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Escândalos de Elisabeth Éléonore Fernaye 1ª edição/ 2016


Copyright © 2016 por Éléonore Fernaye Capa: Denis Lenzi Tradução: B. Cabral Revisão de tradução: Vânia Nunes Os direitos autorais dessa história pertencem à autora. Registrada na Fundação Biblioteca Nacional. Itaquaquecetuba/SP, Brasil, 2016. Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos descritos são produtos da imaginação da autora. Qualquer semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais é mera coincidência. Todos os direitos reservados. www.editorabezz.com


Agradecimentos: Com toda honra, gostaria de agradecer em primeiro lugar a Stéphane Marsan, que foi o primeiro a acreditar neste projeto e me deu o impulso necessário para sua realização. Obrigada também à Isabelle Varange por seu apoio, à toda equipe da Bragelonne-Milady por ter me feito sentir bem-vinda, com bom humor e envolvimento. Meus agradecimentos também vão para o meu marido, que nunca duvidou do meu trabalho e que sempre tinha palavras para me fazer avançar. Minha gratidão também a ETN, vocês sabem muito bem o porquê. E finalmente, obrigada a você, leitor, por ter aberto este livro. Ao fazer isso, você se permitiu descobrir a história de Elisabeth. Espero que se divirta lendo-o, tanto quanto me diverti ao escrevê-lo.


Índice Capítulo Um Capítulo Dois Capítulo Três Capítulo Quatro Capítulo Cinco Capítulo Seis Capítulo Sete Capítulo Oito Capítulo Nove Capítulo Dez Capítulo Onze Capítulo Doze Capítulo Treze Capítulo Quatorze Capítulo Quinze Capítulo Dezesseis Capítulo Dezessete Capítulo Dezoito Capítulo Dezenove Capítulo Vinte Epílogo Sobre a Autora:


Capítulo Um PARIS, Janvier, 1778

Elisabeth d’Arsac não era uma moça rude. Não era mesmo. Mas ao ouvir sua mãe chamála, quando estava prestes a sair, precisou recorrer a todos os seus anos de educação para não convocar um demônio. — Minha filha, estou muito desapontada com você — atacou ela. A condessa Louise ainda estava usando o vestido com o qual recebeu seus convidados para o jantar, mas já tinha retirado suas joias, o que lhe proporcionava um ar estranho, já que todos conheciam sua paixão pelo decoro. Elisabeth disfarçou um suspiro e fez sinal para que o criado a esperasse, antes de se virar para enfrentar a tempestade. — Qual é a causa da sua raiva, mãe? — perguntou, com um gesto de irritação. — Pare de fingir que não sabe! Então não é capaz de se apresentar em sociedade? Seu pai reuniu alguns de seus amigos mais íntimos para jantar e você se atreveu a rir de uma piada, para dizer o mínimo... indecente? Ela parecia à beira de um desmaio só de pensar nisso. Elisabeth tentou manter a calma. A cena à qual sua mãe estava se referindo ocorreu durante o jantar que reuniu oito amigos de seu pai, que já conheciam muito bem sua filha. Quanto à referência irreverente, sua mãe provavelmente nunca deve ter ouvido falar, mas ela mesma já tinha lido o pior dos romances libertinos que conseguiu desenterrar da biblioteca. — Mãe, Monsieur de Renlis praticamente me viu nascer! Duvido que tenha se ofendido com minha reação, assim como os outros convidados. — Você não pensa na sua reputação? Seu pai ficaria muito contente se você se casasse


com algum deles. Daquela vez, a jovem não conseguiu deixar de revirar os olhos. Aquele era o maior desespero de sua mãe, desde que tinha feito dezoito anos: Elisabeth ainda não tinha encontrado um noivo. Nos primeiros dois anos, a situação parecia perfeitamente aceitável; a senhora d’Arsac apenas continuava educando sua filha de acordo com a posição em que viviam. Mas depois de quatro anos de Elisabeth ter deixado o convento, sua mãe começou a perder a paciência. A jovem, por sua vez, não tinha nenhuma pressa em se casar, mesmo que a convivência com seus pais tivesse se tornado mais pesada nos últimos meses. — O nome e a tradição da nossa família deveriam importar mais do que uma risada um pouco complacente por causa de uma piada não tão inocente. Você sabe que eu precisaria de muito mais do que isso para desencorajar alguns desses bobocas. — Sua mãe quase perdeu o ar com essa afirmação, mas Elisabeth continuou — Afinal de contas, filhas da nobreza podem se casar com plebeus hoje em dia. — Basta! Não quero ouvi-la proferindo esse tipo de absurdo. — Enfim, você também entendeu a piada, mamãe. Eu mesmo a vi sorrir. A condessa se empertigou. — Não importa — ela respondeu. — Sou casada, e você não é. Além disso, se sorri, o fiz por trás das minhas mãos para não chocar aqueles senhores. Não é necessário ser ignorante a respeito dessas coisas, mas não se deve encorajá-las. — Sempre odiei mentir. — A senhora d’Arsac fez um pequeno ruído similar a uma tosse, antes de levantar a cabeça e olhar para a filha sem dizer nada. A jovem corou. — Tudo bem, eu admito. Já menti antes. — Sua mãe ergueu uma sobrancelha. — Muitas vezes. Mas não me menospreze nem tente me tomar por estúpida, que é algo que não sou. — Não estou dizendo que seja estúpida. Pare de distorcer minhas palavras. Só tente... passar a beber um pouco mais de água do que vinho. Às vezes temos que fazer concessões para agradar. — Mas é aí que se encontra o problema, mãe. Não quero agradar ninguém. — Já percebi isso — a condessa respondeu com melancolia. — E isso me entristece. Não


por mim, mas por você. No entanto, ainda tenho esperança que um dia sinta esse desejo e reconsidere sua decisão. Elisabeth ficou sem palavras diante daquela constatação. Sua mãe raramente compartilhava aquele tipo de opinião com ela. Ah, ela não duvidava de seu amor, mas seu decoro muitas vezes predominava em relação à sua espontaneidade. A senhora d’Arsac começou a se recuperar. — De qualquer forma, mantenha isso em mente. Você deve se comportar com dignidade, não importa seu gênero ou classe social. Isto será muito importante para o seu futuro. Agora vou deixar que vá se encontrar com a Srta. du Plessis, que deve estar lhe esperando. Elisabeth e sua amiga, Félicité du Plessis, tinham planejado ir ao Baile da Ópera, que começaria à meia-noite, e ela ficara encarregada de buscar a mesma, que morava no bairro de Marais. Assim que sua mãe desapareceu escadas abaixo, a jovem vestiu um longo casaco sobre o vestido de seda e saiu para o ar frio de janeiro, com um criado a segui-la.

O carro atravessou o portão da casa dos du Plessis e parou na frente da varanda. No pátio iluminado por tochas, Elisabeth saltou, sem esperar que o criado lhe abrisse a porta, e apressou-se a subir os degraus. Ela hesitou por um segundo, então, virou-se e anunciou: — Pode levar o carro. A Srta. du Plessis irá me acompanhar. O servo que a acompanhava protestou: — Senhorita, me desculpe, mas sua mãe disse... — Sei exatamente o que minha mãe disse. Mas peço-lhe que vá para casa. De qualquer forma, sua presença não iria ser necessária a noite inteira — ela respondeu com altivez. Elisabeth não esperava ter que desrespeitar as recomendações de sua mãe tão cedo, mas tinha se rendido a um impulso e odiaria ter que reconsiderar. — Além disso, a Sra. du Plessis ficará aqui a noite toda.


Elisabeth mordeu o lábio. Para alguém que tinha professado odiar mentiras há menos de uma hora, estava sendo singularmente prolífica naquela noite, pensou desanimada. No entanto, não tinha intenção de ceder ao remorso. Portanto, rejeitou seu criado e o carro com um aceno de mão, e, em seguida, entrou na casa. Ela sorriu para o mordomo, que a acompanhou até a sala de música da mansão. Apesar da hora tardia, Félicité tocava harpa, fazendo soarem as notas de uma melodia melancólica da moda. Sendo interrompida pela chegada da amiga, levantou-se num farfalhar de saias para cumprimentá-la. Era uma bela jovem da mesma idade de Elisabeth. Ambas eram loiras, mas Félicité tinha olhos de um azul claro, enquanto os de Elisabeth eram castanhos. Tinham se conhecido no convento e eram inseparáveis desde então. As duas amigas se cumprimentaram com um beijo na bochecha antes de se sentarem em bancos acolchoados. — Sinto muito pelo atraso, mas minha mãe quis me dar um sermão novamente. Tenho a impressão de que ela não vai parar com isso até me ver casada e estabelecida. — Ela fez uma pausa por um momento, antes de concluir com um sorriso — Eu não sei o que passa pela cabeça dela ao pensar que eu gostaria de agradar alguém um dia... Ainda mais um homem. Para quê? — Por amor? — sugeriu a amiga. — Deus me livre! Do que adianta eu estar apaixonada? Ficaria apenas devaneando, desperdiçando tempo que poderia usar para algo útil. Sempre preocupada com o que as pessoas poderiam dizer. Não, prefiro minha situação atual, embora muitas vezes inveje sua liberdade. — Félicité permaneceu em silêncio, e Elisabeth mordeu o lábio. — Perdoe-me. Você sabe que não quero sua infelicidade, mas... Sua amiga a tranquilizou com um sorriso. — Não se preocupe. Eu entendi onde quis chegar. Depois de deixar o convento aos dezessete anos para se casar, Félicité viveu com o marido, trinta anos mais velho, até se tornar viúva dois anos atrás. ​— Mas eu deveria ter mostrado mais respeito.


— Não foi nada. Às vezes, é verdade, sinto falta de sua presença e de seus conselhos, mas não havia amor entre nós, apenas respeito, que não é negligenciável. Ele teve a gentileza de me educar, para me tornar uma mulher. Mas agora quero outra coisa. Após rigorosamente viver o seu período de luto de um ano e seis meses, onde pôde usar apenas roupas de lã, Félicité celebrou seu retorno ao mundo no início do inverno. Sem filhos e com uma certa liberdade, por conta de sua herança, não mostrou vontade alguma de se casar novamente. — Outra coisa? Mas o quê? Você tem tudo o que poderia querer! — Eu sinto falta de afeto. Ao contrário de você, minha família é pequena, não tenho irmãs ou irmãos. Meu pai vive na Província, e nossa relação nunca foi muito calorosa. Elisabeth não conseguiu não se surpreender com tais revelações. Sua amiga sempre pareceu se sentir feliz com a vida que levava, mas acabou confessando que faltava algo. — Certamente nós somos muito diferentes — admitiu, um pouco irritada. — Você já pensou que o casamento poderia ajudá-la a adquirir a liberdade que tanto quer? A jovem suspirou. — Sim, eu já considerei. Acho até que é a maneira mais fácil de obtê-la, mas a perspectiva de ter um marido tomando posse do meu corpo, das minhas ações e dos meus bens realmente não me agrada. — Há pouca chance de que isso aconteça, especialmente se entrar em um consenso com seu marido. — Félicité se referia a um novo modelo de casamento, que se tornara muito comum entre a velha nobreza e a noblesse de robe, composta principalmente por juízes. Tais uniões eram frequentemente feitas para restaurar as finanças de uma família arruinada e proporcionar algum brilho às pessoas que se tornaram enobrecidas recentemente. — Não acho que meu pai já tenha escolhido alguém para mim. Por ora, estou condenada a ficar com meus pais como se fosse uma menina. Às vezes sinto como se concedessem mais coisas à minha irmã Constance, e ela só tem doze anos! — falou a última frase com um ar tão feroz que a amiga não pôde deixar de sorrir. Depois de alguns instantes, ambas riram.


— Então, não se esqueça que Constance não tem o direito de participar do Baile da Ópera. Mas acho que será melhor nos apressarmos ou não chegaremos a tempo no Palácio Real. O Baile da Ópera, um dos eventos mais populares de Paris, foi um dos destaques do Carnaval. Acontecia duas vezes na semana, e era a primeira vez, naquele ano, que as duas amigas iriam frequentá-lo. E também era a primeira vez que decidiam fazê-lo sem acompanhantes. As mulheres seguiram até o segundo andar da mansão, onde ficavam os quartos. Depois que lhe foi permitido retirar as cortinas do luto, outras foram colocadas para permitir que a anfitriã se vestisse em um vasto espaço, iluminado à noite por uma dúzia de velas de fogo crepitante. Por uma questão prática, Elisabeth tinha enviado seus vestidos de baile para a casa de Félicité no início do dia, para que a amiga pudesse ajudá-la a escolher. Esta, por sua vez, estudou os tecidos e as cores antes de fazer seu julgamento. — Eu optaria pelo vestido azul pálido. Ele vai valorizar a sua pele e seu cabelo. Mas também vai depender da maquiagem e do penteado. Elisabeth balançou a cabeça, gesticulou para a criada e começou a se despir. Então, retomou a conversa com Félicité. — Você me disse que seu pai ainda não tomou nenhuma decisão em relação ao seu casamento. Sabe se ele já tem alguém em mente? — Para ser honesta, acho que ele vai querer receber novas propostas antes de finalmente se resolver... Mas acho que ele já tem algumas ideias. — Quem? — Para começar, ele vai querer que eu me case com alguém de uma família ilustre. Sendo assim, já se pode descartar a maioria dos candidatos cujas famílias enobreceram recentemente. E são muitos! Um deles até me propôs irmos direto à igreja na semana passada. Félicité se mostrou chocada. — Que falta de educação! — Se eu tivesse algum interesse, teria aceitado. Mas agarrei a oportunidade de me


esconder atrás de um véu de decoro e convidei-o a tratar diretamente com o meu pai. Não soube nada dele desde então, portanto, concluo que não foi aceito. Como ela já tinha colocado seu vestido de baile, a criada preparou-se para retirar seu colar. — Não. Pode deixá-lo. — Como quiser, senhorita. Félicité ergueu uma sobrancelha. — Você não tem medo de ser reconhecida por esta joia? — Vai haver uma multidão lá. E por mais que seja uma joia antiga, não sou a única a ter uma. Recentemente vi a Marquesa De La Tour usar um colar muito parecido com este. Tratava-se de uma joia de família em forma de nó, em ouro esmaltado ornamentado de azul. Suas cores combinavam perfeitamente com sua roupa, que, aliás, a deixava radiante, chamando a atenção para suas curvas femininas. Era estranho, mas naquela noite ela sentia vontade de usá-lo como um talismã. — Como vai usar o cabelo? Arrancada de seu devaneio, Elisabeth indagou: — O que me sugere, Félicité? Esta olhou para a sua amiga e decretou: — Você não vai colocar uma peruca, vai? Vai, ao menos, colocar laquê, não é? A jovem balançou a cabeça. — Sugiro uma trança com fileira de pérolas — disse Félicité. — Acho que ficará um efeito bonito. Uma vez que estavam prontas, Elisabeth avaliou seu reflexo no grande espelho acima da lareira e ficou surpresa ao perceber que suas formas delgadas tinham sido cuidadosamente realçadas pelo vestido. Demorou a se reconhecer naquela mulher encantadora. Seu cabelo


brilhava tanto quanto seu colar, e seus olhos, que escondiam-se de modo distinto sob a máscara de couro preta, destacavam-se por sua cor entre o dourado e o marrom, realçados pelas chamas das velas. Félicité ficou pronta à meia-noite. Aproximou-se da amiga, colocou as mãos em seus ombros, para verificar sua aparência, e declarou com satisfação: — Veja se não é uma transformação! Estou disposta a apostar que você fará sucesso e, quem sabe, um belo estranho não poderia estar disposto a arrebatá-la? Elisabeth sorriu, relembrando as despreocupações de quando ambas tinham quinze anos, quando compartilhavam suas confidências e esperanças. Pela primeira vez, Elisabeth não fez nenhuma tentativa de protestar contra os desejos de boa sorte e sentiu-se estremecer. Quem poderia imaginar o que aconteceria em bailes como aquele? O carro chegou ao quintal. Vestiram seus casacos, esconderam suas mãos por baixo de um enfeite de peles e se estabeleceram no assento. Félicité ordenou que seguissem ao Palácio Real, e o carro partiu. Escondida pela escuridão, Elisabeth se permitiu sorrir amplamente. Ela sentiu um tipo de emoção violenta, que inchou seus seios e sentiu uma sensação de alegria e ansiedade, dúvida e antecipação. Pela primeira vez, sentiu-se livre. E estava destinada a se divertir.


Capítulo Dois Henry Wolton murmurou uma maldição por sob sua respiração. Morava em Paris há quase dois meses, mas ainda não tinha se acostumado ao trânsito incessante das ruas, especialmente quando se tratava de acessar locais à noite. Apesar de ser uma bela cidade, precisava suportar seus habitantes. Eram briguentos, falantes, às vezes desdenhosos e pareciam não se importar com ninguém. Já fazia quase duas horas que tinha deixado sua casa, localizada no bairro novo de Chaussee d’Antin, e finalmente tinha chegado ao Palácio Real. Teria preferido caminhar até lá, pois nunca se sentia relutante em relação a um serviço, mas o frio nas ruas estava cortante, e elas não eram nada seguras. Tudo bem que sua bengala escondia uma lâmina de espada, mas ele gostaria, tanto quanto possível, de não ter que usá-la. Sendo um cidadão norte-americano, Henry não tinha frequentado a alta sociedade desde a sua chegada na França, em circunstâncias complicadas, dois meses antes. O pensamento o fez instintivamente voltar os olhos para sua mão esquerda, que estava decorada por uma ferida que se recusava a curar-se completamente. Ele fechou os olhos, dominado pela nostalgia, quando o carro alugado balançou em sua última sacudidela e parou, arrancando-o de suas reflexões. Henry saltou, pagou a corrida e interrompeu-se por um momento em frente ao edifício. Ele já devia ter passado por ali durante o dia, como todos os parisienses, mas a fachada iluminada à noite por milhares de velas era incrível. Era como um castelo fantástico de contos de fadas. A multidão se espremia para entrar, dada a estreiteza do corredor e da escada que levava à entrada. Batia uma hora na igreja vizinha de Saint-Honoré. Como podia ser tão tarde? Começou a apressar-se para chegar a tempo quando uma mão recaiu sobre seu ombro. — Eu achei que você já estivesse lá! — exclamou Louis, em seu inglês perfeito. Ele era o amigo que o tinha convencido a ir à festa. Henry deu de ombros.


— O que você queria? Fiz tudo que pediu... Olha, até vesti um traje com a cor da estação — acrescentou, mudando a linguagem da conversa. Seu interlocutor riu. Henry usava um casaco em um tom de cinza grafite que combinava com seus olhos e tinha completado o traje com uma máscara preta simples. O baile daquela noite era um pouco menos formal do que outros eventos sociais, então, ele abandonou a peruca e apenas amarrou o cabelo em um rabo de cavalo. — Você está muito bem! Mas receio que este sotaque não irá enganar ninguém. — E eu pensei que iria permanecer incógnito para assistir ao espetáculo à vontade! — Henry lamentou. Enquanto conversavam alegremente, os dois tinham avançado até a porta. Logo a cruzaram, depois de mostrarem seus convites. — Você não vai se decepcionar! Dizem que o conde de Artois, irmão de Sua Majestade, estará presente hoje à noite com algumas senhoras e senhores em sua suíte. A família real dificilmente comparece a este tipo de entretenimento popular, mas não seria a primeira vez... Henry balançou a cabeça em silêncio, ocupado demais em observar a grande sala na qual tinham entrado. Com um pé direito alto e bem iluminado, parecia muito pequena para acomodar tamanha multidão, além disso, o local estava um pouco escuro. No entanto, os dançarinos tinham espaço suficiente para moverem-se graciosamente ao som de violinos. Enquanto isso, pequenos grupos se formavam, alguns tomando seus refrescos e outros vagando em busca de um lugar mais tranquilo. Ao seu lado, em um canto, avistou um casal que parecia estar em um momento muito íntimo... Envergonhado, Henry virou-se, afastando-se da cena. — Ah, a moral é um pouco flexível dentro desses muros — Louis disse com conhecimento de causa. — E eu que pensava que os americanos eram despudorados... Mas você é um francês esta noite, como você mesmo disse. Liberte seu coração! — Que assim seja. Mas se eu acabar no inferno, vou acusar você como responsável por isso.


Um sorriso suavizou suas últimas palavras. Ele gostava de Louis. Tratava-se de um jovem nobre que procurou sua ajuda para melhorar seu inglês e insistia em agradecer introduzindo-o à sociedade. Apesar de se sentir relutante a princípio, Henry começou a se deixar levar, aceitando convites para salões de tiro ao alvo e para encontros literários em cafés, chegando ao ponto de se reunirem ali, naquela noite. Contudo, não podia dizer que não se divertia, por mais que seu “protetor”, de acordo com seus cálculos, fosse uns quatro anos mais jovem. Além disso, seu companheiro agradável não tinha mostrado a menor relutância em estar na companhia de um plebeu. Na verdade, quando descobriram que ambos participavam da Maçonaria francesa, uma amizade fraterna nasceu imediatamente. — Lembra que eu mencionei a família real? — Louis sussurrou para seu companheiro. — Está vendo a jovem senhora de vestido verde e prata? Está partilhando a suíte do conde de Artois. A esposa dele está prestes a dar a luz, mas isso não o impede de desfrutar os prazeres de Paris. O bebê não vai demorar a nascer. Henry, na verdade, enxergou no meio do salão uma moça dançando que possuía essa descrição. Era graciosa e altiva, o epítome da nobreza. Era quase uma boneca mecânica. — Meu amigo, vou te abandonar, porque acabei de avistar uma garota que muito me agradou, então, vou me apressar para conhecê-la. Vamos nos encontrar mais tarde, porque está fora de questão que saia daqui sem mim. Quero ouvir suas primeiras impressões. Depois de dizer isso, ele desapareceu na direção de uma janela, onde uma jovem de vestido listrado lançava-lhe olhares encantadores. Deixado sozinho, Henry sentiu-se desorientado por um momento no meio daquele local, mas decidiu colocar-se em um canto e observar a sociedade enquanto se entretinham. Depois de algum tempo, começou a relaxar e trocar algumas palavras e saudações com as pessoas que estavam perto dele, aproximando-se gradualmente da cena. Em seguida, ouviu alguém murmurar: — Estou dizendo que é ele, tenho certeza! Estive em Versalhes há poucos dias, e aquele é mesmo o conde de Artois. Assim como todos ao seu redor, Henry virou a cabeça na direção indicada.


No entanto, seu olhar passou direto pelo mencionado, sem realmente vê-lo, e foi parar em outra companheira de dança. Ela era deslumbrante. Seu vestido destacava sua cintura fina e sua esbelta figura, revelando curvas encantadoras. Mas o que mais o atraiu foi a expressão radiante de seu rosto, o sorriso franco e amigável, que parecia declarar a todo mundo o quanto ela estava feliz por estar ali naquele momento. Tal espontaneidade teve o mesmo efeito sobre ele que teria uma brisa de primavera, fazendo-o esquecer de tudo que o perturbava. Tinha a sensação de estar olhando para algo raro. Uma figura forçou a tal dançarina a se mover em sua direção, e quando ela olhou para cima, seus olhos se encontraram. Seu coração parou de bater por um segundo, antes de adquirir uma velocidade vertiginosa. O salão e a multidão pareceram misturar-se, tornando-se uma névoa indistinta. O tempo parecia suspenso. Foi quando ele a viu melhor. Seu pescoço elegante. Suas bochechas rosadas por causa do esforço e da emoção. Seu cabelo loiro e brilhante. Um calor estranho penetrou em seu corpo e rapidamente fez algo despertar... uma emoção, talvez. Uma sensação. E de repente teve a certeza de que aquela desconhecida estava experimentando a mesma coisa que ele. Algo totalmente novo para ambos. Mas a magia não durou, e muito, muito rapidamente ela precisou virar-se de costas para continuar os passos da dança. Em nenhum momento ele parou de olhá-la, até que a música terminasse. E ele devorou todos os seus movimentos, todos os seus sorrisos. Quando o cavalheiro com quem dançava a levou de volta para seu lugar, depois de lhe oferecer bebidas, Henry começou a se preparar para passar por entre a multidão para reivindicar aquela mulher antes que outro o fizesse. Mas, em seguida, uma dor latejante na mão esquerda tornou-se mais aguda, levando-o de volta à realidade. Abaixando a cabeça, olhou para a cicatriz que latejava e sentiu remorso por ter sido distraído. Como poderia, mesmo por um momento, esquecer o motivo de sua presença ali? Em um movimento determinado, afastou-se da pista e voltou ao seu lugar.


A noite tinha sido mágica. Elisabeth não tinha outra palavra. Estava encantada. Depois de chegarem, ela e Félicité se descobriram apanhadas por um turbilhão de discussões, brincadeiras, piadas... E também houve um momento em que acabou perdendo a amiga de vista, no instante em que foi dançar. Foi se sentar em um banco e começou a se abanar para se refrescar quando um rumor começou a se espalhar: o irmão do rei estava presente. Tão intrigada quanto os outros, ela se levantou para ver melhor e acabou avistando um jovem cavalheiro, que conseguiu distinguir mesmo estando ele de máscara e àquela distância. Assim que ele desceu as escadas, ela pôde prestar mais atenção em sua figura. Sentiase feliz apenas por desfrutar daquelas horas de liberdade absoluta, em que não era Elisabeth d’Arsac, filha da nobreza, com um futuro completamente mapeado por marido e filhos, mas como uma simples anônima, que apreciava os prazeres de um baile de máscaras. O conde d’Artois, no entanto, faz com que se lembrasse da verdade. Depois de dançar com várias mulheres, trocou cumprimentos com outras pessoas, até finalmente aproximar-se dela e convidá-la para o minueto, do qual já se podia ouvir o prelúdio. Atordoada, Elisabeth permaneceu em silêncio por algum tempo, mas logo se recompôs e aceitou o convite. Sentiu-se honrada por ter sido notada e imediatamente compreendeu a necessidade que os membros da família real deviam sentir por um pouco de diversão por algumas horas. Sendo assim, deu um sorriso, sabendo que seu cavalheiro parecia muito encantado, e deixou-se ser conduzida. Eles deveriam ser apenas mais um par no salão, mas logo os outros dançarinos começaram a abrir espaço para deixá-los conduzir o minueto. Elisabeth sentiu-se em pânico por um momento, quando percebeu que deveria executar os passos mais complexos na frente de todas aquelas pessoas, mas decidiu se deixar levar pela música. Teria que fingir, já que não praticava muito em casa. O conde segurava sua mão e começou a avançar na cadência da dança. Casais marcharam, um atrás do outro, logo em seguida, em uma mudança de ritmo; homens e mulheres separados, formando uma fileira, só para trocarem de lugar um pouco depois.


Que os anjos a protegessem, pensou Elisabeth no último momento, enquanto levantava a cabeça para enfatizar sua postura. Foi então que o viu. Por um espaço livre entre os dançarinos, avistou um homem acima da multidão, por causa de sua estatura. Surpreendentemente, verificou-o por completo, sem qualquer desconforto, porque sentia uma familiaridade muito grande. Perguntou-se por um segundo se já não o tinha visto antes, mas isso era impossível, pois nunca poderia esquecê-lo. Ele era viril, quase ameaçador, e esta impressão foi acentuada pela extrema simplicidade de sua vestimenta, um casaco cinza e uma máscara preta. Seu rosto tinha uma expressão concentrada, como se estivesse tentando queimar todos os recursos de sua memória. No entanto, quando tentou castamente desviar o olhar, simplesmente não conseguiu. Cativada, tinha a sensação de estar exposta frente àquele estranho que tanto a incomodava, embora ela não quisesse fugir. Não naquela noite. A música mudou, e ela imediatamente voltou sua atenção para a dança. Como conseguiu voltar à sequência de movimentos dentro do ritmo e sem equívocos foi um milagre difícil de explicar. No entanto, seu espírito vagava longe, marcado por aquele olhar cativante. Então, corou. O homem a tinha olhado com tal intensidade que chegou a ficar convencida de que, mesmo tendo durado apenas uma fração de segundos, o salão inteiro tinha reparado. E, enquanto outros casais novamente abriram espaço para eles, e seu cavalheiro estava prestes a interpretar a parte mais difícil da coreografia, ela estava firmemente convencida de que os olhos do estranho seguiam cada movimento, o que só reforçava sua agitação e excitação. O minueto terminou com uma saudação final, e eles foram ovacionados pelos aplausos do público. Apesar de seus temores, Elisabeth conseguiu brilhantemente escapar de algumas armadilhas da dança, impulsionada por seu entusiasmo e pelo calor que se espalhou pelo seu peito. Sempre gostou de dançar, mas naquela noite ela suspeitava que alguma outra coisa a tinha incentivado. No entanto, quando se aventurou novamente a virar a cabeça na direção do desconhecido, ele tinha desaparecido. — Senhorita, foi uma honra e um prazer ter uma parceira tão elegante. Elisabeth sobressaltou-se e percebeu que a frase foi dirigida a ela. Foi difícil voltar à


realidade, mas tentou o seu melhor, determinada a esquecer aquele incidente. Ofereceu, então, seu melhor sorriso ao conde d’Artois. — A honra foi minha, monsenhor... senhor. Ela mordeu o lábio. Em sua excitação, quase usou o título errado para o irmão do rei, quase demonstrando que o tinha reconhecido. Este não foi enganado, mas parecia encantado e levou-a de volta ao seu lugar, antes de convidar outra moça. Estranhamente, Elisabeth estava convencida de que ele teria novamente lhe escolhido, se ela não tivesse se distraído. Mas não se sentia decepcionada com isso. — Que sucesso! — exclamou Félicité em seguida. A jovem surgira logo depois da partida do nobre, para a surpresa de sua amiga. — Teria acontecido a mesma coisa com você se não estivesse tão distante. Tenho certeza que ele a teria escolhido. — Espero que não! ​— Ela baixou o tom de voz. — O Sr. d’Artois não tem boa reputação com as mulheres, especialmente nestes grandes festivais, onde podemos preservar alguma forma de anonimato. Eu não me surpreenderia se ele estivesse à procura de algumas... liberdades. Elisabeth se mostrou estupefata. Nunca teria suspeitado de tal comportamento! Félicité riu e brincou delicadamente: — Às vezes eu sinto que você não sabe das coisas... Parece que as lições que sua mãe lhe deu fizeram efeito. Elisabeth ficou indignada, mas acabou gargalhando afinal. Era bom ser capaz de agarrar-se a algo familiar, algo que não a deixasse desestabilizada como o desconhecido... que parecia ter desaparecido. Um pouco contrariada, levantou-se para procurar uma bebida, deixando Félicité sozinha. Estava prestes a se servir de um pouco de xarope de frutas, quando se lembrou que tinha decidido aproveitar o baile e os prazeres que lhes eram oferecidos. Mudando de ideia, pediu champanhe, e depois voltou para perto de sua amiga.


Ela ainda dava seu primeiro gole quando a outra sussurrou: — Quem era o cavalheiro que você estava devorando com o olhar durante o minueto? Elisabeth quase engasgou e tossiu para ocultar sua reação. Félicité olhou para ela desconfiada. — Você sabe quem é? É um de seus pretendentes? — Com certeza não! — ela exclamou, recompondo-se. — Para ser sincera, não sei quem é. Certamente as máscaras não ajudaram a reconhecê-lo, mas acho que teria me lembrado de tal figura. — Sim, era um homem bonito... Fiquei surpresa por ele não ter te convidado para dançar, mas não parou de olhá-la até o final do minueto. Acho que ele cogitou uma abordagem, mas desapareceu. — Neste caso, não há necessidade de falarmos sobre ele — disse Elisabeth em um tom definitivo. Félicité deu de ombros e permaneceu em silêncio por um momento. — Você não acha que poderia ser o Sr. de La Ferté? Afinal, ele tem mostrado interesse recentemente... Elisabeth absteve-se em olhar para o céu. — Ah, por Deus, não! Não era ele, eu tenho certeza. E não vejo por que ele olharia para mim daquela forma; meu pai o rejeitou, e eu nunca senti o desejo de me casar. — Bem, está certo, vamos mudar de assunto. Elas, então, começaram a falar das roupas usadas pelos convidados, observando detalhes da moda que não deixariam de pedir que a modista lhes reproduzisse. Depois de um momento, um homem elegante convidou Félicité para dançar. Sendo deixada sozinha, Elisabeth não tinha nenhum desejo de terminar sua bebida. Sentia-se vagamente enjoada, como se os comentários de sua amiga tivessem proporcionado uma amargura que sentia em relação ao seu desconhecido. Aquele desconhecido, corrigiu-se. Aquele homem, cujos olhos estavam cheios de promessas ardentes, não completamente decifradas.


Cedeu, então, à tentação de terminar com o que restava em sua taça e entregou-a, agora vazia, a um lacaio. Aproveitou a oportunidade para pegar outro copo cheio, e daquela vez pretendia bebê-lo bem rápido para esquecer seu mau humor. Antes que pudesse questionar-se sobre o que estava fazendo, um movimento chamou sua atenção... Ele estava lá! O desconhecido estava na outra extremidade da sala e parecia olhar para ela, ou talvez para um ponto mais atrás. Se parecia vagamente ameaçador antes, agora tinha um aspecto francamente perigoso, dando a impressão de que seu tamanho apenas acentuava-se. Surpresa, Elisabeth virou-se, perguntando a si se o objeto de sua raiva era ela mesma ou outra pessoa. Viu, então, um homem visivelmente bêbado afastando-se dela, intimidado pelo olhar do desconhecido, não sem tentar deslizar a mão ao redor da cintura de uma moça de menos sorte. Com o coração batendo forte, Elisabeth voltou sua atenção para o estranho, que agora olhava diretamente para ela. Exatamente como aconteceu enquanto dançava, ela corou, mas não desviou o olhar. Encorajada pelo comportamento estranho do homem, acenou com a cabeça em apreciação. Por uma fração de segundo, ela pensou ter percebido uma centelha de luz em sua expressão, mas tão fugaz que se perguntou se não estivera sonhando. Ainda assim, ela se aproximou, quase sem querer, pois seus pés estavam avançando por vontade própria, como se obedecendo a uma ordem que ela não lembrava de lhes ter dado. Elisabeth parou a menos de um metro do desconhecido. Ele a dominava com sua altura, e ela tinha que olhar para cima para encontrar seus olhos, o que não acontecia muitas vezes. Nervosa, lambeu os lábios antes de perguntar, armada com seu sorriso mais deslumbrante. — Bem, senhor, não vai me convidar para dançar?


Capítulo Três Henry ficou em silêncio por um momento; estava completamente atordoado por causa daquela situação. Não podia acreditar que uma mulher, aparentemente de boa linhagem, pudesse tomar tal iniciativa. Acima de tudo, ficou surpreso por perceber que se tratava da moça que observara durante o minueto. Ele tentou evitá-la várias vezes, mas seus olhos pareciam traí-lo. Tinha, no entanto, decidido não se aproximar, cedendo à sua culpa e remorso. Porém, quando um homem tentou tocála, agiu com hostilidade, como se ela pertencesse a ele. Não, ele se corrigiu. Ela não lhe pertencia. Simplesmente a protegeu de um ladino muito inconveniente, apenas isso. Mas ela atravessou a sala com uma abordagem determinada, sorrindo, e estava diante dele agora, à espera de uma resposta. O que fazer? Ele hesitou, dividido entre o desejo de conhecê-la e pela obrigação de se conter. A jovem não desistiu de sorrir, mas seus olhos velados pareceram escurecer. Foi então que ele tomou sua decisão: encantado com o brilho daqueles olhos, ele se sentia pronto para deixá-la ficar. Inclinou-se ligeiramente e estendeu a mão. — Você me deixa oprimido, senhorita. Apesar da máscara, ele pôde perceber que a desconhecida parecia aliviada, e seu sorriso tornou-se mais aberto e mais relaxado no momento em que colocou sua mão sobre a dele. — Eu realmente achei que teria que procurar outro cavalheiro. — Assim você me deixa com o coração partido. Por favor, tenha a bondade de me desculpar por ficar momentaneamente desconcertado. É raro ver uma mulher tão encantadora tomar as rédeas da situação. Ela pareceu corar um pouco, demonstrando que estava um pouco insegura. Ele a levou


para o meio da pista, onde a dança anterior estava terminando. Ao abrirem caminho entre a multidão, ele viu os músicos anunciarem a próxima música, mas estava tão absorvido por sua parceira que mal se importou. Não era costume usar luvas para a dança, o que o deixou satisfeito, pois, assim, podia sentir diretamente o toque de sua pele na dela. Ela estava quente, era incrivelmente suave, e ele teve que se esforçar para não acariciá-la com a ponta dos dedos. No entanto, não podia deixar de se perguntar se sua pele também seria aveludada em outros lugares... como atrás da orelha, no pescoço... Repreendeu a si mesmo. Seria um menino, incapaz de moderar seu entusiasmo ou um homem digno de ser chamado assim, capaz de controlar seus instintos? Decididamente o ar de Paris não lhe fazia bem. Henry guiou sua companheira até o centro do salão e colocou-se ao lado dela. Com os primeiros acordes reconheceu a música e ficou encantado, era um Allemande, onde os dançarinos se moviam em pares, com as mãos entrelaçadas, deslizando nos braços um do outro. Diziam que era um pouco escandalosa, porque os parceiros ficavam muito mais próximos do que em uma dança comum. Ele não poderia sonhar com uma oportunidade melhor. Após uma reverência, tudo começou e o cavalheiro começou a conduzi-la. — Há quanto tempo está na França? — ela perguntou enquanto passava por sob o braço direito de Henry. — Então você acredita que eu seja um estrangeiro? — ele respondeu, sorrindo cheio de curiosidade. — É quase imperceptível, senhor. O senhor fala nossa língua perfeitamente, porém, percebe-se um sotaque... O senhor é alemão? Inglês, talvez? Não vem do sul, é óbvio. Ele aproveitou o passo seguinte, onde a jovem retornava aos seus braços enquanto ele segurava suas mãos, para inclinar-se e sussurrar. — Faz quase dois meses que cheguei. Ela se afastou e colocou-se novamente de frente para ele. Suas bochechas pareciam ter corado, mas poderia ser efeito da luz e do movimento. Enquanto passava por detrás dela,


continuou. — Mas a senhorita está pedindo demais se quer que eu diga de onde eu venho. Afinal de contas, estamos aqui mascarados, não estamos? Ela não respondeu imediatamente, mas hesitou antes de olhar novamente em seus olhos. — Tudo bem, eu concordo. No entanto... Por acaso já tive o prazer de conhecê-lo, senhor? Se está em Paris há dois meses, certamente já posso tê-lo visto no teatro ou nos jardins... Henry balançou a cabeça em negação. — Provavelmente não, infelizmente. Acho que teria me lembrado da senhorita. Para ser honesto, mal tenho frequentado a sociedade desde que cheguei. Tenho outras prioridades. Ele franziu a testa quando terminou a frase. Sua capacidade de esquecer seus pensamentos e memórias obscuras quando focava suas atenções naquela jovem era surpreendente, até mesmo perturbadora. Seria melhor se desistisse daquela dança e a esquecesse, porque na sua presença, a sensação de perder o controle de suas ações se intensificava. Ao sentir a mudança de humor, a dama o examinou por um momento, intrigada. Não disse nada, mas parecia compreender que alguma coisa o perturbava, o que só reforçava a opinião de Henry. Aquela mulher era perigosa. Aquele homem era um enigma. Permaneceu sorridente por um momento, mas logo tornou-se frio e distante, depois de suas perguntas divertidas. Era enlouquecedor. No entanto, Elisabeth não tinha terminado. Aquele homem a perturbava mais do que devia, e ela queria pagar na própria moeda. Ele precisava saber que ela não era a única que estava brincando com fogo. — Já que o senhor não tem um nome, e já que não sei de onde vem, deve me dar algo em troca — ela disse sem rodeios, depois de alguns passos. O mau humor de seu parceiro pareceu ter se dissipado, ou pelo menos ele reencontrou suas boas maneiras, pois, com um sorriso perfeitamente amigável, respondeu: — Bem, bem... E do que será que precisa, bela senhorita? Uma nova dança, uma


caminhada... um beijo, talvez? Elisabeth corou com a sugestão. Felizmente para ela, a dança terminou e provocou um burburinho de conversa, o que lhe permitiu recuperar a compostura. — Ora, senhor! Como pode me oferecer algo tão pouco decoroso? O homem riu. — Perdoe-me, querida, mas se estiver procurando por decência, acho que está no lugar errado. Até mesmo eu que cheguei a Paris há pouco tempo sei que este baile não é muito bem frequentado. Era uma brincadeira. Ela pôde sentir no tom que ele empregou que não estava tentando humilhá-la, queria apenas abrir-lhe os olhos para o ridículo de sua afirmação. Por um minuto, sentiu-se mortificada a ponto de desejar despedir-se dele. Mas ele foi logo levando-a ao Buffet para lhes servir um pouco de champanhe. Elisabeth aceitou o copo que ele lhe entregou, deliberadamente esquecendo-se que já tinha bebido muito naquela noite. Foi então que viu a cicatriz vermelha brilhante em sua mão esquerda. Esta provavelmente estava escondida pelos punhos de renda, mas a jovem precisava admitir que estivera especialmente interessada no rosto e nos ombros largos de seu cavalheiro, sem prestar atenção em mais nada. — Você me entendeu mal, mas estava certo em apontar minha tolice. — Quando ele estava prestes a protestar, ela gesticulou para impedi-lo. — Bem, nós sabemos muito bem que minha reação foi boba. De qualquer forma, mesmo que sua proposta seja tentadora, não era o que eu tinha em mente. Ela fez uma pausa para deixar que alguns casais passassem por eles. — O senhor sabe algo sobre mim, que sou de Paris, mas eu não sei nada sobre o senhor. Diga-me qualquer coisa e estaremos quites. Ele olhou para ela como se estivesse surpreso com sua ousadia. No entanto, não chegava a estar chocado. — A senhorita tem o dom de se revelar mais interessante a cada minuto. Fica indignada com o simples pensamento de um beijo, mas exige saber detalhes íntimos de minha vida... — ele


abriu um sorriso de orelha a orelha. — Bem, qualquer coisa? Mas se eu tiver que fazer uma confissão, não quero estar na presença de todas essas testemunhas. Além disso, a senhorita está corada, e eu acho que um pouco de ar fresco não irá lhe fazer mal. Elisabeth realmente sentia como se estivesse pegando fogo, mas sabia que era devido ao vinho, o calor, o local, a emoção... Assentiu com a cabeça e seguiu seu misterioso cavalheiro sem dizer nada. Assim que chegaram à varanda, o homem a arrastou para perto de uma janela. Ela sabia que não deveria deixar o teatro, mas sentia que toda sua vontade tinha desaparecido no momento em que ele a tocou. O ar fresco realmente era bem-vindo. Elisabeth inclinou a cabeça por um momento para limpar sua mente, afinal, tinha estabelecido uma meta. — Agora estou pronto para responder... mas sugiro um jogo. — Um jogo? — repetiu Elisabeth, desconfiada. Ela teve a desagradável sensação de que aquilo era uma armadilha. Nunca tivera a intenção de entrar em um jogo; deveria ter recusado no ato. No entanto, ouviu-se respondendo: — Indique as regras. Mas eu começo. — Muito bem. Adorarei vê-la assumindo o desafio. Isto é o que eu sugiro: se eu te contar uma história sobre mim, vai ter que me conceder um favor. Para equilibrar a situação — ele acrescentou, já que ela estava prestes a protestar —, vou lhe contar duas seguidas. Uma troca justa, não acha? Um largo sorriso apareceu no rosto de seu interlocutor. Se seus olhos não parecessem tão francos, poderia tê-los qualificado como diabólicos. — Sim, mas... com uma condição. Se o que o senhor responder me parecer mentira, ou se não responder, vai ter que me conceder uma promessa. Elisabeth não conseguiu conter um riso e tentou esconder seu constrangimento com uma risada nervosa. — Eu acho muito injusto, senhor! Você precisa me atribuir uma garantia de que poderei negar, senão, o que fará comigo?


— Claro, a senhorita irá desfrutar do mesmo privilégio. Então, estamos entendidos? Ela hesitou. Era uma proposta tão tentadora que um arrepio delicioso percorreu seu corpo. No entanto, ela sabia que não era adequado nem prudente. Finalmente ela simplesmente assentiu em silêncio, incapaz de proferir uma palavra. — Perfeito! Neste caso... Eles foram interrompidos por um grupo de jovens de peruca, visivelmente bêbados, que andava ruidosamente por todo o baile. Elisabeth sentiu um medo irracional de ser reconhecida e recostou-se no recesso da janela, colocando-se debaixo das sombras. — Bem — disse o cavalheiro. — Aparentemente este não é o lugar mais adequado para trocarmos confidências. Sabe para onde podemos ir? — O terceiro camarote, no piso superior — ela murmurou em voz tão baixa que ele teve que se curvar para ouvir. Este gesto deixou a jovem um pouco perturbada, mas não durou muito tempo. — Então vou deixar que me guie. Sem pensar, ela tomou a dianteira, segurando a mão dele para ter a certeza de que não iria perdê-lo. Enfiar-se em um local fechado com um homem desconhecido poderia muito bem ser perigoso, mas ela surpreendentemente confiava nele. Dentro de si, estava convencida de que ele não iria machucá-la. Enquanto subiam, as tochas pareciam cada vez mais espaçadas, deixando a luz escassa, e havia menos pessoas. Elisabeth deveria ter vergonha de seu comportamento, ou simplesmente medo das consequências, mas não conseguia prestar atenção. Estava ciente de tudo no ambiente: os ruídos sufocados, seus passos ecoando no chão de azulejos, a mão quente na sua... Finalmente eles chegaram à uma porta onde havia um número; era uma placa de madeira simples, que eles precisaram tirar para entrar. Seu cavalheiro manteve a porta aberta para permitir sua entrada e, assim, soltou sua mão. Entraram e puderam observar de cima o teatro que oferecia o baile. A melodia de violinos chegava até eles, mas estava abafada pela distância e pela falta de luz. Ali onde estavam, ninguém podia vê-los, a não ser que se debruçassem sobre a borda. Elisabeth tinha


escolhido um camarote lateral, para evitar que alguém os incomodasse. Às vezes pedaços de conversa, suspiros, chegavam até eles, o que a fez perceber que não estavam sozinhos naquele piso, porém, ninguém iria lhes perguntar o que estavam fazendo ali. Era uma loucura, mas impossível de escapar. E ela não queria. Dirigiu-se a uma cadeira acolchoada, onde afundou-se uma vez que as pernas já não conseguiam suportar seu peso. — Bem, a senhorita teve uma grande ideia — concordou o jovem com uma voz suave. — É calmo, suave e surpreendente. Está pronta para começar? Elisabeth concordou em silêncio, sentindo o coração palpitar. — Primeiro as damas! Aguardo sua pergunta. Demorou alguns segundos, o tempo para pensar, e soltou: — Quantos anos tem? — Farei trinta anos no outono. — Qual é a sua língua materna? — Então ainda não adivinhou? É o inglês. Ela sorriu descontraída, e ele aproveitou a oportunidade para seguir em frente. — É a minha vez... Deixe-me retribuir o favor, qual a sua idade? — O senhor deve saber que é rude perguntar tal coisa a uma mulher! — A senhorita protesta... Não importa, estou pronto para cobrar minha prenda. — O senhor não pode fazer outra pergunta? — perguntou Elisabeth, sentindo o pânico agarrá-la. Logo ele estava à sua frente, com um ombro encostado na parede. Ela se sentia expectante e tremendo de apreensão. No entanto, não se moveu quando ele se inclinou para ela. Com gestos suaves, ele tomou sua mão direita e virou-a com a palma para cima. Ela


pensou, por um momento, que ele iria levá-la aos lábios, mas não fez isso. Com a ponta do dedo, ele começou a desenhar uma linha entre o pulso e o cotovelo, passando pelo laço da manga até parar sobre o tecido. Elisabeth estava de olhos arregalados, com falta de ar, sentindo-se fascinada pelos movimentos que provocavam arrepios no interior de seu braços. Ela estremeceu e sentiu o corpo retesar. Mas quase imediatamente, o estrangeiro interrompeu a carícia para contemplá-la. Não parecia indevidamente perturbado, o que desapontou a jovem. Seria confortador descobrir que não estava sozinha naquele estado de nervosismo. — Isso — disse ele, endireitando-se — me serve como reparação. Sua vez. Piscando repetidamente para encontrar foco, ela sentia que tinha várias perguntas. Durante quase uma hora, eles trocaram confidências, detalhes divertidos e às vezes anedotas. Duas vezes Elisabeth sugeriu que ele se sentasse, mas ele sempre recusava; preferia, disse em uma provocação, dominar o campo de batalha para ter uma chance de ganhar. Estranhamente, uma espécie de intimidade, até mesmo uma camaradagem, começou a se desenvolver entre eles, apesar do anonimato. — O senhor é casado? — ela perguntou abruptamente quando chegou sua vez. Ele ficou a observá-la, sem dizer nenhuma palavra, e por uma fração de segundo, ela pensou ter detectado em seus olhos um brilho de... Não, ela não saberia dizer o que era. — Sinto muito, mas não posso responder esta pergunta. Elisabeth sentiu seu coração apertar; aquela resposta enigmática significava que ele realmente era casado ou ao menos comprometido. Mas aquela seria sua deixa. — Chegou minha hora de reclamar minha parte no acordo. — Ele não contestou, e ela continuou — Traga o seu rosto para perto do meu e feche os olhos, por favor. Ele fez o que ela pediu e seu coração pulou uma batida. Não podia admitir, mas estava esperando por aquele momento desde o início da noite. O rosto do desconhecido estava a apenas alguns centímetros do seu, e ela podia ver a


sombra de sua barba, sua pele bronzeada, provavelmente por alguma atividade ao ar livre, além de longos cílios que delineavam seus olhos fechados. Ela queria soprar suavemente aquele rosto só para observar sua reação, queria tocar para descobrir a textura de seus lábios cheios que pareciam tão doces, queria passar a mão em seu cabelo. Tremendo por conta de sua própria audácia, ela se inclinou para frente, roçando de leve em sua pele. Aproximou o nariz atrás de sua orelha, bem no couro cabeludo. Sem tocá-lo, respirou fundo para absorver o cheiro. Sentiu um perfume diabolicamente masculino, um aroma de roupa limpa, sabão e sândalo... Era uma fragrância inebriante, muito diferente do que ela estava acostumava; a maioria dos jovens usava fragrâncias escolhidas cuidadosamente, não hesitando em usar odores caros e originais. Mas aquele homem tinha algo de selvagem, algo que estava a milhares de quilômetros de distância da civilizada sociedade francesa... Tudo nele era mais atraente. Relutantemente, Elisabeth terminou. — Muito obrigada — disse ela com a voz rouca. — Já tive minha parte. O desconhecido abriu os olhos lentamente, como se alguém o tivesse puxado de um sonho. Ela pensou que ele iria encurralá-la contra a parede, mas não fez nada, apenas sorriu e colocou a mão na cabeça. As mulheres francesas com certeza não eram nada inocentes. Henry sabia disso. E aquela ali, apesar de sua juventude e boa educação, não era uma exceção. Se antes se mostrara tímida, agora provava ser uma expert na arte da sedução. Quando ela se aproximou, ele pensou que iria beijá-lo. Era o que esperava, na verdade. No entanto, ela o tinha somente tocado inadvertidamente, respirando seu cheiro, e ele mesmo acabou sobrecarregado pelo aroma da jovem, uma mistura de notas florais e pele aquecida. Isso inflamou seu desejo, e de repente, ele se sentiu apertado dentro de suas calças. Ele devia se afastar dela, encontrar Louis e sair dali. Aquela situação era muito perigosa e poderia se agravar de um momento para o outro. Mas não se mexeu. A desconhecida estava tão perto que ele podia ver flocos de ouro em seus olhos


castanhos quentes. Um fio de cabelo loiro escapava de seu cabelo e tocava seus lábios entreabertos. Captava apreensão e expectativa em seu olhar, mas também desejo em sua respiração entrecortada. Henry segurou o colar da jovem. Era uma bela joia, que traía sua posição muito mais do que seu vocabulário ou seu comportamento. Lentamente seguiu os contornos da pedra que ornava o pingente. Ela não virou a cabeça, e ele teve que admitir que tinha coragem. — Diga-me, bela senhorita... este colar significa algo para ti? Abandonando o pingente, ele deslizou a mão através de seu pescoço, até alcançar a bochecha, gentilmente tocando em seu rosto. A desconhecida piscou, como se procurasse decifrar suas palavras, mas a carícia a impedia de pensar. Ela abriu a boca, mas as frases não saíam, apenas um gemido abafado. Antes de lhe dar tempo para responder, Henry fez a coisa mais estúpida de todas, colou os lábios contra os da mulher e a beijou.


