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A redenção


Sempre


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A redenção


Sempre


Sempre Série Forever, volume 2 Copyright © 2013 by Jessica Mae Darhower All rights reserved, including the right to reproduce this book or portions thereof in any form whatsoever. For information address Gallery Books Subsidiary Rights Department, 1230 Avenue of the Americas, New York, NY 10020.

© 2016 by Universo dos Livros Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19/02/1998. Nenhuma parte deste livro, sem autorização prévia por escrito da editora, poderá ser reproduzida ou transmitida sejam quais forem os meios empregados: eletrônicos, mecânicos, fotográficos, gravação ou quaisquer outros.

Diretor editorial: Luis Matos Editora-chefe: Marcia Batista Assistentes editoriais: Aline Graça e Letícia Nakamura Tradução: Sally Tilelli Preparação: Gabriella Veiga Revisão: Geisa Oliveira e Rinaldo Milesi e Rinaldo Milesi Arte: Francine C. Silva e Valdinei Gomes Capa: Rebecca Barboza


Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Angélica Ilacqua CRB-8/7057

D232s Darhower, J. M. Sempre : a redenção / J. M. Darhower; tradução de Sally Tilelli. – São Paulo: Universo dos Livros, 2016. 512 p. (Forever, v. 2) ISBN: 978-85-7930-988-5 Título original: Sempre Redemption 1. Literatura norte-americana 2. Romance 3. Tráfico humano – Ficção 4. Máfia - Ficção I. Título II. Tilelli, Sally 16-0071 CDD 813.6


Capítulo 1 NOITE DE 12 DE OUTUBRO, ÀS 23H56, CORRADO ALPHONSE MORETTI PARA DE RESPIRAR. Os ferimentos à bala provocaram um grande sangramento em seu peito. Ele sentiu uma forte contração no estômago e uma tontura repentina. Como uma onda, a dor se espalhou pelo corpo todo e, em seguida, ele foi tomado por uma dormência generalizada. Tudo ficou embaçado; visões e sons se distorciam à medida que a realidade se alterava e o mundo ao seu redor esvanecia. E então veio o nada. Não havia nenhuma luz brilhante, nenhuma voz confortante, nenhuma presença angelical. Apenas a escuridão. Ele já não escutava, não via e não sentia. Depois de tudo o que Corrado fizera na vida, esperava se deparar com o fogo do inferno e o cheiro de enxofre, por isso ficou no mínimo um pouco frustrado ao não ver nada daquilo. Poucos minutos depois, no momento em que o relógio marcou meia-noite, Corrado foi violentamente trazido de volta à vida por meio de um desfibrilador. Seu coração bateu outra vez e seu corpo ficou saturado de oxigênio. Entretanto, essa nova sensação de paz logo se desfez: no instante em que foi trazido de volta a esse mundo e retirado da escuridão pós-morte, ele se viu transportado para um momento do qual quisera ter se esquecido para sempre. Em sua cabeça, ele revivia o que acontecera há uma década, não muito longe daquele mesmo hospital encardido no qual se encontrava. Ele estava tomado por uma sensação de sangue, suor e lágrimas. O quarto do passado estava repleto com os mesmos sentimentos: dor e sofrimento. Mas havia ainda no ar o cheiro fétido da morte iminente. Na ocasião, um dia quente de outubro, Corrado estava de pé à porta do quarto estéril, com os olhos fixos no menino. Carmine DeMarco sempre fora um pouco pequeno para sua idade, e parecia ainda menor naquela enorme cama de hospital. Tubos e fios ligavam seu corpo frágil a várias máquinas espalhadas ao seu redor. Mas nem mesmo os ruídos e bipes emitidos pelos equipamentos eram capazes de abafar a voz embargada que soava ao lado do garoto. Vincent DeMarco estava sentado próximo ao filho, balançando o corpo de um lado para o outro e murmurando palavras para si mesmo. Corrado jamais o vira tão fora de controle, tão agitado e desequilibrado em toda a sua vida. Ele mais parecia um animal feroz. A sanidade parecia desaparecer com os cabelos desgrenhados e a camisa encharcada de sangue. Mas aquele não era o sangue de Carmine, e sim de sua esposa, Maura, que também fora derramado menos de 24 horas antes. Aquela imagem deixou Corrado nauseado. Fora a primeira vez que vira o sangue de Maura, e certamente seria a última. Ela estava morta e jamais voltaria. Vincent, entretanto, ainda lutava para aceitar esse fato.

Ela não pode estar morta – ele dizia, lutando para soltar as palavras presas à garganta. – É tudo culpa minha.


Corrado queria dizer a ele que parasse de repetir aquele absurdo, mas seria perda de tempo. Seria impossível confortá-lo. Nenhuma palavra seria capaz de aliviar a dor. E, para ser honesto, ele sequer conseguia imaginar a angústia sentida pelo cunhado. Corrado não temia a morte, não temia ir para a cadeia e sequer tinha medo da danação eterna. Mas havia uma coisa que jamais suportaria: perder Celia. Ele havia jurado amá-la, honrá-la, respeitá-la e… protegê-la. Não o surpreendia, portanto, o fato de Vincent ter assumido tão prontamente a responsabilidade e a culpa pela morte da esposa. Ele falhara em sua promessa pois não conseguira proteger Maura.

É minha culpa – Vincent repetia. – Ela se foi e a culpa é toda minha. Soltando um suspiro profundo, Corrado olhou para o sobrinho. Carmine fora encontrado quase sem vida atrás da Pizzaria Tarullo. Ninguém sabia até então o que acontecera, mas uma coisa estava clara: quem quer que os tivesse emboscado, desejava que o garoto também tivesse morrido. Aquilo fazia com que Corrado se sentisse ainda pior. Ele nunca gostara muito de crianças, de todas as necessidades que elas tinham e de suas pequenas mãos grudentas por todos os lados, mas havia uma coisa que ele valorizava nelas: a inocência. Ele invejava aquilo. Ao longo da vida, Corrado já havia assassinado muitos homens em nome da Cosa Nostra, mas sempre se orgulhara de jamais ter matado alguém que não merecesse realmente sua ira. Olhando para o sobrinho, tão indefeso e vulnerável, Corrado não conseguia imaginar o que teria levado uma criatura a machucar um garotinho de 8 anos. Aquilo era impensável. Algumas coisas não eram toleradas nem mesmo pelos homens mais ímpios e cruéis, e matar uma criança era uma delas. Mas agora as coisas eram diferentes. Por mais que aquilo o enfurecesse, os tempos estavam mudando e ele imaginava o que aquilo tudo significaria para Carmine. Com apenas 8 anos, ele fora atirado de cabeça naquele estilo de vida. Quando acordasse, se é que iria despertar, seu mundo já não seria o mesmo. Quisesse ou não, ele jamais poderia escapar de seu destino. Não depois do ocorrido. Agora ele fazia parte daquilo e Corrado sabia que o menino passaria o resto de sua vida tentando compreender o caos em que se envolvera por acaso. O ódio exalava das entranhas do tio. Era como se um rio de lava corresse em suas veias. E quanto mais ele ficava de pé naquele lugar, ouvindo as lamentações de um homem devastado, mais furioso ele se tornava. Tudo em que conseguia pensar era se vingar dos dois homens que haviam cometido aquele crime hediondo. E não se tratava apenas de cumprir o juramento que fizera perante a organização: “olho por olho, dente por dente”. Aquele era um desejo de seu próprio coração despedaçado. Uma década mais tarde, milagrosamente o coração de Corrado ainda batia nos monitores do quarto, e se fortalecia a cada dia. Ele sobrevivera ao tiroteio ocorrido naquele galpão abandonado em Chicago. O assassino à prova de balas viveria para ver outro dia. No dia 1º de dezembro, depois de ficar em coma por seis semanas, Corrado Alphonse Moretti abriu os olhos.


Capítulo 2 O Mazda RX-8 preto acelerava pela estrada de cascalho desgastado, vagando e se embrenhando cada vez mais na encosta de Blue Ridge Mountains. Haven apertava o banco do passageiro à medida que o carro casualmente tecia o caminho da densa floresta.

Por acaso estamos perdidos? – ela perguntou hesitante, enquanto encarava o namorado. Carmine estava relaxado no banco do motorista e mexia no rádio. Os óculos escuros escondiam o olhar dele, portanto, ela não podia saber se ele estava prestando atenção na estrada.

Não. Haven olhou pelo para-brisa, piscando por causa da luminosidade da manhã. Tudo parecia igual em todas as direções. Não havia nada além das infindáveis árvores que os rodeavam. Como ele poderia saber?

– –

Você tem certeza?

Positivo. Ela balançou a cabeça. Teimoso.

– –

Aonde estamos indo?

Você vai ver. Ela ficou assustada quando ele girou o volante para a esquerda, quase derrapando para fora da estrada estreita. O cinto de segurança a protegeu, mantendo-a em seu lugar enquanto ela respirava fundo. Antes mesmo que pudesse soltar o grito preso na garganta, Carmine estacionou ao lado de uma cerca na lateral da estrada, desligou o carro e se virou para ela com um sorriso de satisfação.

Viu? Não estamos perdidos. Haven acenou com a cabeça e observou a área. A princípio parecia não haver nada de especial no lugar, apenas uma pequena clareira entre as árvores com uma cabana de madeira a alguns metros de distância. Então, avistou a placa branca desbotada: FAZENDA LANDELL DE ÁRVORES DE NATAL, em letras verdes pintadas a mão. O entusiasmo se agitou dentro dela, mas a sensação desapareceu quando leu: ABERTA DE 22 DE NOVEMBRO ATÉ 22 DE DEZEMBRO. Embora parecesse que o tempo havia parado para os dois, o calendário contava uma história diferente. Já era 23 de dezembro e fazia um mês desde que haviam retornado à pequena cidade de Durante, na Carolina do Norte, numa tentativa de retomar suas vidas… De garantir um pouco de normalidade e juntar as peças de seu relacionamento. Lidar com as consequências do sequestro era uma luta, mas eles enfrentavam isso dia após dia… minuto a minuto… segundo por segundo.


Estão fechados, Carmine – ela disse, franzindo o cenho enquanto saíam do carro. Ela tremeu e fechou mais o casaco para se proteger do frio. – Ontem foi o último dia. Carmine abriu o porta-malas e retirou de lá um machado, colocando-o sob o ombro.

Eu sei. Ela o observava boquiaberta enquanto ele subia pela cerca de madeira que cercava a propriedade e pulava para o outro lado.

Isso não propriedade? Ele estendeu a mão que estava livre para ajudá-la.

– – –

é…

invasão

de

É mais como uma entrada não autorizada. E qual seria a diferença? Um é contravenção – ele respondeu.– O outro é delito. Haven suspirou e quis responder, mas

o

olhar do jovem implorava a ela que não discutisse. Hesitante, ela concedeu e pegou na mãe dele. Carmine a ajudou a passar pela cerca, enlaçando os dedos dela e apertando-os gentilmente.

– – – –

Tem certeza disso? – ela perguntou. Sim, tenho. É Natal, e o Natal é sobre isso. Invadir propriedades?

Não, escolher uma árvore bem bonitae decorá-la com bolinhas coloridas e outras coisas como festões. É sobre visgos e presentes e piscas-piscas e estrelas e família e gemada. Gemada pra cacete, mas sem o ovo e a gema e aquelas merdas que eles colocam no rum. É nojento.

Ele riu.

– – –

Então o significado de Natal é… rum?

Claro!

E eu aqui imaginando algo a ver com religião. Carmine desviou os olhos para ela.


Detalhes técnicos, tesoro. Apenas detalhes técnicos. Juntos, caminharam pela fazenda. Haven de vez em quando parava e apontava uma árvore, mas em todas as vezes Carmine encontrava um defeito. Muito pequena ou muito grande; muito grossa ou muito fina; muitos galhos ou poucos ramos. Ele as deixava de lado por causa da cor, do formato e simplesmente zombou quando ela sugeriu que olhassem a pilha de sobras das árvores já cortadas. – E que tal essa aqui? – ela perguntou depois de algum tempo, parando em frente a uma árvore um pouco mais alta que ela. – Você gosta? Carmine praticamente nem olhou:

É muito pelada. Haven franziu o cenho, sem ter certeza do que ele queria dizer com a palavra pelada. Os galhos pareciam bem cheios para ela.

– – –

Você é tão enjoado. Que seja – ele resmungou. – Vê alguma outra?

Ah… – ela olhou ao seu redor, movendo-se aleatoriamente, e apontou para outra árvore que estava a alguns metros de distância. – O que acha daquela? Carmine a examinou. Ela esperou pela reclamação, certa de que ele encontraria um defeito, mas ele sorriu.

Perfeita!

Ela ficou surpresa.

– –

Tem certeza?

Sim, por quê? Não gosta dela? Haven ergueu os ombros. Todas pareciam iguais para ela, assim como todas pelas quais haviam passado ainda na estrada.

Para mim está ótima. Soltando a mão dela, Carmine estudou a árvore, decidindo como levá-la. Haven

o

observou por um momento, considerando a cena surreal, e explodiu em risos quando ele deu o primeiro golpe, que sequer arranhou o tronco. Carmine resmungou:

– –

O que é tão engraçado?

Isso vai levar o dia todo – ela disse.– Deveríamos ter apanhado uma das que já estão cortadas.


Isso é trapaça – ele retrucou. – Só porque é mais fácil não significa que seja o melhor a fazer. Às vezes é preciso se empenhar. Haven achava que invadir uma fazenda de árvores de Natal já era uma trapaça, considerando que eles poderiam ter pegado um pinheiro pequeno no quintal de casa, mas ela reconsiderou falar isso. A frustração dele crescia a cada golpe do machado e ela não queria piorar as coisas. Ele golpeou o tronco repetidas vezes, até que a madeira enfim cedeu. Apesar do frio, quando o pinheiro finalmente se inclinou para um lado, ele já estava ofegante e ensopado de suor. Sua testa estava molhada e as gotas escorriam pelo seu rosto e caíam pelo maxilar. Haven observou a luta dele em silêncio, enquanto um familiar sentimento de culpa voltava a invadir suas entranhas. A culpa estava sempre ali, à espreita, prestes a atingi-la de modo violento quando ela menos esperava, como uma víbora assustada lutando por sua vida. Aquilo a roía, envenenando-a e evocando o sentimento de vergonha quando ela se lembrava do que havia feito. Este garoto – teimoso, altruísta e estúpido – entregara a própria vida à Máfia. Em troca da vida dela, ele cedera o controle de seu futuro aos homens que ele mais odiava. Pela segurança dela. E foi tão fácil para ele, tão rápido, como se nem tivesse de pensar muito a respeito de tudo aquilo… Como se sacrificar-se por ela fosse tão natural quanto respirar. O fato o havia despedaçado e Haven ainda tentava aceitar a ideia de que poderia demorar até que se reconstruísse e se sentisse completo outra vez. E, por mais que ela estivesse grata por estar viva, por mais abençoada que se sentisse por estar ali, escolhendo uma árvore de Natal com o garoto que tanto amava, ela também estava furiosa. Não com ele… não mais. Aquela raiva se mostrara infundada. Ela estava brava consigo mesma… com o universo, porque não importava o que fizesse, ela não poderia ajudar Carmine. Ela era impotente diante do flagelo dele. Ela não teria como colocar um fim àquele tormento. Não havia jeito de salvá-lo. Mais uma vez em sua vida, Haven se sentia impotente. Então ela ficou ali de pé em silêncio, observando, com medo de olhar nos olhos dele um dia e ver arrependimento. Apavorada com a ideia de que, um dia, pudesse ver seu maior temor no semblante dele: ela não valia a pena. Por fim, a árvore cedeu e caiu na direção de Haven. Ela deu um pulo para o lado, quase sendo atingida.

Desculpe, tesoro – disse Carmine, soltando o machado e puxando a camisa preta de mangas longas, expondo o abdômen definido enquanto enxugava o suor da testa. – Isso foi bem mais difícil do que eu pensei. Ele sorria orgulhoso enquanto arrastava a árvore para o carro. Haven pegou o machado, surpresa pelo quanto aquilo pesava, e o seguiu. Ele jogou a árvore pela cerca como se não fosse nem um pouco difícil e a ajudou a pular.

– –

O que vamos fazer com isso? – ela perguntou.

Amarrar em cima do carro e levar para casa – ele respondeu, pegando o machado dela. Então, colocou-o no porta-malas e pegou uma corda, erguendo-a para mostrar a ela.


Tem certeza? – Haven perguntou enquanto Carmine agarrava a árvore e a posicionava sobre o teto do carro. Ela não conseguia imaginar que chegariam em casa sem causar algum dano. Ele suspirou exasperado.

É claro que tenho certeza, Haven. Oque deu em você hoje para repetir a mesma pergunta tantas vezes? Não confia mais em mim? Ela ficou surpresa com a indagação, não percebera que estava se repetindo.

– –

É claro que confio em você! Eu só estava… querendo me certificar.

Bem, acho que me questionar é sempre melhor que dizer tudo bem – ele respondeu, posicionando a árvore e a amarrando. Galhos ficaram pendurados por todos os lados do pequeno automóvel, bloqueando metade do vidro dianteiro e a maior parte do traseiro. – Se quer saber, ainda acredito em tudo o que digo.

Eu sei – ela respondeu. – Eu também acredito em você. Carmine balançou a árvore para ter certeza de que estava bem presa. Satisfeito com o trabalho que fizera, sinalizou para que Haven entrasse no carro, contudo, ela não se moveu.

Então, o furto é o quê? – ela perguntou. – Seria uma contravenção ou um delito? Carmine a encarou por um momento antes que a ficha caísse. Em vez de responder, pegou a carteira, retirou um pouco de dinheiro, pulou novamente a cerca e correu até a porta da fazenda, enfiando as notas por baixo da porta.

Furto? – ele perguntou ao retornar com um sorriso travesso. – E o que a fez pensar que nós furtaríamos alguma coisa hoje?

Haven estava certa. Pequenos arranhões podiam ser vistos no teto do carro, um deles era mais proeminente e bem no centro. Carmine passou o dedo indicador sobre a marca.

– –

Cacete de árvore. Será que é fácil de consertar? – perguntou Haven.


É – ele respondeu. – É que detesto ver meu bebezinho machucado. Devíamos ter ido com a Mercedes do meu pai. Os novos arranhões combinariam com aquele que você deixou no retrovisor. Haven sorriu ao se lembrar de sua primeira aula de direção.

– –

Prefiro dirigir o seu.

Prefere? – Carmine perguntou, olhando para ela com genuína curiosidade. – Então você gosta do Mazda?

Gosto – ela respondeu. – É legal. Parece aconchegante e familiar. Além disso, nunca fui jogada no porta-malas do seu carro. Carmine piscou rapidamente, afastando-se dela e olhando para a árvore deitada no jardim da frente. Em seguida ele a pegou pelo tronco e a arrastou em direção à casa, deixando uma trilha de galhos pelo caminho.

As horas seguintes foram repletas de atividades. Vincent se juntou a eles na sala de estar, trazendo consigo um suporte para a árvore e uma caixa de artigos de decoração. O restante da família apareceu depois. Eles haviam acabado de colocar os piscas-piscas quando o irmão de Carmine, Dominic, entrou pela porta. Eram as férias de inverno na Universidade de Notre Dame. Ele atirou suas malas no chão do hall e correu na direção de todos, derrubando Carmine no chão. Bagunçou divertida e irritantemente os cabelos do irmão antes de agarrar Haven num abraço.

– –

Pé de Valsa! – ele a girou no ar em círculos. – Senti sua falta, garota.

Você a viu há um mês – Carmine resmungou, colocando-se de pé. Uma dor se espalhou pela espinha quando se alongou, e ele fez uma careta.

E oi pra você também, otário. Dominic riu e colocou Haven no chão antes de empurrar o irmão. Carmine se desequilibrou e caiu sobre a árvore, deixando-a torta.

Também senti sua falta, cara. Estou feliz em te ver. Carmine revirou os olhos, fingindo irritação diante dos modos do irmão, mas um pequeno sorriso involuntário surgiu em seus lábios. Não podia negar que sentia falta da leveza e da despreocupação que geralmente acompanhavam a presença de Dominic. Carmine sempre invejara aquilo – a habilidade do


irmão de amenizar qualquer situação. Eles sem dúvidas teriam apreciado aquele dom ao longo do último mês, em que todos pareceram caminhar sobre cascas de ovos, tentando ignorar a realidade, mas, ao mesmo tempo, temendo que uma bomba nuclear fosse detonada a qualquer momento naquela casa. O futuro de Carmine, o passado de Haven, as acusações contra Vincent, a saúde de Corrado… Essas palavras estavam sempre na ponta da língua de Carmine, mas nunca eram pronunciadas nas conversas do dia a dia. Todos estavam sempre falando, mas ninguém dizia porra nenhuma. Aquela situação não se prolongaria para sempre, e Carmine sabia. Uma vez que o resto da família estivesse reunido e aquela bolha de paz fosse invadida, todos aqueles problemas já não poderiam ser ignorados. Eles estavam prestes a ser pressionados por todos os lados, gostando ou não. Uma parte de Carmine estava aliviada e a outra, aterrorizada. O fato de aquele barco ter sido violentamente sacudido abria caminho para a possibilidade de ele naufragar e, caso acontecesse, ele não poderia garantir que ninguém iria se afogar ao cair na água. Ele só esperava que isso não acontecesse com ele e Haven.

Celia e Corrado não demoraram muito a chegar depois de Dominic. Carmine acabara de colocar o último ornamento na árvore quando ouviu uma batida suave na porta da frente. Mas antes que qualquer um se movesse, a porta se abriu e a voz de Celia pôde ser reconhecida. – Toc, toc… Tem alguém em casa? Os dois também largaram suas malas no hall de entrada. Celia entrou rapidamente na sala de estar, abraçando os meninos e Haven, antes de se concentrar no irmão. Sua voz estava alta e animada, e era possível sentir o amor em cada palavra enquanto cumprimentava cada um. Corrado, em contrapartida, só chegou até a porta da sala, de onde observou a interação dos outros em completo silêncio. Carmine o olhou com cautela. Ele não havia visto Corrado desde o galpão, quando o viu cair em meio a uma poça de sangue. Nunca se sentira muito próximo dele. Na verdade, ele o temia mais do que qualquer outra coisa. Todavia, agora parecia existir algo mais entre ambos; algo maior e mais forte. Havia um profundo respeito e quase uma admiração. Pela primeira vez na vida, Carmine sentiu que podia se relacionar com ele. Corrado, entretanto, não demonstrava sinais de que o sentimento fosse recíproco. Seu silêncio, mesmo depois de ser cumprimentado por Vincent, abrigava uma mensagem mais profunda do que qualquer palavra seria capaz de transmitir. Ele ficou ali, parado, alheio a tudo o que acontecia, como se não tivesse nada a dizer a ninguém. Sua pele estava mais pálida que de costume, seu corpo frágil apresentava uma figura quase esquelética; a escuridão permanecia em seus olhos e parecia até ter se aprofundado ao longo daquelas semanas. Se algo havia mudado, era certamente o fato de que ele parecia ainda mais aterrorizante. Os olhos de Corrado se cruzaram com os de Carmine depois de um momento; estavam tão escuros que pareciam quase negros. Não havia nenhum brilho neles, nenhuma emoção. Aquilo fez que Carmine sentisse um frio na espinha, e a afeição que acabara de surgir foi logo substituída por apreensão. Carmine se perguntava se Corrado também sentia o que estava no ar, porque ele se virou de repente, pegou as malas e subiu a escada mancando, sem dizer uma única palavra. Carmine não fazia ideia do que dizer, e o mesmo se aplicava a Haven e a Vincent, que também ficaram sem palavras. Mas, como esperado, Dominic não deixava nada escapar.


Ei, será que não merecemos nem um olá? Celia sorriu com tristeza.

Não levem para o lado pessoal. Ele ainda está se adaptando. Deem a ele algum tempo para se reaproximar. Pelo olhar de Vincent, Carmine suspeitava de que seu pai não acreditara na explicação da irmã.

Capítulo 3 O sol já começava a se pôr quando todos se reuniram na sala de estar para assistir a um filme. Sombras esguias se esticavam pelo chão, decoradas pelas luzes coloridas e brilhantes da árvore de Natal. Antes de ligar para Tess – sua namorada – e convidá-la para se juntar a eles, Dominic pediu comida chinesa pelo telefone. A jovem também estava em férias da faculdade, visitando a cidade. Em poucos minutos, Tess chegou e logo se apertou numa poltrona ao lado de Dominic, que segurava uma bacia de pipoca. Haven e Carmine estavam sentados no sofá, tão próximos que os braços se tocavam. Celia pediu desculpas e subiu para ficar com o marido; Vincent afirmou ter trabalho para fazer no escritório e também subiu.

O que o doutor DeMarco está fazendo? – Haven perguntou em voz baixa, inclinando-se em direção a Carmine. – Ele praticamente não fica mais conosco.

– – –

É, acho que ele está planejando alguma coisa. Como o quê?

Eu gostaria de saber – ele respondeu.– Mas momentos desesperadores exigem medidas desesperadas, portanto, seja lá qual for o problema, a situação deve ser complicada.

Você acha que algo vai acontecer? –ela perguntou, demonstrando certo pânico na voz. Carmine deu um sorriso seco.

E quando é que não acontece? Nesse momento a paz foi interrompida pelo som de várias batidas na porta da frente. Todos se olharam, mas ninguém ousou se mover. Carmine se levantou, acenando a cabeça e dizendo:

– –

Por favor, não se levantem todos ao mesmo tempo. Eu teria atendido – disse Haven –,mas não tenho nenhum dinheiro.


– –

Eu sei – ele respondeu. – Não se preocupe.

Obrigado, DeMarco – disse Tess, atirando uma pipoca contra o cunhado. – Pelo menos você serve pra alguma coisa. Ele mostrou o dedo do meio a ela. Tess torceu o nariz.

– –

Enfia esse dedo no rabo.

Vai se foder. Carmine seguiu em direção ao hall já pegando sua carteira e o dinheiro. A pessoa à porta continuou batendo de maneira impaciente e com força.

Jesus, já estou indo. Quem você pensa que é para bater assim nessa bosta de por…? Ele ficou congelado ao abri-la e se deparar com um distintivo dourado e brilhante na altura de seus olhos.

Polícia – disse o oficial com a voz severa. A resposta de Carmine foi automática:

– –

Não tenho nada a dizer.

Você nem sabe o que eu quero – respondeu o oficial, soltando uma risada e se divertindo com a reação de Carmine. – Sou o detetive Jack Baranski. Há uma garota aqui chamada Haven?

– –

Por quê? – perguntou Carmine.

Gostaria de falar com ela sobre um rapaz chamado Nicholas Barlow. Os músculos de Carmine se contraíram na mesma hora e seu coração disparou ao se lembrar da imagem brutal de seu melhor amigo morto no jardim.

O som alto de um tiro à distância. Um grito no ar. Nicholas caindo de joelhos e segurando o peito enquanto abria a boca para dizer palavras que jamais seriam pronunciadas. Só restara o silêncio. O rapaz morrera na hora. Ele estava morto. O filho da puta estava morto.

entrar?

Só levará alguns minutos – disse o detetive quando Carmine não respondeu. – Posso


Carmine acenou negativamente a cabeça, quase sem conseguir falar.

Vá embora. No entanto, antes que o rapaz tentasse bater com a porta no rosto do policial, a voz de Vincent pôde ser ouvida ao fundo:

Deixe-o entrar, filho. Carmine se virou para o pai e o viu de pé na escada. Talvez ele não ouvira corretamente. Vincent DeMarco jamais permitiria que um policial entrasse em sua casa.

– –

Como é?

Você me ouviu – disse Vincent descendo os últimos degraus e caminhando em direção ao hall. – Deixe que ele pergunte o que quiser.

De jeito nenhum – Carmine retrucou. O jovem estava prestes a perguntar ao pai se ele havia perdido a cabeça, quando o irmão o interrompeu.

Cadê a comida? Estou morrendo de fome – disse Dominic, saindo da sala de estar e dando de cara com a situação. Seus olhos se arregalaram ao ver o oficial. – Caramba, definitivamente você não é o entregador de comida chinesa! O que foi que você aprontou dessa vez, maninho? Carmine rosnou. Por que Dominic sempre presumia que Carmine tivesse feito alguma coisa?

Ele não está aqui por causa de Carmine – disse Vincent. – Ele só quer fazer algumas perguntas a Haven, e logo irá embora. Resmungando, Carmine saiu do caminho para que Vincent conduzisse o detetive até a sala de estar. Dominic se desculpou e subiu para o quarto, levando a namorada junto. Carmine já se preparava para fechar a porta quando o rapaz da entrega estacionou bem atrás do carro do policial, que não apresentava qualquer identificação. Carmine pagou o sujeito, bateu a porta, colocou o jantar no balcão da cozinha e correu para a sala de estar. O jovem se sentou no braço do sofá, bem ao lado de Haven, sem querer se afastar dela enquanto o detetive pigarreava.

– –

Eu preferiria conversar com ela a sós, se vocês não se importam.

Bem, infelizmente para você eu me importo – disse Vincent. – Eu o convidei para entrar, mas você não me fará sair.

Muito bem – disse o detetive, retirando um pequeno bloco de notas do bolso. – Haven, você conhece Nicholas Barlow? Haven entrelaçou os dedos e começou a gaguejar.


Sim. Bem, eu sei quem ele é, mas eu não o conhecia muito bem, digo, eu não o conheço… muito bem. Seus olhos em pânico se voltaram para Carmine rapidamente, antes de se concentrarem no chão.

– – – –

Quando o viu pela última vez? No final de setembro – ela disse. –Carmine teve um jogo de futebol naquela noite. E você se lembra de algo fora do normal que tenha acontecido no jogo?

Eu dei um chute no traseiro dele –disse Carmine, bufando e tentando poupá-la de recontar toda a história. – Mas isso não é nada anormal. Nós brigávamos o tempo todo.

– –

Ah… Bem, e o que aconteceu depois da briga?

Ele fugiu – respondeu Carmine. – Como, aliás, ele sempre fazia quando nós brigávamos. Curioso, o oficial encarou o jovem.

– –

E essa foi a última vez que você ouviu?

Não, eu o vi de novo na semana seguinte – Carmine admitiu. – Eu estava prestando os exames na escola quando ele apareceu. – Por quê?

Porque eu não tinha nada de mais interessante para fazer, então fui prestar exames. Caramba, para que existem exames?

Não lhe perguntei por que estava prestando exames – retrucou o detetive Baranski, já um pouco impaciente. – Quero saber por que Nicholas Barlow estava lá. Carmine deu de ombros, sabendo perfeitamente o que o detetive quisera dizer da primeira vez, mas tentando se abster de responder à pergunta.

– – –

Aconteceu alguma coisa na ocasião? O que aconteceu, de fato, em todas as outras ocasiões em que nos encontramos.

Outra briga – concluiu o policial, não demonstrando surpresa. – E a última vez que você o viu, Haven, foi no jogo de futebol?

Sim – ela disse, antes de hesitar. –Bem… não. Eu o vi no lago Aurora mais tarde naquela noite. Conversamos um pouco e daí eu fui embora.


Então essa foi a última vez em que você o viu? Os olhos dela rapidamente percorreram a sala e ela viu um leve aceno positivo por parte de Vincent. O movimento foi tão discreto que Carmine quase não percebeu.

– –

Sim – ela disse em voz baixa, mentindo.

E você tem alguma ideia do que possa ter acontecido com ele? Dessa vez, ela respondeu sem qualquer hesitação:

Sim. Mostrando-se tenso, Carmine a olhou sem acreditar.

– –

Como assim?

Naquela noite, no lago, ele disse que não havia restado nada para ele nesta cidade. Falou alguma coisa sobre sair daqui, desaparecer e recomeçar em algum lugar onde ninguém o conhecesse. Pensei que estivesse brincando, mas… Agora fico pensando se ele realmente não levou isso a sério.

– –

É possível – disse o detetive, recolocando o bloquinho no bolso.

Não posso evitar me sentir culpada –ela continuou. – Talvez eu pudesse tê-lo impedido, tê-lo ajudado. E então ele não teria… partido. O peito de Carmine se encheu de culpa diante daquelas palavras. – Não pode se culpar pelas decisões tomadas por outras pessoas, senhorita – disse o oficial, já se preparando para sair. – Obrigado pelo seu tempo. Se você se lembrar de qualquer outra coisa que possa nos ajudar a encontrar o rapaz, ligue para mim. Ele então retirou do bolso um cartão de visitas e o entregou a Haven. Vincent levou o policial até a porta e a jovem se manteve imóvel por um momento, antes de cerrar o punho e amassar o cartão. A tensão na sala aumentou. Carmine não conseguiu suportar o silêncio e se voltou para ela assim que a porta se fechou.

– – –

Você acha mesmo que o que aconteceu foi sua culpa? É claro que foi minha culpa – ela disse em voz baixa. – Se eu não tivesse… Isso é ridículo – ele a interrompeu, sem lhe dar a chance de explicar. – Você não provocou

nada disso.

Provoquei sim – ela retrucou. – Você não vê? Tudo o que aconteceu até agora foi por minha causa, Carmine; tudo porque eu sou alguma princi… princip… Ah, eu sei lá! Uma princesa idiota! Sua mãe e Nicholas morreram, Corrado se feriu gravemente e você abriu mão de sua vida, do seu futuro,


como se nada disso importasse. E agora, o que mais irá acontecer? O que mais acontecerá por minha causa? Ao perceber as lágrimas de tristeza inundando os olhos de Haven, aquelas que talvez vinha represando há semanas, Carmine enfim se deu conta de que não havia mais volta: o botão vermelho fora pressionado e a bomba nuclear havia sido acionada. A frágil bolha de felicidade que se formara ao redor dos dois estava prestes a explodir.

Mas não vou deixar você carregar esse fardo – ele disse. – E não se atreva a se sentir culpada pelo que eu fiz. Se quiser culpar alguém por isso, culpe a mim. Eu o fiz por vontade própria, não porque tivesse de fazê-lo. Eu o fiz porque te amo, Haven, e você não me forçou a amá-la. Fiz tudo isso sozinho. E não me arrependo de nada.

– – –

Por que não? E por que eu me arrependeria? Você finalmente está segura. Finalmente está livre! Estou? – disse Haven, meneando a cabeça, frustrada. – Eu estou segura?

Estou livre?

É claro que está – ele retrucou, franzindo as sobrancelhas. – E por que não estaria livre e

Eu não sei – ela disse, com as lágrimas escorrendo pelo rosto. – Nem sei o que isso

segura?

significa.

Nós já conversamos sobre isso – ele disse, atirando os braços para cima, exasperado. – Significa que você pode fazer o que quiser de sua vida; ir aonde quiser; ser o que quiser; ser quem você quiser.

E você, pode? Aquela pergunta pegou Carmine de surpresa.

Ah… A voz da jovem falhou por conta do desespero.

Você não entende, Carmine? Como posso me sentir livre quando você não está? Como eu poderia fazer qualquer coisa se você mesmo não pode?

Eu acho que… – O celular tocou no bolso do rapaz e interrompeu sua linha de raciocínio. Ele pegou o aparelho e sequer precisou olhar para a tela para saber quem estava do outro lado da linha: Salvatore. Haven se levantou sem dizer uma palavra e se preparou para sair da sala. – Espere, Haven. Temos de conversar sobre isso, então apenas espere, ok? Só vai levar um minuto.


Ela parou próxima ao hall e se virou para ele sem dizer uma palavra, com os olhos ainda cheios de lágrimas. O telefone continuou a tocar na mão de Carmine e ele resmungou, sabendo que precisava atender. Dando alguns passos de volta ao sofá, ele se sentou de costas para ela.

– – –

Olá, senhor. Estava me perguntando se você iria atender minha ligação – disse Salvatore.

Claro que sim – ele murmurou, abaixando a cabeça e passando a mão nos cabelos. Logo ele viu o cartão de visita do detetive amassado e atirado no chão e o chutou com o pé, franzindo o cenho. – Está uma bagunça aqui. Eu não tinha ouvido o telefone.

Certo. Bem, só estou ligando para saber como estão indo suas férias. Acredito que Corrado já tenha chegado aí, mas não consigo falar com ele, ele não atende o celular. Carmine cerrou as sobrancelhas. Um contato social?

– –

Sim, ele está aqui. Acho que está dormindo.

Faz sentido – disse Sal. – Ele ainda está se recuperando, então acho que precisa mesmo repousar. As coisas não têm sido as mesmas aqui sem ele. Será ótimo contar com vocês dois no trabalho depois do Natal. A cor desapareceu do rosto de Carmine.

– –

Como?

Corrado ainda não lhe disse? – perguntou Sal. – Pedi a ele que vocês viessem juntos para Chicago. Tenho sido mais que paciente com você, digo, com a sua situação, mas é chegada a hora de construir sua vida aqui, principe. Chicago será seu lar a partir de agora. Aliás, onde sempre planejamos que fosse. – Mas só se passaram…

Já se passou um mês – ele disse coma voz severa. – Não resta mais nada aí para você. Carmine sabia que não havia como argumentar com Salvatore. Ele já havia tomado sua decisão e nada mudaria seu modo de pensar.

– –

Sim, ok. Tudo bem.

Fico feliz que isso esteja resolvido –disse Sal. – Mal posso esperar para tê-lo aqui junto a mim, principe. Ah, e diga a Corrado que me ligue assim que acordar. Buon Natale. Carmine desligou e olhou para trás, imaginando quanto da conversa Haven teria escutado, mas ficou preocupado ao ver o hall vazio. Ela não esperara por ele, afinal.


Ele está bem? Vincent olhou por cima da pilha de papéis que tinha sobre a mesa, encarando seu filho por sobre os óculos de leitura. Carmine entrou no escritório e se atirou na cadeira de couro na frente do pai, deslizando o corpo. A linguagem corporal demonstrava indiferença, mas Vincent pôde ver a genuína preocupação nos olhos do filho.

– – –

Seu tio? Sim.

Bem, ele ainda está se recuperando –disse Vincent. – Ele só recobrou a consciência há poucas semanas. Sequer deveria estar viajando.

que…

– –

Mas acha que ele ficará bem? Você ouviu sua tia Celia. Ela disse

Carmine o interrompeu:

Eu sei o que ela disse, mas não estou perguntando a ela. Estou perguntando a você. Vincent colocou os papéis sobre a mesa e se recostou na cadeira. Em seguida, removeu os óculos e esfregou os olhos cansados enquanto seu filho ainda aguardava por uma resposta. Carmine trazia uma pequena bolinha consigo e a atirava de uma mão para outra.

Veja bem, Corrado esteve clinicamente morto. O corpo humano é resistente, mas o cérebro é vulnerável. É muito raro alguém se recuperar por completo depois de ficar inconsciente por mais de três minutos.

– –

E quanto tempo Corrado ficou inconsciente?

Quatro minutos. Carmine ficou sem palavras; sua boca estava entreaberta, mas ele não conseguia dizer nada.

Não estou dizendo que ele não ficará bem – Vincent continuou, sem querer alarmar o filho. No entanto, ele não podia mentir ou tentar amenizar a situação. – Só acho que ainda é cedo para dizer com segurança. Não há como prever que tipo de efeitos de longo prazo Corrado terá de enfrentar.


– –

Você está falando de danos cerebrais?

Sim, mas não só isso – respondeu Vincent, enquanto remexia sem perceber um arquivo sobre a mesa. – A morte tem um jeito todo especial de mudar as pessoas, filho. Quando nos deparamos com nossa própria mortalidade, em geral, passamos a ver a vida de um jeito diferente. O que mais importava no passado talvez já não seja uma prioridade. E nem sempre é fácil as outras pessoas aceitarem isso. Ficamos felizes quando alguém se salva, quando uma vida é poupada, mas, às vezes, é preciso parar e pensar: A que custo? Será que não estamos apenas adiando o inevitável? Será que estamos intervindo quando não teríamos o direito de fazê-lo? Estaríamos interferindo no destino? Queremos que as pessoas vivam, mas é preciso considerar que talvez o melhor para elas seja o oposto. Apenas quando Vincent olhou para o filho foi que percebeu que havia ido longe demais. Os olhos de Carmine estavam arregalados, mas cautelosos; sua boca se mantinha entreaberta.

