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ANO 24

Nº 6

tiragem:

18 000 exemplares

Eleição reflete impasses históricos nos Estados Unidos H

illary Clinton e Donald Trump são antípodas em quase todos os grandes temas de política interna e externa. A candidata democrata exprime valores sociais liberais; o republicano é porta-voz do conservadorismo, do ultranacionalismo e do nativismo. Hillary apresentase como herdeira da agenda internacionalista de Barack Obama; Trump, como campeão do neoisolacionismo. A eleição norte-americana reflete uma polarização política cada vez mais aguda. Curiosamente, há uma inversão de papéis. Oito anos atrás, o democrata Obama surgiu como outsider: o candidato que desafiava a ordem política tradicional. Hoje, o Donald Trump (republicano) e Hillary Clinton (democrata) são campeões de rejeição entre os outsider é o republicaeleitores, no quadro de uma disputa que revela os limites e as contradições que desafiam no Trump, enquanto o sistema eleitoral bipartidário Hillary personifica a ordem estabelecida. Contudo, ambos compartilham um marcante traço negativo: são alvos de forte, extensa, inédita aversão popular. A disputa em curso reflete uma crise histórica do sistema político bipartidário dos Estados Unidos. O mapa eleitoral norte-americano foi moldado e remoldado pela história política do país. Em grandes linhas, os democratas têm a supremacia no Norte e na Costa Oeste, enquanto os republicanos controlam o Sul e o Leste. No sistema de Colégio Eleitoral, cerca de uma dúzia de estados decidirão o vencedor. Em tese, as tendências demográficas favorecem Hillary. Contudo, Trump aposta na reversão do voto em alguns estados cruciais da antiga região do Manufacturing Belt. Sua estratégia mira o voto de brancos de baixa renda em áreas economicamente deprimidas. Obama deixa a Casa Branca como um presidente razoavelmente bem-sucedido. Entretanto, sua herança será devastada na hipótese de um triunfo de Trump. Veja as matérias às págs. 6 a 9

Síria foi o túmulo da Primavera Árabe. Quando a repressão do regime de Assad converteu as manifestações pacíficas em guerra civil, a ordem geopolítica abalada do Oriente Médio entrou em colapso. Hoje, mais de cinco anos depois, a guerra síria tornou-se um conflito multidimensional. No seu núcleo, encontra-se a revolta da maioria sunita contra o regime apoiado na minoria alauíta. Mas diversas outras camadas de conflito recobrem esse núcleo. No teatro da guerra síria, as facções rebeldes estendem-se desde grupos secularistas, moderados, até fundamentalistas islâmicos e jihadistas. O vácuo de poder sírio abriu espaço para a instalação do califado do Estado Islâmico. Curdos sírios, apoiados por curdos turcos, controlam a faixa de fronteira com a Turquia. No plano regional, a guerra opõe o Irã, de um lado, à Turquia, Arábia Saudita e Qatar, de outro. Mais amplamente, converteu-se num conflito indireto entre Estados Unidos e Rússia. Pág. 5

© Yuryi Abramoch/RIA Novosti/Sputinik/AFP

Na Síria, uma guerra sem vencedores A

© Time 25.mar.1985

25 anos do fim da URSS

© Gage Skdmore/Flickr/Creative Commons

● Editorial – Segregação social é marca registrada das metrópoles brasileiras, mas não figura nos debates eleitorais. Pág. 3 ● Acordo de paz é ponto de partida de uma transição política e social na Colômbia. Pág. 3 ● O Meio e o Homem – Acordo do Clima deslancha com adesões da China, dos Estados Unidos e do Brasil. Pág. 4 ● Diário de Viagem – Brexit ameaça a estabilidade política na Ilha da Irlanda, dividida entre o Eire e o Ulster. Pág. 10 ● Um quarto de século depois da implosão da União Soviética, Vladimir Putin recoloca Moscou no grande jogo da geopolítica global. Pág. 11 ● Cidades desoladas, fragmentadas em guetos sociais, exigem programas ousados de reinvenção. Pág. 12

OUTUBRO/2016

© Gage Skdmore/Flickr/Creative Commons

E mais...


21º Concurso Nacional de Redação­ Mundo e H&C – 2016

Índice Geral de Mundo – 2016 ocê encontra aqui o índice de tudo o que foi publicado no V boletim Mundo – Geografia e Política Internacional em 2016. Na primeira parte do índice, os assuntos são listados de acordo com o número da edição em que aparecem. Na segunda, o índice é organizado por região geopolítica ou tema. Os números em negrito, fora dos parênteses, indicam o número da edição do boletim; dentro dos parênteses, indicam as páginas. ●

Número 1 – março de 2016 O Meio e o Homem: A dengue e o zika Uma história das pandemias Macri diante da tradição peronista Conflito de poderes na Venezuela Territórios europeus de ultramar Trump e Sanders refletem crise política nos EUA Guerra na Síria espalha refugiados e jihadistas O papa e o patriarca ortodoxo revisitam o Cisma Editorial: Dengue e política Diário de Viagem: A USP há meio século

Número 2 – abril de 2016 A esquerda em declínio na América Latina Barack Obama em Havana Geopolítica da Guiana Francesa Os 30 anos da tragédia de Chernobyl “Petrolão” retarda exploração do pré-sal Candidatos republicanos investem na xenofobia Editorial: O nativismo nos EUA Diário de Viagem: Andaluzia e Marrocos O Meio e o Homem: Energia renovável no Brasil

Número 3 – maio de 2016 Brexit, implosão europeia? A Grã-Bretanha diante da Europa A Escócia diante do Brexit O Peru cindido pelo fujimorismo O peronismo na encruzilhada Coubertin e a ideologia olímpica A guerra síria à sombra do Acordo Sykes-Picot Itália e Brasil: da Mãos Limpas à Lava Jato Editorial: Impeachment e democracia Diário de Viagem: Johannesburg e Cidade do Cabo O Meio e o Homem: Portos e rodovias no Brasil

Número 4 – agosto de 2016 A China em transição e a economia global Projeções africanas do poder chinês Há 50 anos, a Revolução Cultural Muhammad Ali, política e moral Massacre de Orlando reativa polêmica sobre armas Brexit solapa pilar da ordem mundial A Colômbia, na hora da paz A Guerra Civil Espanhola nos livros e películas Editorial: Os nativistas, dos dois lados do Atlântico Diário de Viagem: Dresden, Alemanha

Número 5 – setembro de 2016 Impeachment indica colapso da “Nova República” Brasil retrocede na indústria e no comércio exterior A militarização do regime venezuelano O Mercosul em vias de implosão Terrorismo: a hora do “lobo solitário” Na Turquia, o contragolpe de Erdogan A Guerra do Contestado, um século depois Editorial: Democracia e ditadura na Turquia Diário de Viagem: Ucrânia O Meio e o Homem: Frentes pioneiras no Brasil

● O Mapa de Mundo Globalização – 1:(8) 4:(3) Geopolítica – 1:(3-9) EUA e Canadá – 1:(10) 2:(3) 4:(4-5) 6:(6-7-8-9) Europa Ocidental – 3:(6-7-8-9-12) 4:(11-12) 6:(10) CEI e Europa Oriental – 2:(5) 5:(2) 6:(11) Oriente e Pacífico – 4:(6-7-8-9-10) Oriente Médio – 1:(12) 3:(11) 5:(3-10-11) 6:(5) América Latina – 1:(4-5) 2:(4-6-7-8-9) 3:(3-4) 4:(3) 5:(4-5) 6:(3) África Subsaariana – 3:(5) Brasil – 1:(3-6-11) 2:(10-11) 3:(2-3) 5:(3-6-7-8-9-12) 6:(3-12) Ciência e Cultura – 1:(7) 2:(12) 3:(10) 4:(2) Meio Ambiente – 6:(4)

Em seu 21º ano, a Comissão Julgadora recebeu 202 trabalhos, em sua imensa maioria escolhidos em concursos internos nas escolas. Isso significa que o universo geral de alunos participantes foi muito maior e ajuda a explicar o ótimo nível dos trabalhos. A seguir, publicamos a relação dos dez primeiros colocados e o texto vencedor, comentado pela professora Flora Christina Bender Garcia e José Ruy Lozano. Aos alunos participantes, professores e escolas, nossos parabéns!

Conheça os vencedores

Nome do aluno

Colégio

Município

Professor(a)

1º Yan Lopes Goll 2º Lucas Mendes Nunes 3º Talissa L. de Oliveira Terassuka 4º Luís Henrique Barroso Oliveira 5º Vinícius Souto de Sequeira 6º Enzo Bustamente J. Mendonça 7º Adna Lopes Gonçalves 8º Roberto Fleck Becker 9º Sabrina Legaspe Barbosa 10º Bernardo Busch Pinheiro

Col. Fênix Col. Fênix Unicolégio Col. Fênix Col. CAVE Col. Fênix Col. Planeta Col. S. Agostinho “N. Leblon” Col. Externato São João Col. S. Agostinho “N.Leblon”

Pouso Alegre (MG) Pouso Alegre (MG) Araçatuba (SP) Pouso Alegre (MG) Juiz de Fora (MG) Pouso Alegre (MG) Goiânia (GO) Rio de Janeiro (RJ) S. João da Boa Vista (SP) Rio de Janeiro (RJ)

Danieli Francine Ferreira Danieli Francine Ferreira Carlos Eduardo Danieli Francine Ferreira Edmon Neto Danieli Francine Ferreira Guga Valente Liliane Machado Eunice Belo Liliane Machado