Capítulo Quatro Em um primeiro momento, Elisabeth ficou desorientada. Ele colou os lábios nos dela, pousou uma mão em sua face e a beijou apaixonadamente. Ela sentiu a boca firme e quente contra sua pele e, em seguida, sua língua, quando ele aprofundou o beijo. Ela tentou se afastar, mas ele moveu a mão do seu rosto para o pescoço, prendendo-a em seus braços. Incapaz de falar, ela se apoiou em seus ombros largos para se libertar, mas sem sucesso. Sua vontade própria se dissipava em contato com o desconhecido, e como ele ficava mais ousado, ela lutou para manter-se sã. Depois de tanto tentar oprimir suas sensações, ela finalmente se rendeu; foi uma experiência emocionante. Ela já tinha trocado alguns beijos furtivos, embora muito castos, com alguns de seus pretendentes. Chegou até a deixar o Sr. de La Ferté beijar brevemente sua boca. Mas aqueles momentos roubados, cujo principal interesse residia na quebra de um tabu, não tinham nada a ver com aquela conflagração de todo o seu ser. Os lábios do estrangeiro provocaram um incêndio que se espalhou por seu peito e seu abdômen. Era uma febre que a fez estremecer, dando a impressão de que seria sufocada. No entanto, queria mais, então, inclinou-se para se entregar completamente àquele arrebatamento. Ele se endireitou para puxá-la ainda mais para ele, libertando momentaneamente seu rosto, e aproveitou a oportunidade para apertá-la com mais força em seus braços. Assim, pressionada contra o corpo de seu amante, ela tornou-se consciente de sua força física e de sua estatura. Ele tinha deslizado o braço em volta de sua cintura, enquanto subia o outro ao longo de sua espinha, provocando deliciosos arrepios. Apesar da espessura do tecido do vestido, parecia que ele estava correndo os dedos para chegar até a pele. Quando o estrangeiro interrompeu seu gesto de afastar a alça que descansava em seu ombro, Elisabeth soltou um leve gemido de protesto. Aquele contato era agradável demais para que sentisse desejo de interrompê-lo. Ela ouviu seu riso despreocupado um pouco antes de ele retomar a carícia. Com as pontas dos dedos, ele seguiu o contorno de seu pescoço até a base do mesmo.


Surpresa, ela sentiu seus seios enrijecerem sob o vestido. Seu corpo nunca tinha reagido daquela maneira, e ela agradeceu pelo desconforto. Isso lhe permitiu recuperar a consciência momentaneamente, fazendo-a se contorcer para tentar escapar daqueles dedos tão astutos. O homem se afastou de sua boca, para o desespero de Elisabeth, e sussurrou em seu ouvido: — Você está com medo, bela senhorita? Sentindo-se arder, a jovem deixou de lado qualquer hesitação de sua mente e disse: — De forma alguma! O que está querendo? Terminar nossa... conversa? Seus lábios foram invadidos por uma risada que chegou a espalhar luz por seus olhos. Pareciam mais escuros, mais negros, e brilhavam como um céu tempestuoso repleto de relâmpagos. Neles, ela enxergou desejo. Por ela. Encorajada, ela sentiu desejo de tocar sua pele e enfiou os dedos sob a gravata borboleta. Isso foi suficiente para queimá-la como se estivesse com febre, como se tivesse a nítida impressão de que a temperatura aumentava a cada segundo. Seu contato, aparentemente, conseguiu derreter aquele mármore, porque foi a vez dele de deixar escapar gemidos, enquanto ela passava seus dedos por sua garganta. Percebendo o poder de que dispunha, Elisabeth decidiu colocá-lo em prática. Daquela vez, quando ele fingiu recuar, foi ela quem o segurou, forçando-o a abaixar a cabeça. Mas ao invés de tomar sua boca, ela encheu a linha de sua mandíbula de beijos, agindo com cautela, como se tivesse medo que ele agisse violentamente. Ela estava orgulhosa de provocar tal efeito sobre ele, de senti-lo estremecer por trás da máscara imperturbável. Sim, ela compreendeu, era por isso que Félicité corava quando a questionava, de forma demasiadamente insistente, sobre as relações conjugais. No entanto, sua satisfação durou pouco. O estranho começou a afastar seu vestido, sem dúvida na esperança de beijar seus seios. Ela deveria ter protestado, mas não fez nada. Na realidade, estava desesperada para que ele tivesse sucesso, mesmo que tivesse a nítida impressão de que ele estava novamente no controle. Seu vestido parecia, no entanto, ter outros planos. Elisabeth ouviu o estranho resmungando e percebeu que sua roupa era muito justa e que seu espartilho estava apertado


demais para o que tinha em mente. O jeito, então, foi acariciá-la por cima do tecido, gerando um delicioso atrito, que deixou seus mamilos tensos e sensíveis. Ela pensou que ele iria parar por ali, envergonhado pelo incidente, mas sua inventividade parecia não ter limites. Ele abaixou a cabeça para colar os lábios em seu pescoço. Ela prendeu a respiração. Nunca teria pensado que as coisas poderiam ficar ainda mais quentes, mas foi o que aconteceu. Nada se comparava ao que ele fez em seguida, com a ponta da língua, começou a seguir os contornos das costuras da roupa, arrancando-lhe um suspiro. Atormentada, ela deslizou os dedos por seu longo cabelo, preso em um rabo de cavalo, como que para se agarrar a alguma coisa. Ao fazer isso, inadvertidamente sentiu os fios sedosos acariciarem sua pele. O cheiro do desconhecido tornou-se mais forte, e ela inspirou um aroma de sândalo que a deixou tonta. Sentindo os joelhos enfraquecerem, ficou grata quando seu parceiro a ergueu nos braços e sentou-se na mesma cadeira que ela abandonara momentos antes, instalando-a em seu colo. Cada um de seus membros tremia, e era óbvio que suas pernas, em breve, iriam perder a utilidade. Mas a situação, que já era indecente, tornou-se absurdamente escandalosa. Ele precisou parar. Precisava, a todo custo, recuperar seus sentidos. Droga! Quando começou a beijar a jovem, Henry simplesmente desejava brincar um pouco. Mas agora fora capturado por sua própria armadilha! Ela era tão sensível, tão apaixonada, que o deixou atordoado, fazendo-o ultrapassar todos os limites que tinha estabelecido. O beijo... que não fora tão inocente, precisava admitir, tinha derrapado e levado a outras coisas. Agora estava sentado, com sua conquista sobre seus joelhos. A verdade era que ele não era ingênuo nem inexperiente... E com o ardor que ela tinha correspondido aos seus avanços, sentiu-se encorajado e tomou a iniciativa de outras carícias. Estranhamente vulnerável, tentava ansiosamente recuperar o controle. Passou o braço ao redor da cintura da desconhecida, agarrando-a firmemente. Ela usava um espartilho flexível, mais conveniente para a dança, que não endurecia seu corpo, apenas se adequava a todas as suas curvas. Certamente, o volume de suas saias escondia uma parte de sua anatomia, incluindo as pernas, mas ele iria descobrir uma maneira de corrigir isso... Ele tinha uma imaginação fértil.


Ela se remexeu contra ele, possivelmente para incentivá-lo a continuar de onde tinha parado. Assim, ele baixou a cabeça novamente para encostar a boca, não em sua pele, mas no seio escondido pelo vestido. Sentia-se frustrado por não ter conseguido ir adiante, mas não importava, havia outras soluções. Ele mordiscou-a levemente, o suficiente para que sentisse sem machucá-la. Sua reação foi imediata, ela arfou, completamente surpresa. Henry não pôde reprimir um sorriso; precisava admitir que aquela jovem se mostrava muito mais emocionante do que o esperado. Sua companheira era deliciosa, sob todos os pontos de vista. Seus beijos tinham um gosto de champanhe e açúcar, sua pele era macia e quente, sedosa, seus cabelos eram levemente perfumados... O toque era uma tortura. Sua boca tinha deixado uma marca molhada sobre o tecido, que poderia ser facilmente discernida. Ele queria enlouquecer sua linhagem, sua rotina... e de repente uma pergunta se instalou em sua mente: será que ela estava molhada em outras partes? Será que estava pronta para aceitá-lo? Ele fechou os olhos, tomado por uma onda de desejo indizível. Se não fosse rápido demais, iria tomá-la ali mesmo, de pé, contra a parede. Este simples pensamento inflamou seus sentidos e fez crescer uma parte de sua anatomia que já estava demasiadamente rígida. Sem ter consciência do que estava fazendo, Henry começou a acariciar o joelho de sua dama através do vestido, antes de descer a mão mais e mais, até o tornozelo, derrubando seu sapato. Certo de que ela iria protestar, beijou-a ainda mais forte, enquanto a tocava com as pontas dos dedos. Sentiu o calor de sua pele através das meias de seda, mas queria mais. Queria tocar sua coxa, desatar sua liga e afastar suas roupas de baixo. Queria tocar sua pele no local mais íntimo. Estaria quente? Será que ela gemeria quando a penetrasse? Henry precisava controlar seu coração. Sentia que não conseguiria descansar antes de saber a resposta a esta pergunta, no mínimo, inadequada. A porta do camarote se abriu para que entrasse um casal. Visivelmente bêbados, os dois recém-chegados levaram um tempo para perceber que não estavam sozinhos, já que se viam ocupados demais com seus beijos. Em seguida, o homem virou a cabeça e parou, logo sendo imitado por sua companheira. Uma nova gargalhada pontuou a situação, mas ele começou a empurrar a mulher para fora. Fechou a porta de forma silenciosa, mas não sem olhar na direção de Elisabeth de forma maliciosa.


O jovem sentiu seu sangue ferver, mas sob influência de uma emoção diferente desta vez: que direito aquele arruaceiro tinha de cobiçar sua misteriosa desconhecida? Ela era dele, só dele. Este último pensamento o fez ficar sóbrio. Mas onde estava com a cabeça? Não só aquela mulher não era dele quanto nunca deveria ter se colocado em uma posição tão comprometedora com ela. Certamente, a fama do baile de máscaras era conhecida, e provavelmente ninguém apareceria para obrigá-lo a casar-se ou propor um duelo para restaurar a honra de sua parceira, mas ele deveria ter se contido muito mais. Era realmente um tolo guiado por seus instintos mais primitivos. E aqueles instintos se manifestavam de modo muito visível em sua virilha, deformando suas calças. A desconhecida, por sua vez, piscou como se acordasse de um longo sonho. Ela estava com os lábios vermelhos e abertos, as bochechas rosadas e olhos brilhantes. Algumas mechas de cabelo agora escapavam de seu penteado inteligentemente elaborado. Lânguida contra ele, jogada em seus braços, ela não parecia estar plenamente consciente da situação... mas não demoraria muito, era evidente. Não sabendo o que fazer com as mãos, Henry deixou-as onde estavam, ou seja, no tornozelo e na cintura da mulher. Ele não queria soltá-la, por mais que estivesse ciente da extrema vulgaridade que demonstrava ao acariciar o pé de sua companheira. Esta parecia finalmente estar saindo do torpor, e seu primeiro impulso foi o de recomporse. Envergonhado, Henry tirou a mão de seu tornozelo, mas continuou a ampará-la por um tempo, até que ela voltou a si. Não demorou muito, logo que percebeu onde estava, a mulher levantou-se rapidamente, como se algo a tivesse picado. Ele mal podia culpar a reação dela de se sentir arrependida. — Por todos os santos, senhor, o que fez comigo? — ela sussurrou, atordoada. Teria sido difícil explicar-lhe que ele tinha perdido a cabeça tentando provocá-la um pouco. Sob o peso da culpa, ele respondeu secamente. — Eu poderia perguntar o mesmo, senhorita. Afinal, em nenhum momento me impediu com uma recusa nem me mandou para o inferno.


Sua parceira ficou vermelha, carmim. — Como se atreve? Então o senhor não tem honra? Normalmente sim, era o que ele queria responder, mas assim que a toquei, ela desapareceu. — Vamos lá, senhorita, peço que não culpe minha honra quando seu senso de decência deveria ter intervido — ele respondeu secamente. Ela parecia sufocar. Abriu a boca. Fechou. Interiormente, Henry não era assim tão orgulhoso, mas era exatamente por isso que não queria ser amigável, nem mesmo compreensivo. Sentia que tinha cometido um grande erro, o que nunca aconteceria se ela não o tivesse atraído até aquele lugar desavergonhado. Ele cerrou os dentes. Não, não tinha a ver com o lugar. Fora aquela mulher que inflamara seus sentidos, os quais ele pensara estarem adormecidos. Ela nervosamente começou a procurar algo, na escuridão da sala... Tendo finalmente encontrado, ela se inclinou e pegou o sapato que tinha perdido. Ele a seguiu com o olhar, ainda sentado, que era o máximo da descortesia. Mas preferiu poupá-la da visão da protuberância que deformava sua roupa. A estranha caminhou em uma marcha instável até a porta. Ao sair, ela se virou e anunciou com uma voz firme: — Por mais que não tenha honra, espero contar com sua discrição, senhor. Ele cerrou os punhos com o insulto, mas não a contradisse, afinal, merecia o seu desprezo. — Tem a minha palavra, senhorita — ele disse com os dentes cerrados. Mas ela não tinha ouvido. Já tinha ido embora. Desorientada, Elisabeth não sabia para onde ir. Virou ao acaso no corredor, indo em direção à escada para os andares inferiores. Ela precisava... do que exatamente? Ir até o salão? Encontrar Félicité? Mas como explicaria sua ausência? Como justificaria aquela partida precipitada? Precisava pensar. E refrescar-se. Tinha certeza que pareceria muito superficial, se fosse


forçada a fornecer uma explicação plausível para sua longa ausência. Ela finalmente chegou à escada, que era muito mais próxima do salão do que se lembrava, e começou a descê-la tão rápido quanto suas pernas conseguiam levá-la. Chegando ao primeiro andar, ela se lembrava de, ali, haver um espelho, quando, duas semanas antes, foi assistir a um show. As instalações estavam bem mais iluminadas do que nos camarotes, e totalmente mais populares, e ela chegou ao seu destino sem encontrar qualquer pessoa, embora percebesse trechos de conversas à distância. Diante do espelho, ela se encolheu quando viu seu reflexo. Estava desgrenhada, e sua máscara, cujos cordões estavam soltos, estava prestes a escorregar. No entanto, isso não era o mais chocante: ela tinha os lábios inchados, e estava claro que era por causa de beijos trocados; a pele estava coberta por uma fina película de suor; e seus olhos brilhavam com um brilho incandescente, que significava desejo insatisfeito e ansiedade. Ela respirou fundo, determinada a se acalmar e a voltar ao normal. Aos poucos, ela recuperou a tranquilidade e a vermelhidão desapareceu de seu rosto. Ela se arrumou da melhor forma que pôde, mas o penteado, sem ajuda, manteve-se precário. Em seguida, amarrou a máscara firmemente no rosto, antes de voltar a se avaliar com olhos curiosos. Sua roupa provavelmente não iria sofrer uma inspeção, pois poderia ter sido amassada por causa da dança e da multidão. Sua consciência, no entanto... era uma história diferente. Elisabeth sentia-se mortificada, não só por ter cedido aos avanços do homem, mas por tê-lo encorajado. Ela sentiu o rosto queimar. O que estava pensando ao se deixar ser acariciada sem reservas? Então não tinha vergonha? Félicité costumava brincar sobre ela ser supostamente pudica, mas acabara de fazer uma negação retumbante às acusações. Trêmula, Elisabeth murchou, sobrecarregada pela raiva. Por si mesma, pelo desconhecido, por causa das circunstâncias. Ainda assim, ela precisava admitir que sua raiva não mudava nada. Nem a atração assustadora, nem o desejo ofegante que tinha experimentado desde o momento em que tinha colocado os olhos sobre o homem. Só pensar nele já quase arrancava-lhe um gemido, e ela teve que morder o lábio para suprimi-lo. Por um único momento, Elisabeth cogitou procurar um sacerdote e contar-lhe toda a história. Mas isso durou apenas um instante. Na realidade, ela não ousava sequer imaginar sua reação se ouvisse sua história... Talvez ele a mandasse embora. Estremeceu só de pensar. Não, ela não queria


ser presa novamente dentro dos muros de um convento. Iria encontrar outra maneira de se punir. Porém, não conseguiria contar nem para Félicité quando a encontrasse. Sua amiga, que era perspicaz e experiente, com certeza iria reparar no transtorno de Elisabeth. Envergonhada, ela não iria discutir um assunto tão sensível. Talvez, no dia seguinte... Sim, ela decidiu, no dia seguinte iria contar sua história para a jovem viúva, embora, provavelmente, fosse omitir alguns detalhes chocantes demais. Sabia que sua amiga tinha uma mente aberta e que muitas vezes encorajara brincadeiras com os homens ao seu redor, mas a situação não era tão inocente. Provavelmente ficaria horrorizada. Assim como Elisabeth estava, na verdade. Quem estou querendo enganar?, ela perguntou para si mesma. Você poderia ter protestado e o empurrado, se realmente desejasse. Você queria que ele a beijasse, queria que fosse mais longe. Tonta, ela fechou os olhos. Decididamente, sentia-se doente e não podia mais ficar ali. Ela iria providenciar sua partida com Félicité, e queria voltar para a casa de seus pais. Em relação ao estranho, só queria esquecê-lo. O melhor seria manter a memória daquela noite como um aviso. Ela não tinha ido muito longe, não tinha chegado a um desastre, mas, felizmente, aquele homem não era dali e acabaria por deixar o país. Além disso, ele não a reconheceria se a encontrasse na sociedade. Elisabeth desceu lentamente as escadas para chegar ao piso térreo, sentindo a cabeça agitada. Ela não sabia se era devido aos inúmeros pensamentos que assaltavam sua mente ou se era um real desconforto, mas ela decidiu usar essa desculpa para ir embora. A festa estava em pleno andamento, mas a noite já ia bem avançada. As pessoas pareciam querer aproveitar até de manhã, e os últimos dançarinos pareciam tencionar ir para cama só quando o sol já estivesse a pino. Ela levou vários minutos para chegar até o salão de baile e se colocou em um canto para observar a cena. Era estranho. O que a tinha fascinado quando ali chegou, agora parecia insignificante em comparação com o que tinha experimentado há poucos minutos. Ela finalmente localizou Félicité dançando alegre no meio da pista. Apesar da máscara, ela reconheceu a jovem por sua roupa. Chamou um lacaio que passava, carregando uma bandeja com copos vazios, e pediu-lhe para transmitir uma mensagem para sua amiga. A fim de não ser


identificada, ela apenas usou o apelido “Elisa”, que era utilizado no convento. Livre desta tarefa, ela correu em direção à saída, depois de buscar seu casaco. Lá fora, o tempo estava muito frio e a neve não tinha derretido, mantendo-se dura e quebradiça sob seus pés. Imediatamente ela se arrependeu de ter mandado sua empregada embora, porque seria mais conveniente conseguir um transporte estando com ela. Ainda assim, ela pediu que uma da casa lhe chamasse uma carruagem de aluguel e a ajudasse a se sentar. O interior desta estava escuro, porque uma única lamparina estava acesa ao lado do motorista. Que aquilo lhe servisse de lição. Pensou até mesmo em voltar e juntar-se a Félicité, para aguardar em silêncio que esta estivesse disposta a voltar para casa. Mas já era muito tarde, e ela teria que explicar algo que realmente não queria. A jovem inclinou a cabeça contra a parede e olhou para o caminho escuro da cidade à sua frente. Aquele homem... o que tinha feito? Como fora capaz de alterar seu comportamento, fazendo-a esquecer de toda a decência? Ela suspirou. Precisava colocar um fim naquele episódio e esquecer seu instigador. Não era como se fosse vê-lo novamente, depois de tudo.


Capítulo Cinco — Ainda assim, você poderia ter me avisado. — Estou ciente que cometi uma enorme grosseria, mas eu realmente me senti mal e achei melhor voltar o mais rápido possível — respondeu Henry. — Eu estava com medo de não encontrá-lo no meio desta multidão. Na realidade, ele estivera especialmente ansioso para voltar para casa. Após o desaparecimento da jovem misteriosa, tinha levado vários minutos para se acalmar e convencer seu corpo, cujos sentidos estavam em crise, de que as coisas tinham que ficar como estavam, que nada aconteceria. Na verdade, ele também tinha dado um tempo para que sua acompanhante fosse embora. Nada teria sido mais constrangedor do que cruzar com ela no corredor. — Devo admitir que não está com uma cara muito boa... Lembrou de chamar um médico para realizar um sangramento? Isto iria revigorá-lo, tenho certeza. Henry fez uma careta. Sangramento? Que prática mais bárbara! Os franceses eram conhecidos por serem pessoas evoluídas, mas sua medicina estava, pelo menos, fora de moda. No entanto, ele continuou com a farsa. — Exatamente, eu provavelmente deveria ir para casa e descansar. — Bobagem — interrompeu seu amigo. — De acordo com o seu porteiro, você não saía há dois dias. Vamos lá, um pouco de ar vai te fazer bem. Além disso, já anunciei sua visita à minha mãe, e ela já está lá de pé, impaciente com a ideia de receber um americano em sua sala de estar. Principalmente um americano que conhece pessoalmente o Sr. Franklin... Até mesmo a Madame Necker pode se vangloriar de tal feito no presente. O norte-americano em questão fez uma careta. — A partir desta perspectiva, parece que sou uma aberração. Sua mãe e seus amigos sabem que sei ficar de pé e falar? Louis riu.


— Sinto muito, eu me expressei mal. Minha mãe é uma pessoa instruída e poliglota, a ponto de ensinar os idiomas para seus três filhos. Ela está sinceramente feliz porque irá vê-lo e ouvir suas histórias do Novo Mundo. — Tenho medo de desapontá-la. Não tenho nada muito emocionante para contar. — Vamos lá, não seja um desmancha prazeres! Você ainda pode desfrutar a vista de nossa cidade tão exótica e decadente... Além disso — ele abriu um sorriso —, ainda estou esperando ouvir suas impressões sobre o baile. Henry sentiu a garganta apertar. O que ele poderia dizer? Que o abuso de vinho e mulheres bonitas tinham virado sua cabeça? Que, apesar de seus esforços, ele não conseguiria esquecer a sensação daquele corpo macio e quente contra o dele? — Você parece triste... Está tudo bem? — Sim, claro. Desculpe-me, foi uma lembrança ruim. — Espero que não seja desta noite. Vamos, fale-me um pouco sobre o que estava pensando. Sentindo que deveria mudar de assunto para não ter que satisfazer a curiosidade do jovem, Henry resolveu acabar com aquilo. — Foi uma festa agradável, mas um pouco prejudicada, na minha opinião, pelas multidões e o calor. — Claro, nós vamos para lá para nos divertir com pouco custo. Mas esta, então, é sua única opinião? Você não esbarrou em nenhuma linda senhora mais amável? O norte-americano corou e desviou o olhar, fingindo ser absorvido pela beleza da rua. Claro, ele tinha encontrado uma moça, mas de modo algum ele iria compartilhar com alguém aquele episódio. Apesar de toda a confiança que tinha em seu amigo, não sabia qual seria sua reação ao saber que tinha sido interrompido no meio de um momento... romântico. — Sim, de fato — respondeu com um sorriso pálido. — Mas não tive a oportunidade de distinguir uma em particular. — Realmente, você é muito austero. Estou feliz em saber que vai ficar aqui por alguns


meses, isso vai ajudá-lo a absorver nossos costumes. Que droga! Ele, felizmente, não precisou responder porque sua carruagem estava entrando no pátio da mansão Arsac. A família tinha se mudado para a periferia de Vaugirard, onde ainda havia terras disponíveis para construir casas senhoriais. A família de Arsac era oriunda daquela área, e aquele era um edifício clássico, em perfeita simetria, cuja fachada fora perfurada por grandes janelas em intervalos regulares, que alcançavam os degraus da frente. À esquerda, via-se uma piscina, seca, por causa do inverno, além de uma área comum, destinada à domesticidade, à direita, ao lado dos estábulos. Embora impossível vê-los de onde estava, Henry também assumiu que os jardins estavam localizados do outro lado da mansão. Os dois jovens se levantaram e foram imediatamente encaminhados à sala de estar. A senhora Arsac os recebeu à quinta-feira, oferecendo um jantar e os entretendo até o início da noite, quando tinham outros compromissos. O ambiente, com paredes pintadas em cores claras e adornados por algumas mesas, recebeu cerca de uma dúzia de pessoas, mas era espaçoso o suficiente para que todos pudessem se mover facilmente. Henry identificou sua anfitriã, uma mulher de meia-idade, rosto elegante e amável, em uma profunda conversa com um padre gorducho, que estava jogado no sofá. Em conformidade com o estranho estilo parisiense ao se chegar em algum lugar, ele seguiu Louis, sem saudar a Sra. Arsac. Foram, então, para o fundo da sala. Ao lado das altas janelas com vista para o jardim francês, uma jovem tocava piano, enquanto outra se ocupava de uma harpa. Louis curvou em direção à última com um aceno de cabeça, e ela respondeu com um sorriso gracioso, e, em seguida, ele caminhou com um ar apressado em direção à outra musicista. Um pouco desconfortável por causa desta aparente negligência, Henry fez uma pausa para cumprimentar corretamente a jovem ignorada. — Senhor, acho que vocês, estrangeiros, não estão familiarizados com o show. Eu espero que acabe se acostumando. — Obrigado pela hospitalidade, Sra...? — Du Plessis — ela respondeu com um sorriso franco. Ela era linda, com seu cabelo encaracolado loiro, sua pele de porcelana e grandes olhos


azuis. Parecia um daqueles quadros da moda. Quando seus olhos se encontraram, ele pensou detectar uma faísca de interesse, fugaz, mas real. Sentiu-se lisonjeado, mas também um tipo de constrangimento; não estava acostumado a isso, de atrair a atenção do sexo oposto. Os franceses eram, decididamente, uns sem vergonha. Ele curvou-se e procurou uma maneira de se afastar quando Louis exclamou. — Ah, madame Du Plessis, vejo que já conheceu meu caro amigo, o Sr. Wolton. Venha, Henry, deixe-me apresentá-lo... O último obedeceu e voltou-se para o piano. A musicista levantou-se e o encarou. Ele olhou para ela, e seus olhos recaíram sobre o decote de seu vestido. Foi um pesadelo. Elizabeth estava focada na melodia difícil que tocava. Pelo menos, durante este tempo, ela tinha a mente ocupada ao invés de pensar no que aconteceu no baile. Bem, quase... Ela viu Félicité, que foi visitá-la na manhã seguinte, bem antes do meio-dia. Estava tão irritada, que Elisabeth supôs que sua amiga a mataria antes de voltar para casa. — Você me deixou apavorada! — ela exclamou assim que chegou em seu quarto. — Desapareceu sem deixar qualquer aviso! — Mandei uma mensagem — Elisabeth afirmou em sua defesa, mas sem sucesso. Cada uma das suas explicações foi rejeitada, e ela teve de suportar um sermão interminável. Sozinha em uma carruagem de aluguel à noite! E, durante o carnaval, que é uma época do ano onde todos se permitem tudo! Ela teve a sorte de chegar em casa inteira, e ainda mais por não ter sido traída pelos criados. Sob ameaças, Elisabeth tinha finalmente admitido que conhecia uma maneira de entrar na casa pela porta dos fundos, através do portão do jardim e, em seguida, passar pela cozinha. A velha cozinheira era um pouco surda e não a ouviu. Ao saber disso, Félicité começou a sustentar uma expressão sombria, antes de dizer: — Tenho certeza que houve alguma outra coisa para você ir embora daquele jeito, algo além de um mero desconforto. Acho que está muito bem recuperada, não parece nem um pouco doente. No entanto... sinto que não dormiu.


Derrotada, e muito disposta a partilhar sua experiência com a amiga, Elisabeth começou a confessar: a dança, a bebida, os jogos de azar... o beijo. Certo, não foi um, nem dois, nem três. No entanto, não entrou em detalhes sobre os eventos, pois percebeu-se muito constrangida. Que vergonha... além de outros sentimentos que não poderia ter definido. A jovem tocou uma nota errada e sorriu. Assim que evocou a memória daquela noite, sentiu que não conseguiria fazer mais nada. Mesmo assim, suspirou e continuou sua melodia como se nada tivesse acontecido. Um pouco mais adiante, Félicité sentou-se à sua harpa. As duas amigas eram boas musicistas e sempre eram chamadas quando a ocasião não era suficientemente formal para requerer os serviços de um músico profissional. Pelo canto do olho, ela notou um movimento na porta, e seu humor suavizou. Seu irmão Louis tinha acabado de chegar com um homem de cabelos escuros, em quem ela não prestara atenção. Elisabeth amava seu irmão, de quem era mais jovem três anos. Este, apesar de ainda morar na casa, passou muito pouco tempo lá, especialmente nos últimos três meses. Ela suspeitava que ele estava apaixonado por uma nova amante, uma vez que dormia fora com frequência ou retornava muito tarde. Alto, de olhos azuis, ele costumava arrastar corações atrás dele e cortejava muitas senhoras de forma discreta. Quando ele se aproximou, ela parou de tocar, levantou-se e estendeu as duas mãos, sorrindo. Ele as pegou e beijou-as antes de começarem a conversar. — Minha querida irmã, como é bom vê-la! Como está? — Estou bem, obrigada. Mas você, por onde anda? Está difícil encontrá-lo por aí. — Está exagerando. Nunca me atrevo a ficar muito tempo longe, e posso garantir que minha última visita foi em... uma semana, no máximo. — Está vendo? Sei que somente mamãe tem direito ao seu respeito, mas estou sempre a te esperar. Ela pontuou sua frase com um sorriso brincalhão, que contradizia seus protestos. Louis fingiu olhar para o céu, mas também estava visivelmente divertido. — Elisabeth, devo admitir que tenho negligenciado você, mas é por uma boa causa. Tenho mostrado a cidade e nossos costumes para um amigo estrangeiro.


Ele se virou para Félicité, que trocava algumas palavras com o desconhecido, e chamou os dois, convidando-os a se juntar a eles. O homem virou-se para eles, e Elisabeth engasgou. Imediatamente ela achou ter reconhecido os olhos cinzentos do misterioso cavalheiro... No entanto, era óbvio que tal coisa era impossível. Quando viu que os olhos dele recaíram sobre o decote de seu vestido, ela tentou olhar para sua mão esquerda. Sobre a palma, distinguiu a linha vermelha de uma cicatriz. Indiferente ao que acontecia, Louis insistiu que o recém-chegado se aproximasse. — Elisabeth, apresento-lhe o Sr. Henry Wolton, um cidadão dos EUA. Sr. Wolton, esta é minha irmã, Elisabeth d’Arsac. O último inclinou-se e murmurou algo que soou como “encantado”. A jovem pensou que iria desmaiar. Sentindo suas pernas tremerem, ela apressou-se a se apoiar no piano. Visivelmente satisfeito, Louis estava prestes a continuar a conversa, quando sua mãe o chamou. Ele se afastou, levando Félicité com ele. Tentando manter o mesmo semblante, a jovem começou a tocar, esperando que o visitante não a tivesse reconhecido ou que fosse demasiadamente educado para não falar com ela. Mas não foi o caso. — É um belo colar o que tem aí — ele sussurrou. A cacofonia de notas ácidas soou, fazendo com que todo mundo olhasse para ela. Elisabeth corou, pediu desculpas e retomou à melodia. — Obrigada — disse ela com toda a dignidade que se mostrou capa. — É uma joia que pertenceu à minha avó. Que diabos está fazendo aqui? — acrescentou suavemente. — Foi seu irmão quem me convidou — ele respondeu no mesmo tom. Então, em voz alta, ele propôs. — Podemos, por favor, falar inglês? Precisamos conversar, e seu irmão me garantiu que você domina minha língua perfeitamente. Um traidor!, pensou, antes de mudar de ideia. Não havia como seu irmão saber sobre o que tinha acontecido... O Sr. Wolton, por outro lado, sabia de tudo. O que fazer? Recusar, arriscando-se a demonstrar uma rudeza bruta, ou aceitar e


passar os próximos minutos com aquele homem? Em outra casa, Elisabeth provavelmente se oporia àquela reunião, mas ali era impossível. — Muito bem — ela finalmente disse. — Sente-se e me diga suas razões para estar em Paris. Ele pegou um banquinho dobrável que estava atrás dela, encostado à parede, e sentouse. Preferiu manter uma distância respeitosa, mas mesmo assim ela sentia que ele estava muito perto; podia sentir o calor que irradiava de seu corpo, e um arrepio a percorreu. Ela respirou fundo para se acalmar, antes de perceber o erro, o aroma do perfume dele fez cócegas em suas narinas e fazia com que se lembrasse da intimidade perturbadora que tinham compartilhado. Com um pouco de coragem, ela advertiu: — Diga-me, senhor... Wolton, não é mesmo? Está gostando do nosso país? Ela falara em inglês, uma maneira de esconder a sua vergonha e sua hesitação. — Devo admitir que, apesar do frio e da neve, que não têm me permitido ver o seu melhor, estou espantado por descobrir a todo momento uma coisa nova para admirar — ele respondeu na mesma língua. — Que bom... E que monumentos têm despertado o seu interesse? Já teve a oportunidade de visitar nossos jardins? — Infelizmente não, para meu grande pesar... vou ter que pedir ao seu irmão para me levar um dia desses. — É um grande privilégio oferecido ao nosso povo, para compensar por suas atividades diárias. Elisabeth relaxou. Evocar os costumes franceses com visitantes era sempre emocionante para ela, o que a fez esquecer gradualmente de sua rigidez polida. — E o que diz de Paris? A cidade coincide com as descrições que deram ao senhor? Ela se inclinou para virar a página da partitura e, ao fazer isso, roçou em seu ombro. Precisou recorrer a todo o controle que possuía para não perder o ritmo. Imediatamente recordouse de seu último encontro, e seu corpo, que já parecia estar curado, afirmou que o contato ainda


lhe provocava sensações. — Admito que fiquei deslumbrado. As histórias que se lê ou ouve não são tão divertidas quanto o que se pode encontrar aqui. Especialmente o Baile da Ópera, onde fui anteontem, pela primeira vez, embora tenha precisado deixá-lo prematuramente... Outra nota errada. Elisabeth mordeu o lábio, sentindo que corava ainda mais. Que diabo de homem! Como tinha coragem de ter o descaramento de lembrá-la de seu comportamento escandaloso? Queria pedir que ficasse quieto, mas ele parecia estar sentindo grande prazer naquilo. — E você, Srta. Arsac? Conhece o Baile? Acho que sim; se Paris é digna de sua fama, já deve ter comparecido muitas vezes. — Onde quer chegar? — ela respondeu suavemente, mesmo com raiva, antes de prosseguir de forma um pouco mais severa — Sim, senhor. Minha amiga, a Sra. du Plessis me acompanhou na noite de anteontem. Foi uma pena não termos nos encontrado com meu irmão; tenho certeza que ele teria tido o prazer de nos apresentar mais cedo. Ela o viu franzir o cenho e ficou satisfeita. Pelo menos não parecia se orgulhar do que aconteceu. Contudo, perguntava-se se ele teria coragem de confessar tudo a Louis. Se sim, ela estaria em apuros... O Sr. Wolton virou mais uma página da partitura, e ela lhe lançou um olhar furtivo. Surpreendentemente, ele lhe parecia mais misterioso em plena luz do dia do que no baile. No dia anterior, ela havia se derretido nos braços de um homem, que imaginava ter uma posição no exterior que lhe permitia visitar Paris para aprender os segredos da cidade. Agora, era um visitante taciturno, de quem ela era incapaz de prever as reações. Depois te notar a atenção que ela lhe deu, ele retomou o diálogo, sussurrando: — Não o encontrou depois de brincar comigo? Ou será que encontrou outro parceiro? — Pensei que tinha me dado sua palavra de que iria esquecer esse incidente — ela respirou fundo, antes de continuar, em um tom de voz um pouco mais alto — E quanto tempo pretende ficar na França? — O Sr. Arsac ficaria feliz em me mostrar mais da cidade por semanas, mas pretendo


voltar em breve — ele baixou o tom de voz. — Prometi não comentar com ninguém... mas esquecer é impossível. Elisabeth sentiu seu sangue inflamar. Inclinou-se imperceptivelmente para sussurrar. — Na verdade, parei para pensar sobre aqueles deliciosos momentos passados com a senhorita. — O senhor precisa visitar os jardins de Versailles e assistir a uma performance no teatro francês. Espero que Louis o leve lá — ela ergueu o tom de voz, esperando que o irmão se aproximasse e participasse da conversa. Infelizmente, ele parecia absorvido pelo Sr. Courville, um amigo de longa data de sua mãe. Uma vez que este senhor tinha uma reputação de sempre falar sobre religião e orações, Eisabeth suspeitava que seu irmão estava apenas fazendo sala. Mas com certeza a estava abandonando quando mais precisava. As palavras do Sr. Wolton ecoavam em sua cabeça, enquanto ela ainda sentia a respiração dele, quente, acariciando seu pescoço quando ele se aproximou dela no momento em que mencionou seu encontro... mas Elisabeth interrompeu o curso de seus pensamentos imediatamente. Afinal, ela poderia saber. Que garantias tinha de que ele não iria tentar chantageá-la, ameaçando sua reputação? Ela estremeceu, pensando que só podia culpar a si mesma e sua má conduta. No entanto, Elisabeth tinha ouvido falar de mulheres do mundo, forçadas a pagar somas astronômicas para que seu nome não fosse contaminado. De repente, a jovem sentiu seu humor obscurecer. Por que estava tão obcecada por aquele homem, por suas palavras e sua atitude? Em pensar que tinha perdido suas boas maneiras naquela noite, mas não podia perder sua mente... Isso estava fora de questão; não podia deixarse apaixonar, pois se isso acontecesse, não seria mais capaz de usar sua cabeça. — Você não respondeu ao meu comentário, bela senhorita — sussurrou a voz atrás dela. Felizmente ela não precisou dizer nada, pois um criado entrou para anunciar o jantar.


Capítulo Seis Henry observou a Srta. D’Arsac levantar-se, abandonar o piano e caminhar para a sala de jantar com outras senhoras. Ali, o costume era que as mulheres tomassem a dianteira e depois serem acompanhadas por pessoas do sexo masculino. Ele ainda estava se recuperando do choque causado pelo encontro, naquele salão elegante e refinado, com a mesma desconhecida que tinha inflamado seus sentidos e sua imaginação dois dias antes. No entanto, não poderia determinar qual o sentimento que tinha prevalecido naquela incrível história... Claro que a surpresa inicial fez com que ele sentisse um pouco de raiva. Tinha a impressão de que aquela jovem nobre se divertia à sua custa. E o que poderia fazer, ele, um estrangeiro insignificante? No entanto, durante a conversa, pudera sentir um pouco da espontaneidade da moça que conhecera durante o baile e com quem tinha compartilhado momentos. Pensando em como ela tinha contra-atacado durante sua investida galante, Henry sorriu. Ela possuía um temperamento apaixonado, o que lhe dava certa vantagem, mas também se irritava com facilidade, desde que se soubesse como alfinetá-la da forma certa. Aqueles longos minutos passados ao lado de Elisabeth pareciam cada vez mais difíceis: estava perto dela, mas a decência e o que restava de sua honra o proibiam de esboçar qualquer gesto em sua direção. Ela estava muito menos sedutora ali do que no baile: o seu vestido de cetim cor de ferrugem tinha mangas compridas, e sobre os ombros ela usava um xale de lã fina que os cobria e também o pescoço. Ainda assim, vendo a pele de sua nuca, desnuda por causa de um coque alto, ele precisou resistir à tentação de acariciá-la; queria, mais uma vez, sentir o calor em seus dedos. Quando a tocou acidentalmente, enquanto ela tocava o piano, seu corpo reagiu com violência. Henry tentou manter um tom de voz lúcido, conversando como se nada tivesse acontecido, mas seu desejo era diferente, queria beijá-la até deixá-la sem fôlego. Mais uma vez, o jovem dolorosamente sentiu o contraste entre a seriedade que deveria sentir e a leveza que sentia na presença daquela bela moça. Ele ficou consternado ao descobrir que a conversa que tivera com ele, que ele considerara como um galanteio francês, tinha chegado a ser de suma importância


para ele. Seus pensamentos foram interrompidos por um homem que barrou sua passagem. Era alguns anos mais velho do que Henry, com mais ou menos trinta anos. Suntuosamente vestido, usava uma peruca alta, um pouco menor do que a dele e muito mais fina. Em sua opinião de americano, o estranho encarnava a própria imagem de Paris que era descrita nos travelogues e placas de moda. — Uma palavra, senhor, se me permite. Pego de surpresa, Henry preferiu não responder, esperando para ver o que o outro queria. Seu interlocutor interpretou seu silêncio como aquiescência e continuou em voz baixa. — Então, qual é a sua relação com a Srta. Arsac? Henry olhou para ele fixamente. — Peço perdão, senhor, mas não estou compreendendo. — A Srta. Elisabeth d’Arsac — ele repetiu sílaba por sílaba, como se estivesse falando com um idiota. — A jovem que estava ao seu lado e com quem você parecia... travar uma conversa profunda. De onde a conhece? Do Baile da Ópera, onde tive o prazer de desfrutar de sua companhia, ele gostaria de retrucar. Mas, é claro, era impensável proferir tal coisa. — Estou muito satisfeito por poder contar com o Sr. Louis d’Arsac como um amigo, e ele me apresentou sua irmã mais cedo. A minha presença ao seu lado foi resultado de um acidente feliz. Henry conseguira manter um tom neutro, polido e vagamente irritado. O homem apertou os olhos, como se estivesse procurando um significado oculto em suas palavras, mas parecia levemente satisfeito. Impulsionado por uma sensação que não atrevia mencionar, o americano perguntou: — Posso saber a razão para esta conversa, senhor? Quais são suas intenções com a Srta. d’Arsac? O outro olhou para ele com uma expressão de ira.


— Acho que é óbvio que a estou cortejando e que pretendo pedir sua mão. Mesmo que o senhor não tenha nenhum título, que lhe permita tencionar casar-se com ela, decidi alertá-lo sobre isso. Com isso, o sujeito irritante fez um meneio de cabeça com desprezo e afastou-se para juntar-se ao objeto de suas atenções. Mais ferido do que pretendia, Henry cerrou os punhos e respirou fundo para se acalmar, porque não era o local e nem o momento corretos para se fazer uma cena. Louis se juntou a ele e colocou uma mão conciliadora sobre seu ombro. — Henry, peço desculpas pelo comportamento deste homem. Não sei o que queria com você, mas posso imaginar que foi rude. — Então, qual é o nome dele? — Henry se preocupou em não deixar transparecer sua raiva. — Sr. de La Ferté — Louis respondeu com um suspiro. — Há dois anos ele insiste com Elisabeth, sem sucesso até agora. Nem sempre é amigável, mas é um cavalheiro, que tem acesso direto ao rei, então, nos custaria muito se ficasse irritado conosco. Estranhamente, saber que a Srta. d’Arsac não se encantava por títulos se mostrou uma forma muito mais eficaz de acalmá-lo do que as palavras de Louis. No entanto, lamentava por saber que aquela família precisava do apoio daquele homem desagradável. Preferiu, então, não se debruçar sobre estas descobertas e entrou na sala de jantar. Teria gostado de sentar-se ao lado do amigo, mas, para sua surpresa, descobriu que a anfitriã reservou-lhe o lugar de honra à sua direita. Elisabeth, por sua vez, foi delegada à extremidade oposta da mesa, provavelmente porque era a única solteira. Um pouco desconcertado, o americano foi induzido ao silêncio. No entanto, enquanto isso, desviou o olhar na direção de Elisabeth, tempo suficiente para vê-la sorrir com um ar distante para o Sr. de La Ferté, que em voz alta lamentava estar sentado tão longe dela. Ao invés daquele nobre insuportável, deveria ser ele a se juntar à Srta. d’Arsac, pensou. A refeição foi deliciosa, embora de curta duração. A moda pedia que as refeições acontecessem de tarde, às duas e meia da tarde, de modo que não poderiam ser alongadas para não invadir o resto do dia. Henry descobriu, naquela ocasião, o famoso “espírito da conversa


francesa”, com piadas elegantes e bem-humoradas, que cada anfitrião tinha de manter. O Sr. d ´Arsac, efetivamente assistido por sua filha, mostrou-se atento e capaz de destacar cada palavra. Houve muita conversa sobre a corte, mas também o fizeram discursar sobre a América e os costumes de seu país. Cada vez que falava, Henry tentava abordar a discussão de uma perspectiva geral e não pessoal. No entanto, a devota Sra. de Courville finalmente se dirigiu a ele. — Senhor, é conhecido que as colônias inglesas não são muito bem informadas. Posso ter a audácia de perguntar onde aprendeu a falar nossa língua tão bem? Henry fez uma careta ao ouvir a expressão “colônias francesas”, mas não contestou, sabendo que a maioria da população do Velho Mundo ainda não tinha assimilado a independência dos Estados Unidos da América. — Obrigado pelo elogio — ele respondeu com um sorriso. — Acho que a senhora vai se surpreender com isso, mas nosso país atrai muitos de seus filósofos. Filadélfia, minha cidade natal, é lar de uma universidade fundada pelo próprio Benjamin Franklin, onde tive a honra de estudar. Quanto ao meu conhecimento sobre a língua francesa, foi necessário para lidar com os comerciantes... Então, meu pai fez questão de que eu frequentasse uma escola secundária em seu idioma, graças a um homem de Deus. — O senhor está se referindo a um desses Hugenotes [1]que desafiam a autoridade de Sua Santidade, o Papa, e os fundamentos de nossa Igreja Católica Romana? — perguntou o Sr. de La Ferté em um tom escandalizado. Henry viu que a Sra. d’Arsac estava prestes a mudar de assunto, mas nem teve tempo, Elisabeth entrou na briga. — A maioria dos Huguenotes franceses agora reside nas Províncias Unidas, ao que me parece. Se estão localizados em outros lugares, já não são súditos de Sua Majestade. O norte-americano teve a oportunidade de se defender. — Na verdade, senhorita, tive a oportunidade de conhecer pessoas na América, na maioria franceses, definidas de acordo com as leis e costumes, ou seja, católicos. Neste caso, o meu professor foi um sacerdote que acompanhou a tripulação de um navio que ficou ancorado quase à nossa porta durante um inverno inteiro.


