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EDITORIAL

BEM VINDO À REVISTA DOS PRÓXIMOS ANOS DA SUA VIDA. Imagine se de um dia

Alexandre de Luca

Amanda Theodoro

Julia Luisi

Lucas Silles

Marcello Simões

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para o outro sua vida virasse de cabeça para baixo. Na primeira edição da revista esc convidamos o atleta Fernando Fernandes para conversar com a gente e contar um pouco mais sobre como enfrentou a rasteira que limitou sua locomoção, encontrando uma maneira de superar esse 7x1. Por meio desse exemplão da p#@*a vemos que há sim uma luz no fim do túnel para todos. Mas algumas pessoas se encontram num buraco tão fundo que acham que não é possível encontrar essa luz, como no triste caso do ex-vocalista da banda Linkin Park, Chester Bennington que tirou a própria vida no mês de julho deste ano, devido a um quadro de depressão profunda. A gente não pode chegar ao ponto de pensar que esse tipo de notícia se tornou algo comum. Então leitor, a esc discute o tema na seção 27, porque é importantíssimo falarmos sobre isso, por mais delicado que seja. Confere lá. Além disso, nesta edição abordamos outros temas, como o ensaio fotográfico de Hudson Rodrigues que revela o seu olhar sobre a nova fotografia paulistana, apresentando momentos e os protagonistas da parada lgbt 2017. Está um arraso! E como não falar do filé mignon desta edição? Vc prefere estar no controle ou arriscar e viver a incerteza de um coração desarmado e pronto ao que vier de ruim? Então pre-para que agora é hora de falar sobre como você encara a sua liberdade. Que essa matéria seja a mão que o encontra e diz: “Se a gente for junto, fica mais fácil”. Reflita com a gente, está lá na página 58. Nós somos seu ombro amigo, aqueles que mesmo distantes querem ver você nos momentos de felicidade e paz, das curiosidades e também dos momentos de nos conhecermos melhor! Porque o mundo está precisando mais disso. Um abraço e até já.


Por Tobias Wilson ESCOLA SUPERIOR DE PROPAGANDA E MARKETING

Curso de graduação em Design com habilitação em comunicação visual e ênfase em Marketing. PROJETO INTEGRADO DO 3º SEMESTRE:

projeto III cultura e informação | Marise de Chirico comunicação e linguagem II | Regina Ferreira da Silva marketing II | Giancarlo Ricciardi produção gráfica | Mara Marta Roberto cor e percepção | Paula Csillag PROJETO EDITORIAL E GRÁFICO:

Alexandre de Luca, Amanda Theodoro Calaca Vieira, Julia Luisi Jordão, Lucas Silles Brandão Machado, Marcello Domingues Simões.


BARRA DE ESPAÇO

MULHER EM PUBLICIDADE Somos alunas da Faculdade Integrada Tiradentes e parabenizamos a equipe da ESC pela reportagem “A revolta da mulher-objeto (29 de julho). O matéria do te­ma, dá o de­vido respeito que ele deve receber. É bom constatar que o marketing está evoluindo, sem precisar usar o corpo da mulher para vender mais. Adoramos saber da iniciativa da Skol de recriar suas propagandas de um jeito mais respeitoso, que mostra a luta da mulher atualmente. Mariana Pasqualini e Marcela Cedrola Juiz de Fora / MG

MUDANÇA NA AUTO ESTIMA PELA PRÁTICA DE ESPORTE Eu gostaria de dar uma sugestão para a segunda edição. Seria interessante uma matéria sobre os benefícios do esporte pra auto estima. Pude viver a transformação que o esporte me trouxe e acredito que essas informações ajudariam a muitos. Com certeza vou assinar a revista e indicar a outras pessoas. Bruno Camelo de Oliveira São Paulo / SP

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18 INQUEBRÁVEL Fernando Fernandes sofreu um acidente que o deixou paraplégico, mas isso não o derrubou. Entrevista por Lia Hama

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SUMÁRIO

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35MM

Confira imagens da parada do orgulho gay pelas lentes do fotógrafo Hudson Rodrigues

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NA MORAL

Diga-se de passagem Por Clarice Freire A vida nunca de resolve Por Gustavo Gitti Quanto mais franco melhor Por Gustavo Lacombe Conectados Anônimos Por Maurício Gomyde Um lugar pior que o fundo do poço Por Paula Abreu

SEXUALIDADE

Conheça o tppa, doença que deixa sintomas na mente de usuários de drogas

E aí? Como está o seu stress? Esperamos que 0%, mas caso não, faz o testo do burnout

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MODA Separamos fotos incríveis da coleção de calçados Insecta. Vc vai arrasar, gata!

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Jovens com problemas durante o sexo. Veja as relações com a pornografia

SUBCONSCIENTE

DETOX

CULTURA

Indicamos o filme, Disconect pra hora da pipoca e de repensar nossas relações

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BATE E VOLTA

Confere nossas dicas de como acampar de forma confortável e sem perrengue

FILÉ MIGNON

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Vc prefere o controle ou ser livre? Faça sua escolha e vamos ver as consequências

Tá se achando velho pra começar a andar de skate? Veja como começar e onde

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BPM

ZEN

A meditação que proporciona estímulos que levam a concentração e o foco único

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AGENDA

RELACIONAMENTO

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CHARGES

Encorajamos vc a conhecer o mundo de desconhecidos. Você pode se surpreender

O sucicídio de Chester Bennington trouxe a tona um assunto que precisamos falar!

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POEMA VISUAL


CURTINHAS

ARTESÃ CRIA BONECAS COM VITILIGO E AJUDA MENINAS COM A DOENÇA Com o objetivo de ajudar na inclusão social das meninas que sofrem com a situação, a artesã norte-americana Kay Black acaba de lançar uma linha de bonecas com vitiligo. Com desenhos que reproduzem à perfeição o efeito da doença, elas também podem ser customizadas, copiando os traços de suas futuras donas. Segundo informações do Ministério da Saúde, cerca de 2,9 milhões de brasileiros sofrem de vitiligo. A doença é especialmente difícil para crianças, que têm de aprender a conviver com a despigmentação progressiva da pele.

A MULHER QUE JÁ ADOTOU 93 CÃES IDOSOS E EM ESTADO TERMINAL Quando alguém resolve adotar um cachorro, logo pensa em um filhotinho. Kim Skarritt, uma americana de Michigan, tem resgatado e acolhido dezenas de cachorros mais velhos (de sete anos ou mais), que geralmente são os últimos a serem adotados, e muitas vezes, infelizmente, isso nem chega a acontecer para muitos deles. Kim montou um abrigo, o Silver Muzzle Cottage, que já acolheu mais de 90 cachorros em dois anos de funcionamento. E o abrigo de Kim não só cuida desses animais: uma vez por semana, alguns cães visitam uma casa de repouso e fazem companhia para pessoas idosas.

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PLAYBOY FOI A PRIMEIRA GRANDE REVISTA A CELEBRAR A BELEZA DA MULHER NEGRA Hugh Hefner, nos anos 60 deu espaço aos líderes do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos da costa leste a oeste. Em poucos anos todos passaram a conhecer o homem das coelhinhas. Além disso, as páginas da Playboy foram o primeiro fórum de discussão da revolução sexual masculina, quebrando os tabus históricos e chacoalhando os caretas ao redor do mundo inteiro. Hefner também fez história ao publicar ensaios fotográficos com modelos negras. O primeiro deles, com Jennifer Jackson, data de março de 1965.

CIDADE NATAL DE VAN GOGH, NA HOLANDA, REALIZA A MAIOR PARADA DE FLORES DO PLANETA Sempre no primeiro domingo de setembro, os habitantes da pequena cidade de Zundert, na Holanda, realizam a maior parada de flores do planeta. Dezenas de carros alegóricos desfilam pela rua principal durante a Bloemencorso, em uma disputa acirrada entre os floricultores da região. Sobre os 20 carros alegóricos, criaturas fantásticas e cenários abstratos, que impressionam por sua complexidade. Vale lembrar que Zundert é a cidade natal do gênio Vincent Van Gogh, cuja paleta de cores pode ser até percebida em algumas das criações florais.


AÇÃO CONJUNTA SALVA QUASE 500 IMIGRANTES NO MEDITERRÂNEO Pelo menos 470 imigrantes foram resgatados neste sábado, 25, enquanto viajavam a bordo de várias embarcações no Mediterrâneo Central, entre eles mulheres e crianças, todos “sãos e salvos”. A informação foi dada pela Guarda Costeira italiana, que coordenou a ação de salvamento. Foram cinco operações de salvamento no total, em águas internacionais na região do litoral da Líbia. Neste ano, até 24 de novembro, desembarcaram em portos italianos 115.159 imigrantes resgatados no mar, 32,55% a menos que no mesmo período do ano passado. Foto: Marina Militare

BRASILEIROS QUE CRIARAM VACINA CONTRA VÍCIO EM COCAÍNA GANHAM PRÊMIO A equipe PharmaView, que criou uma vacina contra a dependência química em cocaína e crack, ganhou o prêmio ufmg Challenge. A vacina bloqueia a entrada da droga no cérebro, impedindo assim o seu efeito. A ideia é que a solução seja agregada ao atual esquema terapêutico, para impedir recaídas e melhorar sua efetividade. Como prêmio pelo primeiro lugar, a equipe liderada pelo médico e professor da Faculdade de Medicina da ufmg Frederico Garcia vai representar a ufmg em um hackathon na Finlândia, a Ultrahack 2017 Sprint II, que será realizada de 17 a 19 deste mês. Foto: UFMG divulgação

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ulgação

curtinhas

ANIMAIS VOLTAM À CHAPADA DOS VEADEIROS APÓS INCÊNDIO A natureza começa a dar sinais de recuperação, de vida, após o incêndio do mês passado que destruiu 66 mil hectares, o equivalente a 28% do total da unidade de conservação do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Moradores e voluntários registraram o retorno de animais silvestres às áreas visitadas do parque. Esta semana uma espécie de pavão silvestre voltou a ser visto nas redondezas da Pousada Inácia, um dos conhecidos santuários ecológicos da entrada do parque nacional e que, por pouco, não foi alvo das chamas. Pouco mais cedo uma arara-canindé e um casal de tucanos também foram vistas nas proximidades da propriedade. Mutirões chegaram a serem organizados por veterinários e biólogos para res-

gatar espécies silvestres dos incêndios e também para conscientizar motoristas sobre os limites de velocidade e assim evitar atropelamentos de bichos em fuga. “É emocionante, depois de tanto desespero e tanto cinza, ver o colorido da vida retomando as paisagens da Chapada dos Veadeiros”, disse a advogada Gabriela Alcoforado, proprietária da Inácia. Ela conta que o movimento de turistas retomou à normalidade desde o último fim de semana. No total, mais de 500 pessoas, entre brigadistas, bombeiros e anônimos, ajudaram no combate às chamas. Pela internet, a rede pretende arrecadar R$ 574.710 para organizar e capacitar oito brigadas voluntárias regionais, compostas por 12 pessoas cada. O grupo já arrecadou mais de R$ 450 mil.


CONTA MAIS

ELE É INQUEBRÁVEL Aos 36 anos, Fernando Fernandes foi modelo, participou de reality show, sofreu um acidente de carro que o deixou paraplégico e virou tetracampeão de canoagem Entrevista por Lia Hama Fotos Daniel Aratangy

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COM 1,89 METRO DE ALTURA E 90 KG, Fernando Fernandes define seu corpo como sendo de um “monstro” da cintura pra cima e de alguém que requer cuidados especiais da cintura pra baixo. Foi levando a sua metade “monstro” ao limite que ele pedalou com os braços uma handbike por 200 quilômetros no deserto de sal da Bolívia; remou 150 quilômetros no rio Xingu; desceu uma corredeira com cachoeiras de até 12 metros em Minas Gerais e esquiou montanhas virgens (sem pistas de esqui) na Noruega. Os desafios extremos em meio à natureza selvagem podem ser conferidos na série Além dos limites, que estreia no dia 27 deste mês no Canal Off, e no quadro «Sobre rodas», no programa Esporte Espetacular, da Rede Globo. O atleta de aventura e repórter de tv é a mais nova encarnação do filho de comerciários que cresceu na Vila Mariana, bairro de classe média paulistana. Aos 36 anos, prestes a lançar a biografia Inquebrável (sai em junho pela ed. Paralela), Fernando faz um balanço de sua trajetória de modelo internacional a participante do Big Brother Brasil; do acidente de carro que o deixou paraplégico, em 2009, ao tetracampeonato mundial na paracanoagem; da paranoia dos tempos de celebridade de reality show ao trabalho no Instituto Fernando Fernandes Life, que ajuda crianças com dificuldades motoras a se reinserirem na sociedade por meio da canoagem.

tar minha vida nômade: um dia estou aqui, amanhã não sei onde vou estar. Acabo sendo meio egoísta e passo a seguir meu caminho sozinho. Mas tenho vontade de ter filhos.” O atleta teve dois encontros com a ESC: no Núcleo de Alto Rendimento Esportivo de São Paulo (narsp), quando posou para as fotos destas páginas, e em sua casa térrea no Planalto Paulista, onde mora com o amigo e atleta velocista Ailson Feitosa. De sorriso largo, bem humorado, pele bronzeada e topete cuidadosamente esculpido à base de Hipoglós, Fernando mostrou todos os cômodos adaptados, o armário com ternos feitos sob medida pelo estilista Alexandre Won, o carro que ele mesmo dirige e o que chama de seus “brinquedinhos”: duas handbikes, um monoesqui e uma coleção de 14 caiaques pendurados no quintal. O momento é de transformação. Tetracampeão mundial de paracanoagem, tri pan-americano, tetra sul-americano e penta brasileiro, ele abandonou as competições de alta velocidade após uma série de embates contra o sistema de classificação que define os atletas paraolímpicos de acordo com sua funcionalidade. “É um sistema totalmente falho, que permite alguém com mais mobilidade passar para uma categoria que não deveria ser a dele e levar vantagem. O fato de eu não ter sido classificado para as Paralimpíadas do Rio 2016 tem tudo a ver com isso”, desabafa. 