■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■

No meio do caminho tinha um preconceito Yan Lopes Goll

J

oão é João. Mas queria ser Bianca. É macho, mas é mulher. Zumbi era escravo. Mas queria ser gente. Era “bem”, mas era “ser”. Bianca vive trancada no corpo de João. Zumbi vivia enjaulado nas senzalas. João, amarrado nos troncos da sociedade, é castigado pelos açoites do preconceito. Zumbi carregava nas costas os gilvazes de ser negro. Zumbi foi dos Palmares; morreu assassinado. Bianca era só mais um “traveco”; morreu assassinada. A coroa inglesa é absolutista como nunca. Faz acender uma corrente de pensadores em que o princípio fundamental é a razão. Nasce o Iluminismo. Com intelectos iluminados, americanos declaram independência; haitianos e franceses fazem revoluções. Com Liberdade, Igualdade e Fraternidade, a escravidão passa a se dissolver. Cessa a formação de novos zumbis. Mas o universo vive num Solve et coagula. Expande-se e retrai. E, com a sociedade, não é diferente. Retrai-se ao conservadorismo escuro e passa a odiar aqueles em que a peça biológica não se encaixa na psicológica, cujos sexos e gêneros são imiscíveis como água e óleo. Desses “desiguais”, filtram a liberdade, destilam o afeto das relações – não há mais fraternidade. Na escravidão, morria-se por ser um “objeto” negro. Hoje, morre-se por aceitar a identidade de gênero. No período colonial, muitos zumbis morreram. No Brasil de hoje, morrem mais travestis e transexuais que em qualquer outro lugar do mundo. Na escravidão, as correntes de ferro prendiam humanos; tornaram-nos bestas, objetos. Hoje, o preconceito amarra gêneros em corpos biológicos, faz do físico uma prisão do psíquico. Se não ceifa as vidas dos transexuais, a intolerância isola-os do mundo. Grande parte dos transgêneros são jogados ao léu na sociedade, fazendo de atividades perigosas, como a prostituição, a fonte da energia vital. Deles, desviam as oportunidades e são magneticamente atraídos o desemprego e a marginalização social. Para a população trans, não há “delícia de ser o que é”, só dor. E, seguindo seu fluxo eterno, o universo se expande e ilumina por lentes translúcidas os antros da intolerância. Ainda que tenro, o feminismo e movimentos LGBT brotam o gérmen da esperança. Os transgêneros veem de suas prisões veladas a parca luz da tolerância. Num processo catalisado pela disseminação das redes sociais, a indignação com o

MUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDO

status quo vigente cria uma camada social que passa a lutar contra as correntes que prendem os trans. Mas a camada é superficial, e as correntes são de ferro. Intransponíveis às “armas” desse novo movimento – as palavras e os protestos. Os senhores de engenho da atualidade, com a Bíblia numa mão, manipulam com a outra a Constituição, apertando as amarras, apostolando troncos. E, na dissolução e na coagulação do preconceito, os transexuais seguem seu caminho. Como no poema de Drummond, no meio dele há uma pedra – intolerância. E resistem como Zumbi resistiu no Quilombo dos Palmares. E são assassinados como Zumbi foi, mas continuam com sua essência encarcerada na carne, de um corpo arraigado nas teias delicadamente tecidas pelos fios da intransigência. Condenados por cromossomos x e y. E – em suas “vidas de retinas tão fatigadas” – veem, pelas sombras da fogueira na parede da caverna, a emancipação do físico para a plenitude do ser.

Os apartados de seus corpos Flora Bender e José Ruy Lozano

N

ão, Yan. A coroa inglesa não era “mais absolutista do que nunca”. Aliás, a monarquia na Inglaterra nunca foi um exemplo perfeito e acabado de absolutismo. Já no século XIII, a nobreza impôs ao rei João uma carta de direitos que lhe limitava o poder discricionário. [...] Leia a íntegra do comentário crítico em: www.clubemundo.com.br

E X P E D I E N T E PANGEA – Edição e Comercialização de Material Didático LTDA. Redação: Demétrio Magnoli, José Arbex Jr., Nelson Bacic Olic (Cartografia). Jornalista responsável: José Arbex Jr. (MTb 14.779) Revisão: Jaqueline Ogliari Pesquisa iconográfica: Thaisi Lima Projeto e editoração eletrônica: Wladimir Senise Endereço: Rua General Brasílio Taborda, 218, São Paulo – SP CEP 05591-100. Tel/fax: (011) 3726.4069 / 2506.4332 E-mail: pangea@uol.com.br – www.facebook.com/JornalMundo

2016 OUTUBRO




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O

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A

L

O direito à cidade

O

arquiteto chileno

Alejandro Aravena,

histórica da nação brasileira.

Fronteiras

espaciais

Da “esquerda”

à

“direita”,

os candidatos a

reconhecido por projetos de habitação

marcadas separam as classes sociais nas nossas me-

prefeito parecem encarar a metrópole de guetos

América Latina, fulminou o programa federal brasileiro “Minha Casa Minha Vida”: “Essa formulação ideológica de que ‘sua casa é sua vida’ não é verdadeira. Sua vida é a quantidade de oportunidades de trabalho, educação, transporte, lazer.” De fato, a vida é a cidade – ou melhor, o direito à cidade. As metrópoles brasileiras, contudo, são o contrário da vida. Na raiz da desolação de nossas cidades encontrase a segregação socioespacial. O “Minha Casa Minha Vida” só a reforça, ao erguer habitações sociais nos anéis periféricos, em áreas distantes das regiões centrais. O padrão segregador que norteou o cresci-

trópoles. O fenômeno se verifica em pequena escala

como um dado da natureza, não como um pro-

mento das grandes cidades reflete a formação

problema inexistisse.

social na

(ou

seja, no conjunto territorial metropolitano)

duto histórico e social que pode ser modificado.

e também em grande escala (ou seja, no nível dos

Fala-se

bairros).

sob o pararadigma do

No

lugar dos guetos étnicos típicos de

muito de habitação social

mas sempre

casa... no fim do

metrópoles norte-americanas, temos guetos defi-

mundo”.

nidos pela renda.

os candidatos ignoram a necessidade de uma

Essa cidade de guetos sociais é estruturalmente violenta. De um lado, habitações muradas e vias públicas sob a vigilância da segurança privada. De outro, periferias carentes de áreas de lazer, muitas

reforma urbana destinada a amenizar os padrões

vezes entregues ao crime organizado ou à pequena

direção do entrelaçamento de classes sociais no

criminalidade cotidiana. Isso é a negação dos con-

tecido urbano.

ceitos conexos de cidade e cidadania.

Barcelona fez isso na recuperação de sua faixa portuária. Mas a elite política brasileira prefere reiterar nosso passado. Até quando?

E, contudo,

nas campanhas municipais, tudo se passa como se o

Sem

“minha

nenhuma exceção digna de nota,

históricos de segregação social. cionam

raramente

Quando

men-

propostas de renovação

de áreas centrais degradadas, não investem na

Newton Carlos Da Equipe de Colaboradores

C

om o lema “paz sim, mas não desse jeito”, o ex-presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, lançou-se em oposição ao acordo que o governo assinou com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), a guerrilha mais robusta, mas não a única, no país. A paz negociada em Cuba selou a ruptura de um binômio. Liberais e conservadores se impunham desde o século XVIII. O cenário político colombiano serviu como pano de fundo para o aclamado romance Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez. Contudo, Uribe e o presidente Juan Manuel Santos, signatário do acordo, compartilham o campo do conservadorismo. Uribe criou o Centro Democrático, cuja pretensão é desmontar o acordo. Santos, enfraquecido politicamente, tornou-se dependente da esquerda, centro-esquerda, verdes, ambientalistas e saturados de violência. Foi assim com a reeleição e está sendo assim com o acordo. Quanto a Uribe, lançou-se numa “resistência cívica”, significando “oposição em compasso com mecanismos da Constituição e das leis”. O acordo, disse Uribe, acirrando as polêmicas, dá “impunidade total às Farc, estimula a violência e é insustentável”. Prosseguindo, declarou que em realidade “não se trata de um acordo, mas de tropeço em favor de um dos grupos terroristas mais poderosos do mundo”. Entre outras coisas, acusou, “não se exigiu recursos, inclusive dinheiro, para compensação das vitimas”. 

O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, convoca a consulta popular sobre o acordo com as Farc Independente da “resistencia cívica” de Uribe, há perguntas que se impõem. A ONU contabilizou 7 milhões de “refugiados internos”. Mais do que na Síria, Iraque ou em qualquer outra zona de guerra. Voltarão às suas casas? Forçados a fugir, deixaram suas terras e, povoados às pressas, refugiam-se em favelas que se entupiram de gente, muitas vezes abrigadas em tendas. Bogotá tornou-se vítima desse inchaço. “Cada vez que você era obrigado a fugir, era também obrigado a recomeçar tudo de novo, a partir do nada”, diz um refugiado de 33 anos, que era criança quando sua família teve de largar às pressas tudo o que tinha. Ele foi vítima de uma gangue da droga, associada à guerrilha, que queimou sua casa e tomou sua terra. Agora, fica de olho na promessa de Santos, de que a consolidação da paz significará colocar sob o império da lei as regiões mais profundas, mais violentas, de onde fugiram milhões sob o fogo cruzado de rebeldes comunistas, tropas do governo, milícias de ultradireita e chefes do narcotrá-

OUTUBRO 2016

© Alejandra Parra/M.I.Colômbia/Fotos Públicas

Colômbia enfrenta o desafio da paz

fico. Haverá ajuda à recuperação de terras ou mesmo doações aos que tudo perderam? É o que reza o acordo de paz, no qual estão embutidas promessas que Uribe e seu novo partido qualificam como insuficientes. Jogam politicamente com o fato de que meio século de guerra inundou as cidades colombianas de foragidos de bombas, minas terrestres, massacres, sequestros, ameaças de morte e ocupação de terras. O acordo de paz seria remédio para uns e pesadelo para outros. Há luta armada em partes não computadas – e Uribe joga com as incertezas dos que esperam proteção do governo. Um refugiado, entrevistado por um jornal colombiano, disse que “se eles fizerem o que dizem que farão, serei o primeiro a fazer as malas” para retornar ao interior. Contudo, “até que isso aconteça, o jeito é ter esperança”. Os refugiados internos totalizam quase 15% da população colombiana. “Mas não é este o centro nervoso do conflito: o próprio país saiu dos trilhos, a economia ficou sob compressão; o acordo é começo,

não fim”, diz Alan Jará, diretor da agência do governo encarregada do registro das vítimas da guerra. O próprio Jará foi sequestrado pelas Farc em 2001 e ficou em cativeiro por mais de sete anos: “2.760 noites”, faz questão de lembrar. Para que a economia volte à sua plenitude, os deslocados terão ajuda técnica e dinheiro. “Mas a realidade que a Colômbia tem de encarar”, vai dizendo Jará, “é que muitos deslocados ficarão nas cidades, não voltarão a produzir nos campos”. Também haverá episódios de tentativas de retorno por nostalgia – e constatações de que os lugares deixaram de existir, “foram sugados pela guerra”. Numa era de fracassos da política de intervenções externas dos Estados Unidos, o acordo de paz na Colômbia é visto como rara oportunidade de triunfo da diplomacia americana. Segundo analistas em Washington, ele dá validade ao Plano Colômbia, US$ 10 bilhões usados desde 2000 como reforço na luta contra as Farc. Num sentido mais amplo poderia ser considerado um ponto final o fim da longa história de insurgências armadas na América Latina. O que significaria reconhecer que a democracia é o único sistema político “viável” no continente. O acordo foi negociado em Cuba, quartel da revolução de Fidel, onde latino-americanos treinavam luta armada. “Este é um momento transformacional no hemisfério”, disse Bernard Aronson, enviado de Obama às negociações. “É o repúdio final da violência política como meio de mudar governos.”

