como se eu tivesse sido sugada para um buraco profundo, onde o azul predominava também interiormente. Aqueles segundos foram os mais longos de toda a minha vida. Parecia que eu tinha parado no tempo, não melhor, como se seus olhos tivessem parado o tempo. Eu voltei a mim quando ele sorriu. Pisquei algumas vezes tentando me estabilizar. — Olá — a voz dele era como veludo de tão macia, quase tão embriagante quanto seu perfume. Passaram-se alguns segundos antes de eu encontrar a minha voz. — Oi — foi só o que consegui dizer, e eu realmente não tive a intenção de soar ríspida, mas quando eu escutei o tom da minha voz deduzi que seria melhor nem tê-lo respondido por que seria mais educado. E para a minha surpresa em vez de se calar e se afastar de mim, como qualquer outra pessoa normal faria, ele só alargou seu sorriso expondo seus dentes brancos perfeitamente enfileirados, que me fizeram arrepiar dos pés a cabeça. Eu desviei meu olhar de seu sorriso e voltei a fitar a mesa, seu olhar parecia me queimar observando cada pequeno movimento que eu fazia. Espera, eu estava sendo observada? Ele já começou a fazer isso? — De onde você veio? — Parabéns Anna, bem não natural! Ele não respondeu de início, o que me fez pensar que ele havia se tocado e percebido que eu não era uma boa pessoa para começar uma conversa no seu primeiro dia de aula. Mas então ele disse: — Los Angeles — E ele disse isso de forma tão irônica que me fez olhá-lo novamente. Meus olhos o inspecionaram e notaram que, além de sua aparência de um astro de Hollywood, não havia nada de muito estranho nele. Então porque eu sentia essas sensações estranhas? — A Califórnia é legal?— Eu perguntei, mas na verdade não era isso que eu queria perguntar por que a Califórnia é legal, e é claro que eu sabia disso por que os melhores anos da minha vida foram lá. — Não sei, me diga você — ele me olhava divertido arqueando uma sobrancelha. E eu não pude deixar de notar novamente o quanto ele era bonito e o modo como seus olhos sempre procuravam os meus fazendo-me novamente cair o buraco azul e misterioso.


— A Califórnia é legal — eu disse monotonamente sem perceber de início o modo como ele disse ―me diga você”, como se soubesse o que eu havia pensado. E então ele pegou uma caneta e eu desviei meus olhos para o seu papel enquanto ele escrevia: Anna Belle Mathers — Como sabe meu nome? — ele apenas deu mais um de seus sorrisos irônicos e continuou escrevendo sem me responder.

Ela tem um passado ensolarado e feliz no sul da Califórnia, mas não gosta de falar sobre ele. Minhas sobrancelhas se arquearam enquanto eu lia a primeira linha, e em vez de engolir em seco, revirei meus olhos. Ele estava blefando, chutando ou tentando ficcionalizar minha vida. Podia ser qualquer uma das três opções, mas nenhuma implicava o fato de que ele estava absurdamente certo. — Humm, — eu tentei preparar minha voz para que ela saísse de um jeito relaxado ou quase entediado — Não pode inventar. Ele deu um meio sorriso, largou a caneta em cima do papel e se virou para me olhar e eu esperei novamente cair no buraco azul e misterioso de seus olhos, mas desta vez nada aconteceu. E eu pude ver sua superfície que era de um azul intenso feito safira, e que, apesar de serem lindos fez os pelos da minha nuca se arrepiarem de tão sombrios que eram. — Acha que estou inventando? — não soou como uma pergunta e sim como uma acusação, como um juiz que tem todas as provas de que o réu é culpado e espera que ele admita seu erro antes do decreto final. Eu tentei não gaguejar e parecer indiferente á ele e aos seus olhos que pareciam detectar cada minúsculo movimento meu — Sim. Você não me perguntou se eu já estive na Califórnia. — Eu não preciso perguntar para saber — ele disse isso como se fosse algo comum que todos fazem. E não desviou nem por um instante seu olhar do meu. — Hum, então você é tipo o quê? Um vidente? Ele tombou sua cabeça para o lado como se quisesse me ver de um melhor ângulo. — Não... Eu não sou um vidente. — Ah que pena porque eu estava prestes a lhe perguntar se iria ser reprovada em Química. — consegui dizer me perdendo de seu olhar por um instante. Ele deu um minúsculo sorriso quase imperceptível — Nós dois sabemos que você vai passar, é uma das melhores alunas da classe — ele se interrompeu — Não, melhor da escola inteira. — Eu deveria agradecer?


— Não, porque eu ainda não terminei — ele agora parecia me queimar diretamente com o olhar me impedindo de desviar ou até mesmo piscar — Você pretende terminar o ensino médio e dar o fora desta cidade o mais rápido possível. Talvez Yale? Ou Harvard? Elas com certeza estão entre suas opções, mas você esta indecisa, aliás, ser indecisa é um de seus maiores pontos fracos. E ainda tem o fato de que você quer voltar para Los Angeles... Contudo tenta enganar a si mesma dizendo que não. Talvez, quem sabe, um dia não é Anna? — ele sorriu continuando — Já quase fugiu de casa, pensou em se matar, mas não é egoísta o suficiente ao ponto de abandonar a sua irmãzinha. E também é muito certinha. Escreve coisas que o mundo merece ler, sério, eu acho que você deve lutar para publicar aquilo; não é tão imaginário e surreal como você pensa. Eu pisquei me vendo livre de seu olhar, mas incapaz de engolir em seco ou rir como se aquilo fosse uma grande piada. Porque não era. Ele disse aquilo tão sério e convicto, me olhando como se eu fosse totalmente transparente, como se me conhecesse á anos e não á somente minutos. Eu era incapaz de esboçar qualquer que fosse a emoção, mas eu estava, por algum motivo, extremamente irritada. — Você não sabe nada sobre mim. — E agora era eu que procurava seus olhos tentando fazer dos meus frios e agressivos. Ele apenas sorriu amplamente se aproximando o máximo que a distância de nossos assentos permitia e sussurrou assustadoramente, apesar de sorrir: — Eu conheço você, Anna Belle. Eu conheço cada minúsculo subconsciente pensamento seu. — seu hálito fazendo cócegas em meu rosto ficando ele tão próximo que apenas um curto espaço nos separava. Eu tremi, mas não de frio. Ele se aproximou ainda mais, quase encostando seus lábios nos meus, desviando no último segundo para minha orelha esquerda. — Foi um prazer conversar com você, parceira — E se levantou pegou suas coisas e saiu pela porta. Eu queria me levantar e dizer que ele não conhecia nem se quer remotamente parte de quem eu sou. Eu queria olhar bem nos olhos de Oliver Coleman e dizer para ele ir cuidar da sua vida bem longe de mim, e que o que tivemos hoje foi mais um monologo entre duas pessoas que falam línguas diferentes do que uma conversa. E que eu não me importava se foi um prazer para ele ou não. Mas eu não consegui. Somente fiquei ali parada encarando o vazio, e continuei assim pelo o resto das minhas aulas. E na hora do almoço, quando Emma me perguntou se eu estava bem eu penas acenei com a cabeça. — Não parece, você nem tocou na sua comida. — ela apontou para a bandeja intocada a minha frente e uma parte do meu cérebro se lembrou do que tinha dito a Molly esta manhã. Peguei em um movimento robótico uma batata do saco de Ruffles1, mal sentindo o gosto. Mais tarde no trabalho, eu me distraí olhando o café que eu quase tinha derrubado numa garota ruiva — Oh, me desculpe. — pedi limpando o liquido preto e de cheiro forte da 1

Marca de batata-frita


mesa — Eu lhe trago outro café num instante. — disse eu saindo apressada, indo em direção a cozinha. — O que houve? — Lizzie perguntou preocupada. Ela tinha por volta de uns trinta anos, não tinha filhos, não era casada e morava com o pai e seu cachorro. — Nada — respondi esperando a xícara de café ficar cheia. Ela caminhou lentamente até mim, suspirou e depois deu de ombros saindo . Depois do expediente Chuck, o sobrinho do Sr Anderson e por conseqüência o gerente, veio me trazer o envelope que eu esperei a semana toda para ver, — não que fosse algo muito, muito bom, mas era o suficiente para eu continuar a vir a trabalhar no Anderson‘s — meu pagamento. Ele estava no último ano da escola e as únicas palavras que me dirigiu dentro e fora da Grand Lake foram: ―Você está atrasada‖, ―Vou descontar do seu salário‖ e, ―Ah desculpe, pensei que fosse outra pessoa‖. No estacionamento dos funcionários Lizzie me chamou atenção acenando de sua SUV2 grande demais para somente ela. — Hey quer uma carona? Eu primeiramente pensei em aceitar, mas então me lembrei que teria de comprar uma coisa antes de ir para casa. — Não, obrigada. Eu tenho que resolver algumas coisas. Entrei na Lunabella, uma lojinha onde se encontrava de tudo que se podia imaginar, e ao passar pelo departamento de livros um me chamou a atenção. Na capa, gafado em meio à camurça o nome: Lunabella. Peguei-o observando melhor de perto, procurando pelo autor ou pela editora, mas nada havia ali além do nome escrito em vermelhosangue. — Hey, estranha. Largue os livros e comece a pegar homens! Um gatinho lindo acabou de sair da loja — a voz nasalada e aguda soou atrás de mim e eu automaticamente depositei o livro na prateleira. Olhei para ele surpreendida ao ver como ele tinha mudado em tão pouco tempo; Seu cabelo agora estava cortado em uma franja lateral que quase cobria seus olhos na pele branca e fina, e suas roupas estavam ainda mais coloridas em sua magra e baixa estatura. — Luke? O que faz aqui? Deveria estar em Oregon cuidando da sua tia doente! — não era uma acusação pelo tom de voz que usei. — Ah, lá vem você também com a baboseira do sobrinho bonzinho ir cuidar da titia doente — ele gesticulou com as mãos fazendo uma careta cômica — Meu bem acredite em mim quando digo que aquela velha vai viver mais do que nós. E além do mais eu não agüentava mais aquelas coisas loucas que ela falava. —Eu ri revirando meus olhos, 2

Carro de grande porte


voltando meu olhar para a prateleira — Então o que andou aprontando? Cabulou aula? Perdeu a virgindade? Usou camisinha? Fugiu de casa com ele? — Não! — eu não sei por que ainda me surpreendo com suas perguntas infames — Viu a Emma? — perguntei, mudando de assunto. — Sim, liguei para ela assim que cheguei... Você pode me fazer um favor e me dizer quem é esse tal de Oliver Coleman? — ele perguntou ao meu lado. Eu estremeci levemente dos pés a cabeça ao som do nome. E antes que eu me recuperasse para respondê-lo ele prosseguiu: — Ela não parou de falar nele. Diz aí, ele é gatinho? — Hum, é só um garoto novo na escola. — Eu dei de ombros fingindo estar distraída com um livro. Ele não disse nada o que me fez corar, nas raras vezes em que ele ficava calado era porque ele estava observando atentamente procurando vestígios de algo que tinha ficado no ar. Mas no meu caso, agora, não havia nada. Ou havia? Ele era só um garoto. Um garoto bastante estranho. Mas somente um garoto. — Está trabalhando no caixa de novo? — Peguei novamente o livro de camurça, e abrio na primeira página. Havia um nome escrito em dourado: Elisabeth di Veroni. — Sim, estou sendo escravizado de novo — ele se encostou de costas para a prateleira ao meu lado. — Sabe quanto custa isso? — ergui o livro para que ele pudesse ver. — Não, mas para mim, isso não vale nem um centavo. Se gostar, leve pra você, meu avô nem vai perceber mesmo, e além do mais quem iria querer comprar esta velharia? Faça de conta que você achou no lixo. Veja só está até com o nome do lixo: Lunabella — ele disse, enquanto eu ria. — Tudo bem, obrigada pelo presente encontrado no lixo. — ironizei, colocando-o em baixo do braço. — Eu tenho que ir. Só preciso pegar uma coisa. — falei andando pelo corredor de CDs e DVDs, indo em direção ao de brinquedos. — Voltou a ser criança? — ele fez uma piada quando eu parei em frente a uma Barbie na caixa. — Não, é que a Molly está de olho nesta boneca desde que foi lançada — peguei a caixa cor de rosa com uma linda Barbie em um vestido luxuoso em miniatura. Ela sorria e seu cabelo loiro estava preso em um coque-alto. — Vou dar a ela de presente de aniversário. — Humm, eu queria ter uma irmã como você. Sempre tão prestativa... Já sei Anna, porque você não me adota? — ele riu e eu revirei meus olhos. — Não sério. Essa boneca é mais cara do que minha TV, quem deveria estar comprando isso para ela é o Harry e não... — ele se interrompeu — Desculpe, eu sei que falo demais. Eu e minha boca! Eu suspirei.


— Não, tudo bem. — andei com ele em direção ao caixa. Ele foi para trás do balcão e passou o código de barras. Peguei o dinheiro e dei a ele. Eu não me importei em ter gastado metade do dinheiro somente com aquela boneca; era para a Molly, então valia o preço. Dei tchau para ele e sai para a noite fria. A rua estava vazia, a não ser pelos garotos encostados em uma escada e pela mulher que acabara de entrar no carro com uma criança. Coloquei minhas mãos no bolso da jaqueta. O embrulho do presente estava dentro da minha mochila. Eu só o daria a Molly no dia de seu aniversário. Olhei por cima de meu ombro só por puro hábito, os garotos continuavam lá e a mulher tinha acabado de sair com o carro. Uma espécie de arrepio passou por minha espinha e eu apressei o passo. Olhei para os dois lados antes de atravessar a rua. Uma fina garoa começou a cair e eu puxei o capuz para cima. O som dos meus passos e a minha respiração era a única coisa que eu ouvia. Eu estava estranhamente em alerta e continuei assim até chegar a casa. Molly estava sentada no sofá com o controle remoto na mão, ela sorriu quando me viu — Como foi o seu dia? — Normal. — eu dei de ombros mentindo, é claro, meu dia não foi nada normal — E o seu? — Foi ótimo. Sabia que vamos fazer uma peça teatral? —ela disse exultante — O tema é Romeu e Julieta. Ergui uma sobrancelha. — Romeu e Julieta? — Sim, a professora disse que esse tal de... Shapeare era um ótimo escritor. — Shakespeare — Corrigi-a, sorrindo sentando no sofá. — Isso. Era esse o nome — voltou-se para a TV, notei que ela usava um vestido florido, que seu cabelo estava preso com presilhas azuis e nos pés ela usava uma sapatilha prateada. Arrumada demais para um simples jantar. — Quem te arrumou assim? — perguntei. — Nancy. Ela fez o jantar também. Disse que foi o Harry que mandou. — mudou o canal da TV, As Meninas Super-Poderosas estavam na tela. Ela vidrou seus olhos de concentração e não disse mais nada. Nancy é a babá — de sessenta anos — da Molly. Eu suspirei enquanto subia as escadas para ao meu quarto. Ao me ver sozinha, desabei na cama querendo dormir para me salvar de meus pensamentos, mas eu tinha plena consciência de que eles me perseguiriam onde quer que eu fosse.


E aqueles malditos olhos que pareciam estar me queimando o dia todo. Droga de garoto esquisito! O que há de errado com ele? Aliás, o que há de errado comigo? Depois de tomar banho e me vestir adequadamente, — não que eu quisesse causar boa impressão para quem quer que o Harry trouxesse para casa — voltei para a sala. Ao passar pela sala de jantar me deparei com algo que não via há muito tempo: A mesa estava posta com a nossa segunda melhor louça, uma das preferidas de mamãe. Eu abaixei meu olhar para o chão sentindo o familiar aperto no peito. Entrando na cozinha fui em direção ao fogão, um cheiro delicioso pairava no ar. Havia um frango no forno que parecia estar muito bom, bem diferente da comida congelada que comíamos á anos. Ouvi a porta da frente sendo aberta e vozes. Voltei lentamente para lá, adiando ao máximo o show de horror. A primeira coisa que vi ao adentrar o cômodo foi o rosto sorridente do Harry, o que eu não via desde que minha mãe morreu. E depois meus olhos se cruzaram com os de uma linda mulher de cabelos castanho-claros, ela sorria para mim. O rosto perfeito, sem nenhuma marca de rugas, oval e de nariz reto e clássico. Vestida com um sobretudo preto que logo foi retirado por Harry, expondo seu lindo vestido de cashmere. Ela não se parecia em nada com o que eu imaginara. Logo atrás dela estava ele, com um olhar fixo, que ao mesmo tempo em que estava divertido estava obscuro; Nem um pouco surpresos, ao contrário dos meus. E de novo, mesmo que eu já estivesse preparada, fui puxada para dentro do buraco hipnotizante de seus olhos. Eu lutei para desviar os olhos dele e consegui a tempo de ouvir Harry dizer: — Estas são Anna e Molly. Minhas filhas. — eu ergui uma sobrancelha – que era a única parte de meu corpo que eu parecia ter controle no momento – estranhando o ―minhas filhas‖, ele devia estar muito alienado para usar este termo – não que eu estivesse em uma situação diferente. — Meninas, estes são Oliver e Susan Coleman: nossos novos vizinhos.


TRÊS. Eu tinha vontade de vomitar em cima do frango. Não que o gosto estivesse ruim ou que sua aparência fosse detestável, longe disso, estava muito bom; Estava delicioso antes dos nossos convidados, e que a pouco eu descobri que são nossos novos vizinhos, chegarem. A rua em que morávamos não é bem a mais habitada. Os donos da maioria das casas morreram e seus parentes ou filhos saíram da cidade e parece que se esqueceram delas. Havia uma ou duas casas no começo da rua que foram vendidas, mas quem as comprou não apareceu. E havia a casa em frente a nossa casa. A misteriosa casa com a placa vende-se desgastada pelo o longo tempo em que está lá. Esteve... — A casa de vocês é linda — Susan tinha comentado quando entramos na sala de jantar — Sua esposa tinha um ótimo gosto para decoração, Harry. — Obrigado. Violet era muito talentosa em tudo que fazia — Havia certo pesar no tom de voz que ele usou, mas eu não me importei em olhá-lo enquanto sentava a mesa ao lado de Molly. Eu mexia a comida de um lado para o outro mal prestando atenção no que eles diziam na mesa, até que senti um leve cutucam no meu ombro e olhei para o lado para ver Molly me encarar com os olhos semi-serrados e as sobrancelhas franzidas parecendo esperar minha resposta para algo que eu havia perdido, eu aguardei ela repetir o que tinha dito: — Você não disse que a casa da frente era mal assombrada? Eu me engasguei com minha própria saliva, enquanto ouvia três tipos de riso: o primeiro fino e delicado; o segundo o mais macio que fez minhas bochechas arderem; e o terceiro num tom grave e conhecido que eu achava que nunca mais ouviria novamente. Eu esperei eles pararem de rir e conseqüentemente o rubor sair de meu rosto. — Por que acha que a casa da frente é mal assombrada, querida? — Susan perguntoume. Ela estava sentada a direita de Harry; que por sua vez estava sentado na ponta da mesa. Molly a sua esquerda eu ao lado dela, e bem ele estava sentado ao lado de Susan, ou seja, a minha frente. Eu evitei manter contato visual com ele desde o primeiro momento que o vi entrar pela porta. Eu dei de ombros, mas o movimento foi muito rígido para sair despreocupado enquanto respondia: — Coisas de irmãs. Era só uma história... — disse eu, fitando minhas mãos em cima da mesa, ainda sentia meu rosto quente. Harry riu mais uma vez e eu olhei para ele desta vez. Eu comecei a desconfiar que ele não fosse o mesmo Harry desta manhã e nem os destes longos cinco anos. Ele retribuiu


o olhar e havia ali um brilho estranho, algo como... Felicidade? Ele olhou para o lado oposto da mesa e então disse: — Anna estuda na mesma escola que você, Oliver. Já haviam se conhecido? Não. Eu não o tinha o conhecido. Ele que me conheceu. Ou melhor, parecia que ele já me conhecia. Deixei meus olhos se levantarem por um instante, o suficiente para vê-lo dar mais um de seus sorrisos irônicos — Somos parceiros em Inglês. — Ah mais que ótimo, querido. — Susan deu um meio sorriso, uma covinha apareceu em sua bochecha, observando-a melhor de perto percebi que não havia nenhuma linha de envelhecimento ao redor de seus olhos. Ela parecia ser jovial desde a aparência até a personalidade — Espero que se tornem grandes amigos. Controlei-me para não bufar. De uma coisa eu estava certa: Oliver nunca seria meu amigo. Não depois de ele praticamente falar da minha vida como se tivesse lido sobre ela em algum lugar. Não depois de ele agir tão estranhamente ao ponto de me dar medo. — Estou certo que serão — disse Harry — Violet — ele pausou um breve, quase imperceptível instante, ele praticamente nunca usou o nome desde que ela se fora, no entanto hoje já o usou duas vezes — Uma vez me disse que o que a literatura une ninguém separa. — Hum, bela frase — comentou Susan. — Ou, no nosso caso, uma redação — murmurou Oliver. Pega de surpresa eu levantei meu olhar, mas ele não olhava para mim e sim para Harry. — Redação? — Sim, temos que fazer uma — seu rosto estava divertido. — Qual o tema? — Anna. — ele respondeu calmamente, um sorriso imperceptível em seus lábios, enquanto ele virava o rosto para mim. Eu olhei para outra direção antes que seus olhos me prendessem. — Anna é o tema? Que legal! — Molly disse, eu a olhei espantada. Como assim que legal? — Eu não sou o tema — comecei a explicar o que o meu parceiro esqueceu-se de fazer — O tema é observação. Temos que observar-nos e escrever o que vemos em um papel. Só isso. Não é legal. — Tipo espiões? — ela sorriu com os olhos brilhando. Eu quis bater na minha testa. Ou melhor, na testa de meu parceiro. — Não. Espiões bisbilhotam, e bisbilhotar a vida alheia é errado — uma leve indireta. Ele percebeu, pois vi pela minha visão periférica outro de seus sorrisos.


Eu me sentei no sofá contra a minha vontade depois daquilo. Eu ainda tinha vontade de vomitar. Harry começou uma conversa animada com Susan sobre o trabalho. Ela, por coincidência, também irá trabalhar no mesmo hospital onde ele trabalha. O que eu achei muita coincidência para a minha sanidade mental. Levantei-me e fui até a cozinha tirar a louça da máquina. Na verdade eu só queria ficar um pouco sozinha para poder reorganizar os meus pensamentos. Estava tudo acontecendo de um jeito estranho e eu não gostava disso. Primeiro Oliver na escola, depois a estranha sensação de estar sendo seguida, e agora Harry com sua estranha... Felicidade? É, era isso que eu começava acreditar que fosse o brilho em seus olhos. Eu quase deixei os pratos caírem no chão quando uma voz veio de trás de mim: — Quer ajuda? Ainda não totalmente recupera do susto respondi: — Não. — e foi tão arrogante que eu me obriguei a completar — Obrigada. E ainda sem me virar para ele caminhei até a prateleira de pratos para colocar a pequena pilha de volta ao lugar. Mas era alta e eu certamente precisaria de algum banco para alcançar. A primeira coisa que vi para subir foi à cadeira da mesa da cozinha. Eu poderia subir nela ou pedir a Oliver que colocasse os pratos na prateleira. Não se precisa de muito esforço para saber qual foi minha opção. — Tem certeza que não quer ajuda? — eu podia ouvir o sorriso em sua voz. — Tenho. — desta vez eu não me incomodei em ser mais educada. Movi a cadeira de lugar deixando os pratos na pia. — Cuidado. — alertou-me ele, enquanto eu subia vi-o de relance encostado na bancada com os braços cruzados e um leve sorriso irônico no canto dos lábios. Os músculos e a pele branca expostos pela camiseta preta de mangas curtas, a calça Levi‘s3 meio surrada com botas também pretas. E por um instante meu olhar se perdeu em suas feições, o suficiente para me desconcentrar e a cadeira tremer sob mim. Os pratos escorregaram das minhas mãos. E eu já podia imaginar sentir a dor, primeiro dos cacos de vidro e porcelana me cortando e depois da queda. Mas antes que isso pudesse acontecer braços fortes me envolveram. Não houve baque de coisas se quebrando: nem de meus ossos, nem dos pratos. Somente o baque silencioso de seu perfume, agora mais forte e ao mesmo tempo mais suave do que nunca, inflamando meus pulmões. 3

Tipo de calça jeans


— Eu disse para ter cuidado... — seu hálito doce foi lançado perigosamente em meu rosto, como uma neblina inundando novamente meus sentidos, enquanto ele me colocava no chão. Atordoada, cambaleei para o lado quase tropeçando nos meus próprios pés. Ele me segurou pelos meus cotovelos. — Você está bem? Eu acho que fiz que sim com a cabeça, mas não tinha muita certeza dos meus movimentos. Minha cabeça girava, era como se eu tivesse levado um choque elétrico. Eu precisava sair dali, eu precisava sair dali agora. Então por que minhas pernas não me obedeciam? E a sensação desconfortável não passou até ele retirar suas mãos de meus cotovelos. Eu pisquei algumas vezes voltando a mim, por um momento eu cheguei a acreditar que fosse ele que havia provocado aquilo. Observei-o pegar os pratos em cima da bancada onde ele havia estado encostado e casualmente colocar em cima da prateleira sem se quer se esticar. Colocou a cadeira junto à mesa, e depois se voltou para mim com uma sobrancelha arqueada me olhando fixamente, e por mais que eu tentasse resistir a ele mais uma vez me perdi no buraco profundo e azul de seus olhos, durou tempo o suficiente para ele estar a poucos centímetros de mim de novo, e para a mesma sensação estranha voltar. — O que você quer? — perguntei sem fôlego, me agarrando a borda da madeira, meus joelhos fraquejando. Ele sorriu mostrando seus perfeitos dentes cintilantes. — Muitas coisas. — eu notei que havia certa malicia no modo como ele disse, mas tentei me manter indiferente a isto. — Mas neste momento estou esperando que uma garota me agradeça por não a deixar se esborrachar no chão. Eu prendi a respiração, tentando me desvencilhar da neblina. Acabe com isso logo e saia daí. — O... Obrigada — eu disse sem ar. Ele sorriu minimamente e se afastou. — Disponha. — Corra, corra. Droga de pernas que não me obedecem. Eu calculei a distância entre eu e ele. Depois entre eu e a porta. E meus instintos não gostaram nada de ele estar mais perto do que ela. — E, então, quantas linhas? Eu desviei meus olhos da porta e me arrependi de tê-lo o feito. Eu não sabia o que era pior: o buraco profundo e misterioso de seus olhos ou sua superfície como safira e congelante. Engoli em seco, os pêlos da minha nuca se arrepiando. — C-como? — A redação. Quantas linhas eu já tenho? — pisquei meio que voltando a mim. Eu meio que sorri – uma clara tentativa distorcida de imitar o seu sorriso.


— Acho que... Nenhuma. — Eu pensei que iria apagar aquele sorrisinho cínico de seu rosto com isso, mas me enganei tudo que ele fez foi alargá-lo. — Uau! Isso significa que eu sou altamente misterioso ou que eu sou totalmente desinteressante? Totalmente desinteressante, por favor, diga isso. — Os dois. — Eu me peguei dizendo em vez disso. Ele deu um passo em minha direção, o sorriso nos lábios e o os olhos sombrios ainda em seu rosto. — E isso é bom? — girou em seus calcanhares ficando de costas para mim, e finalmente pude ter parcialmente controle sobre minhas pernas o suficiente para me manter de pé, mas minha nuca continuava arrepiada e eu comecei a suar frio. Meu olhar em seu punho semicerrado. Neste momento eu tive consciência do por que tinha de sair dali. Recusei-me acreditar no primeiro instante, mas havia algo que praticamente gritava dentro de mim – acho que meus instintos, – dizendo o que parecia loucura, mas que parecia estar na minha cara: Oliver não era somente um cara estranho... Há algo nele que vai além disso. E por algum motivo, que eu não sabia qual, ele não gostava de mim. Não que eu não estivesse acostumada com a rejeição. Normalmente as pessoas nem se aproximam de mim. Emma já tentou me convencer de que isso não é verdade, mas não há como negar o que está ali. Acho que eu tenho algo que repele as pessoas. Ou elas tem algo que me repelem. Ele de repente se virou de novo para mim com os olhos ainda sombrios, com uma mão massageando suas têmporas. — Eu tenho que ir. — e dizendo isso me deixou sozinha. Eu tentei acalmar minha respiração. E minhas pernas, agora, pareciam que tinham criado vida própria. Enquanto todos os meus instintos diziam para eu não me mover e ficar ali, elas andavam apressadas atrás dele. Volte, Anna. — Você está bem? — eu o alcancei no grande corredor que separava a cozinha da sala. — Sim — ele respondeu calmamente, mas eu juro que vi seu corpo tremer. Continuou andando e mais uma vez eu o segui. Droga de pernas, e agora o que há de errado com elas? Chegando à sala de estar percebi que Susan já estava indo em direção a porta, ela e Harry ainda conversavam animadamente. Molly brincava com os babados de seu vestido no sofá de dois lugares, eu caminhei até ela e me sentei ao seu lado. — Foi uma honra recebê-los, venham sempre que quiserem para jantar. — Harry não disse isso apenas como cortesia, ele disse isso como quem pede algo.


— Ah claro, nós viremos — ela lançou um breve olhar para Oliver que estava encostado no batente da porta de entrada olhando para fora, mais precisamente, para cima — Deixe só nos estabelecer-nos melhor e desta vez o jantar será em nossa casa. — Eu aprecio o convite. — aquilo era o que afinal? Eles estavam, tipo, flertando? Porque era o que parecia. Ela se virou para nós duas ainda com aquele sorriso extremamente jovial. — Eu adorei conhecê-las, meninas. Eu dei um leve aceno com a cabeça fingindo um meio sorriso. Quando eles foram embora eu me senti meio que aliviada. Não, aliviada não era a palavra. Eu me senti segura. — Foi um belo jantar, hein? — eu contive o sorriso irônico, ele deveria ter dito: Foi uma bela visita. Olhei para Molly e vi nela uma boa oportunidade para fugir daquela estranheza de Harry, aliás, para fugir de tudo que era estranho e me trancar em um lugar ainda mais seguro. — Hora de ir para cama, senhorita. Ela resmungou um protesto enquanto me seguia para seu quarto. Dei a ela sua roupa de dormir e a levei para escovar os dentes e, enquanto a cobria com seu cobertor percebi seu sorriso. — O que foi? — Ela abriu e fechou a boca e fez uma cara de mistério. — Estou curiosa só isso. — disse simplesmente. — Sobre? — liguei o abajur do criado mudo. A luz era baixa e dava um constate meio rosado a tudo. — Sobre Susan e Oliver. — Eu também, pensei mentalmente. — Você viu como ela olhou para você? — Eu tentei me manter calma. — Não. Como ela olhou pra mim? — eu dei um meio sorriso aparentando achar graça daquilo. — Eu não sei... Acho que a palavra é deslumbre. É era isso, ela parecia estar deslumbrada com você. — Eu franzi o cenho ainda sorrindo. — Andou lendo um dicionário? — mudei propositalmente de assunto.


— Não, mas Srtª Evans está trabalhando novas palavras conosco. — ela bocejou. — Hum, legal. — murmurei beijando sua testa. — Boa noite e durma bem. Qualquer coisa, estou no fim do corredor — falei enquanto saia do quarto. — Boa noite. Durma com os anjos. — a ouvi dizer enquanto eu fechava a porta. Ótimo, finalmente sozinha. Eu escorreguei minhas costas pela porta me sentando no chão do meu quarto. Sentiame exatamente como em todas as noites ali. Não havia pessoas para eu sorrir e parecer normal. Não havia nada que não fosse familiar. E, principalmente, não havia coisas estranhas. Só havia a velha Anna e seu velho quarto. As paredes em tons pastel, a cama no centro com uma velha colcha rocha com desenhos florais que Nancy —, que antigamente era a minha babá, — havia bordado assim que cheguei a Atlanta. Minha velha escrivaninha mogno e uma cômoda da mesma cor. Ao lado da cama um criado mudo com apenas uma gaveta, um abajur em cima, e um foto minha e de Molly no natal passado emoldurada por um porta-retrato. A janela grande de vidro estava aberta e por ela passava um vento não muito forte, mas ainda assim frio, que balançava as cortinas da mesma cor da minha colcha de cama. Era essa a decoração do meu quarto. Mamãe tentou decorá-lo da melhor maneira sem contradizer com o meu — mau — gosto. Ela queria que fosse mais sofisticado e eu queria algo simples e de cores não muito chamativas, assim como na nossa casa de Malibu: Não se precisava de muito, a linda paisagem da janela era o suficiente. É claro que a paisagem daqui não é tão boa quanto à de lá. Uma única lágrima solitária caiu de meu olho esquerdo e eu rapidamente a limpei. Fui até o banheiro para lavar o rosto, a sensação foi tão boa que eu decidi tomar um banho. A água quente do chuveiro rapidamente adormeceu meus músculos. Fechei meus olhos apreciando a sensação.Não sei quanto tempo fiquei assim, mas quando os abri novamente o vapor embaçava tudo como uma névoa densa em um dia de neve. Enrolei-me em uma toalha e passei minha mão pelo espelho e tarde demais notei que o meu cabelo estava encharcado. Desviei meu olhar da garota do espelho e escovei meus dentes. Coloquei um pijama velho de flanela, e me deitei na cama. Eu tinha a impressão de que tinha acabado de fechar os olhos, mas o relógio marcava 05h00min da manhã. Harry tinha acabado de sair para seu plantão no hospital e Molly ainda dormia. Eu não tinha a mínima idéia do que me acordara, mas não tinha um pingo de sono esta manhã. E por incrível que pareça estava bem disposta. Tanto é que fiz panquecas, o prato preferido de Molly e ainda adiantei meu dever de matemática. Estava procurando algo, quando peguei por acidente o Lunabella, o livro que Luke me dera — ou melhor, usando suas próprias palavras, que encontrei no lixo — eu o abri na metade e estava em branco, à página anterior também, e a posterior, a última, a penúltima, enfim, o livro todo estava em branco. Bufei, enquanto guardava-o na gaveta da escrivaninha.


Eram 06h00min e eu ainda estava de pijamas, ignorando o café que tinha preparado comecei a tomar sorvete direto do pote, não estava com fome para comer as panquecas, mesmo que não houvesse comido praticamente nada no jantar. Só em relembrar o motivo meu estomago se revirava e eu tinha vontade de vomitar. Arrumei-me para escola trinta minutos antes do que normalmente faria. Meu cabelo estava todo embolado nas pontas e eu demorei uns dez minutos só para retirar os nós que tinham se formado. Fazia calor, o que era ruim, já que eu não poderia usar meu casaco. Vasculhei entre as pilhas de camisetas que eu tinha. Havia algumas poucas blusas de alças, que eu já deveria ter dado para a caridade por que eu raramente as usava. Acabei desistindo de procurar algo descende e coloquei uma blusa de botões, uma calça jeans escura e um velho par de all star. No caminho para escola, logo depois de ter deixado Molly no Jardim de Infância, Emma buzinou do seu Miata. — Eu fui até a sua casa para te pegar, mas você já tinha vindo. — ela disse, enquanto eu escorregava para o banco do passageiro. — E para a minha surpresa, eu encontrei um Deus grego numa Hayabusa preta saindo em alta velocidade. — Eu franzi o cenho, enquanto a olhava. Mostrando que não havia entendido. — Hello, Oliver Coleman. — ela disse o nome num suspiro — Desde quando aquele monumento é seu vizinho? Eu revirei os olhos para ela. — Ele e a tia se mudaram ontem. — Ele mora com a tia? Conte-me tudo que sabe sobre ele. — ela parecia uma jornalista loca da CNN. Eu dei de ombros, eu não sabia nada mesmo e olha que eu precisava saber já que tenho que fazer aquela maldita redação sobre ele. — Eles vieram de Los Angeles, Susan... — Quem é Susan? — ela me encarou com um olhar assassino com um misto de pânico e terror. — A tia dele. — bufei, rindo logo em seguida quando a vi suspirando aliviada. — Bom, ela vai trabalhar no hospital com Harry. E era só isso que eu sabia. Não sei se Emma ia gosta de saber que o seu ―monumento‖ é totalmente estranho e... Amedrontador. — Ele é lindo. Eu o encontrei ontem no estacionamento da escola, e cara, eu quase desmaiei quando olhei naqueles olhos. Luke me ligou... — ela se interrompeu. — Ele está de volta, já ficou sabendo? — Fiz que sim com a cabeça, já que ela não me deixaria mais falar com essa tagarelice toda. — Então, eu disse a ele que Oliver era mais bonito


do que Paul Walker, Brad Pitt, Zac Efron e todos aqueles outros deuses loiros de Hollywood juntos. Ele disse que eu deveria estar exagerando... E ela continuou tagarelando o caminho todo. Eu só voltei a escutá-la quando ela parou no estacionamento. — Você acha que eu tenho chance com ele? Eu olhei para ela e disse o que qualquer pessoa diria a sua melhor amiga: — É claro. — e eu acho que não menti, afinal de contas, Emma é linda com seus cabelos avermelhados, sua pele lisa e sua estatura longa. E bem, Oliver era bastante estranho, mas tirando isso e a parte de ele me dar nos nervos, ele deveria ser uma pessoa, ham... Normal, não? — Vocês combinam. Ela me deu um daqueles abraços de agradecimento. — Obrigada. Mas você vai ter que me ajudar. Eu... Fiquei um pouco tímida perto dele e não consegui dizer nada. E já que você está com ele em Inglês, bom, poderia falar um pouco de mim, saber o que ele gosta... — ela se interrompeu novamente. — Ah, mas se não quiser, tudo bem. Eu dou outro jeito. Ela me encarou com os olhos esperançosos e eu não tive forças para negar. — Não eu posso fazer isso. — eu disse mais para mim do que para ela. Eu teria que falar com ele novamente, mesmo. Não havia escapatória. Fui para minha sala, depois de Emma ter me agradecido umas mil vezes. O Sr. Norton não havia chegado, e eu mantive o olhar num ponto fixo enquanto me sentava em minha cadeira. O perfume magnífico estava lá, mas eu já estava preparada para isto. — Oi. — ele me disse, eu não o encarei enquanto acenava com a cabeça. Eu ouvi um riso baixo, mas continuei olhando para frente. — Então, ignorar seu parceiro faz parte do trabalho? — Não, porque a palavra parceiro não se enquadra a você. — retruquei. — E o que se enquadra a mim? Eu fingi pensar. — Estranho, louco... Imbecil... — Wow. Estou vendo que vai fazer uma ótima redação. — ele riu — E o que mais? Só isso? Não encontrou mais nenhum outro defeito? — Sim. — menti. — Mas gastaria muito tempo falando. Eu esperei que ele retrucasse, mas em vez disso ele, me pegando de surpresa, girou minha cadeira me colocando de frente para ele. E eu não estou dizendo que ele arrastou a cadeira até ele, e sim, que ele levantou a cadeira uns cinco centímetros do chão com


uma só mão e me colocou de frente para ele. Eu olhei assustada ao redor, havia poucas pessoas na classe e elas pareciam estar aléias ao que Oliver fez. — Eu estou disposto a escutar. E eu não pude fugir de seus olhos e nem do efeito que eles causavam em mim. — V-você... — eu gaguejei totalmente zonza. Eu me senti uma idiota por não conseguir dizer nada ofensivo e só encará-lo. Depois de um tempo me encarando ele disse: — Quer ajuda? — riu e depois ficou sério — Há uma série de defeitos. Mas há algo que faz parte de quem eu sou. E não estou dizendo isso da boca pra fora, estou dizendo isso porque você tem que saber,Anna. — ele pausou, eu estava completamente presa ao seu olhar. — Eu não sou como os outros caras que você conhece. Eu sou... Perigoso. — ele sorriu amplamente, os olhos totalmente sombrios. — Mais que perigoso. Então, se afaste de mim, em quanto pode. Eu tentei racionalizar e fazer com que as duas partes do meu cérebro trabalhassem em conjunto. Ele acabara de dizer o que eu soube desde o primeiro segundo em que o vi. Ele não estava mentido, tudo nele gritava perigo. A forma como ele disse isso não deixou duvida nenhuma. E em quanto uma parte pensava nisso a outra se ocupava em fazer perguntas: Por que ele é tão perigoso? O que há de errado esse cara? O que eu tenho haver com ele, ou melhor, o que eu fiz para ele? Mas a que sobressaia de todas era: Quem é Oliver Coleman? — Eu não tenho medo de você. — e eu disse isso tão sombriamente que até me convenci disso por alguns instantes, mas quando ele aproximou seu rosto do meu, e seus olhos me sugaram para dentro do mar azul, eu vi que o que eu tinha acabado de dizer não se passou de um blefe. Eu me desvencilhei do seu olhar fechando com toda a força que pude os meus olhos. E girei a cadeira novamente para o meu lugar, e ignorei Oliver pelo resto da aula. Depois do quarto período eu juntei minhas coisas e fui para o refeitório. E só quando vi Emma sentada na nossa habitual mesa de almoço foi que me lembrei do que a tinha dito. Eu me sentei na cadeira a sua frente e coloquei a bandeja na mesa. Antes que ela pudesse perguntar sobre o assunto eu falei a primeira coisa que me veio à mente: — Sabe da nova? A Avril Lavigne vai casar de novo. — certo eu inventei isso. Mas tem tanta gente inventando coisas por ai. E se até a People faz isso por que eu não posso fazer? — Hum eu deveria saber. Fontes confiáveis me disseram que ela não saberia andar de skate nem se estivesse no meio da rua e um caminhão estivesse vindo em sua direção. Funcionou. Agora vou ter que fofocar pela próxima meia hora sobre notícias de celebridades. Aliás, a fonte que Emma usa é Luke — e eu não sei se é tão confiável assim.


Ela estava me contando sobre o que Paris Hilton tinha aprontado mais recentemente e eu tentava com todas as minhas forças me prender ao assunto e esquecer o real motivo do por que estar fazendo isso. Até que inesperadamente ela se calou. Eu vi os olhos de Emma arregalar-se e brilharem numa intensidade fora do normal. — Posso me sentar aqui? Eu conhecia aquela voz. E eu tinha plena certeza de não estar delirando. — Claro. — foi o que ela disse antes que eu pudesse esboçar alguma reação. A cadeira ao meu lado se moveu para trás e o perfume me inundou novamente. E eu gostaria realmente de dizer que era enjoativo, mas ao contrario, aquilo já se tornava quase viciante. — Eu sou Emma Newton. Nos vimos ontem no estacionamento — bom se isso era ser tímida acho que alguém tem que inventar outra palavra para mim. — Oliver Coleman. Desculpe por não ter me apresentado antes. — e eu pude ver pela reação dela que ele estava dando um daqueles seus sorrisos. — Sem... Problemas. — ela disse sem fôlego. Céus, alguém, por favor, me tire deste lugar. Aparentemente minha melhor amiga está flertando com um cara que acabara de me dizer que era mais do que perigoso — e que eu tenho certeza de que não estava brincando quanto a isso. E eu estou entre os dois dando uma de cupido sem noção. Ah, e parece que Oliver parece ser bem mais sociável e normal com outras pessoas do que comigo, o que reforça a minha tese de que ele não gosta de mim. Aliás, ninguém gosta. — É uma pena não estarmos juntos em nenhuma aula. Você só estuda ou faz mais alguma coisa depois da escola? — eu me mantive alerta com relação a isso. Oliver poderia se manter uma incógnita para mim e não responder nenhuma de minhas perguntas, mas seria difícil fazer o mesmo com Emma. E eu contava com isso. A minha nota em Inglês dependia disso. E era somente por isso que eu estava interessada.


