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ANO 12

Nº 5

tiragem:

SETEMBRO/2016

18 000 exemplares

Violência de gênero

Da pilhagem sexual à internet M

ilenarmente, sempre que houve guerras, as principais recompensas eram o butim e o estupro. Em grupo, pilhagens e violências sexuais foram, ao longo do tempo, formas de demonstrar poder. Mais do que gerar filhos nas mulheres das tribos vencidas, as agressões faziam parte da dominação para consumar a vitória. A literatura confirma tal “hábito” em, por exemplo, Ana Terra, do modernista gaúcho Erico Veríssimo: bandoleiros que cruzavam as fronteiras do sul do Brasil destruíram a casa da família Terra, roubaram o que puderam e violentaram Ana, que salvou, à custa de sua honra, parte dos seus. Hoje, há estupros coletivos que mantêm a dobradinha com o saque. Com a diferença de que são expostos nas redes sociais; não basta fazer, é mister alardear. Na Farsa de Inês Pereira, do humanista português Gil Vicente, Lianor Vaz, a casamenteira, chega à casa de Inês: “Vinha agora pereli/ E hum clérigo, mana minha,/ Pardeos, lançou mão de mi;/ Não me podia valer/ Diz que havia de saber/ S’era eu fêmea, se macho.” E o homem, cinicamente, prometia que Deus perdoaria a abusada, pois ele era padre: “Irmã, eu te assolverei/ Cobreviairo de Braga.” O estupro solitário, por sua vez, é um braço daquele ancestral, ao dar continuidade a uma cultura de guerra contra o diferente, o que se pretende gênero mais frágil, seja a mulher, o homossexual, o transgênero, o queer, o bissexual ou ainda o do mesmo gênero, o heterossexual. Domina-se aquele de outra tribo. Não se trata de um crime exatamente sexual, mas de empoderamento. Quando o jovem ex-promissor MC Biel usa como argumento a importância da mãe e da irmã em sua vida, como justificativa de que não teria assediado uma jornalista do portal iG, não sabe que também nossos ancestrais não violentavam habitualmente as mulheres de seus grupos sociais, só as alheias. Na cabeça do estuprador, assediador ou desrespeitador, há uma dissociação. Nem sempre se dá conta de que está violando fronteiras sociais e éticas. Há uma distorção mental, uma vez que para ele a mulher (ou a menina, no caso dos pedófilos) usou roupas muito provocadoras ou deveria sentir-se honrada ao ser alvo da atenção masculina. São comuns falas de que “agora ela vai ver o que é um homem de verdade, de que ela vai gostar” e daí por diante. Há uma leitura equivocada do que são um não/ não e um não/sim. Ao não ter direito de demonstrar sua sexualidade, seus desejos, a mulher também “habituou” o homem a tentar decodificar o que ela queria. Ele acaba, assim, entendendo aquilo que ele quer. A exigência social de ser “pegador”, macho-alfa, faz com que, como nossos pais, ainda criemos meninos para irem para cima, não de uma, mas de várias meninas. “Pedagogicamente”, o craque Neymar – 100% Jesus – treinou, em rede global, seu filho, então com dois anos, a dar beijo HI ST ÓR IA & C ULT U R A