VIDA NÔMADE

Você tinha fama de ser um cara brigão, estourado e já foi preso por desacato a autoridade. Você se tornou um ser humano melhor depois do acidente? Sem dúvida. Fiz um monte de merda no passado, mas aprendi a canalizar as minhas raivas e frustrações. Antes eu era um cara com o sonho de ser um atleta e, de repente, aceitei fazer parte de um reality show [na segunda edição

As mudanças também ocorrem na vida pessoal. Em dezembro, ele terminou o relacionamento de quatro anos com a atleta austríaca Viktoria Schwarz, campeã mundial de canoagem. “Minha maior dificuldade é seguir esse modelo que a sociedade impõe como o ideal, do casamento perfeito, com filhos e tudo mais. É difícil uma mulher acei-

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do programa Big Brother Brasil, em 2002]. Até então eu era um moleque tímido, amigo dos amigos, que gostava das coisas simples, de samba e futebol. De repente, virei o modelo do reality show, um pedaço de carne que todo mundo queria. Como lidar com toda aquela novidade aos 20 anos? Que preparo eu tinha para toda aquela exposição que tive? Repito, virei um pedaço de carne que todo mundo queria. Era o começo dos paparazzi de sites de fofoca. Quando saí do programa, por onde eu olhava, tinha alguém me fotografando incansavelmente. Sua beleza chama muito a atenção. Você aprendeu desde cedo a usá-la a seu favor? Até os meus 16 anos eu fugia de mulher, só queria saber de bola, estar com os amigos e dar risada. Sempre tive o sonho de ser atleta, mas as circunstâncias da vida foram me levando para outro lado. Aos 12 anos, por coincidência, uma produtora que morava no meu prédio chamou a turma do bairro para um teste de comercial de TV. Fui o escolhido entre todos os garotos do bairro, era um comercial das pastilhas Valda. Aos 17, um booker carioca me convidou para trabalhar numa agência em Nova York. Morei por um tempo no Harlem, passei por vários perrengues, mas fiz campanhas para Calvin Klein e Abercrombie & Fitch.

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Como surgiu o convite para participar da campanha da Dolce & Gabbana, ao lado de Naomi Campbell, Claudia Schiffer e Eva Herzigova? Como tudo na minha vida, as oportunidades chegam assim, do nada. Eu tinha ido jogar uma altinha com os amigos na Praia de Ipanema, no Rio. O Mario Testino [fotógrafo de moda] me viu, se apresentou, perguntou se eu era modelo e se eu queria fazer umas fotos. Eu fui. Depois de um ano, o Mario me convidou pra fazer a campanha da Dolce & Gabbana. Como foi o ensaio de fotos? Achei que fosse fazer figuração para as modelos, mas fui para Paris e tinha uma limusine me esperando. Na hora em que eu chego ao estúdio, tinha um camarim com o meu nome, roupão com meu nome, não acreditei. Aí vem o Mario e fala: “Ó, te chamei porque quando te fotografei no Rio você não teve vergonha de ficar nu e nesse trabalho vai ser todo mundo praticamente nu”. Me explicaram que eu ficaria um ano sem poder trabalhar como modelo porque a campanha sairia em todas as mídias e a gente abriria a Semana de Moda de Milão. Pagaram bem? Bem menos do que para a Naomi Campbell, mas foi bom, dava para comprar um monte de Fusquinhas [risos].


CONTA MAIS

A campanha estava prestes a ser lançada quando você sofreu o acidente de carro. Como você reagiu? Faltavam uns 15 dias para eu viajar para Milão, estava superansioso, me preparando para aquele momento. Meu porte sempre foi grande para a moda, então tinha que enxugar, fazer dieta. Eu comia pouco e treinava muito. Na hora em que sofri o acidente e perdi o movimento das pernas, eu falei: “Ferrou, preciso fazer alguma coisa para voltar a andar”. Meu tio falou: “Calma, Nando, o processo é mais lento. Você vai fazer uma cirurgia para reconstruir a sua coluna”. Fiz a cirurgia e no outro dia já tava fazendo fisioterapia. Eu fazia três vezes mais exercícios do que a terapeuta mandava até ter um problema. Rompeu um fragmento e subiu um calombo nas minhas costas. Os médicos falaram que eu ia ficar dez dias em leito zero, sem me mexer. Foi quando a ficha caiu que a oportunidade financeira da minha vida já era. Eu tinha me programado pra viver mais quatro anos da moda, viajar o mundo e voltar com o bolso cheio.

Qual foi o momento mais difícil que você enfrentou? Foi em 2012, quando tive uma escara no glúteo. Depois de uma competição no Rio de Janeiro, sentei num píer que estava quente. Aquilo fez uma bolha do tamanho de uma cabeça de fósforo. A bolha abriu,

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Posando para o fotógrafo Mario Testino em Anthology de Dolce & Gabbana.

FIZ UM MONTE DE MERDA, MAS APRENDI A CANALIZAR A MINHA RAIVA

Como foi esse período deitado? Foram dez dias com medo. Fiquei o tempo todo num quarto branco, no hospital São Paulo, pensando no que ia ser da minha vida. Quando acabou, eu falei: “Bicho, o que vai ser, não sei. Não sei se vou voltar a andar, se vou viver pra sempre numa cadeira de rodas, mas tenho que me reabilitar para a vida”. Aí veio uma paz. Acho que essa é uma coisa positiva que eu tenho, sei lidar muito rápido com a adversidade. Eu reajo rápido.


CONTA MAIS

entrou uma bactéria e passei os nove meses seguintes tentando fazer a ferida fechar. Uma vez quase desmaiei durante uma palestra. Começou a baixar minha pressão por causa da bactéria que tava bombando dentro da ferida. Fiquei dois meses fazendo câmera hiperbárica – em que você entra num tubo com oxigênio, que ajuda a cicatrizar. Aquilo encapsulou a bactéria e virou uma bola. Tive que fazer uma cirurgia para retirar e passei dois meses em casa deitado, até cicatrizar. O

MINHA TERAPIA É A DOR, É A FORÇA QUE EU SINTO AO PRATICAR ESPORTE, É NESSA HORA QUE EU CONVERSO COMIGO MESMO E COM DEUS

ator Christopher Reeve, que fez o Superman, morreu por causa disso. Abriu uma escara nas costas dele, entrou uma bactéria, ele teve uma infecção generalizada e morreu. Tem mil coisas na vida de um deficiente físico que as pessoas nem imaginam. Você passou por períodos de depressão? Não sei o que é isso. Todo mundo me pergunta: “Você nunca foi a um psicólogo?”. Minha terapia é a dor, é a força que eu sinto ao praticar esporte, é nessa hora que eu converso comigo mesmo e com Deus. Não tenho religião, mas acredito numa força superior que me inspira e me motiva.

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Como foi a redescoberta do sexo depois do acidente? Era uma preocupação, se as coisas iam funcionar, e funcionaram. Acontece de várias formas, você descobre tentando. Se você se preocupa demais com o que o outro espera de você, aí você bloqueia. Agora, se eu sei quem eu sou e o que eu quero, aí é uma troca. Eu tô me entregando e a pessoa se entrega. Para mim, é o prazer carnal dentro de uma relação, a forma como você deseja a outra pessoa, o tesão pelo toque e pelo cheiro dela. Como você vê a sua trajetória na paracanoagem? Eu peguei aquele esporte que ninguém conhecia e passei a usá-lo como a minha ferramenta de capacidade. O caiaque faz isso porque, na hora em que você senta nele, some a deficiência. Sempre treinei muito e levei aquilo muito a sério. Depois de um ano e um mês de lesão, fui campeão mundial de paracanoagem. Mas não adiantava ser campeão de um negócio que ninguém conhecia. Você acredita que voltará a andar? É meio confuso isso na minha cabeça, não sei. Logo após a lesão, pensei muito nisso. Mas aí percebi que é um processo muito mais lento e está ligado ao que eu falava no início da nossa conversa: enquanto o lesionado medular não for visto com respeito, não se posicionar na sociedade, se tornar um presidente, um chefe de uma empresa, um atleta bem-sucedido, as pesquisas com células-tronco vão continuar sendo uma questão secundária. A partir do momento em que me torno alguém na sociedade, vou discutir de igual para igual e questionar: “Por que o investimento está indo para lá e não para cá?”. A cura vai acontecer, só que é preciso colocar dinheiro para que ela se torne possível. E, para isso, é preciso mudar a forma como a sociedade enxerga um cadeirante lesionado medular. Essa é a minha luta hoje.


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PORNOGRAFIA E A AMEAÇA À VIRILIDADE A primeira geração de homens que cresceu com pornografia online ilimitada soa o alarme Por EJ Dickson Ilustrações Danilo Alvarenga

UMA TARDE EM MARÇO PASSADO, Tony, 27, entrou no PornHub para se

masturbar, como costumava fazer ao chegar em casa do trabalho. Ele acabou de terminar com sua namorada e para ocupar o tempo, via pornografia algumas horas por dia, “principalmente por tédio”, diz ele. Desta vez, no entanto, notou que não conseguia se excitar - de forma nenhuma. Ele tentou no dia seguinte, depois no próximo. Nada. “Literalmente aconteceu da noite para o dia”, disse ele. Tony, cujo nome foi alterado para proteger sua privacidade, passou com vários médicos e um terapeuta sexual, os quais ficaram desconcertados por sua condição. Ele fez uma série de testes para verificar seus níveis de testosterona, cujos resultados foram bons. “Eu deixei claro que minha DE não foi provocada por algum trauma social-emocional-financeiro repentino”, diz ele. “Eu sou um jovem saudável e contente de qualquer forma”. Um dos médicos prescreveu-lhe Viagra, o que não funcionou: o Viagra aumenta o fluxo sanguíneo para o pênis, o que pode ajudar a fortalecer as ereções, mas sua eficácia exige que o pênis esteja pelo menos levemente ereto, em primeiro lugar. Tony não conseguia ficar minimamente ereto. Então, Tony começou a pesquisar. O que encontrou foi um site chamado Reboot Nation, que foi criado por um texano musculoso, de olhos azuis e afável de 29 anos chamado Gabe Deem. Em uma série de vídeos no site, Deem contou sua própria história, que

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não era diferente da de Tony: um dia, descobriu que ele não conseguia ser estimulado por sua namorada, e acreditava que o culpado era a pornografia na Internet. Ele criou o Reboot Nation como um meio para homens que haviam se afligido de forma semelhante para se encarregar de suas vidas sexuais e “reiniciar” seus cérebros absorvidos pela pornografia. Gabe Deem e centenas de milhares de outros jovens na Internet se diagnosticaram com disfunção erétil induzida por pornografia (DEIP). A DEIP não está no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), que normalmente é considerado o padrão-ouro da medicina diagnóstica; nem houve muitos estudos parecidos que atestem o fenômeno. No entanto, muitos homens jovens, em seus vinte e trinta anos, estão se voltanGabe Deem, criador do para sites como Reboot do site Reboot Nation Nation - de acordo com Deem, por Matt Tyler tem aproximadamente 10.000 visitantes por mês -, bem como sites similares como Your Brain On Porn e o NoFap, para relatar sintomas de disfunção erétil. E a única coisa que eles têm em comum, é uma dieta saudável de pornografia na Internet. “Muitos dos garotos com quem falo dizem que não conseguem mais ser estimulados por causa da pornografia na Internet” diz Deem. “Historicamente falando, uma brisa do vento afetaria um adolescente, e agora tenho visto garotos de 13 e 14 anos me dizendo que não conseguem ‘ficar em posição’ ”.