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Nelson Bacic Olic Da Equipe de Mundo

Estados Unidos, China e Brasil aderem ao Acordo do Clima N

o início de setembro, emergiram duas notícias sobre o tema das mudanças climática. A má: a Nasa divulgou que o agosto de 2016 foi o mais quentes dos agostos dos últimos 136 anos, seguindo uma tendência que vem se repetindo a cada mês e a cada ano. Tais dados reforçam a tese de que o aquecimento global tem se acirrado por conta de causas antropogênicas. A boa: China e Estados Unidos, os dois maiores emissores dos gases de efeito estufa, que somam entre si cerca de 40% do total, anunciaram conjuntamente a ratificação do Acordo de Paris. O tratado internacional, também conhecido como Acordo do Clima, firmado em dezembro de 2015, almeja reduzir emissões de gases de efeito estufa de tal modo que a temperatura do planeta não aumente mais que 1,5 °C no horizonte do ano de 2100. A boa notícia ganhou reforço pela ratificação brasileira do Acordo do Clima. O Brasil aparece entre os dez maiores emissores de gases de efeito estufa, principalmente devido às dimensões da destruição florestal. Por outro lado, exibimos uma das matrizes energéticas mais “limpas” do mundo [veja o gráfico 1]. De acordo com o compromisso ratificado pelo Brasil, a partir de 2020 nossas emissões de gases de efeito estufa devem se reduzir em mais de 40%. Para que o ambicioso objetivo seja atingido, será preciso zerar o desmatamento ilegal na Amazônia, restaurar e reflorestar 12 milhões de hectares, recuperar 15 milhões de hectares de pastagens degradadas e fazer a integração lavoura-pecuária-floresta em outros 5 milhões de hectares. Na esfera da matriz energética, tomando como horizonte o ano de 2030, as fontes renováveis deverão participar com 45% da matriz energética geral. Nesse total, a cota do etanol carburante e das demais biomassas deve atingir 16%. Na geração de eletricidade, a fonte hídrica teria participação de 66%, enquanto as fontes eólica, solar e biomassa chegariam a 23%. Tais metas implicam o congelamento dos investimentos na construção de termelétricas movidas a carvão e a óleo diesel (cujo uso cresceu em função da recente crise hídrica) e a análise dos custos ambientais ligados à exploração do pré-sal. Estados Unidos e China inverteram suas posições no ranking de emissões de CO2 em

estava o corte de 3 bilhões de toneladas da emissão acumulada Gráfico 1 prevista até 2030, por meio de Matriz energética do Brasil (2013) medidas de incremento da eficiOutras (eólica, solar) 0,4% ência energética. Outra promessa Hidro 11,6% Petróleo foi a de liberar terras da União 42% para a implantação de projetos ligados às fontes energéticas reBiocombustível 28% nováveis, especialmente a eólica Fontes não renováveis e a solar. A expectativa é que, por Fontes volta de 2020, cerca de 6 milhões renováveis de residências do país passem a ser Nuclear 1,3% abastecidas por tais fontes. Gás Carvão 11% 5,7% A matriz energética norteamericana não se parece com a brasileira. Nela, os hidrocarbonetos ainda possuem enorme Gráfico 2 importância e, por isso, o plano Matriz energética do Estados Unidos (2014) Outras governamental destina-se a esHidro Biomassa (eólica, solar, geot.) 1,1% 4,5% 1,2% tabelecer um limite máximo de Nuclear emissões de CO2 por megawatt 9,8% Petróleo 35,7% de energia gerada em usinas termelétricas movidas a combusCarvão 19,8% Fontes tíveis fósseis [veja o gráfico 2]. não renováveis Apesar de indiscutíveis avanços, Fontes renováveis especialmente na comparação com a postura negacionista adotada durante os dois mandatos de Gás 27,9% George W. Bush (2001-2009), inúmeros ambientalistas critiGráfico 3 caram o plano por não vetar a Matriz energética da China (2013) extensão do oleoduto KeystoneOutras Hidro Biocombustíveis XL, planejado para ligar o Canadá (eólica, solar) 2,6% 7,2% 1,2% ao Texas, transportando petróleo Nuclear 1% extraído das areias betuminosas Gás Carvão 4,7% 67,2% canadenses. O Canadá é o maior exportador de petróleo para os Petróleo Estados Unidos, respondendo 16,1% Fontes não renováveis por cerca de 20% do total das Fontes renováveis importações norte-americanas do “ouro negro”. O plano norte-americano também estimula o uso do gás natural. No caso dos Estados Unidos, a maior parte do gás é produzida a partir do xisto betuminoso, uma “revolução energética” 2010, quando a potência asiática assumiu a com repercussões globais. Do ponto de dianteira. Se somarmos aos dois principais vista das emissões de gases de estufa, o gás “vilões” do aquecimento global as emissões é um hidrocarboneto mais “limpo” que o de União Europeia, Rússia, Índia, Japão, petróleo. Todavia, ainda não estão claros os Brasil e Canadá teremos cerca de 70% do impactos ambientais advindos do processo de extração conhecido como fraking sobre total de CO2 lançado à atmosfera. Há três anos, o governo norte-ameri- os lençóis freáticos das áreas produtoras. A matriz chinesa é ainda mais “suja” cano anunciou um plano para reduzir suas que a norte-americana. O carvão mineral emissões. Entre as principais promessas Fonte: IEA

Fonte: Energy Policies of IEA Countries (review)

Fonte: IEA

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responde por quase 70% do consumo energético total, enquanto o petróleo fica em distante segundo lugar [veja o gráfico 3]. A célere expansão econômica da China nas últimas décadas apoiou-se no consumo crescente de carvão. O país dispõe de enormes reservas desse hidrocarboneto, mas sua queima em termelétricas tradicionais provoca elevadas emissões de gases de efeito estufa. Por isso, é crucial a substituição parcial do carvão e, paralelamente, a construção de termelétricas mais eficientes. Já há alguns anos o governo chinês investe em tecnologias energéticas “limpas”, que geram baixas emissões de CO2. O 12º plano econômico quinquenal (2011-2016) detereminou o aumento do uso de fontes renováveis. Atualmente, aproximadamente 10% da energia doméstica é originária de combustíveis renováveis, parcela que será elevada para 15% até 2020. As usinas hidrelétricas são a maior fonte de energia renovável, fornecendo cerca de 15% da eletricidade consumida no país. A China ergue o equivalente a uma Itaipu a cada dois anos apenas com pequenas centrais hidrelétricas. Há avanços notáveis. A energia eólica é a segunda fonte de energia renovável na China e vem dobrando sua capacidade a cada quatro anos. Especialistas acreditam que, nesse ritmo, a fonte poderá suprir toda a eletricidade adicional necessária até 2030. Desde 2010, os chineses estão na liderança na produção eólica. Quanto à energia solar, o país já é o maior fornecedor mundial de células fotovoltaicas, embora seu mercado interno ainda seja relativamente baixo. Hoje, aquecedores solares de água são usados em mais de um décimo dos lares chineses. O governo prevê que a participação dessa fonte crescerá mais de dez vezes até 2020. Ainda é modesta a participação de biomassa (madeira, turfa e culturas agrícolas). Contudo, o setor vem ganhando importância. A China se coloca entre os maiores produtores mundiais de etanol e o governo espera que, até 2020, possa abastecer 80 milhões de residências rurais usando biogás como principal fonte de energia. O maior poluidor do planeta compreendeu que transpor a encruzilhada energética é um passo vital para a continuidade de sua expansão econômica.

2016 OUTUBRO




oriente médio

Na Síria, a guerra sem fim experimenta nova metamorfose A intervenção russa salvou o regime de Assad e colocou-o na ofensiva, estendendo um conflito sangrento que repercute por todo o Oriente Médio

OUTUBRO 2016

Quarta metamorfose: em 2014, o Estado Islâmico passou a controlar a província oriental de Raqqa – e, como já tinha o domínio de áreas contíguas no Iraque, anunciou a criação de um califado, instalando sua capital de fato na cidade de Raqqa. Declarando a supressão da fronteira entre Síria e Iraque, o Estado Islâmico fundou uma nova entidade política no mundo árabe e passou a ser encarado como ameaça global. Como resposta, sob a liderança de Washington, formou-se uma coalizão de potências ocidentais e países árabes que deflagrou uma campanha de ataques aéreos destinados a conter a expansão do califado. Quase ao mesmo tempo, forças da Rússia passaram a participar do conflito bombardeando áreas controladas pelo Estado Islâmico e, também, por grupos rebeldes. Sob os bombardeios aéreos e sofrendo ataques terrestres dos curdos e das forças governistas iraquianas, o califado entrou em recuo territorial [veja o mapa 2]. Antes da entrada direta de forças russas na guerra regional, o regime de Assad encontrava-se à beira do abismo. A intervenção de Moscou salvou o Mapa 1 regime sírio. No curto e médio prazo, é difícil O mosaico etno-religioso da Síria vislumbrar a conclusão do conflito militar. O Área T U R Q U I A regime sírio tende a se fortalecer, mantendo predominantemente sunita com presença o controle da maior parte do território, de minorias cristãs e xiitas enquanto os grupos rebeldes enfraquecem. Área predominantemente MAR No campo dos rebeldes, torna-se cada vez Aleppo MEDITERRÂNEO alauíta A mais difícil separar as facções moderadas das Áreas de I povoamento curdo CHIPRE Hama fundamentalistas, pois ambas compartilham R Homs Rio Área de Í Eu as mesmas trincheiras. Um fator adicional povoamento druso fra tes LÍBANO S Colinas de Golã de instabilidade é a ação militar dos curdos (área anexada por Damasco Israel em 1967) sírios, que combatem o Estado Islâmico com IRAQUE Áreas de ISRAEL apoio de Washington e controlam uma faixa povoamento curdo 0 100 km JORDÂNIA fora da Síria de território contígua à fronteira turca. Fonte: adaptado de Atlas des peuples D’Orient, de Jean e André Sellier. p. 70 Irã e Turquia são as potências regionais mais atuantes no teatro de guerra. Os iraMapa 2 nianos, com seu apoio material e humano, figuram como A Síria “despedaçada” aliados essenciais para sobrevivência do regime de Assad. Já a Turquia oscilou de uma posição inicial de apoio material aos TURQUIA Aleppo Raqqa rebeldes sírios, que incluiu alguma “simpatia tática” com os avanços do Estado Islâmico, até a posição atual, que prioriza o combate ao nacionalismo curdo. Desde 2015, sofrendo S Í R I A Tartus atentados dos jihadistas do califado, os turcos fecharam 1 Homs sua longa e “porosa” fronteira com a Síria, por onde antes LÍBANO transitavam mercadorias e armas destinadas aos rebeldes. Há 2 dois meses, forças turcas passaram a operar do outro lado Damasco IRAQUE da fronteira, a fim de limitar os avanços curdos. A guerra síria representa o maior desastre de política externa de Barack Obama, pois a hipótese de vitória dos JORDÂNIA rebeldes moderados saiu do radar de possibilidades rea1 e 2 Sob controle do regime listas. A Rússia, pelo contrário, retornou ao grande jogo Áreas disputadas Sob controle dos rebeldes (rebeldes x geopolítico do Oriente Médio desde a sua intervenção na Estado Islâmico) Síria. Hoje, o mais provável é que a guerra se arraste, com Sob controle do Estado Islâmico seu cortejo infinito de violências, até o esgotamento das Áreas desérticas com ocupação rarefeita partes em conflito. A Síria, como entidade política centraForte presença de populações curdas lizada e unificada, provavelmente deixará de existir. Fonte: adaptada de ISW igre



