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PORTFÓLIO Lucas Botelho


Quando a —F

echem os olhos, respirem lentamente e imaginem como será o caminho, a chegada e o local da deriva. — Era essa a instrução inicial. Assim fizemos. Ainda na mesa da lanchonete, após tomar o café, escrevo o que imaginei para a nossa deriva, muito baseado no que havia visto do Rio de Janeiro até então e em um pouco daquilo que pesquisamos sobre o bairro na noite anterior: “Fecham-se os olhos e se ilumina a mente”. No caminho, o calor nos cansa, mas olha só — os ônibus têm ar condicionado aqui no Rio! Cheio de gente indo pra todo lugar, não há banco vazio. Ficamos em pé e, aos poucos, conseguimos nos sentar. Descemos do ônibus. Volta o calor. As ruas, com seu vai e vem de pessoas e automóveis, se enfiam abrindo caminho entre lojas e casarões antigos. O lugar se assemelha a uma cidade antiga, com suas construções e a praça, que já deve ter atraído muita gente nesses anos que passaram. Nas calçadas e na porta de algumas lojas, estão sentados alguns senhores, vestindo uma camiseta social de manga curta, aberta no peito. Em uma lanchonete, duas mulheres de uns 35 anos conversam descontraidamente sobre alguma aventura do final de semana. Há muitos moradores de rua (ou de calçada) — dormindo, pedindo moedas, catando latinhas nas lixeiras, sentados no chão com o olhar fixo no nada. Tudo bem, terminada a primeira etapa, fomos para o ponto de ônibus esperar o ônibus da linha 238 (Água Santa - Praça XV), que nos levaria até o Méier. Minha imaginação não conseguiu se aproximar muito da realidade, nem mesmo no clima. O sol, que esteve intenso de manhãzinha, sumiu entre as nuvens e até um encontro com a chuva nós tivemos. E não, dessa vez o ônibus não tinha ar condicionado e estava quase vazio. Nos sentamos e ficamos observando o caminho. Lapa, Estácio, Maracanã, Tijuca, Andaraí, Grajaú, Engenho Novo, Méier. Descemos do ônibus na rua Dias da Cruz, de frente à Praça Agripino Grieco, e, para nossa surpresa, estávamos no centro de Goiânia. Brincadeiras à parte, consideramos grande a semelhança entre aquela parte do bairro com a região central de nossa cidade. Uma agência bancária da Caixa de frente e uma música tocando em uma loja ao lado. Apesar do chuvisco leve, havia muita gente na rua. Incansavelmente e com um pulmão de dar inveja, um homem alto, que vendia biscoitos numa barraquinha atrás do ponto de ônibus, berrava sem parar: — Qualquer pacote é um real! Qualquer pacote é um real!

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Seguimos por uma rua qualquer, meio sem direção, e fomos andando pelo bairro. Apesar de antigo, o bairro não tem uma arquitetura ou identidade marcante. A maioria dos prédios é “moderna”, quadradão mesmo, e apenas um ou outro segue algum estilo. Há muitos estabelecimentos comerciais e também


a chuva passa vários prédios residenciais. Na rua, muita gente, de todos os estilos, cores, idades e tamanhos. Há por ali várias escolas e uma universidade particular e, por isso, encontramos muitos estudantes uniformizados pela rua. O cheiro de esgoto, como no resto da cidade, continua presente e o clima ameno faz com que alguns vistam blusas de frio. O chuvisco leve fica mais forte, fazendo com que nos abrigássemos em uma loja de produtos esotéricos. Lá ficamos um bom tempo — esperando a chuva, observando a loja, cheirando incensos, falando de baralhos e conversando com pessoas bem interessantes. Quando a chuva passa, vamos para o Imperator. O Imperator hoje é um centro cultural com cinema, teatro, salas de exposição, espaços de convivência, etc. Muito antigo, foi reformado e reaberto há pouco tempo. Tem como patrono João Nogueira, sambista carioca do Méier. Quando surgiu, o Imperator era apenas um cinema e, mesmo assim, o ponto de encontro da juventude da época. Procurando pessoas que frequentavam o cinema de antigamente, encontramos um senhor sentado num banquinho de concreto na calçada. De barba e cabelos brancos, rosto redondo e pele negra, apoiando o corpo numa bengala, estava Hélio Bastos. Morador do Méier há 56 anos, ele conta: — Eu na minha época aí a coisa era boa. Tinha muita diversão, essa coisa toda. Esse cinema aí eu já frequentei muito, entendeu? E o Méier em geral né, o bairro todo aqui, era bom, tinha um shopping center ali que foi o primeiro shopping center da América do Sul, o shopping center do Méier. Já foi bom também, mas agora não. Tinha o Gargalo, essas coisa toda, entendeu? Mas era bom o negócio aí. Frequentei muito aí esse negócio.

Publicado originalmente na revista “Becos Comunicantes”.

Apesar de não ser um bairro famoso nem turístico, o Imperator mostra como o Méier marcou a história do Rio de Janeiro. Ao relembrar a instrução inicial, é possível fechar os olhos e imaginar o caminho, mas agora ao passado, de volta ao Méier de João Nogueira e tantos outros. “Você sabe eu sou do Méier Não preciso da cidade pra viver Pois o Méier tá com tudo, pode crer. Se você não acredita, por favor vai ver. O Méier tem um jardim pra gente amar É lá que eu vou construir meu lar. O Méier sempre foi o maioral É a capital dos subúrbios da central.” (Samba do Méier – João Nogueira)


