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Prisão a céu aberto O TOC contando histórias

Nicole Reis


Prisão a céu aberto O TOC contando histórias


Nicole Reis

Prisão a céu aberto O TOC contando histórias

Goiânia, 2016


orientação

Profª Drª Luciene de Oliveira Dias ilustrações

Rodrigo Vieira e Pedro Marcelo Praxedes projeto gráfico e diagramação

Lucas Botelho

REIS, Nicole Franciele da Silva Prisão a céu aberto, o TOC contando histórias. / Nicole Franciele da Silva Reis. – Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2016. (172 páginas) 21cm X 15cm 1. Transtorno obsessivo compulsivo. 2. Jornalismo Literário. 3.Saúde mental. 4. Estigma. 5. Invisibilidade Social.

Livro-reportagem apresentado à Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade Federal de Goiás para obtenção do título de Bacharel em Comunicação Social - Jornalismo, sob a orientação da professora Luciene Dias.


Aos Tocados, meus pais e Aladinho


Ao Aladinho

Há algum tempo, venho voando. Vejo que seus pés passam por mim suaves, subindo. Agarro os cadarços e me vejo ascendendo junto. Eu que sempre tive medo de tirar os pés e os olhos do chão, aprendi que tenho jeito para algodão ou brisa. Mas talvez eu não seja tão boa para conversar com nuvens, e as faço chorar. Quando já estamos no alto, provoco uma tempestade que nos encharca as roupas e nos pesa as asas. Sinto muito pelas vezes em que sou chumbo, quando o que você quer mesmo é ser dente-de-leão. Quando a vida assoprar frio e forte, quero desancorar e viajar de pétalas dadas com você. Obrigada por jogar fora muitos dos meus sapatos velhos, mas agradeço mesmo é pelos 99 balões vermelhos que amarrastes aos novos.


Sumรกrio Meu quarto

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Sala

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Quarto dos pais

043

Cozinha

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Quarto das bonecas

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Varanda

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Corredor

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De volta ao quarto

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รrea externa

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Agradecimentos

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MEU QUARTO E eu não sabia que minha história era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

Carlos Drummond de Andrade

O pensamento ferve e é um turbilhão de lava. É hora de superar o estado de Inania Verba bilaquiano, exprimindo o que a boca não diz, o que a mão não escreve, o que não se fala na escola, no trabalho ou em casa sobre o transtorno obsessivo compulsivo, o famoso TOC: alvo de comentários ingênuos ou maliciosos que culminam todos para uma compreensão equivocada dessa fonte de sofrimento mental. Este livro é uma das tentativas desesperadas de escalar o clichê mais famigerado do mundo: o fundo do poço, atualmente superlotado, mas sempre espaçosamente receptivo. Um ato falho cômico fez com que eu trocasse a palavra receptivo, ali atrás, por repetitivo. Nada surpreendente, pois tenho 17


TOC e repetir é o que mais faço. Estou sempre rodando, nos mesmos caminhos mentais e percursos físicos. Até que se desgastem a paciência e a sola dos sapatos. A ciranda do TOC. Você gira, não sai do lugar, e a música é muito triste. Melodia única, imutável e hipnotizante, embalando a dança chamada ritual. Ou compulsão. Esta promove um alívio temporário da angústia gerada por ideias intrusas e desconfortáveis. Porém, acaba tornando-as ainda mais fortes. As obsessões. A díade forma a prisão a céu aberto na qual estão presas as personagens dos perfis deste livro. Não há algemas ou correntes que nos atem a trabalhos forçados, não estamos confinados no frio e insalubre Castelo d’If, nenhum carrasco em formato humano nos obriga a lavar as mãos, andar pela casa, apagar contas de matemática ou tocar em árvores. A prisão na qual se encontram os acometidos pelo TOC é fruto de mentes colonizadas por um dos transtornos mentais mais prevalentes, porém ainda pouco compreendido. Muito do que se fala cotidianamente sobre o transtorno nada mais é do que a réplica da visão fragmentada e distorcida apresentada em filmes, músicas e programas de televisão. Quem ainda acha que o TOC se resume a manias ou “frescuras”, precisa conhecer as histórias contadas por Sandra, Rafael, Beatriz, Rute, Claudia, Caio, Lucas, Jalline e o filho, Zyon. Só assim, é possível ter noção da espessura das grades mentais, e muito reais, arquitetadas pelo colonizador de três letras. Um dia, o pensamento se instaura e não há como detê-lo. Faz moradia em um canto da mente e ali planta obsessões: medo de contaminação por agentes patogênicos, imagens egodistônicas relacionadas a impulsos agressivos e suicidas, medo de que ações isoladas promovam catástrofes, apego exagerado a ordem e simetria, crença em eventos mágicos, temor excessivo em relação à morte de pessoas próximas, cenas de violência, incluindo-se aí o sexo violento. 18


Para amenizar a incidência dos pensamentos invasivos e incômodos, ou impedir que um episódio trágico aconteça é provável que surjam os rituais, muito peculiares em cada indivíduo, mas que podem ser exemplificados: acumulação, tapas na própria boca, checagens e hipervigilância, caminhadas, lavagem excessiva das mãos, hábito de bater na madeira, movimentos repetitivos de todos os tipos. As compulsões podem ser ainda mentais, com as contagens, repetição de frases, elaboração de sequências e padrões. As raras abordagens jornalísticas sobre o transtorno preocupam-se com seu domínio compulsivo, em detrimento de um enfoque holístico capaz de considerar a fonte psíquica dos rituais, os pensamentos que lhes dão origem e ocupam grande parte do tempo dos sujeitos. Conforme a Organização Mundial de Saúde, o TOC ocupa a décima posição na lista de doenças mais incapacitantes, ganhando do diabetes no impacto sobre a qualidade de vida. O excesso de pensamentos superando o excesso de açúcar. Acomete de 2% a 3% da população mundial, o que equivale a dizer que está presente em uma a cada quarenta ou cinquenta pessoas. É o quarto transtorno mental mais prevalente, atrás da depressão, vício em substâncias e ansiedade. A possibilidade é de que a porcentagem de incidência seja ainda maior, em virtude dos casos que permanecem não diagnosticados, por vergonha ou falta de informação dos sujeitos acometidos pela doença. O mal-estar, psíquico e físico, oriundo do TOC afeta relacionamentos familiares e profissionais, dificulta a realização das mais simples tarefas do dia a dia, atrasa graduações, independências financeiras e sonhos. No cárcere imposto pelas obsessões e compulsões, perde-se o contato saudável com o mundo. Explicar a outrem a imperatividade dos rituais ou o peso da visita frequente de imagens mentais aterrorizantes é uma tarefa tão difícil que a maioria dos Tocados, por constrangimento e medo, prefere manter a doença em segredo. 19