TENHO VISTO GAROTOS DE 13 E 14 ANOS ME DIZENDO QUE NÃO CONSEGUEM FICAR EM POSIÇÃO

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de pessoas fazendo boquete nas festas não permitiram a disfunção erétil dos homens, por que a pornografia de repente causaria a perda de centenas de milhares de pênis eréteis agora? Mas é verdade que graças ao advento de sites como o PornHub, que é um dos top 50 sites mais visitados do mundo, a pornografia tornou-se muito mais acessível para um público muito mais amplo, para não mencionar um muito mais variado. Para muitos homens adolescentes, isso é milagroso - mas para aqueles que afirmam sofrer de disfunção erétil induzida por pornografia, como Deem, não é nada menos que um desastre. “A pornografia na Internet não é Playboy ou uma pintura de caverna”, disse-me Deem recentemente. “Eu posso ver 10.000 garotas fazendo garganta profunda se eu quisesse... A novidade e estimulação que você obtém através da pornografia na Internet é diferente de tudo o que você já viu antes”. Deem começou a lutar com a DE induzida por pornografia em seus vinte e poucos anos. Embora ele tenha sido sexualmente ativo há anos, de repente ele não conseguia ter uma ereção sem pornografia, “não importa SITES ILIMITADOS o quanto eu tenha tentado”, Claro, a pornografia tem exis- ele diz, alegremente. “Eu senti tido, em várias formas, desde o como se eu tivesse 90 anos”. início da própria humanidade; Deem fez algumas pesquisas sose as pinturas rupestres de mu- bre dependência pornográfica. lheres nuas ou os filmes mudo Ele encontrou os estudos cita-


dos pelos defensores do modelo de dependência pornô, indicando que a exibição de pornografia desencadeia a liberação de dopamina, fazendo com que sintamos prazer e que, quando essa resposta é desencadeada repetidamente, uma pessoa buscará compulsivamente a atividade que motivou a reação prazerosa, semelhante a um dependente químico que procura cocaína repetidamente para obter o mesmo alto, de novo e de novo. Através de um popular TED Talk, o autor de Your Brain on Porn, Gary Wilson, reafirma essa visão, argumentando que, à medida que o cérebro cria mais e mais dopamina, ele se cansa, provocando uma necessidade de estimulação cada vez mais frequente e intensa. Se um homem se masturba com pornografia com muita frequência, Wilson explica no vídeo - que agora tem mais de 8 milhões de visualizações - “ aos 22 anos, o gosto sexual de um cara pode ser como raízes profundas em seu cérebro”. Enquanto assistem a pornografia que se torna cada vez mais hardcore e agressiva, isso leva os homens

a buscar pornô que seja cada vez mais “extremo” ou “pornografia que não corresponde mais à sua orientação sexual”. Parar inteiramente de se masturbar com pornografia. Uma vez que isso acontece, Wilson explica, “seu gosto pode reverter” de volta ao normal, porque “os cérebros são de plástico”. Então, Deem parou de assistir pornografia, ou “reiniciou”, como disse. Após nove meses sem pornografia e sem masturbação, diz, que pôde fazer sexo novamente. Em março de 2014 ele também iniciou o Reboot Nation, onde aconselha homens que lutam com a disfunção erétil induzida

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TENHO VISTO UM AUMENTO NAS TAXAS DE DISFUNÇÃO ERÉTIL ENTRE OS JOVENS

por pornografia. “Eu ouço de caras que são suicidas e vão aos médicos, e os médicos dizem que provavelmente é ansiedade de desempenho”, disse. “Mas isso não está ajudando, porque esse não é o problema”. Para esclarecer, não existe um consenso científico firme se a pornografia tem efeito a longo prazo sobre a capacidade de manter uma ereção, ou mesmo se a pornografia tem efeitos a longo prazo no cérebro para começar. No entanto, o que chamamos de disfunção erétil “psicogênica”, ou seja, disfunção erétil que não tem causa fisiológica, tem estado, sem dúvida, em ascensão nos últimos anos. De acordo com um estudo de 2013 no Journal of Sexual Medicine, quase um em cada quatro novos pacientes com disfunção erétil tem menos de 40 anos um achado surpreendente, uma vez que a disfunção erétil tem sido tradicionalmente considerada comum em homens entre 60 e 70 anos. “Tenho visto um aumento drástico nas taxas de DE entre homens jovens, especialmente nos últimos dois, três anos”, disse a terapeuta sexual Vanessa Marin. “Minha base média de clientes está ficando cada vez mais nova”. Em 2015, um artigo da Vanity Fair sobre aplicativos de relacionamento por Nancy Jo Sales também aludiu ao fenômeno, citando mulheres que se queixaram da frequência de homens que perdiam suas ereções

DISFUNÇÃO ERÉTIL Uma série de fatores foram especulados como estando por trás dessa tendência, de comer alimentos processados ​​até tomar drogas psicotrópicas. No entanto, o pornô é o mais citado como provável culpado, levando

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a criação do termo “Disfunção Erétil Induzida por Pornografia”, cunhada pelo Dr. Abraham Morgentaler, professor clínico de urologia na Harvard Medical School. Um estudo recente no Centro Naval de San Diego, dirigido pelo urologista Dr. Matthew Christman, trouxe a suposta ligação entre pornografia e DE em foco. O estudo se baseou em 300 homens e mulheres que foram em uma clínica de urologia, descobrindo que havia uma ligação entre o uso excessivo de pornografia e várias disfunções sexuais. Deem não é um conselheiro licenciado ou terapeuta. Enquanto a descrição do TED da conversa de Gary Wilson contém uma nota: “Esta conversa contém várias afirmações sobre a masturbação que não são apoiadas por estudos academicamente respeitados em medicina e psicologia, mas

ainda sim devem ser consideradas”. O estudo se baseou em 300 homens e mulheres que foram em uma clínica de urologia, descobrindo que havia uma ligação entre o uso excessivo de pornografia e várias disfunções sexuais. Tony ainda está lutando com a de, embora ele saiba que recaídas acontecem - o máximo que ele já passou sem pornografia foram 75 dias. Quando ele pode, usa Viagra, mas vê isso como uma “muleta para uma perna quebrada. A perna ainda está quebrada, mas a muleta me ajuda a caminhar, e isso me dá confiança para andar mais. Só que eu não posso confiar em um muleta para sempre”. Deem e outros defensores sabem que estão entrando em um vento de apatia, antagonismo e ridículo. Mas eles não são dissuadidos. Um dos mais novos membros do NoFap, um homem gay de 30 anos, que acaba de começar um desafio de 30 dias, coloca assim: “Quando penso nisso”, ele escreve, “eu desperdicei meus anos de vida à procura de um computador ou telefone móvel para fornecer algo que não é capaz de fornecer “.


SUBCONSCIENTE

QUANDO DROGAS TE FODEM PARA SEMPRE Transtorno Perceptivo Persistente por Alucinógenos é uma condição que pode deixar usuários de drogas com alucinações pelo resto da vida. Por Anna Condrea-Rado Ilustração Eugenia Loli

UM XAROPE PARA TOSSE COM A FINALI- ponto.” Por semanas, a visão de Miller fiDADE DE: CHAPAR. Foi o que Alex Miller, cou afetada. Ele via pequenos rastros de luz

21 anos, comprou numa famárica quando estava no ensino médio. No começo daquele dia ele também tinha tomado Adderall, um remédio indicado para DDA, algo que ele fazia com frequência porque estava sofrendo com um vício em anfetaminas na época. “Então eu tomei um estimulante pela manhã e depois um dissociativo. Uma combinação idiota”, ele me disse. “No dia seguinte, acordei com pequenos rastros na minha visão. Quase não dava para notar, mas eu soube na hora que tinha algo errado, porque os efeitos colaterais já deveriam ter passado naquele

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seguindo objetos quando eles se moviam. No começo isso não o incomodou muito, já que era algo sutil. Mas com o tempo, ele foi ficando cada vez mais preocupado porque os rastros não sumiam. Isso foi há quatro anos; desde então seus distúrbios visuais só pioraram. “Vou ficar cego quando estiver com 30? Não vou poder andar por uma rua movimentada? Ainda vou poder dirigir? É isso que passa pela minha mente”, ele disse. Miller tem Transtorno Perceptivo Persistente por Alucinógenos (TPPA), uma condição médica pouco compreendida que atinge


usuários de drogas alucinógenas. Isso pode causar efeitos visuais perturbadores, como aura nos objetos, ver coisas que não estão lá na sua visão periférica e pós-imagens. Apesar de não representar um perigo de vida, a condição afeta a vida diária e pode ser tão estressante que a pessoa acaba com problemas mentais (pesquisadores acreditam que pessoas com tppa têm um risco de 50% de desenvolver depressão). Apesar de a doença ser mais associada com o consumo de ácido, a condição também pode estar ligada a outras substâncias, incluindo mdma e anfetaminas. Atualmente não existe cura para o tppa; na melhor das hipóteses, os sintomas podem ser gerenciados com uma combinação de medicamentos e terapia. Os sintomas podem durar por meses ou anos, e em alguns casos, para o resto da vida. Um estudo no Reino Unido examinou o caso de um homem de quase 50 anos que sofria de tppa há mais

de 25. “Não há um tratamento realmente eficaz para isso”, disse o Dr. Henry Abraham, professor de medicina da Tufts University e um dos poucos cientistas do mundo a estudar tppa. “Estamos tentando todo tipo de coisa, já publicamos pesquisas, mas não há outra cura para tppa além da mãe natureza.” Miller disse que, no começo, nem procurou um tratamento apropriado para o tppa. “Por um tempo tomei remédios por conta própria, tentando me distrair do problema”, ele disse. “Usei estimulantes para isso. Todo mundo vai dizer que a melhor opção é abstinência de drogas, mas isso pode ser demais para algumas pessoas.” Miller, que agora está num programa de recuperação para vício em drogas, atualmente toma quetiapina, um antipsicótico, para lidar com os sintomas e acha que está funcionando. Antes ele tomou benzodiazepina com algum sucesso; a droga psicoativa é receitada com frequência para tppa, mas tem seus próprios riscos.

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QUEM SOFRE DE TPPA DEVE EVITAR SUBSTÂNCIAS RECREATIVAS, ESPECIALMENTE MACONHA, A TODO CUSTO

“Benzos podem ser usados com segurança desde que a pessoa não esteja em risco de se tornar dependente”, disse Abraham. “É uma primeira linha de defesa, mas não uma cura.” Abraham enfatiza que quem sofre de tppa deve evitar substâncias recreativas, especialmente maconha, a todo custo. Ele também descobriu que praticar atenção plena pode ser muito útil para aliviar sintomas e lidar com a condição. O tppa é pouco conhecido mesmo entre médicos, apesar de ser uma condição reconhecida pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, a bíblia médica dos problemas de saúde mental. “É o que chamamos de doença órfã”, disse Abraham, referindo-se ao fato de que as companhias farmacêuticas não estão interessadas em tppa porque não podem fazer dinheiro com a condição, e assim os cientistas não conseguem financiamento para estudá-la. Abraham estima que tppa afeta cerca de 4% das pessoas que já tomaram alucinógenos, mas como nenhum estudo em grande escala foi feito, o número exato de pessoas sofrendo disso ainda é desconhecido. Ele diz que outro aspecto preocupante da condição


SUBCONSCIENTE

é que ela pode se apresentar nos pacientes anos depois que o uso de drogas aconteceu. Diferentemente do que houve com Miller, acordar no dia seguinte com os sintomas, os sintomas podem aparecer muito tempo depois do fato. “Se você já tomou lsd no passado e não desenvolveu tppa ainda, não quer dizer que está livre”, disse Abraham. “Muitas vezes as pessoas desenvolvem essa síndrome depois de uma noite bebendo e fumando maconha.” Isso quer dizer que se alguém já tomou ácido ou outro alucinógeno, mais uma balada poderá ser a gota d’água. Miller suspeitava que tinha a doença muito antes de receber um diagnóstico oficial. Primeiro ele foi ver um oftalmologista sobre o problema, mas os exames não mostraram nada, e ele também fez uma ressonância magnética e consultou um neuro-oftalmo. Abraham diz que o caminho de Miller para

chegar ao diagnóstico é bastante comum, estimando que um paciente médio passa por uns seis médicos antes de finalmente encontrar alguém que conhece a doença. Por essa razão, ele fez um grupo no Facebook para pessoas que têm, ou acham que têm a doença. No grupo, as pessoas falam sobre o que vêm passando e como o tppa afeta suas vidas, compartilhando o que as ajudaram. O verdadeiro soco no estômago do tppa não é apenas viver com o stress da doença, mas lidar com os outros, já que algumas pessoas não simpatizam com o problema porque veem isso como autoinfligido pelo uso de drogas recreativas. “As pessoas ficam relutantes em falar sobre tppa porque sentem que isso tem um estigma ora eu tenho esse lembrete constante de algo que fiz no colégio, quando não estava pensando direito nos meus atos.”

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CONVÍVIO

FALE COM ESTRANHOS As conversas que temos com desconhecidos, ainda que sejam breves, são uma oportunidade para exercitar o nosso olhar delicado e o sentimento de conexão Por Débora Zanelato Fotos Thomas Vogel

A CONVERSA COMEÇOU INESPERADAMENTE, por causa do tênis – talvez

um tanto chamativo – que eu usava naquela tarde de setembro. “Gostei dos seus sapatos”, me disse o senhor desconhecido que estava logo à minha frente na longa fila para subir a catedral de Notre Dame, em Paris. Hervin era o nome dele: um homem simpático que usava boné e camisa polo listrada e que morava numa cidade interiorana dos Estados Unidos. Ele e a mulher, Barbara, faziam sua primeira viagem internacional por um motivo importante: comemorar os quase 40 anos de casados. Ali, passando alguns minutos de conversa com aquele casal, estávamos eu e meu marido, com a aliança na mão esquerda havia menos de uma semana. Subir os 422 degraus de uma escada espiralada e estreita era uma atividade que exigia um pouco de esforço. Barbara e Hervin seguiam dedicados, à nossa fre1nte, compartilhando conosco uma certa cumplicidade silenciosa pela vista que esperávamos quando chegássemos ao topo. Na metade do caminho, porém, Barbara estava cansada e precisou parar. Por algum motivo, paramos com eles. Ela aceitou a água que eu tinha comigo e logo seguimos, até o alto da igreja, onde as gárgulas emolduram a vista da cidade. Tiramos algumas fotos juntos e depois compartilhamos os degraus da descida para, então, entrarmos novamente no mundo dos desconhecidos. Demos um “até logo” que na verdade significa um “tchau para sempre”. É isso o que o sociólogo alemão

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CONVÍVIO

Valter Benjamin chamaria não de amor à primeira, mas à última vista. Já se passaram alguns anos desse dia, que é um dos tantos encontros com desconhecidos que eu coleciono e levo comigo – provavelmente você também tem alguns desses na memória. Às vezes, foi um diálogo simples com alguém que sentou ao seu lado no metrô e ocupou o espaço do silêncio com alguma alegria. Ou dividiu com você a mesma inquietação pela demora da fila no caixa do banco. Cruzar o tempo todo com desconhecidos é como uma premissa de quem vive em qualquer metrópole. E, junto com isso, a possibilidade de também se conectar com o outro em nossa própria humanidade. “O que as cidades nos oferecem de mais atraente é a chance de vislumbrar constantemente mundos estranhos, que não são os nossos e que podemos vir a conhecer”, me conta a antropóloga Janice Caiafa, que mora no Rio de Janeiro e se dedica a estudar como acontecem essas trocas entre desconhecidos nos meios de transporte coletivo de várias cidades. “Todo ser humano é um estranho ímpar”, escreveu Carlos Drummond de Andrade em seu poema Igual-Desigual. Em cada um de nós existe um universo rico para além do passo apressado ou do estresse que a rotina nos impõe.