Trupes de palhaços invade

Pesquisas e pacientes atestam o efeito pos

S

ão oito horas da manhã do dia 1º de junho, um domingo, e enquanto boa parte das pessoas ainda nem acordou, cerca de 30 jovens já estão de pé, se reunindo no fundo de uma casa no Parque Anhanguera I. Eles fazem parte do Grupo Alegria, um coletivo que há dois anos e meio visita hospitais em Goiânia para levar música, sorrisos e amor. Maquiagens, perucas e roupas coloridas. Caracterizados de palhaço, eles saem para ação – o destino de hoje é o hospital Santa Casa de Misericórdia. Durante o trajeto, cada semáforo fechado se torna sinônimo 30 palhaços dançando alguma música brega no meio da rua. O porta malas aberto de um Uno se torna o abrigo de um palhaço de calças amarelas muito largas, que chama atenção durante todo o trajeto usando um cone de trânsito como megafone. Quando chegamos ao hospital, o tradicional e sagrado silêncio se transforma com o som da música, das histórias, das piadas e das gargalhadas. Feições sisudas somem, dando lugar para o brilho de um sorriso. Almas silenciosas se abrem para contar histórias da vida. Histórias do presente, do passado, e até mesmo do futuro. Modas de viola, músicas populares e confissões de fé ecoam pelos corredores. O slogan da Santa Casa ilustra bem o momento: “Nossa vida a serviço da sua”. A maior recompensa daqueles que foram ali naquela manhã é ver surgir a alegria naqueles que estavam tomados pela tristeza, e ver surgir a vida onde antes não se via. Justamente na luta pela vida, muitos se es-

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Publicado originalmente no portal “Moara”.

em hospitais de todo o Brasil

sitivo das visitas de palhaços aos hospitais

quecem do gosto de um sorriso, do prazer de uma gargalhada, e o grupo tenta trazer essa lembrança por cada quarto que passa. Para quem acha que isso não traz efeitos de fato, e vê apenas como algo poético ou com uma brincadeira, pesquisas da ONG Doutores da Alegria junto ao Instituto Fonte para o Desenvolvimento Social, em 2008, e ao Instituto Move, em 2012, mostram um resultado extremamente positivo. Os resultados (na tabela) atestam os efeitos da visita dos palhaços nos hospitais. Agrimar Barbosa tem 77 anos de idade, e nessa manhã estava na Santa Casa esperando a realização de sua cirurgia. Quando questionado se via diferença em si e nos outros pacientes após a visita dos palhaços do Grupo Alegria, ele não hesitou: “Claro! Se você viesse amanhã nesse hospital você ia notar a diferença do que é o cara antes e o que é o cara depois dessa visita. É uma coisa maravilhosa. A gente sabe que as pessoas estão em uma

situação muito difícil no hospital, e então no quarto dele entra um jovem cantando... Pelo menos no momento em que o paciente está cantando, conversando com o pessoal, eu tenho certeza de que as pessoas melhoram o astral e que isso reflete no tratamento delas”.

Alegria nos hospitais

O Grupo Alegria iniciou suas atividades no final de 2011, quando Robert Trajano juntou mais quatro amigos para fazer uma visita ao Hospital das Clínicas. A trupe visita regularmente a Santa Casa de Misericórdia, o Hospital Materno Infantil e o Hospital das Clinicas. Atualmente, todo domingo de manhã, cerca de 32 palhaços saem no intuito de levar esperança e motivação para a cura dos pacientes através da alegria e do sorriso. O grupo trabalha com três objetivos: resgatar no paciente a expectativa de se curar, favorecer os familiares e acompanhantes com esperança e consolo, e dar para os pro-


fissionais da saúde a motivação para fazer um serviço qualidade. O Alegria já está em sua quarta formação, com 80 membros. O número atual é 16 vezes maior de membros do que os cinco que começaram essa trajetória. Tainara Santos relata no blog do grupo um momento de uma das visitas: “Nós levamos pelos quartos e corredores essa energia que nos envolve, e brincamos com todos: desde os médicos até os visitantes, pacientes e funcionários. O que pra alguns pode ser uma simples brincadeira, para nós é algo muito especial, um toque de alegria em meio ao sofrimento, um momento de divertimento e uma melhora na autoestima. Brincamos, dançamos e até fizemos um concurso de beleza, onde pequenas beldades se divertiram conosco, com palhaços e crianças desfilando pelo hospital. O que nos motivava a continuar com a diversão era ver tantos sorrisos, que vinham de todas as direções”.

Entrevista

Confira uma entrevista com Robert Trajano, fundador do Grupo Alegria: Há quanto tempo você faz esse trabalho? Faço isso há quase oito anos. O que te levou a começar? Recebi um convite de uma amiga pra me vestir de palhaço e ir a hospitais pra alegrar as pessoas. Eu não entendia muito bem o intuito de fazer isso, e até tinha um pouco de preconceito sobre me maquiar pra ver pessoas que nunca vi, mas criei coragem e fui. No fim da visita, eu estava transformado: estava uma visão complemente diferente, e percebi o quanto era importante, eu estar naquele hospital. Desde a primeira visita, já prometi pra mim mesmo: “Quero fazer isso pra sempre.” E o que continua te motivando a fazer esse trabalho? Primeiramente, eu me divirto demais, e esse é o maior motivo de eu continuar exercendo esse voluntariado. E isso gera conseqüências muito legais. Se eu me divirto, eu consigo fazer quem estar ao meu redor se divertir, o que gera uma corrente tão feliz que um clima hospitalar não é mais lembrado. “Segundamente”, eu adoro ver o Grupo Lotado. Como é bom conhecer pessoas que amam fazer o mesmo que você. Isso me motiva muito, pois, quanto mais palhaços, mais legal é a visita. “Terceiramente”, me impressiono com o resultado desse voluntariado. Aprendemos muito com pacientes, valorizamos cada ponto positivo de nossas vidas, temos uma visão mais ampla do mundo, reduzimos preconceitos, enfim, nos tornamos pessoas mais flexíveis e com uma visão melhor. “Quartamente”, a felicidade dos pacientes é muito visível, muito boa, é gratificante. E saber que fomos nós que causamos isso nos deixa cada vez mais motivados pra voltar na outra semana. Como foi a primeira visita do grupo? Toda primeira visita é um pouco, perdida, mas não existe muito segredo. Quando deixamos o amor nos guiar, tudo que é conduzido por ele, dá certo. Iniciamos o grupo com cinco pessoas. Hoje, quase três anos depois, são 80 jovens, e mais de 400 na fila aguardando vaga.