Deir ez-Zor, no leste do país. Forças do governo responderam com bombardeios aéreos contra as regiões dominadas pelos rebeldes, usando inclusive armas químicas. Então, Estados Unidos e União Europeia exigiram a renúncia de Assad e pressionaram o Conselho de Segurança da ONU a adotar sanções, mas Rússia e China fizeram uso de seu poder de veto. A Síria é a única aliada da Rússia no Oriente Médio, tendo cedido o Porto de Tartus para uso da marinha russa. Os russos são os principais fornecedores de armas para o regime sírio. Na terceira metamorfose, em meados de 2013, registrou-se o fortalecimento das facções islâmicas extremistas nas áreas dominadas pelos rebeldes. Entre elas, destacase o Al-Nusra, braço armado da Al-Qaeda na Síria. Em seguida, aproveitando o caos instalado na fronteira entre Síria e Iraque, outro grupo jihadista, a Al-Qaeda no Iraque, invadiu o território sírio, adotou o nome de Estado Islâmico (Isis, na sigla em inglês) e passou a disputar o controle de territórios com outros grupos rebeldes.

Rio T

guerra que devasta a Síria há quase seis anos já deixou como saldo mais de 300 mil mortos, incontável número de feridos e milhões de deslocados internos ou que buscaram refúgio em países vizinhos e na Europa. Situado em região estratégica do Oriente Médio, o território da Síria fez parte, no passado, dos impérios persa, macedônico e romano, sediou a capital do califado islâmico e, entre 1516 e 1918, esteve sob domínio do Império Otomano. Tal como aparece nos mapas atuais, a Síria é uma entidade política do século XX, que se tornou independente em 1946. País de maioria árabe, cerca de 90%, tem como principal minoria a dos curdos (6%). Os muçulmanos sunitas são a grande maioria da população, que possui também significativa minoria cristã. Cerca de 12% dos sírios definem-se como alauítas, grupo que detém o poder desde 1970 [veja o mapa 1]. O ditador Bashar al-Assad, assim como seu pai Hafez al-Assad, que governou o país entre 1970 a 2000, são integrantes desse grupo. A origem dos alauítas, que muitos consideram como um ramo xiita, é anterior ao surgimento do Islã. Eles parecem ter assimilado e interpretado de maneira peculiar os fundamentos do Islã. Comunidade sem grande expressão durante séculos, assumiu posições-chave na estrutura governamental após a independência. Desde 1970, a ditadura implantada pelo clã Assad sustenta-se no poder com base no Partido Baath (laico e pan-arabista), nas Forças Armadas (onde é grande presença alauíta nas posições de comando) e em parcela das elites sunitas e cristãs da capital, Damasco, e da segunda maior cidade, Aleppo. O conflito iniciou-se em 2011, no contexto da Primavera Árabe, série de revoltas populares contra governos ditatoriais em países do norte da África e do Oriente Médio. Na sua origem, encontram-se grandes manifestações populares pacíficas, brutalmente reprimidas pelo regime, que matou ou feriu milhares de oposicionistas. Na sequência, primeira metamorfose, o embate degenerou em guerra civil nacional, adquirindo o aspecto de um confronto sectário de forças rebeldes sunitas contra o governo central apoiado pelas minorias alauíta e cristã. Uma segunda metamorfose transformou a guerra civil em guerra regional, com o envolvimento de países e organizações militares estrangeiras. O regime de Assad recebeu o apoio militar direto de forças da Guarda Republicana do Irã e de milícias de elite do partido xiita libanês Hezbollah. Os vários grupos rebeldes sírios, por seu lado, passaram a receber apoio diplomático, ajuda financeira e material bélico da Arábia Saudita, do Qatar e da Turquia. A Síria tornou-se palco de um complexo jogo de poder na moldura geopolítica do Oriente Médio. Os rebeldes dividem-se numa miríade de milícias, algumas moderadas, de características seculares, outras fundamentalistas, que pretendem instalar um Estado confessional islâmico. O primeiro grupo organizou-se na coalizão Exército Livre da Síria (ELS), que passou a ser enxergada pelas potências ocidentais como solução para uma Síria sem o regime de Assad. Em 2012, grupos rebeldes passaram a controlar subúrbios de Damasco e a província petrolífera de

MAR MEDITERRÂNEO

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Cláudio Camargo Especial para Mundo

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Nenhum grande partido jamais nomeou como candidato alguém desse tipo. Se Trump prevalecer, isso faria da improvável as [...] parecer uma aborrecida trajetória política convencio nas apesar – ou por causa? – de atributos que aparentemente o desqualificariam – como, para mencionar alguns, sua vida pessoa recém-inventado e pouco crível conservadorismo social, seu desdém pela ortodoxia republicana e sua carência de preparo básic

desconhecido senador estadual a primeiro presidente afro-americano

na eleição geral porque deu a sorte de disputar com o segundo pior candidato presidencial da h

[Rich Lowry, “Time to face it: Trump could really win this”, Politico, 14 de setembro de 2

© Max Goldberg/Creative Commons

ais do que ideias, são os interesses que separam as pessoas.” Esta sentença, aparentemente banal e tributária do senso comum, é da lavra do pensador político francês Alexis de Tocqueville (18051859), autor do clássico A democracia na América (1830). A frase define à perfeição

Campanha à Casa Branca

© Ted Eylar/Flickr/Creative Commons

estados unidos

a trajetória dos dois principais partidos políticos americanos, o Democrata e o Republicano. O primeiro, cujas origens remontam à fundação do Partido Democrata-Republicano por Thomas Jefferson, em 1791, nasceu ligado aos escravocratas proprietários de terras do sul do país. Já o Partido Republicano surgiu em 1854 como defensor da causa abolicionista. Um dos seus maiores expoentes, Abraham Lincoln (1809-1965), 16º presidente americano, não hesitou em lançar o país em uma guerra civil para libertar os escravos e impor a hegemonia do Norte industrial sobre o sul agrário. No século XX, contudo, os partidos trocaram de lugar, com o Partido Democrata abraçando bandeiras “progressistas”, como o New Deal e os direitos civis, e os republicanos tornando-se paladinos das grandes corporações e dos conservadores morais – embora, na prática, ambos os partidos compartilhassem, de maneiras diferentes, a defesa do status quo e a crença no “excepcionalismo” dos Estados Unidos. Em certo sentido, a atual disputa pela Casa Branca representa também uma inversão de papéis: na campanha de 2008, a novidade vinha pela “esquerda”, com Barack Obama resgatando e renovando a tradição liberal de Franklin Roosevelt, Robert Kennedy e George McGovern. Ele empolgou o país contra o reacionarismo da era George W. Bush e se tornou o primeiro presidente negro dos Estados Unidos. Hoje, a “novidade” vem pela “direita”, com o candidato republicano Donald Trump. O bilionário outsider da política que destila um discurso racista e xenófobo, bei-

rando o fascismo, é desprezado por líderes republicanos tradicionais como o ex-presidente George H. Bush e o ex-secretário de Estado Colin Powell. Contudo, seu discurso soa como música aos ouvidos de milhões de trabalhadores que foram para o olho da rua depois da crise de 2008. Já a democrata Hillary Clinton, que perdeu a indicação para Obama em 2008 e depois foi sua secretária de Estado, é a representante mais acabada do establishment americano [veja a matéria à pág. 7]. Nos principais temas de política interna, as posições de Hillary e Trump tendem a coincidir com as de seus partidos. Hillary é defensora dos direitos reprodutivos e do aborto (pro-choice), enquanto que Trump é contrário a ambos (pro-life, embora, no passado, ele tenha sido favorável ao aborto). A ex-primeira-dama quer manter o “obamacare”, que garante um plano de saúde para todo americano [veja a matéria à pág. 9]. O bilionário promete revogar o “obamacare”, devolvendo o cuidado da saúde dos cidadãos ao mercado. Hillary quer aumentar as restrições à posse de armas pelos cidadãos; Trump quer não apenas derrubá-las como ampliar esse direito; por exemplo, passando a permitir que funcionários de escolas possam ter armas para defender os alunos de possíveis ataques de serial killers. Hillary propõe aumentar impostos sobre os mais ricos (embora poucos acreditem que, no poder, ela vá levar adiante essa proposta); Trump defende o corte de impostos para todas as faixas de renda. Em outros temas, no entanto, Trump é um ponto fora da curva em relação à

tradição republicana, mesmo a mais conservadora. É o caso da imigração, que ele transformou em cavalo de batalha ao defender a deportação sumária de 11 milhões de imigrantes ilegais e a construção de um muro na fronteira com o México, às expensas dos mexicanos. E Trump ainda teve o topete de defender essa posição no México, ao lado do presidente mexicano, Enrique Peña Nieto. Já Hillary quer a aprovação do Dream Act – uma legislação que tramita no Congresso desde 2001 e que garante, sob determinadas condições, a concessão de cidadania americana a estrangeiros ilegais que chegaram ao país quando crianças. Essa abordagem agressiva da imigração por parte de Trump tem a ver com sua promessa de criação de empregos. Para impedir que os Estados Unidos continuem a perder postos de trabalho para a China e o México, o bilionário ameaça penalizar, na forma de impostos, as empresas que deixarem o país ou que não empregarem preferencialmente americanos. Ironicamente, em relação aos tratados de livre-comércio, tanto republicanos quanto democratas prometem rever os acordos em vigor, como a Parceria Transpacífica (TPP) e o Tratado Norte-Americano de Livre-Comércio (Nafta), com o México, e só assinar novos acordos se estes não significarem perda de empregos americanos. Na política externa, Hillary segue a ortodoxia da diplomacia americana, enquanto que o magnata às vezes lembra outro extremista republicano, o senador Barry Goldwater, candidato à Casa Branca em 1964, que prometia jogar bombas atômicas