Só estou falando por falar – disse Vincent, voltando atrás. – Estou exausto e estressado e nem sei mais o que estou dizendo. Seu tio ficará bem, Carmine. Ele desafiou a medicina no momento em que acordou, então não há razão para acreditarmos que ele não continue a fazê-lo. Afinal, de acordo com a mídia, o homem é feito de aço.

Eu ouvi – disse Carmine. – Mamãe tentava nos manter afastados de tudo isso, mas Dom e eu costumávamos ver as manchetes no jornal quando morávamos em Chicago. Corrado Moretti, o assassino de aço… Preso dezenas de vezes, mas jamais condenado por nenhum de seus crimes.

Acusações não comprovadas – Vincent completou. – Eu perdi a conta do número de vezes em que ele saiu ileso de situações que deveriam tê-lo derrubado.

Isso é bom – retrucou Carmine. – Já que ele detém o recorde de sair livre de todas as acusações, é provável que vocês dois saiam ilesos das últimas. Problema resolvido.

É um pensamento positivo, mas há um problema com essa teoria – disse Vincent. – A acusação pediu que nossos casos sejam julgados separadamente, portanto, acho que estarei por conta própria. Carmine começou a responder, mas uma voz o interrompeu antes mesmo que conseguisse dizer duas palavras. Vincent ficou imóvel ao ver que, atrás do filho, estava Corrado de pé à porta do escritório.

Você ficará perfeitamente bem – disse Corrado, com a voz desprovida de qualquer

emoção.

Acha mesmo? – Vincent perguntou. Corrado acenou de maneira positiva com a cabeça.

Nós dois ficaremos bem.


Vincent teria dito mais se não tivesse ficado alarmado com a repentina aparição do cunhado. Ele havia tomado um banho; seus cabelos ainda estavam úmidos e o rosto ficara com uma aparência melhor depois de barbeado.

Bem, já estou indo para a cama – resmungou Carmine, levantando-se e saindo antes mesmo que o pai pudesse lhe desejar boa-noite. Corrado ficou parado no mesmo lugar por um instante, antes de entrar no escritório e sentar-se na mesma cadeira que ficara vaga. Ele não disse nada, mas seus olhos encaravam Vincent de modo intenso.

– – – –

Quanto você ouviu da conversa? – perguntou Vincent. O suficiente. E?

Acho que está certo sobre o fato de as pessoas mudarem – retrucou Corrado –, mas não acho que estivesse falando sobre mim.

Capítulo 4 O som estridente de um toque familiar no celular interrompeu o sono de Carmine. Ele se esforçou para abrir os olhos e tateou a mesa de cabeceira tentando encontrar o aparelho, e xingou ao derrubá-lo no chão, provocando um barulho alto.

– –

Desligue isso – Haven murmurou, sem sequer abrir os olhos.

Merda, estou tentando – ele disse, agarrando o telefone no chão. Ele rosnou ao perceber quem era. Salvatore. De novo?

– –

Alô?

Não gosta de atender prontamente, não é? – perguntou Salvatore com um tom severo. Com certeza aquela não era uma chamada social. Ele olhou para o relógio e viu que passavam apenas alguns minutos das quatro da manhã. Haven já estava dormindo quando ele subiu… Ou pelo menos fingia estar, o que seria mais provável. Ele ainda conseguia sentir a tensão que pairava entre eles por conta da conversa que ela com certeza estava tentando evitar.

Desculpe, senhor – ele disse, cobrindo os olhos com o braço enquanto voltava a se deitar. – É que ainda está cedo pra caralho.


Você é cheio de desculpas, não é? –Sal perguntou de maneira retórica. – E também não pediu a Corrado que me ligasse, conforme mandei.

– –

Ele estava dormindo e, bem… – ele havia esquecido. – Eu também caí no sono.

Muito bem, então é ótimo que esteja acordado agora, pois preciso que pegue um pacote para mim em Charlotte.

Agora? – perguntou Carmine, incrédulo. Charlotte ficava a duas horas dali, e era véspera de Natal. A última coisa que ele queria era deixar Haven sozinha o dia todo. Salvatore soltou um riso amargo e Carmine cerrou o punho. Aquele som o deixou perturbado.

Sim, agora. Sal passou um endereço e o jovem pulou da cama para pegar uma caneta e achar algo em que pudesse escrever. Ele encontrou um caderno de Haven, abriu na última página e anotou o endereço de maneira rápida. Sal desligou.

– –

Que ótimo – ele resmungou, cambaleando até o armário. – Era só disso que eu precisava.

Aonde você vai? – Haven perguntou. Ele a olhou e percebeu que agora ela estava com os olhos abertos e o encarava, confusa; ele soltou a primeira coisa que surgiu em sua mente:

– –

Preciso terminar as compras de Natal.

Agora? – ela acreditar. – Tem alguma loja aberta a essa hora?

perguntou

sem

Elas estarão abertas na hora em que eu chegar – ele disse, na expectativa de que ela não o pressionasse ainda mais. Ele se vestiu e deu um beijo na jovem, passando a mão em seu rosto e retirando alguns fios de cabelo de sua face. – Eu volto mais tarde, tesoro. Haven resmungou algo incoerente e fechou os olhos de novo. Carmine pegou suas coisas e o caderno de Haven e saiu da casa tentando fazer o mínimo de barulho possível. Entrou no Mazda e deu início à viagem a Charlotte. Como estava com a visão turva por causa do sono, ele não conseguia se concentrar bem ao volante e saiu da estrada algumas vezes. Agitado, xingou, aumentou o volume do rádio e abriu as janelas na esperança de que o barulho e o ar frio o mantivessem acordado. Ele chegou em Charlotte pouco depois do amanhecer e levou em torno de vinte minutos para encontrar o endereço. Era uma pequena barbearia; um lugar sombrio, com os tijolos desmoronando e o letreiro mal se aguentando na parede do edifício antigo. Carmine pegou a arma que mantinha escondida debaixo do banco e colocou-a na cintura antes de sair do carro. Foi em direção ao prédio e forçou a porta, mas ela não se moveu. Então ele apertou a


campainha antiga e suja sob a caixa de correio. Um som estridente e desagradável fez que ele se encolhesse. Logo ouviu reclamações no interior, antes de a porta se abrir. Um homem de pele parda parou diante do jovem; ele tinha uma tatuagem no pescoço e seus cabelos longos estavam trançados até a metade. Carmine podia ver o brilho dos dentes de ouro na boca do sujeito. O pescoço e as orelhas estavam cravados de diamantes. Não parecia ser alguém com quem Salvatore faria negócios, então, Carmine se perguntou se não havia anotado o endereço errado. No entanto, antes que pudesse considerar a ideia de ir embora, o homem deu um passo para o lado e fez sinal para que o rapaz entrasse. O interior era tão decadente quanto o lado de fora, tudo coberto com uma sujeira malcheirosa. Carmine observou com nojo e ouviu quando o sujeito bateu a porta atrás dele e cambaleou pela sala, enfiando a mão no bolso para apanhar um maço de cigarros. Em seguida, colocou um na boca e outro atrás da orelha, antes de amassar a embalagem vazia e jogá-la no chão. – É o jovem DeMarco, certo? – perguntou o homem. – Você não se parece nada com o seu pai. Tem certeza de que é filho dele? Acho que sua mãe andou pulando a cerca por aí. Carmine estreitou os olhos; suas mãos tremiam com furor no momento em que ele pegou a arma. O cara entendeu e levantou as mãos na defensiva.

– –

Porra, você deve ser mesmo filho dele. Nenhum dos dois aceita uma piada.

Não fale sobre minha mãe – retrucou Carmine, enquanto o homem dava as costas para ele e abria um armário.

– – –

Você é quem manda – ele murmurou.– Diga-me uma coisa… Você tem namorada? Como é?

Porra, você é surdo? – perguntou o sujeito, voltando-se para o rapaz. Carmine ficou tenso ao vê-lo pegar uma Glock 22 no armário e apontá-la para ele sem hesitar. Com o coração disparado e assustado, Carmine mirou rapidamente sua arma e os dois ficaram frente a frente com as armas em punho. O jeito zombeteiro logo desapareceu da expressão do sujeito e seus olhos faiscavam de raiva. – Eu perguntei se você tem namorada.

Sim – disse Carmine, tentando manter a compostura, mas o cara estava claramente alterado. A ideia de que tudo aquilo poderia ser uma armação passou pela cabeça de Carmine, mas ele logo a deixou de lado, sem querer considerar a possibilidade de Salvatore fazer aquilo com ele. Não agora. Não assim. Ele não tinha feito nada para merecer qualquer punição.

Qual é o nome dela? – o cara perguntou. – E não minta para mim. Posso descobrir sozinho, mas não acho que você iria querer que eu fizesse isso.

Haven – ele disse. – O nome dela é Haven.


Bom – o cara baixou a arma e pegouuma mochila gigante no armário. Carmine a agarrou hesitante, mantendo a arma apontada por precaução –, você tem doze horas para trazer meu dinheiro. Se não estiver aqui até às 19h, um minuto depois do horário eu já estarei no meu carro, indo fazer uma visitinha a Haven, e então ela mesma me pagará. Você entendeu?

– –

Se você ousar tocar nela…

Eu perguntei se você entendeu. – ele repetiu, apontando a arma mais uma vez. Instintivamente, Carmine deu um passo para trás.

– –

Sim.

Bom. Agora saia da porra da minha loja antes que eu te mande para o inferno. Carmine empurrou a porta e precipitou-se para fora apressado, sentindo como se a mochila pesasse mais do que ele. O jovem enfiou a arma de volta na cintura enquanto corria em direção ao carro, atrapalhando-se todo com as chaves e xingando enquanto destrancava a porta. Ele jogou a mochila no banco do passageiro e saiu em disparada, querendo sumir dali. A poucos quilômetros de distância, olhou para a enorme mochila e, curioso, abriu-a, percebendo que estava cheia de armas e munição. Atordoado, o jovem freou de maneira brusca e, em seguida, parou o carro no estacionamento de um restaurante próximo. Ele olhou de novo para a mochila e se perguntou o que deveria fazer com aquilo. Ele não tinha certeza de que Salvatore havia lhe dado instruções, considerando que estava sonolento e não prestara atenção. De repente, ele se preocupou, acreditando que havia deixado passar alguma informação. Então pegou o celular e procurou pelo nome do pai na lista de contatos. Em seguida apertou o botão de discagem automática e esperou que Vincent o atendesse.

Carmine? – respondeu Vincent, parecendo preocupado. – Onde você está? Percebi que seu carro não estava na garagem de manhã.

– – –

Eu, hum… Acho que preciso de ajuda. Com o quê?

Estou em Charlotte – ele disse. – Recebi um telefonema esta manhã. Salvatore me mandou pegar uma coisa com um sujeito, que me deu uma mochila enorme e disse que queria o dinheiro dele ainda esta noite. Mas não faço ideia do que diabos tenho que fazer com isso. E de que dinheiro o sujeito está falando?

Você deve ter conhecido Jay – disse Vincent, respirando fundo. – Basta retirar algum dinheiro de sua conta e pagar-lhe. Temos um acordo, cinquenta mil cada visita.

E o que faço com essa maldita mochila gigante?


Há um depósito aqui na cidade, bemao lado da mercearia. Vou deixar a chave no balcão.

Unidade 19-B.

Carmine parou em frente à unidade de armazenamento. A mochila era a única coisa dentro dela. Ele a encarou por mais um momento, balançando negativamente a cabeça antes de fechar a porta de metal e colocar o cadeado. Ao deixar o lugar, ele guardou a chave no bolso e caminhou até a mercearia, que ficava ao lado, para comprar algo para beber. O lugar estava vazio, exceto pela atendente, que, aliás, mal olhou para ele. Parecia mais interessada na revista barata de fofocas, então ele atirou algum dinheiro sobre o balcão para pagar por uma garrafa de Coca-Cola de cereja e um Toblerone. No caminho de volta ao estacionamento, as pernas do jovem estremeceram quando se deparou com um cartaz já enrugado colado no vidro da porta de saída. Ele o pegou e o olhou com cuidado enquanto caminhava pelo estacionamento já escuro. A palavra DESAPARECIDO estava escrita no topo, destacada de maneira ameaçadora, enquanto uma imagem bastante familiar cobria a maior parte da página: era Nicholas Barlow. Ele estava usando suas calças camufladas favoritas e seu boné de beisebol puxado para baixo. Carmine se lembrou imediatamente do dia em que a foto fora tirada. Forçando os olhos, ele podia ver a si mesmo ao fundo. Eles tinham ido até o Lago Aurora, pouco tempo antes de a amizade desmoronar… Antes de suas vidas tomarem rumos tão dramáticos. Mais tarde, naquele mesmo dia, ambos acabariam no pronto-socorro depois de uma luta ferrenha – Nicholas tinha uma torção no tornozelo e Carmine ostentava um corte na sobrancelha. Foi o dia em que Carmine desafiara seu melhor amigo a ir para a cama com Jen, a enfermeira do hospital. Aquele seria o único desafio que os rapazes nunca levariam a cabo, visto que Nicholas estava morto, assim como a enfermeira. O brilho sutil do poste iluminava o carro de Carmine no fundo do estacionamento. O dia havia começado e chegado ao fim com ele longe de casa; ele perdera a véspera de Natal com a família. Ao entrar no carro, acendeu a luz interna para dar mais uma olhada no cartaz. Logo se sentiu tomado pela culpa ao perceber que estavam oferecendo uma recompensa por informações. As palavras de Haven retornaram à sua cabeça. O que mais irá acontecer por minha causa?, ela perguntou. Mas o que Carmine queria saber era quanta dor mais ele próprio causaria. Quantas famílias estragaria, quantas vidas arruinaria? O jovem sentia como se houvesse uma maldição sobre ele, pronta para aniquilar qualquer um que ousasse se aproximar. Seu melhor amigo estava morto. Quem seria o próximo? Suspirando, ele jogou o papel no banco do passageiro e pegou o caderno de Haven, na expectativa de se livrar daqueles pensamentos. Após os acontecimentos daquele dia, ele só queria esquecer de tudo por um tempo. Foi então que passou os olhos nos rabiscos à procura de uma distração, mas o sentimento de vazio em seu estômago só aumentou quando ele começou a ler as palavras escritas de maneira frenética por Haven. Ela narrou todo o sofrimento pelo qual passara e, quanto mais ele lia, mais desesperadoras se tornavam as palavras da jovem. Havia dezenas de desenhos que as acompanhavam, alguns tão vagos que


ele nem conseguia entender o que eram; outros eram tão detalhados que era como se visse as imagens com os próprios olhos. Ao abrir numa página no meio do caderno, Carmine se deparou com seu nome. Nesse momento, seus olhos cautelosamente percorreram o parágrafo circundante. Haven meditava sobre o tipo de futuro que eles teriam juntos; estava desanimada com a situação em que ambos se encontravam. Tomado pela tensão e pela ansiedade, ele leu tudo até se deparar com a última frase: O que você faz quando a coisa que você mais quer, de repente, parece estar fora do seu alcance? Por mais que Carmine não quisesse deixar que aquilo o atingisse, aquela pergunta o incomodava. Depois de libertá-la, ele se esquecera daquilo. Embora não quisesse admitir, ela estava certa… Enquanto estivesse com ele, Haven jamais teria o controle da própria vida. Ele folheou mais algumas páginas quase sem prestar atenção no que havia nelas, e estava prestes a deixar o caderno de lado quando um desenho chamou sua atenção. Era muito intenso; as feições do homem com detalhes perfeitos. Um dos lados do rosto era imaculado, enquanto a outra metade estava severamente desfigurada. Sua pele parecia ser feita de cera derretida, que escorria e pingava, criando uma figura grotesca. A palavra monstro estava escrita ao lado da figura; a caligrafia era furiosa e quase ilegível. Aquilo não teria sido tão horrível se Carmine não tivesse reconhecido aquele homem.

A casa estava em silêncio quando Carmine chegou, trazendo o caderno de Haven escondido debaixo do braço. Mentalmente exausto por causa do dia tumultuado, ele subiu a escada e hesitou no segundo andar quando viu a porta do escritório do pai aberta. Carmine caminhou até lá, parando na entrada com certa curiosidade. Vincent estava sentado à mesa com o telefone no ouvido, sem saber que não estava mais sozinho. Ele tamborilava impacientemente os dedos no braço da cadeira, bufando com frequência enquanto ouvia a pessoa no outro lado da linha.

Isso é inaceitável – disse ele, com uma expressão severa. – Eu entendo sua situação, mas você precisa entender a minha. Tenho uma família a considerar, e talvez você não se preocupe com ela, mas eu sim. É sobre minha vida que estamos falando, então não me menospreze! Não preciso de você para fazer disso algo que não é, e não gosto de ser enganado. Encontre outra solução. Outra pausa breve sobreveio, seguida por uma risada nervosa e penetrante de Vincent.

Muito bem, então não conte comigo. Pego de surpresa pela seriedade da conversa, Carmine mudou de posição, e o movimento chamou a atenção do pai. O pânico se instalou nos olhos de Vincent. Ele desligou de imediato, sem dar ao interlocutor a chance de responder, e olhou Carmine com cuidado, mas sem oferecer nenhuma explicação.

– –

Quem era? – Carmine perguntou.

O advogado. Carmine estreitou os olhos.


O que Montando seu esquema de suborno?

você

estava

fazendo?

Eu diria que estava apenas tentando resolver as coisas antes de colocarem a corda no meu

pescoço.

A situação está tão ruim assim? Eles podiam não ter passado muito tempo juntos ao longo dos anos, mas Carmine não gostava da ideia de perder o pai.

Sim, está bem ruim, filho – disse Vincent. – Nós costumávamos ser capazes de fazer as coisas da nossa maneira, mas nosso poder tem ainda menos influência que nosso dinheiro nos dias de hoje. Curioso sobre a amargura do pai, Carmine sentou-se sem esperar ser convidado.

Posso lhe perguntar uma coisa? Vincent reclinou-se para trás em sua poltrona.

– – –

Certamente. Você se arrepende de ter se envolvido?

Sim… e não. Cometi muitos erros, e destes eu me arrependo, mas fazer o juramento por sua mãe… Não… Não posso me arrepender disso. Eu desejaria não tê-lo feito, mas fiz. E faria de novo – Vincent fez uma pausa. – Você sabe, fiquei furioso quando descobri o que você havia feito, entretanto, por mais que odeie isso, eu entendo, filho. É genético, acho. Está impregnado em seu DNA. No fim, você teria se sacrificado por ela de alguma maneira, de algum modo. Afinal de contas, você é filho de sua mãe.

Aparentemente sou seu também. Vincent sorriu com simpatia.

– –

Por

que

perguntou?

Está arrependido?

De jeito nenhum – disse Carmine. –É só que, caramba… Eu sei que foi necessário, mas acho que fodi com tudo fazendo isso.

Eu também me senti assim – disse Vincent. – Comecei pensando em libertar sua mãe, mas tudo o que fiz foi arrastá-la de um mundo perigoso para outro. Ele era mais bonito e tinha outro nome, mas não era muito diferente. Sua mãe nunca teve a chance de viver uma vida em que ninguém a conhecesse… Em que ninguém soubesse o que ela havia sido. Ela nunca chegou a se reinventar. Carmine assentiu.


Era isso o que eu achava. Vincent tamborilou os dedos mais uma vez.

Não me interprete mal, não trocaria os anos que tive com sua mãe por nada, e sem dúvidas nunca desistiria de você. Você é a única coisa que fiz certo na vida. Mas nunca vou me perdoar por não ter dado uma chance a ela. Sei que ela me amava, e ter uma família a fazia feliz, mas acho que ela nunca percebeu que tinha outra opção. Eu fiz de tudo para dar a ela outras escolhas, mas, no final das contas, nunca lhe disse que ela as tinha. Não posso fazer mais nada agora, mas, depois de todos esses anos, eu ainda me pergunto: Como seriam as coisas se eu a tivesse deixado partir?

– –

A mamãe nunca o deixaria – disse Carmine.

Ela não conhecia nada melhor – retrucou Vincent. – E é isso o que realmente importa. Ela nunca precisou escolher ficar comigo.

É por isso que me sinto tão miserável– disse Carmine. – Eu imaginei que conseguiria isolar essas duas partes da minha vida, mantê-las separadas. Fazer o que tivesse que ser feito e, ao mesmo tempo, oferecer a ela tudo o que ela queria, mas já não sei se ainda é possível. Não sei o que devo fazer sobre isso e estou correndo contra o tempo, considerando que estão me esperando em Chicago depois do Natal.

Não estou surpreso – disse Vincent, abrindo uma gaveta e pegando uma chave dourada. Ele brincou com ela por um momento antes de empurrá-la sobre a mesa na direção de Carmine.

– – –

A chave da casa em Chicago. Carmine pegou-a com cuidado. Por que você está me dando essa chave?

Você vai precisar de um lugar para ficar, não vai? Ele queria argumentar, devolver aquela chave, mas não podia. Afinal, aquilo era a pura verdade. Ele não havia pensado no que faria quando chegasse lá.

– – –

Ah… Sim. Obrigado. De nada – ele respondeu. – Você vai ficar bem?

Sim, vou ficar bem. É com Haven que estou preocupado. Peguei este caderno dela hoje de manhã e, depois de folheá-lo, posso dizer que a cabeça dela está uma bagunça do caralho. – Ele virou as páginas ao acaso, balançando a cabeça ao chegar ao desenho intitulado monstro. Com um sorriso amargo, ele levantou o esboço para seu pai. – Olha só essa merda.


O tamborilar dos dedos de Vincent cessou instantaneamente; sua postura tornou-se rígida e seu rosto empalideceu. Os cabelos na nuca de Carmine eriçaram-se com a postura do pai. Vincent olhava para o caderno com atenção, como se estivesse memorizando o rosto mutilado.

Ela ficará bem – disse Vincent depois de um momento. – Ela não tem nada a temer em

relação a ele.

Talvez não, mas ela o chama de monstro, como se ele fosse a porra do Chupa-Cabra. Ela está apavorada, e esse é o tipo de pessoa com quem ela terá de conviver. Monstros.

Carlo é nosso amigo. Carmine zombou:

– –

Meu amigo ele não é.

Pelo contrário, filho… Ele é sim. Está na organização já faz tempo. Salvatore o iniciou logo após o falecimento de seu avô. Foi então que Carmine percebeu a razão de ter reconhecido o sujeito. Ele se lembrou exatamente de onde o tinha visto.

– – –

Nós temos que dizer ao Sal. Dizer o quê ?

Que um de seus homens é sujo – ele pigarreou. – Ele esteve envolvido no sequestro. Ele estava naquele armazém!

O que o faz pensar que ele estava lá? Carmine olhou para seu pai, incrédulo.

– –

Haven o viu. Ele tinha que estar lá. Não, não tinha – Vincent balançou a cabeça. – Ele nem mesmo estava em Chicago na

ocasião.

Sim, ele estava. Eu o vi! Eles estavam discutindo no escritório do Sal, mas, quando eu apareci, ele foi embora Vincent hesitou:

– –

Isso não significa que ele tenha feito isso ou aquilo. Então como diabos ela o desenhou com tanta perfeição?


Suspirando, Vincent virou a página do caderno e o segurou firme, detendo-se por um momento. A cor do rosto de Carmine sumiu quando ele viu outro desenho, tão detalhado quanto os demais, exceto que, em vez de um monstro, esse representava um anjo. A imagem de sua mãe o afetou profundamente, e ele sentiu um aperto no coração, quase perdendo o fôlego.

Da mesma maneira como desenhou Maura – disse Vincent, com calma –, de memória. Ela já me contou que teve alucinações no armazém, e Carlo tem um rosto que ninguém esqueceria, ainda mais se considerarmos que você se lembra dele, quando raramente repara em qualquer um, exceto em si mesmo. Não é exagero dizer que ela o tenha visto quando ainda era criança. Carmine revirou os olhos, não acreditando naquela explicação.

– – –

E se você estiver errado? Não estou – disse Vincent. Mas e se você estiver? – Carmine perguntou de novo. – E se ele esteve de fato envolvido

nisso tudo?

Ele não estaria. Sua lealdade a Sal é inabalável. Ele faria qualquer coisa pelo Chefe; nunca iria traí-lo. E Sal sente o mesmo por ele. Eu diria apenas que não faz o menor sentido. Você pode perguntar ao Corrado se não acredita em mim.

E você pode perguntar à Haven – disse Carmine, irritado com a falta de vontade do pai em considerar a ideia. Certamente não era novidade, mas isso o deixou com os nervos ainda mais à flor da pele. – Vou deixá-lo sozinho agora para que possa ligar de volta para a pessoa com quem realmente estava falando. Tenho minhas próprias merdas para resolver. Ele se levantou para sair e seu pai limpou a garganta.

Ascoltare il tuo cuore, Carmine. Ouça seu coração. Apenas lembre-se disso e tenho certeza de que fará a coisa certa, seja ela qual for. Como eu disse, você é filho de sua mãe. Se não fosse tão angustiante, Carmine poderia ter visto a ironia no que sua mãe sempre lhe dizia. Uma pessoa não pode escapar do seu destino, pois o que era para ser sempre será. Não importava o quanto Carmine tivesse tentado evitar a Máfia, no final ele acabou indo parar exatamente ali. Já o destino de Haven era a liberdade… Sua mãe havia se assegurado disso. Carmine saiu do escritório do pai e puxou o celular do bolso, percorreu seus contatos até encontrar o nome de sua amiga Dia. Ele discou o número, ouviu tocar e tocar, e soltou um profundo suspiro quando caiu na caixa postal:

Ligue para mim quando puder.


Capítulo 5

Feliz Natal! Haven se assustou com a voz inesperada e virou-se de maneira rápida, desviando o olhar da janela da cozinha. Celia estava parada de pé na entrada, sorrindo calorosamente; seus olhos brilhavam cheios de entusiasmo, mesmo com o sol preguiçoso ainda por se levantar lá fora.

Ah… Feliz Natal – disse Haven. –Bom dia. Celia se dirigiu à despensa a fim de apanhar os ingredientes necessários para preparar a ceia de Natal. Ela trajava um vestido cinza de mangas compridas e um par de sapatos de salto alto que combinavam com perfeição; seus cabelos escuros e brilhantes caíam em cascata sobre as costas. Ela havia acabado de se maquiar. Sua imagem era o oposto daquela que Haven havia guardado na memória, quando estivera em Chicago apenas um mês antes. Seu brilho estava de volta; compaixão e amor irradiavam dela como a luz quente do sol. A saudade apertou no peito de Haven. Aquela visão a fez lembrar-se de sua mãe. Como ela sentia falta dela, especialmente em dias como aquele, quando precisava de alguém com quem conversar, alguém que a conhecesse de fato e que saberia o que dizer.

– –

Não é muito cedo para você estar acordada? – perguntou Celia.

Acho que sim – Haven voltou-se para a janela. A escuridão diminuía gradualmente a cada segundo que passava, tornando o carro de Carmine mais visível na frente da casa. – Eu não conseguia dormir. Havia muita coisa na minha cabeça na noite passada.

– –

Como o quê?

Como tudo. Celia riu.

Bem, isso com certeza foi bastante esclarecedor. Haven conseguiu esboçar um sorriso ao sentir o bom humor contagiante de Celia.

É só que Carmine voltou muito tarde na noite passada. Ele esteve fora o dia todo, me disse que tinha compras para fazer, mas não trouxe nenhuma sacola para casa.

Ah, compras – Celia suspirou com conhecimento de causa. – Corrado usava essa mesma artimanha. É claro que ele tinha experiência suficiente para parar numa loja e comprar alguma coisa antes


de voltar para casa. Ele às vezes trazia algumas flores para me agradar. Eu meio que sinto falta daqueles dias, acredite ou não. Agora ele não se incomoda mais.

Com as flores? Celia riu de novo.

Não, minha criança, em inventar desculpas… Mas receber flores de novo seria bom. Já faz bastante tempo. Haven brincou com a bainha de sua camisa, remoendo as palavras de Celia.

– –

Então, você não se incomoda em ser enganada?

No começo, eu me incomodava sim. Ficava muito zangada, achando que era um sinal de que ele não confiava em mim. Eu lhe disse que queria ter um tipo de relacionamento em que nós contássemos tudo um ao outro.

– –

O que mudou?

Um dia ele me disse tudo. E nunca mais lhe perguntei nada. – Ela fechou os olhos e se concentrou, acenando negativamente a cabeça. – Acho que é mais fácil para eles não trazer trabalho para casa. Isso os ajuda a lembrar que existe um santuário, um lugar para onde possam ir e não ter de agir como mafiosi por um tempo. Nunca vou conseguir me esquecer das coisas que ele me disse naquele dia, tampouco do olhar em seu rosto enquanto falava, por mais que eu queira. Não gosto de saber que meu marido sai matando por aí, e mesmo que eu seja egoísta e prefira isso a vê-lo morto, aprendi, naquele dia, que também não quero ouvir sobre isso. Haven não sabia ao certo o que dizer.

Eu não posso sequer pensar em Carmine agindo dessa maneira. Ele não é assim. Esse não é o garoto que eu conheço. Ele não… ele não mata.

Você está certa – disse ela. – Vincent tampouco, acredite ou não. Maura temia que o homem que ela amava fosse desaparecer. Mas eu lhe digo que, se existir uma boa razão para ficarem, eles não desaparecerão. Lá no fundo, Carmine será sempre a mesma pessoa. Ele verá coisas que desejará poder esquecer, se sentirá extremamente culpado por coisas que não poderá controlar, mas, afinal, nós não fazemos o mesmo? Seu amor por ele ainda irá salvá-lo no final do dia. Haven franziu a testa.

– –

Parece que nada mais é como antes.

Isso é porque você está com medo –disse Celia, envolvendo os braços ao redor de Haven num abraço. Ela acariciou os cabelos de Haven assim como sua mãe costumava fazer quando era mais jovem. A dor em seu peito se intensificou. – Nenhum de vocês parece perceber que o medo pode ser uma coisa boa. Ele é saudável e nos mantém seguros, nos adverte do perigo. Quando você para de temer as


coisas, você para de lutar. Perde a motivação, perde a perspectiva. Você nunca vai querer que isso aconteça, não é? Alguém pigarreou atrás delas. Celia soltou Haven e se virou para olhar. Corrado encostou-se no batente da porta com os braços cruzados sobre o peito.

Estou interrompendo? Haven abaixou a cabeça. Ela não o via desde que os dois chegaram. Ele permaneceu no andar de cima, isolado da família.

– – – –

Não, senhor. Claro que está – disse Celia. – Estamos tendo uma conversa de meninas. É, eu ouvi – disse ele. – Pensei que tivéssemos concordado que você ficaria fora disso.

E eu pensei que você me conhecesse melhor do que isso – Celia respondeu. – Você não pode ser tão estúpido, Corrado. Haven ficou boquiaberta com Celia, impressionada por alguém se dirigir a Corrado daquela maneira.

Perdoe-me por esperar que você fosse ouvir a voz do bom senso, pelo menos uma vez – ele respondeu. – Você está se intrometendo nos assuntos de outras pessoas.

Isso só machuca as pessoas – disse ela, interrompendo-o. – Eu sei. Ouvi você dizer isso um milhão de vezes, mas eles são apenas crianças, pelo amor de Deus.

Eles são adultos – disse Corrado. –O que eles escolherem fazer de sua vida privada não é da nossa conta. Celia riu secamente.

– –

Não é da nossa conta? Você se esqueceu de que responde por ela?

Isso não significa que eu seja o dono dela! – disse Corrado, olhando de maneira rápida para Haven, o que causou um arrepio na espinha da jovem. Ela nunca tinha o visto levantar a voz antes. Celia estreitou os olhos.

– – –

Não, mas é seu dever ajudá-la. Eu sei quais são minhas obrigações –ele respondeu com frieza. – Vou tomar conta dela.

Assim como fez com Maura? – Celia ergueu as sobrancelhas. – Você me disse para ficar de fora, para cuidar de minha própria vida. Muita coisa boa aconteceu então, não é mesmo?


– –

Maura não era responsabilidade minha. Era de Vincent.

Você está certo – respondeu Celia –,mas Haven é sua responsabilidade. Corrado ficou em silêncio e olhou para a esposa sem demonstrar qualquer emoção. Celia devolveu o olhar de maneira firme. A tensão na sala aumentava a cada segundo. Desconfortável, Haven se mostrou inquieta; estava zonza e sentia o sangue correr com furor por suas veias.

Eu, uh… Talvez eu não devesse estar aqui – ela sussurrou, movendo-se em direção à porta. Caminhou em direção ao hall, até que a voz firme de Corrado a interrompeu:

Espere. Ela se virou e viu Corrado adentrar o hall, olhando para ela e acenando com a mão antes de se dirigir para a sala de estar. Ela o observou por um segundo, sem saber o que fazer, então o seguiu, vagarosa. O sol já começava a espreitar sobre as árvores lá fora, mas a sala permanecia estranhamente escura. Haven estava tão quieta que mais parecia um cadáver ao se sentar no sofá e olhar para as unhas quebradiças, evitando, com cautela, o poderoso olhar de Corrado.

Você sabe o que significa responder por alguém, Haven? – ele perguntou, quebrando o silêncio tenso que, como uma nuvem espessa e tóxica, envolvia a sala. Sem olhar para ele, Haven assentiu com a cabeça.

Carmine me disse que significava que se alguma vez eu contasse a alguém sobre o meu passado, de onde eu vim, você ficaria em apuros, mas juro que nunca farei isso. Ele ergueu a mão para silenciá-la antes que ela pudesse começar a argumentar sobre seu caso.

É mais do que isso. Não se trata apenas do que você diz e para quem diz… É o que você faz, também. Pessoas como eu… respondem pelos outros todos os dias. Associados, amigos, família. Nós juramos que elas são pessoas boas, que nunca irão nos trazer qualquer problema. Juramos que são dignas de confiança. Se estivermos errados, significa que mentimos. Significa que elas não nos beneficiam ao estarem lá fora, no mundo, por estarem vivas, e, francamente, talvez nós não devêssemos estar também. Sua vida pode ser apenas sua agora, mas essa dúvida não pode persistir em minha cabeça. Sendo assim, existem algumas limitações por causa das circunstâncias. Haven se retesou.

– – –

Limitações? Sim, limitações – disse Corrado. – É melhor do que a alternativa. E qual seria a alternativa?


Ficar com Salvatore – disse ele. – Ou a morte. Eu não saberia dizer qual você acharia pior, mas nenhuma seria agradável. Então, nos concentremos nas limitações. Além disso, todos as têm. A maioria das pessoas é governada por leis mesquinhas, como: usar o cinto de segurança, não pegar o que não é seu. Os católicos seguem os Mandamentos: Não cobiçarás a mulher do próximo, ou não tomarás o nome do Senhor em vão. As freiras comprometem-se com o celibato, os advogados e os padres invocam o sigilo, e nós, Haven, fazemos um voto de silêncio e lealdade. Todos vivemos no mesmo inferno, apenas os demônios são diferentes. Fazendo uma pausa, Corrado mexeu em seu anel de casamento. Haven não tinha certeza do que deveria dizer, por isso permaneceu calada. Ele continuou depois de um momento:

Nosso demônio não nos dá o benefício da dúvida. Ele atira primeiro e pergunta depois, ponto final. Um olhar, um movimento errado, e você é culpado. Eles irão puni-lo antes mesmo que você saiba do que foi acusado. Nosso demônio não mostra piedade. Ele não pode. Você entende? Ela assentiu.

– –

Sim, senhor.

Se você quiser se manter segura, fique longe do centro das atenções – disse ele. – Cuide de sua vida, fique calada e nunca se associe à polícia. Se um policial alguma vez tentar interroga-la, peça para falar com seu advogado e me chame. Não importa o que seja. E nunca convide um a entrar em sua casa. Nunca. A cor sumiu do rosto da jovem de imediato, e um calafrio percorreu seu corpo quando ela se lembrou do oficial Baranski.

– –

Eu, hum… Eu não sabia…– Não sabia do quê?

Um oficial nos visitou para perguntar sobre Nicholas. Eu não sabia que não deveria falar com ele. O doutor DeMarco me disse para responder às perguntas para que ele fosse embora. Corrado a encarou.

Vincent lhe disse para falar com a polícia? Ela assentiu, hesitante.

Ele o convidou para entrar. A fisionomia de Corrado se alterou. Ele franziu a testa brevemente antes de se recompor.

– –

Quando foi isso?

Dois dias atrás – ela disse. – Você estava recolhido. Foi logo depois que vocês chegaram. A sala permaneceu em silêncio por alguns minutos. Haven não fez nada, apavorada com a possível reação dele. Ele só olhava para a frente, imóvel, e se não fosse pelo fato de piscar os olhos, ela poderia até se perguntar se ele ainda estava vivo.


– –

Você não sabia de nada – ele disse enfim. – Ninguém lhe explicou isso, mas agora você sabe.

Sim, senhor. Corrado levantou-se sem dizer uma palavra e começou a se afastar. Caminhou até a porta antes de seus passos vacilarem. Ele permaneceu ali por um momento enquanto a sorridente Celia se aproximou com orgulho do hall. Ela estava claramente escutando atrás da porta.

Fique fora disso – ele a alertou de novo. – Não quero que você se intrometa mais.

A manhã de Natal passou indistinta. Carmine parecia distraído, distante; seus olhos observavam a todos como se estivesse esperando que algo acontecesse. Em vez de estar na casa com a família, o jovem estava recolhido em algum lugar de seus pensamentos. Ocasionalmente, Haven o via lançando olhares furiosos para os lados e, quando se afastava, ouvia apenas sussurros inflamados. Confusa, ela perguntou algumas vezes o que estava acontecendo, mas ele apenas sorriu e pediu a ela que não se preocupasse. Não se preocupe. Ela tinha ouvido isso tantas vezes na última semana que a frase por si só já começava a preocupá-la. Eles assistiram às filmagens das férias e trocaram presentes à noite. Haven ganhou alguns livros e materiais de arte, roupas e um novo par de tênis Nike, rosa e branco. As festividades foram silenciosas e, de certo modo, quase sombrias. Algo compartilhava o ambiente com eles, infectando o ar que todos respiravam. Ela não chamaria isso de aflição, mas sem dúvida era quase – culpa misturada com tristeza, perturbação e ressentimento. Quando a ceia ficou pronta, todos se sentaram à mesa da sala de jantar. Carmine puxou a cadeira ao lado dele para Haven enquanto Celia e Corrado sentaram-se de frente para os dois. Doutor DeMarco pigarreou e Carmine logo agarrou a mão direita de Haven, enquanto Corrado estendeu sua mão sobre a mesa e a ofereceu para segurar a dela. A jovem empalideceu diante da situação e ficou parada estudando a mão estendida. À exceção de uma grande cicatriz irregular em diagonal na palma da mão, quase camuflada pelos vincos e linhas naturais, ela parecia incólume. As unhas estavam bem cuidadas, e a pele era lisa, sem um único corte ou calo. Ela não tinha certeza do que esperava ver, mas aquilo a surpreendeu – suas mãos pareciam limpas demais para um homem que costumava tê-las encharcadas de sangue. Tomando cuidado para não causar uma cena, Haven assentiu com a cabeça.

Senhor, obrigado pelas bênçãos sobre a mesa nesta noite, e por todas as pessoas que se reuniram em torno dela – disse doutor DeMarco. – Nós pedimos que nos ajude a permanecer atentos às necessidades uns dos outros e também que continue a abençoar-nos com amor e perdão, felicidade e paz e, acima de tudo, pedimos que ajude os inocentes entre nós a encontrarem a liberdade que eles tanto merecem. Em nome de Jesus, amém.


Amém – todos murmuraram, soltando as mãos e erguendo as cabeças. Haven olhou para doutor DeMarco com curiosidade, surpresa com as palavras dele, e ele sorriu suavemente quando seus olhos se cruzaram.

Dai nemici mi guardo io dagli amici mi guardi iddio – Corrado murmurou baixinho enquanto pegava o garfo. Carmine riu amargamente. Dos inimigos eu me protejo sozinho; dos amigos, que Deus me proteja.