Outros, exemplificados pelos perfilados deste livro, apostam no dizer como caminho genuíno para a cura, o contar histórias como primeiro passo para a libertação. É no poder de fala que se confere visibilidade ao transtorno, colocando-o no espaço do debate, do entendimento e aceitação. Ao invés de se falar displicentemente sobre o TOC, a partir da superficialidade dos conceitos de loucura e normalidade, é preciso que os acometidos pelo transtorno tomem a palavra e construam poder simbólico sobre a doença. E se me perguntarem: “Você anda bem? ” Ando. Caminho pela casa, passando por todos os cômodos, encosto a mão na torneira, de onde volto ao meu quarto pelo mesmo percurso, em repetições exaustivas. O TOC tem me impedido de torná-lo célebre, pois a aparentemente banal tarefa de sentar para escrever torna-se árdua quando sou obrigada a me levantar da cadeira a cada dez minutos. Meu quarto, quarto dos meus pais, quarto das bonecas, corredor, sala, varanda, cozinha, área de serviço. Na caminhada de todos os dias estão também os perfilados, com quem compartilho os espaços deste livro. Entre cômodos e incômodos, tentamos identificar a porta que leva ao poder de fala e à libertação final. Não tenha medo de descrever sua prisão a céu aberto: as goteiras por onde escorrem o medo e a dúvida, os baldes que ajudam a apará-los – os apoios que, mesmo pequenos, tornam a vida menos densa. Que as histórias contadas pelos Tocados de fato TOC toquem quem se dispuser a ouvi-las. Afinal, como disse Jacques Lacan, todos somos loucos, quer dizer, delirantes.

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SALA “Mas hoje minha face lúcida acordou antes da outra e está me vigiando com seu olho gelado. “Vamos – diz ela – nada de convulsões. Fale em voz baixa, sem exageros, calmamente.” Lygia Fagundes Telles

Um dia a Verdade se foi. Reluzente, confiante, nariz empinado, passou pela porta da sala, deixando-a para sempre aberta. Egoísta, botou capa e chapéu, saindo na calada da noite, alheia às responsabilidades de seu posto de trabalho e ao desespero de um rapaz. Tchurubeba estava em cima do muro e observou a fuga. Ela é capaz de jurar que Verdade não estava sozinha. Eram duas as sombras imponentes que a luz da lua formava no asfalto. Mentira caminhava, serena, ao lado da companheira. Tchurubeba não sabe ao certo se andaram de mãos dadas pelo bairro Mussurunga I, em Salvador. 27


Mas isso foi há algum tempo. Dizia-se que, por onde essas duas arteiras persuasivas não estavam, restava a incerteza e reinava o caos. Hoje, a presença delas não é mais grande garantia de estabilidade. Embora prepotentes, são agora miúdas, magras, franzinas. Incapazes de sustentar todas as dicotomias, num mundo onde o maniqueísmo perdeu lugar. Formam um binômio muito simplista. Mas é difícil se acostumar imediatamente com a repentina falta delas, e Lucas começou a duvidar. As portas passaram a se abrir sozinhas e fechá-las tornou-se uma tarefa infindável. Tão interminável quanto os trabalhos da faculdade. Carpelo, pedúnculo, estame, receptáculo, cálice. Quando acerta todas as estruturas das flores, Lucas sente que pode fechar o livro de botânica. Vai até a sala e roda a chave da porta duas vezes, no sentido anti-horário. Segura a maçaneta com dedos firmes, girando e puxando com força. Fecha então os olhos e diz em voz alta: “está trancada”. Imagina que pode finalmente pousar a cabeça sobre o travesseiro e deixar os pensamentos fluírem. Répteis crocodilianos, quelônios, escamados e rincocéfalos desfilam exuberantes pelos recônditos de sua mente, peregrinando entre os neurônios. Arrastam-se e tomam banho de sol, os corpos leves e soltos, conscientes de que não há predadores por perto. É então que os batimentos cardíacos de Lucas aceleram e os músculos do ombro e pescoço gritam de cansaço. Percebe que há algo fora do lugar: a tranquilidade se partiu em sua mente, e é preciso juntar os cacos rapidamente, para que não o firam. Precisa se mover e verificar se está seguro dos predadores da noite, tendo certeza de que não podem passar pela porta. Apenas Tchurubeba está acordada quando ele se levanta da cama pela décima vez, tateia a escrivaninha em busca dos óculos, e vai até a sala. Entre a decisão de sair da cama e o primeiro passo descalço, dois suspiros prolongados. Chão gelado. Quem tem TOC aprende rápido a tirar os sapatos e andar na ponta dos pés, sabe que quem dorme sereno não precisa pagar o preço de 28


ruidosas loucuras alheias. A noite chuvosa não convida a abandonar os cobertores, mas Lucas está certo de que só vai dormir caso confira a porta. Só mais esta vez. O bairro dorme, a tia-avó de 67 anos dorme, mas Tchurubeba continua atenta. Tem quatro patas e um espírito livre, siamesa ronronante. Para ela, portas e portões trancados não são, nem de longe, uma preocupação capaz de tirar-lhe o sono. Em sua liberdade incapturável, extrapola-os. Segue, na madrugada, os passos do dono. Como queria poder lembrá-lo de que já havia verificado a porta nove vezes, que no outro dia teria que acordar cedo para o trabalho, que aquela preocupação não fazia sentido. Acima de tudo, Tchurubeba tentou avisá-lo que Verdade andou rondando a casa, arrependida, movida pelas críticas de seus superiores, que a condenavam pela negligência profissional. Mas não havia mais nenhuma brecha para recuperação de seu cargo, a casa estava agora sempre trancada. Assim como os répteis das abstrações oníricas de Lucas, Tchurubeba aprecia os banhos de sol. Estica o corpinho fluido sobre a cerâmica, vira a cabeça em direção à patinha direita e a contempla por algum tempo: “parece que Lucas não tem controle sobre as próprias patas”, devaneia, e se acha engraçada. Arrepende-se do pensamento insensível e abaixa a cabeça, aproveitando o conforto térmico do início da manhã. Há um mundo inteiro a ser explorado, e a bichana não pode compreender porque o dono importa-se tanto com o percurso quarto-sala. Ela vai para onde quer, quando quer. Talvez Lucas possa ser um gato, em outra vida, e desfrutar desta palavra que o sonho humano alimenta, e que só os Felis catus domesticus entendem: liberdade. “Nós gatos já nascemos pobres, porém já nascemos livres”. A música dos Saltimbancos salta à cabeça de Lucas enquanto admira a siamesa de estimação. Está no quarto período do curso de Biologia e pretende especializar-se em Etologia, o estudo minucioso do com29