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ABRA A PORTA “Não fale com estranhos” deve ser uma das recomendações que as crianças mais escutam. Não seria por menos: os pequenos parecem mais abertos para conhecer o mundo, nutrindo uma curiosidade inocente pelo que está fora, e, sem recursos para se protegerem, estão mais suscetíveis ao perigo do desconhecido. Mas talvez na fase adulta a gente possa equilibrar melhor essa equação. Agora mais habilidosos em medir os riscos que qualquer convívio em sociedade nos coloca, e ainda assim mantendo o interesse e o olhar curioso pelo outro. “É claro que são encontros imprevisíveis, há o risco positivo e o negativo. Falar com essas pessoas é um passo adiante nessa experiência. É uma for-


ma de povoar nossa solidão. É uma atitude criadora”, observa Janice, que vê no contato com o outro uma porta para nos transformarmos internamente. Foi isso o que experimentou o irlandês Stephen Little. Quando criança, ele viajava com a família para o interior do seu país e se impressionava com um fato aparentemente comum pelas localidades por onde passava: as pessoas deixavam a porta de suas casas aberta, mesmo quando não estavam lá. “Aquilo era um sinal de que era um lugar seguro”, lembra ele. “Mais tarde, na minha adolescência, eu pensei nessa metáfora da casa aberta como as melhores trocas que eu tive com pessoas completamente desconhecidas e disponíveis. Como breves amizades de três minutos”, conta Stephen, que hoje vive no Brasil e dá aulas sobre atenção plena e sobre como ter melhores conversas. A verdade é que talvez nem todo mundo tenha o interesse ou mesmo a facilidade para iniciar uma conversa com estranhos com quem está dividindo o mesmo espaço. Mas este texto é apenas para dizer que a possibilidade existe, e que podemos desenvolver essa prática. O primeiro passo é se disponibilizar, quase como deixar a porta dos nossos olhos e ouvidos aberta para que o outro entre. “Deixar-se afetar por estranhos é de certa forma já mudar ou sair um pouco de si”, observa Janice. Curiosamente, ao mesmo tempo em que a cidade nos revela oportunidades, também acaba por facilitar que a gente se feche e olhe menos para o que está em volta, vivendo de forma um pouco individualista, centrada apenas no nosso eu e nos nossos problemas, deixando de ver – e de se reconhecer – no outro. Um caminho possível para sair desse mundo ensimesmado e contemplar a beleza das outras pessoas tem justamente a ver com a empatia: a habilidade de enxergar o mundo com o olhar do outro. “Nutrir uma curiosidade pelos estranhos é um bom exercício, porque nos faz compreender que há realidades diferentes da nossa. Saímos daquela zona onde vivemos com pessoas que partilham dos mesmos gos-

EM CADA UM DE NÓS EXISTE UM UNIVERSO RICO PARA ALÉM DO PASSO APRESSADO OU DO ESTRESSE QUE O DIA A DIA NOS IMPÕE

tos e pensamentos semelhantes”, observa Tati Fukamati, pós-graduada em neurociência e psicologia e estudiosa da empatia. Ela nos ajuda, inclusive, naqueles momentos em que a conversa segue rumo a opiniões opostas. “Vale lembrar que existe um ser humano que também tem medos, sonhos, desejo de ser amado, desejo de ser aceito”, diz Tati. Se durante uma conversa a gente se coloca em lados contrários podemos observar se o que está por trás não é o desejo comum de viver em um lugar melhor. As conversas também revelam uma oportunidade quase mágica de exercitar um profundo respeito pelo outro. Respeitar significa olhar de novo. Se num primeiro momento nos estranhamos com as diferenças, reparando melhor podemos contemplar a beleza nessas distintas formas de ser e viver. “Conforme vamos dando mais carinho para nós mesmos também nos tornamos mais tolerantes com os outros”, diz Stephen Little.

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CONVÍVIO

O ASSUNTO EM SI NÃO É O MAIS IMPORTANTE, MAS SIM O CONTATO

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O QUE VALE É A FORMA

Theodore Zeldin é um filósofo que nasceu na Palestina e acredita que conversas são muito mais do que assuntos que a gente discute. Elas são uma forma de nutrição compartilhada, que permite trocarmos confiança, sabedoria, coragem e amizade. E nem sempre, em uma conversa, o mais importante é o conteúdo do que se diz, mas o contato que a gente alimenta nessa troca. Stephen me diz que gosta de pensar nas conversas como um rio, que é naturalmente fluido e sobre o qual a gente não tenta exercer muito controle, deixando os caminhos abertos. “Tenho várias conversas bobas, nas quais o assunto em si não é o mais importante, mas sim o contato, o fato de que tem um ser humano na minha frente, alguém vivo. Conversas que nem sempre são profundas ou que eu divida da mesma opinião, mas cuja qualidade no final é a de que eu encontrei alguém.” Martin Buber, filósofo e pedagogo austríaco,

gostava de incentivar um modelo de diálogo em que não vemos o outro como objeto ou alguém para quem contamos nossas vantagens. Mas uma conversa simples baseada na ligação entre mim e você, na qual enxergamos o outro, e podemos, assim, simplesmente nos maravilhar com a vida ali presente.

CONVERSAS SILENCIOSAS Existe um universo no que é dito em silêncio. E o americano Richmond Shepard sabe exatamente o que é isso. Aos 87 anos, ele é considerado o mímico mais velho do mundo inteiro. Shepard se comunica com a plateia sem usar uma única palavra. “Pessoas bem velhas como eu frequentemente se esbarram nas ruas. É uma comunicação silenciosa através do olhar. Como se disséssemos ‘Olha só quão longe nós chegamos, boa sorte para todos nós’”, comenta ele sobre essa comunicação não verbal que se estabelece entre completos desconhecidos. Na cidade, parece que os gestos ficam restritos aos que pedem um trocado na rua, e para quem a gente quase não olha. E mãos, rostos e corpos contam uma história. “Muita comunicação pode ser feita em silêncio. Onde, por alguns instantes em qualquer cidade por aí, um simplesmente alimenta o outro com a vida.


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FILÉ MIGNON

ESTAR NO CONTROLE OU SER LIVRE? Se você quer a liberdade é preciso se perder, estar errado e aceitar as mudanças. Se quiser o controle, você não entendeu nada Por Milly Lacombe Ilustrações Eugenia Loli

NÃO FAZ MUITO TEMPO eu li o verso do poeta britânico William Blake que dizia: “A eternidade é apaixonada pela produção do tempo”. Achei interessante e tentei refletir sobre o trecho. Duas coisas nos distinguem do restante dos seres deste planeta: a noção a respeito do tempo, ou da finitude, e a capacidade criativa. É isso o que nos torna humanos. Mas se a segunda delas nos mantém em êxtase, ajuda a seguir e constrói, a primeira aprisiona e destrói. A consciência da morte, e a onipresente sensação de que não temos como saber quando ela chegará, gera a necessidade de tentarmos controlar tudo ao nosso redor, criando a ilusão de que temos certezas e convicções a respeito da vida, das pessoas e do mundo. E assim vamos, fingindo que tudo está sob controle, do dinheiro aplicado, passando pela saúde e pelo futuro dos filhos, e chegando ao casamento que vai ser “para sempre”, até que a vida, faceira, vai tirando os véus que cobrem nossos olhos. Pode acontecer depois de exames de rotina que fazem o diagnóstico de um tumor, durante a planejada ida à casa de praia, quando o jatinho particular da família precisa fazer um pouso de emergência, ou com a descoberta de uma traição, eventos que não escolhem cor, credo ou classe e que carregam com eles a verdade que tentamos esconder todos os segundos de todos os dias: não temos o controle a respeito de nada. E nessas horas, chacoalhados por doses brutais de realidade, entendemos que as coisas mais

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verdadeiras estão em constante transformação. Existe em sânscrito um verso que diz: aquele que pensa que sabe, não sabe; aquele que pensa que não sabe, sabe. Não saber deveria ser, portanto, um privilégio. Mas por que tanto apego às certezas se sabemos que elas não existem? Um mito a respeito da criação diz o seguinte: o Deus da identidade vivia feliz e pleno até que um dia disse “eu sou” e imediatamente sentiu medo porque passou a ser uma entidade no tempo. Pensou: “Do que tenho medo se sou a única coisa que existe?”, e imediatamente se sentiu sozinho. Depois sentiu desejo e criou o macho e a fêmea: fomos, assim, criados com esse medo que gera a necessidade de acharmos que temos controle sobre as coisas. Aqueles abençoados com situações-­limite – como uma doença grave ou um acidente quase fatal –, mesmo mergulhados em dor ganham de presente a real percepção da incerteza e passam a valorizar o universo de todas as coisas subjetivas em detrimento daquele onde moram todas as coisas objetivas, o universo do ideal x o universo do material. No primeiro, sabemos que na verdade, não sabemos de nada, e que tudo o que podemos fazer para passar bem por esta aventura terrena é permitir-se sentir e experimentar. No segundo, vive-­se preso em bens, posses, certezas, principados e poderes.


FILÉ MIGNON

A GENTE PASSA

PORQUE TANTO APEGO ÀS CERTEZAS SE SABEMOS QUE ELAS NÃO EXISTEM?

Quando os mais renomados físicos postularam que tudo no mundo é feito de átomos, e portanto tudo o que nos cerca é matéria, começamos a nos perder. Se tudo é matéria, o que vale é possuir, comprar, acumular. Mas, em décadas recentes, a física quântica derrubou algumas das mais inabaláveis certezas da física clássica e abriu espaço para que físicos se perguntassem: e se, em vez de matéria, tudo fosse feito de consciência? Nessa hora demos um salto em direção ao universo das subjetividades, dentro do qual o grande valor é ser, permanecer mergulhado em incertezas e seguir fazendo o que recomendou Nietzsche: “Vive como se o dia tivesse chegado”. Se na física clássica toda a quantidade tem um valor determinado, no mundo quântico passou a vigorar a regra da probabilidade. Deus não joga dados com o Universo, disse Einstein sentado sobre as certezas da física clássica. O físico britânico Stephen Hawking, mergulhado nas improbabilidades da física quântica, rebateu recentemente: “Deus joga dados, sim”. Voltando a Blake, a verdade é que o tempo não passa; a gente passa, e essa constatação fere. A fim de evitarmos a dor, vivemos com anestésicos na corrente sanguínea, e não nos damos conta de que a verdadeira crise é uma de estesia: já não suportamos mais sentir. E assim fazemos nascer o mais absurdo dos paradoxos: com medo da morte criamos a ilusão do controle, com ela evitamos sentir e, sem sentir, morremos antes da hora. Mas talvez pior do que morrer antes da hora seja abrir mão da liberdade. Essa coisa pouquíssimo valorizada, mas muito fundamental, que existe do lado oposto da segurança e do controle. Só na liberdade a alma cresce; e não há liberdade dentro de ambientes controlados e limitados. Então a busca pelo inseguro é, em certa escala, a busca pela vida. Mas a simples ideia de que o ser humano pode ser livre é apavorante para qualquer pessoa com poder, de simples pais até chefes e autoridades. Por isso somos condicionados a não bater asas neste mundo que se divide em aparência x essência e em ilusão x realidade. Enquanto nós andamos pela vida fingindo acreditar que temos o controle sobre todas as coisas, nossas certezas seguem desmoronando dia após dia sob os nossos olhos.

