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Você está adquirindo um livro de produção independente. Toda propaganda, ilustração e despesas foram responsabilidade do escritor. Então, muito obrigado. Saiba que está contribuindo para a realização de um sonho. Apenas peço que, se gostar da história que lerá nas próximas páginas, compartilhe essa ideia; não deixe que um grande mundo fique preso a uma pequena garrafa. Mais uma vez, obrigado e uma boa leitura. L. S. Bertolino

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Título A LENDA DE ARION O Círculo Todos os direitos reservados; nenhuma parte desta publicação pode ser transmitida ou reproduzida por meio eletrônico, mecânico, fotocópia,ou de outra forma sem a prévia autorização do autor. Publicado no Brasil em 2011 pelo Perse edt. Copyright © 2011 Lucas Bertolino O direito moral do autor foi assegurado. “A LENDA DE ARION, nomes e indícios correlatos estão protegidos pelo copyright, © 2011” Arte da capa L. S. BERTOLINO Revisão SAMUEL BERTOLINO Diagramação e Ilustrações L. S. BERTOLINO Publicação PERSE EDT. BERTOLINO, Lucas S., 1991 – A lenda de Arion: O Círculo / L. S. Bertolino – São Paulo: Perse, 2011 1.

Literatura infanto-juvenil

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Você já parou para pensar no quanto pequenas decisões influenciam nossas vidas? Ou no quanto simples coincidências, como estar no local errado, aliar-se a um estranho, ou escolher um nome em um livro pode transformar sua vida irremediavelmente? Talvez você possa nunca ter sequer pensado nessas coisas, mas, após certos acontecimentos, passará a notar como os mínimos detalhes e as coisas mais insignificantes controlam o seu destino e como no meu caso decidiram o futuro de todo um povo e uma geração. Não podemos fugir do que nos espera, pois o destino é algo que corre por nossas veias... Isso é destino: um conjunto de situações que define o que vai nos acontecer, quando e onde, sem que possamos interferir, uma vez que fugir de nós mesmos é impossível. Tolice? Talvez depois de saber o que houve comigo você possa entender o quanto os detalhes fizeram da minha vida uma aventura inesquecível e de mim o responsável pela vida de milhões de pessoas inocentes na batalha mais atormentadora dos últimos tempos.

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O INTERNATO FLERRIS Era 1968 e o céu do Rio de Janeiro estava em trevas. Meu nome é Arion1. Minha história não é uma das mais felizes, isso eu posso garantir, e não começou em uma bela casa na qual os familiares e amigos reúnem-se confortavelmente à mesa para saciar a fome e compartilhar as suas histórias. Minha história começou no internato das irmãs Flerris, um lugar onde qualquer sonho era dizimado sem piedade. Era noite de junho, se não me engano, e a chuva caía ruidosamente sobre o telhado do meu quarto fazendo um barulho descomunal. Foi lá pelas onze da noite que um grande estardalhaço me acordou e a porta se escancarou de uma só vez. Uma mulher, que eu já conhecia há algum tempo, entrou em meu quarto vestindo seu típico terninho com ombreiras e uma longa saia até os joelhos magros. Seu nariz era avantajado e torto e o cabelo negro estava embolado em um coque perfeito. Seu nome era Agatha: a diretora do Internato. Agatha entrou em meu pequeno quarto e empurrou uma figura para dentro do cubículo. Era um garoto; não tinha mais do que um metro e cinquenta e cinco de altura, usava grossos óculos, um moletom grande demais para seu corpo e uma calça jeans surrada. Seu rosto estava completamente assustado. ― Vai dormir aqui com mais um colega ― a voz estridente de Agatha ecoou, arrepiando-me sob as cobertas. ― O café é às sete e sua primeira aula, às nove. Não se atrase ou haverá punição. Boa noite.

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A pronúncia é Árion.

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E sem mais nenhum comentário, a diretora se afastou e fechou com força a porta. A penumbra voltou a reinar no quarto, sendo apenas quebrada pelo raio de luz do luar, que atravessava cálido a janela de madeira branca. Ouvi o garoto soluçar baixinho. Mais um. Eu pensei. Lembrei-me de como fora minha chegada ao Internato e meu primeiro contato com aquele quarto apertado onde havia duas camas barulhentas, dois criados repletos de traças e um guardaroupa mofado. Parecia-me há tanto tempo! Eu já não me lembrava da minha vida fora daquelas paredes. Um ano... Um ano já havia se passado desde o abandono dos meus pais. Depois daquilo, não houve mais contato, não havia mais amigos nem novos momentos de felicidade. O internato das Irmãs Flerris roubou qualquer lembrança dos meus pais, arrancou qualquer sentimento bom e exterminou qualquer esperança que existiu algum dia. Eu não era feliz no Flerris, pois isso não era possível. Levantei-me bem cedo no dia seguinte (como faço todas as segundas), arrumei minha cama (por ordem do Internato), troquei minha roupa e deixei o novato seguir em seu sono pesado. Com certeza se atrasaria para o café e se encrencaria com a diretora... Mas não era problema meu. Desde que entrei naquele lugar, eu aprendera a cuidar apenas da minha vida. Eu não tinha amigos;tinha, no máximo,conhecidos para quem passava cola e alguns idiotas que me bajulavam pois me deviam favores. Saí pela porta do quarto e tudo estava como sempre: o segundo andar, onde eu me encontrava, estava silencioso, e o sol iluminava todo o pátio arborizado no primeiro andar. Espreguiceime e segui meu caminho pela direita, rumo ao banheiro. Meu reflexo no espelho sempre me assustava pela manhã. Meu cabelo negro e basto se espalhava para todos os lados, inclusive sobre meus olhos inchados e esverdeados. Minha pele moreno-claro lembrava-me a da minha mãe e a minha boca pequena mostrava-me o quanto eu parecia com o meu pai. Eu não era um cara bonito, também não era um dos mais feios do Internato. Considerava-me um rapaz normal, de dezesseis anos, com espinhas brotando na bochecha a todo momento, interminavelmente. Lavei o rosto, escovei meus dentes e saí caminhando lentamente pelo corredor deserto. 8


Enquanto eu seguia em direção à escada, dez portas idênticas se estendiam à minha esquerda, marcadas com grandes números prateados e dando entrada para os demais quartos, onde naquele momento seus moradores continuavam a dormir. Entre todas as portas havia uma que se diferenciava do restante, que levava a um cômodo maior e mais sombrio: o quarto do Monitor. O Monitor era responsável por nos mandar para a diretoria caso desrespeitássemos qualquer uma das inúmeras regras do Internato ou se simplesmente o deixássemos irritado. Era um homem sem nenhum escrúpulo e não media esforços para nos ameaçar. Talvez por isso eu tenha passado tão rápido pelo quarto. Desci as escadas e fui até o refeitório. Não havia muitas coisas além do refeitório no andar de baixo, somente uma sala de aula, a sala da diretoria, a sala de segurança e o Castigo... O Castigo. Sempre que ouvia meus pais dizendo alguma coisa sobre castigo, nunca passara pela minha cabeça o que acontecia no Flerris. Ser mandado para o Castigo era algo que assustava até mesmo os caras mais velhos da minha turma, sem exceção. Não existia um que não temesse a sala escura e mofada do Internato e não houve qualquer aluno que não tremesse diante da enorme porta de ferro. Um arrepio cortou minha espinha de repente. Lembrei-me das dezenas de vezes em que a diretora Agatha me trancafiou no Castigo. Isso se tornou tão comum que os alunos já não se espantam quando Agatha me arranca do meio de uma aula, arrastame pelo corredor aos berros e, por dois ou três dias, trancafia-me na sala claustrofóbica, dando-me,quando lhe convém, um copo de água e um pedaço de pão mofado. Ela sente repulsa de mim e eu me nego, sempre que posso, a obedecer a suas ordens. Somos grandes amigos. Depois do café solitário segui roboticamente até o pátio, onde diversos alunos perambulavam entre os arbustos jogando conversa fora. Os pequenos grupos de estudantes se movimentavam com um semblante que exibia quão superficiais eram. Os piores alunos costumavam sentar-se bem à mostra dos demais, no centro do colégio, apontando os garotos mais baixos e as garotas mais feias e caçoando deles. Eram o que poderia se chamar de populares... Imbecis, na minha opinião. A líder deles não ficava nem um pouco atrás no quesito idiotice. Seu nome era Ana, filha de um militar linha dura do Rio de Janeiro. Ela e seu pai costumavam se encontrar de três em três meses, data em que a filha colocava seu poder de atuação em ação e mostrava o quão boa garota ela era. Hunf... Com exceção dessas 9


datas, Ana tinha como meta transformar a minha vida e a de qualquer um num inferno. Era seu hobby e eu não descobrira, nesse um ano de estada no Flerris, o porquê de tanto prazer em ver as cabeças rolarem. Era uma inútil, a Ana, e eu aprendi a ignorá-la sempre que possível; dessa forma, livrei-me de uns bons dias no Castigo. Para a minha sorte, ela se tornou a menina dos olhos da Agatha e gozava de todos os benefícios possíveis dentro do Internato. Na verdade, elas se mereciam. A primeira aula começou como qualquer outra, a não ser pelo bigode da professora Carmen que não havia sido depilado. Ele brilhava em minha direção com o suor, fazendo o café lutar para fugir do meu estômago. Com um pequeno tumulto, cerca de dez minutos depois do início da aula, um garoto descabelado e miúdo entrou na sala e, imediatamente, eu reconheci seus óculos grossos e estranhos: meu companheiro de quarto. ― Des-cul-pe-me ― falou o garoto ofegando, a voz fina e infantil ecoando em toda a sala de aula. Não conseguia acreditar que aquele menino tinha dezesseis anos como eu. ― Escute aqui, garoto, ― disse o bigode da Sra. Carmem ― não tolero atrasos. O Flerris é uma instituição rígida e respeitada. Se quer moleza, ― ela consultou uma pequena ficha sobre a mesa ― Gregório, sugiro que volte para a casa de seus pais. Tive a impressão de que o garotinho voltaria a chorar, e ele quase fez isso, mas, no último instante, engoliu as lágrimas e correu para a única cadeira vazia, no fundo da sala. Lá, ficou calado o restante da aula. Talvez eu tenha ficado com pena dele. O sino da torre ao norte soou indicando meio-dia, hora em que todos os alunos iriam se espancar para pegar o melhor pedaço de carne no refeitório. Eu era um desses alunos. Já me preparava para seguir na direção da batalha quando ouvi meu nome – ou algo parecido com o meu nome – ecoar pelos corredores às minhas costas: ― Arnion! ARNION! A voz estridente da diretora Agatha sempre conseguia arrepiar-me. ― Não está me ouvindo dizer seu nome, moleque? ― ela havia me alcançado e me virara de uma só vez com suas garras de águia selvagem. 10