portamento animal. Répteis e aves de rapina, são esses os principais alvos de sua curiosidade. Vivendo no chão ou pairando nos céus, são livres de portas e trancas. Obedecem a instintos genialmente programados pela natureza e, por mais que Tchurubeba garanta que os animais têm, cada um, personalidades muito próprias, confessa que não estão lá muito preocupados em explicar a própria existência ou planejarem as atividades do dia seguinte. Apenas são. Lucas queria apenas ser. Inspira, expira, inspira, numa tentativa de meditação. Mas a mente indomável recusa a desentulhar-se das preocupações e ordena a ida até a sala, mais uma vez. Ele manda e obedece. Não sabe exatamente quando se repartiu em dois. A respiração torna-se ofegante e os músculos fadigados querem lutar, resistir à ditadura de uma mente tão opressora. Mas cedem e conduzem seu dono à porta, novamente. Desde pequeno, fissurado por bichos. Rastejando, caminhando lenta ou rapidamente, voando, cada um tem seu ritmo, estipulados por seus genes. Tchurubeba é uma boa companheira, mas não compreende muito bem as agruras do TOC e chega a cochilar, apertando os olhos miúdos, enquanto Lucas conta sobre as novas dúvidas e aflições. Ele compreende e até sente que incomoda demais a bichana com problemas cuja resolução não é de sua alçada. Já ela, gostaria de pedir-lhe desculpas pela desatenção, mas não consegue mesmo controlar o sono despreocupado, onde não têm lugar pesadelos com roubos e perseguições. No máximo, a angústia de uma sardinha que lhe escapa das patas.

A chegada do ladrão Lucas espera que algum dia existam menos portas a serem verificadas. Ele teme os ladrões que agem sob a lua. Mas tem cons30


ciência de que já fora atacado pelo pior dos vigaristas, aquele que lhe roubou o mais valioso dos tesouros: a tranquilidade. Ainda se lembra de quando soube o nome do poderoso meliante que vem arrombando mentes pelo mundo afora. Tem uma tática arteira e inquestionável poder de camuflagem: chega de mansinho, pequena ideia obsessiva em meio a um mar de pensamentos comuns. O vilão conquistador toma, aos poucos, posse do terreno. Onde antes havia certeza, finca a bandeira da dúvida. TOC. TOC. TOC, martela o estandarte da desconfiança, e convida cada vez mais sinapses obsessivas a fazerem moradia ali. Lucas abre os olhos pela manhã e sabe que o audacioso colonizador fez o plantio de novas mudas de insegurança. Houve um tempo em que o fardo das dúvidas era tão pesado quanto o mundo carregado por Atlas. Um (pesa)delo. TOC, TOC, TOC, era mesmo como uma pesada martelada que essa sigla saía da boca do médico e batia, escandalosa, à porta de Lucas. Psiquiatra. Jamais imaginara que algum dia precisaria de um desses especialistas em terrenos mentais acidentados. As palavras do doutor eram como o céu escurecido pela chuva forte. Cada sílaba, um trovão furioso. Mas essas mesmas palavras serviram para acalmá-lo, pois a consciência da tempestade era o início do caminho para que fosse superada e substituída pela bonança. Mas tempestade não é aqui uma metáfora adequada para tempos ruins. Lucas aprecia os dias nublados, gosta do barulho aconchegante da chuva e quase nunca se incomoda com ela, já que raramente frequenta as praias de Salvador. Em noites de embalo musical proporcionado pelos pingos de chuva que caem sobre as telhas, após se acomodar sob os lençóis, Lucas dá uma ordem a si mesmo: “TOC na maçaneta da porta”. “Buonna notte”, e acaricia o entre-olhos da gatinha, que os fecha em sinal de aprovação, prazer, confiança. É possível que agora Lucas se deite definitivamente, ela torce. Mas no fundo sabe 31


que ele se levantará mais algumas vezes, apesar dos bocejos e do boa noite em italiano, aparentemente bem resolvido. Já perdera as contas de quantos “durma bem” ganhara naquela madrugada. Mas, um quarto de hora após ajeitar-se na caminha de pano e entregar-se ao sono felino, era de novo acordada pelo terremoto de passos inquietos. Tchurubeba abre os olhos num sobressalto. Há algum tempo, começaram outros terremotos. A gata exasperou-se quando Lucas caiu, tomado por um terrível choque. Chegou a pensar que ocorria realmente um daqueles fenômenos que conhecera nos telejornais, quando a terra treme e as pessoas vão ao chão. Mas por que nada acontecia a ela, não sentia tremor algum? Após o incidente, ela contou à lua: “ Hoje Lucas teve um terremoto e machucou o braço ao cair da cama”. Os pais de Lucas estavam em casa, quando ouviram o estrondo. Encontraram o filho desmaiado no corredor, os olhos e ouvidos fechados para o mundo. Parece ter sido um baita tombo. Durante dias, a felina viu que Lucas se contemplava no espelho, analisando a junção dolorida entre o braço e a clavícula. Não parava de dizer que precisava logo procurar um médico, tirar um raio x. Além de fazer a mesma coisa por muito tempo, quem tem TOC é visitado pelo mesmo pensamento, por muito tempo. Repetição, de caminhos mentais e percursos físicos, é a nossa rotina. Obsessões e compulsões. Lucas não descansou enquanto não teve certeza de que o braço estava bem. Tchurubeba não estava presente quando os médicos deram o nome certo para o terremoto: epilepsia. Começou na mesma época em que os pensamentos obsessivos bateram à porta de Lucas, logo após a fuga de Verdade. O TOC foi fator estressante para o desencadeamento dos tremores e apagões repentinos. Às vezes, derrama o café na roupa e quando acorda com a cabeça sobre a mesa, descobre que perdera a noção de tudo. 32