A observação do Sr. de La Ferté criou um desconforto, que foi felizmente rapidamente dissipado pela presença de espírito da Srta. d’Arsac. Então, obviamente disposto a defendê-la, enviou um olhar de encorajamento para o abade à sua direita, que continuou sobre o mesmo tema. — O senhor me intriga. Então, o senhor está dizendo que aprendeu nossa língua tão bem em poucos meses, durante uma estação? Seu professor deve ser excepcional! — Foi, de fato — Henry respondeu, lembrando com carinho dos religiosos que tinham decidido torná-lo um “homem honesto”. — Durante esse curto período, dirigiu-se a mim apenas em francês, e o mesmo fizeram os membros da tripulação. Quando não podia mais me ajudar, me deu muitos livros para ler, me incitando a resumi-los e comentar sobre eles. Eu mal tinha dezesseis anos de idade na época e, embora tivesse preferido visitar o porto e os armazéns ao invés de passar meu tempo estudando, confesso que me diverti muito descobrindo tantas coisas novas... — Você se referiu à Universidade da Filadélfia — disse Louis. — O que ensinam? — Os mesmos assuntos das Universidades da Europa, eu acho: leis, história, matemática, ciências... — E quais lições já recebeu? Henry procurou uma maneira de se esquivar. Eram assuntos de natureza secreta, e ele conhecia a predileção dos parisienses por espalhar fofocas. No entanto, sentiu o desejo de provar a todas aquelas pessoas paternalistas que suas origens plebeias não o tornavam inferior. Então, ele decidiu, um pouco contra sua vontade, revelar parte da verdade. — Eu estudei direito, a disciplina necessária para assumir os negócios da minha família. Ele esperava que aquela breve resposta fosse suficiente para sanar a curiosidade de todos. Mas foi a Srta. d’Arsac que preparou a armadilha... que acabou caindo sobre ela mesma. — E o que acontece com as mulheres? — ela perguntou. — Sua irmã também recebeu uma boa educação? Elisabeth cerrou os dentes. Logo percebeu seu erro quando terminou a própria pergunta, mas não poderia voltar atrás, por mais que fosse estranho. Que tola fora! O Sr. Wolton mencionara uma irmã... mas certamente o fizera no baile, durante sua “brincadeira”. Como poderia justificar um conhecimento tão íntimo a respeito de seu convidado e sua família?


Henry olhou para ela, segurando o ar por um segundo, antes de recuperá-lo e sorrir. Oh, senhor, aquele sorriso... era capaz de fazê-la perder a cabeça! Ele estava prestes a intervir quando Louis falou. — Então você tem uma irmã, Henry? Este é um detalhe que eu não conhecia — ele virou-se para Elisabeth, lançando-lhe um olhar desconfiado. Esta se mostrava corajosa, porém, bem dentro de si, sentia-se apavorada com a ideia de que o irmão descobrisse onde tinha aprendido aquele “detalhe”. No entanto, o Sr. Wolton salvou sua reputação. — Reconheço que falo muito pouco da minha família. Mas quando eu e a Srta. d’Arsac tivemos a oportunidade de conversar algumas horas atrás, eu me permiti cumprimentá-la por seu vestido e dizer que parecia saído de uma dessas placas de moda que minha irmã coleciona. Espero que minha observação, que tinha a intenção de ser galante, não a tenha incomodado. Elisabeth sentiu seus músculos relaxarem de repente, porém, nem sequer percebera que estiveram tensos. Os presentes pareciam satisfeitos com esta explicação, e Félicité sustentava uma expressão divertida. O Sr. de la Ferté, por sua vez, parecia ter engolido uma colher inteira de vinagre, mas ela sequer prestou atenção nisso. — Voltando à sua pergunta... este é um assunto muito sério para uma pessoa tão jovem. Ela se esqueceu do reconhecimento instantâneo que sentiu por ele. Tinha vagamente pensado que aquele homem seria capaz de entender, devido a seu trabalho e esforços, mas era como todos os outros, em última instância. Estava prestes a responder, quando a mãe pigarreou e se antecipou. — Minha filha tem ideias muito inovadoras a respeito da educação das senhoras. — Não apenas das senhoras, mãe, mas de todas as mulheres! — exclamou Elisabeth, incapaz de se conter. Ao redor da mesa fez-se silêncio. O Sr. Wolton parecia interessado, mas os outros convidados mostraram uma desaprovação e um constrangimento. A educação das senhoras bem nascidas era algo um pouco controverso, mas a das mulheres em geral era muito mais polêmico. Muitos acreditavam ser impróprio dar instrução a pessoas comuns, e isso era especialmente


problemático para as mulheres, que deveriam ser submissas aos seus pais e maridos. Elisabeth começou a mexer no guardanapo em seu colo nervosamente. Ela sabia que não podia se deixar levar, mas aquilo estava guardado em seu coração há muito tempo. Para o desgosto de seus pais — especialmente de sua mãe — que desaprovava o que todos consideravam uma moda passageira. Louis, que mantinha o nariz no prato, parecia compreendê-la, e Félicité lhe dirigiu um pequeno sorriso envergonhado em apoio, mas sem tomar partido. — Ah, é mesmo? — perguntou o americano, visivelmente intrigado. — E quais são as suas ideias? A jovem hesitou um pouco. Normalmente, ela não abordava esse assunto tão abertamente, diante de tantas pessoas, e temia receber um sermão da mãe, não apenas por monopolizar a conversa, mas por mencionar um tema indesejável. — Vamos apenas dizer que acredito que uma mulher não é mais tola do que um homem, e, portanto, pode aprender as mesmas coisas. Elas são muito mais do que o que dizem as teorias ridículas de que só pensam em amor. — Teorias ridículas? O Sr. Wolton parecia surpreso e divertido. Elisabeth suprimiu um suspiro; não esperava que entendessem seus pensamentos. Pelo canto do olho, viu a mãe gesticular para os criados, para que eles limpassem as mesas, e, assim, os convidados seriam obrigados a ir ao lounge. Ela seria repreendida naquela noite. Para mitigar os efeitos de sua participação na conversa e animar um pouco a reunião, Elisabeth sorriu e levantou-se depois de sua mãe, dirigindo-se aos outros convidados. No entanto, ela não pôde deixar de responder. — Eu ficaria feliz em discutir com o senhor, Sr. Wolton, mas parece que o momento é errado. Estou em desvantagem. Ela caminhou lentamente até a porta, deixando os outros de fora. Queria ficar sozinha por um momento antes de assumir novamente seu papel de jovem nobre. Claro que não tinha o direito de reclamar, mas, às vezes, em momentos como aquele, a situação pesava sobre ela. Acordes de harpa começaram a soar na outra sala, e ruídos de conversa surgiram. No


entanto, Elisabeth mal conseguiu provar da calma que procurava. — Minha filha, será que você não consegue aceitar meu conselho? Não faz nem dois dias que sugeri que fosse mais discreta, mas mesmo assim você continua falando ao seu bel prazer! A condessa usava um tom de voz baixo e sua raiva era palpável. — Mãe, se me permite, eu tentei encurtar a discussão... — Você não tinha nem que entrar nela, simples assim. Já pensou que um debate como esse na presença de nossos convidados possa ser um obstáculo para seu casamento? Elisabeth ficou em silêncio. No fundo, ela sabia que a mãe estava certa... Suas opiniões proclamadas em voz alta faziam com que corresse o risco de que nenhum homem quisesse pedi-la em casamento. Mas o que poderia fazer? Concordar em sentar-se e sorrir obedientemente, esperando por um pretendente menos limitado? Sua mãe prosseguiu com o monólogo. — Vou deixá-la agora porque não posso negligenciar nossos convidados. Quando retornar, exijo que seja gentil e charmosa para que possa limpar essa desastrosa imagem que acabou de traçar para si mesma. Posso, pelo menos, esperar que irá cumprir com minha vontade? A jovem assentiu em silêncio. Sentia-se perdida... oscilava entre o desespero de ser mal interpretada e a raiva que sua mãe tinha provocado. Uma onda de tristeza tomou conta de seu coração. Será que havia algo de errado consigo?, perguntava a si mesma. Por que não podia se contentar com o que possuía? Por que se mantinha em tais quimeras? No entanto, percebia que suas ideias se afastavam de sua mente em comitiva. Ela ouviu a porta se abrir novamente, mas nem se importou. De repente cansada, sentiu a necessidade de sentar-se e dirigiu-se a um dos assentos. Pelo canto do olho, vislumbrou um movimento e se virou. Sr. Wolton, encostado à porta, a observava em silêncio. Arrancada de seu devaneio, ela gritou antes de se recuperar. — O que está fazendo, senhor? Sua voz era dura, mas não podia se controlar. Não gostava de ser pega de surpresa muito menos se ver em uma posição de fraqueza em relação àquele homem.


— Por favor, me perdoe, mas acho que esqueci meu chapéu. Além disso, a senhorita deixou a mesa muito rapidamente. Elisabeth sentiu o sangue se acumular em suas bochechas. O jovem se aproximou da mesa para pegar o objeto ao qual se referiu antes de voltar-se para ela novamente. — Devo admitir que estou muito ansioso para continuar nossa conversa — ele finalmente disse. — Suas observações despertaram minha curiosidade, e eu gostaria de saber um pouco mais sobre o que pensa em relação a educação de mulheres. Sob o choque da surpresa, recuou ligeiramente e, em seguida, estreitou os olhos desconfiada. — No entanto, pareceu-me que não era um assunto digno de debate — ela respondeu com cautela. Ele tinha uma risada franca. Era perturbadora também, porque tal atitude, que parecia ter sido banida da sociedade educada, era, em contrapartida, estranhamente reconfortante. Em um segundo, Henry pareceu-lhe mais jovem, mais despreocupado. Mais próximo. — Perdoe meu comportamento, mas sei que suas ideias não são muito convencionais. Sei que têm o seu encanto, mas as pessoas tendem a sufocar sua originalidade. Mas não serei eu a julgá-las. Acredito que seja necessário ouvir todas as ideias, sejam quais forem, e aproveitar o que é interessante. Surpresa, Elisabeth mordeu os lábios, sem saber o que dizer. Estava ansiosa para explicar suas teorias, é claro, mas para ele? De repente percebeu que estava boquiaberta e que sua expressão denunciava tudo que sentia. Ela rapidamente desviou o olhar e começou. — É, parece-me que cada mulher deveria ter, de acordo com suas origens, educação apropriada que lhe permita viver de forma independente. Muitas delas só têm direito a uma renda ao se casar! — ela jogou as palavras, escandalizada. — Mas o casamento é a base da sociedade, certo? — Eu concordo com o senhor, mas se as mulheres aprenderem a cuidar de si mesmas, poderiam fazer sua escolha com conhecimento de causa, não às pressas. Elas têm capacidade de agir segundo a razão e não apenas levadas pelo coração.


— O que a senhorita sugere neste caso? — Eu acho que todos devem aprender a ler e a escrever, a exercer uma função. Acima de tudo, penso que deveríamos poder casar com alguém de quem gostamos, não apenas para preservar nossa reputação ou garantir nossa existência. — Então a senhorita não acha que essa seria uma forma de agir com o coração ao invés da razão? — Sim, mas eles pensam que queremos isso porque alimentamos ideias sobre o amor! Imaginam que não somos capazes de viver sem ele, que estamos obcecadas e que perdemos nossos talentos por causa disso. — A senhorita fala em nome de todas as mulheres ou isso concerne à sua pessoa? Elisabeth sentiu-se subitamente exposta. O que ele sabia sobre ela, afinal de contas? Não bastava que tivesse modificado suas ideias a respeito de seus próprios desejos? Por que será que tinha que provocá-la? — Eu... odeio admitir que uma mente possa ser obscurecida por sentimentos. Não quero que eles vençam a minha razão. Não tenho pretensão de resistir ao amor, mas me parece que alguns precisam lutar contra sua inclinação para se preservarem. Acredito sinceramente que todas as mulheres devem ter o mesmo direito à educação que têm os homens. Devem poder ter acesso aos mesmos assuntos. — É uma proposta interessante, mas de onde viria o dinheiro? Quem iria financiar tal compromisso? A jovem abaixou a cabeça e olhou para o chão. Nunca tinha revelado suas ideias a ninguém, mas sentiu que precisava fazer, pelo menos para provar que suas teorias não eram egoístas. — Teria que se fundar uma escola... talvez com o apoio financeiro de Sua Majestade. O rei é muito aberto a novas ideias e à ciência... Poderíamos pedir às grandes damas da nobreza que arrecadassem dinheiro para uma instituição desse tipo. Pronto, ela tinha falado. Sentindo-se um pouco aliviada, mas cheia de apreensão, ela ergueu o queixo e manteve a cabeça erguida para esconder a angústia que se amarrava em suas


entranhas. Estava com muito medo que ele zombasse dela e que tratasse com desprezo sua ideias utópicas. No entanto, o Sr. Wolton examinou-a cuidadosamente; não parecia enojado nem prestes a zombar de seu discurso. Em contrapartida, aproximou-se dela e permitiu-se um gesto de grande intimidade: colocou a mão em seu rosto e passou o polegar por seu lábio inferior. — Senhorita d’Arsac, seus ideais são elevados e não tem que se envergonhar deles. No entanto — acrescentou, inclinando-se e sussurrando em seu ouvido —, primeiro deve aprender sobre o amor antes de falar dele em termos tão ruins. Ele estava prestes a se afastar, quando Elisabeth segurou-o e obrigou-o a encará-la. Ela queria, acima de tudo, esconder sua agitação, mas as palavras escaparam naturalmente. — E o senhor? O que sabe sobre o amor? Que essa é uma boa palavra para conquistar o coração de uma senhora sem muito esforço? Os lábios do jovem se contraíram em um meio sorriso, mas ela estava muito exasperada para perceber. A observação que ele fez tinha lançado uma inundação de emoções conflitantes dentro dela. Elisabeth estava ciente de que o Sr. Wolton não era imune ao seu charme, mas estava convencida de que queria apenas se divertir à sua custa. Como ele não respondeu, ela continuou. — Ficou silencioso de repente... E eu que pensei que o amor nos tornava falantes, que decepção! Ela fez beicinho, antes de retomar, com um ar falsamente ingênuo. — Ah, mas é verdade que o amor é uma questão para as mulheres. Elas obrigam os homens a se casarem e os privam de sua liberdade. Estas palavras, tingidas por uma ironia mordaz, não tinham nada de inocente. Ela deu um passo em direção a ele, em uma atitude desafiadora, e colocou-se muito perto, a apenas alguns centímetros de distância de seu peito largo. Movida por um impulso repentino, ficou na ponta dos pés e roçou o queixo masculino com seus lábios. — Estamos quites agora — disse Elisabeth, levando uma mão ao coração, em um gesto teatral. — Oh, Senhor, será que estou sucumbindo aos seus encantos?


Quando ela percebeu a expressão atordoada do jovem homem, pensou que o incidente valera a pena, mesmo com os protestos de sua mãe. Com o coração mais leve, ela explodiu em uma gargalhada, antes de se afastar e sair de perto do Sr. Wolton.


Capítulo Sete Após um período de calmaria, a neve começou a cair em abundância em Paris e em seus arredores. Na aldeia de Passy, perto da cidade, formou-se uma camada espessa, que tornaram as viagens árduas e incertas. Henry deixou a casa de Benjamin Franklin[2] em um péssimo humor. Ele finalmente conseguiu uma nova reunião com o embaixador do Congresso do EUA, mas não foi capaz de demonstrar suas ideias. A única coisa que conseguiu foi ser gentil, para que a sociedade e a encantadora opinião pública francesa simpatizassem com ele. Porém, teve a nítida impressão de que a boa sociedade tinha lhe aberto as portas, não por causa de seus talentos ou seus esforços, mas graças à sua amizade com Louis d’Arsac, que não o abandonou desde o primeiro dia. Para um homem profundamente comprometido com a justiça que era, parecia humilhante ser avaliado por suas relações e não por sua competência. Mas, acima de tudo, Henry era um homem de ação. Ele teria feito muito mais do que apenas viajar para trabalhar em segredo pelo bem de seu país. Em vez disso, foi reduzido a papéis meramente de apoio! Uma pequena voz dentro de sua cabeça sussurrou que talvez aquela não fosse a única causa de sua irritação; há dez dias ele estava tentando deixar de lado a memória da Srta. d’Arsac, e ir embora de Paris seria uma ordem bem-vinda. Se pudesse apenas ir a Nantes, verificar a situação de seu navio... Mas os embaixadores foram inflexíveis: sua presença era necessária naquele lugar, e não poderia deixá-lo tão cedo. Quanto a jovem em quem não parava de pensar... Henry suspirou. Ele se sentira tão estúpido quando ela o deixou na sala de jantar que podia jurar que ainda estava ressentido por sua atitude. Levado pela raiva, ele quase escorregou nos paralelepípedos congelados e praguejou. Poderia ter quebrado mais do que apenas uma perna! Sendo assim, diminuiu o ritmo e, finalmente, chegou ao portão principal, onde uma carruagem estava à sua espera. Assim que chegou em frente ao veículo, bateu na janela e fez sinal para o motorista. Ao invés de entrar, Henry preferiu esperar do lado de fora, enquanto iam verificar os cavalos. O frio estava menos acentuado, mas a neve ainda caía, e ele precisaria se apressar para chegar a Paris antes que as estradas ficassem piores.


Pôs-se a aquecer-se e aproveitou a oportunidade para observar os arredores. Passy era uma vila nos subúrbios, onde muitos parisienses se instalavam em busca de um pouco de paz e para se afastar do constante tumulto. Muitos outros enviavam seus filhos para lá, porque o ar era considerado mais saudável, livre do estigma de tantas mortes infantis. Batendo os pés, Henry levantou a gola do casaco para se proteger contra a rajada de vento amargo. Se a verificação demorasse muito mais, ele iria congelar ali. Apesar disso, não parecia ser o único na rua... Olhou para frente de repente, atraído por um movimento. A vinte metros de distância, uma figura encapuzada, certamente uma mulher, saiu de uma casa modesta. Havia algo de errado, que lhe chamou a atenção, esta pessoa usava uma boa capa forrada de peles e deixou aparecer um sapato de couro ornamentado. Apesar das cores escuras e do aspecto austero de suas roupas, elas traíam uma riqueza que entrava em confronto com a simplicidade óbvia da casa. Intrigado, o jovem deu alguns passos. A figura virou as costas antes de dar uma meiavolta, como se estivesse examinando os arredores. Quando ficou de frente para ele, pareceu não notá-lo, e ele mesmo não conseguiu ver o rosto escondido pela sombra do capuz. Estava prestes a se aproximar da desconhecida quando o ruído da carruagem o trouxe de volta à realidade. Henry pôs fim em sua curiosidade e se preparou para entrar no carro. Deu uma última olhada na silhueta quando uma tempestade de neve de repente arrancou o capuz de sua cabeça. E ele mal pôde acreditar em seus próprios olhos. Elisabeth d’Arsac estava naquela rua estreita, sozinha, aparentemente sem nenhum meio para ir para casa. Por um breve momento, ele se perguntou se a providência divina o estava colocando à prova, pois cada vez que tentava esquecer aquela adorável senhorita, ela reaparecia em seu caminho! No entanto, a jovem não parecia tê-lo reconhecido e se apressou em colocar o capuz de volta. Bruscamente, virou-se na direção da igreja... Será que havia um carro à sua espera? Incapaz de resistir à tentação de saber mais, Henry ordenou ao motorista a segui-lo de perto, enquanto ele perseguia a Srta. d’Arsac. Conforme avançava, repetia para si mesmo que estava fazendo aquilo para garantir a segurança da irmã de Louis. Queria fazê-la regressar em segurança, uma vez que o tempo estava frio e ameaçador, e não havia nenhuma maneira de ela voltar a pé. Chegando em frente ao prédio da igreja, ela parou, visivelmente desconcertada. Então, esperava por alguém que não tinha aparecido? De repente uma suspeita agarrou-o: e se estivesse indo se encontrar com um amante? E se estivesse espionando um encontro romântico? Seu peito


começou a incendiar, mas ele tentou deixar as emoções de lado. Não podia, no entanto, deixar a jovem sozinha, sem um acompanhante. Louis o estrangularia se tivesse ciência da situação. Com determinação, Henry segurou a Srta. d’Arsac, colocando a mão em seu ombro. Ela saltou e virou-se, pronta para defender-se com um... livro? Aquilo era estranho, mas teria a oportunidade de preocupar-se com isso mais tarde; primeiro precisava evitar o golpe e explicarse. Esquivando-se, ele evitou que o volume pesado acertasse sua cabeça e segurou o braço da jovem, antes que esta pudesse se afastar. No entanto, ela tropeçou e terminou pressionada contra seu peito. Henry arfou. Instintivamente, ele apertou os braços ao redor dela para que não caísse. Apesar do tecido grosseiro de suas roupas, conseguiu sentir seu corpo macio em contato com o dele, e isso foi suficiente para alimentar seu desejo; ficou excitado com o calor que ela emanava, com suas curvas suaves e atraentes. Henry fez um enorme esforço para interromper suas divagações. Não havia dúvida de que acabaria por se render a seus pensamentos indecentes. Afastou Elisabeth de si, colocando-a de volta firme e de pé, e exclamou ironicamente: — Srta. d’Arsac, que surpresa! Parece que nossos caminhos continuam a se cruzar. Alguns poderiam suspeitar que anda me seguindo. — Ela pareceu ansiosa em provar o contrário, pois respondeu imediatamente: — Em quê quer acreditar, senhor? Eu mesmo poderia acusá-lo de espionagem sobre mim! O que está fazendo neste lugar, de qualquer maneira? O norte-americano ignorou a pontada de culpa que sentiu diante da censura da moça e decidiu se justificar. Então, pensou, que ela pudesse revelar as razões de sua presença ali se lhe respondesse. — Sei que o Sr. Franklin, nosso embaixador, vive nesta aldeia. Acabei de vir de uma reunião que ele teve a gentileza de me conceder. A desconfiança de Elisabeth desapareceu, dando lugar a uma expressão de curiosidade mal desperdiçada. — O senhor conheceu esse grande homem? Compartilhou com ele suas últimas experiências? Sei que o castelo La Muette foi disponibilizado...


Henry ergueu a mão para interromper o fluxo das palavras. Se ele a deixasse tagarelar, ela iria distraí-lo de sua meta. — Estou perfeitamente disposto a discutir sobre isso com a senhorita, mas deixe-me primeiro oferecer-lhe o asilo do meu carro. Sinto que está sozinha, o que definitivamente não é recomendado para uma senhorita da sua condição, e quase posso imaginar o que seu irmão faria comigo se soubesse que a deixei aqui à própria sorte. Ela deu de ombros casualmente. — Acredite ou não, senhor, não seria a primeira vez. — Sou capaz de fazer qualquer coisa para que saia do frio e da neve. Sou muito honrado para deixá-la aqui fora, e acho que já não estou sentindo meus pés. A Srta. d’Arsac ergueu uma sobrancelha, claramente convencida por seu argumento, mas finalmente cedeu. Já era tempo, porque Henry estava congelando, além de não conseguir tirar da cabeça que ela tinha ido até a aldeia de Passy sozinha, ainda se perguntava se ela poderia mesmo ter um amante. O carro parou próximo a eles e, ao ver a jovem, o cocheiro desceu para ajudá-la a subir. Elisabeth sentou-se e abriu espaço para deixar seu companheiro se sentar de frente a ela. Henry deu uma batida no teto do veículo, dando o sinal para a partida. Apesar dos protestos de Elisabeth, ele decidiu levá-la para casa, por mais que a expectativa da jornada, dentro de um espaço confinado, lhe soasse como uma tortura.

Decididamente, o destino estava contra ela. Elisabeth não viu o tempo passar e saiu de casa um pouco mais tarde do que o habitual, apenas para descobrir que estava nevando e que seu carro não a estava esperando. Para piorar a situação, aquela pessoa a quem ela tentava evitar a todo custo se materializava atrás dela. Ah, quem diabos ela queria enganar? Estava morrendo de vontade de reencontrar o insuportável Sr. Wolton desde seu último encontro. Ele não demorou muito tempo, depois de sua disputa verbal, a levar Louis em seu rastro, sem dúvida, para desfrutar dos prazeres que Paris


poderia oferecer aos jovens. E agora ele ressurgia, quando ela estava mais vulnerável, cheio de sorrisos, como se nada tivesse acontecido. Ao pensar nisso, ela soltou um grunhido de aborrecimento. — O que disse? — perguntou o americano com um sorriso. — Nada — ela respondeu em um tom aborrecido. — Que pena! Estava contando com essa viagem para desfrutar dos encantos de sua conversa... Ela olhou para ele com desconfiança. — Que viagem? Sentindo a vibração do carro, ela exclamou. — Você me enganou! Disse que íamos usar o carro apenas para nos aquecer! Não há nenhuma possibilidade de viajarmos juntos. — Ah, é mesmo? E qual era o seu plano? Ficar aqui até o anoitecer, sozinha nesta aldeia? Começo a me perguntar se está delirante ou apenas inconsciente. Quando a jovem fez uma careta, ele continuou: — Não faça essa cara, a senhorita sabe perfeitamente bem que estou certo. — O senhor veio da América para me ensinar lições? Será que fica assim tão chocado ao ver uma mulher viajar sozinha? — Não estou chocado, só preocupado com a senhorita! Se algo lhe acontecer, sua família ficaria desesperada. — Acha mesmo? — ela respondeu com uma risada desprovida de alegria. — Eu particularmente acho que os envergonho. Mas isso não vem ao caso. Para onde está me levando? — Para casa, é claro. E não vou parar. Por mais que pareça um selvagem diante dos olhos de muitos de vocês, tenho meus princípios. A amargura na voz dele fez com que Elisabeth mordesse o lábio, por causa do


comportamento vergonhoso de seus familiares. — Sinto muito — ela respondeu em um tom mais suave. — Eu não quis insinuar que... bem, não quero me mostrar insultuosa. O Sr. Wolton sorriu para ela, que sentiu o coração disparar. Tentou recuperar-se imediatamente, irritada com a própria franqueza. — Ainda não me disse o que estava fazendo aqui, Srta. Arsac. — Por favor, não conte a ninguém, muito menos para a minha família! — ela exclamou, de repente ciente de que uma única palavra daquele homem poderia fazê-la perder muito. — Então ninguém sabe onde está? — ele perguntou, visivelmente surpreso. — Já não tenho nenhuma dúvida, a senhorita está totalmente fora de si; e se algo lhe acontecesse? Além disso, sua mãe não sabe que não está em casa? Elisabeth decidiu revelar parte da história. — A minha mãe sabe que eu estou fora... Eu disse que iria ao convento das Irmãs da Assunção, para me recolher e participar de retiros. Várias damas da corte fazem isso, está na moda. — Esconde sua fuga sob a aparência da religião... — Oh, não comece com uma de suas lições de moral, por favor. Especialmente depois de... bem... Elisabeth corou, baixou a cabeça e não pôde continuar a frase. — Depois do que fizemos no baile? Eu compreendo. Mas isso ainda não explica o que estava fazendo em Passy. Foi se encontrar com um amante? Com essa sugestão, a jovem sentiu uma onda de calor subir por seu estômago e se espalhar por todo o seu corpo, como quando aconteceu no momento em que foi pressionada contra ele para não cair. No entanto, o fato de o Sr. Wolton ter insinuado que ela poderia estar mantendo relações ilícitas com outro homem a deixou furiosa... Levada pela raiva, ela decidiu criar sua própria armadilha. — Por mais que seja amigo do meu irmãos, minhas ações não são de seu interesse! E,


além disso, quem garante que eu tenho só um amante? Afinal de contas, tenho mais de vinte anos, é de se esperar que tenha desenvolvido alguma experiência. O rosto de Henry tornou-se vermelho, mas ela esperava que ele escondesse a irritação. Um olhar rápido lhe mostrou que seu interlocutor não era muito dado a aparências, pois parecia espantado, com os olhos cinza escuros arregalados e boquiaberto. Ao pensar e observar aquela boca, logo sentiu o desejo de beijá-lo. Sabia que não o impediria se ousasse, talvez até o incentivaria. Imaginou-o depositando beijos ao longo de sua bochecha, antes de se aventurar na direção de seu peito e... Elisabeth sobressaltou-se quando começou a se sentir queimar como ferro quente. Viu-se pensando que era exatamente isso que ela queria acima de tudo; queria beijos do Sr. Wolton e muito mais. Se o simples pensamento de um beijo era capaz de inflamá-la daquela forma, o que poderia acontecer se ele verdadeiramente entrasse em ação. De repente, a carruagem desviou de algo, fazendo um cair sobre o outro. O jovem a agarrou pela cintura. Ele estava tão perto, tão tentador... Ela queria senti-lo contra ela... Então, encorajada pela situação, decidiu tomar uma atitude, sem pensar nas consequências. — Aliás, senhor, por que não o torno meu novo amante? O senhor parece ter todos os critérios exigidos — acrescentou, com a garantia de que não estava mentindo. Ele olhou para ela com uma expressão desconfiada, enquanto a ajudava a sentar-se. — O que quer dizer com isso? Estaria disposta a... se entregar? Por quê? E o que a faz pensar que eu poderia aceitar? — Bem, o senhor é muito bonito — ela respondeu com um ar falsamente seguro. — E eu já tive a oportunidade de descobrir seus talentos. Senhor, ela iria acabar na escala mais baixa do inferno! No entanto, se ele a rejeitasse, ela morreria de vergonha, isso era certo. O norte-americano sentou-se ao lado ela, com as pupilas dilatadas de desejo, quase feroz. Sem preâmbulos, pegou o rosto dela entre as mãos e beijou-a até perder o fôlego. Elisabeth gemeu, mas imediatamente agarrou-se a ele, fechando as mãos em seus ombros largos, deixandose levar pela paixão.


Foi ele quem interrompeu o contato, cedo demais para o gosto da jovem. Ela estava ofegante, mas notou com prazer que não era a única. No entanto, o sentiu distante, como se considerasse aquele beijo como um aviso. — Cuidado com o que deseja, minha senhorita, pois pode conseguir. Ele estava prestes a ceder, ela pensou. Lutava contra si mesmo, mas queria aceitar a oferta. Triunfante, ela concedeu-lhe um sorriso iluminado e respondeu: — Mas é o que eu quero, Sr. Wolton. — A jovem estava tão intoxicada pelo desejo que não objetaria se ele a tomasse ali mesmo, na cabine. Mas conseguiu se conter e perguntou, em tom de conversa. — Quando nos encontramos? Ele abriu um sorriso predatório, que parecia indicar que estava pronto para devorá-la. Ah, sim, ela adoraria!, pensou ela, enquanto uma nova explosão de calor subia por seu rosto. — Amanhã seria do seu agrado? Ou ainda esta semana, se já tiver compromisso. — Não, amanhã será perfeito — ela respondeu rapidamente. Na verdade, Elisabeth tinha medo de voltar atrás ou que seus olhos a traíssem, demonstrando covardia. E precisava admitir que estava ansiosa para descobrir as conexões físicas e verificar se o que lhe fora dito era verdade. — Muito bem. Posso encontrá-la depois do jantar na pensão du Lion d’Or, na Rue de la Chef. Sabe onde fica? — Parece-me que não fica muito longe do Saint-Victor. — De fato. Apresente-se como Sra. Washington. Eu conheço os inquilinos, garanto discrição. — O senhor está acostumado a realizar encontros clandestinos lá? O Sr. Wolton não respondeu a Elisabeth, mas não conseguiu reprimir um sorriso. Sim, ela não seria sua primeira conquista... Isso seria improvável, é claro, e ela suspeitava que não estava lidando com um monge, mas, no fundo de seu coração, esperava que ele iria lhe reservar um lugar especial, mas estava enganada. Homens eram volúveis, e era errado pensar que seria diferente


com ela. Um silêncio constrangedor se estabeleceu dentro da carruagem, enquanto viajavam. Entraram em Paris momentos após o beijo, e o ritmo diminuiu um pouco. Em breve iriam atravessar o Sena, para chegar ao outro lado, onde ficava a casa da família dela. No entanto, o americano ainda estava sentado no mesmo banco, não tinha voltado para seu lugar. A cada minuto que passava, a jovem ficava mais e mais consciente de sua proximidade; o calor que irradiava do desejo de seu parceiro fazia com que suas entranhas se remexessem. De olhos fechados, ela tirou as luvas, antes de pousar a mão no músculo da coxa de seu companheiro. Primeiro, ele não pareceu reagir, mas quando ela abriu os olhos, percebeu que ele olhava para frente e se esforçava para manter a respiração calma e firme. Sentindo-se poderosa como nunca antes, ela moveu a mão ao longo de sua perna, até chegar ao joelho. Em seguida, lentamente, traçou pequenos círculos com os dedos, fazendo uma ligeira pressão, regozijando-se ao senti-lo contrair os músculos sob suas carícias. Ela arriscou olhar novamente para ele, surpreendendo-se ao descobrir uma parte da anatomia de seu companheiro endurecer e crescer. Depois, quando tentou passar a mão por este membro fascinante, ele rapidamente agarrou seu pulso e sussurrou em seu ouvido: — Srta. d’Arsac, por mais que esteja apreciando suas carícias, precisarei impedi-la. Vamos chegar em breve, e não gostaria de desonrá-la saindo desta carruagem na situação em que me encontro. Elisabeth não tinha certeza se entendera o que ele quis dizer, mas preferiu não demonstrá-lo e assentiu. Não queria que percebesse sua inexperiência... Felizmente o Sr. Wolton estava certo, chegaram ao destino em muito pouco tempo. — Desculpe-me por não entrar para cumprimentar sua mãe, mas não estou nada apresentável no momento. Quanto ao seu álibi, não tenha medo, vou dizer que a encontrei no caminho de volta do convento e me ofereci para acompanhá-la. — Obrigada, senhor — ela respondeu do fundo de sua garganta. — Posso me dar ao luxo de pedir sua palavra de que não irá divulgar nosso encontro de amanhã? Sentia-se tola por novamente mencionar o assunto, mas não podia ser descoberta. Se sua aventura fosse divulgada, ela poderia dizer adeus ao mundo, pois teria que terminar seus dias em um convento... se tivesse sorte. Sua família, certamente, a exilaria para um país selvagem e


nunca mais ouviriam falar dela. Isso antes de cuidarem do Sr. Wolton. — Ao contrário do que pareça acreditar, tenho honra — disse ele com os dentes cerrados. — Além disso, eu poderia perder muito ao desencadear um escândalo envolvendo a filha de uma família importante. Porque é claro que a senhorita, assim como eu, não tem intenção de que firmemos um compromisso. Estranhamente, sentiu-se um pouco chateada por ele nem sequer cogitar a hipótese de se casar com ela. Mas como poderia? Ele não era nobre, nem sequer era francês! — Na verdade, estamos ligados apenas por um interesse em comum — ela admitiu, forçando um sorriso. — Amanhã, não esqueça: Madame Washington — ele disse suavemente, erguendo o chapéu. O cocheiro, que a tinha ajudado a saltar, apressou-se em retornar ao seu lugar e chicoteou os cavalos quando ouviu Wolton dar o sinal. Lentamente, Elisabeth entrou em casa onde, citando uma enxaqueca, se refugiou em seu quarto para refletir sobre os acontecimentos do dia. Por que tinha que ter encontrado com aquele senhor? Imediatamente tornou-se consciente da enormidade do que tinha feito: concordara com um encontro em uma pensão, com um homem que conhecia há apenas alguns dias. Deus, ela nem compreendera tudo que ele insinuara... com certeza tinha perdido a cabeça, era óbvio. A jovem, de repente, sentiu um nó na garganta. Afinal, Félicité lhe contou algo sobre o que acontecia entre um homem e uma mulher, mas nunca entrou em detalhes. Ela parecia achar a experiência agradável, mas Elisabeth já tinha ouvido dizer que o ato era especialmente apreciado pelos homens, mas nunca por suas parceiras. Mas ela gostara tanto dos beijos trocados com o Sr. Wolton que recusava-se a acreditar que as coisas ficassem diferentes uma vez que cruzassem essa etapa. Sua cabeça zumbia com mil perguntas, mas, por causa de seu corpo febril, Elisabeth passou a maior parte da noite revirando-se na cama, incapaz de dormir. Conseguiu adormecer um pouco pela manhã, por mais que a tensão não a tivesse abandonado por completo. Seus sonhos foram confusos e perturbadores, mas todos possuíam uma coisa em comum: os olhos de aço, cinzentos, do americano a quem iria reencontrar em breve.


Capítulo Oito Ainda estava cedo, mas Henry queria chegar primeiro no encontro. Queria verificar o local, garantindo mais uma vez a compreensão da anfitriã. Não alimentava ilusões; por mais que estivesse finalizando os detalhes do encontro, não queria dizer que mantinha esperanças de que daria certo. Acreditava totalmente que ela desistiria de começar um caso de amor com ele. Parecera-lhe muito óbvio assim que saíra de perto da Srta. d’Arsac: apesar de tudo que lhe tinha sido ensinado, apesar das ideias que ele mesmo professava de honra e razão, sentia-se ansioso, queria tocá-la, embebedar-se dela, nem que fosse para exorcizar a memória de seus abraços e sorrisos. Ela o confundia a ponto de fazê-lo esquecer de seus deveres com seu país, com seu passado... Henry encolheu-se involuntariamente; desde que conhecera aquela moça, relegara a segundo plano suas memórias dolorosas. Sentia-se desconcertado. Para distrair seus pensamentos sombrios, pôs-se a observar o ambiente ao redor. Era um quarto pequeno, mas confortavelmente aquecido, exatamente de acordo com o que ele tinha solicitado. No centro, sobre uma pequena mesa com duas cadeiras, havia um lanche que já estava frio, pois fora pedido cedo, uma vez que preferia evitar interrupções das pessoas do estabelecimento. Encostada na parece, a cama de alcova estava meio escondida por uma cortina, mas seu olhar se demorou nela. Imagens da Srta. d’Arsac estendida sobre os lençóis, nua como a manhã, o atacaram, e sua mente começou a naufragar. Perguntava-se qual seria o sabor de sua pele, se iria encontrar a fragrância floral que sentira nela durante a dança no baile. Durante seu último beijo, precisou controlar-se para não saltar sobre a mulher e não tratá-la como uma prostituta comum, dentro de um carro. Porém, tudo que mais queria era aproveitar as poucas horas que teriam. Com alguma sorte, ela seria tão deliciosamente libertina quanto imaginava, e eles poderiam se divertir com brincadeiras e joguinhos. Henry voltou a pensar naqueles momentos surpreendentes, quando ela o acariciou e quase o levou ao êxtase, fazendo com que uma protuberância imediatamente crescesse perigosamente sob o tecido de suas calças. Obviamente ela era boa nos assuntos do amor. No entanto, sua consciência continuava a assombrá-lo, afirmando que era melhor levar a moça de volta para casa e romper o acordo. Mas, por outro lado, ele finalmente parecia ter


emergido da longa escuridão onde se encontrava desde que chegara à França. Desde que conhecera a Srta. d’Arsac — Elisabeth —, era como se fosse novamente capaz de respirar, ver, ouvir, como se tivesse despertado de um longo coma. Henry decidiu, então, rejeitar firmemente suas hesitações. Afinal, ela iria de livre e espontânea vontade. Sentiu o piso ranger no andar e não pôde reprimir um movimento de exaltação. Depois de um breve silêncio, a porta se abriu, revelando uma mulher de meia idade, vestida com um vestido simples, mas impecável, e a cabeça coberta por uma touca. Ela desapareceu quase que imediatamente, permitindo-lhe a visão de uma figura envolta em um roupão, que provocou um arrepio de alegria no norte-americano. Quando ficaram sozinhos, ele se adiantou para cumprimentar a visitante, que baixou o capuz. Apesar da máscara que cobria seu rosto, ele reconheceu seus olhos castanhos ardentes, seus cabelos cor de mel, sua pele leitosa... Um leve sorriso curvou seus lábios e chegou até seus olhos cintilantes. Quando ela fez menção de retirar a capa, ele gentilmente agarrou seu pulso. — Não! Permita-me... Adequando a ação à palavra, Henry abriu o fecho e tirou o pesado manto que escondia suas formas. Ela se encolheu, mas não disse uma palavra, apenas respirou profundamente, como se estivesse tentando recuperar a compostura. Parecia um pouco nervosa. Estranhamente, ele se sentiu aliviado e menos vulnerável. Lentamente, usando a ponta dos dedos, começou a seguir o contorno da máscara que cobria seu rosto, peganda-o entre as mãos, desatando o laço que a mantinha ali. Dramaticamente a máscara soltou o cabelo, que caiu em ondas grossas sobre os ombros da jovem, como um halo dourado. Ele sorriu ao reconhecer o perfume delicado que pertencia a ela, uma mistura de rosas e açúcar, que o fazia querer devorá-la. Em seguida, Henry tocou seus lábios e a beijou. Era como se seu gesto tivesse ateado fogo em seus corpos. Quando pensou que ela estaria apenas disposta a aceitá-lo passivamente e de boa vontade, Elisabeth correspondeu ao seu beijo com entusiasmo, abrindo a boca quando ele pressionou a língua febrilmente para provocá-la. Ele fechou os braços ao redor dela e a puxou contra seu peito, querendo sentir-se ligado a ela, imprimindo aquelas curvas contra sua própria carne. Medindo cada um de seus passos, Henry começou a recuar para atravessar o quarto, levando a jovem consigo. Ela não opôs resistência, mas soltou um pequeno gemido de protesto


quando ele interrompeu o beijo para verificar onde estava colocando o pé. Sua reação franca e desprovida de afetação o animou, e ele sentiu o pênis enrijecer. Elisabeth não fazia ideia do que estava causando; a cabeça de Henry estava agitada, seu corpo queimava, os lábios se inchavam de desejo... e uma espécie de pulso latejante passou por seu abdômen. Sem contar a respiração ofegante que ela provocava só com aquele abraço. Quando chegou à pensão, ela certamente experimentou alguns segundos de apreensão, mas os beijos do Sr. Wolton a acalmaram. Sentiu quando ele puxou delicadamente seus cabelos e estremeceu com esse contato íntimo. Nunca ninguém a tinha acariciado de forma tão perturbadora. Quando seu companheiro virou-se novamente, ela deslizou as mãos sob seu paletó, da mesma forma como fez no baile. Saboreou a sensação cálida que emanava dele, a firmeza de seus ombros, a textura da roupa sob seus dedos... Impaciente, ela começou a tentar despi-lo, mas ouviu uma suave risada. — Ah, querida, você está com pressa... Mas esta frase não fora tingida com a menor censura. Na verdade, ela vinha carregada de desejo. A voz do Sr. Wolton pareceu tornar-se subitamente rouca. De qualquer forma, ele pareceu apreciar sua impaciência indisfarçada, pois a ajudou a tirar o próprio paletó, ficando apenas de camisa e colete. Elisabeth se afastou para contemplá-lo e permaneceu muda por um momento, ele tinha uma compleição muito mais larga do que ela imaginava, e seus ombros esticavam o tecido de uma forma muito reveladora. Ela se sentiu desconcertada de uma forma estranha, mas igualmente agradável, e foi esmagada por uma onda de calor. Sem saber se suas bochechas tinham ficado coradas por conta de seu desconforto ou da temperatura, virou-se envergonhada, mas ele gentilmente segurou seu queixo na mão e forçou-a a encontrar seu olhar. — Bela senhorita, peço-lhe que não se atreva a se deixar levar pelo medo agora. — Senhor — ela gaguejou, desesperadamente buscando uma resposta adequada. — Senhor, não, por favor! Pode me chamar de Henry. — Eu... eu não sei se sou capaz. — Claro que é! Vamos lá, estou ouvindo... Elisabeth — acrescentou o nome dela com um


sorriso. A jovem corou ainda mais, mas se recusou a ser intimidada. Ele ainda segurava seu queixo quando ela o olhou nos olhos. — Henry — ela finalmente disse. Então, para não ficar para trás, ela acrescentou: — Parece que estou mais vestida do que você. A expressão do jovem tornou-se radiante. Henry pensou que enlouqueceria. Todas as vezes que achava que conseguiria começar a se controlar o suficiente para dominar o jogo com Elisabeth, ela lhe surpreendia com outro golpe. Ao mesmo tempo em que se envergonhava em vê-lo sem o paletó e ao ser chamada pelo primeiro nome, o repreendia por não tê-la desnudado! Ela era incrivelmente excitante. Havia um maldito tecido de algodão cobrindo os ombros da jovem. Ele puxou as duas extremidades presas ao corset, revelando um colo profundo. A carne macia e branca estava exposta aos seus olhos, e Henry pôs as mãos na base do pescoço de Elisabeth, acariciando-lhe a clavícula, antes de começar com outros tipos de exploração, com seus lábios seguindo a trilha de seus dedos. O contato dos lábios quentes e macios de Henry fizeram com que Elisabeth tivesse a impressão de ter sido atingida por um raio. Os beijos estavam seguindo todo o corte da gola do corpete, inflamando sua pele como em um incêndio. Encorajada, ela enterrou os dedos no cabelo do jovem, soltando seu rabo de cavalo para melhor apreciar o toque sedoso. Ele levantou a cabeça, mas manteve toda a atenção no corpete, do qual desfez os laços, afastando o vestido de seus ombros, liberando seus braços. O espartilho era muito baixo, então, precisou soltar mais alguns laços para libertar um seio. O seio rosado, com seu rijo botão, emergiu. Precisou parar brevemente para admirar a visão encantadora que lhe surgiu. Tocou o mamilo com o polegar, o que, para sua grande satisfação, surpreendeu Elisabeth. O espanto era visível em seu rosto, mas ela não ofereceu qualquer resistência. Ao invés disso, fechou os olhos e inclinou a cabeça para trás, para melhor aproveitar as sensações. A carícia fez com que a ponta de seu seio ficasse dura como uma pequena pedra, provocando uma


dor aguda, semelhante àquela que crescia entre suas coxas. Mas quando ele o tomou em sua boca, ela pensou que iria desmaiar; nunca poderia suspeitar que tal coisa poderia ser tão agradável. Era como se cada vez que ele a lambia, cada vez que sugava, uma completa onda de prazer percorresse por seu corpo. Febril, ela o obrigou a recuperar-se quando começou a desabotoar-lhe o paletó e a tirar a gravata, enquanto Henry terminava de retirar seu manto e desatar as anáguas. Estas caíram no chão depressa, e ela não fez qualquer gesto para recuperá-las. Agora Elisabeth estava apenas com a roupa de baixo, meias, o espartilho metade desamarrado, em uma bela desordem que lhe dava um ar estranhamente sedutor de inocência. Mais uma vez suas bocas se uniram, enquanto Henry a arrastava até a cama, determinado a não ser interrompido. Ele empurrou as cobertas e sentou-se no colchão, antes de colocar a moça entre seus joelhos. Logo o espartilho cedeu aos seus esforços, deixando o campo aberto. Colocou um braço em torno da cintura fina e passou o outro por debaixo de sua camisa, mas acabou encontrando a própria perna. Elisabeth se remexia para tentar escapar, mas ele a abraçou com um pouco mais de força e recomeçou a sugar seu seio. Ele a fez perder a cabeça. Quando colocou os lábios em sua pele, ela não conseguiu pensar em mais nada a não ser as delícias provocadas por sua língua. Gemeu quando Henry beliscou seu mamilo, quase esquecendo-se da mão que deslizava por dentro de sua camisa. No entanto, sentiu os dedos firmes e quentes passearem por sua pele, gentilmente abrindo suas pernas para chegar ao interior de suas coxas. Elisabeth sentia todo o seu corpo arder de desejo, mas o calor estava concentrado na parte inferior do abdômen, à medida que a mão de Henry avançava. Excitada por esta nova sensação, ela sentiu necessidade de tocar diretamente a pele nua de seu amante. Correu os dedos pelo decote de sua camisa, tocando seu pescoço e torso, mas não conseguiu manter esse contato furtivo e começou a tirar-lhe a roupa. O jovem sorriu e ficou de lado para permitir que ela removesse sua peça de vestuário. Ele parecia ainda mais impressionante despido, e Elisabeth, fascinada, o observou em sua nudez. Tinha ombros largos, pele bronzeada, quente e macia, e seus músculos enrijeciam de acordo com seus toques. Uma linha de pelos negros corria de seu peito até a cintura, e provavelmente chegava até mais embaixo. Começou a tentar adivinhar o que havia escondido sob suas calças, mas viu uma protuberância que distorcia a roupa. Sentindo-se nervosa de repente, olhou para o lado, mas decidiu continuar seu contato com a boca.


Ela beijou seu pescoço e peito, parando em seus mamilos escuros, tão diferentes dos seus. Henry ficou tenso, em alerta, reagindo a cada toque, cada contato. Elisabeth estava claramente ansiosa para conhecer o corpo dele, mas tomou seu tempo saboreando o gosto da pele em sua língua. Quando começou a descer até a cintura, o jovem sentiu o desejo de recuperar a vantagem, pensando no quanto seria prazeroso quando consumassem aquele ato. Com um movimento rápido, ele a colocou deitada na cama, com a camisa erguida até o topo das coxas. Como ela parecia prestes a protestar, ele calou sua boca com um beijo, enfiando a mão em sua intimidade. Estava quente, molhada, pronta para recebê-lo. Puxando suavemente o tecido fino, Henry esfregou a pele ao redor do clitóris, aproveitando o êxtase no qual sua companheira estava mergulhada. E ele a tocou lá embaixo. Deus! Foi indecente... e delicioso. Elisabeth se deleitava mais a cada momento, ansiosa para que ele chegasse logo ao ponto onde se concentrava todo o calor de seu corpo. Ela começou a esfregar uma perna na outra, tentando acalmar a ardência, mas sem sucesso. — Precisa de algo, querida? — ele perguntou com uma voz cheia de desejo. — Por favor... está doendo — ela respondeu, ofegante. — Quer que eu alivie a dor? Ah, se ele não fizesse isso ela certamente iria morrer! — Por favor, Henry — ela sussurrou, incapaz de encontrar fôlego suficiente para falar mais alto. Então, ele finalmente concordou em abrandar o tormento. Deus do céu! Aquele contato era maravilhoso, incrível! Tomada por deliciosas e desconhecidas sensações, Elisabeth começou a arfar, lutando para encontrar o ar. Seus quadris ondulavam para escapar dos dedos que irritavam as dobras mais delicadas de sua carne. No entanto, ela não queria que ele parasse; parecia que estava à beira de um enorme precipício, mas sentia que poderia descansar assim que se recuperasse da queda. Enquanto beijava Elisabeth apaixonadamente, sua mão persistia sobre o ponto sensível localizado entre os pelos castanhos. Henry sentia-se embriagado. O cheiro do sexo da moça, a


sensação de sua carne macia, seus gemidos abafados... tudo isso o intoxicava como um vinho inebriante. Sua cabeça estava girando, o coração batia em seu peito, seu sangue rugia e seu membro inchado ameaçava explodir. Mas isso não o impediu de penetrar um, depois dois dedos na intimidade calorosa e sensível de sua companheira. Um suspiro escapou dos lábios de Elisabeth quando ela sentiu algo escorregar por entre suas coxas. No entanto, foi incapaz de se sentir envergonhada, porque estava inundada de prazer. Espontaneamente, seu corpo arquejou, acompanhando os movimentos dos dedos, como se eles fossem a chave que iria acabar com aquela tortura maravilhosa. Logo ela estremeceu e sentiu-se explodir, contraindo-se em torno dos dedos de seu amante. O grito de prazer da jovem tocou os ouvidos de Henry como a música mais doce. Ele a beijou apaixonadamente, encantado com sua reação espontânea e irrestrita. Era tão raro encontrar uma mulher tão receptiva, pensou. No entanto, ele não tinha terminado; se as necessidades dela tinham sido momentaneamente satisfeitas, seu próprio desejo era de uma intensidade quase assustadora. Ele lhe concedeu alguns momentos para se recuperar, o que lhe proporcionou tempo de tirar o resto da roupa e se livrar de suas meias e sapatos. Com os olhos semicerrados, Elisabeth observava seus movimentos. Ele se sentia lisonjeado com a atenção que ela lhe dispensava, como se não quisesse perder uma única migalha do espetáculo. Inclinando-se sobre a cama, ele colocou a ponta de um seio em sua boca, enquanto descansava a mão entre suas coxas. Contudo, ela ficou enfurecida quando ele começou a massagear suavemente suas dobras úmidas. Então o corpo de um homem era assim?, ela pensou. Seu membro tinha um tamanho impressionante, e ela se perguntou como poderia se acomodar dentro dela. Quando ele deslizou seus dedos, ela sentiu que aquela parte de seu corpo estava muito próxima. Mas, apesar de sua apreensão, Elisabeth queria muito saber o que iria acontecer. Queria que a preenchesse, que o desejo a consumisse. Sendo assim, tendo-o por cima de seu corpo e abrindo suas pernas, ela apertou sua cintura e o puxou contra si. Cegado pelo desejo, Henry apontou seu pênis para a entrada do sexo da moça e penetrou-a com um forte impulso. Quando a sentiu enrijecer e sufocar um grito, ele imediatamente repreendeu-se. Obviamente não tinha lhe dado tempo suficiente após o orgasmo. Ele parou imediatamente e gentilmente a beijou. — Calma, meu doce...