― Esse não é o meu nome ― respondi sem qualquer emoção. ― Não me responda, seu peste! Quer ir para o Castigo? ― Agatha rosnou para mim. ― Estou mesmo precisando de umas férias... ― Seu marginalzinho... ― por um momento achei que a diretora ia avançar contra mim, mas ela parou, encarou-me, e sorriu, algo que me preocupou muito. ― Não ― ela disse com um sorriso enorme e apavorante. ― Acho que não vou pegar tão leve com você hoje, seu marginal. Tenho algo muito melhor para você. Assustadoramente, Agatha girou o pescoço e gritou para alguém mais atrás dela, no corredor já deserto. Um segundo depois, a figura magricela e desajeitada de Gregório apareceu à minha frente, fungando e completamente tímido. ― Você vai apresentar o internato para ele. Quero que você o leve a todas as salas do prédio e mostre todos os professores do Flerris. Quero que o garoto se sinta em casa. ― Eu?! POR QUE EU?! ― eu gritei enfurecido. ― Você é o colega de quarto dele. Não há pessoa mais indicada para essa função. Eu a fuzilei com um olhar. Ela sabia exatamente o que fazer para me enfurecer. ― Boa diversão, Arnion ― e, com mais um sorriso de vitória, a diretora saiu como uma serpente na direção da sua sala. Eu me virei para Gregório e ele me olhava acanhado. ― Vamos ― rosnei. Nós ziguezagueamos entre as grossas pilastras que cercavam o Flerris e eu saí apontando como um guia turístico para as salas por onde passávamos: ― Aqui é o laboratório de ciências ― eu apontei quando chegamos ao fim do corredor que margeava a sala de aula. ― Lá atrás temos o armário e antes, bem, o Castigo. ― Castigo? ― Gregório me perguntou, mas eu continuei a andar a passos rápidos sem lhe dar atenção. ― Ali na frente é a Diretoria, os banheiros e o salão. Tem a sala de segurança bem aqui à esquerda e aquelas escadas, lá do outro lado, levam ao nosso dormitório e ao das garotas, que infelizmente é proibido para nós. É isso. Já sabe tudo o que precisa saber. ― Mas... Mas e os professores... E as regras?! ― Isso você aprende com o tempo, moleque. Boa sorte. E sem olhar para ele, eu corri pelo pátio arborizado na direção da briga que acontecia no refeitório por um pedaço 11


gigantesco de frango. Eu estava me lixando para o novato e para o que a Agatha poderia fazer comigo. Afinal, eu não estava sendo pago para ser babá de ninguém. Naquele dia não houve nada além de algumas aulas longas, piadinhas da turma de Ana e duas ou três broncas da diretora Agatha. Resumindo: um dia completamente normal. Cheguei ao meu quarto e me assustei com o tal Gregório à minha espera com um grande artigo científico em mãos. Até então eu não havia tido qualquer companheiro de dormitório, por isso foi bem estranho ver aquele garoto na cama que por um ano esteve vazia. ― Olá. ― ele me disse. Balancei a cabeça e lancei-me sobre a cama. Não queria dar oportunidade para que Gregório começasse uma conversa. ― Então... ― ele falou ― Arion seu nome, não é? Diferente. Eu não respondi. Continuei olhando o teto para não encará-lo. ― Valeu mesmo por ter me mostrado o colégio hoje. Silêncio mais uma vez. ― Então, seus pais são daqui do Rio mesmo? Eles vêm aqui sempre? Por que trouxeram você para cá? ― Olha ― eu fitei o garoto, chateado ―, eu não estou querendo conversar, o.k.? Vamos fazer um trato: você fica no seu canto, calado, e eu, no meu. Certo? Ótimo. Virei para o lado e cobri minha cabeça com o travesseiro. Se Gregório pensou em algo mais para dizer eu não sei, mas o quarto ficou silencioso instantaneamente. Não me entendam mal. Não sou um idiota. Eu apenas queria me manter longe de problemas desnecessários. Já tinha problemas o suficiente naquele lugar e não precisava de mais um. Porém, não sei se ele conseguiu entender isso... ―Então... Vai brigar com a diretora hoje de novo? ― Gregório me perguntou, enquanto me seguia pelo pátio a caminho das aulas no dia seguinte. ― Por que você está me seguindo? Já disse para você dar o fora! ― Mas você é a única pessoa que eu conheço aqui! Com quem mais vou conversar? ― Isso não é problema meu! 12


― Mas nós podemos ser amigos! Eu percebi que você também não conversa com ninguém e que não tem muitos colegas. Poderíamos ser uma dupla, cara. ― Você está louco, é? Não estou querendo ninguém para fazer dupla! DÊ O FORA! Entramos em sala de aula e eu me sentei bem longe do moleque. Mas aquela não foi sua última tentativa. Quanto mais eu tentava enxotar o garoto para longe de mim, mais ele tentava se tornar meu amigo. Eu não conseguia entender por quê! Em todo canto que eu ia, Gregório me seguia, em todos os comentários que eu fazia, ele me apoiava, e qualquer pessoa com a qual não me desse bem, ele a considerava uma inimiga em comum. Aquilo estava começando a me tirar do sério... ― Escute aqui. ― eu gritei, furioso, em meio ao refeitório durante o almoço ― EU-NÃO-SOU-SEU-AMIGO! Entendeu? Larga do meu pé! Você é chato e irritante. É por isso que não tem amigos! Levantei-me e saí às pressas do salão. Todos olhavam para Gregório, imóvel e mudo em seu assento. Ana riu em seu canto. Pelo canto do olho eu avistei o garoto iniciar um choro silencioso. Meu estômago embolou-se em um nó e eu pensei que, talvez, tivesse ido longe demais. Naquele dia eu não me senti bem e não consegui encarar meu companheiro de quarto uma vez sequer durante as aulas. Ele ficara mudo desde o almoço e não parava de encarar as próprias mãos. Estava diferente. Seus olhos estavam vazios e a mente parecia distante dali. Parecia oco, talvez um corpo sem vida... Gregório não estava bem e a culpa era minha. Como eu pude ser tão imbecil? A noite chegou silenciosa, e a próxima semana também. Gregório não falava comigo desde o incidente do refeitório e mal nos olhávamos quando nos encontrávamos pelo internato. Cada vez era mais difícil estar no mesmo lugar com o garoto sem sentir um peso incalculável sobre o meu estômago. Eu queria socar alguma coisa com força, mas não adiantaria nada. Fiquei com vontade de gritar com Gregório para ver se ele reagia de alguma forma, mas percebi que isso só pioraria a situação. Eu não sabia o que fazer e isso só estava me irritando cada vez mais. Outra tarde passou rapidamente e o anoitecer chegou sem qualquer convite. Evitei o máximo que pude minha ida até o 13


dormitório, pois não estava preparado para encarar o garoto e muito menos ficar no quarto com ele. Eu nunca me senti tão culpado quanto naquele momento... E por que, afinal, eu estava tão infeliz? Eu me livrei do garoto! Consegui finalmente afastar o problema de mim! Eu estava livre... Livre... Mas por que eu não me sentia bem?! Por que a liberdade estava tão ruim agora? Maldito garoto! Mesmo quando não estava por perto ele conseguia infernizar minha vida! Talvez eu tivesse ido longe demais... Talvez o garoto não fosse tão ruim quanto parecia... Talvez ter um amigo no Flerris não fosse tão ruim quanto eu pensava... Saltei do banco do pátio e mirei a escada para o segundo andar. Estava na hora de me desculpar com Gregório. Eu não podia mais deixar aquela situação como estava. Ele teria que me ouvir. Fui a passos largos na direção do dormitório. Passei pelos quartos, ignorando as reclamações do Monitor, e cheguei até o número 8, meu quarto. Girei a maçaneta lentamente. Gregório estava sentado na cama e tinha ao seu redor uma dúzia de livros. Quando me viu, fechou a cara e escondeu-se atrás da capa dura de um “Noite Na Taverna”. ― Ei, Gregório, tudo bem? Eu não sabia mesmo iniciar um pedido de desculpas. ― O que você quer? ― o garoto disse por detrás do livro. Respirei profundamente. ― Vim pedir desculpas. Um momento de silêncio. ― Desculpas? Pelo quê? ― Por gritar com você naquele dia. Foi mal. Fui um completo jumento. Gregório abaixou o livro lentamente e me encarou ainda desconfiado. ― Podemos ser amigos ― eu disse, tentando sorrir. O garoto tentou esconder, mas ele também sorriu. ― Está bem ― ele disse. ― Mas, por favor, me chame de Greg, o.k.? ― Greg é legal. Nós nos encaramos e o garoto voltou a ler seu exemplar ainda sorrindo. Dessa forma, eu e Greg ficamos amigos. Os dias começaram a passar mais rápido. Descobri que, apesar da nossa diferença física ― eu era um dos maiores do 14


colégio e Greg um dos menores ― eu e Greg tínhamos hobbies em comum, além de pais amorosos. Éramos viciados em livros de terror bem sangrentos e víamos, sempre que possível, as séries policias na TV. Sempre reclamávamos das aulas e nunca tirávamos notas abaixo de nove. Nós nos dávamos bem, a não ser pelo fato de que Greg falava quase o tempo todo. ― A diretora realmente odeia você. ― ele comentou em algum dia ensolarado. ― Sim. Ela quer arrancar minha cabeça de qualquer jeito. ― Por quê? Você deu um fora nela por acaso? ― Não. Na verdade, ― eu olhei para os dois lados antes de continuar ― eu descobri um pequeno segredinho dela. Os olhos de Greg brilharam de curiosidade. ― Segredo? O quê? Eu ri. ― Numa noite, tentando me esconder do Monitor, eu a vi na sala dos professores. ― E daí? ― Daí que ela estava com o professor de química, se agarrando. Estavam num beijo que iria desentupir todas as pias aqui do Flerris de uma vez só. Os olhos de Greg se arregalaram de tal forma que eu caí na gargalhada. ― Mas e depois? Ela pegou você? ― Hum-hum ― eu confirmei. ― E disse que se eu contasse para alguém, ela arrancaria minhas tripas. ― É, você está perdido. ― Estou. Minha curiosidade é meu pior inimigo. Sorrindo nós seguimos para a aula. O começo de Agosto passou tão rápido quanto o fim de Julho. Houve algumas provas e alguns dias no Castigo também. Greg ficava apavorado toda vez que me via voltando dos dois dias de aprisionamento, faminto e mal-cheiroso, e iniciava seu discurso interminável de protestos contra a diretora. ― Cara, ela não pode fazer isso com você! Isso é crueldade e, com certeza, ilegal! A gente tem que fazer alguma coisa, por que senão... ― Calma, Greg, calma! São só umas pequenas férias de você ― eu dizia rindo, mas no fundo eu sabia que o Castigo estava longe de ser um descanso confortável. Para quem não se acostumava, aqueles dias poderiam parecer uma eternidade. ― Mas ela é uma vaca, isso é ― ele disse. 15