As crises convulsivas sinalizam que o corpo de Lucas precisa de descanso, que ele deveria ouvir os conselhos de Tchurubeba, jogar as preocupações para o alto e ir mais à praia. Quem dera pudéssemos enfrentar tão facilmente o algoz que nos mantém atados nesta prisão a céu aberto. Exausta e fracassada nas insurreições contra o colonizador tirano, a parte obediente da mente de Lucas decidiu por um último golpe: provocar um apagão generalizado, a fim de descansar temporariamente. Porém, o TOC acorda zonzo, furioso e disposto a se vingar da artimanha rebelde. Há algumas portas que Lucas espera encontrar e, quando isso acontecer, é bom que não estejam trancadas: as saídas de emergência! Aquelas que levam para fora do universo de tremores no qual vive. Quem tem TOC não relaxa, pois teve a mente corrompida pelo medo. Uma parte dela, controlada por este audaz explorador de três siglas e dotada de um poderoso exército de ideias obsessivas vem avançado sobre terrenos mentais onde a vida ainda corre mais ou menos despreocupada. Os primeiros sintomas começaram há oito anos. Foi em São Paulo que o TOC chegou em sua porta. Assistia a um filme na televisão, quando ouviu a pergunta que a personagem principal fazia ao amigo: “Você é gay? ”. Neste instante, a dúvida fechou os punhos e bateu forte: Lucas teve dúvidas sobre sua orientação sexual, sentindo-se diariamente incomodado perante a ligeira incerteza. Contou a Tchurubeba, que não esboçou qualquer preocupação, afinal de contas ela não entendia como seres humanos poderiam se importar com uma questão tão banal: Gostamos de quem gostamos, o amor é natural e belo. Lucas teve uma namorada que o ajudava a enfrentar os medos do TOC. Tchurubeba tinha ciúmes dos olhares apaixonados que o dono lançava à moça e ficava ligeiramente irritada quando era expulsa da maciez do sofá, para ceder lugar aos na33


moricos do casal. Mas gostava de vê-los bem. Mesmo após o término, Tchurubeba notava o interesse de Lucas pelas meninas perfumadas que lhe lançavam charme. Não entendia como a dúvida havia se instaurado de repente, sem nenhum precedente que indicasse qualquer hesitação do dono. De qualquer forma, não via motivos para que ele não encarasse a questão de modo natural. A gatinha apenas deseja que ele seja gentil consigo mesmo. Se ela ao menos soubesse escrever, deixaria um bilhete e pregaria na testa do companheiro, para que visse ao acordar. Começaria seu conselho com a sabedoria de Vinícius de Moraes, que conhecera no poema recitado por Lucas, dias atrás. Encantou-se com as palavras e as manteve no poderoso cérebro felino: “É melhor ser alegre do que ser triste, a alegria é a melhor coisa que existe”. Diria a ele que não pode ser errado ser quem se é. Que parasse de se preocupar com essas coisas. E um coração ao final. As questões sobre sexualidade foram seguidas por outra indagação cruel, outra obsessão plantada em sua mente pelo recente colonizador: Deus existe? Nem seria preciso mencionar que a gatinha tentou tranquilizá-lo nesse quesito, buscando meios para dizer-lhe que não era sua obrigação buscar uma resposta a tão grandiosa pergunta. Para viver, basta viver, e ela sabe bem disso. As crenças não precisam ser almejadas desesperadamente, vêm naturalmente. “Lucas, as portas não estão fechadas. Se a Verdade se foi, vários caminhos são possíveis sem ela”, a gatinha torce para ser ouvida. Tchurubeba nasceu com sete vidas pela frente. Não sabe quantas já tem gastas, pois é incapaz de se lembrar de existências anteriores. Há chances consideráveis de que esta seja a última oportunidade para grandes feitos terrenos, de modo que deveria estar ao menos um pouco temerosa perante a iminência da morte. Mas o azulejo frio sobre o qual se deita todas as tardes não deixa margem a maus pensamentos. Algumas vezes, ela ainda se lembra 34


da mãe, Tchurubinha, e das histórias por ela ronronadas. Certa vez, contou que, por incrível que pudesse parecer, Lucas já fora livre como um gato. A siamesa-mãe como testemunha.

Infância sem portas Soteropolitanos. Assim são chamados os habitantes da capital baiana, frequentadores das praias de Ondina, Porto da Barra, Rio Vermelho, Amaralina, Armação. Entre as toalhas coloridas estendidas pela areia, apenas raramente está a de Lucas. Além de dedicar seu tempo ao estudo das diversas formas de vida e suas relações, o companheiro de Tchurubeba trabalha de segunda a sábado na loja de uma operadora telefônica. Só folga no domingo, embora o descanso seja ainda entremeado com os trabalhos acadêmicos remanescentes da semana e as preocupações do TOC. Não sobra muito tempo para visitar o mar. Além disso, não é aconselhado a sair de casa sozinho, devido ao perigo das convulsões. Ainda assim, é possível vê-lo na orla, ao menos uma vez a cada dois meses. As costas nuas, a camiseta sobre a areia, os pés descalços semi-soterrados, os grãos imprensados entre os dedos. Apesar dos pés no chão, a mente voa. Os olhos fixos no mar. Muitas vezes, o oceano parece estar tendo uma crise epiléptica: as ondas agitadas, a espuma branca, o ruído nervoso. A água vem e vai, se sobrepondo sobre a areia e, em seguida, recuando. Para voltar novamente. Como as idas e vindas inseguras de Lucas até a porta. O ritmo de seu transtorno obsessivo. Enquanto contempla o oceano, Lucas pensa em um de seus mistérios preferidos: as especulações sobre o interior das grandes pirâmides do Egito, seus prováveis tesouros escondidos. 35


Na mochila, um dos livros da série A Pedra da Luz, do egiptólogo francês Christian Jacq. Gosta de carregar o exemplar, já lido e relido, para mostrá-lo em rodas de conversa com os colegas de trabalho. Será que os amigos, ao olharem fundo nos olhos de Lucas, suspeitam das dúvidas que guarda a sete chaves, tão impenetráveis quanto os túmulos dos faraós? A cadência das ondas em dias de mar revolto é também como o frenesi dos que passam apressados em frente à loja onde nosso protagonista vende celulares e oferece planos telefônicos. Mas, ao contrário de Lucas e dos transeuntes do shopping, o mar é feito de horas vagas. Ou tempo livre, é essa a expressão costumeira para indicar o período não tomado pelo trabalho, estudo e tudo o mais que parece obrigatório, necessário. Como se a liberdade, o tempo livre não fosse indispensável à saúde da mente. Lucas, que vive soterrado pelas exigências do patrão, do universo acadêmico e de seu colonizador mental, encontra muitos empecilhos que o afastam desses momentos nos quais pode soterrar-se na areia e contemplar a imensidão. Em 2004, com quase quinze anos de idade, foi à força para Salvador, morar com o pai. Foram tempos de mar revolto. Sentia falta da Chapada, das ruazinhas de paralelepípedos, das ladeiras que descia correndo e subia preguiçoso, dos amigos da escola, de sua mãe e da mãe de Tchurubeba. Nem mesmo a possibilidade de fazer amizade com o mar era capaz de o ani (mar) a deixar a vida no interior baiano. As horas do dia passaram a ser gastas com as tarefas da nova escola, estudos para concurso, procura de emprego, conflitos intermináveis com o pai exigente. Rígido e atencioso. Um terreno mental enfraquecido por tantas cobranças cedeu facilmente ao assaz colonizador de três siglas. Instaurado e fortalecido, o TOC passaria a guerrear por novas sinapses, sem trégua. Foi aí que as brigas internas de Lucas colocaram fim às confusões com o pai. Juntos, precisaram enfrentar o inimigo comum, nomeado pelo psiquiatra. Após a con-