Amém para isso também. Todos começaram a comer, mas Haven apenas empurrava a comida de um lado para o outro em seu prato. Mais uma vez, o pesado silêncio dominava a sala. Todos se entreolhavam com cautela e de maneira disfarçada. Era como se compartilhassem um segredo comum, algo sobre o que Haven, sem dúvidas, não estava ciente. Ela se remexia de maneira nervosa enquanto ouvia os garfos tilintando nos pratos; seu apetite se dissipava conforme seu estômago revirava de ansiedade. Haven estava tão desconfortável com o silêncio que, por um instante, considerou sair da mesa. Mas antes que pudesse agir, Dominic pigarreou. O som pareceu amplificado, ecoando nas paredes estéreis.

É difícil acreditar que já se passaram dez anos. Carmine ficou imóvel, o garfo parado no ar. Percebendo que Dominic estava se referindo à morte de sua mãe, Haven olhou em volta com cautela, esperando a explosão de raiva iminente. O doutor DeMarco baixou a cabeça, seus olhos vagaram pela mesa enquanto colocava o garfo no prato.

– –

Parece que foi ontem que a perdemos.

Nós não a perdemos – replicou Carmine, uma ponta de raiva entremeando suas palavras. – Isso faz parecer que fomos negligentes. Não é nossa culpa que aquela merda tenha acontecido. Ela foi tirada de nós… De todos nós.

Você está certo – admitiu doutor DeMarco. – Ela foi arrancada de nós de uma forma injusta. A atmosfera de repente se tornou mais leve depois que ele disse aquelas palavras; era como se aquela frase tão simples tivesse retirado um enorme peso de seus ombros. Todos passaram a conversar de modo casual, rindo enquanto compartilhavam histórias do passado. Eles falaram sobre Maura e, em vez de se fechar, doutor DeMarco resolveu participar da conversa.

Ela adorava o Natal – disse ele, sorrindo. – Ela dava tantos presentes aos garotos que era quase impossível arrumá-los embaixo da árvore.

Eu me lembro disso – disse Dominic.– Ela mimou demais o merdinha do Carmine. Revirando os olhos, Carmine pegou uma ervilha com o garfo e atirou-a por cima da mesa na direção do irmão.


– –

Você foi tão mimado quanto eu, porra.

Ah, vocês foram – confirmou doutor DeMarco. – Vocês ganhavam o que queriam, e não apenas no Natal.

Eu nunca tive a bicicleta que queria –disse Dominic. – Lembra-se disso? Era aquela pequena Mongoose camuflada com um chifre enorme na frente e o cesto de madeira. Eu cansei de implorar por ela. DeMarco suspirou.

– – –

Você a teve. Não, não a tive.

Sim, você a teve – disse ele em voz baixa. – Você apenas não ficou sabendo disso. Ela foi entregue em casa logo depois… logo depois que Maura faleceu. Ela a comprou para você, porque Carmine já havia recebido o piano. Ela queria ser justa. Um silêncio solene dominou a sala até Dominic falar outra vez.

Você ainda a tem? DeMarco balançou a cabeça.

– –

Eu me livrei dela.

Droga – disse Dominic. – Eu ainda a usaria, sabia? Um sorriso escapou dos lábios de DeMarco.

Tenho certeza de que sim, filho. Eles passaram a falar sobre as viagens que tinham feito juntos, as coisas que a mãe lhes havia ensinado e os livros que tinham lido, cada memória acompanhada de sorrisos em vez de lágrimas. Foi emocionante testemunhar o amor por Maura, ainda tão forte, embora ela tivesse partido há mais de uma década. Após o jantar, Haven se ofereceu para ajudar Celia com os pratos. As duas trabalharam em silêncio. A atenção de Celia parecia estar em outro lugar, como se ela estivesse em transe. Elas estavam terminando, quando Celia deixou escapar um suspiro de resignação, pegando um prato das mãos de Haven.

– –

Eu termino aqui. Vá e aproveite o resto do seu Natal.

Está bem – ela murmurou, secando as mãos antes de se dirigir em silêncio para a sala de estar. Estava no meio do caminho quando ouviu a voz ruidosa de Dominic; as palavras dele a pegaram desprevenida.


Você está cometendo um erro, Carmine – disse ele. – Não há como levar isso a sério. Você não está pensando de maneira clara.

Deixe-o em paz – disse DeMarco. –Você não pode compreender a situação, a menos que esteja ciente do que está acontecendo.

Você está errado – disse Dominic. –Eu entendo, e ele vai se arrepender! Não é tarde demais para mudar de ideia. Pelo amor que tem por todos nós, por favor, mude de ideia. Eu estou lhe implorando, irmão.

É tarde demais – disse Carmine. – Eu entendo que não concorda, mas você não precisa. Sou o único que tem que viver com isso.

E você acha que consegue? – perguntou Dominic, incrédulo. – Falando sério, você acha mesmo que conseguirá viver com isso?

– –

Eu preciso.

Não, você não precisa – disse Dominic, a paixão em sua voz era impressionante. – Não posso acreditar que alguém realmente ache que isso seja uma boa ideia! Haven deu os últimos passos que faltavam na direção deles, parando na entrada da sala de estar. Dominic andava de um lado ao outro, frenético, enquanto Carmine permanecia imóvel, segurando os cabelos, numa demonstração de aborrecimento. Vincent e Corrado apenas observavam os meninos. O ambiente estava tão tenso que ela podia sentir o ar cortante em sua pele.

– –

Ele é meu filho – disse DeMarco. –Vou apoiá-lo da melhor maneira que puder.

Isso é besteira! – Dominic replicou. A força de suas palavras assustou Haven, e ela se encolheu. Todos se voltaram na direção dela; quatro pares de olhos agora a perfuravam.

– –

Está tudo bem? – perguntou hesitante.

Está tudo bem – disse DeMarco. – Tivemos apenas um pequeno desentendimento, mas este não é o lugar nem a hora para isso. Ela olhou ao seu redor. A apreensão tomou conta dela ao captar a expressão dos quatro. Apesar do que ele havia dito, algo com certeza estava errado. Ela se virou para Carmine, erguendo as sobrancelhas, esperando que ele oferecesse algum tipo de explicação real, mas ele apenas acenou negativamente a cabeça.

Não se preocupe com isso. Não se preocupe com isso.


– –

Acho que vou me deitar – disse ela, dando um passo para trás.

Eu vou com você – disse Carmine, olhando zangado para Dominic enquanto se afastava. Sem dizer uma palavra, ele pegou a mão dela e a puxou em direção à escada enquanto ela se despedia de todos.

Eles estão furiosos com o que você fez em Chicago? – ela pressionou quando chegaram

ao quarto.

É, mais ou menos – ele murmurou. –Olha, eu não quero falar sobre isso agora. Prefiro apenas… ser. Só mais um pouco.

Tudo bem – disse ela, tentando deixar para trás a sensação de mal-estar no estômago. Ele se atirou na cama e ela seguiu seu exemplo, deitando-se ao lado dele.

La mia bella ragazza – ele murmurou, puxando-a em seus braços. Ela deitou a cabeça para o lado; ele se inclinou e beijou seu pescoço, sussurrando contra sua pele. – Eu esperava que hoje o dia fosse perfeito.

Nós passamos o dia juntos – ela sussurrou. – Isso fez com que ele fosse perfeito para mim

.

Capítulo 6 Haven não tinha a intenção de cair no sono, mas seu cansaço era mais profundo do que previra. Emocionalmente esgotada, ela adormeceu em questão de minutos. Despertando no meio da noite, seu braço caiu sobre o outro lado do colchão. Ela procurou por Carmine na escuridão, suspirando quando percebeu que estava sozinha. Haven saltou da cama e caminhou em silêncio até a porta, enquanto escutava o som suave de “Serenata ao luar”. Ela franziu as sobrancelhas de maneira involuntária quando percebeu as notas desconexas na melodia já familiar. Carmine estava sentado em sua cadeira habitual na biblioteca, dedilhando casualmente seu violão. Na escuridão, um facho de luz que adentrava pela grande janela iluminava sua expressão sombria. Ela chamou por seu nome, mas ele permaneceu imóvel, apenas dedilhando as cordas como se nem a tivesse ouvido. Ela deu um passo em sua direção e estava prestes a chamá-lo de novo quando ele soltou um longo e profundo suspiro.

Eu tive um sonho.


Outro pesadelo? – ela perguntou, caminhando até ele. Ele parou de tocar e olhou para ela enquanto relaxava os dedos, mas Haven nem notou o silêncio. Ela não conseguia se concentrar em nada, exceto naqueles olhos verdes que pareciam perfurar seu corpo. Outrora vivos de paixão, agora ela não via nada dentro deles, exceto uma profunda tristeza que roubava todo o seu brilho. Carmine deixou o violão de lado e se ajeitou na poltrona para abrir espaço, fazendo sinal para que ela se juntasse a ele. Ela se sentou em seu colo e ele passou os braços em volta dela.

– – –

Dessa vez não foi um pesadelo – disse ele. – Foi um sonho bom. Sobre o quê?

Você – disse ele, com calma. – Você fez uma pintura, alguma merda abstrata, sei lá, mas era tão boa que eles a expuseram num museu e todos a elogiaram pelo seu talento. Era como se você fosse a porra do Picasso, tesoro. Ela riu.

– – – –

Eu nem sei como pintar, Carmine. Você poderia aprender – disse ele. –Você gostaria? Talvez, mas não sei se seria boa nisso.

Oh, você seria muito boa – disse ele, confiante. – Você não deve duvidar de si mesma. Pode fazer qualquer coisa que imaginar.

Exceto tocar piano – disse ela, brincando. – Nem violão.

Ele riu.

Sim, pelo amor que temos aos ouvidos de todos é melhor você deixar a música para mim, mas o resto do mundo é todo seu. Provavelmente você será capaz de fazer tudo isso. Você sabe, desenhar, pintar, esculpir formas estranhas. E depois dizer às pessoas que é isso ou aquilo, embora não se pareça com nada. Isso exige talento. Ela sorriu.

– – –

E você acha que eu tenho esse tipo de talento? É claro – disse ele. – Nada irá impedi-la de ter sucesso uma vez que começar.

Obrigada – ela sussurrou, uma onda de emoção surgindo por causa das palavras dele. – Significa muito que você acredite em mim.


Eu seria um idiota se não acreditasse– disse ele, beijando sua testa. – Sabe, nós nunca terminamos nossa conversa do outro dia.

– –

Qual delas?

Aquela sobre sua liberdade. Haven suspirou, aconchegando-se mais perto dele.

– –

O que mais há para dizer? Eu quero ouvir o que isso significa para você de verdade.

Eles passaram a próxima hora sentados na frente da janela da biblioteca escura, examinando a mente um do outro. Não falaram sobre a tortura que sofreram ou a dor que ainda sentiam. Em vez disso, se concentraram nas coisas que os faziam felizes. Ele perguntou sobre seus desejos mais profundos, querendo saber que tipo de coisas ela faria se acordasse no dia seguinte com um passado limpo. O que ela faria, se algum dia, pudesse começar de novo, do zero? Ela falou sobre ter amigos e família; uma casa cheia de livros e meia dúzia de animais de estimação. O sonho americano completo: filhos, no mínimo dois, quem sabe uns cinco; uma cerca branca recém pintada; churrascos nos fins de semana com os vizinhos e férias de verão na Disneylândia. Parecia que todo o resto havia desaparecido naquele momento. A realidade de sua situação fora deixada de lado enquanto ambos consideravam um futuro alternativo; aquele que Haven sempre desejara, mas jamais acreditara ser possível. Um futuro longe de tudo. Um futuro sem limitações. Liberdade.

Eu só quero que as pessoas me vejam– disse ela. – Quero que, ao entrar numa sala, todos saibam que estou lá. O lugar não importa, na verdade. Apenas não quero mais ser invisível. Carmine acariciou seu rosto quente com as costas da mão. Ela murmurou, satisfeita, inclinando-se na direção do toque.

– – – –

Eu vejo você, beija-flor – ele sussurrou, com brilho nos olhos. Eu sei. Quer saber o que mais eu vejo? O quê?


Ele acenou a cabeça em direção à janela.

Neve. Haven deu uma espiada, identificando os abundantes flocos brancos que despencavam do céu. Antes que ela pudesse comentar, Carmine levantou-se rapidamente e a colocou de pé.

Venha. Ela riu quando ele a puxou para o quarto.

– – –

O que estamos fazendo? Nós vamos lá fora.

Agora? – ela perguntou, incrédula, olhando para o relógio enquanto ele soltava a mão dela. Os números vermelhos brilhavam na escuridão: era uma da manhã. Ele empurrou a janela do quarto para abri-la. Ela gemeu, mas não ofereceu muita resistência. Uma lufada de ar frio invadiu o quarto, agitando as cortinas grossas e fazendo Haven tremer. Ela logo se envolveu com os próprios braços; o arco de suas sobrancelhas exibia dúvida.

– –

O doutor DeMarco não fixou a janela de novo?

Sim, mas ele fez um trabalho de merda – Carmine respondeu. – Foi fácil reabri-la. Haven queria perguntar quando ele havia feito aquilo, ou até mesmo por que se incomodara, mas ela não teve a menor chance de questioná-lo. Carmine logo calçou os sapatos e se preparou para sair. – Vamos lá – disse ele de novo, atirando um casaco para ela. Ele já estava com meio corpo para fora da janela antes mesmo que ela pudesse pensar em se opor. Haven se agasalhou rapidamente antes de se juntar a ele na longa sacada que rodeava a casa. Era a terceira vez que ela pisava ali, mas essa aventura seria mais difícil que as outras. Uma fina camada de gelo cobria tudo, fazendo Haven escorregar um pouco enquanto caminhava ao longo do trajeto estreito de madeira em direção à enorme árvore estéril no canto da casa. Há muito tempo ela estava desfolhada, desde a chegada do inverno, mas seus galhos grossos ainda se mantinham tão resistentes quanto antes.

Isso é mesmo necessário? – Haven perguntou quando começou a subir na árvore. – Não poderíamos ter saído pela porta?

Poderíamos – disse Carmine, pulando para o chão –, mas onde estaria a diversão? Haven conseguiu transpor os primeiros obstáculos com facilidade, mas seu pé escorregou quando já se aproximava da parte inferior do tronco. De repente ela perdeu o equilíbrio e soltou o galho. Percebendo que ia direto para o chão, ela deu um grito e fechou os olhos, preparando-se para o doloroso impacto, porém Carmine foi mais rápido e se posicionou para segurá-la. Ele até que tentou agarrá-la de maneira graciosa, mas o golpe acabou derrubando ambos no chão. Carmine gemeu quando o ar foi violentamente forçado para fora de seus pulmões. Haven afastouse dele, rolando para o lado. A terra congelada parecia concreto sob as costas dos dois.


– –

É, com certeza isso foi… bem… divertido.

É, não imaginei que essa merda fosse acontecer – disse Carmine, já se levantando. Ele limpou as roupas antes de pegar a mão de Haven e colocá-la de pé. – Pois é, talvez tivesse sido melhor se tivéssemos usado a maldita porta. O ar frio da noite fazia parecer que alfinetes e agulhas penetravam no rosto corado de Haven, mas, independentemente do que acontecia ao seu redor, ela sorria. Os flocos estavam começando a se acomodar na terra, pontilhando a grama sem vida com pequenas manchas brancas. Nuvens pesadas cobriam o céu, bloqueando a visão das estrelas, mas a lua vibrante continuava a brilhar. Não havia nenhum animal por ali àquela hora, muito menos os belos vaga-lumes que costumavam piscar durante as noites de verão; nenhum sinal de vida, exceto por eles dois. Era como se eles estivessem sozinhos no mundo e, por mais aterrorizante que isso parecesse para Haven – o pensamento de que nada mais existia –, ela se sentia segura sabendo que, pelo menos, ele ainda estava ali. Ela deu alguns passos no jardim olhando para o céu enquanto a neve caía sobre seu corpo. A umidade atingia sua pele; o frio penetrava por suas roupas. Um arrepio percorreu seu corpo quando ela fechou os olhos e abriu a boca, capturando alguns flocos com a língua. Apesar do frio intenso, uma sensação de calor espalhou-se por seu corpo. Então Haven abriu os olhos e procurou por Carmine. Ela o encontrou parado, olhando para ela, com alguns flocos presos nos cachos grossos e escuros do rapaz. Ela estendeu a mão e deslizou os dedos pelos cabelos dele, para limpá-los.

– – –

Você é linda, tesoro – disse ele em voz baixa. Seu rosto ficou ainda mais vermelho com as palavras dele. Você é um amor.

Fuja comigo – continuou ele, inclinando-se para beijar suavemente seus lábios. – Nós dois podemos desaparecer antes de o sol nascer. Pressionando a mão contra o peito dele, ela se afastou um pouco, sorrindo.

Nós não podemos fugir, Carmine. Ele suspirou.

– –

É, eu sei, mas não deixa de ser um bom sonho, não é?

Não sei o quanto esse sonho seria bom – respondeu ela. – Como nos sentiríamos seguros se tivéssemos de olhar sempre por cima dos ombros? Eu não quero mais fugir. Não quero fugir de mais nada. Estou cansada disso. Quero poder deixar os problemas para lá. Quero apenas poder passear em algum lugar com você, de mãos dadas. Nada mais importa para mim. Quero chegar às encruzilhadas e poder escolher o caminho a seguir, sem ter que me preocupar com o que irá acontecer se ele nos levar a algum lugar onde alguém não queira que estejamos. Esse é um sonho bom.


Sim, você está certa – disse ele, ainda olhando para ela. – Além de bonita, é inteligente. Ela abaixou a cabeça de um jeito tímido, olhando para o chão enquanto a vermelhidão só aumentava. Começou a chutar um pequeno monte que se formara pela neve, tentando cavar a terra congelada com a ponta do pé.

Será que neva muito em Chicago? Carmine ficou em silêncio por um momento. Ela se voltou à sua direção e percebeu que ele já não a observava; olhava para longe, parecendo confuso.

Muito – disse ele, enfim. – Gosto de neve e tudo mais, mas lá tem fortes nevascas. Não estou muito ansioso para enfrentar isso.

Ah, mas pense em todos os bonecos de neve que poderemos construir, nas guerras que faremos no jardim. Seus lábios se curvaram em um sorriso, mas ela podia ver a tristeza de volta nos olhos dele. Ela se sentia culpada por ter mencionado Chicago, afinal, não queria estragar o humor do namorado. Já não restavam a eles muitos momentos tranquilos.

– –

Também neva em Nova York – disse ele. – Tanto quanto em Chicago.

Aposto que o Central Park é bonito quando está todo branco – disse ela. – Na verdade, aposto que é bonito o ano todo. Eu adoraria vê-lo um dia.

E você vai – disse ele, voltando - separa ela. Logo seu sorriso desapareceu. – Você parece estar congelando. Seus dedos já estavam dormentes, as pontas das orelhas ardiam, mas ela apenas deu de ombros, não querendo que aquele momento acabasse ainda. Carmine puxou-a em seus braços, aquecendo-a de imediato com o calor de seu corpo. Aconchegada em seu peito, ela colocou os braços ao redor dele enquanto abraçava-o com força. Ele inclinou a cabeça sobre a dela e começou a cantarolar enquanto a neve caía sobre os dois. A melodia era doce e um tanto familiar. Levou um minuto para que Haven se lembrasse dela.

“Blue October” – ela sussurrou, recordando-se da música que tocara quando fizeram amor no dia dos namorados.

– –

Você se lembra – ele disse.

Como não me lembraria? – ela sussurrou enquanto ele continuava a cantarolar. Então a melodia se transformou lentamente em palavras, e ele começou a cantar a música. Um arrepio percorreu a espinha do rapaz; seu coração doía à medida que pronunciava as palavras.


Uma sensação estranha surgiu na boca do estômago de Haven. Era uma mistura de saudade, desespero e medo. O medo é saudável, ela tentou se lembrar, mas aquilo não parecia fazer sentido naquele momento. Era paralisante, como se as muralhas da fortaleza que ela havia construído e que a mantinham segura estivessem prestes a ruir.

Você está bem? – ele perguntou, afastando-se e sentindo o corpo dela estremecer. Haven acenou com a cabeça. No entanto, seus olhos encheram-se de lágrimas e ela logo tentou evitar o olhar do jovem. Mais uma vez estava apavorada pela possibilidade de algum dia ver aquela expressão nos olhos dele: arrependimento.

Você quer entrar? – ele perguntou quando percebeu que ela não dizia nada. Ela acenou de novo e, em vez de se arriscar na árvore, agarrou a mão dela e a direcionou para a porta dos fundos. Digitou o código de segurança, destravou a porta e a levou para dentro. Haven despiu o casaco assim que conseguiu subir a escada e chegar ao quarto, então tirou os sapatos ainda do lado de fora. Suas calças e sua camisa estavam úmidas e ela as atirou numa pilha no chão. Então, voltou-se para Carmine, observando-o enquanto ele tirava o casaco e o pendurava com cuidado no encosto da cadeira.

Carmine – ela disse, com a voz trêmula. Ele virou a cabeça e ficou paralisado ao vê-la ali de pé apenas com as roupas de baixo. Quase por instinto, seus olhos esquadrinharam o corpo da jovem. Em seguida ele ergueu a cabeça e os olhos de ambos se cruzaram. Uma onda de arrepios percorreu a pele de Haven, com a mesma intensidade dos olhos verdes e brilhantes que a encaravam. Carmine a fitou com curiosidade; ela sabia que a tristeza ainda estava lá, mas, acima de qualquer coisa, ela podia enxergar o amor que ele sentia por ela. Graças a Deus, disse em silêncio, aliviada.

Faça amor comigo, Carmine. Sua voz era um sussurro abafado; as palavras estavam presas na garganta. Ela precisava dele naquele momento. Não tinha certeza do motivo, mas podia sentir do fundo de seu coração até o interior de seus ossos. Ela não queria apenas ver seu amor; queria senti-lo. Fazia meses desde que ambos haviam compartilhado momentos de intimidade; desde antes de toda aquela devastação se apossar de suas vidas. Agora ela precisava desesperadamente ser mais uma vez consumida por Carmine DeMarco. Ele parecia atordoado enquanto a olhava, mas a expressão agonizante em seu rosto logo se dissipou. Deu alguns passos lentos em direção a ela, sem dizer nada. Nenhuma palavra era necessária. Ambos sabiam que iriam ceder àquela necessidade, que eram incapazes de resistir à atração que surgira desde a primeira vez que se tocaram. Ele parou de frente para ela. Suas mãos acariciavam os braços da jovem enquanto ele se inclinava com delicadeza para beijá-la. Logo alcançou o fecho do sutiã e o abriu, puxando-o devagar e deixando-o cair no chão. Um gemido escapou da garganta de Haven no momento em que ele passou a acariciar suavemente seus seios, seus mamilos, que enrijeciam sob o toque sutil. Em seguida, as mãos dele pousaram nos quadris de Haven e ele a fez recuar até a cama de maneira vagarosa. Com cuidado, ele foi se deitando sobre ela, sem interromper o beijo. Haven fechou os olhos quando sentiu a boca de Carmine em seu pescoço; a respiração instável do rapaz atingia os pontos ainda molhados pela neve. Calafrios percorriam a espinha da moça enquanto ele


a beijava e escorregava a boca em direção à barriga. Haven respirou fundo quando a língua dele mergulhou em seu umbigo. Isso a fazia sentir cócegas, e seu corpo formigava da cabeça aos pés. Carmine não parecia ter pressa. Ele continuou beijando e acariciando cada centímetro da pele exposta da namorada, antes de puxar sua calcinha lentamente. Ela agarrou os lençóis com força no momento em que ele começou a beijar suas coxas e a segurá-la firme pelos quadris, acariciando com doçura sua carne. O murmúrio de Haven se tornou mais alto; suas pernas tremiam e a pressão dentro dela crescia. Contorcendo-se de prazer, ela soltou os lençóis e estendeu as mãos em direção aos cabelos dele, sussurrando seu nome; um suspiro escapou do peito dele quando ouviu aquilo. Então se afastou dela e, enquanto a jovem abria os olhos e o observava, ele agarrou a parte de baixo de sua camisa e a retirou. Estendendo mais uma vez a mão, Haven deslizou os dedos sobre os sulcos no estômago do jovem, traçando as linhas da tatuagem em seu peito enquanto ele desabotoava as calças e se livrava delas. Haven quase parou de respirar ao vê-lo nu e ereto diante dela, que escorregou os dedos por sobre a trilha suave de pelos que descia logo abaixo do umbigo, agarrando-o e acariciando-o algumas vezes.

– –

Você tem certeza? – ele perguntou, colocando sua mão sobre a dela.

Ora, ora, ora… Quem é que está com dúvidas agora? – perguntou ela. – Você não confia em mim? Ele sorriu, divertindo-se com a maneira como ela repetia as palavras dele. Em seguida, ele colocou a mão dela de lado e, no momento em que Haven prendeu a respiração, ele a penetrou, preenchendo-a por completo, de uma só vez.

É claro que eu confio em você – ele sussurrou. – Só estou lhe dando uma chance de mudar

de ideia.

Eu nunca vou mudar de ideia – disse ela. – Não no que diz respeito a você. Seus impulsos eram lentos e sutis no início, enquanto ele a beijava com ternura. O silêncio foi preenchido por murmúrios e gemidos. Ela colocou os braços ao redor dele, agarrandose ao corpo de Carmine e deslizando suas mãos pelos músculos esculpidos de suas costas. O prazer foi intenso quando ele a penetrou com força pela segunda vez. Não demorou muito para que a pressão crescesse de novo no corpo trêmulo de Haven. Então, depois de um tempo, os movimentos de Carmine tornaram-se mais frenéticos, suas estocadas mais fortes e profundas. Ele ficou ofegante e seu corpo tremia sob os braços dela enquanto ele deslizava seu pênis para dentro e para fora, com extrema paixão. Ela podia sentir o desejo emanando de seus poros enquanto se entregava totalmente a ele. O amor, a necessidade, o desejo… A paixão entre eles era suficiente para tirar-lhe o fôlego. Com a pele encharcada de suor, Haven sentia como se estivesse pegando fogo, mas seu corpo o desejava mais do que nunca. Ela podia ouvir a respiração ofegante, os suspiros; sentia as mãos dele segurando-a com firmeza enquanto ele desafiava as leis da física, puxando-a para cada vez mais perto de seu corpo. Era como se agora ambos fossem um só; já não era possível distinguir onde o corpo dele terminava e o dela começava. Ela conseguia sentir a pulsação forte e o sangue correndo com fúria pelas veias de Carmine.


– – – –

Seu coração – ela sussurrou. – Está disparado. Você o sente? – ele perguntou. – Você o ouve? Sim.

O que ele está dizendo? Ela sorriu e fechou os olhos:

– –

Está dizendo que você me ama.

E eu te amo – disse ele. – Não importa o que aconteça. Eu te amarei sempre. Sempre. Aquela simples palavra fluiu através do corpo dela. O corpo de Carmine estremeceu ao atingir o clímax, mas mesmo assim ele continuou mais algumas vezes, enquanto pressionava violentamente seus lábios contra os dela e a segurava com tanta força que fazia parecer que sua própria vida dependia daquilo. Aos poucos ele aliviou os movimentos e aninhou-se no pescoço dela, soltando um suspiro no instante em que um calafrio percorreu seu corpo. Exausto, ele se deitou ao lado dela e a beijou com delicadeza antes de sussurrar em seu ouvido: – Boa noite, meu beija-flor. Vou sonhar com você de novo.


Capítulo 7 Sentado na extremidade inferior da escada, Carmine mantinha a cabeça abaixada e passava a mão nos cabelos rebeldes. Seus olhos estavam fixos na mochila preta cheia de roupas perto de seus pés. Seu antigo violão acústico estava cuidadosamente apoiado contra ela – metade sobre a mochila, metade no chão. De repente ele ouviu o som do relógio que ficava na sala de estar no andar de baixo. Parecia que os ponteiros demoravam uma eternidade para se mover. Já podia ter se passado um século, uma hora, um minuto ou um segundo. Ele não tinha certeza. Tudo o que sabia era que o tempo era um filho da puta cruel, que parecia zombar dele enquanto apenas escapulia. O peito de Carmine doía. Ele desejava apenas que aquela porra parasse. Foi então que escutou os passos na escada atrás dele, que fizeram com que ele sentisse como se estivesse adoecendo. Ele estava com medo de que Haven acordasse e o surpreendesse sentado ali sozinho, embora uma parte dele esperasse, de forma traiçoeira, que ela o descobrisse e o detivesse, mesmo sabendo que era tarde demais.

Estou surpreso que você ainda esteja aqui – disse Vincent, parando atrás dele. – Pensei que a essa hora você já tivesse ido embora.

Eu também – disse ele com a voz trêmula enquanto continuava a olhar para a mochila no chão. – Ela vai me odiar. Vai se lamentar para sempre por ter me deixado entrar em sua vida.

Um dia ela vai entender. Carmine cerrou os punhos enquanto seus olhos ardiam com lágrimas não derramadas.

– – – –

Essa porra vai deixá-la arrasada. Sim, talvez. Ótimo – ele retrucou, olhando para seu pai. – Obrigado por me fazer sentir bem melhor.

Você quer que eu minta para você? – perguntou Vincent, levantando as sobrancelhas. – É claro que isso irá machucá-la, Carmine. Não há como evitar.

Isso está errado – disse ele, balançando negativamente a cabeça. – Não é assim que deveria ser. Não era para acabar desse jeito. Nós deveríamos ficar juntos, longe de toda essa merda, e apenas viver a vida. Seria a primeira vez que teríamos a oportunidade de viver de verdade, de abandonar tudo isso. Nós só queríamos ser nós mesmos, mas agora, olhe para toda essa merda.

Você está em dúvida? – perguntou ele. – Ainda não é tarde demais.


É claro que é tarde demais – disse ele. – No momento em que procurei Sal, se tornou tarde demais. Ela é melhor do que a vida que posso oferecer a ela.

– –

Então o que você quer que eu diga, filho?

Quero que você me diga que ela estará melhor sem mim; que será melhor que nós fiquemos separados.

Tudo bem – disse Vincent –, mas quem é que vai convencer você disso? A pergunta pegou Carmine desprevenido. Ele olhou para o pai de maneira incisiva, aguardando alguma resposta para aliviar sua preocupação, mas o simples pensamento de sair pela porta da frente sem Haven doía muito mais do que Carmine imaginara ser possível. Mas, antes que pudesse pensar em alguma coisa para dizer, a porta da frente foi aberta e Dominic entrou. Ele congelou ao avistar Carmine e estreitou os olhos, fechando a porta atrás de si. Dominic raramente perdia a paciência, mas, quando isso acontecia, um lado imprevisível aflorava nele. Nessas ocasiões, suas palavras sempre machucavam tanto quanto seus punhos, segundo Carmine se lembrava.

Vejo que você não a abandonou ainda– disse ele, ferindo com intensidade o irmão com

aquela frase.

– –

Deixe-o em paz, Dom – disse Vincent. – Você só está piorando as coisas.

Eu estou piorando as coisas? – perguntou, incrédulo. – Alguém tem que tentar falar com ele sobre isso antes que ele cometa o maior erro de sua vida. Ela é a melhor coisa que já aconteceu para ele!

Você acha que não sei disso? – Carmine interrompeu. – Ela merece ser livre para fazer o

que quiser!

Então por que você mesmo está tirando isso dela? – perguntou Dominic. – Você está fazendo isso para que ela seja livre para fazer o que quiser, mas é você quem está escolhendo por ela!

Eu não posso deixar que a primeira decisão dela seja optar entre seguir seus próprios sonhos ou ir atrás de mim. Como eu poderia pedir isso a ela? Ela sempre se preocupa com os outros, menos com ela mesma. E sabe por quê? Porque sempre foi colocada para baixo por todos aqueles idiotas. Eu não seria melhor que nenhum deles se pedisse a ela que me colocasse em primeiro lugar! Ela merece descobrir o que está lá fora. Mesmo que ainda não perceba isso.

Essa é a coisa mais estúpida que já ouvi – disse Dominic. – Você percebe o que está dizendo? O que lhe dá o direito de decidir no lugar dela? É o fato de saber mais que ela? Poderia ser mais condescendente?


– –

Vai se foder! Eu posso ser o que ela quer, mas não sou o que ela precisa!

Isso é o que você acha – replicou Dominic, aproximando-se e encarando Carmine. – Mas, como eu disse, você nem sequer perguntou a ela. Você apenas supôs. Quem se importa com o que a Haven quer, não é? Vamos todos apenas presumir que sabemos o que é melhor para ela e então tomar todas as decisões em seu lugar, fingindo que é disso que ela precisa, quando só ela pode saber a resposta.

– –

Ela quer um futuro, Dominic. Ela quer ser livre.

Mas ela não é – ele disse. – Não enquanto pessoas como você tomarem decisões por ela. Pensei que você fosse melhor que isso, Carmine, mas talvez eu estivesse errado. Talvez você não a ame tanto assim, afinal de contas. No momento em que aquelas palavras saíram da boca de Dominic, a raiva tomou conta de Carmine. Ele se levantou de súbito e golpeou o rosto do irmão com toda a força que tinha, fazendo com que Dominic cambaleasse para trás. Assim que recobrou o equilíbrio, o irmão mais velho se lançou contra Carmine, que tropeçou na mochila e destruiu o violão com o pé. Dominic então o empurrou contra a parede mais próxima. Vincent tentou apartar a briga, mas Dominic era muito forte. Ele imobilizou Carmine com a mão esquerda enquanto se preparava para espancá-lo com a outra. Carmine tentava desesperadamente revidar e, antes que Dominic pudesse golpeá-lo, uma voz firme ecoou no andar de baixo.

Já chega! Corrado saiu da cozinha em direção aos dois. Ele empurrou Dominic para o lado, interpondo-se entre os irmãos.

– – –

Ele não sabe o que está dizendo – Carmine vociferou. Eu? Você é que está fodendo tudo!

Eu disse chega! Nenhum de vocês sabe do que está falando! Vocês são tão estúpidos que não conseguem entender o conceito de causa e efeito. Dominic zombou:

– –

Então isso é apenas uma droga de efeito colateral.

Sim, é exatamente isso – disse Corrado. – Não importa o que Carmine faça, Haven nunca poderá escolher por si só. Eu fiz escolhas por ela! Não tem jeito! Certas coisas foram determinadas no momento em que ela foi concebida e não há nada que se possa fazer para mudar isso. Você não pode reescrever essa história! A confusão chamou a atenção de Celia, que desceu lentamente a escada até o hall, carregando sua bagagem. Seus olhos percorreram a sala e ela franziu a testa ao ver as coisas de Carmine no chão.


Todos nós somos forçados a nos sacrificar – continuou Corrado, voltando-se para Dominic, encarando-o de maneira incisiva. – Não é assim que acontece na maioria das separações? Um vai embora, enquanto o outro não diz nada. Ou você está insinuando que Carmine não tenha o direito de terminar seu relacionamento? Isso não seria hipócrita, segundo o que você mesmo está dizendo? O fato é que Carmine não está decidindo o futuro de Haven. Carmine está decidindo o futuro dele. Ele se virou para Carmine, a raiva em sua expressão era descomunal.

E você, garoto, precisa crescer. Você esteve sentado aqui a manhã toda sentindo pena de si mesmo, e isso já está me dando nos nervos. Você quer tanto subir a escada quanto sair pela porta da frente, mas não pode mais haver dúvida entre as duas coisas. Você pertence a Chicago agora, então seja homem e faça o que é esperado de você. Tanto faz se você irá levá-la junto ou não, Carmine. Ela vai perder alguma coisa de qualquer jeito. A única questão que permanece é o que ela irá perder. O hall ficou em silêncio enquanto todos encaravam Carmine. O estômago dele dava voltas, tamanho era o nervoso que sentia.

Eu não posso levá-la para Chicago. Aquelas pessoas já foderam a vida dela o suficiente. Dominic levantou as mãos exasperado ao ver o tio assentir com a cabeça.

Muito bem, então acalme-se e me encontre no carro em cinco minutos. Se não estiver lá, voltarei aqui para arrastá-lo e já lhe asseguro de que não vai querer que isso aconteça. Corrado tirou as chaves do bolso e se dirigiu para a porta, fazendo sinal para Celia segui-lo. Ela sorriu com tristeza para o irmão antes de dar um abraço rápido em Dominic, apenas lançando um olhar a Carmine e logo saindo atrás do marido. Carmine respirou fundo e olhou para seu pai enquanto enfiava a mão no bolso para pegar as chaves. Ele separou a chave da casa em Chicago antes de entregar as restantes.

Dê o meu carro para Haven. Ela vai precisar de um. Se ela não quiser ficar com ele, poderá vendê-lo, trocá-lo, queimá-lo, enfim, fazer o que quiser dele. Não importa mais. Carmine agarrou sua bolsa, deixando o violão despedaçado no chão e virou-se para a porta da frente. Ele ficou cara a cara com o irmão, que bloqueava seu caminho.

Não espere que eu esteja lá para ajudá-lo quando você desmoronar – disse Dominic, com as narinas dilatadas. – E a única coisa que você irá ouvir de mim é eu te avisei.

Haven abriu os olhos e deu uma espiada no relógio, surpresa ao perceber que já era meio-dia. Sua garganta doía e ela tentava engolir a saliva. De repente um arrepio percorreu seu corpo e uma sensação desconfortável surgiu no fundo de seu peito. Ela agarrou-se ao cobertor para cobrir o corpo nu e se aquecer. Foi então que olhou ao seu redor. Não havia nenhum sinal de Carmine.


Mesmo a contragosto, Haven se levantou, tomou um banho quente e vestiu roupas confortáveis. Ainda assim, com o passar do tempo ela começou a se sentir cada vez pior. Sua cabeça começou a doer, seus olhos queimavam e o corpo todo doía. Embora ela tremesse e não conseguisse se aquecer, sua pele parecia quente ao toque. Era como se, no lugar do sangue, corresse pura lava em suas veias. Então ela viu um pedaço de papel sobre o travesseiro de Carmine e olhou desconfiada ao perceber seu nome escrito na frente. Aquele sentimento do qual Haven tanto lutara para se livrar na noite anterior a atingia mais uma vez. Suas mãos tremiam quando pegou o papel e o abriu, identificando de imediato os garranchos confusos de Carmine.

Haven, Franklin Delano Roosevelt disse certa vez que a liberdade não podia ser concedida, ela teria de ser alcançada. Acho que eu estava na quinta série quando ouvi sobre ele, e lembro de ter ficado irritado porque, no final, não entendi porra nenhuma do que ele queria dizer. Na época eu era um merdinha ignorante, mas acho que essa é justamente a questão aqui. Nunca me preocupei muito com a vida e sempre deixei de valorizar as pequenas coisas. Na verdade, apenas depois de conhece-la foi que entendi isso. Você é uma pessoa especial, e gostaria que mais pessoas pudessem descobrir isso. Mais pessoas precisam conhecer você. Então, talvez o mundo se torne um lugar menos fodido. Eu deveria saber que apenas te dizer que você é uma mulher livre não adiantaria. A liberdade tem que ser alcançada, e isso é exatamente o que você tem que fazer, tesoro. Você tem que ir lá e conseguir essa merda sozinha. Você tem o mundo na ponta dos dedos, uma vida esperando por você, cheia de oportunidades que você não poderá ter se ficar comigo. E sei que você sempre teve sonhos; sonhos que você não pode e não deve sacrificar por mim. Você já sacrificou o suficiente de sua vida por causa de alguns filhos da puta egoístas. Eu não sou esse egoísta… não mais. Pode ter certeza disso. No momento em que você estiver lendo isso eu já terei ido embora. Não posso ficar aqui. Não é justo pra você, e eu nunca me perdoaria por negar-lhe uma vida real. Uma vida longe de toda essa merda, onde você possa ser apenas você mesma, a Haven. Vá e seja você mesma, e não o que aquelas pessoas tentaram fazer de você. Você tem que mostrar a esses filhos da puta o que eles estão perdendo por não conhecê-la. Mostre pra eles que ninguém pode manter o meu beija-flor preso numa gaiola. E não tenha medo. Você está pronta para o mundo, Haven. Aliás, faz dezoito anos que ele está esperando por você. Não o faça esperar mais. Carmine

Haven levantou-se de repente, a carta caindo no chão do quarto enquanto ela descia os dois lances de escada, tropeçando nos próprios pés ao longo do caminho. As lágrimas corriam por seu rosto quando ela parou no hall da escada, hesitando por um instante ao chutar acidentalmente o violão quebrado de Carmine. Depois de se atrapalhar com o teclado do alarme, pressionando com fúria os números até que conseguisse digitar o código correto, ela abriu a porta da frente. O vento frio a atingiu e sugou o ar de seus pulmões. Com os pés descalços, ela correu pela varanda cujo piso de madeira estava congelado.


