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INVENTANDO HISTÓRIA

O gênio gaúcho das máquinas voadoras A música que honra parte da história do Rio Grande do Sul escondida na cidade de Pelotas

“Satolep noite, no meio de uma guerra civil...”

Assim inicia um dos maiores sucessos da carreira do músico Vitor Ramil. A Narrativa conta a história de Joquim, o louco de chapéu azul que passava muito frio e lutava pelo sonho de ter seu próprio avião. Na canção, o inventor de projetos fantásticos estampava no peito seus ideais e morreu por eles. Após enfrentar poderosos da política na década de 1930, gritando aos quatro cantos suas teorias em meio à repressão – pois seu projeto fora recusado para beneficiar figurões anônimos – foi assassinado com quatro tiros em uma emboscada. Mas nem todos conhecem o Joquim da vida real. Nasceu em Pelotas – que escrita de trás para frente torna-se a cidade fictícia Satolep, de Ramil – no ano de 1909. Seu nome era Joaquim da Costa Fonseca Filho. A casa em frente ao Theatro Guarany, onde cresceu, ainda existe no número 516 da Rua Gonçalves Chaves, no centro da cidade. E foi no porão que a oficina foi montada e seus aviões criaram vida. Da sua descendência, aos 62 anos, é Joaquim da Costa Fonseca Neto quem guarda as memórias e fotografias. Hoje administra a fábrica de surdinas Guarany, fundada pelo pai. Não era o sonho de Joquim, mas foi o que aconteceu após ser impedido de produzir os aviões. Muita semelhança existe entre a realidade e a canção. Mas a arte não se chamaria arte se fosse uma cópia exata da verdade. Alguns realmente o julgavam louco. Na década de 1930, quem declararia sano um homem de 26 anos na intenção de construir, sozinho, um avião? O chapéu azul é fictício, mas a fraqueza perante o frio pelotense não é. Sempre com muitas roupas e muitas cobertas, Joquim via no inverno um inimigo invisível, assim como descreve a música. Com apenas a quinta série do primário, ninguém entendia o dom para invenções de Joquim. “Ele nasceu assim. Tem pessoas que nascem assim. Quando construiu o primeiro avião, tinha 26 anos de idade. De dia ele trabalhava numa oficina de carros. À


noite, construía o avião. Fazia os cálculos do jeito dele e sem recurso”, conta o filho. “Com 20 anos ele fez uma lancha. Ele fazia tudo. Nos anos 1930 pegou um carro, cortou ao meio e criou um ônibus. Na minha juventude eu andava no carro. Um dia eu perdi a chave da tampa do tanque. Eu disse pra pegar uma tampa nova e ele disse ‘não, vamos fazer uma chave’. Ele pegou uma chapinha de cobre, uma lima e começou a desenhar os dentes e fez a chave. Ele era muito teimoso, tudo ele queria fazer.” Em 1935 atingiu a nau da loucura no mar das ideias. Desenhou seus projetos e do porão nasceu o primeiro avião, batizado de F1. O F1 foi feito para que Joquim descobrisse se teria realmente a capacidade de criar uma máquina voadora. Desfilou pelos céus locais, brilhando aos olhos dos incrédulos. Percebendo sua capacidade, deu o próximo passo. Com projeto mais elaborado, desmontou o F1 para dar vida ao F2, que teria espaço para duas pessoas. Com o F2 montado, foi buscar homologação do avião no Rio de Janeiro. Sua esposa teve de ir de navio, pois não existia autorização para que houvesse um passageiro extra no avião. Em uma viagem que durou quatro horas, incluindo escalas, Joquim chegou ao Rio de Janeiro em voo perfeito. Todos os testes foram feitos, e o avião foi aprovado. Com homologação, voltou com a esposa – dessa vez como passageira do F2 – para Pelotas.

O PROJETO MAIS AMBICIOSO

O sonho do pelotense com ideias malucas seguiu em frente com o projeto do F3, um avião para ser feito em tiragem industrial e ser colocado no mercado. Na sua busca mais ambiciosa que se encontra o desfecho de história de Joquim e a porta que Vitor Ramil encontrou para torná-lo um revolucionário político na ficção. O filho de Joquim compara o impasse da criação do F3 com os conflitos burocráticos que atrasaram em mais de três décadas a existência do aeromóvel em Porto Alegre. Anos e anos. “A logística brasileira é muito cara, mas tem muita influência externa. ‘Forças ocultas’, como diria Jânio Quadros.” Joquim teve seu projeto recusado e, em 1941, recebeu uma carta em inglês justificando o motivo. “Dizia que os aviões feitos no Brasil não seriam homologados para voar, porque a madeira do Brasil não é própria para isso. Desde aí, ele nunca mais pôde fazer avião. Imagina! A melhor madeira no mundo está no Brasil!”, diz Joaquim. Com o projeto recusado, Joquim começou a abrir a boca contra os governantes e querer explicações sobre os porquês do Brasil não poder fabricar aviões. Algumas