Colocando a mão entre a junção de seus corpos, ele começou a acariciá-la mais uma vez, tentando proporcionar uma distração e alívio para o corpo da jovem. — Você está tão apertada — ele disse em uma voz rouca de prazer. Ela estava machucada! Lágrimas surgiram em seus olhos. Era provavelmente o inverso daqueles momentos maravilhosos que tinha vivido um pouco mais cedo. No entanto, quando Henry a acariciou e falou-lhe com uma voz suave, Elisabeth relaxou. Seu corpo tenso como uma corda de violino gradualmente perdeu a rigidez e logo ela descobriu que sua intimidade começava a se adaptar ao tamanho de seu parceiro. Quando Henry acreditou que ela estava se sentindo melhor, apoiou-se em seus braços e começou a movimentar-se. Por todos os santos do céu! Para frente e para trás, primeiro lentamente, mas tomando intensidade gradualmente, provocando uma fricção deliciosa que ecoava por todo o seu corpo. Sem se dar conta, a jovem ergueu os joelhos e envolveu as pernas ao redor de Henry. Esta posição aumentou ainda mais a sensação, o que fez com que ela movimentasse os quadris, desesperada para extinguir o fogo que se acendera. Ela era tão quente, tão acolhedora... Um gemido escapou dos lábios de Henry e se transformou em um resmungo rouco, conforme ele investia para trás e para frente. Elisabeth começou a ondular no ritmo dele, cravando as unhas em seus ombros, murmurando palavras incompreensíveis. O prazer foi aumentando exponencialmente e justamente quando ele sentiu que estava prestes a atingir o êxtase, Henry teve um momento de lucidez. — Elisabeth, meu doce... me diga que você tem seus meios para se proteger de uma situação adversa. Em meio à névoa confusa de sensações, Elisabeth tomou ciência do que ele estava falando. A voz de seu amante era urgente, como se a questão fosse crucial. A jovem levou alguns segundos para conseguir construir as palavras e viu-se despreparada. Assumiu que ele estava se referindo apenas a uma possível gravidez, mas sabia perfeitamente como evitar tais incidentes. Quando ele fez menção de retirar-se dela, o segurou; não queria deixar o jogo incompleto, sendo assim, balançou a cabeça em concordância. — Não se preocupe — ela finalmente disse.


Henry sorriu e mudou de posição, ele se ajoelhou e ergueu-a pelos quadris, inclinando sua pélvis para penetrá-la com vigor renovado. Cada um de seus impulsos o levava para mais perto do orgasmo. Elisabeth, por sua vez, já não tinha mais nenhum senso de lugar ou de data, só pensava no prazer que se erguia como uma onda e evoluía ao êxtase total. Elisabeth gritou o nome de seu amante com um tom de voz suplicante. Ao ouvir a moça, Henry mudou o ritmo e inclinou-se para segurá-la pelos ombros, para poder beijá-la, tremendo de desejo. Em um último suspiro, ambos foram varridos pelo gozo, com o corpo sendo levado ao limite antes de caírem um sobre o outro, ofegantes. A mulher agarrou-se ao bíceps de seu amante, viajando em um tremor incontrolável. Ao sentir um prazer tão imenso, percebeu como Henry tinha se controlado em suas primeiras aventuras, e sentiu-se grata. Colocando-se em alerta ao perceber que ela tremia e rangia os dentes, Henry saiu de cima de seu corpo, rolou para o lado e puxou-a para seus braços. Começou a lentamente acariciar seus cabelos e sussurrou palavras tranquilizadoras. Ela se aconchegou contra ele, sentindo os tremores cessarem devagar, e o olhou, com os olhos embaçados de lágrimas. Perturbado, ele perguntou: — Elisabeth, está tudo bem? Você está chorando... Ela ergueu a mão aos olhos e percebeu que ele estava certo; não tinha percebido o quanto a experiência tinha lhe perturbado, mas sorriu ao responder. — Não é nada. Um excesso de emoções, sem dúvida. A expressão de Henry, porém, tornou-se séria. Ela se entregara cheia de confiança, abandonara-se no prazer que ele lhe proporcionara, e isso o sensibilizou. Sentiu como se seu coração fosse pular para fora do peito. Sabia que deveria sentir-se desconfortável, envergonhado, mas só tinha a convicção de que o que acabara de acontecer era o certo. Ao seu lado, a jovem sentia-se lânguida, com as pálpebras pesadas, então, enroscou-se nele e adormeceu. Ele puxou a coberta sobre seus corpos, antes de se inclinar sobre um cotovelo para observá-la. A expressão serena no rosto, um sorriso dançando em seus lábios. Quando ele se inclinou para depositar um suave beijo em sua têmpora, teve a sensação de que tinha finalmente encontrado o que procurava.


Capítulo Nove Confortavelmente deitada sob as cobertas, Elisabeth não sentia vontade de se levantar, preferindo agarrar-se aos últimos resquícios de seu sonho. Um sonho realmente muito bom, onde o Sr. Wolton a beijava apaixonadamente... Uma lufada de ar fresco a acordou completamente, então, recuperou a consciência e visualizou o ambiente: não estava na cama da casa de seus pais, mas em um quarto de albergue na companhia de um homem que... Ela corou, pensando em tudo que tinham feito, mas foi incapaz de esquecer a alegria e o prazer que tinha vivenciado. Seu corpo doía, seus músculos estavam rígidos, e ela precisou esticar-se lentamente como um gato para recuperar a flexibilidade. — Fique calma, meu doce, pois nunca vou deixar você sair desta cama — ele afirmou com um timbre de voz quente. Tomada de surpresa, Elisabeth abriu os olhos e virou a cabeça na direção do Sr. Wolton, que a olhou e sorriu. Seu coração disparou ante a ternura com que a tratava. Já tinha vestido as calças e a camisa, mas permanecia descalço, o que lhe dava um ar de pirata. Depois de dizer o que disse, aproximou-se dela e entregou-lhe um copo cheio de um líquido âmbar, que ela aceitou com cautela. — É rum — explicou. — Isso vai revigorá-la e repelir o frio. Além disso, temos que admitir que, por mais que eu gostasse de mantê-la comigo esta noite, devem estar esperando por você, não é? — Que horas são? — ela perguntou, sentando-se com um salto, alarmada. — São apenas seis horas da tarde. Elisabeth deu um suspiro de alívio. Certamente estava um pouco atrasada, não poderia ficar muito mais tempo, porém, poderia atribuir seu atraso ao perpétuo congestionamento das ruas. Sendo assim, tomou de um gole o conteúdo do copo e começou a tossir, com lágrimas nos olhos. Depois de seu quinto acesso de tosse, retirou o lençol de cima de seu corpo, mas o puxou rapidamente de volta quando percebeu que estava nua. Olhou ao redor e finalmente encontrou a


camisa caída sobre a cabeceira da cama; então, agarrou-a, passou-a pela cabeça e a puxou com dificuldade até as covas, contorcendo-se. — Não há necessidade de ser muito modesta, minha querida, já a vi nua. Ela não se dignou a responder, mas saiu da cama com agilidade, para poder vestir sua roupa o mais rápido possível. Sua camisa estava desesperadoramente amassada e não haveria qualquer explicação para ter ficado assim, a não ser que tivesse sido lavada e torcida. O Sr. Wolton — Henry, repetiu ela — deu um passo atrás, mas nem mesmo fingiu desviar o olhar. Ao invés disso, a observou com apreço, como se estivesse encantado com o que tinha diante dos olhos. Para escapar de sua admiração — um pouco óbvia, a julgar pela ligeira protuberância em suas calças — Elisabeth se abaixou para pegar seu espartilho e o puxou com dificuldade. Em seguida, aproximou-se do rapaz e virou-se de costas, pedindo implicitamente que lhe amarrasse os cadarços. Ele o fez depois de depositar um beijo em seu pescoço e de acariciá-lo, mas obviamente percebeu que ela estava com pressa, pois executou sua tarefa com rapidez impressionante. Relutante, ela se afastou para pegar sua anágua e a saia, que estavam espalhadas por todo o quarto. Tudo que ela queria era ficar em seus braços, desfrutar do calor de seu corpo até a noite cair... mas estava se recuperando. Será que queria mesmo ficar com ele? Até porque tinha aproveitado a experiência para satisfazer sua curiosidade, não para se entregar a um homem. Não podia criar sentimentos ou se acostumar; deveria apenas agradecer ao Sr. Wolton pelo prazer que tinha lhe proporcionado e seguir com sua vida como se nada tivesse acontecido. Poderia, de vez em quando, sentir um arrepio ao lembrar dos momentos que tinham compartilhado, seu coração poderia palpitar quando o encontrasse em eventos sociais, mas nada que pudesse perturbar sua paz ou interferir em sua independência. Assim que amarrou a anágua, sentiu-a deslizar por suas pernas. Resmungando por entre dentes, ela se virou e começou a colocar sua liga, mas descobriu que uma estava faltando. Revirando suas memórias, lembrou-se que a estava usando quando ela e o Sr. Wolton... bem, quando estavam deitados. Será que tinha perdido o acessório naquele momento? — Henry, você poderia fazer a gentileza de olhar se minha liga não ficou sobre a cama? — Com uma condição, minha querida. Intrigada, ela virou a cabeça para seu amante e ergueu uma sobrancelha.


— Que você me deixe ficar com ela — ele disse com um brilho lascivo no olho. Elisabeth riu, não para esconder seu constrangimento, mas porque realmente se sentia feliz que seu relacionamento tinha evoluído para tal cumplicidade, tingida de erotismo. — Concedido. Ela voltou a atenção para a própria roupa e colocou a outra liga por precaução. Em seguida, tentou ajeitar o cabelo da melhor forma possível. Não estava perfeito, mas serviria, especialmente sob a touca de renda que ela se lembrou de levar. Elisabeth já estava terminando quando percebeu que Henry ficara completamente calado. Talvez estivesse esperando que ficasse pronta para novamente despi-la?, pensou com um sorriso. No entanto, quando se virou para ele, viu-o de costas, enquanto olhava para a cama. Seus ombros estavam contraídos, e os punhos, cerrados. A jovem sentiu uma ansiedade crescendo na boca do estômago como se fosse um caroço. Então, aproximou-se dele com cautela. Colocou a mão em seu braço para chamar sua atenção. — Henry? O que houve? Ele se afastou abruptamente, como se seu toque o queimasse, e ela sentiu-se mais magoada do que poderia admitir. Sem uma palavra, ele apontou para os lençóis amarrotados e para o colchão, onde uma mancha vermelha era claramente visível. E perfeitamente identificável. Nunca, em toda sua vida, sentira tanta raiva. Nunca estivera tão perto de perder o controle de si mesmo e começar a gritar como um de seus marinheiros. Sentiu-se traído, escarnecido, caluniado. Em pé de frente para a cama, concentrando toda a sua atenção na mancha de sangue, Henry sabia que estava enfrentando um problema que começava a arruinar mais e mais sua vida a cada minuto que passava. Tinha dormido com a Srta. d’Arsac. Pior, tinha deflorado a filha do conde d’Arsac, irmã de seu amigo Louis. Ele, um forasteiro, um plebeu... Sentiu um forte aperto no peito. Se algum dia alguém descobrisse sobre aquele caso, seria expulso do país, o que seria um desastre. Ou, talvez, acabasse pendurado em uma corda antes do final do mês! Certamente não tinha estuprado a jovem, mas que diferença faria? Somente a palavra dela seria ouvida. E se uma família tão antiga e prestigiada quanto a d’Arsac decidisse levá-lo ao rei? Sem dúvida não receberia o benefício da dúvida.


Quando ela tentou tocá-lo novamente, rejeitou-a sem rodeios. Ela zombara dele, com certeza. Se tivesse lhe contado que era virgem ele teria... Será que sua consciência não o trairia? Será que realmente a enviaria para casa depois de um beijo casto? Ou será que não sucumbiria aos apelos da carne? Era incapaz de dizer. — Quando é que pretendia me contar? — ele perguntou, quase rosnando. — Não vi necessidade de compartilhar esse detalhe. Incapaz de se controlar, Henry deu vazão à sua raiva. — Um “detalhe”? Você está brincando? Fez com que eu acreditasse que já tinha tido amantes, que já estava acostumada a esse tipo de aventura... Mas fui eu que tirei sua virgindade! Pior, eu a deflorei! Você tem ideia do que irá acontecer se seu pai ou seu irmão vierem me pedir explicações? Elisabeth apertou os lábios, reprimindo sua própria irritação. Henry prosseguiu. — Poderão tachá-la como ingênua, dizer que foi seduzida, mas eu? Serei processado e condenado pelo crime que cometi. Sem poder se conter, a jovem respondeu: — Pare de sentir pena de seu próprio destino! Se decidir não falar sobre o assunto, ninguém saberá de nada, isso é tudo! Quanto a mim, deixei que acreditasse no que quis acreditar... — Vai negar que foi você quem propôs que nos tornássemos amantes? — Certamente que não! No entanto, nunca disse que tinha outro... O senhor confiou apenas em seu julgamento, creio eu. Henry ficou mudo. Avaliando sua agradável libertinagem no dia anterior, na carruagem, descobriu com surpresa que ela tinha razão, nunca confessara ter um amante. Só evitou responder às suas perguntas, fora ele quem tirara as conclusões erradas. Convenceu-se quando a viu na rua sozinha, o que era contrário à moral imposta às mulheres de sua condição. Oprimido, o jovem passou a mão pelo rosto. Comportara-se da pior forma e colhera apenas o que merecia. No entanto, não entendia o porquê de ela ter escondido a verdade com tanta obstinação e, além disso, omitido as razões para sua presença em Passy. E se era virgem, por


que tinha se entregado a ele? — Por que diabos cometeu essa loucura? — ele perguntou com uma voz fraca. Ela deu de ombros graciosamente. — Surgiu a oportunidade, isso é tudo. E devo admitir que sua destreza no baile me inspirou a saber mais... Henry fechou os olhos, pensando em toda a vergonha daqueles momentos roubados. — Será que não podemos ficar em bons termos? Afinal, passei horas agradáveis com você e estou grata. A minha curiosidade foi satisfeita sem o fardo de ter um marido, mas não tenho a intenção de espalhar nosso segredo. Não sou estúpida. Ficar em bons termos? Como era possível, quando tudo que ele imaginava ao fechar os olhos era o corpo nu e maravilhosamente ágil daquela mulher? Como, quando sonhava apenas com uma coisa: repetir a experiência o mais rápido possível? Como, quando sentia-se consumido pela culpa? Soltou um suspiro pesado e se jogou sobre o colchão. Elisabeth se aproximou dele e, por uma fração de segundo, ele acreditou que ela iria confortá-lo. Mas ele rapidamente compreendeu: inclinando-se sobre os lençóis, ela rapidamente e com uma expressão de triunfo no rosto, içou a famosa liga. Tanta indiferença chegava a feri-lo. Ele não conseguia entender como ela conseguia se comportar de forma tão leve enquanto ele atravessava mil tormentos. Ele a viu voltar para a cadeira, pegar seu vestido e contorcer-se para colocá-lo. Ela deveria saber que ele estava assistindo, ou estava apenas silenciosamente embaraçada quando olhou para ele finalmente. Henry sabia que sua expressão era sombria, mas ela sustentou seu olhar sem estremecer, parecendo quase irritada com a situação. — Bem, você não vai dizer nada? Ele procurou alguma coisa, qualquer coisa e, de repente... uma ideia germinou em sua mente. Levantando-se, ele também começou a pegar suas coisas espalhadas pelo quarto e finalmente respondeu: — É claro que sim. Já que você não tem nenhum amante, obviamente, e levando em consideração nossa nova... intimidade, poderia me esclarecer o motivo de sua presença em Passy


ontem? Colocou sua reputação e sua inocência em risco, espero que tenha valido a pena — ele acrescentou, com o rosto corado e pigarreando. Ele ficou surpreso ao ver a jovem congelar e olhar para baixo. Era um estranho acesso de timidez, que não combinava bem com sua personalidade. Ansioso para afirmar sua vantagem, Henry prosseguiu: — Bem, eu acho que você me deve uma explicação. Afinal de contas, se eu não tivesse cometido o erro de cumprimentá-la, não estaríamos aqui. A jovem mordeu o lábio, demonstrando, finalmente, uma aparência de culpa? Francamente, ele não estava convencido. Preferia acreditar que ela escondia um segredo perigoso. Ela se sentou em uma cadeira e começou a abotoar o vestido. Depois, começou a ajeitar a bainha. Impaciente, Henry exclamou: — Se não quiser dizer nada, tudo bem! Mas saiba que estará perdendo um aliado... Elisabeth ergueu os olhos, abismada. Covarde! Era exatamente o tipo de coisa que ele não deveria jogar em sua cara. Henry parecia contente por brincar com o orgulho da moça. — Só prometa que não vai rir de mim. Ele ergueu uma sobrancelha, surpreso. — E por que diabos eu iria zombar de você? Sim, era verdade. Afinal, ele fora o único que escutara suas teorias sobre educação para mulheres e sobre o amor. Respirando fundo, Elisabeth lançou: — Eu estava na casa de minha irmã de leite, ensinando-a a ler. O jovem franziu o cenho, visivelmente intrigado. — Eu pensava que os padres se empenhavam em ensinar o básico de leitura e escrita em todas as paróquias... Não há uma lei para isso? — Sim, de fato. Mas Lisette não foi muito atenciosa na sua vez, e logo precisou deixar a escola para ajudar sua mãe, a minha babá. Mais tarde, ela se casou e começou a exercer o mesmo ofício. Tudo estava bem até que...


— Até quê? — Até que seu marido morreu na última primavera. Era ele quem cuidava de algumas formalidades ou lia proclamas, e em um certo momento ela percebeu que não estava preparada para substituí-lo. Quando fui prestar minhas condolências, ela me pediu ajuda. Uma coisa levou a outra, e nós concordamos que eu iria ensiná-la a ler. Impressionado com a história, Henry permaneceu em silêncio. — Por que esconder que está fazendo essa ação de caridade? — Já não sou alvo de suas piadas? — ela perguntou na defensiva. — Não tenho nenhum motivo para rir, muito pelo contrário. Sua generosidade é tocante, e tenho que admitir que me dá ainda mais motivos para respeitá-la. Sensibilizada, Elisabeth sentiu o coração derreter. Ela estava tão certa de que ele iria ridicularizar suas ações que sua aprovação foi um alívio. Estava satisfeita, mas recusava-se a admiti-lo. — Mas por que não contou isso para ninguém? — Dentre todos que conheço, você foi o único a dar crédito às minhas ideias. Se minha família soubesse de minhas atividades, sei que não apenas levaria um sermão, mas que seria impedida de continuar. Para eles, a minha reputação, perante aqueles que me rondam, deve estar acima de qualquer tarefa que eu tenha imposto a mim mesma! Por isso quis manter segredo. Com isso, ela se inclinou para calçar os sapatos. Henry assentiu. Agora que conhecia as motivações da jovem, não podia deixar de sentir certa admiração por ela. Era teimosa e obstinada, mas colocava sua energia em favor dos outros. Ele compreendia seus motivos, como se fossem dele mesmo. Suspirou. De qualquer forma isso não mudava o fato de que a tinha desonrado e precisava reparar o erro. Aproximando-se da cadeira onde ela estava sentada, ele ajoelhou-se à sua frente e pegou suas mãos. Isso fez com que ela se erguesse, com uma expressão preocupada. — Elisabeth, precisamos nos casar. Ela recuou, descontrolada, e em seguida disse, com um riso nervoso:


— É claro que não! Já disse que não quero o fardo de um marido, e tenho certeza que você tem outros planos. — Planos ou não, não temos escolha. Já causamos danos demais à sua reputação. — Pare com isso! Já lhe disse que era meu desejo. Será que é tão tolo que não consegue compreender? Ele fez uma careta para o insulto, mas absteve-se de comentários. Era melhor não iniciar uma discussão com a Srta. d’Arsac, porque ele sentia que não sairia vencedor. Com as faces queimando, Elisabeth estava ansiosa para terminar de se vestir, mas ele percebeu que suas mãos estavam tremendo. Então, ele decidiu usar de argumentos. — Ouça, sei que você não quer se casar comigo... E devo admitir que pensar na ideia também não é algo que me encante, mas... — Então não pense. — Não é simples assim. Deixe-me terminar. Elisabeth, se você estiver esperando um filho meu... De vermelha, a jovem tornou-se pálida como a morte. Como podia ter esquecido de tal eventualidade? O que fazer? Se realmente acontecesse, o americano iria se casar era com o diabo... E ela estava arriscada a ser mandada para um convento, nos confins de uma província, para pagar por sua falha, ou pior, seria aprisionada na Salpêtrière com outras mulheres perdidas. Elisabeth fechou os olhos, tentando ignorar a vertigem. Um filho... será que queria? No fundo de si mesma, sempre desejou ter um, mas parecia-lhe um evento distante. Pela primeira vez em sua vida essa possibilidade se tornou tangível, e ela se sentia tonta. Sim, queria um filho, mas não em tais condições. — Tem certeza de que posso estar... grávida? — ela perguntou em uma voz frágil. — Não, não é certo. Se em duas ou três semanas você não sangrar... aí teremos certeza. Seu rosto visivelmente relaxou. Ela se sentou novamente. — Muito bem. Neste caso, vamos nos manter informados. Até lá, ficarei grata se não tivermos mais esse tipo de conversa. Repito: não preciso de um marido. — Ela hesitou, mas decidiu


provocá-lo. — Além disso, ouvi dizer que há formas de se livrar de tais inconvenientes. Henry sobressaltou-se com suas últimas palavras. Satisfeita, Elisabeth sabia que tinha acertado em cheio. Que a considerasse uma sem coração, uma mulher devassa... contanto que não a prendesse em uma união que temia mais do que tudo. Apressada, ela tentou fechar as fivelas de seus sapatos, mas os dedos não a obedeciam, e ela teve que tentar duas vezes. Quando finalmente conseguiu, levantou-se, pegou sua capa e a colocou nos ombros, antes de perceber que tinha esquecido de seu lenço. Na raiva, ela apenas o enrolou em uma bola, colocou a máscara e usou o capuz para cobrir a parte superior do rosto. Até o momento em que ela saiu, batendo a porta, o Sr. Wolton não fez nenhum gesto e não disse nenhuma palavra; e mesmo com ela acreditando que sua artimanha tinha funcionado, não podia não pensar que deveria haver alguns poréns. Se fosse assim tão fácil fazê-lo perder o entusiasmo, estava certa em afastá-lo imediatamente, agradecer e descer as escadas correndo. O bater da porta e o som dos passos apressados tiraram Henry de seu esturpor. As palavras de Elisabeth o tinham ferido. Apesar disso, precisava compreender que tinha arruinado sua reputação. Ele poderia compreender o motivo de uma mulher querer interromper uma gravidez, mas será que não tinha direito a opinar? Por que tinha rejeitado a ideia tão violentamente? E, mais ainda, por que isso lhe importava tanto? Afinal, não tinha nenhum desejo de se casar. Quanto ao resto... Quanto mais pensava nisso, mais a ideia de pedir a Srta. d’Arsac em casamento lhe parecia atraente. Conseguia muito bem — muito bem mesmo — imaginar uma vida compartilhada com ela, ouvindo-a falar e rir, provocar-lhe e desfrutar da paixão de sua privacidade... Este simples pensamento acendeu seus sentidos, mas ele tentou se controlar. Não, aquele não era o único motivo para levar alguém a fazer um pedido de casamento oficial, mas ele definitivamente pesava na balança. Suspirou enquanto vestia o colete. Por qual companhia seria exilado do país, caso ela não aceitasse seu pedido? Se fosse se basear pelas observações que fizera da nobreza francesa, corria o risco de ser ridicularizado. Mas isso não importava, pensou com uma nova determinação. Precisava era curar seu fascínio por Elisabeth d’Arsac.


Capítulo Dez Os corredores da Sala de Máquinas no Palácio des Tuileries sussurravam atividade. Era o intervalo da primeira peça de um comediante francês, e todos que compareceram tinham a esperança de encontrar um conhecido, atrair um marido poderoso ou simplesmente ganhar uma bebida de cortesia. No camarote ocupado por sua família, Elisabeth conversava com sua mãe, seu irmão e Félicité, que costumava passar as noites com eles. A jovem sentia que a amiga tentava conversar a sós com ela há dias, mas Elisabeth sempre se esquivava. Mas sua mãe, avistando a condessa de La Tour du Pin, foi cumprimentá-la, carregando seu filho em seu rastro. Este teve o cuidado de fechar a porta do camarote, deixando as duas mulheres sozinhas, para o desgosto de Elisabeth. Desde seu encontro com o Sr. Wolton, ela sentia que o que tinha acontecido entre eles era visível em seu rosto, embora fosse evidente que não passava de uma artimanha de sua imaginação. No entanto, tornava-se cada dia mais difícil manter a atitude dócil e submissa que esperavam dela, particulamente quando sua memória retornava às cenas picantes das quais participara. Se sua mãe parecia não notar, sua amiga, em contrapartida, era mais astuta e sabia ler melhor suas expressões, que pareciam identificar alguma coisa. Sendo assim, ela perguntou, intrigada: — O espetáculo está incrível esta noite — perguntou Elisabeth, para iniciar uma conversa trivial. Félicité explodiu em uma gargalhada, escondendo-se atrás do leque. — Vamos lá, Elisabeth! Os atores poderiam estar declamando de cabeça para baixo que você nem iria perceber! Felizmente já assistimos a esta peça, caso contrário, você nem saberia do que se trata a história. A jovem mordeu o lábio. Deveria saber que, apesar de suas evasivas, Félicité acabaria encontrando uma maneira de abordar o assunto que levava em seu coração. Teve que admitir que seria bom confiar em alguém, e sua escolha seria, naturalmente, sua melhor amiga, mas sabia que era impossível. A Sra. du Plessis vinha sendo criticada por suas maneiras desde que ficara viúva, mas, ainda assim, ficaria chocada ao saber que Elisabeth entregara sua virgindade a um homem que lhe era quase estranho e com quem não tinha intenção de se casar.


Félicité continuou gentilmente a provocá-la, mas Elisabeth já não estava mais ouvindo. Continuava a pensar naqueles momentos que compartilhara com Henry, o prazer que viera como consequência da proposta insana que fizera a ele... Sua mente vagava, totalmente sem controle. — Elisabeth? Esta levantou-se e virou a cabeça para a amiga como se tivesse sido arrancada de um sonho. — Elisabeth, você não está me ouvindo... Já faz mais de uma semana que tem estado distante e sonhadora. Se não te conhecesse tão bem, diria que está apaixonada. Estas palavras a obrigaram a retornar abruptamente à realidade. — Apaixonada? Certamente que não! — ela exclamou com convicção, enquanto tomava cuidado para não falar alto demais e não atrair a atenção de curiosos. — Não, estou apenas preocupada... isso é tudo. Félicité a examinou com atenção, e Elisabeth corou. Sentia que a amiga iria adivinhar tudo, era óbvio. — E você me fará a honra de contar o que a está incomodando tanto? Acha que sou indigna de sua confiança? Pelo tom de sua voz, Elisabeth percebeu que tinha, sem querer, magoado a amiga. Ao recusar-se a contar algo confidencial, mesmo quando se tratava de algo inocente, era como se a excluísse abruptamente de sua vida, embora tenham compartilhado tudo por quase dez anos. Sendo assim, baixou a cabeça mortificada, mas sem saber o quanto poderia partilhar de sua experiência. — Perdoe-me — ela finalmente disse. — Estou tão atormentada que nem sei por onde começar. — E se começarmos por aquele belo americano, o Sr. Wolton? — Félicité abriu um sorriso malicioso. — Não tente negar — ela acrescentou quando Elisabeth estava prestes a contestar. — Todos nós percebemos que você mostrou interesse nele. Ah, se você soubesse, minha cara...


— Além do mais — disse sua amiga —, ele pareceu muito entusiasmado com você quando seu irmão os apresentou... Quase podia se dizer que já se conheciam. Será que as coisas poderiam ficar piores?, Elisabeth se perguntou. Félicité era tão perspicaz que acabaria por fazer a conexão entre a história de sua aventura no baile e o jovem de quem estava falando. — Sim, é verdade que já nos conhecíamos — ela admitiu, sentindo a alma morrer. — Mas não tentei encorajá-lo. — Sua mentira foi tão grande que a sentiu como uma maldição na língua. — Talvez ele me ache mais acessível que as outras senhoras? Afinal de contas, é amigo de Louis... Elisabeth pensava que seu irmão iria, com certeza, encontrar uma forma de culpar o comportamento do Sr. Wolton em relação a ela. Porém, apesar de expressar claramente sua admiração, ele protegeu sua reputação, parecia que ninguém sabia que sua relação tinha se tornado tão íntima. — Desculpe-me pelo que vou dizer, mas não acho que a amizade dele com seu irmão tenha algo a ver com a atitude do Sr. Wolton em relação a você. Diga-me... não seria ele o misterioso cavalheiro com quem você se encontrou no baile? — ela acrescentou, olhando fundo nos olhos de Elisabeth. Pronto! Tinha sido descoberta. Agora sua amiga não iria descansar até saber a verdade... e esta provavelmente estava estampada em seu rosto, a julgar pela expressão satisfeita da outra. — Foi o que pensei — ela disse com um ar tranquilo. — Até porque, você nunca errou tantas notas ao piano... — Eu... eu... você contou para alguém? Félicité demonstrou uma falsa e exagerada expressão. — Elisabeth d’Arsac, você sabe que eu jamais denunciaria uma conduta nem se a achasse reprovável. E beijos não são nada indesejáveis, especialmente quando dados por um belo estranho — ela disse com um sorriso. — Foram bons, pelo menos? Atordoada com a pergunta, Elisabeth olhou para a amiga com os olhos arregalados


antes de forçar-se a responder. — Bem, devo admitir que foram muito bons. Pronto, ela tinha confessado. Tinha certeza que deveria estar vermelha como um tomate, mas sua amiga gentilmente segurou sua mão. — Vamos lá, não se preocupe com isso. Foi uma brincadeira inocente, nada mais. — Se você diz... — Mas é claro! Além isso, tenho certeza de que você não vai se importar se ele se juntar a nós esta noite... — Como assim? Achei que ele viria com o Sr. Franklin... principalmente porque meu irmão nos deu a graça de sua presença também. — Sim, mas eu o convidei para se juntar a nós no jantar. Sua vida estava se tornando muito complicada. Tentava com todas as forças evitar aquele homem, que tentara convencê-la a uma união que não desejava, e agora se colocava novamente em seu caminho. A providência divina, às vezes, tinha um senso de humor questionável. Mas o que mais incomodou a jovem era perceber que parte de si estava ansiosa para rever o amante. Enquanto ele passava por entre os convidados, ela começou a observá-lo, lembrando do momento em que o viu nu naquele quarto... Ela suspirou e sentiu um calor familiar erguer-se entre suas pernas. Acreditava que aquela experiência que compartilharam ficaria permanentemente marcada e se provava insuficiente. Ainda assim, era impensável um reencontro íntimo, já que sua reputação ainda estava intacta. Tiveram sorte na primeira vez, então, preferia não abusar. Talvez Henry pudesse ouvir seus argumentos... Se ela lhe explicasse francamente que estava com medo de sucumbir mais uma vez à tentação, talvez ele concordasse em não comparecer em eventos sociais onde ela estivesse pelo menos por algum tempo? Tempo suficiente para esquecer sua proposta insana. Sim, com certeza apresentaria sua ideia a ele; se conseguia reconhecer uma virtude no rapaz era seu senso de honra. Ele poderia desaparecer se ela expressasse suas reservas. Sentindo-se mais tranquila, Elisabeth foi capaz de retomar a conversa sem problemas,


especialmente porque sua mãe e seu irmão voltaram ao camarote, poupando-a das perguntas persistentes de sua amiga.

Depois de ser retido pelo Sr. Franklin por um bom tempo, Henry chegou na mansão du Plessis a tempo para o jantar. Havia mais convidados do que ele esperava, umas boas quinze pessoas. Foi surpreendido com a pouca quantidade de mulheres que participavam, apenas duas senhoras casadas, cujos maridos não estavam presentes, e Elisabeth. Ele queria acreditar que a presença de seu irmão ali seria uma garantia suficiente para sua reputação. Não era exatamente o que ele esperava. Acreditara ingenuamente que um encontro em um jantar menos formal e mais restrito lhe permitiria aproximar-se da mulher, mas se enganara. Por quase dez dias, maquinara astutamente um desaparecimento para que não acabassem ficando sozinhos. No entanto, não desistiria de seu intento! Já que ela não se dignou a mantê-lo informado sobre suas condições, sobre estar ou não grávida, ele descobriria por si mesmo. Tentando manter-se tranquilo, Henry se misturou aos convidados e às conversas. Como que propositadamente, posicionou-se distante de Elisabeth, e foi isso que o impediu de falar com ela durante a refeição. As observações foram galantes, mais soltas do que os costumes dos salões de visitas. No entanto, ele tinha a impressão de que tudo era enfadonho demais. Não que fosse contra um pouco de deboche, pelo contrário. Mas não conseguia parar de reparar que muitos dos convidados voltavam a atenção para sua amante — não sua futura esposa —, e isso o deixou terrivelmente ciumento. A refeição finalmente terminou, e todos começaram a falar de política, enquanto se acomodavam na sala de estar. Henry queria aproveitar esse momento para se aproximar de Elisabeth, mas não podia esquecer que sua missão era a de ganhar a simpatia para a causa americana. Era por isso que tentava mostrar os tesouros da eloquência para responder as perguntas sobre o Congresso e a guerra contra os ingleses. Pelo canto do olho, viu que a jovem, alvo de seus pensamentos, estava sentada em um banco, em uma conversa profunda com um convidado cujos olhos pareciam mais interessados em seu decote do que em seu rosto. Precisou conter-se para não atravessar o salão para chegar àquele palerma e ensiná-lo a ter boas maneiras. Porém, Louis não se intimidou. Como um guardião, colocou-se atrás da irmã e lançou um olhar assassino ao seu interlocutor. O rapaz empalideceu um pouco, endireitou-se e mudou de atitude imediatamente.


Elisabeth virou-se para olhar para o irmão, mas este sorriu de forma inocente e afastouse rapidamente. Aproximando-se de Henry, apertou seu braço levemente e disse-lhe ao ouvido: — Por favor, cuide dela. Henry sufocou sua vergonha e apenas balançou a cabeça em silêncio. Sim, ele iria cuidar dela pelo ciúme que sentia, mas Louis iria matá-lo se soubesse o que tinha feito com sua irmã. Com seus pensamentos obscuros ruminando em sua cabeça, viu a garota se levantar e sair da sala sem que o jovem a seguisse. De repente, nada mais importava — nem mesmo a conversa com objetivos políticos para seu país ou os rumores que precisava ouvir. Necessitava falar com ela em particular, e esta oportunidade, provavelmente, não se repetiria. Queria mostrar-lhe que uma união entre eles era imperativa, talvez fazendo uso de meios indiscretos. Ele sorriu, imaginando que deveria estar perdendo a cabeça para cogitar forçar beijos e carícias, mas não se importou. Sabia que ela o preferiria àquele grosseiro que fora repreendido por Louis. Enquanto procurava uma desculpa para sair da sala, Madame du Plessis o chamou: — Sr. Wolton, o senhor poderia, por favor, ir buscar o meu leque? Acho que posso tê-lo esquecido na biblioteca. Aquele tipo de pequenos favores para senhoras eram uma coisa comum, então, Henry não ficou surpreso, mas grato, porque agora tinha uma razão válida para ficar ausente. Inclinou-se em uma mesura para sua anfitriã e saiu da sala. Por ter virado-se de costas, não viu Louis e Madame du Plessis trocarem um olhar cúmplice. Assim que chegou ao corredor, parou um criado, que carregava algumas taças de vinho, e pediu que lhe demonstrasse o caminho para a biblioteca. Esta ficava do outro lado da casa, nos fundos da propriedade. Henry caminhou apressado, porque os corredores não eram aquecidos, causando um contraste desagradável com a sala de estar. Decidiu realizar imediatamente a tarefa que lhe foi confiada para começar a procurar pela Srta. Arsac. Chegando em frente à pesada porta de carvalho, que parecia coincidir com a descrição que lhe fora dada, ele a abriu de uma vez e ficou surpreso ao se deparar com a jovem sentada em uma poltrona perto do fogo, sem sapatos, olhando para as chamas. Infelizmente, o barulho que fez ao chegar a assustou, fazendo-a virar-se em sua direção, contemplando-o com sua imagem encantadora, com o rosto refletindo as muitas emoções que guardava: espanto, irritação e... outra coisa. Desejo?


Isso o animou. Talvez a Srta. d’Arsac não o odiasse, afinal, como temia desde seu último encontro. No entanto, agora que estavam sozinhos, ele não conseguiu conter a sensação de nervosismo. O que ela diria? Será que apelaria para seu irmão? Ele chegou a morder os lábios. — Elisabeth, é um prazer encontrá-la aqui. — Provavelmente não era um diálogo muito original de entrada, mas precisava começar de algum lugar, afinal, se ela estivesse esperando um filho seu, teria que agir com o coração. A jovem mulher olhou para ele com uma expressão cansada, como se não o tivesse escutado. Antes que ele pudesse repetir a frase, ela disse: — Na verdade, Sr. Wolton... estou cansada de vê-lo fugir. Henry poderia facilmente ter interpretado aquela afirmação como algo positivo, mas a expressão distante de sua companheira não parecia nada boa. — Durante dez dias eu me empenhei em conseguir um encontro a sós com você. Isso é muito perigoso, especialmente, porque nosso acordo pareceu ter sido esquecido. Temos um assunto a tratar. Ela descruzou as pernas, revelando seus tornozelos sem qualquer intenção. Henry, dominado pelo desejo, fez o possível para ignorar a cena. — Embora possa parecer surpreendente, após nosso último encontro, quero preservar minha reputação. Agora, a única maneira de impedir os rumores é parando de se mostrar tão ansioso em relação a mim. Sua expressão deve ter se tornado miserável, pois subitamente Elisabeth se mostrou mais terna, suavizando suas feições. Naquele momento, ela pareceu-lhe incrivelmente linda, e ele precisou forçar-se a não se jogar aos seus pés. Ao invés disso, sentou-se e tentou manter a dignidade. — Você realmente acha que isso iria silenciar as fofocas? Pelo que tenho visto, nada pode pará-los, especialmente em Paris! Se eu desaparecer de perto de você de repente, não os faria tirar conclusões erradas? Voltando seus olhos para o chão, Elisabeth novamente pareceu imersa em seus pensamentos. Mordeu o lábio, um sinal de que algo a estava incomodando. Henry ficou maravilhado por ser capaz de decifrar todos esses pequenos sinais.


— Elisabeth — disse ele, dando um passo em sua direção. — Sinto que está escondendo alguma coisa, Por favor, me diga. Juntos, talvez, possamos resolver seus problemas. Ela se virou novamente para ele e, à luz do fogo, ele achou ter distinguido o brilho de lágrimas em seus olhos. Alarmado, ele pegou sua mão e a apertou gentilmente, esperando que seu gesto pudesse confortá-la e incentivá-la a confiar. Será que anunciaria uma gravidez?, ele se perguntou com ansiedade. — Não estou grávida — ela finalmente disse, como se estivesse lendo sua mente. — Sangrei três dias depois. No entanto... Devo dizer que estou sentindo um pouco de saudade dos momentos deliciosos que compartilhamos. Henry sabia que não ajudaria em nada se sorrisse, mas estava tão aliviado com a notícia que seu encontro não tivera consequências... Embora não soubesse que estava segurando o fôlego, suspirou. Ainda assim, ela colocou um ponto final em seu bom humor. — Mas terão que ser apenas memórias prazerosas. Sei que não poderemos repetir nossa aventura. Temos muita sorte de não terem descoberto sobre nossa aventura e não quero provocar o destino novamente. Como já expliquei muitas vezes, não quero me casar; não tenho interesse na vida conjugal, ao menos agora. Ela voltou seus olhos para ele e se manteve assim. — Henry, eu lhe imploro, você precisa ser forte por nós dois. Sei que serei incapaz de resistir se você me seduzir novamente. Pare de buscar minha companhia, pare de me fazer pedidos que não poderei responder favoravelmente. Por favor... Sua voz falou, e Henry sentiu-se chateado. Ela estava certa... Ele precisava cuidar de sua honra, exatamente como Louis lembrou-lhe involuntariamente mais cedo. No entanto, ele se viu não querendo desistir. Não naquele momento. Queria estar em paz com sua consciência. Respirou fundo e levou as duas mãos da jovem aos lábios, depositando nelas um beijo. Então, disse: — Elisabeth, deixe-me fazer um pedido formal à família d’Arsac. Era como estar em um sonho ruim. Se ela não o conhecesse melhor, Elisabeth teria sérias dúvidas quanto a sanidade do Sr. Wolton. Ela planejara lhe explicar, com os argumentos mais lógicos possíveis, que não poderia se casar com ele, mas ele surgia com a ideia de pedir sua mão! Ela não conseguia entender. Se estivessem em um contexto diferente, ela poderia jurar que ele


queria apenas deixá-la irritada. Se fosse isso, estava obtendo sucesso. Chocada, ela se levantou e afastou-se dele, sem saber se deveria ficar ou fugir da biblioteca. Mas não teve tempo. Ele provavelmente previu sua reação e agarrou-a, passando o braço em torno de sua cintura e beijando-a para sufocar seus protestos. Elisabeth realmente teria gostado de empurrá-lo para longe de si. Chegou até a fazer um gesto com esse fim, colocando as mãos sobre o peito largo, afastando-o com toda força, sem sucesso. Henry a segurava contra ele com um braço, enquanto a outra mão se fechava em seu seio, perto do coração. Sentindo as pernas cederem, ela se inclinou contra ele, deleitando-se com a sensação de tê-lo tão perto de novo. No entanto, ele rapidamente finalizou o abraço, como se desconfiasse das consequências de suas ações. Sem fôlego, ele conseguiu iniciar a conversa. — Perdoe meu comportamento descuidado, mas o que vou dizer requer sua total atenção. Meio divertida, meio exasperada com esta admissão, Elisabeth fez beicinho. Estava determinada a manter sua posição. Notando seu beicinho, Henry continuou. — Eu gostaria de sua permissão para pedi-la em casamento para o seu pai, para resolver as coisas entre nós. — O que quer dizer com isso? — Pense nisso: você realmente acredita que o conde d’Arsac deixaria sua filha se casar com um plebeu vulgar, um americano? Pega de surpresa, a jovem abriu a boca, mas não saiu nenhum som. Ela estudou a questão por um momento, considerando os resultados possíveis... e chegou à mesma conclusão que Henry: antes de seu pai conceder sua mão a um homem, este deveria mostrar suas credenciais. Era óbvio que o histórico familiar do rapaz não poderia competir com o dela, por mais talentoso que ele fosse. — Não — ela finalmente disse. — Acho que meu pai não iria aceitar o seu pedido. Mas posso reforçar meus próprios argumentos...


— Deixe-me terminar — ele a repreendeu suavemente. — Imagine só, o seu pai, com certeza, irá recusar a minha proposta. Ele se mostrará cortês, mas se oporá firmemente à ideia dessa união, embora seus motivos, certamente, serão diferentes dos seus. No entanto, nós dois ganharíamos: eu terei a satisfação de ter tentado corrigir meus erros, mesmo sendo recusado; e você, devo dizer, poderá esfriar alguns pretendentes. Uma vez que já observei suficientemente a nobreza francesa, a maioria não aceitará ter sido passado para trás por mim... Então, você irá, por um tempo, ter uma paz de ofertas matrimoniais à sua família. Elisabeth deu a si mesma tempo para digerir o raciocínio, mas já sentia uma esperança tola nascer. Isso lhe permitiria recuperar a independência em tudo, menos na culpa. Sua própria mãe não acharia nada de errado na situação. Porém, seu coração lhe dizia para impedi-lo. Se funcionasse — pois havia uma chance remota de o plano falhar —, Henry teria que deixar de vêla, talvez até mesmo evitá-la, o que seria doloroso. O rapaz sentiu sua hesitação e decidiu conceder-lhe alguns momentos para refletir, sem pressioná-la. Ela caminhou em direção à janela e olhou atráves dela, sem prestar atenção ao jardim francês, coberto de neve. Abraçando a si mesma, prolongou seus pensamentos mais do que o necessário, mas dentro de si mesma sabia que era a melhor solução. Oferecia a ambos soluções perfeitas e faria com que os fofoqueiros encontrassem outro alvo. Ela se virou na direção dele e estava prestes a responder, quando a porta da biblioteca se abriu revelando seu irmão. Este dirigiu-se ao Sr. Wolton. — Henry, a Sra. du Plessis gostaria de lhe avisar que encontrou seu leque e pediu que lhe agradecesse pelo favor. Este finalmente enxergou a irmã. — Elisabeth! Você está aí! Pensei que tinha ido embora. — Eu interrompi a Srta. d’Arsac em suas meditações, e ela foi gentil o suficiente para não me mandar embora — disse Henry, indo em defesa da jovem. — Ah, entendo. Neste caso, vou deixá-los. Louis aproximou-se para falar ao ouvido da irmã. — Cuide de sua reputação. Sei que Henry não lhe fará mal, mas ser encontrada a sós


com ele poderia lhe causar problemas. — Claro — ela conseguiu balbuciar. — Eu entendo. Elisabeth esperava que a escuridão da biblioteca escondesse sua expressão. — Tentarei me lembrar disso. — É bom mesmo. Louis disse em voz alta, sem tirar os olhos da irmã. — Henry, vamos voltar para o salão e deixar minha irmã sozinha um pouco. Elisabeth, lembre de trancar a porta depois que sairmos. Não quero que ninguém a encontre aqui. E não espere muito tempo para se juntar a nós. Pelas costas, Henry lhe dirigiu um olhar suplicante. Ele não se esquecera que ela lhe devia uma resposta à sua proposta e suplicava que ela aceitasse. Louis se encaminhava em direção à porta com os olhos colados aos do amigo, enquanto Elisabeth balançava a cabeça em concordância, selando o acordo.


