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ILUSTRAÇÃO DENISRODRIGUES

O Estado de S.Paulo

Quinta-feira,15deOutubrode2009

Questão defamília Nada é mais revelador do perfil dos pais do que a definição da escola do filho


2 I .EDU I Quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

Em busca da escola ideal

Ahoradadecisão VALÉRIA GONÇALVEZ/AE

Adefiniçãodaescolanaqualvãomatricularofilhoéquaseumprocessodeauto-análise dospais,queprecisamterclarezasobreosseusvaloresantesdecomeçarapesquisar Paulo Saldaña Lucas Frasão ESPECIAL PARA O ESTADO

É hora de escolher a escola na qual Valentina, de 5 anos, vai estudar em 2010, na 1ª série do ensino fundamental. A família, que mora em Perdizes, zona oeste, está dividida. A mãe, Mirtes Ladeira, atriz, prefere uma instituição tradicional, que sirva de contraponto ao ambienteliberaldacasa.Omúsico André Namur quer ver a filha numa escola alternativa. Os dois admitem que não impõem muitas regras a Valentina. “Se ela não for para uma escola mais tradicional, ninguém segura”, diz Mirtes. “O colégio tradicional é puxado. Não quero que ela tenha umasériede obrigaçõesdesde já”, contesta André. O casal vive um momento de dúvida comum na maioria das famílias. Poucas decisões têm o poder de moldar o futuro de um filho quanto a escolha da escola. “Ele deixa de ser só seu, começa a sair para o mundo”, diz Neide de Aquino Noffs, coordenadora do curso de Psicopedagogia da Pontifícia Universidade Católica (PUC). Uma boa notícia para os pais de Valentina é que eles acertaram no pontapé inicial desseprocesso.“Ospaisprecisamexplicitarseusvalores antes de fazer a escolha adequada”, afirma Ocimar Alavarse, pedagogo da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). Ele diz que não existe “a escola perfeita”: o que é bom para uma criança pode não ser para outra. “O pai define primeiro sua condiçãoideológicae financeira, depois vai conhecer as escolas.” AreportagemdoEstado ou-

IMPASSE – Mirtes e André

querem linhas diferentes de ensino para Valentina

viu especialistas sobre os perfis básicosdos pais e asescolas mais adequadas a cada um deles. Chegou a três tipos básicos:tradicionais,liberaisereligiosos, que valorizam a formaçãoespiritual.A elesfoiadicionado um perfil em alta, o dos globalizados, adeptos do ensino bilíngue. Mas as famílias, claro, são muito mais comple-

xas do que essa classificação. As escolas também. “As escolas assumem uma tendência, mas nenhuma é só uma coisa”, pondera a educadoraSilviaColello,da Faculdade de Educação da USP. Instituições de todos os perfis querem, de algum modo, transmitir aos alunos valores e conhecimentosúteis para avida pessoal e profissional. Para a ex-secretária estadual da Educação Maria Lucia Vasconcelos, professora do Mackenzie, as famílias não têm como impor seus valores à escola, daí a necessidade de

Perfis familiares ●Tradicional – Pais que valorizam a preparação para o vestibular e a disciplina ● Liberal – Preferem que o

filho tenha formação humanista e pensamento criativo ● Religiosa – Valorizam a

formação moral e espiritual ● Globalizado – Querem que

o filho seja cidadão do mundo, com educação bilíngue

escolherumaadequada aoseu perfil. No embate entre os pais de Valentina, Maria Lucia dá razão a André. “A criança pequena precisa de continuidade. A escola não pode ser muito diferente da casa.” André e Mirtes vão visitar vários colégios da região de Perdizes nos próximos dias. Depois,queremvoltarcomValentina,paraque eladêsuaopinião. A menina só ficou sabendo da polêmica familiar por causa da reportagem. “Ela chorou, não quer de jeito nenhumsairda escolinhade educação infantil”, diz a mãe. ●