— Eu gosto de correr. — esportes? Eu nunca adivinharia isso. Apesar de ele aparentar ter um corpo... Bastante forte. Aparentemente, é claro. Eu nunca prestei atenção nisso. Certo agora eu estou mentindo para mim mesma. — Atletismo? — Não. — ele disse meio que debochado, mas Emma estava aturdida e confusa demais para se sentir ofendida — Estou falando de correr com carros e motos. Eu participo de algumas corridas. — Isso deve ser demais. Engraçado eu ainda não ter ouvido falar em competições na cidade. Era impressão minha ou ela ainda não tinha percebido que ele estava falando de rachas, o que era ilegal o suficiente para não ser anunciado na TV? Eu tinha algo mais para escrever sobre Oliver Coleman: Ele era um fora da lei. .


QUATRO. — Desculpe-me por vir aqui e não lhe trazer nada — eu estava sentada ao lado do túmulo da minha mãe. Não pude evitar ler novamente a frase: “Grande mulher, amiga, mãe, esposa e advogada. Ficará para sempre em nossos corações”. Empurrei para baixo o nó que se formou em minha garganta, e murmurei: — Eu não tinha feito planos de vir aqui hoje Eu sorri, imaginando o que ela diria se pudesse me ver agora. Certo, eu estou sozinha em um cemitério, sentada ao lado de um túmulo e conversando com minha mãe morta — não que ela estivesse realmente falando comigo... E se estivesse que fique bem claro que eu não posso escutá-la. Mas vir aqui durante todos esses anos para fazer este monólogo estranho, por mais que pareça loucura, me faz bem. É como ir a um psicólogo. A diferença é que eu tenho certeza absoluta que minha mãe não vai contar meus segredos para ninguém, e ela não me cobra consultas — porque se eu tivesse que pagar para vir aqui, teria que roubar um forte de banco. Ervas daninha rodeavam os túmulos, e a grama precisava ser aparada. Eu vinha aqui quase toda semana, e sabia praticamente o nome de todas as pessoas que ali jaziam. O túmulo da minha mãe era o que deveria receber mais visitas, sempre que vinha lhe trazia algo, em maioria flores. Uma específica: Violetas4. Eram suas preferidas. O cemitério ficava no meio do bosque. Era um caminho meio difícil de fazer, mas eu já estava acostumada. Antigamente eu tinha medo de vir aqui, mas depois que minha mãe morreu, esse lugar se tornou meio que um santuário para mim. — Bom, eu tenho que ir trabalhar por isso não posso ficar aqui muito tempo, mas eu volto em breve — eu respirei fundo. O ar inundado por todos os tipos de flores, no túmulo ao lado um buquê de gira-sois. Havia também o cheiro de terra e folhas secas— Eu... — respirei fundo e balancei minha cabeça — Sentimos sua falta mamãe. Nesse momento, um corvo negro passou pelo céu, ele fez uma sombra imensa enquanto sobrevoava. Eu o observei por um instante, as asas abertas e imensas, o bico alongado. Ele parecia estar caindo quando levantou vôo novamente e saiu de minha vista, sumindo no infinito. Eu desejei poder fazer o mesmo. Beijei a palma da minha mão e depois a coloquei sobre a lápide antes de me virar. Eu caminhei até saída do cemitério e empurrei o portão, que fez um barulho cortante que ecoou pelas árvores. Um riso meio esganiçado saiu de minha boca, enquanto me ocorria que qualquer coisa poderia ser amedrontadora ali. Antes de ir para o trabalho, eu tinha um tempo vago de meia hora depois da escola. Normalmente eu ficava com Emma, mas desde o fim do almoço, eu resolvi manter 4

Tradução: Violet.


distância dela. Não dela exatamente, e sim de seu do seu assunto desde fim do almoço: Oliver Coleman. Quando o último período chegou, eu estava colocando minhas roupas dentro do meu armário no vestiário feminino. Eu odiava aquele uniforme. Eu odiava ter que me vestir igual à Emily e suas cópias. Elas estavam sentadas no banco dos reservas conversando animadamente sobre a festa que iriam dar hoje à noite. ―A grande festa do ano‖. Eu havia escutado uma garota na aula de história sussurrando para si mesma: ―Eu não acredito nisso. Quem não for a essa festa terá sua vida social arruinada até o fim dos tempos.” Eu tive vontade de rir, mas me controlei. Eu acho engraçado o modo como á maioria das pessoas se importam tanto com coisas fúteis. Afinal, é só uma festa. Mas não era assim que Emily queria que ás pessoas pensassem. E se Emily Morgan diz uma coisa naquela escola, essa coisa tem que ser seguida ao pé da letra. E isso é o que eu, Emma e Luke nunca aceitaremos. Luke estudou os primeiros dois meses do ano escolar na Grand Lake High School, mas ele preferiu ser transferido, afirmando que preferia ir para um lugar onde todos os alunos eram nerds do que ficar num lugar onde as cobras predominavam. — Atualmente ele estuda em uma escola particular do outro lado da cidade. O pai dele pagou uma nota somente para ele ser aceito. Eu me sentei na arquibancada observando á maioria dos alunos se aglomerarem ao redor de Emily, como uma colméia de abelhas. Srtª Smith entrou na quadra e ao lado dela estava um garoto. Ele vestia um moletom da Nike, calções lagos e um tênis azul, que mesmo eu não podendo identificar a marca, devido á distância, poderia dizer que é o dobro do meu salário. Os ombros dele eram lagos e dava para ver seu muscular definido mesmo sob o moletom. Os cabelos arrepiados para cima num tom castanho escuro quase negro. Não parecia que ele havia passado gel ou levado um choque elétrico, e sim que eles se arrepiaram naturalmente. E o resultado final era arrebatador. Ao ponto de me deixar assombrada com tamanha beleza. Eu escutei um assovio vindo do grupo de Emily, risinhos e uma série de cochichos em seguida. O garoto nem mesmo moveu a cabeça em direção a elas, ele continuou caminhando ao lado da Srtª Smith, uma mulher franzina de cabelos curtos presos em um rabo de cavalo e que apesar de ser pequena tinha uma voz de comando que fazia qualquer um se levantar e dar dez voltas na quadra. Ela pegou o seu apito e o levou em direção à boca. O som fino cortou o ar em uma fração de segundos, eu tinha certeza que teríamos problemas futuros com a nossa audição se alguém não der um fim naquele apito. — Quero todos de pé aqui em frente. — ela ordenou. Eu acho que a Srtª Smith se daria bem no exército.


Eu me levantei e caminhei lentamente até a beira da quadra, ficando mais afastada possível do grupo de Emily, e me pus a observar o garoto novo. Fiquei inicialmente assustada quando o peguei também me olhando. E antes que eu pudesse olhar para outra direção, aconteceu. Num momento eu estava observando suas feições, — o nariz reto e anguloso, a boca carnuda e avermelhada, e os olhos os mais verdes que já vi, meio acinzentados — e no outro tudo ganhou um contaste meio enegrecido em preto e branco. Eu estava entre árvores tão altas que parecia que suas folhas se perdiam no céu. Eu vestia o uniforme da escola e meus tênis estavam sujos com a terra úmida e folhas secas do chão irregular. Observei ao redor, era impossível saber se era dia ou noite, pois ás árvores encobriam todo o céu, deixando-me num breu extenso. Eu ouvia gritos em pouca distância, e antes que eu pudesse decidir se era melhor eu ir em direção á eles ou continuar ali, eu já estava a caminho deles. Eu não estava sentindo medo, aquilo parecia mais um sonho que eu sabia que acordaria logo. Era surreal demais para ser amedrontador. Eu só estava confusa. Depois de andar alguns metros por entre as árvores, deparei-me com uma enorme clareira. Assustei-me inicialmente com a quantidade de pessoas que ali estavam, não era possível estimar um número mais era superior a cinqüenta, eu deduzi. Elas carregavam tochas, e algumas usavam crucifixos em seus pescoços. Elas diziam coisas em uma língua indistinta, mas o som saia com tanta fúria que chegava a congelava meus ossos. Usavam roupas estranhas e de época. As mulheres vestiam longos vestidos e os homens casacos grossos e botas pesadas. Alguns mais bem vestidos que os outros. Havia também uma fileira de mantos vermelhos formando um circulo. Aliás, todos estavam em formato de um circulo — um pouco desorganizado comparando com os que vestiam os mantos. Demorei um pouco para entender que eles rodeavam uma fogueira. Eu já havia visto alguns rituais em filmes e isso foi à primeira coisa que me ocorreu que pudesse ser aquilo. Eu tentei chegar mais perto do centro, o lugar onde estava a fogueira, mas neste momento eu despertei. — Você está bem, Srtª Mathers? — Srtª Smith me perguntou. Eu estava sentada em um banco apoiando-me em seu braço. Eu permaneci em transe por alguns instantes, respirei fundo algumas vezes para me acalmar. Tudo voltou ao normal. Minha visão clareou e tudo voltou a ter cores novamente, alguns alunos me lançavam olhares curiosos, mas a maioria se mantinha entretida no garoto, este eu percebia que ainda me encarava a poucos metros de mim e Srtª Smith. — Eu estou bem. — eu disse num fio de voz.


— Não parece. Está pálida. Tem certeza que não quer ir para enfermaria? — ela continuou, preocupada. Ir para a enfermaria não seria uma boa idéia, além de ter que ficar sendo observada por aquela mulher estranha que parece que a qualquer momento vai enfiar uma agulha em seu braço, com certeza, chamariam alguém para vir me buscar, já que o meu aniversário de dezesseis é só mês que vem — e eu não queria incomodar a mãe de Emma. E eu realmente me sentia bem. Fisicamente. — Tenho. — eu tentei parecer normal. — Eu estou bem. Ela assentiu e me ajudou a levantar, voltamos para a beirada da quadra e antes de soprar o apito, ela me lançou mais um olhar. — Tudo bem, nós vamos jogar basquete hoje. Quero que formem um time misto. — eu ouvi alguns suspiros. Basquete é o esporte número um da escola. Não que tivéssemos um ótimo time, mas era isso que os populares faziam, e eles tinham um lema: ―Se você não gostar de basquete, você é maluco‖. Traduzindo: ―Se você não é igual á eles, você é um fracassado‖. E era assim que funcionava basicamente tudo naquela escola. — Mas antes quero apresentar á vocês seu novo colega: Gregory Lybieri. É o seu primeiro dia aqui, e eu quero que mostrem a ele do que nosso time é capaz. — É importante ressaltar que a Srtª Smith odeia o Treinador do time, o Sr Donner. Ou seja, consecutivamente ela odeia o time. E quando ela diz, ―do que nosso time é capaz‖, ela se referiu ao lado ruim da coisa. Emily jogou o seu cabelo liso e loiro para trás, ela perecia que tinha saído de um comercial da Pantene, e acenou para o aluno novo acompanhado de seu melhor sorriso: ―Oi, já estou afim de você‖, — eu o apelidei carinhosamente de sorriso tóxico. Ele nem ao menos olhou para ela, aliás, ele continuava olhando para mim e isso começava a me deixar desconfortável. Eu ainda tinha flashes daquela visão estranha e não conseguia esquecer que a tinha visto no memento em que olhei para ele. E eu definitivamente não queria que aquilo acontecesse de novo, tudo era confuso e estranho demais. — Vamos lá. — a Srtª Smith não estava nem um pouco animada em comparação ao resto dos alunos. — Hamm, Gregory quer escolher o time? Sei que não sabe o nome de ninguém e nem de suas habilidades, mas... — eu fiquei curiosa em relação á isso, mesmo eu não estando olhando-os diretamente eu podia sentir que ela usava um tom de respeito ao falar com ele. — Tudo bem. — e a voz dele parecia musica aos meus ouvidos de tão suave e crescente e ao mesmo tempo decidida e comandante. — Certo. Quem quer escolher o outro time? — Todos se entreolharam, estava claro que todos queriam ser do time de Gregory Lybieri, por duas razões: Um, estava obvio que ele já era popular, porque se Emily Morgan deu seu sorriso toxico para ele é por que ele


merece ser visto. Dois: o jeito como ele se portava lembrava aqueles atletas da NBA, talvez um pouco mais rígido e clássico. Um meio termo entre um aristocrata e um atleta, o definiria bem. — Eu escolho. — neste momento surgi pela entrada do ginásio nada mais nada menos que Ryan Brandon, o capitão do time. Atrasado como sempre. — Acho que não preciso lembrá-lo que mais um atraso e o senhor não ficará na minha aula nem mais um dia, não é Sr. Brandon? — Certo, Smith. — Ele assentiu. Ryan era o típico capitão de time de basquete. Loiro, forte, olhos castanhos claros, um sorrisinho sacana e atrevido no rosto, metido a ―eu sou demais‖. Ah, e é claro, metade das garotas correndo atrás dele. — Tirem par ou impar para começar... — ela começou, mas claro, Ryan a interrompe: — Eu, como um bom capitão, deixo nosso novo colega começar. — ele deu um de seus sorrisinhos acompanhados de seus fiéis escudeiros, que Emma também apelidou de ratinhos, Rick e Scott Ashton que são irmãos gêmeos. Ambos desengonçados, sacanas e idiotas. Eu não vi o que Gregory fez, mas Ryan parou de sorrir e fechou a cara, enquanto ás garotas riam, inclusive Emily e suas cópias. — Você. Eu estava absorta, me preparando para esperar até que todos sejam escolhidos e o time azarado me tivesse nele, quando percebi uma carga de olhares sobre mim. Eu olhei para o garoto novo sem entender, ele me lançou um breve sorriso e eu tive uma sensação estranha no estômago. — Sua vez. — ele dissera a Ryan. — Emily, minha gata. — Emily revirou os olhos, claramente despontada enquanto resmungava: — É bom você escolher uma droga de time bom. Quando todos já haviam sido escolhidos, eu ainda sentia a sensação estranha no estômago. O jogo começou. Eu tinha que marcar Stacy Tanner, a cópia número um de Emily. Minhas habilidades em esportes nunca foram das melhores, eu me saía bem quando jogava com Luke e Emma, mas quando estava no meio de muita gente eu sempre acabava ficando nervosa e fazendo algo errado. Eu me mantinha o mais longe possível da bola, por sorte Stacy não parecia muito interessada em jogar, então eu não precisava ficar marcando-a de verdade. Eu mais assistia do que participava do jogo. Eu observei Gregory roubar a bola de Rick e jogá-la para Mark Lee que a devolveu rapidamente para ele, e então Gregory fez uma incrível cesta de três pontos. O time inteiro comemorou inclusive Emily que pertencia ao outro.


— Bela cesta. — ela dissera a Gregory, ele lhe devolveu um sorriso educado e depois desviou seu olhar do dela. Havia uma pontinha de mim que gostou disso. Garotas como Emily acham que podem ter qualquer um, e que ninguém resiste á elas. Talvez isso seja verdade, mas eu gostei do modo como Gregory não parecia se importar com suas investidas. O jogo estava quase acabando e o placar estava empatado. Gregory fez a maioria de nossos pontos, e Mark — que nem se quer era do time principal — conseguiu fazer boas assistências. E então Stacy resolveu jogar, justo quando eu peguei pela primeira vez no jogo inteiro a bola nas mãos, num lançamento de Gregory. O cabelo dela chicoteou em meu rosto enquanto ela me empurrava com o seu braço direito tomando a bola de minhas mãos. Cai no chão, por sorte, não foi de mau jeito, como geralmente acontecia. Srtª Smith apitou e gritou: falta. Eu me levantei ainda atordoada enquanto a bola era jogada em minha direção, eu a peguei por reflexo. — Isso é injusto, ela caiu sozinha. — reclamou Stacy. — É, e você tentou segurá-la com o seu braço, Tanner. — disse Srtª Smith, irônica, Stacy fez uma careta. — Conhece ás regras. Quem sofre a falta cobra, Mathers. Eu encarei o rosto de todos um pouco apavorada. Emily estava com ás mãos na cintura ao lado de Stacy. — Ela vai errar. — ela disse propositalmente para eu escutar. Mark estava nervoso. Os outros do time não estavam muito confiantes. E Gregory, bem, ele sorriu para mim. E não foi um sorriso ―tudo bem se você errar‖, foi um sorriso ―Ganhamos o jogo‖. E eu comecei a me questionar o que aquele garoto vira em mim para ter tanta confiança. Primeiro ele me escolhe e agora isso... Eu não sei o porquê, mas me senti reconfortada com isso e também confiante. — Dois lances livres. Eu joguei a bola, e ela bateu no aro e voltou para mim. Ótimo, quem eu estava pensando que era? Michael Jordan? Legal, só mais um e você vai voltar a ser a garota que ninguém vê, a estranha que não fala com ninguém. Ah, e terá que também ser ―a fracassada que fez o time perder‖. Ouvi risos atrás de mim, enquanto pegava a bola. — Legal, ganhamos. — Emily destilou seu veneno mais uma vez. — Quem canta vitória antes do tempo acaba chorando quando o jogo acaba. — eu estava de costas para eles, mas ninguém tinha aquela voz que eu acabara de ouvir; que em tão pouco tempo já ficou gravada em minha memória.


— Chorando de emoção. — zombou Ryan. Gregory não se deixou afetar. — Não, chorando como perdedores que são. — Perdedores? Está falando com quem? Estamos quase na final do campeonato. — Foi o que disseram á dez meses atrás. O ―quase‖ é sempre tudo que conseguem, nunca vão além disso. — Quem você pensa que é? — Ryan perguntou, pelo tom de voz ele estava muito, mas muito zangado. Ninguém nunca o tinha confrontado daquela maneira. — Apenas um cara. Um cara que acha que em vez de jogar basquete você deveria se preocupar em aprender boas maneiras. — Enfia as boas maneiras no... — Já chega Sr. Brandon. Mais uma dessas e... Você já sabe. — ameaçou Srtª Smith. Ela apitou e eu me preparei para lançar a bola. E então eu senti o descontrole do meu corpo. Era como se alguém o estivesse comandando, e esse alguém não era eu. Não era como se eu estivesse fora dele, eu ainda estava ali, mas não fui eu que fiz aqueles movimentos. E não fui eu que fiz aquela cesta. Eu tinha certeza... Foi Gregory. — Parabéns. — uma garota passou por mim e disse. Eu estava me trocando no vestiário, ainda muito confusa, tentando não me lembrar daquela visão estranha e muito menos do que acabou de acontecer. Depois da escola eu vim correndo para o cemitério. Eu não sei o que exatamente me guiou até lá, mas eu precisava ficar longe de tudo aquilo. Eu estava há poucos metros do Anderson‘s, quando algo me chamou atenção. O que diabos estavam fazendo ali? Havia pessoas entrando e saindo por toda parte. Um homem com um capacete na cabeça e com um papel em mãos me chamou atenção. Ele parecia comandar o que cada pessoa ali presente fazia. Eu olhei para todos os lados para constatar que ali era mesmo o lugar onde eu trabalhava. Desde quando resolveram reformar? — Cuidado aí pessoal. — o homem de capacete dizia, enquanto eu me aproximava. — Não, não. Isso é pra cá, Roy. Cuidado com isso é muito frágil... — Hamm, com licença. — eu chamei. — Não está funcionando hoje, querida. — ele dissera rapidamente antes de entrar no restaurante.


Eu estava com ás mãos na cintura me perguntando onde é que o Sr. Anderson arranjara dinheiro para fazer uma reforma. Uma vez eu ouvira Chuck resmungar que ele guardava uma fortuna embaixo do colchão. Talvez fosse isso. — Hey, Anna. — Lizzie me chamou. Ela e Chuck estavam saindo de dentro do restaurante. Chuck estava com a expressão carrancuda como sempre, o cabelo encaracolado pendia para todos os lados como se ele estivesse mexido nele sem parar. — Está atrasada. — Foi o que ele dissera quando passou direto por mim. Lizzie bufou. — Você acredita nisso? O Sr. Anderson vendeu o restaurante! — O que? — Isso mesmo. Ele vendeu. Só fiquei sabendo hoje quando cheguei para trabalhar e encontrei isso — ela apontou para os operários e toda a parafernália que carregavam de um lado para o outro. — Quem comprou? — eu estava chocada. O Sr. Anderson construiu aquele restaurante tijolo por tijolo, o restaurante era a vida dele. — Chuck disse que foi um cara novo na cidade. Ele não disse muita coisa, mas resmungou algo como ―agora sou escravo de um pirralho‖. Eu não entendi direito. Você sabe como ele é sempre emburrado e chato. — Ela arqueou uma sobrancelha e depois sorriu. — O bom é que vamos ter uma folguinha por um tempo. — Folguinha? Vamos ser demitidas! — falei, eu já começava a ficar preocupada com isso. Onde é que eu iria arranjar um emprego sem ter 16? Teria que esperar até o meu aniversário para começar a procurar. O Sr. Anderson tinha sido até bonzinho em ter me aceitado aqui — é claro que ele fez isso porque não havia ninguém mais querendo trabalhar ali. — Não! O mais legal é que o novo dono resolveu continuar com os antigos empregados. Mas acho que ele vai contratar mais gente. — Lizzie jogou o seu cabelo castanho mel para trás estourando a bola de chiclete que mastigava. Ela ás vezes se comportava com uma adolescente. Talvez fosse por isso que ela ainda não conseguiu um marido. — Bom eu já vou indo. Até mais. Depois de alguns minutos, eu ainda estava ali parada olhando a fachada que estava sendo feita. Eu comecei vagar pelas ruas sem nem perceber. Eu estava distraída me lembrando daquela visão estranha que tive logo após ver o novo garoto. Aliás, isso estava começando a me dar nos nervos. Primeiro Oliver me atordoando com suas coisas estranhas, e agora isso. Aquela sensação estranha de estar fora do controle do meu corpo


e de sentir, de certa forma, Gregory controlando-o ainda me assombrava. Eu deveria estar ficando louca. Chega de assistir filmes de terror de madrugada! — Luke! — eu o chamei. Ele estava de costas para mim. Mas ninguém tinha um cabelo tão repicado e vestia roupas tão coloridas como ele. Ele se virou para mim. — E aí, estranha! Era divertido andar com Luke. Além de Emma, ele sempre fora o meu melhor amigo. Quando éramos crianças brincávamos o dia inteiro na caixa de areia do parque. E ele sempre preferia ficar conosco do que com os outros garotos. O ruim era quando ele tomava nossas bonecas. — Não deveria estar trabalhando? Não me diga que Anna Mathers, a rainha do souresponsável, decidiu viver um pouco e saiu daquele inferno! — estávamos esparramados em um banco na sorveteria. O meu Sundae de morango começava a derreter. — Sr. Anderson vendeu o restaurante. O novo dono está reformando. Não sei quando volto para lá. — resumi ao máximo que podia. Meus pensamentos em um lugar bem distante dali. Mais precisamente no garoto que eu estava olhando através das janelas de vidro da sorveteria. — Quem é o gatinho? — Luke já estava grudando seu nariz no vidro, parecia que ele nem havia ouvido minha resposta. Eu respirei fundo antes de responder. Uma corrente elétrica passava por todo meu corpo enquanto eu o observava. Do outro lado da rua em frente a uma banca de jornal estava Gregory Lybieri. Eu o reconheci desde o primeiro segundo em que meus olhos foram guiados até ele. — O garoto novo da escola. — Aquele é o tal do Oliver? — se antes ele estava encostado, agora ele tentava perfurar o vidro com o nariz. — Não. Este é Gregory Lybieri, ele chegou hoje. Está em Ed. Física comigo. — a visão voltando a povoar minha mente, eu tentei afastá-la balançando a cabeça. — Hum. — ele murmurou me olhando de soslaio. Eu não gostei disso. — O que foi? — Você está louquinha por ele. — O que? — meus olhos saíram do vidro, e eu segurei meu queixo para ele não despencar na mesa.


— Garota eu conheço este tom. O modo como você disse ―Ele está em Ed. Física comigo‖... Não sei não. — Você que está ficando louco! Eu o conheci hoje, tá legal. E o que há de errado com o meu tom? — Tom de ETG! — ETG? Ele bateu em sua testa. — Hello, Eu To Gamada! Eu bufei. — Isso é ridículo. Eu o vi hoje. Mal o conheço. E se quer saber ele é bem esquisito. — gritei para ele. Não bem Gregory, e sim o que ele faz comigo, - eu quis dizer — E eu de forma alguma me sinto atraída por ele! — Ótimo, diga isso á ele. Ele acabou de entrar. E era verdade. Ele estava se sentando á uma mesa de distância da nossa. Vestia uma camiseta preta e bermudas jeans, mas ainda assim me lembrava um pouco àqueles aristocratas ingleses. — Você está mais pálida do que Edward Cullen. — Cala a boca! — Já sei, porque não fazemos uma festinha de garotas hoje à noite? — Sugeriu, ele — Eu ligo para Emma, vamos comemorar... — parecia procurar um motivo — A liberdade. — disse por fim. — Veja só, você está livre do seu emprego, e eu me livrei daquele lixo que meu avô chama de loja. Então vamos comemorar! Eu dei de ombros. — Parece uma boa idéia. O que Luke chama de festinha e chamo de reunião. Porque é estranho chamar de festa um encontro de três pessoas. — Que tal lá em casa? Harry vai estar de plantão, e eu acho que Molly vai dormir na casa de uma amiga. — eu disse, aliviada por estar em outro assunto. — Certo, mas posso chamar uma pessoa? — Claro — eu dei de ombros novamente.


— Oh Gregory! — ele chamou, enquanto acenava freneticamente com a mão. Eu acho que desmaiei. É, tivesse eu essa sorte.


CINCO. — Você disse que eu podia! — ele murmurou com um sorrisinho cínico. Fechei minhas mãos em punhos. Eu nunca senti tanta vontade de socar a cara de Luke como naquele momento. Ele começou a se levantar. — Se você fizer isso... Eu juro que vai ter troco! —, por um momento uma nuvem de dúvida passou por seus olhos, acho que ele não esperava o tom de voz que usei: duro, e por incrível que pareça, calmo. Mas, depois o sorrisinho cínico voltou ao seu rosto, ele se levantou e me deu as costas . Eu não o olhei enquanto ele andava até a mesa de Gregory e fiquei inicialmente grata pela distância das mesas que impossibilitava que eu os escutasse. E se eu aparentava estar calma por fora, por dentro eu estava em ebulição. E conforme os segundos se passavam, mais a curiosidade começava a aflorar dentro de mim. O que ele diria a Luke? Ele era um garoto recém chegado, mas ele com certeza deve conhecer pessoas na cidade. Bem, se ele não ás conhecia, elas o conheciam. Acho que depois de hoje Gregory Lybieri deve estar no topo da lista dos mais populares. E ele só havia ido á escola somente um dia! Ás duas garotas que estavam sentadas do outro lado da sorveteria não deixavam dúvidas de que sabiam quem ele era. E a garota de costas para mim, sentada ao lado delas, também sabia. É, claro. Eu reconheceria aquele cabelo loiro e brilhante com grandes cachos — feitos com babyliss — em qualquer lugar. Emily Morgan estava jogando todo o seu charme tóxico, atraindo olhares da ala masculina presente. Parte de mim ficou um pouquinho feliz por Luke estar entretendo Gregory. E, então, meu foco se voltou para eles. Protelei antes de dar uma espiadela na conversa, mas Gregory já estava se levantando para ir embora. Antes que eu pudesse respirar aliviada, Luke se virou exibindo um grandioso sorriso de vitória. Essa não! — Ele disse que vai! — ele praticamente pulava exaltado. — Não é demais? — Não. — eu murmurei mal humorada, pegando minhas coisas do chão. — Não é nada demais! Eu já estava caminhando para a saída, mas antes que eu pudesse sair dali meus olhos foram parar na mesa de Emily. E a cena que vi durante apenas um segundo não parou de passar em minha mente, como um CD que travou justo na música que você mais detesta. Estava tão absorta no que havia acontecido na escola, que acabei me esquecendo que Emily iria dar uma festa hoje à noite. E depois de vê-la quase se jogando nos braços de Gregory, não me restaram dúvidas de que ele seria seu convidado de honra.


O que deveria me deixar aliviada. Mas não deixou. — É claro que é. Você deveria me agradecer, e não ficar emburrada. — disse Luke. — Ah, vai, Anna! Eu te fiz um grande favor, você nunca teria coragem para convidá-lo. — Eu não queria convidá-lo! — É claro que queria. Logo, logo você estaria sonhando com ele em sua casa... — ele deixou a frase parando no ar de forma maliciosa. — Eu só adiantei isso. — Você é maluco. — eu disse, bufando. — E, além disso, não importa. Ele não vai. Emily vai convidá-lo para a festa dele hoje á noite. — Ah, a cobra rainha? — ele franziu um pouco os lábios. — Não, Grigor não iria romper conosco para ir à festa dela. — ele disse confiante. — Grigor? — eu estranhei. — E de onde veio toda esta confiança? Você mal o conhece. — É esse o apelido dele. Ele veio de Nova Iorque. E é emancipado! Ser emancipada sempre foi o meu maior desejo desde que minha mãe morreu. Mas Harry decidiu por fazer da minha vida um inferno e não me conceder isso. — Bom, e você sabe que eu tenho um faro para cobras. E Gregory não é um deles. Confie em mim, ele estará lá ás oito. Capriche no visual, querida, hoje é a sua chance! — Foi o que ele me disse antes de me deixar em casa. E eu me peguei realmente querendo que ele estivesse lá ás oito. Molly estava com um pirulito na boca sentada no meu velho balanço ao lado de casa. Nancy estava sentada numa cadeira, os cabelos grisalhos estavam espalhados por seu rosto. Ela estava dormindo. Eu me aproximei das duas sorrateiramente. Isso vai ser divertido! — Ei, menininha, passa aqui este seu pirulito! — eu gritei, Nancy acordou sobressaltada enquanto eu e Molly riamos. — Anna? O que faz aqui tão cedo? — Ela estava arrumando os óculos desajeitados. — Não tive trabalho hoje. Só volto quando o novo dono assumir. — O Sr. Anderson vendeu o restaurante? — o choque atravessando seu rosto. Eu assenti, me sentando na grama. Molly continuou a se balançar e Nancy voltou para sua soneca. E eu me aconcheguei melhor ali, e acabei deitada olhando o sol que estava escondido por entre ás nuvens.


O cheiro de terra recém molhada foi à primeira coisa que senti quando abri meus olhos. Minha boca estava seca e a parte direita do meu rosto doía. Eu me levantei rápido demais e quase voltei para o chão novamente. O céu estava todo escuro. Que horas eram? — Molly! — entrei em casa e corri para o segundo andar. — Molly! — chamei novamente. — Aqui! — Ela saiu de seu quarto com uma mochila cor de rosa nas costas. — Puxa, você demorou a acordar. Eu tentei te chamar, mas você nem se mexeu. Nancy também tentou antes de entrarmos. — Que horas são? — eu perguntei passando á mão por meu rosto, ainda sonolenta. — Não sei. Mas a mãe de Jéssica vai vir me buscar sete e meia — um som estridente de uma buzina veio do lado de fora. O rosto de Molly se iluminou com um enorme sorriso. — Deve ser ela. Te vejo amanhã. — ela disse antes de me soprar um beijo e descer correndo ás escadas. O meu plano era ir correndo até a minha cama, me enterrar lá e nunca mais levantar. Mas meu celular começou a tocar no andar de baixo, eu o ignorei. Mas na terceira vez que ele começou a tocar novamente, eu me dei por vencida. O encontrei em cima as mesinha de centro. — Alô? — Que voz é essa? Parece que estava em coma. — Emma disse do outro lado da linha. — Espero que já tenha ao menos tomado um banho. Estamos a caminho da sua casa. Harry ainda guarda aquelas garrafas de vinho na dispensa? Esqueça, eu estou trazendo comigo duas. Vamos nos divertir hoje, hein! Luke me contou do Grigor e você. A propósito tomei a liberdade de chamar Oliver. Só como amigos, é claro. Ele é um tantinho... Ah nem sei mais. Só sei que agora somos só amigos, e que não estou mais tão interessada. Voltei para o meu pôster do Brad Pitt. Ah, tenho que desligar... Tem uma louca buzinando atrás de mim! Eu joguei o telefone de volta para a mesa. Bocejando e me encolhendo no sofá. Minha mente dormente demorou exatamente cinco segundos para voltar ao normal, e mais cinco para eu começar a entrar em pânico. Droga! Eu acabei dormindo e me esquecendo da porcaria da festa! Adentrei meu quarto e corri para me olhar no espelho. Eu estava horrível! Meu cabelo estava uma confusão, grudado e encolhido em um imenso nó em cima da minha cabeça e havia algumas folhas entre os fios; minha bochecha estava vermelha e marcada pela


grama; minha roupa estava suja de terra na parte de trás; e meus olhos estavam inchados e com grandes olheiras. Parecia que eu tinha sido atropelada! Entrei no chuveiro quente com minha cabeça fervilhando. Eu tentava raciocinar de forma coerente, tentando juntar todas as informações: Molly disse que a mãe de Jéssica viria buscá-la sete e meia. Luke disse que Gregory estaria aqui ás oito — se ele viesse mesmo. Emma estava a caminho. Ela convidou Oliver. Ele, por sua vez, está do outro lado da rua e a qualquer momento também podia chegar. Conclusão final: Eu tinha menos de meia hora para domar o meu cabelo, tentar deixar meu rosto menos inchado e vermelho, arranjar uma roupa descende, e torcer para que nem Oliver nem Gregory estejam aqui antes que Emma ou Luke cheguem. Vai dar tudo certo, Anna!, Eu murmurava, enquanto secava o meu cabelo depois de lavá-lo duas vezes com xampu e desembaraçá-lo com o pente. Quando acabei, passei pó compacto nas olheiras. A parte mais difícil foi escolher o que vestir. Se fosse uma noite normal eu colocaria um de meus moletons ou pijamas e passaríamos o tempo assistindo séries na TV. Mas hoje não seria assim. E eu ainda me lembrava da parte em que Emma disse que estava trazendo bebidas. Quatro palavras: Isso não vai prestar! Optei por um vestido de inverno que vinha até os joelhos e sapatilhas de balé. Deixei meus cabelos soltos ao redor dos ombros. Eu ouvi a porta da frente sendo aberta, e fiquei aliviada por Emma e Luke terem chegado. Desci ás escadas de dois em dois degraus. — Eu juro que isso vai ter troco! — disse á eles, mas soou de um jeito meio brincalhão que eu não queria usar. — Olha só! — Luke veio até mim e pegou minha mão, me fazendo dar uma pirueta. — Vejo mudanças, parece que alguém resolveu aposentar aquela maldita jaqueta e os moletons velhos! — ele riu. — Rá-rá. Muito engraçado — disse sarcástica. — Esse Grigor deve ser muito bonitinho para ter despertado a senhorita ―garotos não são importantes‖ para o mundo. — Emma disse, jogando sua bolsa e uma sacola grande no sofá. — Ele é... Incrível! — disse Luke com um suspiro. — Pena que ele não joga no mesmo time que eu. Sorte sua, Anna! — Chega! — eu gritei para eles. — Eu não sei de onde vocês dois tiraram isso... Mas eu não estou afim dele. Eu praticamente nem o conheço e ele provavelmente nem sabe o meu nome. Luke que o convidou para vir aqui. E se querem minha opinião, esse tal de Gregory... — Grigor. — Interrompeu-me Luke. Eu bufei. — Grigor. Tanto faz. Ele não vai vir. Emily Morgan vai dar a sua famosa festinha hoje á noite. E eles estavam bem... — Eu calculei minhas palavras, me lembrando da cena da


lanchonete. — Íntimos hoje. Vocês acham que ele vai deixar de ir a ―festinha do ano‖ para estar aqui? Terminei meu discurso e me joguei no sofá. De certa forma estava aliviada por colocar aquilo tudo para fora. Mas quando a campainha tocou, eu voltei ao meu estado de antes. — Será que é o Oliver? — Emma perguntou ao mesmo tempo em que eu me lembrava de que ainda restava ele. Esse definitivamente não é o meu dia! Arrastei-me até a porta e abri. Mas não era Oliver que estava lá. E sim Gregory. Quer dizer, Grigor. E, céus, como uma pessoa pode ser extraordinariamente elegante como um membro da nobreza de jeans, camiseta branca, e uma jaqueta de couro preta por cima? — Oi. — disse-me ele, os olhos verdes penetrantes. — Você é a Anna, não é? Eu ainda estava o encarando sem dizer absolutamente nada quando Luke e Emma apareceram atrás de mim. — E aí Grigor? Vamos entre. Eu saí do caminho, estupefata. Porque, de certa forma, eu esperava que aquilo acontecesse de novo. Que tudo ganhasse aquele aspecto enegrecido em preto e branco; e eu tivesse aquela mesma visão, assim que o visse. — Então, você é o famoso Grigor? Eu sou Emma Newton — apresentou-se ela, dispensando o tradicional aperto de mão e dando um beijo na face dele. E eu continuava ali imóvel. Por cima do ombro, Luke me lançou um olhar de desaprovação e disse, somente mexendo a boca, sem emitir som ―o que você está fazendo aí?‖ Eu dei de ombros, meus ossos estavam rígidos. — Humm, — Emma também me olhou, as sobrancelhas levemente franzidas e a mesma expressão de Luke. — Conhece minha amiga, Anna Mathers? — Sim. — Grigor se virou para mim, e novamente eu esperei que aquilo acontecesse. — Estamos em Ed. Física juntos, certo? Diga alguma coisa! Mas eu só consegui mover minha cabeça de cima pra baixo e engolir em seco. Quando a campainha tocou novamente, eu me virei para atendê-la. Mesmo sabendo que aquilo só iria piorar e ficar mais estranho no memento em que Oliver passasse por aquela porta. Mas talvez eu precisasse daquilo, talvez eu pudesse me esquecer da visão quando eu olhar nos seus esquisitos olhos de safira. — Hey. — disse-me ele.


Observando melhor, bem que Oliver poderia ser de um grupo de rock. Ele tinha um jeito meio ―dane-se o mundo‖, e combinando isso com seu comportamento estranho e a sua aparência física, ele daria um belo vocalista. Talvez se a pele dele fosse um pouco mais clara ou mais bronzeada, poderia também ser um daqueles atores de séries de TV. Oliver era um meio termo perfeito entre ―os pálidos cor de papel‖ e os ―bronzeados bombados‖. O cabelo liso num tom de loiro escuro caindo um pouco em sua testa, ás sobrancelhas retas sobre os olhos, e estes... Que eu mal conseguia definir, azuis escuros e vividos, os lábios finos e avermelhados, o corpo másculo e esguio. Ele era sem duvida bonito. Bonito demais para Emily não tê-lo notado. O que ele também fazia aqui? Ele pigarreou, me triando de meus devaneios. —Certo, eu posso conversar com você aqui, já que não vai me convidar para entrar. Está bonita, Mathers! — ele me pegou desprevenida. Olhando-me de cima a baixo, um sorriso malicioso surgindo em seus lábios. — Eu me pergunto, se tudo isso é pra mim... — Mais convencido e prepotente impossível. — retruquei. Ele riu. Eu lhe dei as costas e sai de seu caminho, sem lhe dizer para entrar. Uma coisa sobre Oliver: O que ele tem de bonito, tem de irritante. Eu voltei para a sala de estar. Grigor estava sentado no sofá de três lugares, Emma ao seu lado e Luke estava mexendo no micro system da estante. Eu sentia Oliver andando atrás de mim. — Olha só quem apareceu. — Emma disse sorridente. — Estava pensando em ir te buscar na sua casa. Mas ele não a fitava, estava olhando Grigor. Fuzilando, melhor dizendo. E Grigor por sua vez lhe devolvia um olhar sarcástico e debochado. — Vocês se conhecem? — perguntei. Emma não parecia notar a tensão que começava a nascer na sala. — Há muito tempo. — respondeu-me Grigor. — Quem é vivo sempre aparece. — ele sorria, mas agora seu olhar não era nada amigável. — Mas, os fantasmas também voltam para assombrar. — murmurou Oliver. Baixo de mais, eu quase não pude escutar, mas Grigor pareceu ouvir claramente, pois o olhar sarcástico voltou ao seu rosto. — Então você é o Oliver? Aquele que coloca o Zac Efron no bolso? — Só agora eu percebi que Luke tinha uma taça de vinho em uma das mãos. Ele bebera menos da metade e já estava alto. — Hamm — Emma pigarreou, o rosto corando. — Não ligue pra ele, Oliver. Ele começa a falar coisas sem sentido quando bebe!


Sem sentido... Sei. Lembro-me bem dela dizer isso aos quatro ventos, e estava bem sóbria. E então uma música alta começou a tocar. Há situações em que é bom ter poucos vizinhos; quando o seu amigo gay fica bêbado e resolve fazer de sua casa uma boate, é uma delas. — Vamos dançar! — ele disse pegando a mão de Emma. A mesinha de centro já havia sido tirada e agora havia um grande espaço ali. Levou pouco tempo para que Emma começasse a também ficar alta. E logo os dois estavam no mesmo nível de loucura. Eu meio que sentia vontade de me juntar á eles. De vez enquanto fazíamos isso também; bebíamos e depois nos acabávamos de dançar. Mas eu estava muito envergonhada e tensa para isso.E seja o que lá Oliver estivesse escrevendo sobre mim naquela redação, eu não o daria o gosto de escrever sobre como é à experiência de me ver bêbada. Sendo assim eu fiquei surpresa quando ele começou a beber e se juntar a Emma e Luke. Eu me sentei no mesmo sofá que Grigor estava. Ele estava rindo de alguma piada interna, provavelmente. — O que foi? — perguntei tentando ser casual. — Seus amigos... Eles me lembram umas pessoas que conheço. — respondeu-me ele. — Sério? Eu mal consigo imaginar pessoas tão elétricas e malucas como Emma e Luke. — Acredite, há muita gente assim por aí. — disse pensativo. — A propósito, bela cesta. Eu engoli em seco, me lembrando da sensação de perder o controle do meu corpo e de que ele estava o manipulando. — Obrigada. — murmurei. Nós ficamos em silêncio depois disso. A música ficava cada vez mais alta e Emma e Luke mais bêbados. Eu estava observando atentamente Oliver. Eu queria que ele fizesse algo errado e que eu conseguisse achar um defeito mais concreto nele. Mas eu estava ficando hipnotizada pelo modo que ele mexia o corpo no ritmo da musica. Céus, onde é que eu estava com a cabeça quando deixei que isso acontecesse? — Vinho? — Grigor me ofereceu a taça. Eu hesitei em pega-la primeiramente, mas eu sentia que precisava de um pouco de álcool no sangue para esquecer um pouco daquela loucura. Depois de entornar duas taças, ás coisas começaram a mudar. Eu me sentia leve e desinibida. E pouco a pouco fui me esquecendo de tudo; das visões; das sensações estranhas; de quem me observava; de onde eu estava...