Capítulo Onze Ele quase não precisou esperar na antessala, o que era um bom sinal. Foi tratado como um convidado de honra. Pessoas importantes tinham a tendência a deixar seus visitantes esperando por muito tempo, para mostrar sua superioridade. Mas assim que Henry apresentou-se a um criado, este apressou-se em anunciá-lo e o introduziu quase que imediatamente no escritório do conde d’Arsac. No dia anterior, quando se viu sozinho com Louis, falou com ele sobre seu desejo de pedir a mão de sua irmã. Este provou-se bastante favorável a esta decisão e lhe passou alguns conselhos. — Sabe que estou com você de todo coração, e espero que obtenha o consentimento de meu pai e de minha irmã. No entanto, gostaria que me deixasse falar com o conde amanhã de manhã, antes de apresentá-lo depois do jantar. Não posso garantir nada, mas vou defender sua causa. Surpreso pelo apoio inesperado, Henry agradeceu a seu amigo, sentindo-se ansioso. E se Louis obtivesse o consentimento de seu pai? Mas logo o jovem voltou à razão: Elisabeth iria recusálo. Contudo, por um breve momento, pensou nela como sua futura esposa... Mas logo descartou o pensamento. Ela não era sua, não podia querer exercer quaisquer direitos sobre ela. Iria pedir sua mão, receberia uma recusa educada e a deixaria para viver sua vida. Mais tarde, ambos se reencontrariam com seus novos pares. O que o fez ranger os dentes, recusando-se a imaginar outro homem compartilhando da vida da jovem mulher e desfrutando de seu corpo delicioso. Voltando ao presente, Henry entrou no escritório, de um tamanho relativamente pequeno, se levasse em consideração a grandiosidade do mansão. Uma escrivaninha, uma poltrona e dois assentos constituíam a maior parte do mobiliário. Um fogo crepitava na lareira, mas havia uma tela diante dele para evitar que as faíscas danificassem o carpete. Reparando em sua presença, o conde levantou-se para cumprimentá-lo. Era um homem altivo. Tinha provavelmente uns sessenta anos, mas a idade lhe fizera bem; possuía a mesma estatura imponente que seu filho, embora seu olhar fosse mais duro, sua expressão fosse mais fechada, possuísse rugas profundas. Parecia estar em um campo de batalha,


não em uma mansão em Paris. Ele irradiava uma autoridade natural, que dava a Henry o desejo de lhe reservar toda a atenção. Ele se endireitou um pouco e tentou manter uma atitude relaxada, o que não foi fácil. Desejando respeitar a solenidade do momento, vestia um casaco ornamentado e estava usando uma peruca. No entanto, o Sr. d'Arsac o saudou amavelmente e convidou-o a se sentar de frente para ele. ​— Sr. Wolton — ele começou —, já sei o motivo de sua visita. Meu filho me explicou esta manhã. Cautelosamente, Henry balançou a cabeça em silêncio, à espera de seu anfitrião, que logo continuou: — Não sei se sabe, mas a questão do casamento de minha filha é algo que me preocupa há anos. Recebi muitas propostas, mas ela rejeitou todos, alegando que era muito jovem ou que o pretendente não era adequado. Ele pigarreou. Algo estava errado. O homem parecia quase envergonhado... — Mas em apenas alguns meses você conseguiu fazer amizade com meu filho e encantou minha filha. Isso representa uma façanha. O que mais me surpreende é que Louis tenha assumido a sua causa, sempre foi generoso com sua amizade e o estima muito. Poderia fazer a gentileza de me explicar como conseguiu isso? Aquele questionamento parecia um teste. No entanto, Henry sentiu que o Sr. d’Arsac procurava, sobretudo, avaliá-lo. Ambos nunca tinham tido a oportunidade de ser apresentados um ao outro, e Henry surgia querendo se casar com Elisabeth. Por isso, respondeu o mais calmamente possível. — Estou sinceramente tocado por suas palavras, porque o carinho do Sr. d’Arsac, seu filho, é ainda mais valioso para mim. Como explicar? Acho que tentei ganhar a consideração de seus filhos permanecendo fiel ao meu dever, aos meus princípios, que me ensinaram que deveria respeitá-los. Na verdade, Henry não sabia explicar sua amizade com Louis; eles se entenderam desde o início e passaram a confiar um no outro. Quanto a Elisabeth, seu relacionamento iniciou de forma significativamente menos convencional... talvez, tempestuosa. Sua resposta pareceu satisfazer


o conde, cujos lábios se contraíram em um sorriso. — Muito bem. Agora que este problema foi esclarecido, quero saber por que deveria lhe dar a mão da minha filha ao invés de concedê-la a outro. Porque não vou negar que o Sr. de La Ferté deseja unir-se a Elisabeth e pretende visitar-me em poucos dias. Você já o conheceu, se bem me lembro. De repente, ele percebeu-se não mais fingindo. Sentindo a ameaça daquele nobre desprezível, e conduzido por um sentimento que preferiu não reconhecer, Henry implantou seus argumentos de forma eloquente e completa. Precisava conseguir a mão da jovem de qualquer maneira. Apenas quando terminou seu monólogo foi que se apaziguou. Aos poucos, tornou-se consciente de que estava lutando apaixonadamente, quando deveria tratar aquele problema como um negócio. Era assim que os nobres se casavam. Além disso, não podia esquecer que tinha chegado a um acordo com Elisabeth, algo que lhes proporcionaria uma saída honrosa. Será que tinha falado demais? Sem dizer uma única palavra, o conde dirigiu-se à lareira, ficando de frente para ela, parecendo absorvido por seus pensamentos. Algo em sua atitude o fez lembrar Elisabeth no dia anterior, e Henry mais uma vez se surpreendeu com a facilidade com que tomou nota daquelas características dela. Elisabeth... o que será que estava fazendo naquele momento? Será que estava em seu quarto, nervosamente aguardando o resultado de sua reunião com o Sr. d’Arsac? Ou será que estava na sala com sua mãe e sua irmã mais nova? Ou colocara-se o mais longe possível para se distanciar daquela proposta de casamento tão estranha e evitar um encontro constrangedor no corredor? O pai da jovem mulher de repente se virou e o olhou diretamente nos olhos. — Ouvi seus argumentos, Sr. Wolton, e reconheço que eles parecem estar repletos de sentido, embora seu nascimento não invoque em seu favor. Henry fez uma careta. Por mais que aquela observação tivesse sido feita apenas como uma declaração simples, não era menos depreciativa. — Isso não responde à pergunta principal: por que escolheu minha filha? — perguntou o conde d’Arsac.


Sentindo-se surpreso por um momento, Henry se remexeu na cadeira, na esperança de encontrar uma posição mais confortável. Todas as frases a respeito da beleza e do espírito da jovem lhe surgiram, mas ele as rejeitou, com a impressão de que, com elas, iria perder a boa vontade do Sr. d’Arsac. Sem muita consciência do que estava fazendo, começou a falar com grande franqueza. — Descobri-me recentemente cativado pela Srta. d’Arsac. Não posso viver sem ela, e se ela se tornar minha esposa, juro que me empenharei em fazê-la feliz. Claro que a escolha é dela, e eu entenderei se me recusar, mas ela terá a certeza de minha admiração e meu respeito mesmo assim. Um profundo silêncio seguiu sua declaração, e Henry estava certo que tinha arruinado suas chances. Por um momento sentiu vontade de retirar tudo o que disse, educadamente, é claro, em deferência à sua amizade com Louis, e garantir que nunca mais abordaria Elisabeth. Além disso, todos falariam sobre seu fracasso retumbante e o ridicularizariam. Ele só precisaria pegar o Sr. Franklin e voltar para a América. Porém, descobriu que o Sr. d’Arsac o olhava com bondade e não parecia inclinado a rejeitá-lo. — Então, neste caso, você irá se casar com minha filha e nos certificar de que irá silenciar as fofocas. Um pouco desconcertado por ter ganhado o apoio do conde, Henry perguntou: — Não deveríamos buscar o consentimento da Srta. d’Arsac? Ela poderia recusar, e é seu direito. Seu anfitrião o deteve com um gesto. — Vou atestar a seu favor. Claro que não direi o que acabou de me falar, porque acho que você é quem deve fazê-lo. Completamente desorientado, Henry assentiu e educadamente agradeceu ao conde. Este continuou. — Vou imediatamente buscar Elisabeth. Você poderia esperar na sala de leitura, que fica logo ao lado, enquanto mostro à minha filha meu parecer favorável?


Henry foi incapaz de dizer qualquer coisa. Como em um sonho, ele foi guiado ao cômodo adjacente, e, após a saída do Sr. d’Arsac, afundou-se em uma cadeira. Com a cabeça entre as mãos, orou para não ter cometido um erro monumental. Sentada em sua cama, com as mãos no colo, Elisabeth morria de ansiedade esperando ser chamada pelo pai. Esperara pela chegada do Sr. Wolton durante toda a manhã e quase se sentiu aliviada quando não o viu. Mas um olhar encorajador de seu irmão durante o jantar e a entrada de um visitante no hall acabou com suas esperanças. Sob algum pretexto, subiu ao seu quarto para orar por um resultado favorável e rápido. Parecia estar durando uma eternidade, mas Henry não estava lá há mais de meia hora. O que será que estavam conversando? Será que Henry já tinha feito o pedido, ou será que estava esperando o momento certo? Será que o conde riu dele ou simplesmente recusou educadamente? Ela sabia que o pai era muito ligado à honra e à tradição da família... Será que consideraria a proposta do Sr. Wolton como um insulto? Passos na escada interromperam seus pensamentos. Houve uma batida na porta, e Elisabeth se levantou rapidamente, dando ordem para entrar. Uma empregada apareceu na porta e se curvou antes de anunciar. — Senhorita, o conde a está chamando em seu escritório. Elisabeth assentiu e seguiu a criada. Sua sorte estava lançada. Em poucos minutos iria recusar a proposta de casamento e, finalmente, se livraria de tudo aquilo. No corredor que levava até o escritório, alisou sua saia nervosamente. Será que Henry ainda estava presente para ouvir sua declaração? Ou será que o pai o mandara embora depois de sua recusa? Ao chegar, ela respirou fundo, ergueu o queixo e bateu na porta. Sem esperar por uma resposta, ela entrou, usando este pequeno privilégio reservado a membros da família. O conde estava sentado à sua mesa, mas levantou-se ao vê-la. Fez uma reverência, antes de apontar o assento para que ela se acomodasse. Seu pai estava sozinho, o que provavelmente significava que o Sr. Wolton tinha sido recusado e fora embora. Estranhamente, sentiu-se um pouco decepcionada; não teria a oportunidade de apresentar suas desculpas e agradecer os riscos que ele correu para preservar sua reputação. Apesar de sua ansiedade, Elisabeth conseguiu permanecer impassível enquanto perdurava o silêncio. Aprendera a esperar quando seu pai tinha algo a dizer. Contudo, este


finalmente quebrou o silêncio. — Minha filha, acabo de receber uma visita singular. Mas eu acho que você já está ciente. Não vendo nenhuma razão para negar, Elisabeth assentiu. — Acredite em mim, fiquei surpreso com a abordagem do Sr. Wolton e mais ainda por você ter aceitado que ele viesse pedir sua mão. Ele obviamente é um homem digno, uma vez que seu irmão valoriza sua amizade, mas estou surpreso que ele tenha vencido sua reticência. Em tempo, ela disse: — Pai, eu compreendo seu sentimento. Francamente, tentei dissuadi-lo de seu intento, mas ele não me ouviu. — Você não gosta dele? Louis pareceu convencido de seu interesse. Por que diabos Louis teve que interferir naquela história? Era provável que acabasse complicando as coisas. — Eu reconheço que o aprecio e que tivemos a oportunidade de conversar agradavelmente. No entanto, temo que Louis esteja enganado. Não sinto nenhuma vontade de me casar com ele. O conde olhou para ela por um segundo. — Isso quer dizer que não irá responder à proposta de forma favorável? Em apenas um momento, tudo estaria terminado. — Sim, papai. Lamento. Com isso, a expressão do Sr. d’Arsac tornou-se sombria. — Isso é um problema, pois dei meu consentimento ao Sr. Wolton. — Mas... é impossível. Ele nem sequer fez o pedido a mim. — O simples fato de ele ter se apresentado aqui me mostra que você o encorajou de alguma forma. Além disso, lembre-se que a decisão é minha. E não vou voltar atrás.


— Não, pai! — Basta, Elisabeth! Durante quatro anos nós tentamos, eu e sua mãe, encontrar-lhe um marido. Temos sido pacientes, mas você não pode permanecer solteira para sempre, minha filha. — Mas você não pode me forçar a casar. O conde apertou os olhos, mal contendo sua raiva. — Sejamos claros, e vou dizê-lo apenas uma vez. Vamos celebrar seu casamento antes da Quaresma — ele afirmou com um tom de voz perigosamente baixo. — Por quê? — ela murmurou distraída. — Por que agora? Seu pai soltou um suspiro antes de responder: — Você é apenas uma criança, mas vou lhe contar... Saiba que nossas finanças estão muito mal; nossa família está à beira da ruína, e eu gostaria de manter nosso nome distante dos credores e do tribunal. O Sr. Wolton é um homem rico, que poderá nos ajudar a restaurar nossa situação. Foi como se o chão começasse a balançar sob seus pés. Então, sua existência e seu modo de vida foram baseados em mentiras? Claro, os nobres eram conhecidos por suas extravagâncias — eram requisitos de suas posições —, mas ela nunca teria suspeitado que a situação era tão grave. Quanto a Louis... ele nem sequer se preocupara em conversar com ela. Como herdeiro do título, com certeza estava ciente do problema. — Eu entendo, pai. Você decidiu me vender pelo melhor lance — ela respondeu com uma voz áspera. O Sr. d’Arsac empalideceu com o insulto. Elisabeth era teimosa, mas nunca se atrevera a falar assim. — Minha filha, preste atenção às suas maneiras, ou poderei mudar de ideia e mandá-la para um convento para que aprenda a ser humilde! — Ele fez uma pausa para enfatizar suas palavras, antes de retomar, pensativo — Claro que se me informar que deseja servir o Nosso Senhor, terá minha benção. O chamado de Cristo não pode ser discutido. Elisabeth fechou os olhos, sentindo-se presa. Levar moças para o convento era uma


maneira muito comum de se livrar delas. Além de ser conveniente ter uma religiosa na família, o montante a se pagar era muito menor do que para um casamento, além de poder dispensar as despesas com a festa. A jovem acreditava em Deus, mas não tinha vocação para a vida monástica. Seu pai sabia perfeitamente disso e não hesitou em usar de chantagem. Em desespero, ela exclamou: — Mas, pai, o Sr. Wolton nem sequer é nobre! Ela envergonhou-se por usar tal argumento, mas sabia que poderia ser o único que o conde levaria em consideração, por ser tão orgulhoso de seu nascimento. No entanto, ele fez uma careta. — Eu não pensava que você era tão apegada a estes princípios — ele disse em um tom amargo, e Elisabeth teve a certeza de que o tinha desapontado profundamente. — Sei que o Sr. Wolton tem ligações com o Embaixador Franklin, goza de estatuto diplomático aqui, que é quase o mesmo de um bom nascimento. É um homem talentoso, que irá, estou certo, ascender ao mais alto cargo. Além disso, Sua Majestade pretende assinar uma aliança com os americanos, e sua união seria benéfica para nossos interesses da corte. A jovem olhou para baixo, sem saber o que dizer. Tinha a impressão de ter agido de forma insensível, como todas aquelas pessoas que se mostravam tão superiores quando tentava falar sobre suas ideias. Não, era pior ainda, pois conhecia as qualidades de Henry. No entanto, sua raiva não diminuiu; recusava-se a ceder. — No entanto — disse o conde —, se o nascimento é um obstáculo intransponível para você, saiba que o Sr. de la Ferté solicitou uma reunião comigo daqui a dois dias, e acho que pode imaginar as razões. Seria uma união maravilhosa, por conta de nossas famílias, mas não vou negar que ele está em uma situação ainda mais precária do que a nossa. Ela poderia ter começado a rir da ironia da situação. Teria Henry planejado tudo isso para forçá-la a casar-se com ele? Será que seu irmão estava mancomunado? Será que seu pai tinha tomado a decisão antes mesmo dessa conversa desastrosa? — Então eu não tenho escolha — ela sussurrou amargamente. — Pense bem, Elisabeth. Poucos pais teriam dado tanta autoridade à filha. Você tem uma escolha. Posso lhe conceder esta noite para que me dê sua resposta.


Escolha? Fosse como fosse, estava decidido. Ela não iria para o convento e não queria se casar com o Sr. de La Ferté. Ao menos tinha um bom relacionamento com o Sr. Wolton. — Não será preciso esperar, pai, minha escolha já foi feita. Vou me casar com o Sr. Wolton, já que é seu desejo. Mas não me peça para ficar feliz! — Isso nunca foi discutido, Elisabeth — respondeu friamente o Sr. d’Arsac. Em uma explosão final de rebelião, a jovem virou-se de costas e saiu sem despedir-se, batendo a porta atrás dela. Assim que chegou ao corredor, ergueu as saias e saiu correndo para fechar-se em seu quarto. Ela o recusou, como já esperava. Mas será que precisava destacar sua falta de nobreza?, Henry pensou, irritado. Quando Elisabeth usou esse argumento, chegou a sentir um soco no estômago. Ela falara com tanta força, com tanta convicção... Apesar do ar de tolerância que lhe demonstrou, não era melhor do que os outros. Certamente ela devia estar irritadíssima, então, a vitória deixou um gosto amargo em sua boca. Era óbvio que apenas concordara para render-se à pressão de seu pai. Incapaz de ficar parado por mais tempo, Henry levantou-se e colocou as mãos atrás das costas. Sentiu a necessidade de quebrar alguma coisa para conter sua fúria, mas não era devastando a casa que conseguiria estabelecer um bom relacionamento com o pai da moça com quem estava prestes a se casar. O conde d’Arsac surgiu no limiar da sala de leitura e fechou a porta. Ele parecia mais humano do que minutos atrás. O confronto com a filha tinha deixado sua marca. Trazia uma expressão de desculpas e... compaixão. Henry empertigou-se e cerrou os dentes. Não seria objeto de piedade, não deixaria que ninguém o visse como tal. — Bem, vejo que tudo está resolvido — ele disse categoricamente. — Agora precisamos encontrar uma data, especialmente se quer que a cerimônia aconteça antes da Quaresma. — Senhor, peço-lhe que acredite que minha filha... — Aceitou meu pedido — ele interrompeu. — Isso é o suficiente. Infelizmente precisarei sair, preciso ir a Passy. Talvez possamos nos reunir novamente amanhã para começar a resolver os detalhes do contrato de casamento?


O Sr. d’Arsac obviamente tinha a intenção de acrescentar algo, mas apenas balançou a cabeça, resignado. — Como quiser. Neste caso... adeus, senhor. Henry fez uma mesura e saiu, com dificuldade de reprimir o impulso de gritar. Tinha desejado esta união, concordara em ouvir as razões de Elisabeth e fizera um pedido falso, mas agora via-se preso a ela quase irrevogavelmente. Estranhamente, não conseguia se alegrar.


Capítulo Doze Menos de duas semanas se passaram desde o encontro entre Henry e o Sr. d’Arsac, quando encontraram-se perante o cartório para assinarem o contrato de casamento. Os casamentos eram proibidos durante a Quaresma, e o Bispo de Paris era conhecido por sua intransigência, então, precisaram agir rapidamente. Nos dias que se seguiram à aprovação do contrato, Henry manteve-se furioso. Ainda não podia acreditar que Elisabeth expressara tanto desprezo por ele. Porém, não havia dúvida, atrás da porta, ouvira tudo... Em várias ocasiões, o conde tentou lhe explicar sobre este assunto, mas ele se fez de surdo. Louis, então, tentou se intrometer, mas Henry solicitou fortemente que não o fizesse. Estava com o orgulho tão ferido que até mesmo proibira que o amigo abordasse o assunto com a irmã. Conforme os preparativos para o casamento avançavam, a raiva deu lugar a uma fria determinação. Desde que Elisabeth o desprezou, não estava disposto a oferecer-lhe um marido apaixonado, pronto para ceder a todos os seus caprichos. Iria compartilhar a cama de sua bela esposa, é claro — teria que ser um santo ou um eunuco para não sucumbir —, mas reprimiria qualquer sentimento de carinho pela jovem. Estava disposto a se esforçar para manter uma boa relação entre eles, mas se absteria de tudo o mais. A duplicidade de sua noiva era ainda mais difícil de aceitar, porque ele achou que teria prazer na vida de casado. Pensou que poderia ser feliz, uma vez que se uniria a uma mulher generosa e inteligente, que confiava em seu julgamento... Sua própria ingenuidade o desesperava. Ao invés disso, acabaria amarrado a uma mentirosa até que a morte os separasse. Ao chegar à mansão, onde d’Arsac organizava a cerimônia, Henry alimentava pensamentos obscuros. No pátio, os sons das atividades o afastaram, por um momento, dos pensamentos sombrios: os servos limpavam a fachada da propriedade; o jardineiro colhia algumas plantas e colocava em vasos; carrinhos cheios de mantimentos eram descarregados na cozinha, de onde ele sentia um cheiro de uma refeição que parecia estar deliciosa. Tudo isso para seu casamento. O que lhe provocou náuseas. Assim que o viu, o mordomo abriu a porta cheio de ansiedade, mesmo antes de ele


terminar de subir os degraus. Toda a criadagem tinha mudado de atitude para com ele. Enquanto antes era tratado apenas com uma cortesia discreta, agora todos brigavam para atendê-lo. Será que aquelas pessoas acreditavam que o conde tinha comprado aquele casamento? Porque havia rumores de que aquele casamento incomum fora alimentado pelo fato do Sr. Wolton ter se apaixonado perdidamente pela encantadora Srta. d’Arsac, triunfara sobre a diferença de classes entre eles e acabou por conquistá-la. E a moça, tão casta, confessara também seu amor quando o pai lhe falou sobre a proposta de casamento. Aquela versão era tão bonita que ele a teria aplaudido se estivesse de bom humor. Agora sua história era comemorada em salões como um modelo de amor cortês, e seu casamento simbolizava a união entre a França e a América, formalizada pelo recente tratado de amizade. Sua Majestade sequer se dignou a enviar-lhe parabéns, e seria representada na cerimônia por um membro da família real. Irritado, Henry decidiu concentrar-se no que estava por vir. Acompanhado por dois membros da embaixada que serviriam de testemunhas, ele foi levado ao escritório. Louis e o Sr. d’Arsac já estavam instalados, assim como o tabelião, que iria realizar a leitura do contrato. No momento em que foi reafirmada a decisão de criar os filhos do casal na religião católica, Henry sentiu seus compatriotas agitados, mas sinalizou-lhes que estava tudo bem. Apesar de ser protestante, ele concordou em ceder neste ponto, em um gesto de paz. Depois que a leitura foi finalizada, eles assinaram, e as mulheres da família se juntaram a eles. Henry levantou-se, enquanto Elisabeth acomodava-se, acompanhada por sua mãe e sua irmã mais nova, Constance, uma garota de mais ou menos dez anos. Apesar de suas decisões, o rapaz sentiu-se vacilar quando viu sua noiva. Ela usava uma roupa simples, um corpete apertado, que mostrava sua cintura fina, e uma saia bem cheia em azul. Além disso, estava com o famoso colar que usara quando se conheceram. Este lembrete de momentos mais felizes e despreocupados feriu seu coração. Durante a breve refeição servida logo em seguida, os futuros cônjuges não tiveram oportunidade de conversar a sós, mesmo que não tivessem se visto desde a noite na casa da Sra. du Plessis. Elisabeth ficou calada, como convinha a uma jovem bem nascida, mas ele suspeitava que era devido à perspectiva de seu casamento no dia seguinte. Em conformidade com a imagem que tinha lhes passado, Henry tentou se mostrar espirituoso, amoroso e até mesmo feliz. Ao se despedir, conseguiu sussurrar algumas palavras:


— Minha querida, você sorriu tão pouco. Poderiam pensar que foi condenada à prisão. Ela lançou-lhe um olhar. — Não fui eu que tive essa ideia desastrosa! — Proponho uma trégua. Afinal, vamos passar a vida inteira juntos, você não acha melhor? No entanto, gostaria de lembrar que nossos convidados esperam ver demonstrações de amor. Com isso, ele olhou para ela com uma expressão tão amorosa que a Sra. d’Arsac abanou-se com força para esconder o calor de sua emoção. Elisabeth fitou-a com espanto, mas logo desviou o olhar. — Muito bem, senhor. Concordo com seu conselho, como sempre — ela respondeu com uma ironia, que ele não deixou de reparar. Henry fez uma respeitosa reverência e partiu, satisfeito ao perceber que sua futura esposa não tinha perdido toda a sua audácia. Depois das cortesias, a Sra. d’Arsac levou a filha mais velha ao quarto de vestir, deixando Constance em seus aposentos. Já era hora de terem aquela “conversa” necessária antes da noite de núpcias. Elisabeth começou a conversa com a mãe, com mais compreensão sobre as relações físicas com o marido, porque ela já sabia o que esperar do assunto. A condessa Louise tornara-se especialmente mal humorada com o anúncio do casamento... Ou melhor, ela adquiriu uma raiva homérica, antes de buscar refúgio em um silêncio profundo e uma fachada de alegria, que não era um bom presságio. Dez dias antes, Elisabeth deixara o escritório de seu pai de muito mau humor, mas pensou que as provações tinham terminado. Porém, ainda não tinha lidado com a reação de sua mãe, e foi terrível. O Sr. Arsac entrou no cômodo onde a família estava reunida e beijou-a na testa, antes de anunciar. — Ofereço minhas felicitações, Sra. Wolton. Elisabeth, com os dentes cerrados, limitou-se a um aceno de cabeça. Ela não iria demonstrar gratidão por tê-la forçado àquela união, como a tradição exigia.


No entanto, sua mãe levantou-se e começou a chorar. — O que eu sou, meu senhor? Entregou a mão de nossa filha sem nem me consultar? E a um plebeu! Surpreendida pela explosão da condessa, que detestava mais do que tudo a vulgaridade e escândalos, Elisabeth pensou, por um momento, que encontraria sua salvação no apoio da mãe. No entanto, suas esperanças foram rapidamente decepcionadas. — Você sabe muito bem que sempre fui a favor do Sr. de La Ferté! — exclamou a Sr. d’Arsac com toda a sua fúria — A sua posição é invejável, sua família é tão antiga quanto a nossa... — Mas ele não tem um centavo — argumentou Louis, de repente tomando partido no debate. — Além disso, é óbvio que ele escolheu conscientemente. Nossa Elisabeth, às vezes, pode ser teimosa... Eles nem sequer lhe perguntaram se estava se sentindo ofendida pela colocação. Tentara, em vão, entrar na discussão, mas era como se ela não existisse. Então, apenas observou sem poder fazer nada, o diálogo vigoroso entre sua mãe, seu pai e seu irmão, decidindo seu futuro como se ela não estivesse lá. — Eu não me importo se o Sr. Wolton é rico. Ele não é bem nascido. — Mãe, eu garanto que é tão bem nascido quanto outros paspalhos que andou considerando para Elisabeth. — Esta não é a questão. O que diremos ao Sr. de La Ferté? Afinal, ele tem grande influência com o rei; pode impedir nosso progresso ou inviabilizar nossas petições ao Parlamento. Eu queria tanto ver minhas filhas tendo acesso à rainha... Em silêncio, Elisabeth alegrava-se de ter escapado do Sr. de La Ferté. Se a vida de seus pais já lhe parecia entediante, não era nada se comparada à gaiola dourada que era a corte da França, congelada em seus rótulos e seus costumes de outra era. Mas o conde trovejara que um nascimento obscuro não era um obstáculo. Destacara, mais uma vez, o status diplomático de Henry, tornando objeta a principal razão para a oposição contra ele. Em seguida, a Sra. d’Arsac entrou em colapso em uma poltrona e começou a chorar, o


que era mais do que incomum. A condessa nunca perdia a fala, e Elisabeth não lembrava e tê-la visto chorar antes. — Mas este homem... este americano... é um herege — ela disse em uma voz embargada, entre soluços. Desta vez, eles tiveram que levar o argumento em conta. A religião reformada já não mais existia na França por quase um século, por mais que houvesse tolerância em relação a ela, particularmente na área dos embaixadores estrangeiros. Apesar disso, poderia ser um problema, especialmente em uma família tradicional como a deles. Depois de uma longa discussão, onde Elisabeth sugeriu a possibilidade e cancelamento do noivado, seu pai e seu irmão conseguiram encontrar uma maneira de contornar este obstáculo. Acrescentariam no contrato de casamento uma cláusula afirmando que os filhos do casal seriam educados na religião católica. Isto apaziguou um pouco a Sra. d’Arsac, porém, continuou resmungando, se recusando a aceitar o futuro genro. Por sua parte, Louis prometeu conseguir o consentimento de Henry, para que aquelas questões fossem levadas de forma justa. Poucos dias após o anúncio do noivado, Elisabeth ficou surpresa ao saber que a história de seu casamento foi propagada não apenas por estranhos, mas por seu irmão e sua melhor amiga! Falava-se sobre um casamento por amor, uma história digna das melhores novelas de cavalaria... Vendo que seus esforços para impedir o casamento não estavam levando a nada, especialmente depois de o rei conceder sua bênção, a condessa exigiu que tudo fosse feito para que se tornasse um evento a despertar curiosidade e interesse, e não provocações. Estava se baseando na afeição que os jovens pareciam sentir um pelo outro, e foi assim que Elisabeth foi instruída a agir, como apaixonada. A Sra. d’Arsac pigarreou. Após acomodar-se em um sofá em tons pastéis, ela fez sinal para a filha se juntar a ela. Elisabeth aproximou-se com relutância, com medo de provocar uma explosão por cometer um erro. — Minha filha, já expressei várias vezes os motivos para o meu desacordo com esse casamento, mas não os direi outra vez — ela começou. Era um alívio. Elisabeth não queria ouvir a lista de motivos para evitar aquele casamento, sendo que ela mesma tinha suas razões para isso, embora fossem completamente diferentes das da sua mãe.


— Para minha paz de espírito e consciência, farei o melhor possível a respeito da situação. Com o apoio de Sua Majestade, seremos capazes de sobreviver a esta provação. Parecia que seria ela a ir ao altar. — No entanto, é meu dever explicar o que irá acontecer amanhã, quando o seu cônjuge se juntar a você. Elisabeth ensaiou uma expressão curiosa, não querendo trair a si mesma. — Estou ouvindo, mãe — ela falou com humildade. A condessa respirou fundo e engoliu em seco. — Veja bem, homens têm certas... necessidades que você precisará, até certo ponto, satisfazer. Claro que depois de dar um herdeiro ao seu marido, você não será obrigada a submeter-se a este dever. Lembre-se de obedecer às suas exigências, mesmo que pareçam estranhas. Mas é óbvio que se forem contra sua natureza, você poderá proibi-lo de tocá-la. Ela parou por um segundo. — Tenha em mente que, às vezes, suportar este inconveniente pode produzir efeitos benéficos. Pode incentivar seu marido a ser generoso com você ou satisfazer um pedido que não lhe apetecia. Isso é tudo. A Sra. d’Arsac fez outra pausa, visivelmente aliviada por ter terminado. Elisabeth estava atordoada. A descrição não foi apenas vaga, para dizer o mínimo, mas, acima de tudo, não correspondia com o que ela tinha experimentado durante seu encontro clandestino com Henry na pensão. De repente, ela considerou que era uma sorte não ser mais virgem ou teria morrido de ansiedade com a perspectiva das relações conjugais. Por outro lado... será que suas próprias reações não eram normais? Preocupada, perguntou à mãe sobre isso... — Mas é tão impossível... experimentar prazer com o ato conjugal? A condessa estreitou os olhos e fitou a filha com desconfiança. — Quem lhe disse isso? — A Sra. du Plessis, esta semana — Elisabeth mentiu. — Ela me garantiu que o dever


conjugal não é tão ruim como dizem. — Ouvi dizer que a Sra. du Plessis tem apresentado um comportamento um tanto escandaloso desde sua viuvez, mas nunca pensei que iria colocar tais ideias na sua mente. Sabemos que mulheres não devem permitir tais vulgaridades. Honre sua posição; uma dama bem nascida não deve agir como uma peixeira. A jovem assentiu, confusa. Então, não era normal? Ela tinha que esconder suas reações? Mas Henry não pareceu não gostar... Mas acabou lhe oferecendo uma falsa proposta de casamento. Sua mãe desapareceu. Atormentada por uma grande dúvida, Elisabeth ficou sozinha, revirando estas perguntas em sua cabeça. Naquela noite, teve grande dificuldade para pegar no sono.

Colocando-se na frente do espelho sobre a lareira de seu quarto, Elisabeth observava seu reflexo. Começara a se arrumar antes do amanhecer para estar pronta a tempo, porque a cerimônia estava prevista para o final da manhã. Sob a direção da mãe e o olhar de admiração da irmã, ela se vestira e se adornara como nunca. Usava um vestido com uma saia enorme, que ainda estava na moda na Corte, mas não mais na cidade, além de uma peruca alta. A excitação das primeiras horas dera lugar a uma calmaria bem-vinda, depois que os preparativos foram finalizados e que todos a deixaram só. Foi quando ela se deu realmente conta da situação: estava prestes a se casar e perder a independência. Certamente a assinatura do contrato e a conversa com sua mãe no dia anterior a tinham preparado para a ideia, mas, até o fim, ela mantivera, inconscientemente, a impressão de que se tratava de um pesadelo. No entanto, apesar de ter passado os primeiros dias ardendo de ódio, apenas sonhado em repreender o Sr. Wolton pela maneira cruel que encontrou para forçá-la ao casamento, começou gradualmente a mudar de ideia. É claro que ela não deixaria de lhe pedir uma explicação quando estivessem longe dos olhos curiosos, mas começou a perceber que Henry talvez não fosse inteiramente responsável pela situação. Até porque, seu comportamento também não estava completamente correto... Para começar, ela nunca deveria ter deixado o Sr. Wolton fazer o pedido, nem deveria ter cedido ao


pai — embora não soubesse como poderia fazer isso. Além disso, seu noivo provavelmente tinha sido conduzido por eventos que não podia controlar completamente. Especialmente o entusiasmo do seu irmão. Como que atraído por seus pensamentos, Louis bateu na porta e perguntou: — Elisabeth, você está decente? Quando ela disse que sim, ele entrou. Usava um uniforme militar, com a espada embainhada na lateral e personificava perfeitamente a imagem de um aristocrata de alto escalão. Ao ver sua irmã, ele sorriu calorosamente, aproximando-se dela e tomando suas mãos para beijálas. Então, deu um passo para trás, segurando-a pelos braços, para apreciá-la. — Senhorita, você parece uma pintura — disse com uma admiração sincera. Isso aqueceu o coração de Elisabeth. Estava com medo de parecer ridícula com uma roupa tão diferente das que normalmente usava. — Obrigada, Louis. Mas diga-me, o que está fazendo aqui? Achei que já tinha se juntado à procissão da igreja. O olhar do jovem começou a brilhar de forma travessa. — Ah, é mesmo? Achei que se surpreenderia mais se me visse lá. Ela riu. Era a primeira vez em vários dias que se sentia capaz de esquecer sua angústia por um momento. — Vamos. Você está uma bela noiva, mas falta um detalhe... não está usando joias. — Eu sei. Tinha planejado usar o pingente de nossa avó, mas não me parece adequado para um momento solene. Louis balançou a cabeça e em seguida tirou do bolso uma pequena caixinha, entregando-a a ela. — Já que é costume dar um presente à noiva... eis aqui o meu. Com as mãos trêmulas, Elisabeth pegou a caixa e a abriu. Exclamou um “oh” de êxtase ao descobrir o que era. Uma cruz de ouro, finamente trabalhada e cravejada de diamantes. Antes


que pudesse reagir, Louis já tinha tomado a joia de suas mãos, indo para trás dela para colocá-la. A jovem virou-se novamente para o espelho e percebeu que o colar tinha o comprimento perfeito e que o pingente complementava lindamente sua roupa. — É magnífico — ela sussurrou. — Muito obrigada. Eles permaneceram em silêncio por um momento, um atrás do outro, olhando-a no espelho. Finalmente, Louis a encarou e quebrou o silêncio. — Elisabeth, estou convencido de que esta união irá lhe trazer toda a felicidade que você merece. Foi por isso que apoiei a escolha de Henry com nosso pai. Elisabeth duvidava que seria feliz, mas ouvir a certeza da boca de seu irmão provocoulhe uma enxurrada de emoções: descrença, raiva, tristeza... E nada disso escapou a ele, que retomou suavemente. — Eu sei de seu preconceito contra o casamento. Por muito tempo fui seu defensor mais fiel contra nossos pais; você era muito jovem e, acima de tudo, merece um marido que possa ouvi-la e cuidar de você. Mas percebi que formou um vínculo com Henry, e até mesmo conseguiu deixá-lo sem reservas. Ele mudou a forma como olha para você, como fala com você. Talvez você não tenha notado, mas em meus olhos, nos da Sra. du Plessis, isso está muito óbvio. Elisabeth abriu a boca para protestar, mas ele não lhe deu a oportunidade de interromper. — Não, por favor, deixe-me terminar. Nós percebemos a situação, eu disse, e decidimos ajudar. Não estou dizendo que nada teria acontecido sem nós, mas o Sr. de La Ferté estava se tornando cada vez mais insistente, e Henry não parecia disposto a fazer seu pedido tão rapidamente. No entanto, quando te vi ontem, você me parecia tão melancólica que temi ter feito tudo errado. — Ele tomou suas mãos e a olhou nos olhos. — Irmã, se alguma vez errei com você, por favor, me diga. Ainda há tempo. Vamos encontrar uma forma, qualquer coisa. Se a ideia de se unir ao Sr. Wolton e passar o resto da vida com ele lhe for intolerável, deixe-me saber. Nos momentos seguintes a esta declaração inesperada, Elisabeth sentiu o coração acelerar. A salvação estava ali, na frente dela! Mas, no entanto... ao pensar sobre isso, já estava resignada a este casamento. Não, pior! Ela passou a considerá-lo como certo. Mas o que a surpreendeu mais foi a reação de seu corpo. De repente, as lágrimas vieram aos seus olhos, e sua garganta se apertou como se sentisse uma enorme tristeza.


Louis olhou para ela com preocupação, tocando suas pálpebras com os dedos para colher as lágrimas. Ela respirou fundo e respondeu, enquanto o humor de seu irmão tornava-se sombrio. — Não, Louis. É verdade que tentei escapar do estado de casada por muitos anos, chegando a apresentar todos os argumentos que podia para me livrar desse fardo. No entanto, algo mudou... Aprecio seu interesse, mas não quero cancelar o casamento. E acho que você está certo; o Sr. Wolton será um ótimo marido, melhor do que muitos outros, e melhor do que qualquer um dos meus pretendentes. O jovem visivelmente relaxou e logo sorriu, embora um pouco menos seguro. — Tenho a sua palavra? Ela assentiu com a cabeça, determinada, mas viu-se incapaz de falar. Como, de fato, poderia explicar a seu irmão o que tinha acabado de descobrir? A simples ideia de nunca mais ver Henry a esmagou de repente, mais do que a perspectiva do casamento.


Capítulo Treze Pronto. Estavam casados. Elisabeth mal conseguia compreender essa realidade. O dia tinha voado, e apenas algumas imagens se prendiam em sua memória. Seu pai a levando até o altar da igreja de St. Louis des Invalides. A bênção nupcial dada na presença de uma boa parte da corte. Sua irmã segurando seu véu em companhia de outras crianças. Henry recebendo congratulações com alegria. Depois ela mesma entregando presentes para os convidados: leques para as senhoras e luvas e chapéus aos homens. Ela fechou os olhos, de repente sentindo-se reprimida por essas memórias. Estava esgotada, mas sua mente continuava incansavelmente repassando os acontecimentos do dia. Era difícil acreditar que agora se chamava Elisabeth Wolton, esposa de um americano. A jovem suspirou. Após a cerimônia, muitas horas foram dedicadas a receber os convidados com seus pais. Finalmente, quando jurava ser incapaz de cumprimentar mais alguém, Henry trouxe a carruagem, e eles deixaram o local para se estabelecerem em sua nova casa. Enquanto solteiro, seu marido morara em Paris, no bairro de Chaussee d’Antin, mas alugara uma linda casa em Passy, não muito longe do Sr. Franklin, para agradar sua esposa. O lugar não tinha nenhuma semelhança com a mansão imponente de sua família, mas mal Elisabeth cruzou o limiar, sentiu que era bastante confortável. A casa era acolhedora e não necessitava de manutenções sem fim. Sufocando um bocejo, ela pediu que a criada a ajudasse a despir-se. Em sua chegada, a equipe toda lhe fora apresentada, e ela gostara muito de sua serva particular. Animada e sorridente, Céleste lhe deu a impressão de não ser tão polida. Esta, então, começou a desamarrar seu corpete e a livrar seu corpo da pesada armadura que era o vestido. — Você gostaria que eu lhe preparasse um banho, senhora? — sugeriu a criada. Um banho... parecia divino. Elisabeth estava ansiando pela perspectiva da água quente em seus músculos cansados. No entanto, já estava anoitecendo, e ela teria que compartilhar a cama de Henry em breve...


— Sim, por favor — respondeu, depois de pensar. Ele poderia esperar, afinal de contas. Um banho seria bom e talvez afastasse a ansiedade a respeito da conversa que tivera com a mãe na noite anterior. — Muito bem. Espero que relaxe. Irei prepará-lo. O banheiro fica para este lado — Céleste acrescentou, apontando uma porta ao lado da cama. Elisabeth tomou ciência de que não tinha nem sequer visitado todas as partes da casa. Vira apenas as salas de estar, mas assim que se fechou em seu quarto, uma única ideia surgiu em sua mente: descansar. Desejando completar seu conhecimento, perguntou à criada, que respondeu com um alegre entusiasmo. — O banheiro é separado do quarto por uma biblioteca, onde o Sr. Wolton está guardando seu presente de casamento. Ao ouvir estas palavras, Elisabeth franziu o cenho. Henry provavelmente iria presenteála com tecidos e joias esplêndidas, como de costume. Parecia estranho guardá-los junto com livros. Deveria ser temporário, ela supôs. Até porque as bagagens dele ainda estavam chegando. — Esta porta a levará ao quarto de vestir, que é conectado ao alojamento dos criados. Esta dá no quarto principal — adicionou a criada com um enorme sorriso. O quê? Eles dormiriam tão perto? Não era indecente? Elisabeth mordeu o lábio. Estavam casados, afinal de contas. Por que seria indecente um marido dormir ao lado de sua esposa? Ela não estava acostumada, apenas isso. Os quartos de seus pais não ficavam nem no mesmo andar. Na propriedade du Plessis não era diferente: o quarto de Félicité e o de seu falecido marido ficavam em diferentes alas. Deixando de lado tais pensamentos que só faziam com que lembrasse de sua noite de núpcias, Elisabeth dirigiu-se ao banheiro, seguida por Céleste. Ela passou pela biblioteca e parou para olhar. Era um cômodo de um tamanho modesto, com uma enorme janela que dava para o jardim. A madeira fora pintada em tons de verde e azul, que combinavam perfeitamente com o mobiliário — duas cadeiras, uma pequena mesa e estantes construídas na parede. — Não entendo — ela sussurrou hesitante. Então, virou-se para a empregada. — Você


me disse que o Sr. Wolton estava guardando meu presente aqui? Já levaram as caixas? A jovem pareceu um pouco surpresa, mas logo um sorriso iluminou seu rosto. — Não, senhora. Acho que me expressei mal. O senhor Wolton estava organizando a biblioteca para a senhora. Todos estes livros são seus. Esmagada por uma emoção indescritível, Elisabeth começou a caminhar pelos volumes encadernados em couro. Como ele poderia saber...? Era exatamente o tipo de presente que poderia agradá-la. Começou a ler a lombada de obras valiosíssimas: Shakespeare, alguns poetas ingleses e outros livros mais recentes em italiano... Ela estremeceu; há muito tempo não se tinha acesso a este tipo de literatura, destronada pela onda de Anglomania que assolava o reino nos últimos anos. Continuando sua exploração, surpreendeu-se ao descobrir livros dela; porém, lembrou-se que os tinha empacotado alguns dias antes, mas nunca poderia pensar que ele teria o cuidado de tirá-los e instalá-los na casa. Ela realmente gostaria de agradecer ao Sr. Henry Wolton... assim que tivesse a oportunidade. Uma corrente de ar repentina lembrou-lhe que estava apenas de camisola e que um banho a aguardava. Entrou na sala ao lado e viu que estava particularmente bem equipada. No banheiro, aquecido por uma lareira e um recuperador de calor, o piso era pavimentado com azulejos pretos e brancos tesselados. Os últimos raios de luz solar penetravam através da janela, mas também vinha luz de um candelabro com várias velas instaladas no canto. No centro havia uma grande banheira, de onde se erguia vapor. Com deleite, ela deixou Céleste remover sua camisola, depositando-a em uma cadeira, deixando-a apenas com uma camisa, para mergulhar dentro da água quente. Um sutil aroma de rosas foi permitido, e ela percebeu que tinham sido derramadas algumas gotas de óleo floral, como ela estava acostumada na casa de seus pais. Com um sorriso de satisfação, Elisabeth abandonou-se nas mãos da criada que se pôs a despejar o conteúdo de um balde em sua cabeça para lavar seu cabelo. Os dedos ágeis massageavam seu couro cabeludo, e a água quente serviu como um bálsamo, dissipando gradualmente suas tensões. Assim que seu cabelo foi lavado, Elisabeth encostou-se na parede da banheira, jogando a cabeça para trás, olhando para o teto. Ela chegou a cochilar, pois quando de repente abriu os olhos nem se lembrava de tê-los fechado. O ar ainda estava pesado, mas parecia-lhe que a água tinha esfriado. As velas já


estavam pela metade, mas o fogo ainda queimava ardentemente, e a lareira ainda transmitia um calor contínuo. Além disso, ela não via mais sua criada, que precisou se ausentar por um momento. Agarrando as bordas da banheira, Elisabeth sentou-se, fazendo com que a água lhe chegasse até os seios. Virou-se ao perceber um passo e ficou surpresa ao descobrir que era Henry. Foi provavelmente a sua entrada, embora discreta, que a arrancou de seu sono. Seu marido abriu um pequeno sorriso e se aproximou lentamente. Ele estava envolto em um roupão de algodão, mas ela percebeu que ele não usava sapatos, e o colarinho da camisa por baixo estava amplamente aberto, revelando uma pele bronzeada que lhe trazia várias memórias... Ela se remexeu um pouco desconfortável. Será que era uma prostituta por pensar sobre essas coisas sempre que via aquele homem? — Como está se sentindo, Sra. Wolton? Seus aposentos são do seu gosto? — ele perguntou, dirigindo-se à cadeira para sentar-se ao lado dela. — Sim, gostei muito, obrigada. Também gostaria de expressar minha profunda gratidão por seu presente. Ele fez uma pausa, surpreso. — Não é nada... — Para você, talvez, mas esta foi de longe a maior alegria de hoje para mim — ela exclamou com ansiedade. — Então você é apegada a bens materiais? — ele indagou meio zombeteiro, meio sério. Ele estava se referindo ao casamento, ela pensou envergonhada. — Sinto muito, não quero dizer que... — Não se preocupe, sei exatamente o que você pensa — ele disse em um tom enigmático. Elisabeth franziu o cenho, mas absteve-se de dizer mais coisas. Afinal, ambos tiveram de suportar um dia muito longo e estavam cansados. Henry finalmente se sentou e olhou para sua esposa, que corou. Era verdade que ele já a tinha visto nua, mas as circunstâncias eram diferentes... Estranhamente, ser observada no banho


parecia muito mais íntimo do que os momentos que tinham compartilhado. — Que roupa é esta? — Perdão? — Por que diabos você toma banho vestida? Está com frio? Você parece uma freira! A mulher olhou para sua roupa sem entender. — Mas... bem... sempre fico vestida para tomar banho. Esta prática era obrigatória no convento, mas sabemos que nossa própria rainha se banha assim. — Isso confunde a mente! Observe que se o que você diz for verdade, isso explica por que Sua Majestade ainda não engravidou mesmo depois de oito anos de casamento. Elisabeth olhou para baixo e ficou absorta na contemplação de suas próprias unhas. Não era um assunto que gostaria de conversar naquele momento, especialmente em tais circunstâncias. — Vamos lá, livre-se dessa coisa complicada! O tom de Henry foi autoritário, mas ela não obedeceu. — Não vejo por que isso o incomoda. O jovem respondeu com um meio sorriso. — Elisabeth, não tente parecer mais recatada do que já é... Eu te vi muito menos vestida do que isso, se bem me lembro. Além disso, chegou o momento, é hora de celebrar nossa noite de núpcias. Como sua expressão era sugestiva, a jovem sentiu o rosto corar. O que era ridículo. Ela não só sabia o que esperar, mas também tinha que admitir que estava muito animada para os eventos. — Minha querida esposa, não me faça definhar esperando... — disse Henry, com uma voz ligeiramente rouca. Tudo bem, era uma situação constrangedora.


— Está bem — ela finalmente cedeu. Adequando a ação à palavra, Elisabeth agarrou as bordas da banheira e puxou-se para fora da água. Depois de chegar em casa, Henry se retirou para seu quarto para se recuperar de um longo dia. Despiu-se de seu terno, colete e gravata, deixando apenas a camisa e as calças. Mergulhou as mãos na água fria e levou-as ao rosto, ansioso para acalmar o desejo ardente que o consumia com a perspectiva de sua noite de núpcias. Foi então que começou a procurar por sua esposa. Uma vez que não a encontrou em seu quarto, Henry foi até a biblioteca e descobriu um raio de luz vindo de debaixo da porta do banheiro. Entrou silenciosamente, expulsando a criada com um gesto e parou por um momento para contemplar Elisabeth. Lânguida na banheira, a jovem estava virada de costas. Seu longo cabelo loiro estava molhado e quase tocava o chão. Ele sentiu uma necessidade de passar a mão por seus fios, de sentir a doçura e inspirar sua fragrância. Só de pensar, seu sexo enrijeceu. A jovem sentiu sua presença e voltou-se para ele, com as pálpebras semicerradas, os olhos ainda embaçados de sono, as bochechas coradas pelo calor. Estava linda como quando acordou depois de fazerem amor, e aquela visão reacendeu seu desejo. Mas quando se aproximou e a encontrou vestindo trapos enquanto tomava banho, ele rapidamente retornou à Terra. A camisa flutuava em torno dela e escondia seu corpo flexível. E Elisabeth ainda dizia que não entendia como aquilo podia tê-lo desagradado. No entanto, aquela demonstração de inocência — que ele tinha deflorado apenas três semanas antes — era algo estranhamente excitante... Porém, ele conseguiu, não sem dificuldade, persuadi-la a se livrar do incômodo vestuário. Elisabeth se levantou e encarou-o. De repente, todas as suas memórias daquele dia — a cerimônia, os habituais parabéns, os sorrisos forçados, a fadiga — desapareceram de sua mente. Ela estava diante dele, molhada. Ele não mediu o arrebatamento que ela lhe ofereceu ao expor-se diante de seus olhos. O pano, encharcado, agarrava-se a cada curva de seu corpo, destacando os seios com mamilos cor de rosa que começavam a ficar intumescidos sob o efeito do frio, além de sua barriga plana e os quadris arredondados... e também os cachos escuros entre suas pernas. Henry aproximou-se de repente, rígido como pedra, e engoliu em seco. Estava feliz que seu roupão escondesse a extensão da sua reação.