O Mazda ainda estava estacionado em frente, as janelas cobertas por uma fina camada de gelo. A neve da noite anterior já havia começado a derreter, mas algumas manchas brancas permaneciam no carro. Ele estava no mesmo lugar em que fora deixado no dia anterior, o que fez renascer sua esperança.

Carmine? – ela chamou trêmula, exalando uma nuvem de ar quente pela boca. – Onde

você está?

Ele se foi, Haven. Ela se virou ao ouvir a voz de doutor DeMarco. Seu coração batia num ritmo descontrolado. Vincent estava na porta e os olhos dele brilhavam em compaixão. Haven sentiu o estômago embrulhar ao olhar para ele. Não. Não pode ser. De jeito nenhum.

– – – – – –

Você está errado – ela disse. – Ele não foi embora. Ele se foi. Não! – ela gritou. – Ele ainda está aqui! Não, ele não está. Eu preciso fazê-lo mudar de ideia!

Você não pode. Naquele momento a voz dele carecia de qualquer emoção; as palavras saíam como se apenas não houvesse espaço para discussão. Porém, ela simplesmente não podia aceitá-las. Não podia ser tarde demais. Ela acenou com fervor para o Mazda.

– – – – –

O carro dele ainda está aqui! Ele não foi dirigindo. Ele não o deixaria! Ele o deixou para você.

De jeito nenhum! Ele ama esse carro!– Mas ele ama você ainda mais. Haven perdeu a compostura ao ouvir aquelas palavras. Lágrimas escorriam pelo seu rosto enquanto um gemido alto jorrava de seu peito, ecoando pelo pátio silencioso. Seus joelhos se dobraram e ela caiu na varanda, balançando freneticamente a cabeça.


Isso não está certo – ela gritou. – Isso não pode estar certo. Ele não iria embora sem mais nem menos! DeMarco continuava parado na porta de entrada, sem se mover.

– –

Eu sinto muito.

Sente muito? – perguntou ela com descrença. – Você sente muito? Antes que pudesse responder, ele foi empurrado para fora do caminho quando Dominic passou pela porta. Ele agachou-se na varanda e pegou Haven nos braços, silenciando-a com delicadeza enquanto olhava para o pai.

– –

Dominic – disse Haven. – Faça-o voltar!

Não posso – disse Dominic. – Eu tentei, Pé de Valsa, eu tentei mesmo, mas ele não quis me escutar. Haven começou a chorar ainda mais, soluçando enquanto tentava recuperar o fôlego. Ela estava sucumbindo; seu coração se desfazia no peito, partindo-se em milhões de pedaços.

Você precisa se acalmar – disse Dominic, acariciando seus cabelos com ternura. – Respire fundo, sim? Vai ficar tudo bem.

Como você pode dizer isso? – ela perguntou desesperada. – Eu preciso dele! Dominic abraçou-a com mais força.

Não, você não precisa. Sei que você acha isso, mas não precisa. Você é forte. Você vai ficar bem por conta própria. As palavras não tiveram o impacto que Dominic achava que teriam. Em vez de confortá-la, de consolá-la, ela sentiu toda a felicidade que ainda lhe restava desaparecer, como a última porção de água de uma torneira que escorria por um ralo estreito. Por conta própria. As palavras penetraram em sua pele, incitando os mesmos sentimentos aterrorizantes que ela tivera certa vez em Blackburn, quando atravessou o deserto, desesperada para salvar sua vida. Tudo o que ela conhecia desaparecera durante a noite, deixando-a sozinha com um futuro nebuloso. Sozinha.

Como ele pode ter ido embora? – ela sussurrou. – Ele nem sequer me deu a chance de dizer adeus.


Capítulo 8 Carmine permanecia parado sobre um pequeno monte de neve, como tantos outros que cobriam a rua. Seus pés estavam desconfortáveis dentro das meias molhadas pela umidade que infiltrava pelas solas de seus velhos tênis Nike. Ele, entretanto, não conseguia sair do lugar; parecia tão petrificado quanto o gelo que cobria a calçada. A casa ficava a apenas alguns metros de distância do meio-fio. A porta azul encontrava-se iluminada pelo brilho da luz de um poste próximo. O sol havia baixado há pouco tempo, mas o céu de Chicago, coberto de nuvens pesadas, fazia parecer bem mais tarde. Eles haviam viajado durante todo o dia desde que deixaram Durante. Foram duas horas de carro e mais algumas em um avião. Ao longo do trajeto não houve qualquer discussão, julgamento ou demonstração de compaixão. Na verdade, ninguém disse muita coisa sobre qualquer assunto. Então ele foi deixado ali, sozinho com seus pensamentos e, embora às vezes apreciasse tal condição, naquele dia o caso era bem diferente. Quando desembarcaram, Corrado lhe perguntou para onde queria ir. Sem pensar, Carmine apenas murmurou as palavras para casa. Na verdade, ele se referia a Durante, ou seja, queria retornar para onde realmente desejava estar. Seu tio, entretanto, interpretou a resposta de modo literal. Uma hora depois, ele estava na frente da casa onde crescera, recusando-se a sair do lugar, a despeito dos pés encharcados. Um arrepio percorreu seu corpo quando um carro passou em alta velocidade atrás dele, atingindo uma pequena poça e atirando água gelada e imunda em suas costas, fazendo-o dar um grande passo para a frente para sair do caminho. Ele então balançou negativamente a cabeça e se dirigiu para a calçada.

Deixe de ser tão maricas – murmurou consigo mesmo, enfiando a mão no bolso para pegar a chave que seu pai lhe dera. – É só uma porra de uma casa vazia. Agarrando sua mochila com força, ele caminhou em direção à varanda e abriu a porta da frente. O ar no interior da residência estava tão frio quanto no lado de fora, e ele batia os dentes por conta da forte umidade. Ele instintivamente levou a mão ao interruptor e suspirou ao perceber que nada aconteceu. Sem eletricidade. Ele perambulou pelo andar de baixo em meio à escuridão, encontrando uma sala vazia após a outra. Não havia nenhuma mobília.

Merda – ele atirou sua mochila no meio da sala de estar e ficou ali por um momento, olhando em volta para as paredes nuas, antes de fechar os olhos. Não havia mais nada ali. Ele ainda conseguia se lembrar da última vez em que estivera naquele lugar. A sala era confortável e adorada pela família, mas, ao mesmo tempo, bastante bagunçada; não havia espaços livres, exceto pelo canto que fora reservado para abrigar o objeto que Carmine mais desejava. Por meses a fio ele pedira por aquele presente e, enfim… aquele dia especial havia chegado.

Como irão trazê-lo para dentro de casa, mamãe? – ele perguntou. – É grande demais para passar pela porta!


Não se preocupe, eles darão um jeito – Maura respondeu, entrando na sala enquanto vestia seu casaco. – Mesmo que tiverem de desmontá-lo, eles com certeza colocarão o piano aqui – ela então bagunçou os cabelos dele, sorrindo. – Agora vamos, sole. Temos muitas coisas a fazer e não queremos nos atrasar para o seu recital! O novo piano já estará aqui quando chegarmos em casa esta noite. Carmine sorriu com carinho ao lembrar-se da voz doce e suave de sua mãe, mas sua expressão nostálgica se alterou assim que reabriu os olhos e se voltou para o canto de trás da sala de estar. Foram eles que nunca chegaram em casa naquela noite. Pela segunda vez naquele dia, as lágrimas queimaram seus olhos cansados, mas dessa vez ele não tentou contê-las. Não havia ninguém para impedi-las, nenhuma razão para retê-las. Nenhuma razão para ser forte. Amanhã ele se levantaria e seguiria em frente, sairia pela porta com a cabeça erguida, mas não hoje… não esta noite. Hoje ele estava sozinho naquela casa fria e escura, cercado por nada além de lembranças confusas e dolorosas.

Vincent DeMarco estava sentado sozinho em seu escritório, tamborilando os dedos sobre a mesa de madeira. O sol se pusera horas antes e o cômodo estava envolto na total escuridão. Devagar, seus olhos foram se ajustando para que pudesse enxergar seu entorno, contudo, ele não estava tentando olhar para alguma coisa. Já tinha visto tudo o que precisava ver. O caderno de Haven estava aberto na frente dele, bem na página que Carmine lhe mostrara dias antes. Ele estudara com atenção o desenho de Carlo, absorvendo cada uma das linhas de seu rosto, cada ruga de sua grotesca cicatriz. Sua pele ficara arrepiada ao perceber o quanto aquele desenho era assustadoramente preciso: cada fissura e ondulação, até mesmo a pequena verruga abaixo de seu olho esquerdo. Entretanto, Vincent sabia que aquela verruga só havia surgido no ano anterior. Por causa disso, logo que percebeu aquele ponto específico da página, ele passou o dedo sobre a marca, perguntando-se se não seria apenas uma mancha de tinta e, ao mesmo tempo, tentando se convencer de que fora apenas uma coincidência maluca. Não havia nenhuma maneira de ela saber que o sinal estava lá, portanto Haven não poderia tê-lo reconhecido de antes. A não ser… A não ser que ela de fato o tivesse visto. DeMarco sentiu um aperto no estômago ao considerar tal possibilidade. Não ajudava em nada o fato de a casa estar em total silêncio: não havia risos, nenhuma conversa, nenhum barulho no andar de cima; não havia nenhuma gritaria ou briga; não havia absolutamente nada. Dominic saíra depois de Carmine, logo seus dois meninos estariam a centenas de quilômetros de distância. Vincent sentia como se estivesse sozinho, embora, tecnicamente, Haven ainda estivesse ali. Ela estava bem acima dele, no terceiro andar. Passava suas horas como um fantasma, como se estivesse em transe. Ele queria conversar com ela, mas não encontrava as palavras certas a dizer. Em breve, ela também iria embora. Em questão de dias, a jovem sairia pela porta da frente e, talvez, jamais olharia para trás. Vincent sentia uma sensação de realização no fundo do peito, mas, pressionando


com ainda mais força, havia algo mais sombrio: o reconhecimento de que seu trabalho ainda não estava completo. E ele já começava a se perguntar se um dia estaria. Pegando seu celular, ele estreitou os olhos diante da luz brilhante e desagradável do aparelho ao discar o número de telefone de Chicago. Foram apenas dois toques antes de ser atendido. A voz familiar na linha apenas respondeu: – Estou ouvindo. Vincent respirou fundo ao se voltar mais uma vez para o caderno e enxergar nele os ameaçadores olhos de Carlo, encarando-o. – Precisamos conversar.

Ninguém incomodou Haven durante o tempo em que ela se trancou no quarto no terceiro andar. O tempo passou ligeiro; as noites, uma após a outra, se transformavam nos dias seguintes. As nuvens de inverno aos poucos se afastavam, dando espaço para que o sol brilhasse de novo. Foram inúmeras as vezes que ela lera a carta de Carmine. No entanto, mesmo na vigésima vez, a dor causada por aquelas palavras não diferia em nada daquela que sentira ao lê-las pela primeira vez. À espera de que ele voltasse, e confinada pela ilusão de que algum pequeno detalhe escondesse que tudo aquilo não passava de um simples mal-entendido, ela buscava por algum significado oculto naquelas linhas. O fato é que ela continuava a esperar… A esperar que ele voltasse. Mas ele não voltou. Ela ouvia pessoas se deslocando ao redor da casa e conseguia ouvir vozes no andar de baixo, mas apenas no final da semana alguém por fim chegou ao andar em que se encontrava. Dia não se deu ao trabalho de bater, apenas entrou e se sentou na beirada da cama. Haven permaneceu em sua cadeira perto da janela, encarando o jardim estéril.

Quando foi que ele te disse? – perguntou Haven com a voz rouca por não falar há vários dias, sem sequer olhar para a visitante. – Quando foi que ele te disse que estava indo embora?

você.

Na véspera de Natal – respondeu Dia. – Ele me ligou e perguntou se eu poderia cuidar de Haven piscou. Na véspera de Natal?

– –

E por que ele não me contou?

Você sabe o porquê – respondeu Dia.– Ele não teria conseguido ir embora se tivesse feito isso. Sair pela porta da frente foi talvez a coisa mais difícil que ele já fez na vida.

E todos vocês sabiam que isso iria acontecer? – Haven perguntou enfim, voltando-se para ela. A excêntrica Dia parecia estranhamente discreta, vestindo uma calça jeans e um suéter muito grande. Seus cabelos estavam quase loiros, em tom natural, exceto as pontas tingidas de um tom rosa-claro. – Todos sabiam que Carmine estava indo embora e ninguém me disse? Dia suspirou.


Ele só disse para mim. Não queria que ninguém soubesse, não queria estragar o Natal, mas eu deixei escapar para a minha irmã, que contou ao Dominic. Não acho que alguém mais soubesse de seus planos. Eles só montaram o quebra-cabeças. A tia Celia foi a última a saber.

Além de mim – disse Haven de um jeito amargo, voltando-se para longe. – O que vou

fazer agora?

Você vai seguir em frente – disse Dia. – Pode vir para Charlotte comigo, se quiser, ou podemos encontrar um lugar para você ficar por aqui, se preferir. Qualquer coisa que lhe faça feliz.

– –

Ele me faz feliz – ela sussurrou.

Eu sei – disse Dia –, mas, acredite, as coisas ficarão mais fáceis. Com o tempo não irá doer tanto e, no fim, chegará o dia em que você estará pronta para seguir em frente. Haven balançou a cabeça, enxugando algumas lágrimas que insistiam em escorrer de seus olhos.

A dor pode até diminuir, mas nunca seguirei em frente. Ela então ergueu a cabeça e olhou ao redor do cômodo, observando todas as coisas de Carmine. Tudo parecia estar exatamente onde estivera durante semanas, ou até meses antes, quando ele ainda estava lá.

– –

Será que ele levou alguma coisa?

Roupas – replicou Dia. – Ah, dinheiro, ele lhe deixou um envelope com dinheiro, sabia? É para você se manter. Tudo que pertence a ele será enviado para Chicago, depois que… As palavras de Dia se perderam no ar no momento em que Haven se levantou, caminhou até a mesa e começou a fazer uma triagem das coisas, separando seus pertences dos de Carmine.

– –

Depois que eu sair daqui – disse ela, completando o pensamento da amiga.

Você não tem que fazer isso agora –afirmou Dia. – Leve o tempo que for necessário. Eles disseram que você é bem-vinda para ficar aqui como convidada pelo tempo que quiser.

Convidada – a palavra soou estranha ao ser pronunciada por Haven. Houve um tempo em que ela fora uma escrava dentro daquelas mesmas paredes; aprisionada atrás de janelas à prova de balas e portas trancadas. Depois disso, ela quase se sentiu em casa, como se tivesse finalmente encontrado um lugar ao qual pertencia, um lugar no qual se sentia querida. Mas agora ela era apenas uma convidada, uma visitante de passagem em seu caminho sabe-se lá para onde. É estranho como as coisas funcionam. Num minuto você é uma serva; no seguinte você se torna a Cinderela, e, de repente… de repente a história se acaba e você é forçada a fechar o livro.


– –

Como será possível fazer isso? – perguntou ela. – Nem sei o que estou fazendo agora.

Nenhum de nós sabe de fato o que está fazendo – Dia respondeu. – Apenas seguimos em frente e fazemos o que tem que ser feito, tendo fé e acreditando que tudo terminará bem. Haven pensava nessas palavras enquanto continuava a separar seus pertences, sem saber o que dizer. Então, percebendo que Haven não tinha nenhuma intenção de parar, Dia se levantou e saiu do quarto, retornando em seguida com algumas caixas vazias. Ela trabalhou em silêncio ao lado de Haven, ajudando-a a arrumar suas coisas. Só naquele instante, depois de encherem várias caixas com os pertences da jovem, Haven percebeu o quanto havia adquirido durante o tempo em que vivera ali. Há pouco mais de um ano, ela havia entrado pela porta da frente pela primeira vez, com os pés descalços e de mãos vazias, sem nada que pudesse chamar de seu, exceto um nome. Aquilo fora a única coisa que sua mãe lhe dera e o único pertence que ninguém poderia tirar dela. Mas agora ela estava se preparando para sair por aquela mesma porta pela última vez, com meia dúzia de caixas já empacotadas e repletas de coisas materiais. Ela ficou perturbada só de pensar naquilo. De repente, ela queria deixar tudo para trás. Demorou quase dois dias para que conseguisse separar tudo – dois dias hesitando, dois dias embalando e desembalando e empacotando de novo os objetos. Ela pegou algumas roupas necessárias, mas deixou a maior parte pendurada no armário, esperando que o doutor DeMarco as doasse para caridade, para alguém que nada tivesse para vestir. Ela empacotou alguns livros e cadernos e todos os desenhos que havia feito durante o ano anterior. Também pegou a cesta usada em seu piquenique no dia dos namorados, mas deixou todas as coisas de Carmine intocadas. Dominic e Tess apareceram na casa, mas só ficaram o suficiente para dizer adeus antes de seguirem de volta para a faculdade. Nenhum dos dois mencionou Carmine, ambos se fingindo alegres pelo futuro brilhante que a aguardava, mas ela já não era tão ingênua – era óbvio que os dois estavam preocupados. Então, à medida que o tempo passava, a tristeza de Haven foi dando lugar à raiva, e então o sentimento de culpa se manifestou mais uma vez. Fora por causa dela que Carmine havia se entregado àquela organização; fora por causa dela que ele se viu obrigado a ir para Chicago. Ela se tornou obcecada pelos detalhes e perguntava a si mesma como podia ter deixado escapar os sinais. Olhando para trás, agora lhe parecia tão óbvio que ele estava lhe dizendo adeus… Dia apareceu por volta do amanhecer na véspera do Ano-Novo. Haven já estava acordada e esperando pela amiga. Sentada na biblioteca, com os joelhos encolhidos junto ao peito e os braços segurando as pernas, olhando para fora da janela, a jovem se perguntava se fora de fato aquilo que Carmine fizera naquela noite: contemplar sua partida iminente. Será que ele estava com medo? Ela não tinha certeza. Ele fez com que a partida parecesse tão fácil.

Você já está pronta? – perguntou Dia. Todos os pertences de Haven já haviam sido colocados no carro de Carmine no dia anterior. Haven apenas assentiu, incapaz de dizer alguma coisa. A verdade era que ela se sentia como se nunca pudesse estar pronta, mas mesmo assim ela se levantou e vestiu o casaco. Dia lhe entregou a chave do carro de Carmine antes de seguir rumo à escada, mas Haven hesitou na biblioteca.


Encontro com você lá embaixo. Preciso de um minuto. Parando na porta do quarto de Carmine, seus olhos o fitaram com cuidado; seu peito doía. Uma lágrima escorreu por seu rosto quando, em voz baixa, ela pronunciou uma única palavra:

Adeus.

Capítulo 9 Haven caminhou pelo longo corredor com a visão prejudicada pelas caixas que trazia nos braços. Com certa dificuldade, as deslocou para o lado numa tentativa de visualizar o caminho; foi quando trombou nas costas de Dia. Haven sorriu, como que se desculpando, mas Dia só deu de ombros, pegou o molho de chaves e abriu a porta. Mais uma vez, Haven equilibrou as caixas, tomando cuidado para não esbarrar em mais nada, e entrou no apartamento pequeno e tranquilo. Seus passos vacilaram no momento em que Dia acendeu a luz e o ambiente se iluminou. Como papel de parede, uma grande quantidade de fotos cobria toda a superfície, quase bloqueando a pintura original. Haven já havia estado ali antes, em seu aniversário de dezoito anos, mas esquecera-se completamente de que a amiga queria ser fotógrafa. Seus olhos logo percorreram as imagens, reconhecendo alguns dos rostos. A maioria deles não lhe chamava a atenção, exceto um. Em linha reta, bem diante de seus olhos na parede acima do sofá, havia uma foto antiga dela mesma e Carmine. Aliás, o rosto do rapaz estava por toda a parte, infiltrado no mar de memórias coloridas. Aquela foto, entretanto, era diferente e a atraiu. Mais que qualquer outra, era como se a imagem gritasse em silêncio seu nome. Na ocasião ela sequer tinha noção de que a foto estivesse sendo tirada. Era do primeiro Natal que haviam passado juntos, e os dois olhavam um para o outro. O amor deles era novo, puro e ingênuo. Uma ignorância feliz brilhava em seus olhos; eram duas almas completamente inconscientes da angústia que pairava no horizonte. Dia chutou a porta para fechá-la e a batida ecoou pela sala, fazendo com que Haven se encolhesse. De repente, parecia que as paredes cobertas de memórias estivessem se fechando sobre ela. As caixas escorregaram de seus braços, caindo com força sobre o chão. Desviando-se delas, Haven caminhou até o sofá e pegou a foto, arrancando-a da parede sem dizer nada.

Desculpe – disse Dia, colocando as outras caixas no chão. – Eu devia ter te lembrado… e te avisado. Haven fechou os olhos. Alertá-la do fato de que as fotos estariam ali não teria feito nada para aliviar a dor, que já residia intrínseca dentro dela, infectando seus tecidos e penetrando em seus ossos, que espremiam seu coração e o fazia querer pular para fora do peito. Seus pulmões pareciam endurecidos, como se fossem feitos de couro novo, e se recusavam teimosamente a expandir-se quando ela respirava fundo. Haven estava sufocando com a pressão do que poderia ter sido…


Está tudo bem – ela sussurrou, forçando as palavras para fora. – Estou bem. Dia disse mais alguma coisa, mas Haven não esperou para ouvir, apenas afastou-se e seguiu em direção ao quarto de hóspedes. Em seguida, fechou a porta, pressionou as costas nela, segurando firme a foto contra o peito.

Mesmo deitada na cama, o sono parecia tê-la abandonado. Um ano novo estava começando e, apesar de a janela estar embaçada, era possível ver os fogos de artifício que estouravam a distância; o ruído da comemoração das pessoas do lado de fora invadia o ar, mas a jovem permaneceu ali, imóvel. Quando o sol da manhã começou a espreitar, ela desistiu de tentar encontrar o sono e caminhou em silêncio até a sala de estar. As fotos não estavam mais lá, as paredes de cor creme estavam vazias, exceto pelo sutil brilho laranja que envolvia o apartamento ao nascer do sol. Dia as retirara em algum momento durante a noite, restando apenas alguns pedaços soltos de fita adesiva. Haven os retirou, enrolando-os juntos em uma bolinha na palma da mão.

Bom dia. Haven se virou, observando enquanto sua amiga saía do quarto atrás dela. Dia usava um pijama laranja de bolinhas e seus cabelos estavam amarrados no topo da cabeça. Ela esfregou os olhos e bocejou, percorrendo o breve trajeto até a pequena cozinha.

Bom dia – Haven respondeu baixinho, olhando para as paredes vazias. – Suas fotos se

foram.

Sim, achei que seria mais fácil se você não tivesse que vê-las todos os dias – murmurou a amiga, sonolenta, enquanto abria a geladeira e retirava de lá uma caixa de leite. Ela se serviu de um copo e então despejou uma montanha de achocolatado. Em seguida ela se voltou de novo para Haven e perguntou: – Está com fome? Acho que tenho um pouco de cereal por aqui em algum lugar. Haven negou com a cabeça.

– –

Não, obrigada.

Bem, se você ficar com fome, sirva-se de qualquer coisa na cozinha – disse. – Não tenho muito agora, mas vou comprar algumas coisas no caminho de volta para casa. Haven olhou-a com curiosidade.

– –

No caminho de onde para a casa?

Da escola – ela respondeu, tomando seu leite. – Tenho que me matricular ainda hoje e comprar meus livros.


– –

Ah.

Eu ficaria com você, mas preciso me registrar. É a minha última chance – ela continuou. – Mas se você não quiser ficar sozinha, eu posso…

Está tudo bem – disse Haven, interrompendo-a. Ela não queria ser um fardo. – Eu tenho coisas para fazer hoje, de qualquer maneira. Você sabe, desembalar tudo… Essas coisas. Haven forçou um sorriso, mas Dia não parecia convencida.

Nós podemos fazer algo juntas quando eu chegar em casa. Talvez pedir uma pizza e assistir a um filme? Vai ser divertido. Podemos ter uma conversa de meninas.

Sim, claro – disse Haven. – Parece ótimo. Dia sorriu com afeto, dando-lhe um abraço antes de empreender seu ritual matinal. Haven permaneceu na sala de estar, rolando distraidamente a pequena bola de fita adesiva entre os dedos. Depois que Dia saiu, ela voltou para o quarto e fechou a porta, deixando as caixas com suas coisas na sala de estar.

Não houve pizza naquela noite, tampouco filme. Também não houve nenhuma conversa de meninas. O sono também se recusou a aparecer. Os dias se passavam mesclando a insônia e o cansaço, e empurrando Haven cada vez mais para dentro de uma depressão. As noites eram difíceis e os dias não eram muito melhores. A garota caminhava de um lado para outro em estado de torpor, quase automaticamente. Ela se sentia como se estivesse se afogando; era como se a vida se esvaísse aos poucos de seu corpo. Mesmo assim, se agarrava com desespero à superfície, na expectativa de que algo a puxasse de volta. A dor era algo que Haven conhecia muito bem e, por isso, sempre fora bastante resistente, mantendo a cabeça erguida enquanto enfrentava torturas inimagináveis. No entanto, o sentimento que agora fermentava dentro dela era diferente. O aperto no coração e o temor sufocante eram mais que suficientes para fazê-la perder o chão. Ela já havia se sentido assustada antes, com certeza, mas esta era a primeira vez que ela realmente se sentiu perdida. Até então, sua vida tinha sido um ciclo interminável de faça issoe-faça-aquilo; havia sempre uma tarefa, sempre um propósito, sempre uma intenção. Mas tudo isso ficara para trás. Seu futuro estava vazio. Era uma tela em branco. Não havia nenhum lugar para o qual ela pudesse escapar. Não havia ninguém olhando para ela. Ela percebeu que estava livre, afinal, mas aquela liberdade a aterrorizava.


Luna Rossa localizava-se ao lado da rodovia, e ficava parcialmente protegido por fileiras de árvores. O enorme prédio de tijolos ostentava um estilo sutil, misturando-se bem às demais construções nos arredores de um bairro tranquilo no sul de Chicago. O letreiro rústico em bronze, bem acima da porta, exibia o nome do lugar em letras cursivas na cor vermelha. Logo abaixo aparecia o único indicador da verdadeira natureza do estabelecimento: as palavras “bar club”, em dourado. Não havia nenhuma luz ou neon piscando para atrair clientes em potencial que passassem por ali. Embora à primeira vista parecesse acolhedor, quase pitoresco, o Luna Rossa atendia a um público bastante específico. Os sedãs escuros espalhados por todo o estacionamento insinuavam que era o tipo de lugar que uma pessoa não visitaria por conta própria, a menos que alguém a convidasse. Carmine sempre achara estranho o fato de seu tio ser o dono de um bar club, mas estando de pé em frente ao local pela primeira vez, tudo começava a fazer sentido. O lugar era discreto, muito parecido com o próprio dono. Respirando fundo para se sentir mais seguro, o garoto abriu a porta e entrou no prédio. O segurança olhou para ele de modo peculiar, observando as calças jeans desbotadas e os tênis Nike, mas não se moveu nem disse uma única palavra quando Carmine deslizou por entre a multidão. Era uma quinta-feira, e os homens de terno permaneciam ao redor com algumas mulheres mais jovens agarradas a eles. Goomahs, ele notou. As amantes da Máfia. Luna Rossa era o refúgio de La Cosa Nostra, sua casa longe de casa. Não era o tipo de lugar ao qual um homem levaria sua esposa – era para onde ele iria se estivesse tentando esconder algo. E era bem fácil se esconder ali. A madeira escura com acabamento em vermelho e a iluminação fraca escondiam segredos e mascaravam pecados. Fumaça de charuto infundia-se no ar enquanto se ouvia Frank Sinatra pelos alto-falantes posicionados nas laterais; a voz do cantor se misturava ao som de conversas amigáveis e risos dos frequentadores. Carmine se sentiu muito deslocado ao se dirigir até uma grande mesa de canto na parte de trás. O barulho que vinha dali abafava todo o resto; a mesa estava coberta com uma grande variedade de garrafas de bebida alcoólica. Sal estava sentado no meio do grupo, com uma jovem morena aconchegada à direita e, à esquerda, uma menina loira, que não devia ter mais de vinte anos. Havia ainda meia dúzia de homens que os cercavam de ambos os lados. Nervoso, Carmine pigarreou ao se aproximar.

Salvatore. Ao ouvir seu nome, Sal olhou para cima e seu rosto se iluminou.

– – –

Principe! Oi, é bom ver você.

Digo o mesmo, meu caro – replicou Sal, com um largo sorriso, gesticulando com a mão. – Junte-se a nós. Tome uma bebida. Em vez de se apertar com os demais convidados, Carmine pegou uma cadeira livre e puxou-a para o outro lado da mesa.

Você sabe que não tenho idade para… O riso zombeteiro de Sal não permitiu sequer que ele terminasse a frase.


– Bobagem! – ele fez um gesto para a garçonete. – Traga para o meu afilhado o que ele quiser. Coloque na minha conta. A garçonete parou ao seu lado, sorrindo educadamente.

– – –

Em que posso servi-lo? Ah, vodca – disse ele. – Pura.

Traga a garrafa toda – Sal entrou na conversa. – Alguma coisa da prateleira de cima, querida. Nada além do melhor para o jovem DeMarco. Carmine forçou um sorriso, mas não ficou satisfeito com as palavras de Sal. A garçonete voltou depois de um momento com uma garrafa de Grey Goose e um copo de vidro grosso, deixando-os na frente de Carmine antes de se afastar. Ele se serviu de uma dose em silêncio, sentindo os olhos de Sal sobre ele enquanto engolia o líquido para tentar aliviar seus nervos em frangalhos. A queimação lhe pareceu familiar: quente e estonteante. Ele saboreou a sensação. A atenção de Sal voltou-se para os outros; a conversa na mesa fluía livremente entre os homens. Nada fazia sentido para Carmine, então, ele permaneceu em silêncio, tomando sua bebida enquanto tentava passar despercebido. Seus pensamentos vagavam sem rumo; seus olhos, à deriva, se concentraram nas duas garotas. Elas riam, prestando atenção em cada palavra de Sal, como se toda a merda que saísse de sua boca fosse feita de ouro. Carmine se perguntava o que viam nele, por que permaneciam ao redor daquele homem. Dinheiro? Presentes? Estariam elas fascinadas pelo seu poder? Seria apenas por diversão? Uma coisa era certa: jamais seria por atração.

Então, principe, já se acomodou? – perguntou Sal, capturando de novo a atenção de Carmine. O jovem tirou os olhos das meninas e fitou seu padrinho, que ergueu as sobrancelhas.

– – – –

Sim. – Ele se serviu de outra dose. –Estou me mudando para a antiga casa dos meus pais. E você já está com todas as suas coisas? Elas chegaram hoje.

E a garota? – perguntou Sal. – Ela já chegou? Carmine ficou tenso, e parou com o copo nos lábios. Em seguida o jovem o colocou sobre a mesa e, depois de um momento sem tomar a bebida, com medo de que o líquido não passasse pelo nó em sua garganta, ele enfim respondeu:

Ah… não. Ela não veio.

A expressão de Sal mudou e seu rosto foi tomado por preocupação. Desvencilhando-se da garota morena, ele se inclinou para a mesa e disse com a voz estridente, atipicamente baixa:


– – – –

O que quer dizer com “ela não veio”? Ela não virá – esclareceu Carmine. Nunca?

Não. Ela, uh… não está mais comigo. A tensão tomou conta da mesa. Sal permaneceu imóvel e encarou Carmine de um jeito estranho. Uma expressão de raiva surgiu em seus olhos escuros. Os outros sentiram de imediato a mudança no clima e ficaram em silêncio, olhando para os dois com cautela.

Você terminou a relação? Carmine fez que sim com a cabeça.

Depois de todos se arriscarem por essa menina, vocês não estão mais juntos? Ele acenou mais uma vez.

Ela está por conta própria? Livre para fazer o que quiser? Outro aceno.

E você não está. Não foi uma pergunta dessa vez, mas Carmine assentiu de qualquer maneira. Depois de um momento de silêncio, Sal quebrou a tensão rindo mais uma vez, alto e de maneira abrupta, como se estivesse se divertindo muito.

– – –

Bem, eu acredito que haja uma boa lição a ser aprendida em tudo. Do que se trata? – alguém perguntou.

Não importa o quanto você ache um amulher bonita – disse Sal –, ela nunca valerá a pena. Os homens irromperam em aclamação, brindando às palavras de Sal, enquanto Carmine permanecia em silêncio. Ele voltou a pegar o copo e bebeu o líquido quente, transportando toda sua amargura para a corrente sanguínea. O jovem percebeu quando Sal voltou-se para a jovem morena, recolocando o braço em volta dela, puxando-a para si e sussurrando:

Não você, baby. Ela corou e riu, enquanto Carmine fez uma careta. Que porra é essa?

No entanto, há um lado positivo – Sal declarou, olhando de volta para Carmine. – Você agora pode se divertir por aqui. Digo, não há nenhuma razão para você ir sozinho para casa esta noite. Tenho certeza de que a amiga de Ashley, Gabby, ficaria feliz em acompanhá-lo.


Carmine olhou para a loira quando Sal apontou para ela. A moça esboçou um sorriso diabólico; seus olhos azuis perscrutaram-no lentamente, avaliando-o e julgando-o.

Com certeza. Balançando a cabeça, Carmine desviou os olhos dela.

– –

Não, obrigado.

Ela não faz seu tipo? – perguntou Sal.– Há muito mais por aqui; ruivas, loiras, morenas, garotas de todas as formas e tamanhos. Basta escolher seu veneno.

– –

Apenas não estou… interessado.

Meu afilhado não está interessado em mulheres? Inédito! Escolha uma. Será meu presente para você. Carmine tentou pensar em uma maneira de explicar a situação que não o fizesse parecer suscetível. A última coisa que ele queria era expor sua maior fraqueza na frente de tantas pessoas.

– –

Eu só não estou com vontade agora.

Você não tem que estar com vontade– disse Sal. – Estas senhoritas sabem o que estão fazendo. Dez minutos a sós com uma delas e você estará implorando por mais.

– –

Eu não imploro.

Eu me lembro de você me implorar uma vez, principe. E, me corrija se eu estiver errado, mas acho que foi justamente por causa de uma garota, não foi? A garota com quem, aliás, você já não está mais. Talvez você devesse apenas tê-la deixado onde estava. É bem possível que todos nós estivéssemos em uma melhor situação. O ódio se apoderou de Carmine. Ele cerrou os punhos sob a mesa, mas lutou para não demonstrar sua fúria em seu olhar. Sal olhava fixo para ele, como que desafiando-o para que reagisse.

Ora, Chefe – a voz de Corrado soou logo atrás de Carmine, pegando-o de surpresa. As mãos pesadas dele seguraram seus ombros, mantendo-o preso no lugar para que não pudesse se virar. – Dê uma folga ao garoto. Até mesmo você sabe como é cometer erros. Ele está apenas sendo cauteloso para não fazer outra bobagem.

Suponho que sua atitude seja admirável – Sal relaxou de novo enquanto tomava um gole de sua bebida. – A última coisa que quero é outro homem descuidado na minha equipe.

Ainda mais um que seja descuidado com uma mulher – disse Corrado. Sal riu de um jeito amargo.


É, e falando em homens que cometeram erros com mulheres, seu pai é um ótimo exemplo. A única falha de Vincent foi na escolha de suas mulheres. A calma simulada de Carmine falhou, seus olhos se estreitaram. Ele se moveu para frente uma fração de centímetro diante daquela insinuação sobre sua mãe, preparando-se para atacar sem pensar duas vezes, mas as mãos de Corrado o pressionaram ainda mais.

Você vive e aprende – disse Corrado.– Carmine fará as duas coisas aqui, eu espero… Contanto que ele se lembre de seu lugar. E acho que, nesse momento, o lugar dele é em casa. Ele nem sequer desfez as malas e já está celebrando.

É verdade, é verdade – Sal acenou a mão com desdém para Carmine. – Saia já daqui. Corrado soltou Carmine, dando um passo para o lado para que ele pudesse se levantar. Ele olhou ao redor da mesa uma última vez antes de assentir com a cabeça.

Boa noite, senhor. Afastou-se depressa e sentiu seus nervos se acalmarem à medida que caminhava para a saída. Quando se aproximou do segurança, o homem se levantou de repente e se manteve atento. A testa de Carmine franziu diante daquela reação, mas ele logo ouviu Corrado dizer ao sujeito para relaxar. Seu tio vinha em seu encalço logo atrás.

Obrigado – disse Carmine, com calma, respirando o ar frio da noite de maneira profunda depois que ambos já estavam do lado de fora do bar. Ele se viu cercado por uma nuvem no momento em que exalou o ar.

Você será sempre bem-vindo aqui, mas lembre-se de que nem sempre estarei por perto – Corrado respondeu. – Você tem que aprender a se controlar, não importa o que ele diga.

Eu sei, mas eu não esperava por isso. Quero dizer, porra, ele não demorou para me provocar, e me pegou desprevenido.

Ele o está testando – disse Corrado–, e com base no pouco que vi, tenho que alertá-lo de que você irá falhar.


Capítulo 10 Após duas semanas sem vontade de comer e convivendo com crises de insônia, Haven começou a perder o controle. Toda vez que alguém batia à porta do apartamento de Dia, uma onda de esperança invadia seu peito: a esperança de que fosse Carmine. No entanto, toda vez a expectativa se transformava em frustração. A cada dia ela se tornava mais ansiosa, criando cenários fantásticos sobre onde ele poderia estar e o que estaria fazendo. Ela não conseguia compreender como ele conseguia tolerar aquela distância. Se ele a amava tanto quanto dizia, deveria estar sentindo a mesma dor que ela. Não deveria? Ela começou a imaginar coisas que não estavam lá: vozes que sussurravam durante a noite, chamando seu nome enquanto ela lutava para encontrar consolo no sono. Ouvia barulhos pelo apartamento, passos do lado de fora da porta, estrondos que faziam seu coração disparar de maneira descontrolada. Chegou a um ponto em que parecia de fato haver alguém sempre ali, num canto, à espreita, observando e esperando. Embora não pudesse vê-lo ou tocá-lo, ela podia ouvi-lo se mover. Ele a estava assombrando. As lembranças dele se faziam presentes em todos os lugares; sua ausência a provocava de modo cruel. Até que, de repente, em um dia, ela o viu. Haven ficou imóvel enquanto encarava sua visão: Carmine estava sentado em um quarto escuro, vestindo apenas uma calça de moletom cinza. Como um fantasma, o jovem estava debruçado sobre o piano e seus dedos repousavam sobre as teclas de ébano e marfim. Ele não as pressionava, entretanto. Não havia música, nenhum som. Não havia nada, a não ser um silêncio sufocante. Não havia mais nada, exceto ele. Ela se alegrou com aquela visão: os contornos de seus músculos; o movimento de seu peito quando ele respirava fundo. Seus cabelos estavam longos e despenteados, e caíam pelo seu pescoço, pelas laterais do rosto e escondiam seus olhos. Ela conseguia até mesmo distinguir a cicatriz em seu corpo, ressaltada num tom mais claro que sua pele naturalmente bronzeada. Ela queria tocá-lo e deslizar os dedos sobre a velha ferida.

Tesoro – ele sussurrou a palavra em voz trêmula, como se fosse doer muito se dissesse um pouco mais alto –, ti amo. Ela abriu a boca para responder, mas as palavras não saíam. Assustada, ela levou a mão à garganta, incapaz de encontrar sua voz. Ele se fora. Eu também te amo, ela pensou. Eu sempre te amarei.

Só você – ele sussurrou.

Sempre.

– –

Você é minha vida – ele disse. – Eu morreria sem você.

Sou sua. Sempre serei. Os ombros dele se curvaram.


Por favor, me perdoe. Pelo o quê?

Eu destruo tudo em que toco. Ela sacudiu a cabeça. Não, você não me destruiu.

