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ANO 24

Nº 1

tiragem:

20 000 exemplares

uando a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou o vírus da zika uma “ameaça global”, a agência da ONU reconhecia a fragilidade das fronteiras nacionais na era da globalização. O vetor do vírus é um mosquito. Mas ele se desloca junto com as massas humanas que, todos os dias, atravessam as fronteiras. Bem antes da descoberta de uma vacina, o alerta é uma convocação às autoridades sanitárias do mundo inteiro – e, especialmente, do Em Guaianazes (Zona Leste de São Paulo), agentes da Prefeitura aplicam veneno contra o Aedes; epidemias Brasil. disseminadas pelo mosquito ameaçam escapar ao controle, no Brasil e em várias regiões do planeta Globalização não é um fenômeno novo. Há meio milênio, com a conquista europeia das Américas, o intercâmbio de microrganismos provocou uma catástrofe demográfica entre os ameríndios. Há cem anos, no outono da Primeira Guerra Mundial, a mal denominada “gripe espanhola” devastou a Europa e espalhou-se até os arquipélagos do Pacífico e as franjas do Ártico. O zika é parte de uma longa história. Temos uma desvantagem biológica no embate inicial com os microrganismos causadores de doenças. Nosso organismo demora para encontrar respostas imunológicas eficazes, enquanto os microrganismos reproduzem-se e sofrem mutações em ritmo estonteante. A nossa vantagem situa-se em outra esfera: as políticas de saúde pública e as tecnologias médicas. No Brasil, a partir de Oswaldo Cruz, eliminamos o Aedes aegypti. Mas, vergonhosamente, por incúria dos governos, o mosquito reinstalou-se entre nós há várias décadas. Convivemos alegremente com surtos anuais de dengue. Hoje, o tempo da brincadeira acabou. É preciso agir – e com algo mais que discursos oportunistas de propaganda política. Veja as matérias às págs. 6 a 8

da velocidade

© Rovena Rosa/Agência Brasil

Trump e Sanders desafiam a regra do jogo

U

m terremoto desequilibra o Partido Republicano. Seu nome é Donald Trump, o candidato tido como inviável, grosseira expressão de ultranacionalismo, nativismo e intolerância, que se tornou favorito nas prévias partidárias. Um terremoto paralelo, de menor magnitude, desorganiza o Partido Democrata. Seu nome é Bernie Sanders, o esquerdista que ameaça a coroação anunciada de Hillary Clinton. Nos Estados Unidos, o jogo das eleições primárias foi concebido como filtro destinado a excluir os extremos, reforçando o centro político. No ciclo em curso, contudo, os dois “forasteiros” evidenciam que algo não funciona como o planejado no grande esquema da democracia de massas. Pág. 10

Euclides da Cunha

150 anos © Acervo da Casa Euclidiana, São José do Rio Pardo

● Editorial – O discurso oficial sobre a epidemia de microcefalia omite a responsabilidade dos governos na crise crônica de saúde pública. Pág. 3 ● No encontro histórico com Cirilo, líder da Igreja Ortodoxa Russa, o papa Francisco mexe as peças da política global da Igreja Católica. Pág. 3 ● Na Argentina, Mauricio Macri, o novo presidente, avança sua agenda de mudanças enquanto o peronismo organiza uma recomposição interna. Pág. 4 ● No redemoinho do colapso econômico, a Venezuela experimenta a disputa de poder entre o Executivo chavista e a Assembleia oposicionista. Pág. 5 ● As regiões ultraperiféricas da União Europeia funcionam como instrumentos de projeção de influência no Caribe, no Atlântico e no Índico. Pág. 9 ● Diário de Viagem – A aventura de um jovem estudante da USP, há meio século, sob a ditadura militar. Pág. 11 ● A guerra geral na Síria e no Iraque abriu caminho para a territorialização do jihadismo e deflagrou o maior deslocamento humano desde a Segunda Guerra Mundial. Pág. 12

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MARÇO/2016

As epidemias, no mundo

© Instituto Geográfico e Histórico do Brasil, Rio de janeiro

E mais...


21º Concurso Nacional de Redação­ de Mundo e H&C – 2016

E X P E D I E N T E PANGEA – Edição e Comercialização de Material Didático LTDA. Redação: Demétrio Magnoli, José Arbex Jr., Nelson Bacic Olic (Cartografia) Jornalista responsável: José Arbex Jr. (MTb 14.779) Revisão: Jaqueline Ogliari Pesquisa iconográfica: Thaisi Lima Projeto e editoração eletrônica: Wladimir Senise

Escreva e se inscreva!!! 1. História e objetivo do concurso

O

Concurso de Redação nasceu, em 1996, com o objetivo de estimular o hábito de ler, escrever, estudar e refletir. O desenvolvimento contínuo e prazeroso dessas habilidades é de suma importância, no mundo contemporâneo, para o processo de formação de cidadãos críticos e bem informados, capazes de se expressar de modo claro, criativo e inteligente. Mas, para que o concurso tenha êxito, é essencial a colaboração dos professores, especialmente os da área de Comunicação e Expressão.

© Escala de Kinsey - Reprodução

2. Tema da redação

Questões de identidade

“P

ara todos os efeitos e propósitos, eu sou uma mulher”, declarou Caitlyn Jenner, em 24 de abril de 2015, durante uma entrevista concedida à jornalista Diane Sawyer, pelo canal ABC de TV dos Estados Unidos. Caitlyn era Bruce, durante a Olimpíada de Montreal, em 1976, quando venceu o decatlo, prova exclusivamente masculina. O “caso Jenner” ilumina uma questão posta com força cada vez maior no mundo contemporâneo: as antigas identidades afetivosexuais que definiam o lugar social de homens e mulheres parecem estar se dissolvendo, gerando, eventualmente, uma perigosa polarização cultural e social. De um lado, há os que manifestam dúvidas, inquietações e revoltas, não raro buscando nos fundamentalismos um abrigo seguro contra os abalos de suas convicções; de outro, há os que experimentam uma espécie de euforia libertária que proclama o fim de todos os limites. Com base nos trechos selecionados a seguir, e valendo-se de suas próprias reflexões, escreva um texto analítico sobre esse cenário.

“I

ago — Virtude? Uma figa! Depende de nós mesmos sermos assim ou assado. Nossos corpos são nossos jardins, cujos jardineiros são nossas vontades; de modo que se quisermos plantar urtiga e semear alface, deixar hissopo ou arrancar tomilho, provê-los apenas de determinada espécie de erva ou enchê-los de muitas variedades, esterilizá-los pela preguiça ou cultivá-los pelo trabalho... Ora, o poder exclusivo e a força reguladora de tudo reside apenas em nossa vontade. Se a balança de nossa vida não dispusesse de um prato de razão para contrabalançar o da sensualidade, o sangue e a baixeza de nossa natureza nos conduziriam às mais absurdas situações. Mas possuímos a razão para acalmar nossos instintos furiosos, os acúleos da carne, os desejos desenfreados. De onde concluo que o que denominais amor não é mais do que um sarmento ou uma vergôntea.” (Otelo, de Willliam Shakespeare, Ato I, cena III)

“F

alamos de orientação [sexual], e não de opção, porque não é algo que possamos mudar de acordo com nosso desejo. Existem quatro tipos de orientação afetivo-sexual: os bissexuais se sentem atraídos pelos dois gêneros; os heterossexuais, pelo gênero oposto; e os homossexuais, pelo mesmo gênero. Os assexuados representam um caso singular [...]. Ao passo que a orientação sexual se refere a outros, a quem nos relacionamos, a identidade de gênero faz referência a como nos reconhecemos dentro

dos padrões de gênero estabelecidos socialmente. Existem dois sexos, mulher e homem, e dois gêneros, feminino e masculino. Embora a maioria das mulheres se reconheça no gênero feminino e a maioria dos homens no masculino, isto nem sempre acontece. Falamos, então, de pessoas cujo sexo biológico discorda do gênero psíquico: são os travestis e transexuais, ou transgêneros. Existe muita confusão a respeito das relações entre orientação sexual e identidade de gênero, e a verdade é que não existe relação – são coisas completamente independentes.” (Texto extraído do blog oficial do Movimento PLC 122, cujo objetivo é punir a discriminação ou preconceito de orientação sexual e identidade de gênero – http://www.plc122.com.br)

“H

omem nasce homem e mulher nasce mulher.”

(Declaração dada em 30 de outubro de 2015 pelo vereador Campos Filho (DEM), durante uma sessão da câmara de Campinas que aprovou uma moção endereçada ao Ministério da Educação, em que pede a anulação de uma questão da prova do Enem, realizada três dias antes, por citar a afirmação de Simone de Beauvoir (1908-1986), publicada no livro O segundo sexo, de 1949: “Ninguém nasce mulher, torna-se mulher.”)

“M

as a psicanálise levou às últimas consequências a suposição de que o desejo e o prazer sexual são ‘cosa mentale’, coisa mental, segundo a expressão de Leonardo da Vinci. A partir daí, todas as investigações

MUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDOPANGEAMUNDO

Endereço: Rua General Brasílio Taborda, 218, São Paulo – SP. CEP 05591-100. Tel/fax: (011) 3726.4069 / 2506.4332 E-mail: pangea@uol.com.br – www.facebook.com/JornalMundo Assinaturas: Por razões técnicas, não oferecemos assinaturas individuais. Exemplares avulsos podem ser obtidos no seguinte endereço, em São Paulo: • Banca de jornais Paulista 900, à Av. Paulista, 900, São Paulo Fone: (011) 3283.0340

www.clubemundo.com.br Infelizmente não foi possível localizar os autores de todas as imagens utilizadas nesta edição. Teremos prazer em creditar os fotógrafos, caso se manifestem.

ATENÇÃO! Em nossa próxima edição, publicaremos as normas do concurso. que tentam fundar a diferença na anatomia se tornaram obsoletas. Homens e mulheres, diferenciados não em razão do real de seus corpos, mas por aquilo que se pode elaborar a partir deles, são sujeitos igualados em sua condição desejante, que se relacionam por meio do filtro de suas fantasias e jamais se complementam. Pensar a diferença como não complementar desata o nó que condicionava a sexuação às funções procriativas e faz reconhecer as mulheres como seres de linguagem e cultura. Em consequência, percebemos que a constituição dos chamados gêneros é efeito de práticas discursivas, independentes da anatomo-fisiologia do sexo.” (“A anatomia e seu destino”, por Maria Rita Kehl, Folha de S. Paulo, Caderno Mais, 25 de março de 2011)

“S

e uma pessoa é gay, busca Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?”