Eu só ouvia a música e sentia a eletricidade pulsando em meu corpo. E não havia forças para resistir a isso. E de repente eu não queria mais resistir...

Minha cabeça doía quando eu abri meus olhos. O sol entrava pelas cortinas me incomodando e eu mal tinha forças para olhar que horas eram. Rolei na cama disposta a me esconder dos raios solares entre as cobertas. Poderiam ter se passado horas, mas para mim foram segundos, quando um barulho estranho veio da janela. Eu o ignorei. Mas depois começou novamente, mais forte, mais persistente, impaciente e principalmente irritante. Eu me vi sendo obrigada a levantar e parar com o que quer que esteja fazendo aquilo. Afastei um pouco a cortina, a tempo de ver pedrinhas minúsculas baterem na vidraça e voltarei para o chão; um pouco mais forte e quebraria o vidro. Primeiramente, supus que fosse alguma criança fazendo arte. Quando abri a janela e coloquei minha cabeça para fora, estaquei ao ver que era Grigor que estava arremessando-as. — O que você está fazendo? — eu perguntei confusa. — Checando para saber se ainda está viva. — ele respondeu rindo. Eu abri a minha boca e depois a fechei. Tentei me lembrar do que tinha acontecido na noite anterior. Eu me recordava de poucas coisas. Vozes... Musica alta, vinho... Eu bebendo o vinho... Ai! Dor de cabeça. — Vem dar um passeio comigo. O dia está lindo aqui fora. —seria quase um crime se eu recusasse. Mas minha cabeça doía e eu deveria estar horrível, e seja o que lá tenha acontecido noite passada... Quatro palavras: Não deve ter prestado! — Não. Eu... Não me sinto muito bem para sair. — respondi-lhe. — Talvez, quem sabe, outro dia. — uhum, seria mais fácil eu ganhar na loteria duas vezes seguidas. — Não, vamos hoje. Eu te dou meia hora para se arrumar. Hoje é sábado, não pode ficar na cama o dia todo. — Ele sorriu, e o sorriso dele parecia ofuscar até mesmo o sol. Meia hora depois eu estava dentro de shorts jeans e havia desenterrado uma de minhas blusas de alças. Mas não havia como não usar óculos escuros com aquelas olheiras horríveis. Por mais que eu estivesse meio enjoada, com a cabeça explodindo, e sonolenta, não havia como não notar que ele tinha razão: ele estava lindo. Quer dizer, o dia estava. Huh. — O que aconteceu noite passada? — perguntei temerosa.


— Não se lembra? — ele perguntou divertido. — Emma e Luke estavam caindo de bêbados, e os levei até suas casas. — Só isso? — Acho que seria um pouco mais trágico se eu não os tivesse levado. Emma não lembrava nem o próprio nome. Eu sorri, um pouco desconfiada de que ele estivesse omitindo algo. —Onde estamos indo, exatamente? Ele franziu as sobrancelhas um pouco. — A verdade é que eu não sei. Foi impossível não rir. É claro que ele não sabia onde estávamos indo, ele era novo na cidade! — Podemos ir até... — eu pensei um pouco — O bosque. — Foi o único lugar que me veio em mente. — Emma obrigou o pai dela a construir uma casinha para nós quando tínhamos sete anos. Acho que ainda está lá. E estava. A casinha pequena e de madeira ainda estava lá, no lado leste do bosque. Desgastada pelo tempo, mas ainda lá. Consumimos todo o nosso tempo de infância enfeitando aquela casa. Era o nosso cantinho secreto. Totalmente feita de madeira, com uma pequena janela ao lado esquerdo — colocamos um cortina rosa para enfeitar. Uma portinha no centro. Vínhamos para cá depois da escola todos os dias. Mas infelizmente nosso cantinho foi descoberto por alguns garotos maiores e depois disso nunca mais pudemos voltar. E ele deixou de ser nosso. Estar ali era como de certa forma voltar no tempo. Eu podia ver duas garotas quase do mesmo tamanho. A primeira de cabelos castanhos na altura dos ombros, o rosto pálido e oval, a boca vermelhas e pequenos olhos negros; Emma. A segunda tinha os cabelos logos quase no meio das costas — os fios não eram totalmente ruivos, e sim num tom estranho meio loiro e castanho, lembrando ferrugem. Era volumoso e deixava seu rosto claro meio escondido. As sobrancelhas finas, o nariz pequeno, os olhos quase da mesma cor dos cabelos, a boca rosada; Eu. — Eu vinha aqui praticamente todos os dias. Achava que esse lugar era mágico. — Eu dei de ombros, não sabendo exatamente por que estava dizendo isso á ele. —Parou de vir?


— Sim, aconteceram algumas coisas... Garotos grandes vieram e o tomaram. Eu queria recuperá-lo, mas a minha mãe... — eu comecei. — A sua mãe? — ele me instigou a continuar. — Ela morreu e... Eu parei de acreditar em magia. — disse e me virei para ele. Sem conseguir olhar mais para a casinha abandonada. Ficamos em silêncio. Grigor estava observando minuciosamente cada detalhe dela. O rosto dele parecia ser macio como algodão refletindo no sol. Eu me obriguei a voltar a olhar a velha casinha. Eu passei ás mãos por meu rosto um pouco suado, aproveitando para tirar um pouco os óculos. Foi apenas por um segundo, mas eu a vi. Uma garota de vestido branco, e cabelos negros, parada em frente à pequena janela. — Tem alguma coisa errada. — sussurrou ele. Ele a vira também? — Você a viu? Ele não respondeu. — Eu acho melhor você voltar para casa. E eu percebi que quando ele disse ―você voltar para casa‖, ele não queria dizer que ele também voltaria comigo. — Você vai ficar? — eu perguntei assustada. Ele não respondeu novamente. O grito que veio a seguir congelou todos os meus ossos, e fez a minha circulação sanguínea parar. Era assustador. Macabro. Agonizante. Cruel. E vinha de dentro da casa. — O. Que. Foi. Aquilo? — meus olhos estavam arregalados, e as palavras mal emitiram som. Eu dei um passo para trás. Minha respiração presa na garganta. Eu queria olhar para Grigor, ver se ele estava tão assustado quanto eu. Mas não conseguia. Outro grito. Desta vez mais forte. Ensurdecedor. Eu dei outro passo para trás, acabei tropeçando em algo, não consegui olhar o que era. Eu escutei um leve estalar, mas não veio a dor. O medo entorpecia tudo. Quando finalmente consegui mover meu rosto para olhar Grigor, ele já não estava lá. E eu percebi que estava sozinha.


A porta foi se abrindo aos poucos com um rangido. Centímetro por centímetro, lentamente. Eu não conseguia mais me mover, completamente imóvel. Esperando. Os segundos não pareciam passar. E quando a porta se abriu totalmente, eu ofeguei não acreditando no que via. — Oliver?


SEIS. Eu não conseguia mover nenhum músculo, completamente paralisada, enquanto ele vinha em minha direção. Ele não tinha nenhuma expressão, o azul safira de seus olhos não estava mais lá, e agora eles não pareciam ter superfície; era como um buraco negro sugando toda á luz; O torpor foi passando e o sangue voltou a circular por minhas veias. Meu coração batia como uma locomotiva, e agora eu podia sentir constantes fisgadas no meu tornozelo; mas meu cérebro ainda não fora capaz de identificar a dor. Eu não sabia se conseguiria me levantar. Mas eu tinha que sair dali, de qualquer maneira; Meus instintos praticamente gritavam. E ainda assim eu ainda continuava ali. Encarando-o. Esperando-o. Será mesmo que a morte chegava assim tão demoradamente e torturante para todas as pessoas ou isso só acontecia com pessoas masoquistas como eu? E era até de certa forma engraçado o modo como, mesmo sabendo que não haveria mais chances para mim e que ali era o meu fim, eu ainda conseguia achá-lo lindo como um Deus. Uma parte de mim — a que á tempos eu havia esquecido — o agradecia por estar fazendo isso. Porque agora perecia claro como cristal, o jeito como eu sempre anseie pela morte. E como ela sempre esteve presente em minha vida. Tudo começou com a morte de meu pai. Eu era pequena demais para entender o que a morte realmente significava. Mamãe, mesmo aos cacos por dentro, tentava me fazer ver um lado bom naquilo. Ela dizia: ―Seu pai agora vai ser um anjo no céu e vai cuidar de nós duas para sempre‖. E depois ela também morreu. Não adiantava o que dissessem para mim; Eu não acreditava mais. Minha mãe havia morrido... Eu estava sozinha. E se meu pai realmente fosse um anjo, ele deveria ter o mínimo de misericórdia possível para me tirar daqui. Eu continuei viva. Mas morta por dentro. Estando aqui apenas para cuidar de Molly. Porque, infelizmente, ela também só tinha a mim. E depois de tudo isso, parece irônico que eu fosse morrer justo agora. E mais irônico ainda que fosse Oliver a me matar. E também é engraçado porque eu fui avisada. E de alguma forma, desde que eu o vi, eu sempre soube disso. Ele disse que era perigoso e que era melhor eu me afastar dele enquanto havia tempo. O tempo acabou, Anna.


E a cada passo que ele dava em minha direção, era um rosto de uma pessoa amada passado em minha mente; Primeiro Molly, depois Emma, Luke, os pais de Emma: Rose e Chad, — que foram praticamente os meus pais postiços, o avô de Luke — que sempre me deu sábios conselhos. Todos eles passaram. E não importava o que aconteceria depois, eu jamais os esqueceria. Fechei meus olhos aguardando. Cada segundo como horas. Um barulho de Tum-tum-tum pulsava ao meu lado. Ritmado. Eu já estaria morta, seria isso? Abri meus olhos e inacreditavelmente tudo tinha ganhado o mesmo aspecto enegrecido da tarde anterior. Mas eu não estava na mesma floresta. Agora tudo era brilhante, mesmo em preto e branco. Grandes tochas penduradas em candelabros perfeitamente enfileirados em cada canto do enorme cômodo. Uma grande escada com um extenso tapete no centro. O piso era como um tabuleiro de xadrez, portas duplas na extremidade sul e velas em todas as mesas. Parecia algum tipo de decoração real para festas. Eu estava ainda confusa e com meus olhos ardendo pela claridade quando uma garota de cabelos negros, pele de giz, vestindo em um elegante vestido que chegava até os seus pés, apareceu no topo das escadas. Ela era esguia e graciosa como uma pluma. Parecia flutuar enquanto descia os degraus. Eu demorei a reconhecer; era a mesma garota que eu vira em frente à janela. Ela sorria, sua íris era negra e os lábios carnudos e vermelhos como sangue. Ela passou flutuando por mim; e quando digo que ela passou estou querendo dizer que a garota me atravessou ao meio como se eu não estivesse ali; como se eu fosse parte do ar; invisível... Como um fantasma. Havia um homem sentado numa cadeira atrás das grandes mesas. Seus cabelos vinham até os ombros, uma grossa barba em seu queixo, os olhos pequenos e escuros, e ele mantinha um sorriso perverso no rosto. — Estas quase na hora, minha querida. — disse ele, o sorriso perverso se alargou em seu rosto sombrio. — Estas. — concordou a garota. — Nossa vingança tardara, mas não falharás. — um reflexo do sorriso do homem surgiu em sua face de cera. — Logo tomaremos posse do que vos pertence. A praga dos Veroni será varrida de todos os mundos e dimensões. E nós reinaremos soberanos a tudo e á todos. — surgiu um brilho nos olhos negros enquanto ele falava. — Seremos coroados na noite de Lunabella! — os lábios vermelhos se arreganharam por cima do dentes brancos como papel. A visão mudou. Agora eu estava num lindo jardim, cheio de flores e pássaros coloridos voando pelo ar. Uma grande casa branca num estilo medieval, como naqueles filmes


escoceses. Seria uma linda paisagem se não fosse pelo homem ensangüentado na estreita escadaria que levava até a porta de entrada no centro da casa. Um pouco repelida pelo sangue, caminhei até ele e me agachei ao seu lado á uma distância considerável. Ele vestia roupas de épocas e elegantes como ás pessoas da minha visão na floresta. Tinha um fino bigode que o deixava parecendo uma pintura de um quadro e cabelos loiros como ouro. O sangue escorria de seu peito, braços e pernas. Eu o julgava morto em razão aos ferimentos, mas depois de alguns segundos ele abriu os imensos olhos castanhos. — Eu sabia que tu virias. — a voz dele mal tinha som. Eu esperei que alguém aparecesse, demorou mais dois segundos para eu entender que ele falara comigo. Ele podia me ver! — Quem é você? — perguntei, não com medo, mas sim, curiosa. — Sou aquele que provocou uma tragédia, e que o corpo nem a terra irás de querer. — um sorriso duro surgiu em seus lábios finos. — Escutes bem, minha cara, guarde minhas palavras como seu tesouro mais sombrio: O que em outrora foi feito é impossível ser desfeito. E depois eu abri meus olhos. Estava novamente de pé, a pequena casinha a minha frente com a porta completamente fechada e remoída. — Acho que dá pra concertá-la. Levaria certo tempo, é claro, a madeira já deve estar quase toda roída por cupins, mas nada que não seja reparável. — eu escutava a voz de Grigor ao meu lado, mas ainda estava confusa e chocada demais para olhá-lo. Onde estaria Oliver? — Você... O quê... — eu não sabia por onde começar. Meu tornozelo estava perfeitamente apoiado no chão e nada parecia fazer mais sentido. Eu sentia seus olhos me queimarem, isso fez meu estomago dar voltas. — Eu entendo se você não quiser reconstruí-la. Olha, eu sei que já ouviu isso muitas vezes, mas... Eu sinto muito pela sua mãe. Movi minha cabeça, para encará-lo. Não havia nenhum vestígio de pena que eu via nos olhos das outras pessoas quando falavam da minha mãe. Grigor somente me encarava fixamente deixando os qualquer sentimento que ele sentisse absorto dentro de si mesmo. Indecifrável. Era assim que ele era. — Tá. — murmurei ainda confusa. Eu estava desnorteada encarando tudo ao meu redor. Á poucos instantes eu jurava que estava a um passo de morrer e agora tudo parece tão calmo... E surreal. — Eu acho melhor a gente ir embora. — minha voz tremeu quando me referi a nós dois. Voltei a fitá-lo curiosa.


— Certo. — concordou ele. E quando eu não me movi ele disse: — Você está bem? Eu balancei minha cabeça num sim mudo. Por que eu não estaria bem? Só porque eu achei ter visto Oliver saindo daquela casa junto com uma garota, que por acaso também a vi numa visão, e como se já não me bastasse tive outra em que um cara quase morto me dizia coisas sem sentido? Imagine. Movíamo-nos lentamente por entre ás arvores e plantas. Grigor parecia relaxado ao meu lado, eu desejava ansiosamente que ele me dissesse algo para eu esquecer o que se passara — o que aparentemente só eu vira. — Luke me disse que você é emancipado. — resolvi começar. — Como é isso? — Até que é legal. — respondeu-me ele. — Sou responsável pelo que faço o que ás vezes também é um pouco ruim. Não podem colocar a culpa nos meus pais. — ele piscou pra mim rindo. Eu sorri um pouco. — Mas é bom. Não tenho muito do que reclamar. — Seus pais devem ser legais. — na minha mente eles deveriam ser um casal liberal de aristocratas. Ligeiramente lindos. Bem humorados. E ao mesmo tempo descolados e elegantes. Como Grigor. — Eles eram. — ele concordou. E então eu parei. — Desculpe, eu... — certo. Eu sou uma idiota. Eles morreram por isso ele é emancipado. Eu deveria bater minha mente dormente numa parede antes que ela cause algum mal a sociedade. — Não, tudo bem. — ele sorria de canto. — Eles morreram há muito tempo. Não se preocupe. Voltei a andar. — Mas eu tenho uma espécie de tutor que me visita de tempos em tempos. — Pra saber como você está. — eu deduzi. — Ou também para me vigiar. — o seu sorriso se alargou, um pouco duro, mais ainda assim ofuscante. — Atlanta deve ser calma comparada à Nova Iorque. — É, talvez. — murmurou ele pensativo. — Despende muito de que lado você olhar, os seus amigos e você deixam alguns jovens de nova-iorquinos no chinelo. Meu rosto corou violentamente. — Eu não sei por que, mas eu sinto que você está omitindo algo sobre ontem à noite.


Ele riu o que meio que confirmava minha desconfiança. — Depois de um tempo você começou a ficar, digamos... Mais alegre. — Não! — minha boca se escancarando. — Você não fez nada demais. — ele tentou me acalmar. — Não agarrou ninguém e também não levou ninguém para o seu quarto, eu acho. — ele sorria como se aquilo fosse engraçado. — Relaxa, eu só estou brincando. Não aconteceu nada. Você só bebeu demais e curtiu a festa. Se isso for um crime, me prenda, pois eu fiz a mesma coisa. Demorou alguns minutos para que eu recuperasse a minha fala. — Você está conhece mais gente na cidade? — Algumas pessoas vieram falar comigo. O pessoal daqui é bem hospitaleiro. — ele sorriu de canto. — Eu tenho também uns amigos no centro. — Você mora lá? — tive o cuidado de deixar o meu tom o menos interessado possível. — Não. Eu meio que aluguei uma casa aqui perto do bosque. Fica mais ao norte. Eu te convidaria para ir lá, mas está uma enorme bagunça da mudança. — Não, tudo bem. Eu sei como é isso. — murmurei pensativa. — Bom, não precisa me levar até em casa, eu sei o caminho de volta. Até mais. Depois de me despedir dele, eu corri para minha casa. Sim, eu corri. Parecia que todo o torpor fora substituído por adrenalina. Adrenalina correndo e pulsando em minhas veias, e depois juntamente com ela veio a raiva. Eu estava com raiva, não sabia de quê ou de quem, mas estava. Quando eu entrei na minha rua, estava ofegando e cansada, mas eu ainda queria continuar correndo com a esperança de que a raiva passasse. Mas ela não passou e só aumentou quando eu vi um garoto loiro de costas para mim em frente a uma moto que poderia ter sido usada em velozes e furiosos. Eu respirei fundo e marchei até ele, que se virou, quando percebeu minha aproximação. — Ora, ora, se não é a bela adormecida. — disse ele, com seu típico sorrisinho irônico. — Primeiro dorme no jardim, depois apaga antes de me beijar. Então ele me vira dormindo no jardim... Minha boca se entreabriu com o fim da frase. — O que você disse? — Sério, dormir no jardim? Isso é um pouco esquisito, até para mim. Eu bufei. — Depois. — exigi.


— Ah, claro. — seu estúpido sorriso se alargou. — Você apagou antes de me beijar. Eu tentei não me afetar. — Você é maluco e idiota. Ele riu. — Não foi o que pareceu ontem à noite. Certo, então eu sou o maluco e idiota que você quase beijou. Engoli em seco. Ele estava blefando. Eu jamais o beijaria. Sorri. Um sorriso superficial totalmente sem emoção, porque ás emoções que eu tinha por dentro eu nunca as mostraria para ele. — Você é um ótimo inventor. — comecei. — Deve estar indo bem com o trabalho inventando coisas sobre mim. Isso foi o suficiente para tirar o sorrisinho da cara dele. — Dez páginas. — disse ele. — Sem invenções. Eu arqueei uma sobrancelha, não conseguindo esconder totalmente a surpresa. — O que você escreveu? — Coisas. — murmurou ele, sarcástico. — Coisas que eu sei não que inventei. E você? Escreveu só aquelas três palavras? Hum, eu acho que o Sr. Norton não vai gostar. Acho que você deveria dar um bom motivo para tê-las escrito. — Não vai ser nada difícil. — disse eu com desdém. ―Estranho, louco e Imbecil.‖ Bom, eu poderia começar dizendo que Oliver era estranho porque aparentemente ele acabou de tentar me matar e, no entanto ele está aqui conversando comigo como se nada tivesse acontecido... É, com certeza, se eu escrevesse isso o Sr. Norton tiraria os três adjetivos que dei a Oliver e colocaria em mim. Ele sorriu mais uma vez. Mas não foi o velho sorriso irônico, foi um sorriso genuíno de quem realmente achou graça na situação, um sorriso que eu nunca vira em seu rosto. E que o deixava mais bonito do que já é. Mais natural. — Já sei. Vamos fazer um acordo. — sugeriu ele, me pegando desprevenida. — Eu te ajudo na sua redação, diminuo ás paginas das minhas tirando ás partes mais constrangedoras que sei sobre você. — Partes constrangedoras? Tipo o que?


Ele deu de ombros. — Sei que você chora vendo filmes bregas e que dorme seminua. Ele está inventando, ele está inventando, ele está inventando!Ele não pode realmente saber disso! — Eu topo. — por favor, que isso não tenha saído muito desesperado. — Não vai nem perguntar quais são ás minhas condições? — ele se virou de costas para mim. Agora eu podia ver que ele estava limpando a moto com uma flanela cheia de graxa. — O que? Vai me fazer de escrava? — Não. — a voz dele não me deixou nem um pouco certa disso. — São só duas condições. Primeira: Vai sair comigo hoje á noite. Segunda: Sabe aquele seu novo amiguinho? Quero que fique longe dele. O que? — S-sair com você? — meus olhos se arregalaram. Ele riu. — Não vai ser um encontro. — ele se virou para mim. — Só vamos dar uma volta. Vou te mostrar um pouco sobre mim e coisas que eu faço... Isso deve te ajudar a escrever a redação... — Tá. — murmurei. Eu não iria pensar nisso agora. — E o que há de errado com Grigor? Ele se virou de novo. — Ele não é... Normal. — Você também não é normal. — É, mas eu também te disse pra ficar longe de mim. — retrucou. — Então... — eu não sabia que palavras usar. — Grigor é como você... Quero dizer... Grigor... Faz o que você faz. Ele riu. — E o que eu faço? — Eu não sei. — respondi. — Mas não é bom... — minhas palavras mal tiveram som, mas ele escutou.


— Tem razão: Não é bom. — ele se voltou para mim. O rosto totalmente sério e compenetrado. — Vai ficar longe dele? Eu pensei por um minuto. — Não. — e isso soou mais como um desafio do que como uma resposta. — Como eu pensei. — murmurou ele mirando o horizonte. Ele parecia estar em outro lugar enquanto fazia isso. Os olhos cerrados e mais hipnotizantes do que nunca, com certo ar irônico, mas não arrogante. Ele era celestial! Mas também demoníaco! Eu estava ficando louca, fato. — Aonde vamos? — perguntei. Seja lá onde ele estivava, ele voltou a si. — Se eu contar perde a graça. — A que horas? — perguntei revirando os olhos. — Não posso demorar muito. Molly vai chegar daqui a pouco e ela não pode ficar sozinha. — Harry não vai ter plantão esta noite. — ele disse, com uma convicção que me assustou um pouco. — Sem chance! Eu não vou sair com você á noite. — Certo. Então não temos um acordo? Eu fechei meus olhos respirando fundo. Sim ele era um imbecil! E eu mais imbecil ainda. — Temos. — Bom. — aprovou ele. — Depois da meia-noite, esteja pronta. Não faça isso, Anna! É loucura! Por que diabos eu sempre acabo concordando com ele no final? Eu estava em frente ao espelho do banheiro olhando o reflexo no espelho. Tinha colocado um cardigã azul que achei no meu armário, jeans escuros e botas pretas. Eu não sabia aonde iríamos, então eu não fazia idéia se esta era a roupa certa. Prendi a parte da frente do meu cabelo com grampos e passei reparador de pontas para tirar o frizz. Isso era tão irresponsável. Harry estava em casa o que é pior do que deixar Molly sozinha. Sim, ele estava melhor esses últimos dias — e eu desconfiava que isso era devido a uma certa nova vizinha loira que agora trabalha com ele. Mas quando se trata de Harry nada mais me surpreende.


Houve uma vez que ele chegou em casa bêbado e quase quebrou a cozinha inteira. Eu me tranquei no quarto com Molly. Eu não podia ligar para a polícia porque com certeza o conselho tutelar viria, e com certeza iríamos para um orfanato. E ninguém iria me separar da Molly. Somos como dois fios num nó cego. Não há como desfazer o nó sem cortar os fios. E se um quebra com o outro acontece o mesmo. Eu mordia os lábios olhando o relógio no meu pulso. Meia noite e meia. Molly dormia e Harry estava vendo uma reprise de um jogo idiota de basebol na TV. O que me fez pensar em como eu sairia dali. E quando barulhinhos começaram a sair da janela, eu suspirei e lembrei a mim mesma que tinha concordado com isso e que iria até o fim porque eu precisava fazer o maldito trabalho e desvendar um pouco a vida do meu vizinho estranho. Abri a janela e espiei a rua lá em baixo. A moto de Oliver estava encostada no meio-fio e ele estava com a cabeça para cima me olhando com o seu maldito sorriso. — Peguei uma pedra emprestada com o seu amiguinho. Espero que ele não se incomode. — ele sussurrou para mim, rindo baixo. Eu revirei meus olhos. — Isso não vai dar certo. Não tenho como sair, Harry está lá em baixo na sala. Foi a vez dele de revirar os olhos. — O que há de errado em descer pela janela? — perguntou ele. — É um clássico. Eu segurei meu queixo no lugar. — Eu não vou descer por uma corda... O que você tem na cabeça? — bufei. — Quem está falando em descer por uma corda? Nem Julieta faria isso hoje em dia. Venha, eu te pego. — dessa vez meu queixo despencou. — O que? Olhei a distância até o chão e uma forte vertigem me ocorreu. — Eu te pego. Não vou deixar você cair. — e não adiantava o quão persuasivo a frase dele soasse eu nunca seria idiota o suficiente para me jogar de uma janela a quase 5 metros do chão. — Nem pensar. — eu disse firmemente. — Certo, então como vai descer? — perguntou sarcástico. — Voando?


Mordi meu lábio e sai da janela. Não agüentava mais olhar para aquele sorrisinho. Eu não tinha opções. E não iria mais adiar aquilo. Quanto mais cedo eu saísse dali, mais cedo eu poderia voltar. Eu acho. Desci degrau por degrau a escada e quando cheguei a sala, dei de cara com latas de cerveja na mesinha de centro, a TV ligada com comercias chatos passando e com um Harry totalmente apagado no sofá. Andei silenciosamente até a porta. Peguei meu molho de chaves e enfiei na fechadura fazendo o mínimo de barulho possível. Quando sai para a noite, suspirei. Tranquei de novo a porta e me virei para encarar Oliver. Ele me olhou de cima a baixo e depois sorriu, felizmente não fez nenhum comentário idiota. — Seja para sabe-se lá o lugar que você está me levando... Eu quero voltar logo! Ou então eu vou ligar para a policia e dizer que me seqüestraram, vou dar o endereço da sua casa, vão rastrear a sua família intera até o fim do mundo e... — Ei! — ele me interrompeu rindo — Relaxa, vamos só dar uma volta. Ele pegou o capacete que estava em cima da moto e me estendeu. Suspirei olhando a moto. Não vai dar pra trás agora, meu lado inconseqüente sussurrou. Coloquei o capacete na cabeça observando-o subir na moto: Uma versão totalmente distorcida de um príncipe num cavalo branco. Não, aquilo não me lembrava nem um pouco contos de fadas. — Desistiu? — ele sorria, me desfiando. Engoli todo o meu orgulho juntamente com o resto da minha sanidade e subi na moto, tocando o mínimo possível nele. Eu pude ver um reflexo de um sorriso surgindo antes de dar a partida e tudo ao meu redor ser reduzido à simples borrões. E antes que eu pudesse me impedir,eu já estava totalmente grudada a ele, agarrada a sua cintura como se ela fosse a minha vida. E mesmo que aquilo fosse aterrorizante e insano, eu tinha que admitir que era muito bom. A adrenalina correndo nas veias como se fizessem parte do sangue, o vendo jogando meus cabelos para trás, me impedindo de me mexer e até mesmo de pensar. Fora que o cheiro de Oliver inflamava meus pulmões, aumentando mais ainda aquela sensação maravilhosa. Liberdade.Era o que eu tinha naquele momento. Era como voar, e o mais incrível era que não havia mais horizonte, não parecia ter um fim marcado, era como se nós estivéssemos passado por tudo, em direção ao infinito. Quando a moto foi desacertando aos poucos, eu me obriguei a soltar a cintura de Oliver. Os músculos das costas dele estavam compridos na palma de minhas mãos. Desci da moto cambaleando observando com muito cuidado o lugar onde tínhamos parado.


Havia muitas pessoas ali. Homens com vestimentas da moda, não havia um padrão. Uns totalmente de preto, outros mais descolados. Alguns jovens e outros mais velhos. Já ás mulheres, sim elas tinha um padrão: Vestidos e saias mínimas, blusas mostrando a barriga e com enormes decotes. Olhei para mim mesma me sentindo como sempre: A estranha. Mas o que mais me impressionou foram os carros. Alguns eram até discretos, mas outros deixariam uma placa de neon piscando: ―Olhem pra mim‖ invisíveis, de tão extravagantes. Eram de cores variadas: azul, amarelo, rosa, laranja... Senti alguém pegar o meu braço e antes que eu pudesse me virar, Oliver sussurrou ao pé do meu ouvido: — Não fique encarando ás pessoas desse jeito... Eles não gostam de muita atenção. Aham. Não gostam. Quem teria carros assim e não queria chamar atenção? Mesmo assim abaixei meu olhar, e tentei não encarar ninguém, enquanto ele me guiava até um pequeno grupo de pessoas. Eu estava ficando nervosa com aquela quantidade de gente. Estava querendo voltar correndo para casa e me enfiar embaixo das minhas cobertas quentinhas. — Oliver! — uma mulher ruiva, extremamente extravagante veio até nós. Ela tinha um copo com uma bebida vermelha nas mãos. Não pense besteiras, Anna! — Sarah. — ele não parecia nada empolgado enquanto preferia o nome dela, totalmente ao contrario dela que praticamente se jogou em cima dele. Ela deixaria Emily no chão, no quesito de se oferecer. Ele se afastou gentilmente dela. — Chegou cedo. — ela disse. Dei uma espiadela no meu relógio: quase uma da manhã. Cedo! Ela até que era bonita. Vulgar. Mas bonita. Eu não me senti inferior até que uma garota chegou atrás dela. Seus cabelos tinham grandes cachos castanhos, que emolduravam perfeitamente seu rosto redondo; os olhos grandes e expressivos; a boca pequena e rosada; a maquiagem não muito forte comparada com a da que se chamava Sarah. — Oi. — ela disse a Oliver, dando um singelo beijo em sua face. — Oi. — e ele não respondeu da mesma forma entediada que usou com a outra. Eu comecei a me sentir ainda mais estranha. Como uma coisa que não era para estar ali. — Hamm, — Oliver olhou para mim. — Esta é a Anna. A garota me olhou, não de cima a baixo como Sarah fez, e sim um olhar diferente igual ao que Susan usava quando me olhava no jantar. — Oi, é um prazer conhecê-la. Eu sou Samantha e esta é minha prima Sarah.


— Oi. — eu disse meio envergonhada novamente me lembrando das minhas cobertas quentinhas. — Oliver, cara, é bom te ver aqui! — um homem de pele escura, careca e de óculos escuros surgiu atrás das garotas. Os dentes dele eram brancos e afiados constatando com sua pele morena. — Blake. — Oliver o cumprimentou-o. — Esta é a Anna. — Ah claro. — eu me senti mais constrangida ainda quando percebi que ele me olhava. Os óculos escuros me impediam de ver seus olhos, mas eles pareciam ser tão sombrios como o resto do rosto. Ele esticou sua mão até mim, assombrada eu assisti ele levar a minha mão até os seus lábios, num gesto que eu só havia visto em filmes antigos. — É um prazer conhecê-la. — a voz dele era grave como um trovão. Eu somente assenti. — Vai correr agora ou vai esperar pela segunda corrida? — perguntou Samantha. Claro, então era isso uma racha. Sinceramente, eu esperava algo como Velozes e Furiosos. — Eu vou agora. — respondeu ele. Samantha sorriu nos dando ás costas e puxando Sarah pelo braço. — Vai me desejar sorte? — perguntou ele para mim. Seu irritante sorrisinho no rosto. — Hum, não. Se você perder, eu vou poder colocar ―Garoto prepotente e perdedor‖ na redação. Ele riu e me deixou sozinha. Com Blake. Não fique encarando ninguém. Eu lembrei a mim mesma. Mas por que esse cara continua me encarando? — Acho melhor sairmos do meio da rua. Não acho que seria bom você ser atropelada. — ele sorriu. Foi então que eu notei a fileira de carros e motos que se formava atrás da linha feita no asfalto. A maioria das pessoas estava aglomerada na calçada e somente eu e o tal de Blake continuávamos ali. Que ótimo! Caminhei até o outro lado, minhas bochechas um pouco quentes. Não olhe pra ninguém.


Observei meio fascinada uma garota, com ás mesmas vestimentas curtas das outras, derramar um líquido na pista e logo depois chamas brotarem do asfalto. Fascinante; eu tinha de admitir. Procurei Oliver pela extensa linha. O encontrei entre um... Digamos, um veículo — carro seria um pouco singelo demais comparado aquilo — azul, e outra moto preta. Eu só o reconheci por causa da moto, o capacete tampava totalmente suas feições. Ao menos ele usava um capacete. — Acha que ele vai perder? — perguntei a Blake ao meu lado. Eu torcia para que sim. Não só pela redação, e sim para ter também o gostinho de ver a prepotência dele indo para o espaço. — Não. — respondeu ele rindo. — Ele é bom. Temos que ver isso na terceira corrida. — Terceira? — É. Há a primeira corrida e a segunda que todos podem participar. E a terceira é somente para os ganhadores das duas. Mas eu acho que hoje não há ninguém páreo para ele. Eu arqueei uma sobrancelha. O ronco dos motores foi ficando cada vez mais alto, ensurdeceres. Antes que eu pudesse perceber qualquer sinal, eles deram partida. Deixando fumaça e fogo pela pista. Eles pareciam rasgar o ar, enquanto sumiam no fim da rua. A coisa mais magnífica que eu já vi, nem efeitos especiais superavam aquilo. — Quando eles voltam? — Não vai demorar muito... A não ser que aconteça alguma coisa... — havia um sorriso malicioso nos lábios dele. Eu tentei não demonstrar que estava assustada. Foi nesse momento que a ficha caiu totalmente. Eu estava sozinha, no meio de gente estranha, bebidas, drogas e mulheres seminuas. Eu procurei o tal do Blake, mas ele já tinha sumido no meio da multidão. Droga e droga! E tudo isso só por causa de uma redação! Onde é que eu estava com a cabeça quando fui concordar com isso?


E tudo só piorou quando eu escutei no fundo da rua o barulho das sirenes. A correria começou. Carros arrancando em alta velocidade, garotas espremidas em motos, gente gritando, e eu parada sem saber o que fazer no meio de tudo. Eu já podia me imaginar na delegacia. O que eu poderia dizer? Que fui a uma racha com um colega de escola para fazer uma redação? Ai. Meu. Deus. Busquei meu celular no meu bolso de trás, ao mesmo tempo em que me lembrava que o tinha deixado em cima da mesinha de centro — onde deveria estar enterrado em meio a latas de cerveja. Corri para longe da multidão que se dissipava a cada segundo. Entrei num beco escuro a procura de alguma saída. Corri até o fim e quando achava que tinha encontrado-a, uma mão forte agarrou meu braço e outra tapou minha boca me impedindo de gritar. A sirene estava próxima. No começo do beco, um policial estava com uma arma na mão gritando coisas incompreensíveis para os poucos que continuaram ali.Eu comecei a achá-los sortudos: A delegacia deveria até ser aconchegante, comparando-a a situação que eu estava. O sujeito começou a me puxar até o fim do beco. Eu tentei gritar, mas a mão dele me impedia e tudo que saia era resmungos. O beco ia ficando cada vez mais escuro e úmido. Não parecia haver fim. Quando saímos do outro lado, a rua era igualmente escura, deserta, e silenciosa demais. Só um mínimo barulho de sirenes ao fundo. Vasculhei meu cérebro em busca de alguma saída. Eu não tinha nenhuma experiência com lutas, tudo que eu sabia se resumia a filmes do Jackie Chan, Menina de Ouro e Rocky Balboa. Continuei sendo puxada em direção a um carro mal estacionado no meio fio. Eu não pude identificar a marca e nem a cor antes de ser jogada para dentro no banco do carona. Eu tentei abrir as janelas para tentar sair, mas elas já estavam travadas. Busquei desesperada por qualquer coisa que pudesse feri-lo, mas não havia nada. Uma vez, há muito tempo, eu vi, num seriado qualquer, um cara enforcar um homem com sua camiseta. Eu não tinha muitas idéias e muito menos opções. Eu queria chorar, mas as lagrimas não vinham. Quando o sujeito entrou pelo outro lado, eu decidi que era agora ou nunca. Joguei-me no pescoço dele torcendo com toda força que eu tinha o tecido fino do meu cardigã. Ele tentou me fazer soltar o tecido puxando meus pulsos para cima. Eu torci com mais força ainda. Eu só precisava imobilizá-lo por cinco segundos. Depois sairia correndo a toda velocidade até o outro lado do beco e me jogaria em cima do carro da polícia se fosse preciso.


— Pa... Re! — ele pediu sufocado me empurrando para trás. Cai deitada no banco de couro. O que restou do cardigã em minhas mãos. — Você ficou maluca? — eu reconheci a voz mesmo ela tendo saído em meio a ofegadas. — É você mesmo? — minha voz mal saiu da garganta. Eu estava cansada e elétrica, mal acreditando no que estava acontecendo. — Quem mais seria? — ele perguntou, tentando ser sarcástico mesmo quando estava quase morrendo sem ar. — O que deu em você, garota? — Eu achei que fosse outra pessoa... — tentei me explicar. — Mas o que também deu em você, garoto? Precisava me pegar daquele jeito? Eu quase morri achando que iria ser seqüestrada, ou coisa pior! — respirei fundo tentando me acalmar. — Aliás, o que você está fazendo aqui, Grigor? — Onde você arranja tanto fôlego? — ele riu, e tossiu logo em seguida. Uma parte de mim começando a se sentir culpada, enquanto a outra já estava se escondendo envergonhada. — Eu vim ver alguns amigos... Não imaginava te encontrar aqui. A policia chegou e eu percebi o seu desespero e tentei te ajudar. Não imaginava que você iria tentar me matar com um... Cardigã! Ele sorria. Pelo menos ele não parecia chateado comigo. — Desculpe, eu... — sorri, sem fôlego. — Tudo bem. Eu vou me lembrar disso e cobrar mais tarde. — O que? — perguntei confusa. — Te livrei de ser presa e ainda te perdoei por tentar me matar. São duas coisas que eu raramente faço, baby! — ele piscou pra mim e deu o seu melhor sorriso, que parecia brilhar até no escuro.


SETE. Eu mantinha meus olhos no painel luminoso do carro, que era a fonte da única luz que nos iluminava. Grigor havia parado em frente a minha casa e eu hesitava em abrir o cinto de segurança e sair do carro. Não por medo de Harry me ver, — ele deveria estar bêbado e sonolento, eu poderia inventar qualquer desculpa e ele não estaria em condições de me questionar, e amanhã ele nem lembraria o próprio nome — a verdade era que eu não queria me despedir de Grigor. Havia algo de errado e se não era com ele, provavelmente seria comigo. Mas o fato era que sempre que estávamos próximos alguma coisa de muito estranha acontecia — e essa coisa só eu percebia: As visões, aquela cena estranha no bosque, e ainda tinha o fato de eu ter sentido ele dominado o meu corpo. Mas também era impossível negar que ele também me atraía em uma forma diferente. Não digo isso pela forma física e nem pelo rosto que parecia ter sido arrancado de uma das páginas da revista Vogue, e sim pela sua personalidade... Pelo seu mistério, que mesmo ele parecendo ter uma vida comum como a dos outros garotos, eu sei que o envolve completamente. — Ainda não me disse como foi parar em uma racha. Eu ri nervosa. — É uma longa história... Mas foi por uma boa causa, acredite! Tudo por causa de uma redação de Inglês. — soou brincalhão, mas era a mais pura verdade! — Você iria dizer isso na delegacia? — ele riu. — Não, eu não sou idiota. — É talvez só um pouquinho. — Eu iria dizer que fui seqüestrada por um cara louco e que ele foi embora e me deixou ali. A parte do seqüestro não era bem uma verdade; Oliver não colocou uma arma na minha cabeça e me mandou subir na moto, mas mesmo assim era culpa dele a razão de eu estar ali. O que me fez me perguntar onde é que ele estaria agora. Rindo da minha cara, provavelmente. Ele deveria achar que eu estava na delegacia, e com certeza tentaria tirar o corpo fora e me deixar como a delinqüente da situação. Eu aceitaria isso se ele não usasse seu sorrisinho irritante. Talvez isso tivesse acontecido mesmo se Grigor não me encontrasse naquele beco. E foi só quando eu estava no meu quarto, embaixo das minhas cobertas quentinhas, e quase adormecendo foi que eu me lembrei que não o tinha agradecido. No domingo pela manhã, eu me refugiei no antigo escritório de minha mãe. Havia uma extensa mesa de mogno no centro, um computador antigo — minha mãe odiava tecnologia — e uma máquina de escrever empoleirada em cima de uma cadeira. Exatamente como ela tinha deixado.


