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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS INSTITUTO DE ESTUDOS DA LINGUAGEM LABORATÓRIO DE ESTUDOS AVANÇADOS EM JORNALISMO - LABJOR

WEBLITERATURA: NOVAS FORMAS DE LER, ESCREVER E INTERAGIR

Campinas - SP 2013


Lucas Guedes

WEBLITERATURA: NOVAS FORMAS DE LER, ESCREVER E INTERAGIR

Texto de qualificação, apresentado ao Instituto de Estudos da Linguagem (Labjor – Divulgação Científica e Cultural) da UNICAMP, como parte dos requisitos para a obtenção do título de mestre. Orientadora: Profa. Dra. Cristiane Pereira Dias

Campinas – SP 2013

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BANCA EXAMINADORA

______ Profa. Dra. Cristiane Pereira Dias – orientadora / UNICAMP

______ Prof. Dr. Marcos Barbai / UNICAMP

______ Prof. Dr. Emerson Inácio / USP

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RESUMO Em Webliteratura: novas formas de ler, escrever e interagir, buscamos nos aprofundar nestas três ações que correspondem respectivamente ao leitor, ao escritor e à interação entre ambos a partir desta nova possibilidade de produção literária que pressupõe a existência de novas formas do fazer literário. Mais que definir ou conceituar o termo webliteratura, pretendemos entender as principais mudanças ocorridas em vários campos da produção literária, tanto no mercado editorial, como na estrutura da produção textual que, com o surgimento deste novo suporte para produção literária, a internet, dá margem à popularização dos gêneros textuais digitais e de um possível novo gênero literário. Buscamos entender as características que insinuam o surgimento deste gênero, a webliteratura, que acompanha um movimento de renovação de linguagem literária surgida após a aquisição deste novo meio de produção e divulgação, a internet. PALAVRAS-CHAVE: internet, literatura, ciberespaço.

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ABSTRACT In Webliteratura: new ways to read, write and interact, we seek to deepen these three actions that correspond to the reader, the writer and the interaction between them from this new possibility of literary production which presupposes the existence of new ways of doing literary. Rather than defining or conceptualizing the term webliteratura, we intend to understand the key changes in various fields of literary production, both in publishing, as in the structure of textual production that, with the emergence of this new medium for literary production, internet, gives rise the popularization of digital genres and a possible new literary genre. We try to understand the characteristics that imply the emergence of this genre, the webliteratura, accompanying a movement for the renewal of literary language that arose after the acquisition of this new means of production and dissemination, the Internet.

KEYWORDS: internet, literature, cyberspace.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ......................................................................................................... 08 PARTE 1: CULTURA, INTERNET ........................................................................ 14 1.1 CULTURA, INTERNET E A QUESTÃO DOS GÊNEROS LITERÁRIOS .... 14 1.2 ORIGEM DA INTERNET .................................................................................. 20 1.3 A ESFERA PÚBLICA VIRTUAL – O ESPAÇO VIRTUAL ............................ 25 PARTE 2: A QUESTÃO DOS BLOGS .................................................................... 31 2.1 BLOG: O PAPIRO ELETRÔNICO .................................................................... 31 2.2 O BLOG E OS NOVOS ESCRITORES ............................................................. 33 PARTE 3: ESTA TAL WEBLITERATURA (em desenvolvimento) 3.1 REVISTAS LITERÁRIAS E REVISTAS LITERÁRIAS ON LINE 3.2 ANÁLISE DE BLOGS E REVISTAS LIETERÁRIAS ON LINE CONSIDERAÇÕES FINAIS BIBLIOGRAFIA ....................................................................................................... 37 ANEXOS ................................................................................................................... 41

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coração a tu alisado esperei email: não veio angusti lu cid in fin dá vel disparei apertar o botão atualizar a tu alisei a Pá Gina por prenúncio de tédio total da tentativa toda teimosa e de tanta espera teclei outro jogo paciência. nó em papeis de bala pela mesa olhar da janela a tela por três vezes entre copa espada e pau um balão. precisava dama fácil veio rei e balão preto a tu alisei a Pá Gina até com a provocação do explode tela: na propaganda do Sushi Erótico e nova capa da Revista Bela dois cliques tristes nada teu tudo meu negociei angústias com o Caps Shift e Del sorri loucos versos imaginados até gastar divorciar os meus seus botões a tu alisei a Pá Gina ERRO no GENERALIZADO: problema no page cannot be found assustei o que não deveria assustar sustei relações com o sistema saí só num silêncio ressentido sem atualizar a página.

Ivan Antunes, no blog O tatu bola (http://otatubola.blogspot.com.br)

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INTRODUÇÃO Não, amor, isto não é literatura. Ana Cristina Cesar1 2003: Início de pesquisa relacionada à internet 2004: I.C.: Blogs do mal 2005/2006: lançamento do livro www.odio : a esfera pública do ódio

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Inéditos e dispersos. São Paulo, 1998.

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2007: internet e cultura/cinema/teatro/música: campos e espaços 2008: internet e literatura/blogs/facebook 2009: amores expressos/itaú /USP/30 pessoas

2010/2011: cronópios/unicamp/roteiro 2012: hilda hilst/artes visuais/jac-loka/sem sentido/proac/webliteratura 2013: publicações independentes/fez-se-book

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Uma das discussões mais recentes, no que diz respeito aos estudos literários, é a que vivemos atualmente após o advento da internet. Com a crescente popularização dos novos meios de comunicação e das novas tecnologias no meio digital, deixamos de ser apenas usuários ou navegantes, como outrora costumava-se dizer, e passamos a ser habitantes da internet à medida que passamos a interagir, produzir e viver o ambiente virtual muito mais intensamente do que imediatamente após o seu surgimento. Na internet, o paradigma clássico da comunicação (emissor > mensagem > receptor) é diluído, transformado, repensado. O emissor pode ser, ao mesmo tempo, receptor. O desafio, neste caso, é tentar compreender que as transformações ocorridas na sociedade contemporânea nas últimas décadas – mudanças estas percebidas em quaisquer campos da existência humana – são parte de um processo histórico de avanço tecnológico que, independentemente de ser nocivo ou benéfico, acima de tudo é um processo em construção, com resultados ainda desconhecidos. Sendo assim, qualquer texto que pretenda desvendar, analisar ou apenas esboçar sobre tais mudanças, a partir da influência que as tecnologias exerceram e exercem na vida cotidiana, corre o risco de criar suposições muitas vezes meramente polêmicas, dicotômicas e simplistas. Depois de quase dez anos de pesquisa no campo da internet, principalmente

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sobre os efeitos negativos que ela proporciona, como crimes chamados virtuais e incitação do ódio, pudemos não apenas fazer uma imersão prática ao tema, mas também entrar em contato com diversos pensadores e bibliografias e tivemos a oportunidade de conhecer diferentes abordagens de pesquisa. É impressionante o número de trabalhos acadêmicos dedicados aos estudos da internet que se desenvolveram durante este tempo. Seria necessário um estudo mais preciso e estatístico, mas não há dúvidas que tais trabalhos se multiplicaram ao longo da última década. No entanto, grande parte das discussões – sobretudo nos últimos vinte anos – partiram de (e para) alguns pressupostos que basicamente chegavam a conclusões quase que apocalípticas com base no surgimento de uma nova sociedade interligada, tecnologizada e informatizada por conta de um novo elemento que viria a fazer parte do cotidiano de grande parte da população, o computador.

Não raro, ouvimos falar sobre o fim do livro, o fim do papel, o fim da 11


literatura impressa. Novas palavras brotam em nosso vocabulário. E-books, tablets, gadgets, widgets. Apps, download, upload. Bug. Palavras e termos tradicionais soam como se fossem velhos, com um tom até mesmo saudosista. Livro de cabeceira, cânone, obra literária, bibliografia. Seria mesmo o fim? Sem abandonar ou desprezar questões apontadas por teorias clássicas, mas – pelo contrário – ressaltando a importância que tiveram e ainda têm para o entendimento do mundo em que vivemos, este trabalho sugere uma visão que reconhece a reafirmação da noção do fim de uma era e início de outra, como propõe Pierre Lévy (1993, p. 17) ao dizer que um novo estilo de humanidade é inventado, mas também enfatiza a soma de outras teorias surgidas a partir de pensadores da contemporaneidade, partindo da premissa que todo processo histórico é composto por ações determinadas pelo tempo, pela experiência e pelos sujeitos a partir de relações sociais, econômicas e políticas entre pessoas, classes, povos, culturas e civilizações.