sulta do diagnóstico, uniram-se em um abraço, um laço apertado, que não pretendem desatar. O tempo nem sempre foi assim tão curto. Em uma única tarde, Lucas cumpria muitas tarefas, nenhuma delas envolvendo chaves. O menino magro corre pelas ladeiras de Jacobina. São tempos de liberdade felina. Corre atrás de uma bola, atrás do amigo, de um carrinho, de uma pipa. Atrás do domingo. Foi-se a época de uma infância sem portas, quando casa e rua encontravam-se em um mágico portal de alegrias: sair para os paralelepípedos era o anúncio de grandes aventuras. Entrar em casa, após um dia de brincadeiras exaustivamente delicioso, era a indicação do descanso, da água, da comida especialmente preparada pela mãe atenciosa. Casa e rua eram extensão uma da outra, ambas no ritmo da felicidade infantil. O extremo norte da Chapada Diamantina conheceu um menino muito feliz, amante dos bichos, da escalada em árvores, dos carrinhos de rolimã. Um dia, ele entrou dentro de um carro, e partiu. Tchurubinha vi-o ir embora, o nariz apertado contra a janela do veículo, embaçado e encharcado pelo sentimento infantil que se liquefazia, salgado. Segurava uma bola e acenava para a mãe e as duas irmãs menores. Já ansioso pelas férias, quando poderia voltar. A gata, já mãe da pequena Tchurubeba – que ainda pouco entendia das coisas – fechou os olhos e repetiu a frase que escutara há poucos dias, em Vanilla Sky, desejando forte: “See you in another life, when we are both cats”.

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QUARTO DOS PAIS “Sofre-se tanto na vida que ninguém pode dizer que, de fato, é uma pessoa feliz.” Alexandre Dumas

Um dia a Espontaneidade se foi. Espaçosa, desembaraçada, sorridente e simples, juntou os poucos pertences em um clichê típico dos humildes e destemidos peregrinos: a prática trouxa de retalhos coloridos. Partiu sem nenhum mapa, planejamento ou destino, movida apenas pelo desejo incontrolável de conhecer outras paragens. Sem nenhuma vergonha ou culpa, levou, como lembrança do amigo, uma pequena camiseta gola polo preta. Caio então começou a pisar em ovos, a olhar com o canto dos olhos e enxergar holofotes imaginários, prontos a lançarem luz sobre seus mínimos deslizes. Cada, passo previamente idealizado para evitar constrangimentos. As partidas de videogame deixaram os cartuchos para entrarem de vez em cada minuto de sua existên43


cia. O TOC é como um jogo nada divertido: impõe tarefas pesadas, movimentos e pensamentos repetitivos. Em troca do esforço, nenhuma adrenalina positiva, recompensa, mudança de fase ou sensação de alívio. Apenas a vida se arrastando em círculos. TOC poderia ser o nome do chefão, o desafio máximo de um jogo. O temível vilão que lança fogo, flechas ou espinhos gigantes. Pular, abaixar, correr e desviar são táticas para esquivarse do poderoso inimigo na plataforma virtual. Quando ele, porém, deixa o colorido mundo dos pixels para tomar um terreno mental, difícil é saber para onde fugir ou qual armas empunhar para espantá-lo. Espeta, rapidamente e por todo o canto, ideias obsessivas que ordenam desafios. O cumprimento de um é logo seguido pela necessidade de execução de outro. As mãos severamente rachadas e a ardência nos olhos não são, nem de longe, motivos reais para barrar os rituais de Caio. Quando o grande chefão dita uma ordem, não existe a possibilidade de não acatá-la, por mais ilógica que pareça. Mesmo que que os músculos estejam tensos, o coração acelerado, a mente exausta, é preciso levantar-se da cadeira e cumprir o serviço. A compulsão satisfaz o mestre por alguns instantes, mas a saciedade é curta. O alívio do dever cumprido se desfaz rapidamente, pois a obsessão logo está faminta e exige novos esforços. Há algum tempo, olhos mecânicos, invisíveis e onipresentes, passaram a observá-lo. Escondidos dentro de armários, atrás das cortinas e quadros, nas estantes e frestas de portas. Nestes e em outras dezenas de lugares imaginados por ele. Olhares incontornáveis, insistentes, prontos para o registro inescrupuloso dos detalhes mais íntimos de sua vida. Racionalmente, Caio sabia que não podia estar sendo vigiado, que deixava-se atormentar por uma fantasia. Mas racionalidade não consiste em parâmetro adequado para conversar sobre o TOC. O ritual precisa ser feito, por mais inexplicável que pareça. 44


Tinha a persistente sensação de que cada detalhe de seu cotidiano seria emoldurado pelas bordas da tela de uma TV. Um reality show armado sem seu consentimento e transmitido mundialmente. Como em “O Show de Truman”, filme de 1998. Na película, o protagonista não sabe, mas tem sua vida exposta em um famoso programa televisivo e é adorado por milhares de fãs. A constante impressão de estar sendo observado levou Caio a uma aflição permanente que não chegava ao status de medo, mas era suficiente para ocupar grande parte de seus caminhos sinápticos e manter sempre fechadas as portas do guarda-roupas, provável esconderijo de pequenas câmeras secretas. Não gostava de sentir-se exposto. Quando criança, errava a pronúncia do nome da amada avó Domingas. “Vovó Dominsca”, era assim que a chamava. Os adultos costumam se deliciar com os fofos deslizes infantis e, apertando as bochechas dos pequenos, estimulam a continuidade do show de gracinhas e charmes. Pediam então que o menino repetisse o nome da senhora, que se desmanchava em sorrisos e amor pelo neto. Mas Caio nunca quis ser o alvo das atenções, mesmo quando os pais elogiavam sua inteligência numa reunião de família. Quando a prima mais velha elogiou a camisa polo que vestia, a peça nunca mais saiu do guarda-roupas. A angústia de estar sendo notado ou vigiado tornou-se uma grande preocupação. Em vários momentos, era ele quem observava, através da brecha preferida dos olheiros, clichê do atentado à privacidade: o buraco da fechadura. Espiava pela porta da sala, desprovida de olho mágico, em busca de sinais da chegada do pai. Colocara a mãe e irmãs para dormir e a ele restava a angustiante espera pelo repentino surgimento, no espaço delimitado pelo ferrolho, de uma grande e nervosa silhueta. Atento a qualquer barulho metálico que anunciasse a abertura do portão, estremecia quando um gato o balançava, num alarme falso. 45


