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o caso –, e depois ficou tão bem presa que não foi preciso mais nada para mantê-la suspensa. Anne ajoelhou-se e fitou aquela manhã de junho com os olhos radiantes de prazer. Oh, mas não era lindo? Não era um lugar adorável? E pensar que ela não iria realmente ficar ali! Mas imaginaria que sim. Ali havia espaço para a imaginação. Havia uma cerejeira enorme lá fora, tão próxima que os galhos roçavam a casa, e tão florida que mal se via uma folha. Havia pomares dos dois lados da casa, um de macieiras, outro de cerejeiras, também carregadas de flores. E a relva estava toda salpicada de dentes-de-leão. No jardim, mas abaixo, havia lilases floridos, e seu perfume, de uma doçura estonteante, chegava à janela trazido pelo vento matinal. Abaixo do jardim, um campo verdejante e repleto de trevos descia a encosta até a valeira onde corria o regato e cresciam dezenas de bétulas brancas saídas airosamente de uma macega que, com seus fetos, musgos e outros matinhos, sugeria possibilidades deliciosas. Mais além ficava uma colina verde e felpuda de espruces e abetos. Havia uma lacuna no morro de onde se via a ponta do frontão cinzento da casinha que ela vislumbrara desde a outra margem do Lago de Águas Cintilantes. À esquerda, ficavam os grandes celeiros e, além deles, bem longe, depois dos campos verdes e levemente inclinados, via-se de relance um pedaço azul e resplandecente de mar. Os olhos de Anne, enamorados da beleza, demoraram-se em todas essas coisas, absorvendo avidamente tudo aquilo. Tinha visto tantos lugares desagradáveis na vida, a pobre criança; mas aquilo era a coisa mais adorável com que já sonhara. Ficou ajoelhada ali, alheia a tudo, a não ser ao encanto que a cercava, até se sobressaltar com a mão que veio lhe pousar no ombro. Marilla entrara no quarto sem que a pequena sonhadora a tivesse visto. 58

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Anne de Green Gables  

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