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Para Santos (2009, p. 28), processos e situações semelhantes já vividas em outras épocas, por outras artes, podem muito bem servir como modelos para entender paradoxos, impasses e limites dos estudos literários, como os que se experimentam atualmente quando se examina a literatura do meio digital: Com isso, essa atual mudança de paradigmas, do impresso para o ciberespaço, pode ser mapeada, estudada e compreendida, a partir de mudanças de paradigmas com dinâmicas e condições algo semelhantes às que hoje se observam.

Buscando se aproximar da melhor definição da palavra Teoria (theoria, no grego é contemplação, observação, exame) este trabalho se propõe a apresentar as relações entre literatura e internet, sobretudo ao abordar as possíveis mudanças na escrita, na leitura e na interação entre escritor e leitor. Ao denominar este trabalho 13


como Webliteratura: novas formas de ler, escrever e interagir, buscamos nos aprofundar nestas três ações que correspondem respectivamente ao leitor, ao escritor e à interação entre ambos a partir desta nova possibilidade de produção literária que pressupõe a existência de novas formas do fazer literário. Mais que definir ou conceituar o termo webliteratura, pretendemos entender as principais mudanças ocorridas em vários campos da produção literária, tanto no mercado editorial, como na estrutura da produção textual que, com o surgimento deste novo suporte para produção literária, a internet, dá margem à popularização dos gêneros textuais digitais e de um possível novo gênero literário. Buscamos entender as características que insinuam o surgimento deste gênero, a webliteratura, que acompanha um movimento de renovação de linguagem literária surgida após a aquisição deste novo meio de produção e divulgação, a internet. Neste momento faz-se necessária uma breve explicação a respeito do tema proposto. A priori o título deste trabalho era Portal Cronópios: uma análise das revistas literárias na internet. Após uma série de acontecimentos particulares somados ao período de disciplinas cursadas, participação em eventos, entrevistas, mudança estrutural da revista, estágio docente e, por fim, uma residência artísticaliterária realizada durante um mês no Instituto Hilda Hilst (Casa do Sol), houve uma mudança de pensamento em relação ao objeto de estudo. A metodologia aplicada seria estritamente por análise de discurso dos textos publicados na revista, além de entrevistas com os editores, autores e leitores e análise dos comentários. Entretanto, havia uma necessidade de ir além. A rapidez com que a internet propaga informação, a facilidade de publicação, o surgimento de novos autores e o aumento progressivo de revistas online, blogs, eventos e projetos na área de literatura e internet – que surgiram no pequeno período de um a dois anos – nos fez pensar em novas possibilidades de aprofundamento e uma necessidade maior de abarcar outras questões. A imersão e o isolamento proporcionados pela residência na Casa do Sol, cujo principal objetivo era finalizar o texto desta pesquisa e produzir outros materiais com teor estético, teórico e poético na área de publicações independentes a partir de textos produzidos na internet, fizeram com que um nova proposta tomasse corpo e assim este novo texto foi gerado. Aproveitando toda a pesquisa já realizada e incluindo novos olhares sobre este assunto tão presente, decidimos então manter o portal Cronópios como um dos objetos a serem analisados, mas acrescentamos outros. 14


A partir vamos nos aprofundar na questão dos blogs, da cultura, da internet, da comunicação, da literatura, da tecnologia e como estes elementos interagem entre si, formando o que chamamos de weblitetura, termo surgido em meados da década de 2000 para classificar a literatura produzida na internet. Como objeto de estudo temos um campo bastante variado e diverso, uma vez que internet é um ambiente em constante processo de mudança e desenvolvimento que, mesmo sendo usado como ferramenta para diferentes tipos de trabalho, que vão desde pesquisas, fonte de informação, trocas de mensagens online, uso de redes sociais até mobilizações políticas de âmbito internacional, é também um espaço propício para produção e disseminação de literatura. Além de uma abordagem desta nova forma de fazer literatura, queremos observar o tipo de gênero textual preponderante (ensaios, resenhas críticas, notas, entrevista e textos acadêmicos de reflexão) nas revistas literárias online, e de modo mais geral a linguagem e estilo destes textos, mapeando o processo de divulgação dos textos publicados na internet. Interessa-nos ainda identificar até que ponto a tecnologia altera – se é que altera – o modo de produzir (escrever) e consumir (ler) crítica literária com base também em “comentários críticos” de leitores e analisar o processo de interatividade estabelecida nos portais, blogs, sites, por meio dos comentários. A partir do pressuposto de que a literatura encontra um ambiente rico e diverso em possibilidades de expressão, acelerando potencialmente ganhos intelectuais e abrindo o acesso cultural de forma sem precedentes, esta nova forma de consumir literatura via internet causa uma proximidade muito maior entre escritorleitor. Para melhor compreensão deste tema tão complexo, além da introdução, o texto será dividido em três partes (capítulos) e seus subtítulos, a saber: parte 1. Cultura e internet: 1.1: Cultura, internet e a questão dos gêneros literários, textuais e discursivos; 1.2: As origens da internet; 1.3: A esfera pública virtual; parte 2. A questão dos blogs: 2.1: Blog: o papiro eletrônico; 2.2: O blog e os novos escritores. Para o texto final de dissertação, pretende-se abordar a parte 3. A webliteratura: 3.1: Esta tal webliteratura: 3.1: Revistas literárias impressas e online; 3.2: Análise de blogs e revistas literárias online; e Considerações finais. Em Cultura, internet e a questão dos gêneros literários, textuais e discursivos, pretendemos iniciar a discussão apontando definições tradicionais do que costumamos chamar de cultura. Por entender que a literatura é também uma arte, relacionamos a 15


divisão dos movimentos artísticos europeus com os gêneros literários e apontamos algumas questões inerentes à comunicação e à escrita digital, que serão melhor apresentados posteriormente, no capítulo Esta tal Webliteratura. Para contextualização do trabalho, consideramos importantes alguns dados históricos em relação ao surgimento da Internet, por isso dedico o segundo capítulo, As origens da internet, para este fim. Já em Esfera pública virtual, abordamos como são constituídos os principais nichos online na internet e as redes sociais, a partir do conceito de esfera pública de Habermas (1984). Blog: o papiro eletrônico traz os aspectos históricos que servirão de base para o capítulo seguinte O Blog e os novos escritores, em que exemplificamos e apresentamos os principais autores que começaram a produzir ou que tiveram maior exposição após o surgimento da internet. A partir de uma análise da produção de tais escritores, tanto na internet, como em material impresso, a ideia é identificar se seus textos são de fato influenciados por uma nova linguagem ou se usam as ferramentas virtuais apenas como suporte e divulgação de seus trabalhos. A questão será aprofundada no próximo capítulo, Esta tal Webliteratura, em que pretendemos tratar a questão da literatura em ambiente digital e virtual a partir dos pontos abordados nos capítulos anteriores. Aqui, o próprio título do trabalho será dissecado com base na produção bibliográfica de autores como Chartier (2002), Marcuschi (2004) e mais recentemente, Santos (2009). Ainda neste capítulo, serão abordados projetos especiais que colaboram para a discussão da literatura em ambiente virtual: os eventos literários cada vez mais frequentes (feiras, festas, oficinas); Os dois capítulos que antecedem as considerações finais, trazem um panorama das Revistas literárias impressas e online, pois acreditamos que a crítica literária, tanto impressa, como a produzida em ambiente digital, desempenha uma papel importante na construção de um novo discurso e na divulgação do trabalho dos escritores. O penúltimo capítulo vai apresentar a análise de uma revista literária online, atualmente chamada de Portal Cronópios, que mapeia, divulga e incentiva a criação literária contemporânea brasileira, além de ser um grande banco de dados, com acesso gratuito e ferramentas de busca de fácil acesso, da produção literária contemporânea brasileira e hispano-americana. Com acesso gratuito, atualmente o Cronópios é o mais influente portal do seu segmento no Brasil (Literatura e artes em geral), atingindo mensalmente, segundo estatísticas fornecidas pelo conselho editorial do portal, 110 16


mil visitas e 2 milhões de páginas visitadas. Neste capítulo também serão analisados blogs de escritores e de projetos literários, como por exemplo o dinossauros e anfíbios, da poeta Ana Rüsche, espaço virtual voltado ao debate sobre língua e literatura e eventos que acontecem via chat, vídeos, fóruns e até leituras de poemas pelo Second Life e o blog Falsa Astronomia, da poeta Nathalia Rech, que o mantém atualizado desde 2009 e publicou dois livros apenas pela internet. Para melhor aproveitamento da pesquisa, além dos blogs abordados, foi eleito um, em especial, para análise mais profunda. Trata-se de O Frágil Toque dos Mutilados, mesmo título do projeto de romance vencedor do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura na categoria “Jovem Escritor Mineiro”. O autor, Alex Sens Fuziy, teve a incumbência de escrever um livro de 300 laudas em seis meses e criou este blog para compartilhar o processo criativo: A ideia do blog é compartilhar o processo criativo deste romance de uma forma que não aprofunde demais nos detalhes e na própria história para não ser estraga-prazeres. Por isso o subtítulo “um romance em expansão”, porque é isso: o romance está expandindo, está crescendo, e vocês vão presenciar essa expansão nos próximos meses comigo.