Talvez eu ainda não o tenha feito – ele disse. – Mas eu irei… Se você permitir que isso aconteça. Você não o fará. Ela deu um passo adiante. Você jamais me machucaria.

Eu a feri quando a deixei – ele sussurrou. – Mas eu tive que fazê-lo. Foi necessário. Ele se virou lentamente na direção da jovem e ergueu a cabeça. O coração dela disparou no instante em que ele a fitou. Porém, no lugar do verde vibrante e brilhante que ela esperava ver, não havia nada além de escuridão. Não havia vida, nem luz, tampouco a chama com a qual se acostumara. As palavras dele eram tão frias quanto seu olhar.

Eu teria destruído você se tivesse ficado. Um tremor violento percorreu a espinha de Haven enquanto ela acenava a cabeça com desespero. Bem acima do coração, onde as palavras Il tempo guarisce tutti i mali estavam tatuadas, surgiu um pequeno círculo negro. Horrorizada, ela observou quando a mancha se expandiu com velocidade e tomou conta do corpo do rapaz, enquanto o rosto dele se contorcia de dor e angústia. Um forte estalo sacudiu as paredes no momento em que ele desapareceu na escuridão. Haven sentou-se na cama e sentiu o coração bater de modo irregular. Estava escuro, a iluminação da rua não entrava pela janela, nem mesmo o brilho do despertador próximo podia ser visto. Desorientada, ela esfregou os olhos ardentes e viu manchas coloridas surgirem em sua linha de visão, como respingos da tinta translúcida de uma aquarela. Uma tormenta caía lá fora; a chuva se chocava contra o edifício e o vento assobiava. Os ruídos ecoavam pelo quarto e a garota sentia como se a pele febril de seu corpo estivesse recebendo alfinetadas. Era como se o ar estivesse repleto de eletricidade. Olhando na direção da porta do quarto, seu pânico aumentou quando ouviu um baque na sala de estar.

Dia? – ela gritou com a voz rouca e então engoliu em seco, tentando criar coragem para colocar o edredom de lado e sair da cama. Suas pernas tremiam quando ela se levantou e caminhou na ponta dos pés em direção à porta, pressionando seu ouvido contra o pequeno espaço que havia entre a porta e o batente. Uma rajada mais forte de vento chacoalhou violentamente a janela e Haven se virou para olhar. A confusão a dominou quando seus olhos se fixaram no vidro e, pelo reflexo embaçado, ela vislumbrou um par de olhos. Mas não eram quaisquer olhos… Eram olhos bem familiares. Os mesmos que a cativaram desde a primeira vez que os viu.


Carmine – ela sussurrou, no momento em que a dor em seu peito se intensificou ao deixar escapar aquele nome. Lágrimas se formaram e ela começou a piscar, tentando represá-las. Contudo, quando enfim conseguiu reabrir os olhos, a imagem tinha desaparecido. – Carmine! Foi então que outra forte rajada de vento sacudiu a janela. Ela começou a chorar e a tremer e correu em direção ao interruptor, pressionando-o desesperadamente para cima e para baixo, sem que nada acontecesse. Não havia eletricidade. Ofegante, ela escancarou a porta do quarto e percebeu as sombras na sala de estar. Ouviu o clique da porta da frente e entrou em pânico ao perceber a corrente da fechadura balançando, demonstrando que alguém mexera na porta.

Dia – Haven gritou, correndo para o quarto da amiga. Ela abriu a porta sem bater e piscou para clarear a visão. O medo tomou conta dela ao perceber que a cama estava vazia. Logo vasculhou a casa em meio à escuridão, sem encontrar Dia em lugar nenhum.

Não posso mais aguentar isso – disse Haven, em pânico, correndo de volta para o quarto. Então, calçou os sapatos e reuniu suas coisas, antes de sair do apartamento. Com muita pressa para esperar o elevador, ela desceu os seis lances de escada tão rápido quanto pôde, e quase tropeçou quando chegou ao segundo andar e ouviu passos a uma curta distância à sua frente. Pouco depois eles pararam e a porta de entrada se abriu. Um forte trovão ecoou pelo edifício no momento em que a pessoa, quem quer que fosse, desaparecia em meio à tempestade. A água fria da chuva atingiu Haven no instante em que ela pisou fora do prédio. Pisando no meiofio, ela estava prestes a atravessar a rua em direção ao Mazda quando um táxi amarelo parou à sua frente. Um homem saiu do banco de trás e já se preparava para fechar a porta quando a avistou.

Precisa do táxi, senhorita? – perguntou. Ela olhou para ele, ponderando sua pergunta. Ela não tinha ideia do que estava fazendo, sua confusão aumentando quando percebeu a preocupação no rosto do homem. – Olá? Você está bem?

Hum, sim – disse ela, sem ter certeza de que aquilo era mesmo verdade. Passou por ele e murmurou um agradecimento enquanto deslizava para o banco traseiro. Seu coração batia rápido e ela lutava contra o mal-estar em seu estômago enquanto o sujeito fechava a porta do carro.

– –

Para onde você gostaria de ir? – perguntou o motorista, olhando no espelho retrovisor.

Chicago – a palavra saiu de seus lábios antes que ela percebesse o que estava dizendo. O motorista riu.

Não é possível ir tão longe, mas posso deixá-la na rodoviária. Ela assentiu, atordoada.

Ok.


Ele seguiu em direção à estrada. A chuva bombardeava o carro por todos os lados. O vento soprava forte e os trovões retumbavam no céu, deixando a jovem bastante inquieta. Ela tentava se concentrar, mas era impossível. Cada vez mais entrava num estado de transe. Estava exausta demais para parar e pensar e, diante do desespero, agia apenas por impulso. Quando o táxi parou, ela entregou algum dinheiro para o motorista sem contar e saiu do carro, permanecendo de pé na calçada em meio à tormenta enquanto o veículo se afastava. O prédio de tijolos à sua frente estava desgastado; a placa com o dizer GREYHOUND em azul era quase invisível no meio da tempestade. Ônibus vazios estavam estacionados por toda parte e algumas pessoas aguardavam a hora do embarque no saguão iluminado. Haven não tinha a menor ideia de por onde começar. Seu corpo tremia enquanto ela se aproximava da espessa janela de vidro do edifício, pingando água por todo o piso de ladrilhos encardidos. A senhora sentada atrás de um computador olhou-a de maneira peculiar.

– –

Posso ajudá-la?

Eu, hum… preciso ir para Chicago. Levando a mão ao bolso, Haven tirou um maço de dinheiro: vinte, quarenta, sessenta, oitenta, um bolo de cincos e uns, e um punhado de moedas. Ela colocou tudo sobre o balcão, tudo o que tinha em seu bolso. A senhora as contou, desdobrando com cuidado as notas úmidas.

– –

Há um ônibus que sai em cerca de quatro horas para Chicago.

Esse dinheiro é suficiente? A senhora sorriu ao digitar em seu computador e imprimir um bilhete. – Ainda sobram dez centavos. Haven pegou o bilhete e depositou a moeda de dez centavos em uma lata vazia que um mendigo sentado nas proximidades lhe estendera. Em silêncio, ela caminhou até um banco de metal vazio, deitando-se sobre ele enquanto esperava. Quatro horas, ela recitou mentalmente enquanto fechava os olhos cansados. Apenas mais quatro horas.

Mais uma vez, o sono não foi tranquilo e, de modo cruel, a conduziu aos espasmos de outro sonho surreal. Os raios que caíam do lado de fora da rodoviária traduziam-se em disparos de armas de fogo, transportando-a mais uma vez para o meio do tiroteio no armazém. Aquilo não parava; era um ciclo de violência do qual não conseguia escapar. Ela se debatia no banco duro, choramingando em seu sono, até que alguém a balançou para acordá-la. Ela se sentou de repente e seus olhos se fixaram no rosto familiar de um homem sentado ao seu lado. Examinou-o em silêncio por um momento, piscando algumas vezes e imaginando que, se esperasse um pouco, ele logo desapareceria com o sonho.


Doutor DeMarco? Ele se recostou no banco duro com um suspiro exasperado. Ele também estava encharcado por conta da tempestade, com os cabelos molhados e penteados para trás. Seus olhos, escuros e expressivos, evitaram-na por um longo momento. Sua proximidade a levou ao limite; sua presença era alarmante. O coração dela batia com fúria enquanto a confusão se instalava por completo.

– –

Como o senhor sabia…?

Maura e eu tentamos fugir uma vez –disse ele baixinho, sacudindo a cabeça. – E o mais longe que chegamos foi até a rodoviária. Haven olhou para ele com cautela.

Eu não estou fugindo. Ele ignorou sua declaração.

O que você está fazendo é perigoso. Muitas coisas podem dar errado… Ainda podem dar errado. Você tem o direito de ir para onde quiser, mas isso apenas não é inteligente de sua parte. Haven moveu-se um pouco, sentando se a poucos centímetros dele. Seus olhos percorreram o prédio à procura de um relógio, encontrando um acima do guichê. Três horas e meia tinham se passado. Seu ônibus estava programado para sair em trinta minutos.

Você se lembra do dia em que a levei até o hospital? – ele perguntou. – Nós nos sentamos em meu escritório. Eu lhe disse que Carmine era ingênuo e impulsivo.

– –

Irracional e volátil – ela sussurrou.

Carmine sempre fez as coisas sem pensar, e eu estava preocupado que ele fizesse o mesmo com você. Honestamente, pensei que ele iria tentar pegá-la e fugir, porque ele é meu filho e é muito parecido comigo. Mas ele não fez isso. É provável que pela primeira vez em sua vida ele tenha considerado as consequências – ponderou, continuando em seguida. – Eu perdi muito em minha vida, sabe? Perdi minha esposa, mas antes disso já havia perdido minha vida. Eu a entreguei em minha iniciação. Esse é o mundo ao qual Carmine pertence agora. Eles lhe dizem para onde ir e o que fazer, e se ele não o fizer… bem, você sabe o que acontece quando as pessoas ignoram as ordens. Ele não quer que você se sujeite a isso, e eu concordo com ele. Acredito que Chicago é o último lugar para onde você deve ir, mas se você decidir que é mesmo o que quer, farei o que puder para ajudá-la. Haven olhou para ele, surpresa.

Você vai me ajudar?


Sim, mas não hoje – disse ele, com a expressão séria. – Carmine precisa de tempo para entender melhor as coisas e, sendo franco, você também precisa. Não concorda? Ela o olhou, sem saber o que responder.

– –

Acho que sim.

Depois que der uma chance à sua vida, se ainda quiser ir para Chicago, eu me certificarei de que você chegue lá, mesmo que seja a última coisa que eu faça na vida. Mas antes que você possa optar por ficar com Carmine, precisa entender do que estará desistindo.

Mas… DeMarco ergueu a mão para silenciá-la.

Se você não pode fazê-lo por si mesma, pelo menos faça-o por Carmine. Mostre a todos que ele estava certo sobre você, que você é de fato a pessoa que ele sempre acreditou que fosse. Prove que todos que a negligenciaram estavam errados; prove que Carmine estava certo, porque ele precisa disso. Lágrimas brotaram em seus olhos.

– –

Ok.

Bom – disse ele, levantando-se. – Agora vamos levá-la de volta para a casa de Dia. Ela estava desesperada quando me ligou, pensando que você tivesse sido sequestrada de novo. Tremendo, Haven cruzou os braços em torno de si mesma, sentindo-se culpada. Ela estava perseguindo um fantasma pela cidade, arriscando tudo por puro desespero e, ainda, assustando as poucas pessoas que se importavam com ela de verdade. Ela seguiu DeMarco até o lado de fora e sentou-se no banco do passageiro da Mercedes, que estava mal estacionada e desalinhada ao meio-fio. Ele ligou o carro, acionando rapidamente o aquecedor para fazê-la sentir-se melhor. Haven encostou a cabeça na janela embaçada, franzindo a testa quando os altofalantes da rodoviária anunciaram o embarque para o ônibus que seguiria rumo a Chicago.


Capítulo 11 As coisas mudam. Às vezes de maneira abrupta, fazendo com que fiquemos sem chão no momento em que a vida nos surpreende com um acontecimento repentino, virando nosso mundo de cabeça para baixo, despedaçandoo e fazendo com que aqueles que ficaram para trás tenham de recolher os pedaços. Outras vezes, a mudança acontece devagar: uma hora, um minuto ou um segundo de cada vez, de um jeito tão vagaroso que ninguém poderia dizer com certeza quando a transformação aconteceu. Você se encontra em algum lugar onde nunca esteve, fazendo coisas que nunca fez, sendo uma pessoa que nunca imaginou que seria. Pelo fato de Dia estar ocupada e de todas as pessoas que Haven conhecia viverem a centenas de quilômetros de distância, a jovem costumava ficar sozinha a maior parte do tempo no pequeno apartamento em Charlotte. Às vezes ela se aventurava para fora de sua zona de conforto. O ar fresco e a mudança de ambiente a ajudavam a clarear os pensamentos. Ela atravessava a rua em direção a um pequeno parque e sentava-se em um dos balanços. Em geral, o lugar ficava vazio no período da manhã, por causa do clima ainda frio. Haven gostava do frio; o ar gelado aguilhoava seu rosto e a fazia lembrarse de que ainda estava viva. Não importava o quanto isso a machucasse, ou o quanto ela sentisse como se estivesse morrendo por dentro. Não estava. Ela ainda respirava, e a cada vez que soltava o ar dos pulmões reafirmava essa realidade com uma nuvem de ar quente que se formava à sua frente. E enquanto ela ainda estivesse respirando, tudo estaria bem. Sempre que tinha tempo, Dia ajudava Haven a entender como fazer coisas simples que Carmine nunca tivera a oportunidade de lhe mostrar. Coisas do dia a dia, como enviar cartas pelo correio. Haven então comprou alguns cartões postais e os enviou para Tess e Dominic, que estudavam do outro lado do país. Ela também aprendeu com a amiga a usar o computador, e logo configurou uma conta de e-mail para manter contato com os dois. A sensação de ver uma mensagem endereçada a ela na caixa de correio era indescritível. A maioria das pessoas está acostumada a se comunicar livremente e aceita isso como um fato corriqueiro, mas para Haven era algo importante, pois provava que ela tinha uma identidade; que ela era real. A primeira vez que recebeu lixo eletrônico, um panfleto de uma empresa local anunciando produtos, Haven ficou entusiasmada. Ela não tinha certeza de como eles haviam conseguido seu nome e endereço. Ao ver aquilo, Dia deu de ombros e sugeriu que a jovem excluísse o spam, mas ela se recusou a fazê-lo. Afinal, Haven havia sido reconhecida como alguém que estava viva e era igual a qualquer outra pessoa do mundo. Ela já não era Haven Antonelli, uma ex-escrava, mas Haven Antonelli, uma cliente em potencial. E, para ela, isso era tudo. As coisas ficaram mais leves depois que ela decidiu por si mesma dar uma chance à vida, embora ainda tivesse algumas recaídas. Haven sentia uma imensa falta de Carmine; seu amor nunca vacilou, nem uma vez sequer. Com frequência ela escrevia cartas para ele também, mas nunca as enviava. Não sabia, nem se importava em saber, se era por orgulho, se estava com raiva ou se tinha medo; algo a impedia de chegar até ele de novo.


Certa manhã, Haven acordou com o sol invadindo as janelas do apartamento em Charlotte. O inverno desaparecera; janeiro se transformara em fevereiro, e março havia florescido diante de seus olhos. Ela saiu da cama e abriu a janela, respirando o ar fresco da manhã e olhando para a rua abaixo. As árvores estavam cheias de folhas em vários tons de verde; pequenas flores começavam a se abrir e a tingir a paisagem com cores que não estavam lá no dia anterior. Depois de se arrumar, deu uma volta pela sala de estar. Dia já havia saído, então o local estava silencioso e tranquilo. No entanto, havia um bilhete e um folheto sobre os livros que deixara na mesa na noite anterior. Haven o pegou com curiosidade antes de caminhar até a pequena cozinha. No bilhete estava escrito: Achei que você pudesse se interessar por isso, Dia. Entornando o suco num copo, Haven tomou alguns goles enquanto examinava o panfleto. Na capa estava escrito “Programação de Primavera da Academia de Artes de Charlotte” e, logo abaixo, havia uma lista dos próximos workshops. Ela leu com atenção e parou num dos programas no meio da página: “Pintura – Curso Básico”. A descrição dizia: Pintura 101 Este workshop gratuito irá ajudar os alunos a se soltarem e a verem o mundo sob um prisma diferente. Os participantes irão experimentar a alegria da arte da pintura e aprender a expressar-se de maneira nova e criativa. Nenhuma experiência é necessária. Todos os materiais estão incluídos. Data: 12 a 23 de março (segunda a sexta). Horário: das 12h às 15h . Doze de março. Haven olhou para o calendário, percebendo que o curso começava naquele mesmo dia. Ela leu o panfleto três vezes antes de colocar o copo na pia. Ponderou por um momento, perguntando a si mesma se realmente seria capaz de fazê-lo. Então ela deu de ombros, pegou suas coisas e saiu do apartamento, deparando-se com o Mazda estacionado do outro lado da rua. A jovem caminhou até o carro e, hesitante, passou a mão sobre o capô reluzente antes de sentar-se no banco do motorista e ligar o carro. Ela estava nervosa enquanto dirigia pela cidade e, o tempo todo, recitava para si mesma: Se não for por você, faça-o por Carmine.

Demorou um pouco para que Haven encontrasse o lugar e mais alguns minutos até que descobrisse onde estacionar. Quando enfim entrou na Academia de Artes de Charlotte, já tinham se passado quinze minutos do meio-dia. Um pouco desanimada, mas segurando firme o panfleto na mão, caminhou até uma senhora que estava sentada atrás de uma mesa no saguão.

Eu sei que talvez seja tarde demais…Mas eu queria saber sobre o curso básico de pintura que começou hoje.

Pintura? – perguntou a senhora.


Haven acenou com a cabeça.

– –

Sim, senhora.

Você está com sorte – disse ela. – Há uma vaga em aberto. Haven preencheu a papelada, tentando manter a mão firme enquanto escrevia seu nome. Assim que ela se registrou, a mulher a levou até a sala de aula. A iluminação era agradável; música clássica suave preenchia o ambiente vinda dos alto-falantes instalados no teto. As estações de trabalho individuais eram dispostas em fileiras e havia um homem na parte da frente, sentado em cima de uma mesa com os braços cruzados sobre o peito enquanto olhava para a turma. Os olhos dele logo se fixaram nela, então ele sorriu e caminhou até a porta.

– –

Temos mais uma aluna – disse a senhora, entregando-lhe a papelada. – Haven Antonelli.

Prazer em conhecê-la – disse ele, apertando sua mão. – Deixe-me mostrar-lhe sua estação de trabalho. Ele a instalou na última estação de trabalho disponível e a instruiu para que, naquele dia, apenas explorasse o material. Ela sentou-se ali por um momento, olhando para a tela em branco enquanto ele se afastava. Um sorriso formou-se em seus lábios quando ela pegou um pincel, mergulhou-o em um recipiente com tinta vermelha e desenhou um coração simples no centro.

Pela primeira vez Haven chegou em casa depois de Dia aquela noite. Já estava escurecendo quando ela subiu as escadas até o apartamento no sexto andar, trazendo debaixo do braço seu primeiro quadro. Dia estava sentada no chão da sala de estar, em meio a pilhas de fotos recém-trabalhadas e esparramadas por todos os lados. Ela ergueu a cabeça quando Haven entrou e seus olhos logo se fixaram na tela embrulhada.

– –

Como foi? – ela perguntou, cautelosa.

Foi muito bom – disse Haven. – Eu gostei muito. Dia pegou o quadro, desembrulhou-o e segurou-o, examinando as características do trabalho: as cores e a forma destorcida dos corações.

É incrível! Vamos pendurá-lo! Haven deu risada.

Isso foi só um exercício.


E daí? – Dia pulou por cima das pilhas de fotografias e seguiu em direção ao armário em busca de um martelo e pregos. Em seguida, saltou no sofá e pendurou a tela de maneira um tanto torta no centro da parede. Depois de fixar o quadro, ela pulou de volta no chão e examinou o trabalho com mais atenção.

É sua primeira pintura! Você deveria estar orgulhosa. Haven olhou para a tela por um momento, ostentando um leve sorriso nos lábios.

Eu estou. Estou muito orgulhosa. Ao longo de todas as noites daquela semana o ritual se repetia, e outra pintura era pregada na parede logo que Haven chegava da aula. Em pouco tempo, os quadros estavam cercados de fotografias novas que Dia havia revelado durante os meses que Haven passara ali. O ambiente, que no passado recente fora despido de imagens para evitar a dor, estava vivo de novo e repleto de cores vibrantes e memórias felizes.

La Cosa Nostra de Chicago é administrada de maneira diferente do que acontece nas facções no Leste. Em Nova York, por exemplo, as cinco famílias mantêm entidades separadas dentro da cidade, embora todas ainda pertençam a uma organização maior. Os chefes e suas equipes se reúnem com frequência para discutir os negócios e encontrar soluções, cuidando para maximizar os lucros enquanto reduzem as disputas internas. É uma comissão, um congresso de dirigentes da Máfia que se encontram, votam, são eleitos, elaboram planos e governam a instituição segundo orientações preestabelecidas. Em outras palavras, trata-se de uma democracia que, apesar de bastante sangrenta, violenta e totalmente ilegal, funciona como tal. O mesmo, entretanto, não ocorre em Chicago. Durante décadas, a organização na cidade tem funcionado como uma ditadura. Os membros muitas vezes tentam dar a ilusão de que existe alguma justiça dentro das fileiras; os homens fingem que concordam para se sentirem importantes, mas ninguém se engana. Um único indivíduo governa tudo. Ele estabelece todas as regras e decide se você irá viver ou morrer. Por causa disso, Nova York e Chicago têm mantido uma relação complicada desde o início. Às vezes se amam, outras, se odeiam. O fato é que sempre existe um pouco de ciúme, tanto por parte dos mandachuvas do Leste, que almejam a independência do Chefão em Chicago, quanto dos membros da equipe na Cidade dos Ventos, que anseiam pelo maior controle. Sob o reinado de Antonio DeMarco, as cidades sempre mantiveram uma comunicação aberta, mas desde sua morte troca e colaboração deixaram de existir. Eles até haviam combinado contar uns com os outros em pequenos favores sempre que um dos lados precisasse. Era uma aliança de conveniência dentro de uma guerra maior. Todavia, na última vez que alguém em Nova York ligou pedindo ajuda, Salvatore ignorou os apelos. E, se as facções não são amigas, elas podem muito bem se transformar em inimigas. O fato é que os ânimos estavam exaltados e vários acordos eram feitos por fora; o dinheiro transitava entre as cidades debaixo do nariz dos chefes. Ninguém sabia dizer se estava por dentro do que acontecia de fato, ninguém


tinha ciência de tudo o que era dito e feito por cada grupo, mas uma coisa era inegável: o respeito entre os lados havia acabado. Portanto, todo mundo se tornara um alvo em potencial, e ninguém hesitaria em voltar-se contra o outro para salvar a própria pele. Eram tempos tumultuados… Outra fonte de preocupação para Corrado, que não queria ter de lidar com isso. – Como anda esse negócio do cassino? – perguntou Sal, balançando o uísque em seu copo enquanto se reclinava de maneira despreocupada em sua cadeira no escritório. Os homens estavam sentados ao redor dele, em silêncio. Alguns bebiam sem parar enquanto outros, como Corrado, apenas deixavam o tempo passar até serem liberados. O silêncio na sala era sufocante e ninguém respondeu à pergunta do Chefe.

É assim? – perguntou Sal, com a voz irritada. – Nenhum de vocês tem algo a dizer? Vocês deveriam ser os melhores no que fazem, mas nenhum é capaz de abrir a boca? Nenhum de vocês é capaz de dar um jeito nessa situação?

– –

É impossível – murmurou um Capo do outro lado da sala. – Isso não pode ser feito, Chefe.

Bobagem – disse Sal. – Nada é impossível. Com tanta pressão sobre a organização, e por conta da atenção da Receita Federal em cima de seus negócios, Sal estava variando sua fonte de receita. Mas enquanto eles estavam ocupados mantendo o controle sobre uma Chicago caótica, enfrentando os russos e encarando uma disputa de longa data com os irlandeses, seus pares nova-iorquinos haviam se espalhado por todo o país. O problema, entretanto, era que as facções guardavam rancor umas das outras, portanto, o que Sal encontrava pela frente ao tentar expandir sua área de atuação eram barreiras e recusas. Ninguém queria fazer negócios com o Salamandra.

O cara que é dono do cassino cresceu em Manhattan – explicou o Capo. – Ele está sob proteção. Não podemos escoar dinheiro por lá sem a aprovação deles e isso é justamente o que ninguém de lá está disposto a fazer. Não para você.

– –

Faça com que aprovem – disse Sal. –Não permita que digam “não”.

E iniciar uma nova guerra? Por causa de um cassino? Sal balançou a cabeça, tomando um pequeno gole do líquido em seu copo.

– –

É uma questão de princípio.

É suicídio. Uma risada seca e inconfundível ecoou do outro lado da sala. Corrado virou a cabeça na direção de Carlo, que estava de pé, encostado na parede.

E desde quando somos covardes? Nós não recuamos nem pedimos permissão. Tomamos o que queremos.


Sal assentiu.

– –

Estou feliz que alguém aqui tenha compreendido o que eu disse.

É claro – disse Carlo. – E não se preocupe com isso, Chefe. Você precisa da colaboração deles? Eu vou dar um jeito. Tenho meios para isso. Aliás, você sabe que este tipo de negócio é minha especialidade. Um sorriso sinistro se abriu no rosto de Sal.

Sei que posso contar com você. Murmúrios se espalharam pela sala, mas Corrado permaneceu em silêncio, esperando até que Sal os liberasse num movimento petulante com a mão. Então ele se levantou e acenou de volta para o Chefe, antes de sair da mansão. Corrado seguiu direto para sua casa, encontrando-a escura e silenciosa. Não havia sinal de Celia em lugar algum e, pela primeira vez, Corrado se sentiu grato por voltar para uma casa vazia. Ele arrumou sua mala, nem mesmo se preocupando em acender uma luz, e escreveu um bilhete curto para a esposa.

NÃO ESPERE POR MIM.

Celia não o faria. De fato, ela já não o fazia há muito tempo. Ela sabia que se ele não tivesse chegado até uma certa hora, provavelmente ele não viria para casa naquela noite, então ela iria para a cama com nada além de esperança em seu coração de que iria revê-lo no dia seguinte – vivo e tão inteiro quanto possível para um homem como ele. Corrado se dirigiu ao aeroporto naquela noite e comprou uma passagem para um voo noturno para Washington, D.C. Seu avião pousou perto do amanhecer e ele alugou um carro. Em seguida, viajou até um pequeno restaurante do outro lado de Arlington, na Virgínia. Ele já havia estado ali duas vezes no passado, há vários anos, na companhia do homem que procurava naquela manhã. O pitoresco restaurante estava quase vazio àquela hora. Todas as mesas estavam vagas e os poucos clientes estavam sentados nos bancos próximos ao bar. Um pequeno sino acima da porta soou quando Corrado entrou, e todos se viraram para olhá-lo, exceto o homem que ele procurava. Corrado sentou-se no banco bem ao lado dele, seus cotovelos tocando-se um pouco. O homem ficou tenso e parou com a xícara de café a meio caminho de seus lábios, enquanto seus olhos deslizaram na direção do vizinho. Corrado inclinou a cabeça ligeiramente, fazendo uma sutil saudação. – Senador Brolin.

Ah, senhor Moretti – ele disse, colocando a xícara no balcão antes de olhar para trás e observar com cautela os arredores. – O que está fazendo aqui?

Vim para falar com você – disse Corrado.


Como sabia onde me encontrar? Corrado balançou a cabeça enquanto encarava o homem.

Você vem aqui todas as manhãs antes de ir para a cidade trabalhar, pede um café com duas colheres de creme, sem açúcar, e uma rosquinha integral com cream cheese e morango. O homem ficou perplexo.

– –

Como…?

Mereço algum crédito, senador. Achaque não faço meu dever de casa? O senador Cain Brolin é de Nova York, nasceu e foi criado próximo a Hell’s Kitchen, uma região tumultuada de Manhattan. Na juventude se juntara à turma errada, ajudando alguns homens que não deveria, antes de se candidatar. E foi por causa desses homens que seu caminho se cruzou ao de Corrado. Anos antes, junto a outro senador de Illinois, ele se envolvera em um esquema com as famílias de Nova York e Chicago, manipulando a licitação em canteiros de obras do governo para que as empresas controladas pela Máfia ganhassem os contratos e obtivessem lucros substanciais. Pelo que Corrado sabia, ambos ainda mexiam com isso, mas Salvatore tinha sido cortado do esquema há muito tempo, por ser considerado um risco grande demais. Uma garçonete aproximou-se antes que o senador Brolin tivesse a chance de responder, interrompendo a conversa.

Café?

O que posso lhe oferecer, querido?

Corrado balançou a cabeça. – Apenas água. Eu…

Ele não bebe café – disse o senador Brolin. – Faz mal para seu estômago. Corrado olhou para o homem quando a garçonete se afastou.

– –

Vejo que não sou o único que presta atenção.

Claro que não, senhor Moretti. Os dois permaneceram em silêncio até que a garçonete voltou com a água, então se sentaram a uma mesa nos fundos, longe de ouvidos curiosos e bisbilhoteiros.

Então, o que você quer? – perguntou o senador Brolin, pegando sua rosquinha, sem comêla. – Você não é o tipo de homem que faz visitas sociais.

– –

DeMarco. Eu

É verdade – disse Corrado. – E eu não quero algo… Eu preciso de algo. Veja, se é sobre o seu processo pendente, vou lhe dizer a mesma coisa que disse ao doutor


realmente não posso…

Não é sobre isso – Corrado o interrompeu, estreitando os olhos. – DeMarco? Você falou com Vincent sobre o caso RICO?

– – –

Sim, algumas semanas atrás. Ele entrou em contato comigo. O que ele queria?

Ah, não sei bem. Nós não chegamos tão longe. Ele perguntou que tipo de influência eu tinha dentro do Departamento de Justiça, se é que tinha. Eu disse a ele que estava com as mãos atadas por lá e a conversa terminou. Aquilo não fazia nenhum sentido para Corrado, mas ele deixou o assunto para depois. Não tinha tempo para se preocupar com o que seu cunhado estava tramando. Havia coisas mais imediatas que precisavam ser resolvidas.

– – –

Bem, como eu disse, não é sobre isso. Então é sobre o quê?

Há um novo lugar em Connecticut com o qual Salvatore quer fazer negócios: Graves Resort & Casino. É de um sujeito chamado Samuel Graves.

Eu sei disso – disse o senador Brolin. – Graves cresceu com o segundo no comando da famiglia Calabrese. Ele é amigo meu. Ambos são, na verdade.

Eu imaginei. E essa família, por acaso, não é nossa maior fã nos dias de hoje. Ainda tenho conexões com as famiglia Amaro e Geneva, mas não com os Calabrese – Corrado acenou negativamente a cabeça. – Sal os ofendeu em muitas ocasiões e, agora, sem a aprovação deles não há acordo.

– – – –

O que você espera que eu faça? Eu preciso de você para conseguir que essa parceria seja fechada. E por que eu faria isso?

Por quê? – Corrado zombou, recostando-se na cadeira. – Porque eles vão pressionar para que isso aconteça de uma maneira ou de outra, pouco importa se de maneira amigável ou não. Eles já estão fazendo planos para dar andamento ao assunto. E tenho certeza de que não preciso lhe dizer, senador, o que poderia acontecer se uma guerra entre Nova York e Chicago eclodisse. Senador Brolin continuava com a rosquinha na mão; seus olhos estavam voltados para baixo, enquanto ele se concentrava em seus pensamentos.


Por que esse cassino? – perguntou ele enfim. – Vocês já têm homens em Vegas. Por que não se concentram lá?

Muita atenção em Vegas – Corrado respondeu. – A comissão encarregada de investigar jogos está em cima de nós. Metade da nossa equipe não pode sequer pisar legalmente dentro de um cassino naquela cidade, inclusive eu. Temos que procurar outro lugar.

Tudo bem – ele empurrou o prato dela do, olhando para o relógio antes de encarar Corrado. – Vou falar com alguns amigos e ver o que posso fazer.

– –

Isso é bom.

Você me deve uma – disse o senador Brolin, jogando algum dinheiro na mesa antes de se levantar. – Você sabe como essas coisas funcionam.

Com certeza – disse Corrado. Ele não esperava nada menos que isso. – Um favor em troca de outro favor.

Exatamente – o senador Brolin colocou o casaco, balançando a cabeça. – Se bem que, para ser honesto, manter a paz é um favor para todos nós… E parece estar ficando cada vez mais difícil com o passar dos anos. Não sei o que deu nesse chefe de vocês. Com certeza, pensou Corrado consigo mesmo enquanto o homem se afastava.

Nem eu.

Corrado já estava de volta em casa ao anoitecer daquele mesmo dia. Entrou e encontrou a esposa dormindo em sua cama, com o telefone celular preso à mão. Ele o retirou e o colocou na pequena mesa de cabeceira, deu um beijo em sua testa quente antes de sair para o clube para cuidar de alguns assuntos. Era uma quinta-feira – a noite mais movimentada da semana para o seu negócio. Os fins de semana eram geralmente reservados para as relações familiares dos mafiosi, celebrações e encontros obrigatórios com as esposas, enquanto a noite de quinta era quando os homens se soltavam. Ele entrou no Luna Rossa, dispensou os seguranças logo na entrada e seguiu na direção de seu escritório na parte de trás. Seus passos vacilaram na metade do caminho quando ouviu seu nome sendo chamado pela voz estridente do Chefe.

Corrado! – Sal fez um gesto para que ele se juntasse ao grupo numa das mesas. – Venha, tome uma bebida. Comemore com a gente!


O que estamos comemorando? – perguntou Corrado, puxando uma cadeira enquanto fazia sinal para sua garçonete favorita. – Traga-me o de sempre.

Estamos comemorando o negócio do cassino – disse Sal. – Finalmente entramos em acordo. Corrado ergueu as sobrancelhas.

Sério? A garçonete se aproximou, trazendo um pequeno copo cheio de líquido claro para Corrado.

– –

Aqui está, senhor. Da prateleira de cima. Resfriado, como o senhor gosta.

Obrigado, querida – Corrado enfiou a mão no bolso e tirou algum dinheiro, oferecendo à jovem como gorjeta. Ela pegou e se afastou enquanto Corrado tomava um gole da bebida. O líquido frio aliviou sua garganta, descendo de maneira suave. Água artesiana natural de Fiji. Ninguém nunca perguntou o que ele costumava tomar. Todos eles preferiam bebidas escuras – uísque, conhaque, às vezes burbom –, assim não se incomodavam em indagar o que havia no copo de Corrado.

Carlo nem sequer teve de fazer, ah…o que quer que ele esteja acostumado a fazer. – Sal apontou para Carlo, que estava sentado ao lado com o braço em torno de uma jovem loira. – Parece que tomaram juízo por conta própria. Ligaram há cerca de uma hora e disseram que o acordo estava fechado.

Isso é ótimo – disse Corrado, tomando outro gole. – É bom saber com quem podemos contar nesses dias.

Capítulo 12 Os sapatos pretos, um número abaixo do seu tamanho normal, faziam com que fosse difícil para Carmine mexer os dedos dos pés. O terno novo também era sufocante, e o material fazia sua pele coçar enquanto ocupava o banco do passageiro da Mercedes de Corrado. Desconfortável, ele puxou sua gravata de seda azul. Ela o apertava, como uma corda amarrada no pescoço. Tudo o que ele queria era afrouxar o colarinho e tirar o casaco, talvez até mesmo tirar os malditos sapatos, mas tinha certeza de que isso só irritaria seu tio.

O que há de errado com você? – Corrado perguntou como se fosse uma indireta, olhando de esguelha para o sobrinho. – Pare de ficar se remexendo.


Estou tentando – Carmine se deslocou no banco e apertou o pequeno botão na porta para baixar a janela automática, mas nada aconteceu. Corrado bloqueara os comandos. – O carro está um forno. Estou suando como se estivesse na porra de uma sauna.

Você leva jeito com as palavras – ironizou Corrado. – Eu o aconselho a manter seu trabalho durante o dia. Carmine revirou os olhos. Como se ele tivesse escolha.

O aquecedor do carro está ligado ou algo assim? Corrado deu de ombros.

Você está apenas nervoso. Ele quis argumentar, mas não podia. Eles estavam indo a uma festa na casa de Sal e, de fato, Carmine estava no limite. Ele não queria ir e desde o início tentou arrumar desculpas para sair daquela enrascada, mas até mesmo os encontros sociais eram obrigatórios.

Fique longe do álcool esta noite – avisou Corrado. Carmine olhou para ele incrédulo. Sem bebida?

Você vai estar em uma sala com alguns dos homens mais perigosos do país – disse Corrado, percebendo a dúvida em sua expressão. – Acredite, você vai querer se manter sóbrio.

Por quê? – perguntou Carmine de um jeito azedo. – Eu pensava que nós todos fôssemos

uma família.

Nós somos uma família – respondeu Corrado. – Mas você viu o que eu fiz com a minha única irmã. O estômago de Carmine se revirou com a lembrança.

No momento em que chegaram à mansão de Sal, Carmine estava completamente ensopado. Ele respirou fundo, tentando relaxar enquanto acompanhava seu tio à porta. Uma garota logo abriu-a para eles. Ela não disse nada, sequer tirou os olhos do chão. Depois que os dois entraram, ela fechou a porta e se posicionou contra a parede, saindo do caminho. Ela não devia ter mais do que dezessete anos; era uma garota magra de cabelos loiros e pele pálida. Carmine olhou-a com cautela, sabendo desde o primeiro instante o que ela era. Sua linguagem corporal, a maneira como se fundia ao cenário, como um camaleão que se mesclava às cores ao seu redor; tudo aquilo contava uma história que as palavras jamais conseguiriam contar. A pressão em seu peito quase fez dobrar seus joelhos ao lembrar-se de Haven.


– Carmine! Corrado! A voz de Sal desviou a atenção de Carmine da garota. Seu padrinho se aproximou com o braço em volta da cintura de sua esposa. Ela olhou com cara feia enquanto bebia uma taça de champanhe, recusando-se a se rebaixar e falar com qualquer um deles.

Estou contente pelos senhores terem vindo – disse Sal, afastando-se da esposa para estender o braço em direção ao rapaz. Carmine lutou para não fazer uma careta no momento em que pressionou os lábios contra a parte de trás da mão do padrinho, bem próximo ao anel de ouro maciço que ele trazia no dedo.

É claro – disse Corrado. – Não perderia isso por nada no mundo. Sal ergueu as sobrancelhas, olhando de maneira dramática sobre o ombro de Corrado.

– – –

E sua esposa? Onde está Celia, afinal? Ela está se sentindo indisposta esta noite – respondeu Corrado.

Ah, é uma pena. Transmita-lhe meus sinceros votos de melhoras, sim? Corrado assentiu e Carmine fez de tudo para não revirar os olhos. Não havia nada de errado com Celia. Ela apenas havia se recusado a passar a noite com aqueles sujeitos. Eles então mergulharam em uma animada conversa, enquanto Carmine permanecia ali, parado, sabendo exatamente o que era esperado dele. Todos que chegavam à festa logo procuravam Sal; isso se repetiu a noite toda, e o Chefe fazia questão de apresentá-los a Carmine. O jovem, por sua vez, estampava um sorriso falso nos lábios e fingia que concordava com o jogo – fingia que gostava daquelas pessoas, fingia que se divertia, fingia que não havia nenhum outro lugar no mundo em que preferisse estar. Na verdade, o que ele mais fingia era não ter vontade de socar a porra da cara de ninguém. Cada minuto parecia uma eternidade. As duas horas que ele se viu obrigado a ficar ali foram como se toda a sua existência estivesse sendo desperdiçada. Sal tagarelava sem parar, vangloriando-se e gabando-se enquanto se mostrava para Carmine. Ele sabia que estava sendo preparado pelo padrinho. Sal já estava tentando moldá-lo como um fantoche, um soldado, envenenando seus pensamentos com a ideia de ganhar dinheiro, poder e respeito. De um jeito um tanto impaciente, ele esperou até que Sal estivesse bêbado para escapar para longe do grupo, na esperança de que fosse esquecido. O sorriso se desfez de seu rosto enquanto passeava pela casa e caminhava para a mesa de bebidas. Ele pegou um copo pequeno e o encheu com o conteúdo de uma garrafa que já estava aberta, ignorando o aviso de Corrado. A queimação diminuiu a pressão em seu peito, desfazendo os nós na garganta e aliviando os músculos tensos. O jovem encostou-se à mesa enquanto bebia e sua atenção se voltou para a porta da frente. Horas haviam se passado, mas a menina ainda estava ali, em silêncio e imóvel como no momento em que chegaram. Ele a encarou enquanto se perguntava de onde ela teria vindo e por quanto tempo estaria sendo mantida presa na casa de Sal. Ele não conseguia se lembrar dela da última vez que estivera ali. Um momento depois ela espiou furtivamente, inclinando um pouco a cabeça para cima e fazendo com que seus olhos azuis encontrassem os dele. Ela franziu a testa ao perceber que ele a observava, e logo baixou o olhar.