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O trabalho é bem recebido pelos médicos dos hospitais? Sim. Os médicos são os principais apoiadores. Às vezes pensamos que


médicos são pessoas intocáveis, isoladas, porém estamos totalmente enganados. Eles chegam a ser mais palhaços que nós do Grupo. E sabem o motivo de estarmos no hospital daquela forma. Atuamos nas três áreas do hospital, que são: paciente, acompanhante e médico. Quando motivamos essas três áreas, não há doença que resista! Como vocês fazem quando se abalam psicologicamente com alguma história, com algum caso delicado de um paciente e até com a morte de alguém que vocês acompanhavam? Eu particularmente, já sofri muito com isso, pois criamos vínculos com alguns pacientes, e isso é normal. Como estamos em um ambiente hospitalar, as notícias ruins, se tornar um pouco comuns, mas sempre levamos isso como um aprendizado. Somos bem unidos, e sempre quando alguém está mal, fazemos um “Alegria” interno. É muito bom ter amizades com pessoas que tem um mesmo objetivo que você. Como vocês mantêm o grupo financeiramente? Hoje, cada integrante que vai à visita paga uma ajuda de custo simbólica no valor de cinco reais. Essa ajuda de custo vai para combustível, maquiagens e apetrechos pra visita. Gastamos cerca de R$ 400,00 por mês para manter o Alegria. Ser registrado ou tornar o projeto em uma ONG é muito burocrático hoje. Às vezes se torna até inviável, o que pode motivar a desistência de um grupo. O objetivo do Grupo Alegria hoje é ser registrado, mas com toda essa papelada e burocracia fica bem complicado. Já somos bem conhecidos em Goiânia, e mesmo sem o registro, às vezes, nós conseguimos patrocínio e ajuda, e assim vamos mantendo o Grupo. Como funciona a seleção de novos membros para o grupo? A cada seis meses, fazemos uma nova formação. Já estamos montando a 5ª Formação do Grupo Alegria, prevista agora pra julho, e a seleção funciona da seguinte forma: cada integrante tem o direito de convidar um amigo. Na FanPage do Grupo Alegria, quem nos manda mensagem solicitando vaga tam-

bém é convidado. Somente assim é possível fazer parte da formação. Mas participar da formação não significa entrar no Grupo, e sim uma visita teste para avaliação. Só após a visita teste e a avaliação dos coordenadores que o convidado se torna um integrante fixo.

Piada velha

Alguns pesquisadores apontam que palhaços têm trabalhado em hospitais desde os tempos de Hipócrates, que viveu entre 460 a.C. e 377 a.C. e é considerado por muitos o “pai da medicina”. Entretanto, apenas no ano de 1908, em uma edição do “Le Petit Journal”, é que se encontra o primeiro registro deste modo de atuação dos palhaços. Um marco histórico recente é a trajetória do Dr. Patch Adams, que há mais de três décadas passou a adotar a arte do palhaço nos contatos com seus pacientes. Também de destaca a apresentação do Big Apple Circus em um hospital de Nova Iorque, em 1986, pois após o evento decidiu-se criar o The Big Apple Circus Clown Care, que acabou originando diversas iniciativas semelhantes. Desde então, o movimento vem se expandindo pelo mundo. No Brasil, em 1991, teve início um programa similar com Wellington Nogueira, fundador e coordenador geral dos Doutores da Alegria, que se define como uma “organização dedicada a levar alegria a crianças hospitalizadas, seus pais e profissionais de saúde, através da arte do palhaço, nutrindo esta forma de expressão como meio de enriquecimento da experiência humana”. De acordo com um levantamento realizado pelo Centro de Estudos Doutores da Alegria, em 2001 existiam no Brasil 180 grupos de voluntários que operavam dessa maneira em hospitais. A instituição afirma que existem atualmente mais de 600 grupos de palhaços em todos os estados brasileiros atuando nos hospitais.


Provis N

um carro estamos eu, Natália, Paloma e o Romualdo, professor do IESA. No outro, alguns alunos dele. Levamos no parta malas uma tonelada de equipamentos, dos quais, mais tarde, utilizamos só um pouco. Dentro do carro, o som toca apenas músicas românticas dos anos 80 – “como num motel”, disseram. Nessa trilha sonora, nos perdemos por mais de uma hora, até achar o local certo. Pedimos informação numa borracharia na beira da estrada, e enquanto um senhor indica o caminho pro Romualdo, observo um garotinho pardo e um filhotinho de cachorro preto, bem pequenininho e fofo, brincarem sob a sobra de uma mangueira imensa. Seguimos no caminho correto dessa vez. “Tá quente”, poderíamos dizer, já que nas estradas próximas ao acampamento havia vários carros da polícia militar parados, fiscalizando quem passava. Chegamos às propriedades do senador Eunício Oliveira, e na porta da fazenda, mais polícia militar. E até dentro da fazenda, adivinha só? – polícia militar, a postos, de prontidão. Estranhamos todo esse efetivo, já que nas cidades do interior do estado ele é bem reduzido. Disseram que eram policiais deslocados da capital para a reintegração de posse, e que só não haviam mais deles ali naquele momento por conta de algum evento grande que estava acontecendo em Goiânia naquele mesmo período, o qual não me recordo agora qual era. Por não haver maior efetivo, ninguém esperava que a reintegração de posse fosse realizada naquele momento. Chegamos, finalmente, ao acampamento. Na entrada, várias pessoas de guarda. Nos identificamos e entramos. Alguns do nosso comboio descem; prendem uma faixa de apoio à ocupação na cerca de arame farpado; tiram algumas fotos desse momento; e já querem ir