Fuziy também criou uma página no Facebook para atualizar o andamento de sua produção, com fotos, vídeos, informações, perguntas e consulta aos leitores: Alguém conhece um bom NEFROLOGISTA que possa me tirar algumas dúvidas por email? É para o livro que precisa de uma orientação mais técnica num determinado capítulo.

Todos os blogs e revistas citados estão em processo de análise, alguns desde o início da pesquisa, outros agregados a partir de leituras, recomendações, hiperlinks. Nos interessam os textos, o design, o discurso, o estilo, a periodicidade, o autor, o leitor, os comentários. O estudo de tais elementos somados vai colaborar para responder as questões expostas nesta introdução e apresentar as considerações finais que, mesmo estando longe de nos dar afirmações categóricas acerca do futuro da literatura na internet, vão apontar caminhos para entendermos melhor o processo de construção de uma linguagem que corrobora a existência de novas formas de ler, escrever e interagir.

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1. CULTURA E INTERNET 1.2 CULTURA, INTERNET E A QUESTÃO DOS GÊNEROS LITERÁRIOS, TEXTUAIS E DISCURSIVOS Quando se pretende classificar a arte, é comum que busquemos compreender não somente o período em que tal movimento artístico se destaca, mas também as diferenças e semelhanças da base estrutural dos artistas que se inserem em determinado período. Analisamos o contexto cultural no qual desenvolveram seus trabalhos, os valores estéticos, a técnica, os fatos históricos mais relevantes da época, os artistas que por um traço ou outro os influenciaram e assim por diante. A partir daí, a obra (ou o conjunto da obra) deste artista passa a ser rotulada e incluída em determinado grupo, passando a ser definida pelas características que o colocam no mesmo patamar de seus pares. Apesar das classificações serem por muitas vezes genéricas, são também restritivas quando tentam encaixar artistas que produzem trabalhos distintos em um único movimento, quase num processo de diminuição da função da arte enquanto forma de expressão livre a fim de atender critérios estritamente burocráticos, pedagógicos e didáticos. Da mesma forma a cultura e seus múltiplos significados variam de acordo com aspectos que vão desde o contexto histórico, passando pelas transformações sociais e políticas de cada período, até as manifestações populares acarretadas a partir de processos mais atuais, como a globalização, que interfere diretamente no modo como a literatura é produzida e consumida atualmente. A infinidade de formas possíveis para classificar a cultura talvez seja o principal problema na hora de definir seu conceito. Popular, erudita, pop, marginal, de massa, tradicional, entre outras, a cultura não tem significado único, nem apenas uma maneira de expressão. Entretanto, é preciso admitir que a cultura está presente na humanidade desde o começo de sua existência e, mesmo com o avanço da globalização, não há como citar um campo de estudo – em ciências sociais ou não – em que não esteja a cultura. Um dos caminhos possíveis é voltar ao estudo das formas simbólicas e à concepção estrutural de cultura, proposta por John B. Thompson (2000, p.181). Para

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ele, a cultura não é apenas um conjunto de fatos sociais e concretos, mas um aglomerado de situações, processos históricos, manifestações verbais e simbólicas, textos e falas. Antes de dar enfoque à concepção estrutural, Thompson define como clássico o conceito de cultura que se refere a um desenvolvimento intelectual ou espiritual, que leva ao processo de civilização de um determinado povo, mas cita também o conjunto de crenças, valores, costumes, convenções, hábitos e práticas para conceituar a concepção descritiva do termo. Do latim cultura, até seu próprio significado lato sensu possui diversas formas de interpretação, da antropologia à agricultura, passando pela filosofia, religião e ciências sociais. Não é à toa que a palavra agricultura figura entre as primeiras definições, já que em seu sentido original, cultura nada mais é que cultivo ou cuidado de alguma coisa. Do cultivo do grão, tal sentido foi estendido para a esfera humana, passando a ser o cultivo da mente. Mais tarde, em meados dos séculos XVIII e XIX, cultura foi restringida à civilização, mas posteriormente foi progressivamente sendo usada para descrever os processos do ser humano em se tornar culto ou civilizado. A partir daí, vários sentidos foram sendo empregados na Europa, causando polêmicas em alguns lugares, suscitando discussões em outros até que Thompson repensa a cultura como concepção estrutural, cujos aspectos das formas simbólicas anteriormente afirmadas são: Intencional, a partir da intenção do produtor em expressar/produzir algo; Convencional, dada por pactos sociais e culturais (idioma, gestos, formas, cores); Estrutural, com sua estrutura interna de construção e desconstrução a fim de dar sentido; Referencial, que neste caso é referente a algo externo à concepção; e Contextual, em que o contexto social é bem mais amplo. Entender estes aspectos é importante quando pretendemos pensar na cultura e mais especificamente a literatura, como forma de transformação social, por meio da conscientização do ser humano como agente produtor e reprodutor dentro de uma sociedade. Stuart Hall (2003) diz que não existe uma cultura popular íntegra, autêntica e anônima, situada fora do campo de força das relações de poder e de dominação cultural. Ele considera populares as formas e atividades cujas raízes se situam nas condições sociais e materiais de classes específicas. Entretanto o essencial nesta definição são as relações que colocam a cultura popular em uma tensão contínua de relacionamentos, influências e antagonismos com a cultura dominante. O que realmente importa são as relações culturais, não os objetos culturais. 19


Na literatura, especificamente, a definição do termo e a discussão sobre os chamados gêneros literários é recorrente, uma vez que a tendência estabelecida é enquadrá-la, quanto à forma, em apenas dois tipos: verso e prosa. Sobre sua estrutura as obras são divididas em três grandes gêneros (lírico, dramático e épico). Destes gêneros, subdividem-se as inúmeras modalidades de cada gênero, classificadas, assim como na arte em geral, de acordo com suas características em comum. Considerada uma das mais antigas da teoria literária, a questão dos gêneros continua sendo complexa e empenha o interesse de estudiosos que insistem na busca de uma conceituação. Em meio à divergências, o assunto atravessa toda a história da literatura e da crítica, assumindo acomodações de fidelidade a preceitos estáticos ou desencadeando inovações. Segundo Helena Parente Cunha (1979), o primeiro a tomar consciência dos gêneros literários foi Platão, mas cabe a Aristóteles o lançamento de suas bases fundamentais na Poética, que se inicia com a intenção de abordar a produção poética e os seus diversos gêneros, classificando as obras segundo elementos formais e de conteúdo. Assim, o gênero literário pressupõe uma classificação de obras consignadas por características afins. Enquanto a Poética de Aristóteles ainda é ponto de partida para se pensar a questão dos gêneros literários (CUNHA, 1979), durante séculos suscita interpretações que variam de acordo com o aparecimento de novos modelos literários e segundo a evolução do conceito de literatura. Na Idade Média não houve sistematização rigorosa sobre os problemas literários, a não ser tratados de poética trovadoresca, mas sem vinculações com a doutrina dos antigos. No renascimento, graças à sedução exercida pela arte greco-latina, a Poética de Aristóteles e a Epístola aos Pisões de Horácio promoveram inúmeras discussões do maior interesse para o novo espírito crítico que despontava. A questão dos gêneros narrativos, então, tornou-se o ponto central da interpretação do fenômeno literário. Chartier (2002) afirma que a técnica de escrita digital, surgida no século XX, torna os textos móveis, maleáveis, abertos e flexíveis. A tela do computador como suporte de escrita redefine o papel do escritor e a relação deste com o texto, assim como a relação do escritor com o leitor. A revolução do nosso presente é mais importante do que a de Gutenberg. Ela não somente modifica a técnica de reprodução do texto, mas também as