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no Vietnã. Ao mesmo Os tempo em que corteja o “czar” Vladimir Putin Rejeição (entre ma (“um líder brilhante e Republicano talentoso, algo que não temos em nosso país”), 50 Trump cutuca a China com vara curta, prome40 tendo impor condições para que Pequim con30 tinue fazendo negócios Ronald com os americanos. O Reagan G 20 bilionário diz que forçará Jimmy a China a abandonar a Carter Walter Bil política de desvalorização 10 Mondale do yuan, “obrigando” o país a adotar melhores 0 1980 1984 198 condições de trabalho. Fonte: fivethirtyeight.com Em relação ao Oriente Médio, Hillary defende a histórica aliança com Israel – embora, depois de ter sido secretária de Estado de Obama, não conte com a simpatia do atual premiê israelense, Benjamin Netanyahu. Mas Trump foi mais longe e chegou ao delírio ao propor a proibição da entrada de muçulmanos nos Estados Unidos, inclusive ofendendo a memória de um soldado americano de origem muçulmana que foi morto no Iraque. Trump defende o uso de métodos “heterodoxos” (leia-se: tortura) para obter confissões de terroristas; a ex-secretária de Estado diz ser contra, embora no passado ela tenha defendido tais métodos. O magnata sugeriu que os aliados dos Estados Unidos paguem pela presença militar dos americanos na Europa e na Ásia. Ele

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inverte os papéis de

Barack Obama da condição de um onal. [...] Trump venceu as primárias republicaal, seu prolongado apoio aos Democratas, seu co. Hoje, ele tem uma chance real de triunfar história recente.

scensão de

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m com Roper Center e IBO/TIPP

também disse que o Japão e a Coreia do Sul deviam ter o direito de possuir armas nucleares e que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) é uma obsolescência, porque foi criada para a contenção da União Soviética e hoje não cumpre seu novo papel, a luta contra o terrorismo, já que não inclui os países “certos” para tanto. O mais impressionante é que, ao contrário de Barry Goldwater, arrasado por Lyndon Johnson em 1964, Trump tem chances razoáveis de chegar à Casa Branca [veja a matéria à pág. 8]. Mesmo que não consiga, seu “legado” permanece e poderá ser retomado no futuro.

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estados unidos

Sistema bipartidário enfrenta impasse histórico

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as será possível que entre 300 milhões de habitantes não surgiram dois nomes melhores do que os de Donald Trump e Hillary Clinton? Como isso é possível? Estamos condenados a escolher um dos dois, ou a ignorar completamente as eleições? O que está acontecendo com o nosso país?” A perplexidade que se depreende desse conjunto de questões pode ser facilmente encontrada nas seções de carta dos leitores de aproximadamente qualquer publicação americana, situada nos mais diversos pontos do espectro ideológico – da direita neoconservadora (como The Weekly Standard), conservadora com forte influência cristã (National Review), de esquerda (Nation) ou nas mais tradicionais publicações dos Estados Unidos (The New York Times, Washington Post, Los Angeles Times e outros). Os dois candidatos, Trump (Partido Republicano) e Hillary (Partido Democrata) batem recordes históricos de índices de rejeição [veja o gráfico]. Trata-se de um quadro sem precedentes. Trump conseguiu alguns feitos inacreditáveis. Sua candidatura não é endossada por nenhum dos ex-presidentes de seu próprio partido. George H. Bush, o “Bush pai”, declarou que votará em Hillary. Nunca antes um ex-presidente prometeu voto no candidato do partido adversário. No início de agosto, 50 importantes republicanos publicaram uma carta de repúdio à candidatura do bilionário, incluindo nomes como Michael Hayden (ex-diretor da CIA), John Negroponte (primeiro diretor-geral do sistema de agências secretas do país e vice-secretário de Estado no mandato de George W. Bush), Robert Zoellick (ex-presidente do Banco Mundial e ex-vice secretário de Estado), Tom Ridge e Michael Chertoff (dois antigos secretários de Segurança Nacional). Eles acusam Trump de ser “não qualificado”, “perigoso” e “aventureiro”. Algumas das principais propostas de Trump são consideradas inaceitáveis pelos setores mais tradicionais do Partido Republicano, como a construção de um muro entre o México e os Estados Unidos (que, de algum modo misterioso, seria pago pelos mexicanos), a deportação de 11 milhões de imigrantes ilegais, a proibição da entrada de islâmicos no país, além de uma política externa qualificada como desastrosa, que incluiria, no limite, o abandono da Otan, por implicar custos muito altos, e a adoção de um isolacionismo extremo. Indagado, certa vez, sobre o que faria no caso de um confronto nuclear entre a Coreia do Norte e seus vizinhos, ele chegou a responder: “Se chegarem a esse ponto, eles que se matem.” A rejeição a Hillary tem perfil distinto. Ela não é considerada, como Trump, uma “arrivista”, alguém de fora do establishment que resolveu apostar numa aventura. Ao contrário: seu perfil como política é bem conhecido, até por ter exercido as funções de senadora e secretária de Estado no governo Barack Obama. O problema reside justamente nas decisões que ela assumiu ao longo de sua carreira: apoiou o ataque ao Iraque, em 2003 (decisão hoje considerada desastrosa pela imensa maioria dos analistas), foi uma das principais arquitetas da operação que depôs o ditador líbio Muammar al-Kaddafi, em 2011 (publicamente qualificada como “um grande erro” pelo próprio Obama), adotou uma série de atitudes pouco recomendáveis para uma secretária de Estado (como os risos de alegria ao tomar conhecimento da execução de Kaddafi, em outubro de 2011, quando, à maneira de César, proferiu a frase: “Viemos, vimos e ele morreu”). Além, é claro, do “escândalo dos e-mails”, ainda não suficientemente esclarecido (o acesso e uso privado de mensagens secretas e oficiais do Departamento de Estado). Mas a rejeição a Hillary também tem forte conotação ideológica. Ela é vista por parte significativa da base democrata muito mais como uma republicana neoconservadora do que como alguém em sintonia com os interesses dos trabalhadores e da juventude. Hillary, ao contrário de Trump, é a candidata do establishment de seu partido. Tanto assim que, em julho, a então presidente democrata, Debbie Wasserman Schultz, foi forçada a renunciar, como resultado do vazamento de e-mails internos que demonstravam a existência de uma operação destinada a garantir que Hillary seria escolhida na convenção nacional do partido. Durante as primárias, Hillary foi seriamente desafiada pelo senador Bernie Sanders, que assumiu o lugar de porta-voz dos sindicalistas, estudantes universitários e jovens que constituem a “ala esquerda” do Partido Democrata. Caso Sanders tivesse vencido a convenção nacional democrata, os candidatos à Presidência dos dois partidos apresentariam algo em comum: ambos, cada um à sua maneira, seriam vistos como “azarões”, porta-vozes das forças contrárias à maneira tradicional de fazer política. Mas não foi isso que aconteceu. Trump é o candidato “anti-establishment” (embora, ironicamente, seja um bilionário comprometido com a elite financeira globalizada), ao passo que Hillary é a continuidade de um sistema em que os dirigentes do partido estão separados das bases, incapazes de responder às aspirações de milhões (como demonstrou a força dos comitês pró-Sanders, que contou com mais de 8 milhões de apoiadores registrados, cada um dos quais contribuindo, em média, com US$ 24 para financiar a campanha). Como candidato anti-establishment, Trump conseguiu capitalizar o descontentamento da base do Partido Republicano contra os seus dirigentes. Hoje, sua campanha reúne o que há de pior nos Estados Unidos. Uma parte de seus apoiadores se organiza, via redes sociais, usando a etiqueta identificadora Alt-Right. As milhões de mensagens que trocam entre si são assustadoras: homofóbicas, antissemitas, xenofóbicas, racistas. O ultranacionalismo de Trump, reforçado pela vitória do Brexit na Grã-Bretanha, é interpretado por seus apoiadores como afirmação da suposta superioridade racial branca americana, numa reafirmação, elevada a níveis caricaturais, do conceito do “excepcionalismo americano”. O voto em Hillary aparece como um “mal menor”, mesmo para boa parte dos apoiadores de Sanders que juravam de pés juntos que jamais iriam considerar tal hipótese. Independente de quem seja o vencedor, em novembro, há uma constatação consensual entre analistas políticos de todos os matizes ideológicos: o tradicional sistema bipartidário enfrenta uma encruzilhada histórica nos Estados Unidos. Ninguém sabe como serão as eleições daqui a quatro anos – mas possivelmente terão como protagonistas partidos completamente reinventados.

Cláudio Camargo é jornalista e sociólogo 

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estados unidos

Geografia e sociologia do voto norte-americano Trump enfrenta armadilha demográfica investindo na recuperação do Oeste e em antigas fortalezas democratas do “Cinturão da Ferrugem” Mapa 1 Eleição presidencial de 1904

O

cenário político-partidário nos Estados Unidos conheceu dois terremotos históricos, que produziram as estruturas eleitorais atuais. O primeiro, com Franklin D. Roosevelt e o New Deal, abriu as portas do Norte para o Partido Democrata. O segundo, com Lyndon Johnson e a Lei dos Direitos Civis, transferiu o eleitorado do Sul para o Partido Republicano. Na segunda metade do século XIX, consolidaram-se os dois grandes partidos. Os republicanos representavam os interesses das elites financeiras, industriais e comerciais do Norte. Os democratas, os interesses dos plantadores exportadores do Sul. Os primeiros eram protecionistas, como reflexo das estratégias industrializantes, e abolicionistas. Os segundos, livre-cambistas e escravistas. Na Guerra de Secessão (1861-1865), a União, liderada pelo republicano Abraham Lincoln, derrotou os confederados, aprofundando a linha de fratura entre os partidos. O Colégio Eleitoral resultante da eleição presidencial de 1904 espelha a fronteira partidária [veja o mapa 1]. Teddy Roosevelt, republicano, triunfou por larga margem, controlando o Norte e o Oeste, cujo povoamento derivava do impulso dos colonos livres. Para o democrata Alan Parker, sobraram os votos do bloco de estados sulistas da derrotada Confederação. A linha de fratura foi borrada na década de 1930, com o New Deal. As políticas sociais de Franklin D. Roosevelt propiciaram a aliança entre os Democratas e os sindicatos do Manufacturing Belt, nos Grandes Lagos. A classe média urbana do Norte abandonou os republicanos. Roosevelt reelegeu-se três vezes e o democrata Harry Truman o sucedeu com base na chamada “grande coalizão” do New Deal. Aos poucos, de modo hesitante, o Partido Democrata foi distanciando-se das políticas de segregação racial implantadas no Sul desde o início do século XX. A ruptura concluiu-se na Presidência de Lyndon Johnson (1963-1969), com a aprovação da Lei dos Direitos Civis. Como consequência, os Democratas perderam o Sul, que se converteu em fortaleza republicana. De certo modo, os dois terremotos políticos do século XX inverteram o mapa eleitoral. A eleição presidencial de 2000 espelha a inversão [veja o mapa 2]. Numa disputa apertada, com resultados contestados, o republicano George W. Bush venceu no Colégio Eleitoral, mesmo perdendo no voto popular – a única vez em que se deu tal cisão na história recente. O democrata Al Gore triunfou no Norte e na Costa Oeste. Mas Bush venceu no Sul, no Meio-Oeste e na maior parte do Oeste. Os dois triunfos de Barack Obama, em 2008 e 2012, não resultaram de mudanças estruturais no mapa do voto, mas de reversões em alguns estados cruciais. Obama estendeu o domínio democrata no Norte, tirando Ohio