E nós rimos um do outro. Tudo parecia normal, mas aquela paz não durou muito tempo. Caía um grande temporal lá fora e eu lia um pequeno livro de terror deitado sobre a minha cama, quando a porta do quarto foi esmurrada com força. Levantei-me assustado e lancei-me à maçaneta, dando passagem para um garoto alto e moreno, completamente encharcado e descabelado. Seu nome era Tiago e ele era um dos caras que me devia favores: ― Você precisa descer até o corredor do Castigo ― ele me disse apressado. Estava ofegante e assustado. ― O que foi? O que está acontecendo? ― Aquele garoto que anda com você... ― Greg. O que tem ele? ― É a Ana. Ela o pegou. Parece que ele a derrubou sem querer, eu não sei, só sei que ela está com o grupo dela lá embaixo... Eu não esperei que ele terminasse. Atravessei a porta do quarto acelerado e corri pelas portas. Sentia que não iria acontecer nada de bom. Ana não era uma pessoa que costumava perdoar. Se Greg tivesse feito alguma coisa a ela, mesmo sem querer, ela não pegaria leve com ele, não mesmo. Desci as escadas saltando vários degraus. Um relâmpago explodiu no céu. Atravessei o pátio em meio aos dolorosos pingos d’água e alcancei o corredor do Castigo, vendo-os assim que dobrei a esquina. Ana estava parada de costas para mim. Seu cabelo loiro estava ensopado e sua blusa completamente suja de barro. Sua mão tremia furiosamente. Ouvi gritos e gargalhadas. Aproximei-me alguns passos e, aos poucos, o grupo de Ana foi entrando em meu campo de visão, eram cinco, talvez mais, e chutavam algo caído no chão com vontade. Algo que eu reconheci ser Greg. O garoto miúdo tentava se proteger dos chutes com os braços, mas era espancado sem piedade. Ana olhava para a cena, com seus grandes olhos azuis e sorria, mas era possível notar que também estava achando que a situação fugira do seu controle. De repente, um grande estalo ecoou pelo corredor e o rosto do garoto foi acertado com força por um chute impiedoso. Seus olhos giraram pela órbita e em seguida se fecharam de uma só vez: ― Greg! ― gritei. Por um instante, silêncio. Todos me encararam e o espancamento cessou. Meu peito estava acelerado. Minhas mãos estavam trêmulas. A imagem do rosto de meu amigo 16


ensanguentado mexera com alguma coisa dentro de mim. Ele não se mexia, parecia desmaiado. Não vi como, mas eu parti para cima dos amigos de Ana com toda a minha fúria. Acertei com um soco o rosto de um grandalhão loiro, depois um chute num mais magro e outro em um mais à direita. Senti minhas costelas estalarem. Alguém me acertara por trás. Ouvi Ana gritar para que parassem, mas outro golpe me acertou no nariz e um líquido quente começou a escorrer pelo meu rosto: sangue. ― O QUE ESTÁ ACONTECENDO AQUI? A voz de Agatha ecoou pelos corredores. Meus adversários me soltaram e meu corpo bateu com força contra o chão. ― Foi ele, o Arion ― a voz de Ana saiu estridente ― Ele tentou me agarrar e os garotos só estavam me protegendo. Senti o ódio borbulhar dentro de mim. Vaca! Aquela menina não valia nada. ― Muito bem. Então já sabem o que tem de ser feito, não é? ― Agatha não conseguia esconder o prazer em sua voz de quadro-negro-arranhado. ― Levantem-nos. Vamos dar alguns dias para eles no Castigo, para que aprendam, de uma vez por todas, o que é respeito. Meu corpo foi erguido mais uma vez e vi, de relance, o corpo inerte de Greg ser levantado ao meu lado. Fomos arrastados por alguns metros, ouvi um pequeno barulho metálico de chaves e, no instante seguinte, fomos atirados no chão frio de uma sala escura. ― Cinco dias aí e vocês nunca mais vão se esquecer do que aconteceu. ― Agatha disse sorrindo e, em seguida, bateu a porta de ferro com força, mergulhando a sala em trevas. Tateei ao meu redor em busca de Greg e, com um grande susto, toquei em seu rosto molhado de sangue. Ele respirava fracamente: ― Greg, fala comigo. Fala comigo, cara. GREG! Mas não houve resposta. Prendi a respiração. Por um bom tempo, eu fiquei parado ali, ao lado do garoto, que estava entre a vida e a morte...

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ALGO NÃO SAI COMO NO PLANEJADO A respiração de Greg era lenta e cortante. Poucas horas depois do nosso aprisionamento, uma enfermeira chegou para cuidar dos ferimentos de Greg e, quinze minutos depois, nos abandonou na escuridão mais uma vez, sem dizer qualquer palavra. Pelo menos o garoto estava bem. Eu me sentei e encostei-me na parede áspera e úmida. O pior havia passado, mas meu ódio por Ana e aquele internato crescia a cada respiração pesada de Greg. Eu não podia acreditar no que acontecera. Não podia acreditar no quão injusta era aquela situação. Greg ficou calado em seu canto. Ele apenas respirava e soluçava algumas vezes. Tentei conversar, mas ele permanecia mudo e era possível ouvir os ratos e as baratas caminhando ao nosso redor. Cinco dias depois, o que me pareceu uma eternidade, a porta do Castigo foi aberta. Era manhã, bem cedo, e quase não havia ruídos no colégio. Saímos lentamente pela porta, vigiados pelo olhar feliz da diretora Agatha. Olhei para Greg e me assustei. Ele tinha grandes olheiras e a pele estava muito pálida e arroxeada. Vários ferimentos pretos espalhavam-se pelo seu corpo, seus óculos haviam se quebrado e a roupa estava suja de sangue seco. Seus olhos estavam perdidos no vazio e ele nem parecia notar pessoas ao seu redor. ― Espero que tenham aprendido a lição ― Agatha disse, debochando de nossa fraqueza. Eu a encarei com os olhos em chamas. Ela pareceu se incomodar e se ajeitou melhor dentro do terninho preto. ― Vão para o quarto. Agora! 18


Ela não precisava dizer mais nada. Eu guiei Greg e nós seguimos rumo ao quarto “8”. Assim que batemos a porta às nossas costas, Greg deitouse na pequena cama e ficou em posição fetal, seus olhos sem foco. Eu o olhei assustado. Eu nunca havia visto alguém ficar daquele jeito depois do Castigo. Muitas pessoas saíam mal da sala, mas não daquela maneira. Eu me joguei em minha cama. ― Greg? Está bem? Pode me ouvir? Ele continuou imóvel. ― Vamos, cara, reaja. O que há com você? VAMOS GREG! Eu não percebi, mas meus olhos encheram-se de lágrimas. Não era justo o que haviam feito com aquele garoto. Ele sempre tivera o amor dos pais médicos e nunca fora tratado daquele jeito. Pelo que Greg me dissera, ele estaria fora dali em alguns meses, um pouco depois que os pais voltassem da Europa. O que aconteceria agora? Ele não parecia bem, ele não merecia aquilo! Ninguém merecia. Aquilo não poderia continuar e eu não conseguia suportar isso por mais tempo... ― Eu vou embora ― eu disse com meu tom normal, abaixando a cabeça. Greg moveu seus olhos e me fitou. Uma lágrima escorreu por entre as feridas. ― Vou levar você comigo, Greg. Não vamos mais suportar esse maldito internato! O garoto voltou a encarar o vazio, completamente sem reação, e em seguida adormeceu. Eu fiquei sentado na cama, alimentando o ódio que Agatha despertara em mim. No final do dia Greg voltou parcialmente, ao normal, apesar de ainda se assustar com qualquer barulho à nossa porta. Seu rosto ainda estava inchado e grandes hematomas marcavam sua pele. Ele me olhava estarrecido e parecia entender finalmente o que eu estava prestes a fazer: ― Você já está decidido, não é? Não vai mudar de ideia. ― Não temos saída, Greg. Se não formos agora, não sei o que vai acontecer com a gente nesse internato. ― Mas meus pais vêm me buscar. Quem sabe os seus pais... Ele parou de falar. Greg sabia que meus pais nunca haviam respondido a qualquer carta que mandei a eles. Eu os odiava. 19


― Se não quer ir Greg, eu vou sozinho. Não vou continuar me rebaixando àquela mulherzinha e aturando a vaca da Ana. Vou embora. Tem alguma coisa acontecendo fora dessas paredes e eu preciso saber o que é! Nossos pais nos trancaram aqui por algum motivo e eu não vou continuar às cegas. ― Mas, Arion... ― Está decidido. Greg escondeu o rosto atrás de um artigo científico e não disse mais nenhuma palavra e eu segui para o meu banho. Foi neste dia que decidi fugir do internato. Eu havia pensado muito durante minha permanência no Castigo. Decidi não esperar mais um resgate milagroso dos meus pais ou uma melhoria na vida enclausurada do internato. Tudo se tornou insignificante depois do meu tempo de abandono. Dentro do Castigo, eu tomei minha decisão e não voltaria atrás por nada. Estava decidido e eu só precisava planejar minha fuga. Alguns dias após a minha decisão comecei a elaborar o meu plano, com a ajuda de Greg, que auxiliava com certo receio. ― Vai mesmo embora? ― ele sempre dizia quando tocávamos no assunto. ― Vou ― eu respondia irredutível. Nós começamos por anotar os horários em que o corredor permanecia desprotegido pelo Monitor e nos revezávamos para descobrir os horários de troca dos vigias da entrada. Estocamos também alguns alimentos no fundo do guarda-roupa e começamos a ajudar alguns alunos nas provas em troca de um pouco de dinheiro. Estávamos bem organizados e tudo já estava quase pronto, exceto pela data da fuga. Mas isso não foi um empecilho por muito tempo... Era a última semana de Setembro e havia um grande tumulto na sala de aula. Um pouco depois do intervalo as pessoas caminhavam pela sala e falavam aos berros. Eu, Greg e dois “colegas de cola”, Tiago e Hugo, jogávamos uma partida de Poker com um baralho clandestino e gritávamos uns com os outros como se estivéssemos num grande cassino: ― Seu ladrão miserável! ― eu gritava, ao mesmo tempo em que sorria. ― Você está blefando! Quero ver se você encara o que eu tenho aqui! 20