(Papa Francisco, em entrevista concedida aos jornalistas que o acompanhavam no voo de volta à Itália depois da visita de uma semana ao Brasil, em 29 de julho de 2013)

“N

ão erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus.” (Bíblia, 1 Coríntios 6:10)

2016 MARÇO




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Metáfora do boxe atrapalha luta contra a dengue “Um mosquito não pode derrotar 204 milhões Somos muito mais fortes que esse mosquito. Aliás, serve de exemplo, de símbolo para nós. Nós, hoje, enfrentamos dificuldades em nosso país. Nós, juntos, vamos superar essas dificuldades. Esse país vai crescer, gerar empregos, vai continuar fazendo programas como esse, o Minha Casa, Minha Vida”, afirmou a presidente Dilma Rousseff, em 19 de fevereiro, ao entregar unidades habitacionais em Petrolina (PE). Ela se referia, é claro, ao mosquito Aedes aegypti, portador dos vírus da dengue, da chikungunya e do zika, também responsável pela transmissão da febre amarela. Há vários problemas com a declaração. O primeiro: identificar a luta contra o Aedes com o combate de pessoas.

à crise econômica e em nome dessa suposta identidade lançar um apelo à “unidade nacional”, um recurso demagógico, primário e de baixo nível.

É

também

perigoso, por conferir alta densidade emocional

(o

pânico provocado pela epidemia) ao mundo da

política, que deveria ser exercido sem paixões, com o máximo de ponderação e racionalidade.

Em

segundo lugar, explicar a luta contra o

mosquito como se fosse uma disputa de boxe pode

ser um bom recurso de publicidade, mas obscurece o

a primeira ocorrência documentada do vírus

problema. Não se pode atribuir a “um país” (como faz a

no país aconteceu em 1981-1982, em Boa Vista (RR), causada pelos vírus DENV-1 e DENV-4. Anos depois, em 1986, houve epidemias no Rio de Janeiro e em algumas capitais do Nordeste. Desde então, a dengue vem ocorrendo no Brasil de forma continuada. Em 1998, houve uma pandemia com mais de 500 mil casos. Em 2000, o vírus 3 foi isolado no Rio, e uma nova epidemia aconteceu entre 2001 e 2003, atingindo a Região Sul. Diversos fatores concorrem para a disseminação do mosquito nos países tropicais e subtropicais:

campanha governamental) a responsabilidade para erradicar o mosquito. A “culpa” pela epidemia não cabe ao “desleixo” da população (embora ele contribua), mas à incompetência de sucessivos governos, incapazes de formular e aplicar políticas públicas adequadas.

O

primeiro caso de dengue documentado no

1865, no Recife. Sete anos depois, uma 2 mil mortes, em Salvador. Em 1896, houve uma nova epidemia, no Rio de Janeiro e áreas do Nordeste (mais de 50 mil casos), com a disseminação do vírus DENV-1. Em 1903, Oswaldo Cruz implantou um programa de combate ao mosquito, que se prolongou por anos. Foi nesse contexto que, em 1908, Antonio Gonçalves Peryassú, pesquisador do então Instituto Soroterápico Federal, futuro Instituto Oswaldo Cruz (IOC), fez descobertas sobre o ciclo de vida e a biologia do Aedes. O mosquito foi erradicado do território nacional em 1955. Entretanto, no final dos anos 1960, o relaxamento das medidas adotadas levou à sua reintrodução. Segundo dados do Ministério da Saúde, país data de

epidemia de dengue causou pelo menos

o rápido crescimento demográfico associado à intensa e desordenada urbanização, a inadequada infraestrutura urbana, o aumento da produção de resíduos não orgânicos, os modos de vida na cidade, a debilidade dos serviços e campanhas de saúde pública, bem como o despreparo dos agentes de saúde e da população para o controle da doença. São fatores que podem e devem ser resolvidos por uma política pública adequada.

O Aedes

já foi erradicado uma vez.

sê-lo novamente

Poderá

mas não por apelos demagó-

gicos.

“A

tentos à permanência de diversos obstáculos, esperamos que nosso encontro possa contribuir para o restabelecimento da unidade desejada por Deus, pela qual trabalhou Cristo.” A declaração conjunta do papa Francisco, líder da Igreja Católica, e do patriarca Cirilo, líder da Igreja Ortodoxa Russa, menciona a “tradição compartilhada dos primeiros dez séculos” e faz uma pesarosa referência à “perda da unidade”, isto é, ao Cisma do Oriente, de 1054, cujo milênio se aproxima. A restauração da unidade da cristandade figura como meta declarada, mas ainda utópica. Por outro lado, a meta imediata é evitar a “completa expulsão dos cristãos do Oriente Médio”. Francisco, vestido de branco, e Cirilo, vestido de preto, abraçaram-se e beijaram-se em 12 de fevereiro, no primeiro encontro dos líderes das duas igrejas desde o cisma medieval. Predecessores de Francisco fracassaram em tentativas de promover uma reunião desse tipo, esbarrando na desconfiança da Igreja Russa sobre as intenções do Vaticano, que pretenderia explorar as divisões entre os líderes ortodoxos da Europa Oriental. O aeroporto José Martí, em Havana, lugar improvável do encontro finalmente realizado, reflete a “permanência de diversos obstáculos” – ou seja, o delicado jogo geopolítico que condiciona os passos das duas igrejas. 

“Nosso encontro fraternal aconteceu em Cuba, na encruzilhada de Norte e Sul, Oriente e Ocidente”, explica a declaração conjunta. A exclusão de Roma e Moscou, sedes dos poderes religiosos rivais, derivou de um cuidado óbvio: nenhum dos dois líderes aceitaria a condição de hóspede do outro. No altar da catedral de Santa Sofia, em Istambul, está depositada há 962 anos a bula papal de excomunhão. A antiga Constantinopla seria, em tese, o lugar simbólico perfeito para uma conclamação conjunta à reunificação dos cristãos. Mas Cirilo não aceitaria, em nenhuma hipótese, a condição de hóspede do patriarca Bartolomeu, o arcebispo de Constantinopla, um ativo concorrente político no mundo cristão ortodoxo. Cirilo personifica a reativação, após o longo parêntese soviético, da aliança entre Igreja e Estado na Rússia. Depois da queda de Constantinopla, em 1453, Moscou converteu-se na “terceira Roma” e o imperador russo tomou o lugar do imperador bizantino na qualidade de protetor da Igreja Ortodoxa. Sob Putin, o Kremlin restaurou a tradicional aliança, distinguindo a Igreja Ortodoxa Russa de suas congêneres. Cirilo celebrou o putinismo como um “milagre de Deus”, amaldiçoou o nacionalismo georgiano e abençoou as forças russas que ocuparam a Crimeia. MARÇO 2016

Bartolomeu, pelo contrário, não tem um Estado atrás de si. Contudo, seu evidente desamparo na Istambul das mesquitas é uma fonte simbólica de força: entre os líderes ortodoxos nacionais da Europa Oriental, o patriarca de Constantinopla aparece como alternativa ao poder político-religioso de Moscou. Não por acaso, Bartolomeu convocou sínodos pan-ortodoxos e opera pelo “diálogo” com a Igreja de Roma. Ele assistiu à missa que entronizou Francisco, no Vaticano, em março de 2013, e recepcionou o papa Francisco em Istambul, em novembro de 2014. Na Santa Sofia, concordou com o objetivo papal de trabalhar pela “completa unidade” da cristandade. Meses antes, a Igreja Ortodoxa Russa censurou veladamente a iniciativa, declarando que Bartolomeu representava apenas sua própria igreja no encontro com o papa. Francisco tem uma vantagem evidente sobre Cirilo. A Igreja de Roma é um corpo centralizado, um império espiritual. As igrejas nacionais ortodoxas são autocéfalas, isto é, entidades independentes umas das outras. O magnetismo que o Vaticano exerce sobre as frágeis igrejas ortodoxas dos Bálcãs, do Oriente Médio e da África do Norte reflete, em certa medida, a atração exercida pela União Europeia sobre as nações da antiga esfera de influência soviética. Na moldura da operação reunificadora

© Ismael Francisco/Cubadebate

Francisco e Cirilo beijam-se em Havana

de longo prazo, o papa ergue a bandeira da defesa das comunidades cristãs perseguidas pelo jihadismo e pelos fundamentalismos islâmicos no Oriente Médio e na África do Norte. A declaração conjunta menciona, especialmente, a Síria e o Iraque, dirigindo-se “num apelo fervoroso”, a “todas as partes que possam estar envolvidas em conflito para que demonstrem boa vontade e participem da mesa de negociações”. Ao mesmo tempo, oferece apoio “a todos os esforços possíveis para acabar com o terrorismo por meio de ações comuns, conjuntas e coordenadas”, uma fórmula ampla e vaga, capaz de cobrir à sua sombra tanto os interesses geopolíticos dos Estados Unidos quanto os da Rússia. A unidade exige a ambiguidade.

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argentina

Macri enfrenta o peso da tradição peronista Newton Carlos Da Equipe de Colaboradores

Novo presidente argentino anuncia mudanças radicais de política externa e procura caminhos para negociar o “ajuste econômico” com os sindicatos

a Argentina, havia a expectativa para saber como o La Cámpora, agrupamento que funciona como uma espécie de ponta-de-lança do peronismo, reagiria a um naufrágio eleitoral. O desastre aconteceu, com o triunfo do oposicionista Mauricio Macri, o ex-prefeito de Buenos Aires alçado à Presidência do país. A expectativa ainda não se desfez de todo, embora a Juventude Peronista para a Vitória (JPV), movimento mais diretamente ligado a Cristina Kirchner, no momento se mobilize mais em função do que é chamado de “teoria do quarto escuro”. Trata-se de descer à trincheira, reafirmar posições ideológicas, mas aguardar uma oportunidade mais propícia para o confronto. É um peronismo que, embora habituado a viver em palácio, parece aceitar como única saída os prazos estabelecidos pelo cronograma das eleições de 2017 e 2019. A opção é não enfrentar diretamente o “ajuste econômico” de Macri, embora denunciando-o retoricamente. O La Cámpora, movimento batizado com o sobrenome de Héctor Cámpora, o presidente da esquerda peronista que governou por 49 dias em 1973, entrou em recesso sob o peso das urnas. Reunindo jovens peronistas, criado em 2003 por Máximo Kirchner, filho de Néstor e Cristina Kirchner, o movimento justifica as ações armadas dos Montoneros, a guerrilha urbana com trágica incidência na Argentina da década de 1970. De sua parte, o governo Macri insiste no programa do “ajuste econômico” aprovado nas urnas, mas procura caminhos para evitar confrontos. Sua equipe econômica promete negociar salários com os sindicatos, domar a inflação rebelada e, ao mesmo tempo, oferecer estímulos para uma