INSEGURANÇA É VIDA Em 2008, o sistema econômico que sempre acreditamos ser o único possível entrou em colapso e desde então o planeta declinou para um tipo de desigualdade social jamais visto. Para o escritor Malcolm Gladwell, não se trata de uma crise econômica, mas sim de uma crise de certezas. Foi uma espécie de overdose de convicções que

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FILÉ MIGNON

levou os maiores bancos do mundo a quebrarem e a levarem com eles toda a economia, ele diz. Diante desse cenário, para onde podemos escapar? Para dentro, dizem os místicos. Foi no meio da floresta amazônica, em viagem que fiz no ano passado, que escutei um xamã dizer: “Você precisa meditar todos os dias por 20 minutos no mínimo. A menos, claro, que esteja muito ocupada: nesse caso medite por uma hora”. É chegado a hora de achar o eterno em nós mesmos, abraçar a incerteza de tudo e deixar de temer. Fazer as pazes com a ideia de que cada um vive o próprio Armageddon – final de um tempo, começo de outro – muitas vezes antes da morte derradeira porque não se passa pela vida sem um Armageddon para chamar de seu. A verdade é que o tempo não passa; a gente passa, e essa constatação fere. A fim de evitarmos a dor, vivemos com anestésicos na corrente sanguínea, e não nos damos conta de que a verdadeira crise é uma de estesia: já não suportamos mais sentir. E assim fazemos nascer o mais absurdo dos paradoxos: com medo da morte criamos a ilusão do controle, com ela evitamos sentir e, sem sentir, morremos antes da hora. Gosto também do que Osho disse: “A menos que você entenda a insegurança, não poderá entender a vida. Estações mudarão, o clima mudará, a primavera chegará. Tudo seguirá mudando, isso é insegurança. Mas já parou para pensar no que aconteceria se tudo fosse permanente? Comer a mesma comida todos os dias, dizer as mesmas coisas todos os dias, escutar as mesmas coisas todos os dias. E não haveria nem morte para interromper essa existência trágica”.

A IDEIA DE QUE O SER HUMANO PODE SER LIVRE É APAVORANTE PARA QUALQUER PESSOA COM PODER

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Pensei em Edward Snowden, que testemunhou a vida virar de ponta-cabeça quando contou ao mundo alguns segredos da agência de segurança americana (NSA) que nos dizem respeito. Da noite para o dia, Snowden decidiu mostrar documentos secretos que provam a extensão da espionagem a que estamos submetidos diariamente. Nessa hora ele passou de servidor público a “o homem mais caçado do mundo”. É o caso de alguém que voluntariamente topou se livrar da ilusão do controle e ao mesmo tempo chamar a atenção para o fato de estarmos sendo controlados por algoritmos que trabalham a serviço de Estados e corporações. O que nós enxergaríamos se nos entregássemos ao exercício sugerido por Pascal? Seríamos capazes de superar a necessidade de acreditar que estamos no controle de tudo? Encontraríamos o eterno em nós mesmos e perderíamos o temor da morte? Será que nós seríamos capazes de entender David Foster Wallace quando ele sugeriu que a verdadeira liberdade é controlar a única coisa sobre a qual temos controle, o pensamento? Outra vez Blake dá uma boa pista: “Aquele que se deixa prender por uma alegria rasga as asas da vida. Aquele que beija a alegria enquanto ela voa, vive no amanhecer da eternidade”.


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SEM ROMANTISMO Morte de cantor do Linkin Park é alerta sobre depressão Por Rafael Gregório

Imagens Acervo Rolling Stones

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QUANDO SCOTT WEILAND MORREU, em

dezembro de 2015, foi como se o sistema que rege o destino tivesse sofrido algum tipo de bug. Não porque sua morte por overdose fosse improvável. Pelo contrário, isso foi por muito tempo esperado, dada a maior parte da vida adulta lutando contra vícios em cocaína, heroína e álcool. Ele liderava, inclusive, rankings de apostas sobre rockstars prestes a morrer. Também enfrentou divórcios, brigas e demissões. O destino aparentou ter sofrido um bug porque parecia que o pior já havia passado para o cantor, famoso à frente do Stone Temple Pilots e do Velvet Revolver. Afinal, após uma carreira construída sobre letras e melodias soturnas que ilustravam superação e esperança, o americano havia passado do teste dos 27 anos. Depois, dos 30 e dos 40. E estava há mais de uma década limpo. Recaiu e, em poucos meses, morreu. Aos 48, nos fundos de um ônibus durante uma turnê decadente, em má forma, lutando para encher casas de médio e pequeno porte e tentando reviver o auge da carreira. Derrotado por um inimigo há muito conhecido. Mas seria esse inimigo a droga? O vazio da fama? Os excessos inerentes ao rock n’roll? Ou seria a depressão? Há pouco mais de dois meses, foi a vez de Chris Cornell. Suicidou-se aos 52 anos, após se apresentar em um show lotado, em meio a uma turnê elogiada. Também viciado em álcool e drogas, também em eterno alerta, mas, desta vez, com o agravante de incompreensão de, na aparência, estar recuperado e vivendo o melhor e mais harmonioso momento da vida. Ensolarado, com filhos, trabalhando duro, lotando shows. Fazendo de seu renascimento inspiração a milhões de almas assoladas por vícios, tristezas, traumas. E depressão. Nesta quinta-feira (20), morreu Chester

Bennington, vocalista da banda Linkin Park. Ao que tudo indica, assim como Cornell, também por suicídio e durante uma turnê. Filhos, planos, publicações felizes em redes sociais: também parecia viver em paz. Bennington, 41, foi fã de Cornell e, em especial, de Weiland. Dividiu palco com o Stone Temple Pilots em uma memorável turnê em 2001 e chegou a suceder o cantor à frente da banda, com quem lançou um disco, em 2013, antes de devolver-se com exclusividade ao Linkin Park, que nunca parou. Com sua fórmula de heavy metal, grunge, hip-hop e hard rock, intitulada nu metal pela crítica especializada, e escorado na voz gutural, nas letras sombrias e nas performances vívidas de Bennington, seu grupo foi o maior do mundo. Colecionou marcas, como ser um dia a banda com mais fãs no Facebook, e, nadando contra uma corrente de perda de relevância social e cultural do rock, lotou estádios. Inclusive no Brasil, em passagem louvável em 2004 —na ocasião, quem fez o show de abertura foi o Charlie Brown Jr., cujos líderes Chorão e Champignon também morreram por overdose e suicídio nesta década. Quando da morte de Cornell, escrevi análise tentando contextualizar aquela perda no cenário do grunge. Nos dias que se seguiram, senti pelas palavras; pareciam não estar à altura da grandeza do artista. Pior, denotavam desrespeito à sua memória ao elencar mortes como se fossem números ou mesmo fatos imaginários em um roteiro ficcional, e não o que verdadeiramente eram: desfechos trágicos, imutáveis e nada românticos às biografias de artistas que inspiraram gerações de ouvintes e músicos. Entre tantas análises na imprensa musical, uma me chamou a atenção. Versava sobre como o elemento a unir atrações no rótulo “grunge” nunca foi a música. Nem

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CHRIS CORNELL 18/05/2017

Músico e vocalista do Audioslave e Soungarden. Enforcou-se.

ROBIN WILLIAMS 11/09/2014

Ator e comediante norte-americano. Enforcou-se com um cinto.

CHAMPIGNON 09/09/2013

Segundo vocalista da banda Charlie Brown Jr, deu um tiro na cabeça.

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a geografia nem o tempo. Muito menos a aparência ou as roupas (o desbotado mote da “camisa de flanela”...). Não. O que agrupou as atrações em torno de um denominador comum foram sentimentos de não pertencimento, aflição, angústia. Uma série de agruras da mente reunidas há relativas poucas décadas por médicos em conceitos e até mesmo códigos de classificação internacional de doenças (“cid 10 - f32” e “cid 10 - f33”). É a depressão que reúne em um mesmo contexto musical bandas tão díspares que surgiram ao longo dos anos 1990, como Nirvana, Alice in Chains, Soundgarden, Hole, Mother Love Bone, Stone Temple Pilots, Mad Season, Linkin Park, Blind Melon e até —forçando um pouco a barra Todos esses conjuntos tiveram mortes por suicídio ou por overdose há muito prenunciadas. Talvez sejam mesmo eles, o grunge e a depressão, as grandes heranças da geração X. Nós, que já não somos adolescentes nem pais de adolescentes. Neste momento, o pior que podemos fazer é embalar a perda de Chester Bennington nos envelhecidos e inadequados clichês do niilismo do rock n’roll. Índices alarmantes de suicídios em grandes cidades, inclusive no Brasil, mostram que não há romantismo na depressão, doença a afligir famosos e anônimos, músicos e engenheiros, e nos incitam a refletir sobre essa perda de maneira responsável e pró-ativa. Como já ressaltou a repórter Claudia Collucci, mais de 90% dos casos de suicídio podem ser evitados. Não custa lembrar que o cvv (Centro de Valorização da Vida) presta serviço gratuito de extrema importância por meio do telefone 141. Também é possível entrar em contato e receber apoio emocional via internet, a partir de e-mail, chat e Skype 24 horas por dia.

SCOTT WEILAND 03/12/2015

Vocalista da banda Velvet Revolver e Stone Temple Pilots. Overdose.

FAUSTO FANTI 30/07/2014

Ator e humorista do Hermes e Renato. Com um cinto se enforcou.

CORY MONTEITH 13/07/2013

Fez sucesso em ‘Glee’. Foi achado morto em um quarto de hotel.


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MITOS EM RELAÇÃO AO SUICÍDIO

AMY WINEHOUSE 23/07/2011

Cantora britânica. Morreu por overdose de álcool e drogas.

HEATH LEDGER 22/01/2008

Eterno Coringa, o ator se suicidou com alta ingestão de medicamentos.

KURT COBAIN 05/04/1994

Músico e vocalista e da banda Nirvana. Matou-se com um tiro na boca.

1. Se eu perguntar sobre suicídio, poderei induzir uma pessoa a isso. Questionar sobre ideias de suicídio, fazendo-o de modo sensato e franco, fortalece o vínculo com uma pessoa, que se sente acolhida e respeitada por alguém que se interessa pela extensão de seu sofrimento. 2. Ele está tentando nos manipular. Muitas pessoas que se suicidam dão previamente alguns sinais verbais, ou até mesmo sinais não verbais, de sua intenção pra amigos, familiares, médicos ou pessoas do convívio. Ainda que em alguns casos possa haver um componente manipulativo, consciente ou não, não se pode deixar de considerar a real existência do risco de suicídio. 3. Quem quer se matar, se mata mesmo. Essa ideia pode conduzir ao imobilismo. Ao contrário dessa ideia, as pessoas que pensam em suicídio frequentemente estão ambivalentes entre viver ou morrer. Quando falamos em prevenção, não se trata de evitar todos os suicídios, mas sim tentar previnir aqueles que podem ser evitados. 4. Da próxima vez se mata de verdade! O comportamento suicida exerce um impacto emocional sobre nós, desencadeia sentimentos de franca hostilidade e rejeição. Isso nos impede de tomar a tentativa de suicídio como um marco a partir do qual podem se mobilizar forças para uma mudança de vida. 5. Uma vez suicida, sempre suicida. A elevação do risco de suicídio costuma ser passageira e relacionada a algumas condições de vida. Embora a idealização suicida possa retornar em outros momentos, ela não é permanente. Pessoas que já tentaram o suicídio podem viver uma longa vida.

SINAIS DE ALERTA Falar sobre querer morrer Procurar formas de se matar Falar sobre estar sem esperança ou sobre não ter propósito Falar sobre estar se sentindo preso ou sob dor insuportável Falar sobre ser um peso para os outros Aumento no uso de do álcool e drogas Agir de modo ansioso, agitado ou irresponsável Dormir muito ou pouco Se sentir isolado Demonstrar ira ou falar sobre vingança Ter alterações de humor extremas Procurar formas de se matar

O QUE FAZER Não deixar a pessoa sozinha Tirar de perto armas de fogo, álcool, drogas ou objetos cortantes Ligar para canais de ajuda Levar a pessoa para uma assistência especializada Não guardar o segredo para você e contar aos familiares da pessoa Não tentar resolver o problema sozinho

Não custa lembrar que o cvv (Centro de Valorização da Vida) presta serviço gratuito de extrema importância por meio do telefone 141. Também é possível entrar em contato e receber apoio emocional via internet, a partir de e-mail, chat e Skype 24 horas por dia, todos os dias da semana.


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TENSÃO MÁXIMA Você já ouviu falar em Burnout? Conheça a doença que atinge de 30% a 40% dos trabalhadores e saiba como se prevenir Por Alana Della Nina

DE CADA DEZ PROFISSIONAIS BRASILEI- particulares. “A interação entre a percepção ROS, sete são estressados. Entre eles, três de um ambiente estressante e a resposta do

desenvolvem a Síndrome de Burnout. Este nome não é muito conhecido, mas os sintomas são. “A doença é caracterizada por um conjunto de sinais desencadeados pelas pressões do ambiente de trabalho: exaustão profissional, distanciamento nas relações pessoais (despersonalização) e sentimento de baixa realização”, explica o dr. Paulo César Souza, da Diretoria Técnica da Amil. O burnout – que pode ser traduzido para “queimar por completo” – não escolhe um perfil específico, embora alguns profissionais sejam mais suscetíveis a desenvolver a doença, como aqueles que atuam sob pressão o tempo inteiro: médicos e enfermeiros – sobretudo os que atuam em emergência –, policiais, controladores de voo, entre outros; e pessoas que são muito dedicadas ao trabalho (workaholics), perfeccionistas ou que têm dificuldades de estabelecer limites. Ainda assim, as causas que levam à síndrome são muito

indivíduo é o que promove a Síndrome de Burnout”, explica o dr. Paulo César.