Elisabeth abaixou-se e estava prestes a tirar a camisa, mas ele agarrou seu pulso para detê-la. Não queria ser privado de uma visão tão encantadora. Sem entender, ela buscou seus olhos, mas quando leu neles a intensidade de seu desejo, enrubesceu dos pés à cabeça. — Não, senhora bonita, acho que mudei de ideia — ele murmurou, incapaz de falar mais claramente. Quando ela fez um gesto para se cobrir, ele agarrou o outro pulso e se aproximou. A jovem parecia um pouco desconfortável, mas não desviou os olhos, fascinada por seus movimentos lentos e determinados. Henry começou a sugar um mamilo e foi imediatamente envolvido pelo aroma floral. De olhos fechados, ele colocou a pequena ponta entre seus dentes, pressionando seu corpo quente contra o dela e prendendo-a em seus braços. Sua esposa estava prestes a perder o fôlego e até sorriu, sem olhar para cima. Libertando seus punhos, ele colocou as duas mãos em sua cintura, saboreando a sensação do roçar do tecido contra a pele de Elisabeth, ligeiramente aquecida. Ela começou a acariciá-lo com cuidado, primeiro deslizando os dedos pelos cabelos, antes de seguir os contornos de seu rosto, descendo ao longo do pescoço e chegando à gola. Desejando senti-la ainda mais, ele se afastou por um momento e tirou a túnica com um encolher de ombros e ambos contemplaram um ao outro. A jovem mulher estava menos hesitante do que na última vez. Levada pela curiosidade, ansiosamente explorou seu corpo, o que o excitava sem limite. No entanto, às vezes, interrompia a si mesma e parava, como que para desfrutar das sensações que ele provocava. Henry precisava admitir que estava muito orgulhoso disso. Ela exalava um perfume inebriante, composto por uma fragrância floral que parecia espalhar-se por todo o banheiro, misturando-se ao odor almiscarado de sua excitação. Henry se deixou inebriar. De repente, quis sentir seu gosto na língua. Sendo assim, gentilmente afastou as mãos que percorriam seu corpo, ajoelhou-se e ergueu o tecido molhado até a sua cintura. — Oh, o que está fazendo? — ela perguntou em um tom acusador, mas mais parecia que estava prestes a desmaiar. Ele olhou para ela, com os olhos brilhando com uma faísca travessa. — Não é costume que marido e mulher se beijem? — Eu...


Fosse o que fosse que ela tinha a acrescentar, Elisabeth esqueceu todo o resto da frase. Deus, ele a estava beijando lá! Naquele local tão íntimo, onde ela nem atrevia a se tocar e onde ele tinha penetrado seus dedos antes... ele... Ela abafou uma queixa, mordendo o lábio, determinada a senti-lo contra sua pele. Com um movimento, ele a obrigou a abrir um pouco mais as pernas para oferecer melhor acesso ao seu ponto sensível. E se ela tinha pensado que atingira o auge do prazer da última vez... Foi... indescritível. Realmente indizível. No entanto, era tão bom... Ele passou a língua sobre o pequeno botão de carne que inflamava todo o seu ser, firmemente segurando seus quadris para que não escapasse de suas investidas, embora não fosse o que ela realmente quisesse. Ele logo iniciou um ritmo satisfatório, e ela mergulhou os dedos em seu cabelo, sem saber se era para manter o equilíbrio, acariciá-lo ou impedi-lo de se afastar antes de terminar o que tinha começado. De repente, Elisabeth arfou, começando a mexer os quadris no ritmo da língua de seu marido. A tensão crescia em seu corpo, especialmente nesta parte sensível. A mulher agarrou os ombros de Henry, que tinha deslizado um braço por sob sua perna, de modo que ela pudesse se sentar na borda da banheira. Assim exposta, ela devia estar constrangida, mas, ao mesmo tempo, sentia um êxtase indizível, que logo se apresentou em seu abdômen, antes de explodir por todos os seus músculos. Sentindo-se a um mundo de distância entre a consideração de decência e do decoro, ela soltou um grito desesperado e caiu sobre seu companheiro. Foi incrível. Henry finalmente provou do fruto proibido, o néctar de Elisabeth rastejara por sua língua e sua boca, tornando o cheiro de sua excitação ainda mais forte. Ele estava preparado para ter que insistir um pouco mais para convencê-la a deixá-lo terminar a carícia, mas ela respondeu com um ardor que o deixou atordoado. Teria sido tolice renunciar aos prazeres que poderia encontrar na cama de sua jovem esposa... ou, neste caso, no banheiro. Quando ela gritou de prazer, ele quase teve um orgasmo, mas tentou se acalmar. Queria estar dentro dela, sentindo sua fenda estreita de carne se fechar em torno de seu membro. Elisabeth se agarrou a ele como se seus joelhos estivessem prestes a ceder. E a julgar pelos tremores que a percorriam, era provavelmente o caso. Ela se abandonou deliciosamente, com a perna ainda levantada, apoiada no braço de Henry. Relutantemente, Henry se afastou. A jovem mulher mal conseguia andar, então, ele deveria levá-la para cama... Mas será que conseguiria? Seu pênis estava inchado ao ponto de ser doloroso, e cada atrito o fazia arfar. Tentou dar um passo para trás e acabou esbarrando na


cadeira onde estivera sentado anteriormente. Com a cabeça enterrada no pescoço de Henry, Elisabeth sentiu que as estrelas dançavam dentro de suas pálpebras fechadas. Atormentada por tonturas e tremores incontroláveis, ela sentia que suas pernas ameaçavam falhar. No entanto, no fundo de si mesma, sentia uma escassez física. Onde ele a tinha penetrado na última vez, havia uma pulsação mais e mais pronunciada. Ela queria sentir isso, ele precisava fazer outra vez. A jovem ergueu a cabeça, que há pouco tinha descansado nos ombros de seu companheiro, e o olhou com um febril desejo. Mordeu o lábio, pensando que talvez ele também já estivesse saciado, mas ao dar uma rápida olhada em suas calças, teve a confirmação. Sim, a julgar pela enorme protuberância que distorcia sua roupa, seu marido estava longe de obter satisfação. Com dedos trêmulos, ela começou a despi-lo, para libertar o membro do jovem. Um olhar de surpresa passou pelos olhos dele, que logo deixou as pálpebras caírem quando ela fechou a mão ao redor de seu pênis. Ele era tão macio e quente, e ao mesmo tempo tão duro... era difícil acreditar que aquilo era capaz de penetrá-la e fazê-la sentir um desejo tão irresistível. Será que era tão sensível a beijos quanto ela?, perguntou-se de repente. Só havia uma forma de descobrir. Elisabeth se inclinou e o tocou, com os lábios tensos e macios. No entanto, para seu espanto, ele colocou a mão sob seu queixo e a forçou a levantar-se. — Chega, querida. Sua voz estava tão rouca que era difícil entendê-lo. A mulher franziu a testa. ​ — Fiz algo de errado? Uma risada foi sua resposta. — Longe disso... mas temo que não durarei muito tempo se você continuar, e tenho a firme intenção de consumar nossa união. Ela corou, mas não podia deixar de sentir uma espécie de orgulho por perceber que ele também era sensível ao seu toque. Henry terminou rapidamente de remover suas roupas e sentou-se na cadeira estofada. O que ele estaria fazendo? Tomando-lhe a mão, ele gentilmente a puxou de encontro a si, convidando-a a sentar-se em seu colo.


— O que... o que está fazendo? Não deveríamos estar na cama para isso? — A cama está muito longe. Mais tarde, se você quiser, podemos começar de novo. Sem dizer mais nada, Henry a içou, colocando-a sobre ele com uma perna de cada lado do assento. Elisabeth tinha medo de morrer de vergonha, mas a curiosidade afastou sua relutância. Ela deixou Henry erguer seus quadris e encaixar seu sexo na entrada de sua privacidade. Quando ele a empurrou para baixo, ao longo de sua ereção, um longo gemido escapou de sua garganta, que ela nem sequer tentou sufocar. Parecia que o prazer que sentira anteriormente podia ser multiplicado por dez. Seus gemidos não pareciam incomodar Henry, pelo contrário. Ele apertou-a pela cintura e começou a mover-se, preenchendo-a. Não demorou muito; aquecida por seus beijos devastadores, ela sentiu um poderoso orgasmo depois de algumas idas e vindas. Em seu abandono, ela chegou a arranhá-lo nas costas. O gozo de Elisabeth foi a origem do dele, com certeza. A visão daquela jovem encantadora mordendo o lábio, com os olhos semicerrados, a cabeça inclinada para trás, a sensação de suas unhas se enterrando em sua carne e o atrito irresistível de sua pele contra a dele venceram Henry, que foi levado por um orgasmo sem precedentes. Por um momento, eles ficaram em silêncio, ainda apreciando o som de suas respirações pesadas e a sensação de seus corpos entrelaçados e cobertos de suor. Henry beijou sua esposa apaixonadamente, antes de tirá-la de cima dele delicadamente, ajudando-a a firmar-se de pé. Uma vez que não encontrou a camisola que ela usava quando foi até o banheiro e recusando-se a vesti-la com a camisa de banho encharcada, ele a envolveu em seu próprio roupão e vestiu suas roupas com pressa. Sem dizer nada, mas apertando-se firmemente a ele, Henry a levou de volta para seu quarto. A criada já tinha preparado sua cama, e ele a ajudou a arrastar-se para debaixo das cobertas, cobrindo-a até o queixo, para que não pegasse um resfriado. Sozinha naquela cama grande, ela parecia vulnerável, o que fez com que ele sentisse o desejo de não ir embora. Elisabeth, prestes a pegar no sono, ainda perguntou: — Então você não vai ficar comigo? Eu gostaria que ficasse. — Não — ele respondeu em um tom firme. — Você está exausta, e eu ainda tenho que


ajustar alguns detalhes com a criadagem. Ela parecia vagamente envergonhada, mas mal conseguia manter os olhos abertos. — Seu roupão... — disse ela. — Fique com ele. Depois poderá devolvê-lo a mim. Estarei logo ao lado. Incapaz de resistir ao impulso, ele depositou um suave beijo na testa da jovem antes de se afastar. Se alguma vez compartilhasse de sua cama, tinha medo de não ser mais capaz de ficar longe dela. E era precisamente o que queria evitar. Precisava jurar que não daria nenhuma importância àquele relacionamento a não ser em um caráter físico. Mas, pai, o Sr. Wolton não é nem um nobre! Ele lhe daria prazer e nada mais. Aquele era o preço que pagaria por ter sido tão desdenhosa em relação a ele. Com um último olhar e um suspiro, Henry deixou sua jovem esposa para se juntar à solidão e o frio de seu próprio quarto.


Capítulo Quatorze Era incrível o quanto dois meses de casamento podiam mudar uma mulher, Elisabeth pensou ao acordar em uma manhã de abril. Ela, que como qualquer senhora elegante, ficava na cama até meio-dia, aos poucos foi se conformando com os costumes de seu marido; não por obrigação, mas por gosto. Fascinada, ela passou a descobrir como os dias podiam ser vividos até o nascer do sol e também encontrara a satisfação derivada de poucas horas de sono. Claro que seus hábitos não passaram totalmente despercebidos. Félicité costumava brincar delicadamente dizendo que ela estava se transformando em uma perfeita esposa burguesa, palavra deselegante usada na cidade para se referir às maneiras plebeias de Henry. No entanto, Elisabeth não se importava com isso. Por mais estranho que pudesse parecer, dada a sua resistência inicial, felicitava-se quase diariamente por ter contraído aquela união. Pior, parecia estar feliz, o que não esperava. Elisabeth rolou de costas e fechou os olhos. Tinha toda a liberdade que desejava, e seu marido nunca duvidava de suas habilidades. Ele confiou nela inteiramente para a organização da casa, deixando-a fazer escolhas sem interferir em seus assuntos, algo que precisava admitir que gostava. Henry não se opusera que ela continuasse a dar aulas, que era o que ela mais temia. Pelo contrário, ele mesmo sugerira que ela abrisse a escola da qual tinha falado em seu primeiro encontro “oficial”. Esta perspectiva era tão emocionante quanto tentadora, e Elisabeth decidira esperar um pouco e pensar. Além disso, a jovem tinha descoberto, durante uma conversa com seu irmão, que seu marido tinha seus próprios interesses do coração. — Seu marido mostra grande consideração por você — Louis lhe disse um dia. — Sua escolha de morar em Passy é uma prova disso. — Como assim? — Elisabeth replicou, surpresa. — Você não entendeu? Mas é tão óbvio! O Sr. Wolton escolheu alugar uma casa aqui para que você possa se aventurar na aldeia e sem arriscar sua reputação.


Ela ficou muda por uns bons dez segundos. — Como? Por quê? — Eu já suspeitava que você fazia algo dessa natureza, Elisabeth. Você acha mesmo que seus desaparecimentos regulares, quando alegava que ia à igreja, passaram despercebidos? O Sr. Wolton me contou que se preocupa com sua segurança. Felizmente, você pode contar com sua descrição. Ele até mesmo protestou para defendê-la, dizendo que só estava fazendo uma boa ação. Seu irmão a olhou com um ar um pouco zombeteiro, e Elisabeth queria lhe contar a verdade, mas, no último momento, um lampejo de escrúpulo a conteve. Afinal de contas, Henry poderia muito bem ter usado esse argumento para arruiná-la aos olhos dos pais, mas manteve o segredo. Era mais uma qualidade dele. Então... se aquele era um segredo entre eles, ela iria preservá-lo. Ainda na cama, a jovem mulher espreguiçou-se como uma gata, esticando seu membros ainda dormentes. Como em quase todas as noites, depois do memorável episódio da casa de banho, Henry a procurara. Pensara que acabaria se cansando de suas atenções e agora o esperava impacientemente. A noite reservava sempre uma promessa de uma deliciosa intimidade. Ainda assim, Elizabeth precisava admitir que estava desapontada pelo marido não compartilhar de sua cama uma vez que seus... negócios terminavam. Ele nunca se demorava, sempre buscava algum pretexto. Primeiro, ela tentou ser compreensiva, era até bom que não compartilhassem o mesmo quarto. Então, um tipo de ressentimento a inundou, como se o relacionamento deles não fosse tão íntimo quanto era os de outros casais. Mas, nos últimos tempos, ela passara a ter a intuição de que havia algo mais envolvido, algo mais sério. Na primeira vez, ela pensou que um ladrão tinha invadido a casa e agredido Henry. Ele gritara alto o suficiente para fazer seus pelos todos eriçarem, então, ela correu até seu quarto, ignorando o perigo em potencial. Porém, apenas o encontrou suado e descomposto. Durou apenas um momento, porque ele logo percebeu sua presença. Então, abriu um fraco sorriso e reafirmou que fora apenas um pesadelo. Ela aceitou sua explicação sem insistir. Mas foi assim que começou. E agora, todas as vezes que ela tentara se juntar a ele, encontrava a porta fechada, o que fazia com que se sentisse mal. Será que ele não confiava nela o suficiente ao ponto de cuidar de seu sono? Isso a convencia de que algo estava errado, e esses


terrores noturnos eram a manifestação mais óbvia. Além disso, eles quase sempre ocorriam em noites de tempestade. A jovem se levantou e sentou-se na cama. Precisava fazê-lo com cuidado, pois vinha se sentindo tonta há alguns dias. Segurou um gemido e agarrou a coluna da cama, mas Céleste, que tinha acabado de entrar, adiantou-se para ajudá-la. A criada molhou um pano e enxugou suas têmporas, o que permitiu que recuperasse o fôlego. Elisabeth se sentia estranha, mas dado o número de noites em claro que passara apenas ouvindo os pesadelos de seu marido, não era de se surpreender. Levantou-se e dirigiu-se ao banheiro, para seus cuidados matinais, sem nenhum outro incidente notável, e ela logo se recuperou totalmente. Fiel ao que se tornara um hábito, a jovem, em seguida, foi ao escritório de seu marido, onde ambos almoçaram. Esta prática se iniciara de forma gradual, mas agora sentia-se muito apegada a ela, que oferecia um momento de calma e cumplicidade em seus dias. Falavam sobre tudo e nada, compartilhavam histórias sobre sua infância e, às vezes, Henry solicitava sua opinião sobre um tema específico relacionado com a questão americana. Ao entrar no cômodo, Elisabeth franziu o cenho. Seria um resultado de sua imaginação ou Henry estava mais magro, com as bochechas mais ocas? Será que seu marido andava se esgotando mais do que ela poderia perceber? Poderia parecer perfeitamente calmo, contudo, seu sorriso não aquecia seus olhos sombrios. — Estou quase definhando aqui por esperá-la, minha querida — ele cumprimentou, ajudando-a a sentar-se. — Há vários dias você parece cada vez menos ansiosa para se juntar a mim. Não querendo alardear nada, Elisabeth respondeu, em um tom divertido: — Estou tentando despertar o entusiasmo do meu marido, fazendo-o desejar minha presença. Os olhos de Henry, de repente, tornaram-se sérios, e ele reagiu tão rápido, que ela não teve tempo para entender o que estava acontecendo. O jovem inclinou-se para frente, segurando seu queixo e beijando-a apaixonadamente nos lábios, deixando-a sem fôlego e um pouco tonta. — Nunca duvide do meu desejo — declarou ele com firmeza.


Aquilo era um bom presságio logo no início do dia. Frente a frente, eles começaram a comer. Quando percebeu que Elisabeth estava tomando uma xícara de caldo para acompanhar o pão ao invés de chocolate, Henry brincou delicadamente. — Se continuar a se mostrar tão frugal, terei que me empenhar em fazê-la esquecer sua boa educação. Elisabeth sentiu um traço de amargura em suas palavras e apressou-se em distrair sua atenção. — Encontrou-se com o Sr. Embaixador ontem? Não tivemos a oportunidade de abordar esta questão na noite passada quando nos... encontramos. Ela corou ligeiramente com a lembrança. O que era ridículo! Não havia nada de vergonhoso em seus relacionamentos íntimos. Mas a causa de sua vergonha eram as sensações quentes que essas reminiscências causavam. No entanto, Henry não pareceu notar. Na verdade, parecia mais preocupado do que quando se juntou a ele, o que a assustava. — O que houve? Recebeu más notícias? Ele suspirou e a olhou nos olhos. — Na verdade... Eu preferiria ter um pouco mais de tempo para me preparar, mas os negócios nos EUA estão notavelmente avançados. Através dos esforços do Sr. Franklin, um tratado de aliança foi assinado entre os dois países, e o rei concordou em enviar ajuda militar contra o inimigo inglês. Portanto... Elisabeth mordeu o lábio inferior, embora suspeitasse o que estava por vir. Henry pigarreou. — Portanto, minha presença não é mais necessária na França. Partiremos para a Filadélfia em três meses, no final de junho. A jovem abriu a boca, mas nenhum som escapou. Claro, ela sabia que chegaria o dia em que teria que dizer adeus à sua família e ao seu país, mas não pensara que seria tão rápido. Fechou brevemente os olhos, pensando em tudo que teria que deixar para trás e na situação desconhecida que a esperaria. Seu coração se apertou. Como faria para se ajustar? Como iriam


acolher uma nobre francesa naquele lugar? Depois que se casaram, ela passou a entender a dor do exílio que às vezes percebia em Henry aquele lado obscuro de sua personalidade que surgia às vezes, mas agora tomava ciência de tudo que ele tinha abandonado. Como devia estar ansioso para voltar! Contudo, essa perspectiva levou lágrimas aos seus olhos. Henry se levantou e pousou uma mão reconfortante em seu ombro. — Me desculpe pela forma brutal de contar a você. Mas fui pego de surpresa. Acredite em mim, preferia ter tempo de colocar nossos negócios em ordem, embora esteja ansioso para retornar ao meu país. Ela balançou a cabeça, não sabendo o que dizer, enquanto lutava contra o vazio em seu peito. Ainda assim, precisava pensar positivo. Afinal, teria quase três meses para desfrutar da França e se despedir. Ansiosa para não se deixar abater, Elisabeth decidiu não deixar transparecer seus tormentos. Sendo assim, colocou sua mão sobre a de Henry. — Eu já sabia que teríamos que partir, cedo ou tarde — ela respondeu com um leve sorriso. — Se eu puder ser útil, não hesite em pedir. Odiaria ficar passiva, enquanto nosso futuro está em jogo. Ele balançou a cabeça em resposta, parecendo genuinamente aliviado. — Agradeço... e você certamente irá ajudar. Terei que ir um pouco antes, para ver o estado de nosso navio, alertar a tripulação e organizar a partida. Sinto muito, mas estou confiante de que não estará sozinha na minha ausência. Seus amigos e familiares terão o prazer de tê-la só para eles. Na sua ausência? Certamente era uma piada... Ela esperou que ele pedisse desculpas pelo erro, mas não. Não disse nada. — Quanto tempo vai ficar fora? — ela perguntou com voz rouca, cada traço de sorriso tinha desaparecido de seu rosto. — Três semanas, quatro no máximo. Embora os trâmites sejam rápidos, leva-se cinco dias para chegar à cidade, assim como para retornar.


Pensando melhor, seria excelente. Três semanas de total independência! Sem marido, sem acompanhante, estaria livre para fazer o que quisesse. Mas esta perspectiva deixou um gosto amargo em sua boca, o que não deixou de ser surpreendente. — Quem vai acompanhá-lo? — Ninguém. A tripulação me espera em Nantes e a viagem não é perigosa. Mesmo que fosse, posso me defender e nunca viajo sem uma arma. O coração da jovem se apertou outra vez. Lembrou-se dos gritos cada vez mais frequentes e estremeceu. O que aconteceria com ele enquanto estivesse longe dela, sem ninguém para vigiá-lo? Estas noites seriam exaustivas... Uma ideia germinou em sua mente de repente. Se ela pudesse encontrar alguma maneira de lhe dar algo para se lembrar dela, mesmo do outro lado do reino... Ao ver Céleste passando pelo corredor, Elisabeth aproveitou, desculpando-se brevemente, alegando um problema doméstico do qual tinha acabado de se lembrar. Apressou-se para juntar-se à sua criada e perguntou em uma voz baixa: — Sabe onde está meu lenço? — Em sua penteadeira, senhora. Mas você já o usou nestes últimos dias... — a empregada respondeu com surpresa. — Isso é perfeito. Tente colocá-lo dentro do bolso do casado do meu marido. O rosto de Céleste se abriu em um sorriso, pois ela certamente compreendera a intenção de sua patroa. — Certamente, senhora. Enquanto isso, a empregada foi cumprir sua missão, e Elisabeth voltou para a refeição. O marido olhou para ela interrogativamente, mas ela não disse nada. De repente, ela percebeu que não teria outra chance para abordar o assunto que incomodava seu coração. Ela preferia têlo feito em um momento mais propício, mas os eventos tinham decidido de outra forma. Erguendo a cabeça para olhá-lo nos olhos, Elisabeth perguntou em uma voz clara: — Antes de partir, tenha a bondade de me explicar o motivo de seus gritos noturnos?


Henry estava preparado para qualquer coisa: explosões, gritarias, histeria, talvez. Ele até suportaria insultos quando Elisabeth descobrisse sobre a viagem que logo teriam que fazer e sobre sua partida imediata para Nantes. Ele se viu despreparado quando Benjamin Franklin lhe disse na noite anterior que era hora de partir. Já estava longe há muito tempo, e o Congresso estava à espera de seu relatório. Esperara tudo, mas não o que aconteceu. Por que diabos ela colocara aquele tema na mesa, quando ele estava prestes a partir de Paris para Orleans? Não imaginava que aquilo surgiria. Sua esposa sustentou seu olhar determinado com firmeza, mas ele não lhe respondeu. Não tinha tempo para destrinchar o assunto. Só precisava dizer a ela que não queria pensar nisso. Sua mão adornada por uma cicatriz enviou-lhe um doloroso espasmo, e ele rangeu os dentes e soltou um gemido. — Henry? Aquela mulher sempre o desarmava. Como podia ser seduzido tão facilmente por aquele traço de caráter? De braços cruzados, franzindo a testa, ela exibia uma expressão que não demonstrava nada de bom. Em outras circunstâncias, ela seria capaz de dissipar várias perguntas, mas não era o momento certo. Talvez nunca fosse o momento certo. — Ah, cale boca — ele falou para sua própria mente, em voz alta. Elisabeth olhou para ele, sem palavras, visivelmente oscilando entre a raiva e a incredulidade. Seu marido estava falando sozinho? — Eu não estava falando com você — ele disse imediatamente. — Espero mesmo que não. Mas vamos, por favor, responda à minha pergunta. Como? Como poderia contar a ela sobre o que se esforçara com toda a alma para esquecer? Sentia-se incapaz de recordar aquele episódio sem arrepios. Se fechasse os olhos, tinha certeza de que a cena se repetiria incansavelmente por trás de suas pálpebras fechadas.


— Henry, você está tremendo! Ela colocou a mão em seu braço e o sacudiu, o que o fez abrir os olhos. Uma onda de pânico passou pelo jovem. Com a simples menção de suas memórias, ele foi arrastado para um passado que tentara esquecer. O pânico deu lugar à raiva. Com que direito ela se intrometia em seus assuntos? Por que estava tão ansiosa para saber tudo? Será que não podia conter sua curiosidade? — Eu pensei que tinham lhe ensinado o quanto é indelicado fazer perguntas íntimas — ele respondeu friamente. A jovem deu um passo para trás, como se ele a tivesse esbofeteado. Ele desfrutou de um breve ataque de culpa, mas não durou muito. — Será que nunca lhe disseram que a curiosidade é algo muito ruim? Daquela vez suas observações provocaram uma reação indignada. — Não vou permitir que me insulte! Não é porque toquei em um assunto sensível que você poderá me tratar assim. — Depois de dizer isso, ela suavizou — Perdoe minha intromissão, mas pensei que casais tinham o dever de apoiar um ao outro. Pensei, dada nossa intimidade, que você poderia desabafar comigo. Suas últimas palavras o deixaram incrédulo. Obviamente sua bela esposa se referia ao seu relacionamento físico. Henry deu uma risada. — Intimidade? Partilhamos algumas vezes, sim, deliciosa, preciso admitir. Apenas na cama, mas isso não é ser íntimo. — E nossos almoços aqui todos os dias? Nossas discussões sobre assuntos da França e América? Acho muito injusto, senhor, que menospreze isso por conta de sua ansiedade. Ansiedade? Ansiedade! Não, não tinha a ver com ansiedade. Era indignação, simplesmente. Apenas raiva por sua esposa ter a tendência de colocar o nariz em seus assuntos. Não é ansiedade, é um medo incontrolável, sussurrou novamente a voz em sua cabeça. Mas logo Elisabeth prosseguiu: — Tem a ver com a cicatriz que você esconde e que demora a cicatrizar?


Henry fechou os olhos. Sua esposa era muito perceptiva, infelizmente para ele. Mas por que lhe perguntava? Tinha vencido suas crises diurnas, então, não sofreria uma nova! Temia tanto aquela viagem, que isso chegava a colocá-lo em uma situação impossível. Ele precisava sair daquela casa. Sentia-se esmagado, a ponto de sufocar, como se estivesse prestes a ser engolido. Precisava parar de pensar nisso. Mas, primeiro, tinha que repeli-la violentamente para que nunca mais lhe perguntasse sobre seus pesadelos. — Senhora, não vou repetir: pare de se intrometer nos meus assuntos. Nós dois sabemos que nossa união é uma fachada, da qual tentou escapar de todas as formas, por isso, poupe-me de suas falsas preocupações. Quanto ao que você mencionou, sobre nossos almoços e discussões, fique certa, eles interferem apenas em seus interesses mundanos. Sentindo-se envergonhado pela injustiça com a qual tratou a jovem, mas incapaz de voltar atrás, ele fez uma mesura rápida e virou-se na direção da porta. Fingindo não notar a expressão desolada de Elisabeth, saiu do escritório e voltou para seu quarto, onde seu casaco o esperava, passando correndo por Celesté nas escadas. Momentos depois, ele partiu. Elisabeth sentiu o chão balançar sob seus pés. Estaria novamente tendo uma vertigem? Após a saída de seu marido, ela permaneceu congelada no escritório, incapaz de realizar o menor movimento. Durante a briga, ela se agarrou ao assento da cadeira, que foi certamente a única coisa que a impediu de cair. Ela ouviu sons de passos, uma porta se fechando e, em seguida, rodas de uma carruagem se afastando. No entanto, ainda encontrava-se petrificada. Foi assim que Céleste a encontrou, com os músculos rígidos, de pé, olhando para a frente. Com gestos e palavras suaves, a criada a levou de volta para o seu quarto, a despiu e a ajudou a deitar-se na cama. Seu coração e sua cabeça pareciam estranhamente vazios. Como se Henry tivesse roubado suas emoções e sua força de caráter. No entanto, a jovem não derramara lágrimas, não gritara. Sentia-se subitamente exausta. Sentia como se aqueles dois meses tivessem sido uma mentira, uma farsa.


O quarto ao redor começou a girar, e apesar do fato de estar deitada em sua cama, Elisabeth fechou os olhos para reprimir a tontura, sem sucesso. Ao lado dela, Céleste, que a fez beber um copo d’água, observava-a ansiosamente, parecendo pronta para dizer algo. — O que foi? — ela finalmente perguntou, irritada com a criada. — Senhora, perdoe a minha audácia... mas será que pode estar grávida? Elisabeth sentou-se abruptamente, mas imediatamente arrependeu-se de suas ações. Jogando-se novamente sobre os travesseiros, disse em uma voz trêmula. — O que me diz? Como vou saber? Céleste trocou o pé de apoio antes de continuar. — Bem, desde que comecei a trabalhar para a senhora, só sangrou uma vez, logo após o seu casamento. Pensei que não tinha comentado nada porque queria ter certeza, mas uma vez que tem passado mal todas as manhãs há uma semana, é algo quase certo. — Grávida? Mas isso... Elisabeth não terminou a frase, sobrecarregada pela enormidade da notícia. Estava esperando um filho. Ele crescia agora, dentro dela... Impulsionada por um instinto que não poderia explicar, ela colocou a mão em sua barriga. Como Henry iria reagir? Ela franziu a testa. Henry tinha acabado de partir, enfurecido, e ficaria longe por várias semanas. Será que deveria lhe dar a notícia por carta? Pedir-lhe que retornasse imediatamente? Ela suspirou profundamente e resignou-se a esperar. O tempo iria clarear suas ideias, e ela não queria ter que enfrentar o marido ainda, nem mesmo por carta. Embora não fosse muito longo, o tempo iria passar.


Capítulo Quinze A brisa do mar tinha dispersado as nuvens e o sol aquecia as ruas do porto de Nantes, enquanto plumas de vapor erguiam-se do pavimento molhado. A manhã já estava bem avançada, e as docas fervilhavam e atividade. Mulheres emendavam redes, porteiros ajudavam marinheiros a carregar os porões dos navios, lojistas tentavam vender parte de seu estoque... Contornando habilmente cordas e pulhas de carregamentos, Henry era guiado por Russell Moore, o capitão de seu navio. Ele tinha um andar decidido e, acompanhado por autoridades portuários representativas, visitou as instalações do armador norte-americano. Seu casamento tinha realmente mudado muito as coisas... Desde sua chegada, Henry foi assaltado por convites de nobres locais, comerciantes e até mesmo o governador. Todo mundo queria conhecer o plebeu americano que conseguira se casar com uma mulher de uma família nobre e tradicional, muito bem vista pela corte. O relato de sua história súbita e apaixonada tinha ultrapassado os limites de Paris, espalhando-se pelas províncias ao sabor dos jornais da sociedade e correspondência. Apesar de não gostar de ser exposto como uma aberração, o jovem precisava admitir que aquilo tinha servido seus interesses além de suas esperanças. Já não precisava se preocupar em negociar o preço dos bens que prevaleciam, porque todos brigavam para comercializar com ele. Aos olhos dessas pessoas, isso significava cortejar o rei, que, na verdade, pouco se importava. Inspecionando reparos no casco, Henry elogiou o mestre carpinteiro por seu trabalho, e este lhe devolveu o cumprimento com uma expressão satisfeita. Conteve sua exasperação e pensou que isso era melhor do que ver cenhos franzidos em seu caminho. A América estava na moda, e ele próprio ainda mais, então, precisava aproveitar essa oportunidade para estabelecer uma forte base comercial. Mas assim que o dia avançou e começou a sentir fome e sede, levou Moore e Lemieux a uma taverna próxima, onde os três homens se serviram de comida e vinho. O francês levantou o copo e disse: — Mesmo que seja um pouco tarde, deixe-me apresentar meus parabéns pelo seu


casamento. Espero que possamos conhecer sua dama antes de sua partida. — Claro. Tenho certeza que ela terá o prazer de visitar a cidade — ele respondeu distraidamente, com o sotaque mais acentuado do que o habitual. Na ausência de Elisabeth, Henry percebia que era menos inclinado a falar francês. Sentira o desejo de se mostrar verdadeiramente um estrangeiro para o velho francês, embora ninguém tenha prestado atenção. Elisabeth... fazia dias que tinha deixado Paris, mas ainda não tinha recebido notícias dela. Porém, ele também não lhe enviara nenhuma. Pensara que iria demonstrar mais interesse, afinal, se mostrara genuinamente triste quando anunciou sua partida. É claro que a briga que tiveram explicava o silêncio de sua esposa... e ele poderia ter tomado a iniciativa. Mas ele não tivera tempo... era assim que tentava se convencer pela vigésima vez, pelo menos. Ou melhor, não. Fizera de tudo para não encontrar momentos livres. No entanto, teria gostado de partilhar suas experiências com a jovem, contar-lhe sobre o jantar com o governador, sobre os olhos que pareciam segui-lo onde quer que fosse, os comerciantes que tentavam falar palavras em inglês ou as damas que lhe pediam inúmeros detalhes sobre Paris. Ele gostaria que ela estivesse com ele, gostaria de usar seus talentos para conviver em sociedade e sua graça para circular mais facilmente pelas multidões que o tratavam como centro das atenções. Logo após sua chegada, ele encontrou, dobrado e escondido em seu bolso, um lenço que, a julgar pelo monograma bordado, pertencia à sua esposa. Pensara, a princípio, que se tratava de um erro doméstico, mas quando o levou ao rosto para inspecioná-lo, foi tomado por uma lufada de perfume muito característico da jovem. Desde então, e para sua vergonha, vinha mantendo este tesouro com ele, sob a camisa. Henry passou a mão pelo cabelo. Sentia falta dela. Atrozmente. Apesar de tudo que dissera para machucá-la, ela tinha razão em falar que compartilhavam mais do que apenas intimidade física. Certamente também sentia falta desse aspecto de seu relacionamento, mas não era o mais importante. Queria encontrá-la para almoçar e discutir os acontecimentos do dia, queria ouvi-la praticar o piano, queria ir com ela visitar a mãe ou os amigos... O Sr. Lemieux, que continuava a falar sobre tudo e nada, parou de tagarelar quando suas intervenções não receberam a resposta esperada. Apressou-se em terminar a cerveja e, em seguida, murmurou uma desculpa antes de desaparecer, colocando o chapéu na cabeça.


O Capitão Moore esperou que o companheiro partisse para conversar em inglês com Henry. Falou em um tom comedido, aparentemente não querendo ser ouvido. — Henry, não se ofenda, por favor, mas, honestamente, a estima que nos une me força a compartilhar minha opinião sobre seu casamento. Ouch! Aquela era a conversa que vinha temendo por vários dias e da qual conseguira se esquivar. Infelizmente, não poderia dizer ao Capitão Moore que ele tinha que cuidar de seus próprios assuntos. Além de este poder lhe dizer para voltar por sua própria conta para a Filadélfia, eram amigos, desde os tempos em que começou a trabalhar nos navios com o pai. Ele era um homem experiente, cujas opiniões eram sempre ouvidas, tanto sobre comércio ou assuntos mais pessoais. O jovem terminou de tomar o seu gole e pediu um segundo para se recompor. Em quais termos poderia falar sobre seu casamento? Porque o capitão não iria se contentar com um panorama geral nem com a história de amor que serviu muito bem à sociedade e aos jornais. — Concordo que aconteceu rápido demais, e eu gostaria de tê-lo avisado para que pudesse participar das festividades. Porém, como você já sabe, não tive tempo. — Essa não é questão, filho. Henry ficou tenso. Moore raramente o chamava de “filho”, e isso não era um bom presságio. — Sua esposa pode ser charmosa e agradável, e deve ser bom relacionar-se com a sociedade parisiense, mas quer saber? O que ela sabe sobre a vida de um proprietário de navio, ainda mais na América? Quem lhe disse que, uma vez na Filadélfia, ela não irá se cansar? Será que ela conseguirá se adaptar e se integrar em nosso país? Claro que todas essas questões preocupavam Henry, mas conseguira esquecê-las. Ou melhor, ele estava começando a se convencer, observando como Elisabeth passara a empenhar o papel de esposa e dona de casa, que ela tinha ombros fortes o suficiente para enfrentar as provações que a esperavam do outro lado do Atlântico... especialmente com ele ao seu lado para ajudá-la. — Sei que minha esposa está longe de ser uma desmiolada — ele respondeu em um tom mais afiado do que gostaria.


Diabos! Ouvir alguém atacar Elisabeth o deixava em muito mau humor. Obrigou-se a respirar fundo antes de adquirir uma voz mais calma. — A Sra. Wolton fala inglês perfeitamente, sabe manter uma casa com maestria e conversa sobre mecanismos políticos que afetam as relações entre os nossos dois países. Estou certo de que ela irá ocupar seu lugar na Filadélfia e até surpreendê-lo. No entanto, o capitão ainda parecia pouco afetado por seu julgamento. — Não posso deixar de pensar em seu dinheiro... ou em sua família, ao menos. — Nenhum deles está interessado nisso, nem Elisabeth nem a família dela — ele exclamou, atraindo a atenção das pessoas ao redor. — Conheço seu irmão, e posso garantir que é um homem honesto, assim como seus pais. Pelo diabo! A mãe dela era contra o casamento! Ele preferiu não contar que a própria Elisabeth fora a oponente mais fervorosa. Não era necessário demonstrar tais detalhes ao seu interlocutor. — Espero, com todo meu coração, estar enganado, Henry. Mas devo admitir que em uma união concluída por razões políticas é improvável ser feliz. Você merece ser feliz e eu confio que não tenha se jogado nesse casamento por um capricho. — Certamente que não — respondeu o rapaz com firmeza. Era a verdade. Ele percebeu isso ao mesmo tempo em que terminou a frase. Por mais que sua união tivesse sido precipitada pela força das circunstâncias, ele não lamentava sua escolha. — De acordo com suas palavras, parece que você tem admiração por esta jovem, mas lembre-se: é na adversidade que realmente conhecemos as pessoas ao nosso redor. Estas palavras ecoaram na mente de Henry de maneira particular, precisava culpar seu comportamento no momento da separação e começou a repassar a cena implacavelmente. Sua esposa parecera preocupada com ele, queria que ele desabafasse para se livrar de um fardo, e ele apenas a tratou mal, com medo do que tinha a dizer. — Ela sabe sobre as circunstâncias de nossa chegada? Não, é claro que não.


De repente, seu pânico retornou, assim como a dor em sua mão ferida. Henry tentou colocar ambos de lado e pigarreou, antes de responder. ​— Não com detalhes. Moore pareceu francamente preocupado. — Então precisa lhe contar. Mais cedo ou mais tarde, ela acabará descobrindo, e é melhor que a coloque a par dos acontecimentos antes que alguém o faça por você. — Sei disso. O capitão colocou a mão em seu braço, e Henry sentiu que precisava ser consolado. — Se esta jovem possui metade da inteligência que você atribui a ela, vai entender. Mas precisamos esclarecer isso o mais rápido possível; quanto mais você esperar, mais estará encrencado. Henry abaixou a cabeça, sem saber o que dizer. Mesmo que não questionasse a relevância do conselho de Moore, não podia deixar de se sentir encurralado. Sentia como se tivessem colocado uma faca em sua garganta e estivesse prestes a se encontrar com seu próprio espírito. No entanto, não poderia deixar que isso prejudicasse sua vida ou seu futuro. Respirando fundo, decidiu encarar. Até porque, quando era ameaçado, a melhor defesa era atacar. — Você está certo, Russell. Não posso manter um segredo tão importante fora de meu casamento. O homem de frente para ele assentiu gravemente. — Estou feliz que tenha tomado essa decisão. E peço-lhe desculpas pelas minhas dúvidas, mas elas pareciam legítimas para mim antes de conversarmos sobre sua esposa. Agora vejo como você está ligado a ela, e sinceramente rezo para que ela sinta o mesmo afeto. Henry mordeu o lábio para segurar uma observação amarga. Talvez ela sentisse uma amizade... talvez um carinho pelo plebeu com quem se casara sob coação. Um casamento como aquele poderia não agradar Moore, mas poderia, ao menos, garantir que estavam em harmonia. Ainda passaria uma semana em Nantes. Além das obrigações relacionadas com a


partida, ele tinha muitos compromissos dos quais não podia se esquivar. Mas assim que tivesse a oportunidade — e quanto mais cedo melhor —, ele voltaria para Paris a toda velocidade para encontrar Elisabeth. Precisava falar com ela. Antes que perdesse a coragem.

Vestindo uma roupa de equitação vermelha e um laço de ouro na cintura, Elisabeth cavalgava com Félicité. As duas amigas tinham escolhido aquele tipo de entretenimento para se divertirem durante a primavera que tinha finalmente chegado depois de um longo inverno. Depois de passarem pela Praça Louis, o Grande, agora elas passeavam pelos arborizados ChampsElysees, que se iniciavam a partir da Praça Louis XV. Atrás deles, a uma distância respeitosa, seguiam dois pajens, tanto para garantir a segurança das damas quanto para observar as propriedades. Mas agora que Elisabeth era casada, não precisava ser tão cuidadosamente monitorada quanto no passado. Ainda assim, sua amiga parecia ter decidido se ater à moralidade, e Elisabeth não conseguiu convencê-la do contrário. Ela repetia para si mesma, pela décima vez desde que tinham começado a cavalgar, que nunca deveria ter contado seu segredo. Mas precisava compartilhar as novidades. Ninguém mais sabia que ela estava grávida. Precisava a todo custo abrir-se com alguém ou iria enlouquecer. — Acho que você deveria contar ao seu marido que ele será pai — sua amiga repetiu mais uma vez. Elisabeth resmungou. — Não posso contar algo assim por carta. Imagine se a carta se perder! Ou cair em mãos erradas. — Pare de se esconder sob falsos pretextos. Não sei o que aconteceu entre vocês antes da partida do Sr. Wolton, mas tenho a impressão de que o está odiando, e que é por isso que se recusa a escrever. Elisabeth concentrou-se por um instante no caminho que sua égua seguia, o que era inútil, já que o terreno era aberto e plano. Será que deveria contar à sua amiga sobre a cena terrível que acontecera naquele dia?


— Eu acho que você está escondendo alguma coisa... Há duas semanas vocês estão separados, mas ainda não enviou nenhuma carta para ele. — Ele também não se preocupou em enviar notícias. — Se vocês dois ficarem esperando que o outro se manifeste primeiro, vocês não estão nem perto de se reconciliar — Félicité sentenciou. Ela parou sua montaria para forçar Elisabeth a fazer o mesmo e fitá-la. — Será que ele... te machucou? Foi violento ou abusivo? — Não, claro que não! Ou melhor... Sim, ele a tinha machucado. Ele ferira seu orgulho quando destruiu a certeza de sua felicidade. Ela se sentira como uma menina ingênua cujas esperanças foram roubadas de repente; e ele a tinha magoado, mais do que ela se atrevera a admitir até agora. Além disso, havia a solidão, esta terrível sensação de vazio que sentia tão fortemente. Cada ato diário parecia ter perdido seu sentido desde a partida de Henry. Quanto às suas noites... eram povoadas por sonhos quentes que só faziam com que sentisse ainda mais o seu isolamento quando despertava suada, excitada, mas sem ninguém ao seu lado. Félicité fez com que sua montaria girasse para se colocar de frente para ela, apertando sua mão. Como Elisabeth permaneceu em silêncio, sua amiga estudou seu rosto com cuidado. — Acho que ele não te machucou fisicamente, mas... vocês brigaram antes de ele partir? Ah, por que continuar em silêncio? Sua amiga não iria parar de fazer perguntas se não conhecesse toda a história, e ela não sentia mais energia para esconder seus aborrecimentos. Em poucas frases, Elisabeth contou sobre os pesadelos de Henry, falou de suas próprias perguntas para ele e sobre sua reação violenta, sua briga no escritório e como seu marido a tinha decepcionado. Ela terminou seu discurso um pouco sem fôlego. Félicité não respondeu de imediato, provavelmente, dando tempo a si mesmo para digerir toda a informação. Quando ela finalmente falou, era fácil ver uma expressão preocupada em seu rosto. — Elisabeth, eu entendo que sua mágoa em relação ao seu marido é bastante legítima. Mas eu ainda acho que você tem que avisá-lo sobre a paternidade, ele tem o direito de saber.


— Ele nem sequer se preocupou em perguntar o que venho fazendo desde que ele me deixou! — Mesmo para seus ouvidos, o protesto era infantil. Apesar disso, prosseguiu — Em breve ele estará de volta... Em uma semana, duas, no máximo. Seria inútil escrever para ele agora. Félicité ergueu uma sobrancelha. — E se o seu silêncio levá-lo a prolongar sua estadia em Nantes? Talvez, em breve, você começará a se arrepender de não tê-lo avisado no tempo certo. Não podemos prever o que irá acontecer, mas temos que fazer o que é melhor. — Estou com tanto medo — murmurou Elisabeth. — Mas por quê? Se ele se casou, isso significa que a escolheu para se tornar a mãe de seus filhos. — Sim, claro... Ela realmente não poderia revelar a verdade para a amiga. Henry sentiu-se obrigado a pedir sua mão, e eles estavam presos em uma união que não desejavam. — Será que seu marido também não pode estar motivado pelo medo? Pelo que me disse, seus pesadelos são recorrentes e violentos; eles podem significar um medo profundo. Se ela não estivesse tão absorvida por seus próprios tormentos, Elisabeth teria rido. Henry, com medo? Um homem que tinha atravessado oceanos e enfrentado toda a sociedade francesa sem vacilar? Parecia muito improvável. — Não posso imaginar o que ele poderia temer — ela disse em um sussurro. — E ele poderia me contar; não pretendo caçoar dele. Ah, ela realmente estava agindo como uma menina teimosa. Mas ela não estava conseguindo pensar direito. — Admita que sentir medo é difícil, especialmente para um homem — disse Félicité suavemente. — Talvez ele se envergonhe e se recuse a compartilhar com você. — Nunca percebi desta forma. Sim, ela poderia ser considerada uma egoísta da pior espécie. Ela fechou os olhos, sentindo as lágrimas se formarem, mas recusava-se a deixá-las fluir. Sentia-se mais sensível


naqueles dias. — Tente se colocar no lugar dele, eu lhe peço. Agora vá para casa, você precisa descansar. Não gostaria que nada acontecesse ao seu filho, não é? Elisabeth balançou a cabeça, sentindo a garganta fechada para falar. — Prometa-me que vai escrever para ele assim que retornar. — Eu juro. As duas mulheres se separaram, e cada uma seguiu um caminho oposto. Félicité mantevese observando a amiga por um momento, mas, em seguida, girou sua montaria e partiu. Cheia de pensamentos profundos, Elisabeth não prestou atenção ao que estava acontecendo ao seu redor. Precisava reconhecer que Félicité estava certa. Fora intimidada pelo seu ressentimento, sem ser capaz de ver além das aparências. Mas agora, ao lembrar de sua briga, estava bem claro para ela que Henry demonstrara mais pânico do que propriamente raiva. Ela realmente deveria lhe escrever para dar a notícia. Estranhamente começou a se sentir mais tranquila. Ao menos tinha parado de procrastinar e tomado uma decisão. Quanto à reação de seu marido, teria de enfrentá-lo no devido tempo. Porém, ouviu um estrondo na avenida e se virou para ver o que era. Um grupo de homens jovens, montados em cavalos velozes, pareciam correr divertidos para recuperarem o atraso em relação à carruagem de uma atriz famosa. Alegre, ela colocava a cabeça para fora da janela, encorajando-os à grande fanfarra. Percebendo que a mulher estava no seu caminho, Elisabeth girou sua égua, para que esta seguisse pela lateral. Contudo, um dos rapazes do grupo teve a mesma ideia, para desviar de um carro que estava vindo em sua direção, acabando por assustar a montaria de Elisabeth, que empinou e a destituiu, fazendo-a cair pesadamente no chão. Ela gritou quando uma dor aguda, na parte inferior das costas, difundiu-se por todo o seu corpo. Os cavaleiros já estavam longe, provavelmente nem notando o acidente que tinham causado. No entanto, outros passantes correram na direção dela, enquanto seu pajem desmontava para ajudá-la a se recuperar. Elisabeth fez uma careta de dor, mas ficou aliviada ao descobrir que sentia as pernas e


os pés. Estava dolorida, mas parecia ter sido apenas um susto, nada que um banho quente não dissipasse. Apoiando-se no braço do pajem, tentou sentar-se, mas não conseguiu. Permaneceu curvada, com uma dor que se estendia para o estômago. Uma onda a assaltou. E se o acidente tivesse consequências graves, não para si, mas para seu filho? Então, quando o mundo inteiro parecia prestes a se fechar ao seu redor, Félicité, que tinha, aparentemente, ouvido o barulho, surgiu ao seu lado e colocou o braço ao redor de sua cintura, enquanto ordenava que os curiosos chamassem uma carruagem de aluguel. Quando Elisabeth sentiu uma nova onda de dor revirar seu estômago, deixou escapar um gemido. Ela perdeu a noção do tempo, mas logo se viu, sem saber como, sentada em um carro estranho, apoiada por Félicité. Esta sussurrava incoerentemente, tentando apaziguá-la, sem sucesso. Elisabeth entendeu o que estava acontecendo em um momento doloroso de clareza. Estava perdendo seu bebê. Enterrando a cabeça no ombro da amiga, ela chorou sem restrições.