© Casa Rosada

N

Mauricio Macri toma posse como novo presidente da Argentina retomada econômica. “Bravo desafio”, comentou o jornal La Nación, sem disfarçar a incredulidade. O governo, por sua vez, tenta acender luzes no fim do túnel, anunciando a visita de Barack Obama, um desafogo negociado da dívida externa e a restauração da ortodoxia econômica. Uma vantagem é que nem a cúpula da central sindical, de tradição peronista, nem os sindicatos de base estariam irredutíveis a negociar com o governo. De fato, vários sindicatos dirigidos por grupos de esquerda não peronista declaram-se prontos para combater o “ajuste”, mesmo sem o apoio da Frente Para a Vitória (FPV). Mas os dirigentes

De volta, a Liga dos Governadores Desalojado do poder, depois de 20 anos como ocupante da Casa Rosada, o peronismo trata de perseguir a unidade e de encurralar o kirchnerismo, selo da ex-presidente Cristina Kirchner. Ela comanda a sublegenda majoritária no seio do Partido Justicialista (peronista), rotulada Frente Para a Vitória (FPV), que foi derrotada nas eleições presidenciais. São relacionados três objetivos imediatos do peronismo como um todo. O primeiro: manter-se unido e consolidar-se como principal interlocutor do presidente vitorioso, Mauricio Macri. O segundo: conseguir que voltem ao Partido Justicialista quatro governadores de províncias “críticos” do kirchnerismo. Dessa forma, o peronismo ficaria com um total majoritario de 18 governadores. O terceiro: renovar as autoridades internas por meio dos votos diretos de filiados já no ano em curso. Algo inédito, o peronismo jamais tratou de se renovar por meio de incidência de urnas em seu próprio seio, preferindo indicar de cima para baixo como seus militantes devem se comportar. Agora, a informação é que a maioria dos governadores justicialistas, com peso político interno determinante, concorda com estes três objetivos. Como pano de fundo, a reconstrução “de fato” da famosa Liga dos Governadores. Ela atuou no final dos anos 1980 e deu o golpe de morte no alfonsinismo, mandato do presidente Raúl Alfonsín, do Partido Radical, inimigo histórico do peronismo. O comportamento é de fácil entendimento: ganhar posições no seio do peronismo evitando, ao mesmo tempo, criar “fissuras” internas. Não se trata de expulsar os setores mais duros, sobretudo sindicais, da FPV. O objetivo é “moldá-los”, inclusive a própria Cristina e membros de sua família, que perderam a força “persuasiva” representada pelo controle da Casa Rosada. Trata-se de encerrar a “época do dedo”, ou seja, das ordens arbitrárias emanadas do kirchnerismo. A esperança é que, com o passar do tempo, conquistem os “pesos territoriais” que dizem ter. Depois de tantos anos de “alinhamento automático”, teria chegado a hora de contar com estrutura própria, amparada nas máquinas políticas dos governadores. Os reformistas dizem contar com mais de 30 dos 40 senadores da FPV, o que poderia ser uma boa alavanca. (Newton Carlos)

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sindicais históricos, apesar de uma estridente retórica de oposição, parecem se preparar para um acordo cujos termos o governo imporia enquanto avançam a inflação e as demissões. As situações de confronto não cessam. Os governadores peronistas articulam-se para uma batalha jurídica com objetivos estratégicos. Querem recuperar bilhões em impostos cedidos ao governo central há mais de 20 anos, de modo a conseguir autonomia financeira diante de Macri, algo que os ajudaria a comandar o movimento peronista [veja o boxe]. Uma decisão da Corte Suprema parece abrir caminho a uma desenlace em favor dos governadores, que controlam diversas províncias importantes, algumas com forte peso econômico e, em consequência, também político. A Corte Suprema declarou inconstitucional uma lei que desconta, em favor do governo central, 15% da totalidade dos impostos cobrados pelas províncias. Córdoba, Santa Fé e San Luis, com governadores peronistas, entraram com o pedido e ganharam. O peronismo é um partido de poder, que nasceu no poder e sua ideologia é o poder, sentenciou o La Nación. O programa de Macri não se circunscreve ao “ajuste econômico”. O presidente nomeou um secretário de Planejamento Estratégico, Fulvio Pompeo, um jovem engajado na tarefa de “moldar” o governo, dentro e fora. Mudanças já estão à vista, sobretudo fora. São múltiplos sinais: condenação das violações de direitos humanos na Venezuela; a simbólica remoção do retrato de Hugo Chávez, que ornava a Casa Rosada, sede do governo argentino; intensificação das relações com os Estados Unidos, “maduras, não adolescentes”, nas palavras de Pompeo. Macri está disposto, inclusive, a normalizar as relações com a Grã-Bretanha, sem abrir mão da reivindicação sobre as Ilhas Malvinas, motivo da guerra de 1982, precipitada por uma ditadura militar buscando encrenca externa que cobrisse dificuldades internas. Quanto ao memorando de entendimento com o Irã, Macri simplesmente o anulou. Trata-se de acerto de política externa que gerou pesadas dificuldades a Cristina, fato anotado com cuidado por Pompeo. Envolvia a investigação conjunta do atentado terrorista na Amia, um centro judaico, em 1994, com um montão de mortes, e também a morte suspeita de um integrante do judiciário argentino. Sob a supervisão de Macri, Pompeo anunciou uma devassa na caixa preta dos serviços de inteligência. Na política externa, a ideia geral é recompor laços “com o mundo”. Já se fizeram encontros com mandatários da França e da Itália. “Temos uma agenda do século XXI”, diz Pompeo, “nosso objetivo principal é que a inserção internacional nos permita alcançar metas internas, como a de pobreza zero”. Ele ocupa na Casa Rosada uma sala contígua ao do presidente. Já se impõe como figura central da construção da nova diplomacia argentina.

2016 MARÇO




venezuela

No pior dos mundos Em meio ao agravamento da crise, Nicolás Maduro tenta esvaziar poderes da Assembleia Nacional e a oposição prepara meios para afastá-lo do cargo

Cláudio Camargo Especial para Mundo

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MARÇO 2016

Ondas de protesto contra o presidente da Venezuela Nicolás Maduro explicitam a crise do “chavismo”

© Federico Parra/AFP

imón Bolívar, general que liderou a luta pela independência de vários países hispano-americanos, principal santo no altar de devoção dos bolivarianos da Venezuela, costumava dizer que a arte de vencer se aprende com as derrotas. Seu epígono, o tenente-coronel Hugo Chávez, soube aplicar essa máxima: líder de uma frustrada tentativa de golpe militar em 1992, ele se reciclou, entrou na política partidária, elegeu-se presidente em 1998 e refundou a república. Reeleito sucessivamente, ficou na cadeira presidencial até sua morte, em 2013. Já seu sucessor, Nicolás Maduro, recebeu o poder quase de bandeja, como herdeiro do chavismo. Na época, já às voltas com a crise econômica, ganhou a eleição por uma margem apertadíssima (50,6% contra 49% do opositor Henrique Capriles). Em compensação, seu partido, o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), manteve a maioria na Assembleia Nacional, com 100 das 167 cadeiras. Agora, a deterioração econômica da Venezuela cria o cenário para o confronto. A maior inflação do mundo deve atingir 720% em 2016, o desabastecimento é generalizado e prevê-se contração de 18% do PIB entre 2015 e 2016. Nessas condições, Maduro tem que lidar com uma situação inédita em 17 anos de chavismo: a transferência da maioria parlamentar para a oposição. Em dezembro último, numa eleição com 75% de comparecimento, a coalizão oposicionista Mesa da Unidade Democrática (MUD) conquistou 112 cadeiras da Assembleia, contra 55 dos partidos governistas. Abriu-se um período de crise institucional, com o governo tentando manietar o Parlamento e a oposição buscando meios de encurtar o mandato de Maduro, que vai até 2019. Ao contrário de Chávez, Maduro parece não ter aprendido com a derrota. Para começar, ele só reconheceu a vitória da oposição por pressão do ministro da Defesa, general Vladimir Padriño. Apesar de chavista, a cúpula militar venezuelana teme a eclosão de novos distúrbios em razão da radicalização política do país. Mesmo assim, o presidente sinalizou que pretende manter o clima de confronto ao colocar na pasta de Economia um jovem sociólogo esquerdista, Luis Salas, que pretende acelerar a intervenção estatal, irritando ainda mais o empresariado. O mais grave, contudo, são as ações do governo destinadas a esvaziar os poderes da nova Assembleia Nacional. Nem bem as urnas tinham sido abertas e Diosdado Cabello, o linha-dura do chavismo, anunciou a convocação de um “Parlamento comunal”, órgão previsto na Constituição que nunca tinha sido convocado. Seria uma espécie de poder paralelo, com a prerrogativa de aprovar iniciativas políticas e econômicas à revelia da Assembleia. Na sequência, Maduro aposentou e substituiu 13 dos 32 juízes do inchado Tribunal Supremo de Justiça (TSJ). Dias depois, o TSJ acatou um pedido do PSUV e impugnou quatro deputados, três deles da MUD, a pretexto de irregularidades eleitorais. Com isso, a oposição perdeu

a maioria qualificada de dois terços, que lhe permitiria emendar ou reformar a Constituição. Antes, o governo já tinha tirado do Parlamento o poder de escolher os dirigentes do Banco Central e o direito de obter informações do órgão. A disputa ganhou conotações de conflito entre os poderes do Estado. Em 22 de janeiro, a Assembleia rejeitou, por 107 votos, o decreto de emergência econômica do governo, que dava poderes ao presidente para, por 60 dias, adotar medidas sem consultar o Parlamento, como expropriação de empresas e bens privados, aprovação de orçamentos e imposição de restrições sobre saques em dinheiro e câmbio. Mas, em 11 de fevereiro, o TSJ ignorou a decisão e validou o decreto de emergência. Instaurou-se o caos. Nesse clima, parece que o chavismo não sobreviverá ao seu “comandante”. Não se vislumbra nenhuma liderança capaz de ser o “herói da retirada” de que fala Hans Magnus Enzensberger, aquele líder que, apesar de identificado com um determinado regime, exerce um papel central na transição democrática, como fizeram Mikhail Gorbachev na União Soviética e Adolfo Suárez na Espanha franquista. Mas, do outro lado, tampouco a oposição revela consistência. Para começar, trata-se de um saco de gatos de 14 partidos cujo único denominador comum é a oposição ao chavismo. De fato, a MUD reúne desde lideranças moderadas, como Henrique Capriles, do Primeiro Justiça (PJ), governador de Miranda e ex-candidato presidencial, até radicais de direita como Leopoldo López, ex-prefeito de Chacao preso e condenado a 14 anos por conspiração, Maria Corina Machado, do Vente Venezuela, e Antonio Ledezma, ex-prefeito de Caracas, também preso. O maior partido é o PJ, de Capriles, que elegeu 33 deputados, seguido pela tradicional Ação Democrática (AD), com 26 parlamentares,