Estupro, assédio e outras manifestações de brutalidade percorrem a história e ganham nova amplitude na era das redes virtuais A corredora sul-africana Caster Semenya, ouro nos 800 metros rasos, apresenta uma constituição física sui generis por ser portadora de hiperandrogenismo, isto é, por fabricar muita testosterona. É considerada uma atleta intersexual. Para poder competir como mulher, embora seja biologicamente uma, precisa fazer um tratamento para reduzir as hormonas masculinas. Por sua aparência viril, sofre rejeição do público e de suas iguais, as quais, ao competirem com Semenya, julgam estar em desvantagem física. Os comentários dos internautas nas redes sociais Em reação ao estupro coletivo de uma adolescente, praticado são cruéis, mesmo estando em 22 de maio, no Rio de Janeiro, multiplicaram-se explícito na matéria jornamanifestações, em todo o Brasil, como a da foto, realizada lística que a atleta nasceu no centro da capital fluminense, em 1º de junho assim. Importante destacar que a corredora é, além de tudo, negra e homossexual. no pai (de biquinho) e nas meninas (com língua). O “mau Um prato feito para as agressões verbais. Outra judoca agredida nas redes sociais, ao perder a aluno”, caso não corresponda às exigências da educação nada sentimental, também passa a ser violentado: “meni- Olimpíada de Londres, foi a nossa Rafaela Silva. Lésbica, negra, pobre e Silva. Sofreu tanto assédio que precisou de ninha”, “viadinho”, “florzinha”. Daí os estereótipos. A tirania de gênero nem sempre são olhos pretos ou psicóloga para reanimá-la, e o olhar que muitos julgaram roxos, braços quebrados, marcas de cigarro. Podem ser desafiador e agressivo ao ganhar um de nossos primeiros agressões psicológicas, tão frequentes que a vítima acaba ouros era mais o de uma menina acuada: “O macaco acreditando ser merecedora daquilo que lhe é atribuído. que tinha de estar na jaula hoje é campeão”, disse ela em Ela não se reconhece como agredida, e o agressor, como depoimento logo depois da vitória. Curioso que usou o substantivo no masculino, sendo mulher. Já deve ter tal. E não são apenas mulheres as vítimas. Os versos de Caetano em “Sampa” – “É que Narciso sentido preconceito sexual também. Marcante opressão de gênero, ao contribuir com as acha feio/ O que não é espelho” – talvez esclareçam o paradoxal problema da identidade de gênero e os pre- outras, é a cotidiana: a não divisão das tarefas domésticas, conceitos por ela causados. Por que os/as homossexuais e a sobrecarga do feminino (biológico ou não) em todas as os/as transgêneros/as são tão agredidos/as e até mortos/as, áreas, a paternidade como um plus, enfim. A mulher acaba às vezes por desconhecidos? Num evento ocorrido no submetendo-se a isso, a fim de ter um parceiro (melhor alMuseu Tomie Ohtake em 23 de maio 2016, “LGBT e gum que divida as contas e defenda a casa do que nenhum). a promoção da diversidade na cultura: desmistificando Ele é quem decide o que fará ou não para “ajudá-la”. O que nos resta para minimizar a violência de gênero? lugares comuns”, a atriz trans Renata Carvalho contounos, de forma divertida e aliviada, que está no lucro, pois a A educação. Na sociedade e, se possível, nas mídias, poridade média de vida das trans é 35 anos, e ela chegou viva que, por enquanto, na escola esse tema ainda é tabu. a essa idade. O evento contava ainda com a dramaturga e atriz escocesa Jil Clifford, que tem muito orgulho de ser Flora Christina Bender Garcia é doutora em Literatura pai (já foi homem) e avó (depois da mudança de gênero). (USP), redatora dos Cadernos de Pangea e jurada do Concurso Nacional de Redação do Boletim Mundo; Daniela Bender Essa labilidade, fluidez de gêneros, ainda é pouco rejeitada, é mestre em Ciências da Religião (PUC-SP), psicóloga da dado o fato de ser recente sua discussão. © Tomaz Silva/Agência Brasil

Flora Christina Bender Garcia e Daniela Bender Especial para Mundo

Fundação Casa e especialista em adolescentes

H I ST Ó R I A & C U LT U R A M U N D O P A N G E A M U N D O P A N G E A M U N D O P A N G E A M U N D O P A N G E A M U N D O P A N G E A M U N D O