Qual é o seu nome? – perguntou Carmine com curiosidade. Ela ergueu a cabeça mais uma vez, mas não conseguiu responder antes que uma gargalhada soasse atrás dele. Virou-se ao ouvir o barulho de garrafas se chocando e congelou, quase deixando cair o copo que trazia na mão ao ver o rosto repleto de cicatrizes. A familiaridade lhe tirou o fôlego.

– – –

O nome dela é Annie, eu acho – disse Carlo, se servindo de um copo de uísque. Abby – a menina sussurrou, com a voz trêmula enquanto o corrigia.

Não que isso importe – continuou Carlo, encolhendo os ombros. – Você pode chamá-la do que quiser. Carmine não conseguia tirar os olhos dele. Tudo naquele sujeito era desprezível, desde suas palavras insensíveis até sua face horrenda.

Eu prefiro chamá-la pelo nome. Carlo olhou para ele, estudando-o com cuidado.

– – –

É o garoto do DeMarco. Sim.

Faz sentido – Carlo levou o copo outra vez aos lábios. – Ela faz seu tipo. Carmine se enfureceu. Ele lutou para controlar-se, forçando os pés a permanecer onde estavam. Ele não se deixaria provocar. Não ali, não naquele momento.

– –

O que foi que disse?

Ah, não há razão para se envergonhar– disse Carlo. – Se serve de consolo, sempre gostei de dar uma provadinha nas garotas que trabalham para nós. A pequena Annie ali é um docinho. Submissa. Nem sequer ofereceu resistência. Não que alguma delas o faça. Bem… Exceto a sua. Agressiva aquela menina, não é mesmo? Sem dúvidas não puxou isso da mãe. A raiva de Carmine veio à tona.

Seu filho da…! Mas antes que ele pudesse pular sobre a mesa de bebidas e socar o rosto grotesco do homem, um grande número de convidados adentrou o local, fazendo barulho e em seguida se dispersando em diferentes direções. Carlo deu um passo para trás, erguendo seu copo na direção de Carmine com um sorriso ameaçador.

Prazer em conhecê-lo oficialmente, garoto. Nós nos vemos por aí. Ele se afastou quando Corrado se aproximou, pegou o copo da mão de Carmine e colocou-o com firmeza sobre a mesa.


– –

Sua capacidade de ouvir e prestar atenção é surpreendente.

Você sabe o que esse filho da puta acabou de me dizer ? – perguntou Carmine, cerrando os punhos. – Ele simplesmente… Corrado o interrompeu.

Eu não me importo. Ele já galgou aposição que ocupa, Carmine. Você não desrespeita um homem que ganhou seu posto de confiança na organização. Aquelas palavras não surtiram efeito no sentido de diminuir o mau humor do rapaz.

Está na hora de você ir embora – disse Corrado. – Para você, a festa já acabou. Carmine permaneceu imóvel, olhando para o tio enquanto este se virava para retornar ao salão. Era óbvio que Corrado planejava ficar.

E como é que eu vou voltar para casa? Sem olhar para trás, Corrado agarrou a gola de um sujeito que passava pelo lugar, fazendo-o parar.

Você, leve o jovem DeMarco para casa, ok? O cara assentiu com rapidez. Corrado colocou a frase como uma pergunta, mas todos sabiam que o que ele dizia não estava aberto a negociação.

– –

Sim, senhor.

É assim que você volta para casa –disse Corrado, antes de desaparecer dentro do salão. Carmine seguiu o rapaz até o lado de fora, finalmente afrouxando a gravata e dobrando as mangas da camisa. O moço era bastante jovem, tinha vinte e poucos anos, no máximo. Suas sobrancelhas eram espessas, os cabelos castanhos eram curtos. Vestia calças jeans e uma camiseta branca lisa, o que, aliás, deixou Carmine irritado. Afinal, por que ele fora obrigado a vestir aquele terno desconfortável? Já esperando ser levado para casa em outro Mercedes, Carmine ficou surpreso quando o cara parou ao lado de um velho Impala cinza, que o fez lançar um olhar peculiar.

– –

Este é o seu carro? Sim – disse o rapaz, destravando as portas para que eles pudessem entrar. – Algo errado

com ele?

– –

Não, eu apenas pensei…

Você pensou que eu dirigia um daqueles? – perguntou ele, rindo e apontando para a fileira de luxuosos sedãs pretos. – Gostaria de poder bancar um. Talvez um dia. Mas, por enquanto, este bebê dá para o gasto.


É legal – disse Carmine, ocupando o assento do passageiro, cujo couro estava rachado. O interior estava manchado e cheirava a uma combinação de óleo e suor, contudo, ele se sentia mais à vontade dentro dele que no carro de Corrado. Risos cortaram o ar, mas foram quase abafados pelo ronco do motor velho e barulhento, que ameaçava falhar e fazia com que o carro sacudisse sem parar.

Isso aqui é uma merda, cara, mas pelo menos é uma merda que está paga. Carmine não disse muita coisa durante o trajeto, o que não impediu que o sujeito falasse sem parar em sua orelha. Embora fosse perturbador e desgastante, era exatamente daquilo que ele precisava. Afinal, enquanto estava ocupado escutando a tagarelice do rapaz, Carmine tinha pouco tempo para pensar; pouco tempo para se debruçar sobre os assuntos que o mantinham acordado durante a noite. Apenas quando o carro diminuiu ao entrar na rua e estacionou na frente de sua casa, Carmine se deu conta de que não dera instruções ao cara.

– –

Como você sabia onde eu moro?

Você está de sacanagem, não é? – ele perguntou. – Você é um DeMarco. Sua família faz parte da realeza, e até mesmo um mendigo inglês todo fodido sabe onde é o Palácio de Buckingham. Carmine balançou a cabeça. É, ele deveria saber disso.

– –

Obrigado pela carona.

Quando quiser. A propósito, meu nome é Remy. Remy Tarullo. Carmine abriu a porta do carro e congelou ao ouvir aquele nome.

– – –

Tarullo? Sim, como a pizzaria da Quinta Avenida.

Alguma relação? – perguntou Carmine. Remy assentiu.

Meu pai é o dono do lugar. A boca de Carmine ficou seca. De repente, ele sentiu que não conseguia engolir a própria saliva. Fazia tempo que não ia lá, mas ele conhecia bem o local.

De qualquer modo, eu não apareço muito por lá – continuou Remy. – Meu pai não concorda com meu estilo de vida, você sabe o que quero dizer. Bem, foda-se, não importa. Aliás, acho que você não faz ideia, não é? Afinal, você também faz parte de tudo isso, então não tem que lidar com esse tipo de situação, digo, seu pai olhando para você como se você fosse uma decepção, como se você estivesse fodendo a vida de todo mundo ao se enfiar nisso.


Carmine não disse nada, mas Remy não fazia ideia do quanto estava errado. Ele conhecia muito bem aquele sentimento.

Seja como for, acho que já falei demais – disse Remy, mexendo num velho relógio de ouro no pulso. – Desculpe, cara. Estava só desabafando, especialmente depois do que aconteceu com meu irmão mais novo. Aquelas palavras fizeram disparar o coração de Carmine. Dean Tarullo. Carmine quase se esquecera do garoto no armazém.

– – –

O que aconteceu com ele? Ele se envolveu com as pessoas erradas, acho. Desapareceu meses atrás.

Ele está desaparecido? A voz de Remy estava tranquila. – Sim, mas não é um desaparecimento do tipo que a pessoa um dia é encontrada, se é que você me entende. O barulho ensurdecedor dos tiros soou mais uma vez na mente de Carmine; a lembrança de Corrado silenciando o menino se infiltrara para sempre em sua cabeça. – Sim – murmurou Carmine –, eu entendo muito bem.

Haven estava sentada no banco verde metálico do parque observando toda a atividade ao seu redor. Ela havia acabado de sair de sua última aula de arte e seu projeto final repousava ao lado dela, cuidadosamente embalado e protegido com papel pardo. Surpreendera-se com o efeito terapêutico da pintura; duas semanas de arte haviam lhe proporcionado a calma que três meses de choro e espera não tinham sido capazes de gerar. Aquele curso escancarou para o mundo sua coragem e determinação. O desenho era técnico, as linhas e os detalhes tinham de ser precisos, mas, quando pintava, ela podia relaxar e derramar suas emoções sobre a tela. Cada obra de arte realizada possuía um significado especial, embora a jovem estivesse consciente de que os outros olhariam para os quadros e veriam algo diferente. Ela apreciava aquela característica da pintura; era como se a imagem possuísse um código oculto e apenas ela soubesse o segredo. Ela estava contando sua história, mostrando todos os detalhes mais ásperos da sua vida sofrida, porém as pessoas não tinham como saber. Ela nunca poderia dizer ao mundo, mas não havia nada que lhe impedisse de mostrar a ele o que enfrentara, contanto que ninguém soubesse o que de fato estava vendo. Haven ficou ali por um tempo, apreciando a tranquila tarde de primavera, antes de reunir suas coisas e atravessar a rua em direção ao apartamento. O anoitecer estava se aproximando e Dia já devia ter retornado da faculdade. Elas haviam feito planos para sair e comemorar o fim do seu workshop, mas Haven não sentia muita vontade de comemorar. Agora que tudo acabara, outro vazio se apossava de seu peito.


Ela chegou ao edifício e caminhou pelo saguão enquanto a porta do elevador já se abria. Um homem vestindo um boné de beisebol preto saiu de dentro dele e segurou a porta ao vê-la se aproximar.

Obrigada – disse ela, sorrindo com educação.

Ele assentiu.

Não há de quê. Ela entrou no elevador e pressionou o número seis, cantarolando para si mesma enquanto o elevador apitava a cada andar que passava. Ao chegar no andar certo, ela caminhou pelo corredor até o apartamento e encontrou a porta aberta. Dia estava na sala de estar, segurando uma pequena caixa marrom e agitando-a com entusiasmo próxima da orelha. Ela havia tingido os cabelos e feito um coque desajeitado, com fios cheios de tinta caindo por todos os lados. O forte cheiro da tintura impregnava o ar. Haven fechou a porta ao entrar e apoiou sua tela na parede, ao lado da porta.

Que diabos você está fazendo? Dia virou-se de repente e sorriu ao ser pega em flagrante.

– – –

Só estava tentando descobrir o que tem aqui dentro. E por que você não a abre?

Porque não é para mim – disse Dia, estendendo a caixa. – É para você. Haven ficou surpresa ao ver o pacote.

– –

De onde veio isso?

Um cara acabou de entregá-la. Ela piscou algumas vezes.

O carteiro? – Quem iria enviar-lhe um pacote? Dominic? Tess? Celia,

talvez?

Na verdade, acho que ele era um policial. Haven olhou para ela enquanto tentava absorver suas palavras.

– –

Ele disse que era um policial?

Não, na verdade ele não disse muito, apenas perguntou se você morava aqui e deixou a caixa. Eu devia ter perguntado, mas não me ocorreu. Ele teria me dito, você sabe. Eles não podem mentir quando você faz uma pergunta a eles – Dia empurrou a caixa na direção de Haven e disse: – Pegue, preciso lavar meus cabelos. Eu já volto.


Haven olhou a caixa de papelão, mas não conseguiu localizar nenhuma etiqueta; havia apenas um pedaço de fita adesiva mantendo o pacote fechado. Ela cortou a fita com uma faca e abriu as abas, franzindo a testa. Dentro havia um saco plástico transparente com um rótulo no qual estava escrita a palavra EVIDÊNCIA; no interior, havia um caderno que parecia bastante comum. Haven o tirou do plástico e se deparou com um pedaço de papel endereçado a ela, emitido pelo Departamento de Justiça de Chicago.

Senhorita Antonelli,

Gostaríamos de nos desculpar pela apreensão indevida do seu diário. Ele foi confiscado por engano e está sendo devolvido à senhorita nas mesmas condições em que foi apreendido. Mais uma vez, pedimos que aceite nosso sincero pedido de desculpas. Agradecemos desde já sua compreensão. Agente Especial Donald Cerone DEPARTAMENTO DE JUSTIÇA DOS ESTADOS UNIDOS

Em choque, ela começou a piscar enquanto retirava o diário do saco. Haven mal conseguia respirar ao examinar as páginas em que detalhava de maneira desordenada seus mais profundos e obscuros segredos. Eles haviam visto. Eles haviam lido. Eles sabiam de onde ela tinha vindo. Eles sabiam quem ela era.

O que é isso? – perguntou Dia, retornando do seu quarto depois de alguns minutos. Ela esfregou os cabelos molhados com uma toalha branca, que agora estava manchada de várias cores.

preso.

É, ah…É um diário – Haven respondeu. – Eles o levaram quando o doutor DeMarco foi

Ah, droga. Pensei que fosse algo legal – Dia ficou um pouco frustrada, mas logo se animou de novo. – Então, vamos sair esta noite?

Eu preferia ficar em casa – disse Haven, ainda olhando para o diário. – Foi um longo dia. Talvez amanhã?

Amanhã estarei em Durante para a semana de primavera, lembra? Você pode vir comigo se quiser. Poderíamos passear no Lago Aurora. O pensamento de retornar a Durante fez sua cabeça quase explodir. Ela não estava pronta para ver aquele lugar novamente.


– –

Talvez da próxima vez. Então está combinado – disse Dia. –Depois que eu voltar de lá nós vamos comemorar.

Uma brisa forte soprou pela casa da fazenda abandonada em Blackburn. Ela vinha de uma janela aberta no primeiro andar. A areia do deserto se acumulava ao longo das passagens e rodopiava, formando mini ciclones que sujavam os sapatos de Corrado. O pó mesclado ao cheiro de mofo fazia seu nariz coçar e, como um escudo fosco, recobria tudo o que estava no local: móveis, objetos, e até mesmo a velha mancha de sangue no hall e os arranhões na madeira do corrimão, onde certamente alguém já havia sido acorrentado como um cão. A casa parecia como qualquer outra casa abandonada, esquecida ao longo da estrada desolada. Não havia nada de especial, exceto pelos segredos ocultos sob a grossa camada de sujeira. Mas Corrado sabia a verdade. Ele já tinha ouvido histórias suficientes e testemunhado cenas tenebrosas o bastante para saber que aquela casa de aparência inocente era quase um portal para o inferno. E a guardiã daquela passagem fora sua própria irmã. Meses haviam se passado desde a última vez em que alguém estivera ali; desde o dia em que três pessoas morreram dentro do estábulo que ficava bem perto. Na ocasião ele fizera uma limpeza rápida, livrando-se de tudo que fosse incriminador, mas o resto deveria ser deixado para Haven, a parente mais próxima. O espólio estava quase resolvido, cada centavo do dinheiro dos Antonelli fora transferido para uma conta em nome da garota. O que ainda precisava ser resolvido era o que fazer com as propriedades; o amor de Katrina pelas coisas materiais era evidente pelo grande acúmulo de objetos. Corrado não era um homem supersticioso. Muitas vezes precisara se conter para não rir de Gia DeMarco durante uma de suas alucinações malucas. Porém, estando naquele lugar e perambulando pela casa abandonada, ele ainda podia sentir o mal que residia dentro dela. O ar carregado com ódio e más intenções o sufocava, impregnando tudo que via pela frente e tentando desesperadamente encontrar um caminho para adentrar seu corpo e conseguir sobreviver. Mas Corrado era forte e seguro demais para permitir que aquilo se infiltrasse em seus pulmões. Em vez disso, aquela coisa rancorosa e opressiva apenas se arrastava pela superfície de sua pele, eriçando os pelos em sua nuca. Ele havia matado sua irmã e descartado o corpo dela, porém, os demônios que a possuíam, sua inveja, sua sede de vingança, sua crueldade e seu orgulho, permaneciam ali, intocados. E ele podia sentir tudo aquilo ao seu redor, oprimindo-o e tentando forçá-lo para fora a cada passo que dava no interior. Fazendo o possível para ignorar a terrível sensação, ele passou a hora seguinte andando pelo lugar, verificando salas, armários e gavetas à procura de qualquer coisa que Haven pudesse querer. Vasculhou o lugar inteiro, virando móveis de cabeça para baixo e destruindo coisas que não interessavam. Quanto a objetos de uso pessoal, ele saiu de mãos vazias, mas encontrou um pouco de dinheiro escondido, além de


algumas joias que poderiam ser vendidas e render algum dinheiro para a jovem. O resto parecia irrecuperável aos seus olhos; nada valia a pena salvar. Não havia fotografias nem lembranças. Nada que admitisse de alguma maneira que Haven fosse parte da família ou que qualquer pessoa que já tivesse vivido naquela casa tivesse se importado com sua existência. Ele estava se livrando de algumas coisas dentro de um closet, já no andar de baixo, quando atingiu um painel solto na parede. Sem perder tempo, Corrado o chutou para o lado, encarando o buraco que surgiu à sua frente. Então viu algo prateado escondido no local. Enfiou a mão ali e tocou no que parecia ser uma alça. Ele teve de empregar um pouco de força para arrancar o objeto, o que levantou uma pesada nuvem de poeira que fez arder seus olhos e pulmões. Depois de deixar o closet, Corrado examinou o objeto com surpresa. Era uma antiga valise de alumínio, pesada e aparentemente cara. O tempo havia tirado seu brilho, mas ela se mantinha intacta. Tentou abri-la forçando a fechadura, mas, sem sucesso, atirou-a no chão. Frustrado, considerou por um momento deixá-la ali mesmo, mas algo lhe dizia para que não o fizesse. O objeto sem dúvidas fora escondido por anos, talvez décadas. Ele não conseguia entender o que aquela valise poderia conter para exigir tamanha proteção. Era um enigma, um quebra-cabeça… Um mistério que ele precisaria decifrar. Por fim, ele a apanhou do chão e se dirigiu para fora, jogando-a no banco de trás do carro alugado. Olhou para a casa, ainda tendo uma sensação estranha, como se algo se esgueirasse por sua pele. A noite se aproximava e o sol mergulhava com rapidez por trás das montanhas e dos penhascos do deserto. Após hesitar por algum tempo, retornou à casa, reuniu alguns livros e algumas roupas que estavam na sala, formando uma pilha. Em seguida, foi ao porão, onde encontrou um recipiente com solvente de tinta. Corrado espirrou o conteúdo sobre os objetos antes de pegar no bolso uma caixa de fósforos do Luna Rossa. Em seguida, acendeu um palito e olhou brevemente para a chama antes de atirá-lo sobre a pilha. O fogo logo se espalhou enquanto Corrado caminhava de volta ao carro, deixando a porta da frente aberta. Ele se afastou da propriedade e seguiu em direção à estrada, rumo a Blackburn. O vento soprava forte e a sujeira do ar seco seria suficiente para encobrir os rastros dos pneus. Na casa havia oxigênio suficiente para que tudo fosse destruído pelas chamas. Dada a localização isolada do imóvel e o céu escuro, levaria horas até que alguém avistasse a fumaça, tempo suficiente para que o lugar queimasse por completo. Um brilho laranja já iluminava o piso inferior da casa quando olhou no espelho retrovisor pela última vez. Os tons amarelo e vermelho se misturavam aos do pôr do sol, que banhava o solo no entorno da propriedade. A tensão em seus músculos e a sensação ruim em sua pele começaram a se dissipar à medida que ele se afastava do lugar. Um pequeno sorriso surgiu no canto dos seus lábios. Que melhor maneira de mandar o mal de volta ao inferno que por meio do fogo?

Capítulo 13 Enquanto Dia estava a caminho de Durante para visitar seus pais, Haven aguardava um visitante em particular. Ela sentou-se na sala de estar do silencioso apartamento, mantendo no colo o diário que lhe fora entregue pelo agente federal. Folheou-o inúmeras vezes, relendo trechos como se esperasse que, de alguma maneira, as palavras pudessem mudar.


Mas elas não mudariam. De fato, todas as vezes que olhava para elas, só pareciam piorar. Estava tudo ali, preto no branco. Tudo o que ela prometera jamais contar a alguém estava explicado de maneira clara e com a mais absoluta simplicidade. Ela sentia seu estômago revirar. Depois de algum tempo de espera, ela finalmente ouviu uma batida na porta, firme e determinada. Haven largou o diário e foi até a porta, com o coração disparado. O doutor DeMarco entrou sem dizer uma palavra e então ela fechou a porta atrás dele.

– –

Sinto muito incomodá-lo… senhor.

Você não está me incomodando – disse ele, fazendo uma pausa na sala de estar. Seus olhos pousaram por um instante na parede abarrotada de quadros e fotos, antes que ele se voltasse para ela. – Estou feliz que tenha ligado. Onde ele está? Ela apontou para a mesa onde o diário repousava.

Eu não fazia ideia de que eles tinham isso em mãos. Doutor DeMarco o pegou e respirou fundo.

Eu já sabia. Ela ficou boquiaberta.

– –

Você sabia?

O agente Cerone mostrou-o para mim. Ele pensou que me forçaria a falar se eu soubesse o que você havia escrito. Ela sentiu como se tivesse levado um soco no estômago. De repente foi como se ela despencasse do décimo andar de um prédio e caísse no concreto. Sentiu-se um pouco zonza e procurou um lugar para se sentar.

– –

Então você o leu?

Na verdade foi ele quem leu algumas passagens para mim, não pude evitar ouvir o que continha. A cabeça da jovem girava enquanto tentava imaginar o que ele poderia ter escutado.

– –

Sinto muito. De verdade. Eu estava chateada quando escrevi algumas daquelas coisas e… Não se desculpe – disse ele, meneando a cabeça. – Você tem todo o direito de se sentir

como quiser.

– –

Mas agora eles sabem a verdade –disse ela. – Agora o governo sabe sobre mim.

Sim, mas não há nada que eles possam fazer em relação a isso. Você tem direito à privacidade com o seu diário. Eles não poderão usar nada disso sem a sua autorização.


Aquela resposta a fez sentir-se mais aliviada.

– –

Então eles não podem fazer nada?

Não, o que não significa, entretanto, que irão esquecê-lo. Em termos jurídicos, esse diário pode ser inadmissível no tribunal, mas existem outras maneiras de eles o utilizarem. E confie em mim quando eu digo que eles o farão. Aliás, já estão fazendo.

– –

Como assim? – perguntou ela. – O que eles podem fazer?

Exatamente o que fizeram. – Ele ergueu o diário. – Veja, isso não lhe foi devolvido por conta da bondade que inunda o coração de Cerone. Ele o fez para tentar me atingir… Para provar algo. – E o que seria?

Não importa – ele disse. – Isso é entre mim e ele. Sua voz era calma, mas o tom, firme. Ela não fez mais perguntas; sabia que não iria conseguir mais nenhuma informação dele.

– – –

Você tem mais desses? – ele perguntou. – Mais algum diário? Hesitante, ela assentiu com a cabeça. Alguns.

Pegue-os para mim, por favor. Esse “alguns” acabaria se revelando quase uma dúzia. Ela os trouxe do quarto e os colocou sobre a mesinha, bem na frente de DeMarco. Ele os olhou pensativo e examinou as capas, mas não abriu nenhum deles.

– – –

Eles precisam ser destruídos. São perigosos demais para que você os mantenha aqui. Mas você disse que eles não podem usá-los – disse ela.

Você está certa, mas não é só com a polícia que você tem de se preocupar. Se algumas dessas informações caírem nas mãos erradas, seria uma verdadeira bomba atômica – ele fez uma pausa, sacudindo a cabeça. – Com certeza, catastrófico. Ela não discutiu. Haven não faria isso; não podia. DeMarco se afastou do diário depois de um momento, caminhou em direção à janela e olhou para a rua abaixo. A luz do pôr do sol brilhou em seu rosto.

começo.

Agora eles sabem onde você está morando, portanto suspeito que isso será apenas o


Eu não sei como eles descobriram meu endereço – disse ela. – Tentei me manter discreta, exatamente como Corrado me disse para fazer.

– –

Você não fez nada de errado – assegurou Vincent. – Foi tudo minha culpa.

Sua culpa? Vincent apontou para o próprio pé.

Esqueci que estavam me monitorando. O olhar de Haven se desviou para o monitor GPS no tornozelo dele. Estranhamente, ela sentiu algo nas costas, onde havia a pequena cicatriz, e logo se lembrou do chip que costumava ter sob a pele.

– – – –

Eles o seguiram. Sim. Então eles sabem que está aqui agora.

Correto – ele respondeu. – É certo que irão vigiar esse lugar, agora que sabem que vive aqui. E Dia confirmou isso quando recebeu a caixa.

– –

Mas… Por quê? Por que eles não me deixam em paz? Eu não fiz nada.

É verdade, Haven, mas eu fiz. Sua explicação fazia pouco sentido para ela.

Devemos pensar em transferi-la para outro lugar – ele continuou. – É óbvio que a escolha é sua, mas acredito que Corrado irá concordar comigo. Você ficará bem melhor e mais segura se sair do alcance do radar desses homens, pelo menos até que a poeira baixe.

E se eu não me mudar? – ela perguntou. – O que pode acontecer? Ele acenou para que a garota se aproximasse da janela e ela deu um passo em sua direção, hesitando um pouco antes de se colocar ao lado dele. Ele apontou para um homem que estava parado próximo a uma árvore do outro lado da rua, com um telefone celular no ouvido enquanto chutava casualmente alguns frutos de carvalho que estavam na calçada. Para Haven aquilo não parecia anormal. O sujeito lhe era vagamente familiar; talvez um vizinho, ela presumiu, o mesmo com o boné que segurara o elevador para ela no outro dia.


Apresento-lhe o agente Cerone – disse DeMarco em voz baixa. – E se você não se mudar, esteja preparada para encontrá-lo muitas outras vezes.

O vasto processo que fora aberto com base na Lei de Combate a Organizações Corruptas e Influenciadas pelo Crime Organizado estava muito bem arrumado sobre a mesa. Na capa, era possível visualizar uma lista, em letras pequenas, que incluía o equivalente a mais de vinte anos de conspiração criminal. No total havia trinta e duas alegações, que sugeriam o envolvimento de Corrado em dezenas de crimes: assassinato, assalto, sequestro, extorsão, jogo, agiotagem, roubo… Como uma lista de compras de supermercado, a relação detalhava formalmente e de maneira explícita a violência e o caos que há décadas reinavam nas ruas de Chicago. POR VOLTA DE 20 DE MARÇO DE 1988, EM CHICAGO, O RÉU CORRADO A. MORETTI, COM A AJUDA

DE

CÚMPLICES,

CAUSOU

INTENCIONALMENTE A MORTE DE MARLON J. GRASSO; POR VOLTA DE 13 DE ABRIL DE 1991, EM CHICAGO, O RÉU CORRADO A. MORETTI, COM A AJUDA DE CÚMPLICES, CAUSOU INTENCIONALMENTE A MORTE DE… No total eram quarenta e oito páginas, sem interrupção. Corrado passara boa parte da última hora em silêncio, lendo as acusações, revivendo os momentos dos quais ele se lembrava e, inclusive, alguns que desejava poder esquecer. Ele assimilou tudo, absorvendo o resumo do processo, sem demonstrar qualquer remorso. Só havia uma frase simples na primeira página que o perturbava: TRÁFICO DE PESSOAS PARA ESCRAVIDÃO…

– – –

Isso aqui está errado – disse ele, olhando para aquela acusação específica. Eu nunca fiz isso.

A que parte você se refere? Olhando por cima da pilha de papéis, Corrado observou seu advogado do outro lado da sala. Rocco Borza estava sentado a uma pequena mesa redonda, estudando centenas de documentos e fotografias


espalhadas à sua frente. Três outros trabalhavam ao seu lado, organizando todo o amontoado de maneira silenciosa e com bastante cuidado. Como paredes grossas de uma fortaleza, montanhas de evidências os cercavam, ameaçadoras e zombeteiras. Elas eram o único obstáculo entre Corrado e seu futuro. Em algum lugar no meio de tudo aquilo, enfiado nas caixas ou escondido nas fitas de áudio, estaria o último prego a ser martelado em seu caixão, colocando um ponto final em sua vida. O trabalho daqueles profissionais era encontrá-lo e fazê-lo desaparecer. Exasperado, Corrado se levantou e caminhou até a janela, olhando para a rua abaixo. O escritório estava localizado no décimo quinto andar de um arranha-céu recentemente reformado no coração de Chicago. Àquela distância, as pessoas pareciam pequenas manchas coloridas; formigas minúsculas lutando para não serem esmagadas enquanto prosseguiam com suas vidas.

Tudo isso – murmurou Corrado. – Todas as partes dessa coisa estão erradas. Uma risada repentina e penetrante ecoou pela sala, mas o silêncio voltou a reinar tão rápido quanto foi interrompido. Corrado não se virou para tentar descobrir de quem havia partido. Não valia a pena, afinal ele desejaria matar quem quer que tivesse ousado zombar dele, e a última coisa de que precisava naquele momento era de mais uma morte em suas costas. Além disso, se sua vida não estivesse por um fio, talvez teria rido também. O fato é que Corrado tinha pouca esperança de encontrar alguma ajuda naquela sala. A acusação, embora incômoda, soava verdadeira na maioria dos casos. O governo havia feito a lição de casa. Sua única saída seria sabotar o processo.

Você gostaria de levar essas gravações de áudio para ouvi-las em casa? – perguntou Borza depois de um momento.

Depende – disse Corrado. – Quantas são? Sua pergunta foi recebida com silêncio. Corrado se virou, olhando para seu advogado, e viu o homem encarar uma caixa enorme.

Acredito que sejam uns duzentos e vinte CDs, mais ou menos. Corrado piscou rapidamente enquanto calculava. Duzentos e vinte, cada um com oitenta minutos de duração.

– –

São quase trezentas horas de gravações.

É isso – disse Borza. – Mas se os deVincent estivessem incluídos, decerto teríamos o dobro. O pedido da acusação para que os processos de Vincent e Corrado fossem julgados separadamente fora aceito pela justiça, sob a alegação de que assim haveria uma chance maior de condenação. Borza optou por defender Corrado, talvez porque estivesse com medo de rejeitar o homem. E por mais que Corrado simpatizasse com seu cunhado, a ideia de tentar recorrer dessa decisão enquanto sua vida estava em risco com certeza o desencorajava. Afinal, na opinião de Corrado, Vincent já havia perdido a esperança em relação ao seu processo.


Corrado soltou um profundo suspiro quando seu celular começou a tocar. Ele o retirou do bolso, acenando a cabeça ao ver que era o cunhado. E falando no diabo…

– –

Sim?

Temos uma situação um pouco complicada envolvendo a jovem – disse Vincent, fazendo uma pausa antes de acrescentar –, mais uma vez. Frustrado, Corrado deslizou a mão pelo rosto. Haven se tornou um problema maior do que ele imaginara.

Estarei aí o mais rápido possível. Amanhã, talvez depois de amanhã. Tente mantê-la longe de encrencas até eu chegar. Ele desligou, voltando-se para seu advogado.

Diga a ele que se livre de todas as gravações. Não darei conta de olhar tudo. Borza assentiu.

– –

Não vai ser fácil. Eu não disse que seria fácil – respondeu Corrado. – Apenas faça o que digo.

Gotas de chuva pingavam do céu nublado, o que já era umidade suficiente para irritar Vincent. Ele se sentou ao volante de seu carro e se concentrou no barulho da borracha dos limpadores contra o parabrisa ainda seco, acionando-os quando necessário. O ato se repetiu várias vezes, até que enfim ele cansou e desligou o equipamento. Seu carro estava estacionado numa parte vazia de um parque na cidade de Charlotte, ao lado de uma fileira de árvores que levavam a uma pista de jogging. Mesmo com os faróis apagados, Vincent conseguia enxergar a trilha de terra acidentada que serpenteava e desaparecia numa parte escura da floresta. Um lugar perfeito para esconder um corpo, ele pensou. Depois de alguns minutos, um brilho intenso surgiu nas imediações de onde estava. Um carro se aproximou devagar e Vincent estreitou os olhos quando o brilho dos faróis atravessou seu para-brisa, cegando-o temporariamente até se apagar. Vincent piscou algumas vezes, tentando se livrar das manchas coloridas que surgiram nos olhos enquanto o carro parava alguns metros à frente dele. Vincent não hesitou. Raiva e frustração alimentavam a adrenalina que corria em suas veias. Saiu do carro, carregando com firmeza o saco contendo o diário de Haven e logo chegou até o outro veículo. A porta se abriu e um homem saiu de dentro dele, tentando dizer alguma coisa. Mas, antes que dissesse uma única sílaba, Vincent já estava sobre ele, pressionando-o contra o carro e empurrando o diário contra o peito dele com tanta força que o sujeito quase perdeu o fôlego.


– – –

Você tem muita coragem, agente Cerone. Ah, Vincent, eu não acho que…

Doutor DeMarco – ele replicou, interrompendo-o imediatamente. – Eu já lhe disse isso antes, é doutor DeMarco.

Vincent – insistiu Cerone, sem qualquer submissão em seus olhos ou complacência em sua expressão. – Não acho que agredir um oficial do governo seja do seu interesse.

Oh, agora você quer jogar pelas regras? – perguntou Vincent. – Você não me pareceu muito preocupado com isso antes.

Bobagem – respondeu o agente Cerone, desvencilhando-se das mãos de Vincent, e empurrando o diário de volta contra o peito dele. – Vamos agir como homens de verdade, sim? E usar nossas palavras, não nossas mãos? Ou isso não faz seu tipo? Vincent olhou furioso para ele na escuridão enquanto dava um passo para trás, colocando o espaço necessário entre eles.

– –

Deixe minha família em paz.

Família? – perguntou o agente Cerone, soltando um riso amargo. – Estranha escolha de palavra, dadas as circunstâncias, não acha?

Ela é parte da minha família, sempre foi e sempre será – retrucou Vincent. – Só porque você não consegue compreender isso, porque não é capaz de meter na sua cabeça dura que realmente nos importamos com ela, não quer dizer que não seja verdade. O agente Cerone replicou em tom de zombaria:

O que me surpreende é o fato de você realmente achar que está certo, de acreditar mesmo que esta situação seja normal.

– – – –

Não fale de coisas sobre as quais você não sabe nada. Oh, eu sei muito. Eu li o diário, lembra? Você invadiu a privacidade dela! Roubou seus pensamentos! E daí? – ele replicou. – Isso não torna os fatos menos verdadeiros.


Talvez – reagiu Vincent –, mas me diga uma coisa, agente Cerone. Você tem algum segredo profundo e obscuro que faria qualquer coisa para manter escondido do mundo? Até mesmo matar alguém?

– – – –

Você está me ameaçando? Não – disse Vincent. – Só estou tentando fazê-lo entender. Entender o quê?

Que você precisa deixá-la em paz –disse Vincent, dando um passo à frente de novo, encarando o agente especial. – Você não irá pegá-la. Não pode.

– –

E por que não?

Porque… – os olhos de Vincent desviaram por instinto na direção do caminho de terra. – Porque se fizer isso ela irá morrer. O agente Cerone o fitou:

– –

Agora, isso é uma ameaça.

Não, não é – Vincent acenou negativamente a cabeça enquanto se afastava do homem, limpando as gotas de chuva do rosto. – É apenas uma certeza.

Você realmente quer fazer isso? Haven estava de pé ao lado do Mazda, olhando para as linhas desbotadas do estacionamento. Ela podia sentir os olhos penetrantes de Corrado do outro lado do carro, apunhalando-a com suas dúvidas. Ele parecia exausto, mas sua opinião era clara pelo tom de sua voz. Ele não acreditava que ela seria capaz de fazê-lo. – Sim – respondeu ela –, eu quero. Ele continuou como se ela não tivesse dito nada.

Existem alternativas, se você não tiver certeza sobre isso. Tenho recursos para mantê-la

escondida.

Não, eu tenho certeza – ela fez que sim com a cabeça. A última coisa que ela queria era abandonar a civilização outra vez. Não havia nenhum motivo para seguir adiante se ela não pudesse viver. – Eu quero ir. A escolha é minha, certo?


Certo – disse ele, ainda olhando de maneira cética para a jovem. – Então acho que já podemos ir. Haven evitou seu olhar enquanto sentava-se no banco do passageiro. Todos os seus pertences estavam em caixas empilhadas no banco traseiro; toda sua vida empacotada mais uma vez dentro de um carro. Ela havia deixado um bilhete de despedida para Dia sobre a mesa da cozinha. Nele não havia qualquer informação a respeito de seu destino; nenhuma explicação, exceto que achava que já era hora de se estabelecer por conta própria. Ela prometeu manter contato, mas enquanto Corrado seguia para a rodovia e se afastava de Charlotte, Haven se perguntava se a amizade entre elas poderia sobreviver.

– – –

Procure ficar confortável – disse Corrado. – Será uma longa viagem. Quanto tempo?

Umas doze horas, talvez. Ela se acomodou o melhor que pode no assento e se voltou para a janela. A viagem para a Califórnia no ano anterior levara três dias.

Capítulo 14 Carmine estava parado num corredor úmido, encostado na parede ao lado de uma porta rachada, a madeira frágil mal se aguentava nas dobradiças enferrujadas. Gritos abafados de agonia vinham do apartamento, mantendo Carmine estático. O que quer que estivesse acontecendo lá dentro, ele não queria ver. Pela segunda vez, naquele dia, o celular pré-pago que levava em seu bolso vibrava ao receber uma mensagem. Sem ter de olhar para saber quem era, o rapaz lentamente o pegou. Sal o havia presenteado com o aparelho, para que la famiglia estivesse sempre em contato. O nome não podia ser rastreado e as mensagens estavam a salvo de escutas telefônicas. O celular vibrara pela primeira vez menos de uma hora antes, com nada além de um endereço. Carmine se vestiu, saiu de casa no meio da noite e percorreu as poucas quadras até onde precisavam dele. No entanto, entre chegar até lá e entrar por aquela porta havia uma grande diferença. Ele olhou para a nova mensagem no telefone. ONDE VOCÊ ESTÁ? Ele começava a digitar uma resposta quando a porta do apartamento se abriu de súbito, chocandose contra a parede. Carmine deu um pulo quando viu um homem sair do apartamento. Ele era baixo e robusto; seu rosto redondo esboçava uma expressão séria, e ele trazia pendurado nos ombros um cortador de cadeados. O sujeito não disse nada e afastou-se quando Salvatore saiu logo atrás dele.


– – – –

Aí está você – disse Sal, deparando-se com Carmine. Sim, eu, ah… acabei de chegar. Ah, que pena, você perdeu toda a diversão! – disse Sal. – Agora já está tudo acabado.

Que droga – disse Carmine recolocando o telefone no bolso, com uma sensação de alívio percorrendo seu corpo –, cheguei aqui o mais rápido que pude, senhor.

Está tudo bem, meu jovem – ele respondeu, colocando o braço sobre o ombro de Carmine. – Você perdeu o show, mas ainda poderá aprender algumas coisas. Ele puxou o rapaz para dentro do apartamento antes que ele pudesse protestar. O lugar não tinha móveis; o antigo piso de madeira estava coberto de sujeira. Sal o conduziu até o banheiro. Ainda na porta, Carmine ficou petrificado no momento em que avistou o corpo na banheira. O braço do homem estava pendurado para o lado, sua mão presa à pia com um par de algemas de metal. Ele estava nu e coberto de sangue; os olhos castanhos bem abertos, esboçando puro terror, se destacavam no rosto pálido. Uma fita adesiva fora envolvida em torno da cabeça, cobrindo-lhe a boca. Uma lona azul estava estendida no chão, para protegê-lo das manchas. Entretanto, a maior parte da banheira, da pia e das peças de porcelana branca estava encharcada de sangue. O cheiro ferroso causava enjoo no jovem, e o fundo de sua garganta formigava. Carmine desviou o olhar, tentando evitar a visão do homem morto, mas Sal apenas riu de sua reação.