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Publicado originalmente na revista “Becos Comunicantes”.

são do sol embora. “É tarde!”, diziam. Entretanto, já era tarde mesmo. Equipamento nas costas e pé na roça, já estávamos mais do que pra dentro do acampamento. A moça de cabelo preso num rabo de cavalo e camiseta vermelha com estampa do Che nos guiava entre as barracas. Bloquinhos, canetas, câmeras, olhos atentos. Empatia. Esperança. Esperança sempre presente, nas lutas sociais em todo canto do mundo. Não era diferente no Dom Tomás. Esperança do Núcleo Esperança, acampado ali na Santa Mônica, logo ao lado do Grupo Jeová Jiré. A expressão, vinda do hebraico yêhovah yireh, significa a esperança de que “o Senhor proverá”, seja o que for que se espera. A esperança também se espalhava pelo ar, pelas ondas eletromagnéticas e invisíveis. Ao mesmo tempo em que o senhor de camisa polo azul e chapéu de branco liga o seu celular numa antena para conseguir sinal, a rádio do acampamento – que funcionava dentro da casinha amarela – leva a voz da sua gente para todo o vento, até onde as ondas de nome complicado lhes permitirem. Quase dentro da mata,

tem família camponesa em resistência. Resistem todos juntos, cada um em alguma ou algumas frentes do movimento, numa luta de companheiros. A gente tentou colocar tudo isso dentro do quadro da câmera, ou do quadro do texto, mas aqui cabe assumir que não conseguimos. O da câmera sumiu e se perdeu; o do texto demorou e se esqueceu. E mesmo que assim não tivesse sido, são todas elas e todos eles muito maiores do que isso. Imensos como indivíduos, gigantes como família, colossais como movimento. E assim sempre o serão, na sua vida e nos seus vividos. Eis que então o sol começa a se por, e temos que ir embora. Romualdo estava um pouco nervoso, pois a faixa já estava há muito estendida, as fotos tiradas, a polícia na porta, a noite chegando, e nós ainda lá. Mas no final, tudo certo. Ficaram a faixa, as conversas e os trabalhos de apoio. Conosco, levamos parte da esperança que tangenciava todo o acampamento. Nada disso como troca, e sim como presentes para todos nós, já que esperança não se divide, mas se multiplica. E o sol, que naquele dia nos fez a despedida, renova as nossas esperanças, toda vez que nasce e se põe.


Viva Gato acolhe animai

Projeto que se mantém apenas

O

projeto Viva Gato é uma organização não-governamental (ONG) de Goiânia que regata felinos em situação de risco e promove a adoção responsável. O Viva Gato começou com Stella Dalcin, uma das diretoras, que desde criança já acolhia e ajudava gatinhos abandonados. Há cinco anos, ela começou a acolher os gatos em casa – começou aí o Projeto Viva Gato. “No início os gatos ficavam na casa da fundadora, mas depois, mais pessoas se juntaram a ela e uma casa foi alugada para esse fim”, afirma Monik Oprea, voluntária e uma das diretoras do projeto. Atualmente a ONG conta com 14 voluntários ligados diretamente ao Projeto, que tomam conta dos 117 gatos que estão no abrigo e em lares temporários. O Viva Gato se mantém apenas com doações. “Fazemos várias campanhas e parcerias para arrecadar dinheiro para os gastos (aluguel, contas da casa, alimentação, areia higiênica, produtos de limpeza e cuidados veterinários). Também temos parceiros para eventos como o Viva Doce e o Meow Tattoo, onde os participantes doam uma parte do valor arrecadado para o Projeto”, conta Monik. A adoção dos animais é feita sob triagem. A ONG marca uma visita com o adotante na casa do Projeto, para que ele conheça os gatinhos. Para adotar é necessário ter mais de 18 anos e morar em um local sem acesso a rua (casa com muros bem altos ou apartamento telado). A taxa de adoção é de R$50 e é usada para ajudar nos gastos – os gatos são entregues na casa do adotante, vacinados, vermifugados, castrados, com teste de FIV/FeLV e atestado de saúde. Segundo a diretora, a castração é realizada em todos os animais, pois diminui o risco de adquirirem doenças e é o único meio de evitar que mais gatinhos nasçam e sejam abandonados. “Não há lares para todos, a castração é a única solução para diminuir o abandono”, explica. Além de recolocar os gatos abandonados em novas famílias e em segurança, o Projeto trabalha com a orientação constante dos novos donos de gatos.

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Mitos

Muitos veem os gatos como animais frios ou egoístas, além do estigma da transmissão de doenças. No entanto, Monik afirma


is abandonados para adoção

s com doações cuida atualmente de 117 gatos

que a causa dessa fama é a falta de informação. “Na maioria das vezes, quem nunca conviveu com gatos se apaixona quando começa essa convivência. Os gatos são mais auto-suficientes e não tão carentes quanto os cachorros, por isso são tidos como egoístas e frios. Sobre as doenças, estando saudáveis e tendo o acompanhamento veterinário correto, não transmitirão doenças (assim como os cães). Um dos maiores problemas de abandono é o medo da toxoplasmose, mas é muito mais fácil ser contaminado por alimentos mal preparados do que por um gato”, alerta. A ONG também chama atenção para a relação entre as crianças e os gatos: apesar de crianças

Na maioria das vezes, quem nunca conviveu com gatos se apaixona quando começa essa convivência mais agitadas não se darem muito bem com os felinos, “existem crianças que entendem o tempo do gato, aceitam a rotina do gato, aprendem logo como segurá-lo, como acariciá-lo. É maravilhoso o contato destas crianças com os felinos. Normalmente são crianças mais observadoras, tranquilas e curiosas. Adoram descobrir e aprender por si próprias e nisto o gato é um prato cheio para sua mente criativa”.

