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A GAZETA Vitória (ES), sábado, 04 de junho de 2011

Pensar 11

BIOGRAFIA. Livro revela que Américo Vespúcio tirou proveito da

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amizade com Cristóvão Colombo para inscrever o nome na História

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O anti-herói que inspirou a América

N

Gilvan Ventura é doutor em História pela USP e professor de pósgraduação em História e em Letras da Ufes. gil-ventura@uol.com.br

o dia a dia, nos relacionamos com uma infinidade de instituições, costumes e convenções de modo quase automático, sem atentar para a complexidade por vezes oculta em um gesto, uma imagem ou um vocábulo. Essa é mais ou menos a situação do termo América, empregado para designar uma ampla porção ocidental de terra que se estendedoHemisférioNorteaoSule que abriga muitos países, dentre os quais o Brasil.

Nesse caso, valeria a pena interrogar quantos brasileiros sabemarazãopelaqualoterritório em que habitam possui o nome de América e não de Columbia, porexemplo,umavezqueodescobridordoNovoMundo,como se sabe, foi Cristóvão Colombo. Revelar a trama dos acontecimentosquelevaramocontinente a receber o nome de América, em homenagem ao florentino Américo Vespúcio, é o principal desafio do historiador inglês Felipe Fernández-Armesto no livro “Américo – O homem que deu seu nome ao continente”. Aliando o rigor próprio da literatura acadêmica com uma prosa atraente e ao mesmo tempo repleta de ironia, o autor mergulhanasfontesdisponíveis para o estudo da vida de Américo Vespúcio com o propósito não apenas de reconstituir o

FELIPE FERNÁNDEZ-ARMESTO

AMÉRICO – O HOMEM QUE DEU SEU NOME AO CONTINENTE EDITORA: COMPANHIA DAS LETRAS. 312 PÁGINAS QUANTO: R$ 40, EM MÉDIA

ambiente histórico da Europa no início da Idade Moderna, mas de traçar também a trajetória de um indivíduo que se fez, ao longo da vida, comerciante, navegador, cartógrafo e mago, conforme as circunstâncias. Um dos principais méritos da obra é nos revelar o quanto a História contém, nela mesma, uma grande dose de acaso, de equívocoedeinvenção.Defato, aassociaçãoentreoNovoMundo e Américo Vespúcio não resultou de nenhuma contribuição significativa que este tenha dado às Grandes Navegações, até porque Vespúcio nunca foi umcapitãodenavioexperiente, ao contrário de Colombo. A homenagem a ele prestada se deveu a uma leitura apressada que os sábios de Saint Dié, uma cidadezinha da região da Lorena, fizeram dos relatos de

viagem de Vespúcio, tomando-o como um notável cartógrafo. Atribuir ao Novo Mundo o nome de América foi ideia deles,emboraadecisãotenhadesde então suscitado um vívido debate sobre a quem caberia tamanha honraria, se a Vespúcio mesmo ou a Colombo. Fernández-Armesto é bastante enfático em demonstrar que a atuação de Vespúcio como navegador não comportou nada de excepcional, nem mesmo em termos literários, uma vez que os seus relatos de viagem seguem de perto as narrativas do próprio Colombo, por quem nutria profunda admiração. Ao longo da obra, o biografado desponta como um anti-herói, um oportunista que soube tirar partido da sua amizadepessoalcomColombopara seapresentarcomoumexpoente da arte náutica. Vespúcio teria sido tão hábil em convencer os contemporâneos da sua perícia como cartógrafoqueterminouporiludir até mesmo os sábios de Saint Dié. Nesse sentido, o livro de Fernández-Armesto é um ótimo exemplo de como uma mentirarepetidamilvezesbem pode adquirir, ao fim e ao cabo, o estatuto de verdade.


04_06_2011 1a. PENSAR_ET_Especial Tabloide_11