― Você fala demais, Arnitron! ― Tiago errava meu nome de propósito para me irritar ― Quero ver se você tem mesmo tudo o que está dizendo! ― Eu estou fora ― Greg falou. Ele sempre abandonava o jogo com facilidade. ― Eu também não encaro ― Hugo não era lá muito bom no jogo. ― Só sobramos nós dois Arnion ― Thiago me intimou. ― O que vai ser? ― Vaca! ― Greg gritou ao meu lado. Acostumados com o sinal já tantas vezes usado, ao ouvir o berro de Greg eu e Thiago puxamos com os braços as cartas do baralho e as jogamos na mochila, sem pensar duas vezes. Hugo pulou para sua carteira e Greg se ajeitou no assento. Um milésimo de segundo depois a diretora Agatha entrou na sala com seu nariz grande e torto, mostrando o quanto os seres humanos podiam se parecer com aves quando queriam. ― Turma, tenho uma notícia para vocês ― ela anunciou dez minutos mais tarde. Ana sentava-se duas carteiras à minha frente e ria de maneira asquerosa. ― Ela vai se demitir! ― sussurrou Greg para mim. Nós rimos. ― O baile em comemoração ao aniversário do colégio vai acontecer no dia 30 de setembro, aqui no salão, para que possa haver um momento de interação ― ela disse essa palavra completamente enojada ― entre alunos e professores. Todos são obrigados a participar. Um murmúrio começou entre os alunos da sala, alguns empolgados, outros nem tanto. Eu estava com meu interior explodindo de felicidade: ― Você ouviu Greg? Vamos ter um baile! ― Grande coisa! Por que você está tão empolgado? Por acaso vai tirar a queridinha da Agatha para dançar? ― Não é nada disso! Eu não vou para o baile! ― Então? ― Eu vou fugir no dia do baile. Greg ficou pasmo; eu, no entanto, fiquei eufórico. Minha fuga estava a uma semana de acontecer. Uma semana passou vagarosamente. Eu arrecadei uma boa quantia de dinheiro e tudo estava pronto na manhã de quinta-feira. Todo o pequeno estoque de comida e as peças de roupa que couberam estavam na minha mochila de lona – uma daquelas 21


grandes para vários dias de acampamento. Os livros foram retirados de lá e não restara nenhum material escolar em seu interior. Estava tudo preparado para a fuga à noite. Naquele dia não houve aula, devido à arrumação do salão feita pelos professores e à grande movimentação de mesas e cadeiras sendo transportadas do refeitório para o local onde aconteceria o baile. Os alunos estavam se divertindo pelos corredores e invadindo os dormitórios alheios para se distraírem. Era uma tarde ensolarada, acompanhada do vento frio da primavera. Fazia realmente um dia glorioso e, talvez por isso, eu e Greg resolvemos nos abandonar sobre a grama, demasiado verde, do jardim do internato e ficamos observando as nuvens em suas mais diversas formas: ― Está um belo dia, não é? ― perguntou Greg, sem desviar o olhar do céu azul-anil. ― Está ― respondi. ― Tudo já está pronto? ― Hum-hum ― confirmei com a cabeça. ― Então você vai mesmo? Não está com medo? ― Não. Eu preciso ir e você sabe disso ― eu não queria fraquejar diante de Greg. ― Mas, cara, talvez as coisas melhorem. Imagine se alguma coisa acontece com você? Imagine você sozinho por aí? Imagine eu sozinho aqui. ― ele se reergueu e ficou sentado, encarando-me. Seus óculos colados estavam caídos na ponta do nariz. ― Vamos fugir comigo então, cara! Você também não precisa ficar aqui! Greg parou por um instante e fitou-me, como se considerasse a proposta; depois abaixou a cabeça descontente e ajeitou seus óculos novamente: ― Eu não sou tão corajoso quanto você, Arion. Eu não conseguiria cair nesse mundo só com uma mochila nas costas e um pouco de sorte... Não, não tenho um terço da coragem que você tem. O sol começou a baixar lentamente atrás dos muros do colégio, transformando o céu num infinito manto alaranjado. ― Eu não sou tão corajoso quanto você pensa. Eu só estou fazendo isso por que não tenho mais nenhuma opção. Eu preciso ir embora. ― Eu sei ― ele abriu um sorriso vacilante. ― Vamos, então? Está na hora de você se preparar para o baile. 22


O relógio no alto da torre do colégio soou indicando dez horas. Um murmúrio, quase inaudível, penetrava a porta do dormitório apagado. De algum jeito, eu enxergava os olhos de Greg bem abertos fixados em mim. Nós tínhamos a respiração presa e nem ousávamos nos mexer. Aquelas dez batidas no grande sino de bronze era o sinal para que eu começasse a agir. Levantei bem lentamente da cama e apanhei minha mochila abastecida, enquanto Greg acompanhava com o olhar todos os meus passos. Sem demora e tentando não fazer ruídos com a maçaneta, eu abri a porta e a luz do luar iluminou o quarto, revelando um Greg pálido e muito assustado: ― Até mais, amigo. A gente se vê em breve ― sussurrei. Ele tentou sorrir, mas seus músculos estavam congelados de pavor; então apenas acenou com a cabeça. Eu saí e fechei a porta, sem qualquer ruído. Comecei a me esgueirar pelo corredor, escondendo-me por detrás do pequeno muro que ladeava o caminho. Parei próximo à porta do quarto do Monitor e estiquei o pescoço, tentando captar qualquer ruído. Nada. Nenhum som vinha do quarto escuro. Levantei a cabeça e tentei procurar por ele. Avistei-o do outro lado do colégio, na ala Leste, brincando com sua lanterna. Como previsto, o Monitor estaria, esta noite, trabalhando sozinho na vigia das duas alas do prédio, devido à ordem de Agatha. A diretora ordenara que a Monitora valentona da ala feminina vigiasse os alunos durante o baile, para que não houvesse nenhum problema com “beijos e agarramentos”, como ela mesma dissera. Até agora, tudo estava correndo de acordo com o que planejei. Aproveitei a falha na vigia e segui silenciosamente até a escadaria, desci pelos degraus nas pontas dos pés e escondi-me atrás de uma pilastra. O ruído que eu conseguia ouvir desde o meu quarto aumentou e eu pude distinguir agora como a música do baile. Havia cerca de três horas que a festa começara. Eu e Greg, com a desculpa de uma forte dor de estômago, tínhamos retornado ao dormitório (depois de duas horas aturando a diretora e os alunos do Flerris dançando músicas chatas e deprimentes) e lá havíamos permanecido silenciosos até então. Meu coração batia descompassado. Olhei na direção da entrada do colégio em busca do homem que vigiava a saída. Demorei alguns segundos até encontrá-lo sentado num pequeno banco de madeira, segurando uma garrafa de café. Ele consultou seu relógio de pulso e em seguida levantou-se, apanhou seu cap e 23


caminhou na direção de uma salinha bem ao lado da portaria, provavelmente a Sala da Segurança. Era o momento que eu estava esperando. Eu só precisaria dar a volta pelos cantos do pátio e alcançar as portas de ferro do colégio, sem que o Monitor no alto do prédio me visse ou o guarda do novo turno chegasse. Era tudo ou nada. Comecei a correr o mais silenciosamente possível pelo corredor da esquerda, onde havia a Sala do Castigo e a Sala de Aula; eu precisava me afastar do salão onde acontecia o baile de qualquer jeito. Avistei a saída. Já me aproximava da Sala do Castigo quando a porta escancarou-se: ― Aonde você pensa que vai? Meu coração acelerou e um nó forte prendeu minha garganta. Ana saiu da claustrofóbica Sala do Castigo e encarou-me com um malévolo sorriso: ― Finalmente resolveu sair da toca, Arion ― ela debochou. ― Há mais de três horas que espero você aqui embaixo. Ana usava um vestido de seda vermelho-sangue, curto e desprovido de mangas, que deixava seus braços e a parte inferior das pernas nus. Os cabelos loiros estavam presos num penteado bonito e os olhos muito azuis estavam marcados por um lápis-deolho negro. Ela carregava uma pequena bolsa de festas preta. ― Como assim? Do que você está falando? ― tentei mentir. Tenho que admitir que não sou bom nisso. ― Pode parar o teatrinho. Eu escutei, no dia em que a professora Agatha anunciou o baile, que você iria fugir hoje. Devia ter mais cuidado quando fala coisas na sala de aula com o seu amiguinho esquisito. ― Ana, é melhor sair da minha frente ― eu me irritei, largando mão da precaução. ― Não tenho tempo para você hoje ― E realmente não tinha. O guarda voltaria a qualquer momento. ― Eu não vou deixar você fugir. Vai acabar com a fama do internato. Imagine só, amanhã, nas capas dos principais jornais do país, a notícia do seu desaparecimento do colégio, culpando a diretora Agatha por isso. Não seria nada bom para mim nem para ninguém. ― Não me importa o que vai acontecer com essa droga de lugar! ― enfureci-me ― Eu não vou ser impedido por você Ana. Saia da frente! Eu não quero machucar você. Saia já do meu caminho! ― Não! Se você tentar alguma coisa contra mim eu... Mas eu não pude esperar que Ana terminasse sua frase. Nesse instante, ouvi passos próximos a nós e então me joguei, 24


arrastando Ana comigo, para dentro da Sala de Castigos e bati a porta com força. Escuridão. Tapei a boca de Ana e ela começou a tentar se desvencilhar da minha mão. ― Quieta! ― eu sussurrava, tentando fazer com que ela parasse de se debater, mas ela sacudia seu corpo cada vez mais forte. Começamos uma briga silenciosa e dolorida. Ela deu impulso e me jogou para trás, fazendo com que eu batesse minhas costas na parede. Senti uma dor lancinante, meus ossos estalaram, mas eu ainda tinha domínio na briga. Ela chutava o ar e arrancava a carne da minha mão com as unhas. Mordia-me com força, empurrava-me contras as paredes, chutava, arranhava e nós cambaleávamos pelo minúsculo quarto. Ela era forte e não se rendia de forma alguma! Nossos pés se arrastavam fazendo eco no cômodo. De repente, um tremor. Não sei como ou quando começou, mas de uma hora para outra eu me vi sendo atirado no chão com um grande solavanco. Tudo tremia furiosamente. Percebi Ana cair a meu lado e soltar um grito abafado. As paredes sacudiram. Meu coração balançava dentro do peito dolorosamente. Com um grande estrondo, a porta foi atirada contra nós com uma grande explosão. Entrei em desespero. Do outro lado não havia colégio, luz ou música, apenas uma escuridão interminável. Ana gritou desesperada. Uma força invisível agarrou-nos e começou a nos puxar na direção da gigantesca sombra. Tentei segurar-me à sala, mas não havia a que me apegar. Prendi a respiração. No instante seguinte, eu e Ana mergulhávamos num negrume frio e sufocante, enquanto o grito da garota perdia-se no vazio.