Ali, no escuro da sala, repetia mentalmente frases que afastariam os monstros abrigados pela noite. Sete, oito, nove vezes pensava em imagens que pudessem ser capazes de espantar os seres maus que o espreitavam. Para afugentá-los, precisava colocar em sequência cenas marcantes de bons momentos que tivera: o sorvete na lanchonete perto da escola, o abraço da professora, o cafuné e colo da avó. Assim, os inimigos camuflados na escuridão, bem mais fortes e temíveis que seus oponentes no videogame, poderiam ser suplantados por pensamentos alegres.

Primeiras tempestades Com o pedaço de sabonete em mãos, voltou os olhos para o céu escuro. A chuva não tardaria a cair, conforme anunciavam os cumpridos clarões e os estrondos que os seguiam. O firmamento cintilava, num belo espetáculo, que Caio gostava de apreciar. Mas tinha urgência em se preparar para uma tempestade ainda pior que a proveniente de nuvens nervosas. Aquela igualmente ruidosa que se formaria em breve no quarto dos pais de três crianças. Precisava purificar-se antes de cumprir a missão da noite. Não acreditava que a água da chuva podia ser de fato limpa, oriunda de nuvens tão cinzas, que lembravam a espuma suja que saía de seu corpo depois de uma tarde no quintal. Lembrou-se ainda de tudo o que a professora dissera sobre a chuva ácida. Optou, então, pela torneira do banheiro. Abriu uma nova embalagem de sabonete e lavou bem as mãos, esfregando-o em cada centímetro quadrado de pele. Três vezes, as palmas, os espaços entre os dedos, as unhas foram ensaboados com força e enxaguados. Desligou a TV e pediu que as irmãs mais novas guardassem os brinquedos e o acompanhassem. Apesar das rezingas relutantes 46


das pequenas, conduziu-as pelas mãos até o quarto onde dormiam juntas. Sentou no chão entre as duas caminhas e ordenou, com carinho e veemência, que as meninas parassem de conversar e tentassem dormir. Fechou a porta e deitou ali mesmo, abrindo caminho entre as pecinhas de dominó espalhadas sobre a cerâmica gelada. Ofegante, Caio cerrou os olhos com a força teoricamente necessária para que o mundo real rapidamente se dissolvesse, dando lugar a produtos oníricos que o distraíssem por algumas horas. As irmãzinhas pareciam já estar no universo dos sonhos. Apenas alguns minutos após a dura interrupção do filme que as fascinava, haviam se aquietado e respiravam profundamente. Com as mentes tranquilas e os corpos cansados das brincadeiras do dia, adormeciam com facilidade. Não pensavam no perigo iminente, no furacão que se formava. Apenas Caio continuava inquieto. Incapaz de se entregar ao sono, desistira de contemplar o interior avermelhado das pálpebras. Entre o escuro dentro de si – onde um filme terrível se projetava- e a noite que reinava no quarto, preferia o segundo enfrentamento. Estatelados, os olhos reconheciam alguns objetos na penumbra e, vez ou outra, se deparavam com os cílios das bonecas que ali moravam. Pensava tê-los visto se mexendo, e o susto o estremecia. Apesar de ter quase a mesma idade das irmãs, Caio tomava para si toda a responsabilidade em relação a elas. Sempre fora assim: um cuidador preocupado. Amadurecido pelas tempestades que chegaram cedo, tinha pouco tempo para as levezas da infância. Elas nunca vinham em sua plenitude, trazendo consigo a obrigação do agradecimento. Era nos momentos de alegria, que o TOC se tornava mais forte e Caio obrigava-se a olhar para o sol, hábito acompanhado por uma série de sequências mentais. Caso não as completasse, a felicidade galoparia até reinos distantes, tornando-se para sempre inacessível. 47


Foi um infante despido de infantilidade. Para algumas crianças, o mundo é uma grande preocupação. Nesses casos, a poética aurora da vida não é lá muito diferente dos dilemas adultos. O medo faz visita muito cedo, levando embora parte considerável da ingênua idade e pintando monstros na noite. Houve um tempo em que ele se divertia com a queda da energia. Riscava os fósforos e acendia velas, apenas para ter o prazer de apagá-las, amedrontando as irmãs. Havia certa felicidade em sentir uma pitada de medo, sair correndo pela casa e esconder-se sob os lençóis macios e quentes, certo de que nada de ruim o alcançaria caso o corpo todo estivesse coberto. Depois de aventuras exaustivas, o escuro propiciaria o aconchego da viagem no espaço movediço entre a consciência e o sono profundo, quando dançam lembranças aleatórias e criações dadaístas da mente. Certo de que as assombrações só existiam nas histórias que criava ou lia, divertia-se ao assustar os primos mais novos. Passou a ter medo real da ausência de luz somente quando a mãe tentou fazê-lo acreditar que os monstros inventados pela mente infantil poderiam se materializar e rondar a casa. Ela mesma não duvidava disso e deixava o máximo de lâmpadas acesas para manter distantes os seres ruins. Desde que acatou como verídicas as histórias da mãe, Caio arrepiava-se quando o som de transformador queimado anunciava uma noite sem energia elétrica. As brincadeiras inocentes de outrora foram interrompidas. No quarto das irmãs, o menino de sete anos teme que seus batimentos cardíacos turbulentos possam ser magicamente ouvidos do lado de fora do corpo, no exterior de seus músculos enrijecidos pela ansiedade. Tambores agressivos que acordariam as meninas. Sabe que o coração retumbante não cessará tão cedo aquela dança movida pela adrenalina infantil que passeia por suas veias. Não consegue habituar-se à corrente elétrica que brinca de roda em seu corpo, todas as noites. 48