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DEMOCRATA (Hillary) No interior dos círculos, o número de delegados de cada estado que vota no Colégio Eleitoral

e New Hampshire da coluna dos republicanos. Além disso, venceu em Nevada e no Colorado, dois estados do Oeste com significativa população hispânica. Tomou dos republicanos a Vírginia, estado fundador da Confedera-

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ção, num triunfo de forte simbolismo. Crucialmente, venceu na Flórida, um estado muito heterogêneo e também marcado pela imigração hispânica. As tendências da demografia conspiram contra os republicanos. De um lado, cresce a parcela do eleitorado hispânico, avesso às políticas nativistas republicanas e, especialmente, atemorizado pela selvagem xenofobia de Trump. De outro, os jovens tendem a rejeitar o conservadorismo social republicano e passaram a votar em maior número desde a primeira campanha presidencial de Obama. De mais a mais, nessa eleição, verifica-se uma resistência do eleitorado feminino de classe média diante de Trump. Tudo isso, em tese, asseguraria uma vitória democrata em novembro. Mas, como revelam as sondagens, nada está decidido. A alta e generalizada rejeição ao nome de Hillary é um trunfo para Trump. Para compensar, a aversão ao próprio Trump é ainda maior que a de sua adversária. Nessa eleição, ao que parece, a maior democracia do Ocidente se moverá pelo voto negativo, um indício da profundidade da crise do sistema bipartidário norte-americano [veja a matéria à pág. 7]. As chances da democrata parecem bem maiores que as do republicano. Contudo, Trump tem uma clara estratégia: avançar nas antigas áreas industriais decadentes do Manufacturing Belt, o atual Rust Belt (“Cinturão da Ferrugem”). As tradicionais fortalezas democratas dos Grandes Lagos, conquistadas à época do New Deal, já não têm a solidez do passado. Investindo no protecionismo, no nativismo e na xenofobia, Trump almeja seduzir os trabalhadores urbanos brancos de baixa renda. As pesquisas de intenções de voto indicam a geografia dos campos de batalha (isto é, os estados indefinidos) e delineiam um caminho para Trump. São 12 estados indefinidos (“swing states”, na linguagem eleitoral norte-americana) e nada menos que cinco deles (Ioha, Wisconsin, Michigan, Ohio e Pensilvânia) situam-se no Manufacturing Belt. O republicano precisa de 90 votos eleitorais nos “swing states” e só tem chances reais de triunfar se tirar ao menos dois desses cinco da coluna democrata [veja o mapa 3]. Trump precisa recuperar Colorado e Nevada, além de impedir uma surpresa no Arizona, hipótese decorrente da crescente população hispânica. Também necessita da Carolina do Norte, o que não parece difícil, e da Flórida, um sucesso improvável. A Virgínia está quase fora de seu alcance, pois o populoso norte do estado tornou-se um prolongamento da Grande Washington, bastião democrata. É pouco crível que o republicano vença em Wisconsin, Michigan ou Pensilvânia. Mas Ohio e Iowa pendem por um fio. O caminho do magnata é estreito, mas realista. Se chegar à Casa Branca, contrariando as tendências demográficas de longo prazo, pilares fundamentais do mapa partidário erguido pelo New Deal terão sido removidos.

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estados unidos

Obama deixa legados que ultrapassam o simbolismo João Batista Natali Especial para Mundo

Nos livros de História, o primeiro “presidente negro” será lembrado pela recuperação econômica, pelo “obamacare” e por triunfos como o acordo nuclear com o Irã e o reatamento com Cuba

ão meses derradeiros. Em janeiro, Barack Hussein Obama deixará a Casa Branca depois de dois bem-sucedidos mandatos presidenciais. Não passará para a história americana do século XX com o lastro de um estadista como Franklin D. Roosevelt (1933-1945) ou com a popularidade de um John F. Kennedy (1961-1963). Mas Obama deu passos decisivos para o avanço de uma agenda liberal, internamente e em política externa, e não será lembrado somente por ter sido o primeiro negro na Casa Branca. Sua meteórica carreira política – em 11 anos, ele foi de senador estadual de Illinois a senador em Washington e, em 2008, a candidato vitorioso pelo Partido Democrata à Presidência – já constituiria uma biografia singular. Seu desempenho foi muito bom em áreas como a economia. Obama chegou ao Executivo no meio de uma imensa tempestade financeira provocada durante a administração anterior, de George W. Bush, pela crise das hipotecas no mercado imobiliário familiar. Foi a crise do “subprime”, que levou à falência o Lehman Brothers, um dos maiores bancos de investimentos americanos, numa ciranda que afetou o sistema financeiro internacional e provocou aguda recessão global. Diante disso, a Casa Branca assinou um pacote intervencionista de US$ 787 bilhões, com medidas heterodoxas para uma economia clássica de mercado. Dois exemplos: o capital da General Motors foi parcialmente estatizado para evitar sua falência, enquanto a Chrysler, recapitalizada, teve o controle acionário entregue à Fiat italiana. O governo ousou. O orçamento federal operou por dois anos seguidos com um déficit superior a 10% do produto interno bruto (PIB), no mais absoluto desequilíbrio fiscal. O desemprego atingiu um décimo dos trabalhadores da iniciativa privada. A taxa regrediu rapidamente e situase, hoje, em 4,9%. Obama foi bem-sucedido nas áreas de direitos humanos e defesa das minorias. Pouco conseguiu avançar na limitação do comércio de armas individuais, setor protegido por um poderoso lobby conservador e controlado pelas legislações estaduais. Tampouco foi responsável pelo pequeno recuo da aplicação da pena de morte, também de competência estadual. Contudo, em 2010, deu um passo importante para pôr fim à discriminação de gays e lésbicas nas Forças Armadas e se apoiou nas decisões da Corte Suprema para arejar um ambiente favorável ao casamento de pessoas do mesmo sexo. No campo social, Obama será reconhecido pelo esforço de universalização dos serviços de saúde, que se tornou conhecido pela palavra “obamacare”. Trata-se de um sistema pelo qual o governo federal passou a assegurar planos de internação hospitalar para toda a população mais pobre, em lugar, como ocorria antes, de dar dinheiro para que os bancos subsidiassem os convênios de assistência privados. Nessa frente, avançou contra feroz oposição dos republicanos, que levaram o combate até a Corte Suprema. Na política externa, Obama registra mais acertos do que erros. Obteve, com o auxílio da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e com os demais membros do Conselho de Segurança da ONU (mais a Alemanha), um 

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© Chuck Kennedy/Casa Branca/Fotos Públicas

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Obama poderia ter feito pressões sobre Israel para evitar um novo ciclo de radicalização da questão palestina, mas preferiu vetar a resolução da ONU contra a instalação de novas colônias judaicas na Cisjordânia acordo de congelamento do programa nuclear iraniano. O embargo comercial contra o Irã foi suspenso em 2013, e o país se realinhou à comunidade internacional. Foi também sob Obama que Estados Unidos e Cuba reataram relações diplomáticas em 2015, pondo fim a uma tensa animosidade iniciada em 1961, quando Kennedy rompeu relações e impôs um embargo comercial, que ainda vigora por birra de um Congresso controlado pelos republicanos. Muito menos bem-sucedidas foram as relações de Washington com Moscou. A intervenção russa na Ucrânia e a anexação da Crimeia foram uma sequência de erros evitáveis. Os Estados Unidos estimularam as manifestações populares que levaram à queda do presidente Viktor Yanukovich, que se opunha à aproximação do país com a União Europeia e com a Otan. O fato é que, como fruto dessa crise latente, a Rússia sofre hoje os efeitos de um embargo comercial que alimenta o nacionalismo autoritário do presidente Vladimir Putin [veja a matéria à pág. 11]. Obama visivelmente também acreditou, em 2011, que a chamada “Primavera Árabe” era uma ideia consistente. Tanto que armou as forças de oposição ao ditador sírio Bashar al-Assad. A inevitável guerra civil ainda persiste, com 280 mil mortos e uma massa de refugiados que desestabilizou as políticas migratórias da União Europeia e serviu de argumento para que os eleitores britânicos votassem, em junho passado, pela saída do bloco europeu. Paralelamente, em 2014, emergiu no vácuo de poder da Síria e do Iraque o Estado Islâmico, contra o qual os Estados Unidos conduzem uma campanha de bombardeios aéreos e

oferecem suporte de forças especiais ao exército iraquiano e às milícias curdas. O Estado Islâmico, também conhecido como Daesh, é uma decorrência do radicalismo sunita que surgiu ao longo de uma complexa história iniciada no Afeganistão, nos anos 1980. Obama conseguiu retirar as forças americanas de combate do Afeganistão e do Iraque, onde elas entravam em confronto com grupos tão díspares como o Talebã afegão e a guerrilha sunita iraquiana que resistia ao governo de maioria xiita imposto por Washington. O Oriente Médio é um tablado no qual os Estados Unidos têm tudo a perder. Obama poderia ter compensado o desprestígio americano no mundo árabe por meio de pressões sobre Israel para evitar um novo ciclo de radicalização da questão palestina. Mas o presidente agiu em sentido oposto, vetando a resolução da ONU contra o prosseguimento da instalação de colônias israelenses na Cisjordânia, algo que fere de morte o plano palestino para a instituição de um Estado independente. Por fim, e ainda no plano internacional, Obama está conseguindo fechar essa aberração do direito internacional que é a prisão da Base de Guantánamo, num enclave do território cubano que chegou a abrigar, em 2002, exatos 779 suspeitos de terrorismo. O presidente deu o primeiro passo em 2009, mas a oposição republicana no Congresso tirou-lhe os meios financeiros e legais para a operação. Mesmo assim, restam agora apenas 61 casos pendentes. Ainda é uma vergonha, mas a ferida começa a cicatrizar. João Batista Natali é jornalista

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Reinaldo Scalzaretto Especial para Mundo