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estruturas e as próprias formas do suporte que o comunica aos seus leitores. 2

À medida que se desenvolvem os meios de comunicação eletrônicos, a internet torna-se cada vez mais uma complexa plataforma sobre a qual repousam múltiplas vias de possibilidades comunicativas. Tais vias permitem uma capacidade de avanços tecnológicos que, ao conectar todo o sistema de comunicação, possibilita a constituição de grandes bancos de dados e de informação. Esta grande rede, então, promove uma leitura não-linear das informações veiculadas, uma vez que permite ao leitor em tela, uma interconexão mais rápida em relação ao texto no papel entre diversas redes associativas, por meio do hipertexto, um sistema de links sustentando por uma série de regras da linguagem digital que permite o trânsito livre entre um texto e outro com um simples clique. Podendo ser sequencial ou não, a navegação em textos online proporciona fácil interação à medida que possibilita uma resposta imediata do leitor por meio de comentários (quando disponibilizado este espaço), muitas vezes transformando o leitor em um editor daquilo que lê, como é o caso da enciclopédia digital Wikipedia. Sendo assim, a nãolinearidade3 dos sistemas hipermediáticos e a possibilidade de interação oferece suporte maleável e multidimensional mais adequado para exprimir o pensamento em sua complexidade do que os meios de que dispúnhamos anteriormente: a oralidade e a escrita (LEÃO, 1999, p. 65). Esta característica hipertextual da rede não possibilita, necessariamente, uma expressão melhor do pensamento, mas simula um outro modo de pensar tal qual os meios disponibilizados anteriormente não implicam apenas em oralidade e escrita. Há também a linguagem não-verbal, como na música, na pintura, na arquitetura, e todas as formas de expressão. Entretanto, há uma tentativa bem próxima de reproduzir simbolicamente a estrutura suposta do pensamento, mas não existe a libertação da lógica intrínseca ao modo de pensar que a linguagem – escrita, oral ou qualquer outra – exige. Rodrigues (1980, p. 25) classifica os processos históricos da comunicação da seguinte forma: a) nomadismo e texto oral, em que a forma oral e os grafismos são as principais formas de expressão, tendendo a reproduzir uma visão de mundo; b) texto 2

Chartier,1998, p.97. LEÃO, Lúcia. O labirinto da hipermídia: arquitetura e navegação no ciberespaço. São Paulo: Iluminuras, 1999. 3

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escrito e sedentarização, quando surge a fonetização do grafismo e os registros gráficos passam a significar formas de expressão oral; c) texto impresso e capitalismo, em que acontece a difusão massiva do texto, já que a burguesia passa a reproduzir textos em grande quantidade e de forma impressa; d) texto de massa e monopolização do capitalismo, onde a ideia de comunicação se aproxima à da informação, sendo que o contexto de massificação do texto reproduzido mecanicamente é articulado com o desenvolvimento monopolista do capitalismo. A exemplo de outras linguagens artísticas, a literatura apropria-se do ciberespaço para sua divulgação, uma vez que a quantidade de livros disponibilizados para download e o surgimento de novas revistas digitais e blogs com textos literários de poesia e prosa, corrobora o surgimento de novas formas de ler, escrever e interagir. Tais formas, dinamizadas em decorrência de um meio que permite

fácil

publicação,

tornam

possível

ainda

a

mescla

de

recursos

midiáticos/multimídia (textos, som, vídeo, imagem) a um custo muito inferior ao tradicional. A questão da apropriação do suporte multimídia na sociedade da informação e das possibilidades de construção do novo não demonstra apenas a junção do texto escrito, imagens, vídeos e áudio, e sim uma forma de percepção constituída pela combinação de todos estes itens. Diferentemente da televisão ou do rádio, a linguagem multimídia (OLIVEIRA, 2003) ocorre em um suporte tecnológico caracterizado pela interatividade e constituição de relacionamentos em redes. Aqui é importante lembrar que não apenas as redes se relacionam e sim, as pessoas, assim como numa conversa ao telefone, quem se relaciona são as pessoas e não os pontos da telefonia. Além disso, nessa ‘mídia digital’ os consumidores são também produtores e o tempo de produção pode ser instantâneo ao do consumo, principalmente na internet. Entretanto, ao transformar estes consumidores em produtores, acontece uma redução do capital necessário para a produção da mensagem massiva e, consequentemente, um acesso maior do conjunto de pessoas ao circuito de produção destas mensagens. Oliveira (2003) apresenta quatro aspectos tidos como contradições na sociedade da informação: a) dispersão e efemeridade geradas a partir do excesso de informações, uma vez que é difícil ao consumidor absorver de maneira profunda o que recebe, valorizando apenas os aspectos principais da informação; b) possibilidades de participação maior no circuito de produção de informação a partir das novas características dos suportes tecnológicos midiáticos, devido à facilidade 22


dada ao consumidor de produzir e trocar informações baseada no avanço e aperfeiçoamento constante das novas tecnologias de mídia que permitem a ele interagir; c) possibilidades de constituição de redes de solidariedade e identidade sem fronteiras e controles, uma vez que o consumidor - na internet, por exemplo - procura outros consumidores que têm os mesmos ou parecidos gostos e interesses, formando assim, webcomunidades que os unem, independentemente de espaços geográficos e d) tendências a gerar comportamentos esquizóides ou substituir as relações pessoaisfísicas pelas relações virtuais, pois o “existir virtualmente” possibilita ao consumidor criar uma vitrine muitas vezes falsa daquilo que realmente é, já que é possível o anonimato. Além disso, a relação virtual tende a ser mais cômoda que a física. Tais experiências acontecem dentro de um ambiente marcado pela emergência da linguagem multimídia e propõe uma questão atual para a ciência da comunicação e consequentemente de qualquer tipo de linguagem: a construção de teorias que deem conta destas novas contradições apresentadas na nova realidade da informação. Por isso, uma das perguntas principais que surgem é se a partir das mudanças na literatura acarretadas pelo avanço das tecnologias de informação e produção midiática existe uma literatura de internet. A professora e pesquisadora Heloísa Buarque de Hollanda sugere que a literatura não muda, mas reconhece que surgiram novas práticas literárias: Diante do assédio dos fluxos de informação e da popularização das tecnologias digitais, a resposta é atual desenvoltura da palavra que avança segura neste novo espaço público e sua disseminação geopolítica. Ela vem discreta como a mídia primeira dos blogs – pessoais e literários -, e logo se expande sem aviso prévio, por práticas literárias que inovam remixando linguagens, gêneros e suportes. (...). A palavra pirateada, hackeada, explorando as novas possibilidades tecnológicas dos ipods e podcasts, buscando a expressão visual, as formas dramatizadas, trabalhando fronteiras imprecisas, expandindo seu potencial de arte pública.4

Se existem novas tecnologias existem também novos autores e leitores, que mantêm vivo este ciclo. Estas novas práticas literárias nos conduzem a acreditar que a apropriação dos meios digitais pela literatura e tantas outras artes é um fenômeno em constante processo de transformação e sem uma conclusão precisa. Entretanto há alguns apontamentos que nos levam a acreditar em possíveis desdobramentos para um futuro, pelo menos há curto e médio prazo. Estes apontamentos serão abordados no decorrer deste trabalho. 4

HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Disponível em http://www.oinstituto.org.br/enter