DIAGNÓSTICO Apesar de relativamente comum, a síndrome não é tão facilmente detectada. O perigo mora na semi invisibilidade do burnout, já que trabalhar em ambientes de alta pressão e enfrentar situações desgastantes diariamente constituem hábitos cada vez mais recorrentes e os sintomas acabam sendo encarados com naturalidade. Vale levar em conta que cada um tem o próprio nível de tolerância e o esgotamento pode chegar para alguns mais cedo do que para outros – há quem conviva bem com um ambiente estressante. E o que acontece com frequência é que as pessoas só se dão conta de que estão com um problema quando atingem o pico máximo de estresse. Outro ponto que dificulta o diagnóstico é a confusão que se

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costuma fazer entre burnout e doenças de ordem pessoal, como depressão, pânico e ansiedade – que podem ser relacionados ao trabalho, mas não se limitam a essa área. “A doença não tem a ver com questões pessoais ou isoladas. Não deve ser confundida com depressão e com sinais parecidos”, afirma o dr. Paulo César Souza. Uma forma muito eficaz de detectar a síndrome é por meio de uma ferramenta de avaliação-padrão. Segundo o doutor, na prática, a ferramenta mais usada é o Questionário de Maslach (Maslach Burnout Inventory), que conta com tradução validada para o português.

PREVINA-SE A melhor maneira de lidar com o burnout ainda é a prevenção. Mesmo que pareça fora de controle – afinal, a pessoa não tem autonomia total para determinar o nível

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de estresse em sua rotina –, é possível tomar algumas medidas simples para evitar a doença e viver melhor. A dra. Ana Maria ressalta ainda que dormir bem, ter uma boa alimentação, cultivar um estilo de vida saudável e lidar com situações difíceis sem se desgastar são ações que ajudam. Saber reconhecer, respeitar e impor os próprios limites também é essencial. Para o dr. Paulo César, a empresa pode desempenhar um papel importante no combate à doença. “O que é possível, mas ainda pouco frequente em nosso país, infelizmente. Ambientes ou empresas que trabalhem sob elevados níveis de pressão e estresse talvez devessem pensar na existência do distúrbio e tentar avaliá-lo por meio de ferramentas específicas. Uma vez diagnosticado, fazer a prevenção, antes que vire um problema com consequências mais graves”, diz.


ALIENAÇÃO E ESTRESSE EMOCIONAL TAMBÉM ENTRAM NA LISTA DE SINTOMAS DA SÍNDROME

RECUPERAÇÃO O tratamento mais comum é o afastamento do am­biente estressante, psicoterapia de suporte e trata­mento comportamental. Em alguns casos, o uso de medicamentos também auxilia no processo de recuperação. Por causa do alto índice de reincidência, o pa­ciente deve ficar em observação constante. “A doen­ça pode ser tratada e controlada desde que a relação entre o indivíduo e o local de trabalho se modifique, com menos pressão sobre aqueles que mais sofrem com ela. Não há cura definitiva, pois, retornando ao ambiente estressante, aquele que sofreu do distúrbio tende a tê-lo de novo”, explica. Para a ela, outro sintoma pontual da doen­ça é a passividade ou a agressividade ao extremo - dependendo do perfil do atingido. Para Souza, alienação (quando o trabalhador fica quieto no seu canto, alheio às outras pessoas) e estresse emocio­nal (pessimismo, sentimento de injustiça, complexo de inferioridade, insegurança) entram na lista de sinais obrigatórios do burnout. Por causa do alto índice de reincidência, o pa­ciente

deve ficar em observação constante. Não é só o profissional que perde com a doença. As empresas também acabam sofrendo as consequências. Segundo o médico, há estudos que mostram a perda da lucratividade, seja por queda na produtividade, pelo aumento de absenteísmo, seja nos custos com saúde.

SINAL VERMELHO Será que é burnout? Reconheça os sintomas da doença. A dra. Ana Maria Rossi cita três características predominantes: exaustão física e mental: a pessoa está constantemente cansada, mesmo quando sai de férias para descansar. ceticismo: desesperança, conclusão de que não há saída para aquela situação. ineficácia: baixo rendimento, frustração. Mesmo que trabalhe por muitas horas, a pessoa mostra pouco resultado. Para o dr. Paulo César Souza, alienação (quando o trabalhador fica quieto no seu canto, alheio às outras pessoas) e estresse emocional (pessimismo, irritação extrema, sentimento de injustiça, complexo de inferioridade, antipatia, insegurança, ansiedade) também entram na lista de sinais obrigatórios do burnout. Para a ela, outro sintoma pontual da doen­ça é a passividade ou a agressividade ao extremo - dependendo do perfil do atingido. “A primeira reação é a sensação de esgotamento e dificuldades de relacionamento. Pode haver, ainda, cansaço, desânimo, dores no corpo, desleixo, hipertensão, disfunção digestiva, procrastinação e intolerância.” E não é só o profissional que perde com a doença. As empresas também acabam sofrendo as consequências. Segundo o médico, existem estudos que mostram a perda da lucratividade, seja por queda na produtividade, seja pelos aumentos de absenteísmo ou nos custos com saúde.


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Elaborado por Chafic Jbeili, o questionário Jbeili é um instrumento para a identificação preliminar da síndrome de burnout inspirado no questionário de Maslach. Marque “X” na coluna correspondente às características em relação ao trabalho:

Atribua valores entre 1 e 5 classificando: 1 - Nunca 2 - Anualmente 3 - Mensalmente 4 - Semanalmente 5 - Diariamente 1

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Sinto-me esgotado(a) emocionalmente em relação ao meu trabalho. Sinto-me excessivamente exausto ao fim da minha jornada de trabalho. Levanto-me cansado(a) e sem disposição para realizar meu trabalho. Envolvo-me com facilidade nos problemas dos outros. Trato algumas pessoas como se fossem da minha família. Tenho de desprender grande esforço para realizar minhas tarefas laborais. Acredito que eu poderia fazer mais pelas pessoas assistidas por mim. Sinto que meu salário é desproporcional as funções que executo. Sinto que sou uma referência para as pessoas que lido diariamente. Sinto-me com pouca vitalidade, desanimado(a). Não me sinto realizado(a) com meu trabalho. Não sinto mais tanto amor pelo meu trabalho como antes. Não acredito mais naquilo que realizo profissionalmente. Sinto-me sem forças para conseguir algum resultado significante. Sinto que estou no emprego apenas por causa do salário. Tenho me sentido mais estressado(a) com as pessoas que atendo. Sinto-me responsável pelos problemas das pessoas que atendo. Sinto que as pessoas me culpam pelos seus problemas. *Obs.: este instrumento é de uso apenas informativo e não deve substituir o diagnóstico realizado por um médico ou psicoterapeuta.

RESULTADO

de 0 a 20 pontos: Nenhum indício de burnout. de 21 a 40 pontos: Possibilidade de desenvolver burnout. Procure seguir as orientações de prevenção anteriores para evitar qualquer início da doença. de 41 a 60 pontos: Fase inicial da burnout, procure ajuda profissional para debelar os sintomas e, garantir a qualidade no seu desempenho profissional e a sua qualidade de vida. de 61 a 80 pontos: A burnout começa a se instalar. Procure ajuda profissional para prevenir o agravamento dos sintomas. de 81 a 100 pontos: Você pode estar em uma fase considerável da burnout. Procure o profissional competente de sua confiança e inicie o quanto antes o tratamento.

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CULTURA

RELAÇÕES VIRTUAIS O filme “Disconnect” leva angústia e tensão ao nos mostrar que, de tão conectados, acabamos nos desconectando dos principais aspectos que nos fazem humanos Por Eduardo Magalhães

DIRIGIDO POR HENRY ALEX RUBIN E ROTEIRIZADO POR ANDREW STERN,

“Disconnect” foi selecionado nos festivais de Toron­to e Veneza. O filme conta três histórias, que trazem em comum a vivência das armadilhas que as emoções humanas podem encontrar ao entrar em contato com a virtuali­zação extrema que as novas tecnologias introduziram no cotidia­no de todos nós. Vivemos um período histórico no qual temos a cibercultura a nosso favor, diminuindo distâncias e facilitan­do algumas tarefas, mas, também, devemos torcer para que não tenhamos chegado a um daqueles momentos em que essas tecnologias se tornam responsáveis pelo “caos” que destruiria a sociedade. Temos que ver como as novas máquinas su­blinham o que de mais humano temos. Este filme nos apresenta, antes de tudo, a aspectos humanos complexos, em sua mais fundamental pertinência, a do vínculo, do relacional e do que ergue a ética dessas relações.


CULTURA

cio dos anos 2.000 isso fosse apenas uma história de ficção, mas hoje é a nossa realidade. Isso só mostra o quanto entramos de cabeça na cibercultura e precisamos aprender me­lhor a usar essas tecnologias, tendo, inclusive, orientações de proteção. Vemos, também, uma variação de sua interferência nos casamentos em falência, retardando os diálogos. A carência e a solidão de uma relação fa­lida levam o sujeito a buscar apoio fora, e a cibercultura possibilita isso, sem sair de uma zona de conforto doméstico. Fornece, por outro lado, um alívio ilusório para as questões prementes. Entretanto, esse apoio nem sempre é o melhor intencionado e coloca esses sujeitos em situações de vulnera­bilidade e sensibilidade. É preciso entender a solidão contempo­ O filme leva a angústia e tensão até nos mostrar que, de tão co­nectados, acabamos rânea, atravessada por uma, cada vez mais nos desconectando dos principais aspectos presente, conectividade online. Hoje, muique nos fazem humanos. Algumas nuances tos casais contam sua história de amor importantes sobre a segurança online são iniciada em algum ciberlocal e tendo um expostas, mas apenas como plano de fun­do encaminhamen­to repleto de afeto, mas para mostrar o quanto a cibercultura entrou outras histórias não terminam assim tão na estrutura da vida como terceiro espaço, bem, algumas alcançam o noticiário policial. por exemplo, quando faze­mos compras Real e virtual já se tornaram quase que um online, em que as questões de segurança úni­co plano sociabilizador e esse assunto deixaram de ser um caso isolado. Hoje em já é passado na cibercultura, mas não será dia todos conhecem um caso de pessoas que esse o plano principal desse filme, embo­ra foram vítimas de cibercrimes. Talvez no iní- amarre o bom suspense que ele traz.

TALVEZ NO INÍCIO DOS ANOS 2.000 ISSO FOSSE APENAS UMA HISTÓRIA DE FICÇÃO, MAS HOJE É NOSSA REALIDADE

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CIBERBULLYING Em tempos modernos, com leis e situações atípicas que envolvem a ciber­cultura, muitos acabam levando a culpa por aqueles que cometem os crimes. Tempos de inversões de valores ou de busca por culpados. Tempo de manipu­lação em massa, usando as redes sociais como meio de propagação de mentiras. A geração web, tão retratada no cinema e na literatura, tem mais uma obra para causar reflexão. Outro ponto interessan­te nesse filme é o luto online, trazido pela personagem Cindy (Paula Patton). Sabemos que o processo de elaboração do luto, proposto por Freud em “Luto e Melancolia”, exige certo tempo e desprender-se de energia direcionada para aquele objeto. Mas, e quando esse objeto continua em constante interação online com aqueles que o perderam? Os chamados Grupos de Apoio são, muitas vezes, fundamen­tais em processos psicoterápicos. São usualmente coordenados por terapeu­tas ou por pessoas que já passaram, ou passam, por situações semelhantes. Estamos criando uma geração tão absorvida pelas tecnologias, que deixamos de lado alguns traços humanos? Nossos afetos foram digitalizados? Ou será que, apenas sublinham, de forma cruel, um distanciamento que muitos de nós fa­zemos no nosso mais íntimo cotidia­no? Abstraindo dos aparelhos de celular nas mãos, aquela mesa inicial de jantar da família Boyd não poderia ser trans­posta para os anos cinquenta e o silêncio sepulcral ou os assuntos vazios, que tan­tas outras produções cinematográficas abordaram tão plenamente? Atualizamos, tecnologi­camente, antigas questões de vínculo próximo ou social, que nos acompanha sempre, tentando a construção de uma ética que não pode ser pinçada do seu tempo, do contexto no qual se insere. A história mais contundente do nosso filme partirá dessa

Acervo WB Entertainment

mesa, do filho, um adolescente “diferente”, que trará uma questão que tem feito doer corações em terríveis noticiários, o suicídio de adolescentes ví­timas do ciberbullying. Vemo-nos, então, diante de uma produção que pode parecer datada, mas que, ao mesmo tempo, lança questões sempre pertinentes, pelo menos en­quanto as relações se formarem de den­tro deste modelo atual, em sua configu­ração familiar, escolar e social. As três histórias, aparentemente diferentes mas nem tanto, lançam o espectador a pensar no limite de perigo, que banais atos do cotidia­no podem acarretar esses resultados. Aqui ficam algumas reflexões para aqueles que, em tempos de politização, cogitaram em reduzir a maioridade penal brasileira. Assim colocamos aqui a questão: quantos jo­vens cometem pequenos delitos e infra­ ções e que seriam presos por isso? O que aconteceria com a dupla de meninos, citados no começo do texto, que cria um perfil falso com traços re­ais e acabam com isso gerando um cri­me? Deveriam ser seus pais ou as re­des virtuais os responsáveis pelo trágico episódio? Quantos adolescentes, com armas tão pode­rosas, sem ao menos refletir sobre isso? Que mecanismos deveríamos criar para não abandonarmos os jovens ou qualquer ser fragilizado à própria sorte, frente à uma poderosa força, ainda não totalmente as­similada? Com toda certeza, a proibição ou o impedimento de contato com tais ferramentas não são o caminho mais promissor, somente disso temos certeza.