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Em busca da escola ideal

Ovalordoscritérios Preçoelocalizaçãopesammuito,masnãobastam;especialistasindicamoqueospais precisamlevaremconsideraçãonasvisitasparaavaliaraqualidadedaescolacomoumtodo Nas visitas para definir a escola dos filhos, as famílias são bombardeadas com informações nem sempre fáceis de interpretar. Normalmente, valor da mensalidade, localização e estrutura física já são levadas em conta na avaliação. Mas quais outros aspectos devem ser observados? O primeiro passo, afirma a professora da Faculdade de Educação da USP MarietaLúcia Nicolau, é tentar definir o perfil da instituição. “As famílias precisam ter uma ideia do currículo para saber os rumos da escola.” É importante entender como o colégio equilibraatividades dentro e fora da sala. “A brincadeira é muito importante nos primeiros anos. O foco não pode ser apenas na alfabetização.” “Analisar como a instituição valoriza conhecimentos e a socialização dos alunos é decisivo para entender a proposta pedagógica”, afirma Silvia Colello,professoradaFaculdade de Educação da USP. Ela sugere aos pais que perguntem sobre o modelo de avaliação e os tipos de punição aplicados em caso de indisciplina. As visitas permitem ainda aos pais conhecer outros estudantes e suas famílias. “O ambiente é fundamental, porque a criança procura espelhos, tanto nos colegas quanto nos adultos”,dizaex-secretáriaestadual de Educação Maria Lucia Vasconcelos, professora da Universidade Mackenzie. Outra dica é pedir à direção que mostre trabalhos de alunos. “Isso dá uma ideia do que é desenvolvido pelos professores em sala e de como são feitas as correções”, afirma Neide de Aquino Noffs, educadora da PUC. Um caderno que só

Sete passos antes da matrícula

Prós e contras de usar o Enem

Oquevocê tem de saber sobre aescola parasedecidir

1

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Obolso Pergunte sobre valor da mensalidade, taxa de matrícula, custo de uniformes, material didático, cursos extras e passeios

Projetopedagógico Pergunte sobre o método de ensino, material didático, número de alunos por sala e sistema de avaliação. Veja se a direção explica com clareza o projetopedagógico. Peça para ver trabalhos de alunos já matriculados

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4

5

Estrutura Confira a disposiçãoe tamanho das salas de aula, qualidade dos laboratórios, biblioteca, pátio, banheiros, quadras e piscina

Organização Analise calendário, normas disciplinares, a relação com as famílias e a programação de reuniões, festas e outros eventos

reproduz anotações do quadro negro pode indicar falta de espaço para discussão. Além das características pedagógicas, há outras duas questões preponderantes: localização e preço. Segundo especialistas, a facilidade de

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Localização Calcule a distância e o tempo do percurso, veja como é o acesso ao local, pergunte se há transporte escolare quem faz o serviço

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Segurança Verifiqueo esquema de segurança,como é o entorno da escola, se janelas e escadas têm proteção e se a manutenção de brinquedos e demais equipamentos está em dia. Confira se a enfermaria é bem equipada

Recursoshumanos Pergunte sobre a formação dos professores (um dos indicadores de qualidade mais importantes é o número de docentes com pós-graduação), se há coordenador pedagógico na escola e sobre o número total de funcionários

acesso pesa, especialmente numa cidade de trânsito caótico como São Paulo, mas não pode determinar a escolha. Quanto à mensalidade, os pais têm de levar em consideração que ela é apenas parte do custo da escola. “Em vez de

uma comparação simples, é precisoobservararelaçãocusto-benefício”, diz Silvia. Uma escola mais cara que oferece bons cursos de inglês e música sem cobrança adicional pode sair mais em conta que outra de mensalidade menor.