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1.2 AS ORIGENS DA INTERNET Caiu a internet. Marina Rhinow, criança de 2 anos e 3 meses5 Antes de iniciar qualquer tipo de reflexão sobre os processos de transformação que o advento da internet proporcionou à literatura, é importante ressaltar alguns aspectos históricos. Em 1819, o cientista dinamarquês Hans Christian Oersted descobre que uma agulha de bússola poderia ser afetada pela passagem da corrente elétrica em um fio. Era o primeiro passo para a invenção do telégrafo. Mal sabia que este era um dos primeiros passos em direção à criação da rede mundial de computadores. Presente na vida de milhões de pessoas (estima-se que o número de usuários chegue a 472 milhões no mundo e 21 milhões no Brasil), a internet teve início em meados dos anos 60. A Agência de Projetos e Pesquisas Avançadas (Advanced Research Projects Agency - ARPA) do Departamento de Defesa dos Estados Unidos da América contratou, em 1962, J. C. R. Licklider para comandar seus novos projetos de processamento de informações, processos comportamentais e controle. Na prática, ele tinha de encontrar novas formas de uso do computador, que não fossem os cálculos numéricos. Licklider, que tinha formação acadêmica em Física, Matemática e Psicologia, era pesquisador do Instituto de Tecnologia de Massachussets (Massachussets Institute of Technology - MIT), mas havia trabalhado para a Força Aérea americana. No MIT, em tempos da Guerra Fria, desenvolveu um sistema de computação que criava defesa antiaérea contra bombardeios soviéticos. Nesta época, o pesquisador entrou em contato com instituições que estivessem à frente da pesquisa computacional, e conseguiu parcerias com doze universidades, entre elas Stanford e Berkeley. Ao grupo, Licklider deu o nome de Intergalatic Computer Network, que, em junção com a Agência de Pesquisa, tornou-se a ARPANET. 5

http://g1.globo.com/dia-das-criancas/2013/noticia/2013/10/caiu-internet-disse-crianca-quandobrinquedo-pilha-nao-funcionou.html

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A partir daí surgiram mais pesquisadores que passaram a estudar novas maneiras de usar a rede, como Leonard Kleinrock, do MIT, que publicou os primeiros artigos sobre a teoria das trocas por comutação de pacotes. Esta teoria consiste num sistema em que os dados, ao serem comunicados, são divididos em pequenas partes. Estas partes são identificadas de forma a mostrar de onde vieram e para onde devem ir. A confirmação de que Kleinrock estava certo veio anos mais tarde, quando foi constatado que o protocolo de comutação de pacotes da ARPANET, o Network Control Protocol, não era mais útil. Em 1972, foi enviado o primeiro e-mail nos moldes que temos atualmente, com as funções “enviar” e “ler mensagem”. É neste ano também que acontece a primeira demonstração da nova tecnologia de rede para o público e desenvolvem-se mecanismos não só de envio e leitura de mensagens, mas de arquivamento, encaminhamento e resposta. O processo de desenvolvimento dos sistemas não era tão rápido como hoje, mas crescia gradativamente. Até aquele período, a única maneira de agregar redes era por meio da tradicional troca de circuitos em que as redes se interconectavam, passando bits individuais entre duas localidades (ponta a ponta). Esta forma ainda era limitada. Foi então que Bob Kahn desenvolveu a ideia de redes de arquitetura aberta. Denominado Internetting, o trabalho propunha criar uma rede na qual estariam conectados o maior número de computadores, e seria possível compartilhar mais informações. Com a arquitetura aberta, as redes individuais poderiam ser desenvolvidas e desenhadas separadamente, o que tornaria menos restritas as distâncias entre os computadores. Entretanto, tal progresso não poderia acontecer usando o Network Control Protocol. Kahn passa a desenvolver outro tipo de protocolo e o chama de Transmission Control Protocol/Internet Protocol, o TCP/IP. Para ajudá-lo nesta nova etapa, Kahn convida Vinton Cerf, que cria uma estrutura de comunicação com dispositivos de conectividade para interligar vários computadores simultaneamente. Estes dois autores publicam juntos A Protocol for Packet Network Interconnection (Um Protocolo de Interconexão para Pacotes de Rede). Os testes com o novo protocolo foram realizados durante vários anos e somente em 1983 ocorreu a transição do NCP para o TCP/IP. Aliás, é neste ano que se comemora o nascimento oficial da internet. No Brasil, as primeiras manifestações da internet apareceram um pouco mais 25


tarde, em 1988, interconectando universidades e centros de pesquisa do Rio de Janeiro, Porto Alegre e São Paulo a instituições nos Estados Unidos da América. Foi num destes centros de pesquisa, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) que o professor Oscar Sala, da USP, desenvolveu um projeto para estabelecer contato com instituições de outros países por meio da rede de computadores. Então, chegou ao país, a Bitnet, rede que conectava a Fapesp ao Laboratório de Física de Altas Energias de Chicago (Fermilab). Basicamente, eram realizadas trocas de arquivo, mas o acesso ainda era restrito a um grupo seleto de pessoas. Em 1989 é inaugurada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia a Rede Nacional de Pesquisas (RNP) com o objetivo de interligar estas redes embrionárias. Um ano antes, o Instituto Brasileiro de Análises Econômicas e Sociais (Ibase) começou a testar o AlterNex, o primeiro serviço brasileiro de internet não-acadêmica e não-governamental, que só foi aberto ao acesso público em 1992. Ainda em 1989, na Suíça, foi criado por Tim Berners-Lee o conceito de world wide web (www). A sigla nada mais é que um conjunto de documentos em formato de hipertexto, que possibilita ao usuário acessar de qualquer computador conectado à rede, uma página na internet. Por isso, cada página, quando criada, é batizada com um nome, precedido da sigla www e terminando com outra sigla, o domínio, sendo que estes três elementos devem estar separados por pontos. Caso seja uma empresa comercial, o domínio é com. Para órgão do governo, usa-se gov. Há mais de 50 tipos de domínios, divididos entre entidades, pessoas físicas, profissionais liberais e universidades. No Brasil, são mais de 900 mil registros só pelo domínio com. Em 1995, os Ministérios da Ciência e Tecnologia e das Comunicações criaram, por meio de Nota Conjunta, a figura do provedor de acesso privado à internet, dando preferência e até certa exclusividade às empresas comerciais. Desde então, a internet brasileira não deixou de ser aperfeiçoada. Surgiram os primeiros sites, que traziam propagandas comerciais, notícias e entretenimento. Neste breve histórico sobre surgimento da internet percebe-se grande preocupação, por parte de seus desenvolvedores, com aspectos técnicos. Comutação de pacotes, bits, teoria das trocas. Tudo isso parece não ter importância nos dias de hoje, principalmente para quem usa a internet apenas como mais um meio de comunicação. E talvez não tenha mesmo, afinal de que importa saber quem foi Bob Kahn? No entanto, sua criação, o e-mail, é uma das mais significativas invenções na 26


história da comunicação. Pesquisa realizada pelo Comitê Gestor da Internet, órgão que coordena e integra iniciativas de internet no Brasil, em conjunto com o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), revela que, desde meados dos anos 90, a web brasileira tem mostrado acentuado crescimento, tanto no número de usuários como no leque de serviços e aplicações oferecidos por meio da rede. É flagrante o avanço de seu uso pela população brasileira: de 37 milhões de usuários, em 2005, passou a aproximadamente 65 milhões, em 2009. Em 2012 o número chegou a 83 milhões, segundo o Ibope Nielsen Online. É difícil prever o futuro da rede. A cada dia novas tecnologias são desenvolvidas e mais pessoas passam a ter acesso à internet, mas para o pioneiro Vinton Cerf, criador do protocolo que mudou os rumos da interconexão, ainda há muito que se fazer. Ele trabalha desde 1998 no desenvolvimento da internet interplanetária, no laboratório da Nasa. Cerf acredita que este novo projeto pode ajudar na descoberta de seres vivos em outros planetas. Todo este avanço tecnológico trouxe consigo mudanças nas relações humanas. A internet tornou-se um grande ponto de encontro. Blogs, salas de batepapo, fóruns de discussão, sites de relacionamentos ou programas de mensagens instantâneas, entre outras possibilidades, transformaram o modo de se comunicar. Não há como definir se as mudanças são positivas ou negativas, mesmo porque a ação comunicativa é um processo e no caso da internet chega a ser contraditório. Ao mesmo tempo em que a rede agrupa pessoas, pode também aumentar a distância entre elas. As salas de bate-papo são um bom exemplo desta situação. Pessoas que não se conhecem entram na mesma sala e começam a conversar umas com as outras. Em determinado momento, a conversa tende a se limitar a um diálogo a dois. Depois disso, a troca de e-mails pessoais ou então do endereço do MSN6 para uma conversa particular. Este processo pode tornar-se um vício, fazendo com que a pessoa busque por meio do mundo virtual o que não consegue realizar no mundo real. Por outro lado, a internet tem uma grande capacidade de mobilização. Suponhamos que um usuário comece a participar de um fórum de discussão sobre um grupo de música qualquer. Com os outros membros, pergunta e responde questões inerentes àquele grupo, troca letras de música e experiências. Um deles tem a ideia de 6

Nome popular do Microsoft Network Messenger, programa que consiste na troca de mensagens instantâneas da Microsoft.