COMO AJUDAR O endereço do abrigo não é divulgado para evitar abandonos na porta do local, mas quem deseja ajudar pode apadrinhar um gatinho com o valor de R$ 30,00 mensais, doar um saco de ração mensalmente ou ainda fazer depósito de qualquer quantia nas seguintes contas: Banco do Brasil Agência 4405-9 Conta Poupança 6454-8 Variação 51 Em nome de Jéssica de Morais

Caixa Econômica Federal Agência: 1340 Conta Poupança: 00039502-5 Operação: 013 Em nome de: Braganic O. Braga


Imperator - história e O

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histórico Meiér, bairro da zona norte do Rio de Janeiro, tem esse nome graças a uma grande fazenda de engenho ali existente nos primórdios da capital. Ao longo dos 450 anos da cidade maravilhosa, o Grande Méier — como é chamado por seus moradores — com certeza já foi palco das mais diversas histórias que se dissiparam no tempo, muitas das quais não podemos imaginar nem a metade. É o lugar onde escravos fugidos já correram, grandes crimes foram cometidos; por ali viveram felizes e tristes cidadãos, e, a julgar pela característica mais forte do ser humano, muitos corações partidos encontraram no vetusto gigante carioca o seu lar. Nessa segunda feira de dias atuais, o caminhar pelo centro comercial do bairro na Rua Dias Cruz nos traz a visão dos mais diversos tipos de pessoas. Adolescentes com seus uniformes e mochilas correm junto aos casais de velhinhos para se abrigar da garoa de junho, que insiste em atrapalhar quatro estudantes de jornalismo derivantes a achar uma pauta. O dia é chuvoso, mas não é frio — pelo menos pra três goianos e uma paulista —, mas parece que a população local está à espera de uma nevasca, empacotados nos melhores casacos que o inverno 2015 pode lhes proporcionar. Nesse amontoado de lojas e pessoas de passos apressados, encontramos a mistura dos mais diversos tipos de comércios que dão ao bairro um feitio único. Logo à frente está situado o Shopping do Méier, pioneiro na América Latina; ali perto também há uma loja de artigos esotéricos; na outra esquina uma loja árabe divide a clientela com grandes redes de fast food; ao longe ainda podemos ouvir os gritos, quase incompreensíveis, do vendedor de biscoito na esquina: — Qualquer pacote é um real! Qualquer pacote é um real! No meio desse alvoroço, paramos para pedir informação a um senhor em uma pastelaria. Seu nome era Mario Andrade e ele era tão pouco convencional quanto seu bairro. Mário é ex-militar e monarquista. Sim. Ele realmente acredita que o futuro do nosso país só terá salvação se nosso imperador voltar um dia a governá-lo. Perguntamos a ele onde era a escola de samba mais próxima, porém ele não soube nos explicar ao certo. Ao ver o interesse de um grupo de quatro aspirantes a jornalistas totalmente perdidos no Méier, seu Mário desatou a falar. O antigo morador começou então a relembrar de sua longa trajetória no bairro, pôs de lado seu guaraná e deixou o pastel esfriar para nos transportar aos “Anos Dourados” do grande Méier. Bem ali, na Rua Dias Cruz, existiam três points muito badalados; eram eles três cinemas — o Cine Para Todos, o CineArt e o famoso Imperator. Na década de 1960, esses locais eram muito pro-


Texto coletivo publicado originalmente na revista “Becos Comunicantes”.

e cultura no Grande Meiér curados pela juventude. Seu Mário nos contou que cariocas de todos os cantos da cidade pegavam suas lambretas e iam ao Méier para ver um filminho, ter um namorico e dançar lambada nas esquinas, ao som do rádio dos carros. O ex-militar se recordou também dos carnavais que lotavam as ruas do bairro e encheu a boca para afirmar com todas as letras que ninguém havia sido mais folião do que ele. Contudo, nos tempos atuais, o maior folião do Méier se sente profundamente indignado com a festividade. Para ele, o “carnaval virou um turismo explorado e deprimente”. O relato do passado dessa figura fantástica do Méier chamada Mário nos motivou a procurar pela velha guarda local. Depois de muitos “não”, algumas caras bravas e um tanto de ignoradas, encontramos outro personagem inusitado, sentado num banquinho de concreto na calçada em meio ao agitado cenário das ruas do bairro. Barba e cabelos brancos, rosto redondo e pele negra, com o corpo apoiado numa bengala. Era o Seu Hélio. Se você não for íntimo o bastante, é Hélio Bastos, e falar sobre a história do bairro era com ele mesmo. Sob o céu nublado, nos sentamos também no banquinho, e ali pudemos entender um pouco mais do que havia se passado naquele local. — O senhor mora aqui há quantos anos, Seu Hélio? Os olhos dele param enquanto ele tenta se lembrar e então responde: — Tem 56 anos. Na minha época aqui a coisa era boa. Tinha muita diversão, essa coisa toda. Esse cinema aí eu já frequentei muito, entendeu? E o Méier em geral né, o bairro todo aqui, era bom, tinha um shopping cen-

ter ali que foi o primeiro shopping center da América do Sul, o shopping center do Méier, já foi bom também, mas agora não. Tinha o Gargalo, essas coisa toda, entendeu? Mas era bom o negócio aí. Frequentei muito aí esses negócio. — E quando o Imperator ainda era só um cinema aqui antigamente, você costumava frequentar ele? — Fui, fui muitas vezes ali, fui muitas vezes ali. — Você se reunia lá com seus amigos...? — Sim, era bom ali. O lugar era bom. Ali era bom. Aqui foi a escola da malandragem, foi aqui, entendeu? Saiu daqui depois foi pra Copacabana, que aí na zona sul eles construíram o túnel ali, a passagem, aí o pessoal da classe mais elevada saiu daqui, entendeu? O Méier foi o início de tudo aí, da zona norte e da zona sul, entendeu? Aqui é muito bom de morar. — Como é que era a ligação do bairro com a música naquela época? — Olha, vou te falar uma coisa, sempre foi carnavalesco aqui no bairro. O bairro foi sempre bom assim porque o povo era animado. É animado né, o povo do Méier, entendeu? A região administrativa promovia muita festividade aqui né. E aliás, aqui é um local de festividade. Entendeu? Aqui era bom, bom mesmo. — E você já foi lá no Imperator depois da reforma? — Não, depois da reforma não fui mais não, porque agora eu sou cristão, né, graças a Deus. Aceitei Jesus e então essas coisas não interessa muito mais pra gente né, porque agora tem que buscar as coisas do alto, do céu, não as terrenas, materialismo, enten-