Mathew (acima) vive sob suspeita de infringir a privacidade de uma estudante por meios digitais.


6 DICAS PARA ACAMPAR Curtir o sol e a praia, sentir o calor e o frescor da brisa! Por Luís H. Fritsch Ilustração Eugenia Loli NADA MAIS ADEQUADO PARA OS DIAS DE SOL. Há quem prefira os Resorts e hotéis

de luxo à beira do mar. Mas tem quem não abre mão de uma aventura e do contato com a natureza. Para esses, acampar na praia ou nos seus arredores não é um transtorno, e sim um grande prazer. Para que o acampamento de verão seja uma ótima experiência, e não uma viagem traumática, listamos dicas preciosas para você levar na mochila.

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BATE E VOLTA

CASO VÁ PARA UM CAMPING, A PRIMEIRA DICA É ESCOLHER MUITO BEM ONDE FICAR

1. O que levar? Há itens indispensáveis: a barraca é o primeiro, claro! Além dela, não esqueça de levar cantis com água potável, lanternas, sacos de dormir, canivetes suíços, produtos de higiene pessoal (não esqueça nunca o papel higiênico), repelente, kit de primeiros socorros, pratos, talheres, panelas, panos para limpeza e cordas. Além desses objetos, fundamentais para o mínimo de conforto, é preciso ter em mãos sal e açúcar, por exemplo. O melhor mesmo é não exagerar na bagagem, para não “entupir” a barraca com coisas inúteis. Teste todos os equipamentos antes da viagem, inclusive a barraca, assim você terá uma noção do tempo que levará para montá-la e desmontá-la.

espera do acampamento. Por exemplo, se você não suportar barulhos na hora de dormir e desejar privacidade, convém refletir qual será a melhor opção. 3. Há roupas mais indicadas? Você vai passar o dia quase todo com roupas de praia: biquínis, maiôs, sungas, pós praia, bermudas. Mas não deixe de levar, ao menos, um casaco, pois à noite poderá cair a temperatura. Dê preferência para roupas leves (em razão do calor e secagem rápida). 4. Há cuidados para a noite? Todo campista tem que ter cuidados à noite. As lanternas não devem ser esquecidas nunca, exatamente porque são elas que vão ajudar você no escuro (leve pilhas reservas). Uma dica de proteção, é levar cadeados. pra barraca e pras mochilas, mesmo que fiquem no interior da barraca.

5. E se chover? Lonas plásticas embaixo da barraca devem ser evitadas. Se chover, a lona plástica pode acumular água. Coloque as lonas por dentro ou por cima da barraca. Uma outra dica, caso chova demais e sua barraca fique em um estado deplorável, é ter no plano ‘b’ uma opção de hospedagem. 2. É possível acampar sem ser em local Caso você tenha acampado em baixo de uma de camping? Em geral, só é possível acam- árvore para se proteger do calor, o ideal é par na beira mar se a praia for distante da ci- trocar a barraca de lugar diante de ameaça dade pólo, ou mesmo deserta. Nesses casos, de chuvas. Por estar perto de árvores, o risfique atento para uma coisa: o ideal é que co de raios torna-se maior. o local de acampar fique perto de alguma cachoeira. Isso vai facilitar o banho e até 6. Como se proteger de formigas? Faça mesmo o acesso à água para beber e lavar pequenos buracos ao redor da barraca e enseus utensílios. Caso vá para um camping, cha-os de cinzas. Isso vai proteger contra a primeira dica é escolher muito bem onde a invasão não apenas de formigas, como você vai ficar. Alguns possuem regras de também de outros insetos. Sabendo de todas essas dicas, arrume sua convívio e permanência, adquiridos através de anos de experiência,  o que pode ser mochila, convide seus amigos é vá explorar bom ou ruim, dependendo do que você novos lugares!


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PÉ NA TÁBUA Andar de skate depois dos 20? Nunca é tarde pra começar. Por Enrique Coimbra Fotos Dave Lehl

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EU QUIS APRENDER A ANDAR DE SKATE

por pelo menos 18, dos meus 26 anos. Sempre quis aprender, mas nunca tentei. Nunca nem pedi pra um deles me deixar ‘dar uma voltinha’, como eu fazia constantemente com a galera que tinha patinete, roller ou bicicleta quando a minha estava quebrada ou eu não tinha. Conforme fui crescendo, as brincadeiras de rua foram ficando pra trás e meu sonho de aprender a andar de skate, foi se dissolvendo junto. Daí me mudei pra Sligo, onde a comunidade de skaters era super ativa e o bichinho começou a picar novamente, mas não escutei e resolvi comprar uma bicicleta, pela sua praticidade e claro, por já saber andar. Sem dúvi-


QUAL É SUA BASE SOBRE O SKATE?

da, aproveitei muito os 2 anos e pouco de companhia da minha magrela. Até ter que vendê-la por €20 antes de me mudar pra Cardiff. Estou em Cardiff há quase 3 meses e desde o primeiro dia, estou em dúvida se compro uma bicicleta ou um skate pra ir e voltar da faculdade, que fica á uns 10min de casa. Cardiff tem ciclovias por toda a parte e a cidade é ótima para os ciclistas, que são vistos aos montes. Mas Cardiff também tem ruas e calcadas super lisinhas e é conhecida como uma das cidades britânicas mais maneiras pra andar de skate. Essa semana, porém, acordei nos ‘5 minutos’ e resolvi que era um skate que eu queria e que eu iria aprender a andar. Fui até a loja e comprei meu primeiro skate. Até o momento que escrevo esse texto, já levei vários tombos, já ralei as mãos e minha perna esquerda dói, mas também já aprendi que fazer curvas não é tao difícil quanto parece. Vocês já entenderam que eu aprendi a andar de skate depois de anos querendo, mas onde eu quero chegar com tudo isso? Nunca é tarde pra tentar. Se não der certo, ao menos você tentou, como eu estou tentando. E se insistirmos, vai rolar.

Base é a forma com que você pisa sobre o skate, que vai definir qual pé vai ficar na parte da frente do shape, na altura do par de parafusos mais perto de você e qual vai ficar atrás, na curva da ponta traseira (a tail) pegando impulso, manobrando curvas e freadas mais bruscas. Suba no skate, coloque seu pé direito na frente e pegue impulso com o esquerdo. Depois troque de pés e faça a mesma coisa. Em qual posição se sentiu mais confortável? Se foi com o pé direito na frente e o esquerdo atrás, você é goofy, como mostra a imagem acima - sou goofy também. Se foi com a esquerda na frente e direta atrás, você é regular. Se ficou confortável das duas maneiras, meus parabéns, você é switch. Qual o certo? Aquela posição em que se sentir mais confortável, não tem regra. Vale ressaltar que no começo não será muito importante, mas se você pretende manobrar depois de algum tempo praticando o básico, recomenda-se que você treine com as duas posições até se acostumar, já que algumas manobras pedem a inversão dos pés.

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REGULAR

GOOFY


COMO FAZER CURVAS NO SKATE? Sabendo sua base e dando os primeiros impulsos, você tá mantendo o equilíbrio. No começo eu só conseguia fazer linhas tortas, nunca conseguia andar em linha reta. Fiquei a noite toda tentando, mas não saía de jeito nenhum. Voltei pra casa cansado e, na semana seguinte, consegui fazer uma linha reta inteirinha no asfalto da orla de primeira. A curva simples, pra desviar de um objeto distante ou para mudar de uma mão para outra na pista, é questão de apoio da ponta dos pés e calcanhares nas extremidades laterais do skate, flexionando os joelhos. Se quer virar para a direita, deposite um pouco do seu peso nos pés para a direita. Se para a esquerda, faça o movimento para a esquerda. Se o truck estiver bem colocado, vai sentir que o skate “afundou” para o lado que você quis e as rodinhas do lado que recebeu a força dobram pra dentro um bocado. Para curvas mais bruscas e freadas, a força é jogada para o pé de trás, relaxando o pé da frente (sem tirá-lo da lixa) para levantar as rodas frontais e direcionar as traseiras para o outro lado com um movimento de impulso do quadril, colocando as rodas frontais

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no chão rapidamente com o pé da frente de novo. Tente se manter ereto com os cotovelos flexionados e, quando necessário dar impulso, dobre os joelhos um pouquinho. Seu pé precisa ficar com a ponta e os calcanhares sobre as extremidades laterais do shape para que você consiga fazer a curva da maneira correta (olhe a imagem sobre bases). Quando remar, não afaste demais a perna que dá impulso, isso pode desequilibrar. De começo, não tente correr muito também. Se sentir que vai cair, projeta seu rosto e cabeça. Em vários sites os caras recomendam equipamentos de proteção e segurança, mas acho feio e não comprei os meus. Até hoje, já rodando bem e depois de várias querdas, tentando dar meu primeiro ollie (manobra de pular com o skate) e fazendo curvas bonitonas, não caí.


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12 PICOS DE SKATE QUE SÃO PREFERÊNCIA NACIONAL rio tavares mother fucking bowl, florianópolis, sc É o bowl de Pedro Barros, preferido do próprio (é claro), de Rony Gomes e de Felipe Foguinho. De concreto, foi construído na encosta de um morro no bairro do Rio Tavares e é cercado por verde. “É o lugar onde me sinto mais à vontade, um luxo pelo qual agradeço todos os dias”, diz Pedro. condomínio colinas da lagoa, florianópolis, sc no pé do Morro da Lagoa, o condomínio está em construção e o dono gosta de skatistas, atesta Sergio Yuppie. O lugar é tranquilo para praticar, pois as ladeiras são boas e carros não circulam pelo local. cavepool, são paulo, sp localizado no Butantã, bairro na zona oeste de São Paulo, foi construído em 2014 com o objetivo de recriar as piscinas californianas da década de 1970. O desenho foi desenvolvido por Léo Kakinho, um dos mestres da modalidade no Brasil, com consultoria de Pedro e André Barros. Também tem aulas de skate e um bar para matar a fome e relaxar depois de uma sessão. praça roosevelt, são paulo, sp no centro de São Paulo, entre as ruas da Consolação e Augusta, a praça tem uma skatepark de 1,5 km², reformada e inaugurada em 2014. De fácil acesso, é ponto de encontro de skatistas. “Você não vai lá só para andar, mas para se divertir, faz parte da cultura do skate”, diz Kelvin Hoefler, um dos principais nomes do street brasileiro. Letícia Bufoni e Pâmela Rosa, campeãs de street, também aprovam a praça.

setor bancário sul, brasília, df não é exatamente um skatepark, mas um pico tradicional de encontro no Distrito Federal desde a década de 1980, graças ao piso bom e obstáculos de rua que podem ser usados nas manobras. É um dos preferidos de Luan Oliveira, que elege a capital como um bom destino para quem quer se divertir andando de skate. praça xv, rio de janeiro, rj um dos picos favoritos do freestyler Matheus Navarro, mais conhecido como “Palitinho”, atual campeão brasileiro da modalidade. Em 2011, após anos de proibição, o local foi liberado para a prática do esporte de segunda a sexta-feira a partir das 20h e nos fins de semana e feriados a partir das 14h. ladeira de teutônia, teutônia, rs considerada a mais rápida do mundo, foi nela de Dalua entrou para o livro dos recordes em 2007 com a velocidade de 113 km/h - feito quebrado em 2010, quando Mischo Erban chegou a 130 km/h. half pipe do parque da juventude, são bernardo do campo, sp Construída em 2007, a rampa passou por uma reforma e ficou novinha no final do ano passado. Com 19,2 metros de comprimento, 16 de largura e 4 de altura, é considerado um dos maiores da América Latina. O local fica aberto de quarta a domingo, das 6 às 22h. A pista é uma das preferidas de Rony Gomes. bowl itaguará, guaratinguetá, sp Construído em 1981, por iniciativa de jovens locais, é um dos primeiros do Brasil e um dos favoritos de Pedro Barros e Felipe Foguinho. Volta e meia, o clube promove campeonatos no local e a visita é gratuita, podendo encontrar vários atletas de ponta.