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marcar encontro numa apresentação da banda para se conhecerem pessoalmente. Ao contrário do exemplo anterior, aqui a rede serviu para sair do mundo virtual em direção ao real. Além da questão dos relacionamentos, a internet exerce influência sobre outras atividades, como ir ao banco ou ao supermercado. Em vez de enfrentar filas para pagar uma conta, o cliente pode acessar de sua casa o site da instituição e utilizar o serviço. Para que ir ao supermercado se pode fazer sua lista de compras e enviar via e-mail? É notável, então, a colaboração que a rede mundial de computadores trouxe na troca de ideias, informações e cultura, não só pela rapidez com que estas trocas se realizam, mas pela quantidade de dados trocados. Se a distância que separa um continente de outros é de milhares de quilômetros, pela internet ela é minimizada ao simples clique de um mouse ou ao aperto de uma tecla. É a chamada esfera pública virtual.

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1.3 A ESFERA PÚBLICA VIRTUAL

Somos apenas um grupo de pessoas na internet que precisa de um tipo de saída para fazermos o que quisermos, que não seríamos capazes de fazer numa sociedade normal. Anonymous7

Em Mudança Estrutural da Esfera Pública, Jurgen Habermas (1984) classifica a esfera pública burguesa como um tipo de junção do público e do privado, ou seja, é um espaço público no qual pessoas privadas discutem entre si. A obra, referência para muitos estudiosos se aprofundarem na questão, narra o desenvolvimento de uma 7

http://www.anonymousbrasil.com/

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esfera pública burguesa e democrática nos séculos XVII e XVIII e seu declínio, no século XX. Fala também das diferentes esferas, como a política e a literária. Entretanto, nesta conjuntura, cabe a nós entender como a internet se encaixa no perfil de uma nova esfera, a virtual. A esfera pública virtual – e aqui se incluem as telecomunicações em geral – não funciona como complementar a um espaço real de discussão e debate. Ela tem em si a possibilidade de criar produtores, emissores e receptores de informação, fazendo com que surjam vários outros espaços públicos. Com a globalização, novos processos tecnológicos começaram a surgir e novas perspectivas no campo da comunicação foram formadas. O advento da internet trouxe consigo a possibilidade de diminuir distâncias, conhecer pessoas e formar grupos. As famosas listas de discussão fazem parte desta nova possibilidade, assim como as comunidades virtuais, os sites de relacionamento e os blogs. Fragmentada em representações, a esfera pública encontra-se restrita. Talvez fruto das transformações oriundas do processo de evolução pós-moderna, estas representações igualam-se àquelas do período da alta Idade Média, em que, na sociedade feudal, a esfera pública não era – pelo menos sociologicamente – separada da esfera pública privada, pois esta última servia aos interesses privados. Daí, então, a necessidade de se criar microesferas públicas ou fragmentá-la como a esfera feminista, por exemplo, que tem como representante a pósestruturalista Rita Felski, que “revisou” o conceito estabelecido por Habermas. Para ela “a esfera pública feminista (...) oferece uma crítica de valores culturais do ponto de vista de mulheres como um grupo marginalizado dentro da sociedade. Neste sentido, ela constitui um parcial ou parte da esfera pública” (1989, p. 167). A internet, por meio de seus fóruns, pode agrupar fragmentações de uma macroesfera pública. Na prática é a possibilidade de a pessoa escolher sobre qual assunto discutir, escrever, ler e opinar deliberadamente sobre o tema. Com a popularização da internet e das novas tecnologias de informação, as artes passaram a apropriar-se de estruturas cada vez mais modernas e complexas, e em consequência disto, têm feito uso de redes sociais e comunidades virtuais, tanto na divulgação como em sua produção. Comunidades virtuais, segundo Pierre Lévy, são aquelas 30


(...) construídas sobre as afinidades de interesses, de conhecimentos, sobre projetos mútuos, em um processo de cooperação ou de troca, independentemente das proximidades geográficas. Um grupo humano qualquer só se interessa em constituir-se como comunidade virtual para aproximar-se do ideal do coletivo inteligente, mais imaginativo, mais rápido, mais capaz de aprender e inventar do que um coletivo inteligentemente gerenciado. (LÉVY, 1999, p. 127)

Ainda segundo o autor, não é correto falar no impacto das Tecnologias de Informação sobre a sociedade ou cultura, uma vez que, sendo as técnicas um produto do ser humano, não são autônomas nem separadas da sociedade. “É impossível separar o humano do seu ambiente material” (1999, p. 22). Nesta linha de raciocínio, a produção, integração e utilização das tecnologias, em conjunto com a “emergência do ciberespaço”, abrem caminho para novas opções culturais, sendo aproveitadas (ou não) de forma diferente, não sendo determinantes, mas sim condicionantes e, simultaneamente, facilitadoras da evolução civilizacional. O pesquisador mais atuante sobre o conceito de cibercultura ainda diz que a “cibercultura expressa o aparecimento de um novo universo” globalizante, com manifestações culturais distintas das anteriores mas onde as mensagens se aproximam novamente dos contextos orais e, por isso, mais diretas e de mais fácil interpretação, embora a uma escala diferente e mais alargada, graças ao fenômeno do ciberespaço, que permite uma comunicação permanente entre os seres humanos, possibilitando assim a constante reinterpretação dessas mesmas mensagens. Lévy (1999, p. 17) define, assim, cibercultura como “o conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço”. Neste sentido, nota-se, sobretudo nos últimos quinze anos, o surgimento de verdadeiros nichos online de cultura. Assim podemos considerar os sites especializados em música, teatro, cinema, fotografia, pintura e diversas manifestações artísticas, incluindo o objeto de estudo deste trabalho, a literatura. Para Edson Cruz: Com o advento da linguagem digital, inesperadamente, a escrita impressa e a linguagem habitual do livro, a literária, feita de letras, sintaxe, sintagmas, morfologia e conotações ganhou em importância. Jovens educados e criados em um ambiente predominantemente visual, saturados de imagens e ícones da cultura contemporânea, começaram a se voltar para a linguagem escrita estimulados pelo correio eletrônico, MSNs e outros

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diálogos entre suas comunidades sociais8.

O Youtube9, por exemplo, é um site da Google que reúne vídeos dos mais diversos segmentos, classificados por temas e palavras-chave, que permite ao internauta divulgar material extraído de outros meios e até mesmo seu trabalho a partir de um cadastro básico. O mesmo acontece com o Myspace 10, um serviço de rede social que utiliza a internet para comunicação por meio de um sistema interativo de fotos, blogs e perfis de usuário, na maioria músicos, que disponibiliza – e às vezes lança em primeira mão – mostras do seu trabalho. Também especializado em música, o LastFm11 é um site com função de rádio online em que o usuário pode ouvir as músicas que já estão em seu computador e obter acesso a perfis de outros usuários e assim, criar uma grande rede. O maior site de relacionamento do mundo, o Facebook 12, fundado por exestudante da Universidade de Harvard e que reúne cerca de 1 bilhão de usuários, disponibiliza comunidades virtuais e testes cujo enfoque é a literatura. Já o site que por cerca de cinco anos foi o maior com número de adeptos brasileiros, Orkut 13, possui centenas de comunidades relacionadas ao tema. A comunidade “Literatura”, com mais de 100 mil membros, é a que agrega o maior número de tópicos a serem discutidos, Entre as comunidades de autores brasileiros com mais membros estão as dedicadas a Carlos Drummond de Andrade, com quase 270 mil pessoas, a Mário Quintana, com 183 mil e a Machado de Assis, com 97 mil. Outro site que tem adquirido muitos adeptos da literatura é o Twitter 14, uma rede social e servidor para microblog, que permite ao usuário publicar atualizações com no máximo 140 caracteres respondendo a pergunta: “O que você está fazendo?”. As postagens podem ser feitas no próprio site, via e-mail, torpedo de celular, mensageiro instantâneo e outros programas especializados. Esta, na verdade, era a proposta inicial do site. Hoje o twitter é mais veloz que blog, mais móbil, mais afeito a divulgação de novidades e informes, por isso o ganho no quesito de difusão publicitária – integrativo – mais dinâmico, interativo, de natureza mais efêmera ainda do que blogs. Criado nos Estados Unidos em 2006, não há estimativa fiel sobre a 8

http://www.musarara.com.br/literatura-e-cultura-em-tempos-digitais http://www.youtube.com 10 http://br.myspace.com 11 http://www.lastfm.com.br 12 http://www.facebook.com 13 http://www.orkut.com 14 http://twitter.com 9