– – –

Primeiro cadáver? Não – ele disse. – Você sabe que não é.

Ah, sim, Maura. Como pude me esquecer? Carmine hesitou. De fato, ele não havia se referido à mãe. Estava se lembrando do incidente no armazém. Todavia, diante do comentário do padrinho, a imagem de sua mãe surgiu repentinamente em sua cabeça. Sal puxou-o para fora do banheiro quando o primeiro sujeito retornou ao lugar acompanhado de um outro. Em silêncio, o homem retirou as algemas e puxou o corpo da banheira, envolvendo-o na lona. Então os dois o pegaram e o levaram dali. Foi muito rápido; tudo aconteceu em questão de minutos, com a precisão de um especialista, de um artesão.

Ajuda se você se lembrar de que não são pessoas – disse Sal. – São apenas vermes. Pragas. Estamos apenas exterminando as baratas, principe. Ninguém gosta de viver na sujeira, não é mesmo?

– –

É, e é muita sujeira – disse Carmine com a voz embargada.

É verdade, meu caro – respondeu Sal. – Não é sempre que isso acontece, mas há alguns que preferem que seja do jeito mais difícil. Quem sou eu para negar a um homem sua própria indulgência?


será.

Você é o Chefe – disse uma voz severa atrás deles. – Se preferir mais limpo, mais limpo

Carmine se virou, olhando para o homem que vira anteriormente. Seus olhos eram amarelados, sua pele cinza. Não restava quase nenhuma vida nele.

Ah, não se importe com isso – disse Sal, olhando de volta para o banheiro. – Isso dará ao DeMarco algo para fazer. A cor sumiu do rosto de Carmine.

– –

O quê?

Limpe essa bagunça – ordenou Sal, soltando seu ombro. – Certifique-se de que tudo esteja perfeito antes de sair. Estaremos no meu iate. Sinta-se à vontade para se juntar a nós quando terminar. Sal foi embora, deixando-o sozinho no apartamento. Depois de um tempo, Carmine dirigiu-se à loja da esquina para comprar o material adequado. Ele se abasteceu com panos de limpeza, luvas e água sanitária, e passou a hora seguinte limpando o banheiro do apartamento abandonado. Quando terminou, Carmine descartou tudo em um contêiner de lixo nas proximidades antes de retornar para casa. A cada passo que dava, o jovem se sentia mais aborrecido consigo mesmo.

Carmine removeu suas roupas imundas no instante em que entrou em casa, descartando-as sem pensar duas vezes. Ele caminhou até o andar de cima e ligou o chuveiro, esperando a água esquentar antes de entrar debaixo da ducha. O vapor logo dominou o banheiro. Sua pele ganhou uma coloração rosa quando a água escaldante despencou sobre ela. Ele esfregou com cuidado cada centímetro de seu corpo; seu peito doía enquanto ele lutava com todas as suas forças para conter as emoções, engolindo todos seus sentimentos enquanto friccionava a pele, tentando se livrar da sujeira que se escondia sob a superfície. Em seguida, Carmine vestiu roupas limpas e desceu a escada. O local agora estava mobiliado; o piano fora entregue apenas na manhã anterior e já ocupava seu lugar, no canto da sala principal, protegido por uma capa preta de vinil. Caixas estavam dispersas pelos quartos, pertences espalhados por toda parte. O lugar estava um caos. Havia várias embalagens de comida delivery espalhadas sobre os balcões da cozinha. O lixo estava empilhado no chão. Ignorando o ronco de seu estômago vazio, ele abriu a porta do congelador e pegou a garrafa de vodca Grey Goose que escondera ali. Em seguida abriu a tampa, levou a garrafa aos lábios e tomou um gole, saboreando a queimação enquanto o líquido descia por sua garganta. Ele precisava daquilo; esperava que o álcool entorpecesse seu corpo e fizesse desaparecer de seus pensamentos o que vira naquela noite. Ele desejava que aquele líquido poderoso acabasse com a dor incessante que residia dentro dele, mas sabia que, no fundo, nada a faria ir embora. Uma parte dele estava faltando; havia um buraco aberto no lugar onde seu coração existira uma vez. Era a parte que ele havia deixado para trás, com ela; a parte que ela carregaria consigo aonde quer que fosse.


Charlotte?, ele se perguntou. Estaria ela dividindo o apartamento com Dia? O que ela estaria fazendo com o tempo livre? Aquelas perguntas o perturbavam noite após noite, mas ele nunca as colocava em palavras. O que quer que ela estivesse fazendo de sua vida, em qualquer que fosse o lugar, era problema dela. Ele já não tinha mais o direito de sequer perguntar. Afinal, ele abrira mão de tudo no momento em que se afastara da jovem.

O desenho da flor vermelha se destacava de maneira impressionante contra o fundo dourado do enorme banner. Haven estava na calçada abaixo, olhando para ele, fascinada pela forma como balançava na brisa suave. SVA, dizia o logotipo. School of Visual Arts. Segundo Corrado, aquela era uma das melhores escolas de arte do país, embora Haven jamais tivesse ouvido falar nela. Mas isso não a surpreendia. Ela pouco sabia a respeito de Nova York. É a maior cidade dos Estados Unidos, lembrou-se silenciosamente. É a cidade que nunca dorme. Foi o primeiro lugar em que ela pensou no momento em que contemplou a ideia de deixar Charlotte. Se tivesse mesmo de ir para outro lugar, achava que ali seria o ideal. Afinal, Carmine havia lhe dito que ali era onde as pessoas perseguiam seus sonhos. E, naquele momento, sonhos eram tudo o que restava para ela. A multidão se movia ao redor da jovem enquanto ela se mantinha parada, sem conseguir tirar os olhos do banner. Em parte, por admiração, em parte por puro terror. Desviar os olhos dele significava ter que olhar para outros lugares. Com o passar do tempo, Haven se acostumara a estar perto de outras pessoas, adaptando-se pouco a pouco à vida em sociedade, mas a atmosfera daquela cidade a intimidava. Ela havia encontrado mais pessoas nas últimas vinte e quatro horas do que em toda a sua vida. Havia gente em todos os lugares – caminhando, correndo, andando, dirigindo –, um fluxo contínuo de corpos passava por ela, como um rio cujas águas correm com violência. E ela não podia fazer nada, apenas ficar parada ali, torcendo para não ser varrida para longe. Ela lembrava de dizer a si mesma que poderia fazê-lo, que tinha certeza, mas uma dúvida pairou sobre a jovem durante o tempo em que ficou imóvel na calçada. O barulho, as luzes, os cheiros… Ela tentava absorver tudo, mas seus sentidos estavam sobrecarregados. Foi então que Corrado saiu do prédio com uma pasta de papéis debaixo do braço. Ele forçou caminho pela multidão e parou diante dela, sua presença chamando sua atenção.

Você está inscrita para o curso que começará no outono. Seus olhos se arregalaram.

– –

Estou?

Sim – disse ele. – Isso lhe dará cerca de quatro meses para se instalar. Quatro meses… Parecia muito tempo, mas na verdade, não era. Ela já havia sobrevivido a um período igual desde que Carmine a deixara. Uma dor surgiu em seu peito ao pensar nele. Ela olhou de volta para o banner, franzindo o cenho e desejando poder ouvir a voz do rapaz. Ela se perguntou o que ele pensaria daquilo, o que diria se estivesse ali ao seu lado.


Cacete, você não pode ter medo, tesoro. Aquelas provavelmente teriam sido as palavras dele. Por um momento, ela se perdeu naqueles pensamentos, mas as palavras seguintes de Corrado a trouxeram de volta para a superfície.

Eu a matriculei com o nome Hayden Antoinette. Haven pestanejou.

– –

O quê? Por que fez isso?

Porque é parecido o suficiente com oseu nome verdadeiro para que você o reconheça quando for chamada, mas diferente o bastante para que ninguém mais o faça. Pelo menos é o que esperamos. Ela tentou argumentar, mas Corrado a silenciou com um olhar incisivo. De repente, a dor em seu peito cresceu. Ele a despira de sua identidade.

Os dias se passaram com velocidade, como se fossem todos iguais. Corrado alugara um lugar para ela na Oitava Avenida, em Chelsea, uma região de Manhattan. Era um apartamento de um dormitório no primeiro andar de um prédio recém-reformado. A outra residência do edifício, um apartamento idêntico no segundo andar, estava vazia.

Isto é para você – disse Corrado numa tarde, cerca de uma semana depois de chegarem em Nova York, entregando-lhe um pequeno pacote. Haven o abriu, esvaziando-o sobre a nova mesa de jantar. Ele havia mobiliado o lugar com o que era necessário. Não havia nada de extravagante, mas parecia muito melhor do que ela imaginara que teria na vida: um sofá, a mesa, as cadeiras, uma luminária. E cada pedacinho daquilo pertencia a ela, mesmo que Corrado lhe tivesse alertado para que não se apegasse.

Não mantenha coisas das quais você não esteja disposta a se afastar – ele havia dito. – Quando pessoas estão procurando por você, é bem possível que tenha de fugir. Fugir. Se havia algo de que Haven estava cansada, era de fugir. Ela focou sua atenção no conteúdo do pacote. Nele havia um cartão de crédito, documentos de identidade e um pequeno celular preto.

Meu número é o único programado para o telefone – disse Corrado, no momento em que ela o pegou e o olhou com cautela. – Se você precisar de alguma coisa, ligue para mim. Eu cuidarei das contas, mas você poderá usar esse cartão para as demais despesas. A fatura será paga com o dinheiro que recebeu como herança.

Herança – ela sussurrou, pegando o cartão de crédito e a carteira de motorista e vendo que ambos traziam seu nome falso.


Sim, eu enfim liquidei os bens – ele explicou. – Entretanto, houve um acidente infeliz com

a casa.

Ela olhou para ele com desconfiança.

– – –

Acidente? Ela queimou até o chão. Muito triste.

Eu aposto que foi mesmo – ela murmurou, sacudindo a cabeça. Um pequeno sorriso surgiu nos lábios de Corrado.

Você não precisaria dela de qualquer modo. Tem um lugar agradável aqui e estou certo de que irá se estabelecer bem. O apartamento se localizava na região intermediária entre os dois edifícios nos quais ela iria estudar. Seriam apenas uns poucos minutos a pé em qualquer direção que desejasse ir. Ela estava cercada de tudo o que precisava, portanto não precisaria se aventurar para muito longe do apartamento, tampouco ir de carro a qualquer outro lugar. Contudo, depois que Corrado partiu de volta para Chicago, ela decidiu se aventurar pelo local. A garota passava as tardes vagando pela área, memorizando ruas, conhecendo o bairro. Era monótono e previsível: a mesma rotina se repetia todos os dias. No entanto, para Haven, cada saída, de certa maneira, parecia uma nova aventura. Sempre havia pessoas, vendedores e atividades diferentes nos arredores. Com o tempo, ela se infiltrou no caos da Big Apple, mesclando-se ao todo e tornando-se invisível aos holofotes. Era óbvio que as coisas eram diferentes do que ela esperava. Afinal, mesmo estando no caldeirão onde tudo acontecia, ela ainda se sentia como se não fizesse parte de tudo aquilo. Era uma sensação Familiar que, de um jeito estranho, a deixava à vontade, entorpecendo sua ansiedade à medida que se mantinha no anonimato. E enquanto ela permanecesse invisível, pelo menos, estaria em segurança.

Capítulo 15 DOCAS, TERCEIRA COM A WILSON

Carmine olhou para a mensagem, sentindo um peso na boca do estômago. Ele só queria poder excluí-la, fingir que nunca chegara, mas sabia que Sal nunca aceitaria tal desculpa. E, nesse tipo de assunto, Corrado também não.


– Uma grande remessa chegará de barco em poucos dias – Sal havia dito cerca de uma semana antes. – Eles vão carregá-la em caminhões e, em seguida, irão embora. Os caminhões ficarão estacionados lá, apenas aguardando e implorando para serem roubados. Uma equipe chega e leva toda a carga embora. Não existe trabalho mais fácil. Carmine não tinha dado importância na ocasião, imaginando que não teria nada a ver com aquilo. Ele ainda não havia sido integrado na hierarquia; não fora alocado em um grupo ou atribuído a um Capo. Desde o momento em que chegou, Sal o usara apenas para biscates, levando-o onde quer que fosse e envolvendo-o em seus esquemas pessoais, mas aquilo era diferente. Essa simples mensagem – Docas, Terceira com a Wilson – mudava tudo. Agora Carmine não estaria apenas sendo arrastado para os problemas de outras pessoas, ele estaria criando os problemas. Não era mais cúmplice e estava prestes a se tornar um maldito executor. Puxando uma garrafa gelada de vodca do seu congelador, que normalmente estava vazio, Carmine tirou o lacre da tampa e tomou um longo gole, deixando a queimação fazer seu caminho através dele. Coragem líquida, as pessoas costumavam dizer, mas ele já estava começando a pensar na bebida como um Soro Para Fazer Merda. A verdade é que, desde que chegara a Chicago, sua companheira Grey Goose o ajudara bastante a enfrentar algumas noites bem difíceis, dando-lhe força para fazer coisas que ele tinha certeza de que apenas um idiota poderia ter prazer em fazer. E a noite, ele arriscou-se a adivinhar, seria um desses momentos. Pouco antes de sair de casa, o garoto pegou sua arma de cima do armário da cozinha, onde ficava guardada, e a colocou no cinto de sua calça jeans. Seu Mercedes novinho em folha estava estacionado na entrada da garagem, brilhando sob a iluminação da rua. Ele o havia alugado uma semana antes, na mesma noite em que tivera a tal conversa com Sal. Carmine deslizou para o banco do motorista, respirando fundo antes de ligar o carro. O percurso pela cidade foi rápido – rápido até demais –, e poucos minutos depois ele já estava estacionando nas docas. O local estava escuro, pouco iluminado pelo luar, mas ele conseguia ver a fileira de caminhões brancos de entrega estacionados atrás de uma cerca de arame fino. O portão estava preso com uma corrente e um cadeado e, fora isso, não havia sinal de qualquer tipo de segurança. Carmine permaneceu no carro, inspecionando os caminhões, sem saber o que fazer ou por onde começar. Não houve nenhum planejamento, nenhuma instrução lhe fora passada, tampouco uma explicação lhe fora dada. Mas de uma coisa ele tinha certeza: havia expectativas em relação ao seu desempenho naquela noite. E se não mostrasse resultados, seria o único a pagar. Quando saiu do automóvel e começou a caminhar em direção ao portão, um carro em alta velocidade surgiu de trás de um prédio vizinho, levantando cascalho e vindo em sua direção. Os faróis estavam apagados e, no escuro, Carmine não podia ver quem estava dirigindo. Ele deu um salto para trás e, com o coração disparado, se viu tomado pelo medo. Impulsionado pela adrenalina e aterrorizado, ele pegou sua arma e viu quando o carro parou de repente e as portas se abriram. Dois indivíduos saltaram, um do banco do passageiro e um da parte de trás. As portas mal tinham se fechado quando a marcha à ré foi acionada e o veículo derrapou para trás antes de acelerar e sumir. Tudo aconteceu muito rápido. Poucos segundos se passaram antes de os dois caras se aproximarem. Carmine estava com a arma ao seu lado, com o dedo já pairando no gatilho, quando uma voz interrompeu o silêncio da noite.

DeMarco? É você? Carmine tirou o peso do gatilho e seus ombros relaxaram um pouco.


Remy? Remy Tarullo saiu das sombras e caminhou até um ponto mais iluminado pelo luar. Ele estava vestindo preto, com uma máscara de esqui mal colocada na cabeça.

Ei, cara! É bom ver você de novo! O senhor Moretti me disse que eles o enviariam, você sabe, para se juntar à equipe. Ele nos instruiu para que lhe mostrássemos como funcionam as coisas. Uma sensação de alívio tomou conta de Carmine, diminuindo o medo insuportável. Ele então enfiou a arma de volta no cinto e perguntou:

– –

Foi meu tio quem te mandou aqui?

Sim. Ele é o nosso Capo, você sabe… Acho que ele também é seu agora – sorrindo, Remy lhe deu um tapa nas costas. – Você não está nervoso, está?

Não, eu só… – ele não sabia o que dizer. Estava nervoso, mas não podia admitir isso. – Eu só acho que será melhor não fazer isso sozinho.

Entendo – disse Remy, tirando um par de luvas do bolso traseiro e vestindo-as. Ele puxou a máscara para baixo e cobriu o rosto antes de pegar um conjunto extra em seu casaco e atirá-lo para Carmine, que rapidamente as colocou, acompanhando o amigo. – Por acaso você não tem um cortador de cadeados em seu carro, tem?

Ah, não – disse Carmine, deslizando-a máscara de esqui sobre o rosto. De repente, ele se sentiu sufocado pelo material grosso do tecido. – Eu não sabia que precisaria de um. Remy assentindo.

– – –

Você veio mesmo despreparado, não é? O eufemismo do ano, pensou Carmine. Não posso dizer que eu já tenha roubado alguma coisa na minha vida.

Não é grande coisa – disse Remy. –Talvez você nunca tenha precisado, sendo um DeMarco e tudo mais. Você até mesmo tem permissão para acompanhar o Chefe o tempo todo… Cara, você não sabe quantos de nós matariam por essa oportunidade. Não havia hostilidade na voz de Remy, mas as palavras fizeram com que os cabelos de Carmine ficassem de pé. Ele não duvidava de que houvesse pessoas ali que o matariam se achassem que isso poderia levá-las mais perto do topo. Remy olhou em seu entorno por um tempo, como se procurasse alguma coisa, antes de pegar algumas ferramentas pequenas no bolso traseiro. Em seguida, caminhou até a cerca, abriu o cadeado com grande facilidade e se livrou da corrente, antes de empurrar o portão e correr para dentro do pátio junto com o outro sujeito. Carmine se manteve no encalço dos dois.


Vamos nos separar – ordenou Remy, acenando para ambos. – Verifiquem os caminhões e me digam o que vocês encontrarem. Façam isso rápido. Eles se espalharam por diferentes partes do estacionamento e logo começaram a disparar contra as travas das portas traseiras dos veículos. Carmine seguiu o exemplo deles, sacando a arma e apontando-a para o alvo. Seu corpo estremeceu quando disparou o primeiro tiro; embora soubesse como atirar, a mão trêmula fez com que errasse três vezes antes de conseguir abrir a porta. Ao mesmo tempo, podia escutar os tiros ecoarem do estacionamento enquanto os homens compartilhavam seus saques. Carmine abriu a porta de trás do seu primeiro caminhão, apertando os olhos na escuridão para ler as caixas.

– –

Caramba, notebooks.

Tente o próximo – ordenou Remy. –Muito arriscado. Muitos deles podem ser rastreados. Carmine moveu-se para o segundo caminhão, abrindo a parte de trás na primeira tentativa.

– –

Televisores.

Faça ligação direta nesse. Carmine empalideceu. Ele não tinha ideia de como fazer uma ligação direta. O terceiro homem encontrou uma carga de aparelhos de DVD e quebrou uma janela para subir na frente do caminhão. Remy o observou enquanto via Carmine apenas parado no mesmo lugar.

Vamos – ele disse, agarrando a camisa de Carmine e puxando-o para a frente do caminhão. – Quebre a janela e entre. Carmine fez o que lhe foi dito, sem tempo para discutir. Quebrou o vidro e abriu a porta, entrando em seguida. Remy puxou uma chave micha do bolso traseiro e a entregou a ele.

Vá com cuidado. Coloque na ignição e veja se ela gira. O motor do caminhão no outro lado do estacionamento foi acionado alguns segundos antes do de Carmine. Remy soltou uma risada quando o motor rugiu e Carmine deu um pulo. – Viu só? Deixe-me dirigi-lo até o local. Siga-nos no seu carro. Sem dizer nada, Carmine saltou do caminhão e correu de volta para o carro. Ele retirou a máscara, respirando fundo para se acalmar enquanto os caminhões arrancavam para fora do estacionamento. Carmine seguiu-os pelo trânsito, permanecendo colado no para-choque de Remy. Sirenes começaram a soar à distância. Os caminhões saíram da via principal e as luzes dos carros de polícia começaram a se aproximar com rapidez, desviando-se com facilidade do tráfego. Carmine estava tenso. Ele tentava ver algo pelo retrovisor enquanto os seguia e entrava no beco. Em questão de segundos, três viaturas passaram reto pelo beco. Carmine suspirou profundamente. Essa porra foi por pouco. Eles avançaram em direção ao extremo sul, usando algumas vias secundárias, até que chegaram num grande armazém. Manobraram os caminhões para dentro, escondendo-os por completo. Carmine estacionou seu carro logo atrás.


Uau! – gritou Remy, pulando para fora do caminhão. Seu amigo se juntou a ele, os dois eufóricos, trocando socos no ar antes de Remy virar-se para Carmine. – Você sentiu, cara? O barato? A adrenalina? Carmine acenou e sorriu, ainda que fosse mentira. Tudo o que ele sentia era nervosismo se espalhando por todo o corpo. Ele estava prestes a vomitar. Os três passaram a hora seguinte observando enquanto os caminhões eram descarregados. Em seguida, cada um recebeu seu pagamento e foi embora. Os caminhões roubados seriam descartados em um desmanche, nada era desperdiçado. Cada pedaço seria posteriormente recuperado, vendido, derretido ou escondido, e então não restaria nenhum fragmento para servir de evidência.

Que loucura – disse Remy, remexendo-se com animação no banco do passageiro. – É disso que eu gosto. De violência eu não sinto falta, mas dos roubos… Não há nada como isso. De jeito nenhum vou conseguir dormir essa noite. Quero dizer, porra! Foi por pouco! Só mais um minuto e teríamos sido presos. Essa merda não é demais? Carmine não achava nada demais.

Vamos tomar um drinque – ele continuou, não dando chance para os outros falarem. – Não sei quanto a vocês, mas preciso de algo forte depois da noite que tivemos. Enfim ele disse algo com o qual Carmine concordava.

O Luna Rossa estava bem agitado para uma noite de sexta-feira. Ao contrário da última vez em que Carmine estivera lá, os sedãs pretos estavam apenas dispersos dentro do mar de carros e picapes de todos os tipos que lotavam o estacionamento. Parecia quase um lugar diferente. Música hip-hop soava pelo edifício.

Eu nunca estive aqui – disse Remy. –Morei em Chicago a minha vida toda, estou metido nessa merda há anos, e até hoje nunca pus os pés nesse lugar. Carmine franziu a testa.

– –

Por que não?

Não sei – ele disse. – Não me sinto bem em ir entrando. Caras como nós só são convidados para vir aqui quando fazem algo que irrite o senhor Moretti.

Fui convidado pelo Chefe logo que me mudei para cá – disse Carmine. – Parecia um lugar muito diferente naquela noite. Era a velha guarda. Remy riu.


É como diz o ditado: quando o gato sai, os ratos fazem a festa. O segurança olhou para eles quando entraram, estreitando os olhos ao examinar os três homens, mas não disse nada, apenas inclinou a cabeça para saudá-los. Os três atravessaram o clube, com o som grave da música fazendo seus pés vibrarem e dissipando a energia concentrada no corpo de Carmine. Ele relaxou um pouco, o caos e o barulho mal permitiam que ele pensasse. O garoto viu uma mesa vazia nos fundos e caminhou em sua direção. Ele mal se sentara quando uma mulher colocou-se à sua frente. Ele ergueu a cabeça e seus olhos se conectaram de imediato. Ela tinha uma expressão séria no rosto, que se transformou num sorriso.

DeMarco, certo? Levou um tempo para ele reconhecer seu rosto… A mesma garçonete que o tinha servido da última vez.

– –

Ah, sim. Olá.

Você quer o mesmo da outra vez? –perguntou ela. – Vodca? Ele ficou surpreso por ela ter se lembrado.

– –

Sim, com certeza.

E seus amigos? – Ela se virou para eles. – O que vão querer? Eles fizeram seus pedidos: uísque para Remy e uma cerveja para o outro cara. A garçonete se afastou, voltando rapidamente com suas bebidas. Carmine matou a sua antes mesmo que a moça tivesse a chance de ir embora. Ela soltou uma gargalhada e levantou o dedo para lhe dizer que esperasse só um pouquinho. Em seguida, ela retornou do bar com uma garrafa cheia de Grey Goose.

– –

Qualquer coisa de que precisarem, é só chamar. Meu nome é Eva.

Obrigado, Eva – disse Remy, piscando. – Você pode me chamar de Adão. – Carmine revirou os olhos enquanto a garota ria antes de se afastar.

– – – –

Porra, isso foi horrível. Ei, as garotas adoram essa merda de conversa – disse Remy. – Eu sei que a minha gosta. Você tem namorada? – perguntou Carmine, servindo-se de outra dose.

Sim, o nome dela é Vanessa. E você? Carmine engoliu sua segunda dose.

Não, ninguém.


Bem, então… – Remy tomou um gole do uísque. – Sorte sua, a Eva parece interessada. Remy apontou com o copo e Carmine virou a cabeça, espiando a garçonete encostada no bar. Os olhos dela estavam fixos nele. Suspirando, Carmine voltou-se e não disse nada. A noite aos poucos se transformou numa névoa à medida que o álcool fluía livremente para a mesa deles. Os três beberam por horas a fio, riram e falaram alto. Várias garotas passaram pela mesa, flertando, sorrindo e roubando bebida em vez de comprar a própria. Carmine não dava atenção, bêbado demais para sequer se preocupar com aquilo. Aliás, bêbado demais para se preocupar com qualquer coisa. Depois da meia-noite, a atmosfera mudou repentinamente. O grave dos alto-falantes foi cortado de maneira abrupta, e o caos da multidão se reduziu a um murmúrio. Carmine olhou ao redor, retesando-se ao perceber que seu tio passeava casualmente pelo clube com as mãos nos bolsos. Ele caminhava em direção ao seu escritório, mas parou na entrada do corredor quando Eva chamou seu nome. Ela lhe disse algo, apontando diretamente para a mesa deles. Carmine empalideceu quando o tio se virou para ele. Fodeu. Corrado então se desviou, contornando o corredor para ir direto até a mesa.

– –

Carmine – ele disse, analisando o trio. – Cavalheiros.

Este é Remy – murmurou Carmine, apontando para ele. – E este é… – Ele hesitou. Ele não sabia o nome do outro cara.

– – – – –

Eu sei quem eles são – disse Corrado de maneira lacônica. Senhor Moretti, senhor – disse Remy.– Ótimo clube que você tem aqui. Corrado assentiu, mas não ofereceu nenhuma resposta ao elogio. Nós estávamos apenas tomando um drinque – gaguejou Carmine. – Você sabe… Ou dois. Eu percebi – disse ele. – Apenas tomem cuidado para chegar em casa.

Sim, senhor – disse Remy. – Obrigado. Os olhos de Corrado permaneceram em Carmine por um momento, antes de ir embora, desaparecendo pelo corredor. Remy balançou a cabeça, engolindo o resto de sua bebida.

Cara, ele é sério pra caralho. Carmine riu de um jeito amargo.

Não precisa nem dizer.


Uma pancada forte em meio a outros barulhos.

Que droga! – Os olhos de Haven se abriram imediatamente ao escutar aquilo. Um pouco desorientada, ela olhou para o teto acima de sua cama, observando a tinta branca texturizada como se, de algum modo, ela pudesse lhe dizer o que acontecera. A luz do sol entrava pela pequena janela do outro lado do quarto, iluminando o chão de madeira desbotada. Estava quente, mas tudo parecia tranquilo. O silêncio se prolongou por um longo tempo. Teria sido apenas sua imaginação? Ela começou a fechar os olhos de novo quando outra pancada ecoou. Em seguida, ouviu o barulho de saltos altos golpeando a madeira, e também o que pareciam resmungos frustrados de uma mulher. Confusa, Haven sentiu o estômago se contorcer enquanto se livrava das cobertas e saía da cama. A garota caminhou pelo apartamento como se seguisse a direção dos passos no apartamento de cima, que iam em direção à escada. Mantendo silêncio, Haven destrancou a porta da frente e deu uma espiada no corredor. Foi então que ela percebeu que uma mulher começava a descer a escada. Ela era alta e curvilínea; seus cabelos longos tinham um tom vermelho intenso, pouco natural. Ela trazia consigo duas caixas de papelão vazias, que depositou no pequeno hall, de frente para o apartamento de Haven. Haven não queria ser pega espionando, mas a mulher a viu antes que pudesse escorregar para dentro.

– – –

Olá! – disse ela com entusiasmo. –Sou Kelsey. Hav…ah, den – ela limpou a garganta e repetiu. – Hayden.

Você mora aqui, Hayden? – perguntou Kelsey, fazendo uma pausa para tomar fôlego, mas não por tempo suficiente para que Haven pudesse responder. – Graças a Deus você é ela e não ele. Eu estava totalmente convencida de que iria morar bem em cima de um sujeito careca repugnante e barrigudo, cheirando a carne seca e cerveja barata. Eca. Você pode imaginar? Ugh, aposto que você estava preocupada com a mesma coisa, quer dizer, com algum pervertido circulando por aqui dia e noite. Estou certa? Haven sorriu com timidez. Ela ainda não tinha considerado isso. O pensamento de alguém se mudando para o segundo andar nunca lhe passara pela cabeça. De fato, ela presumira que Corrado alugara todo o edifício.

Então, o que você faz? – perguntou Kelsey, erguendo uma sobrancelha. – Você é estudante ou algo assim?

Ah, sim – respondeu ela. – Eu estudo na School of Visual Arts. Os olhos de Kelsey se arregalaram.

Não me diga! Eu também! Haven foi pega de surpresa.


– – – –

Sério? Sim, é verdade – disse Kelsey. – Vou estudar design gráfico. E você? Pintura.

Belas-artes? Ugh, eu nunca conseguiria fazer isso – disse Kelsey com certo desdém. – Então, você já foi fazer sua carteirinha estudantil e conhecer a escola?

Não – Haven franziu a testa. Ela estava adiando aquilo, esperando criar coragem para ir até lá. – Mas acho que terei de fazer isso uma hora dessas.

Com certeza – disse Kelsey. – Aliás, eu estava justamente indo até lá. Nós podemos ir juntas! Todo mundo precisa de um companheiro de caminhada, certo?

Certo – Haven olhou para si mesma e percebeu que ainda vestia seu pijama xadrez tamanho grande. Ela ainda não havia nem escovado os dentes ou penteado os cabelos. – Preciso me trocar primeiro.

Eu também – disse Kelsey, franzindo o nariz. – Não posso sair desse jeito. Trabalhei duro para colocar as coisas em ordem e não me diverti nada fazendo isso. Kelsey virou-se imediatamente, deixando para trás as caixas vazias e subindo a escada de volta até seu apartamento.

Vinte minutos depois, já de banho tomado e vestida com calça jeans e uma blusa vermelha, Haven sentou-se no primeiro degrau do hall. Ela se distraía com suas chaves enquanto esperava pela vizinha e ouvia o barulho de Kelsey perambulando pelo apartamento. Seus passos barulhentos ecoavam pelo prédio antigo; as frágeis tábuas do assoalho rangiam sem parar. O edifício, embora recém-reformado, mostrava os sinais de sua idade. Haven esperou, esperou e esperou um pouco mais. Outros vinte minutos se passaram, e ela estava prestes a desistir quando os saltos altos de Kelsey enfim rumaram em sua direção. Haven levantou-se e olhou para a escada, estudando a garota enquanto ela se aproximava. Suas roupas estavam impecáveis. Eram vibrantes e joviais, como se nunca tivessem sido usadas antes. Sua boca estava coberta de brilho labial e os olhos tinham uma maquiagem escura. Ela era bonita, mas Haven achava que ficaria bem melhor sem tudo aquilo cobrindo seu rosto.

Está pronta? – perguntou Kelsey.


Haven assentiu com a cabeça. Ela estava pronta. Embora usasse saltos altíssimos, Kelsey caminhava de maneira confiante, com passos largos, sem ter de se esforçar para se equilibrar. Ambas caminhavam lado a lado enquanto Haven ouvia, de boca fechada, a garota tagarelar sem parar sobre tudo e todos. No momento em que chegaram à escola, que ficava a poucos quarteirões de distância, Haven já sabia tudo o que precisava sobre Kelsey: filha única de um congressista, não conseguiu ingressar na Universidade de Nova York e decidiu dar uma chance à escola de artes, depois que seus pais a forçaram a se mudar para que aprendesse a ser responsável.

Então, foi assim… Meu pai me disseque eu só teria três chances antes de ele desistir de mim. E a Universidade de Nova York foi a número dois.

Qual foi a primeira? Ela encolheu os ombros.

Ter nascido? A expressão de Haven ganhou um ar de tristeza. Aquelas palavras a atingiram com força e ela piscou algumas vezes. Ela logo se identificou com a situação.

– –

Você realmente se sente assim?

Às vezes – respondeu Kelsey. – Sempre tive uma relação tensa com os meus pais. Meu pai nunca está em Nova York e minha mãe, bem… Se eu não estiver no fundo de uma garrafa de vinho, ela não me vê.

– –

Isso é… Ah…

Patético? – Kelsey riu. – Eu sei que é. Bem, na verdade a primeira chance foi quando eu quase não consegui terminar o colegial. Eu era maluca por garotos e vivia faltando. Mas isso acabou. Agora tenho compromissos. Não tenho tempo para namorados. As duas entraram no prédio na 23ª Avenida e, seguindo as indicações, foram em direção à secretaria para fazer suas carteirinhas estudantis. Quando já estava pronta, Haven a observou com cuidado, ignorando o nome errado e se concentrando no fato de que sua imagem estava bem visível num crachá que garantia sua admissão nas aulas. Pela primeira vez em sua vida, ela se tornara uma estudante e frequentaria uma escola. A tarde foi bastante confusa. Ela perambulou pelos prédios, reuniu-se com a administração e conheceu outros alunos. Surpresa diante de todas aquelas novidades, Haven sentia as palmas das mãos suando e o coração disparado. Ela foi levada para várias galerias, conheceu vários estúdios e foi matriculada em várias aulas. Todas as exigências foram explicadas, inclusive as horas obrigatórias de trabalho voluntário, os cursos opcionais de verão, as festas de gala e as sessões mensais de orientação… Ela ficou bastante ansiosa, mas tudo pareceu se dissipar no momento em que entrou na biblioteca da escola. Altas pilhas de livros a cercavam por todos os lados. Eram mais altas que ela e a acolhiam num abraço familiar. Isso a fez lembrar de sua vida em Durante, um tempo e um lugar que ela vinha tentando


deixar para trás desde que se estabelecera em Nova York. Sua vida estava começando de novo – novas pessoas, novos lugares, novas experiências e novas chances – mas o passado ainda parecia ter um forte apelo em seu coração, deixando-o apertado e forçando-a a se controlar sempre que se lembrava com saudades do amor que ficara para trás. Era difícil olhar para frente. Ela se perdeu de Kelsey em algum lugar no meio da agitação e só voltou a encontrá-la horas depois, quando o sol já estava se pondo. O longo dia chegara ao fim. Kelsey estava no saguão do edifício de belas-artes ao lado de um sujeito com cabelos loiros espetados, com a mão pressionada contra o peito e o rosto iluminado por um intenso fascínio. Eles se separaram depois de um momento. O sujeito passou por Haven e saiu pela porta. Kelsey ficou lá, inquieta e em silêncio, mordendo o lábio inferior. A moça soltou um grito quando se deparou com Haven.

– –

Meu Deus, você o viu? Ele não era lindo?

Ah… Claro – disse Haven, olhando para o lado de fora pelas enormes janelas de vidro e observando o garoto de pé na calçada com um grupo de amigos. – Quem é ele?

O nome dele é Peter alguma coisa. Ele é veterano! E pediu meu telefone, então é claro que dei. Meu Deus! Você acha que ele vai ligar? Espero que sim. Haven olhou para ela, incrédula.

– –

Eu pensei que você não tivesse tempo para namorados.

Não tenho – disse ela, acenando com uma risada. – Mas nada me impede de sair. Não há nenhum mal nisso. Além do mais, uma garota precisa de algum tipo de diversão, certo? Foi uma pergunta retórica, mas Haven respondeu dando de ombros.

E você? – perguntou Kelsey enquanto as duas se dirigiam para fora e rumavam para casa. – Tem namorado? A pergunta inocente, feita casualmente, foi como um soco no estômago de Haven. Era a primeira vez que alguém lhe perguntava isso. – Não mais. Eu tinha, mas… não tenho mais. O semblante exultante de Kelsey se apagou.

– –

Ah, foi um rompimento ruim, né?

Acho que posso dizer que sim. Kelsey balançou a cabeça.

– –

Você está melhor sem ele, seja ele quem for.

Carmine – murmurou Haven. Dizer seu nome em voz alta, reconhecendo que ele existia… Que outrora tinham estado juntos… Afrouxou um pouco o nó apertado em suas entranhas.


Separações são horríveis – disse Kelsey. – É por isso que nunca fui o tipo de mulher de ficar com um homem só. Meu pai sempre diz: “nunca coloque todos os ovos na mesma cesta, querida”, então pensei, por que colocar toda a minha esperança em um só homem? Eu gosto de sair e experimentar, conhecer o que há lá fora.

Nas semanas seguintes, enquanto conhecia melhor a nova colega, Haven aprenderia o significado de eufemismo. A cada semana, Kelsey demonstrava um novo interesse amoroso; havia sempre uma cara nova entrando e saindo do apartamento de cima: Peter, Franco, Josh, Jason… No fim, Haven parou de tentar se lembrar dos nomes. Ela os ouvia pisando nos degraus da escada, sempre atrás de Kelsey. Os passos pesados ecoavam pelo apartamento de baixo. Haven sorria com educação ao se encontrar com eles no hall, e não se incomodava em dizer olá. Suas fisionomias se fundiram com o tempo; era uma mistura de rostos que ela não tinha nenhum interesse em conhecer. O curso começou em poucas semanas e os compromissos tomaram todo o tempo de Haven. As aulas de pintura, de desenho e de história da arte ocupavam a maior parte de seus dias. Depois das aulas, em vez de ir para casa, ela se acostumou a visitar a biblioteca e investir horas dentro daquelas paredes grossas, imersa em livros, sempre estudando. Tudo aquilo monopolizou sua atenção e a jovem floresceu sob o estresse. Mais uma vez em sua vida, ela tinha um cronograma rigoroso. Mais uma vez, ela tinha uma lista de tarefas a cumprir e, se não o fizesse, sabia que haveria consequências. Falhar não era uma opção, pois, no mundo de Haven, falhar era o mesmo que desistir da vida.


Capítulo 16 A batida na porta do escritório foi tão tímida que Corrado mal pôde ouvi-la por causa do volume elevado da música no clube. Ele ignorou o toque e manteve o olhar fixo na pasta encardida sobre a mesa à sua frente. Depois de mais ou menos um minuto, outra batida soou, ainda fraca e hesitante. Mais uma vez, Corrado a ignorou. Os mafiosi sabem que devem transmitir confiança, em especial quando lidam com alguns dos homens mais perigosos do mundo. Corrado pouco se importava em saber se seus homens teriam de encarar Lúcifer em pessoa, cercado por enxofre e fogo do inferno e pronto para levá-los direto para a danação eterna. Eles precisavam manter a compostura e estar preparados para lutar. E nunca deixar seu medo transparecer. As ruas são implacáveis e seus rivais não hesitariam em agir ao primeiro sinal de fraqueza. As vulnerabilidades sempre serão exploradas, e a pior coisa que se pode fazer diante do inimigo é dar a ele a impressão de insegurança. Não importa se estiverem errados; seus homens precisariam transparecer certeza e confiança. E Corrado certamente não estava convencido. Demorou um pouco até que soasse a terceira batida. Era mais alta, mais determinada.