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MEDITAÇÃO E O FOCO DA ATENÇÃO Existem práticas de meditação que dirigem o foco da atenção para um tipo de estímulo somente. Brisa! Por Marco Callegaro Ilustração Chintia Santana

A FUNÇÃO DE PROCESSOS MENTAIS estímulos que distraem e de se concentrar ESPONTÂNEOS NA MEDITAÇÃO É CON- naquilo que se está fazendo no momento e TROVERSA. Dependendo do tipo de prati- essencial na vida, e certamente a meditação

ca meditativa, a visão adotada sobre o fluxo espontâneo de pensamentos varia imensamente, des­de ser considerado um objetivo em si da meditação, ou até algo a ser evitado o mais possível. Ter existido ampla divulgação em relação a meditação do tipo Mindfullness (ou de atenção plena), e os processos mentais espontâneos da mente, estão nessa óptica, sendo considerados como causadores de depressão, ansieda­de, perda de foco, entre outros aspectos negativos. De fato, a ruminação mental está associada a ansiedade e depressão, e não controlar o foco da atenção quando existe demanda cognitiva pode causar perda de eficácia no trabalho, por exemplo. O foco mental, a capacidade de inibir

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do tipo Mindfullness são excelentes exercícios para as funções executivas do córtex frontal que permitem o foco. No entanto, a ideia de que o pensamento espontâneo é negativo e que devemos reduzi-lo ao máximo parece equivocada. Os seres humanos passam grande parte do tempo desperto do dia envolvidos em divagação e em processo que comumente é referido como sonhar acordado, pela semelhança com os sonhos, e pelo uso intenso da imaginação. Processos tão comuns na vida mental não podem ser exclusivamente patológicos, e provável que exista uma adaptação mental por trás desse padrão. Se essa hipótese estiver correta, seria de esperar encontrar

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benefícios provenientes desse tipo de processamento. Quando o cérebro não está fazendo nada, na verdade está bem ocupado, como se descobriu recentemente. Uma rede cerebral chamada de dmn (Default Mode Network) fica ativa, e existe muita especulação sobre as funções dessa atividade cerebral. Estudos têm encontrado relação entre maior ativação dessa rede em estados de ansie­dade e depressão, apontando para um papel patológico da dmn. No entanto, novas investigações vêm mostrando que podem existir componentes dessa rede que estão ligados a ruminação patológica e ao desenvolvimento de ansiedade e depressão, enquanto outros circuitos estariam ligados a processamento de informação social que poderia contribuir para bem-estar mental. Nessa linha de raciocínio, um estudo comparou dois tipos de meditação e observou as diferenças na atividade cerebral que surgiram das duas práticas opostas, a meditação diretiva (junto à Mindfullness) e não diretiva. Se o meditador se tornar consciente de que seu foco atencional voltou-se para imagens, sensações, memórias e emoções que vão surgindo na mente espontaneamente, então volta a atenção de forma gentil para a repetição do mantra, evitando julgar o que se passa pela sua mente. O objetivo dessa

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forma de meditação é aumentar a habilidade de aceitar experiências emocionais e estressantes como uma forma normal de meditação bem como da vida cotidiana. Os pesquisadores identificaram que a meditação não diretiva pode ativar certos componentes da dmn que permitem um reprocessamento de memórias emocionais. Esse resultado consistente com outra pesquisa que relacionou a ativação da dmn com maior capacidade de fazer julgamentos sociais que envolvem atribuir intenções aos outros e imaginar seus estados mentais. Quando estamos sem uma demanda imediata, nosso cérebro se volta para nos preparar para interagir com o mundo social, e a meditação não diretiva pode facilitar esse tipo de processamento. diretiva baseada na atenção focada, ou seja, um único tipo de estimulo ou sensação. mindfullness usualmente o sujeito se concentra em sua respiração e afasta gentilmente os pensamentos espontâneos que surgem, praticando cada vez mais retorno ao foco da respiração. não diretiva um foco relaxa­do de atenção e estabelecido pela repetição sem esforço de uma sequência de silabas, que pode ser um mantra ou uma sequência de sons.


AGENDA SÍMBOLOS Acesso a deficientes Wi-Fi Tem local para comer Ar-condicionado Ingresso por telefone Aceita cheque Música ao vivo Ao ar livre

AVALIAÇÕES S Sem avaliação Ruim

FESTIVAL: ÁFRICA EM NÓS Celebrando o Dia da Consciência Negra, o Sesc Santana promove até 12/12 a mostra “Kilimanjaro Cinema - África em Nós”, com curadoria do cineasta camaronês Tommy Germain. Entre os países de origem dos longas estão Congo, Burkina Fasso e Senegal. Na quarta (22), será exibido “Nossa Estrangeira” (2010), de Sarah Bouyain, às 20h. Após cada sessão, haverá debates e, no dia 9/12, um workshop sobre o cinema do continente. Sesc Santana - Av. Luiz Dumont Villares, 579, Jd. São Paulo, zona norte, tel. 2971-8700. GRÁTIS

Regular Bom Muito bom Ótimo

CINEMA Divulgação

GABRIEL E A MONTANHA Brasil/ França, 2017. Direção: Fellipe Barbosa. Com: João Pedro Zappa, Caroline Abras e Leonard Siampala. Drama. 131min.

WB Entertainment

BINGO - O REI DAS MANHÃS Brasil, 2017. Direção: Daniel Rezende. Com: Vladmir Brichta, Leandra Leal e Augusto Madeira. 111min. Drama. 16 anos.

A dramédia é inspirada na vida de Arlindo Barreto, um dos intérpretes do palhaço Bozo no programa matinal de televisão dos anos 1980. A trama narra os excessos do ator e sua crise por alcançar a fama sem ser reconhecido pelas pessoas. É o indicado do Brasil a concorrer a uma nomeação ao Oscar de filme estrangeiro. Caixa Belas Artes: Cândido Portinari, seg. e qua.: 16h. Mooca Plaza Shopping Cinemark 5, sex. a qua.: 14h e 16h30. Espaço Itaú de Cinema - Augusta 5, sex. a seg. e qua.: 19h e 21h30. Ter.: 19h.

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Divulgação

INVISÍVEL Invisible. Argentina/Brasil, 2016. Direção: Pablo Giorgelli. Com: Mora Arenillas, Mara Bestelli e Augustina Fernandez. 90 min. Drama. 16 anos.

Ely é uma garota de 17 anos que mora com a mãe em Buenos Aires. Ela está no último ano do colégio e precisa conciliar os estudos com o trabalho em um pet shop. Ao descobrir que está grávida do patrão, um homem mais velho e casado, o mundo da jovem entra em colapso. Selecionado para a mostra Horizontes do Festival de Veneza. Caixa Belas Artes: Cândido Portinari, seg. e qua.: 18h10. Caixa Belas Artes: Carmen Miranda, sex. a seg. e qua.: 15h30 e 20h30. Ter.: 15h30.14h00, 20h50. Cinesala, sex. a seg.: 16h20 e 18h50. Ter. e qua.: 16h20. Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 6, sex. a qua.: 14h30 e 21h. Iguatemi Cinemark 2, sex. a qua.: 13h40 e 16h30. Villa-Lobos Cinemark 3, sex.: 14h20, 17h50 e 21h.

Baseado em fatos reais, o longa conta a história do economista brasileiro Gabriel, que decide viajar o mundo não como turista, mas interagindo com os locais, durante um período de um ano. Após muitos países, na África, na reta final de sua viagem, ele tenta alcançar o topo do monte Mulanje. Ganhou prêmio de revelação na semana da crítica de Cannes. Caixa Belas Artes: Carmen Miranda, sex. a seg. e qua.: 15h30 e 20h30. Ter.: 15h30.14h00, 20h50. Cidade Jardim Cinemark 5, sex. a qua.: 14h, 17 e 20h. e 20h30. Ter.: 15h30.14h00, 20h50. Cineflex The Square Granja Viana 3, sex. a qua.: 19h05 e 21h45. 20h50. Cinesala, sex. a seg.: 16h20 e 18h50. Ter. e qua.: 16h20. Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 6, Seg.: 13h, 16h25 e 19h30, sex. a qua.: 14h30 e 21h. Iguatemi Cinemark 2, sex. a qua.: 13h40 e 16h30. Dom.: 14h55, 17h55. Reserva Cultural 4, sex.: 14h20, 17h50 e 21h50. Sáb.: 13h, 16h05 e 19h30. Dom. a qua.: 16h10, 18h40 e 21h10. Sáb.: 16h10, 18h40 e 23h30.

Mars Films

HUMAN FLOW: NÃO EXISTE LAR SE NÃO HÁ PARA ONDE IR Human Flow, Alemanha, 2017. Direção: Ai Weiwei. 140min. Documentário. 12 anos.

Filmado em 23 países, o documentário do artista chinês Ai Weiwei, perseguido em seu país, retrata refugiados em perigosas travessias por oceanos e fronteiras repletas de arames farpados. São pessoas que buscam coragem após a desilusão que sofreram em seus países de origem.


Caixa Belas Artes: Cândido Portinari, seg. e qua.: 18h10. Cinesystem Morumbi Town 2, sex. a qua.: 21h10. Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 6, Seg.: 13h, 16h25 e 19h30, sex. a qua.: 14h30 e 21h. Iguatemi Cinemark 2, sex. a qua.: 13h40 e 16h30. Dom.: 14h55, 17h55. Villa-Lobos Cinemark 3, Dom.: 14h55, 17h55 e 21h15. Ter. e qua.: 17h30.

Biblioteca Mário de Andrade - terraço - R.da Consolação, 94, Consolação, tel. 3775-0002. 60 pessoas. Sáb. (4): 16h. 90 min. Livre. Retirar ingresso com uma hora de antecedência. GRÁTIS.

Brasil, 2016. Direção: Pedro Antônio. Com: Marcus Majella, Ana Lúcia Torre e Letícia Isnard. 96min. Comédia.

Aricanduva Cinemark 3, seg. a qua.: 14h20, 16h40 e 19h10. Internacional Guarulhos Cinemark 8, sex. e sáb.: 17h10 e 22h05. Shopping D Cinemark 2, seg. a qua.: 13h30, 15h50 e 18h05.

SHOWS E CONCERTOS

BRANCA LESCHER A cantora, compositora e poeta, que iniciou sua carreira musical nos anos 1990, apresenta canções de seu segundo disco, “Branca”, de MPB. Toninho Ferragutti, Beba Zanettini e Marcelo Segreto participam do show. Tupi or not Tupi - R. Fidalga, 360, Pinheiros, tel. 3813-7404. Qua. (8): 21h. 90 min. Livre. Valet R$20. Retirar ingresso com uma hora de antecedência. GRÁTIS.

CHORINHO NO TERRAÇO O quinteto Pauliceia convida o gaitista Vitor Lopes para show com repertório que reúne clássicos como de Pixinguinha, Paulinho da Viola, Ernesto Nazareth e muitos outros nesse show que promete reunir a tradição e inovação do samba .

FEIRA DE DISCO E VITROLAS O MIS, em parceria com a loja Locomotiva Discos, realiza a maior feira de discos e vitrolas de São Paulo. A feira acontece das 12h às 20h na área externa do MIS, regada de muita comida boa e, é claro, de muita música. Serão mais de 20 expositores com discos existentes até hoje.

UM TIO QUASE PERFEITO

Tony, é um trambiqueiro que, com a ajuda da mãe, vive fazendo bicos como estátua viva, cartomante e pastor. Quando os dois são despejados de casa, decidem ir à procura da irmã de Tony, com quem não tem muito contato. A mulher aceita recebê-los pois precisa que alguém cuide de seus três filhos enquanto viaja a trabalho.

EXPOSIÇÕES E FEIRAS

JACK JOHNSON Há 16 anos na estrada e dono de hits como “Upside Down”, “Flake” e “Sitting, Waiting, Wishing”, o cantor e compositor havaiano traz para o país a turnê de lançamento de seu trabalho mais recente, “All the Light Above It Too” (2017). Espaço da Américas - R. Tagipuru, 795, Barra Funda, região central, tel. 20270777. 8.000 pessoas. Ter. (7): 22h. 90 min. 16 anos. Ingressos a venda.

MIS - Auditório MIS - Av. Europa, 158, Jardim Europa, região oeste, tel. 21174777. 172 lugares. Sáb. (25): das 10h30 às 20h. Livre. Estac. A partir de R$18. Entrada livre. GRÁTIS.

TEATRO

BENDITO SEJA SEU MALDIO NOME Texto e direção: Jean Dandrah. Com: Ana Roberta Bornia, André Rey, Antonio Rios e outros. 90 min.

JOÃO SUPLICY O cantor paulistano, que integrou a banda Brothers of Brazil (com o irmão Supla), faz show de lançamento do álbum “João”, em apresentação gratuita no MIS. Além dos temas autorais, aparecem releituras de Elvis Presley e Tom Jobim. MIS - Auditório MIS - Av. Europa, 158, Jardim Europa, região oeste, tel. 21174777. 172 lugares. Qua. (8): 20h. 60 min. 14 anos. Estac. A partir de R$18. Retirar ingresso com uma hora de antecedência. GRÁTIS.

RAEL CANTA VINICIUS DE MORAES Um dos principais nomes do rap nacional, o cantor paulistano faz show intimista no qual empresta a voz aos clássicos Vinicius de Moraes (1913 - 1980). “Tarde em Itapoã”, “Canto de Ossanha”e Ö morro não tem vez”estão garantidas. Sesc Bom Retiro - teatro - Al. Nothmann, 185, Campos Elíseos Sáb. (4): 21h. Dom. (5): 18h. 60 min. 16 anos. GRÁTIS

Nessa peça, 14 personagens marginalizados dividem uma casa abandonada e lutam para sobreviver. Teatro Oswald de Andrade - R. Três Rios, 363, Bom Retiro. Seg. e ter.: 20h. Até 16/12. GRÁTIS.

LEOPOLDINA, INDEPENDÊNCIA E MORTE Texto e direção: Marcos Domingo. Com: Fabiana Gugli. 50 min. 14anos.

O monólogo, dividido em três movimentos e encenado dentro do museu do Ipiranga, mostra desde a chegada da imperatriz Leopoldina ao Brasil, revelando suas primeiras impressões sobre o novo mundo, até seus momentos finais, em que, em meio a delírios, mistura passado e futuro e aproxima a problemática do império de problemas atuais. Museu do Ipiranga - R. Patriotas, s/nº, Ipiranga, tel. 3340-2000. 30 lugares. Sáb. e dom.: 15h. Estreia 8/11. Até 3/12. Retirar ingresso 1h antes. GRÁTIS.


Ilustração Eugenia Loli

100 NOV 2017


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Revista ESC  

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