●●● Educadores consideram o ranking do Enem um critério importante para a escolha da escola. Apesar de avaliar alunos do ensino médio – e não o colégio –, o Enem pode ser considerado um bom indicador de toda a educação básica, diz Neide Noffs, da PUC. “A boa colocação não ocorre por acaso. Mostra, ao menos, que a instituição é organizada.” Ou seja, os pais devem fugir das escolas com desempenho abaixo da média. Mas o Enem também provoca distorções. Um colégio eficiente que recebe alunos menos preparados tende a se sair pior que escolas ruins com clientela privilegiada. Isso ocorre porque o exame não mostra como o aluno chegou à instituição, só como ele saiu. Para Cipriano Luckesi,daUniversidadeFederal da Bahia, usar a nota como parâmetro é algo limitado, que só funciona na ausência de outros indicadores. “É um ranking feito de uma única prova.” Ocimar Alavarse, professor da USP, concorda. “É um exame padronizado, que não avalia todos os componentes da formação escolar.” ●

O ideal é conhecer as escolas em dias normais de funcionamento. Antes de os pais bateremomartelo,érecomendável fazer outra visita, dessa vez com o filho. ● PAULO SALDAÑA e LUCAS FRASÃO, ESPECIAL PARA O ESTADO


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Em busca da escola ideal

Quandoéprecisomudar Paisprecisamtersensibilidadeparaadmitirquefizeramaescolhaerrada;énecessárioficar atentoasinaiscomonotasbaixas,insegurançaedificuldadederelacionamentocomcolegas TIAGO QUEIROZ/AE

Marina Craveiro, de 19 anos, mudou de escola quatro vezes antes de se formar no Colégio Santo Américo, no Morumbi, zona sul. Seu irmão Pedro, de 26, trocou só uma vez, mas teve de passar por um complicado processo de adaptação. Os pais, Américo e Maria Isabel Lima Craveiro, aprenderam na prática como é difícil escolher escola para os filhos – e o quanto é complicado mudar depois. Apesar disso, Maria Isabel acha que o processo valeu a pena. “Antes de qualquer coisa, é um aprendizado para os pais. Mesmo quando fazemos a opção que não é a ideal.” A psicopedagoga Ana Luiza Borba acompanha há 25 anoscasosdecriançasqueprecisam mudar de colégio. Ela diz que não existe escola ideal se o adulto não entender as necessidades do filho. “Às vezes, os pais mudam o filho de escola primeiro para depois ver se o aprendizado melhora. Não analisam a fundo a situação.” ORGANIZAÇÃO

Ana lembra-se de um caso em que os pais, formados em um colégio tradicional, colocaram o filho numa escola alternativa porque não tinham gostado da sua própria experiência. “O garoto era inteligente, mas se perdia porque a escola alternativa não proporcionava senso de organização. Quando mudou para um ambiente mais organizado, o menino começou a ir bem.” A decoradora de interiores Rosana Santana fez o caminho inverso com o filho Gabriel, de 22 anos, que mudou de uma escola tradicional para outra mais liberal. Gabriel começou a ter problemas quando estava na 2ª série do

‘APRENDIZADO’ – Américo

e Maria Isabel mudaram filhos de escola 5 vezes

ensino fundamental. “Ele ficou inseguro e com dificuldadedeserelacionarcom osamigos”,conta Rosana, que recorreu a uma terapia. Logo no primeiro mês, ficou claro que o problema era a escola. “Com orientaçãoprofissional,enxergamos. Não temos parâmetros para identificar problemas sozinhos”, diz Rosana. Os casos de problemas no

aprendizado por inadequação ao perfil do colégio são frequentes. Nívea Maria de Carvalho está acostumada a receber crianças de outras escolas no Graphein, colégio que dirige. Elas representam cerca de 80% dos 80 alunos da escola, que fica em Perdizes. Alguns desses estudantes transferidos têm algum tipo de déficit de atenção. Por isso, o Graphein desenvolve projetos de ensino individuais, montados a partir dos interesses de cada aluno. “Quem gosta de culinária, por exemplo, poderá ter uma aula de matemática ao fracionar pedaços de pizza”,

diz Nívea, que teve de criar uma nova disciplina no último semestre porque pelo menos três alunos mostraram interesse em design gráfico.

