Page 99

desculpas –, mas até aí, veja só, nunca tinha praticado. Não se pode esperar realmente que a pessoa reze muito bem na primeira tentativa, não é? Inventei uma prece magnífica depois de ir para cama, exatamente como prometi que faria. Era quase tão comprida quanto a de um pastor, e tão poética. Mas, dá para acreditar? Não consegui lembrar nem uma palavra quando acordei esta manhã. E receio que nunca mais conseguirei inventar outra tão boa. Não sei por quê, mas as coisas nunca são tão boas quando as inventamos uma segunda vez. Já reparou nisso? – Quero que você repare numa coisa, Anne. Quando digo a você para fazer algo, quero que me obedeça imediatamente, e não que fique aí parada discursando a respeito dela. Vá e faça o que mandei. Anne partiu prontamente em direção à sala de estar, passando o vestíbulo, e não voltou. Depois de esperar dez minutos, Marilla largou o tricô e, com uma carranca daquelas, foi atrás da menina. Encontrou Anne imóvel diante de um quadro pendurado entre duas janelas, com as mãos unidas atrás das costas, o rosto erguido e os olhos perdidos em devaneio. A luz verde e branca, filtrada pelas macieiras e pelo emaranhado de vinhas lá fora, pousava sobre a figurinha extasiada com um esplendor quase sobrenatural. – Anne, no que está pensando? – perguntou Marilla bruscamente. Anne voltou à terra com um sobressalto. – Nisto – ela disse, apontando o quadro, um cromo bastante vívido intitulado Jesus Cristo abençoa as criancinhas –, e estava imaginando que eu era uma delas, que eu era a menininha de vestido azul, sozinha ali no canto, como se não pertencesse a ninguém, exatamente como eu. Ela parece solitária e triste, não parece? Imagino que nunca tenha tido pai nem mãe. Mas ela também queria ser abençoada, por isso esgueirou-se timidamente, um pouco longe da multidão, torcendo para que ninguém a visse... exceto Ele. Tenho certeza de que sei exatamente como ela se sentiu. O coração dela 99

Profile for lucasportop2

Anne de Green Gables  

Anne de Green Gables  

Advertisement