Brexit gera nuvem de incertezas nas duas Irlandas oje, circulando de automóvel pela Ilha da Irlanda, dificilmente um turista vai perceber que passou de um país para outro. Muito raramente se vê uma placa de boas vindas ou uma bandeira, indicando o cruzamento da fronteira entre a República da Irlanda (Irlanda do Sul ou Eire) e o Ulster (ou Irlanda do Norte), que faz parte do Reino Unido. O motorista mais atento talvez perceba que os quilômetros da M1 irlandesa tornam-se milhas na A1 britânica, embora aparentemente ele esteja na mesma estrada. O povo irlandês tem uma identidade própria, com cultura e língua individualizadas. Embora o irlandês ou gaélico seja a língua oficial da República da Irlanda, é falado, lido e escrito por poucas pessoas. No último censo, cerca de 1,7 milhão se declararam falantes da língua, mas apenas 77 mil disseram que a usam diariamente, fora dos muros das escolas. Muitos consideram que a língua é um dos principais elementos unificadores da população, a base para a organização de uma nação individualizada e independente. Por isso, o esforço do governo para a sobrevivência da língua é enorme: o estudo do idioma é obrigatório nas escolas públicas, embora a obrigatoriedade se estenda apenas até os 11 anos; placas de trânsito e muitos cartazes de rua estão em inglês e irlandês; existem jornais, rádios e um canal de TV em irlandês. Mas, apesar desses esforços, é óbvio o acelerado desaparecimento da língua irlandesa e a adoção do inglês como língua nacional. A dualidade cultural é reforçada pelo fato de que os irlandesas são, na sua esmagadora maioria, católicos, e os ingleses seguem o protestantismo. Isso se reflete na organização do espaço político. Quando a Irlanda foi dividida pelo tratado de 1922, a população dos nove condados do norte, que formavam o Ulster, votou num plebiscito: em três deles (Cavan, Monaghan, Donegal [em verde no mapa] venceu a integração ao Estado Livre Irlandês (a República da Irlanda); nos outros seis (Antrim, Armagh, Down, Fermanagh, Tyrone e Londonderry) venceu a permanência no Reino Unido. Esses seis formaram a atual Irlanda do Norte. Após a independência, em 1922, o Exército Republicano Irlandês (IRA, na sigla em inglês) passou a abrigar irlandeses

A ruptura de Londres com a União Europeia ameaça reinstalar uma “fronteira dura” entre as Irlandas e com isso reavivar sectarismos e sentimentos nacionalistas dos dois lados católicos que se recusavam a reconhecer o tratado firmado com o Reino Unido. Durante décadas, no Ulster, usou métodos terroristas, principalmente ataques a bomba e emboscadas com armas de fogo, que tinham como alvos protestantes, políticos unionistas e representantes do governo britânico. O IRA mantinha ligações com outros grupos nacionalistas irlandeses e um braço político, o partido Sinn Fein. Ao longo de sua história, o IRA passou por várias divisões e subdivisões, algumas ainda atuantes. Em 1969, diante do acirramento dos conflitos entre católicos e protestantes no Ulster, o governo britânico ampliou a ação militar, especialmente na capital, Belfast. Como resposta, o IRA multiplicou seus ataques, tanto na Irlanda do Norte como na Grã-Bretanha. O conflito se estendeu por quase 30 anos, numa escalada de violência e multiplicação de grupos armados paramilitares, formados por protestantes ou católicos. Entre 1969 e 1998, período conhecido como The Troubles, morreram mais de 3,6 mil pessoas em confrontos e atentados. Finalmente, em 1998, firmou-se o Acordo de Belfast, ou Acordo da Páscoa, que encerrou o conflito pela formação de um parlamento autônomo norte-irlandês e eleições livres para o governo local do Ulster. A região, de maioria protestante, permaneceu ligada ao Reino Unido. Apesar do sucesso da paz, em Belfast ainda podem ser vistos os efeitos do The Troubles. Existem bairros completamente segregados, cercados por

© Fotos: Reinaldo Scalzaretto

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O Eire, o Ulster e os condados separatistas OCEANO ATLÂNTICO

DONEGAL

ULSTER MONAGHAN CAVAN

REPÚBLICA DA IRLANDA (EIRE)

Dublin

CANAL DA MANCHA

Condados separatistas do Ulster

elevados muros, com portões que fecham durante a noite. A maior parte dos jovens que vivem dentro deles só toma contato com pessoas do grupo oposto quando, para trabalhar ou estudar em universidades, passa a frequentar mais intensamente o centro da cidade, considerado zona mista. Várias ruas da cidade ainda guardam marcas do período de maior intensidade dos conflitos, sendo as mais visitadas pelos turistas as que têm murais alusivos às preferências políticas ou religiosas de cada grupo. Segundo o acordo de integração estabelecido entre o governo local e quase uma dezena de organizações católicas e protestantes, todos os mais de 90 muros que separam os bairros da cidade serão removidos até 2023. A consequência mais direta da pacificação na Irlanda e no Ulster foi a aceleração do crescimento econômico na República da

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Irlanda. Entre 1998 e 2007, o PIB cresceu a uma taxa média de 6% ao ano, sustentado por três fatores principais: um forte setor exportador, dominado por transnacionais, muito ligado aos parceiros da União Europeia; baixos impostos para as empresas (média de 12,5%), o que atrai transnacionais de todo o mundo; e uma numerosa força de trabalho de elevada qualificação. Em 2015, recuperando-se da crise que o conduziu a pedir ajuda à União Europeia e ao Fundo Monetário Internacional (FMI), o país exibiu a maior taxa de crescimento da Europa (7%), experimentou queda da taxa de desemprego (8,5%, contra 15% em 2012); e redução do déficit orçamentário. A renda per capita ficou na 20ª posição mundial, em torno de US$ 55.500. O Acordo de Belfast, assinado em 10 de abril de 1998, envolve dois documentos interrelacionados: um acordo multipartidário, assinado pela maioria dos partidos políticos da Irlanda do Norte, e um acordo internacional entre os governos britânico e irlandês. Na base do segundo acordo está a livre circulação de pessoas, mercadorias e capitais entre Eire e Ulster, algo assegurado pelo fato de que tanto o Reino Unido quanto a República da Irlanda pertencem à União Europeia. A vitória do Brexit, no plebiscito de junho, ameaça essa pedra angular da pacificação irlandesa. O espectro do restabelecimento de uma “fronteira dura” entre as duas unidades políticas da ilha tornou-se uma preocupação e assusta empresários e pessoas que dependem de empregos gerados pelo turismo. Muitos ainda lembram da fronteira física que separava, até recentemente, as duas Irlandas – e temem um retorno a algo parecido. No auge do The Troubles, as estradas para o sul da ilha chegaram a ser dinamitadas pelo exército britânico. Em tempos relativamente calmos, blocos de concreto reduziam a velociade e postos de controle de fronteira geravam filas imensas de carros. No pós-Brexit, entre os irlandeses, irrompem questões legítimas. As fronteiras voltarão a ter barreiras? Os trabalhadores de ambos os lados da fronteira terão que retornar a seus países de origem? A circulação de turistas continuará totalmente livre? Reinaldo Scalzaretto é diretor da Datageo, produtora de livros, sistemas de ensino e multimídias na área de Geografia, publicados pelo Sistema Anglo de Ensino

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poder

Putin, um profeta da “Grande Rússia” raças ao presidente Vladimir Putin pudemos redescobrir, finalmente, o que significa ser russo”, afirmou, em 2007, o escritor Alexander Soljenitsin (1918-2008), notável dissidente nos tempos soviéticos, prêmio Nobel de Literatura em 1970, cristão ardoroso e nacionalista fanático. O elogio, feito pelo autor de Arquipélago Gulag, obra de denúncia implacável dos horrores praticados pela ditadura soviética, revela as características singulares do governo Putin. O presidente celebrado chefiou a KGB (polícia política da antiga União Soviética) e sua sucessora, a FSB. Como explicar o fascínio de Soljenitsin por um símbolo vivo de uma era odiada? A resposta está no culto patriótico à ideia da “Grande Rússia” – a reunificação mítica dos povos russo, ucraniano e bielorrusso, supostamente separados pela ação insidiosa do “inimigo estrangeiro”, para reconstituir o centro dominante de uma vasta área geográfica situada a leste e a oeste dos Montes Urais. A “Grande Rússia”, como todo ente mítico, não pode ser assinalada precisamente no mapa. Ela corresponde, muito mais, à projeção dos desejos de dominação que percorrem toda a história da formação do Estado imperial russo, desde seu fundador, Ivã, o Terrível (1530-1584), até Putin, passando pela era da Rússia Soviética (19171991). Tendo como base o seu imenso poder, como potência regional, com área de 17 milhões de km², o equivalente a dois Brasis, e vastos recursos naturais, a Rússia sempre alimentou uma vocação expansionista, projetando o seu poder sobre os países e regiões vizinhas. A antiga União Soviética conduziu esse processo ao limite extremo. Embora, formalmente, o país fosse uma federação de repúblicas formada a partir da adesão voluntária e democrática de seus 15 membros integrantes, na realidade Moscou comandava o vasto “império vermelho”. Por intermédio do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), o único com existência permitida nas 15 repúblicas, o Kremlin (sede do poder) ditava as suas ordens – e a KGB se encarregava de eliminar qualquer oposição. O Gulag descrito por Soljenitsin era o extenso, fragmentário complexo carcerário ao qual os “dissidentes” eram destinados. Josef Stalin, que comandou o PCUS e a própria União Soviética com poderes absolutos, de 1924 até a sua morte, em 1953, promoveu a “russificação” de regiões inteiras, com a expulsão de populações não russas e sua substituição por russos (muitos dos quais, aliás, também deslocados contra a sua vontade). Ironicamente, o próprio Stalin não era russo, mas georgiano. 11

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A projeção do poder soviético não se limitou às áreas geograficamente contíguas ao território russo. Após o fim da Segunda Guerra, o Exército Vermelho avançou sobre a Europa do Leste, configurando uma área de influência que se consolidaria em 1955, com a formação do Pacto de Varsóvia, num bloco geopolítico de países-satélites. A Rússia atingiu, então, o auge de seu poder, controlando toda a vasta área que se estende da Sibéria Oriental e da Ásia Central até a Europa Centro-Oriental. Na Guerra Fria, a Cortina de Ferro assinalava o limite do bloco soviético e a mais delicada fronteira geopolítica do globo. A era soviética encerrou-se com a implosão da União Soviética, em 25 de dezembro de 1991 [v. pág. central do H&C, nesta edição]. Dissolvida a união, as antigas repúblicas soviéticas, exceto os três estados bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia), criaram a Comunidade de Estados Independentes (CEI), que teve uma breve duração, sucumbindo às suas contradições (crise econômica, tensões étnicas, disputa de poder político entre máfias, descontentamento da população). A Geórgia foi a primeira república a abandonar a CEI (novembro de 2003), seguida pela Ucrânia (novembro de 2004), Quirguistão e Uzbequistão (março e maio de 2005).