Um Novo Tempo (UNT), uma cisão da AD no Estado de Zulia liderado por Manuel Rosales, com 20, e Vontade Popular, com 14 deputados, liderado por López. As divergências entre os antichavistas se manifestaram já na eleição do presidente da Assembleia, quando o veterano Henry Ramos Allup, da AD, derrotou o favorito Julio Borges, do PJ. Ao tomar posse, Ramos Allup também irritou os setores moderados ao mandar tirar as imagens de Chávez e de Bolívar das dependências da Assembleia. É verdade que a oposição hoje está em outro patamar. Em 2002, tanto Capriles quanto López embarcaram na fracassada aventura golpista que colocou o empresário Pedro Carmona no poder. A política de confronto continuou em 2005, quando a oposição boicotou as eleições, deixando o Parlamento nas mãos do PSUV e seus aliados. Agora, diz Capriles, o pragmatismo tomou o lugar do confronto e da radicalização. Será? Leopoldo López, Maria Corina Machado e Antonio Ledezma discordam. De qualquer modo, a MUD precisará se unir se quiser afastar Maduro. Uma aposta é o referendo revogatório, que pode ser convocado depois da metade do mandato presidencial – o que, no caso de Maduro, ocorrerá já em março. Para convocá-lo, são necessárias assinaturas de 20% dos eleitores (cerca de 4 milhões). Aprovado o referendo, Maduro será afastado se o “não” tiver tantos votos quanto os que o elegeram (7 milhões). Outra alternativa é uma emenda constitucional que abrevie o mandato presidencial. Há, finalmente, quem não descarte uma renúncia de Maduro, mas apenas em janeiro de 2017. Nesse caso, assumiria o vice Aristóbulo Isturiz, recentemente nomeado, para completar o mandato até 2019. Definitivamente, parece que Bolívar não deixou herdeiros na Venezuela. Cláudio Camargo é jornalista e sociólogo

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José Arnaldo Favaretto Especial para Mundo

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elo mundo globalizado, fluem dinheiro, mercadorias e gente. Abertas ao capital, as fronteiras nacionais são atravessadas por turistas, empresários, executivos, pilotos de aviões, soldados, migrantes econômicos e refugiados de conflitos internos ou desastres naturais. Essa multidão desloca-se levando algo mais do que bagagens: suas colônias de microrganismos. Sem navios, aviões e pessoas, os agentes infecciosos não se espalhariam tão rápido nem para tão longe [veja a matéria à pág. 8]. A primeira epidemia em escala planetária do século XXI foi a sars (síndrome respiratória aguda grave) que, entre novembro de 2002 e junho de 2003, atravessou 18 países, atacou 6 mil pessoas e matou mais de 470. A transmissão da sars ocorre “sem intermediários”, de pessoa para pessoa. No entanto, há doenças cuja transmissão depende de um vetor biológico (o agente transmissor), que costuma ser um artrópode. No caso da peste bubônica, que dizimou 25% da população europeia no século XIV, o vetor é a pulga do rato (Xenopsylla cheopis). Para que ocorra surto de doença transmitida por vetor biológico, três condições devem estar presentes: pessoas não imunizadas, o agente infeccioso (em pessoas infectadas ou em animais que atuam como reservatórios naturais) e o vetor. O agente etiológico da dengue é um arbovírus que deve ter se originado de vírus que circulavam entre primatas não humanos em florestas da Ásia. O crescimento populacional aproximou populações humanas de ambientes naturais e colocou pessoas em contato com esses primatas. Vetores biológicos (mosquitos) forneceram a via de passagem, e mutações devem ter permitido a adaptação do vírus ao organismo humano. Os mais “eficientes” vetores do vírus da dengue são mosquitos do gênero Aedes (principalmente A. aegypti e A. albopictus), originários da África. Entre os séculos XV e XIX, o tráfico de escravos africanos forneceu “carona” para que esses mosquitos alcançassem as Américas, permitindo que a doença circulasse daí para quase todo o mundo. Posterior à chegada do Aedes ao Brasil, aportou por aqui – vindo também da África, com os escravos – o arbovírus causador da febre amarela, que provocou surtos em capitais do Nordeste no século XVII. A febre amarela silvestre tem o Ha-

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Pelo mundo, nas asas do mosquit emagogus como vetor, Países ou áreas onde casos de dengue foram reportados mas a febre amarela urbana é de responsabilidade do Aedes. Em 1904, a cidade do Rio de Janeiro passou por campanhas de limpeza, saneamento e urbanização. A coordenação das atividades isoterma de janeiro relacionadas à saúde 10 ºC pública foi entregue ao médico Oswaldo Cruz, com três prioridades: o combate aos ratos (para erradicar a peste bubônica), a vacinação contra a vaisoterma de julho ríola e o combate aos 10 ºC mosquitos responsáFonte: Organização Mundial de Saúde (OMS) veis pela transmissão da febre amarela. O êxito de Oswaldo Cruz não deitou raízes. Desde a década Aedes, têm portadores do vírus da dengue e voráveis de desenvolvimento deverão se de 1970, as populações de Aedes aegypti no têm pessoas não imunizadas, por que lá são deslocar para latitudes maiores, ao sul e Brasil não param de crescer, o que aumenta raros os surtos de dengue? Principalmente ao norte [veja o mapa]. Mais áreas e mais o temor da irrupção de novos surtos de porque eles contam com saneamento am- pessoas estarão expostas ao mosquito; febre amarela urbana. Felizmente, a vacina biental, esgoto coletado e tratado, casas logo, a dengue e outras doenças que ele disponível confere boa proteção. decentes com portas, janelas, caixas d’água transmite deverão encontrar milhões de Nas asas do mosquito, e sem vacina fechadas, aparelhos de ar-condicionado e vítimas potenciais. eficaz, a dengue apossou-se do país. Verão autoridades sanitárias que trabalham, em O Aedes costuma dar uma trégua nos após verão, com as chuvas e o aumento vez de desfiar platitudes. meses de inverno. Isso, porém, depende da temperatura, epidemias se alastram Para explicar a explosão de dengue e o do que chamamos de inverno. Vêm aí as por todas as regiões, batendo recordes de aparecimento de outras doenças circulam Olimpíadas do Rio de Janeiro, no próximo doentes e mortos. Em 2015, foram 863 informações bizarras e até teorias conspira- agosto, e a Cidade Maravilhosa chegou a mortes entre 1,6 milhão de casos, maior tórias. Uma delas imputa a disseminação da registrar, em agosto de 2015, inacreditáveis cifra desde 1990, quando a notificação zika ao aquecimento global. É verdade que, 37 °C de temperatura. passou a ser obrigatória. O maior número para se reproduzir, o Aedes precisa de água e Como o mosquito olha o termômeanterior havia sido o de 2013, com 1,4 calor, e a distribuição desses dois fatores pelo tro, mas não o calendário, é provável que milhão de casos. mundo vem se alterando pelas mudanças tenhamos problemas. Não foi à toa que De 2013 a 2015, o governo federal climáticas. Todavia, o Aedes já estava ins- o Comitê Olímpico Internacional (COI) reduziu o repasse aos municípios de recur- talado no Brasil antes da chegada da zika. recomendou o uso de roupas longas e sos destinados ao combate ao Aedes, que Ele foi seu agente de disseminação, mas não claras e que as mulheres com intenção de passaram de R$ 263 milhões para R$ 143 o causador da celeuma. Antes de culpar o engravidar reconsiderem a vinda aos Jogos. milhões ao ano. Em uma declaração infeliz, aquecimento global, é preciso “fazer a lição Agosto é mês de inverno no Rio de Janeimas verdadeira, o ministro da Saúde, Mar- de casa”, o que vem sendo negligenciado há ro, mas de verão em todo o Hemisfério celo Castro, disse em janeiro último que décadas [veja a matéria à pág. 7]. Norte, inclusive nos Estados Unidos, de “o Brasil está perdendo feio a guerra para As mudanças climáticas não são a ra- onde virão mais de 200 mil pessoas para o Aedes aegypti”. A principal autoridade zão do aparecimento da dengue, da zika e as Olimpíadas, e para onde elas voltarão, sanitária do país joga a toalha, e a explosão congêneres, mas poderão alterar o padrão podendo levar consigo os vírus, na época dos casos de dengue é uma tragédia mais global de distribuição dessas doenças, pois em que os Aedes de lá estarão em plena do que anunciada. Como não consegue mais áreas do globo vão oferecer condições atividade. controlar o mosquito, o ministro anun- para a sobrevivência e a proliferação do ciou distribuição de repelente às gestantes mosquito. No futuro próximo, em um José Arnaldo Favaretto é médico graduado pela Faculdade de Medicina de atendidas pelo Bolsa Família. mundo mais quente, as isotermas entre Ribeirão Preto (USP) e autor de livros Se os Estados Unidos também têm as quais o Aedes encontra condições fadidáticos

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Vírus da zika pode ter chegado na Copa do Mundo