Decoradora buscouapoio profissional:‘Não tinhaparâmetros’ Nem sempre desempenho escolar ruim é sinônimo de falta de adaptação aoestilo da escola. Mas os pais têm de ficar atentos. Para Ana Luiza Borba, não é difícil perceber quan-

do o filho precisa, realmente, mudar de colégio. “A criança se torna infeliz e mostra isso claramente. Às vezes, até verbaliza”, afirma. “Passa a não mostrar vontade de ir à escola, mesmo em atividades sociais de fim de semana.” Emoutrocaso queacompanhou, a psicopedagoga conta que o filho mostrou que precisava mudar de colégio. “O pai não captou a mensagem, não. Para ele, era uma questão de honra. Nesse caso, precisamos respeitar as vontades. A questão é delicada.” ● LUCAS FRASÃO e PAULO SALDAÑA, ESPECIAL PARA O ESTADO


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Em busca da escola ideal

CENTRO

Opesodatradição JOSÉ PATRICIO/AE

Isis Brum ESPECIAL PARA O ESTADO

Para ajudar os pais a decidirem onde matricular os filhos, o Estado ouviu depoimentos de ex-alunos de dez escolas de cadaregiãodeSãoPaulo,escolhidas com base no ranking do Enem 2008. A intenção foi traçar um quadro da oferta de educação na cidade que alie duas características, qualidade e localização, valorizadas pela maioria das famílias. Quanto aos ex-alunos, a maioria deles indicados pelas própriasescolas, a intençãofoi entrevistar pessoas de diferentes perfis: universitários, jovensbem-sucedidos nacarreira e profissionais de renome. Nesta última categoria está o ex-reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Carlos Henrique de Brito Cruz, de 52 anos, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), uma das maiores agências de financiamento da ciência do País. Ele estudou no Colégio Dante Alighieri, em Cerqueira César. Foi lá que o interesse de infânciaportemascientíficoscomeçou a virar coisa séria. “O professor Wilson Tucci, umfísico,apoiavamuitoosalunos. No 2º ano aceitou dar, de graça,duashoras amaisdeaula sobre física moderna para mim e mais quatro ou cinco alunos”, diz o cientista. “Então, naquela época, eu já estudava física quântica, teoria da relatividade e teoria atômica.” Brito Cruz considera a passagem pelo Dante fundamental na sua carreira. “Serviu de base para tudo que aprendi na universidade e para as pesquisas que faço até hoje”, diz. “Tive acesso a uma educação de muito boa qualidade, exigen-

lificaçãodosprofessoreseoespaço físico também eram muito bons. Já visitei mais de 900 escolas dando palestras e posso garantir que o ensino lá no Rio Branco é de ponta.” MACKENZIE

Outra instituição tradicional da região é o Mackenzie, fundado em 1870 por presbiterianos, que ajudou Débora Morf, de 18, a entrar no curso de Química da USP no último vestibulardaFuvest.Déboramorava em Natal (RN) e optou pelo Mackenzie depois de muita pesquisa. Evangélica, tinha preferência por uma escola comtradiçãoreligiosa.“Nãotínhamos ensino religioso. Mas as aulas de ética abriam espaço para a reflexão sobre temas como homossexualismo e gravidez na adolescência”, conta. “É uma escola que preza pela formação ética, que te permite refletir sobre o mundo de-

Universitária elogia ambiente ‘adulto’ de escola técnica da Luz BRITO CRUZ – Aulas extras

de física quântica com professor do Dante

te,quecriavaoportunidadepara os alunos: íamos ao teatro, ao cinema. Olhando para trás – porque na época eu não tinha essa consciência –, o que faz uma escola ser boa é ter alunos capazes de aprender em um ambiente estimulante.” Um dos dez melhores colégiosda região central segundo o Enem, o Dante ocupa o 29º lugar no ranking paulistano.