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m novembro de 1916, o cantor Bahiano entra no estúdio para fazer história: “Pelo telefone”, de Donga e Mauro de Almeida, é a primeira canção gravada a receber em sua etiqueta o nome “samba”. Bahiano, que também já havia gravado o primeiro disco brasileiro, em 1902, com sua voz quase gritada, típica dos tempos da gravação mecânica, inaugura uma nova era na música popular brasileira, que em pouco tempo consagrará o gênero como um dos mais executados. O novo ritmo nasce envolto em polêmicas, lutas e conquistas, que irão transformá-lo em uma das mais cativantes produções culturais da humanidade. Até hoje pesquisadores se debruçam sobre a origem do ritmo para identificar seu “verdadeiro” berço. Enquanto alguns defendem a origem baiana, outros insistem em outorgar a primazia ao Rio de Janeiro. Na verdade, o samba enquanto ritmo já existia na Bahia trazido pelos negros de Luanda, que cantavam-no e dançavam-no nos porões dos navios negreiros desde o século XVI. Na Bahia, o batuque africano ganha os contornos do samba de roda, que servia de válvula de escape para a exploração e a humilhação a que eram submetidos os negros. No fim do século XIX começa uma migração de negros, e principalmente baianos, para o centro-sul do país, especialmente o Rio de Janeiro. Nessa região, o ritmo irá sofrer uma série de influências, tanto dos ritmos africanos aqui encontrados como de derivações de ritmos europeus, como o choro e o maxixe.

“Pelo telefone”, de Donga e Mauro de Almeida, gravado em novembro de 1916,

“Pelo telefone” modifica de maneira substancial o carnaval carioca, que agora ganhará uma expressão mais dinâmica. A partir da composição de Donga e Mauro de Almeida o carnaval passa a ter um ritmo próprio, fixandose então como um gênero musical. Samba de sambar Mas ainda que possa ser considerado um gênero novo, o samba guardava em sua origem o sotaque do maxixe. Impossível não identificar a batida amaxixada na composição de Donga. Essa influência, natural em qualquer novo gênero que nasce, começa a ser questionada por outros compositores, principalmente aqueles sediados no bairro do Estácio de Sá, no Rio de Janeiro. Ao final da década de 1920, compositores como Ismael Silva, Bide, Marçal, Baiaco e Brancura começam uma

nova revolução dentro do samba. Para Ismael, o samba amaxixado que então era a base da música carnavalesca não servia para a dança de rua que, segundo ele em depoimento ao Museu da Imagem e do Som (MIS), precisava ser mais agitada. Assim, com o auxílio de instrumentos novos no samba carnavalesco como a cuíca e o surdo, os Bambas do Estácio, como eram chamados, fundam, em agosto de 1928, a primeira Escola de Samba, a Deixa Falar. O nome “escola de samba”, mais tarde consagrado pelos carnavalescos de todo o Brasil, deveu-se à vaidade dos integrantes da agremiação, que se consideravam professores do samba. Em seguida, nascem no Rio a Mangueira, a Portela, entre outras, assim como em São Paulo e outros estados novas escolas vão surgindo. É o tempo de Cartola, de Paulo da Portela, de Nelson Cavaquinho, entre tantos outros.

O carioca Cartola (à esq.) e o paulistano Adoniran Barbosa (à dir.) são grandes ícones da “velha geração” de sambistas... © RCa-Victor

Resistência O samba, enquanto ritmo consolidado, já nasce sob a égide da resistência dos povos oprimidos na sua luta constante contra a opressão das classes dominadoras. No início do século XX, o prefeito do Rio de Janeiro Pereira Passos dá início a uma drástica intervenção urbanística que visava, entre outros objetivos, “limpar” a cidade de tudo que representasse pobreza e miséria. Assim, os negros recém-imigrados do Nordeste foram removidos para a chamada Cidade Nova, deixando a elite “branca e civilizada” imune ao contágio dos negros. A região, porém, vira o locus de uma nova cultura de resistência que ia sendo criada nas casas de candomblé, onde os ritmos africanos se misturavam de forma democrática com o choro, o maxixe e outros ritmos da época. Dentre essas casas destacava-se a de Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata, baiana de Santo Amaro da Purificação. Em sua casa se reuniam notáveis compositores e malandros cariocas como Donga, João da Baiana, Sinhô e Pixinguinha. Foi aí que, em agosto de 1916, foi criada em noites sucessivas a canção intitulada “O roceiro”, que Donga registraria com o nome de “Pelo telefone”. A letra da canção, fragmentada, revela um processo coletivo de construção que foi motivo de polêmica quando Donga registrou-a somente em seu nome e de Mauro de Almeida. O samba, em sua origem, diferentemente de outras manifestações, mostrava o anseio de coletividade e libertação de uma camada da população que era excluída da sociedade pela elite burguesa.