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cossistemas naturais – principalmente florestas tropicais – são “celeiros” de vírus, Não há combate específico ao vírus, e o tratamento é sintomático, com hidratação, anbactérias, protozoários e fungos potencialmente patogênicos, que circulam entre os titérmicos e analgésicos. Vacinas estão em desenvolvimento e, de acordo com a Organização membros das comunidades. O nome do vírus da zika, por exemplo, vem da Floresta de Mundial da Saúde (OMS), testes clínicos devem se iniciar em 2017. Zika, em Uganda. A prevenção resume-se em evitar a picada do Aedes com o uso de repelentes, roupas claras A cada desmatamento, pessoas se aproximam de agentes infecciosos e de seus propagadores. que cubram o corpo tanto quanto possível e telas em portas e janelas. São fundamentais o Se o acaso cruza nossos caminhos com o vetor apropriado, uma nova doença humana pode fechamento, a limpeza e o esvaziamento de depósitos de água que sirvam de criadouros do despontar. No primeiro contato, é provável que as coisas não saiam bem para o hospedeiro mosquito (caixas d’água, piscinas não tratadas, vasos, pneus, ralos e outros recipientes), além (ser humano) nem para o invasor (o agente infeccioso). Para o primeiro, porque o sistema da nebulização com inseticidas (o popular “fumacê”) e do uso de larvicidas. imunológico está tendo o primeiro contato com antígenos contra os quais não têm memória Em um surto de zika na Polinésia Francesa, em 2013, autoridades de saúde detectaram imunológica nem produz anticorpos; para os patógenos, porque seus mecanismos de ataque aumento da ocorrência da síndrome de Guillain-Barré (SGB), doença autoimune em que não estão plenamente adaptados às particularidades do novo habitat (o nosso corpo). anticorpos atacam células nervosas do próprio doente e que provoca fraqueza muscular (prinNesse embate, eles levam vantagem: enquanto nós demoramos horas, dias ou semanas para cipalmente de pernas e braços). Na maioria dos casos, a recuperação é completa. Também desencadear uma resposta imune eficaz, eles se reproduzem com velocidade estonteante, sofrem no surto brasileiro de zika notou-se aumento concomitante do número de casos de SGB, mutações e, por ação da seleção natural, em gerações que se sucedem em poucos minutos, já em particular no Nordeste. Alagoas, por exemplo, registrou elevação de 516% em relação à podem contar com estratégias eficientes de ocupação de território. É a roda da evolução, como série histórica. sempre. Assim foi com a febre amarela, o ebola, a sars, o HIV, a dengue e centenas de outros. Uma novidade do surto de zika iniciado no Nordeste em 2015 foi o aumento do número O vírus da zika não é o primeiro agente infeccioso a adquirir status de ameaça planetária e de casos de microcefalia, redução do tamanho da caixa craniana e do cérebro em recém-nascicertamente não será o último. dos, acompanhada por outras alterações neurológicas e, em geral, retardo no desenvolvimento No calor do momento, enquanto os fatos acontecem, um manto de incertezas dificulta psicomotor. Sabe-se que a microcefalia pode decorrer de certas infecções (como a toxoplasmose) compreender a realidade, que só se torna nítida depois de dias, anos ou até séculos. Será que os e do uso de drogas, álcool e outras substâncias durante a gestação; entretanto, foi a primeira parisienses que acompanharam a queda da Bastilha tinham a exata noção da ruptura histórica vez que se imputou à zika essa malformação congênita. que presenciavam? É o que acontece em meio a um surto de uma doença pouco conhecida, Um artigo sobre o tema, publicado no The New England Journal of Medicine, apresentou sobre a qual pairam dúvidas sobre prevenção, tratamento e complicações. Atualmente, a o caso de uma jovem da Eslovênia que, vivendo em Natal (RN), engravidou e contraiu zika peste bubônica (século XIV) e a gripe espanhola (século XX) ocupam as páginas dos livros no primeiro trimestre da gestação. De volta a seu país, exames ultrassonográficos confirmaram de História; porém, enquanto se alastravam, desenhavam cenas trágicas do cotidiano. no feto o diagnóstico de microcefalia associada a severas malformações do encéfalo, e a jovem Estamos assistindo à história dessa doença ao vivo, e é provável que eu me arrependa de optou pelo aborto. No sistema nervoso do feto, encontraram-se abundantes partículas virais, afirmações que coloco neste artigo, pois escrevo sobre o que ainda está encoberto por uma indicando a infecção pelo zika. Num artigo publicado em Morbidity and Mortality Weekly névoa de dúvidas. Certas doenças são assim: emergem onde não ocorriam, reemergem onde já Report, pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos relataram a presença do vírus no cérebro ocorreram. E muitas têm sido negligenciadas pela comunidade científica, que não dedica a elas de duas crianças que nasceram com microcefalia e morreram com poucos dias de vida. Ambas tempo e recursos. Uma ideia do descaso: o vírus da zika foi identificado em 1947; o HIV, em as mães tiveram zika no início da gravidez. 1984. Contudo, um acesso à Biblioteca dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, Embora seja evidente a correlação entre o aumento do número de casos de zika e os de feito em 16 de fevereiro, mostra 294 citações ao vírus da zika, enquanto o HIV aparece em microcefalia, ainda não se pode falar em relação de causa e efeito. O vírus está no cérebro mais de 238 mil citações. Os artigos científicos sobre a zika mal ocupariam uma pasta plástica, desses bebês – mas será ele a causa das alterações? As próximas semanas devem trazer respostas enquanto o papelório sobre a aids encheria uma biblioteca. para essa questão. Até lá, recomenda-se às mulheres que não engravidem ou que não viajem O Aedes aegypti é um vetor polivalente que, além de propagar dengue e febre amarela, para regiões com surto de zika. transmite zika e chikungunya. Por isso, a presença maciça do mosquito faz do país inteiro O governo federal promete auxílio mensal de um salário mínimo para as famílias com casos um gigantesco barril de pólvora. Temos a pólvora (pessoas não imunizadas) e o fósforo (o de microcefalia associados à zika cuja renda mensal per capita for inferior a R$ 220. Resta, mosquito). Para que tivéssemos surtos de outras doenças faltavam novos agentes infecciosos. ainda, a patética recomendação do ministro da Saúde: “Torço para que as mulheres peguem Ao que tudo indica, eles foram providenciados pela Copa do Mundo, que trouxe um fluxo zika antes da idade fértil.” É muito pouco para quem paga o preço de viver em um país que maior do que o habitual de pessoas vindas de outras partes do planeta. há mais de quatro décadas se mostra incapaz de controlar um mosquito. O agente etiológico da zika é um arbovírus descoberto em Uganda, em 1947, que já circula (José Arnaldo Favaretto) por vários continentes e deve ter desembarcado no Brasil em 2014, com turistas que chegaram a Natal (RN) para os jogos da Copa do Mundo de Futebol Disseminação da zika entre 1947 e 2016 [veja o mapa]. O Aedes se infecta picando pessoas infectadas, e não se sabe se existe reservatório natural. Só as fêmeas são hematófagas, e a alimentação com sangue é crucial para a maturação dos ovos, que, depois de eliminados, permanecem viáveis no ambiente por até um ano. Outras potenciais formas de transmissão – tão divulgadas quanto questionadas – são as transfusões de sangue, o contato sexual e o contato com outros fluidos corporais. Assim como o vírus da zika, a própria doença é de conhecimento recente. O primeiro surto foi 1954 Rep. descrito em 2007 e, de lá para cá, foram registrados 1977 Cabo Dominicana Verde Porto Rico México Haiti casos em 34 países. Somente em 2015 e 2016, 26 Saint Martin Senegal 1954 Paquistão Barbados Guadalupe Nigéria Rep. CentroFilipinas países já comunicaram casos. Belize Africana 2007 Guatemala Martinica Tailândia Honduras Curaçao Micronésia El Salvador Clinicamente, a zika é menos relevante que suas Malásia Guiana 1947 Serra Nicarágua 2016 Guiana Francesa Uganda Leoa Costa Rica Maldivas Camboja Camarões Costa Suriname Ilhas “primas” febre amarela, dengue e chikungunya, Panamá do Marfim Samoa Salomão Colômbia 1948 Indonésia 2016 Burkina Tanzânia Ilhas mantendo-se assintomática em quatro de cada Equador Gabão Faso Fiji Brasil 2013 1977/2012 2015 Vanuatu cinco pessoas infectadas. O período de incubação Polinésia Venezuela Ilhas Francesa 1975/2007 Cook Nova varia de dois a dez dias e as manifestações duram Bolívia Caledônia 2016 Tonga Paraguai uma semana. Os doentes podem apresentar febre, Ilha da Páscoa cefaleia, fotofobia e conjuntivite, dores musculares 2014 e articulares, náusea, diarreia e vermelhidão na pele. Embora raros, casos graves são potencialmente letais. Fonte: Organização Mundial de Saúde (OMS) O diagnóstico clínico é complementado pela detecção, em amostras de sangue, do próprio vírus ou de fragmentos de seu RNA (material genético). 

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epidemias e globalização

Desde Colombo, microrganismos patogênicos Os intercâmbios ecológicos espalharam vírus e bactérias por todos os continentes, deflagrando pandemias e estimulando a descoberta de vacinas

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écadas atrás, os manuais escolares de história nos Estados Unidos informavam que, nos tempos précolombianos, cerca de 1 milhão de ameríndios viviam no atual território do país. O número estimado, decorrente da ignorância, servia para justificar a conquista pelos colonos europeus de um “continente despovoado”. Hoje se sabe que algo em torno de 20 milhões de ameríndios povoavam os territórios que formariam os Estados Unidos e o Canadá. O colapso populacional aconteceu em cerca de 150 anos, deflagrado pelos vírus introduzidos no Novo Mundo com a chegada dos conquistadores espanhóis. Acredita-se, atualmente que, nas Américas como um todo, perto de 95% da população pré-colombiana desapareceu durante aquele período em pandemias de varíola, sarampo, gripe, tifo, difteria, malária, caxumba, coqueluxe, peste bubônica, tuberculose e febre amarela. Hernán Cortés, o conquistador do Império Asteca, perdeu dois terços de seus 600 homens no ataque inicial, mas triunfou em seguida, nas ondas da varíola, que dizimou metade dos astecas, inclusive o imperador Cuitláhuac, desmoralizando os ameríndios mas poupando os espanhóis. O vírus atingiu o México viajando no organismo de um único escravo infectado, transferido de Cuba em 1520. Francisco Pizarro, o conquistador do Império Inca, teve a mesma sorte de Cortés. Ele chegou à costa do Peru em 1531, cinco anos depois da varíola, que fez o serviço sujo, exterminando os ameríndios, inclusive o imperador Huayna Capac e seu designado sucessor. Na vacância do trono, a guerra civil entre dois filhos de Capac, Atahuallpa e Huascar, abriu caminho para o triunfo dos escassos 168 homens de Pizarro. Muito tempo antes, a Europa tinha sido exposta aos vírus e bactérias responsáveis pelas devastadoras epidemias, introduzidos no continente por meio do comércio com a Ásia e a África. Os conquistadores operavam como destacamentos avançados de sociedades que desenvolveram relativa imunidade e resistência genética aos micróbios. Os ameríndios, expostos pela primeira vez aos mortíferos microrganismos, careciam de defesas naturais – e pereceram em massa. A relação de causa e efeito entre microrganismos e doenças foi sugerida originalmente em meados do século XVI, mas enfrentou persistente descrédito durante três séculos, até o advento das experiências de vacinação de Louis Pasteur. O Intercâmbio Colombiano, expressão utilizada para sintetizar as trocas de mercadorias, pessoas, animais, plantas e microrganismos entre o Velho Mundo e o Novo Mundo, inaugurou a longa era da globalização. Ao longo dos 500 anos da globalização, o desenvolvimento tecnológico dos transportes sustentou a expansão dos intercâmbios mundiais, acelerando também as trocas de microrganismos. Nessa moldura, configuraram-se padrões de resistência humana às doenças e, por outro lado, os microrganismos experimentaram mutações evolutivas que produzem novas doenças.