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O CHAFARIZ CONGELADO Caímos em algo macio. Por um instante, eu não consegui levantar o rosto e fiquei apenas sentindo minha cabeça pulsar violentamente. Só voltei a mim quando ouvi a voz de Ana gritar aterrorizada: ― O que você fez, seu idiota?! Pisquei tentando fazer com que as coisas voltassem ao normal e minha visão parasse de iludir-me, mas isso não aconteceu. Pensei que talvez fosse consequência da forte pancada na cabeça e que tudo aquilo não passava de uma grande ilusão. Ana olhava para mim furiosa, como se eu fosse o responsável pelo acontecimento estranho. ― O que você fez? ― ela repetiu boquiaberta. Estávamos numa colina coberta de neve, cercados por um lado por uma densa floresta de pinheiros e pelo outro por uma escuridão que se estendia por quilômetros e quilômetros. Entre os dois estava uma gigantesca construção, uma espécie de portal, erguendo-se dez metros acima da neve, imponente; era feito de grandes blocos de pedra gasta e no seu corpo estavam entalhadas palavras que não faziam sentido algum, talvez estivessem em uma outra língua. ― O QUE VOCÊ FEZ, ARION? ― repetiu Ana, agora aos berros. ― Eu não fiz nada! ― Então como viemos parar aqui, hein? Leve-me de volta para o internato. A-GO-RA! ― Você está surda? Não fui eu quem trouxe a gente para cá! Não tenho a mínima ideia de onde a gente está! Eu avistei minha mochila de lona sob o portal de pedra. Caminhei até ela e observei a neve próxima ao arco. Analisei a cena pouco a pouco: 26


― Acho que viemos para cá por esse portal ― eu disse. ― Ah, claro. Viemos pelo vento, não? Se você não reparou, não tem nada do outro lado dessa droga, Arion. ― Venha aqui e cale a boca. Ana se aproximou de mim e eu mostrei as marcas na neve. ― Está vendo essas marcas? ― O que tem? ― Se você notar bem, vai perceber que só tem marca de um lado do portal, enquanto o outro está intocado por nós. ― E o que isso tem a ver? ― Parece que nós caímos de um lado do portal para o outro. É como se tivéssemos atravessado a porta da Sala do Castigo e caído aqui... ― eu falava, mas nem eu estava entendendo minha própria linha de raciocínio, ou, pelo menos, não queria entender. Não seria lógico... ― Você está dizendo que passamos de um lugar para o outro só atravessando esse portal? ― Bem, é o que parece ― vindo de Ana parecia ainda mais ridículo e improvável. ― Você é LOUCO! ― O quê? Mas... ― VOCÊ É LOUCO! ― Ana estava histérica. Ela me encarava com os olhos esbugalhados e o rosto em chamas ― Não tem como a gente atravessar de um lugar para outro só através de uma porta mágica, seu maluco. Isso não existe! É impossível. ― Eu também não acho possível, droga, mas não tem outra explicação! Se não for isso, o que é, hein? Vai, me diga o que está acontecendo, já que você é tão esperta! ― Eu direi. Eu―estou―sonhando ― ela pontuou cada palavra com um tapa louco contra o ar. ― É isso que está acontecendo. Vou acordar a qualquer momento. ― Sonhando? ― eu gargalhei, um tom insano saindo de minha garganta. Eu também não estava nada bem. ― Não tem nada de sonho nisso, Ana. Como você pode ser tão idiota? ― Não me chame de idiota! Quando tudo isso acabar, quando eu acordar, eu vou fazer com que expulsem você do internato PARA SEMPRE! ― Ótimo. Enquanto isso você pretende fazer o que? ― Vou esperar bem aqui ― Ana deu uma rápida olhada ao seu redor, localizou uma pequena rocha e sentou-se sobre ela. ― A qualquer minuto eu vou acordar desse pesadelo. 27


― Está bem. Pode ficar aí ― olhei ao meu redor. Eu precisava agir ou ficaria louco. A voz de Ana não me deixava pensar com clareza e o frio estava cortando-me como navalha. ― Eu vou procurar alguém que possa me dizer pelo menos onde estamos. ― Você vai me deixar aqui sozinha? ― Ana levantou- se com um salto da pedra e, por um instante, pareceu aterrorizada. ― Foi você quem disse que ia ficar aí. Eu é que não vou ficar aqui para ser comido por lobos ou sei lá mais o que. ― na verdade eu só queria andar e tentar colocar as ideias em ordem. ― E aonde você vai? Não tem nada aqui! ― Você disse lobos? ― Veja ― eu apontei para a grande imensidão negra que se estendia à minha frente. ― Há alguns quilômetros parece ter uma pequena cidade. Vê as luzes? Ana forçou os olhos e pareceu enxergar o pequeno conjunto de luzes que brilhava bem distante da posição atual em que nós nos encontrávamos. ― Mas está muito longe. Vai demorar horas para você chegar lá. ― Por isso quanto mais cedo eu sair daqui, mais cedo eu chegarei lá. Coloquei minha mochila nos ombros, dei as costas para Ana e comecei a caminhar. ― Boa sorte com os lobos! ― eu gritei, já descendo a colina. Nesse instante um grande uivo ecoou pela floresta atrás de Ana. Ela instantaneamente apanhou sua bolsinha e correu ao meu encontro, aos tropeços. Eu consultava meu relógio de pulso a cada passo. O luar estava embaçado por nuvens espessas de tempestade. Eu não parava de pensar na situação em que me encontrava: perdido nãosei-onde, sabe-se lá como, com Ana como minha única companhia. Eu não poderia estar em situação pior. E tenho que admitir que também achava tudo aquilo loucura demais. Eu estaria sonhando? Talvez ainda fosse dia vinte nove e eu poderia ainda estar dormindo no quarto “8”... Eu me belisquei só por precaução e o resultado foi um doloroso roxo no braço esquerdo. Infelizmente, não era um sonho. Já se passara quatro horas desde que havíamos chegado naquele lugar e começáramos a caminhar pela neve. Meus pés 28


estavam gelados e os dedos de minhas mãos, dormentes. Eu emprestei uma das minhas blusas para Ana, que estava azul de frio, e meu segundo par de sapatos. Ela não agradeceu, mas apanhou com rapidez minha jaqueta forrada de algodão – que a cobriu até os joelhos. Finalmente nós avistamos a entrada da cidade. Um grande portão de madeira e ferro guardava a passagem para o interior calmo e acolhedor da cidadela, cercada por um grande muro de pedra. Uma floresta densa rodeava grande parte da cidade: ― Vamos lá ― eu disse a Ana. Nós seguimos para a entrada um pouco mais animados, esperando, mais do que desesperados, encontrar qualquer lugar quente onde pudéssemos nos abrigar. Arrastávamos a neve com nossos pés e fazíamos um barulho ecoante no silêncio mórbido do lugar. Antes que pudéssemos entrar eu percebi ao longe, erguendose sobre uma grande montanha, um gigantesco castelo com janelas iluminadas, cercado por um muro de pedras brancas, altíssimo. Foi só o que consegui distinguir daquela distância e diante daquela escuridão. ― Um castelo? ― eu pensei curioso. ― Ei, o que está esperando?― Ana chamou-me. Ela se adiantara e já atravessava a entrada. Tudo parecia morto dentro da cidade. Nós passamos pelos grandes portões que selavam a muralha com uma estranha facilidade. Não havia ninguém nos postos de vigia, nem sinal de guardas do outro lado do muro. A cidade parecia deserta. Não era possível ouvir som algum vindo das casas feitas de pedra e madeira. Era um lugar rústico e medieval. Eu havia visto aquilo apenas em livros sobre a Távola Redonda. Nós seguimos por uma rua de pedra que se estendia infinitamente até uma pequena praça longínqua. A rua era ladeada por casas com os telhados cobertos de neve e ruas paralelas que levavam ao restante da cidade. O som dos nossos passos batia contra as paredes de pedras e voltava três vezes maior e mais assustador. Caminhamos sem ousar bater em nenhuma daquelas portas, com medo de perturbar qualquer um que vivesse naquele silêncio desesperador. Era uma noite fria como nenhuma outra. O vento gelado cortava minhas orelhas desprotegidas e bagunçava meu cabelo constantemente. Resolvemos atravessar a cidade até que pudéssemos alcançar a pequena praça mais à frente e lá decidiríamos o que fazer afinal. 29