Está exatamente no meio de outros dois colégios tradicionais, o São Luís (28º) e o Rio Branco (30º). CalourodeEngenharia Mecânica da Escola Politécnica da USP, Matheus Ferraz, de 18 anos, ainda tem as lembranças do São Luís frescas na memória. “Se não tivesse estudado lá, provavelmente não teria conseguido entrar na Poli. O colégio prepara muito bem os estudantes,nãosóparaovestibular,masparaavida”,dizMatheus. “Da 6ª à 8ª série, o São Luís está bem mais preocupado com a formação dos alunos. A gente teve aula de história

clássica. Os vestibulares não cobram mais isso, mas enriquece a formação. Também tivemos aula de artes até o 1º ano do ensino médio. Estudamosdosclássicosaomodernismo brasileiro, de Da Vinci a Tarsila do Amaral.” Escritor de livros infantis, Jonas Ribeiro, de 39, estudou no Rio Branco e também elogia a formação clássica que recebeu. Diz que o gosto pela leitura foi incentivado no colégio. “O acervo da biblioteca era muito variado. Li Camões, muita poesia. E eles sempre mantinham os lançamentos emevidência”, afirma. “A qua-

pois de sair dela. Evita que você seja um alienado.” Os valores religiosos também são citados pelo técnico de handebol Sergio Hortelan, de 45, como um dos diferenciais do Colégio Marista Nossa Senhora da Glória, no Cambuci. “Ele valoriza o fortalecimento da família.” Hortelan entrou no colégio como bolsista, por sugestão do professor de Educação Física Ricardo Faro,queo tinhavisto jogando handebol pelo Corinthians. “Se não fosse isso, não seguiria carreira”, diz Hortelan, que disputou uma Olimpíada e nove Mundiais como atleta e


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Em busca da escola ideal

ZONA NORTE

Públicanotopo Isis Brum ESPECIAL PARA O ESTADO

Aos 14 anos, Tânia Cossentino era uma excelente aluna de matemática. Ela se destacava tanto na classe que os professores recomendaram que cursasse o ensino médio na EscolaTécnica FederaldeSãoPaulo, no Canindé. Tânia ficou em dúvida. O curso, profissionalizante, tinha foco na formação de técnicos industriais em áreas como mecânica e eletroeletrônica.Agarota nãosabia se aquele era o rumo que queria para a sua vida, mas topou o desafio. Hoje, aos 44 anos, é presidente da Schneider Eletric Brasil, multinacional francesa especializada em gestãodeenergia,equipamentos e serviços para distribuição de eletricidade e automaçãoindustrial.“Lá, eu meapaixonei pela minha profissão.” A escola foi rebatizada para Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP), mas manteve o padrão da época em que Tânia estudou lá, de 1980 a

1983. Líder no Enem 2008 na zona norte, o IFSP é o 4º colégioda capital noranking e está entreos dezprimeirosdoEstado. Desempenho que Tânia atribui à qualidade dos professores. “Eles são os profissionais que você quer ser”, afirma. Dos 304 docentes do instituto, 102 têm algum tipo de especialização, 110 são mestres e 43, doutores. Outros dois professores têm pós-doutorado.

Colégio tem 257 professores com especialização ou pós-graduação O IFSP teve grande vantagemnacomparaçãocomasdemais escolas da zona norte no Enem. Está 54 posições acima dasegundacolocada–oObjetivo Cantareira – e a 134 da 10ª, o Colégio São Teodoro de Nossa Senhora de Sion, na Vila Maria Alta. A zona norte, aliás, é um caso único em São Paulo. Dos10melhorescolégiosdaregião no ranking do Enem, 3 es-

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Os professores são o tipo de profissional que você quer ser. Lá eu me apaixonei pela profissão”

tão fora da lista dos 100 melhores da capital e 2 não figuram entreos400melhoresdoEstado. Mas outros fatores pesam na escolha das escolas, como custo, que é o mais baixo da cidade (veja arte), localização, valores religiosos e culturais. IMIGRANTES

Filho de alemães, Ricardo Anselment, de 42 anos, entrou no Colégio Imperatriz LeopoldiTânia Cossentino, executiva de na, em Santana, aos 7 e só saiu multinacional, ex-aluna do IFSP de lá depois de se formar no ensino médio. A escola foi fundada em 1923 por conterrâneos de seus pais e se manteve fiel às tradições germânicas. O aprendizado do alemão, por exemplo, é obrigatório. Engenheiro metalúrgico comMBAemestradopelaUniversidade Federal de São Carlos, Anselment é gerente de Ricardo Anselment, ex-aluno fundição da Voith, empresa do Imperatriz Leopoldina alemãdetecnologiadefabricação de papel, equipamentos parausinashidrelétricaseserviços industriais. “Saber bem alemãofeztodaa diferençapara mim”, diz, referindo-se à sua trajetória na Voith.