Eu puxei uma cadeira giratória e me sentei em frente à mesa, peguei um papel e uma caneta e escrevi cuidadosamente no papel:

Oliver Coleman Engoli em seco e comecei a escrever:

Extremamente irritante; prepotente, e insano. Não me pareceu justo a sua personalidade; fui boazinha até demais. Eu peguei outra folha de papel e escrevi:

Louco! Deveria ser internado e exilado de qualquer contato com a sociedade. E quando havia uma pilha de papéis na minha frente todos com somente uma linha, eu comecei a realmente ficar preocupada. Afinal para que servira me arriscar tanto noite passada se no fim das contas eu ainda continuava sem saber nada sobre ele? Certo, ele era um arruaceiro, e deve fazer parte de uma gangue, mas eu não tinha provas para escrever isso na redação. Joguei minha cabeça para trás e impulsionei meu corpo para o lado, fazendo a cadeira girar e girar. E quando eu fiquei tonta ao ponto de até meu cérebro não parar de girar, parei e abri meus olhos, observando o velho computador no chão. Não demorou muito para eu conectar todos os cabos nos lugares certos, e por sorte ainda tínhamos uma internet discada que Harry usava para checar seus e-mails de consultório. Esperei, desanimada demais para ficar irritada, o computador carregar a página do Google. Certo, talvez Oliver tenha alguma sujeira enterrada na internet. Com sorte, talvez ele tenha uma página pessoal em algum desses sites de relacionamento. Isso seria o melhor que eu podia esperar, bastava uma boa olhada no perfil pessoal dele e eu poderia colocar tudo no papel... E caso ele descobrisse isso depois, eu diria que usei minhas próprias palavras e que estava sendo tão trapaceira quanto ele que inventava coisas sobre mim. Mas havia milhares de Olivers Colemans no Facebook. Eu tentei a sorte, e fui parar numa página de um senhor de 80 anos, solteiro e a procura de uma namorada. Voltei para o Google de novo. Desta vez digitei Susan Coleman, médica, Los Angeles — as únicas informações que eu tinha sobre a tia dele. Fui clicando nos números de páginas aleatoriamente e acabei indo parar em um site de medicina. Havia uma foto de uma folha de jornal impresso e antigo: Dia dez de novembro de 1894. Observei ás letrinhas desgastadas e


miúdas, mas não havia como distinguir as palavras. Só a foto em preto e branco de uma mansão em meio ao campo. Li a pequena matéria que havia em baixo da fotografia do jornal. Meus olhos se arregalaram nas últimas linhas: (...) Susan tentou salvar seu jovem sobrinho, Oliver Coleman, de apenas 17 anos das chamas do fogo, mas acabou ficando presa entre os escombros. A mansão dos Coleman’s era uma das mais caras e cotadas da região. Não houve sobreviventes. Coincidência. Eu disse a mim mesma, enquanto digitava Mansão Coleman na caixa de pesquisa do Google. Fiquei surpresa ao número de resultados: Apenas cinco. Cliquei no primeiro site. A matéria também era sobre um incêndio, só que mais completa. O general Coleman, saiu naquela noite para resolver uns problemas na cidade, deixando sua irmã e seu filho dormindo em um dos quartos da mansão. O incêndio começou por volta das onze horas, sem nenhuma causa aparente. Susan tinha acordado e estava na cozinha, algumas pessoas disseram que ela tinha uma vela nas mãos e a tinha deixado em cima da mesa, provavelmente a vela teria virado e começado a queimar a mesa e se alastrou para tudo que encontrou pela frente. Já religiosos contaram que a mansão era mal assombrada por um espírito maligno e que foi ele que gerou o incêndio, condenando os Coleman ao inferno na terra. Não se sabe ao certo o que originou o incêndio, mas naquela triste noite a Mansão Coleman deixou de existir juntamente com seus donos. Copiei a matéria com minhas mãos tremendo. Sai do escritório e sem pensar muito no que fazia atravessei a rua e toquei a capainha da estranha casa recém vendida. — Oh, Anna querida, fico feliz em revê-la. — Susan atendeu a porta sorridente, expondo suas convinhas na bochecha. Um arrepio subiu por minha espinha, mas retribui o sorriso. — Vamos entre! A casa tinha mudado drasticamente. Os móveis eram de muito bom gosto, a decoração impecável, a sala era ampla e bem iluminada e os sofás eram tão brancos que pareciam que nunca foram usados. Linda. Mas eu ainda continuava a achando mal assombrada. Eu me virei de volta para Susan cautelosamente. — Veio ver o Oliver? — perguntou ela. — Ele está? — devolvi com outra pergunta. Ele sorriu. — Sim lá em cima terminando sua redação. Suba é o primeiro quarto a direita. Eu a examinei por um instante, pela primeira vez agindo com precaução desde que lera aquela estranha matéria na internet.


Subi lentamente degrau por degrau. Meu coração martelando em meu peito. Primeira porta a direita. Eu estaquei em frente a ela. Eu dei uma pequena batida e ela rangeu e se abriu, me revelando um cômodo branco completamente vazio. Olhei ao redor verificando, mesmo sabendo que esse era o quarto. Adentrei com um passo. Havia uma janela em frente à porta, o cômodo era bem grande — pela ausência dos moveis, e o cheiro de Oliver estava impregnado ali. A porta se fechou atrás de mim sobressaltando-me. Virei-me para sair do quarto, mas fiquei paralisada ao ver a figura em frente à porta, com as mãos nos bolsos das calças jeans e o rosto completamente ilegível. — Fico feliz em te ver. — ele me disse num tom áspero, que tirou completamente o sentido da frase, o que me deixou inicialmente assustada. Mas menos de um segundo depois eu estava explodindo de muita, mas muita raiva. — Sério? — eu disse entre dentes, sarcástica. — Esperava que eu estivesse numa delegacia? — Não. Estava começando a achar que estivesse morta. A raiva se refugiou um pouco com o novo choque. — Ah, claro! Então era esse o seu planinho? Me deixar sozinha no meio daqueles seus amiguinhos delinqüentes para eles me matarem? — Do que está falando, Anna? Eu pisquei, ele era tão cínico! — O que eu estou falando? — cuspi para ele. — Eu não te deixei sozinha. Você que saiu correndo como uma maluca ensandecida. — Não me deixou sozinha...? Do que você está falando? — Eu ia correr aquela racha, mas desisti dela para justamente não te deixar sozinha. Emprestei a moto para um cara, e quando estava voltando para o seu lado, você saiu correndo para um beco e depois sumiu. — Você é louco. — Não, você que é. — Eu vi quando a policia chegou. — Policia? Acha que a policia vai se meter no meio daquela gente? — Você está tentando me confundir, eu sei o que eu vi e eu me lembro exatamente de cada detalhe.


— E o que você viu? — Tudo! — eu comecei a ofegar, exasperada. Eu esperava que ele me dissesse qualquer banalidade, mas não que tentasse me confundir ou que fosse ele a me questionar. — Eu vi você saindo com a moto, depois todo mundo começou a correr e gritar por causa da chegada da policia, eu corri para o beco e... — E...? — ele me instigou a continuar. — Não é da sua conta! — lhe devolvi irritada. — O que importa é que consegui chegar em casa viva! Sinto muito se estou te desapontando... — terminei novamente sarcástica. Ele ficou calado me encarando, enquanto eu ainda ofegava. — Certo, você diz que eu me viu sair na moto — ele deu um meio sorriso. — Então como eu sabia que você entrou em um beco? — indagou. Eu abri a minha boca para dizer algo e a fechei. Eu ainda não havia notado isso. Minha primeira resposta seria que alguém tinha contado á ele, mas naquela correria, quem iria prestar atenção em uma estranha? Principalmente correndo o risco de ser preso? Esperei os segundos se passarem calada. Se Oliver pretendia me confundir, ele conseguira. — Me diga o que aconteceu no beco! — eu encarei seus olhos azuis safira, mas o que me hipnotizava era sua voz... Macia e aveludada. — Por que quer saber? — indaguei. Ele piscou. — Curiosidade — ele disse e quando viu meu olhar determinado a não lhe responder, completou: — O que? Quer que eu escreva na redação que você tem uma crise de pânico e simplesmente sai correndo para becos escuros? — Escreva. — o desafiei. Ele se calou. E quando eu achei que o assunto estava encerrado ele disse de repente: — Por acaso encontrou o seu amiguinho lá? — Que amiguinho? — me fiz de desentendida. Ele sorriu, seu sorrisinho irritante. Então, eu soube que ele não precisava que eu dissesse, ele já sabia. Droga, quando é que eu vou aprender a blefar decentemente?


— Eu sabia! — o sorriso sumiu. — Deixe-me adivinhar? Ele te levou até sua casa e você o agradeceu fervorosamente por tê-la salvado. Deve ter feito você vê-lo com um herói. E você é claro acreditou na farsa que ele fez. — ele fazia uma voz extremamente irritante e irônica, o que me fez pensar se ela ganhava do sorriso, o resultado? Deu empate. — Você é patético. — Isso é quase um elogio vindo de você. — ele disse, amargamente. — Quer saber de uma coisa? Você realmente não sabe nada sobre mim! Herói... — bufei. — Não é assim que o vê? — ele entortou a cabeça para um lado me observando. — Não. — dei um passo em sua direção. — Eu não gosto de heróis. — Gosta do que então? — ele riu. — Vilões? Eu bufei. — Oh, senhor vidente! Você não deveria perguntar, deveria saber! — respondi sarcástica. — Ok. Talvez eu não saiba tudo sobre você. — ele sorriu não seu sorriso irritante, esse era normal... Natural! — Fico feliz que isso seja ao menos recíproco. Ele deu alguns passos até mim, e quando eu ia me afastar, já era tarde demais. A folha de papel já estava em suas mãos. Observei atônita ele vagar os olhos pelas linhas. E mais atônita ainda ele rasgar a folha de papel ao meio. — Eu tenho uma copia. — menti, dando de ombros. — Escreveu isso a mão duas vezes? — o sorrisinho irritante deformando o outro. Ignorei seu desdenho. — Eu quero a verdade! — Que verdade? — Sobre você. — O que quer saber? Eu respirei fundo.


— Oliver e Susan Coleman morreram em um incêndio. Quem são vocês? — a minha voz não tinha emoção. — Sabe quantas pessoas no mundo tem o mesmo nome? Eu abanei minha cabeça, meus olhos não desgrudavam dos seus. Ele poderia me chamar de louca novamente, mas eu não iria desistir. Talvez isso fosse apenas uma coincidência, mas eu não iria acreditar nisso até que ele provasse. Estávamos bem próximos. Os pedaços de papel estavam jogados aos nossos pés no assoalho marrom. Ele estendeu a mão até meu rosto, mas não tocou minha pele, somente fez os contornos da minha face no ar. — Você é uma criatura bem insistente. Eu, por algum motivo inexplicável, tive a mesma vontade de tocar em seu rosto. Mas me detive. Apenas me contentei pela a sensação de ter suas mãos tão próximas de mim, e seu perfume me inundando. — E você é uma criatura irritantemente misteriosa. Um sorriso quase imperceptível surgiu em seus lábios. — Sabe qual o problema de um mistério? — disse ele. — É que sempre tem alguém querendo desvendá-lo. — Eu não vejo problema em desvendar mistérios. — Você não vê problema em nada. — Ele riu baixinho — É engraçado o modo como tudo acontece ao seu redor, bem na sua frente, e você não percebe, Anna. — O que quer dizer com isso? Ele deu de ombros. — Oliver Coleman morreu. E eu sei que há milhares de outros no mundo. Mas nem um deles é você. — eu tentei de novo retomar o assunto. — Então quem eu sou? — perguntou ele, retórico é claro, mas havia certo tom de desafio em sua voz. — É o que eu estou tentando descobrir. — Sabia que quando se investiga algo, você jamais deve avisar ao suspeito de que está o investigando? — Eu sou uma péssima investigadora. — concordei. — Mas não importa. Eu estou de olho em você.


Quando eu saí daquela casa estranha, que agora era habitada por pessoas mais estranhas ainda, eu tinha plena certeza de que mais do que nunca teria de descobrir quem era aquele garoto. Eu queria continuar agindo como um robô, mas depois de conversar com ele, eu comecei a me dar conta de que não poderia agir por puro impulso. Cautela. Eu precisaria ter mais cautela se quisesse descobrir algo. Talvez não tenha sido mesmo uma boa idéia contar a ele tudo que eu já sabia. Mas de certa forma foi bom avisar ao senhor ―mistérios‖ de que eu iria desvendá-lo, nem que precisasse virá-lo do avesso. Resolvi ocupar minha mente com outras coisas até ficar suficientemente calma para pensar em como iria investigá-lo. Arrumei de novo meu quarto; tirei o pó da estante da sala; e ajudei Molly com o dever de casa — já que não poderia terminar o meu. Quando a segunda feira finalmente chegou, eu escorreguei para o banco do Miata de Emma completamente extasiada. Enquanto ela se lamentava no banco do motorista sobre como foi ter de passar o final de semana inteiro de castigo por ter chegado bêbada em casa, e como seus pais acharam Grigor gentil e responsável, eu me estiquei até o som do carro em busca de alguma estação de radio que combinasse com meu estado de espírito. — Desde quando você ouve pop? — ela riu, interrompendo a frase que dizia ao meio. — Desde agora. — dei de ombros. — Eu amo essa música, sério! — e então ela começou a cantar junto com a cantora, não tão desafinada quanto era á uns dois anos atrás, quando o seu maior sonho era ser uma cantora country. Emma estacionou o Miata numa das vagas pouco usadas por se localizar bem distante da saída e muito mais distante ainda dos populares. Eu foquei meus olhos no fim do estacionamento e observei Ryan Brandon estacionar seu lindo Mercedes numa vaga para deficientes. Ele se recusou a abrir a porta e simplesmente saltou do banco do conversível em direção ao solo. Menos de cinco segundos depois Rick e Scott já estavam em seus calcanhares. — Olha só os ratinhos, já estão agrupados. Onde será que estão a cobra e suas cópias? — Emma murmurou rindo. Abri a porta do carro e deslizei para fora. Tinha prendido meu cabelo em um rabo de cavalo e como hoje o sol resolveu dar as caras eu tive que deixar a minha jaqueta em casa. Eu avistei o cabelo de Emily entre um grupinho que estava se formando, as ―cópias‖ estavam logo ao seu lado. — Ali. — eu mostrei a Emma. — Por que está procurando por elas? Pelo que eu saiba você sempre fez de tudo para evitar vê-las.


Ela sorriu maliciosamente e disse: — Hoje não, baby. Segure-se, Anna, por que hoje o império de cobras vai desmoronar. — Emma? — eu a chamei, mas ela já havia saído de meu lado e caminhava em direção ao grupinho. Essa não! Eu andei apressada tentando alcançá-la, mas ela já havia chegado até eles. Já era mais do que tarde, a escola inteira parecia ter parado para olhar Emma puxar o cabelo loiro de Emily e derrubá-la no chão. — O que está fazendo sua louca? — Emily gritou tentando se levantar. — Nunca mais, está me ouvindo? Nunca mais fale da minha família? — Emma esbravejou em resposta. Eu me aproximei, mas não muito; o que era um grupinho já tinha se transformado em uma multidão. Consegui me mover mais um pouco, ficando quase próxima a entrada onde Emily se encontrava caída e Emma continuava a gritar para ela palavras indistintas. Quando Emma acabou, Emily riu em total deboche, acompanhada de quase toda a multidão que acompanhava a cena. — Não fale mal da minha família. — ela debochou, enquanto era levantada do chão por alguém. — Você chama aquilo de família? Seu pai escreve coisas velhas que ninguém compra, e a sua mãe... — ela riu mais, um riso que chegava a doer meus tímpanos. — A sua mãe é uma daquelas mulheres da Avon, oops, errei! Eles chamam agora de representantes de vendas! E a multidão riu com ela mais uma vez. Risadas maldosas que pareciam ter saído de algum filme de terror. Eu observei ao meu redor. Eu convivi com a maioria dessas pessoas quase a minha vida inteira desde que cheguei de Los Angeles. Crescemos juntos, claro em grupos diferentes, mas ainda assim juntos. Eu tinha certeza que eles sabiam quem era Emma, e seus pais provavelmente eram amigos de Rose e Chad. Era revoltante o modo como eles riam debochados. Como se Emma e seus pais fossem inferiores a eles. E tudo por culpa de Emily. Ela fazia uma coisa e eles a copiavam sem se importarem quem são os alvos, como belas cópias que são. — Parem! — eu gritei. Não me preocupei com os olhares que recaiam sobre mim pouco a pouco. E como se a fúria que eu sentia estivesse sendo vista, eles abriram caminho e eu andei os poucos metros que faltavam até a garota infernal de risada medonha que ainda sorria de sua mais nova maldade.


— Olha só se não é a outra nerdzinha. — debochou novamente ela, arrancando mais algumas risadas da multidão. — Veio defender a sua amiginha? — Cala boca, sua cobra dos infernos. — eu cuspi para ela. Houve um tilintar de risos, mas bastou um olhar de Ryan, para que todos se calassem. — Uau! Olha só que boca suja que ela tem. — Stacy que estava logo atrás de Emily riu. Eu meio que sorri em resposta para ela, irônica. — Pelo menos a minha não tem veneno como a sua. — Retruquei, esperando não ter gaguejado. Um deslize meu, e aquela multidão desabaria em risadas zombadoras. Stacy arregalou os olhos, surpresa. Alias todos estavam. Ninguém nunca parecia ter prestado atenção em mim naquela escola. Eu nunca falava com ninguém a não ser Emma, e também nunca recebi muito destaque quando o assunto era garotos. Agora a garota ―invisível‖ recebia toda atenção pelo simples fato de ter respondido a altura a ―rainha‖. Parecia que a qualquer momento alguém gritaria: ―Cotem-lhe cabeça!5‖. Eu ri, deixando todos mais pasmados ainda. — Do que está rindo? — Emily pela primeira vez tirou seu sorriso medonho do rosto, e parecia irritada. — O que? Agora é proibido rir? — ele sorri abertamente. — Desculpe-me, rainha. Por favor, impeça-me de rir novamente e não use tanta maquiagem para não ficar parecendo um bobo da corte. E desta vez nem o rosto autoritário de Ryan foi capaz de deter as gargalhadas que vieram. Eu tenho que admitir que aquilo me fez bem. Eu sabia que alguém teria de colocar Emily Morgan no lugar, só nunca imaginei que esse alguém viesse a ser eu. Mas a minha alegria não durou muito, pois minutos depois o sorriso medonho de Emily já voltava ao seu rosto e eu soube que ainda havia mais veneno a ser destilado. — Ok. Certo, Hamm, como é mesmo o seu nome? — ela me olhou de cima a baixo teatralmente. — Ah, me lembrei. — ela levou a mão à boca fingindo surpresa dando um sorriso de Cheshire6. — Anna, não é? A sua mãe não lhe ensinou a ser educada, não? Ah, é... Você não tem mãe! Você mora de favor, é um estorvo para o seu padrasto! Mas se bem que é um preço justo a se pagar por ter sido filha daquela VADIA! Não foi como se eu tivesse tempo de pensar, ou como se eu tivesse mesmo que ter pensado; Quando a minha mão voou em direção ao rosto pálido de Emily, eu tinha 5

Frase famosa da personagem Rainha de Copas, do livro Alice in Wonderland.

6

Gato de Alice in Wonderland.


esquecido qualquer coisa que pudesse me impedir de fazer aquilo. Somente deixei que o sentimento de revolta tomasse conta de mim e fiz. A minha mão ardia, eu a cerrei em um punho. Eu não ouvia nada ao meu redor, mas tinha uma vaga consciência de que algumas pessoas gritavam e riam. Já a maioria permanecia chocada incapaz de fazer qualquer coisa, como a própria Emily. Ela levou a mão à face esquerda, onde eu havia esbofeteado-a, e apenas continuou me olhando. Eu não sabia definir o que era aquele olhar. Minha visão estava destorcida e embaçada, e eu cambaleei para trás buscando apoio. Alguém se prontificou ao meu lado e segurou minha mão, a pele era fina e delicada. Outra pessoa passou um braço por minha cintura e eu pude me apoiar nela enquanto andava. — Você... Meu Deus! — eu ouvia os gritos que Emma dava desconectados. Ela não conseguira formular nenhuma frase ainda. Eu mantinha meu rosto escondido em minhas mãos. Deixei que a consciência, que carregava de brinde a vergonha, me varressem de cima a baixo. Grigor estava sentado ao meu lado. Eu queria poder dizê-lo pra ir para sua sala, para não se meter em confusão por minha causa, e que ele não tivera nada haver com aquilo — mas eu, se quer, conseguia tirar o rosto de minhas mãos. Nem mesmo Emma tinha que estar ali; ela também não fizera nada de tão errado. Se alguém tivesse que ser suspensa ou até mesmo expulsa, esse alguém seria eu. A agressora. — Você... — Emma tentou de novo, ela respirou fundo e continuou: — Aquilo... Foi demais! Incrível! — Incrível? — eu funguei, ainda com as mãos em meu rosto. — Claro! A cara que a Emily fez foi impagável. Eu queria ter filmado aquilo... Imagine a cena no Youtube! — ela riu. Como uma pessoa poderia rir numa situação dessas? — Eu tenho que contar isso para Luke, ele vai pirar! — ela ria como uma criança com um doce na mão. — Não se preocupe, vai ficar tudo bem. Você sempre foi muito boazinha, a diretora vai ficar chocada, é claro. Mas ela não iria colocar uma de suas melhores alunas para fora. Certo. Mas e quando uma das melhores alunas esbofeteia a garota mais popular da escola, que por acaso é filha do homem que acabara de doar uma quantia exageradamente alta para a nova biblioteca da Grand Lake High School? Talvez eu devesse chorar para a diretora, a Sra. Clinton. Isso seria até mesmo esperado por ela, mas eu não sentia vontade nenhuma de chorar. E o mais incrível, ou talvez insano, era que eu não me arrependia nem um pouco de ter agredido Emily. Eu me sentia envergonhada, mas isso não me fazia me arrepender do que tinha feito. Minha mãe era a mulher mais forte, digna, honrada e sábia que já conheci; ela era uma ótima advogada e sempre defendeu causas importantes. Alguém como Emily não tem


nem sequer o direito de tocar em seu nome, quanto mais ofendê-la — mesmo ela estando morta. Eu nunca teria tomado aquela atitude se Emily tivesse direcionado sua ira somente a mim. — A Sra. Clinton está esperando. — Trina uma das coordenadoras, avisou-nos. Eu levantei meu rosto com toda a honra e determinação que alguém poderia ter naquela situação. — Não precisa entrar. Você não fez nada, nem deveria estar aqui. — eu sussurrei para Grigor. A sala da Sra. Clinton era a típica sala de uma mulher ocupada: Muitas pilhas de papéis em sua mesa; envelopes transbordando de mais papeis; um telefone que nunca para de tocar; ar condicionado ligado no máximo; uma mesa no centro — em que ela estava sentada logo atrás; e algumas cadeiras em frente a ela. Ela estava com as duas mãos apoiando seu queixo, enquanto encarava-nos. Ela olhou para mim e eu imediatamente abaixei meu olhar, a vergonha tinha avançado um passo para culpa. — Também está metido nisso, Sr. Lybieri? — disse ela, a voz era calma e razoavelmente baixa, meio rouca, mas que emitia comando. Eu olhei para Grigor acusando-o; eu tinha dito para ele ir embora, e ele, é claro, não me obedecera. Eu observei incrédula, ele dar de ombros. A Sra. Clinton suspirou. — Sentem-se. Não, não. Isso é muito ruim; não bastava dizer logo que eu estava expulsa? Eu me sentei no meio. Grigor ao meu lado direito e Emma no esquerdo. — Vejamos, me contaram que a Srtª Newton empurrou propositalmente a Srtª Emily Morgan no estacionamento da escola. Confirma isso? — perguntou ela a Emma. — Sim. — respondeu ela; não havia um pingo de arrependimento ou medo em sua voz. — Depois disso, a Srtª Mathers discutiu e esbofeteou a face de Emily. Correto? Eu somente assenti com a cabeça. — Agora não me disseram o que o Sr. Lybieri fez no ocorrido. — Ele não fez... — eu dizia, mas Grigor me interrompeu antes que eu pudesse continuar: — Soquei a cara do Ryan. — ele disse isso como se contasse um, dois, três; simples.


Onde eu estava quando isso aconteceu? Eu me lembro bem de ver Ryan atrás de Emily o tempo todo e de depois Grigor me trazer até a direção. — Este é o seu segundo dia na escola. — lamentou-se a Sra. Clinton. Ela suspirou de novo. — Srtª Newton, explique-me o motivo que a fez derrubar Emily Morgan. Emma suspirou e eu ainda continuava pasmado com o quão relaxada ela estava. — Aquela... — ela se interrompeu percebendo o olhar reprovativo da diretora. — Bom, ela andou espalhando boatos completamente falsos sobre mim e a minha família pela a escola toda! Eu esperei a Sra. Clinton dizer algo, mas ela continuou muda e calma e direcionou seu olhar a mim. — E você Srtª Mathers, porque a agrediu? Respirei fundo, ciente de que teria que escolher minimamente minhas palavras. — Emily ofendeu a memória de uma pessoa que infelizmente não está aqui para se defender. — Sr. Lybieri tenho ótimas recomendações suas, não esperava isso logo no seu segundo dia. O que o levou a agredir Ryan Brandon? Grigor só deu de ombros e disse: — Ele é um idiota. Eu vi Emma se controlar para não rir. Sra. Clinton massageou as têmporas e sorriu um pouco, um sorriso que não chegava aos olhos, meio irônico: — E esses são motivos suficientes para agredir uma pessoa? Nem um de nós respondeu. Mas parecia estar escrito em nossas testas a palavra sim. — Anna a sua mãe era uma ótima advogada, você deveria saber, mais do que qualquer um nesta escola, que jamais devemos agredir um ser e que tudo pode ser resolvido com palavras. Vi pela minha visão periférica Grigor sorrir de canto completamente sarcástico. Eu assenti, esperando ela dizer logo o que seria o meu fim. Não o fim, mas quase. Quais são as chances de alguém expulso entrar em uma boa universidade? Talvez isso não fizesse mesmo parte do meu destino. Talvez eu tivesse que ficar nessa cidade para sempre, mas Molly não merecia isso; ela merecia conhecer o mundo, ter uma vida, longe de Harry e dessas outras pessoas nojentas e falsas com quem convivemos.


— Emma e Grigor podem ir para suas salas, peguem uma anotação com a Srtª Sky e entreguem aos seus professores. — eu fiquei aliviada por pelo menos eles estarem fora dessa. — E a Anna? — Emma inquiriu, ela colocou a mão sobre meu ombro. — Vamos conversar mais um pouco. Quando eles saíram da sala, eu comecei a me acostumar com a idéia de sair da Grand Lake. Aquela escola não era ruim — se olharmos do ponto de vista acadêmico, mas também não era a melhor do mundo para formar alguém. Não que eu pudesse entrar em uma melhor do que essa agora sem desembolsar uma boa grana. — Sabe Anna, — Sra. Clinton se acomodou na cadeira. — O pai de Emily tem feito grandes contribuições para escola para garantir o futuro de sua filha, mais isso também da á todos os alunos um melhor aproveitamento. Emily é sua única filha e ele é um homem muito ocupado por isso confia em nós para que cuidemos dela. Por favor, diga logo que eu estou fora. — Mas eu sei o que está sentindo. — disse ela. Eu a encarei com desdém, não querendo ser mal educada, mas como ela poderia saber isso? — Eu sei o que é não ter uma mãe quando se é adolescente. Pela primeira vez, eu realmente observei a Sra. Clinton. Ela usava óculos de grau de lentes quadradas, tinha a pele clara, algumas expressões faciais que deixavam marcas e algumas rugas ao redor dos olhos. Apesar disso, ela tinha uma serenidade que a deixava mais jovem. — Eu perdi a minha quando tinha a sua idade. — ela entortou a boca tentando sorrir. — As outras garotas ocupavam suas mentes com garotos e eu só me afundava nos livros tentando esquecer a dor da perda. Fui alvo de chacota de meus colegas, mas nunca perdi a compostura. Até que um dia uma garota... Ofendeu a minha mãe. Não estou dizendo que você fez a coisa certa, Anna. Isso foi completamente errado e merece ser punida, mas nós temos uma política de tratar todos os alunos igualmente e se você merece ser castigada por agredir Emily, ela também deve por denegrir você. Arqueei uma sobrancelha, surpresa demais para dizer alguma coisa. — Vou pensar em algo para vocês. — garantiu-me ela. — Volte imediatamente para sua sala, quando eu resolver qual vai ser o castigo, chamarei vocês quatro aqui. Nós quatro. Isso incluía: eu, Grigor, Emma... E Emily! Saí da sala da Sra. Clinton completamente inerte. Encontrei Emma e Grigor no corredor correndo o risco de serem pegos apenas para me esperar. — Como foi? — Emma me perguntou.


— Meio estranho. Ela disse que iria pensar num castigo para nós. — Resolvi omitir o fato de que Emily estava incluída no nós. — Está vendo? Deu tudo certo. — ela cantarolou. — Balançamos o trono das cobras! Agora um empurrãozinho e ele despenca! Eu suspirei e olhei para Grigor, que estava encostado em um armário. Ele me olhou sorrindo, e aquilo me fez esquecer por um tempo inacreditável o que acabara de acontecer. Eu voltei a mim quando Emma começou a estralar os dedos querendo chamar minha atenção. — Perigo: Monitor se aproximando. Temos que correr! Eu estaquei na frente da porta da Sala de Inglês. Eu estava uns vinte minutos atrasada — meu novo recorde —, e tinha certeza que no momento que eu entrasse na sala, todos os olhares se voltariam para mim. Dei uma pequena batida. A porta foi aberta pelo Sr. Norton, antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, entreguei-lhe o papel da direção. Ele abriu espaço para que eu entrasse. Minhas bochechas não poderiam ficar mais quentes do que estavam, eu tinha certeza. Escorreguei para a minha cadeira, esperando que as pessoas parassem de me olhar. Stacy, que estava sentada uma fileira a minha frente, virou todo o seu tronco para me fuzilar com os olhos. — Oliver me entregou sua redação... Pelo pouco que olhei está ótima! — ele piscou pra mim. Espera! Oliver entregou minha redação? Eu olhei para o garoto sentado ao meu lado. Ele estava com o queixo apoiado no punho de sua mão, parecia entediado, e quando viu que eu o olhava deu mais um de seus sorrisos irritantes. Eu não tinha uma redação — a menos que Oliver tenha colado pedacinho por pedacinho da folha que eu tinha copiado daquela matéria estranha da internet. E aquilo também não se enquadrava em uma redação. — É uma pena que tenha perdido a nossa brincadeira... — lamentou-se o Sr. Norton, Oliver riu baixinho. Isso não vai prestar. — Mas vamos fazer de novo, queremos saber o quão vocês sabem um sobre o outro, não é classe? Alguns murmúrios empolgados, já outros nem tanto. Eu comecei a comparar aquilo a um Talk-show de horrores. — Vamos lá Oliver, — anunciou o Sr. Norton. Eu franzi as sobrancelhas, confusa. — Descreva Anna em uma palavra. Oliver não vacilou; e muito menos pareceu refletir. — Tentação. A maioria das pessoas ali presentes riram, os únicos que se mantiveram sérios foram Stacy — que me dirigiu um olhar assassino por cima do ombro —, o Sr. Norton que olhava para mim e Oliver curioso sobre algo, e é claro, eu que deveria estar


violentamente corada, além de também querer socar a cara de Oliver — O que não seria tão inesperado, já que agora eu deveria carregar a fama de ―valentona‖ pela escola toda. — Interessante. — murmurou o Sr. Norton. — Anna, sua vez. Descreva Oliver em uma palavra. Eu estava a um passo de dizer ―imbecil‖, mas eu não daria esse gostinho para Oliver; não queria ser previsível; e também estava cansada de seu olhar sarcástico, prepotente e arrogante. — Redenção. Não fez muito sentido para mim, primeiramente. Mas depois, não havia uma palavra que definisse melhor Oliver para mim do que esta. Porque nestes últimos dias que o conheço, eu fiz mais coisas irracionais e idiotas do que fiz a minha vida inteira, então era como se eu estivesse pagando por ter sido inerte, ou como todos dizem: ―boazinha‖, por tempo demais. Minha redenção. Na hora do almoço, eu entrei no refeitório e avistei Emma e Grigor na nossa habitual mesa. Puxei uma cadeira e me sentei, evitando o máximo olhar, mas tinha a consciência de que metade dos alunos não desgrudava os olhos de mim. — Você está sendo mais vigiada do que artistas de Hollywood. — Emma riu, apontando para o grupo de garotas que faziam parte do jornal da escola. Ótimo; á essa hora eles já deveriam ter uma matéria sobre mim com uma manchete reluzente: Garota espanca Emily Morgan. — Até os góticos viraram seus fãs. Eu olhei para os garotos pálidos todos de preto no fim do refeitório que acenaram lentamente para mim. Eu dei de ombros. — Isso é coisa de momento, daqui a pouco todo mundo vai esquecer. — nem eu me convenci com minhas palavras. — Cadê a Emily? — eu dei uma rápida olhada para a mesa no centro do refeitório, contendo lideres de torcida, garotos de time de basquete, populares e atletas; — A cobra? Estou rezando para que ela esteja chorando no banheiro. Eu bufei; o sentimento de culpa voltando. Eu ainda não tinha perdoado o que ela dissera, mas eu tinha consciência de que Emily era só uma criança mimada querendo chamar atenção. — Chama ela de cobra? — Grigor riu. Uma risada macia e doce. — Uhum, — Emma entoou. — E aqueles que a seguem, chamamos de cópias. Tá vendo aqueles caras? — ela apontou para os garotos do centro. — São Rick e Scott, - não me pergunte quem é quem -, eles são como ratos: Vivem seguindo o idiota do Ryan. — Você bateu mesmo no Ryan? — perguntei a Grigor.


— Não, mas eu vou. Só dei um aviso à diretora caso ela o veja andando por ai com um olho roxo. — ele piscou para mim. — Tá vendo, Anna? É esse o espírito! Eu revirei meus olhos, mas ri também. Parei quando no fundo do corredor duas figuras surgiram. Era Emily, o rosto já não tinha nem um pouco de vermelhidão, e ela sorria radiante. Mas o que me deixou paralisada foi à segunda figura que vinha abraçada com ela: Oliver Coleman. Deveria me sentir grata pelo holofote ter saído de cima de mim. Mas naquele momento, eu não sentia nada. Foi como uma acotovelada pelas costas. Como uma queda; você fica durante alguns segundos sem reação. — Céus! — Emma exclamou ao meu lado. Ela deveria estar tão incrédula quanto eu. — Isso me dá nojo! Eu queria sentir nojo também. Mas eu não sentia. Somente um sentimento, que eu não sabia definir, tomou o meu peito; sugando todos os pensamentos racionais para dentro. Sai do refeitório e ignorei o sinal da minha próxima aula. Droga de garoto idiota! Eu não deveria ter confiado nele! O que eu estava pensando? Aliás, por que aquilo importava? Oliver era de perto um conhecido. Não tínhamos ligação alguma e ele só estava comigo para fazer aquele maldito trabalho. E agora que tudo acabou, era normal que ele resolvesse se socializar com pessoas mais interessantes; mas eu no fundo não esperava que isso acontecesse tão rápido e que essa pessoa fosse justo a Emily. Abri a torneira da pia do banheiro. Lavei meu rosto e prendi minha respiração durante alguns segundos e quando não agüentei mais levantei minha cabeça para respirar. Minha visão estava embaçada, mas eu pude ver a frase escrita bem na minha frente em vermelho vivo:

Isso é só o começo! Eu dei um passo para trás. Aquilo não estava ali, eu teria visto — ou estava tão transtornada que não percebera nem mesmo alguém entrando no banheiro e escrevendo aquilo bem na minha frente? Toquei o que parecia ser sangue, mas eu sabia que não era. Tinha cheiro de morango, e acho que poderia ser algum tipo de batom. Peguei papel higiênico, molhei e comecei a limpar. Aquilo era loucura! Deveria ser alguma brincadeira que alguém quis fazer, nem deveria ser para mim. Deveria estar ali o tempo todo, e só naquele momento eu tinha visto. É era isso!


Eu senti a respiração do corpo que estava atrás de mim em meu pescoço. Com o susto minha mão escorregou pelo espelho, espalhando mais ainda a mancha vermelha. — Estamos atrasados. — Grigor sussurrou. Eu me virei para ele. — Está querendo me matar de susto? E o que está fazendo aqui? É um banheiro feminino. Ele deu de ombros. — Isso é leve comparado com as regras que já quebrei. — garantiu-me, sorrindo de canto ��� A diretora te obrigou a limpar os banheiros da escola? — Não eu... — dizia enquanto me virava de volta para o espelho. Estaquei diante do reflexo completamente limpo de nós dois, sem nenhuma macha. — É... Eu não sabia o que dizer. Porque eu tinha certeza que não tinha chegado nem perto de terminar de limpar aquele borrão imenso. — Não me diga que você é maníaca por limpeza! — Não, — eu balancei minha cabeça. — Esqueça. — eu disse mais para mim do que para ele. — Temos Ed. Física agora. Acho que o banheiro é um lugar meio obvio para matar aula. Deus! Eu estava matando aula! Isso era abusar demais da sorte... Mas eu não tinha a menor remota vontade de olhar na cara de Emily de novo, então eu me convenci de que matar aula era apenas uma conseqüência disso. — Não quero sair daqui. — eu tentei deixar a minha voz o mais normal possível. Eu me virei de volta para ele. Só agora eu tinha percebido o quão próximo nós estávamos; a consciência disso fez com que um arrepio subisse por minha espinha. — Então vamos correr o risco de sermos pegos... — ele sussurrou. Um novo arrepio, agora em meu corpo inteiro. Ele tinha um hálito delicioso e afrodisíaco. A boca dele era tão vermelha e carnuda de perto. — Não quero ser pego num banheiro feminino por nada, você quer? Eu mal tinha ouvido o que ele tinha dito, estava hipnotizada pela forma como seus lábios se moviam. Mexi com a minha cabeça negativamente, mais para sair do transe do que para respondê-lo. E quando seu rosto chegou mais perto do meu, minhas pernas fraquejaram e eu precisei me apoiar na pia trás de mim para continuar de pé. Eu sentia a respiração dele em meu


nariz, era como se duelássemos pelo mesmo oxigênio naquele curto espaço. A jaqueta de couro dele roçou na pele arrepiada de meu braço quando ele também apoiou as mãos na pia. — Então vamos ficar e dar um motivo decente a eles para nos levarem de novo para a direção. E então os lábios dele vieram urgentes aos meus. E de repente eu precisei mais do que a pia para continuar de pé. Eu não sabia como se fazia aquilo direito; eu não tinha muita experiência com garotos. Emma praticamente tinha me jogado para cima de um uma vez. Eu nem lembro o seu nome e a experiência não foi nem perto de quase bom; Quanto mais perto disso. Os lábios dele eram macios e doces, mas ainda assim exigentes. As mãos dele puxaram minha cintura para mais perto, e eu levei em conseqüência minhas mãos até a sua nuca aproveitando para passar os dedos por seus fios arrepiados e pude sentir a maciez. Eu estava em transe, mas fui puxada de volta quando um barulho veio da porta. Não, não. Minha racionalidade ainda não tinha voltado quando Grigor se separou de mim. Ele me puxou até uns dos cubículos e fechou a porta. Eu estava ofegante e vermelha, e mal era capaz de lembrar meu próprio nome. Escutei leves passos no banheiro, zonza cambaleei para frente e pelo espaço ser extremamente pequeno — feito apenas para uma pessoa, e não para duas — acabei trombando com Grigor, que me pegou antes que eu batesse com a cabeça na porta. A torneira da pia foi aberta; a garota — eu supunha — parecia lavar algo. Eu estava me recuperando do transe e tentando me lembrar de respirar quando um ofegar de dor veio do lado de fora. Algo começou a pingar no chão, eu imaginei ser a água da torneira. Criei coragem para encarar Grigor. Ele tinha a testa franzida e uma expressão confusa no rosto. Eu, então notei no que tinha me metido; se alguém nos visse juntos num pequeno cubículo o que iria pensar? Céus! Voltei a encarar o chão. O azulejo branco do banheiro estava com uma coloração estranha. Ou melhor, machado de um jeito estranho, algo parecido com terra avermelhada parecia ter sido arrastada por todo o piso. Eu tentei me agachar, curiosa para saber o que era aquilo. Quando um pequeno pingo vermelho caiu ao chão e manchou ainda mais o piso, eu me esforcei para ver melhor o que acontecia ali. E de repente algo vermelho começou a escorrer de algum lugar em grande quantidade. Era como se tivessem colocado corante na água que derramava da pia. O liquido viscoso começou passar pela fresta da porta por onde eu olhava, quando ia encostar meu dedo nele, Grigor agarrou meu braço com uma força demasiada forte.


Eu o olhei confusa, ainda um pouco envergonhada. — Não toque nisso! — havia uma urgência em sua voz mesmo sussurrada, que eu não detectei primeiramente. — Escute bem, eu vou sair. Espere alguns segundos, feche os olhos... E corra! Não chame ninguém, somente vá para casa! — O que está acontecendo? Mas ele somente saiu sem me responder. Meu coração começou a bater forte em meu peito, mas estava confusa demais para ter um ataque de pânico. O liquido vermelho se espalhou por todo o cubículo. Disposta a sair daquela situação o mais rápido possível, abri a porta. Eu me esqueci da parte em que ele me mandou fechar os olhos — o que agora eu percebia que deveria ser a parte mais importante. Porque ali bem na minha frente, uma garota se debatia no chão completamente transtornada. E o liquido vermelho que manchava todo o piso branco, não era um liquido qualquer; Era sangue. Era o sangue dela. Tapei a minha boca com minha mão, e busquei por Grigor. Ele estava olhando para a garota, não havia emoção nenhuma em seu rosto e sua face era severa e fria. Os olhos dele estavam mais verdes do que nunca — como uma esmeralda ou um diamante brilhando no sol. Eu não podia mais ver aquilo. Mas não importou que eu saísse daquele local; a imagem me perseguiu por todos os lugares que eu passei correndo. Porque aquela garota não era uma garota qualquer; Ela era Emily Morgan.


OITO. — E então Mendison Palmer disse que queria ser Julieta, mas ela não conseguiu acertar nem uma fala e a Srtª Evans disse que Mendison poderia ser outra personagem — Molly dizia animada, ela estava sentada na mesa da cozinha com os pés balançando no ar. — Eu não queria ser essa tal da Julieta, mas ela me escolheu então resolvi aceitar. Eu movi meu corpo vagamente até a geladeira e abri o freezer encontrando caixas e mais caixas de congelados. — Parabéns. — minha voz não tinha um pingo de vida. — Só temos pizza de mussarela. Meu cérebro trabalhando lentamente. — Você está bem? — perguntou ela, a testa franzida levemente. — Estou. — minha voz tão baixa que era como se eu não tivesse falado. —Por quê? — Está estranha desde que chegou da escola... — disse ela, a voz fina de soprano e doce preocupada. — Luke ligou, ele disse pra eu te dizer que o avô dele te quer de escrava enquanto você não volta a trabalhar no restaurante. Trabalhar com o Sr. Chan? Seria a melhor coisa do mundo! Eu teria revirado os olhos ao som de escrava se meu cérebro não estivesse falhando de dois em dois segundos. — Eu ligo pra ele depois. Mas eu não liguei para Luke. Depois de me certificar que pelo menos Molly tinha jantado naquela casa, eu subi para o meu quarto e me tranquei lá dentro. Minha cabeça girava, e eu sabia que não conseguiria dormir; A sensação era parecida com a de ter assistido um filme de terror; a diferença era que eu sabia que era real; que tinha acontecido de verdade. Era Emily se debatendo jogada naquele chão como se estivesse convulsionando; jorrando sangue sem parar; o sangue dela. Fui até o banheiro e lavei meu rosto repetidas vez. A náusea tomando conta de todo o meu corpo, me fazendo perder o controle dele. Não sabia quanto tempo havia se passado desde que sai correndo da escola — Descobri também que era fácil fugir dela, talvez fosse somente sorte, mas quando eu atravessei o portão da Grand Lake High School, ninguém me parou. Lá fora um silêncio incômodo tomava a escuridão. Harry tinha pegado um plantão noturno, e somente eu e Molly estávamos em casa. Ela deveria estar dormindo em seu quarto, eu não sabia que horas eram.


