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COTIDIANO

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UM É POUCO. DOIS É BOM... E JÁ DÁ FILME!

PERSONAGENS DUPLOS E DUPLAS DE PERSONAGENS QUE DÃO MAIS EMOÇÃO À SÉTIMA ARTE. POR LUCIANA DA CUNHA Por mais que o cinema nos agracie com personagens fortes

Nem sempre o “dois” é bem recebido na indústria

que, aparentemente, carregam toda uma produção, há sempre

cinematográfica. Pode perceber, a maioria das sequências de filme

uma troca de forças para enriquecer a história. Pode perceber:

sofre o estigma de não serem tão boas como os originais. Você

o mocinho e a mocinha, o protagonista e o antagonista, o herói

mesmo já deve ter se flagrado saindo do cinema esbravejando

e o companheiro engraçado, o mestre e o aprendiz e por aí vai.

que tal filme “não chega aos pés do primeiro”. E é verdade, a não

Mas quando o próprio personagem já é a própria dualidade?

ser por raríssimas exceções. A minha preferida vem de um dos

Um bom e recente exemplo de um personagem que é na

melhores filmes já produzidos: O Poderoso Chefão.

verdade dois está em Cisne Negro. Na trama, a bailarina Nina

A sequência da história da família Corleone é tão bem

(Natalie Portman) se vê no dilema entre a inocência do cisne

feita e estruturada quanto a primeira parte da série. E é a

branco e a malícia do cisne negro, que ela não consegue

que mais joga com a dualidade também. Em primeiro lugar,

representar. Para isso, ela encontra na concorrente Lily (Mila

temos a história de quando Vito Corleone (Robert De Niro)

Kunis) a outra parte de sua essência. Aquela que não é

chegou à América, em contraste com o seu personagem já

boazinha, que não fica se autoflagelando e que quer apenas

bem-estabelecido como “o padrinho”. É o lado da origem, da

se divertir. A confusão das personagens é tão gritante que

humildade inicial de um homem que, até este momento da

em determinado momento o espectador não consegue mais

trama, tinha tudo sob o seu controle.

identificar onde termina uma e começa a outra. E afinal, quem não tem que conviver com o seu próprio cisne negro, não é?

No mesmo filme há outra dualidade: a do personagem-título. São poucos os casos em que uma saga muda de protagonista

Caso bem parecido é encontrado em O Clube da Luta (tanto

e menos ainda os que se saem bem-sucedidos com essa

é que eu insisto em chamar Cisne Negro de “Clube da Luta

troca. No primeiro filme, o “padrinho” é Don Vito Corleone

para meninas”). Dessa vez o protagonista é sobreposto pela

(Marlon Brando). No final do primeiro já se percebe o plot

segunda personalidade. O personagem de Edward Norton é

da continuação, quando o bastão é passado para o seu filho,

apenas o “narrador”. Quem faz as coisas acontecerem mesmo

Michael Corleone (Al Pacino). Dessa vez o contraste dá espaço

é Tyler Durden (Brad Pitt), que o faz enxergar a vida de uma

à afinidade que ele acaba criando com o pai, que tanto foi

forma muito mais intensa (e bizarra também, por que não?).

negada no primeiro filme. Diferente protagonista, mesmíssima

Uma pena que nos dois casos o personagem não conseguiu

qualidade (a não ser pelo terceiro filme, que é totalmente

resistir à ambiguidade da própria personalidade.

dispensável... só vale pra ver o Andy Garcia novinho).

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DUPLAS INSEPARÁVEIS MAS E QUANDO O PERSONAGEM PRINCIPAL NÃO É PORTADOR DESTE CONFLITO? AÍ É QUE ENCONTRAMOS AS GRANDES PARCERIAS DO CINEMA. PERSONAGENS QUE NÃO VIVEM UM SEM O OUTRO, COMO O GORDO E O MAGRO, SHERLOCK E WATSON, BATMAN E ROBIN E POR AÍ VAI. SEJA NOS TÍTULOS, NO ENREDO OU NAS PARCERIAS FORA DAS CÂMERAS, É IMPOSSÍVEL PENSAR EM UM SEM LEMBRAR DO OUTRO: C3PO E R2D2: um dos únicos casos em que dois coadjuvantes formam uma dupla inseparável no imaginário popular. Nem sempre o pessoal lembra exatamente dos nomes, mas quando se fala nos robôs de Guerra nas estrelas a versão eletrônica do “Gordo e o Magro” nos vem à mente.

ALFREDO E TOTÓ: aqui entra bem a questão do mestre e do aprendiz, que transforma Cinema Paradiso em um culto ao amor pelos filmes e à amizade sem a barreira da idade. Mesmo com as broncas que Totó levava quando pequeno, é a paixão desses dois personagens pela sétima arte que os une apesar do tempo e da distância.

BONNIE E CLYDE: casal de bandidos que viajava pelo país assaltando bancos, a dupla foi marcada mais pela parceria do que pelo romance. Tiveram um final trágico, mas pelo menos estavam juntos.