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deu? Mais o espiritual né? — Você conhece o João Nogueira, patrono do Imperator? — O Nogueira foi garoto aqui, ele e um monte de artista saiu daqui: Roberto Carlos, quando ainda era o cantor mascarado do Chacrinha, entendeu. Jerry Adriani, Wanderléa, entendeu? Era a jovem guarda. Seu Hélio conhece bem o lugar e a sua história, porque a sua própria história é intrínseca à do Méier. Talvez cansado de perguntas, ele nos interrompe no meio de uma: — E você acha que foi uma boa ideia colocar o... — Vocês são estrangeiros, não é? — Ahn? — Vocês são estrangeiros? — Não... — É o que, americana, você? Você é americano? — Eu sou brasileira. — A gente é daqui mesmo, do Brasil. Mas a gente é de Goiás. — Aaaah, é goiano. — Isso, de Goiânia. — Aaah, tem um sotaque assim diferente. Pensei até que ele fosse gringo aí, fazendo uma reportagem aqui, entendeu? Esclarecidas as dúvidas, continuamos à procura de antigos frequentadores do Imperator e então encontramos Paulo Sergio, que mora no bairro há 24 anos. Ele se lembra bem da época de agitação dos cinemas do Méier, e nos acrescentou algumas informações importantes, sobre a época em que eles fecharam. O Imperator deixou de ser cinema por 30 anos e nesse meio tempo ele foi uma casa de shows, uma discoteca, uma feira e quase se tornou até uma filial da Igreja Universal. O Imperator foi reinaugurado em 2012 e recebeu então o nome de “Imperator – Centro Cultural João Nogueira”. A descoberta desse complexo cultural tão importante e tão rico historicamente para o bairro atiçou nossa curiosidade e decidimos conhecer o Imperator. Não poderíamos perder essa oportunidade de forma alguma! Não tivemos acesso a nenhuma fotografia do Imperator dos “Anos Dourados”, coube à nossa imaginação visualizar o espaço. Mas de uma coisa tínhamos certeza: se o Imperator acolheu tantos jovens em décadas passadas, acolhidos fomos ao chegar nele. Logo na entrada se nota à nossa direita três grandes painéis coloridos com a foto do patrono João Nogueira, à esquerda uma espécie de “parede da fama”, mas ao invés de estrelas grandes e pontudas eram placas de cimento autografadas por grandes artistas brasileiros e estrangeiros que se apresentaram no Méier. A lista é grande: Toquinho, Tom Jobim, Maria Bethânia, Nando Reis, Barão Vermelho, Dorival Caymmi, Bob Dylan e tantos outros. Ao adentrarmos no térreo é possível conferir uma bela exposição sobre a vida e carreira de João Nogueira. Os painéis coloridos se repetem em algumas paredes; uma tela touch acompanhada de um fone de ouvido proporciona o acesso aos álbuns do cantor. Importante no cenário do Samba, João Nogueira passou a integrar a ala de compositores da Portela em 1971. Flamenguista desde a infância, João juntou suas duas paixões – samba e futebol – e recriou “Samba rubro-negro” de Wilson Batista. Ele ainda contribuiu na revitalização do carnaval de rua do Rio com a fundação do Clube do Samba. O público jovem é a maioria. Na cafeteria, nas filas das três salas de cinema e principalmente no terraço, eles se reúnem com amigos quase que diariamente. Como o Imperator fica próximo a um colégio não é difícil avistar


uniformes brancos por todo o espaço. No primeiro andar conhecemos a Thaisa, uma moça um tanto pouco relutante em dizer a idade. — Você pode dizer o seu nome e idade, por favor? — A idade? Qual foi? Todo mundo quer saber a idade! ¬— É que em matérias se coloca a idade da entrevistada. — Ai, gente... — Então fala só seu nome — Thaisa Oliveira — Você mora no Méier há quantos anos? — 15 anos! — Desde que você nasceu? — Sim. Ela, que acabara de revelar a idade, nos revelou também que não conhecia o patrono João Nogueira. Perguntada sobre o que ela buscava no Imperator, Thaisa foi direta: — Ah, porque eu mato aula aqui, sabe?! Eu pego wifi aqui e quando eu mato aula eu também vejo filme. É mais difícil da minha mãe me encontrar no Imperator, sabe. Então, é um espaço de matar aula. — E você acha importante ter um centro cultural como esse aqui no bairro? — Cara, eu acho. Aqui é muito bom pra matar aula. Mas ai cê se ferra quando vê suas notas no final do ano, né! Subimos uns lances de escada e descobrimos que o Imperator não é só cinema. Grandes fotografias formavam um mosaico na parede, eram cariocas de todas as idades e de todas as cores que faziam jus ao nome da exposição: Retratos Cariocas. Adentramos por um corredor escuro para conferir um pouco mais e encontramos um espaço interativo, com grandes monitores e todas aquelas pessoas das fotos, agora, em vídeo respondendo à pergunta “ser carioca é?”. — “É o jeito que cê fala, as coisas que você faz, o jeito que você escolhe de se vestir. Ser carioca é estar bem humorado e estar mal-humorado também. Carioca tem um swing na personalidade, acho que é uma característica bem positiva, de se comunicar, de enxergar a vida. Acho que tudo isso tem um gingado, que vem do samba, que vem do morro, que vem do asfalto, que vem da praia e acho que o carioca traz isso pra vida [...]”

