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deleitava-se com a perfeição de seu opróbrio. Onde estava o castigo benéfico do qual ela, Marilla, havia se vangloriado? Anne o transformara numa espécie de prazer positivo. A boa sra. Lynde, que não tinha como saber, não viu nada disso. Notou apenas que Anne fizera um pedido de desculpas perfeito, e todo o ressentimento desapareceu de seu coração bondoso, embora um tanto intrometido. – Que é isso, menina, levante-se – ela disse cordialmente. – Claro que eu a perdoo. De qualquer maneira, creio que fui muito dura. Mas é que não tenho papas na língua. É só não se importar comigo, é isso. Não dá para negar que você é terrivelmente ruiva, mas conheci uma menina – na verdade, fui à escola com ela – que era tão ruiva quanto você quando criança, mas, quando cresceu, seus cabelos escureceram e ganharam um belo tom castanho-avermelhado. Eu não me surpreenderia nem um pouquinho se os seus também escurecessem... nem um pouquinho. – Oh, sra. Lynde! – Anne inspirou profundamente ao ficar de pé. – A senhora me deu uma esperança. Hei sempre de vê-la como uma benfeitora. Oh, eu suportaria qualquer coisa se ao menos soubesse que teria lindos cabelos castanho-avermelhados quando crescesse. Seria tão mais fácil ser boazinha com lindos cabelos castanho-avermelhados, não acha? E agora posso ir ao jardim me sentar naquele banco sob as macieiras enquanto a senhora e Marilla conversam? Há muito mais espaço para a imaginação lá fora. – Claro que sim, pode ir, menina. E, se quiser, pode apanhar um ramalhete de narcisos lá naquele canto. Quando Anne saiu e a porta se fechou, a sra. Lynde levantou-se abruptamente para acender uma lamparina. – Ela é realmente uma coisinha singular. Tome esta cadeira, Marilla; é mais confortável do que essa aí onde está sentada, que deixo reservada para o rapazola que contratamos. Sim, ela certamente é uma criança peculiar, mas tem algo de cativante no fim das 124

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Anne de Green Gables  

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