Permanece atento ao menor sinal de ruído na porta da sala. Chegou a ouvir, várias vezes, o movimento da fechadura. Visualizou uma mão enorme, trêmula, ansiosa, realizando tentativas fracassadas de posicionar a chave no lugar correto. Alarme falso, provocado pela ventania noturna. Antes de cuidar das irmãs, fora ao quarto da mãe para verificar se já estava dormindo. Como queria que o pai chegasse tranquilo naquela noite. Que fosse ao quarto das filhas e do filho com um sorriso suave, depois se deitasse junto à esposa, beijando-lhe levemente a bochecha. Ou que tivessem discussões comuns e corriqueiras, como a dos pais dos seus amigos da escola. Que não trovejassem tanto. Mas o pai chegava pesado. Pisoteando com força a cerâmica, o rejunte, a casa, o mundo, o sono dos que dormiam. Como um tufão. Tonto, cambaleante. Naquela noite, anunciou sua entrada na casa com a quebra de pratos e copos, na cozinha. Faminto, derrubou tudo, na ânsia de encontrar comida pronta. O ímpeto do menino, sentado no chão do quarto, foi o de tapar os ouvidos das irmãs. Logo viu que isso nada adiantaria, pois a tempestade já se formara, ruidosa. Dentro e fora da casa. As pequenas, que dormiam tranquilas apesar dos barulhos que acompanhavam a chuva forte, não suportaram os gritos tempestuosos provenientes do cômodo ao lado, mais assustadores que trovões de verdade. Uma voz grave e potente relampejava ofensas, respondidas imediatamente pelo outro lado, agudo e igualmente forte. Melhor dizer que os dois lados eram agudos, afiados. A mãe não trancara a porta, comprada e assentada recentemente. Desta vez, não foi preciso que o pai a arrombasse como na semana anterior. Ultimamente, o marido estava sempre bêbado. Embora não ousasse machucar fisicamente a esposa, lançava-lhe raios ardidos, gotas pesadas de palavras cortantes. E ela encharcava-se de raiva e tristeza. Caio e suas irmãs escutavam tudo e liquefaziam-se, como a chuva. Choro abafado pelos gritos do céu e dos pais. 49


Recebiam muitos presentes. Bolas, carrinhos, bonecos, bichos de pelúcia, bicicletas. Os brinquedos chegavam nos dias seguintes às brigas e soavam como pedidos de desculpas. Sinceros, porém incapazes de suprir a falta dos abraços, companhia, cafunés e tudo o mais que poderia e deveria provir dos genitores. Não eram esses objetos adequados para embalar o sono de um garoto aflito, aquietar-lhe os músculos enrijecidos, impedir que pensamentos repetitivos e medos místicos lhe tomassem a mente. Houve uma época que passou a emitir grunhidos aleatórios e incontroláveis, sempre que estava nervoso. As palavras que Caio não dizia queriam escapar à força, em espasmos vocálicos sem sentido. O hábito durou alguns meses, preocupando os pais. As onomatopeias deslizavam para fora, sem que ele pudesse contê-las. Aos poucos, frustrados na tentativa de se darem as mãos para formarem uma frase lógica, os sons cessaram, deixando a Caio a difícil tarefa de aprender a se expressar de outra maneira. Caio se lembra muito bem de um dos seus aniversários. O bolo sobre a mesa, rodeado por balas de coco, indicava aos convidados que a hora da cantoria de parabéns estava próxima. Os amigos da escola já rodeavam os quitutes, ansiosos pelo melhor momento da festa, a hora de atacar todos os doces. Após a tensão dos cumprimentos, das formalidades na recepção dos convidados, das incômodas perguntas feitas pelos tios, Caio pôde finalmente sorrir. Por algumas horas, o aniversariante foi invadido pela sensação de que estaria finalmente livre para relaxar e brincar com os outros, em mundos imaginários. Os pais estavam sob controle, tendo em vista que, cercados por familiares, eram obrigados a manter um bom relacionamento, uma calmaria aparente. Porém, a tempestade sobreveio novamente após o bolo ser cortado, e as ríspidas palavras dos dois mais uma vez cortaram a noite, interrompendo a balbúrdia das crianças e os sérios diálogos dos adul50


tos. Engalfinharam-se, precisando que parentes os apartassem. Os olhos de Caio assistiam a tudo, e viraram chuva.

O Escuro Os pais de Caio frequentavam as reuniões de uma religião de origem sul coreana, com poucos adeptos no Brasil. Assim como em praticamente todas as manifestações religiosas, o embate entre Bem e Mal se faz, nesse grupo, também decisivo para o entendimento do mundo. Explicados de maneira maniqueísta, como frutos de um duelo eterno, os problemas da existência humana provocavam reviravoltas no estômago infantil de Caio, além de nós muito cegos em seu pensamento. Se o Bem existia de modo contundente e aplacável, o Mal não teria o mesmo poder? Várias vezes, o reverendo Moon apareceu-lhe em sonho. Com os olhos quase invisíveis, as bochechas rechonchudas e o semblante fechado, ditava-lhes regras morais. Pedia que pegasse a estrada correta, e gritava-lhe: “ Acima de tudo, esteja sempre limpo! ”. Caio achava essa uma difícil missão, já que os germes pareciam estar por toda a parte. A torneira e o chuveiro tornaram-se então fiéis aliados rumo à expurgação. O garoto se sentia sujo, maculado pela própria maldade, tão enfatizada pelos pregadores que subiam ao púlpito. Por isso, lavava ferozmente as mãos e purificava-se olhando para o céu, em busca do Sol. O astro em torno do qual giram os seres humanos parecia-lhe a materialização da perfeição, fonte de luz, alegria, vida. Caminhando pela rua, no quintal de casa ou na escola, voltava frequentemente os olhos para cima. Até que o hábito se tornasse ritualístico e começasse a machucar os olhos. 51


Caio, já adulto, não suporta o peso desse conflito inextinguível entre as forças opostas que governam o mundo. Acredita que os medos oriundos de dogmas não podem ser saudavelmente administrados por algumas crianças. Aquelas que, como ele, levam tudo muito a sério. O sobrenatural nunca lhe pareceu natural e símbolos religiosos, atrelados a punições e castigos eternos, provocam-lhe, até hoje, arrepios. Decidiu afastar-se de tudo isso. A mãe contribuía para sensacionalizar a religião e o escuro, pintando-os com tons pouco amigáveis. Imersos na boa adrenalina das histórias de terror, no tempo em que eram inofensivas, ele e as irmãs gritavam e corriam. Para amenizar a bagunça, a mãe tratava logo de contê-los, apontando os perigos da noite. Caio teve então certeza de que poderiam muito bem ser reais os monstros que, até então, o divertiam e existiam apenas nas histórias que ele mesmo criava. Os inimigos imaginários ganharam vida e estavam por toda a parte.