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Saber bem alemão fez toda a diferença para mim”

Para o sonoplasta de teatro infantil Rui de Carlos Carvalho Junior, de 32 anos, o que contou foi a formação religiosa do colégio de freiras Santa Lúcia Filippini, na Freguesia do Ó. Rui cursou o Santa Lúcia do maternal até o 7º ano do ensino fundamental, época em quedeixouaescolaparatrabalhar. “Quando um homem tem uma base na religião, ele pensa duas vezes para tomar uma decisão”, acredita. “A gente tem duas escolhas: o bem e o mal. O ensino religioso trouxe o fundamento do bem.” Para o pesquisador Luciano Pereira Soares, de 32, a maior herança do Colégio Objetivo Cantareira, onde estudou dos 11 aos 17 anos, foi outra: a informática. Formado em Engenharia da Computação,Lucianodesenvolveatualmente programas para a Petrobras que simulam o comportamento de plataformas de petróleo. “Se não fosse o contato próximo com a informática no colégio, possivelmente eu não teria seguido essa carreira.” ●


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ZONA SUL

Competiçãodeelite CLAYTON DE SOUZA/AE

Lucas Frasão ESPECIAL PARA O ESTADO

Nascido em Seul, na Coreia do Sul, Ji Lee, de 38 anos, é diretormundialde criaçãodo Google Creative Lab, cujo escritório fica a algumas quadras de sua casa, no coração de Manhattan. Mas mesmo depois de cursar a Parsons, escola famosa de design de Nova York, e de chegar ao seu cobiçado cargo no Google, Lee ainda lembra bem do quanto teve de estudar para concluir o ensino médio no tradicional Colégio Bandeirantes, no Paraíso. “É um colégio moderno, de nível acadêmico altíssimo”, diz o executivo,cujospaisaindamoram em São Paulo. Lee orgulha-se de ter saído do Bandeirantes sem repetir de ano, mas acha que o nível de cobrança era exagerado. “Eu nãogostava das duas semanas infernais de prova. Era muita pressão. Sofria tanto com isso que ainda tenho pesadelos de vez em quando”, diz. A rigidez e a qualificação dos professores fazem parte dareceitaquetornouoBandeirantes uma das escolas paulistanas com melhor índice de aprovação de alunos em vestibulares concorridos. Um padrão de competitividade que é, de certa maneira, comum às escolas da zona sul. Os 10 colégios da região mais bem colocados no ranking do Enem 2008 estão entre os 20 melhores de toda a cidade. O Bandeirantes foi o 2º colocado da capital no Enem. O campeão do ranking também fica na zona sul: é o Vértice, do Campo Belo. “O Vértice tem um método de ensino eficiente, direcionado para o vestibular, nada alternativo. Mas eles também não deixavam de trabalhar a responsabilidade so-

cial dos alunos”, define a engenheira de alimentos Renata Andrade, de 27 anos. Ela diz ter aprendido no colégio a ser organizada e concentrada, qualidades que põe em prática hoje quando precisa se atualizar profissionalmente na Vogler, empresa de importação e exportação de alimentos. “O

Diretor mundial do Google lembra da cobrança no Bandeirantes colégio determinou praticamente tudo na minha vida. Atribuoaelea minha segurança e senso de responsabilidade”, diz Renata, formada na Escola de Engenharia Mauá,

onde depois também fez pósgraduação. Ela só não gostava do espaço de lazer do Vértice. “Era muito pequeno.” DETERMINAÇÃO

Nicole Julie Fobe, de 19, aluna do 2º ano de Direito na USP, tem lembranças parecidas comasdeRenatadesuapassagem pelo Colégio Stockler, no Brooklin. Nicole concluiu lá partedoensinomédio,transferida do Porto Seguro, no Morumbi. Entrou em 38º lugar na USP, sem fazer cursinho prévestibular. “No Stockler, eles têm uma visão de que ou você passa no vestibular, ou passa no vestibular. Não tem escolha. Quem gosta de artes e direitos humanos, por exemplo, tem de estudar em outro colégio. Não no Stockler.”