Resolvi tomar um banho com a esperança de que a água quente do chuveiro me acalmasse. Mas, é claro que não deu certo. Percebi isso nos primeiros cinco segundos, que foram o suficiente para eu quase desabar num choro exasperado e meio sem sentido. Saí do Box e vesti minhas roupas íntimas e uma fina regata — curta demais para se chamar de blusa —, sem coragem para procurar qualquer roupa dentro do armário para vestir, enrolei-me numa toalha e voltei para o quarto. Um vento frio passou pela janela, levantando as cortinas e os pelos dos meus braços. Caminhei até ela e a fechei, tendo o cuidado de também fechar as cortinas. Foi por um segundo, mas minha visão periférica detectou a sombra que se moveu na escuridão. Antes que eu pudesse gritar, a palma de uma mão foi colocada em cima de meus lábios fazendo de meus gritos simples murmúrios. Comecei a me debater contra o corpo atrás de mim, disposta a me soltar de seus braços. Ele rapidamente prendeu minha cintura com a sua, aumentando o aperto para que eu não me soltasse. — Calma, garota. — ele murmurou. Eu conhecia aquela voz o suficiente para querer me soltar ainda mais rápido possível dele. Eu levantei uma perna e com toda força que tinha a impulsionei para trás, fazendo uma espécie de alavanca, me impulsionando para frente e conseguindo me soltar dele. — O que está fazendo aqui? — cuspi para ele, e como não me pareceu o bastante e nem o correto, completei: — Como você entrou aqui? Ele aparentando estar bem relaxado se sentou em minha cama e me olhou de cima á abaixo. Eu ofeguei me lembrando o que vestia, ou melhor, o que eu não vestia. — Subi pela janela. Foi fácil. — Oliver respondeu-me, eu mal o enxergava no escuro, e a minha única esperança era que ele também não estivesse me vendo. Eu não acreditaria nele, mas era isso ou ele tinha atravessado a porta, porque ela estava perfeitamente trancada. Respirei fundo, tentando inutilmente me acalmar. — Saia do meu quarto. — E isso pareceu mais uma súplica desesperada do que uma ordem. Ele riu baixinho, mesmo estando longe seu riso me provocou arrepios. — O que foi, Anna? Você pode se trancar num banheiro com um cara que mal sabe o nome, mas não pode receber a visita de seu amável vizinho? — C-como sabe disso? — perguntei, tarde demais para negar o que ele dizia e mais tarde ainda para retrucar seu ar irônico.


Ele não respondeu. Eu respirei fundo. — Você... Você viu a Emily? — perguntei sem conseguir dizer o que realmente queria perguntar. Respirei fundo de novo e atirei para ele: — O que você fez com ela? — O que eu fiz? — perguntou retoricamente, o tom exaltado e raivoso desta vez. Eu tremi involuntariamente com sua ira. — Eu não fiz nada, você deveria perguntar aquele servo o que ele anda fazendo! — Está falando do Grigor? — meu cérebro um pouco desperto pelo medo começou a trabalhar em total confusão. — Servo? Do que você está falando? Meus olhos já estavam se acostumando com a pouca luz, e eu já podia ver um sorriso duro surgindo em seus lábios. — Eu achava que você era uma garota esperta, Anna. — disse ele. — Eu revelei que não sou bom desde que você me conheceu, e ainda, contra os meus princípios, disse que ele também não é. Mas é claro que ele conseguiu te hipnotizar! Eu me pergunto qual vai ser o fim disso... Eu cambaleei para trás em busca de apoio. A confusão tinha se transformado numa náusea que fazia todos os meus músculos doerem dormentes. — Eu não sei sobre o que você está falando, e não estou pronta para desvendar os seus malditos mistérios agora, mas eu preciso saber... — suspirei cansada. — Grigor e você tiveram alguma coisa haver com o que aconteceu com Emily? — O que aconteceu com ela? — Não se faça de desentendido! — gritei para ele. — Como você sabia que nós estávamos no banheiro? Eu vi você no refeitório com ela e depois ela entrou no banheiro... E aquele sangue... E... Eu escorreguei pela parede atrás de mim derrotada. Não podia pensar e muito menos racionalizar porque agora a imagem de Emily naquele chão branco tomava toda minha mente. A dúvida agora me confundia sob todos os aspectos, ela me rondava como um beco sem saída. Mal vi quando Oliver se aproximou de mim. Eu me encolhi no chão disposta a não me render a névoa de seu cheiro. Não sabia o que fazer, mas não podia me render a isso. O fato era que desde que Oliver e Grigor chegaram, a minha vida anda saindo do controle. Eu tomei decisões arriscadas e pus em risco tudo que venho ansiando desde que perdi a pessoa que mais amei em minha vida. E agora nada parece fazer sentido. Ele se sentou próximo de mim e suspirou. — Me... Desculpe? Eu ofeguei, havia um milhão de coisas que ele poderia se desculpar comigo, mas naquele momento eu não me lembrava de nenhuma importante.


— Pelo o que? — Eu não sei. — ele deveria estar sorrindo, não o seu sorriso irônico e irritante e sim o seu sorriso natural... Perfeito. — Eu não queria fazer isso, e não queria estar aqui. Mas acho que se eu não fizer nada... Isso vai ser pior do que se eu fizesse. — Por que fica fazendo essas charadas comigo? Por que não me diz logo o que está acontecendo? — Porque não é tão fácil assim. Eu levantei meu rosto para encará-lo. — Eu... Hoje percebi que nada é fácil. — comecei, tentando me segurar para não começar a chorar na sua frente. — Vi coisas demais... Ando sentido coisas estranhas, e depois aquilo no banheiro. Eu queria que estivesse ficando só maluca, seria mais fácil se eu soubesse que é só coisa da minha cabeça. Mas não é. Eu vi Emily Morgan quase morrendo se esvaindo em sangue! — Talvez esse seja o motivo que eu tenha que me desculpar. — ele sorriu, e sim, ele usou o seu sorriso perfeito. — Eu só estou na platéia, observando. — Faça alguma coisa então. — pedi-lhe. — Já disse que não é tão fácil assim. — ele me encarou, a luz baixa não impedia que seus olhos me sugassem para dentro do buraco profundo. — Se eu fizer... Se eu decidir fazer isso... Vai ser uma verdadeira guerra. — Você está com medo? — Não. — ele parecia ofendido. — Eu só não quero me meter nisso... Não quero voltar a ser um servo como ele. — Não quero que você volte a ser isso... Seja lá o que signifique. Só quero que faça alguma coisa. Estou cansada de ficar tentando te entender, se vai continuar me confundindo é melhor fazer isso direito... Eu não tenho medo de você — eu disse, e desta vez isso realmente saiu sincero. — E eu tenho a consciência de que mal entendo o que estou te pedindo, mas não importa: Faça alguma coisa! As palavras saíram de minha boca por conta própria. E eu não esperava que ele fosse me ouvir e muito menos que ele fizesse o que ele fez. Porque Oliver simplesmente me puxou para ele e colou nossos lábios sem aviso prévio, sem hesitação. A língua dele tocou a minha sem pudor, e suas mãos puxavam a minha cintura cada vez mais para perto, colando nossos corpos sem nenhum desprovimento. Minha pulsação acelerou e eu cravei minhas unhas em seu pescoço quando ele se jogou comigo no chão ficando em cima de mim, me tendo absolutamente sob seu controle.


Uma parte insignificante do meu cérebro me advertiu sobre aquilo, porque afinal o que diabos eu estava fazendo? Rendendo-me ao Oliver quando agora eu sabia que as coisas saíam dos trilhos quando isso acontecia? Obriguei-me a tentar me soltar dele, mas Oliver tinha outros planos. Ele prendeu minhas mãos com as suas, como algemas sob minha cabeça e continuou a me beijar dessa vez com mais calma, mas ainda assim com certa urgência. — Não. — eu balbuciei em sua boca e foi como se eu nem tivesse dito nada, na verdade pareceu mais um gemido. Eu quis me chutar por isso. Eu estava sem forças e trêmula completamente entregue e envolvida por seus toques quando um grito agudo atravessou as paredes do meu quarto. Eu me debati contra ele no mesmo instante, e então ele me soltou. Eu corri para a porta e demorei mais do que o esperado para abrir, disparei pelo corredor e encontrei a porta do quarto de Molly escancarada. Um novo grito. Pude perceber que vinha da escada. — Ele voltou, Anna! Ele voltou! — e então ela gritou novamente. — Quem? — O homem do meu quarto. Eu o vi de novo! Não estou inventando ele é real, ele estava lá, ele disse umas coisas... Eu suspirei metade de mim ainda atordoada a outra sem saber o que fazer. — O que ele disse? — Oliver perguntou. Eu quis chutá-lo, eu quis me chutar. Eu deveria saber lidar com isso, já que não era a primeira vez que acontecia. Deveria ter pegado um daqueles livros de como ajudar seu filho — mesmo que a bibliotecária me olhasse suspeita. — Ele disse... — ela forçou as sobrancelhas. — Ele disse que isso é só o começo. Algo em mim foi desperto. Meu coração parou por um segundo e depois começou a bater forte em meu peito. A imagem da frase no espelho parecia estar viva em minha memória. Eu sacudi-a a tempo de ouvir Oliver dizer: — Já o tinha visto antes? — Sim. Mas eu não me lembro direito, eu me esqueço, mas desta vez não! Vocês têm que acreditar em mim! Eu não estou inventando. Meia hora depois Molly cochilava no sofá. Eu tinha subido e colocado roupas e estava me preparando para encará-lo de novo.


Meu cérebro agora trabalhava rapidamente e agora a frase ―Que diabos eu fiz?‖ parecia ser a única no meu vocabulário. Desci as escadas de dois em dois degraus, tentando me convencer que o quão mais rápido eu começasse aquilo mais rápido terminaria. Eu estava com esse pensamento quando a capainha da porta tocou. Eu poderia estar ainda atordoada, mas sabia que já se passava da meia-noite e que normalmente visitas vinham de dia — a não ser que essa visita fosse, usando suas próprias palavras, meu amável vizinho. Caminhei até a porta, Oliver estava sentado no braço do sofá, mesmo este estando vazio me encarando, eu torci que minhas bochechas só estivessem ardendo por dentro. — Quem é? — minha estava um tom acima do normal, Molly se remexeu no sofá. — Espero não incomodar. — eu a abri imediatamente. — Grigor? O que... — eu suspirei, parecia que todas as minhas perguntas começavam com ―o que‖ em vez de ―por que‖. Eu desisti de tentar dizer algo. — Está sozinha? — perguntou ele. Eu abri a boca para responder, mas Oliver, o meu amável vizinho fez o favor de respondê-lo: — Não. — e o não dele soou mais como um vá embora. Ele estava atrás de mim, e eu podia ver a conexão que os olhos de Grigor tinham com os dele, ele mal piscava. Um sorriso ameaçador surgiu em seus lábios. Revirei meus olhos e bem, eu tinha duas opções. A primeira era mandar Grigor entrar, e a segunda era mandá-lo embora, e nisso eu poderia pegar carona e mandar Oliver embora também. Mas eu tinha perguntas; Perguntas que precisavam de respostas urgentemente e que se eu não fosse esperta acabaria louca e sem elas. Então eu coloquei meu melhor sorriso no rosto e disse: — Entre. Eu tinha usado a desculpa de colocar Molly na cama para me recuperar um pouco. Eu poderia usar uma abordagem direta ou indireta — se é que é possível ser indireta quando se quer ir direto ao ponto. Quando estava voltando estaquei no topo das escadas, ouvindo: — Não se meta nisso! Volte para onde você veio! — A voz de Oliver era coberta de ódio. Um riso zombador preencheu o ar. — Pelo menos eu posso voltar... O que? Acha mesmo que vão deixar você fazer isso.


— Eu não me importo se eles deixam ou não, ela é minha. — Sua? — a voz de Grigor tinha um tom de surpresa misturado com revolta. — Ela estaria morta se eu não tivesse aparecido. Você não se importa com nada. — Tem razão, não me importo. — concordou Oliver. — Não sou tão diferente de você. — Você está enganado, eu me importo. Desta vez foi Oliver que riu. — Até que Lunabella chegue. — ele parou de rir ao dizer isso e quando falou de novo sua voz era fiada e dura como aço — Não vou deixar você seguir adiante com isso. Eu terminei de descer as escadas e parei no último degrau. Meus braços cruzados com força ao redor de meu peito enquanto eu repetia um milhão de vezes à conversa deles. Foi como antes, num momento eu estava os olhando e no outro tudo tinha ganhado um aspecto enegrecido e em preto e branco. Eu estava na mesma floresta da minha primeira visão. Escutava ao longe as pessoas gritando e uma leve luz avermelhada atravessava a escuridão. Eu caminhei atordoada, como nas outras vezes, em direção as vozes que ficavam cada vez mais fortes. Mas algo chamou minha atenção antes que eu pudesse chegar até elas, ouvi um tilintar de sinos atrás de mim. Eu me virei e caminhei na direção contrária em que estava indo. Eu podia ver a figura se movendo como um fantasma na escuridão vindo em minha direção. Eu esperava que ele também me visse, mas isso não aconteceu. Minutos depois outra figura apareceu por entre as árvores, eu não sabia distinguir se eram homens ou mulheres. — Acalme-te. — a voz era suave e profunda. — Já és tardes, tu tens de saíres daqui antes que o peguem-lhe. A luz vermelha dançou pela escuridão, e iluminou o rosto da figura que acabara de falar. Eu o conhecia, ele era o mesmo homem ensangüentado da escadaria. — Não! — a outra voz era forte e determinada. — Não posso ficar sem ela... Não importo-me mais com nada. Todavia quero que faças uma coisa por mim, Lorenzo: Mate-me! — Estás louco? — a luz vermelha vacilou no rosto de homem, enquanto ele se encolhia parecendo chocado. — Eis de morrer de quaisquer maneiras, porém o que me atormentas és que não importas o lugar para onde eu fores... Ela não estarás lá. Tenho que morrer hoje; tenho que morrer agora, enquanto ainda és Lunabella!


E depois eu voltei a mim. Minha respiração estava irregular e eu me apoiei no corrimão da escada para não cair. Fiz menção para que nenhum dos dois se aproximassem. Deixei os minutos passarem analisando-os cuidadosamente. Nenhum dos dois se mexia, pareciam estátuas — ou monumentos — no meio da sala. — O que é isso? — Oliver perguntou de repente. — Isso o quê? Ele não respondeu de imediato, seus olhos varreram a sala em busca de algo. — Tem alguma coisa errada. — murmurou ele. — Sim, tem. — disse Grigor. — Você está aqui. Oliver sorriu seu melhor sorriso irritante e provocativo. — Eu posso sair. — ele deu de ombros. — Mas levaria a Anna comigo, precisamos terminar o que começamos. — ele piscou para mim. Revirei meus olhos, tentando impedir o rubor que tomava conta da minha face. — Chega. Eu vou direto ao ponto: O que houve com a Emily? Eu encarei Grigor, analisando-o firmemente, tentando não me desconcentrar com seu rosto perfeito. — Ela vai ficar bem. — prometeu-me ele. — Não perguntei isso. — gesticulei irritada. — Quero saber o que aconteceu com ela! E então eu escutei um barulho estranho. Parecia algo sendo arrastado e quebrado. E vinha do segundo andar. Eu disparei escada acima, mas antes que eu pudesse alcançar o topo delas uma mão se fechou em torno de meu braço. — Tenho que tirar você daqui. — disse Grigor, ignorando minhas tentativas de tentar me soltar. — Solte-a. — a voz de Oliver estava próxima. Eu me aproveitei que Grigor tinha se distraído e me soltei de seu aperto. O som vinha do meu quarto e a porta estava fechada. Entrei no quarto de Molly e suspirei aliviada quando a encontrei em sua cama. — Moll, — chamei. — Molly! Ela se remexeu.


— O que? — a voz era manhosa. — Temos que sair daqui. Segundos depois, eu e Molly estávamos no carro de Grigor e eu já tinha ligado umas cinco vezes para policia, e nada de eles chegarem. Tinha algum estranho dentro da minha casa, e eu não estava falando de Oliver. — Cadê o Grigor? — eu perguntei quando ele entrou no carro ocupando o banco do motorista. — Ele acha que pode cuidar disso. — Oliver deu de ombros. Meu queixo caiu. Grigor estava sozinho com um possível ladrão, serial killer, ou lunático na minha casa? —Por que não podemos ficar na nossa casa? — Molly perguntou no banco de trás. Oliver pareceu refletir um pouco antes de soltar, sorrindo: — Porque lá tem um rato, e um cara tentando matá-lo. —respondeu arrancando com o carro. Eu peguei meu celular e disquei de novo para a polícia. — Aquele garoto vai matar o rato? — Molly disse surpresa. — Ele é corajoso! Ele é maluco isso sim! Meu celular desligou sozinho depois do segundo toque. Droga de bateria! Porque eu sempre fico sem celular quando eu mais preciso dele? — Vamos ficar rodando pela cidade, enquanto Grigor está sozinho na minha casa? — Eu te levaria para jantar... Se tivesse algum restaurante aberto á essa hora. — um meio sorriso surgiu em seus lábios vermelhos. Eu revirei meus olhos. — Podemos ir ao McDonald‘s! — Molly disse animada. Ela estava se empanturrando com o seu Mc Lanche Feliz no banco de trás, quando Oliver manobrou para fora do Drive thru. — Isso é muito legal, esse rato poderia vir a nossa casa mais vezes! Oliver riu completamente relaxado, eu não encontrava motivos para ele estar assim. — Não se preocupe. — disse-me ele.


— Está com medo do rato não sair de lá, Anna? — Molly perguntou inocentemente. Eu suspirei e só fiz que sim com a cabeça. — Por que ele acha que pode cuidar disso sozinho? Ele está se achando o que? Um super-herói? Oliver riu como se eu tivesse contado a melhor piada do mundo. — É só um rato, Anna. — Molly disse para me tranqüilizar. — Não vai te machucar. — ela colocou uma batata na boca e sorriu. Eu estava me lembrando exatamente disso quando acordei pela manhã no meu quarto — que tinha encontrado exatamente como tinha deixado: sem nenhum móvel fora do lugar e nada quebrado. Rondando a minha total confusão havia certo alívio por, pelo menos, não ter acontecido nada de muito grave se eu olhar toda a situação de um ponto de vista físico — porque se eu for encarar tudo de um ponto de vista mental perceberia que a coisa está feia, muito feia! As visões; os pesadelos de Molly — que ela jura serem reais; um estranho na minha casa; Emily no banheiro; a frase que simplesmente sumiu do espelho; Tudo isso, e para complicar ainda mais Grigor e Oliver me confundindo, me tirando do controle de minha mente. Decidi não ir à escola hoje. Seja lá o que tivesse acontecido com Emily eu iria descobrir de qualquer jeito. Neste momento eu precisava desabafar sobre tudo que vinha me atormentando nos últimos dias. Estava à meia-hora sentada de pernas cruzadas no tapete da sala do Sr. Chan. Ele parecia flutuar pela casa, ás vezes limpando, ás vezes bagunçando. — Luke está na escola. Eu disse a ele que se não quisesse não precisava vir trabalhar na loja. — disse-me ele, a voz sutil típica de orientais. — Ele não parece gostar disso tudo como eu. Ele suspirou. Observei a xícara de chá listrada com desenhos geométricos que eu mal bebi em minhas mãos; Tinha gosto de hortelã, açúcar, canela e algo mais — o Sr. Chan nunca revelou o que colocava em seu chá. O Sr. Chan trabalha naquela loja desde que era criança. Pelo que sei, o avô dele viajava pelo mundo todo e quando chegou a Atlanta resolveu criar uma loja com um pouquinho de tudo que viu e conhecia. O que resultou na Lunabella, que tinha a tradicional legenda em baixo do nome na fachada: ―Viaje, suma e se encontre, sem sair daqui.‖


— Sr. Chan, — chamei-o. — Por que o nome Lunabella? Essa era uma das perguntas que surgiram em minha mente sem eu dar muita atenção. Eu já havia escutado esse nome umas duas vezes nas minhas visões estranhas e só agora havia conciliado os fatos. Sr. Chan sorriu repuxando os lábios finos, e fazendo seus olhos pequenos e puxados quase sumirem. — É uma longa história que vem sendo passada de geração em geração por minha família. — começou ele. — Eu tentei contá-la a Luke uma vez, mas ele me deixou falando sozinho antes mesmo de eu chegar à metade. Tem certeza que quer ouvi-la? Eu dei de ombros. — Eu tenho tempo. — retribui seu sorriso, mas era muito superficial para parecer natural. — Dizem que há uma única noite em que tudo pode acontecer. Em que todos os portais de todos os mundos ficam abertos e que é possível atravessá-los sem ser convidado. — disse ele suavemente. — Uma noite sem estrelas, e de uma lua tão bela que ofusca tudo e parece estar viva no céu. ―Tudo começou com uma garota, não se sabe muito sobre ela nem mesmo onde ela viveu tudo que sei sobre ela é que ela era muito bonita. Ela sabia sobre Lunabella e todas ás noites olhava o céu com a esperança de que fosse a tal noite magnífica. Essa noite, para muitos não é nem um pouco romântica, mas a garota achava que Lunabella era o melhor dos contos de fadas.‖ ―Havia milhares de histórias sobre essa noite, uns diziam que quando ela chegasse seria o fim do mundo, outros diziam que seria o dilúvio para um novo mundo. Já a garota achava que em Lunabella poderia realizar todos os seus sonhos e encontrar o seu verdadeiro amor.‖ ―E Lunabella chegou, mas ninguém percebeu somente ela. A garota fugiu para a floresta e subiu até o lugar mais alto da montanha para chegar mais perto da lua.‖ ―Ela foi encontrada algumas horas depois, estava pálida, ensangüentada e seus olhos eram negros como a noite. Foi acusada de bruxaria, mas a grande maioria das pessoas achava que ela havia sido possuída por um demônio. Queimaram-na em uma fogueira na mesma noite. Na noite de Lunabella!‖ ―Depois disso começaram a achar que em Lunabella os demônios passeavam livres pela terra e que quem fosse possuído por eles deveria ser queimado em uma fogueira para que o demônio fosse destruído e ficasse preso a esta noite sem poder vagar por nenhum plano ou mundo.‖ Respirei fundo ainda olhando o Sr. Chan. — Ainda não entendi porque a loja tem esse nome. — confessei.


Ele sorriu. — Meu avô colocou esse nome na loja porque, ao contrário dos seus antecessores, ele acha que Lunabella é perfeita porque nela se encontra de tudo: o amor, a raiva, a determinação, a liberdade... Tudo! Em Lunabella pode-se fazer tudo! Não importa o que seja, nem o que aconteça... Lunabella é mágica! — E quanto ao livro? Sr. Chan franziu as sobrancelhas brancas e finas. — Que livro? — O livro de Lunabella que eu encontrei na prateleira e Luke disse que eu poderia levar. — resolvi poupar o Sr. Chan da parte em que ele disse que aquilo era um lixo. — Nunca soube de livro nenhum. — respondeu-me ele. — Tem muitas coisas nessa loja que o meu avô trouxe. Tem algo sobre essa história nesse livro? — Não, está todo em branco! Eu coloquei uma mecha de meu cabelo para trás, enquanto repetia a história em minha mente. Ela perecia surreal e fantasiosa demais para que eu acreditasse em algo, mas não podia negar o fato de que a parte em que a encontraram ensangüentada mexeu com meus nervos, afinal eu mesma encontrei Emily nesta situação. Mas o que diabos eu estou pensando?, perguntei a mim mesma. Emily está bem, e isso é só uma história. Respirei fundo e me fiz prometer de que no momento em que encontrasse Grigor iria confrontá-lo até ele me dizer o que ficou fazendo no banheiro com Emily naquela trade depois que sai. Mas eu não podia enganar minha mente dizendo que obteria algum sucesso com isso, porque se essa conversa tivesse o mesmo fim da que eu tive com Oliver... Bom, não seria bem uma conversa. O que me lembrava de que eu tinha realmente beijado Oliver Coleman. Aliás, eu só não o tinha beijado com também me rendi a ele, completamente indefesa e dominada. Logo depois de ter também beijado Grigor, e a situação não foi muito diferente. Porque um, eu estava completamente atordoada em ambos os momentos; dois, eu nem mesmo fiz algo para impedi-los; e três, eu fiquei exposta e entregue sem poder racionalizar direito no momento em que ambos me tocaram. E eu também não podia me esquecer que depois disso coisas estranhas aconteceram; O que me obrigou a perceber o que realmente estava acontecendo na minha vida. Um lado mais irracional do meu cérebro percebeu que ás coisas ficam fora do controle sempre que Grigor está por perto, e o outro lado mais racional notou que não só as coisas ao meu redor como eu também fico fora de controle.


Aliás, “eu sempre acabo trombando com ele onde quer que eu esteja” eu tentei parar este pensamento. O que eu estava pensando? Ele vai à mesma escola que eu, é natural que nos encontrássemos. Mas e na noite da racha? Uma voz fina soou em minha cabeça, impedindo-me de esquecer o assunto. Aquela noite foi estranha. Bom, não tão estanha como eu achava que era: Oliver a fez ficar estranha e confusa. Porque eu sei que vi a policia chegando. Eu sei que foi por isso que corri para aquele beco. Mas ele insiste que não havia policial nenhum naquela noite e que eu de repente saí correndo. E que por acaso acabei encontrando Grigor no mesmo beco. Num beco escuro e sinistro. O que Grigor estava fazendo sozinho num beco escuro, enquanto todos os outros ―participantes‖ e ―apreciadores‖ de rachas estavam na rua? — que em termos de claridade e segurança não era muito diferente do beco. Eu sempre mirei minha desconfiança e minha insegurança inteiramente para Oliver; Ele era o garoto estranho e sinistro em minha vida. Mas e Grigor Lybieri? O que eu realmente sabia sobre ele? Certo, ele é emancipado, morava em Nova Iorque, seus pais morreram, ele vive próximo ao bosque e tem uma espécie de tutor que o visita de vez em quando. Mas isso é o que ele diz. Não há nada que confirme isso, nada. Paranóica, não seja paranóica, eu entoei para mim mesma. Oliver o chamou várias vezes de servo. Mas tudo o que Oliver diz é confuso então não é como se isso fosse um código ou algo com significado, já que tudo que ele fala parece ser assim. E aquela conversa que eles tiveram na sala... “— Ela estaria morta se eu não tivesse aparecido. Você não se importa com nada”, Grigor dissera. “— Tem razão, não me importo. Não sou tão diferente de você.”, Oliver disse logo depois. Minha memória falhou, mas eu me obriguei a lembrar de mais: “— Você está enganado, eu me importo”, Grigor tinha dito depois de um silêncio. “— Até que Lunabella chegue.” Oliver dissera. E depois disso eu não conseguia me lembrar de muita coisa que ouvi. Até que Lunabella chegue, eu repeti a última frase. Eles sabiam sobre Lunabella?


Eu me despedi do Sr. Chan e rumei até a casa de Emma. Que era longe o suficiente para eu me acalmar e pensar no que iria dizer. Rose atendeu a porta. Ela tinha o cabelo um pouco avermelhado, liso e desfiado, e um par de olhos verdes, no rosto fino e pálido; sua estatura era baixa e era bem magra. — Anna, — ela me abraçou. — Finalmente veio até aqui, você andou sumida depois da nossa última reunião, estava começando a achar que a razão de seu sumiço era justamente por isso. — ela disse a tempo de me soltar e olhar em meus olhos. Rose fazia uma espécie de reunião de mulheres toda semana. A casa enchia de mulheres e produtos de beleza e elas se faziam de Barbie enquanto se produziam e fofocavam sem parar. Na última eu fui o alvo. Eu fui a boneca da vez; elas me colocaram numa cadeira e cada uma parecia querer arrancar uma parte de meu corpo, tentando deixá-lo o mais bonito possível. Para mim, não era muito diferente de uma cena de filme de terror, é claro que isso é o meu ponto de vista, para Luke e Emma aquilo foi à melhor tarde que já tiveram — Luke é o único ser com um cromossomo y que já participou destas reuniões. Eu jurei a mim mesma que nunca mais participaria de algo assim. — Ham, não, eu estava ocupada com... — eu dizia enquanto procurava uma desculpa para dar. — Anna! — Emma chamou aparecendo na sala. A casa dos Newton era simples. Não havia muitos móveis e nada sofisticado, não era a mais bonita da rua, muito menos a mais cara. Mas era a casa que mais me lembrava minha casa de Malibu, ou seja, a que eu mais me sentia bem. Tinha flores e enfeites artesanais em todos os cômodos — que eram sala, cozinha e dois quartos — Na pequena sala o sofá estava coberto com uma capa floral de rosas vermelhas, uma pequena estante feita de madeira, as paredes eram em tons claros e aconchegantes. Porta retratos e catálogos de revistas cobriam a mesinha de centro — o que para muitos seria visto como uma enorme bagunça, mas que para mim só me lembrava mais e mais de Malibu. Só me deixava mais em casa. — Venha. — ela pegou a minha mão e me arrastou para o seu quarto sem se importar com os resmungos de Rose sobre como não se devia interromper uma conversa e que precisava conversar comigo. Acontece que Rose além de vendedora de produtos de beleza também tem seus momentos de ―vidente‖. Ela acredita em signos, cartas de tarô e todas essas parafernálias que dizem saber o nosso futuro. E como Emma e Chad já tinham se cansado e deixado bem claro de que não queriam mais saber disso, ela decidiu me ter como nova cobaia. Emma fechou a porta atrás de si rindo. Eu me joguei em sua cama enquanto tentava abafar minha risada. A colcha dela era feita de retalhos de panos e por isso era toda colorida. Não havia mais nada no quarto além disso. Bom a não ser que pôsteres de bandas e atores sem seminus contem como móveis.


— Ok. Agora me diga por que me deixou ir sozinha para aquele ninho de cobras? — ela perguntou se jogando na cama ao meu lado. Respirei fundo. — Não estava me sentido muito bem. — respondi, o que não era totalmente uma mentira. — O que aconteceu lá? — tentei deixar a preocupação fora de meu tom. — Nada. — Emma deu de ombros. — Bom, a cobra rainha não apareceu, o que é um alivio tremendo, mas as cópias e a cópia numero 1 fizeram bem o papel dela. — Emily não foi à escola? — Não. — ela me olhou, eu voltei meu olhar para o teto de madeira e de luz baixa para que ela não visse meu pânico. — Mas isso não é nada importante, nem sei por que estamos perdendo tempo falando dela. Que tal mudarmos de assunto para o capitão do time de basquete? — Ryan Brandon? — eu estranhei. — Não. — Emma pareceu enojada por ter ouvido o nome — Gregory Lybieri. — O que? — Ele é o novo capitão do time. — ela franziu um pouco as sobrancelhas. — Não totalmente quero dizer. Todo mundo estava comentando que o Treinador estava uma fera com Ryan por ele não ter respeitado o toque de recolher e por faltar nos treinos... E bem, ele viu Grigor jogar basquete em Ed. Física e como ele também jogava basquete em sua antiga escola, não é difícil saber quem vai substituir o Rei dos ratos no time. Mas nada está confirmado já que Grigor não foi à escola hoje. — E-ele não foi? — eu gaguejei enquanto me levantava da cama. — Não. — ela também se levantou me encarando. Não me preocupei em tentar adivinhar o que se passava por sua mente me vendo andar de um lado para o outro no seu minúsculo quarto. Emily não foi à escola, Grigor não foi à escola... — Oliver também não foi, acha que isso pode ser algum tipo de doença... — ela dizia, mas eu não consegui escutar mais nada. Meu coração se acelerou a medida que novos tremores passavam por meu corpo, repeti todas as informações que tinha novamente: Emily estava no banheiro quase em convulsão, Grigor ficou sozinho com ela depois disso, Oliver e ele estavam na minha casa conversando sobre algo que me fazia ter arrepios, havia alguém dentro do meu quarto, Grigor novamente ficou sozinho com isso, e por último: nenhum dos três citados acima compareceu a escola hoje.


Eu parei de repente. — Que tal fazermos uma visitinha ao Grigor? — eu tentei deixar minha voz relaxada no final. — Tá falando sério? — ela se animou, mal percebendo a tensão que irradiava de mim. —Mas você sabe onde ele mora? — Não, — confessei. — Mas fica perto do bosque e podemos procurar. Não tem muitas casas por ali, não deve ser difícil encontrar. — Hum, ele mora perto do bosque? — os olhos dela brilharam numa intensidade assustadoramente maliciosa. — Cara, você já viu as casas ao redor do bosque? Tipo tem que ser muito rico mesmo para comprar uma casa daquelas. Eu dei de ombros, minha mente ocupada e temerosa demais para pensar nisso agora. — E ele é emancipado... — ela murmurou para si mesma. — Você acha que Grigor é herdeiro de uma fortuna? Eu acho que sim, porque ele é muito jovem para ter tanta grana. Eu fechei a porta do carro com força, mais para parar os pensamentos horripilantes que povoavam minha mente, do que para calá-la. — Tudo bem, eu paro, só não bata no meu bebê, eu batalhei muito para ganhá-lo. — ela deu ré e depois acelerou dando partida. Encostei minha cabeça no encosto do banco. Um novo pensamento — não muito racional, para variar — passando por minha mente. — Não, espera, — eu chamei sua atenção para mim. — Eu preciso ver uma pessoa antes. — Quem? — Emily Morgan. — Sem essa! — ela abanou a cabeça. — Eu não quero ver aquela Barbie tóxica de novo. O que deu em você, Anna? Se esqueceu de tudo que ela nos disse. Eu abaixei minha cabeça, mal conseguindo entender o que ela dizia. — Só preciso ver uma coisa. — respondi mordendo meu lábio. — O quê? Ver se Emily está viva. — Não sei, eu só... Preciso vê-la.


Ela me olhou como se eu fosse maluca, mas não disse nada. Meia hora depois estacionamos aos redores da residência dos Morgan‘s. — Se você não voltar em cinco minutos eu ligo para a polícia. — Emma disse enquanto eu saia do carro. Eu atravessei o pequeno jardim por uma estradinha de pedras que levava até a entrada. Toquei a campainha. Meu coração acelerando a medida que os segundos passavam. Uma mulher robusta atendeu a porta. Seu rosto redondo era grave quase severo enquanto me encarava, ela vestia um uniforme azul marinho e branco, e seu cabelo castanho estava preso em um coque alto sem um fio fora do lugar. — Pois não? Eu comprimi meus lábios e respirei fundo. — Oi, eu sou uma... — pausei brevemente escolhendo uma palavra adequada. — Colega da Emily da escola. — eu deduzi por fim. — Hamm, eu vim trazer a matéria que ela perdeu hoje. Depois de alguns segundos eu percebi que minhas mãos estavam vazias e que minha desculpa era um blefe descarado, então completei rapidamente: — Meu caderno está no carro, eu pensei em chamar a Emily até a minha casa para fazermos juntas lá. Engula isso por favor! Ela balançou a cabeça de um lado para o outro. — Emily não pode sair de casa hoje, querida. — o rosto severo foi se atenuando até ficar somente composto e de certa forma calmo. Emily não pode sair... Então ela estava lá! Suspirei aliviada, e a mulher me olhou com um olhar curioso beirando a desconfiança. Eu me recompus rapidamente. — Que pena... — eu murmurei. — Ela está bem? — Sim. — ela respondeu rapidamente. — Até. — e fechou a porta na minha cara. Eu abri minha boca e fechei, o alivio tinha escorregado de mim com seu estranho comportamento. Respirei fundo e me virei para sair dali. Mas meus olhos ficaram presos nos dois adolescentes que saíram pela lateral da casa, e pararam na cerca de madeira do jardim da frente. Aproximei-me sorrateiramente, tentando escutar o que eles diziam. — Ela está estranha. — um garoto, não devia ter mais de catorze anos murmurou para a garota. Ele tinha os cabelos avermelhados, era baixinho e franzino, vestia um uniforme nas mesmas cores da mulher que me atendeu.


— Ela está é louca isso é. — a garota, também baixinha e franzina respondeu. Ela era bem parecida com o garoto, mas tinha a pele mais bronzeada e os cabelos negros. — Você viu o jeito que ela me olhou... Parecia que ia me devorar! E olha que ela nunca nem olhou para nós, sempre com aquele nariz empinado. Acredita que ela começou a dizer coisas estranhas e a falar sozinha? Quando o pai dela chegar de viagem vai tomar um belo susto. — Ouvi dizer que ela brigou na escola com uma garota, talvez seja por isso o comportamento estranho. Ela não está louca, Linnie. — o garoto disse. ´ Eu me encolhi no vão de um dos pilares de entrada. — Está sim! Sei lá, estou toda arrepiada! Acho melhor chamarmos um médico ou um padre, essa garota está me assustando. Um chamado veio de dentro da casa e eles sumiram pela lateral da mesma. Suspirei voltando para o carro. Emma tinha estacionado em outra rua, ela tinha resmungado algo como: ―Deus me livre de chegar perto do ninho de cobras‖. Eu abri a porta e me sentei no banco do passageiro. — Viu ela? — perguntou colocando a chave na ignição. — Não. Mas ela estava lá. — respondi, pensativa. Ela estava lá... Isso já era alguma coisa. Emma suspirou. — Hum, — ela resmungou alguma coisa incompreensível. — O que estamos indo fazer mesmo na casa do Grigor? Porque eu estou começando a desconfiar de que isso não é só uma visita. Olhei para ela derrotada, queria desabafar, mas se eu o fizesse com certeza ela me taxaria como louca — não que eu não já não estivesse me acostumando com isso. — Não é mesmo, — disse eu. — Tem alguma coisa no Grigor... Olha, eu não sei o que é exatamente e não é só com ele, é com o Oliver também. Eu já pensei em tudo, comecei a pensar em coisas que colocam em risco a minha sanidade, mas Emm, eu tenho que descobrir o que há de errado com eles! — O que? Você acha que eles podem ser tipo psicopatas ou agentes disfarçados da CIA, espera e se eles forem vampiros? — ela disse, primeiramente séria, e depois desabou a rir, caçoando. Eu revirei meus olhos. — Pode ser. — disse ignorando o seu sarcasmo. — Bom, eu não sei. Mas tenho que descobrir, não importa como. Vai me ajudar ou não?


— É claro que vou! Você pode estar ficando maluca e vendo coisas demais, mas se você for parar em um manicômio eu quero ir junto. Não posso viver sem você! E essa vai para a nossa lista de declarações de amizade estranhas. E realmente ás casas ao redor do bosque não pareciam ser nada baratas. Não que eu estivesse esperando isso depois de ver o carro do Grigor — que com certeza, com o dinheiro que ganho, não conseguiria comprar nem daqui uns oitenta anos. — Então, como vamos fazer? — Emma perguntou. — Eu não faço a mínima idéia. — confessei. — Acho melhor perguntarmos. — Não é uma boa idéia, se ele não estiver lá, não quero que saiba que estivemos. — Ele não vai saber. Vamos perguntar para aquela menininha ali, — ela apontou para uma garotinha de uns cinco anos empurrando sua bicicleta cor de rosa. — Se ela souber onde ele mora, vamos até lá, se não souber, nós vamos embora, simples. Eu dei de ombros, sem mais idéias. — Oi menininha linda. — disse Emma tentando ser simpática. — Eu não tenho doces. — garantiu ela apreensiva, tentando se afastar do carro e empurrar a bicicleta ao mesmo tempo. Eu ri, Emma chutou meu pé com o seu para que eu parasse. — Eu não quero doces. — o tom simpático tinha saído de sua voz. — Estou de dieta. Na verdade quero saber onde mora um amigo meu da escola. O nome dele é Grigor Lybieri, conhece? — Ah, sim. — ela revirou os olhos, olhando para Emma como se ela fosse um E.T— Como não conhecer ele? Ele é simplesmente o vizinho mais gato que já tive. Eu a olhei de novo minuciosamente. Ela tinha o cabelo castanho-claro, vestia uma camiseta e uma saia azul, era branca e tinha o rosto oval, os olhos pequenos e puxados bem claros. Ela realmente não deveria ter mais de cinco anos, e por isso não deve ter tido muitos vizinhos. — Eu me esqueci onde ele mora, pode me lembrar qual é a casa? Sei que é por aqui. Mordi meu lábio, nervosa. — É aquela no fim da rua, a mais bonita. — ela disse, e retorceu a boca num jeito estranho. — Você é o que? A namorada dele ou uma assaltante? Ele não está em casa, mas eu sei o número da policia e... Ei!


Emma a deixou falando sozinha. — Como planeja descobrir algo sobre ele? Vai perguntar assim na lata se ele é um psicopata? Sabe, Anna, se ele for realmente isso, — ela bufou e tossiu tentando não rir de si mesma. — Não vai revelar assim de graça, você vai ter que descobrir, eu duvido que ele vá lhe contar. Vamos aproveitar que ele não está em casa, você entra lá e procura por algo e eu fico vigiando aqui do lado de fora para ver se algo der errado. — Desde quando você se tornou mestre em invadir casas? — Desde os meus dez anos, quando jurei a mim mesma que iria entrar no quarto do Brad Pitt, de qualquer forma. Eu não sei se a casa dele era a mais bonita da rua — eu nunca fora boa em analisar imóveis, a única coisa que sabia, que por acaso foi Luke que me ensinou, é que se houver um portão grande tapando toda a entrada da casa é porque a casa é de gente rica. E no caso de Grigor, aquilo parecia mais uma muralha do que um portão. — Como vamos entrar? — Ele deve ter um gamado, e eu duvido que ele passe os fins de semana aparando. Eu a olhei sem entender onde ela queria dizer. Essa não! — Pronto— eu disse a ela, enquanto suspendia meu corpo com minhas mãos, sentando em cima do concreto que recobria a parte superior do portão de aço. “Eu não estou fazendo isso. É só um pesadelo que vai chegar ao fim, é só eu acordar”, disse a mim mesma. Emma estava certa sobre o gramado. Aquilo parecia não ter sido aparado há meses. — Rápido pule! Pular. A palavra é tão fácil de ser dita, mas quando é no sentido literal e não no figurativo, a coisa muda de situação. Deveria ter outro jeito de descobrir, eu não precisava pular de um muro para descobrir isso, uma parte do meu cérebro pensou, enquanto outra bem pequena, mas que parecia gritar pensada: Covarde! Eu comecei a contar: 1,2,3... Não foi tão ruim como eu imaginava. — Você está viva? — Emma perguntou do lado de fora. — Não. — resmunguei, pude escutar ela rindo.