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viajam pelo mundo

Distribuição geográfica da malária

Fonte: Michigan State University, 2014

A mais mortífera pandemia do século XX foi a chamada “gripe espanhola”, que começou no início de 1918, meses antes do encerramento da Primeira Guerra Mundial, e persistiu até dezembro de 1920. A doença infectou cerca de 500 milhões de pessoas e exterminou algo entre 50 e 100 milhões, ou seja, talvez até 5% da população mundial. “Gripe espanhola” é um nome incorreto, mas revelador. Nos países em guerra, como Alemanha, França, Grã-Bretanha e Estados Unidos, a censura oficial restringiu as informações sobre a epidemia, o que não ocorreu na neutra Espanha, criando-se a falsa impressão de uma doença particularmente mortífera naquele país. Ninguém sabe ao certo onde se iniciou a “gripe espanhola”. Investigações científicas recentes sugerem que seu berço europeu foi um hospital militar no norte da França. Os pacientes teriam sido contaminados por um vírus precursor alojado em pássaros, que sofreu mutação após contaminar porcos consumidos na frente de batalha. Mas, segundo uma teoria bem fundamentada, na origem da doença estaria a mobilização forçada de dezenas de milhares de trabalhadores chineses que, antes de serem engajados na retaguarda de tropas britânicas e francesas na guerra europeia, teriam sofrido de um agudo mal respiratório registrado na China setentrional em 1917. As rápidas mutações do vírus foram decisivas para as elevadas taxas de mortalidade. Em agosto de 1918, uma cepa viral nova difundiu-se pela Europa e alcançou os Estados Unidos e a Serra Leoa, na costa atlântica africana. Na Índia Britânica, a pandemia exterminou 17 milhões, cerca de 5% da população. Na Indonésia, registrou-se o número de 1,5 milhão de vítimas fatais. No longínquo

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arquipélago polinésio do Taiti, durante um único mês, a gripe exterminou 13% da população. O vírus chegou até comunidades nativas do Ártico, mas sofreu contínuas mutações até perder sua letalidade, deixando atrás de si um rastro de destruição e medo. Algumas das pragas terríveis que acompanharam o Intercâmbio Colombiano nunca desapareceram por completo. A vacina da varíola foi inventada em 1798 e a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou o vírus erradicado no mundo em 1979. Mas o sarampo afeta vastas áreas da Ásia e da África e provoca o maior número de casos fatais entre as doenças que podem ser prevenidas por vacinação. A febre amarela, cujo vírus é transmitido em áreas urbanas pelo mesmo Aedes aegypti que funciona como vetor da dengue e do zika, afeta áreas tropicais da África e da América do Sul. A malária, transmitida por mosquitos, é uma doença endêmica em extensas áreas do mundo tropical [veja o mapa]. A OMS calcula que, em 2015, ocorreram 214 milhões de infecções, que resultaram em quase 440 mil mortes, 90% das quais na África Subsaariana. O ebola foi identificado pela primeira vez em 1976, em dois surtos separados, um na atual República Democrática do Congo (então Zaire); outro, no atual Sudão do Sul (então Sudão). De lá para cá, registraram-se diversos surtos, o maior dos quais disseminou-se em 2013 na África Ocidental, em especial Libéria, Serra Leoa e Guiné, provocando quase 29 mil infecções e mais de 11 mil mortes. Após esse surto recente, que evidenciou o potencial de difusão da epidemia para outros continentes, intensificaram-se os esforços para a obtenção de uma vacina.

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cartografia do poder

Europa tem “postos avançados” nos oceanos Gutemberg de Vilhena Silva Especial para Mundo

No Caribe, no Atlântico e no Índico, territórios franceses, portugueses e espanhóis desempenham funções geopolíticas definidas pela União Europeia

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as últimas décadas, a geopoA biodiversidade das RUPs Países da União Europeia (UE) também é geopoliticamente relítica mundial foi marcada Países da UE com regiões ultraperiféricas levante. Ela possui potencial nas pela proliferação e fortalecimento de mecanismos de integração regional áreas da saúde, da biomedicina e de fármacos, dos cosméticos e de para o reequacionamento da balança de poder global no pós-Guerra Fria. muitos outros setores como o dos materiais ecológicos de construção A União Europeia é emblemática 6 e o da madeira. Existem condições, porque se trata do caso mais evolu7 ído em termos de integração entre em várias regiões, para desenvolver 8 fontes renováveis de energia, desde os países signatários. Seu atual nome 12 e seu conjunto geral de diretrizes de os bicombustíveis até energia eólica, 3 4 solar, geotérmica ou fotovoltaica. funcionamento, embora com evo5 O desenvolvimento das RUPs luções e adaptações, percorridas em mais de meio século, foram estabeé pautado pela execução de ações e 9 lecidos pelo Tratado de Maastricht, políticas públicas direcionadas pela em 1992. União Europeia desde o início da 10 década de 1990, com o objetivo de Indo além dos espaços contínuos Fonte: adaptado de G.V.Silva (2015) promover sua coesão econômica e do bloco europeu, no final da década Identificação das regiões ultraperiféricas no mapa: social. Tem-se, neste caso, diretrizes de 1980 foram estabelecidas diretri6 - Arquipélago de Açores (Portugal) 1 - Saint-Martin (França) gerais que se desdobram em seis zes para as chamadas regiões ultrape7 - Ilha da Madeira (Portugal) 2 - Saint-Barthélemy (França) 8 - Ilhas Canárias (Espanha) 3 - Guadalupe (França) eixos centrais e suas correspondenriféricas (RUPs), que são territórios 9 - Mayotte (França) 4 - Martinica (França) 10 Reunião (França) 5 Guiana Francesa tes fontes de financiamento e focos pertencentes a países da União Europeia, mas geograficamente distantes específicos [veja a figura]. Tais medidas específicas para as da Europa. Atualmente, as RUPs Políticas orientadas para as regiões ultraperiféricas RUPs, apresentadas como estratégia são dez: as três régions francesas do para assistência e desenvolvimento, ultramar (Guadalupe, Reunião e Diretrizes gerais Medidas no enfatizam os temas de acessibilidade, Mayotte), as quatro coletividades domínio da acessibilidade competitividade e integração regioultramarinas francesas (Guiana Novas Redução do Fontes de financiamento medidas de impacto das políticas restrições nal, sendo ainda previstas medidas Francesa, Martinica, Saint-Martin e Estruturais de coesão às economias Investigação e Fundos de locais Ambientais como a redução do impacto das Saint-Barthélemy), duas regiões audesenvolvimento coesão Energéticas Empresariais restrições das economias locais, do tônomas portuguesas (Arquipélago Políticas da Ações Apoios do União Europeia Alfandegárias inovadoras Migração emprego, da inovação, da reforma de Açores e Madeira) e as Ilhas CaEstado orientadas às RUPs Fiscais Pesca econômica e do desenvolvimento nárias, uma comunidade autônoma Banco Europeu Sociedades Transporte Agrícolas de de informações e espanhola [veja o mapa]. sustentável, além do apoio à agriculInvestimentos O Plano de Ação do conhecimento Emprego, para a inovação, Cooperação tura e à pesca. Quanto à integração O Tratado de Maastricht fixou Grande Vizinhança reforma econômica regional (PAGV) e desenvolvimento regional, destaca-se o Plano de Ação dispositivos institucionais específicos sustentável Novas medidas previstas para as RUPs para a Grande Vizinhança (PAGV), para as RUPs, que enfrentam problecriado com o intuito de estreitar laços mas estruturais singulares. Entre estes político-econômicos com os países problemas, destacam-se o afastamenque são vizinhos e/ou estão situados to demasiado dos centros de decisão política de seus respectivos países, a reduzida dimensão Em termos marítimos, as RUPs representam mais no entorno das RUPs. Novamente, o caso mais relevante é do mercado interno e a forte dependência econômica em da metade da zona econômica exclusiva (ZEE) da o da vizinhança do Brasil com a Guiana Francesa. A criação de estratégias de articulações e acordos internarelação a um pequeno número de setores produtivos. União Europeia, com uma reserva potencial dos reAs RUPs são reconhecidas como postos territoriais cursos marinhos de aproximadamente 15 milhões de cionais entre os países europeus destinados contribuiu para avançados da União Europeia no mundo, desempenhan- quilômetros quadrados. Tal potencial equivale a um a dinamização institucional e econômica de suas fronteiras, do um papel geopolítico na proteção das rotas marítimas laboratório marítimo de profundidade relevante para conferindo-lhes uma nova dimensão geopolítica: a da coda Europa e na defesa de suas fronteiras externas, o que o bloco europeu, que pode ser explorado em domínios operação transfronteiriça. Contudo, as políticas europeias é claramente uma estratégia geopolítica. Vistas em con- como a segurança alimentar, a luta contra as alterações de apoio ao desenvolvimento econômico e social das RUPs junto, representam 2,3% da superfície terrestre da União climáticas, a energia e a biotecnologia. Além disso, estes não lograram muito êxito até agora. As especificidades de Europeia. Além disso, localizam-se em posições geográficas territórios atuam também como parceiros estratégicos na tais regiões afetam seu potencial econômico e reduzem sua privilegiadas em três oceanos e mares distintos (Caribe, implementação de programas de cooperação em vários capacidade de funcionar como correias de transmissão dos Oceanos Atlântico e Índico). Esse privilégio diz respeito continentes, inclusive com o Brasil por meio da Guiana interesses geopolíticos globais da União Europeia. principalmente à gestão internacional de oceanos e às Francesa, uma região ultraperiférica francesa que possui Gutemberg de Vilhena Silva é professor de Geografia relações de boa vizinhança com um número considerável 730 quilômetros de linha de fronteira com o Brasil (a Política na Universidade Federal do Amapá e bolsista de Pósde países, como Brasil, Índia e África do Sul. mais extensa fronteira da França). Doutorado do CNPq no exterior FRANÇA

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estados unidos

“Azarões” tumultuam cenário eleitoral Donald Trump e Bernie Sanders refletem descontentamento das bases dos partidos Republicano e Democrata e colocam desafios inéditos na história norte-americana