Palavras do bailarino Marcio Jahú, carioca de Botafogo que contribuiu com a exposição. Durante nosso tempo na galeria conhecemos a Giulia Prates e o Caio César, ambos de 12 anos que se deslocam do Engenho Novo até o Imperator para fazer cursos de música, que englobam aulas de canto, violão, coral e percussão. Na falta de centros culturais em bairros próximos, o Imperator se consolida como uma alternativa a todos os cariocas que buscam formação cultural, entretenimento e lazer. É o caso do Marcelo George, de 31 anos, que adora pegar um cineminha e levar a mãe para assistir as peças teatrais. Uma chuvinha leve ameaçava cair quando chegamos ao terraço, um espaço dominado por adolescentes. Fica fácil entender o gosto deles pelo local quando se pode estar em um ambiente aberto, sentar em um dos bancos que se espalham por todo o canto e admirar a vista dos belos murais grafitados e as verdes serras do Rio que, aliás, estavam lindas naquele dia, sob a neblina e o céu cinza. Ali, duas moças e um rapaz conversavam quando foram interrompidos pelas nossas perguntinhas básicas... Luiza Molina, Stephany da Silva, ambas de 13 anos e Rafaell Victor, 15, logo deixaram claro o porquê de se encontrarem frequentemente no terraço: — O que vocês procuram nesse espaço? — É mais um tempo depois da escola pra gente se divertir, conversar. A afirmação de Luiza é compartilhada por Rafaell: — Acho que é mais essa relação com o lugar, de poder encontrar todo mundo. É verdade que um ou outro, mesmo que tendo acesso fácil à exposição sobre o sambista João Nogueira, não o conhece. E, apesar de toda a sua importância e colaboração ao samba brasileiro, o Imperator não se limita a ele. Vai além. Vai além dos artistas que passaram por lá, alcança todos os tipos de gostos, de objetivos, de cariocas e, vejam só, até “estrangeiros” como nós. O que ele nos deixa é que há ainda muito a se alcançar. Um lugar onde gerações festejaram e hoje se encontram e se reencontram, tem muito a oferecer àqueles que ainda estão por vir, seja para assistir um filme, visitar uma exposição, tomar um café ou matar aula.


Vítimas da in

Trabalhadores e trabalhadoras contam sobre cond

T

oca o despertador, às 5h da manhã. Ela levanta, toma banho e passa um café. Acorda os filhos antes de sair de casa e vai para o trabalho. Assim começa o dia de uma funcionária de 34 anos, que prefere não ser identificada, responsável por cuidar – além da casa e dos quatro filhos – da limpeza de um prédio da Universidade Federal de Goiás (UFG). Provavelmente assim amanhecem também seus demais colegas de trabalho. Mulheres e homens que muitas vezes acabam se tornando invisíveis à maioria dos olhos, e que, mesmo com o melhor dos óculos, não são enxergados. Mulheres e homens que, para muitos que frequentam o campus da universidade, não têm nem nome. Atendem por “moça da faxina” ou “limpador de chão”, e acabam por se transformar em meros objetos de limpeza. Alguns desses trabalhadores “dão de ombros”, sem demonstrar preocupação com esse acontecimento. Já outros sofrem com a indiferença, os olhares de desprezo e até com ataques pessoais. Por trás desses fatos, uma causa comum: o preconceito com os trabalhadores e trabalhadoras de limpeza. Uma colega, que também não quer o nome divulgado, descreve, com jeito calmo e voz mansa, sua rotina de limpar corredores, escadas, salas e banheiros. E conta que faz isso porque não conseguiu emprego em outros lugares. Mora perto do campus, tem o segundo grau completo e, em suas palavras, “não tenho nada a reclamar de muita coisa.” Considera que todos e todas a tratam bem, independente do uniforme ou da atividade que exerce. Entretanto, uma de suas companheiras de trabalho discorda desde o começo: “É, cada um tem o seu pensar, né...”. Estudante do primeiro ano do ensino médio, a auxiliar de limpeza é negra e vê diferença no tratamento e na atitude das pessoas em relação a ela. “Eu sei que tem uma diferença, que às vezes fazem pouco caso de mim. Você reconhece, no olhar da pessoa, no agir, você reconhece o que a pessoa quer dizer. Qualquer um percebe um ar de crítica, um ar de superioridade. Às vezes a gente chega a pensar que a pessoa pode estar com deboche mesmo”, reclama. Apesar de estar visivelmente desconfortável e insegura ao comentar os fatos, a mulher desabafa: “Como citar alguém, numa situação dessa? Até porque são várias pessoas. Nem tem como eu te falar de fulano ou ciclano. Mas se eu estivesse aqui em outra posição, acho que com certeza iam me olhar diferente. Eu

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Se eu estivesse aqui em outra posição, acho que com certeza iam me olhar diferente


nvisibilidade social

Texto escrito em parceria com Natália Moura, publicado originalmente no “Jornal Samambaia”.