Nicole admite ter sido um poucoradicalantesdovestibular. Costumava estudar nos fins de semana e nas férias. Às vezes, acordava de madrugadaparaseprepararmelhorpara as provas. “A cobrança é altaeataxa derepetência,considerável. Mas acho que, no fim, valeuapena.Elesme transformaram em uma pessoa muito determinada”,dizauniversitária, que já começou seu projeto de iniciação científica na USP e à tarde faz estágio com umprofessordaFundação Getúlio Vargas em pesquisas sobre Direito e Economia. Como Nicole, Laura Camargo, de 19, passou no vestibular paraEconomiada USPsem fazer cursinho. Ela também menciona a disciplina rígida como uma das características

GRATIDÃO – Renata diz

que o Vértice fez dela uma profissional equilibrada

do Colégio Móbile, na Vila NovaConceição.“Sevocêchegasse 5 minutos atrasado para a aula, o professor não deixava entrar na sala. Achava isso um exagero”, diz. “Mas eles tambémtentam desenvolvera formação cultural dos alunos.” Na vida profissional, o primeiroaspectoqueodiretorpara o Brasil da Emirates Airlines, Ralf Aasmaan, de 43, destaca de sua passagem pelo Colégio Humboldt, em Interlagos, é o ensino bilíngue. Aasmaan usa muito o alemão aprendido no Humboldt em


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ZONA OESTE

Redutohumanista ALEXANDRE ERMEL/ DIVULGAÇÃO

Paulo Saldaña ESPECIAL PARA O ESTADO

Foi um professor dos tempos de escola um dos responsáveis por despertar o interesse de Fernando Meirelles pela linguagem e pelo cinema. Aos 54 anos, o diretor de Cidade de Deus e Ensaio sobre a Cegueira éum dos ex-alunos famosos do Colégio Santa Cruz, no Alto de Pinheiros.“Oprofessordeliteratura,quese chamavaAmauri Sanchez, dava suas aulas com paixão, revelava o que havia escondido por trás das palavras”, diz Meirelles. O Santa Cruz, fundado em 1952, teve o melhor desempenho no Enem na zona oeste – as 10 melhores escolas da região estão entre as 40 primeiras do ranking na capital. Nesse grupo de elite, o Santa também é o maior em número de estudantes: são 3 mil, divididos entre os ensinos infantil, fundamental e médio. Meirellesestudounocolégio da 5ª série do ensino fundamental até o fim do ensino médio. Depois, cursou Arquitetura na USP e trabalhou como publicitário antes de enveredar pelo cinema. Indicado ao Oscar de melhor diretor por Cidade de Deus, ele diz que o colégioteve umpapelmarcante na sua trajetória pela qualidadedosprofessoresepelaênfase na formação humanista. “Lia-se muito. Este hábito trago na minha vida até hoje.” Ex-aluno do Colégio Albert Sabin, no Rio Pequeno, Gabriel Landi Fazzio tem idade paraserfilhodeMeirelles,apenas 18 anos. Mas também considera marcante a passagem pelo colégio. “No Sabin eles têm uma visão que não se limita ao institucional. Sentia que eles estavam sempre perto do aluno, numa relação de amiza-

MEIRELLES – Professor do

Santa Cruz despertou interesse pela linguagem

de. Você aprendia muito também fora da sala de aula.” Gabriel pretendia inicialmente fazer graduação em Jornalismo ou Letras. Mas interessou-sepeloDireitonosfóruns de profissões promovidos pelo colégio. Sem passar pelo cursinho, entrou este ano na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, da USP. “A escola sempre se preocupou em ajudar na escolha da carreira e mostrar o lado bom e o ruim de cada uma delas.”

