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– suspirou Marilla tristemente, decidida a gozar do seu luxo de tristeza sem ser confortada. – Mas, aí está... os homens não entendem essas coisas! Outras mudanças haviam ocorrido em Anne que não eram menos reais do que a transformação física. Uma delas era que estava bem mais calada. Talvez pensasse ainda mais, e sonhasse tanto quanto antes, mas ela certamente falava menos. Marilla percebeu e comentou isso também. – Você não fala nem a metade do que costumava falar, Anne, nem usa a metade das palavras grandes. O que aconteceu com você? Anne corou e riu um pouco, enquanto largava o livro e lançava um olhar sonhador pela janela, onde, em resposta ao sol sedutor da primavera, os botões vermelhos e gordos das flores explodiam na trepadeira. – Não sei... não sinto mais vontade de falar tanto – respondeu Anne, apoiando o queixo pensativamente em cima do dedo indicador. – É mais agradável ter pensamentos bonitos e guardá-los dentro do coração como se fossem tesouros. Eu não gosto quando as pessoas zombam deles, ou ficam espantados por causa deles. E, de alguma forma, não quero mais usar palavras grandes. É quase uma pena, não é, agora que estou quase adulta e poderia dizê-las se eu quisesse. É divertido ser quase adulta de certa maneira, mas não é o tipo de divertido que eu pensava que fosse, Marilla. Há tanta coisa para aprender e fazer e pensar que não sobra tempo para palavras grandes. Além disso, a srta. Stacy disse que as palavras curtas são melhores e muito mais fortes. Ela pediu que escrevêssemos nossos ensaios da maneira mais simples possível. No início foi difícil. Eu estava tão acostumada a encher a página com todas as palavras bonitas que conseguia imaginar... e imaginei um monte delas. Mas agora já me habituei e percebo que é muito melhor assim. – E o que aconteceu com seu Clube de Histórias? Há muito tempo que não ouço você falar dele. 389

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Anne de Green Gables  

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