— Procure uma janela ou qualquer coisa. — ela instruiu. — Me diga que está com o seu celular! — Estou. — eu disse, não era uma mentira, ele estava comigo no bolso de trás, descarregado, mas isso é só um detalhe! — Eu vou te ligar se algo der errado, e se você não atender por algum motivo, que sempre acontecesse, eu vou começar a gritar. E é claro que eu poderia ouvi-la, porque depois de assistir O Grito com ela três vezes, não me restavam duvidas de que ela tinha um megafone no lugar das cordas vocais. Eu considerei procurar alguma janela, mas comecei a pensar: se eu tivesse um portão imenso na frente de minha casa para quê fecharia porta? Bom, só se eu pensasse na hipótese de alguém pulá-lo, o que me parecia meio absurdo se eu fosse o Grigor. A porta se abriu com um ranger me revelando o hall de entrada. Eu tentei não prestar muita atenção na decoração da casa, mas tudo ali parecia estar duelando para chamar minha atenção: desde os sofás acolchoados e pretos, até a linda TV imensa da sala. Tudo era bem espaçoso e organizado, o que me surpreendeu um pouco. De certa forma a decoração combinava com ele. Havia algumas cadeiras parecidas com as de ilha na sala encostadas-se a uma das paredes, e obras de arte que deveriam ser bem caras na mesma. Simples e aristocrático. Eu tirei meus olhos da decoração com muito esforço, voltando a me focar no plano... Se eu tivesse algo para esconder, onde esconderia? O meu quarto era a minha primeira opção. Subi ás escadas até o andar de cima. Parei no imenso corredor. Para quê tantos quartos se ele mora sozinho? Droga! Eu fui abrindo porta por porta. Todos pareciam serem muito impessoais, não havia nada que me lembrasse ele ou quarto de um garoto, pareciam mais com quartos de hotéis. É claro que tinha de ser o último! Eu abri a porta do último quarto, e novamente me surpreendi. Eu nunca, jamais, deduzi que Grigor era fã de jogos. O quarto dele era repleto deles, uma mesa de pebolim estava encostada ao lado da estante, um joystick estava jogado em cima da grande cama de lençóis negros e havia uma pilha de jogos de vídeo game empilhados no criado mudo. Eu parei de olhar para aquilo tudo, e tentei me focar no que viera fazer ali. Eu abri a porta de seu armário e comecei a procurar por entre suas roupas — o detalhe era que eu não sabia pelo quê procurar. Uma arma talvez... Qualquer coisa. Eu precisava de uma prova de que ele não era um garoto normal, de que eu não estava ficando maluca. Mas não havia nada ali. Eu comecei a me lembrar de cenas de filmes, talvez ele escondesse no piso ou no teto... Chega!


Eu me sentei na cama derrotada. Recusava-me a sair dali de mãos vazias, mas ficando ali por mais tempo correria um risco terrível. Se Grigor me encontrasse ali, o que pensaria? Eu passaria de estranha, para maluca e depois para delinqüente. Eu me dei de presente mais alguns minutos ali. Sai do quarto e comecei a zanzar pelo corredor. Havia uma pequena escada no fim dele; uma corda descia por ela. Aproximeime, receosa puxei-a e observei o teto em cima da escada se mover. Era um sótão escuro, e empoleirado. Subi os degraus da escada e tive que me abaixar um pouco quando pisei no chão dele. A luz era muito baixa, mas havia uma pequena janela redonda de vidro colorido que refletia a luz do sol, dando um aspecto estranhamente multicor à escuridão. — Aí! Eu dei um passo para frente e bati minha perna em algo que rangeu me assustando, algo que estava em cima dela deslizou pelo piso de madeira e parou aos meus pés. Era só uma cadeira de balanço; respirei fundo tentando me acalmar. Peguei o objeto do chão, e um pouco aturdida vi que era uma lanterna. Acendi-a e tive uma melhor visão do que tinha a minha frente. Parecia ser tudo muito antigo; uma estante de livros grossos e pesados estava atrás da cadeira. Uma escravainha mogno mal encostada à parede e ao seu lado, algo parecido com um cavalete estava coberto por um lençol branco típico de mudanças. O cavalete era de madeira, trincado e minuciosamente trabalhado. Parecia ser a única coisa ali que não estava coberto de poeira; Longe disso, a madeira brilhava parecendo ter sido polida recentemente. Eu puxei o pano para ver que quadro ele suspendia. Minha primeira reação foi ficar estática. A próxima foi me afastar. E depois eu comecei a tremer. Não de frio. Mas de medo. Aquela pintura conseguira arrepiar todos os pelos do meu corpo. Era uma garota. Ela tinha um sorriso misterioso no rosto — não como Monalisa. O sorriso dela era diferente, um que eu jamais vira, de tão misterioso chegava a ser assustador. Ela era branca, porém um pouco bronzeada o que deixava sua pele num tom amarelo. O nariz era pequeno e reto; os olhos um pouco puxados no cantos; a iris era clara, um mistura de castanho com um dourado levemente avermelhado. Ela tinha os cabelos cheios, não tão lisos, com uma cor inacreditavelmente parecida com a dos olhos. Atrás dela ao lado esquerdo havia uma sombra, estranhamente brilhante. No direto havia outra, também brilhante, mas num brilho avermelhado. Ela vestia um vestido, mas somente a parte de cima aparecia na pintura; tinha mangas bufantes, e era bem colado ao corpo, realçando seu busto. Um belíssimo colar estava


pendurado ao seu pescoço, ele era fino e de ouro, e o pingente era em forma de losango e no meio tinha uma pedra brilhante e vermelha; talvez fosse uma rubi. Poderia ser uma obra comum e talvez eu nem a notaria se eu não conhecesse aquele rosto; Se eu não tivesse convivido com aquele rosto, vendo-o mudar, sem nem perceber, a cada ano durante toda a minha vida. Porque aquela garota da pintura era eu. Mas na base dela escrito no cavalete havia outro nome: Elisabeth Di Veroni. — Grigor! Que surpresa te encontra aqui! —Um grito distante se infiltrou aos meus ouvidos. Eu corri um pouco rígida demais até a janela que dava exatamente para frente da casa, ultrapassando até mesmo o portão de aço. Emma estava visivelmente desesperada em frente ao Grigor, gesticulando nervosa para ele. Definitivamente, Droga!


NOVE. Eu me afastei daquele sótão o mais rápido que pude, e corri pelo corredor tropeçando nos meus próprios pés. E então desci ás escadas apressada, mas quando cheguei ao fim à porta se abriu. Terminei de descer o último degrau e corri para de baixo delas, torcendo para que ele não conseguisse me ver ali. — Nossa, que coincidência você morar aqui! Sabe, eu vim visitar uma velha amiga e acabei me esquecendo qual a casa em que ela morava, você não vai acreditar o quanto eu me esqueço das coisas! — Escutei a voz de Emma próxima. — Uau! Que casa incrível! — Valeu. — a voz de Grigor soou também próxima. — Como é o nome da sua amiga? Quem sabe eu a conheça. — O... O nome dela? — ela tossiu tentando disfarçar o nervosismo. — É Tani...Li... Du. — se eu não estivesse à beira de um ataque de pânico estaria rolando no chão de tanto rir agora. — Você conhece? — ela perguntou alarmada. — Hamm, não. — confessou ele. — Ah, que pena... — disse ela deslizando um pouco na atuação e mostrando seu alivio. — Você é emancipado mesmo? — Yeah. — Sério sem querer ser intrometida nem nada, mas como é que conseguiu isso tudo sozinho e tão jovem? Grigor riu, e eu derreteria com sua risada se meu coração não estivesse tão acelerado. — Minha família tinha bons negócios. — eu supus que ele sorria pelo tom de voz. — Que tipo de negócios? — a voz de Emma sobre-supôs a dele, ela tentava não soar nervosa, mas sua tentativa era um fracasso. Qualquer um detectaria o que se passava por sua mente nesse momento... Drogas, roubos, contrabando... Talvez máfia. — Carros. Vendíamos carros em Nova Iorque. — Ah! — eu pensei ouvir um suspiro dela. Ouvi alguns passos se aproximando do local onde eu estava. Mais passos, só que mais apressados vieram atrás destes. Eu pude ver a silhueta de Grigor fazendo sombra enquanto ele se aproximava mais. — Grigor? — chamou Emma, ela já estava logo atrás dele tentando chamar toda a sua atenção. — Hamm, fiquei sabendo que você está no topo da lista do Treinador para ser capitão do time!


Ela deu mais alguns passos, e seus olhos cruzaram com os meus por um milésimo de segundos. — Basquete? Não, não! Acho que vou dar um tempo nisso. — dissera ele sumindo de minhas vistas. — Você jogava na escola antiga? — É, de vez em quando. — havia certa ironia em sua voz. — Gosta de esportes? — Emma perguntou ao mesmo tempo se virando para mim e gesticulando freneticamente para a porta indicando que eu tinha que sair dali. — Como? — eu sussurrei de volta. — Gosto de jogos. — Hum, isso soa meio geek7! — Emma disse, e depois sussurrou para mim: — Corra para a porta, vou distraí-lo. — Nem tanto assim. — a ironia em uma dose carregada em sua voz desta vez. Ela saiu do meu campo de visão. — Meu Deus! — a voz dela saiu exageradamente alta e falsamente surpresa. — Não posso acreditar que você tem esse quadro! Eu fiz o que ela disse e corri sorrateiramente para a porta. Antes de abri-la pude ter uma última visão de Grigor de costas, e de Emma praticamente se jogando e gesticulando para o quadro como se realmente fosse uma fã de arte moderna. E o Oscar vai para... Fechei a porta fazendo o mínimo de barulho. O portão estava aberto, o que poderia ser considerado a única coisa que eu tive sorte no dia inteiro. Já era quase noite; o céu assumia um tom de cinza escuro e sombrio. Eu resolvi me precaver e não esperar Emma no carro. Andei pela rua me distanciando o máximo possível da casa. Meu coração ainda estava acelerado, e eu também estava preocupada por tê-la deixado sozinha lá dentro. — Olha só, se não é a amiga da assaltante. — A garotinha da bicicleta disse, ela estava quase ao meu lado. Eu não a vi se aproximando. — Não fomos assaltar ninguém. — eu disse a ela, tentando não me preocupar com o fato de ela saber demais. 7 É uma gíria da língua inglesa, usada para definir alguém viciado por jogos ou coisas do tipo.


Ela somente riu maliciosamente — demais para a sua idade — e se afastou com a sua bicicleta. Eu deveria ter andado o equivalente a duas quadras quando o Miata de Emma parou ao meu lado. Corri para o banco do passageiro e ela imediatamente deu partida, deixando para trás aquele lugar tão refinado e ao mesmo tempo tão sombrio. — Encontrou alguma coisa? — ela me perguntou. Eu mantive meus olhos na estrada. — Hamm, — eu pausei sem saber o que lhe dizer. Eu tinha encontrado um quadro, que pelo menos para mim provava que Grigor Lybieri não é um cara normal; Mas Emma consideraria isso como prova? — Ele gosta de games. — eu disse por fim. — Ele me disse isso. Está vendo? Grigor é somente um cara rico e extremamente gostoso, e não tem nada de anormal nele. Eu fiquei com o final de sua frase na cabeça; nada de anormal nele... Por que somente eu achava que tinha algo de muito anormal nele e no Oliver? — Se você quiser saber alguma coisa simplesmente pergunte, baby. — ela disse quando me deixou em casa. Certo; perguntar é fácil. Resta saber se ele irá me responder. Não. Se eu quiser saber algo eu tenho que descobrir sozinha por conta própria. E eu tinha pelo menos algo pelo que começar. Bom isso era um livro estranhamente em branco com o nome de Lunabella, mas ele era a única coisa que eu tinha, então... Eu corri para o meu quarto e antes que eu pudesse revirar meu quarto inteiro, lembreime que o tinha guardado dentro da gaveta do meu criado mudo. Mas este estava vazio. Eu cai sentada no chão. Droga! Alguém tinha o pegado. Mais quem? Havia alguém arrastando e quebrando coisas no meu quarto naquela noite, e Grigor tinha ficado na minha casa sozinho com isso. Um dos dois havia pegado o Lunabella. Eu poderia procurar na casa de Grigor novamente... Eu bati na minha testa tentando parar este pensamento. Eu não iria mais voltar para aquela casa. Eu teria de arranjar outra forma de recuperá-lo.


Eu estava tentando me concentrar no meu dever de casa quando o telefone tocou. Eu o ignorei, deixando-o tocar. Quando acabou eu pensei que tivessem desistindo. Mas ele começou a tocar de novo e de novo. E então parou. Antes que ele começasse novamente resolvi descer e trazê-lo até o meu quarto. — Alô? — eu disse. — Achei que você tinha tirado férias da escola por hoje... Deixe-me ver, você deve estar fazendo seu dever de casa agora mesmo. Tão previsível. Eu arregalei meus olhos surpresa. — Como conseguiu meu número de telefone? Oliver riu do outro lado da linha. — Isso realmente importa? Eu bufei em resposta. — Quero que faça uma coisa para mim. — ele disse. — Rá-rá. Desde quando eu virei sua garota de favores? — Espera, você nem sabe o que vou te pedir e eu posso te dar algo em troca. — Não importa, — eu disse tentando soar inflexível. — Eu não faço mais acordos com você. Silêncio, e depois Oliver desabou numa gargalhada. — Ok. Vamos ver até onde isso vai. E ele desligou. Na minha cara. Extremamente irritada eu joguei o aparelho em qualquer canto, mas mal tinha acabado de fazê-lo e ele começou a tocar novamente. — Olha aqui Oliver... — eu cuspi ás palavras, mas logo fui interrompida por uma voz feminina quase infantil. — Oliver? Quem é esse? — Reconheci a voz de Lizzie do outro lado da linha. — Desculpe, eu achei... —Esqueça. Olhe venha para o restaurante agora mesmo, vamos inaugurar hoje e acho que não vamos dar conta de tudo. Arranje um jeito e venha agora! E desligou.


Ok. Harry não estava trabalhando hoje, e bem, ele deveria estar por algum lugar enchendo a cara. Eu não poderia deixar Molly em casa sozinha e Nancy deveria estar em alguma casa de auxilio aos menos favorecidos como voluntária. Então só me restava um lugar para deixá-la. — Isso vai ser tão divertido, será que tia Rose me deixa maquiar as mulheres das revistas de novo? — ela perguntou. Eu não conseguia entender como ela era tão disposta para essas coisas e achava tudo tão legal. A minha casa era muito longe da de Emma, longe o suficiente para eu já me sentir cansada só em pensar em ir até lá. Mas Molly é completamente diferente. Talvez seja porque Rose faz sempre de tudo para mimá-la. — Eu acho que sim. — eu disse quando nos aproximávamos da casa. Bati na porta. Chad apareceu quando ela se abriu. E não tinha como olhar para ele e depois para Emma e ver que eles são parentes. Porque Emma é praticamente a cópia feminina dele. Os dois são altos e tem uma pele lustrosa e branca, além dos traços marcantes no rosto. Os cabelos castanho-escuros, agora com uns fios grisalhos, estavam precisando de um belo corte, e ele estava usando seus óculos de grau. O que ele detestava e o que indicava que ele estava escrevendo mais um capítulo de seu mais novo-antigo livro. Chad é escritor e ele antigamente trabalhava em uma editora, mas saiu recentemente. Parece que eles aceitaram o seu original o problema é que eles colocaram a condição de Chad alterar algumas partes de seu livro para que ele fique mais, Hamm, atrativo. Chad não quis alterar o livro e por isso o demitiram. Emma disse que isso é besteira e que o pai dela era um cabeça-dura. Mas eu achei que Chad fez o certo em não mudar nada, afinal a idéia do livro era dele e ele tinha o direito de permanecer com ela e se eles não o achavam atrativo, pelo menos eu, pelo pouco que vi, achava. — Hey, — ele disse sorrindo, Molly pulou em seu colo. — Oi, Chad. Hamm, eu posso deixar a Molly aqui hoje à noite? É que me ligaram do restaurante e eu vou ter que... — Tudo bem, não precisa se explicar, Anna, não há problema nenhum. — disse ele. — Achei que você tinha vindo para a reunião. — Não, não! — eu disse rapidamente, ele riu do meu tom de pânico.


— Então corra, antes que elas te vejam! Eu mandei um beijo para Molly e sai de lá o mais rápido que pude. Eu sentia vertigens só em pensar; Não se pode colocar reunião, Rose, e Avon na mesma frase sem que isso acontecesse. A minha idéia inicial seria ir direto para o Anderson‘s mas algo, um sentimento que não sei definir bem, me fez mudar de direção. Eu fiquei parada na frente da casa de Emily Morgan durante uns cinco minutos. Cinco minutos que me fizeram refletir sobre muitas coisas, cinco minutos que apesar de passarem rápidos foram atordoantes para a minha mente. Emily estava mesmo bem? A pergunta insistia em ser feita em meus pensamentos. Suspirei e comecei a pensar nos prós e contras. Se eu fosse simplesmente embora ficaria com minha cabeça martelando sem parar a noite inteira e amanhã na escola, caso Emily não aparecesse, a situação só iria piorar. E como eu iria descobrir o que realmente acontecera no banheiro? Mas se eu batesse naquela porta, havia uma séria chance de ter a mesma resposta que obtive mais cedo, e mesmo que conseguisse ver Emily, ela com certeza não me receberia como um sorriso no rosto. Não seja covarde. Eu pensei. Toquei a campainha uma vez e disse a mim mesma que se ninguém viesse me atender iria embora. Mas a porta se abriu quase que imediatamente. A mesma mulher de mais cedo me encarava do lado de dentro da casa. Eu tentei sorrir. — Oi. — comecei, respirando fundo e tentando parecer normal. — Hamm, eu voltei para... Ver a Emily, sabe, ela deve estar tão entediada por ficar o dia inteiro em casa sem nenhuma amiga para conversar. Mordi meu lábio esperando. A mulher me encarava ainda calada, seus olhos pareciam captar cada movimento meu, me inspecionando. — Sinto muito, querida. Emily não pode receber visitas hoje. — ela tentou sorrir, tentando parecer simpática. — Quem está aí, Lucy? — uma voz masculina veio de dentro da casa. — Uma amiga de Emily, Sr. Morgan— A mulher a minha frente respondeu. — Eu estava a dizendo que Emily não pode receber visitas hoje, pois... — Ora, não seja boba. — a voz a interrompeu. — Deixe-a entrar. Quem sabe... — uma pausa, eu quase pode ouvir o suspiro. — Isso possa ajudá-la. A mulher a minha frente me encarou, inspecionando-me mais uma vez. E então ela abriu espaço deixando espaço.


— Pode entrar, querida. Na sala, dois sofás cor marfim dividiam espaço com uma imensa estante de mármore branco. Grandes janelas de vidro dividiam as paredes ao meio. E ao norte uma imensa escada de um formato estranho, meio arredondado, levava ao andar de cima. Havia algumas flores naturais espalhadas pelos vasos em pontos estratégicos próximos as janelas. A casa toda parecia ser clara e arejada, cheia de elementos geométricos e aparelhos eletrônicos. Eu parei olhando o homem sentado em uma poltrona próximo as janelas dos fundos. Seus cabelos eram loiros num corte moderno caindo alguns fios por sua testa; e sua pele era clara com um leve bronzeado. Ele vestia uma camisa branca e calça social com sapatos brilhando como novos, pretos. Ele sorria para mim. Eu já o tinha visto antes, ele raramente ia à escola, mas havia um foto dele em uma das paredes da biblioteca. Eu tentei retribuir seu sorriso. Havia alguma coisa errada ali, eu percebi pelo modo como seus olhos pareciam cansados. — Emily está em seu quarto. Fico feliz que tenha vindo, ela não costuma trazer muitas amigas para casa. — ele disse a voz calma e serena. Eu imaginava o Sr. Morgan como um tradicional homem de negócios totalmente robótico. Imaginei errado. — Lucy levea para cima. A mulher me indicou as escadas. Elas eram longas e eu acompanhei com os olhos o formato engraçado do corrimão. Paramos em frente à primeira porta do corredor. Este era estreito e o piso era coberto por um grosso carpete. — Pode entrar. — a mulher, chamada Lucy, me deu as costas, mas antes me lançou um olhar, não me inspecionando como tinha feito antes, e sim, me incentivando a entrar. Eu abri a porta e me deparei com algo que eu nunca imaginei pertencer a Emily. Aquele quarto parecia ser de uma garota de seis anos, todo em rosa bebê e branco. A cama tinha um enorme dossel descendo ao redor das bordas do colchão e era coberta por almofadas fofas. O chão era forrado com um grosso e macio carpete carmim e as duas janelas, que ficavam dos lados opostos da cama tinham as cortinas brancas. As paredes eram uma mistura de rosa e branco; Tudo no quarto era claro e infantil. Nada parecido com o conceito audacioso de Emily Morgan que eu tinha. Eu encarei o cabelo loiro pálido dela. Ela estava sentada em um banco em frente a uma penteadeira que assim como todos os outros moveis também era branca. Ela deslizava sua escova de cabelos por toda a extremidade de seus longos fios meticulosamente, vestia um vestido branco até os joelhos e estava descalça. Ela me viu pelo reflexo e eu esperei qualquer tipo de reação menos a que ela teve. Emily me abriu um sorriso, não seu famoso sorriso medonho e toxico, este era suave e amigável; o que inicialmente me assustou. O rosto dela estava mais branco do que o


normal assim como seus lábios, que antes eram sempre cobertos por gloss e batom, agora tinha um aspecto meio azulado e fraco. — Aí está você. — ela me disse ainda sorrindo e se virando para mim. Eu permaneci calada a encarando chocada. Emily, apesar do aparente bom humor e simpatia, parecia doente; sua aparência era de alguém a beira da morte. — Senti sua falta. — ela me disse me assustando ainda mais, ela me encarava como se fossemos velhas amigas. — Sabe, ninguém veio me visitar. Eu pressionei meus lábios um contra o outro, e desviei meus olhos do seu rosto magro e abatido; um rosto que eu jamais pude imaginar pertencer a ela. — Você está bem? — eu perguntei depois de algum tempo e engolindo em seco. — Ótima, melhor do que nunca estive. — disse ela, e depois riu escandalosamente. Eu observei ela tremer conforme as gargalhadas ecoavam por todo o cômodo, e então ela riu mais, como se tivesse acabado de ouvir o final de uma piada. Ela não estava bem; aliás, bem era um adjetivo que poderia ser esquecido no dicionário se fosse para definir Emily naquele exato momento. E eu mal percebi quando o riso foi ganhando um aspecto meio distorcido e sufocante; E então Emily estaca chorando a plenos pulmões. Sem saber como reagir a isso eu dei um passo à frente. Minhas mãos pareciam tremer meio fechadas em punho, meio estendidas para ela. Eu nunca sabia o que fazer quando via alguém chorar. Ela foi parando aos poucos e então ela sorriu maliciosamente e ficou parada parecendo uma pintura viva me encarando sombriamente. — Ele disse que você viria. — E-ele quem? — gaguejei. — Não se faça de boba. — ela rolou os olhos. — E shhiiii, fale baixo ele pode nos ouvir. Ele está por toda parte agora nos observando, nos ouvindo e sentindo. Ele saberá se aprontarmos. Ele disse para você não ser uma menina má. — Do que está falando, Emily? — eu ofeguei, dando um passo para trás. Ela ainda sorria para mim. Ela soltou um tilintar de riso, e depois parou com os olhos arregalados a boca entreaberta.


— Ele quer você, Anna. Ele não vai parar até ter você e ele está bem perto, muito perto, ao nosso redor, nos vigiando, mas nós não podemos vê-lo... Ele... — ela olhou para si mesma chocada. — Não! Não! Não! — ela gritou esfregando suas mãos em seus braços freneticamente, e depois em seu rosto e pescoço e então parou olhando para suas mãos. — Não! De novo não! Sangue! Tem sangue por toda parte. Socorro! Socorro! Sangue! A porta foi aberta brutalmente e o Sr. Morgan entrou por ela acompanhado por dois homens grandes e fortes trajados de branco. — Emily, querida, o que está acontecendo? — perguntou ele. — Sangue, está aqui, papai. Socorro! Ajude-me! Você não está vendo? Ela puxou a bainha de seu vestido rasgando a parte de frente do mesmo expondo suas roupas intimas enquanto ainda gritava e se esfregava freneticamente, aléia a tudo ao seu redor. Parecia que ela estava coberta dos pés a cabeça por alguma coisa horripilante e pegajosa. Mas só ela via. Os dois homens olharam ao mesmo tempo para o Sr. Morgan. Ele permaneceu olhando chocado para Emily, depois de alguns segundos permanecendo paralisado, ele engoliu em seco e assentiu para eles. Eles atravessaram o cômodo e puxaram Emily para cima. Um deles agarrou os braços dela e prendeu-os atrás de seu corpo magro, numa espécie de camisa de força humana, enquanto o outro tirava uma seringa de dentro de seu jaleco e aplicava no braço de uma Emily histérica e aterrorizada. Aos poucos eu a vi se acalmando e sua cabeça cair pesada em cima do ombro do homem que a segurava; como uma criança que bagunçou o dia inteiro e desmaiou de cansaço quando a noite chegou. O Sr. Morgan se aproximou deles, e postou sua mão da cabeça de Emily, afagando-lhe os cabelos carinhosamente. Eu podia ver sua tristeza por debaixo da mascara composta de seu rosto. Ele estava se controlando para não chorar. — Cuidem bem dela. — quando ele falou sua voz era igualmente composta, mas também igualmente falsa. Ele retirou a mãos de seus cabelos e passou uma última vez pelo rosto dela. — Ela é a única coisa que tenho. Depois que os dois homens saíram do quarto carregando Emily com eles o Sr. Morgan me encarou e sem forças para dizer nada, — ele parecia ter envelhecido uns dez anos em poucos minutos — saiu do quarto me deixando sozinha. Sozinha no quarto de princesa. Sozinha no quarto da rainha da Grand Lake High School. A rainha que se fora. Eu descia as escadas lentamente. Não sabia que expressão carregava no rosto e nem me importava com ela. Eu mal via o que estava ao meu redor. Agora que os gritos de Emily


se foram, aquela casa parecia silenciosa e agonizante; como a sala de espera de um hospital. Lucy abriu a porta para mim. Havia uma luminosidade em suas bochechas rechonchudas, talvez fossem lágrimas. Eu não conseguia ver direito. Porque havia algo nublando tudo ao meu redor; nublando meus pensamentos. Não era uma tristeza comum, era só uma espécie de vazio. Um sentimento parecido quando um amigo antigo de mamãe morreu. Eu não o conhecia. Mas eu vi a tristeza nos olhos dela, e então me senti triste também. Vazia. Emily não morrera, mas eu sabia que não a veria novamente. O seu pai também sabia. E Lucy também. E logo todos saberiam. Eu comecei a imaginar a história que seria bolada e logo passada de boca para boca por toda a escola. O pai de Emily a mandou para um colégio interno na Europa. Ou para algum lugar bem distante. Não importava. Logo isso seria aumentando até que tudo parecesse tão falso que seria esquecido. E Emily seria somente uma garota de Atlanta. Invisível. Como eu. Houve algo na voz do Sr. Morgan quando ele disse ―ela e a única coisa que eu tenho‖. Agora eu podia ver o quê: Um homem tão rico e importante, não podia fazer nada em uma situação dessas. Nada importava, nem suas propriedades e nem suas ações em diversas empresas por todo o país. Ele não era nada. Ele não tinha nada, que pudesse impedir que sua filha fosse parar em um hospital psiquiátrico. Eu não sei por quanto tempo andei. Parecia que em um momento eu estava no quarto de Emily e no outro eu estava ali parada em frente à nova fachada do Anderson‘s. Mas aquilo não se chamava mais Anderson‘s. No alto, em letras grandes e chamativas em vermelho e preto, o nome Burned Fallen reluzia chamando atenção de todas as pessoas que passavam ali em frente convidando-as a entrar. A entrada era extensa em um dourado cintilante. Vidros decoravam a lateral dela, mas estes eram escuros impossibilitando ver seu interior. Tudo tinha um aspecto meio medieval e aristocrático, pouco percebido se observasse somente as cores. Muito negro, vermelho-vivo, e um leve tom de dourado cintilante. Não parecia em nada com o que eu pensara se tornar. Tudo parecia tão elegante e ao mesmo tempo tão jovem e simples. Atravessei as postas do Burned Fallen, e eu não conseguia acreditar que eu realmente iria trabalhar num lugar como aquele. O antigo Anderson‘s era modesto, pequeno e silencioso. Normalmente ás pessoas vinham aqui, — pelo menos no meu turno de meio período —, para tomar café ou comer um lanche. Já agora no atual Burned Fallen, os jovens gritam de empolgação por cima da música razoavelmente alta, e pessoas uniformizadas passam para lá e para cá com bandejas e bebidas nas mãos — funcionários que eu ainda não conhecia.


Ás mesas ficavam todas em uma única área e a maioria já estavam ocupadas, separadas por um espaço confortável, — em que seu vizinho da outra mesa não pode escutar sua conversa —, havia uma espécie de pista reservada para aqueles que queriam dançar mais ao norte, ao lado do bar, com uma extensa bancada e bancos na frente. Todos os ambientes estavam estrategicamente separados, para que de acordo com eles, pessoas não se misturassem com certos tipos de pessoas, parecia haver uma placa entre elas: ―Só se misture se quiser, mas não arranje confusão‖ A iluminação parecia mudar conforme se andava, no lugar onde ás mesas estavam, as luzes pareciam claras e brilhantes, na pista de dança era mais escura e suave, mas no bar, — o lugar onde eu estava parada encarando tudo ao meu redor sem saber exatamente para onde ir —, a luz era vermelha e ofuscante, quase florescente. E estava muito calor. Primeiro eu não detectei o quanto a temperatura havia mudado desde que eu estaquei ali, mas com o tempo meu corpo começou a suar. E eu finalmente liguei os fatos. Aquilo estava Queimando8, literalmente. Encostei-me na bancada e encarei o barman, ele tinha a cabeça raspada, a pele branca, vestia uma camisa preta colada ao corpo, e tinha uma grande tatuagem em seu pescoço, — a gola da camisa cobria a maior parte da figura. — Hamm, oi. — eu chamei. Esperei ele se aproximar, ele tinha quase um sorriso nos lábios, um sorriso estranho que quase deformava o seu rosto. Foi neste momento que percebi que meu subconsciente achava o seu sorriso feio porque o sorriso dele não brilhava como o sol ou um diamante, o sorriso dele era feio porque eu o estava comparando-o com o de Grigor. — O que vai querer, baby? — agora com ele mais próximo eu podia ler no discreto crachá em sua camisa, o nome Gustav. Ele era novo ali, porque mesmo que eu nunca tivesse pegado um turno noturno, eu tinha certeza que o Anderson‘s não tinha um bar, e logo assim, não teria um barman. Ele tinha os olhos um pouco azulados, quase imperceptíveis, não pela luz, e sim porque eles não tinham nenhum atrativo. E então eu percebi que estava fazendo de novo, comparando o pobre barman com o Oliver. Pare com isso! Eu pensei. — Não, não. Na verdade eu trabalho aqui, eu só quero saber onde é a entrada para os funcionários. Seus olhos me inspecionaram. Eu dei uma rápida olhada em mim, eu com certeza não parecia alguém do serviço de inspeção sanitária ou qualquer tipo de coisa que poderia encrencar o restaurante logo na reinauguração. Ele pareceu perceber isso. — Aos fundos, suba escada e estará lá. — ele disse por fim.

8

Em inglês seria Burned.


— Obrigada. Eu fiz o que ele dissera e me deparei com uma porta. Havia algumas garotas que eu não conhecia lá dentro. Todas de aparência gentil e doentiamente atenciosas, do tipo que quando se entra numa loja elas vêm correndo perguntar: ―Posso ajudar?‖. Eram seis no total. Parecia ter certo padrão entre elas, porque todas tinham o cabelo num tom de loiro, tinham a pele bronzeada, um sorriso largo no rosto, e os olhos meio repuxados, fora o fato de elas estarem vestidas iguais. Todas estavam com um vestido preto e discreto, mas que parecia estiloso demais para garçonetes . Tinham o cabelo preso em um coque alto com alguns fios soltos o que as deixava despojadas e juvenis. Lizzie apareceu logo depois que eu entrei. Ela vestia o mesmo que elas. — Você demorou! — ela disse para mim. — Caramba, isso aqui está cheio, não sei se nem com todas essas garotas vamos dar conta. Seu uniforme está no banheiro, se vista e vá atender imediatamente as mesas. — ela se voltou para as garotas. — Vamos, vamos, isso aqui está muito Caido9 e agora ele tem que Queimar10. Eu me vesti no pequeno banheiro, que só tinha uma pia, um espelho e uma pequena janela no alto. Eu tinha certeza de que eu estava fora do ―padrão‖ totalmente. Eu não tenho uma pele bronzeada, nem um cabelo loiro, — meu cabelo era da cor da terra, areia, ou barro, tudo dependia da luz. E, além disso, no quesito simpatia, eu não tinha uma placa de neon piscando ―Faça seu pedido a mim!‖ Desci as escadas e olhei ao redor. As garotas já estavam trabalhando freneticamente escrevendo pedidos em seus bloquinhos. Parecia que o número de pessoas só aumentava conforme o tempo passava. Então eu comecei a me perguntar por que continuava ali parada. Resolvi procurar uma mesa de poucas pessoas, só para me testar, não estava habituada a receber muitos pedidos de uma vez só. Eu andei pelas mesas e parei entre uma mesa de um casal de velhinhos e outra de uma garota e um garoto de uns doze anos, eles pareciam dividir o mesmo lenço de limpar o nariz. EW! — Anna. Eu estava me virando para os velhinhos quando eu ouvi meu nome sendo chamado. Eu girei minha cabeça para todos os lados, tentando encontrar a pessoa que havia o feito. E então eu o encontrei. Perto de duas portas duplas, entre o espaço entre as mesas e o bar. Com uma camiseta preta agarrada ao seu peito musculoso, com sua habitual jaqueta de couro jogada sobre o ombro, vestindo calças jeans igualmente escuras, e tênis de cano longo, também pretos ele poderia se misturar com a escuridão, se quisesse. Mas acho que mesmo que o fizesse Grigor não deixaria de atrair os olhares femininos alucinados de todas as partes.

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No inglês, Fallen e Burned. Trocadilho


Hesitei antes de me aproximar e tentei parecer normal enquanto o fazia. Eu tinha certa dificuldade em vê-lo com desconfiança, porque certo, eu sei que há algo de muito errado nele e que se Oliver for algo de muito ruim e sinistro — o que ele mesmo diz ser —, Grigor está a dois passos dele, se não no mesmo nível, ou mais... — Hey, — eu disse, minha voz aparentando cansaço, apesar de meu coração está acelerado em meu peito. Eu não disse mais nada e permaneci o encarando minuciosamente, procurando qualquer gesto suspeito. A boca dele se curvou em um meio sorriso. — Isso é estranho. Não sabia que trabalhava aqui. — disse-me ele. — É eu trabalho. — eu disse, minha testa se enrugando sem entender o porque dele achar estranho. Eu que tinha que achar aquilo estranho, porque isso iria para a minha lista de lugares onde ele aparece do nada. — Porque estranho? — havia uma irritação que eu não queria demonstrar em minha voz, e então eu pensei mais um pouco, em algo que sim seria muito, muito estranho. — Não me diga que você também vai trabalhar aqui. Minha voz saiu diferente. Não excitada com a idéia. Não desanimada com ela. Muito menos chocada. Ela saiu meio esganiçada e... Algo mais. — Tecnicamente. O que diabos quer dizer tecnicamente? Eu fiz cara de paisagem mostrando que não havia entendido onde ele queria chegar. — Eu meio que comprei isso aqui e só me avisaram hoje. Minha boca se abriu. Agora sim eu estava chocada. — Você... Você comprou o Anderson‘s? — Não eu exatamente. Foi Leonard, meu... Tutor. — ele disse. Porque será que ele sempre responde tudo sobre ele com essa ironia, como se tivesse um duplo sentido em tudo? Que diabos! — Ele acha que eu estou meio desocupado na cidade. — ele revirou os olhos ao som de suas palavras. Eu não sabia o que dizer.


Se Grigor e o tutor dele compraram o restaurante, o antigo Anderson‘s que agora ganhou o nome de Burnerd Fallen, — que carrega consigo esses trocadilhos estranhos —, isso faz de Grigor o patrão, e de mim... A funcionária dele. Minha boca quis se abrir mais uma vez. Ele era o meu chefe. Eu senti meu rosto corar. Como eu o encararia como isso agora? Quando uma pessoa era dono ou dona de alguma coisa, ela normalmente era evasiva — do tipo que não tem contato direto com os funcionários, do tipo que se pode trabalhar lá, mas não se sabe nem o nome do dono — ou velha, como no caso de Sr. Anderson. Mas Grigor não se encaixava nisso. Ele estudava na mesma escola que eu. Eu o conhecia. Eu o tinha beijado. — Eu tenho que voltar ao trabalho. — eu disse rapidamente, me virando. — Espere. — ele estava segurando meu cotovelo para que eu não saísse do lugar. — Tenho uma coisa para te dizer. Eu pensei em um milhão de coisas que ele poderia me dizer. Ele poderia dizer algo sobre o beijo, algo do tipo ―somos só amigos, OK‖, ou me dar minhas tão esperadas respostas sobre o que aconteceu na minha casa naquela noite estranha, ou a frase mais pertinente e bizarra que eu já imaginei saindo da boca do Sr. Anderson ou de todos os donos de lugares que eu ponderei trabalhar algum dia, mas nunca da boca de Grigor: ―Você está demitida‖. — Que coisa? — eu perguntei. Uma pequena parte de mim torceu loucamente que fosse qualquer uma das outras coisas que pensei, menos a do beijo. — Eu vou te cobrar o que me deve. Agora. Franzi minhas sobrancelhas. Ele me observou atentamente esperando algo. Uma nuvem se instalou em minha mente enquanto eu pensava. Eu devia algo a ele? Não era dinheiro, certamente. Eu não era como Luke. Uma luz se acendeu em minha mente.


— Está falando daquilo do beco? — eu perguntei atordoada demais para me lembrar de qualquer outra coisa. Grigor havia me tirado daquela confusão na noite da racha — confusão que Oliver fez ficar ainda mais confusa. — Exatamente. — e o sorriso dele de ofuscar até o sol apareceu, mais por trás da luz havia também certo ar obscuro. — O que quer que eu faça? — eu perguntei. A luz e a obscuridade duelavam em seu sorriso. E eu não sabia se me derretia com ou se me assustava com isso. — Na verdade você já fez. Mas eu quero que faça isso direito. — Eu não entendi. — confessei. — Humm, vamos ver se isso te lembra. — e ele tirou de dentro de seu bolso de trás um conhecido objeto. Meu celular.


DEZ. Ele balançava o aparelho na minha frente, a obscuridade agora ganhava em seu sorriso. Eu pressionei meus lábios um contra o outro, minha respiração saindo às ofegadas. — Eu o encontrei em cima da minha cama. — a voz dele tinha um tom meio despreocupado, mas o seu sorriso deletava tudo. — E isso é um pouco engraçado e injusto porque eu não estava lá com você. Pense em alguma coisa. Dê-lhe alguma explicação. Eu pensei. Mas havia alguma explicação para dar? — Eu... Eu... — balbuciei sem saber o que lhe dizer. Ele deveria estar pensando que eu sou uma delinqüente ou coisa pior. Mas se eu lhe contasse a verdade passaria disso para uma louca perseguidora, não? Então eu me calei e resolvi continuar calada e deixar que ele tirasse suas próprias conclusões. E quando eu percebi que ficar o assistindo tirar suas conclusões sobre mim, — conclusões que chegavam a me dar dor de dente de tanta vergonha — eu me virei de costas para ele e rumei em direção as escadas da entrada dos funcionários. Eu entrei no pequeno cômodo e depois fechei a porta do banheiro. Eu não poderia ficar ali. Eu não queria mais ficar ali. Porque se eu ficasse, eu iria descer as escadas e encarar aquele ser obscuramente encantador, e misteriosamente atraente e lhe dizer a seguinte frase: ― Certo, eu invadi a sua casa esta tarde. E certo, eu devo parecer idiota por isso. Mas não importa, eu vou descobrir o que diabos você é.‖ E isso com certeza não seria uma boa idéia. Porque eu sabia que ele tinha segredos escondidos por aí — segredos que depois que eu vi aquele estranho quadro, eu sabia que me envolviam. Mas eles com certeza não estavam escondidos em baixo do tapete da sala. Havia uma janela no topo. Uma janelinha, para ser mais especifica. Mas eu já havia pulado um muro... Então, porque não ser mais estúpida ainda e sair do Burned Fallen por ela? Do lado de fora, eu me levantei do chão enlameado. A queda tinha sido brusca, e desta vez eu não posso dizer que escapei ilesa sem um único arranhão. Eu tinha que sair dali. Mas definitivamente não queria ir para casa. Lizzie poderia me ligar perguntando por que eu abandonei o trabalho em pleno expediente. Ou mil vezes pior: Grigor poderia ir me procurar lá. Ele poderia simplesmente me demitir. Seria mais fácil para ambos, cortar as relações, todas as relações.


Resta saber se ainda assim eu conseguiria ficar longe de seu caminho. Ou ele do meu. Porque eu estava começando a desconfiar de um possível imã — algo que nos une, algo que sempre me faz trombar com ele. Rumei então para o cemitério. Alguns pingos de chuva atravessaram as copas das arvores e caíram em meu rosto. Esse foi o último aviso que tive de que aquele não era um bom momento para ir visitar a minha mãe. E depois a chuva começou de verdade. E eu me encontrei parada sem saber se continuava ou se voltava para trás. Eu já estava próxima ao meu destino, então resolvi continuar. Além disso, eu já estava encharcada. Meus pés se tornaram escorregadios no solo irregular e eu tive que me segurar nas grades do portão de ferro para não cair. Eu o fechei e continuei a caminhar. Eu estava a poucos metros da lápide da minha mãe quando eu escutei o baque do portão. Eu ofeguei de repente sufocada. Meu tronco se virando em direção ao barulho. A chuva atrapalhava minha visão e grudavam meus cabelos em minha face tornando difícil definir o que era borrão e o que era real. Mas eu o vi. Parecendo uma estátua em cima de uma das lápides, com apenas uma calça pairando em seu quadril, Gustav estava um pouco agachado sorrindo assustadoramente para mim. A cabeça raspada pareceu reluzir o raio que rascou o céu. Ele saltou de cima da lápide caindo ao chão com um mínimo flexionar de joelhos. Seus olhos eram negros como um buraco fundo e cruel, ele deu um passo em minha direção, e eu rapidamente me afastei. Um rápido deja vú me veio à mente; Eu me lembrei imediatamente da imagem de Oliver caminhando como um Deus da destruição em minha direção... Mas com Gustav era completamente diferente. Havia algo de diferente; Quando eu vira Oliver saindo da velha casinha eu já pensara estar morta, e ainda assim continuei ali o esperando, e depois ele sumira; como uma brisa que somente dá calafrios e depois se vai. Mas Gustav continuava ali com seu sorriso ameaçador vindo em minha direção. Eu sabia que ele me via — aquilo não era uma visão. Eu me desloquei mais para trás. O sorriso sumiu de seu rosto e ele olhou para trás como se tivesse ouvido algo. E então ele se voltou para mim, e meus olhos mal foram capazes de acompanhar seus movimentos. Como uma flecha disparada de um arco, o barman correu em minha direção, rompendo a tempestade.