A publicitária Caroline Freire, de 34 anos, também terminou o ensino médio e entrou, direto, numa boa faculdade. Ex-aluna do Colégio Palmares,em Pinheiros– o2ºmelhor da região no Enem, uma posição à frente do Sabin –, Caroline formou-se na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e trabalha na agência Almap/BBDO. “O colégio é muito bom em termosdepassarconteúdo,conhecimento, e faz o aluno aprender.”Apesarda boaavaliação, Caroline não pretende matricular no Palmares a filha Elisa, de 5 anos. “Não concordo com a filosofia da escola”, diz. “É muito rígida.” Eric Outi Costa, de 23, estu-

dou no Palmares e, ao contrário de Elisa, não tem queixas da escola. Mas acredita que a decisão de mudar de colégio lhe abriu novas perspectivas profissionais. Eric se transfe-

Escola do Futuro abriu portas para diploma nos EUA, afirma executivo riu para a Escola doFuturo, no Jaguaré, porque o diploma do colégioéaceitoporuniversidades dos Estados Unidos sem a necessidade de validação. Depois de concluir o ensino médio, ele nem precisou fazer o Toefl, teste de proficiência em

língua inglesa exigido de alunos de fora dos EUA. “A passagem pela Escola do Futuro permitiu que eu saísse para a graduação nos Estados Unidos. Aliás, na época, o pessoal do colégio fez até o contato com a instituição de lá”, diz Eric, que se diplomou em Administração na Universidade de Liberty, na Virgínia, voltou ao Brasil e trabalha como analista financeirode umaempresa de internet. “O que também me marcou na Escola do Futuro foi a formação como cidadão. O colégio era pequeno e todo mundo se conhecia.” Graduado em AdministraçãopelaPUCdeSãoPaulo,Rodrigo Sant’Anna, de 33 anos, se deu conta da importância


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Em busca da escola ideal

ZONA LESTE

Herançatécnica CLAYTON DE SOUZA/AE

Arthur Guimarães ESPECIAL PARA O ESTADO

Aos 18 anos, Evandro Fernandes estava num impasse. Precisava decidir se continuava no departamento de engarrafamentodaCervejariaAntarctica ou se deixava o emprego recém-conquistado para fazer um curso técnico, que tinha aulas em período integral duas vezes por semana. Percebeuque poderia conciliaras duas coisas quando passou na seleção do curso de mecânica da Escola Técnica (Etec) Walter Belian, na Mooca. A unidade havia sido criada nos anos 40 e mantida por décadaspelaprópriaAntarctica. Evandro teve a boa vontade da empresa e da escola e conseguiu fundir as jornadas, a profissional e a escolar. “Passei a unir teoria e prática. Sem a ajuda dos professores, dificilmente teria conseguido progredir na fábrica”, conta Evandro, hoje com 37 anos, gerente de aplicações mecânicas da fabricante de máquinas Rivaltec. “A equipe

CALOURO DA MEDICINA –

Gustavo: lições de disciplina no Mendel

tinha educadores sérios, eram até autores de livros teóricos conhecidos. E a escola tinha equipamentos muito bons, como máquinas de usinagem.” A fábrica da Antarctica na Mooca já não funciona mais e muitas indústrias deixaram a zonaleste. Masoensinoprofissionalizante ainda é uma marca da região. Das dez unidades mais bem avaliadas no Enem, três são escolas técnicas, como a Walter Belian e a Etec Camargo Aranha, na Mooca. Foi na Camargo Aranha que Evelin Rodrigues Pereira, de 25 anos, estudou contabilidade de 1999 a 2001. “Como só entra gente mais qualificada, por conta do processo seletivo, a maioria dos colegas está no mercado de trabalho. Hoje tenho amigos em tudo o que é lugar. Dou aula de graduação numa faculdade (a Fundação


Estadao educacao