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Nos paradoxos das práticas do cotidiano, a leitura ao rés-do-chão também promove os limites de visibilidade, inscreve-se e escreve no texto sem, no entanto, poder lê-lo. Assim, o autor expõe a compreensão da leitura da cidade com um caráter múltiplo: “eu gostaria de detectar práticas estranhas ao espaço ‘geométrico’ ou ‘geográfico’ das construções visuais, panópticas ou teóricas” (CERTEAU, 1994, p. 172). Sob este modo de ver, Benjamin (1994) aponta a leitura do espaço e a compreensão da história a partir do sujeito Flaneur, o observador, o detetiveque, ao percorrer as ruas e as passagens de Paris do século XIX, apreende na leitura do cotidiano as contradições da formação do espaço urbano, uma cidade sem disfarces. Na visão desse autor, somos transportados no tempo por um portal estreito que leva a outros lugares, uma passagem que, na dialética benjaminiana, refere-se tanto à dimensão física da transposição do espaço urbano quanto à relação metafórica de percorrer, às avessas, o tempo cronológico a partir das fantasmagorias: Para o flâneur, um véu cobre essa imagem. A massa é esse véu; ‘ela ondeia nos franzidos meandros das velhas capitais’. Faz com que o pavoroso atue sobre ele como um encantamento. Só quando esse véu se rasga e mostra ao flâneur ‘uma dessas praças populosas que, durante os combates, ficam vazias de gente’ só então, também ele, vê a cidade sem disfarces (BENJAMIN, 1994, p. 56). Propor o diálogo entre Benjamin (1994) e Certeau (1994) possibilitou fundamentar a metodologia crítica de análise do espaço urbano através do caráter múltiplo das escalas de leitura, isto é, do sujeito observador Flaneurque peregrina e vivencia o cotidiano dos praticantes ordinários, que lê a geometrici-

dade das ruas. Mas também do sujeito observador/pesquisador Voyeur que lê as cidades do alto, e às avessas, captando as representações apreendidaspor meio de um simulacro teórico. Ainda que na perspectiva dos autores as escalas se contradigam, na perspectiva da metodologia de pesquisa elas se complementam. Ademais, oferecem subsídios críticos para captar e apreender os paradoxos entre as duas escalas e assim apreender o jogo de ambiguidades que o espelho em movimento proporciona por meio das imagens especulares. As cidades podem ser entendidas como um produto cultural, uma expressão morfológica das diferentes formas de ocupação e transformação do espaço no qual se insere uma determinada sociedade, é vivida e transformada a cada instante, torna-se um ambiente mutável e pulsante, embora aparentemente constitua-se como objeto concreto e estático. Neste sentido, como atividade experimental para a disciplina de Viagem de Estudos, foi proposto que os alunos pudessem aplicar as teorias apresentadas por Benjamin (1994) e Certeau (1994) no cenário urbano, isto é, estar na condição de Flaneur e Voyeur para vivenciar experiências na cidade estudada. Toda a ação seria registrada por meio da confecção de mapas, imagens e textos que indicariam as leituras particulares realizadas pelos alunos. A Cidade de Goiás (GO) , local de moradia e estudo dos alunos, foi palco desta primeira experiência de análise e cartografia. Vários temas possíveis de mapeamento foram sugeridos em sala de aula, posteriormente, deveriam percorrer a cidade catalogando os lugares conforme os temas. O registro poderia ser por meio de recursos gráficos diversos, e posteriormente formatados em uma revista digital.

Catografias inventivas  
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