© Michael Vadon (CC BY-SA 2.0)

© Michael Vadon (CC BY-SA 2.0)

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disputa eleitoral à Presidência dos Estados Unidos é marcada por uma grande surpresa: dois candidatos “azarões” – o bilionário republicano Donald Trump e o senador democrata Bernard “Bernie” Sanders – desafiam o establishment de seus respectivos partidos, com mensagens políticas radicais (de direita, no primeiro caso, e de esquerda, no segundo), criando uma situação sem precedentes na história do país. Os primeiros resultados das eleições primárias mostram que, contra todas as expectativas, um dos dois pode vir a ocupar o assento presidencial da Casa Branca [veja o boxe]. Está em jogo o destino político da mais importante potência mundial, e com ele o equilíbrio de forças no planeta. Quando Trump e Sanders anunciaram suas respectivas candidaturas, em meados de 2015, não foram levados a sério. Além disso, suas mensagens políticas, embora situadas em extremos opostos do espectro ideológico, assemelham-se em vários pontos importantes. Ambos são vistos como uma expressão da revolta das bases contra as lideranças tradicionais de seus respectivos partidos, percebidas como incompetentes, incapazes de resolver a crise econômica que se arrasta desde 2008 e responsáveis – por razões distintas – pela “decadência” dos Estados Unidos no cenário mundial. Em 2015, os principais políticos e porta-vozes do Partido Republicano consideraram a postulação de Trump como mais um arroubo narcísico de uma espécie de palhaço nacional. O empreiteiro é conhecido por seus gostos extravagantes (incluindo uma privada revestida de ouro, em seu apartamento situado na cobertura da Trump Tower, em Manhattan), suas afirmações bombásticas (cujo centro é sempre ocupado por sua própria pessoa) e por sua participação no mundo dos espetáculos (criou o programa que, no Brasil, recebe o nome de Aprendiz, além de patrocinar o concurso de Miss Universo). Até agosto, Trump parecia não ter qualquer chance contra o senador Marco Rubio e o ex-governador Jeb Bush (ambos da Flórida, “queridinhos” do establishment). Sanders, aos 74 anos, foi recebido como um “velhinho socialista simpático”, que apenas queria encerrar sua carreira política em grande estilo. Ninguém tinha a menor dúvida, então, de que a candidata democrata seria a senadora Hillary Clinton (casada com o ex-presidente Bill), acusada por Sanders de ser financiada e agir como porta-voz de Wall Street, o centro do capital financeiro. Em três meses, panfletando contra a desigualdade social e contra o 1% mais rico da população, Sanders disparou nas pesquisas. Em agosto do ano passado, entre os democratas, Hillary tinha 58% das intenções de voto, e Sanders, 18%. Hoje, Hillary tem 47%, e Sanders, 44% (os números ainda oscilam muito). Em alguns estados, Sanders lidera. Tanto Trump quanto Sanders são recém-filiados aos seus respectivos partidos. Ambos alimentam uma retórica contrária aos políticos tradicionais e se apresentam como candidatos “antissistema”, refletindo um processo semelhante ao que ocorre na Europa, que abre espaço para novos grupos, como o Podemos (Espanha), Syriza

Sucesso inesperado das candidaturas do bilionário Donald Trump (acima) e do senador Bernie Sanders reflete os anseios dos eleitores por mudanças significativas no cenário político dos Estados Unidos (Grécia) e Frente Nacional (França). Ambos expressam os sentimentos de grande parte dos eleitores. Em 2014, um levantamento do Instituto Rasmussen mostrou que 65% dos norte-americanos diziam que nenhum dos dois principais partidos “representam o povo”. Apenas 29% confiavam que o país estava no caminho certo e quase 78% desaprovavam o trabalho do Congresso. Os números foram confirmados por outra pesquisa, de 2015, do Gallup. Mas as semelhanças entre ambos param por aí. Trump exibe uma plataforma ultranacionalista e nativista, embalada na fábula do “Destino Manifesto”. É hostil ao Islã e aos imigrantes indocumentados: propõe a deportação sumária de 11 milhões de hispânicos, incluindo aqueles que nasceram nos Estados Unidos. Defende abertamente o uso da tortura na luta contra o terrorismo. Propõe a destinação de mais verbas para as forças armadas, ao mesmo tempo que adota uma perspectiva isolacionista (segundo ele, os Estados Unidos erraram ao invadir o Iraque, em 2003, e não devem intervir em conflitos que

não representem uma ameaça à segurança nacional). Usa uma linguagem baixa e vulgar (por exemplo, acusa os seus adversários republicanos de não terem “colhões”, de não serem “machos” o suficiente) para atrair um eleitorado desencantado, hostil ao establishment. Sanders, ao contrário, propõe uma plataforma humanista, inspirada pelo modelo social-democrata escandinavo, que defende desde os anos 1960, quando militava no movimento estudantil. Ele admira, sobretudo, a Dinamarca. Seu público-alvo são os jovens, as mulheres e as minorias negra e hispânica, que já formaram uma base de apoio sem precedentes na história do país: os comitês eleitorais somam mais de 2,5 milhões de filiados, dado que constitui um pesadelo para Hillary. Propõe a taxação das grandes fortunas e um sistema progressivo de impostos destinado a assegurar a universalização e gratuidade de serviços públicos, incluindo saúde e educação até o nível superior. Para os padrões atuais dos Estados Unidos, sua plataforma equivale a uma revolução social.

Primárias são o primeiro grande filtro As eleições nos Estados Unidos, marcadas para 8 de novembro, constituem um processo complexo. Em sua primeira fase, os dois partidos organizam eleições primárias (prévias) nos 50 estados, no Distrito de Columbia (onde se situa a capital Washington) e nos territórios. As primárias elegem delegados para uma convenção nacional, este ano convocada para os dias 18 de julho (republicanos) e 25 de julho (democratas). Os delegados reunidos na convenção escolhem o candidato do partido. Trump saiu na frente nas primárias republicanas. Num quadro com cerca de uma dúzia de concorrentes, os preferidos do establishment partidário logo ficaram para trás. O principal deles, Jeb Bush, ex-governador da Flórida e irmão do expresidente George W. Bush (ambos filhos do também ex-presidente George H. W. Bush), anunciou sua desistência em fevereiro, após derrotas acachapantes nas primárias iniciais. Ted Cruz e Marco Rubio despontaram como alternativas a Trump. O primeiro tenta ser porta-voz da ultradireita cristã. O segundo, um jovem senador filho de imigrantes cubanos, converteu-se em algo como uma aposta final do establishment. No lado democrata, Sanders surpreendeu Hillary Clinton, a favorita da direção partidária, com uma campanha baseada em pequenas contribuições individuais e amplos comitês de ativistas. No final de fevereiro, estava mais ou menos empatado com Hillary, cujas chances repousam principalmente no voto hispânico e no voto negro. De qualquer forma, mesmo que triunfe no final, a ex-primeira-dama revela suas fragilidades na inesperadamente longa corrida de obstáculos das primárias.

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Nelson Bacic Olic Da Redação de Mundo

A USP há meio século, uma viagem no tempo iz meu primeiro vestibular na Universidade de São Paulo (USP) em dezembro de 1965, alguns dias após ter me diplomado em Química Industrial, curso equivalente ao Ensino Médio. Meu objetivo era fazer Engenharia Química. Infelizmente, não obtive sucesso devido aos meus parcos conhecimentos de Física e Geometria. Meu primeiro contato com a USP se deu nessa época, já que o local no qual fiz a prova era a Cidade Universitária – e desde aquele momento concluí que era ali que queria estudar. Aquela Cidade Universitária de 1965 que tanto me encantou era bem diferente da atual, totalmente cercada por muros, muito mais arborizada e com muito mais prédios que abrigam a maioria das unidades que compõem a USP no campus de São Paulo. Como não fui aprovado, decidi que, em 1966, faria um cursinho e prestaria vestibular para Geologia. Acreditava que, assim, poderia pôr em prática meus conhecimentos em Química e, ao mesmo tempo, ter ligação com a Geografia, uma disciplina que muito me agradava, especialmente por conta das maravilhosas aulas que tive no final do curso ginasial (hoje, 9º ano). No início de janeiro de 1966, uma notícia no jornal me fez mudar de rumo. A USP iria promover um novo vestibular, em fevereiro, para vagas remanescentes em alguns cursos, entre eles o de Geografia. Naquela época não existia a Fuvest e o número de candidatos era infinitamente menor. Os pretendentes às vagas de Geografia teriam que se submeter a seis provas: quatro orais – Geografia do Brasil, Geografia Geral, História do Brasil e História Geral – e duas escritas (Português e uma língua estrangeira). O curso de Química Industrial, porém, não contemplava em sua grade curricular aulas de Geografia, História e língua estrangeira. Pedi demissão do meu emprego de químico e, durante um mês, dediqueime integralmente a estudar Geografia e História. A sistemática dos exames orais era a seguinte: o candidato ficava à espera de ser chamado para uma sala onde estava a banca examinadora de professores do Departamento de Geografia. Um dos professores pedia ao vestibulando que tirasse um papel de dentro de um saquinho, sorteando o assunto sobre o qual seriam feitas as perguntas. 11

por militares e, quase de imediato, uma pessoa veio ao meu encontro e perguntou meu nome. No que respondi, ele consultou uma lista e – bingo! – eu estava lá. Junto com dois outros estudantes de Geografia, fui levado ao Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), órgão de repressão do regime. Ato contínuo, fomos transferidos para o Presídio Tiradentes (hoje não mais existente), na ala reservada a presos políticos. Durante o quase um mês em que fiquei detido, convivi com umas 20 pessoas. Alguns eram veteranos integrantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Outros, mais jovens, tinham optado pela luta armada contra o regime militar. Diferente da maioria deles, que haviam sofrido torturas, passei incólume. Eu não pertencia a nenhum partido clandestino. Ainda hoje, estou convicto de que minha prisão resultou de um engano, isto é, do mero fato de ter sido diretor social do “centrinho”, forma como era conhecido o centro acadêmico dos estudantes de Geografia. Engano ou não, assisti atrás de grades ao pouso lunar dos astronautas da Apollo 11, na tela da pequena tevê do carcereiro. No segundo semestre de 1970, escolhi Sociologia como matéria optativa, para cumprir os créditos finais. A estratégia didática desenvolvida no curso era a de propor aos estudantes trabalhos em grupos. Por uma incrível coincidência encontrei nesse curso aquela moça que eu havia namorado em 1968. E, por uma “coincidência” ainda maior, fizemos parte do mesmo grupo. Daí para frente dá para imaginar o happy end: voltamos a namorar e casamos nove meses depois. Nos 45 anos de vida em comum até agora ganhei como “presentes” da Neide a Tati, o Dé, o Fê e o Mau e, como mimos “adicionais”, a Lara (filha da Tati) e a Cecília (filha do Maurício). Ainda hoje, faço caminhadas na Cidade Universitária. Às vezes, cruzo o interior do prédio de Geografia, avivando velhas recordações. © Jorge Maruta/Jornal da USP