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quantidade de usuários, mas fala-se em mais de 11 milhões, tendo aumentado em quase 500% no último ano, chamando atenção de grandes empresas publicitárias que viram no site uma forma de obter lucro. Por se tratar de um site que valoriza essencialmente a palavra, muitos escritores têm feito uso do site para exercerem seu trabalho. Alguns deles, como o pernambucano Marcelino Freire15 chegou a lançar uma série de microcontos – ou contos nanicos, como denominou – que escreve quase que diariamente, respeitando o limite máximo de caracteres por post. Já houve inclusive um concurso de microcontos via Twitter, cujos textos podem ter conteúdo livre, desde que comecem e encerrem uma ideia e sejam capazes de expressá-la de forma literária, a exemplo do que acontece no Japão com os keitai shosetsu (romance de celular) em que pequenos trechos de romance ou contos são enviados para o celular. A literatura contemporânea também tem feito uso da internet, mais especificamente dos blogs, revistas digitais (produção literária e crítica) e e-books para promover ao leitor do século XXI não apenas o acesso à literatura, mas também mais proximidade com o escritor. Por dificuldades financeiras, crise do mercado editorial, falta de políticas públicas que favoreçam os escritores novos, fusões ou outros motivos, alguns profissionais optam ou veem na internet o primeiro passo para publicação. É um novo mecanismo de difusão e que termina por impor e alterar a própria estrutura clássica do texto, da mesma forma que um filme feito para televisão é distinto de um feito para cinema, de uma notícia de jornal se distingue de um livroreportagem. Por meio das ferramentas da esfera pública 16 virtual (grupos de discussão, e-mail, sessões de bate-papo on-line, conferências, mecanismos de busca, banco de dados, blogs) são facultadas ao escritor novas possibilidades, tais como distribuição gratuita, muitas vezes irrestrita, de informação e divulgação de textos publicados e não publicados no papel.

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http://eraodito.blogspot.com HABERMAS, 1984, p. 42

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2. A QUESTÃO DOS BLOGS 2.1 BLOG: O PAPIRO ELETRÔNICO De junho de 1993 a junho de 1996, segundo Artur Vasconcelos Araújo, mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo, o National Center for Supercomputer Aplications (NCSA) da Universidade de Illinois, nos EUA, onde foi desenvolvido também o primeiro browser para internet, manteve uma página chamada What´s New, semelhante ao modelo de Tim Berners-Lee. De acordo com Araújo, apenas em 1995 é que surge no Brasil aquele que é considerado o primeiro blog brasileiro, o Blue Bus17, cujo nome evoca o de um projeto editorial on-line norte-americano. A página de hipertexto está vinculada à ideia de blog por apresentar arquivos de texto em ordem cronológica reversa, ou seja, do mais recente para o mais antigo, mais uma das características da ferramenta. E é aí que entra Jorn Barger e o termo weblog, criado por ele para denominar seu site, Robot Wisdom Weblog18, uma home page caracterizada por uma coleção de comentários com links para outras páginas da internet. Seu site foi um importante agente de disseminação do conceito, mesmo antes da criação de ferramentas de edição de hipertexto, que redefiniram a palavra blog. Logo se popularizaram os sites e as páginas pessoais, os blogs (do inglês blog, abreviação de weblog: web = rede, log = diário de bordo). Trata-se de um diário online, no qual atualmente são redigidos textos (posts) e podem ser agregados vídeos, fotos, sons e diversos outros utilitários. Apesar das controvérsias, credita-se ao estadunidense Jorn Barger a criação do primeiro blog, em 1997. Para o fundador e diretor-executivo da empresa UserLand Software, Dave Winer, a primeira manifestação de blog veio justamente com a primeira página produzida no formato html, em 1992, produzida pelo criador da world wide web, Tim Berners-Lee, no Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (Centre Européen de Recherche Nucléare). Isso porque tal página possuía links e comentários. Atualmente há vários serviços gratuitos que disponibilizam as ferramentas básicas para criar este tipo de páginas, mas foi em julho de 1999 que a empresa Pitas, de Andrew Smales, começou seu serviço de criação de blogs. Outras empresas como a Pyra e a Groksoup lançaram serviços semelhantes e, desde então, estes e outros sites 17 18

www.bluebus.com.br. www.robotwisdom.com.

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só fizeram aumentar a proliferação de blogs pelo mundo. No mesmo ano a Pyra lançou o Blogger, uma ferramenta de blogs que facilitou a tarefa de publicar postagens diárias. Com o surgimento dessas ferramentas mais simples de publicação de blogs, tornou-se mais fácil ao usuário pouco habilitado a publicar na Web, já que antes era restrita àquelas pessoas que soubessem programação em html e qualquer um com acesso a um computador passou a ter a oportunidade de postar seus textos em blogs.

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2.2 O BLOG E OS NOVOS ESCRITORES Se antigamente alguns escritores brasileiros começaram suas carreiras escrevendo em periódicos, como cronistas, contistas ou mesmo como repórteres, muitos nomes desta nova produção literária vêm dos blogs.

Ao contrário de um diário pessoal e restrito, o blog é por natureza um instrumento de comunicação, de difusão de uma experiência subjetiva, cronologicamente demarcada. Quase como um espaço de crônica pessoal, com o passar do tempo, o sentido do termo foi ampliado porque o próprio blog adquiriu uma linguagem fundamentada no poder de propagação de texto. Por isso, rapidamente foi apropriado por uma gama de escritores e assume papel importante no processo de organização de uma esfera pública virtual, de ordem política, social e cultural.

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Emílio Fraia19 e Vanessa Bárbara20 escreveram juntos o O Verão de Chibo, publicado em 2008. O processo, inspirado na obra de Bustos Domecq – personagem criado pelos escritores argentinos Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares que escreveram quatro livros juntos - durou dois anos e consistia em criar um texto e enviá-lo por e-mail ao companheiro. Quem recebia tinha liberdade de acrescentar, exterminar ou até mesmo reescrever o texto, que mandava de volta ao parceiro até construir um romance. Outro exemplo é o projeto Amores Expressos21, iniciado em 2007, em que dezesseis escritores brasileiros tiveram de passar um mês em alguma cidade do mundo, sob a incumbência de voltarem com um romance de amor a ser publicado pela editora Companhia das Letras. Além da ideia do livro se transformar em filme, os organizadores, Rodrigo Teixeira e João Paulo Cuenca, criaram um blog para cada autor que, no período em que estivesse fora, deveria atualizar com textos sobre o processo de criação. No período da viagem os autores tiveram tempo de conhecer as especificidades das metrópoles e, sobretudo, extrair experiências que pudessem proporcionar a escrita de uma obra literária, tendo a cidade como cenário e inspiração para suas narrativas. O projeto multimídia gerou discussões calorosas mesmo antes de seu lançamento oficial. A princípio, seria financiado por meio de recursos públicos (Lei Rouanet), mas durante o processo Rodrigo preferiu pedir o arquivamento do projeto. O custo da audaciosa empreitada, cerca de R$ 1,1 milhão, foi então captado pelo próprio produtor e teve apoio da editora Companhia das Letras, que detém os direitos de publicação. 19

http://www.givago.com http://www.hortifruti.org 21 http://www.amoresexpressos.com.br 20