Capítulo Dezesseis Elisabeth chorara durante um dia e uma noite inteiros antes de suas lágrimas, eventualmente, secarem. Depois de três dias, quando a dor finalmente desapareceu, ela dormiu um sono pesado e sem sonhos. Mas, cinco dias depois, o sofrimento ainda era pungente, e o vácuo parecia intransponível. Nas horas seguintes ao acidente, ela voltou à consciência gradualmente, e as imagens terríveis surgiram em sua mente como em um nevoeiro. Ela se lembrava de ter sido levada para casa e colocada na cama, enquanto vozes preocupadas murmuravam ao seu redor. Quando a notícia os alcançou, seus pais e seus irmãos colocaram-se a postos em sua cabeceira, mas nenhum deles conseguia arrebatar mais do que algumas palavras e nenhum sorriso. A Sra. Arsac se instalou permanentemente na casa da filha, e Louis e Félicité, mortos de preocupação, a visitavam todos os dias. Embora estivesse grata pelos cuidados, Elisabeth não conseguia esquecer a razão de sua presença ao seu lado. Sentia falta de Henry terrivelmente. Magoava-a profundamente o fato de ele não estar lá para apoiá-la e para jurar que não a culparia pelo infortúnio. Mas, por mais que seu irmão tivesse lhe enviado uma mensagem imediatamente, ele não conseguiria estar de volta tão cedo, mesmo que decidisse encurtar a viagem. A jovem ainda não conseguira sair de seu quarto. Já tinha levantado no dia anterior, mas suas pernas trêmulas ameaçavam ceder sob seu peso. Naquela manhã, ela tinha pedido que a mãe fosse descansar, alegando que Céleste poderia muito bem cuidar dela por algumas horas. A condessa estava um pouco relutante, mas finalmente acatou, sem hesitar, atraída pela perspectiva de dormir em uma cama de verdade. Um barulho no piso térreo, de repente, atraiu a atenção de Elisabeth. Ela ouviu vozes, uma masculina, autoritária, mas não conseguiu distinguir as palavras trocadas. Henry estaria finalmente de volta? Seu coração batia forte, então, ela se sentou contra os travesseiros e enviou sua criada para buscar informações sobre o ruído. Esta voltou quase imediatamente, com uma cara engraçada, e Elisabeth percebeu com tristeza que aquele provavelmente não era seu marido. — Senhora, o Sr. de La Ferté gostaria de saber se poderia conceder-lhe um momento. Ele quer saber sobre sua saúde.


O que ele estaria fazendo ali? Era exigido que agisse com polidez e decência, mas em geral um nobre enviava um criado para cumprir esta tarefa em seu nome. No entanto, o Sr. de La Ferté a cortejara, e ela pensou que talvez fosse natural procurá-la pessoalmente. Elisabeth sentiu o desejo de recusar-se a recebê-lo, mas mudou de ideia. Não podia se dar ao luxo de fazer isso contra alguém tão influente e que tinha acesso à corte. Além disso, poderia distraí-la, o que seria bom. — Ajude-me a vestir-me para ir recebê-lo. Elisabeth levantou-se, cambaleou e segurou-se no mastro da cama. Ainda estava muito fraca. Céleste rapidamente ajeitou seu robe e a fez deitar novamente na cama antes de sair apressada. A criada provavelmente estava impressionada com a chegada de um personagem de tanta importância e obviamente não queria deixá-lo esperando. Alguns minutos depois, o Sr. de La Ferté apareceu à soleira da porta de seu quarto. Estava elegantemente vestido com um casaco coberto por bordados e usando uma impecável peruca. Claramente tinha planejado fazer visitas naquele dia. O homem se aproximou com um ar de superioridade e chegou à sua cabeceira, curvando-se graciosamente sobre sua mão. — Minha cara Srta. Arsac, fiquei preocupado quando soube que estava muito doente. — Fico feliz em vê-lo, senhor. Está demonstrando grande preocupação vindo me ver em pessoa, e eu estou muito grata por esta generosa atenção. No entanto, gostaria de lembrar que agora sou Elisabeth Wolton. Ela suavizou sua observação com um sorriso, mas isso não impediu que o Sr. de La Ferté fizesse uma careta como se tivesse mordido um limão. Se não estivesse tão cansada, Elisabeth teria achado a cena cômica. — Desculpe-me, senhora. É a força do hábito — ele gesticulou com a mão, não dando importância ao fato. — Mas diga-me, como está? De repente, Elisabeth perguntou o quanto ele sabia sobre seu acidente. Claro, toda Paris sabia que ela sofrera um incidente enquanto montava, depois de ser empurrada. Poderiam até ter suposto que tinha se machucado, porque não conseguiu conter as lágrimas na hora, mas será que


conhecia os detalhes? Mordendo o lábio, ela procurou uma maneira de formular uma resposta que não revelasse demais. O Sr. de La Ferté deve ter percebido seu desconforto, porque prosseguiu, com um tom indiferente. — Quando perguntei seu irmão, o Sr. Arsac foi vago ao falar de sua queda. No entanto, rumores, embora seja errado levá-los em consideração, dizem que você estaria sofrendo de outro mal, digamos... mais feminino. Pelo menos ela tinha sua resposta. Provavelmente os servos tinham falado, ou talvez o médico responsável, e agora toda a cidade deveria estar fofocando sobre ela. Era um pesadelo. Só queria que Henry não ficasse sabendo até o seu retorno. Assumindo que era inútil negar um rumor, a menos que quisesse lhe dar ainda mais importância, a jovem esboçou a sombra de um sorriso e respondeu: — O senhor mesmo enfatizou que não se deve dar ouvidos às fofocas. Posso garantir que estou melhor, embora a dor ainda seja profunda. O senhor deve entender, tenho certeza de que irá entender o porquê de meus familiares me manterem afastada da sociedade. E o senhor também conhece a obstinação da Condessa para cuidar de seus filhos — ela adicionou. Seu visitante assentiu com a mesma expressão de cumplicidade, embora Elisabeth estivesse convencida de que ele não acreditava em uma palavra do que ela estava dizendo a ele. No entanto, teve a delicadeza de se abster de comentar, e a jovem ficou grata por isso. — O senhor parece pronto para um baile — ela disse para mudar o assunto. O Sr. de La Ferté sorriu. — Sim, e esse foi o propósito da minha visita. A própria rainha quer saber da senhora e pediu que viesse vê-la. Sensibilizada, Elisabeth sentiu seu humor clarear gradualmente. — Diga a Vossa Majestade que aprecio o interesse que ela demonstra e que tentarei me recuperar rapidamente. Ela ficaria feliz em acrescentar que estavam prontos a servi-la, mas esta possibilidade


foi considerada. Seu casamento com um plebeu a excluíra de todas as obrigações para com a corte. Elisabeth nunca sentiu muita inclinação para o papel, mas sentia uma pontada no coração ao pensar que nunca poderia aparecer em Versailles sem ser incorporada à massa do anonimato. O homem que estava ao seu lado continuou a contar sobre a vida na corte, falando de forma divertida e contando histórias interessantes. Elisabeth permitiu-se envolver-se no assunto, cativada pela forma como o palestrante conseguira reviver um episódio em particular da vida do rei. Ela percebeu com espanto que aquele homem era um comediante inato. E enquanto ele continuava a retratar tantos absurdos, ela sentiu que estava distraindo seu coração. Como seria sua vida se tivesse escolhido se casar com ele?, perguntou-se de repente. Ela imediatamente afastou essa ideia absurda. Era inútil questionar-se a respeito do que não era possível. No entanto, ansiosa para esclarecer as coisas para si mesma, imaginou como poderia ser o seu futuro se tivesse escolhido aquele homem. Deixando seu visitante devanear sozinho, ela imaginou-se tornando-se Elisabeth de La Ferté, dama da corte da rainha... Eles teriam vivido uma vida glamourosa, ainda que superficial — e financeiramente instável, ela não se esqueceu. Poderia conversar com este homem durante uma refeição, mas será que ele lhe concederia tanta liberdade quanto Henry? Continuando com sua reflexão, tentou imaginar as relações conjugais... e falhou miseravelmente. Parecia simplesmente impraticável. O Sr. de La Ferté não lhe despertava nada, exceto um vago desconforto quando ele arriscava uma olhada em seu decote ou furtivamente apertava sua mão de um modo agressivo. Então ela relaxou. Nunca se arrependeria de ter se casado com Henry ao invés daquele homem. Sentiu-se, portanto, confortada. E também havia outro sentimento... Algo que ela realmente não conseguia definir. — Srta. d’Arsac? Elisabeth? A voz do Sr. de La Ferté rasgou seus pensamentos, e ela lhe devolveu toda atenção. — Minhas desculpas, estava distraída. Ele assentiu com um ar abrangente. — Claro. O que é extremante comum em seu estado... Ao ouvir aquelas palavras, Elisabeth sentiu raiva, mas não conseguiu responder nada.


Logo, seu visitante recomeçou seu discurso sobre um incidente com uma senhora na última caçada real. Ele conseguiu arrancar-lhe alguns sorrisos, mas seu coração já não estava mais ali. — Perdoe-me — disse ela depois de alguns minutos. — Estou muito cansada e não quero afastá-lo de Vossa Majestade por mais tempo. — Claro, estou abusando de seu tempo e de sua bondade — ele respondeu, aproveitando a dica. Ele permaneceu de pé durante toda a visita e novamente se curvou sobre sua mão. No entanto, não partiu imediatamente. — Srta. d’Arsac... já se perguntou como teria sido sua vida se tivesse se casado comigo? — ele perguntou abruptamente. Surpresa, a jovem foi incapaz de encontrar uma réplica digna. Porém, nem sequer teve tempo de fazê-lo. — Esta pergunta é puramente retórica, senhor. A Sra. Wolton já é casada. Virando-se na direção à porta, Elisabeth engasgou de surpresa. Henry estava de volta. Fiel à sua resolução de deixar Nantes o mais rapidamente possível para encontrar sua esposa, Henry apressou-se para colocar seus assuntos em ordem e, então, novamente confiou seu navio e sua tripulação ao Capitão Moore, pondo-se a caminho de Paris. Depois de três dias, onde quase morreu de tédio com a viagem tão lenta, escolheu cavalgar pelo resto do caminho, deixando seu criado e sua bagagem para trás. Um estranho senso de urgência o assaltou, tirando-lhe o sono e obrigando-o a sair logo de madrugada. Paris não estava longe, e uma corrida de cavalo na parte da manhã iria ajudar a limpar sua mente e preparar seu discurso. Um pouco de ar fresco acompanhava os primeiros raios de sol, mostrando que a primavera já estava avançada o suficiente para deixar as estradas secas. Eram pouco mais de dez horas quando Henry entrou nos subúrbios de Paris para chegar a Passy. Rever a casa que tinha abandonado por quase um mês era como encontrar um velho amigo. Era ridículo. Apenas morava ali desde o seu casamento, não crescera ali. Exceto porque... Elisabeth também morava ali, e agora ela era sua família. Quem sabe não poderiam ser pais em breve? Uma estranha sensação de felicidade surgiu com esta ideia.


Conforme se aproximava, começava a ensaiar seu pedido de desculpas e suas explicações. Assim que atravessou a porta da casa, Henry franziu o cenho. Algo estava errado... Havia várias carruagens paradas, não apenas o seu cavalo; um deles, um transporte puxado por dois belos cavalos marcados. Aquilo era um transporte e tanto, especialmente para aquela hora do dia. Assim que desmontou, um criado aproximou-se para tomar as rédeas e cuidar de sua montaria. Ainda coberto de poeira, Henry entrou na casa e foi recebido por Céleste, a dama de Elisabeth. — Oh, o senhor está de volta! Nós não o esperávamos tão cedo... — Consegui me livrar de meus compromissos. Mas diga-me, então, qual é a causa do congestionamento no quintal? Será que minha esposa está recebendo algum visitante ilustre? A empregada corou e olhou para baixo, e Henry começou a temer o pior. — A senhora estava muito doente. Sim, muito doente. — Doente? Como? Ninguém se preocupou em me avisar? — Sim, senhor, eu juro! Eu ouvi o irmão da senhora dizer que enviou uma carta para o senhor na noite do acidente, há quase uma semana. Ele não tinha recebido nada. Fechando os olhos por um momento para calcular o tempo, Henry percebeu que tinha se desencontrado da carta. Agarrou a mulher pelos ombros e controlouse para não agitá-la como uma árvore de ameixa. — Um acidente? Explique-se melhor, não estou entendendo. Como ela está? Lágrimas surgiram nos olhos de Céleste, e ele a soltou, com medo de machucá-la. Ela finalmente respondeu, gaguejando: — A senhora teve uma queda durante um passeio a cavalo... Ela estava com Madame du Plessis — articulou com dificuldade. — Ela não está ferida, mas perdeu o bebê. Henry ficou pálido. Ela tinha perdido o bebê? Então estava grávida quando ele partiu? Por que não lhe contou? Um desespero agarrou seu coração, e ele precisou se encostar na parede para não cair.


— E Elisabeth? Como ela está? Sua esposa tinha sido forçada a passar por aquela provação sozinha, sem seu apoio. Que dor deve ter sentido! — Ela está melhor. A condessa praticamente não saiu do seu lado, mas ela está descansando agora. Sua esposa está em seu quarto e... — Vou imediatamente vê-la — ele a interrompeu. Não havia necessidade de se preocupar com detalhes adicionais. A necessidade mais urgente era vê-la, para demonstrar sua tristeza e seu carinho, para ajudá-la a se recuperar. Subindo os degraus de dois em dois, Henry chegou ao andar e virou-se para o corredor na direção do quarto dela. Como não queria perturbá-la se estivesse dormindo, diminuiu o ritmo para abafar o som de seus passos. Talvez devesse fazer um desvio para seu próprio quarto para refrescar-se e trocar-se. No entanto, sons de vozes chegaram até ele e, de repente, lembrou-se da carruagem que vira no quintal. Será que Félicité estava presente? Não reconhecera o brasão, mas isso não queria dizer nada, porque não estava familiarizado com estas decorações tão nobres. Porém, à medida que avançava, teve a certeza de reconhecer uma voz masculina, então, congelou ao ver a porta entreaberta. Elisabeth não poderia estar com um amante! Era verdade que os franceses recebiam seus hóspedes em seus quartos, às vezes até mesmo enquanto estavam na cama, mas o momento era muito grave para permitir tal liberdade... No entanto, quando ouviu a conversa, não teve dúvidas sobre a identidade do misterioso visitante: o maldito de La Ferte estava rondando sua esposa! Henry sentiu como se um véu vermelho caísse sobre seus olhos. Sentia-se terrivelmente traído. Embora não fosse capaz de compreendê-las, cada palavra parecia uma facada em suas costas. E foi ainda pior quando ele percebeu o sorriso de Elisabeth em resposta. Então, ela não se importava com o filho perdido, apenas flertava com seu ex-pretendente. Por apenas um momento ele ficou tentado a virar-se e fugir de volta a galope para Nantes e depois para a América, onde iria encontrar uma maneira de esquecer a jovem. Retomando o controle, decidiu que era hora de enfrentar a realidade, por mais dolorosa e desagradável que pudesse ser. Ele colocou a mão na maçaneta, determinado a interromper a


conversa, mas teve tempo de ouvir o nobre perguntar à sua esposa o porquê de ela não tê-lo escolhido. Com uma calma que não imaginava que possuísse, Henry entrou no quarto e colocou aquele lixo sedutor em seu lugar. A cena era clara: deitada na cama, vestindo apenas um robe, Elisabeth olhava para ele com uma expressão atordoada. La Ferté, muito à vontade, segurava a mão da jovem na sua. Este manteve-se com um ar de arrogância e falou-lhe: — Ah, olá, Wolton. Não sabia de seu retorno. Mas, a julgar por sua aparência, não faz muito tempo que chegou. Ele foi avaliado por um olho implacável, que detalhava sua roupa amassada e empoeirada da viagem, seu cabelo despenteado pelo ar fresco e a barba que sombreava sua face. Henry precisou respirar fundo antes de responder. — Sim, eu queria fazer uma surpresa para minha esposa. Ele pensou ter visto Elisabeth ficar tensa. Então ela estava escondendo alguma coisa. — Sua esposa estava doente, e eu me permiti vir perguntar-lhe sobre sua saúde. Sua Majestade manifestou interesse nela. Se o Sr. de La Ferté não tivesse falado em um tom tão arrogante, seu discurso poderia ter parecido até amigável. No entanto, Henry duvidava fortemente de sua intenção. Este homem provavelmente não viu nenhuma razão para justificar sua presença no quarto de uma senhora doente tão cedo. — É um prazer tê-lo de volta, senhor. Sua jornada ocorreu sem problemas? — Elisabeth perguntou em um tom falsamente alegre, talvez para acalmar a tensão palpável. — Perfeitamente, minha querida. A esposa do governador de Nantes mal pode esperar para conhecê-la antes de partirmos. Seus olhos estavam fixos nos da jovem, mas ele viu pelo canto do olho que o Sr. de La Ferté estava surpreso. Será que ela não teve tempo de avisá-lo? A não ser que seus desejos fossem apenas entreter-se com este homem para esperar o retorno de seu marido. Certamente, sua amável esposa tinha demonstrado uma grande duplicidade. — Bem, mas não vou discutir meus negócios aqui. Esta conversa é particular.


Apesar de seus esforços, ele estava lutando para esconder seu ressentimento e sua amargura. — Bem, acho que o senhor deve ter tarefas a realizar... Provavelmente o estão esperando, nem eu nem a Sra. Wolton desejamos prejudicá-lo. Pela primeira vez ele teve a satisfação de ver La Ferté mudar de expressão e ficar em silêncio. Mas o alívio foi de curta duração. O nobre não se deixou derrubar por muito tempo e curvou-se mais uma vez sobre a mão de Elisabeth antes de se dirigir à porta, onde ele cumprimentou Henry balançando a cabeça de forma quase imperceptível. — Eu não iria perturbar o reencontro emocionante entre os cônjuges. Será desnecessário me acompanhar, Sr. Wolton. Vou encontrar o caminho sozinho — ele acrescentou, como se estivesse falando com um criado. Virando-se para a cama e curvando-se profundamente, ele continuou: — Continuo sendo seu servo, senhora. Não hesite em me chamar se eu puder ajudar em algo. Henry quase correu para a cabeceira da cama de Elisabeth, que de repente ficou muito pálida. Porém, logo mudou de ideia; ele a ouvira rir minutos atrás, não seria agora que ela iria fazê-lo acreditar que sofria a reação da fadiga e da emoção. Assim que a porta se fechou, eles se viram sozinhos.


Capítulo Dezessete O silêncio parecia se estender ao infinito, mas Elisabeth tinha certeza que só durara alguns minutos, até que ela se forçou a falar. Seu marido parecia incapaz de pronunciar o menor ruído, e era imperativo afastar o mal entendido relacionado com a presença do Sr. de La Ferté. — Henry, eu estou realmente aliviada em vê-lo... — Aliviada, senhora? Sério? Posso me dar ao luxo de perguntar como minha presença pode aliviá-la? A jovem sobressaltou-se, mas tentou manter a calma. Respirando fundo, ela continuou: — Eu... caí e... Ela engoliu em seco quando sua garganta se fechou ante a menção destas memórias dolorosas. Depois acrescentou: — Eu... eu perdi nosso filho. Lágrimas inundaram seus olhos, e ela olhou para baixo. Admitir isso a fez muito mal, e ela não queria demonstrar sua fraqueza, pois não tinha esse hábito. No entanto, este terrível acidente a oprimia, e ela precisava contar a Henry. Só ele poderia entender a sua dor. Mesmo que não tivesse sido notificado imediatamente, era filho dele, afinal de contas. Com uma voz rouca, ela decidiu dar voz a seus medos e dúvidas. — Não sei se o céu está nos punindo por nossos erros... Eu espero de todo o meu coração que não, e só posso orar pela salvação desta alma inocente. Henry ficou em silêncio, mas ela o ouviu aproximar-se da cama. Quando pegou sua mão, ela ergueu os olhos para encontrar-se com os dele, tentando buscar um pouco de compaixão. Mas ela ficou chocada com a frieza que descobriu. — Poupe-me de suas lágrimas, por favor. Não faz nem cinco minutos que a ouvi rindo com seu visitante e quer que eu acredite que está esmagada pela dor? — Ele riu antes de continuar. — Posso ser um estrangeiro, mas não sou estúpido. Quem pode afirmar que você não se


livrou desta inconveniência... para usar um termo que você mesma usou anteriormente. Elisabeth olhou para ele sentindo-se impotente. Ela se lembrava de ter usado um termo semelhante, mas apenas para deixá-lo mais seguro em seu primeiro encontro. Além disso, prejudicar seu filho? Não, ela nunca teria ousado fazer algo assim. Soltando sua mão da dele, ela se afastou o máximo possível. — Como você pode insinuar uma conduta tão horrível da minha parte? Esteja ciente, senhor, que nunca me ocorreria a ideia de fazê-lo. Se você soubesse como tenho sofrido... — Ah, não duvido que tenha sofrido! Mas talvez você tenha tido alguma ajuda para alcançar este resultado. — Mas do que está falando, afinal? Ele se inclinou e olhou fundo em seus olhos. — Quem poderá dizer que este homem, este La Ferté, não é seu amante? Quem sabe ele não a encorajou a livrar-se desse fardo? Ela ficou vermelha de raiva, sentindo-se muito confusa. Sentindo que não ganharia nada ficando deitada na cama, ela agarrou a coluna e levantou-se, apesar da fraqueza que ainda sentia em suas pernas. O quarto começou a girar e o zumbido em seus ouvidos tornou-se ensurdecedor, mas ela não deu atenção. — Senhor, acredito que a fadiga o tenha enganado. Posso jurar que nunca mantive qualquer relação com o Sr. de La Ferté nem com nenhum outro. — Nesse caso, diga-me por que não teve o cuidado de me contar que estava grávida. Porque mesmo se não sabia quando eu parti, já se passaram mais de três semanas. — Você mesmo causou isso! Compartilhou certa privacidade comigo, mas, na verdade, sempre me manteve distante. Pensei, por um momento, que me queria como parte de sua vida, mas vi o quanto era indiferente antes de sua partida. A conversa parecia um dejà vu. Estava apenas repetindo os argumentos que usara com Félicité para justificar seu silêncio. — Para dizer a verdade, eu estava prestes a contar-lhe quando meu acidente


aconteceu — ela continuou com uma voz mais suave. — Muito conveniente! — ele respondeu com uma ironia cortante. — Não, minha senhora, sinto muito, mas não acredito em você. — Então pergunte à Sra. du Plessis! — Como se sua melhor amiga não fosse mentir para protegê-la. Henry se afastou e começou a andar. Elisabeth tentou aproximar-se dele, mas suas pernas cederam, e ela precisou agarrar-se com as duas mãos nas costas da poltrona instalada ao lado da lareira. Sentiu cada membro tremer, mas tinha esperanças de que o amplo robe esconderia sua fraqueza. Não iria ganhar aquele confronto se estivesse acamada, por isso, seu orgulho a proibia de se sentar. Não até que o livrasse de toda suspeita. — Neste caso, entre em contato com Louis! Afinal, ele é seu amigo, não iria mentir para você. — Seu irmão foi quem arquitetou nossa união, não posso confiar. — Você tem uma opinião muito baixa dele. O marido virou-se para ela e congelou por um momento, enquanto uma pitada de hesitação se instalava em suas expressões. Ela decidiu manter a vantagem. — Além disso, explique-me por que eu iria traí-lo, seja com o Sr. de La Ferté ou com qualquer outro, se estamos casados? Desta vez, a risada de Henry foi tingida por um sotaque triste. — Senhora, ou você é terrivelmente ingênua ou me considera um tolo. Muitas pessoas desprezam os votos que fizeram diante de testemunhas, e os nobres são os piores... — Podem ser, mas eu não sou. — E o que eu sei? Você nunca quis essa união, poderia muito bem alegar que seus desejos não foram atendidos. Elisabeth, que já estava pálida, ficou branca como a morte.


— O que quer dizer com isso? — ela perguntou em uma voz indignada. — Eu estava na sala de leitura do seu pai quando foi decidido nosso compromisso. Ouvi tudo, não há como negar. Minhas origens plebeias foram seu principal argumento contra mim. Você apenas se rendeu sob ameaça de seu pai. De repente ela sentiu como se perdesse o ar. Ele estivera ao lado dela no dia em que se opusera ao casamento. Fora ali que surgira sua desconfiança em relação a ela, seu ressentimento contra a nobreza... Se ele soubesse que ela havia pronunciado aquela frase apenas para convencer seu pai. Não era ele quem ela recusava, mas a ideia do casamento! Como poderia convencê-lo de que estava errado ao interpretar seus comentários? Sob o efeito da ansiedade e da raiva, sua febre subiu um pouco, e ela começou a suar. Um dor surda atingiu seu ventre, e ela precisou forçar-se a respirar para superá-la. O que poderia fazer? — Oh... Incapaz de dizer qualquer coisa ou pensar com clareza, Elisabeth deixou escapar essa simples sílaba, que não expressava nada do que ela sentia. Os olhos de Henry se estreitaram. — Então esta é sua única resposta? Oh? — ele repetiu, imitando seu tom. — Não, absolutamente não! Ela estava fervendo agora, mas as palavras saíram como um tiro por seus lábios. A raiva era sufocante e nublava sua mente e seu corpo. No espaço de um segundo, Elisabeth começou a sentir esperança de que seu marido iria descobrir a dor que sentia, mas não foi o que aconteceu. Ele começou a andar pelo cômodo, incansavelmente, continuando seu discurso. — Eu nunca deveria ter deixado me convencer... Seu irmão devia saber de algo para me convencer ao casamento. Você falou algo para ele? — ele perguntou secamente, voltando-se abruptamente em sua direção. — O que quer dizer? O zumbido em sua cabeça se transformou em um tumulto, e teve a sensação de que não entendia nada daquela cena.


— Estou falando sobre nossa aventura, diabos! Contou a Louis o que aconteceu entre nós? A jovem chegou a engasgar quando ouviu o xingamento. Ele estava colocando sua palavra em questão, o que deveria tê-la deixado exasperada no mais alto nível. Porém, sentiu-se indiferente, enquanto respondia friamente. — De maneira nenhuma. Mas como posso fazê-lo acreditar, já que sempre questiona minha sinceridade, não é? Henry finalmente parou e olhou nos olhos dela. Elisabeth estava consciente de que não demonstrava seu melhor lado, mas ela não se importava. Parecia finalmente detectar uma reação no rosto de seu marido, e ela queria a todo custo se manifestar. No entanto, suas esperanças foram rapidamente decepcionadas, o jovem deu de ombros e começou a andar para lá e para cá. Frustrada por seu silêncio e por sua própria incapacidade de justificar o julgamento obscurecido pela dor e pela tristeza, Elisabeth parou de alimentar os comentários maldosos que inundavam sua mente. Endireitando-se com muito esforço, ela enfrentou seu marido, afirmando: — Pelo menos tenha a bondade de reconhecer que, se estou em falta, você também está. Ele parou. — E em que estou em falta, senhora? Esclareça-me, por favor. — Todos aqueles pesadelos, aqueles segredos, a forma como esconde a lesão na mão... Você se recusa a compartilhar seus problemas comigo, por que eu iria partilhar os meus? O jovem pareceu pouco à vontade, e Elisabeth finalmente viu a possibilidade de demolir sua obstinação. — Saiba que isso não invoca muito a seu favor. Eu poderia pensar que é culpado por algum grande crime e que está tentando a todo custo escondê-lo. Quando ela viu que Henry não se moveu, levou a mão à boca. Ah, meu Deus, será que estava certa?, perguntou a si mesma com ansiedade. Sua esposa o estava mesmo acusando de ser um criminoso? Acima de tudo, como ela


poderia saber o que ele ocultava com tanto cuidado? Será que alguém o tinha delatado? Diante dele, Elisabeth parecia uma estátua, perfeitamente imóvel, com a tez pálida, a boca aberta, agarrando-se à cadeira, olhando para ele com medo e terror. Aliás, medo dele... Henry levantou a mão que tremia e passou-a pelo rosto. Era um pesadelo. Logo ele acordaria em sua cama e se levantaria para garantir que sua esposa estava dormindo pacificamente. Mas nada disso aconteceu, e ele precisava encarar os fatos: fora desmascarado. Alguma pessoa mal intencionada deveria ter contado à sua esposa. A menos que ela tivesse suposto. Basicamente, pouco importava. Logo a verdade iria ser exposta, e ele teria que deixar o país. Em algum lugar no fundo de sua mente surgiu a ideia de que aquele evento infeliz lhe permitiria sair daquela união impossível e garantir sua liberdade e a de Elisabeth. Tentou se alegrar com isso, mas sem sucesso. Seria muito cedo? — Meu Deus, Henry... Diga-me que estou errada... — ela finalmente articulou. — Digame que o homem com quem me casei não é um vilão. Sua ira, que fora um pouco apaziguada ao ouvir o ataque, voltou com carga ainda mais violenta do que antes. Mesmo no auge de seu tormento a mulher estava pensando nisso. Ela estava preocupada com seu destino ou em conhecer o final da história? Não! Tudo que importava para ela era que sua reputação preciosa não fosse contaminada, que sua existência não fosse permeada por revelações escandalosas! — Você, sempre você! — ele rosnou. — Aconteça o que acontecer, é sempre necessário que a situação gire em torno de sua pequena pessoa! Você já sentiu um pouco de interesse ou compaixão pelos outros? — Mas... — ela gaguejou finalmente. — É essencial que eu saiba um pouco do meu marido. Aquele argumento pareceu convencê-lo e não alimentou sua ira. — No que diz respeito a conhecer-me, senhora, acho que está querendo se referir ao sentido mais estrito.


Sua ira coloriu ligeiramente as bochechas pálidas. — Eu tenho o direito de saber qual foi o crime que cometeu. — Como sempre, você só tem direitos, mas nenhum dever! Tem o direito de saber sobre o meu passado, tem o direito de zombar de mim... mas só quando lhe convém. Parece-me que tinha o dever de me avisar sobre sua gravidez e de manter uma atitude mais reservada na minha ausência. A mulher começou a chorar silenciosamente; as lágrimas escorriam por seu rosto sem que ela tivesse consciência disso. Incomodado por esta visão, Henry sentiu-se flexível de novo, mas logo se recuperou. Sempre se esquecia do quanto sua esposa sabia atuar, era só perceber seu desempenho em sua cama. Sentindo-se impotente, ele cerrou os punhos e sentiu uma dor aguda ao ver Elisabeth erguer o braço para se proteger. Ela ainda não confiava nele... Isso fez com que ele disparasse uma saraivada de xingamentos em inglês. Henry abriu as mãos e deu um passo para trás antes de exclamar: — Meu Deus, minha senhora, não tenho a intenção de bater em você! Pode me achar um cafajeste, mas respeito as mulheres e nunca me rebaixaria a tal desonra. Elisabeth mantinha o olhar perdido e confuso, mas balançou a cabeça lentamente. — Desculpe-me — ela disse em uma voz suave. De repente, ele se sentiu muito cansado e tinha a impressão de que estava se comportando como um tolo. Na verdade, tinha descarregado sua raiva, mas aonde ela o tinha levado? Suspirando, ele decidiu despedir-se de sua esposa e se dirigiu para a porta que dava em seu próprio quarto. Elisabeth provavelmente não queria que ele permanecesse ali, e ele mesmo sentia a necessidade de isolar-se. — Vou deixá-la agora. Preciso descansar e sugiro que faça o mesmo. Ele mordeu o lábio, percebendo que tinha lhe dado uma ordem. Então, adicionou com um tom menos autoritário:


— Conversaremos mais tarde. Henry assentiu e passou por sua esposa quando de repente a porta se abriu. Elisabeth deixou escapar uma exclamação de surpresa. — Mãe! A condessa estava parada na porta, vestindo apenas um roupão, e tinha obviamente saltado da cama. Olhou para a filha com uma expressão preocupada, antes de voltar o olhar para Henry com altivez. — Senhor, cuide de sua linguagem ao falar com minha filha — ela disse com dignidade. Aquilo foi o suficiente para incendiá-lo ainda mais. — Senhora, eu gostaria que não se intrometesse em nossa conversa. Este assunto só diz respeito a mim e à minha esposa. — É o bem estar da minha filha, Sr. Wolton. Portanto, neste caso, me preocupa e muito. Não vou deixar! O senhor a está incomodando desde que retornou. Não negue, todos os criados estão ouvindo seus gritos desde que entrou nesta casa. — Então eu os estava entretendo! Mas saiba que sua preciosa Elisabeth não é tão inocente quanto demonstra e... Os olhos de Elisabeth se arregalaram novamente, preenchendo todo o seu rosto pálido, como se temesse que ele revelasse seu segredo mais vergonhoso. A Sra. d’Arsac pareceu não notar e continuou seu discurso em defesa da filha cada vez mais veemente, enquanto sua voz se elevava aos gritos. — Este tipo de conduta é indescritível! Deselegante! — ela berrou. — Talvez tenha esquecido que não sou um homem elegante, senhora — disse Henry. — Os senhores venderam sua filha pelo maior lance para uma participação financeira. A mãe de Elisabeth ficou em silêncio por um momento, como se ele a tivesse esbofeteado, e ele cerrou os dentes. Nunca gostara daquela mulher, mas nunca quisera insultá-la abertamente... A Sra. d’Arsac, porém, surpreendeu-se por um momento. A disputa dos dois tinha tomado uma proporção de mau gosto.


— Chega! — gritou uma voz. Alheio ao seu entorno, Henry e a Sra. d’Arsac imaginaram que fora Elisabeth, que estava observando os dois com um olhar de censura. — Saiam — ela ordenou com uma voz fraca. — Deixem-me... Deus! De repente ele percebeu que ela parecia ainda mais pálida do que no início da briga. O que será que o deixou tão cego? — Saiam daqui! — ela repetiu em um sussurro praticamente inaudível. A jovem mulher dobrou-se para a frente, tentando desesperadamente se recuperar, mas continuou caminhando hesitante em direção à cama. Henry tentou ajudar, mas já era tarde demais. Sua mão se soltou da mobília, enquanto Elisabeth perdia a consciência e caía desacordada no chão.


Capítulo Dezoito Ao deparar-se com a figura inanimada de sua esposa, Henry sentiu um profundo terror. Será que ela estava...? Inclinou-se desesperadamente sobre ela e tocou-a com as costas da mão. Estava ardendo em febre. Atrás dele, a Sra. d’Arsac desesperava-se, acusando-o de matar sua filha. Sem dizer nada, ele puxou o corpo inerte para si, erguendo-a do chão, sentindo-a mais leve do que se lembrava, e a estendeu na cama. — Ao invés de me insultar, é melhor chamar o médico — ele dirigiu-se à sogra, sem olhar para trás. Ele não tinha nenhum desejo de enfrentar o desprezo e a raiva, especialmente porque, daquela vez, ele sentia que merecia a ira da Sra. d’Arsac. Droga, o estado de Elisabeth havia se deteriorado diante de seus olhos, e ele não se dignara a perceber! E ele a tinha acusado de ser egoísta! A condessa correu e chamou os empregados aos gritos, colocando toda a família em crise. Logo, ele ouviu a porta se abrir, enquanto Céleste chegava com uma bacia com água fresca. Henry se afastou da cama de Elisabeth encharcado de suor, mas a Sra. d’Arsac o olhou com um ar imperioso. — Você já causou bastante dano, senhor. Agora saia para que possamos cuidar dela. Tentando não responder acentuadamente, Henry assentiu rigidamente. — Estarei na biblioteca. Peça que o médico vá me ver depois de sua visita. A criada não prestou atenção, já que estava muito ocupada em cuidar da doente, mas sua sogra apenas deu de ombros, empurrando-o em direção ao corredor. No momento em que a porta se fechou diante dele, a última coisa que viu foi o rosto de Elisabeth, pálido contra o travesseiro branco. Até mesmo seus belos cabelos não eram suficientes para fazê-la brilhar. Esta visão o assombrou. Caminhou em direção à biblioteca com passos pesados e ordenou aos seus próprios criados que avisassem quando o médico chegasse. Assim que chegou no cômodo, passou a mão


sobre o rosto. O que estava fazendo ali? Poderia não descobrir nada durante horas, tempo em que sua esposa seria examinada e que teriam um diagnóstico. Poderia usar esse tempo para se lavar e se trocar, mas era como se qualquer força de vontade o tivesse abandonado. Henry se sentia sobrecarregado. Deixara-se levar pela raiva, convicto de seus direitos, mas será que tinha se enganado tanto assim pelas aparências? Talvez tivesse cometido um grande erro... Deixando de lado suas dúvidas, ele ficou atento aos sons da casa. Logo a porta se abriu e vozes foram ouvidas. Sentiu-se tenso enquanto tentava ouvir trechos de conversas, mas apenas sons inteligíveis chegaram até ele. Estava tão chateado que mal conseguia entender francês. Depois de uma espera que parecia não ter fim, bateram à porta para anunciar a presença do médico, que o atendeu imediatamente. Era um homem de cerca de cinquenta anos, vestido elegantemente, embora sem ostentação. Uma peruca cinza e óculos com armação de metal davam-lhe um ar competente. Ele fez uma ligeira mesura, e Henry, apesar de sua impaciência, convidou-o a se sentar antes de interrogá-lo. Contudo, não precisou fazer isso, porque o médico tomou a palavra imediatamente. — Senhor, eu sei que está preocupado com o estado de sua esposa, e eu vim aqui assim que tive oportunidade. — Obrigado por sua dedicação. Você me trouxe alguma notícia reconfortante? O homem franziu o cenho, e Henry se levantou nervosamente, começando a andar pela biblioteca. Não era um bom sinal. — Infelizmente não poderei lhe trazer conforto. Sua esposa estava se recuperando muito bem de seu... infeliz acontecimento, mas uma mudança violenta de humor reverteu a situação. Receio dizer que ela sofre de uma febre devido a um aumento de temperatura abrupta do sangue. Henry cerrou os punhos. Febre não era uma doença leve, especialmente estando Elisabeth tão fraca. Muitos sucumbiram ou ficaram com sequelas para sempre. — E não há nada que possamos fazer para acelerar sua recuperação? — Não, me desculpe. Mandei que a banhassem regularmente para reduzir a febre, mas temo que a oração seja mais eficaz do que qualquer outra solução.


— Oração! Deve estar zombando, sem dúvida. — Vejo que está magoado, mas prepare-se para o pior. A Sra. Wolton está muito doente e inconsciente. O jovem fechou os olhos, sentindo a cabeça queimar. Não podia perder Elisabeth, era impossível! — Está condenada? — ouviu-se perguntar com uma voz desprovida de emoção. O médico suspirou e remexeu-se na cadeira, desconfortável. — Não posso lhe assegurar neste momento. Vamos ver como a doença se desenvolve antes de decidir. No entanto, seria útil administrar a extrema unção. Já aconselhei a Condessa nesse sentido — acrescentou, depois de pigarrear. Henry arregalou os olhos, sentindo sua raiva aumentar novamente. — Parece-me que esta é uma decisão minha! — Ele respirou fundo para se acalmar. — Perdoe minha explosão. Estou muito nervoso. Seu companheiro ficou de pé e assentiu com conhecimento de causa. — É natural. Mas seja corajoso; os caminhos de Deus são inescrutáveis, e talvez sua esposa se recupere sem sequelas. ​— O médico lhe deu um tapinha no braço. Henry queria dizer que duvidava francamente da intervenção divina, mas se absteve. Por que proibir aquele homem que tinha tanta fé de oferecer-lhe algum conforto? Em seguida, acompanhou seu convidado até a entrada, agradecendo-lhe por tê-los atendido tão prontamente. Este prometeu retornar cedo na manhã seguinte. Sozinho novamente, o dono da casa hesitou. Deveria retornar à biblioteca para encontrar um pouco de paz ou ir ver sua esposa? Seguindo seu instinto, ele subiu as escadas e entrou no quarto sem aviso prévio. Céleste virou-se, visivelmente surpresa, mas sua sogra não estava à vista. Ele supunha que esta tinha saído, talvez para ir à igreja... Na cama, Elisabeth ainda estava inerte, com apenas seu peito subindo e descendo no ritmo de sua respiração. Na ponta dos pés, Henry se aproximou e pegou sua mão, sob o perplexo olhar da criada, que provavelmente tinha testemunhado a briga.


Apesar de sua preocupação, ao ver as formas da jovem, que se delineavam por sob o pano fino da camisola encharcada, sentiu uma onda de desejo exacerbado. Henry sentia-se um monstro. Sua esposa estava muito doente, mas ele só pensava em seus apetites carnais... Estava prestes a beijá-la na palma da mão quente, quando sua sogra entrou no quarto, acompanhada por um padre, que ele identificou como sendo de sua paróquia. O religioso deve ter sentido a tensão com que foi recebido, e disse imediatamente: — Sr. Wolton, gostaria de tê-lo conhecido em circunstâncias menos dramáticas. Sua esposa tem sido de uma devoção perfeita, por isso, acredito que compartilho de sua dor. — Ela não está morta e não vai morrer — Henry murmurou baixinho, incapaz de manter as boas maneiras. — Temos toda esperança, senhor — o homem respondeu em um tom uniforme. Ele apontou para uma criança que estava com ele e na qual Henry não tinha reparado antes. Esta carregava uma caixa. Ao perceber isso, Céleste caiu de joelhos e se benzeu, e Henry percebeu que ali deveria estar a hóstia que o padre engoliria mais tarde por sua esposa. — Agora, devo pedir que nos deixe em paz — disse o padre, observando a paciente. — Duvido que minha mulher seja capaz de se confessar. — Não se preocupe, vamos orar por ela. Pelo canto do olho, ele viu que a condessa teria gostado de acrescentar algo e talvez até mesmo ficar no quarto, mas retirou-se, para servir de exemplo. Ele não gostava de ficar na companhia de clérigos, sentia-se a milhares de quilômetros de suas crenças. Virando-se, dirigiu-se à biblioteca.

O tempo passou devagar. A julgar pelo pêndulo colocado sobre a lareira, o padre permaneceu quase três horas com Elisabeth, e ninguém sabia nada do que estava acontecendo dentro do quarto. Finalmente avisaram a Henry que o padre estava saindo e que, na sua qualidade de anfitrião, ele teria que acompanhá-lo. O homem parecia cansado e preocupado. No entanto, acompanhado da criança,


conseguiu trocar algumas palavras com o americano. — Meu filho, sei que não partilha de nossa fé, e eu lamento por isso, mas aconselho que implore a misericórdia do Senhor para sua esposa. — Por quê? O que ela confessou...? Oh, meu Deus!, pensou ele. Teria finalmente admitido que provocou o aborto? — Apenas alguns pecados banais. No entanto, sua condição é preocupante, e acho que os próximos dias serão decisivos. Ele era um padre ou um médico? — Acredite em minha experiência com essas situações — ele continuou como se tivesse ouvido seus pensamentos. Henry balançou a cabeça, agradeceu ao religioso e o acompanhou pela varanda. — Uma última coisa. Durante um breve momento de lucidez, a Sra. Wolton jurou na cruz que não tinha provocado a morte da criança... Ela me disse com a sinceridade daqueles que não mentem. Com isso, ele se afastou, deixando Henry preso em sua angústia e uma perplexidade tão profunda que seu estômago se revirou. Elisabeth tinha jurado... Ele passou a mão pelo cabelo, sem saber o que fazer. Duvidara de sua esposa, acreditando que ela teria coragem de mentir em tais circunstâncias. Então, ele precisava reconhecer que fora cegado por... o quê? Raiva? Certamente, porque nunca tinha gostado do Sr. de La Ferté. Ressentimento também, sem dúvida, inspirado pelas palavras da mulher no momento de seu noivado. No entanto, será que poderia garantir que não havia outra razão para sua raiva? Ele entrou no pátio que dava para o jardim para poder refletir. Revendo seus poucos meses de casamento, Henry percebeu que tinha realmente conseguido manter sua mulher afastada. Não fisicamente, é claro. Embora sua determinação para ficar longe dela tenha contribuído. Mas, acima de tudo, tentara não se envolver com ela e se obrigara a não desfrutar dos momentos que passaram juntos. Mas não dera muito certo. De uma forma ou de outra, depois de marcar sua carne, Elisabeth conseguira entrar em sua mente e em seu coração, ganhando seu espaço e,


gradualmente, afastando a escuridão que obscurecia seu humor desde que deixara a América. Ele finalmente compreendeu que a vida estava mais leve, mais pacífica, por influência da jovem. Ele a amava. Henry fez uma curta parada ao lado de um canteiro de flores. Amava Elisabeth e não fora capaz de reconhecer mais cedo, muito menos de dizer a ela. Continuara acreditando que sentia apenas uma atração física juntamente com admiração por sua independência de espírito... E chegara a acusar a esposa de ser ingênua. Olhando para si mesmo, não era muito melhor do que ela. Não, era pior do que isso. Porque Elisabeth o acolheu como seu marido desde o início. Entregara-se a ele, física e moralmente. Durante a briga, tentou manter a dignidade e não atacálo, até que ele a atacou primeiro. E se o futuro provasse que ela tinha se comportado mal em sua ausência — a não ser que ele, novamente, tivesse interpretado mal a situação —, seria porque ele a tinha deixado sozinha e livre o suficiente para que procurasse conforto com o primeiro que surgisse. E o mesmo fizera com a criança que tinha perdido... Ele sentiu seu coração afundar dolorosamente no peito. Mesmo que estivesse ignorando essa gravidez de resultado infeliz, não podia deixar de sentir uma profunda tristeza. Afinal de contas, naquela mesma manhã, tinha imaginado como seria produzir descendentes com Elisabeth. Henry sentiu uma imensa sensação de vazio dentro de si, como se aquele nascimento interrompido tivesse deixado marcas indeléveis, enterrado suas esperanças. Precisava falar com a esposa. Devia-lhe um pedido de desculpas. Será que aceitaria? Era pouco provável... Mas não podia se cobrir de orgulho. Quando estava voltando para casa, ficou surpreso ao ver Louis, em seu uniforme completo de oficial, desmontando no quintal. Assim que o viu, o nobre se curvou. — Henry, você está finalmente de volta! Que bom! Minha mensagem o encontrou! — Para ser honesto, eu deixei Nantes mais cedo do que o esperado, por um capricho. Soube da triste notícia ao retornar. — Sinto muito... mas estou feliz que esteja aqui. Embora tenha se recuperado bem, Elisabeth definhou durante esses dias, e sua presença irá apaziguá-la. Você já a viu? Ainda terão que viajar... — Sim, eu...


— Perfeito. Soube que o Sr. de La Ferté apareceu esta manhã na corte, espalhando rumores muito ruins sobre você. Apressei-me a defendê-lo, mas queria avisá-lo sobre isso, antes que os boatos o alcancem. Porém, deve ignorá-los. Henry ficou pálido, algo que Louis notou imediatamente. Depois de muito hesitar, ele decidiu confessar a história toda. Em suma, disse que encontrou Elisabeth na companhia do Sr. de La Ferté e que provavelmente tinha entendido mal a natureza de seu relacionamento. Também falou o que disse à esposa e como reagiu. Sem tentar se salvar, tentou mostrar-se sincero, enfatizando as origens de suas dúvidas. Quando ele terminou, Louis ficou em silêncio por um longo tempo. Henry jurou que seu amigo estava remoendo tudo que tinha ouvido. Depois, o oficial cerrou os punhos e ficou parecendo uma presa para a fúria. Não poderia culpá-lo. — Eu deveria desafiá-lo para um duelo por causa dessa afronta — ele finalmente disse em uma voz que mal traía uma raiva contida. — Você facilmente me venceria, mas não vejo nenhuma razão para me opor — Henry disse com resignação. Se fosse o caso, ele poderia, ao menos, ficar em paz. No entanto, Louis ergueu a mão em silêncio. — Na verdade, confesso que não o apoiamos tanto quanto deveríamos. Mas Elisabeth me fez prometer que nunca lhe contaria, e eu a obedeci. Mas estava errado... — Do que está falando? — No dia do seu casamento, minha irmã e eu tivemos uma pequena discussão. Apesar de eu ter favorecido a união, tive a nítida impressão de que algo estava errado. Quando perguntei à Elisabeth, ela jurou que era a relutância em se casar, muito mais do que sua pessoa, que a impulsionara a lutar contra todas as suas forças contra o projeto. Incapaz de pronunciar uma palavra, Henry apenas balançou a cabeça para indicar que tinha entendido e incentivar o falante a continuar. — Meu pai me contou que você estava sentado na sala de leitura quando minha irmã ficou sabendo sobre seu pedido. Ele também me falou sobre as reservas expressas por Elisabeth


ao negar, incluindo o fato de você não pertencer à nobreza — disse ele com um suspiro. — Eu sei que as aparências são contra, mas... você não tem que confiar em suas palavras. É provável que, vendo-se encurralada, ela tenha usado do único argumento que poderia enfraquecer o conde. — Mas por que você não me explicou isso logo? Se o que diz é verdade, nos teria salvado de meses de mal-entendidos. — Você não estava inclinado a conversar depois do incidente. Quando tentei abordar o assunto, você não me ouviu. Henry lembrou dos poucos dias entre o pedido e a assinatura do contrato como uma névoa, mas agora que pensava sobre isso, talvez Louis estivesse certo... Ele abaixou a cabeça, envergonhado, pensando o quanto sua teimosia fora prejudicial à união. — Enganamo-nos ao pensar que você seria capaz de superar este episódio. Além disso, achei melhor permanecer fiel à promessa que fiz à minha irmã. — Que promessa? De não trair as verdadeiras razões para sua relutância? — Não. Elisabeth não queria que você soubesse que ela acreditava que você daria um bom marido. Ela disse, inclusive, que o preferia a todos os seus pretendentes, e incluiu o Sr. de La Ferté na lista. Um calor estranho substituiu o vazio que tinha se instalado no peito de Henry desde que discutira com a esposa. Agora ele tinha certeza que ela o preferia a de La Ferté. Isso o confortou. — Obrigado por finalmente me contar seu segredo — ele disse com emoção. — Foi por ela que nunca o revelei. Sempre acreditei que era o único que poderia fazêla feliz. Espero que não tenha me enganado. — Vou me empenhar para isso. Depois de respirar fundo, Henry acrescentou: — Eu a amo. Um leve sorriso surgiu no rosto de Louis, e algo em sua postura relaxou. — Isso não me surpreende. Mas não é a mim que deve fazer essa confissão.