poder imperial. Em resposta aos avanços da Otan, Putin elaborou uma estratégia cujo vetor foi anunciado em Dushanbe (capital do Tajiquistão), em junho de 2007. Na ocasião, o presidente russo coordenou uma reunião para lançar a Comissão Transnacional da Comunidade Econômica Euroasiática, com a participação da Rússia, Tajiquistão, Bielorrúsia e Cazaquistão. A iniciativa permitiu a criação da Comissão Econômica Euroasiática (CEE), em janeiro de 2012, com o objetivo de incorporar a Armênia, a Moldávia e a Ucrânia. O sentido geral desse processo era bastante claro: reconstruir a antiga CEI. Logo após a criação da CEE, em 2008, a Rússia enviou tropas à Geórgia, como resultado de tensões crescentes entre os dois países. Formalmente, os russos protegiam o direito à independência das regiões autônomas da Abecásia e da Ossétia do Sul, não reconhecido pelo governo georgiano. Mas a questão era bem mais complexa: Moscou acusava o governo georgiano de ensaiar um movimento inaceitável de adesão à Otan. Cinco anos depois, em outras circunstâncias, mas obedecendo à mesma lógica, estouraria o conflito entre a Rússia e a Ucrânia. Em fevereiro de 2014, o então presidente Viktor Yanukovitch, fiel aliado de Moscou, foi deposto por um poderoso movimento de massas. Putin viu nisso uma manobra arquitetada pela Otan para incorporar a Ucrânia. Respondeu com rapidez e ousadia, enviando tropas que garantiram a anexação da Crimeia pela Rússia. A Crimeia é a península onde fica o Porto de Sebastopol, uma estratégica base naval da frota russa no Mar Negro, com saída para o Mediterrâneo. Putin deixou claro que não existe, para Moscou, a possibilidade de perder Sebastopol. A alternativa seria a guerra total. Soljenitsin não está só. Como ele, parcela significativa da população russa enxerga em Putin uma espécie de herói nacional. Com porte atlético, ar disciplinado, moralmente conservador (é machista e homofóbico declarado) e com um histórico de responsabilidade direta por medidas sangrentas, que incluem o massacre de separatistas chechenos, Putin encarna a mais autêntica tradição chauvinista russa, construída ao longo de séculos de autoritarismo. É o mais eloquente testemunho de que sobrevive, ainda, uma Rússia arcaica e primitiva, cujo futuro corre o risco de ser absorvido pelas sombras do passado. © Jeremy Baucom/Flickr/Creative Commons

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“A maior catástrofe geopolítica do século XX” – é assim que o presidente russo descreve a implosão da União Soviética. Por isso, entrega-se a uma missão de restauração imperial

Na Praça Vermelha, o Kremlin (à dir.) e a Catedral de São Basílio (ao fundo) são símbolos daqueles que sonham com uma suposta volta aos tempos míticos do glorioso Império Russo A desagregação “doméstica” combinou-se com a dissolução do Pacto de Varsóvia, em fevereiro de 1991. Como resultado, os Estados Unidos se sentiram com poder para promover um avanço estratégico rumo às fronteiras da Rússia. Em dez anos, entre 1999 e 2009, quase todos os países que integravam o Pacto de Varsóvia foram cooptados pela Otan. Putin, um saudosista da “Grande Rússia”, qualifica o fim da União Soviética como “a maior tragédia geopolítica do século XX”. Desde que chegou ao poder, em 1999, consagra-se a uma missão de restauração do

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brasil

Para onde vão nossas metrópoles? O

sucesso de cada país é cada vez mais medido pelo sucesso de suas cidades, pela capacidade de seus povos de promoverem o desenvolvimento urbano, de construírem cidades mais eficientes, justas e belas, que gerem e atraiam o melhor capital intelectual. Isso porque, nas últimas décadas, assistimos a uma transformação da matriz produtiva global. Na “economia do conhecimento”, que se consolida como um novo paradigma de produção, o conhecimento, mais do que o trabalho, se torna o insumo mais importante em toda a cadeia de valor. A maior parte do produto global (70%) é gerado pelo setor de serviços localizado em cidades, e não pelos segmentos de produção de bens situados em áreas periurbanas e rurais. Segundo o Banco Mundial, 90% da população da América Latina viverá em cidades em 2050. Esse crescimento explosivo da economia e da população das cidades, entretanto, não gera espaços urbanos sadios. Muitas metrópoles experimentam uma expansão marcada por fortes desequilíbrios entre a oferta de espaços de moradia e espaços de trabalho, pela carência de áreas públicas de lazer, pela desproporção entre zonas permeáveis e não permeáveis. Tais desajustes são geradores de segregação, instabilidade social e vulnerabilidade ambiental. Outras cidades, no entanto, têm sido capazes de gerar territórios mais balanceados, criando uma oferta mais equilibrada de áreas destinadas à habitação, ao trabalho, aos serviços e ao lazer. Promovem, assim, um convívio social mais plural. Como explicar essas diferenças na evolução das cidades? Ao lado de determinantes geográficos, históricos e culturais, a ocupação e o crescimento das cidades é sempre o resultado de vontade coletiva, que se expressa por relações de conflito ou cooperação entre três poderes: o político, o econômico e o social. Nas sociedades democráticas modernas, é a resultante desses três vetores de poder que determina os diferentes graus de viabilidade, sucesso e sustentabilidade do “fazer cidade”. Quanto mais intensa e convergente a interação, maiores as condições de mobilizar as melhores ideias e mais poderosos os antídotos contra o populismo, a ganância, o radicalismo. Aspecto crítico do momento histórico atual é a tensão inédita entre o mundo político, o mercado e a sociedade. As massas, impulsionadas por redes sociais, rapidamente ocupam as ruas, muitas vezes com agendas difusas. As forças de mercado induzem a privatização de diversos âmbitos da vida social e econômica. O enfraquecimento dos Estados – derivado de crises fiscais ou de representatividade – se aprofunda como tendência global. Temos uma nova matriz econômica, a “economia do conhecimento”, mas essa nova economia ainda não gerou uma fórmula política de governança que regule o equilíbrio entre mercado, governo e sociedade. Ao contrário do que aconteceu na Era Moderna, durante a qual buscou-se o centralismo político dos Estados-nação, busca-se hoje o aprimoramento

As cidades projetam no território aquilo que uma coletividade almeja ser no presente e no futuro. Caberá a nós mesmos – governo, mercado e sociedade civil – decidir para onde queremos ir Ruas estreitas, serviços públicos inexistentes ou precários, falta de segurança, grande distância do centro e dos locais de trabalho dos moradores: o Jardim Monte Azul, no extremo sul da cidade de São Paulo, é um microcosmo do universo de milhões de paulistanos

de uma organização político-territorial mais descentralizada, na escala espacial das cidades e metrópoles. No século XVIII, Montesquieu elaborou a teoria política assentada na separação dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, a qual serviu como base das doutrinas constitucionais liberais. A autonomia desses três poderes clássicos fundamentou o processo de consolidação dos Estados modernos, nos quais se logrou promover um equilíbrio entre o centralismo político (sem os vícios do despotismo autocrático que marcavam as monarquias absolutistas), a liberdade econômica e, paulatinamente, direitos de representação política a outros grupos de interesse. A “era do conhecimento” nos demanda uma teoria política que propicie uma nova governança para as cidades. É nesse contexto que as metrópoles devem pensar e construir o seu futuro. As cidades brasileiras serão bem-sucedidas à medida que forem aptas a estabelecer um regime regulatório capaz de dirimir os conflitos entre governos, setor privado e sociedade civil, com vista à construção de um ideal de cidade que se situe para além de interesses particularistas. Um novo pacto político precisará ser concebido se desejarmos evitar uma condição urbana precária para construirmos cidades com alma, animadas e vibrantes, marcadas por uma vigorosa paisagem, representativa de valores e anseios coletivos, que propiciem qualidade de vida, promovam a justiça, a criatividade e a inovação, atraiam os melhores talentos e nos posicione entre os principais polos dinâmicos da economia mundial. Os marcos regulatórios brasileiros avançam nessa direção, mas em ritmo lento, e as forças de governo, de mercado e cívicas ainda carecem de um quadro normativo facilitador de um diálogo mais ágil, intensivo e construtivo. Após a publicação do Estatuto da Cidade (2001), municípios avançaram na elaboração de Planos Diretores, mas a qualidade de seus textos varia muito de cidade a cidade. Vários municípios demarcaram as

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© Leon Rodrigues/Secom/Fotos Públicas

Philip Yang Especial para Mundo

chamadas Zeis, zonas destinadas a habitações de interesse social, mas poucos empreendimentos foram realizados nesses territórios. As políticas habitacionais federais e estaduais como o “Minha Casa Minha Vida” viabilizam moradias fora das Zeis, em anéis periféricos, fabricando ou reproduzindo bolsões de pobreza e exclusão social. O mercado incorporador segue construindo imóveis murados, gerando ruas mortas e esterilizando a vida em comunidade e a fruição de espaços públicos. Governo e mercado, sem coordenação, agravam a segregação social, incentivando a separação espacial pela indução de guetos de ricos e de pobres. Nas metrópoles, a partir dos anos 1980, a desconcentração industrial avançou mais rapidamente do que a adequação das leis de zoneamento, fazendo com que diversas áreas antes industriais, centrais e ricas em infraestrutura não pudessem ser aproveitadas para a formação de tecidos urbanos condizentes com as novas demandas da sociedade. Planos de reforma urbana deveriam se concentrar nessas áreas centrais degradadas, recuperando-os pela combinação de moradia e serviços e para a produção de espaços de habitação social. As cidades são expressões de uma época traduzidas no espaço. Uma cidade fechada, intolerante, constituída por guetos de pobres e ricos, destituída de espaços públicos onde o convívio plural possa florescer, nos levará certamente à distopia social e à esterilidade criativa. Pense nisso ao escolher seu próximo prefeito: pouco importa se o partido dele é pró-mercado ou pró-Estado. O que importa é saber se ele será capaz de agremiar forças em torno de propostas estruturais que possam enfrentar o problema da formação dos guetos sociais urbanos. Temos algum candidato com uma agenda assim? Philip Yang é mestre em Administração Pública pela Universidade Harvard e fundador do Instituto de Urbanismo e Estudos para a Metrópole (Urbem) 2016 OUTUBRO

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Jornal mundo outubro 2016  
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