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A polêmica se deu pelo menos por três motivos. O primeiro - e que gerou o maior número de burburinhos entre a classe literária - foi o valor orçado para o projeto. Enquanto muitos achavam uma ideia maravilhosa, alguns escritores, jornalistas e blogueiros publicaram cartas, réplicas e tréplicas sobre o assunto, alegando ser absurdo e desnecessário tamanho investimento. Além disso, foi pauta para discussão a escolha das cidades e dos escritores selecionados. Se por um lado todo aquele alvoroço em torno do assunto causou certo desconforto, serviu também para que se levantasse um debate sobre a questão das leis de incentivo à produção literária. Nos últimos dez anos, mais de doze mil projetos para edição de livros foram encaminhados ao Ministério da Cultura, sendo que quase dez mil foram aprovados. A existência ou não de escritores ficcionistas que recebem incentivos fiscais está relacionada com a aprovação de respectivos projetos, quer sejam propostos por pessoas físicas ou pessoas jurídicas que apresentem em seus estatutos finalidade cultural. Mas, além da aprovação, é necessária a captação de verba para produção, o que acaba adiando e muitas vezes inviabilizando a continuidade do processo. Quase como um espaço de crônica pessoal, com o passar do tempo, o sentido do termo foi ampliado porque o próprio blog adquiriu uma linguagem fundamentada no poder independente de propagação de texto. Por isso, rapidamente foi apropriado por uma gama de escritores, principalmente os jovens, com domínio do meio tecnológico da internet, que assume papel importante no processo de organização de uma esfera pública virtual, de ordem política, social e cultural. Apesar de alguns dos blogs do projeto não permitirem comentários, o simples fato de sua existência como um diário de bordo abre espaço para discussões de como se dá a comunicação entre autor e leitor numa época em que a tecnologia e meios eletrônicos imperam nas relações humanas. O fato de abrir um espaço na internet, propenso a críticas, sugestões e compartilhamento de ideias proporciona uma nova forma de ler, à medida que tira do leitor a passividade consentida da leitura no papel e faculta a possibilidade de comentar e assim, interferir no texto ainda em processo de criação. A dinâmica na web é fascinante, exatamente porque consegue abrigar e potencializar um sem número de práticas literárias diversificadas, incluindo-se aí a literatura, como é tradicionalmente definida com seus critérios de valores, qualidade, permanência e fundada na legitimidade da

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função autor. Esta literatura também circula livremente na rede e beneficiase de uma visibilidade e facilidade de acesso só permitida pela natureza relativamente aberta e descentralizada da web22

Esses apontamentos podem mostrar que os comentários são elementos significativos da cultura dos blogs na relação escritor-leitor, e que são, se não essenciais, muito importantes como ferramentas que dinamizam a relação autor/leitor e são fundamentais como ferramentas de interação, alterando, inclusive o trabalho do escritor, à medida que havia uma outra dinâmica na construção de um texto literário. Chartier (2002) considera a revolução eletrônica como uma revolução original da escrita e da leitura. Para ele, a originalidade da revolução do texto eletrônico apoia-se no fato de obrigar os escritores e os leitores contemporâneos a abandonarem todas ou grande parte das heranças deixadas pelo rolo e pelo códice. Vejamos o exemplo da escritora carioca Ana Paula Maia 23, que é autora daquele que é considerado o primeiro romance escrito e lançado num blog, antes de sua publicação impressa, o livro Entre Rinhas de Cachorro e Porcos Abatidos. O trabalho do autor, mesmo que seja apenas um esboço publicado na internet pode tornar-se um texto original, passível de interação e, consequentemente, de transformação porque pode ser alterado de acordo com a recepção. No caso de Ana Paula Maia, o livro, quando publicado em papel teve um final diferente daquele no blog. Historicamente, o escritor escrevia e colocava seus originais numa gaveta e ia à cata de um professor ou escritor mais velho e já reconhecido para ajudá-lo a encaminhar seu texto para edição, ou seja, para torná-lo público. Segundo Heloísa Buarque de Hollanda24 este mecanismo de guardar e ser "ajudado" é milenar. Tem traços como a “preservação segura da autoria e do patrimônio (guardar) e depois a garantia quase patriarcal de pertencer a uma família literária (que não é a sua), assim ele vem a público seguro e protegido”. Atualmente os autores postam seus trabalhos simultaneamente ao gesto de criação (ou quase) e fazendo isso, eles sabem que o trabalho está aberto, de certa forma "encena" um autorpersonagem, como propõe Heloísa Buarque de Hollanda, com efeitos verificáveis em seu texto, um personagem cujo texto postado em blog dialoga com o leitor, fazendo de si matéria da literatura, e cria uma rede geracional de debate e troca 22

HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Disponível em http://www.oinstituto.org.br/enter http://www.killing-travis.blogspot.com 24 Entrevista concedida por e-mail em Maio de 2009 23

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mais eficaz e dinâmica do que a antiga "vida literária" do século XIX, que tanto fez pela consolidação da nossa literatura. O blog é essencialmente autoral, ou seja, não há necessidade de um editor ou intermediário para que o conteúdo criado seja autorizado a ser publicado, daí o uso da primeira pessoa, a fragmentação do texto separado por datas de postagem, a multiplicidade de referências e links para outras páginas e outros blogs, a intertextualidade, a metalinguagem, elementos tão em voga na literatura contemporânea. Essas mudanças estruturais na autoria (intrínseca a uma autoria compartilhada) e no processo de divulgação e consumo da obra literária certamente estão definindo novas e irreversíveis formas de práticas literárias. O autor, à medida que provoca o contato com o leitor, seja participando da mesma rede social como o Twitter (ver exemplo/figura 1) ou de comunidades virtuais em sites de relacionamento como o Orkut ou Facebook e, principalmente por seus blogs, torna-se, além de produtor, divulgador de seu trabalho artístico na rede. Neste sentido, temos o computador como um extensor da capacidade humana de produzir linguagem e não apenas como mais um suporte.

ESTA TAL WEBLITERATURA

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BIBLIOGRAFIA

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ANEXO I - FIGURAS

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Figura 1: exemplo de autor que se utiliza do Twitter para divulgar seu livro.

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Figura 2: post extraído da página O Frágil Toque dos Mutilados, de Alex Sens Fuziy no processo de escrita de seu livro.

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Figura 3: post extraído do blog O frágil toque dos mutilados, de Alex Sens Fuziy

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ANEXO 2 – ENTREVISTA Trecho da primeira entrevista com a crítica literária Heloisa Buarque de Holanda, que deu início ao processo de pesquisa para este trabalho na fase do projeto de Mestrado.

Lucas, aí vão as respostas. Eu gostaria de saber mais sobre seu trabalho "as comunidades do ódio na internet"..... abs h 1) como você vê a relação entre autor e escritor via internet? De que forma esta facilidade de interação altera (ou) não o trabalho do escritor? Acho que altera sim. Historicamente o escritor escrevia e colocava numa gaveta seus originais e ia à cata de um professor ou escritor mais velho e jea reconhecido para ajudá-lo a encaminhar seu texto para edição, ou seja, para torná-lo público. Esse mecanismo do guardar e ser "ajudado" é milenar e tem traços como a preservação segura da autoria e do patrimônio (guardar) e depois a garantia quase patriarcal de pertencer a uma familia literária (que não é a sua). assim ele vem a publico seguro e protegido. Hoje os autores postam seus trabalhos simultanemente ao gesto de criação (ou quase ) . fazendo isso ele sabe que o trabalho está aberto, de certa forma "encena" um autor-personagem com efeitos verificáveis em seu texto, e cria uma rede geracional de debate e troca mais eficaz e dinâmica do que a antiga "vida literária" do século XIX que tanto fez pela consolidação da nossa literatura. Essas mudanças estruturais na autoria (que namora fortemente com uma autoria compartilhada) e no processo de divulgação e consumo da obra literária certamente estã definindo novas e irreversíveis formas de práticas literárias. 2) bem sabemos que a 'literatura sem papel' é pré-livro (pelo menos em formato codex). Neste sentido, o que mudou na essência da literatura com o advento de novas tecnologias da informação? Eu acho que respondi na pergunta anterior. Se não, formula de novo pra mim que eu respondo. 3) Como você vê a questão das revistas eletrônicas via internet, sobretudo de crítica? A revista é uma midia bastante específica de divulgação de informação , pesquisas, trabalhos científicos ou acadêmicos. Sendo assim ela exige rapidez. Ora, para a produção de uma revista exige-se pelo menos , numa visão arquiotimista, 3 meses. Fora o tempo de receber artigos etc. Esse tempo lento da publicação em papel, é incompatível com a rapidez solicitada pelo conteúdo informacional da revista. Penso que , se o livro, tende a permancer enquanto livro, pelo menos um certo tipo de livro,as revistas impressasa tendem a desaparecer ou se transformar.

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