EDDIE VALIANT E ROGER RABBIT: infalível parceria entre um coelho animado e um detetive particular com certo trauma de personagens de desenho. Isso e a mistura entre o mundo de carne e osso e o de linhas e tinta são o que tornam Uma cilada para Roger Rabbit um desses filmes inesquecíveis da infância de muita gente. O mau-humor de Vaillant e o nonsense de Roger Rabbit rendem risadas mesmo depois de décadas.

ELLIOT E ET: o que mais emociona em ET não é o “ET, telefone, minha casa”, mas a sinceridade e lealdade da parceria entre Elliot e a criatura extraterrestre. A sinergia e a fatídica separação dos parceiros é o que não nos faz desistir de assistir cada reprise desse filme, já decorado por todos.

HANNIBAL LECTER E CLARICE STARLING: uma das duplas mais incômodas e fascinantes do cinema.O choque iniciado em O silêncio dos inocentes e repetido em Hannibal mostra como um serial killer e uma agente do FBI podem ter afinidades inoportunas em meio a diálogos espetacularese questionamentos que o próprio espectador se flagra fazendo.

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JACK E ROSE: todo mundo sabe que Titanic não é uma história sobre um navio afundando certo? É uma história de amor cultuada até hoje que, por acaso, foi ambientada no desastre do transatlântico. A história do navio todo mundo conhece, foi o amor impossível entre uma passageira da primeira classe, que estava noiva pra salvar o nome da família, e um aventureiro da terceira classe que fez todo mundo chorar e criar filas intermináveis na frente do cinema. Ainda projetou os atores Leonardo Di Caprio e Kate Winslet (que repetiram a parceria 12 anos depois em Foi apenas um sonho).

ISADORA E JOSUÉ: o acaso forçou a convivência dos dois personagens principais de Central do Brasil, mas o carinho apesar das diferenças foi o que cativou muita gente nessa que é uma das mais bemsucedidas produções nacionais.

BUTCH CASSIDY E SUNDANCE KID: mais uma dupla de bandidos (significa?), só que dessa vez mais bemhumorados. Os parceiros viajam até a Colômbia para “otimizar” suas ações. Uma curiosidade: a parceria entre Paul Newman (Butch Cassidy) e Robert Redford (Sundance Kid) foi repetida quatro anos depois em Um Golpe de Mestre.

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MARTIN SCORSESE E ROBERT DE NIRO: apresentados pelo diretor Brian De Palma, Scorsese e De Niro já trabalharam juntos em oito filmes, ao longo de 22 anos. Foram responsáveis por sucessos como Taxi Driver, Touro indomável, Os bons companheiros e Cassino. Desde 1995 os fãs esperam por uma nova parceria, o que, apesar dos constantes rumores, ainda não se tornou realidade. Atualmente Martin Scorsese aposta em uma nova parceria, com Leonardo Di Caprio, que já estrelou quatro filmes do diretor e já foi chamado de “próximo De Niro”.

WOODY ALLEN E DIANE KEATON: casal dentro e fora do set, somam oito filmes juntos. Um deles, vale destacar, Woody Allen escreveu justamente para Diane Keaton: Noivo Neurótico, Noiva Nervosa. Em inglês o título do filme é Annie Hall, um apelido da atriz.

HARRY E SALLY: dos filmes água com açúcar de Tom Hanks e Meg Ryan, esse é sem dúvida o que tem a história mais tocante. A antipatia inicial dos protagonistas não apagou o fato de que eles, como o título em português define, foram feitos um para o outro. Conhecidos que viraram amigos

VINCENT VEGA E JULES WINNFIELD: Talvez o nome não soe tão familiar aos menos fanáticos, mas sempre que se fala em Pulp Fiction as pessoas lembram instantaneamente dos infindáveis e filosóficos diálogos dos personagens de John Travolta e Samuel L. Jackson. Foi graças aos dois que todo mundo aprendeu que o “Quarteirão com Queijo” em Paris é chamado de “Royale with Cheese”, por causa do sistema métrico.

WOODY E BUZZ LIGHTYEAR: mais uma dupla que surgiu da inimizade, dessa vez entre dois brinquedos do filme Toy Story. A inusitada parceria entre um cowboy e um astronauta ainda cativa e emociona aqueles que já deixaram os brinquedos pra trás há algum tempo.

TIM BURTON E JOHNNY DEPP: uma das parcerias mais conhecidas fora das telas. O primeiro filme da dupla foi o clássico da sessão da tarde Edward mãos de tesoura (1990) e de lá pra cá já foram sete filmes com o diretor e o ator. Além do trabalho, os dois são conhecidos por serem grandes amigos. A última produção deles foi Alice no País das Maravilhas (2010).

que, de repente, se tornaram inseparáveis. Tem muita gente por aí que compartilha dessa história.

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Um é pouco, dois é bom... e já dá filme Luciana da Cunha

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