dições de trabalho e preconceitos sofridos no exercício da profissão

Trabalhadoras e trabalhadoras se sentem inferiorizados por grande parte da comunidade acadêmica sou bem justa. Ia ser uma afinidade maior. Se a pergunta é essa, se é pra dizer, então vamos dizer: seria bem diferente.”, diz com firmeza. E situações como essa se repetem em outros lugares. Claudete e Josineth trabalham na limpeza da Faculdade de Informação e Comunicação (FIC). Ambas já protagonizaram casos de preconceito e invisibilidade. Claudete conta que sente diferença no tratamento das pessoas, quando veste a camiseta cinza e a calça azul. “Há uma discriminação,

né? Tem pessoas que olham e fazem pouco caso da gente, mas não tô nem aí”, ela reage. Claudete revela que começou esse trabalho há quatro anos por ter sido o que surgiu de imediato, quando veio de Brasília para Goiânia. Como precisava continuar pagando sua faculdade, ela não hesitou quando a vaga surgiu. “Eu precisava pegar algum serviço. Não é humilhante, é uma coisa que você precisa, necessita. Toda profissão é importante – seja um motorista, um auxiliar de serviços gerais ou um porteiro”, conta de for-


ma espontânea. Atualmente já Quando você tá formada em Serviço Social, ela espera ser demitida para que limpando mesmo, muita possa exercer a profissão de asgente passa e não quer sistente social. Mesmo com bom humor, nem saber. E também Claudete não conseguiu fugir tem estudante que é bem de situações constrangedoras. Certa vez, um aluno se sacana, que diz: ‘Eu vou desentendeu com a auxiliar, sujar, ela tá aqui para chamando-a pejorativamente de “limpadeira de chão”. A limpar, mesmo.’ resposta não tardou: “Eu posso até ser limpadeira de chão, mas eu tenho nome, e você sabe qual é o meu nome, assim como eu sei o seu. Você está desprezando a profissão da gente. Se a gente não estivesse aqui, como que você estaria? Em que ambiente você estaria?”, relembra a discussão. A auxiliar de serviços gerais afirma se sentir invisível diversas vezes. “Quando você tá limpando mesmo, muita gente passa e não quer nem saber. E também tem estudante que é bem sacana, que diz: ‘Eu vou sujar, ela tá aqui para limpar, mesmo.’” Mas a principal queixa no momento é só uma: “A minha queixa é que eu quero ser mandada embora”, conta ela rindo. Josineth, de forma semelhante, não teve muita opção. “Vim de uma família muito pobre, saí de casa muito cedo e tive que sustentar as minhas filhas, já que eu tenho três. Mas eu não tenho vergonha da profissão. Não era isso que eu queria para a minha vida, mas já que tenho que fazer, faço com carinho. Só que às vezes a gente passa por algumas coisas muito desagradáveis aí na universidade com algumas pessoas, mas a gente releva. Muitos aqui não olham na minha cara, não conhecem a gente, só veem o uniforme.” E os casos continuam. “Tem um senhor também que fica com gracinha, fica pedindo para a gente engraxar o sapato dele. Mas quem mais trata a gente mal mesmo, infelizmente, são os alunos. A gente não pode As pessoas citar as pessoas, mas os alunos, altratam diferente, guns mal educados, tratam a gente muito mal, não tem um pingo de quase passam por educação”, ela acusa. cima da gente, Em meio a tantos problemas, o que mais entristece Josineth é fingem que não não ser chamada por seu próprio veem e olham nome: “Me chamavam por ‘menina da limpeza’, não me chamatorto porque é da vam por meu nome, e é uma coilimpeza sa que eu não admito. Eu tenho nome, é só perguntar. A gente só é tratada por ‘menina da limpeza’ eu não suporto.”

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Passado

Se engana quem pensa que os problemas relacionados à profissão são atuais. Já na década de 80, uma senhora vinda do interior e que teve um casamento forçado e abusivo, só conseguiu trabalho e sua liberdade com o emprego de auxiliar de limpeza. Essa é a história de Ivoni, 65, natural de Anicuns, cidade do interior do estado de Goiás. Ela teve seu sonho de estudar impedido pela morte de seu pai. Trabalhou como auxiliar de limpeza por 17 anos. Hoje aposentada, Ivoni se lembra bem como era atuar em uma empresa terceirizada de limpeza em Goiânia. “Eu trabalhava numa firma que se chamava JCS, mas prestava serviço em bancos. Itaú, BBC, Mercantil do Brasil, os bancos que já fecharam na Avenida Goiás, quase todos. A empresa mandava para vários lugares”. Ivoni conta que a invisibilidade é uma realidade para quem trabalha com limpeza. “As pessoas tratam diferente, quase passam por cima da gente, fingem que não veem e olham torto porque é da limpeza”. Suas reclamações são o salário baixo e a falta de assistência social que os profissionais da limpeza enfrentam. “Eu ganhava um salario mínimo, na época R$ 136 mais o vale transporte. Só isso. Nem comida eles davam, tinha dia que eu ficava com fome o dia todo”, protesta. Outro problema que se repetiu através dos anos foi a demis-

são em massa de terceirados. Em períodos de crise financeira, esses trabalhadores acabam sendo escalados para fazer o trabalho de dois ou mais. “Nós éramos quatro na época, ai foram demitindo os funcionários e além de fazer o serviço de limpeza no lugar de três pessoas eu fiquei também com o serviço da copa”, relata Ivoni.

Bullying

A psicóloga Jessyca Rocha aponta que, quando o individuo não está ou não se sente inserido no meio social, diversos problemas emocionais podem se manifestar. “Depressão, desamparo, angústia, desilusão. Isso tudo influencia tanto emocional quanto fisiologicamente, levando a pessoa à necessidade de ajuda profissional, tanto de um médico psiquiatra quanto de um acompanhamento terapêutico.” Jessyca também conta que o “menosprezo do trabalho da pessoa, da pessoa em si e o julgamento da incapacidade em crescer profissionalmente” é considerado bullying, tanto no ambiente de trabalho quanto fora dele. Cabe à sociedade, à empresa e aos órgãos públicos investirem em meios de inclusão desses profissionais. ”Existem palestras de grupos coordenados por órgãos públicos para conscientizar e promover a inclusão na sociedade. Assim como existem palestras sobre violência, discriminação, e sobre bullying em qualquer ambiente”, completou.


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PORTFÓLIO F

https://www.flickr.com/photo


FOTOGRÁFICO

os/139482719@N05/albums


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Portfólio de textos  

Portfólio de textos de minha autoria. Trabalho realizado: escrita, fotografia, criação do projeto gráfico, design e diagramação.

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