O samb

© EMI

Valdir Mengardo Especial para Mundo

© Acervo de Música e Arquivo Sonoro da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro

MPB

São Paulo sabe sambar Mas o samba não é um fenômeno exclusivamente carioca: os negros levaram para outros estados brasileiros seus ritmos e inspiraram matizes diversos de samba. Em São Paulo, o samba – de maneira diferente do Rio de Janeiro – nasce no interior e daí parte para a capital. Segundo Geraldo Filme, um dos grandes sambistas de São Paulo, já existiam registros de samba de roda em 1808 entre os negros de Pirapora. Nas senzalas de Piracicaba e Capivari, as festas dos negros aconteciam desde 1722, nas plantações de café. O samba paulista, no seu início, tinha outra ginga, diferente do samba carioca. Era um samba mais marcado, mais malevolente. Celso Viáfora, outro grande compositor paulista, em sua música “Baque do pilão”, assinala que: “Mão de cortar cana-de-açúcar/ Não tem a mesma ginga da que colhe o grão/A mão paulista que batuca/ Carrega o som do baque seco do pilão.” O samba paulista ganhou várias denominações, entre elas o samba de bumbo, proveniente principalmente de Bom Jesus de Pirapora. Era um samba bem cadenciado, marcado pela presença de tambores de tronco, cantado com a utilização de palavras do idioma bantu e a presença licenciosa da umbigada. Essa e outras modalidades de samba do interior migram para a capital e se incorporam ao carnaval e às manifestações culturais da capital paulistana. Da mesma forma que o samba carioca, o samba paulista sofre a repressão da classe dominante, através de seu aparato policial. Em São Paulo, o samba era cantado nas esquinas, por gente do povo que, longe da mídia, fazia a sua batucada, compunha seus sambas por meio de gente anônima, geralmente negros e pobres. Alguns locais viraram centro de difusão desse ritmo entre os anos 1940 e 1950. Um deles foi o antigo Largo da Banana, na Barra Funda, mas também frequentemente se encontrava uma roda de samba no Córrego da Saracura, no centro da cidade, onde hoje está a Avenida Nove de Julho. A urbanização da capital varre esses sambistas para a periferia da cidade. O samba, que já era perseguido pela polícia, agora é expulso de redutos tradicionais, como a Praça da Sé, onde engraxates batiam em suas caixas o ritmo envolvente que se tornou a marca de todo o país. Nos anos 1950 e 1960 o samba de São Paulo encontra cantores e compositores como Adoniran Barbosa, Paulo Vanzolini, Eduardo Gudin, Germano Mathias, Noite Ilustrada, Oswaldinho da Cuíca, Jorge Costa, entre muitos outros que complementam um trabalho iniciado décadas antes por Geraldo Filme, Henricão, Zeca da Casa Verde e vários outros compositores das escolas de samba paulistanas.

M U N D O P A N G E A M U N D O P A N G E A M U N D O P A N G E A M U N D O P A N G E A M U N D O P A N G E A M U N D O HISTÓRIA & CULTURA