— Elisabeth está acamada e inconsciente... — Então fique com ela! Droga, Wolton, não me faça me arrepender de ter lhe poupado. Henry estava prestes a correr para dentro da casa, mas mudou de ideia. — Só tem um problema: a condessa, sua mãe, está de guarda ao lado de sua irmã, e eu duvido que irá me receber bem... Ela me expulsou do quarto e vai se esforçar para bloquear meu acesso. Daquela vez o sorriso de Louis foi sincero, mesmo que não fosse possível apagar a preocupação que podia ser lida em seus olhos. — Eu cuido disso, não se preocupe. Eles entraram juntos. Enquanto Louis se empenhava em convencer a mãe, Henry passou em seu quarto para tomar um banho e trocar-se. Quando finalmente se encontrou com Elisabeth, ainda inconsciente, não pôde deixar de sorrir. Apesar dos efeitos da doença sobre a aparência da jovem, seus lábios desejáveis estavam entreabertos e seus cabelos estavam emaranhados... Qualquer um poderia pensar que tinha acabado de fazer amor até sucumbir e dormir. Henry balançou a cabeça para recuperar seus sentidos. No entanto, pegou o lenço de sua esposa, que tinha encontrado dentro de sua bagagem, e que usava constantemente, levando-o ao nariz, inalando o cheiro característico para confortar-se. Ela precisava lutar a batalha contra sua doença e ele precisava brigar contra sua própria cegueira. Mas tinha a melhor arma de todas para oferecer: a esperança. Graças a ela, Henry tinha uma chance de vencer.


Capítulo Dezenove Louis mantivera sua palavra e prontamente removeu a Sra. d’Arsac do quarto. Esta ficou ofendida em um primeiro momento, mas, depois de muito protestar, finalmente cedeu à vontade inabalável de seu filho. Ela, no entanto, se recusou a sair da casa e ainda passava várias horas do dia na cabeceira de Elisabeth. Henry e ela tinham alcançado uma espécie de trégua e haviam chegado a um acordo tácito: o jovem rapaz ficaria com a esposa à noite e ao meio-dia, enquanto a condessa assistiria sua filha durante os outros momentos. O primeiro cuidado que Henry tomou foi alertar sua tripulação em Nantes para que atrasassem a partida. Se Elisabeth se curasse... não, quando Elisabeth se curasse, ela precisaria de um tempo para se recuperar, e ele não queria testar a sua saúde para atender ao Congresso. O norte-americano remexeu-se na cadeira ao lado da cama. Sentia dores musculares por causa de seus cochilos, embora acordasse constantemente deles para ver se sua esposa estava respirando, para banhar-lhe as têmporas ou simplesmente cobri-la. O dia estava nascendo, uma bela manhã de maio, cuja delicadeza e calma contrastava fortemente com seu estado de espírito. Ele vivia com medo há quase uma semana e se perguntava quanto tempo demoraria para ficar louco. Duas vezes deram a doente como perdida, sua febre tinha subido drasticamente, e eles precisaram recorrer à sangria para limpar sua cabeça. Porém, desde o dia anterior ela parecia estar respirando mais livremente, sua respiração tinha se acalmado e suas faces pareciam revigoradas. Henry sentia-se desgastado pelo desespero. Que os céus não permitissem que ela partisse sem terem feito as pazes. — Henry... A voz era baixa e rouca, mas perfeitamente reconhecível. Ele pulou de seu assento e agarrou a mão de Elisabeth, que abriu metade dos olhos e virou a cabeça em sua direção. — Minha querida, como está se sentindo? — Eu... Sua garganta, irritada pelos longos dias sem beber água, estava seca como areia, e ela


começou a tossir violentamente. Preocupado, Henry notou um copo na mesa de cabeceira e serviu um pouco de água. Em seguida, colocou o braço ao redor dos ombros da jovem para ajudá-la a engolir alguns goles. Elisabeth estava muito pálida e exausta, mas algo em seu rosto assegurava que ficaria bem. A vontade feroz de sua esposa para triunfar sobre a morte o deixou orgulhoso. — O que... como...? Ela parecia incapaz de formular uma frase correta, tendo todos os problemas do mundo para articular. — Acalme-se. Você se lembra do que aconteceu? — ele sussurrou. Examinando seu rosto, viu que ela franzia a testa, como se esforçasse a memória. De repente pareceu se lembrar de algo, porque lançou-lhe um olhar furtivo. — Eu... me lembro. Apenas uma palavra já lhe exigia um esforço considerável. Henry finalmente decidiu acalmar-se, então, permaneceu em silêncio, sem saber como expor seus arrependimentos. Tinha repassado o discurso em sua cabeça por horas e horas, mas agora que estava sendo confrontado pela realidade, era incapaz de falar. Ele não podia tocar imediatamente no assunto, não quando sua esposa tinha acabado de abrir os olhos, ao menos era o que tentava justificar. O silêncio foi quebrado com a chegada de Céleste. — Senhora! Está acordada! — ela exclamou antes de correr para a cama, com lágrimas nos olhos. Elisabeth tentou sorrir para agradecê-la, mas não disse nada. — Traga um pouco de comida para a sua senhora, e avise à Sra. d’Arsac que sua filha acabou de despertar — ele ordenou. A empregada fez uma pequena reverência e saiu quase correndo. Ela teria apenas alguns instantes antes de serem novamente perturbados. Assim que todos soubessem, toda a equipe doméstica se instalaria no quarto, fora a condessa.


— Minha querida, há muitas coisas que quero dizer a você. — Quando a viu erguer as sobrancelhas, agitada, ele delicadamente pegou sua mão. — Sei que não é o lugar nem o momento, admito. Mas peço que mantenha isso em mente e me perdoe mais tarde, quando se sentir melhor. — Naturalmente — respondeu a jovem, depois de pigarrear. Ela não parecia muito entusiasmada, mas o que poderia ser mais normal? Afinal, a última coisa de que se lembrava era a forma como ele despejara sua ira contra ela. Céleste apareceu com a bandeja. — O médico receitou caldo de frango para começar. Se em algumas horas estiver se sentindo melhor, as refeições poderão ser mais sólidas — ela explicou com um sorriso. Conforme falava, ela depositou a bandeja sobre a cama, ajudou sua senhora a se sentar, enquanto Henry ajeitava os travesseiros e segurava a tigela para que ela pudesse se alimentar. Elisabeth parecia incapaz de segurar uma colher, tremendo com o esforço. O rapaz iria propor ajudá-la quando a Condessa chegou e assumiu o controle da situação. Logo ele foi relegado ao corredor, para esperar que sua esposa comesse e trocasse de roupa. Várias horas se passaram antes que o casal conseguisse encontrar um pouco de privacidade. Henry voltou para perto de Elisabeth somente depois que ela terminou uma refeição consistente — frango, ovos cozidos e amêndoas, recomendado pelo médico para repor sangue. Era possível verificar os benefícios do tratamento, porque a jovem parecia melhor. Essa impressão, provavelmente, também estava relacionada ao fato de que Elisabeth tinha se lavado, e os lençóis e as roupas de cama tinham sido trocados. Henry sentiu o corpo esquentar abruptamente quando viu a pele macia e rosada que surgia por fora da manga de renda e a gola da camisa. O longo cabelo loiro e escovado parecia mais brilhante, tendo retomado todo o seu esplendor, e caía livremente sobre os ombros de sua esposa, emoldurando sua tez diáfana, quase virginal. Seus seios adoráveis não estavam pressionados por um espartilho e pareciam inchar a cada respiração. Apesar de estar tão preocupado, Henry não pôde deixar de se encantar com a visão; seu membro cresceu visivelmente, pronto para agir. Irritado por dar vazão aqueles pensamentos, mas incapaz de controlar seu desejo, ele se sentou e buscou uma posição que lhe deixaria menos desconfortável, mas sem sucesso. Elisabeth, visivelmente intrigada, grudou seus olhos naquela parte


de sua autonomia. Ela corou e desviou o olhar, mas ele detectou um desejo se acender em seus olhos. Definitivamente, era um bom sinal. Tentando ignorar o desejo de possuí-la, o americano se concentrou em seu discurso. — Elisabeth, eu lhe devo um pedido de desculpas — começou ele. Ela encontrou seu olhar e o observou, mas não disse uma palavra. Isso não era encorajador. No entanto, continuar seria para o bem de ambos. — Eu me comportei de forma odiosa com você, e eu... — De fato... Aquilo era uma surpresa. — Você foi realmente odioso comigo — ela completou. Henry olhou para baixo, infeliz. — Mal consigo dizer o quanto me envergonho por meu comportamento. Quando vi você com de La Ferté, o homem que queria se casar com você há alguns meses, senti um ciúme profundo e... até um pouco louco. Não consegui me conter. Ele suspirou, torturado pela lembrança do que tinha dito. — Eu estava errado por não confiar em você, por não confiar em nós. Sinto muito. — Mas por quê? O que eu fiz para merecer a sua confiança neste momento? A voz da mulher traía suas dúvidas e suas angústias. Empertigando-se para contemplála, Henry gostaria de poder apagar a expressão preocupada de seu rosto e chegou até a se adiantar para tentar tocá-la. Mas parou a tempo. Elisabeth provavelmente temia o contato físico com ele depois do que suportou. — Elisabeth, quando ouvi você dizer ao seu pai que eu era um plebeu, tive a impressão de ter sido atingido no coração. Sempre soube que você não queria se casar, mas tinha a esperança de que minha pessoa era aceitável para você... e talvez até um pouco mais do que isso. — É claro! Se você soubesse o quanto eu lamento ter usado essas palavras para


impedir nosso casamento perante meu pai... De repente, ela agarrou sua mão, e com este gesto Henry obteve uma sensação de plenitude como nunca havia sentido. A situação não estava resolvida, dúvidas dolorosas ainda aguardavam, mas sentir a mão delicada na sua parecia um bom começo. Eles poderiam sobreviver, pensou ele. — Eu nunca... Eu nunca senti qualquer animosidade por sua classe social. Na verdade, só quis apelar para o orgulho da minha família para que vissem nossa união como impossível. Não é que eu o despreze ou que não o aprecie... Mas tinha certeza de que não poderia encontrar minha felicidade com um homem e, acima de tudo, que o casamento iria me privar da independência, que seria ameaçador... Além disso, também preciso pedir desculpas por não ter contado da gravidez. Estava furiosa depois de sua partida abrupta e das palavras grosseiras que me falou... — Não, se alguém é culpado, sou eu. Você estava certa, eu escondi a verdade o tempo todo, e foi por isso que tentei afastá-la. A jovem olhou para ele com seus enormes olhos castanhos. Ela era tão linda e parecia tão vulnerável, mas Henry lia uma determinação inabalável em seus olhos. Ele percebeu que poderia ter lhe confiado tudo, desde o início, pois ela o teria apoiado. Sem hesitar, ele começou: — Acho que Louis disse que eu tinha chegado da Filadélfia após a derrota de Brandywine, em setembro. Os ingleses tomaram a cidade e o Congresso precisou fugir às pressas. — Sim, ele disse — ela respondeu, balançando a cabeça. — Na verdade, as coisas foram um pouco mais complexas. Sou proprietário de navio, e nós escondemos uma embarcação logo abaixo do rio Delaware, para o caso de as coisas saírem mal, assim que soube do avanço do inimigo. Quando a cidade caiu, o Congresso me cobrou uma missão delicada: tivemos de informar o nosso Embaixador na França, o Sr. Franklin, que ele iria usar o evento para mencionar o espectro da ameaça Inglesa. Isso faria com que seu rei ficasse mais inclinado a assinar o tratado de aliança que esperamos por tanto tempo. — Isso foi exatamente o que aconteceu! O tratado foi assinado no início de fevereiro, pouco antes de nosso casamento... — Sim, o resultado político foi feliz. Infelizmente não foi por minha influência.


Ele passou a mão sobre o rosto, como que para afastar as imagens que o assaltaram. Uma leve pressão em seu braço o fez olhar para cima. Elisabeth o incentivou para continuar com um gesto. Tentando esquecer a onda de desejo que nasceu com o contato inesperado, embora casto, Henry retomou sua narrativa. — Estávamos desviando para a marinha inglesa. O nosso navio mercante, grande e lento, deveria se juntar aos altos mares e ser interceptado pelo inimigo. Ao fazer isso, ele permitiria que uma fragata militar se adiantasse até Nantes. O capitão da Fragata, Thomas Perry, que conheço há muito tempo, convenceu-me a ajudar. Henry engoliu em seco, perdido em memórias. — Você estava perto dele? — sua esposa perguntou em voz baixa. Ele balançou a cabeça. — Thomas é... era meu melhor amigo. Era um marinheiro e abraçou a carreira militar quando começamos a lutar por nossa independência. Eu tinha sua admiração sem limites e uma confiança cega. Ele estava convencido do sucesso dessa estratégia, o que foi sua condenação. — Como ele morreu? Ela compreendeu... Sem que ele precisasse dizer palavras terríveis, podia ler nas entrelinhas, mas ela insistiu que ele confessasse tudo. — Nesta famosa noite... tudo estava indo bem, o rio estava calmo e estávamos tão calmos quanto possível. Fragatas inimigas, eventualmente, localizariam o meu navio, mas isso já se esperava e estávamos preparados para passar algumas semanas na prisão. No entanto, se fôssemos perseguidos, isso seria uma ilusão, a maior parte da frota estava ansiosa para interceptar Thomas e... Sua voz de repente falhou. Parecia que o cheiro de fumaça e pó preso ao nariz tinham se infiltrado em seus pulmões até que ele parasse de respirar. Foi então que a pressão em seu braço ficou mais forte, devolvendo-o ao presente e sua segurança. Sem olhar para Elisabeth, por medo de ser incapaz de completar, ele continuou: — Minhas memórias estão, ao mesmo tempo, muito confusas e muito claras. Eu vejo a fragata sendo destruída pelos canhões britânicos, o fogo queimando as velas, uma dor aguda na


minha mão... Para ilustrar o que dizia, ele ergueu a mão ferida com a cicatriz. — Eu fui ferido quando o trilho explodiu. Foi um milagre não ter sofrido uma lesão mais grave. Ele ficou observando a marca indelével daquela luta por um momento. — Eu acho que o capitão do meu próprio navio, vendo a oportunidade, ordenou que alguns de seus marinheiros se afastassem rapidamente, deixando outros lá para morrer. Tenho a impressão de ter visto Thomas me pedindo ajuda do deck. Ele pausou por um momento para esconder suas emoções. — Devíamos tê-los ajudado. Era o que gostaríamos que tivessem feito se estivéssemos em seus lugares. Sua voz falhou na última frase. Henry ainda segurava a mão de Elisabeth e agora a apertava com força. No entanto, não se atrevia a levantar a cabeça e olhar para ela. Não queria demonstrar a vergonha e temia que ela percebesse seu esforço desesperado para não chorar. Ainda assim, sentiu um leve toque em seu cabelo. Inicialmente tímido, mas as carícias se tornaram mais insistentes, conforme Elisabeth ficava mais ousada. Sem dizer nada, ela começou a embalá-lo com movimentos suaves e lentos, até que ele finalmente derramou as lágrimas que vinha segurando por meses. Durante sua febre, Elisabeth manteve apenas vagas impressões de conversas sussurradas ao seu lado, coisas das quais ela não compreendera o significado. Quando finalmente abriu os olhos, já livre da doença, ao encontrar o marido ao seu lado, experimentou novos momentos de confusão. A lembrança de sua discussão e de suas injustas acusações tinham retornado, e ela quase pediu que ele saísse. Apesar disso, não encontrara forças. Enquanto ele explicava a ela, uma vez que se sentia melhor, reparava em seu cabelo despenteado, as bochechas ocas, as olheiras sob seus olhos, a barba... todos os sinais demonstravam que ele tinha passado muitas horas ao lado da cama. Assim que sua mãe se afastou, a jovem pediu que Céleste lhe contasse tudo, desde a terrível angústia que todos experimentaram até as vésperas de seu despertar, quando viu Henry em seu


quarto. Apesar de o remorso que testemunhara em seu marido ser reconfortante, ela não iria conceder seu perdão indiscriminadamente. No entanto, ao vê-lo novamente no final do dia, barbeado e bem vestido, resoluto, sentiu-se vacilar. Henry entrou e assim que o viu, esqueceu-se de tudo o que tinha acontecido entre eles, pensando apenas na ausência física tão difícil de suportar, em seu olhar persistente em seus ombros largos, as mãos bronzeadas que ela tanto sonhava em sentir sobre seu corpo. Elisabeth foi tomada de paixão, mas corou, especialmente ao descobrir que não era a única a sentir essa onda de desejo. A emoção do rapaz não passou despercebida. Mas agora todos os vestígios de seu desejo tinham desaparecido e foram substituídos por uma enorme afeição por aquele homem que finalmente tinha encontrado a coragem para se confessar para ela. Quando o vira tão sério, pensara que ele iria relatar um crime que tinha cometido. Mas ela entendeu que era somente um crime em seu coração, que se sentia culpado por uma má conduta que não fora ele que cometeu. Enquanto acariciava seu cabelo, sentiu-o tremer contra si e percebeu que estava derramando lágrimas. Sentindo o quanto aquilo era doloroso para ele, apenas sussurrou palavras sem profundidade suavemente. O importante era demonstrar sua compreensão e seu perdão. Por quanto tempo eles permaneceram tão intimamente entrelaçados, sem nada dizer? Ela não saberia medir, mas isso não importava. Quando Henry voltou a si, eles descobriram que a noite já tinha caído e os últimos raios de sol os iluminavam. Após uma última pressão em sua mão, o jovem se levantou e acendeu as velas. Seu rosto ficou banhado em uma luz dourada que suavizava suas feições. Então, ele se virou para ela. — Não posso expressar minha gratidão; você me ouviu e me confortou sem julgamentos, mesmo que eu tenha cometido um pecado terrível — ele disse com a voz um pouco rouca. Elisabeth sentiu a garganta apertar. — Entenderei se não quiser mais me ver por causa do que revelei. — Não há nada para julgar — ela interrompeu, alterada. Sentindo-se assustada por um momento, ela continuou com mais calma — Henry, estou triste que tenha perdido o seu melhor amigo, especialmente em tais circunstâncias trágicas... No entanto, você não tem que se achar culpado ou mesmo responsável por isso.


Ele parecia chocado ao ponto de perder a fala momentaneamente. Ela aproveitou e continuou: — Você traiu sua causa e alertou a frota inglesa? — Não, mas... — Você deu a ordem para que disparassem em sua fragata? — Claro que não, mas... — Você fez tudo que podia para conquistar o acordo com a França e, assim, cumprir seu dever? — Sim, mas... — Sem mas, eu lhe peço. Pare de se torturar, deixe sua consciência em paz e permita-se curar. Deve perdoar a si mesmo para finalmente seguir em frente. Ela pegou a mão dele e traçou com seus dedos o contorno da cicatriz. Levando a palma de seu marido aos lábios, a jovem depositou um beijo suave ali, mantendo o olhar no dele. Ela viu uma centelha de luz nos olhos cinzentos e sorriu. — Eu mesma lhe devo um pedido de desculpas — disse ela. Antes de expressar surpresa, Henry explicou: — Você estava certo, minha atitude não tem sido exemplar. Mas eu estava com tanta raiva de você que queria fazê-lo pagar à distância. Não consegui escrevê-lo sobre a notícia. Elisabeth baixou o tom de voz, tentando afastar as memórias dolorosas. Henry acariciou seu rosto suavemente. — Depois do acidente... eu estava tão triste que queria morrer. E você não estava aqui... Achava que precisava avisá-lo, mas você precisaria de um tempo para voltar e temia sua reação. Henry virou a cabeça visivelmente envergonhado. — O Sr. de La Ferté chegou naquela manhã por acaso. Repeli seus avanços, mas nunca deveria tê-lo recebido em meu quarto, admito. E é óbvio que deveria ter colocado um fim em nossa


conversa antes que ele achasse que era muito íntimo. Seu marido não disse nada, apenas sentou-se ao lado dela e segurou seu rosto com as mãos. Elisabeth pensou que ele iria beijá-la, e ela precisou admitir que essa perspectiva não a desagradava. Mas ele simplesmente tocou sua testa castamente com os lábios. Frustrada, ela soltou um gemido, que provocou uma risada satisfeita em Henry. Este, no entanto, não a soltou. Apenas afastou-se e a olhou nos olhos. — Minha doçura... Minha querida Elisabeth... Tenho uma coisa a dizer, então, depois, juro que vou deixá-la descansar. A jovem sorriu. — Sou toda ouvidos. — Esses dias me fizeram tomar consciência de uma coisa: se eu a mantive longe foi porque tive medo de me prender a você. Mas não sabia o que estava fazendo. Eu te amo, linda senhora. Confrontada por esta admissão, o uso da palavra que sempre a fez estremecer, Elisabeth não sabia o que responder. Um profundo sentimento de alegria se espalhou por todo o seu ser, e ela esperava com todas as forças que ele se manifestasse em seu rosto, porque ela mal conseguia pronunciar uma palavra. Bem consciente de sua dificuldade, Henry disse: — Sinto muito por impor sentimentos que você pode achar inconvenientes, mas quis ser honesto e lhe dizer. Você tomou posse de meu coração, minha alma e minha carne, Elisabeth... não peço nada em troca, não quero forçar uma confissão que pode não coincidir com seus verdadeiros sentimentos — ele disse. Ele tomou sua mão esquerda e a beijou cheio de respeito sobre o anel que ela usava para simbolizar o casamento. Quando ele fez menção de ir embora, ela o segurou. — Henry, eu... Você poderia ficar comigo esta noite? Não para... Ela corou, sem terminar a frase, e ele sorriu. — Eu não vou tentar abusar de você, minha querida. Você ainda está muito fraca e não


quero impor nada. Mas se esse é o seu desejo, posso passar a noite com você. Adequando ação à palavra, ele soprou as velas, exceto uma. Em seguida, ajudou a jovem a se deitar e a se cobrir, antes de se deitar ao lado dela. Tomando-a nos braços, apertou-a suavemente e sussurrou em seu ouvido: — Você pode dormir, bela dama. Vou vigiar seu sono. Sorrindo na escuridão, Elisabeth fechou os olhos, sentindo o coração leve. De agora em diante, tudo ficaria bem, ela tinha certeza.


Capítulo Vinte Junho chegou ao fim, e Elisabeth já estava melhor, tendo feito uma aparição no teatro dos italianos, dois dias antes. Ela havia se recuperado graças ao cuidado constante que Henry lhe dedicara para que se apressasse a cura. Desde que ele tinha confessado seus sentimentos, seu marido não tinha abordado novamente o assunto, e a jovem quase podia acreditar que tinha sonhado, embora não pudesse ignorar os olhares amorosos que ele lhe lançava. Sentia-se estranhamente tranquilizada pela certeza de sua afeição, tanto que ela não mais o questionou. Por que ela sentia tanta alegria pela ideia de ser amada? Você já sabe por quê, sussurrou uma vozinha. Elisabeth finalmente confessara. Ela amava Henry com toda a sua alma. Quando jantavam juntos, ela se pegava absorvida na contemplação de seus lábios carnudos. Via seu sorriso e sentia o coração bater um pouco mais rápido quando ele estava com ela... Só que as coisas tinham parado ali. Seu marido não a tocava e até mesmo se afastava sempre que ela tentava diminuir a distância entre eles. Durante sua primeira semana de convalescença, ele dormira com ela todas as noites, balançando-a em seus braços. Mas depois disso, ele instalou algum tipo de decoro na casa e declarou que começaria a passar a noite em seu próprio quarto, para o desgosto da jovem. Ao encontrar seus olhos naquela noite, ela entendeu a verdadeira razão para seu distanciamento e ficou grata. Era óbvio que Henry a queria, mas sentia que era muito cedo para ter intimidades com sua esposa, e ao invés de se render, escolheu evitar a promiscuidade. Elisabeth primeiro se sentiu aliviada, porque, embora se sentisse muito atraída por seu marido, não tinha forças para agir agora. Mas isso já fazia mais de um mês, e a jovem sentia o desejo crescer. Naqueles dias, acordara duas vezes, ardendo e pingando de suor, depois de sonhar com Henry... Era hora de pôr fim a esta situação frustrante, para dizer o mínimo. Por isso, ela idealizou um plano de ação com Félicité, cujo conselho valioso se revelaria decisivo.


Naquela noite, depois de um jantar íntimo, a jovem fingiu ir para a cama mais cedo. Sabia que Henry sempre passava um tempo na biblioteca antes de ir dormir e, assim, não sucumbir à tentação de se juntar à esposa. Depois de dispensar sua criada, Elisabeth certificou-se de que a porta de comunicação permanecia aberta, mesmo depois de sua doença, e, em seguida, tirou a respeitável camisola com a qual estava vestida. Pegando uma embalagem no fundo de seu armário, colocou-a sobre a cama e esperou alguns momentos até que sua mão parasse de tremer. Embrulhada em papel de seda, havia uma camisola mais indecorosa, que ela se apressou em vestir. A peça, cortada em uma musselina muito leve e quase transparente, mal disfarçava sua anatomia e parava logo abaixo do joelho. As mangas, curtas e caídas, tinham como decote um quadrado profundo, alinhado com rendas, que pareciam tremer com cada uma de suas respirações. Elisabeth habilmente desfez a trança, desamarrando os fios loiros, deixando que caíssem livremente pelas costas. Seus cabelos alcançavam os quadris e quase cobriam sua camisola indecente. Em seguida, mordeu os lábios para dar-lhes um tom mais rosado. Virando-se para o espelho instalado no canto próximo à porta, ela olhou com satisfação para a criatura desavergonhada que lhe retornava o olhar. Era ela mesma, mas, ainda assim... Algo em sua expressão tinha mudado desde o baile, há quase seis meses, onde conhecera Henry. A jovem mulher se sentia mais confiante e determinada a satisfazer seus próprios desejos. Naquela noite, ela desejava seu marido, e ela faria qualquer coisa para consegui-lo. Depois de pronta, sentou-se na cama e olhou para a porta que dava para o quarto de Henry. Ela esperou pacientemente, ouvindo os sons da casa que dormia. Lá fora, a lua tinha se erguido e banhava o quarto com seu brilho prateado. A brisa de verão rastejava através das janelas abertas e acenava as cortinas. Esta atmosfera pacífica era o oposto de seu estado de espírito, ela fervia por dentro de nervosismo. Para ela, esta noite seria uma última tentativa, e tinha jurado não falhar. De repente, o chão rangeu, e Elisabeth endireitou-se. Ela ouviu Henry subindo os degraus e atravessando o corredor lentamente. Quando o ouviu parar diante da porta de seu quarto, ela prendeu a respiração por um segundo. No entanto, ele seguiu para o dele, e ela logo o ouviu abrir a porta.


Tentando ignorar a ansiedade que a oprimia, a jovem ainda esperou, com as orelhas em pé, até que não distinguisse mais nenhum som. Quando, finalmente, pareceu-lhe que o marido estava na cama, ela vestiu um roupão, respirou profundamente e girou a maçaneta. Na intenção de dissipar a ansiedade em relação à condição de sua esposa, Henry tinha desenvolvido hábitos felizes. No entanto, havia um ponto em que ele não cederia: de suas relações conjugais. Apesar de se consumir pelo desejo que sentia por Elisabeth, e apesar dos olhares sugestivos que às vezes ela lhe reservava, ele se recusava a repetir o erro. Quase a tinha perdido uma vez e estava fora de questão correr o risco novamente. Claro que ele gostaria de ter um filho, especialmente com Elisabeth — ele tinha certeza que ela seria uma excelente mãe —, mas teria voluntariamente sacrificado esta vontade para salvaguardar o futuro de sua esposa. Atormentado pela fadiga, Henry tirou o casaco e o colete, antes de desfazer o nó da gravata, jogando as roupas no armário. Ele tinha dispensado seu criado tão logo Elisabeth foi para a cama, porque ele sabia que não iria adormecer ainda por horas. Se pudessem ao menos conversar até que ele pegasse no sono... Seu desejo o torturava, e era nesses momentos que sua determinação falhava. Todas as noites ele sonhava que estava fazendo amor com sua esposa, acariciando seus seios redondos, tocando-lhe a pele macia e penetrando-a de repente, de forma poderosa, para lhe arrancar gemidos. Todas as noites acordava com seu membro inchado de desejo, pronto para agir. Nesses momentos, tinha que se controlar para não atravessar a porta de seu quarto e ir até onde a moça dormia. Com um suspiro, ele se serviu de um copo de conhaque e sentou-se na cadeira em frente à lareira, tomando goles de álcool na esperança de entorpecer seus sentidos. Não era por acaso. Sua mente estava assolada por sedutoras visões de Elisabeth, nua e disposta, sentindo-se cada vez mais excitado. No entanto, a lareira estava fria, e as janelas abertas lhe ofereciam um refresco de boas-vindas. Henry remexeu os músculos do pescoço e abriu os punhos da camisa, antes de levar o copo aos lábios. O rapaz fechou os olhos e tentou pensar em outra coisa para afastar as imagens sensuais que o perseguiam, mas era em vão. Imaginou, finalmente, ela irrompendo pela porta que os separavam, aproximando-se silenciosamente de sua cama e acariciando-o em seu sono, fazendo-o despertar gradualmente, arrebatando-lhe um gemido. Um ruído discreto o fez abrir os olhos e virar a cabeça. Como se tivesse sido convocada por suas fantasias, Elisabeth encontrava-se no limiar. Henry, no entanto, percebeu que não era um


de seus sonhos eróticos, porque a jovem segurava as sobras de seu manto, o mesmo que ele tinha lhe entregado na noite de seu casamento e que era dele. Seu membro endureceu só de lembrar, e ele remexeu-se na cadeira, desconfortável. — Minha querida, o que está fazendo aqui? Achei que já estava adormecida há um bom tempo — ele finalmente disse depois de pigarrear. Ela parecia nervosa. Será que estar em sua presença em tais circunstâncias íntimas a incomodava? — Desculpe-me, eu não queria incomodá-lo, mas não conseguia dormir. Ela deu um passo, depois outro, um pouco hesitante, e Henry foi obrigado a segurar-se aos braços da poltrona para evitar correr até ela. Estava tão linda, com seus cabelos loiros e longos e a pele translúcida. — Não quer chamar Céleste? Ela poderia lhe preparar algo para beber... — Não, seria inútil. Suas bochechas estavam rosadas agora, o que a tornava absolutamente adorável. Mas ele não poderia fazer nada, era o que repetia para si mesmo, para tentar se convencer. — Na verdade, vim lhe devolver o seu roupão — ela explicou bruscamente. — É mesmo? Sentia-se mais estúpido do que nunca. Por um breve momento, foi levado a imaginar que ela tinha outras intenções. — Não precisava se dar ao trabalho... A voz de Henry ficou sufocada na garganta. Em um movimento fluido, Elisabeth se livrou do tecido, antes de jogá-lo na cama. Assim que a viu, ele não pôde reprimir um gemido de desejo. Sua esposa usava uma camisola muito fina. Uma que delineava suas deliciosas formas. Sob a luz de velas, ele podia enxergar a pele macia e pálida de seu colo, o seio com mamilos cor de rosa em contato com o tecido... Precisou respirar fundo e deixou seus olhos vaguearem para baixo, até a cintura e quadris arredondados delgados, em seguida, para o


triângulo de cachos escuros na junção de suas coxas. A sensação de calor que sentia não tinha nada a ver com o álcool, mas com o corpo infinitamente desejável de Elisabeth. Como se tivesse obedecido as construções de sua imaginação, a jovem se aproximou dele lentamente. Sua abordagem mostrava a influência quase hipnótica de seus quadris, e Henry quase se levantou para ir ao seu encontro. Ele precisava pará-la, mas não tinha coragem, e logo ela se encontrava na frente dele. Inclinando-se para frente, ela colocou as mãos sobre as dele e depositou um suave beijo em seus lábios. Era muito pouco. Este pequeno toque foi suficiente para engoli-lo, e ele perdeu todo o controle que estava tentando manter. Entrelaçando os dedos com os de sua esposa, ele se inclinou para unir seus lábios em um beijo que não tinha nada de casto e que os deixou sem fôlego. Estavam tão próximos que podia sentir seu perfume amadeirado com o dela, floral, além do cheiro de suas excitações. Quando ela insinuou colocar uma mão sob sua camisa para acariciar seu torso, ele soube que precisava pôr um fim naquela situação. Agarrando-lhe o pulso, ele gentilmente removeu a mão da jovem, não sem antes beijar sua palma, e seus olhares se encontraram. — Lamento, mas temos que parar. Elisabeth fez um pequeno muxoxo irritado. — Vamos, Henry, você me quer, eu sei. Ele se sentou, envergonhado. Antes que pudesse se levantar, ela colocou a mão sobre seu sexo inchado. — Entendo... — ela sussurrou com uma voz ligeiramente rouca. Qualquer pensamento coerente havia abandonado seu cérebro, e ele deixou-se ser dominado pelo prazer das carícias. Não! Não podia... O jovem abaixou-se novamente para beijá-la sem opor qualquer resistência. Um gemido escapou de um deles, mas não era possível dizer qual. A mão que o estava torturando para cima e para baixo lentamente, esfregando o tecido contra o pênis, provocando sensações deliciosas.


Sua esposa, então, decidiu abrir os botões de suas calças, e isso lhe permitiu recuperar seus sentidos. Firmemente, ele a empurrou. A dor tornou os olhos dela melancólicos. — Elisabeth, não podemos continuar. — Apesar disso, você me deseja tanto quanto eu! — ela exclamou com raiva. Ele fechou os olhos, zonzo. — Minha querida, não posso correr o risco de engravidá-la novamente. Ante sua surpresa, ele continuou: — Eu desejo você como um louco, ainda mais do que no primeiro dia, mas você quase morreu por minha causa.. Não há dúvidas de que pode acontecer novamente. Confrontado pela expressão séria de sua esposa, Henry sentiu algum alívio. Ela finalmente compreendia suas razões. Mas ela rapidamente o desmentiu. — Nós podemos morrer a qualquer momento. Você poderia cair da escada, poderíamos ter um acidente indo para a Filadélfia... Eu me recuso a viver com medo. Aconteça o que acontecer, eu escolho o meu destino, e é você que eu escolho. Suas palavras o atingiram como um golpe na cabeça. Sua esposa teimosa e obstinada estava efetivamente restabelecida, não havia nenhuma dúvida! Quando ele não respondeu, ela continuou! — Henry... há dias venho procurando o momento certo, sem sucesso, sem forças para falar. Era difícil ouvir aquilo... Claro, ele tinha reparado que ela o desejava, mas sempre conseguira evitar o confronto. Porém, agora... Elisabeth respirou fundo. — Eu amo você, Henry. Se eu quiser um filho seu é porque quero que algo permaneça de nossa união. Quero uma menina que tenha seus olhos ou um menino com suas feições... Não me negue isso, por favor. Ele tinha mesmo ouvido aquilo? Ela o amava então, de fato? Talvez ela estivesse usando


esse argumento para obrigá-lo a agir... No entanto, quando ele se forçou a olhar nos olhos de sua esposa, ele descobriu um carinho sincero. De repente, parecia que tudo na jovem provava o que dizia: seu sorriso amável, sua voz doce... até que ele descobriu que suas mãos estavam tremendo um pouco, temendo sua reação. — Como? Mas desde quando? Por quê? As perguntas surgiram de repente em sua cabeça. — Eu acho que foi de forma gradual, embora, desde que nos conhecemos, sempre tenha feito meu coração bater um pouco mais rápido. Gosto de vê-lo pela manhã, à mesa, conversar com você sobre tudo e sobre nada, passar um tempo em seus braços... Mais do que tudo, eu amo o seu caráter determinado, sua alma nobre. Quando ele estava prestes a protestar sobre essa qualidade, ela fez um movimento para impedi-lo antes de continuar. — Sim, nobre é a palavra certa. Você estava disposto a se sacrificar pelo seu país, sofreu por seu amigo que foi morto na batalha, você sempre tentou se comportar de forma honrada comigo... Henry, sem palavras, simplesmente a observou. No entanto, com o passar do tempo, tomou ciência da realidade. Ele percebeu que Elisabeth falava com ele francamente, que tinha desnudado sua alma para convencê-lo, deixando-o completamente abalado. — Mas por que... esperou para me dizer? Já conhecia meus sentimentos. Ela sorriu de forma tímida. — Quis dar tempo ao tempo. Queria fazer-lhe esta confissão em condições ideais... Mas isso não era o mais importante. Além disso, você pareceu tão certo de que eu não sentia o mesmo que não sabia como convencê-lo. O olhar do rapaz vagou pelo pescoço de sua esposa, então, respondeu: — Devo admitir que você tem bons argumentos... são notáveis. Ela riu e o beijou novamente. Assumindo o controle, Henry pôs o braços em volta de sua


cintura e a fez se sentar no colo dele, acariciando as pernas como na ópera, em seu primeiro encontro. E não parou por aí. Ele deslizou a jovem para que ficasse sentada de frente para ele, aninhada entre suas largas coxas. Elisabeth arfou. Ele se deleitou com aquela visão encantadora por um momento, enquanto ela lhe oferecia os seios, cujos mamilos estavam rígidos. Também contemplou o triângulo de cachos escuros, entre suas longas pernas. Ela se esfregou contra ele, aumentando assim a pressão sobre o pênis... Ela usava uma camisola, mas ele achou ainda mais excitante do que se estivesse nua. — Posso, senhora bonita? — ele sussurrou enquanto ele pousava um dedo sobre a parte mais sensível de sua anatomia. — Sim... oh, sim! — ela sussurrou. — Então me mostre você mesma o que quer. Ela se ergueu ligeiramente, franzindo o cenho. — O que quer dizer? Mas ele não lhe deu tempo para continuar. Tomando sua boca, ele tirou a mão da sua virilha e colocou a da jovem ali. Ela emitiu uma reclamação, uma mistura de protesto com surpresa, mas não resistiu. No entanto, não ousou se mover, conforme ele a incentivava com uma pressão suave, mas firme. Logo ela começou a se acariciar sem sua ajuda, soltando pequenos suspiros, que o fizeram endurecer um pouco mais sob suas coxas. Elisabeth não podia acreditar em seu comportamento libertino... No entanto, era tão bom, especialmente sob os olhos de seu marido! Ela não era capaz de distinguir sua expressão, apenas ouvia sua respiração incerta, os suspiros que lhe escapavam... sentia seu membro inchado sendo esfregado contra suas nádegas. Guiada por seu instinto, porque Henry tinha deixado de imprimir seu ritmo, embora sua mão ainda descansasse na dela, ela começou a acelerar até explodir, como se seu sangue passasse a correr em outra direção... levemente atordoada, ela percebeu que a respiração rouca que ouvia era a sua. — Como você fica linda quando sente prazer, meu amor. Sua pele fica mais brilhante, suas faces ficam coradas, seus lábios ficam do tom de uma fruta deliciosa...


Ela deveria estar envergonhada, ou pelo menos se sentir constrangida, mas não. Na verdade, ela sentia uma incrível sensação de liberdade, então, decidiu continuar com os movimentos. Escapando do abraço de seu marido, deslizou para o chão antes de começar a acariciá-lo. Ele se endireitou, surpreso, mas não esboçou qualquer gesto para que ela parasse de agir. Com um arrepio ao pensar que estava agindo de forma terrivelmente escandalosa, desabotoou a calça do rapaz, liberando o sexo de seu marido. Hesitante, tocou-o com as pontas dos dedos, percorrendo todo o seu comprimento e, quando suas carícias lhe arrancaram um gemido, ela fechou a mão e começou movimentos de vai e vem. Parecia ser o caminho certo, porque ele fechou os olhos. Uma gota apareceu em sua glande e, sem pensar, ela o lambeu. Isto pareceu fazer com que ele saísse de seu torpor, arregalando os olhos, como se estivesse chocado com sua ousadia. Elisabeth pensou em parar por um momento, mas uma vez que seu marido não disse nada, ela decidiu continuar com sua ideia e a depositar beijos suaves sobre a carne rija e quente. Mas quando ela trocou a mão pela boca, ele parou abruptamente. Surpresa, ela se levantou e observou, um pouco desconcertada. — Você não gosta? — ela perguntou com renovada timidez. Ele sorriu. — Oh, sim. Gosto disso também. Mas acho que você deveria parar... Ah, mas ele não conseguiria impedi-la! Por um momento ela pensou que sentiria nojo ou ficaria surpresa com sua própria audácia, mas se sentia apenas satisfeita. Rangendo os dentes para não atingir o êxtase rapidamente, Henry ergueu a jovem mulher antes disso. Tirou seus sapatos prontamente e sua camisa antes de despir Elisabeth. Ele aprovava o que via, o que aumentou ainda mais a tensão na parte inferior de seu abdômen. Ela engoliu em seco, visivelmente atormentada, mas disse, adequando ação à palavra: — Gosto de seus ombros amplos, de seus braços tão poderosos... Seus mãos deslizaram pelo peito dele, parando em sua barriga plana e dura. Em seguida, agarrou-lhe as nádegas.


— Você é tão bonito... Era imperativo que ela parasse ou ele estava suscetível a atingir o orgasmo, mesmo sem penetrá-la! Erguendo a esposa do chão, ele a levou para a cama e a cobriu com seu corpo. Não havia tempo a perder com preliminares, e como Elisabeth puxou-o para ela, era óbvio que o desejava. Henry segurou o rosto dela entre as mãos e beijou-a apaixonadamente. Ela respondeu com outro suspiro e abriu as pernas, pedindo-lhe que se unissem. Intoxicado, ele ficou na entrada de seu sexo e penetrou-a com um impulso. Ele queria ser delicado, deixá-la se acostumar com sua presença, mas a jovem não queria assim. Agarrada a seus ombros, ela cravou-lhe as unhas, falando com seu corpo, porque as palavras pareceram lhe escapar. Henry respondeu sua súplica e apressou o ritmo, indo cada vez mais rápido, encorajado pelos suspiros de Elisabeth. Quando ela alcançou o orgasmo, ele foi incapaz de se conter por mais tempo e derramou sua semente. Permaneceram entrelaçados ainda por um longo momento, então, Henry retirou-se lentamente e apertou sua esposa contra ele. Ela depositou a cabeça na curva de seu ombro e acariciou sua peito. — Estou tão contente que estamos bem novamente. Inclinou-se sobre um cotovelo para olhá-la. — Tem certeza que me ama? — ele perguntou com uma voz cheia de preocupação. A expressão do jovem congelou, e ele sentiu seu corpo apertar. — Deixe-me pensar... Eu me casei com você, vamos cruzar o oceano para viver em seu país, eu disse que queria ter um filho seu. Mas talvez você acredite que eu confessei meus sentimentos para convencê-lo a me possuir. Ao vê-lo cabisbaixo, ele riu. — Henry, você é incorrigível! Eu te amo e não posso viver sem você. Mas se você insistir nisso... Um sorriso malicioso curvou seus lábios quando ela se virou para ele. — Devo indicar na próxima vez em que quiser chamá-lo para minha cama?


— Hummm... Esta perspectiva é atraente, você tem que admitir. Porém, se vestir novamente esta camisola... Ele lançou um olhar para as roupas caídas no chão antes de voltar sua atenção para a sua esposa. Ele olhou para o rosto de traços familiares que sempre o encantaram, para aqueles olhos castanhos que tinham o dom de derretê-lo. Ela era tão forte e determinada, uma rocha na qual podia se segurar. — Bela senhora, eu te amo... — ele sussurrou. Confrontado pela expressão radiante de Elisabeth, ele sentiu que estava finalmente em paz.


Epílogo Instalada na sala de estar de sua casa, Elisabeth soltou a carta da França, que ela tinha acabado de ler. Ela sempre mantinha uma correspondência constante com sua família, é claro, e também com membros da corte. No entanto, aquela carta era diferente. Seu irmão informava que tinha tomado a decisão de apoiar a Revolução Americana e, portanto, em breve embarcaria com Rochambeau. A carta datava do final de março, e a expedição, segundo eles, fora adiada. Além disso, a jovem calculava que Louis ainda estaria no mar. Apesar de adorar saber que seu irmão defendia sua causa, regozijava-se com o pensamento de que o veria novamente mais cedo do que esperava, mas temia a guerra e as suas consequências. Mas ele era seu irmão mais velho, afinal de contas, e um oficial; e ele lhe prometera que não falharia em cobrir-se de glória. As lágrimas nublaram sua visão em poucos segundos ao lembrar de sua família e da França. Sentia falta de seu país todos os dias, por mais que estivesse melhor instalada do que imaginara quando temera chegar e descobrir que tratava-se de uma nação ainda em construção... É claro que havia dificuldades a vencer e armadilhas a evitar, mas Henry lhe apoiara firmemente, e as barreiras foram gradualmente eliminadas. Olhando para a janela, viu uma figura familiar. Como sempre, seu coração começou a bater um pouco mais rápido. Após dois anos de casamento, ela ainda se sentia animada em ter o marido de volta. Brincando no tapete, uma menina de cerca de um ano levantou-se quando ouviu o som da porta da frente, seguido por uma voz profunda. — Pa-pa — ela exclamou. Elisabeth pegou a filha, Charlotte, nos braços. — Sim, querida, é o papai! — ela disse com carinho. Ela se dirigiu ao corredor quando Henry apareceu na porta. Ele sempre foi bonito, os ombros largos, o rosto bronzeado, a altura imponente... Ainda trabalhava para o congresso, onde prestava serviços graças ao seu conhecimento da língua francesa e seu trabalho como proprietário


de navios. Deste ponto de vista, o casamento fora altamente lucrativo: os mercantes das Antilhas Francesas não hesitavam em fazer negócios com eles, e Elisabeth sempre tentava acomodá-los quando tinha a oportunidade. Cheio de sorrisos, o rapaz se aproximou de sua esposa e sua filha, as duas mulheres de sua vida. Encantava-se todos os dias ao olhar para a moça bonita que estava casada com ele. Fora a melhor recompensa que poderia esperar. Quando, em sua chegada, ela encarou a desconfiança da comunidade, ele a ajudou da melhor forma possível, mas ela se impôs com seu talento e sua determinação. Melhor ainda, uma vez que ela conseguira abrir a escola para jovens meninas órfãs e sem dinheiro, passara a gozar de grande consideração. Deixara de ensinar quando sua gravidez começou a deixá-la muito cansada, mas ainda ia lá todos os dias para obter informações sobre as necessidades e progresso de cada aluna. Ele sorriu. Estava orgulhoso de sua mulher! Ela conseguira obter tudo que queria e de uma forma tão bela. Henry passou o braço em torno da cintura de Elisabeth e a beijou apaixonadamente. Demorou um pouco mais do que o necessário e, depois, deu uma boa olhada no pingente usado pela jovem mulher. Algumas de suas melhores memórias estavam ligadas àquela joia... Elisabeth seguiu seu olhar e corou ligeiramente, com uma sugestão de um sorriso nos lábios. Durante a gravidez de sua esposa, Henry vivera com medo de que algo acontecesse. Desde o dia em que soube da notícia, pouco depois de sua chegada aos Estados Unidos, até o nascimento, não parou de temer uma desgraça. Mas tudo correu perfeitamente, e ele ficou maravilhado com a chegada de sua filha. Se possível, ele ainda amava a esposa mais por ter lhe dado um presente tão maravilhoso... e há pouco ela tinha anunciado a chegada de uma nova criança para o Natal. Elisabeth devolveu Charlotte a seus brinquedos, mas seu marido a tomou nos braços antes de se sentarem lado a lado no sofá. Enquanto ele divertia a criança, ela lhe contava as últimas novidades da França e anunciava que Louis decidira apoiar a Revolução Americana. Visivelmente surpreso, Henry elogiou seu irmão antes de perguntar o que ela achava desse compromisso. — Embora eu tema saber que meu irmão estará no coração da batalha, estou contente que um membro da nossa família se juntará a nós. Não será por muito tempo, obviamente, e eu duvido que se estabeleça neste país, mas será uma alegria revê-lo.


— Não se preocupe muito, minha querida. Seu irmão é um oficial, é improvável que ele fique perto do perigo. Seu marido deu um sorriso tranquilizador, e ela se sentiu relaxar, mesmo que nem soubesse que estava tensa. Deus do céu, ela amava esse homem! Ela sorriu e se aninhou contra seu ombro, acalmando-se ao senti-lo tão perto. — Acho que temos uma dívida de gratidão para com Louis — ela sussurrou, seguindo a cicatriz de seu marido, agora curada, com a ponta dos dedos. A ferida fechou depois de sua chegada à America e tinha deixado de doer semanas após o nascimento de Charlotte. — Mas por quê? Por ter nos guiado aos braços um do outro ou por não ter quebrado meu nariz quando mereci? — É bem verdade que eu não gostaria de ter um marido desfigurado... Elisabeth jogou um olhar provocante na direção de seu marido antes de inclinar-se para beijá-lo. — Ele nos ajudou a encontrar a felicidade mesmo que tenhamos tentado escapar. — Fale por você! Eu sabia muito bem que tinha uma fraqueza por mulheres nobres francesas particularmente teimosas. Daquela vez, ela explodiu em uma gargalhada que afastou todas as suas preocupações. — Eu te amo, Henry Wolton — ela sussurrou ao seu ouvido.


Sobre a Autora: ]

Éléonore Fernaye nasceu em Paris no final do século XX e sempre sonhou em ser uma princesa. Renunciou temporariamente ao sonho de aprender Japonês e coleciona vestidos de época e calçados incomuns. A leitura do livro Lady Oscar mudou sua vida ao ponto de fazê-la decidir escrever seu próprio romance, combinando habilmente sua paixão por história e pelo romance.

[1] Huguenotes era o nome dado aos protestantes franceses durante as guerras religiosas na França durante a segunda metade do século XVI. [2] Benjamin Franklin firmou residência em Passy, durante os nove anos em que viveu na França, na época da Guerra Revolucionária Americana.

Escândalos de Elisabeth - Eléonore Fernaye  
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