vezes, chegou perto de ser preso por subversão. Conseguiu evitar a cadeia graças a alguns amigos influentes que o ajudaram. Na ficção de Ramil, este foi o motivo da emboscada que matou Joquim com quatro tiros. Na realidade de Joaquim da Costa Fonseca Filho, o desfecho é menos trágico e guarda até hoje um pedaço da memória do Rio Grande do Sul que muitos não conhecem. “Ele resolveu fazer surdinas, porque proibiram de fazer avião, como é proibido até hoje no Brasil”, conta o único filho que continuou na administração da empresa e possui em funcionamento, até hoje, uma das máquinas criadas pelo pai. “Ele viveu uma vida desregrada, sem horário pra nada. Bebia de tudo, comia de tudo e não estava nem aí! Era um homem grande e forte.” Satolep perdeu Joquim em 1968, aos 58 anos. Vítima de um enfarte, o gênio pelotense das máquinas voadoras perdeu o medo do frio e deixou para trás um legado que saiu do interior do Estado para o infinito através do som da música.

BOX

A realidade em meio à poesia de ramil Em destaque, os versos da canção do músico gaúcho Vitor Ramil que foram reais na vida de Joaquim da Costa Fonseca Filho

Satolep noite No meio de uma guerra civil O luar na janela não deixava a baronesa dormir A voz da voz de Caruso ecoava no teatro vazio Aqui nessa hora é que ele nasceu, segundo o que contaram pra mim

Joquim era o mais novo, antes dele havia seis irmãos Cresceu o filho bizarro com o bizarro dom da invenção Louco, Joquim louco. O louco do chapéu azul Todos falavam e todos sabiam quando o cara aprontava mais uma

Muito cedo, ele foi expulso de alguns colégios E jurou: “Nessa lama eu não me afundo mais”


Reformou uma pequena oficina com a grana que ganhara vendendo velhas invenções Levou pra lá seus livros, seus projetos, sua cama e muitas roupas de lã Sempre com frio, fazia de tudo pra matar esse inimigo invisível

A vida ia veloz nessa casa no fim do fundo da América do Sul O gênio e suas máquinas incríveis que nem mesmo Julio Verne sonhou Os olhos do jovem profeta vendo coisas que só ontem fui ver Uma eterna inquietude e virtuosa revolta conduziam o libertário

Dezembro de 1937, uma noite antes de sair Chamou a mulher e os filhos e disse: “Se eu sumir procurem logo por mim” E não sei bem onde foi, só sei que teria gritado a uma pequena multidão “Ao porco tirano e sua lei hedionda, nosso cuspe e o nosso desprezo!” No meio da madrugada, sozinho, ele foi preso por homens estranhos Embarcaram num navio escuro e de manhã foram pra capital Uns dias mais tarde, cansado e com frio, Joquim queria saber onde estava E num ar de cigarros de uns lábios de cobra, ele ouviu: “Estás onde vais morrer”

Jogado numa cela obscura entre o começo do inferno e o fim do céu Foi assim que, depois de muitas histórias, a mulher enfim o encontrou E ele ainda ficou ali por mais dois anos, sempre um homem livre apesar da escravidão As grades, o frio, mas novos projetos, entre eles um avião

O mundo ardia na guerra quando Joquim louco saiu da prisão Os guardas queimaram os projetos e os livros, e ele apenas riu, e se foi Em Satolep alternou o trabalho com longas horas sob o sol Num quarto de vidro, no terraço da casa, lendo Artaud, Rimbaud, Breton

No início dos anos 50 ele sobrevoava o Laranjal Num avião construído apenas das lembranças do que escrevera na prisão E decidido a fazer outros, outros e outros, Joquim foi ao Rio de Janeiro


Aos orgãos certos, os competentes de coisa nenhuma, tirar um licença

O sujeito lá responsável por essas coisas, lhe disse: “Está tudo certo, tudo muito bem O avião é surpreendente, eu já vi, mas a licença não depende só de mim” E a coisa assim ficou por vários meses, o grande tolo lambendo o mofo das gravatas Na luz esquecida das salas de espera, o louco e seu chapéu

Um dia alguém lhe mandou um bilhete decisivo E, claro, não assinou embaixo “Desiste”, estava escrito, “Muitos outros já tentaram e deram com os burros n’água É muito dinheiro, muita pressão, nem Deus conseguiria” E o louco cansado, o gênio humilhado, voou de volta pra casa

No final de longa crise depressiva, ele raspou completamente a cabeça E voltou à velha forma com a força triplicada por tudo o que passou Louco, Joquim louco. O louco do chapéu azul Todos falavam e todos sabiam que o cara não se entregava

Deflagrou uma furiosa campanha de denúncias e protestos contra os poderosos Jogou livros e panfletos do avião, foi implacável em discursos notáveis Uma noite incendiaram sua casa e lhe deram quatro tiros Do meio da rua ele viu as balas chegando lentamente

Os assassinos fugiram num carro que, como eles, nunca se encontrou Joquim cambaleou ferido alguns instantes e acabou caído no meio-fio Ao amigo que veio ajudá-lo, falou: “Me dê apenas mais um tiro por favor Olha pra mim, não há nada mais triste que um homem morrendo de frio”

Joquim, Joquim Nau da loucura no mar das idéias


Joquim, Joquim Quem eram esses canalhas Que vieram acabar contigo?

O gênio gaúcho das máquinas voadoras  
O gênio gaúcho das máquinas voadoras  
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