Depois de um tempo, chegamos ao centro da cidade, ou algo que parecia ser. As casas medievais cercavam-nos por todos os lados agora e o vento diminuiu significativamente. No centro da praça havia um grande chafariz congelado, brilhante como cristal, que refletia em sua água paralisada as luzes alaranjadas dos lampiões ao nosso redor, lançando graciosos raios de luz por todo o lugarejo. ― Lindo! ― Ana comentou baixinho. Eu também me encantei pelo chafariz. Ele tinha certo encanto ou certo atrativo que eu não conseguia explicar. Eu sentia vontade de admirá-lo por toda a eternidade se assim me fosse permitido... Mas minha felicidade sempre dura pouco. Passos ecoaram por toda a praça. O barulho das pisadas nas pedras se tornava cada vez mais alto à medida que seu dono aproximava-se de nós com toda a agilidade possível. ― Venha! ― eu disse, puxando Ana para trás de uma das casas, onde nos escondemos. ― O que você está fazendo? ― disse Ana furiosa. ― Pode ser alguém para nos ajudar! ― Ou não ― respondi. ― Ana, estamos num lugar desconhecido! Não podemos pedir ajuda para o primeiro estranho que aparece. ― Mas então fazemos o que? ― Nós... ― eu parei de falar no instante que um vulto surgiu de uma das ruas paralelas à fonte. Puxei Ana para trás de mim e me pus a espionar o estranho. Usei “o” por que era um homem. O estranho era alto e corpulento. Tinha cabelos desgrenhados que caíam sobre os ombros cobertos por uma capa negra. Sua barba estava por fazer e sua expressão indicava que não pretendia ser visto por ninguém. Ele parou diante do chafariz e, por um instante, permaneceu imóvel, olhando para os lados, de modo que parecia estar se certificando de que se encontrava realmente sozinho. ― O que ele está fazendo? ― perguntou Ana emburrada, tentando enxergar o homem por trás de mim. ― Eu não sei. Fique quieta! Assustei-me quando o homem começou a falar sozinho, com o olhar direcionado para a fonte. Ele falava algo estranho, como uma sutil melodia em outra língua, mantendo o olhar vidrado no interior do chafariz. Repentinamente, um barulho ecoou por todos os lados. Uma rajada de vento poderosa saiu do homem e passou por mim e por Ana sacudindo nossos cabelos e roupas. Um “crac” grave saiu 30


do chafariz e todo o gelo começou a trincar a sua volta. O homem afastou-se alguns passos para trás e o gelo explodiu em vários pedaços, revelando uma fonte prateada de água cristalina e borbulhante. Era capaz de encantar os olhos de qualquer um! O chafariz tornara-se mais belo do que antes. ― Olha! ― a voz de Ana às minhas costas. O estranho fez um novo movimento e algo muito estranho veio a seguir. O homem sorriu ao deparar-se com a fonte descongelada e caminhou em sua direção. Ele parou, ainda sorrindo, em frente ao chafariz e, em seguida, bem diante dos meus olhos, despareceu lenta e misteriosamente para debaixo dele. Emudeci. ― Para onde ele foi? ― Ana perguntou-me surpresa. ― Não tenho ideia ― falei boquiaberto. O vento voltou a soprar normalmente em nossos rostos, no entanto, a fonte não voltou ao seu estado petrificado. O chafariz continuou jorrando calmamente sua água cristalina, enquanto meu cérebro tentava solucionar de maneira lógica o que havia acontecido. ― Vamos dar o fora, Arion! Você viu que loucura? Como aquele homem conseguiu fazer aquilo com o chafariz? ― Eu não sei Ana, não sei mesmo. ― Prefiro não saber, também. Isso é coisa de maluco e já já eu vou acordar e tudo isso vai ter passado. Nunca mais eu comerei uma caixa de bombons antes de dormir. ― Você ainda acha que está sonhando? ― É claro que estou, seu idiota. De que outra maneira aquilo poderia acontecer? ― Quer saber? Fique aqui. ― O que? Não mesmo! Aonde você vai? ― Quieta! ― eu disse, enquanto caminhava na direção do chafariz. ― Eu só quero saber como aquele homem conseguiu desaparecer. Fique aí escondida! ― Volte aqui! ― Ana desesperou-se. Mas já era tarde, pois eu já alcançara metade do caminho até a fonte. Nada me impediria de saciar minha curiosidade. Tenho que admitir que esse é um dos meus maiores defeitos. Alcançada a fonte, eu pude admirar um pouco melhor os seus contornos. Havia, novamente, escritos que eu não fazia ideia do que poderiam ser e desenhos que representavam uma história que eu também não pude entender. Sua água era cristalina como 31


nenhuma outra e o barulho que emitia parecia uma doce canção de ninar. Eu rodeei a fonte e descobri, surpreso, o segredo do estranho. A fonte continha uma entrada, onde havia uma escadaria que descia rumo à escuridão. Um frio percorreu meu estômago ao encará-la. Aonde levaria a escada? Por que o estranho estava com tanto medo de ser visto? E como ele conseguiu abrir a passagem? Essas perguntas giravam em minha cabeça com mais velocidade do que eu podia suportar. Não mais que de repente eu ouvi novos passos, porém muito mais próximos e muito mais rápidos do que os anteriores. Eu pensei em voltar para o meu esconderijo junto de Ana, mas eu não sabia a direção de que vinham os passos e com isso eu poderia estar indo direto para a boca do lobo. O que eu faria? Ana olhou-me distante, desesperada. Senti o coração acelerar descompassado. Não havia outra opção, eu teria que me arriscar. Eu só pensava que Ana teria que se virar sozinha por um tempo... Eu torci para que ela ficasse bem. Cerrei os punhos e os dentes, juntei toda a minha coragem e mergulhei, sem olhar para trás, na grande escadaria, rumo à escuridão do chafariz

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O CÍRCULO Senti-me como um cadáver por alguns segundos. O vento frio cessou instantaneamente, o luar embaçado por nuvens sumiu e logo as luzes das lamparinas também desapareceram. Eu mergulhei numa escuridão sem igual, ouvindo minha respiração ofegante e as batidas graves do meu coração. Segui tateando as paredes, esforçando-me ao máximo para enxergar os degraus e cuidando para não escorregar nos blocos de neve que derretiam sobre as pedras. Após longos e incansáveis minutos de descida, tornaram-se visíveis o fim da escada e o começo de um túnel iluminado. Comecei a enxergar as paredes de pedras pontudas que incorporavam o túnel e a dimensão de cada degrau. Um gigantesco estrondo ecoou às minhas costas. Virei assustado e notei que a passagem no alto da escadaria havia sido fechada e novos passos começavam a ser marcados por ruídos altos a alguns metros acima de mim. Meu coração acelerou ainda mais. Veloz, adiantei-me para o túnel e segui para a claridade. Por um instante, minha visão saiu de foco ao encarar a luz e, talvez por isso, tenha demorado tanto tempo para notar onde estava. Ao contrário do extenso e vasto túnel que havia imaginado, eu me vi em uma grande encruzilhada que levava a vários túneis diferentes, para lados completamente distintos. Eu havia me metido num grande labirinto. Visto que eu não poderia voltar, comecei a pensar em qual seria minha melhor opção: ser pego por um estranho, que poderia me torturar, matar-me ou fazer qualquer outra coisa sangrenta e dolorosa comigo, ou seguir por um dos caminhos e acabar perdido na escuridão e morrer, no fim, de fome e sede em poucos dias. As opções não eram lá muito boas... Foi nesse momento que ouvi alguns ruídos. Tentei apurar meus ouvidos para conseguir distinguir o som e de onde ele vinha. 33


Notei que eram vozes. Vozes vindas de um túnel em especial – se eu estivesse certo. Era a única chance de salvar-me e abracei-a com força. Girei nos calcanhares e segui na direção de onde as vozes supostamente estariam vindo. Rezei para que eu estivesse certo. Atravessei o corredor com o coração em mãos. Iluminado por velas, o local tinha um ar sombrio e ameaçador. Lembrava-me gigantescos túneis construídos em minas. Não havia vento, mas os pêlos de minha nuca se eriçaram. Uma porta semi-aberta surgiu à minha frente, iluminada por uma luz azul mortiça. As vozes vinham, com certeza, daquele lugar, pois o barulho confuso aumentara significativamente agora que eu havia me aproximado. Caminhei em direção à porta com o intuito de entender o assunto comentado pelas vozes, mas, antes que pudesse distinguir uma só palavra, uma mão sobrepôs-se em meu ombro. ― Ei, o que está fazendo aqui? Assustado, eu me virei e encarei o dono da mão: um homem alto, magrelo, de rosto fino e ossudo; os olhos castanhos bem escuros e o nariz comprido estavam camuflados pelos cabelos, que desciam lisos e negros até o ombro, bem atrapalhados. Trajava, também, uma capa negra. Não tinha mais que dezoito anos. ― Foi você quem abriu a passagem? ― o jovem estranho perguntou-me. Eu simplesmente balbuciei algo incompreensível, tentando com todas as minhas forças não desabar sobre meus pés. ― Caça-lobos não me disse que mais uma pessoa entraria pela passagem do Chafariz Congelado. Pensei que todos os outros entrariam pelo Lago Esverfii e pelo Bar-budo. Bem, ele deve ter se esquecido ― e deu de ombros. ― Vamos entrar então? Já estamos atrasados. Ele agarrou meu braço e escancarou a porta. Nós adentramos para a sala mal-iluminada e o silêncio se fez quando atravessamos o portal. Estávamos numa sala oval, enorme, iluminada por velas de chama azul, colocadas em castiçais nas paredes cobertas por teias de aranha. À nossa volta, as paredes eram pontudas e úmidas, adornadas com lanças, espadas, escudos e bandeiras com brasões estranhos. Um deles chamou minha atenção ― duas semi34


circunferências com as extremidades entrelaçadas2 ― pois se espalhava em maior número pelo lugar sombrio. Havia várias pessoas sentadas em pequenas cadeiras de madeira em volta de um casal que situava-se bem no centro da sala. Eram cerca de vinte a trinta pessoas, de tipos e tamanhos variados, de ambos os sexos; a única semelhança que percebi entre eles era que todos ― digo todos mesmo ― carregavam armas, sendo elas machados, arcos, cajados, lanças e, o mais comum, espadas. Trajavam capas escuras e sobretudos. Notei também que a maioria das pessoas parecia incomodada com alguma coisa, inquietos em seus assentos, como se algo terrível estivesse prestes a entrar pela porta atrás de nós, a qualquer instante. Surpreendi-me quando vi que o homem no centro da sala iluminada era o mesmo que abrira a passagem do Chafariz. Pude notar, agora mais próximo e diante da luz azulada das chamas, uma grande cicatriz no lado direito de seu rosto, que começava na parte superior da sobrancelha e terminava bem perto de seu lábio inferior, deformando-o de forma assustadora. ― O pequeno alquimista vem nos glorificar com sua presença ilustre ― disse o homem da cicatriz para o rapaz ao meu lado, numa voz grave e suave. ― Ilustre, porém atrasada. ― Sabe como é, Caça-lobos, eu vivo me perdendo nesses túneis. Demorei um bom tempo para descobrir qual era o certo. ― o rapaz disse displicente. Enquanto os dois homens conversavam, eu deslizei lentamente alguns centímetros para o lado e larguei-me numa cadeira vazia, tentando sair, o mais rápido possível, do campo de visão de Caça-lobos ― o homem da horrenda cicatriz ― e do rapaz que me acompanhava. ― Da próxima vez lhe comprarei um mapa, Dion. ― Na verdade, seria de extrema utilidade ― o garoto encerrou a conversa com um sorriso e Caça-lobos deu-lhe as costas, voltando-se para o centro iluminado da sala. Dion ― o rapaz ― localizou-me dois segundos depois e, mais rápido do que eu gostaria, sentou-se ao meu lado com um sorriso esticado nos lábios, enquanto minhas pernas tremiam furiosamente de pânico. ― Com a palavra, Tumilínea ― anunciou Caça-lobos, chamando minha atenção. Eu já estava começando a achar que meu nome não era tão estranho. 2

Para mais detalhes verifique a imagem 2.4 da página 8.