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ba faz cem anos marcou o nascimento de uma nova era na história da música popular brasileira No final da década de 1920 os cantores da época, como Mario Reis e Francisco Alves, começam a frequentar os morros cariocas buscando parcerias com aqueles que realmente faziam a canção popular. Essas parcerias nem sempre eram honestas e geravam um tipo de exploração conhecido historicamente como “composição”. A era do rádio coincide com o apogeu do samba enquanto gênero predominante na música brasileira. Foi um dos períodos mais férteis e criativos da música popular. Em cada residência o rádio trazia a musicalidade de um ritmo em que a criação musical predominava. Mutações O disco, com suas sucessivas inovações, popularizava cada vez mais nossa música, e o cinema, agora falado, fazia com que a música se tornasse a grande vedete de suas produções. Surgem as chanchadas, que eram feitas fundamentalmente de música e humor; Carmen Miranda leva a expressão do samba da Bahia, especialmente o de Dorival Caymmi, às telas do mundo todo. Na década de 1940, particularmente no período da Segunda Guerra Mundial, surgem novos tipos de manifestações musicais, exportadas fundamentalmente pelos Estados Unidos dentro da chamada “política da boa vizinhança”. Assim o foxtrote e o boogie-woogie passam a incorporar o cancioneiro popular. O samba começa a passar por mutações sucessivas, incorporando batidas como a do sambalada ou do sambacanção. No final da década de 1950, da mistura de jazz e samba surge um ritmo novo, a bossa-nova, que pretendia modernizar a canção brasileira. Surgindo como reação ao paroxismo em que mergulhou o samba-canção, a bossa irá ganhar fervorosos adeptos entre os que enxergavam nela um ritmo revolucionário, capaz de alçar o Brasil à modernidade musical, e aqueles mais conservadores, que preferiam o ritmo do samba tradicional.

“Não deixa o samba morrer Não deixa o samba acabar O morro foi feito de samba De samba pra gente sambar” (Edson Gomes da Conceição e Aloísio Silva)

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Com o advento da televisão e dos festivais acontece um renascimento do samba tradicional, que logo será chamado de samba de raiz, em oposição aos movimentos modernizantes da música brasileira. Na maré da MPB, sigla que agruparia a maioria dos ritmos brasileiros, o samba ganha expressão maior nas letras e músicas de Paulinho da Viola, Chico Buarque, Martinho da Vila, Paulo Cesár Pinheiro, Aldir Blanc e João Bosco, além de muitos outros.

© Fernando Maia/RioTur/Fotos Públicas

© Marcos Oliveira/Agência Senado

© Fernando Frazão/Agência Brasil

A era do rádio Paralelamente ao movimento das escolas, o samba ganha outras formas de expressão; dentre elas a mais significativa é o rádio. Inaugurado no Brasil em 1922, o rádio começa a ganhar status de grande mídia do século XX no final da década de 1920. Inicialmente dedicado às transmissões de música clássica, o rádio mergulha com toda força no universo da música popular e elege o samba como uma de suas principais manifestações. Tem início a chamada “era do rádio”, que coincide com o período de governo de Getulio Vargas, alcançando até o final da década de 1950. Compositores como Noel Rosa, João de Barro e Lamartine Babo ganham expressão nas vozes de Francisco Alves, Mario Reis, Orlando Silva e as famosas cantoras do rádio Emilinha Borba, Marlene, Dircinha e Linda Batista, Angela Maria, entre tantas outras.

... cuja tradição foi mantida por outros grandes nomes como Beth Carvalho, Martinho da Vila e Zeca Pagodinho

Agoniza, mas não morre Juntamente com outras manifestações musicais brasileiras, o samba vai se engajar na luta política contra a ditadura militar de 1964. A luta contra a censura, o clamor pela volta dos exilados, o protesto contra a exploração do capital mais uma vez tiveram no samba um de seus principais porta-vozes. Ao final do século XX, o samba, juntamente com outras manifestações culturais, passa por um momento difícil que persiste até hoje, em que os paradigmas da mídia cada vez mais empurram a cultura para o mero consumismo e a mercadoria descartável passa a ser padrão de qualidade. Assim, sambistas e compositores de qualidade são cada vez menos encontrados na televisão, no disco ou na mídia impressa. Artistas como Paulinho da Viola, Chico Buarque e Paulo César Pinheiro desaparecem da mídia ou gravam seus sucessos, preferindo viver de shows acompanhados por seus seguidores fiéis. Apesar de seu caráter também comercial, a internet, a partir dos anos 1990, começa a ser uma alternativa para a produção cultural, fazendo circular com mais intensidade produções de qualidade em um âmbito que pode, algumas vezes, alcançar um grande público. Mas é em nichos localizados que o samba ainda resiste: a exemplo de seus primeiros passos, há cem anos, o samba pode hoje ser encontrado com toda a sua força na periferia de grandes cidades como o Rio de Janeiro e São Paulo. Em São Mateus, Santo Amaro, Grajaú, na Cidade Ademar, no Andaraí, na Mangueira, em Gamboa, o samba confirma, mais uma vez, os versos do grande Nelson Sargento, da Mangueira: “Samba agoniza mas não morre/ Alguém sempre te socorre/ Antes do suspiro derradeiro.”