Ele agarrou o meu pescoço, suspendendo-me no ar. Meus olhos reviraram-se em minhas órbitas por tamanha era sua força. Eu tentei chutá-lo com meus pés, mas a força que usei pareceu ser revertida somente para mim; era como se eu tivesse chutado uma parede de concreto. Meus pulmões doeram com a falta de ar, e uma sensação de desespero se arrastou por todo o meu corpo. A minha visão falhou, sucumbindo-se, e de repente eu só sentia o aperto de sua mão estrangulando o meu pescoço. Uma névoa começou a se instaurar em meu cérebro, ela foi ficando escura e me puxando e confundindo; inacreditavelmente rápida; como apagar uma luz; num momento eu estava ali e no outro não. Eu não sentia mais nada; o aperto se fora e eu parecia flutuar ao relento na escuridão. Isso durou apenas alguns segundos; e então era como se eu estivesse caindo... Caindo de um lugar muito alto e pousando bruscamente no chão. Eu ofeguei levando minhas mãos ao meu pescoço; a chuva tinha se transformado em granizo e eles pareciam martelar os meus ossos. Tentei me levantar, e abastecer os meus pulmões, que pareciam secos e rasos, com o máximo de ar que conseguisse exalar. Não foi muito depois disso que a minha visão voltou. Eu arregalei meus olhos, incrédula, para tentar ver melhor a cena que se desenrolava a minha frente. Gustav estava com sua cabeça sendo batida repetitivas vezes contra uma lápide a poucos metros de mim — o lado esquerdo de seu crânio estava ligeiramente amassado para dentro. O corpo dele voou por todo o terreno do cemitério como um vulto, e então ele caiu de pé em cima de outra lápide a uns vinte metros de mim. Eu tentei focalizar meus olhos no outro ser vestido de negro que agora disparada para onde ele estava. Eu o vi arremessar Gustav para mais trinta metros de distância, desta vez ele cambaleou quando pousou. Eu tentei me manter de pé, meus olhos só conseguiam acompanhar os vultos a longa distância que deixavam rastros em meio à chuva de granizo. Eu deveria aproveitar para sair dali. Tudo em mim dizia para cair fora, para não ver aquilo. Mas meus músculos paralisaram e meus pés pareceram criar raízes no chão quando eu percebi que o vulto negro, que agora tinha imobilizado Gustav no chão, era Grigor. Uma luz avermelhada surgiu entre eles. Meus olhos saíram de foco com a repentina claridade. Um relâmpago seguido por um trovão me despertou do meu repentino transe. Quando eu abri meus olhos não havia mais luz, mas eu pude ver a tempo Gustav sumir em pleno ar. Eu tinha certeza que aquilo não poderia ser ilusão de ótica; ele realmente sumira. Minha boca se entreabriu; eu dei um passo para trás. O vulto negro se levantou e se virou para mim. Os cabelos de Grigor estavam jogados para trás e escuros e, mesmo a distância, eu sabia que o seu rosto estava inacreditavelmente composto e sério.


Um único soldado sobrevivente a guerra; um homem a poucos centímetros de um furacão e que mesmo assim não se move, sem um pingo de temor nos olhos; um anjo maligno observando o inferno arder; ele poderia ser qualquer um destes. Mas ainda assim era glorioso. Gloriosamente diabólico. Meus olhos paralisaram no objeto em seu pescoço. Era uma espécie de medalhão; sua corrente fina era de um dourado brilhante e acompanhava ondulada até a minúscula pedra do centro dele. Eu pude ter um último vislumbre da luz avermelhada, antes que ele o enfiasse sob sua jaqueta. Não demorou muito até que ele estivesse a minha frente. Ele não disse absolutamente nada quando sua mão se fechou em meu braço e me puxou contra ele. Eu ofeguei uma última vez, antes de ser jogada para cima de seus ombros, ficando de ponta cabeça. Demorou exatamente dois segundos para que o choque fosse substituído por uma estanha ira. — Coloque-me no chão! — eu exigi. — Desculpe, mas não. — a voz dele soava calma e ligeiramente provocativa aos meus ouvidos. — Você já me deu trabalho demais para uma noite, não estou a fim de ter que correr atrás de você de novo. — Simples: Não corra! Deixe-me ir em paz! — eu disse. — Coloque-me no chão agora! — Não acho que você esteja em condições de exigir nada, Anna. Eu tentei me mexer e usar minhas pernas para me libertar, mas ele rapidamente prendeu minhas mãos com as suas e não houve reação sua de dor com os meus pontapés. — Mas que diabos! O que você quer? — Eu já lhe disse: Quero que faça as coisas direito. — Que coisas? — eu me vi obrigada a perguntar. — Vamos ver, primeiro: você invadiu minha casa, a única coisa que estragou é o fato de a rua inteira ser monitorada por câmeras, mas eu tenho que admitir que adorei ver você pulando o muro da minha casa. Segundo: É um erro terrível esquecer coisas, Anna. Ainda mais no meu quarto. E sem que eu esteja lá. Eu engoli em seco. — Para onde está me levando? — Para minha a minha casa. — Por quê? — perguntei exasperada. — O que diabos eu tenho que fazer direito?


Eu sabia que ele estava sorrindo descaradamente agora. Eu não precisava vê-lo para saber disso; essa era a sua reação as minhas perguntas: Ele sempre sorria como se houvesse uma ironia em tudo. — Eu ainda estou me decidindo. Mas no momento, eu só quero que você volte para o meu quarto. Céus! — Você é um tarado ninfomaníaco e está planejando me atacar? — eu gritei para ele. — Grigor eu estou avisando é melhor me deixar ir embora ou então... — Ou então o quê, Anna? — perguntou ele divertido. — Fique tranqüila, eu não vou te atacar... — eu quase pude escutar o ainda perambulando pelos seus lábios. — Só quero esclarecer algumas coisas com você. Eu engoli em seco novamente enquanto pensava nisso. Ele iria me dar as minhas respostas? Ele finalmente iria encaixar as peças desse grande quebra cabeça sombrio que a minha vida se tornou desde que ele e Oliver chegaram? Eu me calei. Meu cérebro começou a repassar a cena do cemitério e mais perguntas se formularam em minha mente. O que havia acontecido com Gustav? Tinha algo de diferente nele; algo que eu não notei quando o vi atrás daquele balcão no bar no Burned Fallen. Ele não era o mesmo cara que tentou me matar estrangulada no cemitério. Certo, era ele. Mas não exatamente. Havia algo nas feições desse cara que não havia nas feições do barman. Esse cara parecia doentio e inumano; ele era maligno e irracional, robótico... Possuído. Meus olhos se focalizaram na pista. Já tínhamos saído do bosque e eu ouvi o bip que o carro de Grigor deu quando ele destravou o alarme. Eu sabia que aquela era a minha única chance para fugir. Mas eu mudei meu raciocínio de se eu conseguiria escapar dele para se eu queria escapar dele. Eu queria minhas respostas; eu não suportaria ficar mais nestes jogos de vida ou morte sem nenhuma pista do que estou me metendo. Eu precisava saber. Mas então eu pensei: Eu realmente queria saber? Eu queria realmente saber no que estou me metendo? Ou melhor, a parte do meu cérebro, — a parte que não está completamente rendida e obcecada pelas respostas, a parte que enxergar somente os garotos misteriosos e atraentes que eles são... A parte que está – eu engoli em seco em somente pensar na palavra, então eu rapidamente me fiz pensar em outra – envolvida com eles, ela quer realmente saber no que eu estou me metendo? Houve o click da porta e então eu fui jogada para o banco do passageiro, e logo ele estava ao meu lado arrancando com o carro.


Uns cinco minutos depois Grigor estacionou o carro em frente a sua casa. A chuva ainda não tinha parado, ao contrário, ela só parecia ficar mais e mais intensa. Deveria estar fazendo frio; mas eu tampouco o sentia. Uma adrenalina angustiante começou a tomar conta de mim. Eu ao menos pensei nas conseqüências. Estava cansada de suposições, estava cansada dos ―e se” que assombravam todos os meus pensamentos. Eu teria a verdade, e no momento, eu não queria me preocupar com isso. — Vou pegar algo para você vestir— Grigor disse quando paramos no meio da sua sala. Eu coloquei a minhas mãos nos meus bolsos encharcados por puro habito. Ele deslizou sua mão pela parede, e eu ouvi o click click do interruptor, mas continuamos na escuridão. Sem luz, que ótimo! — Então agora é a lei do silêncio? — ele perguntou, seus lábios estavam curvados em um quase sorriso. Eu estava parada com um pé dentro e o outro fora do seu quarto o encarando revirar o seu closet a procura de algo que me sirva. Eu não me importava com minhas roupas molhadas, tampouco queria por outras. Eu só precisava das minhas respostas. Meus olhos pousaram em cima de sua cama. — Você toca? — eu não pude evitar perguntar encarando o violão. — De vez em quando. — ele disse. Eu mordi o meu lábio, movendo os meus olhos entre o violão e ele. Então eu o imaginei tocando-o... E a imagem formulada na minha mente foi tão sexy. Eu ruborizei fortemente com ela. — Eu acho que isso deve lhe servir. Era um moletom de Oxford; Emma ainda sonha em conseguir um, se ela me visse usando isso provavelmente enlouqueceria. — Se quiser pode se vestir no banheiro. — dissera ele. Eu demorei um pouco para sair de meus devaneios, tempo suficiente para ver Grigor tirando sua jaqueta. A camiseta de baixo dele molhada estava agarrada ao corpo, revelando todos os músculos rígidos e definidos do seu peito largo. Eu fechei a porta do banheiro atrás de mim antes que minha mente, que hoje deu para imaginar de mais, me fizesse parecer um pimentão novamente. Eu retirei o meu novo e molhado uniforme. Minhas roupas de baixo estavam milagrosamente secas. Eu enfiei meus braços para dentro das mangas do moletom, e as dobrei três vezes para que minhas mãos pudessem ser vistas. O comprimento ficou em cima dos meus joelhos, e eu repeti para mim cinco vezes que não iria me preocupar em estar usando somente isso na frente dele. Eu abri a porta e encarei Grigor sentado em cima da cama. Ele tinha colocado outra camiseta preta, o que me fez acreditar que ele tivesse um estoque delas; e estava com


uma bermuda jeans da mesma cor; mas o que marcou mais foi o meio sorriso que ele tinha no rosto, um sorriso que só me prometia uma coisa: encrenca. E simples assim, eu decidi que não era o momento de confrontá-lo. Eu já deveria saber disso, eu já deveria ter percebido isso há muito tempo: Eu não tinha coragem para isso. Eu não poderia simplesmente perguntar. Uma vez Emma e eu combinamos de nos reunir para estudar, mas acabamos ficando a tarde inteira ouvindo música. A nossa prova final era para o dia seguinte. Um garoto, acho que seu nome era Samuel, não era Miguel, disse que tinha todas as respostas do exame. Eu estava apreensiva e nervosa, mas ainda assim não tive coragem de pegá-las. Desde então Emma sempre frisa que eu sempre busco resolver meus problemas pelos meios mais difíceis. E era justamente o que eu iria fazer agora. Eu iria desvendar todos os mistérios e saber de todos os segredos que Grigor e Oliver mantinham na escuridão. Mas sozinha, por minha própria conta. —Eu tenho que ir embora, não posso ficar aqui — eu disse, e pigarreie para que minha voz soasse forte e decidida. — Me leve para minha casa. — Não podemos sair nessa tempestade, é perigoso. — o sorriso curvo dele reacendeu a ira que eu vinha guardando; — Como se ficar aqui sozinha com você não fosse. Ele riu baixinho; uma risada que só confirmou minhas suspeitas: Eu não estava segura sozinha com Grigor! — Não se engane, você não apenas quer como deve passar a noite aqui comigo. Eu não mordo. Minhas mãos começaram a suar quando ele disse passar a noite... Então minha mente finalmente encarou a realidade: Eu estava presa ali. Com ele. Flashes de Gustav povoaram minha mente; Ele sumira em pleno ar... E aquela luz avermelhada.


— Gustav ele... — minha voz falhou e eu engoli o caroço que surgiu em minha garganta. — O que foi aquilo? Ele virou seu rosto para o lado, eu não podia ver sua expressão, mas pela sua postura rígida e pelos seus punhos cerrados eu soube que aquele não era um bom momento para perguntar isso. Mas então eu pensei: Dane-se! Eu precisava saber. Pelo menos isso. — Como você fez aquilo? — eu pressionei. Ele se virou e eu me assustei com a sua expressão, ou melhor, com a sua não-expressão; O rosto de Grigor era limpo de qualquer uma; ele era frio, calculista... E lindo. Eu me encolhi. Ele era um bad-boy. O tipo de cara que minha mãe desaprovaria para mim; o tipo de cara que ela definiria como ―errado‖. — Não posso te dizer isso... Não agora. — disse ele por fim, se levantando. Ele pegou a minha mão e me puxou para ele, me fazendo sentar ao seu lado. Eu tentei não me distrair com isso, e me focar no assunto. — O que há de errado com o agora? Qual a diferença de me contar isso ou não? — Não posso despejar isso em cima de você de uma só vez. — Por que continua com isso em vez de simplesmente me dizer a verdade? — Não posso te contar tudo de uma vez, porque você não suportaria, Anna. — sua boca se curvou em quase um sorriso genuíno. — E, além disso, eu gosto de jogos. — Seus jogos estão me cansando. — Cansando? Eu ainda nem comecei a jogar! — ele riu sem humor. Oh Deus! Ele se inclinou para mim, me mantendo presa sob seu olhar magnético. Seus lábios roçaram em minha mandíbula. Eu me obriguei a me afastar. — Por que faz isso? — Isso o quê? — Me confunde e depois... — Já passou pela sua cabeça que você é simplesmente irresistível? Eu revirei meus olhos, mas não pude me impedir de corar. Ele colocou seus dedos em minha bochecha quente. — Eu gosto do seu sarcasmo, eu gosto do jeito como você tenta esconder o que sente, mas acaba entregando tudo quando pressiona seus lábios exatamente como está fazendo agora. — ele disse, seu hálito doce veio forte em meu rosto me desnorteando ainda


mais. Eu me obriguei a separar meus lábios. —E eu gosto até do seu cabelo estranho cor de avelã. — Cor de quê? Ele não respondeu. Somente beijou a curva do meu pescoço. Ele começou a brincar com uma mecha do meu cabelo, e passou um braço pela minha cintura me trazendo ainda mais para perto. Involuntariamente minha cabeça pousou em seu ombro. Era impossível resistir a isso. Era impossível resistir a ele — Durma. E não era como se eu tivesse ou quisesse ter escolha, eu simplesmente o obedeci.


ONZE. Eu fitei meus pés descalços no chão. Eu tinha uma vaga consciência do que acontecia ao meu redor. A casa estava quente, apesar de lá fora o dia ser nublado e gélido. Emma assistia alguma série na TV. Rose fazia mil tranças no cabelo de Molly — o que era quase impossível, já que o cabelo dela era liso e escorregadio, de modo que quando Rose acabava de fazer uma trança, duas feitas já tinham se desmanchado. Meus pensamentos estavam voltados para ás lembranças de ontem à noite. Mais precisamente em todas as partes dela em que Grigor aparecia. Primeiro no Burned Fallen, quando eu descobrira faticamente que agora era sua funcionária; depois no bosque quando ele me encontrou com Gustav — agora olhando por um lado eu vejo que aquilo seria sorte no ponto de vista de algumas pessoas. Afinal ele me salvara de Gustav. Ele salvara minha vida... Mas há algo nessa história que não se encaixa, como por exemplo, como Gustav sumiu em pleno ar... Certo, estava chovendo e a minha visão ainda um pouco nublada, mas ele não poderia sumir tão rápido. E então eu pulei a cena da casa dele, porque eu realmente não queria me lembrar dela agora. Grigor Lybieri é cheio de facetas, mas duas delas se sobressaem: a parte assustadora e principalmente a galanteadora. O estranho é que ele usa as duas ao mesmo tempo me deixando indecisa se devo correr ou ficar rendida a ele. De manhã, quando eu acordei nos lençóis macios de seu quarto, eu me dei conta de que eu tinha avançado um passo para desvendar seus mistérios, mas soube também que quanto mais eu o desvendava, mais eu me envolvia. Mais eu estava em perigo... Em diversos tipos de perigos... Parece irracional que o menor, e talvez o mais bobo deles seja o que mais me incomode. Na minha vida planejada eu não tinha feito planos para isso. Eu sempre tive em mente de que terminaria o ensino médio, entraria numa faculdade bem longe de Atlanta e levaria Molly comigo. Garotos não faziam parte do plano... Então eu simplesmente me levantei, peguei meu vestido ainda úmido no banheiro e, como diria Luke, dei no pé. Eu estava ficando especialista em fugas e invasões de propriedade. Eu nunca achei que fosse precisar fazer isso na minha vida, mas também nunca pensei que coisas estranhas fizessem parte da minha vida. Caminhei por quilômetros até a casa de Emma. Eu poderia cortar caminho pelo bosque, mas algo se movendo na vegetação me repeliu. Gustav; foi à última coisa que eu pensei antes de correr desesperadamente por todo o percurso do resto do caminho. Poderia ter sido só um animal, ou até mesmo alguma pessoa andando por ali. Mas, bem, apesar das atitudes idiotas e impulsivas que venho tomando nas últimas semanas, eu não fico procurando por situações de alta adrenalina — humm, talvez de vez em quando, mas eu não estava a procura disso exatamente, eu só queria respostas... Respostas que estão me custando cada vez mais caro.


Agora eu estou parada aqui vendo os segundos passarem demoradamente. Por conta da tempestade de ontem, todas as aulas foram canceladas. Mas eu ainda tinha que ir trabalhar... Se é que eu ainda tinha um emprego! — Não é, Anna? — alguém disse, e como normalmente faço quando estou no meu piloto automático, digo: — Claro. — Legal! Está vendo mãe? Anna é a pessoa mais responsável que conhecemos e até ela concorda que não há problema em viajarmos sozinhas e que nós duas devemos ir a Savannah para curtir neste fim de semana. — O quê? — eu e Chad, que acabara de chegar à sala, dissemos ao mesmo tempo. — Savannah! A quanto tempo não vamos a praia? — perguntou, mas ela mesma respondeu. — Há um milênio! O pai de Luke alugou uma casa lá, que eles nunca usaram. Podemos ir sexta à noite e no domingo pela manhã já estaremos aqui. Seremos responsáveis, só queremos sair um pouco dessa cidade, por favor, papai! Por favor, papai; Ela disse isso quando viu o Miata em uma concessionária. Naquela época, Chad estava em um emprego de corretor — profissão que ele detesta — e eles tinham uma situação financeira estável. — Vou pensar nisso, querida. — disse-lhe rapidamente, antes de voltar para a sua máquina de escrever situada no pequeno jardim de Rose no quintal da casa. — Ótimo, isso é um adjetivo para não. Mas não vamos desistir, não é, Anna? — Claro. — droga! Alguém bata na minha cara até eu despertar de vez? — Você está bem, querida? Parece preocupada. — Rose disse. Ela ainda não desistira de entrançar o cabelo de Molly. — Estou. — eu me obriguei a dizer, e esquecer a palavra claro do meu vocabulário. Ela não disse nada mais a respeito. O cômodo ficou silencioso, a não ser por a voz do galã perigoso da série que Emma assistia. — E a sua peça, Molly? — perguntei para me retirar de dentro de minhas lembranças. — Como está indo? — Bem, já decorei todas as minhas falas. — Vocês estão fazendo uma peça? — Emma, que mudava de canal entediadamente, perguntou.


— Sim. Romeu e Julieta. — Oh, Shakespeare, tão romântico. — entoou Rose. — Molly vai ser a Julieta. — comentei. — Oah! Pelo visto temos alguém talentoso nesta família! Lembra da terceira série quando Luke quis ser Julieta, e Emily roubou o papel dele? Todas as três riram; mas ao ouvir o nome de Emily, eu só consegui engolir em seco. — Quando vai ser a apresentação? — perguntou Rose. — Domingo à tarde. — Olhe só, tudo perfeito. Podemos chegar de Savannah, descansar e ir ver a peça. Rose revirou os olhos; ela não gostava de ser uma mãe chata e imbatível, por isso ela deixava as repreensões para Chad, que tinha tão pouca vontade de ser isso quanto ela. E isso resultava que Emma sempre conseguia o queria. Não tudo. Quase tudo. Eles fazem um acordo em que as duas partes ficam satisfeitas, eu fazia isso com a minha mãe antigamente, claro que ela saia ganhando, afinal a profissão dela exigia que ela sempre saísse em vantagem. — Acho que devemos ir, eu tenho que ir trabalhar e Nancy está te esperando Molly. Quando chegamos em casa, eu adiantei a matéria que havia perdido, lavei e coloquei na secadora o meu uniforme, e liguei para Lizzie para saber se ainda tinha um emprego. — Você tem sorte. Ninguém percebeu que você não estava. Com a chuva o movimento diminuiu e fechamos mais cedo do que o previsto. — ela me dissera. Eu não sabia se aquilo era uma boa notícia. Eu sabia que não poderia mais trabalhar lá — não quando o dono era Gregory Lybieri. Não deveria ser tão difícil arranjar outro emprego, em breve eu teria 16 anos, e ainda teria a experiência adquirida no Anderson‘s. Bastava agüentar essas últimas semanas em que eu ainda teria 15 anos e 11 meses para começar a procurar um. Vesti o meu uniforme já completamente seco e confortáveis sapatilhas de balé. Prendi o meu cabelo em um coque, e testei o meu sorriso no espelho. Parecia superficial e forçado, para mim, mas deveria ser o bastante para combinar com as outras garçonetes. Duas horas depois eu estava mais ocupada do que já estivera em toda a minha vida. Só havia duas garotas que conheci noite passada, e é claro Lizzie, que mais cutucava suas unhas pintadas de rosa choque do que me ajudava. Eu estava entregando um pedido na cozinha, quando alguém tocou o meu ombro. Me virei assustada dando de cara com uma das garotas loiras, eu não sabia definir qual das duas eram, não que eu não fosse boa em guardar rostos, mas os nomes delas também


não ajudavam. Talvez essa fosse Brenna, e a outra que estava vindo logo atrás dela fosse a Drenna. — Tem um cara na mesa número dez... — disse-me a primeira. — Ele quer que você vá atendê-lo. — completou a segunda. — Ele é o que seu?— indagou à primeira. — Tipo, seu namorado? — a segunda novamente completou. — Não... Eu não tenho um namorado. — minhas sobrancelhas se uniram confusas, primeiro por elas duas parecerem alguma espécie de desenho animado, alguma animação com duas cabeças, e segundo, por que fui pega de surpresa. Desde quando alguém tinha preferência por mim? A curiosidade me levou até a área das mesas — houve uma pequena reforma ali, agora as áreas não eram mais separadas por espaços, elas eram divididas por espécies de paredes molengas que pareciam cortinas olhando de longe, e somente o ―restaurante‖ estava sendo usado. Parei olhando a mesa número dez, e quase dei meia volta quando vi quem era. Um velho ditado me veio a cabeça: ―quanto mais eu rezo, mais assombração me aparece‖. Percebi o olhar bisbilhoteiro de Brenna e Drenna atrás de mim. Se eu não fosse até lá, elas provavelmente contariam tudo a Chuck, que provavelmente me demitiria. Mas era exatamente isso que eu queria, dar o fora dali. Mas eu não estava gostando da idéia de Oliver ser a causa disso. Não. Eu pensei. Se eu fosse sair daquele emprego seria com as minhas próprias pernas. Foi por isso que eu parei em frente a mesa número dez, coloquei o sorriso falso que eu havia treinado em frente ao espelho, e perguntei o mais educada que eu consegui: — Posso anotar o seu pedido, senhor? Ele riu baixinho, antes de levantar sua cabeça para me olhar, eu me mantive ereta e desviei minha visão de seus olhos. — Senhor? — zombou ele, com uma sobrancelha arqueada. Eu me mantive ereta e não respondi, apenas dei um leve aceno entediado. — Não acho que o que eu quero esteja no cardápio. — continuou ele com a zombaria. Não perca o controle, Anna. Eu quis xingá-lo, mas me controlei. — Lamento, mas então não posso ajudá-lo. — disse estridentes.


— Tem certeza? — ele cruzou os braços em cima da mesa, seu sorriso idiota estava emoldurando seus lábios. — Absoluta. — respondi. — Se me der licença eu ainda tenho mais clientes para atender. Ele me encarou fixamente, os olhos meio que me inspecionaram de cima a baixo. Não havia mais sorriso nenhum em seu rosto, ao contrário, ele se tornara frio, quase ameaçador. — Eu preciso de uma coisa que você tem. Eu tentei sorrir novamente, meu melhor sorriso ―vai se danar‖. — E eu preciso que você me deixe em paz. — Eu não vou embora até conseguir o que eu quero. — Espero que esteja confortável sentado, você vai esperar uma eternidade. — Eu disse antes de lhe dar as costas. Esperei uns quinze minutos antes de voltar e ele já não estava lá. Por mais que eu tentasse não pensar nele eu não pude evitar me perguntar o que ele queria. Quando meu expediente acabou, eu troquei de roupa e desfiz o coque no meu cabelo, o volume tinha cedido um pouco na raiz, mas as pontas estavam onduladas e volumosas como nunca antes. Meu rebelde e abominável cabelo de sempre. Eu não acredito. Foi o que pensei quando vi a moto de Oliver estacionada do outro lado da rua. Ele estava perto, eu sentia, era como uma premonição, me alertando de que eu não estava segura, de que eu deveria correr. Olhei para todos os lados, a rua estava bastante movimentada, a maioria das pessoas apressadas querendo chegar logo em casa, eu me meti entre elas, e puxei o meu capuz pra cima, prestando atenção em tudo ao meu redor. Quando o fluxo de pessoas diminuiu, eu parei e olhei para trás. Não havia sinal nenhum dele. Mas a sensação estranha ainda me rondava. Minutos depois eu chequei novamente só para ter certeza de que aquilo era coisa da minha cabeça. Um pouco aliviada continuei meu caminho na calçada, o fluxo de pessoas tinha diminuído consideravelmente, mas as que ainda continuavam ao meu redor pareciam ziguezaguear em meu caminho impossibilitando que eu andasse mais depressa. Ajeitei o capuz para fora da cabeça, e foi justamente nesse momento de distração que trombei com algo duro, fino e alto a minha frente. Um poste, eu pensei. Mas um poste de óculos escuros, blazer e um sorriso reto no rosto.


— Des... Culpa. — eu murmurei, assustada. Ele era o homem mais alto que já vira em minha vida, só havia visto pessoas assim na TV naqueles programas de ―tal coisa maior do mundo‖. — Anna? — chamou-me. Olhei para cima, e ele olhou para baixo. Seria cômico se eu não estivesse à beira de um ataque de pânico. Eu sabia que não se deveria dizer seu nome a pessoas estranhas, isso é sempre o que digo a Molly, mas bem... Tinha um cara do tamanho de um poste parado na minha frente que queria saber se meu nome é Anna, o que eu posso fazer? Acenei. Meus olhos deveriam estar do tamanho de duas azeitonas de tão arregalados. — Venha comigo. Trinta segundos depois eu ainda o encarava, não com medo, mas sim curiosa. Aquele sujeito parecia ter saído de algum livro infantil, um gigante de uma terra distante, ele não parecia real. Se bem que havia nele um tom assustador, comicamente assustador... Eu abanei minha cabeça, em um gesto de zombaria, mas zombando mais de mim mesma do que dele. Sair por aí seguindo o gigante? Não, eu ainda não cheguei a esse nível de loucura. Afastei-me dele, mas ele continuou em meu encalço. — Você não é Anna Mathers? — ele perguntou novamente. Eu diminui um pouco o passo, isso deveria me dar nos nervos, mas agora eu só conseguia achar graça naquilo. Aquele cara sabia meu nome inteiro, isso é mil vezes estranho, assim como Oliver parece ter lido algum livro sobre mim, eu precisava checar o meu nome no Google e ver se a Wikipédia tinha fotos e minha biografia completa, porque isso estava começando a me assustar... E a me fazer rir ao mesmo tempo. Sim, agora eu cheguei ao nível de loucura. — Sim, meu nome é esse ai. — eu disse, não dando a mínima para o que qualquer pessoa normal diria: Não é da sua conta! — Tem que vir comigo então. Eu abri minha boca e depois pressionei meus lábios. — De que mundo você veio, cara? — perguntei debochada. Ele não respondeu primeiramente, e então disse, mas não em tom de brincadeira, o que me fez achar ainda mais surreal. — Do paraíso, Outrora precisamente, Travessa Nº11, atrás do Sonar.


Pelo visto não sou só eu que estava nessa situação meu colega gigante estava no mesmo caminho que eu: em direção ao hospício. —Outrora? Sonar? — indaguei rindo. — Paraíso? Legal, fui passar as férias lá no natal. — zombei. — Mesmo? — disse curioso. Ok, agora chega. — Cara, — eu disse, parando e me virando para ele. — Eu estou atolada de problemas, tenho que chegar em casa para cuidar da minha irmã mais nova, preparar a mesma droga do jantar congelado que comemos a anos, amanhã ir para o inferno que chamam de escola, aturar certos infortúnios e coisas... — pensei por meio segundo. — Bizarras que acontecem em minha vida, estou tentando ser demitida, meus malditos 15 e onze meses não me dão liberdade para nada nem mesmo para ter um carro ou arranjar outro emprego, e... E acho que tem alguém querendo me matar, alias estão tentando me matar se não fisicamente, psicologicamente. — respirei fundo. — Você não acha que já tenho problemas demais e que tem garotas muito mais interessantes para você levar para sabese lá Deus? Depois de dizer tudo aquilo a um completo estranho louco, eu me senti aliviada, como se pudesse tirar a metade dos pesos em cima dos meus ombros por um minuto. Pronta para dar o fora da li, ouvi o estranho comentar: — Sua vida é bem depressiva. Eu bufei. — Obrigada. — murmurei, sarcástica. — Mas estou falando sério, se você for mesmo Anna Mathers tem que vir comigo. — disse-me quase suplicante. — Para onde? — droga, alguém me faça ir embora, chamar por ajuda, ligar para algum um hospício, mas se bem que eles ficariam na duvida de quem deveriam levar: eu ou o estranho. — Bleach11, a duas quadras daqui. — Bleach? Que lugar é esse? Uma loja de produtos de limpeza? — Uma oficina de carros. Arqueei uma sobrancelha. — O que eu posso fazer em uma oficina de carros? Sério, preciso de um emprego mas não entendo nada de motores. 11

Bleach ao pé da letra é alvejante em inglês.


— Não é isso, — ele podia estar revirando os olhos, mas a minha visão não alcançava tão alto. — Tenho que entregar você. — Fracamente, eu não lhe entendo. — Foi o que me mandaram fazer, levar Anna Mathers até o Bleach. Eu tentei rir. — E se eu não estiver a fim de ir? — Desculpe-me, mas vou ter que te levar mesmo assim. Em um movimento rápido ele tirou seus óculos me sugando para uma imensidão azul que foi a última coisa que vi antes de apagar.


DOZE. Meus olhos estavam pesados, assim como meus membros pareciam estar fora do meu corpo – algum lugar bem distante para que eu ao menos os sentisse. Era uma sensação parecida com a de ficar embaixo d‘água sem fazer nenhum movimento: eu não tinha controle sobre mim, a minha vontade era de ficar parada e deixar que as ondas do mar me levassem para longe. Mas depois de um tempo a sensação foi completamente diferente. Era como se meu cérebro finalmente desse por falta de oxigênio e desesperado, exigisse que eu me movesse e que eu tentasse voltar à superfície. E foi assim que eu abri meus olhos. A iluminação era forte o que fez minha visão fraquejar durante alguns minutos. Eu me encolhi, estava deitada sobre algo que cheirava a couro e álcool e era extremamente desconfortável. De olhos abertos, observei a lâmpada que zunia a cima de mim. A poucos metros um carro reluzia em vermelho, coberto pela metade por uma lona cor de lama. Empilhados no chão, chaves de fenda e outras bugigangas estavam espalhadas por todos os cantos, algumas penduradas no teto como algum tipo de enfeite. Mais carros cobertos por lonas, alguns esqueletos do que, eu suponho, já deveria ter sido um estavam em fase de decomposição em uma área mais afastada. E então meus olhos pararam nas duas figuras paradas a poucos metros de distancia. Meu olhos pararam em outro cara. E então tudo estava vermelho. Mas, é claro! — Seu idiota maluco, é claro que é você! — eu andei até ele, tremendo de raiva — Você vai ver só o que vai te acontecer, eu vou chamar a polícia e não vou sossegar até te ver atrás das grades mofando na cadeia, seu sequestradorzinho de meia-tigela. Quem você pensa que é? — apertei minhas mãos ao redor de seus ombros e comecei a sacudilo. Então ele começou a rir. Eu queria matá-lo. Eu odiava Oliver Coleman naquele momento como eu nunca odiei a ninguém. Ele segurou minhas mãos entre as suas, ignorando minha resistência. Travamos uma batalha, ele rindo estupidamente, e eu querendo socá-lo, derrubá-lo, e depois chutá-lo. Tudo ao mesmo tempo. Ele já tinha capturado uma de minhas mãos, mas eu ainda não tinha desisti-lo de estilhaçá-lo ali mesmo, e então puxei seu cabelo dourado e um pouco úmido com força para que ele me soltasse, mas isso não deu muito efeito, ao contrário, isso facilitou para que ele capturasse a minha outra mão, e logo as suas estavam ao redor de meus pulsos, como algemas inflexíveis.


Isso me deixou mais irada ainda, porque ele era o delinqüente que merecia usar algemas, e não eu. Comecei a tentar chutá-lo, mas pelo menor dos segundos ele me libertou de suas mãos e me virou de costas para ele, logo capturando minhas mãos novamente, só que desta vez elas estavam atrás de mim, e ele as segurava só com uma mão, porque a outra estava segurando a minha cintura impedido que eu pegasse impulso para agredi-lo. O desgraçado ainda ria; seu hálito mandando vibrações por todo o meu rosto. E não era só ele que estava se divertindo com a minha raiva insana. Um cara moreno, que acabara de se esparramar no sofá onde estive deitada, também não parava de rir. Ele era familiar. — Garota raivosa essa que você foi arranjar, Oliver. — disse ele. Blake. O cara estranho que eu encontrei no dia da racha. — Gosto das bravinhas. — o desgraçado-futuro-morto, disse atrás de mim, sua boca perigosamente perto do meu ouvido. Eu me impulsionei para trás, o que não pode machucá-lo de maneira alguma. Mas minhas mãos acabaram, ham, bem perto de sua cintura... Emma uma vez tinha me dito que se eu quisesse machucar um cara aquela região seria... — Dá pra parar de tentar me agredir com a sua cabeça? – ele interrompeu meus pensamentos, quando sussurrou ao pé do meu ouvido. — Dá pra parar de ser um idiota e me soltar? — repliquei. — Se você prometer que vai parar de ser uma criança e escutar o que eu tenho para falar. — Se você prometer que eu posso te matar depois. Ele riu sem humor. — Eu prometo que vou deixar você tentar. — Eu prometo que vou não vou falhar quando isso acontecer. Ele estava tão perto que eu podia sentir seu sorriso se moldando a cada segundo. — Feito. — ele me soltou. Eu esfreguei meus pulsos e fui o mais distante dele que pude.


— Escute, Anna, — ele deu um passo em minha direção, eu me afastei dois novamente, ele levantou uma mão em sinal de paz — Eu realmente não queria ter que fazer isso, mas você não me deixou opções. Mordi minha língua para que nenhum xingamento que se passava por minha mente escapasse. — Eu preciso que você me dê o diário. — continuou ele, os olhos dele agora estavam sinceros sem nenhum pingo de ironia ou deboche. — Que diário? — eu estava verdadeiramente confusa. Blake suspirou pesadamente, como se estivesse cansado de minhas perguntas. Dane-se, eu pensei mal-educada. — Elisabeth di Veroni. Esse nome te lembra alguma coisa? — Oliver perguntou suavemente. Eu pisquei. Um minuto e depois outros passaram, enquanto eu pensava com clareza. E depois de racionalizar mais com a razão e não com a ira, eu disse: — E se lembrasse... O que eu ganharia com isso? Blake riu no sofá. — Ela é mais parecida com você do que eu imaginava. Oliver não o deu atenção, enquanto me observava. — O que você quer? — Respostas. Ele arqueou uma sobrancelha, e eu continuei: — Quero que me conte de onde veio, o que diabos você é, e o que eu tenho a ver com isso. Eu quero que me diga tudo! Mais minutos se passaram. Eu não sabia o que ele iria me dizer. Depois de um tempo comecei a achar que ele era egoísta de mais para me dar isso; eu não achava que ele se livraria da camada de segredos que o envolve em troca de um simples diário. E então, me pegando de surpresa, ele disse: — Me dê o diário e eu te digo. É essa a minha proposta. Tentei deixar meu rosto lívido de qualquer emoção e fixei meus olhos no rosto de Oliver. De todas as vezes que eu conversara com ele, esta foi à primeira em que ele


parece ter esquecido seu ar irônico. Só é que ai que estava o problema: Ele estava falando sério. Oliver queria aquele diário. E em troca ele me contaria a verdade. Inacreditável, ao ponto de eu achar que algo não se encaixava. Porque afinal de contas: o que um cara como Oliver Coleman iria querer com um diário em branco? Eu ponderei por alguns segundos. A proposta era justa, e superficialmente limpa. Mas eu deveria mesmo confiar na palavra dele? E se eu o entregasse a ele e ele simplesmente se negasse a me dizer ou então sumisse? Um cara normal faria a primeira opção, já Oliver, com certeza, a segunda. E, além disso, eu não tinha mais o diário. E, bem, eu não era idiota. Desde que eu o conheci, Oliver sempre foi um cara misterioso envolto em uma nevoa de segredos — que ele parece mostrar que os tem apenas para me enlouquecer — e tudo que acontece ao seu redor parece não atingi-lo. Ele parece não se importar com nada, e isso pode ser o seu ponto forte. Como infringir algo a alguém sendo que essa pessoa não tem o porquê de obedecê-lo? Como castigar alguém sendo que não há nada que o atinja — nada que ele se apegue? E desta vez, Oliver, pela primeira vez, demonstrou que há algo que ele quer — algo que para conseguir ele está disposto a sair do escuro e me revelar o seu tão obscuro mistério. Então, talvez esse seja o acordo mais justo que ele já propôs. E a única coisa que ele queira — o único castigo que alguém poderia aplicar a ele, e que, com certeza, ele não queria que ninguém soubesse. Só que, maldição, eu sabia! — Tentador, eu diria, — fingi ponderar mais um pouco, coçando meu queixo — Mas, sinto muito, Oliver, — pressionei meus lábios um contra o outro. — Eu não posso dá-lo a você. Doce vingança. Neste momento eu senti como se todas as pessoas que ele já tenha lançado seu sorriso irritante me aplaudissem de pé. Claro, que isso era somente uma farsa. Porque é claro que eu não poderia dar o diário ao Oliver porque eu não tinha diário. Ele sumira do meu quarto misteriosamente e desde então eu nunca mais o encontrei. Só que, maldição, ele não sabia! Ele semicerrou os olhos, como se estivesse duvidando da minha resposta. — Achei que o que você mais queria era saber a verdade. — apontou.


— Talvez fosse... Mas eu mudei de idéia. — Cruzei meus braços, torcendo para que ele não tenha percebido a minha voz falhar no fim da frase, a prova de que eu estava blefando. Ele jogou a cabeça para trás como se para invocar paciência, ou então para simplesmente não me matar. Ele estava irado. E eu insanamente, naquele momento, gostava disso. — Você está fazendo isso de propósito, — ele disse depois de alguns segundos — Eu sei que você está se roendo de vontade de saber, só não quer dar o braço a torcer. — Você faz muitas suposições, e me subestima demais, é esse o seu problema. — Tem certeza que esse é o meu principal problema? — ele voltou a me encarar, uma sombra de seu sorriso irritante já começava a nascer em seu rosto. Eu ergui meu queixo. — Sim? — soou com uma pergunta. — Está errada. — E qual o seu principal problema? — Você. Eu não pude evitar estremecer, mas disse: — Estamos quites então. Eu deveria dar as costas e ir embora agora — era o que acontecia nos livros, e nos filmes. Mas minha vida não era assim. Eu não era a moçinha destemida que se arriscara a história inteira fugindo dos perigos e no fim ia de encontro ao lindo herói. Eu só tinha essa droga de vida. E para piorar, agora eu tinha Oliver nela... E Grigor. — Isso não vai ficar assim. — É uma ameaça? Era para eu ficar com medo? — eu sorri superficialmente de novo ao dizer: — Porque eu não estou. — Ainda. Ele também sorriu, e eu sabia que o sorriso dele tinha o dobro de ameaça e ironia do meu. Eu sacudi minha a cabeça. Aquilo tinha que acabar. Agora.


— Eu vou embora... — e então eu parei para analisá-lo. — Ou além de mandar seu capanga me seqüestrar, vai me fazer de prisioneira? Ele riu sem humor. — Eu não tenho um capanga, Anna. Apenas cobrei um favor a Georg. — deu de ombros. — Vá. Algo me dizia que o vá dele consistia em muito mais do que ele poderia dizer. Parecia como se ele estivesse me desafiando a ir, era como se... Ele estivesse me ameaçando. Mas ainda assim, eu me virei, e resisti à vontade de mandá-lo para o inferno. Eu dei alguns passos por entre um esqueleto de um carro e o que já deveria ter sido um o interior dele. A atmosfera era quente, mas um calafrio percorreu minha espinha, fazendo meus ossos tremerem. Correntes foram entalhadas e grudadas na parede como algum tipo de decoração. Pôsteres de bandas de Metal manchavam de preto e cinza o que já deveria ter sido um mural. Uma caveira parecia estar me observando ironicamente num deles, eu devolvi um olhar irritado, e me obriguei a dar mais alguns passos. Eu sentia como se devesse ser cautelosa, como se aquilo fosse algum tipo de prova — talvez a palavra mais adequada fosse provação — que eu deveria passar. Eu tossi com o cheiro de fumaça e gasolina. Um estranho sentimento parecia sufocar meu peito, enquanto eu me perguntava por que diabos não saia logo dali. Saída. Tem que haver uma saída. Eu entoei para mim mesma. Sete segundos se passaram, e então eu dei outro passo. O ar parecia estar ainda mais quente. As luzes zuniam e piscavam para mim. Eu pisquei de repente ofegante. E olhei novamente para a caveira. Ela riu de mim. Eu me senti insana. Meu tronco se curvou ligeiramente para frente, mas eu me obriguei a ir dar mais um passo. A caveira parecia se deleitar agora. Mais um passo, outro e outro... E simples assim, eu me encontrei do lado de fora. Latas de cerveja, e sacolas corriam livres pelos meus calcanhares como fantasmas. A noite estava fria, essa foi a primeira coisa que notei, mas eu jurara que estava no inferno há segundos atrás, então o frio me agradou. Olhei para trás. E se minha pulsação não estivesse ao máximo de acelerada e se eu não fosse ainda jovem, eu teria um ataque cardíaco. Porque ali não havia nada. Nenhuma porta, ou parede. Nada. Nada ao meu redor. Somente aquela rua deserta e que parecia sem fim. Eu não sabia onde estava. Eu não sabia que caminho deveria pegar.