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― Muito bem, então ― disse a mulher ao lado de Caçalobos. ― Todos já sabem por que estamos aqui, certo? Olhei para a mulher que falava com voz firme, e, por um instante, fiquei sem ar. Ela tinha belos olhos castanhos e cabelos encaracolados que caíam como serpentes nos ombros bem malhados; seus seios eram fartos e a boca, vermelha como sangue. Era uma mulher deslumbrante; estava na faixa dos vinte e cinco anos. Às suas costas estavam pendurados um arco e uma aljava de madeira escura e, entre os dedos, girava uma faca de prata reluzente. Ela encarava a todos com certa ansiedade. ― Em primeiro lugar, quero agradecer por vocês terem atendido ao nosso chamado urgente. Sei que estão correndo grande perigo por não estarem no banquete do rei, mas, como vocês já sabem, o assunto não pode esperar. Eu realmente agradeço por estarem aqui. Vocês são, sem dúvida alguma, as pessoas mais corajosas de Mustor. Meu coração bateu acelerado. Rei? ― Para aqueles que ainda não sabem, vou dizer o motivo da nossa reunião às escuras: o nosso rei pretende destruir a Trindade. Senti uma forte pontada no estômago e as entranhas revirarem, sem nem ao menos saber o porquê. Houve um murmurinho nervoso entre as pessoas, mas cessou quando Tumilínea voltou a falar: ― Sim, é isso que vocês ouviram: o rei Skan pretende confrontar os reinos de Galagar e Verique. O poder subiu à sua cabeça e é nossa obrigação como Mustorianos e descendentes de Havalis não permitir que uma guerra insana como esta aconteça. Houve mais uma pausa dramática e mais murmúrio entre as pessoas. ― Todos aqui sabem que o povo de Havalis é pacífico e que nunca quisemos entrar em qualquer tipo de guerra que envolvesse derramamento de sangue e morte desnecessários. Mas ao que me parece, Skan não pensa da mesma forma. Ele pretende tomar os dois reinos custe o que custar e está fazendo de tudo para que os Mustorianos se juntem a ele. Não podemos deixar! Essa guerra não tem sentido algum! O povo de Havalis, não só os Mustorianos, não pode cegar-se diante do caos que está por vir! Seremos todos dizimados se não impedirmos essa guerra! ― ela fez uma pausa e encarou a todos com olhar súplice e encorajador ― E foi por esse motivo que nós criamos o Círculo, para combater o rei Skan. ― Exatamente! – voltou a dizer Caça-lobos. 36


Mil perguntas giravam turbulentas em minha mente e meu coração estava a ponto de saltar do peito. Em que situação eu me metera... ― Não podemos perder mais tempo, companheiros ― Caça-lobos gritava em meio à multidão ―, Skan está se movendo, já está se preparando! Ele criou um grupo de servos intitulado Caçadores e nós não temos ideia dos poderes que esses homens têm ou que tipo de guerreiro eles são; por isso, precisamos agir depressa. ― Mas como vamos fazer para lutar contra esses tais Caçadores? Nós nem sabemos quais são os seus poderes ou as suas armas! O homem que se manifestou ergueu-se da cadeira e encarou Caça-lobos. O que pude ver dele era que tinha cabelos raleados e loiros e um corpo raquítico. Sua pele era pálida e opaca e os olhos azul-acinzentados, como o céu em manhãs de inverno. Lembrava-me alguém muito doente. ― Nós não vamos lutar contra ninguém, Tupins. Não por enquanto. ― disse Tumilínea calmamente. ― Não?! Houve um novo murmurinho. ― Não. Nossa missão, meus caros amigos, é alertar o máximo de cidades possível e, acima de tudo, os outros dois reinos sobre os planos de Skan. Nós nos espalharemos por todos os três reinos, alertaremos sobre a traição de Skan, buscaremos aliados e, aí sim, vamos lutar contra o exército de Caçadores... Seja lá o que eles sejam ― acrescentou baixinho. ― Mas temos pessoas suficientes para fazer isso? ― perguntou um homem robusto, de barba e cabelos loiros, do lado oposto da sala. ― Nos dividiremos em duplas, Tevor, cada qual percorrendo um trajeto diferente ― respondeu Caça-lobos. ― Mas não é perigoso nos separarmos? ― Por isso, duplas. Assim, ninguém estará sozinho e poderemos percorrer uma extensão maior em menos tempo. ― É só isso? ― perguntou um homem cujo rosto eu não pude ver. ― Só precisamos avisar as pessoas? ― Sim ― respondeu Caça-lobos entre os dentes. ― Mas não se enganem, a missão não é tão fácil quanto parece. ― ele encarou cada um dos presentes com um olhar preocupado. ― Assim que Skan souber o que estamos planejando, ele nos caçará como um lobo atrás de cordeiros; e eu garanto: não será fácil escapar dele. Dizem que o nosso rei tem poderes que nem passam 37


por nossas cabeças! Peço a todos que tenham muito cuidado. Uma vez que estejam dentro do Círculo, não haverá saída. Todos se entreolharam, silenciosos. ― Mas tenham fé, meus amigos ― apressou-se em dizer Tumilínea. ― Iremos vencer aquele carrasco e retomaremos o nosso reino! Juntos, venceremos Skan! ― e, dizendo isso, ergueu sua pequena faca de prata para o alto. Houve um grande urro coletivo e todos se ergueram das cadeiras e acompanharam o gesto da mulher com as mãos e suas armas. ― Vamos nos revoltar contra o rei?! ― perguntei, quando finalmente me dei conta da situação e tive voz para falar. ― Mas é claro! Por que acha que estamos nessa?! Iremos vencer aquele tirano! ― respondeu Dion empolgado. ― Mas ele é... O rei. ― eu disse, não conseguindo esconder o tom de súplica. ― Mas é um louco! Skan está tentando dominar todo o mundo e você quer que fiquemos parados? Seria uma covardia! ― o garoto parecia ofendido. ― Eu sei... Mas... ― percebi então que nada abalaria Dion e, tendo me dado conta disso, desisti de argumentar. ― Você está certo... ― Sim, estou. Vamos lá, não tenha medo. ― apressou-se em dizer. ― Sei que vamos correr riscos nessa missão, mas é um risco que vale a pena! Caramba, quantas vezes se pode lutar por alguma coisa que vale realmente o esforço?! Talvez até morrer por isso... Eu realmente desejei que Dion tivesse omitido a última frase. ― Bem, ― a voz de Caça-lobos sobrepôs-se às outras, levando minha atenção até ele ― agora que já explicamos tudo e alertamos a todos, não vejo razão para continuarmos aqui. Preparem seus grupos, amigos, partiremos daqui a pouco. Fiquei sem ar por alguns segundos, enquanto novos gritos explodiam por toda a sala. O que eu farei agora?

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TUDO EXPLODE EM CHAMAS Eu era um garoto perdido no meio de uma guerra. Meu coração acelerou de tal modo que eu não conseguia contar suas batidas. Minhas pernas bambearam e tudo pareceu girar à minha volta. Novos urros coletivos encheram a sala. O que eu farei agora? As pessoas começavam a montar seus grupos e a se preparar para a perigosa jornada. Em instantes, todos partiriam para uma missão suicida e eu seria arrastado junto com eles. Nunca me arrependi tanto de ser curioso. Se não fosse pela minha curiosidade eu estaria lá em cima, talvez dentro de uma casa, protegido, na companhia de Ana... Ana! Rapidamente a imagem da garota, sozinha no meio da escuridão, veio à minha mente. Como ela estaria se virando sem mim lá em cima? Teria voltado para o portal ou teria procurado ajuda numa das casas? Eu detestava Ana, mas não podia deixar de me preocupar com ela. Afinal, em grande parte eu era responsável por estarmos ali, mesmo não sabendo como. ― Você vai comigo então, estranho? ― disse Dion, trazendo-me de volta à realidade. Eu balancei a cabeça simplesmente. Eu não tinha muitas opções. ― Se vamos juntos eu preciso, pelo menos, saber o seu nome. ― Arion ― eu disse, já esperando ser caçoado. ― Arion? Nome legal. Eu me surpreendi. ― Acho que faremos uma boa dupla, Arion. Sorri, mas em nenhum momento concordei com o que ele me disse. Eu pensava apenas numa maneira rápida de ir embora daquele lugar e, uma vez lá em cima, daria um jeito de desvencilhar39


me de Dion, da maneira mais veloz que eu pudesse. Nós trocamos olhares nervosos e eu observei, com um frio na barriga, que as duplas já estavam quase todas prontas. Logo estaríamos partindo. Mais alguns minutos se passaram até que finalmente todas as pessoas tivessem se organizado. Várias duplas se espalhavam pela sala oval afiando as armas e conversando entre si. ― Acho que todos estão prontos, não é mesmo? ― perguntou Caça-lobos às pessoas ao seu redor, observando os rostos pálidos à sua volta ― Então peço que os grupos se separem em três pequenas comunidades. Vamos distribuir as missões de uma vez. Houve uma rápida algazarra e todos se dispuseram em três grandes grupos de duplas. Eu e Dion ficamos no grupo da esquerda. ― As missões serão divididas da seguinte maneira: o grupo da direita ficará responsável pelo reino de Havalis, o nosso reino, e terá como objetivo espalhar a notícia da traição do rei por todas as cidades ― o grupo todo sacudiu a cabeça afirmativamente, demonstrando ter entendido sua missão. ― O grupo do meio, ― continuou Caça-lobos ― irá para o reino de Verique, depois de Ron-Vazz, para a cidade de Brierd, e levará a notícia para o reinado sobre os planos do nosso rei ― as duplas do centro fizeram o mesmo movimento de afirmação. ― E o último grupo, o da esquerda, viajará para as terras do norte, o reino de Galagar, onde alcançará a cidade de Comoska e avisará o rei Konn sobre a invasão que está prestes a acontecer. É muito importante que esse grupo não falhe. Todos ao meu lado fizeram que “sim” e eu tive vontade de fugir da sala. ― Então é isso. ― disse Tumilínea. ― Vamos começar a sair. O grupo da direita primeiro. Todos sairão pelo Chafariz, o.k.? Vamos acabar com aquele maldito Skan de uma vez! O grupo do lado direito se moveu. Um frio perpassou por minha barriga e fez com que eu me contorcesse. Estava acontecendo mesmo! Em poucos minutos seria a vez do meu grupo partir para sabe-se lá onde e eu não tinha escapatória. Eu só pensava que Ana teria que estar pronta para fugir assim que eu emergisse do Chafariz, ou seria o nosso fim. Na primeira distração de Dion, eu fugiria para bem longe de toda aquela loucura e que ficassem eles com seus problemas com o rei! Eu já tinha os meus problemas e não precisava de ajuda para me ferrar ainda mais. 40