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Fundada em 23 de janeiro de 1934, a USP foi inicialmente instalada no centro de São Paulo; nos anos 1940, alguns prédios começaram a ser construídos no então distante bairro do Butantã (Zona Oeste), onde hoje se situa seu principal campus Na minha vez, um dos professores, trajando terno e gravata-borboleta, perguntou-me antes do sorteio do tema o motivo que me conduzia a prestar o exame para Geografia. Expliquei-lhe que, apesar de ter feito Química Industrial, gostava muito de Geografia por conta das antigas aulas do professor Celso Antunes. O professor da gravata-borboleta observou que Celso, além de ter sido ótimo aluno do curso de Geografia, publicara recentemente um livro didático e perguntou-me se eu havia estudado por aquele livro. “Não”, respondi, “estudei pelo livro de um tal Aroldo de Azevedo”. Ele olhou para seus colegas de banca com um sorriso maroto. Um mês depois, descobri que era ele o “tal” Aroldo de Azevedo. Tudo dito e feito, “arrasei” nos exames orais (minha nota mais baixa foi 7,5) e tive desempenho sofrível, mas suficiente, nas provas escritas. Em 1966, o Brasil tinha cerca de 85 milhões de habitantes, o Sudeste era a região mais populosa, São Paulo tinha o maior contingente demográfico, quase metade da população do país ainda vivia no meio rural e o número de pessoas que chegavam ao ensino superior era ínfimo. Do ponto de vista político, vivia-se o segundo ano do regime militar implantado em 1964. Depois de seis anos – fiz o curso MARÇO 2016

no período noturno, trabalhando durante o dia – tornei-me bacharel e licenciado em Geografia. Ao longo desse tempo, convivi com professores que marcaram minha vida acadêmica e profissional, como Pasquale Petrone, Aziz Ab’Sáber e Nelson de La Corte e guardo na memória três momentos marcantes da minha vida universitária. O ano de 1968 foi especialmente movimentado: muitas passeatas contra o governo militar, panfletagens, reformulação do currículo do curso de Geografia e, também, o momento em que cortei definitivamente meus laços com a Química. Comecei a ministrar minhas primeiras aulas e fui convidado, com alguns outros estudantes, a integrar o Grupo de Análise Territorial da Secretaria da Fazenda de São Paulo. Foi, ainda, o ano em que conheci uma caloura pela qual nutri uma enorme paixão a ponto de considerá-la a mulher de minha vida. Namoramos por três meses, ao final dos quais fui “dispensado”. Confesso que a dor da perda foi muito intensa. As coisas pioraram: 1969 foi o ano da minha prisão. No final de junho, estudava na sede da Associação dos Geógrafos Brasileiros, que ficava no edifício da Geografia, quando ouvi um rumor estranho. Ao sair da sala, notei que o prédio estava cercado

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Oriente médio

Refugiados e jihadistas, polos opostos de uma guerra regional O conflito militar na Síria e no Iraque gerou a maior crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial. Também permitiu a proclamação de um califado jihadista no coração do Oriente Médio

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história da humanidade já foi Principais grupos jihadistas descrita como uma sucessão quase contínua de guerras, a ponto MAR NEGRO de o pensador inglês Thomas Hobbes TURQUIA assinalar que os tempos de paz seriam 3 nada mais do que intervalos nos quais MAR MEDITERRÂNEO SÍRIA IRÃ IRAQUE se trava a guerra por outros meios. Os conflitos do Oriente Médio, nas LÍBIA ARGÉLIA 5 EGITO ARÁBIA últimas décadas, iluminam a ação de SAUDITA Trópico de Câncer antigos e novos personagens. 5 A guerra civil da Síria, o conflito mais sangrento dos últimos cinco anos, MALI CHADE SUDÃO IEMÊM evidenciou a figura de dois “persona2 6 gens” emblemáticos: o refugiado e o SOMÁLIA jihadista. Considera-se como refugiado NIGÉRIA ETIÓPIA o indivíduo cuja vida, a de seus familiares e a de seu grupo étnico, religioso QUÊNIA 4 ou nacional é colocada em risco de tal OCEANO forma que ele decide, como último ATLÂNTICO recurso, abandonar o local onde vive para buscar um lugar seguro em outra 0º área ou país. O refugiado não tem sexo nem idade. Pode ser um homem, uma mulher, uma criança ou um idoso que escapa a um cortejo contra os agressores. As organizações jihadistas, como a de horrores. Na atualidade, parcela significativa deles Al-Qaeda e o Estado Islâmico (Isis), procuram na jihad é composta de refugiados internos, isto é, pessoas que uma legitimação religiosa para suas ações bélicas. tiveram que fugir ou foram expulsas de sua cidade ou O jihadismo militante recebeu forte impulso com a povoado mas não atravessaram fronteiras internacionais. invasão do Afeganistão pela União Soviética, em 1979. Refugiados não são imigrantes econômicos. Os segun- Durante os dez anos do conflito, expressivo número de dos deixam seus países de origem em busca de melhores militantes islâmicos, oriundos de vários árabes, juntacondições de vida, mas não correm risco iminente de morte. ram-se à jihad afegã para lutar contra o invasor. Osama O número de refugiados aumentou consideravelmente nas Bin Laden, o saudita que fundou a Al-Qaeda, mentor últimas décadas. Atualmente, existem no mundo cerca de dos atentados aos Estados Unidos em 11 de setembro de 20 milhões de refugiados, algo como metade do contingente 2001, debutou em sua carreira jihadista em solo afegão. total de migrantes econômicos. Com a retirada soviética, em 1989, grande parte dos O conflito em curso na Síria é a maior catástrofe hu- jihadistas árabes retornaram a seus países de origem. manitária deste século, com cerca de 300 mil vítimas. A Contudo, um dos principais legados do conflito foi o guerra deslocou perto de 13 milhões de pessoas, ou cerca aparecimento do grupo Talibã que, poucos anos depois, de dois terços da população do país. Quase 5 milhões assumiria o poder no Afeganistão e daria guarida à dide sírios buscaram refúgio em países vizinhos, como a reção da Al-Qaeda. Turquia, o Líbano e a Jordânia, ou em diversos países A operação militar norte-americana dos Estados Unieuropeus, especialmente a Alemanha, a nação europeia dos no Afeganistão, em represália aos atentados de 11 de menos resistente a recebê-los. A chegada à Europa de uma setembro de 2001, provocou a derrubada do regime do verdadeira maré humana oriunda do Oriente Médio e Talibã e desestruturou quase completamente a Al-Qaeda. da África do Norte colocou a questão dos refugiados em Apesar disso, o Talibã continua ativo no Afeganistão e no primeiro plano. vizinho Paquistão. Já a Al-Qaeda serviu como inspiração A palavra jihadista deriva do termo árabe jihad, tra- para a criação de “franquias” jihadistas em países do Orienduzido geralmente como “guerra santa”. Contudo, para te Médio e da África do Norte [veja o mapa]. a maioria dos estudiosos do Islã, jihad significa “esforço”, O segundo grande impulso do jihadismo derivou de “empenho”, “luta”. Na esfera da doutrina religiosa, sig- dois eventos separados por quase uma década. A invasão nifica essencialmente o chamado a uma luta interior pela do Iraque pelos Estados Unidos, em 2003, desestabilizou preservação da fé. Esta é a “jihad maior”. Já a chamada o país. A Primavera Árabe, em 2011, acabou desaguando “jihad menor” é a defesa armada do mundo islâmico na guerra civil síria. RC

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A derrubada do regime de Saddam Hussein no Iraque, que se apoiava na minoritária população sunita, transferiu o poder para os xiitas. Os novos governos iraquianos AFEGANISTÃO discriminaram a população 1 sunita, abrindo espaço para PAQUISTÃO a infiltração do jihadismo no país. Sob a liderança do jordaniano Abu Musab AlOCEANO Zarqawi, a Al-Qaeda no IraÍNDICO que engajou-se numa luta em Talibã duas frentes: contra as tropas norte-americanas e, também, Al-Qaeda da Península Arábica contra os xiitas, reavivando Isis (Estado Islâmico) o antigo conflito entre as duas vertentes principais do Al-Shabaab Islã. Al-Zarqawi foi morto Al-Qaeda do Magreb e do Norte da África em 2006. Sua organização Boko Haram só se reestruturou em 2010, adotando o nome de Estado Islâmico no Iraque, sob a liderança de Abu Bakr AlBaghdadi. Na sequência, com seu envolvimento na guerra síria, o grupo passou a se chamar Estado Islâmico na Síria e Iraque (Isis, na sigla em inglês). O Isis combinou crenças religiosas extremistas com capacidade militar. Ocupando amplos territórios mais ou menos contínuos junto à fronteira sírio-iraquiana, tomando cidades importantes como Mossul, que é o segundo maior núcleo urbano do Iraque, e estabelecendo uma capital operacional na cidade síria de Raqqa, os jihadistas eliminaram ou escravizaram minorias não muçulmanas (cristãs, yazidis, curdas). Recrutando combatentes em países árabes e na Europa, o grupo anunciou a criação de um califado islâmico em julho de 2014. A proclamação do califado foi um evento sem precedentes na história do mundo árabe desde o colapso do Império Otomano, ao final da Primeira Guerra Mundial. O Estado Islâmico, que é ao mesmo tempo nacional e transnacional, criou uma nova entidade geopolítica numa região onde as fronteiras se mantiveram praticamente inalteradas por muitas décadas, ao longo do século XX. A capacidade do Isis em apelar ao imaginário islâmico expressa a consolidação de uma ideologia jihadista que se desenvolveu nas últimas décadas. Alguns grupos jihadistas, como o Boko Haram da Nigéria, já declararam sua fidelidade ao califado. Al-Baghdadi propaga que o califado é um Estado onde “árabes e não árabes, brancos e negros, orientais e ocidentais são todos irmãos”. Seus seguidores declaram que “a Síria não é para os sírios e o Iraque não é para os iraquianos. A terra é de Alá.”

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Jornal mundo março 2016  
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