Mas então algo gritou para mim: ―Corra!‖ e foi o que fiz. Eu corri por tempo indeterminável, e quando minhas pernas insistiam em parar, eu corria mais, sempre olhando para todos os lados, me sentindo perseguida, mesmo não ouvindo nada além da minha respiração ofegante de meus passos rápidos. Eu olhei para trás e antes que pudesse evitar, quando olhei para frente trombei com algo duro como um poste a minha frente. Eu abri a boca para gritar, mas antes que pudesse, um par de olhos azuis me paralisou, me sugando para dentro do mar hipnotizante, sinistro e sombrio. Eu abri meus olhos lentamente, o ar era aconchegante, mas minhas roupas estavam molhadas com o suor. Primeiramente eu não detectei que havia alguma coisa errada naquela cena; parecia como se estivesse observando um quadro monótono pendurado em uma parede, e não o meu próprio quarto. Espere: MEU QUARTO? — Oliver! — eu chamei, irracionalmente, me levantando e começando a caminhar de um lado para o outro, como se a qualquer momento eu acordasse daquilo. O relógio no meu criado mudo marcava 06h00min. Eu me afastei dele como se ele fosse algum tipo de inimigo a me observar. O quarto estava escuro, e eu tropecei em alguma coisa no chão. Minhas roupas eram as mesmas que eu usava antes... Eu parei. Minha boca estava escancarada. Eu não me lembrava do que aconteceu no antes. Mas de alguma maneira eu sabia que eu não estivera no meu quarto. Não era possível, eu sentia como se meu cérebro tivesse parado de funcionar, ou como se precisasse de óleo para ferrugem. Era como se tudo estivesse nublado. Oliver, eu estive com ele a pouco e... Eu não me lembro de mais nada! E se aquele relógio estiver certo, e se a luz da manhã que agora preenchia meu quarto pela janela que eu acabara de abrir não fosse uma alucinação, e se eu não estiver, agora, completamente louca... Já é de manhã. Duas batidas na porta me chamaram a atenção, logo depois a porta foi aberta, já que eu não me mexi. Molly estava de pijama, o rosto sonolento, e os cabelos numa desordem de tranças que viraram nós. — Achei que estivesse dormindo — disse-me, mais dormindo do que acordada — Tem certeza que não podemos ficar em casa hoje também em vez de ir para a escola? — continuou manhosa — Podemos prolongar até... Até semana que vem!


Escola... Então era mesmo de manhã. Mas eu podia jurar que estivera com Oliver a pouco, eu ainda sentia seus olhos me penetrando, seu sorriso sínico me assombrando, seu cheiro... Eu me obriguei a responder Molly: — Nada disso, — eu tentei soar firme, mas a verdade era que eu mesma queria ficar em casa, e se pudesse não prolongaria até a próxima semana, e sim para sempre. Mas eu sou a irmã mais velha e tinha que dar exemplos. Foi isso que fiz a minha vida inteira – mas agora isso soava tão estúpido que chegava a me deixar corada. — Temos que ir, vá se arrumar. Seu uniforme está dentro do seu armário e... Venha até aqui para eu arrumar o seu cabelo. — instrui-a. Permaneci algum tempo parada observando a porta agora fechada. Eu deveria fazer algo — eu precisava fazer algo. E eu ainda estava profundamente irritada com algo. Mas os motivos que me levavam a isso eram nulos. Eu não me lembrava o que fizera depois do trabalho e como viera parar em casa. Não era possível que eu tenha simplesmente me esquecido — não era a chave da porta de casa, e nem o meu celular, era a minha memória. Eu não poderia esquecer algo tão crucial. Era como se alguém tivesse passado uma borracha em meu cérebro e a sujeira ainda ficara me incomodado e alguns rabiscos de memória tinham resistido. E o que significava isso? Tudo que eu sei é que a maldita sujeira que está me incomodando e os rabiscos que sobrevivem vivos me lavam a Oliver. Eu queria voltar para cama, e não ter que pensar nisso, pelo menos não agora. Mas enquanto eu o fazia, meu pé se enroscou em algo aveludado no chão. Distraidamente o chutei o para o lado, o que fez um barulho terrível de um farfalhar de folhas como se fossem asas de um pássaro. Abaixei-me procurando o objeto em baixo da cama, minhas mãos pegaram em algo frágil e delicado, o puxei com cuidado. Meus olhos se arregalaram, enquanto eu soltava aquilo e me afastava bruscamente como se minhas mãos estivessem em chamas. Era o Lunabella. — Já terminei. — Molly abriu a porta, eu a olhei de soslaio. — Porque está sentada no chão? Eu balancei a cabeça, mal entendo o que ela dizia, e me levantei, chutando o diário novamente para de baixo da cama. Eu me encolhi, sentindo minha visão falhar, ganhar cores novas e invertidas. Fechei os olhos. E então tudo piorou. Como fantasmas da escuridão uma par de olhos azuis surgiram, me rodeando como uma névoa assustadora, levando-me para um lugar distante e escuro... Quente. A caveira — ela me encarava agora — e em vez de rir ou zombar de mim, ela me oferecia sua indiferença — como uma caveira comum.


E então eu me lembrei. O gigante; Blake, aquele lugar estranho... Oliver. Ele queria o diário. Mas eu não o tinha. No entanto o Lunabella estava em baixo da minha cama agora. E eu não tinha a mínima idéia de como ele voltara para o meu quarto, assim como não sabia também como eu viera parar aqui. — Anna? Abri meus olhos e encarei Molly, assombrada. E de repente eu senti os cantos da minha boca se repuxarem nos cantos em um sorriso quase fantasmagórico. — Sério vamos nos divertir para valer, eu nem acredito que finalmente vamos ter um pouco de liberdade longe dessa gente da escola... — Emma continuou a tagarelar o caminho inteiro até a Grand Lake. Meus pensamentos estavam bem longe de Savannah e do fim de semana, e sim no diário de veludo que sacudia dentro de minha mochila, enquanto Emma se desconcentrava da estrada e não via o pobre cachorro que atravessava a rua. — Ai meu Deus! — ela gritou alarmada. — Acho que matei alguém! — Não matou não, olha ele ali. —apontei para o pobre cão que corria assustado para a calçada. — Mas vai matar se continuar falando ao invés de dirigir. — Ow! Credo, o que deu em você hoje para estar tão azeda. Eu murmurei um nada à contra gosto. — Anna eu te conheço desde sempre, você é a minha quase irmã, ande logo e me diga o que está acontecendo! Eu já tenho até um palpite... — Não está acontecendo nada. — Está sim, e começa com O ou com G! — cantarolou ela — Somos melhores amigas você não pode esconder nada de mim e vice versa, me conte logo, para que eu possa te falar do Cody. — Quem é Cody? — agarrei a minha única chance mudar de assunto. — Ah, é o amor da minha vida! — suspirou. — O conheci na internet. Ow-ow. Isso é mau! — Emma... — eu comecei. — Nada disso! Você não vai repetir o mesmo sermão da minha mãe, e não senhora, você não vai mudar de assunto. Me diga: o que o Oliver e/ou o Grigor fizeram para te deixar com esse humor? Não haveria como escapar, então eu disse tudo de uma vez:


— Grigor me beijou. E Oliver também. Um barulho terrível irrompeu meus ouvidos, e minha cabeça foi jogada para frente, e depois para trás, enquanto o meu estomago dava voltas no mesmo lugar comprimido pelo cinto de segurança. — Ai, meu Deus! — ela ainda continuava a gritar. — Dessa vez fui eu que você quase matou! — soltei o cinto, me debruçando, apoiando meus cotovelos nos joelhos para massagear minha cabeça. — O que deu em você hoje? Está dirigindo pior do que Luke. — Você me dá uma noticia dessas e quer que eu não me descontrole. Quando isso aconteceu? Desde quando você esconde coisas de mim? Quantos caras já te beijaram e você não me contou? Oh, meu deus, Anna Mathers, que tipo de melhor amiga você é? — Ai, minha cabeça! — eu arfei. — Não me venha com ‗Ai‘! Eu sempre te contei tudo o que acontecia comigo, e sempre achei que você fazia o mesmo, mas não! Todo mundo esconde coisas da Emma! — ela choramingou. — Você é igualzinha ao Luke. — Emm, — eu arfei por ar, meu corpo ainda não completamente recuperado do baque. — Eu ia te contar eu juro, mas eu não tive chances. — Não teve chances. — ela repetiu, aparentando estar realmente magoada. — Não se esconde umas coisas dessas de sua melhor amiga. — Me desculpe. — Desculpas, nada! Eu quero um relatório completo sobre isso! E você vai me contar tim-tim por tim-tim como os dois caras mais gostosos da escola foram cair aos seus pés. Luke vai morrer quando souber, alias, ele vaie é te matar quando descobrir que você escondeu isso de nós. Eu repassei nossa conversa inteira durante a aula Inglês, era uma coisa boa ter algo em que pensar para desviar meus pensamentos de Oliver. Ele não dissera absolutamente nada durante a aula inteira. E em vez de se sentar ao meu lado como era de costume se sentou ao lado de uma criatura loira, e que hoje, atraía todos os olhares exclusivamente para si. Stacy Tanner. A fiel escudeira de Emily Morgan parece muito contente por a amiga que ter ido embora. A história que ouvi da boca de uma garota ruiva sentada atrás de mim, é que Emily fora passar uns tempos na Europa fazendo intercambio. É claro que a história já sofrera algumas modificações, algumas mais conclusivas outras chegavam até a se aproximar da verdade: Que Emily estava em um hospício. Eu ainda estava com o estranho sentimento de quando a vi pela última vez. Não ela exatamente, e sim o seu pai. Pobre homem.


Suspirei. E quanto ao Oliver, eu disse a mim mesma que não me importava que ele tivesse mudado de lugar, e que muito menos estava preocupada que ele estivesse possivelmente zangado ou me odiando por eu não ter lhe dado o diário. Ao diabo o que ele pensa de mim, era eu que era para estar irritada com ele por ter me levado para aquele fim de mundo com seu capanga. Ele tinha sorte por eu não o ter denunciado. Mas lá no fundo eu tinha dificuldades para respirar. O sinal tocou, e todos se encaminharam para a porta ao mesmo tempo, bloqueando a saída e me impedindo de escapar o mais rápido possível dali. Oliver permaneceu em seu lugar e Stacy também. Maravilha. Tudo que eu queria era presenciar uma conversa entre os dois. — Então, Oliver, — a voz manhosa chamou o nome dele — Você está mais que convidado para a minha festa neste fim de semana. — ela estava falando num volume que com certeza não era só para que ele escutasse. Levando a mão até a boca como se fosse cochichar, mas ao invés disso quase gritando: — Vai ser a melhor festa que alguém dessa escola já foi. As cabeças a minha frente se viraram todas para ela enquanto ela disparava todos os detalhes da tão maravilhosa festa que estava planejando. Eu aproveitei a chance para escapar. Nas outras aulas eu finalmente tive um pouco de descanso. A notícia da festa de Stacy agora estava disputando com a fofoca da mudança de Emily nas bocas de todas as garotas. No refeitório Emma realmente me obrigou a dizer tudo o que havia acontecido. Eu resumi tudo ao máximo que pude retirando os detalhes escárnios como, por exemplo, Grigor ter me agarrado no banheiro feminino e Oliver no meu quarto, como um intruso, e eu estando somente com as roupas de baixo. Eu coro só em relembrar. Eu ainda tinha Ed. Física como ultima aula. Poucas pessoas estavam presentes, a maioria muito ocupada em fofocar para ir à aula da srtª Smith, que muito a contra gosto, obedeceu às ordens da diretora que liberou o nosso horário para um aquecimento para a equipe de basquete. O Treinador estava no centro da quadra com os jogadores. Ryan não estava presente, e eu não estava muito interessada em saber quem era o novo capitão, como os outros poucos presentes, até que um cara que até então estava afastado do grupo se levantou da arquibancada a alguns bancos a minha frente. Eu sabia quem ele era mesmo ele estando de costas. Havia algo no modo como ele andava, uma aura que o envolvia que o distinguiria de qualquer um. O Treinador continuou a gesticular com uma costumeira prancheta que sempre que o via ele a tinha nas mãos. Ele era um homem alto, moreno e forte, mas em compensação era tímido e de voz serena... A menos que ele esteja debatendo com a Srtª Smith ou defendendo e dando ordens ao time. Cinco segundos depois e eu estava escapando pela saída lateral do ginásio.


Covarde. Eu disse a mim mesma. Eu sabia que um dia iria ter que encará-lo. Mas hoje não seria esse dia. Não quando eu ainda estou em um estagio alem do choque. Não quando eu o vi sumir com um cara. Eu entrei no banheiro feminino. Um bom lugar para se esconder da Srtª Smith, mas péssimo para me esconder das lembranças de Grigor. Sozinha eu respirei fundo e tentei não pensar no que acontecera quando eu estivera ali na ultima vez. Mas era tarde demais. Antes que eu pudesse ser alertada por meu instinto, antes que eu pudesse correr dali, eu estava paralisada encarando o espelho:

Está com medo? Mas eu ainda nem comecei a brincar, Anna. Fechei os olhos e contei. 1, 2, 3... E quando os abri tudo havia sumido. Eu aspirei ar para dentro dos meus pulmões, me sentindo zonza. Eu apertei a ponte de meu nariz, me concentrando em minha respiração acelerada. Os pelos da minha nuca ainda estavam arrepiados; meus cabelos grudavam na testa, como se eu estivesse em um forno quente, mas ao invés de sentir calor, eu tremia de frio. Eu me apoiei na pia a minha frente, me impulsionando para trás para fazer com que minhas pernas funcionassem como deveriam. Meu instinto estava confuso. Uma parte dizia: fique, enquanto a outra gritava: fuja. Eu movi uma perna para trás, e girei em meus calcanhares, e então ele estava lá. Parado em frente à porta, com as mãos nos bolso perfeitamente imóvel. Um sorriso fantasmagórico obscurecia ainda mais o seu rosto. Gustav. Eu parei onde estava. Minhas pernas tremendo, minha cabeça girando, mas meu olhar firme e ao mesmo tempo assombrado com sua presença. Eu procurei por algum tipo de reação. Eu deveria gritar? Aliás, eu poderia ou teria tempo para tal? — É incrível, — começou ele, movendo sua cabeça de um lado para o outro. — Você e ela são idênticas, uma copia perfeita. Mas digamos que Elisabeth era um pouco menos corajosa... Não! — ele sorriu, se interrompendo bruscamente. — Ela era sim corajosa, só que para coisas erradas... Busquei por algo que pudesse usar a minha defesa. Eu procurei disfarçadamente por algo nos bolsos da minha calça jeans, — eu não tinha posto o meu uniforme de Ed. Física — e encontrei minhas chaves, balas e umas anotações de física. Ele riu.


— Eu não deveria dizer essas coisas, você não poderá entendê-las ainda, mas é uma pena que não possamos conversar, eu tenho certeza que você tem muito mais em comum do que a aparência. — ele estalou a sua língua. — Até mesmo o péssimo gosto por brincar com o perigo... O que eu poderia fazer com aquele cara maluco? Ele tentara me matar. Ele era um barmen, e seus olhos azuis cinzentos e sem graça se tornaram obscuros sugando toda luz como lodo. Ele era forte e alto — o que não tinha muito valor, já que mesmo que ele tivesse o mesmo porte físico que eu, eu muito dificilmente conseguiria lutar contra ele. Eu poderia distraí-lo e talvez alguém pudesse sentir a minha falta e vir procurar por mim. Eu engoli em seco, porque a única pessoa que pudesse fazer isso seria Emma, e ela deveria estar bem distante para poder me ajudar. Mas eu me obriguei a ter esperanças. Ela deveria ser a última a morrer, certo? A não ser que eu morresse primeiro. — Quem é você? — perguntei, minha voz instável. — Depende. — ele sorriu, como se minha pergunta fosse extremamente divertida. — Eu posso ser... E então Gustav sumira, e a minha frente estava outra pessoa. Angelicalmente toxica. Piscando como se quisesse flertar até com o ar ao seu redor. Sorrindo maliciosamente. Os cabelos lisos caindo pelos ombros, por cima do uniforme azul escuro e branco de líder de torcida da Grand Lake. Emily Morgan. — Ou então... E lá estava ele. Devolvendo-me o seu sorriso mais irritante de todos. Os olhos azuis brilhando perigosamente. Os cabelos dourados caindo por sua testa. E todo o seu charme de garoto rebelde. Oliver Coleman. Eu arfei. — Ou até mesmo... Ele aparecerá bem diante de mim. A pose descontraída e ao mesmo tempo elegante. O cabelo castanho-escuro arrepiado meticulosamente para cima. Os olhos verdes penetrantes e misteriosos. A aura de mistério ao seu redor era quase visível. Grigor Lybieri. — E por que não... Você! Era como me olhar diante de um espelho. Os mesmos olhos, rosto, cabelo, roupas, altura... Eu mesma. Eu estava diante da minha copia mais perfeita. Ela sorriu maliciosamente para mim. Eu me afastei da figura, parando quando o meu quadril bateu na pia do banheiro. Eu fechei meus olhos e depois os abri. E ela continuava lá.


— Quem é você? — eu repeti a minha primeira pergunta, minha garganta se fechando em um nó. — Não é meio obvio? — ela deu outro passo em minha direção. — Eu sou você! Mas também posso ser aquela patricinha maluca, ou aquelas duas pestes dos infernos que vivem entrando no meu caminho! Ela semicerrou os olhos. — Mas isso terá logo, logo um fim. Assim que eu der um basta em você, — ela deu outro passo, parando a minha frente. Eu apertei meus dedos na borda da pia. Meus olhos olhando ao redor e se focalizando em um objeto. — Anna Belle Mathers. — sussurrou. Ela se virou de costas rindo escandalosamente. — Mathers! — repetiu. — Ora que disparate! E em imaginar que só esse simples sobrenome me impediu de colocar minhas mãos em você! Era a minha chance. Eu me estiquei até o pote de sabonete liquido, e torcendo para que acertasse, mirei bem na cabeça da garota de costas para mim. O meu... Eu. Um baque surdo e depois o liquido vermelho com cheiro de morango escorria desde os longos cabelos até o chão branco do banheiro. Ela soltou um grunhido, voltando-se para mim. — Típico. — cuspiu. — Você não nega o sangre podre que corre em suas veias. Já chega de conversa! A hora do nosso acerto de contas irá chegar, e aí sim eu poderei te mostrar quem eu realmente sou. Mas antes... Um pequeno castigo pra você, garota malcriada! Paralisei. Meu coração acelerou e minhas pernas fraquejaram diante da imagem. Era como se alguém enfiasse uma estaca em meu peito, e perfurasse minhas lembranças com cacos de vidro. Porque eu sabia que não era real. Era como um sonho — sonhos que eu me impedi de ter a muito tempo, porque eles só me machucavam. Mas mesmo assim eu não consegui deixar de olhar a mulher a minha frente. Sorrindo graciosamente e usando um vestido violeta de verão. Os olhos mais amorosos que já vi. A pele bronzeada e que mesmo de longe podia ver sua maciez. Os cabelos cacheados caindo pelos ombros em um loiro avermelhado perfeito. Os lábios sempre emoldurando um sorriso afetuoso, e sincero. Minha mãe. Eu fechei os olhos. As lagrimas queimando em meu rosto, minhas mãos meio estendidas querendo tocá-la e o resto de meu corpo se retraindo repelindo a mentira; a fantasia que eu sabia que ela era. Um perfume doce de flores invadiu meu nariz. O perfume mais aconchegante que já senti. E sussurrando ao pé do meu ouvido, com uma voz sutil e macia, ela disse:


— Até Lunabella, Anna Belle... Di Veroni. Eu quis destruir a imagem em mil pedaços, por fazer com que toda a fortaleza que eu construí para banir qualquer vestígio daquilo em minha mente se esvaísse em pó. Mas quando eu abri meus olhos para fazer, me encontrei sozinha e encarando mais uma vez o mesmo sentimento que senti no dia de seu funeral. Eu me obriguei a enxugar as lagrimas. Sabendo que por mais que aquela imagem falsa estivesse costurada ao meu cérebro de um jeito tão real, eu sabia a verdade: Minha mãe estava morta. — Anna! — Emma entrou no banheiro gritando. Eu tinha acabado de lavar meu rosto, depois de tentar dar um jeito na bagunça com o sabonete liquido. — Estou te procurando por toda escola! Corra, parece que Grigor e Oliver estão tendo uma briga no ginásio da escola! — O que?


TREZE — Você tem que ir lá! — Emma me empurrou para dentro da multidão. — Por quê? Ela revirou os olhos, como se eu estivesse sendo muito inconveniente. — Porque você é tipo, sei lá, a moçinha, você tem que separar a briga, essas coisas! — Não sou a moçinha. — eu disse, mais para mim mesma. Toda a gritaria cessou de repente. Coloquei-me na ponta dos pés, tentando enxergar além das mil cabeças a minha frente. O que não deu muito certo, eu não sou muito alta. — Ali! — Emma disse, indicando o muro que separava a saída do ginásio para a entrada do estacionamento. — Suba naquilo e grite, seja a minha heroína! — Você ficou maluca? — arregalei meus olhos. — Vamos Anna, por favor! —Por que eu deveria fazer isso? — Porque ter dois caras lindos brigando por mim sempre foi o meu maior sonho, porém eu não tenho. Mas você tem! Então seja a minha heroína e suba já naquele muro! — Mas Emm... — VAI! “Emma é maluca” Eu disse mentalmente, examinando o meu novo machucado no joelho. “E eu sou uma idiota” complementei. — Desculpe-me, — Emma me disse, abaixando a cabeça fazendo com que seus cabelos se espalhassem por seu rosto. — Na minha cabeça aquilo iria ser lindo. Eu bufei, não podendo deixar de rir. — Eu prometo que nunca mais te meto em nenhuma furada. Hum, eu sinto que já ouvi isso antes... — Como naquela vez que você nos obrigou a te carregar pela a escola inteira na terceira série ou como naquela que você achou que o Brad Pitt estava dentro de um taxi e praticamente nos matou correndo atrás dele? — Luke perguntou, ironicamente.


Emma telefonou para ele dizendo que precisávamos dele aqui, agora. Era a nossa reunião de emergência. Mas eu não via nada de tão urgente assim. Eu pelo menos não havia quebrado nada. Eu acho. — Eu estava com o pé quebrado e, qual é, eu tinha certeza que era ele! — defendeu-se ela. — É, e naquela vez em que eu estava doente e você me fez sair na chuva... — Eu não sabia que você estava doente, e você que foi burro por esquecer o guardachuva... E então eles estavam falando ao mesmo tempo, Luke relembrando todas as vezes que foi posto em situações ruins e Emma tentando se defender. Sra.Dollan, a bibliotecária, nos encarou carrancuda, por cima de seus óculos de grau. — Gente, gente! — eu chamei, tentando calá-los. — Chega, isso foi passado. — Mas Emma continua nos colocando em encrenca! Emma se encolheu, franzindo a testa e comprimindo os lábios. Eu sabia o que viria a seguir: — Vocês me odeiam! — ela choramingou. — Não! — eu queria choramingar também. — Luke para com isso, ela não fez por mau. — Como foi que isso aconteceu? — ele indicou meu joelho, onde um Bad AID estava posicionado. — Eu caí. — respondi, dando de ombros. Isso não era o que me incomodava. Poderia ser a lembrança das risadas das pessoas quando me viram despencar do muro e encontrar o chão logo em seguida. Mas não era isso. Era outra coisa; uma que me fazia me sentir estúpida apenas por estar sentindo. — E tudo por minha culpa. — Emma choramingou. — Obriguei a Anna a subir no muro da escola. Recebemos um shhii de Sra. Collins. — Por quê? — Luke apoiou seu cotovelo na mesa, ignorando-a. — Oliver e Grigor estavam brigando, e eu tive a idéia estúpida de fazer com que Anna separasse-os. Na hora eu pensei que tudo seria lindo. — ela engasgou no fim da frase, derramando lágrimas de um só olho. — Isso não é estúpido... — Luke suspirou, e quando Emma estava prestes a se sentir reconfortada, ele continuou: — Isso é além de estúpido, é quase um crime! Você deveria ser presa por ter feito isso!


Emma encostou sua testa na mesa, seus ombros tremendo. Eu suspirei, parte de mim ali na mesa, a outra clamando por ser enterrada. — Não seja insensível. — eu murmurei para ele. — Peça desculpas. Ele revirou os olhos. — Desculpa. — resmungou. Emma não respondeu. Então ele se voltou para mim, os olhos me inspecionando de um jeito que eu não gostei. — Hum, querendo separar brigas? Sinto cheiro de algo no ar. — ele sorriu, maliciosamente. — Anna os deixou louquinhos por ela! — Emma levantou sua cabeça somente para dizer isso. — Isso é... Isso é... Mentira! — eu disse, não gostando da conversa. Eu não queria falar deles agora, não quando eu ainda sentia fagulhas do que me incomodava dentro de mim. — Sério? — ela arqueou uma sobrancelha, irônica. — Luke advinha quem é a nova beijoqueira da escola? — Quem? — ele arregalou os olhos teatralmente, surpreso. — Anna Belle Mathers. — Woow! — ele gritou. Sra. Collins bateu com a mão em seu balcão para que fizéssemos menos barulho. — Parem com isso! — eu cochichei, irritada. — Parar com o que? — Emma se fez de desentendida. — Com isso? — Luke fez sinais com os dois dedos indicadores, os juntado e os separado logo em seguida, com se eles estivessem se beijando. — Ou com isso? — Emma riu, mandando beijinhos para ele. — Parem! — eu ameacei me levantar. — Certo. — eles riram, parando. Eu fechei a cara. Mas eu não estava me importando. Isso não chegava nem perto de me incomodar. E nem de longe era tão estúpido como o que eu estava sentindo. — Ah, Anna o que foi? Ainda está chateada com o que aconteceu? Olha, eu juro que não foi por mal! Você sabe como eu sou idiota às vezes...


— Só às vezes? — Luke murmurou, debochado. Ela o ignorou. — Eu faço o que você quiser se você me perdoar, eu prometo. — Ela quer o seu carro e o seu Cd dos Beatles também, e ah, também quer todos os seus pôsteres. — Luke se intrometeu. — Não quero nada, não há o que perdoar. — Então porque essa cara? — Eu só... — eu balancei minha cabeça. — É tão idiota. — Hum, diga, eu tenho certeza que já ouvi coisas piores, não é Emma? — cutucou-a, ela continuou o ignorando. — O que aconteceu? — quis saber. Eu resolvi não prolongar aquilo. — Stacy Tanner, estava beijando Grigor. O queixo de Emma despencou na mesa. — Quando? Onde? Eu abri a boca para responder, mas Claire Aboot, a redatora do jornal da escola, se sentou a mesa conosco. Ela tinha o cabelo encaracolado, e era baixinha e gorducha desde sempre. — Oi! — ela nos cumprimentou, sorridente como sempre. — Eu acho que sei sobre o que estão conversando, aliás, todos estão falando disso. Vocês querem a história toda com detalhes ou só o necessário? Luke franziu as sobrancelhas, não entendendo o que aquela garota de saia escocesa e aparelhos nos dentes estava querendo dizer — foi isso que vi quando ele olhou para mim assustado. Eu dei de ombros, já acostumada com as fofocas dela. Ela sabia de tudo. Sempre. Se algo acontecia, ela estava lá. — Conte tudo! — Emma incentivou. — Bom, vocês sabem que eu odeio fofoca, mas como você querem saber tanto... Oliver e Grigor estavam discutindo, por motivos ainda desconhecidos. Mas eu saberia se soubesse falar latim. — Latim? — Emma estranhou.


— É, eles falavam uma língua estranha e de repente os dois foram em direção ao estacionamento. Eu não pude ver bem a briga porque eu não consegui correr com meus saltos. — ela apontou as plataformas em seus pés. — Mas quando cheguei lá, logo depois do treinador, Oliver estava caído no chão perto das latas de lixo e Grigor não parecia bem. Acho que ele tinha quebrado o pulso ou algo do tipo. ―Eles continuaram vociferando aquelas palavras estranhas, e então varias pessoas estavam ao nosso redor — um bando de intrometidos, em minha opinião. O treinador estava sem entender nada assim como todos. Oliver tinha se levantado e rindo ele disse as seguintes palavras:‖ Ela pigarreou e depois disse grosso: ―Ela é minha‖ ―Grigor sorriu, o pulso já parecia bom de novo, e então respondeu:‖ ―É o que vamos ver.‖ ―Oliver semicerrou os olhos e simples assim saiu. Agora vem a melhor parte: Stacy Tanner que estava no meio da multidão simplesmente se jogou nos braços de Grigor gritando ―eu sou sua!‖e o beijando depois‖. Emma arregalou os olhos e Luke permaneceu com um ponto de interrogação na cabeça. Eu suspirei, jogando minha cabeça para trás. — E foi isso. — ela se levantou e assim como veio se foi. Deveria estar procurando alguém para fofocar — digo, compartilhar seus conhecimentos. — Isso foi bizarro. — Luke murmurou. Eu não respondi, apenas continuei encarando a luz no teto. — Não acredito nisso. — continuou ele, murmurando para si mesmo. — Stacy Vadia Tanner! Ela conseguiu superar até a cobra-rainha! — Ela beijou mesmo o Grigor? — Emma não parecia conseguir acreditar. — Ela pulou em cima dele. — Luke respondeu. — Como sabe? Você nem estava lá... — Grigor não iria beijar uma daquelas cobras, ele não é do tipo de cara que faz isso, principalmente depois de ter beijado Anna. — Eu não confio em nenhum homem. Só no Brad, e olhe lá... — ela disse, cutucando suas unhas.


— E aquele tal de Oliver? —Luke arqueou uma sobrancelha e então eu sabia que aquilo não seria uma discussão sobre o beijo de Stacy e Grigor, e sim para ver quem tem o maior ego. Eu assistia isso desde o Jardim de Infância. — Ele é perfeito. — Emma cantarolou. — Ele é lindo, sensual e perigoso. Se fosse ator, eu juro, largaria o Brad e me tornaria sua fã numero 1! — Ele é bizarro isso sim. E ele pode ser sei lá um traficante de drogas! Emma escancarou a boca, ofendida. — Ele não é um traficante. E o que você me diz de Grigor Lybieri, ele é o que? Da máfia? Ou aquela pose dele é só fachada mesmo? — Cala-a-boca! —Luke exclamou. — Se formos comparar, Grigor deixa o chave de cadeia no chinelo. — Quem você chamou de chave de cadeia? — Emma ameaçou se levantar e pular no pescoço de Luke, que continha um sorriso vitorioso nos lábios. — Ei, ei! — eu resolvi intervir antes que uma briga começasse bem ali na minha frente. Chega de brigas por hoje! — Emma se acalme, e Luke pare de provocar. Nós dois sabemos que isso não é sobre Grigor e Oliver. — Claro, isso é sobre Emma e sua cabeça de vento. — continuou provocando. Eu esperei Emma fazer algo, mas ela continuou parada encarando algo sobre a minha cabeça. — Posso falar com você? — alguém sussurrou ao pé do meu ouvido e eu imediatamente já sabia quem era. — Não. — Emma respondeu com cara de pouco amigos. — Estamos tendo uma reunião. — É claro que pode, Grigor. — Luke disse, estridentes. — Nós já acabamos. — Úh uh, que tal você não ir lá chamar a Tanner, Luke? Assim a gente tem uma confraternização, e você pode se mudar para o ninho da cobras. — retrucou. E de repente eles já haviam se esquecido que eu estava na mesa, aliás acho que eles nem sabiam direito sobre o que realmente discutiam. — Preciso falar com você. — Grigor chamou minha atenção. — Estou ocupada. — murmurei, voltando meus olhos para a mesa.


Meus olhos caíram sobre o Lunabella, que eu tinha pegado de minha mochila quando eu e Emma viemos para cá. Eu não havia me dado conta que eu ainda continuava com ele aberto. Havia uma frase na página em branco: Eu arregalei meus olhos, lendo: Oh, Ron, como tu fostes capazes? Grigor suspirou. — Você já ficou sabendo de Stacy. — sussurrou ele, mais para si mesmo. — Eu posso te explicar. — Você não me deve satisfações. — Mas eu quero dá-las. — Por quê? Nós não temos nada... Você pode fazer o que bem entender, e beijar quem bem entender. — eu disse, mas eu estava remoendo isso por dentro. — Eu não beijei Stacy, ela me beijou. Eu bufei. — E qual é a diferença? — revirei os olhos. — Essa. — e então ele tinha empurrado seus lábios para os meus. Foi rápido, mas o suficiente para me levar até as estrelas e voltar. — Você... Você... — gaguejei aturdida. — Você não pode fazer isso! — Você disse que eu podia. — ele arqueou uma sobrancelha. Eu respirei fundo, tentando me acalmar e não ficar hipnotizada pelo olhar provocante que ele me lançava. — Mas não comigo! — eu disse um pouco mais alto, travando meu maxilar. — Não fique brava, nós só nos beijamos. — Eu não estou brava e foi você quem me beijou! — eu disse rápido demais para eu perceber o que estava dizendo. — E qual é a diferença? — perguntou ele, me fazendo engolir goela a baixo minhas próprias palavras. Eu mordi minha língua, literalmente. — Espera, espera, vocês estão tendo uma DR bem aqui? — Luke disse, eu não havia percebido que eles tinham parado de brigar. — DR? — Emma estranhou.


— Discussão de relação, criatura. Antes que Emma retrucasse, eu disse: — Nós não temos uma relação. — Não temos? — Grigor perguntou, ele havia puxado uma cadeira e se sentado ao meu lado e agora me encarava confuso e carrancudo ao mesmo tempo. Que diabos! — Er... Não. — Ih, acho que eles estão naquela fase de passagem de só pegassão pra a do namoro. Desculpem-me, mas eu estou carente demais pra ver isso! — Luke se levantou. — E eu também. — Emma fez o mesmo. — Estou a um milhão de quilômetros do Cody. — Quem é Cody? — Luke estranhou. — Meu namorado virtual. — Oh, meu Deus! — lamentou-se ele, a puxando pelo braço em direção a saída. — Quantas vezes eu vou precisar te dizer que precisamos de namorados reis? — eu o ouvi dizer a ela antes de sumir de minhas vistas. Eu me virei de volta pra Grigor e não esperava que ele estivesse tão perto. Eu limpei minha garganta, mas não havia o que falar. O que eu poderia dizer? Ele não me devia explicações, por mais que intimamente lá no fundo, eu me sentisse magoada por isso. Droga, eu sentia ciúmes dele, e isso me corroia por dentro. Porque ele não pode ser meu. E eu não deveria querê-lo para mim. Garotos não fazem parte do plano. Eu só tinha que terminar a escola e dar o fora dali. Eu não podia ter algo que me prendesse ali. Eu não podia querer ter um namorado. Eu voltei meus olhos para o Lunabella. E eu posso estar louca, mas a frase não era a mesma: E eu, como posso sentir-me assim se tu não me pertences? — Saia comigo esta noite. — disse ele, de repente, não deixando espaço para que eu negasse. — Temos duas reservas no melhor restaurante do centro. — Cancele-as. — eu disse tentando soar segura. — Eu não poderei ir. — Não posso cancelar. — Leve outra pessoa, Stacy ou qualquer outra garota da escola adorariam ir.


— Eu não quero levar para jantar Stacy ou qualquer outra garota, — disse-me ele. — Eu quero levar você, Anna. Eu não tinha resposta para isso. E como tu te atreves a encarar-me com estes olhos que enxergam-me até a alma, e ainda me convidares para o breu que és tua vida? — Uma noite. — insistiu ele. — Só eu e você. Eu pressionei meus lábios um contra o outro. — Eu tenho que ir trabalhar. — Hoje é seu dia de folga. — falou ele dando um meio sorriso. Eu me senti irritada com isso. Quem era ele para me dizer quando devo trabalhar ou não? Ah, sim. O meu patrão. — Eu vou pensar. — eu disse já me arrependendo. Pensar era ruim. Muito ruim. Eu deveria ter dito um não logo. Eu deveria eliminar os problemas da minha vida. E Grigor é um dos principais deles. Ele desviou seus olhos dos meus e enfiou a mão no bolso da sua calça de jeans. Com a outra mão livre, ele pegou a minha e meio segundo depois colocou algo duro e gelado que tinha tirado de seu bolso em minha mão. — O que é isso? — É um presente. Eu examinei o quadrado metálico. Meu dedo circulou uma espécie de botão, e depois o apertou revelando uma tampa que se abriu mostrando uma pequena chama avermelhada. — Um isqueiro? — indaguei surpresa. —Este é especial. — Por quê? — desviei meus olhos da chama e encarei seus olhos esmeralda. Ele somente deu de ombros. Eu revirei meus olhos, já acostumada com o jeito com que ele não responde as minhas perguntas. E eu devo estar ensandecida, pois estou prestes a aceitar teu convite. — Eu... Te ligo mais tarde para dar a minha resposta. — eu disse, fechando o Lunabella e me levantando. — E valeu pelo isqueiro.


— Não seja chato, Luke, só porque você não consegue arranjar ninguém legal pela internet não quer dizer que eu não consiga. — encontrei Luke e Emma no Miata, éramos praticamente os únicos ali, pois a maioria dos alunos já haviam ido embora há muito tempo. — Por favor, por favor, me diga que ele te pediu em namoro! — Luke arqueou suas sobrancelhas sugestivamente quando me viu. Eu revirei meus olhos. — Não, de onde você tirou isso? — eu abri a porta de trás do carro e entrei. — Fala sério, Anna! — Emma ajustou o retrovisor para me encarar pelo espelho. — Tudo bem, eu admito que só disse aquelas coisas dele porque Luke é um idiota! Eu acho Grigor um cara legal, apesar de eu realmente gostar mais do Oliver. Luke não pareceu perceber que tinha sido chamado de idiota, enquanto falava: — Ele gosta de você e rola um clima entre vocês dois, e aquele beijo foi para tirar qualquer duvida! Então porque não admite logo que vocês estão quase namorando? Eu entreabri a boca. — Porque nós não estamos! — É claro, ainda tem o Oliver. — lembrou Emma. — Você tem dois caras na sua cola, não tem do que reclamar. Logo, logo você vai ter um namorado para fazer inveja na gente. — Ei! Eu não quero um namorado. — Claro que quer, todo mundo quer um. — suspirou Luke. — Todo mundo precisa de um. — corrigiu Emma, dando partida. Eles estavam enganados. Eu não precisava de um namorado na minha vida. Aliás, para que eu iria querer um namorado? Tudo que eu sempre quis foi dar o fora dali. Eu não precisava de um motivo para ficar. Eu não precisava... Amar mais alguém. Aprendi desde cedo que quanto mais se ama, mais chances você tem de perder. Eu não suportaria perder mais nada. E evitar isso logo no começo seria o melhor. E eu faria isso. Eu tinha de fazer. — Menos eu. — murmurei. — Podemos mudar de assunto? Emma sorriu e abriu a boca, mas Luke já estava falando antes que algo pudesse sair. — Ah não me venha outra vez com esse tal de Cody! — reprimiu ele. — Anna lembra daquele livro velho que você achou?


— O Lunabella? — eu olhei instintivamente para minhas mãos vazias, eu o acabara de guardar em minha mochila. — Sim, esse daí mesmo. Lembra da minha tia maluca de Oregon? — ele não esperou que eu respondesse. — Ela me ligou cinco horas da manhã para me dizer que essa coisa é maligna. Eu pressionei meus lábios, meu coração subitamente acelerado. — De onde ela tirou isso? — Emma quis saber. — Ela disse que alguém disse para ela em um sonho. — ele revirou os olhos. — Ou algo do tipo. Aquela velha é maluca, eu já disse, e eu estava morrendo de sono, só estou te dizendo isso porque achei uma coisa estranha: Ela sabe que o livro está com você! — Ai! —Emma parou o carro em um sinal vermelho. — Me arrepiei toda! — Como? — Eu não sei! Eu não disse para ninguém que tinha te dado o livro, juro, mas a maluca sabia. Ela disse seu nome inteiro, só que em vez de Mathers disse Verona ou algo assim. Um arrepio subiu pela minha espinha juntamente com uma lembrança. Tão viva que tive que engolir um grito preso em minha garganta. Como se alguém tivesse sussurrado as mesmas palavras de Gustav ao pé de meu ouvido: “— Até Lunabella, Anna Belle... Di Veroni.” — Bom, ela disse que era para você se livrar dessa coisa o quanto antes, disse algo também sobre fogueiras e almas, eu não entendi muito bem. Entenda, eu estava pra lá de grogue e quase mandando ela para um lugar não muito legal. — Você está com essa coisa aí? — Emma perguntou, ignorando o som das buzinas que vinham de trás de nós. — Na minha mochila. — eu apontei para ela no chão do carro. Emma se esticou pelo console até ela, e então a abriu sacando o Lunabella de lá. — O que vai fazer? — eu e Luke perguntamos ao mesmo tempo. — Me livrar disso! A minha falecida avó sempre falava para não duvidar dos loucos, pois eles vêem muito mais do que nós. Foi o que eu ouvi antes de ela jogar o livro pela janela do carro e então arrancar com o carro a toda velocidade. — Se a tia de Luke disse para você se livrar disso, é porque tem alguma razão. Se eu fosse você, Anna, eu procuraria uma igreja. — ela se virou para me encarar com os olhos injetados de obscuridade e seriedade e então riu mostrando que só estava caçoando de mim.


Luke tambĂŠm ria ao seu lado achando tudo uma grande piada. Eu nĂŁo via motivos para rir, porque eu tinha motivos suficientes para acreditar que a tia de Luke falara a verdade. Talvez seja porque eu tambĂŠm estava maluca, como ela. Ou talvez, Emma estivesse certa, eu tinha que procurar uma igreja.


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100525265 outrora gleiciane carvalho