Tempestade de três letras Felicidade. Eram curtas as horas de sossego, quando estava suficientemente longe das brigas dos pais e protegido de perigos sobrenaturais. Nestes momentos de bonança, podia distrair-se verdadeiramente com as irmãs, os amigos ou o videogame. Era então que a compulsão se mostrava com força: Caio sentia-se na obrigação de contemplar o céu, como forma de agradecimento pela tranquilidade provisória. Caso não o fizesse, um rebuliço desconfortável se formava no estômago, um mal-estar paralisante tomava-lhe os pensamentos. De dia, forçava-se a fixar o olhar, por longos segundos, na direção do Sol, por mais incômoda que fosse a claridade 52


imposta às retinas. Ele não entendia a ilógica relação, mas sabia que voltar os olhos para cima era o caminho para a purificação necessária à perpetuação da alegria, o único modo de mantê-la por mais algumas horas. Estando contente, era também imperioso que estivesse completamente limpo, como ensinado pelo reverendo. Livrar-se das impurezas do corpo fazia-se tão indispensável quanto lavarse da pressão parental, o sufoco de seus desentendimentos, o barulho de seus trovões. A dependência em relação ao céu e ao sabonete começou como uma ligeira e pontiaguda necessidade. De mansinho, esses dois elementos tornaram-se parte de hábitos incontroláveis estipulados pelo TOC. Tornou-se ainda dependente da criação de sequências de imagens mentais. Elencava as pessoas das quais não gostava, associando o rosto de cada uma a comportamentos ridículos, engraçados, vergonhosos. Aqueles que admirava, por sua vez, eram relacionados a aspectos positivos de sua vida. Pequenas felicidades de seu cotidiano atreladas a cada um dos que amava. Em sua mente, o vizinho chato aparecia fazendo caretas, seguido de um parente distante, que rebolava, remexendo bastante os quadris. Não se sentia satisfeito ao fazê-lo, constrangido pela leviandade dos pensamentos. Mas sabia que não descansaria enquanto não finalizasse o encadeamento de cinco ou seis pessoas. Estipulava um número de imagens e não voltava a atenção para qualquer outra coisa enquanto não pensasse em todas. Não conseguia interromper o desfile de cenas desagradáveis, até que atingisse o número estipulado. A turma de amigos reunia-se para a rodada de jogos no videogame. Caio, sempre detentor dos melhores brinquedos, era o dono de mais essa fonte de distração. Aos gritos, montavam a fila e decidiam quem seriam os primeiros a enfrentar dragões, macacos gigantes ou carros velozes. A fila no quarto 53


era antecedida pelo tumulto no banheiro. Antes de encostarem nos modernos controles, obedeciam à condição imposta pelo anfitrião: a lavagem das mãos. Somente após ensaboá-las bem, teriam direito ao mágico universo virtual. Os zumbis fugiam do atirador. Escondiam-se atrás de muros e pedras, camuflavam-se na folhagem. Monstros no escuro. Em bandos, os morto-vivos atacavam as casas e contaminavam seres humanos com o vírus fatal. O trabalho do jogador em Resident Evil era detê-los e evitar que infectassem os sobreviventes. Os corpos em decomposição atiçavam em Caio a ânsia de lavar as mãos. Pausava repentinamente o jogo e corria para o banheiro, deixando os amigos atônitos. Caio constrangia-se com as gargalhadas dos colegas, incapazes de compreender a estranheza do menino que a todo instante se limpava. Mas a vergonha não se faz suficiente para instigar a ousada desobediência contra uma ordem tão contundente da própria mente. Apesar das constantes interrupções, a alegria era indiscutível. Há muito tempo pedia que os pais lhe comprassem o jogo, e agora tinha-o à disposição para brincar quando quisesse. Tanto contentamento deveria ser agradecido com muita água. E Sol. TOC. Apenas mais tarde Caio pôde nomear os pensamentos que se repetiam exaustivamente, o hábito incontrolável de olhar para o céu, lavar as mãos e dedicar-se à criação ininterrupta de estranhas sequências, frases e associações mentais. Antes de ler pela primeira vez sobre o transtorno, identificando-se com a descrição, não fazia ideia do que produzia nele um pânico aterrorizante e o obrigava ao cumprimento dos rituais incessantes. Apesar de não pensar sobre o significado das palavras obsessão e compulsão, há muito tempo, sentia-se escravizado por necessidades ilógicas. O céu não era visível do consultório, e encarar o médico não parecia uma opção confortável. Caio voltou os olhos para 54


baixo: os pés do psiquiatra pareciam tão grandes quanto os de palhaços. Talvez estivesse sobrando muito espaço dentro dos sapatos enormes e o médico quisesse apenas mostrar o quanto estava preso ao chão, enquanto os pacientes sonhavam acordados, imersos em absurdas realidades. Caio acredita que a triste ciranda do TOC não pode ser bem explicada por quem não sofre com ele. As reportagens, as menções ao transtorno em programas televisivos mostram apenas a casca do problema. Não fornecem nem ideia do quanto é impossível parar de pensar em algo até que se cumpra o ritual. Não falam sobre as dores no estômago, a ardente descarga de adrenalina, a taquicardia, a dolorosa repetição de caminhos mentais que acometem aqueles que se encontram encarcerados pelas obsessões, sob suas ordens. O amor veio para salvá-lo. Prometido, desde pequeno, a uma menina de nacionalidade russa, cresceu acostumado à ideia de que não poderia escolher a namorada. Quando, porém, apaixonou-se por Jung Shin Arisa e viu crescer o sentimento pela descendente de japoneses, soube que não poderia obedecer aos pais. A moça o fazia levitar e Caio virou pássaro, voando com ela, de São Paulo para Goiânia. Passaram a morar juntos, a contragosto das famílias de ambos que, mais tarde, aceitaram a decisão do casal. Enquanto caminha, Caio ainda volta o rosto para cima. Olhando em direção ao Sol, pensa em Jung Shin e nos enfrentamentos que viveram juntos. Já não lava as mãos com tanta frequência e sente menos medo do escuro. Para afastar a angústia, repete frases mentalmente. Divide com a esposa os dilemas gerados pelo TOC. Hoje, quando espia pela fechadura, não espera por um furacão, mas por passos suaves e mãos tranquilas. “A tempestade que chega é da cor de seus olhos castanhos”, diz à Arisa.

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Livro - Prisão a céu aberto (amostra)  

Livro de perfis sobre o TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo).

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