O grupo do centro começou a sair bem atrás do primeiro. Estavam todos bem ágeis e quase ninguém conversava. Era uma marcha silenciosa e preocupada. O fantasma da Morte parecia caminhar aos seus lados, tornando o clima tenso e sombrio no salão. Não tardou e a vez do nosso grupo chegou. Restavam apenas eu, Dion, Tumilínea, Caça-lobos e três outras duplas que caminhavam para a saída, sem pressa. No entanto, quando me preparava para sair, Caça-lobos chamou por Dion e veio em nossa direção: ― Dion, está certo de que quer fazer isso? Sabe que seus pais não aprovariam, não é? Sou amigo deles há anos e não quero que eles fiquem ressentidos comigo por causa das suas maluquices. ― Fique tranquilo, Caça-lobos, eles não vão se importar com isso. Afinal, estou lutando pelo reino, não é? ― Mas você tem apenas dezenove Eras. É um moleque. Essa missão é perigosa demais para alguém como você. ― Eu sei, não se preocupe. Sei me cuidar muito bem e você sabe disso. Luto desde pirralho. Nesse instante, Caça-lobos encarou-me. Seus olhos eram brilhantes e pareciam carregar milhares de anos de experiência em batalhas: ― E você? É algum amigo maluco que Dion arrastou para cá à força? Ele sorriu. Eu congelei. ― Esse é Arion. Está um pouco assustado com tudo ― Dion comentou sorrindo. ― Também não é para menos, deve ter o que, quinze Eras? ― Quinze o quê? Mas antes que Dion conseguisse responder, uma grande explosão atirou a porta do salão para longe, lançando uma densa fumaça para dentro do cômodo vazio: ― Mas que droga é essa?! ― gritou Dion em meio à fumaça. Um gigantesco estrondo aconteceu no cômodo e a terra sob nossos pés estremeceu. Simultaneamente, chamas negras irromperam da terra tomando conta do lugar apertado e mais fumaça invadiu o salão nos sufocando. ― Mas que diabos é isso... Uma figura negra começou a tomar forma à partir das chamas, misturando-se ao fogo e à fumaça, bem no centro do salão. Aos poucos, a forma grotesca se endireitou e tornou-se sólida 41


como as paredes da sala. Meu coração parou no instante em que a criatura definiu sua forma diante de nós. À nossa frente, havia um grande cavaleiro negro, montado sobre um cavalo também negro e de olhos vermelho-sangue. O homem, se assim posso chamá-lo, estava coberto por uma capa preta que se estendia por todo o corpo esquelético e o rosto fantasmagórico. Sua pele em sua maior parte era branco-giz e transparente em certos pontos, onde era possível ver sangue negro fluir por suas artérias e veias. A boca costurada com linhas pretas e os olhos escuros e sem íris eram suas características mais assustadoras. Eu fiquei paralisado ao ver a figura. Não só eu, mas todos na sala. O monstro fez um movimento com as mãos e uma luz negra iluminou seus dedos. As chamas à sua volta chicoteavam para todos os lados, incendiando o grande salão em várias partes. O calor e a fumaça dificultavam, e muito, a respiração lá dentro. Quase todas as duplas da minha fila haviam saído do Chafariz e restavam apenas dois grupos, num canto da sala, além do nosso e do de Caça-lobos. As duplas que restavam entraram em pânico e sacaram suas armas, partindo para cima do monstro. Caçalobos gritou para que parassem. Três dos guerreiros driblaram o mostro com rapidez e atravessaram a abertura da sala, fugindo em disparada pela saída sem nem ao menos olhar para trás; mas um deles, um homem de feições grossas, foi impedido pelo cavaleiro. O homem o encarou aterrorizado. Suas mãos tremiam ao segurar a espada de lâmina torta. O monstro desceu lentamente sua mão brilhante na direção do guerreiro e, então, houve uma explosão. Uma luz roxa tomou conta do corpo do guerreiro do Círculo e o indefeso homem desabou no chão da sala, com os olhos completamente petrificados e a cabeça inteiramente fora do eixo. Estava morto. Ficamos sem reação. Caça-lobos foi o primeiro a voltar a si e tomar partido contra o monstro. Ele sacou uma espada lustrosa de debaixo da capa e investiu contra o cavaleiro. Tumilínea puxou seu arco e começou a disparar na direção do inimigo. O cavaleiro fez mais um gesto com a mão e, em seguida, um grande trovão negro voou na direção do casal. Caça-lobos atirou-se no chão, girou e contra-atacou com sua espada, com ferocidade. Ao meu lado, Dion sacou duas espadas de lâminas curvadas que estavam presas em suas pernas e também investiu 42


contra o monstro. As flechas de Tumilínea choviam sobre o inimigo. Apenas eu observava a batalha parado. Eu não podia e nem conseguia me mexer. Eu nunca vi algo parecido na vida! Eu estava desarmado. Estava completamente aterrorizado. Uma nova explosão ocorreu e os três guerreiros foram atirados ao chão. Labaredas negras saíam da mão do cavaleiro e se espalhavam por toda a sala. O fogo estava tomando conta do lugar. Cada vez era mais difícil respirar. Eu tossia muito e minha vista tornava-se escura rapidamente. Outro estrondo e mais uma explosão. Caça-lobos se reergueu e investiu contra o monstro, porém, o cavaleiro movimentou-se mais rápido e atirou a espada dele para o outro canto da sala. Tumilínea e Dion foram ao regaste de Caça-lobos, no entanto, com apenas um movimento, o cavaleiro fez com que os dois fossem atirados contra a parede com um grande estrondo. Ambos caíram desacordados. O monstro voltou sua atenção para Caça-lobos e depois disso, tudo aconteceu muito depressa. Num instante, eu estava parado ao lado da espada de Caçalobos e no outro eu me vi correndo na direção do cavaleiro. O monstro já preparava seu ataque final contra Caça-lobos quando eu me atirei contra ele, com a espada em mãos. Eu gritei. Ele se virou. Senti a lâmina perfurar o peito do cavaleiro de uma só vez e um líquido gelado escorrer por minhas mãos. No instante seguinte, o monstro explodiu em fumaça negra e um estrondo ecoou pela sala. Do outro lado, um Caça-lobos estupefato olhava para mim sem reação, enquanto eu tentava entender o que eu acabara de fazer. Fiquei paralisado por um longo tempo depois da explosão do monstro. Minha mão tremia e segurava com desnecessária força a espada, agora coberta por um sangue negro e espesso. Lentamente, Caça-lobos se levantou e tomou a espada de minhas mãos suadas. ― Obrigado, garoto. Fico lhe devendo essa. Nesse instante, gritos pavorosos foram ouvidos, vindos do interior dos túneis às nossas costas. ― Eles estão precisando de ajuda. Caça-lobos correu até Tumilínea e Dion e os reanimou. ― Tem alguma acontecendo lá em cima. Precisamos ir depressa! Tumilínea levantou-se com calma e pareceu voltar ao normal. Assim que compreendeu o que Caça-lobos estava dizendo partiu em direção à saída, com o arco em mãos. 43


Dion demorou mais alguns instantes para voltar ao normal. As chamas cresciam ao nosso redor e precisávamos sair dali com rapidez, antes que nos tornássemos churrasquinhos bem passados. ― Você está bem? ― eu perguntei. ― Estou, estou. Só parece que levei um grande coice ― ele disse esfregando a cabeça. ― Não temos tempo a perder. Vamos, agora! ― chamounos Caça-lobos. Nós saímos em disparada pelo corredor, o qual também estava se incendiando. Dion passou-me uma de suas espadas curvadas e eu agradeci com um aceno, mesmo não tendo muita certeza se estava pronto para matar mais uma daquelas coisas. Meu único pensamento era fugir para o mais longe que conseguisse de toda aquela confusão. Eu não queria mais lutar. Irrompemos pelo Chafariz em meio ao caos. Uma verdadeira guerra acontecia na pequena praça da fonte congelada. Eu demorei um pouco a distinguir os dois lados da batalha, mas depois de alguns instantes, percebi que vários homens vestindo capas roxas lutavam contra os membros do Círculo de maneira impiedosa. Corpos jaziam ao chão, ensanguentados; casas estavam sendo incendiadas e o tilintar das espadas ressoava por todas as partes. Dion e Caça-lobos dispararam para ajudar seus companheiros e eu fiquei por um tempo incontável paralisado em meio à batalha. Não fazia sentido eu estar ali! Aquela guerra não era minha! Eu não sabia o que fazer, eu não sabia como agir, tudo acontecia de uma forma tão veloz ao meu redor que eu não conseguia raciocinar com clareza. Foi quando ouvi meu nome em meio à multidão. Girei nos calcanhares e procurei pela pessoa responsável pela voz. ― Arion! Eu não sabia de onde o som vinha. ― Arion! Socorro! Rodopiei em busca da voz e encontrei Ana em meio à batalha, cercada por dois homens de roxo. Ela gritava desesperadamente e olhava para mim em pânico, enquanto duas lâminas eram apontadas para sua garganta desprotegida. Entrei em ação. Segurei firme o punho da espada e corri ao encontro da garota. Os braços de Ana foram agarrados pelo homem da direita e eu apressei meus passos ainda mais em sua direção. 44


furiosa.

― Me soltem, seus brutamontes! Me soltem! ― ela gritava

Saltei vários corpos espalhados pelo chão, tentando me focar na voz de Ana. Eu já estava perto. Poucos metros separavamme de Ana. ― Arion, cuidado! ― ela gritou. Foi quando senti uma forte pancada na cabeça e tudo escureceu.

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A lenda de Arion - O Círculo L. S. Bertolino  

5 primeiros capítulos

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