Para sambar melhor l Uma história da Música Popular Brasileira, de Jairo Severiano. São Paulo: Editora 34, 2008. l Samba de sambar no Estácio, de Humberto M. Franceschi. São Paulo: IMS, 2010. l A MPB na era do rádio, de Sérgio Cabral. São Paulo: Moderna, 1996. l O mistério do samba, de Hermano Vianna. São Paulo: Zahar, 1995. Valdir Mengardo é professor de Jornalismo na PUC-SP e pesquisador da história da música popular brasileira

HISTÓRIA & CULTURA M U N D O PA N G E A M U N D O PA N G E A M U N D O PA N G E A M U N D O PA N G E A M U N D O PA N G E A M U N D O PA N G E A


Olimpíadas

Um megaevento insustentável Renato Rocha Mendes Especial para Mundo

Os Jogos e a Copa do Mundo, em todas as capitais onde são realizados, criam um ambiente que propicia a especulação imobiliária desenfreada e a prática da corrupção, ampliando ainda mais a desigualdade urbana e a segregação socioeconômica

cidade do Rio de Janeiro sediou os primeiros Jogos Olímpicos realizados na América do Sul, em agosto. Até o final dos Jogos cerca de metade da população mundial (3,5 bilhões) havia consumido imagens e informações sobre o maior evento global realizado pelo homem. A festa de abertura foi assistida por 2,5 bilhões de telespectadores. Sim, os megaeventos esportivos geram benefícios, só resta saber para quem. Se olharmos para a face iluminada da Olimpíada veremos valores e aspectos simbólicos celebrados desde sua primeira edição, em 776 a.C., na Grécia. Contudo, a partir de 1896, com a primeira edição dos Jogos Olímpicos da era moderna – as Olimpíadas de Atenas, propostas por Pierre de Coubertin –, uma nova face dos Jogos começou a surgir: aquela encoberta pelos interesses do capital. As expressões “teatro bilionário” e “máquina de dinheiro” explicam a outra face dos Jogos Olímpicos. Tanto as Olimpíadas quanto as Copas do Mundo de Futebol são interpretadas por parte dos agentes econômicos como fontes de capital, verdadeiros rios de dinheiro público que deságuam em negócios bilionários para o setor privado. Os Jogos Olímpicos e a Copa propiciam um ambiente negocial favorável à corrupção em países emergentes. Seus organizadores – ambos com sede na Suíça, o Comitê Olímpico Internacional (COI) e a Federação Internacional de Futebol, mais conhecida como Fifa (em francês, Fédération Internationale de Football Association) – estão implicados em escândalos de corrupção. As entidades têm lucros extraordinários com a venda de direitos televisivos, de publicidade, de imagem e de ingressos; os governos recolhem o bônus político eleitoral. Os Jogos Olímpicos no Brasil consumiram R$ 39 bilhões, sendo R$ 17 bilhões em dinheiro público – mas a conta irá aumentar com os Jogos Paraolímpicos. A última Olimpíada, a de Londres, deixou um saldo negativo de US$ 14 bilhões. Somente dois jogos foram bem-sucedidos, do ponto de vista dos interesses do erário: os de Los Angeles (1984) e os de Barcelona (1992). Os efeitos da avalanche de capitais para as cidades-sede de países emergentes são claros: o aprofundamento da desigualdade urbana e da segregação socioeconômica. Na maior parte dos casos, as alterações na paisagem urbana nas cercanias de estádios, ginásios ou pavilhões favorecem os organizadores, raramente a cidade, mas existem casos pontuais. Os pobres ficam com o ônus do apartheid urbano.

Para saber mais l The illusory economic gains from hosting the Olympics & World Cup, de Andrew Zimbalist. World Economics, v. 16, n. 1, jan./mar. 2015. Disponível em: http://goo.gl/v5jEdc l Megaeventos esportivos: suas consequências, impactos e legados para a América Latina, de Paulo Capela e Elaine Tavares (organizadores). Florianópolis: Insular, 2014. l Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas? de Andrew Jennings, Raquel Rolnik, Antonio Lassance e outros. São Paulo: Boitempo/ Carta Maior, 2014.

© Beto Santos/PCRJ/Fotos Públicas

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No Rio de Janeiro, construções como o Complexo Esportivo de Deodoro e o Parque Olímpico, na Barra da Tijuca, ligados por uma via de 26 km (foto), custaram R$ 39 bilhões, dos quais R$ 17 bilhões em dinheiro público, com resultados questionáveis, do ponto de vista das demandas dos setores mais carentes da população O discurso do legado olímpico encampado por políticos, organismos esportivos, empreiteiras, elites fundiárias e imobiliárias e órgãos públicos de financiamento é a justificativa para fazer funcionar a “máquina do crescimento”. Mas, nesse caso, crescimento econômico não significa desenvolvimento. O descalabro é gritante quando se olha para obras multimilionárias com baixa capacidade de integração após os megaeventos. Esse erro se repetiu na China, na Grécia, no Canadá, na África do Sul, na França e agora no Brasil, com os Jogos. A origem dos megaeventos Historicamente, o modelo insustentável dos megaeventos é herdeiro da política econômica praticada na Europa, na década de 1980, para combater os efeitos da restruturação produtiva, representados pela degradação do modelo de bem-estar social e deterioração urbana. O socialista e ex-presidente francês François Mitterrand foi o seu impulsionador, uma vez que passou a renovar áreas degradadas do país com a construção de grandes equipamentos culturais, como museus, óperas e teatros. As “soluções” requalificavam os locais, aqueciam o mercado imobiliário – com a valorização e elitização do espaço –, dinamizavam a construção, o turismo, e conferiam um ar de modernidade à sua gestão. A premissa era a de que os gastos concentrados, muito inferiores se comparados às políticas sociais em grande escala, atraíam novos fluxos de capitais financeiros. Na década seguinte o modelo foi replicado, fazendo com que as cidades com aspirações globais passassem a disputar os fluxos de capital. O “urbanismo do espetáculo” renovou áreas por todo mundo, das docas de Londres, passando pelo Museu Guggenheim, em Bilbao, e Parque das

Nações, em Lisboa. Em todas as renovações somas extraordinárias de dinheiro público foram comprometidas. O modelo passou a ser justificado como necessário para se ter competitividade global. Mas nem sempre o gasto de recursos públicos teve aceitação, mesmo com o selo cultural. Em momentos de crise, a redução dos investimentos nas políticas sociais fizeram com que os projetos de requalificação perdessem popularidade. Era necessário validar o modelo de alguma maneira. Ainda na década de 1980, os megaeventos esportivos surgiram como alternativa viável, uma vez que foram popularmente aceitos por moverem paixões. Tiveram seu poder dissuasório amplificados pelos veículos de comunicação, em especial a televisão. O ciclo dos anos anteriores havia sido preservado, em nome da modernização das urbes e dos negócios milionários do setor privado. O marco dessa virada foram os Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992, quando a Espanha enfrentava uma crise econômica. Equivocadamente, políticos passaram a encarar os megaeventos como milagres financeiros. Os espetáculos esportivos foram transformados em espetáculos financeiros pelo COI e pela Fifa. A partir da Copa de 2002, coorganizada por Japão e Coreia do Sul, os megaeventos foram deslocados para países em desenvolvimento. A transição foi estratégica, uma vez que o modelo esgotava sua popularidade nos países do norte. A corrupção estrutural observada em países emergentes torna as nações vulneráveis às pressões do capital, criando um ambiente adequado para o lucro dos organizadores. Os Jogos Olímpicos do Rio foram uma aventura irresponsável, para dizer o mínimo. Renato Rocha Mendes é jornalista

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