Entre – gritou ele, recostando-se em sua cadeira e olhando para seu Rolex enquanto Remy Tarullo adentrava o recinto e, de modo hesitante, fechava a porta atrás de si.

– – –

O senhor queria me ver? Sim – afirmou. – Eu disse para você estar aqui às nove. São nove e três. Você está atrasado.

Mas eu estava aqui – disse ele na defensiva. – Eu estava no corredor. Corrado ergueu as sobrancelhas.

– – –

Você tem a audácia de me oferecer desculpas? Não, eu… Ah…

Não estou interessado no que você tem a dizer. É insignificante para mim. Não me importa se estiver caído meio morto no estacionamento. É melhor você arrastar seu corpo mutilado até aqui com tempo suficiente para estar no meu escritório quando eu disser para você estar no meu escritório. Nada menos que a morte é motivo suficiente para se atrasar. Você me entendeu?

Sim, senhor. Corrado podia sentir seu medo. Ele fedia, enchendo o escritório com o cheiro doce e enjoativo de suor e pânico. Remy era alto e magro e tinha o olhar esquivo, mais por conta de seu medo súbito que por fingimento. Será que ele estaria escondendo alguma coisa? Talvez, mas não deixava transparecer. Ele


havia sido chamado ao escritório de um Capo. Qualquer cara esperto sabe que essas situações nunca acabam bem. Mas ele veio, com os ombros eretos e a cabeça erguida. O que lhe faltava em inteligência era compensado pela coragem. Remy era um empregado decente e bom no que fazia; nunca fora pego, e foi justamente por isso que ele confiara Carmine à sua equipe.

– –

Dizem por aí que você é o melhor em abrir fechaduras – disse Corrado.

Ah, sim – disse ele. – Não é para megabar nem nada, mas ainda não encontrei uma única fechadura que eu não abrisse logo de primeira. Remy sorriu, tentando quebrar a tensão, mas Corrado não achou engraçado. Ele só o observava, pensando se era a pessoa certa para o trabalho. Um silêncio tenso se seguiu. Remy permanecia imóvel, não fazendo nenhuma menção de se sentar.

Você não vai se sentar? – perguntou Corrado. Os olhos de Remy se lançaram para uma das cadeiras vazias, mas ele continuou parado.

Você não me convidou para sentar, senhor. Talvez ele fosse mais esperto do que Corrado pensasse a princípio.

Você pode abrir isso? – perguntou ele, virando a valise ao contrário para que o rapaz pudesse vê-la. Remy deu um passo à frente, estreitando os olhos enquanto estudava a pequena fechadura.

– –

Hum, sim, acho que sim.

Acha que sim ou sabe como fazer? –perguntou Corrado. – Se você não tem certeza, dê meia-volta e saia por aquela porta. Vou encontrar alguém mais qualificado para fazer o trabalho para mim. Remy limpou a garganta.

Com todo o respeito, senhor, não há ninguém mais qualificado. Se eu não puder abri-la, ninguém pode. Touché. Corrado assentiu, apontando para a pasta em silêncio, permitindo-lhe provar seu valor. Remy observou a fechadura por um momento antes de levar a mão ao bolso e retirar um pequeno alicate de pressão e um perfurador. Corrado assistiu àquilo e ficou impressionado pelo fato de o garoto carregálas consigo.

– –

Você tem o hábito de manter ferramentas em seu bolso?

Sim – respondeu ele. – Você nunca sabe quando precisará abrir um cadeado ou fazer uma ligação direta num carro, então tento sempre ter as ferramentas básicas comigo, só por precaução. Pela mesma razão que você sempre carrega uma arma, eu suponho.


– – –

Você carrega uma arma também? Nem sempre – admitiu ele. – Só carrego quando acho que minha vida pode estar em risco.

Você tem uma com você agora? Remy hesitou.

Sim. Corrado sorriu e relaxou em sua cadeira, batendo com o pé ao ritmo da música do clube. Duas músicas do disco Grandes Sucessos de Sinatra tocaram antes que Remy fizesse algum progresso, um sorriso iluminou o rosto do garoto quando ele finalmente arrombou a fechadura. A maleta se abriu, não o suficiente para que o rapaz enxergasse o interior, mas o bastante para que Corrado assumisse essa tarefa. Remy guardou suas ferramentas no bolso e deu um passo para trás.

– – – – –

É toda sua. Você não vai me perguntar o que é? Não. Você não é nada curioso?

Bem, é claro, mas isso não é da minha conta – respondeu ele. – Se o senhor quisesse que eu soubesse, teria me dito, certo?

Certo – Corrado se levantou fazendo sinal para o garoto segui-lo enquanto saía do escritório e encontrava-se com um dos guardas de segurança no corredor, que vigiava o lado de fora da porta do escritório. – Diga ao barman que as bebidas de Tarullo são por conta da casa. Tudo o que ele quiser, e sem perguntas. O guarda assentiu. – Sim, Chefe. Corrado voltou para o escritório, fechando a porta e trancando-a antes de caminhar até a mesa. Ele verificou a maleta aberta e piscou algumas vezes à medida que olhava o conteúdo. Apenas uma fita VHS. Ele tinha considerado várias possibilidades – armas, dinheiro, ouro, até mesmo partes de um corpo –, mas um filme antigo nunca lhe passara pela cabeça. A embalagem de papelão desgastada que envolvia a fita se desintegrou assim que ele a pegou. Ele jogou essa parte de lado e observou a fita preta, não encontrando nenhum rótulo. Aparentemente não havia nada gravado nela, mas Corrado sabia que isso não era verdade. Alguém tinha feito um grande esforço para esconder aquele vídeo. Abrindo a porta do escritório, ele olhou para o guarda de segurança mais uma vez. – Traga-me um videocassete.


A testa do homem franziu.

– –

Um videocassete?

Sim – Corrado acenou para ele, impaciente. – E faça isso rápido. Vinte minutos se passaram, então trinta, e, por fim, quarenta e cinco minutos antes que o guarda voltasse com um videocassete usado debaixo do braço. Ele o entregou a Corrado que, por sua vez, o levou para o escritório e trancou a porta. Ele o ligou na tomada e o conectou a uma pequena televisão no canto da mesa que exibia a transmissão da segurança. Um filme começou a passar, um desenho animado com uma princesa e uma melodia pegajosa no fundo. Corrado fez uma careta e ejetou a fita, atirando-a para o lado antes de inserir com cuidado a que estava na pasta. Nada aconteceu a princípio; a contagem do tempo de reprodução aumentava, mas a tela permanecia tão negra como a noite. Sentindo-se enganado, Corrado estava prestes a desistir quando a tela piscou e um rosto que ele não via há anos apareceu. Frankie Antonelli. A filmagem antiga não parava de falhar. Corrado apertou o botão de tracking, tentando melhorar a exibição, mas nada ajudou. Ele desistiu de tentar enxergar e recostou-se na cadeira para ouvir o conteúdo. Frankie começou a falar, mas o som estava truncado e, quando o volume foi aumentado, surgiu um zunido no fundo.

– Eu, ah… eu nunca fui um homem religioso. Venho de uma família religiosa, meu pai é um católico devoto, assim como o meu avô, que retornou ao país de origem, mas eu? Não, eu nunca acreditei nisso. Não acredito na oração, na salvação nem no céu. Mas há uma coisa em que acredito: o inferno. Eu preciso. Eu vivo nele – Frankie passou as mãos pelo rosto quando fez uma pausa. – Não acredito em confissão… Você sabe, pedir perdão e tudo isso… Mas entendo por que os caras fazem isso. Nós nunca seremos perdoados pela merda que fizemos, mas isso alivia a consciência. É difícil andar por aí todos os dias carregando tantos segredos. E eu tenho segredos. Tenho muitos pecados nos ombros. E não estou pedindo para ser perdoado por eles, não estou pedindo para ser salvo, mas tenho que desabafar. Não posso carregá-los mais… Não quando passo todos os dias nesse inferno, encarando-os.

Corrado sentiu o estômago revirar, além de um calafrio percorrendo seu corpo. Seu primeiro impulso foi ejetar a fita, jogá-la na lata de lixo e atear fogo. Que tipo de cara esperto, ou melhor, que tipo de homem de honra quebra seu voto de silêncio em um vídeo? Ele estava indignado, decepcionado e absolutamente furioso. Mas outra sensação, bem lá no fundo, o fez permanecer imóvel diante da TV. Talvez fosse curiosidade, ou talvez instinto, mas algo o obrigava a continuar assistindo à fita. Durante trinta minutos, Corrado olhou para a tela, aturdido e sem palavras diante da imagem do homem que no passado ele considerara um mentor, um amigo, um irmão, mas que de repente se transformara num traidor, num covarde, e revelara um segredo que deixaria até mesmo o próprio Corrado completamente aturdido. Ele já havia visto de tudo, já havia feito de tudo, mas as palavras que saíram da


boca de Frankie, a verdade terrível que ele cuspira de seus lábios, era algo que Corrado não conseguia compreender. Inimaginável. Aterrador. Ele sentiu-se mal. O desgosto de Corrado só crescia a cada palavra, seu desprezo agora inabalável. Tudo o que ele sabia e tudo em que acreditava fora posto à prova depois de meia hora de uma confissão covarde e avassaladora.

– Então é isso. Essa é a pura verdade – Frankie disse baixinho, sacudindo a cabeça como se desacreditasse em suas próprias palavras. – Eu tenho que viver com o que fiz… com o que ajudei a fazer. Não vou pedir desculpas por isso ou, como eu disse, pedir perdão. Tive que fazer o que fiz. Mas carreguei isso comigo por um longo tempo, e não poderia carregar mais. Se alguém estiver assistindo a isso, eu provavelmente já estarei morto há muito tempo. Aliás, não ficaria surpreso se me matassem exatamente por causa disso. Tenho sentido isso, uma sensação de que algo está indo para o buraco e, não sei por que, mas acho que é só uma questão de tempo até que isso aconteça. E talvez eu mereça morrer por isso, mas não sou o único. Não, se é assim que termina, se é assim que vou escapar desse inferno para ir para o próximo, espero que o diabo também vá comigo. É justo, uma vez que ele controlava tudo.

Frankie se inclinou para frente e desligou a câmera. Corrado continuou olhando para a tela escura, imerso em um silêncio desconfortável. Absolutamente chocado: essas eram as únicas palavras capazes de descrever como Corrado se sentia naquele momento. Esforçando-se para retomar o controle e o senso de orientação, ele ejetou a fita e trancou-a em uma gaveta da mesa. Em seguida, recolocou o desenho animado no lugar onde o encontrara e desconectou o videocassete. Corrado dirigiu-se à porta e se deparou com o mesmo segurança no corredor.

– –

Onde você conseguiu isso?

Eu o roubei – disse ele. – Arrombei algumas casas da quadra até encontrar um. Corrado empurrou-o de volta para ele.

Devolva-o.

O guarda empalideceu.

– –

O quê? Você me ouviu – disse ele. – Que tipo de idiota rouba de uma garotinha?


Capítulo 17 O tempo cura todas as feridas. Il tempo guarisce tutti i mali. Esta frase já foi repetida inúmeras vezes, mas o que ninguém menciona são as terríveis cicatrizes que ficam para sempre. O que eles não falam é que, de tempos em tempos, essas feridas infeccionam quando são ignoradas. O que começou com um arranhão, que mal podia ser visto, pode se transformar num corte profundo que, com o tempo, se alastra e rasga a carne, até que tudo que lhe reste seja uma massa exposta de nervos desgastados e órgãos corroídos. A dor exige ser sentida, mas você não a percebe até que seja tarde demais. Até que ela o paralise e o coloque de joelhos. Carmine passou a beber todas as noites à medida que a dor em seu peito se prolongava. Às vezes ele consumia tanta bebida que apagava completamente. Seus dias eram marcados por agonia e as noites não eram melhores, uma vez que seus sonhos o faziam reviver todo o sofrimento. O único momento em que escapava desse inferno era quando se perdia na escuridão. O fato é que todas as noites, antes de perder a consciência, ele rezava para que, caso acordasse, por fim conseguisse se esquecer de tudo. Ele só queria esquecer. Isso, entretanto, jamais aconteceu. Toda manhã Carmine acordava e se sentia pior que na noite anterior, e o ciclo vicioso recomeçava. Ele estava perdendo o controle, mas não se importava. Já não importava o que lhe acontecesse… Tudo o que desejava era encontrar alguma paz, independentemente do custo que teria de pagar. Na maioria das noites, ele ia ao Luna Rossa com Remy. A música alta e a multidão o distraíam de seus pensamentos por tempo suficiente para que o álcool tomasse conta. Lá ele se encontrava com outras pessoas, algumas das quais, em outras circunstâncias, poderiam ser boas amigas, mas nenhuma delas era capaz de sobrepujar a muralha que ele construíra. Ver Remy com a namorada, uma garota magra de olhos azuis esverdeados e cabelos ruivos não ajudava Carmine a superar seu sofrimento. Aquilo apenas o fazia se lembrar do que perdera, do que deixara para trás, do que ele tanto precisava, mas jamais poderia ter de volta. Quando em público, Carmine conseguia manter a máscara e fazer o que era esperado dele, porém, no momento em que ficava sozinho, as feridas se abriam e se tornavam cada vez mais profundas. Era início da noite quando ele cambaleou para fora de seu quarto, com o peito nu e seus jeans largos e frouxos nos quadris. Apertou o cinto, buscando o buraco seguinte no couro. O jovem desceu a escada e pisou em algumas roupas que estavam acumuladas no corredor enquanto caminhava até a cozinha. O aparelho de ar-condicionado não estava funcionando; o ambiente na casa era sufocante, turvo. Respirar fundo fazia seus pulmões arderem; sua cabeça explodia enquanto seu corpo pingava suor. Seu estômago roncava e ele sentia o desconforto da fome. Então abriu a geladeira e pegou o resto de comida chinesa que havia ali. Olhou desconfiado para o recipiente, tentando lembrar-se de quando o havia pedido, antes de dar de ombros e pegar um garfo. Pegou uma pilha de correspondência que estava sobre o balcão e começou a examinar uma a uma enquanto comia: contas, avisos, lixo, merdas que sequer estavam endereçadas a ele. Então pegou um envelope de cor creme e viu seu nome escrito em letras cursivas na parte da frente. Ao abri-lo, ele retirou o cartão e leu o que estava escrito em dourado.


Dominic DeMarco e Tess Harper sentem-se honrados em convidá-lo para a cerimônia de casamento no dia 27 de Outubro de…

Naquele momento, uma batida forte e insistente na porta ecoou pela casa silenciosa, interrompendoo. Carmine não se preocupou em investigar. Em vez disso, encostou-se no balcão e voltou a olhar para o convite, engolindo o resto de comida sem sequer sentir o gosto. Um casamento. Seu irmão ia se casar. As batidas na porta continuaram, tornando-se mais fortes e insistentes, antes que a porta se abrisse. A luz do sol invadiu o hall, mas logo desapareceu quando a porta foi fechada com força.

– –

Carmine? – gritou Celia.

Estou aqui – ele murmurou, com a boca cheia de comida. Passos em direção à cozinha foram ouvidos. Celia apareceu na porta em questão de segundos. Ela fez uma pausa e o encarou com os olhos arregalados.

– –

O que você está fazendo?

Comendo – ele respondeu, erguendo-o recipiente. – Quer um pouco? Celia deixou escapar um suspiro frustrado no momento em que esticou a mão e acendeu a luz da cozinha. A luz clara fez Carmine estreitar os olhos, tentando protegê-los.

– –

Caramba, isso é mesmo necessário?

Necessário? – a voz de Celia era uma mescla de amargura e descrença. – Isso se chama eletricidade, Carmine. Faz parte da civilização. É claro que é necessário! Mas, honestamente, estou surpresa de ver que a luz aqui ainda funciona, já que o telefone parece estar desligado. Carmine soltou um suspiro, mas se manteve calado. Não estava com vontade de discutir.

Olhe para esse lugar – ela disse, enrugando o nariz. – É nojento! E está fedendo! Mais uma vez Carmine se manteve em silêncio. Ele só observou enquanto sua tia começou a vasculhar a cozinha, jogando os restos de comida fora e reunindo a louça suja na pia. Ele permaneceu imóvel enquanto ela limpava tudo, resmungando e deixando evidente sua frustração. Depois que a cozinha estava com uma aparência melhor, ela o encarou.

– – –

Não posso acreditar que não tenha nada a dizer. Quando foi que parou de se importar? Foi isso o que eu fiz? – ele perguntou em voz baixa. – Parei de me importar?

É o que está parecendo. Ele a olhou de volta. A dor no peito do rapaz, anestesiada quando levantou, tornou-se mais forte enquanto os dois ficaram parados ali.


Gostaria que isso fosse verdade. Ela sorriu de maneira jocosa e já se preparava para dizer algo quando o som do celular soou em alguma parte da casa, interrompendo-a. Carmine passou por ela e se dirigiu à sala, pegando o aparelho no sofá.

– –

Ah, então o telefone funciona – disse Celia. – Estou chocada.

Agora não – disse Carmine, acenando com a cabeça. – Apenas… Agora não é o momento. Ignorando o pedido, ela continuou.

A casa inteira está nesse estado? Porque se o andar de baixo está desse jeito, nem quero ver o que há lá em cima. Você pelo menos tem roupas limpas para usar? Está lavando suas roupas? Tem tomado banho?

É claro que tenho tomado banho – ele gritou, sem conseguir aguentar o interrogatório da tia além de tudo o que estava passando. – Por que não vai pegar no pé de outra pessoa? Já estou cheio desse interrogatório!

Eu não estou te interrogando – ela respondeu. – É só que esse lugar está um caos! E parece um forno aqui dentro.

– – – – –

Tenho estado ocupado. Ocupado demais para cuidar de si mesmo? Sim. Ocupado demais para abrir uma janela?

Sim. Ela o encarou, nada satisfeita com as respostas do rapaz.

O que realmente está acontecendo, Carmine? O que está acontecendo com você? Ele riu de um jeito seco.

– –

Tenho coisas a fazer, Celia. Não tenho tempo para isso.

Muito bem – ela assentiu. – Mas essa nossa conversa ainda não terminou. Depois que Celia saiu, Carmine colocou uma camisa e calçou os sapatos antes de retornar à cozinha. Ele abriu o freezer e franziu o cenho ao perceber que estava vazio: não havia comida nem gelo e, mais importante, não havia vodca.


Pensou em dar um pulo no mercado e comprar uma garrafa, mas seu telefone tocou, fazendo-o se lembrar de que havia uma mensagem não lida.

SYCAMORE CIRCLE, ESTA NOITE.

Carmine olhou para o endereço e ficou com medo. Sycamore Circle ficava no norte da cidade, uma área que ele conhecia vagamente, mas só por nome, uma vez que era conhecida por ser território dos irlandeses. La Cosa Nostra respeitava os limites em Chicago, fossem eles imaginários ou não. Carmine pegou sua arma antes de sair de casa. Entrou no carro e se dirigiu para o norte da cidade. Foi então que seu telefone tocou. Era Remy, pedindo que ele o apanhasse no meio do caminho. Carmine fez um desvio até a casa do colega, buzinando ao estacionar na frente da modesta casa azul com uma grande varanda e uma cerca de tela de arame. Um cão da raça pit bull corria em círculos no jardim, latindo furiosamente para o carro desconhecido. Remy saiu na mesma hora, saltando da varanda e pulando a cerca antes de se enfiar no banco do passageiro. O cheiro de maconha estava forte em sua pele e nas roupas, e os olhos do rapaz estavam vermelhos.

Cara, isso é maluco – disse Remy, relaxando no assento enquanto Carmine ligava o carro. – Área dos irlandeses? Agora as coisas vão esquentar. Carmine suspirou fundo.

Vamos esperar que não. O sol já estava se pondo quando eles chegaram a Sycamore Circle e se encontraram com os outros rapazes cerca de um quarteirão de distância. Usando binóculos, avaliaram o local de longe, de dentro do carro de Carmine, enquanto escutavam música. Remy pegou um cigarro de maconha, o acendeu e deu uma longa tragada. Em seguida, o entregou a Carmine, que aceitou, baixando o binóculo. Ele não conseguia se lembrar da última vez em que tragara um daqueles e sentiu a droga se infiltrando em seu sistema e relaxando os músculos tensos. Recostando-se no banco, fechou os olhos, deixando todas as preocupações desaparecerem ao exalar lentamente a fumaça. O trabalho foi rápido e fácil. Entraram e saíram em poucos minutos, sem que nenhum tiro fosse disparado e nenhuma gota de sangue fosse derramada, uma vez que os homens entregaram os caminhões sem oferecer resistência. Eles os pegaram desprevenidos e despreparados. A última coisa que esperavam era que Sal invadisse o território deles.

A noite já havia caído há muito tempo, e o ar abafado da onda de calor no final do verão já atormentava Chicago há vários dias. Corrado suava de maneira profusa e suas costas estavam


encharcadas, mas não ousaria tirar o paletó até que estivesse seguro dentro de casa. Ele o deixou cair no chão logo que passou pela porta, expondo sua camisa branca respingada com sangue fresco. Tirou a camisa, tentando livrar-se dela antes que alguém o visse, mas um suspiro leve na ponta da escada o fez perceber que era tarde demais. Ele fora pego em flagrante por Celia.

Pensei que já tivesse ido para a cama– disse ele sem olhar para a esposa, mais com o intuito de esclarecer do que propriamente se desculpar.

Eu estava na cama – ela respondeu –,mas não consegui dormir. Corrado tirou a camisa antes de caminhar até a sala de estar, e então acendeu com rapidez a lareira e atirou a peça de vestimenta no fogo. Queimar roupas manchadas e se desfazer de evidências incriminadoras era algo que ele poderia fazer até mesmo de olhos fechados. Ele conseguiu sentir a presença de Celia atrás dele, seguindo-o e observando seus atos. Também conseguia perceber seu nervosismo e não gostou daquilo. Ela sempre encontrava uma maneira de compreender o que ele fazia.

Há algo preocupando você? – ele perguntou. – Normalmente você não me espera

acordada.

– – –

Eu estava preocupada – ela disse, fazendo uma pausa. – De fato, eu estou preocupada. Não faz o menor sentido você perder seu sono – respondeu Corrado. – Estou bem.

Eu sei – ela disse. – Mas não é com você que estou preocupada. Corrado observou a camisa ser consumida pelas chamas antes de se virar para a esposa. Os lábios dela estavam franzidos, e rugas sutis se mostravam mais visíveis naquela noite. Ele a vira poucas horas antes, mas era como se ela tivesse envelhecido vários anos num único dia. Sua bela esposa. Ele queria aplacar toda aquela ansiedade.

Estou magoado – ele provocou, passando as costas de sua mão enorme na face de Celia. – Minha esposa não se preocupa comigo? Devo estar fazendo algo errado. Ele então se inclinou para dar-lhe um beijo, na expectativa de que os lábios macios de sua mulher pudessem apagar as lembranças terríveis daquele dia, mas ela se afastou com um suspiro dramático.

Estou falando sério, Corrado. Sei que pode cuidar de si mesmo. Celia ficou em silêncio e franziu ainda mais o cenho. Corrado sabia que havia muito mais que ela queria lhe dizer.

– –

Mas? – ele perguntou. – Sei que não terminou.

Mas com Carmine a história é diferente. Corrado suspirou de modo exasperado. Ele já deveria saber.


– –

Não outra vez, Celia. Por favor. Tudo isso é novo para ele – ela disse, ignorando o pedido do marido. – Eu me preocupo

com ele.

– –

Ele encontrará um jeito – retrucou Corrado. – Ele não tem escolha.

Eu sei, mas ele está machucado – ela continuou. – Você devia tê-lo visto hoje. Corrado meneou a cabeça.

– – –

Não é problema meu. Não é problema seu? Você é o Capo dele!

E meu papel é me certificar de que ele faça o que for preciso neste negócio – respondeu Corrado. – A vida pessoal dele não é da minha conta.

– –

Mas…

Mas nada – Corrado a interrompeu. –Tenho meus próprios problemas para resolver agora. Você sabe bem disso.

– –

Eu sei, mas ele está se autodestruindo.

Não há nada mais que eu possa fazer– Corrado insistiu. – E, honestamente, sua intromissão só o está ferindo ainda mais.

– –

Ele é meu sobrinho, Corrado. Estou-lhe pedindo que o ajude.

Eu estou ajudando – ele disse, acenando a cabeça. Contudo, os dois tinham definições bem diferentes para tal conceito. – Eu o estou ajudando da única maneira que sei.

– – –

Abandonando-o? Fazendo com que ele aprenda a caminhar com as próprias pernas.

Mas ele não está – ela retrucou com hesitação, como se não tivesse certeza do que deveria dizer. – Há algo muito errado acontecendo com ele. Não sei o que é, mas não está certo.

Ele está se tornando um de nós – disse Corrado em voz baixa.


Não, é mais do que isso – ela suspirou frustrada. – É difícil explicar. Não gosto das pessoas com as quais ele está envolvido. Por que ele não pode trabalhar diretamente com você? Corrado riu de maneira abrupta e amarga.

Você se esqueceu do que eu faço, Celia? Precisa que eu a lembre disso? Ele sabia que ela tentaria argumentar, mas um olhar de desgosto transpareceu no rosto dela. Aquilo fez com que o estômago dele revirasse com um sentimento de culpa: ser obrigado a responder daquele jeito para ela.

Os furtos são bem mais seguros que o restante – Corrado continuou. – E os jovens com os quais ele está trabalhando são inofensivos… Digo, de maneira relativa, são inofensivos. Você não tem de concordar comigo, tampouco gostar disso, mas espero que pelo menos respeite minha decisão. Que respeite a mim.

– –

Eu respeito.

Então pare com isso – ele disse. –Estou fazendo tudo o que está ao meu alcance. Celia não respondeu nada. E isso mostrou a Corrado que ele ganhara aquela batalha, embora já soubesse que haveria muitas outras. Surgiriam novos pedidos, mais negações e mais conflitos. Ele sabia que a determinação da esposa se equiparava à sua teimosia.

Estou morrendo de fome – ele disse, caminhando em direção à cozinha e esperando mudar de assunto. Ele trabalhara a noite toda e não tivera tempo para comer. – Poderia preparar algo para mim? Celia resmungou:

Vou voltar para a cama. Se quiser comer, tenho certeza de que conseguirá se virar sozinho. Você nunca precisou da ajuda de ninguém antes, lembra-se? Então por que começar agora?


Capítulo 18

Nós temos um problema. Corrado meneou a cabeça e se colocou de pé à janela do escritório de seu advogado.

– –

Não me venha com essa. Vim até aqui porque me disse que tinha boas notícias.

E tenho – disse Borza –, quer dizer, eu tinha, mas me parece que é irrelevante agora. Suspirando profundamente, Corrado virou-se para o advogado sem o menor humor para adivinhações.

– – –

Esse caso se provará bem mais complicado que os anteriores. Fale de uma vez, homem.

Bem, conseguimos barrar o uso de seu histórico criminal, o que poderia provocar certa inclinação negativa nos jurados. Todas as acusações anteriores resultaram em vereditos favoráveis a você ou então foram apenas retiradas.

– –

Isso é bom – retrucou Corrado. – Já é algum progresso.

Sim – concordou Borza. – A acusação está impedida de mencionar isso durante o processo. Seu registro criminal, em contrapartida, ainda será usado, mas está limpo.

– –

Eu sei – disse Corrado. – E que o mais?

O juiz considerou que as gravações feitas no clube não estavam cobertas pelo mandato, portanto, todas elas se tornaram inadmissíveis como provas de acusação. Estou trabalhando nas gravações feitas em sua casa. As fotos das cenas dos crimes foram destruídas, uma vez que iriam incitar o júri de maneira injusta. Ser considerado culpado de acordo com a Lei de Combate a Organizações Corruptas e Influenciadas pelo Crime Organizado é muito diferente de ser acusado de ser um assassino sangue-frio. Nem tanto, Corrado pensou.

– –

Algo mais?

Tommy DiMica e Alfredo Millano estão fora da lista de testemunhas. Parece que Tommy mudou sua história e agora alega que nem conhece você, e Alfredo foi atacado em sua cela há alguns dias. Está vivo, mas sem condições de testemunhar. Corrado assentiu com a cabeça. Ele já sabia de tudo aquilo. Tommy e Alfredo eram ex-membros da La Cosa Nostra, e homens que davam as costas a seus juramentos tinham mesmo de pagar o preço.


Muito bem, então qual é o problema?– perguntou Corrado. – Parece que o caso deles está

por um fio.

O problema é que existe um novo nome na lista. Borza pegou um papel sobre a mesa e entregou-o a Corrado, que o examinou com cuidado. Um nome no final da página lhe chamou a atenção. VINCENZO ROMAN DEMARCO

Corrado olhou para o nome, mas não disse nada, controlando-se para não reagir.

É possível que eles estejam planejando intimá-lo e que no final ele apele para a Quinta Emenda – continuou Borza.

– –

Ou que tenha concordado em testemunhar contra mim para salvar o próprio rabo.

Uma boa barganha – disse Borza. –Não tenho certeza, uma vez que não estou mais cuidando do caso dele. Solicitarei um depoimento, é claro, mas, nesse meio tempo verei o que posso fazer para que isso também seja derrubado de modo permanente. Corrado desviou o olhar do papel e o devolveu ao advogado.

– – –

Não. Não?

Deixe que eu mesmo cuidarei disso –disse Corrado, voltando-se mais uma vez para a janela. – Prefiro que ninguém mais saiba.

O som alto do alarme ecoou pelo quarto. Haven esticou o braço até a mesa de cabeceira e o silenciou. Ela estava exausta e estava confortável demais enrolada no edredom para pensar em se levantar. Um estranho som chegou aos seus ouvidos, mas ela fez o que pôde para bloqueá-lo, sem se importar em investigar. Presumiu que o barulho viesse do apartamento de Kelsey no piso superior e, se fosse isso mesmo, talvez não desejaria saber o que era. O barulho parou e o silêncio voltou a reinar no quarto. Porém, no momento em que ela se preparava para cair no sono, escutou uma sucessão de batidas e deu um pulo. Resmungando, ela se arrastou para fora da cama.


Acorde! – soou a voz abafada de Kelsey por trás da porta espessa. – Sei que já saiu da cama! Está vendo a hora? Vamos logo! Levante-se e brilhe!

– –

Calma – respondeu Haven com a voz rouca. – Já estou acordada!

É melhor que esteja! Mostrando-se impaciente, Kelsey voltou a bater na porta mais algumas vezes, mesmo sabendo que a amiga já estava a caminho. Bufando, Haven destrancou a porta e a abriu, deparando-se com um copo de café na frente do nariz.

Tome – disse Kelsey. – Se bem que já deve estar frio por causa da sua demora. Haven revirou os olhos, sabendo que ela o comprara na esquina.

Obrigada – respondeu, levando o copo à boca e tomando um gole. O líquido quente queimou a ponta de sua língua. Mesmo assim, ela o saboreou até o fim.

De nada – disse Kelsey, adentrando o apartamento e observando a jovem com um olhar peculiar. – Se bem que, pela sua aparência, você ainda precisaria de mais uns dez copos de café. Conseguiu dormir na noite passada, querida?

Um pouco – Haven respondeu, dando de ombros enquanto continuava a tomar o café preto, do jeito que gostava. Era o oposto do que Kelsey trazia nas mãos, que ela comprava todas as manhãs no caminho para a escola: um grande chai latte vaporizado com leite de soja, sem espuma e extremamente quente. Haven não fazia ideia do que tudo aquilo significava.

Um pouco – Kelsey repetiu a resposta, demonstrando com sua expressão que não acreditara na amiga. Um sorriso surgiu em seus lábios depois de um segundo, além de uma piscadela sinistra.

– –

Ah, você teve companhia na noite passada? Um cara, talvez?

É claro que não! – Haven retrucou na hora, olhando para ela sem acreditar no que ouvira e com o rosto corado. – Eu jamais faria… isso.

Que pena – brincou Kelsey. – Você até que poderia aproveitar uma boa trepada para aliviar

a tensão.

Kelsey! As duas jovens haviam se tornado o que a maioria das pessoas chamaria de “melhores amigas”, apesar de serem o oposto uma da outra em quase tudo. Kelsey crescera em meio à abundância, sem jamais ter sido obrigada a lavar suas roupas ou até mesmo usá-las mais de uma vez. Ela teve o tipo de infância


em que se pedisse um pônei de presente, provavelmente o teria ganhado, enquanto Haven passara a dela dormindo num celeiro como se fosse um animal. Kelsey adorava ir a festas lotadas e se informar com revistas de fofoca. Haven preferia ficar em casa lendo seus livros. Ainda assim, algo em relação àquela moça deixava Haven tranquila. Ela a fazia se lembrar da vida que deixara para trás; aquela à qual parte dela ainda gostaria de pertencer… A vida que quase construíra ao lado de Carmine. Ainda doía muito pensar sobre aquilo; uma queimação no peito sempre a fazia lembrar que parte de sua alma fora arrancada: aquela que ficara com ele; algo que sempre estaria com ele, onde quer que estivesse. Na maioria dos dias ela costumava pensar em Carmine com carinho, lembrando-se de tudo de bom que haviam feito juntos, de tudo que ele lhe dizia. No entanto, nem sempre as coisas eram assim. Ainda havia momentos em que ela se questionava se voltaria a sorrir, imaginando que um dia a dor a engoliria por completo.

Ei! Haven olhou para a amiga enquanto ela acenava a mão à sua frente.

– – –

O quê? Você não ouviu uma palavra do que eu disse? Caramba, garota, acorda.

Temos um longo dia à nossa frente. Não pode ficar aí perdida em seus pensamentos. – Kelsey olhou para os lados e perguntou: – Cadê seu telefone? Tentei te ligar quando estava a caminho, mas você não respondeu.

Jura? – a jovem perguntou, sem se lembrar de ter ouvido o telefone tocar. – Mas, afinal, onde você estava? Você não é do tipo que acorda cedo. Em geral sou eu quem tira você da cama.

Claro, é que acabei de chegar em casa – respondeu Kelsey. – Eu passei a noite na casa do Derrick. Nós… Haven ergueu a mão para interrompê-la.

– –

Poupe-me dos detalhes. Já entendi.

Danadinha ciumenta – disse Kelsey, enrugando o nariz enquanto olhava para Haven. – Ache o seu telefone e se arrume. Não vamos a lugar nenhum com você vestida assim. Revirando os olhos, Haven seguiu de volta para o quarto.

– –

Sempre tão mandona.

Uma das muitas razões pelas quais você me ama – ela gritou da sala. Haven continuou a beber seu café enquanto seguia para o quarto, e logo encontrou o telefone preto sobre a cama. Havia três chamadas perdidas, as duas primeiras de Kelsey. Porém, ficou petrificada ao identificar a terceira.


Olhou para o nome com o coração disparado e o sangue correndo furiosamente pelas veias.

CORRADO MORETTI

Você não tem nenhuma bebida aqui, não é? – disse Kelsey, entrando pela porta. – O que você é, uma freira? Haven abaixou o telefone, rindo, enquanto caminhava até a cômoda. Ela se vestiu com rapidez, puxando os cabelos para cima para tirá-los do pescoço.

Não se preocupe – gritou Kelsey. –Eu vou tomar alguma coisa lá em cima! Haven acenou com a cabeça e olhou para o relógio, vendo que faltavam poucos minutos para as dez horas. Sentando-se na beirada da cama, pegou o telefone e, com as mãos trêmulas, acessou a lista de contatos, parando no número de Corrado. O telefone tocou algumas vezes antes de ser atendido.

Alô? Haven sentiu-se aliviada ao ouvir aquela voz suave e feminina.

– – – – –

Olá, Celia. Haven? – ela disse. – Quanto tempo! É, eu sei – disse a jovem, sentindo-se culpada. – Eu tenho estado… ocupada. Não precisa arrumar desculpas, criança. Só me preocupo com você.

Sei que é verdade, mas juro que estou bem – ela afirmou. – Corrado está aí? Ele me ligou hoje de manhã.

– – – –

Ligou? – ela perguntou, surpresa. –Ele saiu cedo, disse que tinha assuntos a resolver. Ah, tudo bem – disse a jovem. – Pode dizer a ele que liguei? Claro, querida.

Obrigada – ela falou em voz baixa, sentindo-se enjoada. Haven mordeu o lábio, tentando se controlar quando disse adeus e desligou. Ela teria um longo dia pela frente e precisava se manter tranquila.


Haven pegou suas coisas e saiu do quarto, encontrando Kelsey na sala de estar, olhando para um dos quadros na parede.

O que você vê? Dando um pulo, Kelsey se virou e colocou a mão no peito.

Vejo uma garota que precisa transar –respondeu de maneira sarcástica enquanto voltava a encarar Haven. – Ela também precisa de alguma maquiagem para essas olheiras e uma pedicure, se pretende usar rasteirinhas.

As jovens saíram, pegando um táxi para percorrer os poucos quarteirões que as separavam do Centro de Artes ArcoÍris. A cada semestre, elas tinham de prestar cinco horas de trabalho voluntário, fosse numa galeria, biblioteca ou na comunidade. Haven sentia-se entusiasmada com a oportunidade de ajudar, enquanto Kelsey parecia temer aquilo mais que qualquer outra coisa. Kelsey tirou a tampa de seu copo e tomou mais um gole de chá ao caminhar em direção à entrada do prédio.

– –

Que tal você refrescar minha memória e me dizer o que nós estamos fazendo aqui?

Ué, você disse que o pessoal daqui era mais fácil de lidar que aqueles tipos intelectuais que se acham o máximo com suas obras esquisitas, falam em haiku1 e se levam muito a sério – disse Haven, se recordando da exata afirmação feita pela colega.

É, é isso – disse Kelsey, esboçando um sorriso torto. – Nunca confie num homem com sotaque francês e uma boina. Ou ele é gay ou um charlatão. E pode acreditar no que lhe digo. Haven assentiu, sem desejar mais detalhes sobre o que estaria por trás daquele comentário. O caos reinava no local. Vozes altas e passos pesados ecoavam por toda a construção. No momento em que a porta se fechou atrás delas, Haven percebeu alguém se aproximando e cruzou os braços sobre o peito como se tentasse se proteger. Uma menina pequena esbarrou em suas pernas. Com o nariz empinado e os olhos arregalados, a criança olhou para a jovem com uma mistura de confusão e fascinação. Ela sorriu para a criança de um jeito doce. Seus cabelos grossos e escuros cobriam parcialmente a visão da menina. – Ei, olá, querida. A garotinha não disse nada, apenas continuou a encará-la.

São animais, eu juro – resmungou Kelsey. Haven olhou para a amiga e riu ao ver que ela tinha dois garotinhos correndo por entre suas pernas, dificultando seus passos. – Ainda bem que gosto de ir ao zoológico. Uma senhora se aproximou das duas, inabalada pela confusão, e sorriu de um jeito caloroso enquanto segurava as crianças.


Vocês devem ser as voluntárias – ela disse, puxando a garotinha para perto de si. – Ah, e esta é a Emma.

Olá, Emma. A menina sorriu para ela ao ouvir o som de seu nome e correu para se juntar aos outros. A professora, senhora Clementine, as levou para conhecer o lugar antes de colocar a turma em ordem com um forte assobio. O barulho reverberou pela sala, balançando as paredes e fazendo com que todos ficassem quietos. – Em seus lugares – declarou. Todos obedeceram enquanto Haven entrou em ação e começou a ajudá-la a distribuir os materiais de arte. O Centro de Artes Arco-Íris era ligado à associação comunitária local. Lá eles ensinavam artes gratuitamente para crianças menos privilegiadas. O nome soou irônico para Haven, uma vez que não havia nada colorido no lugar. As paredes eram pintadas de cinza e a tinta estava descascando. De fato, o prédio estava caindo aos pedaços. A maioria das crianças que frequentava o centro não tinha família; todas eram consideradas em situação de risco pelo Estado. Tão jovens e inocentes. Haven sabia que eles estavam a apenas um passo de viver a vida que ela própria tivera de enfrentar. Ambas passaram duas horas desenhando e pintando com as crianças. Quando a aula terminou, Haven estava esgotada. Pouco a pouco os assistentes sociais foram aparecendo para levar os alunos, mas Emma encontrou-se com Haven na porta, sorrindo de um jeito vivaz e entregando-lhe suas pinturas.

Eu fiz você! – ela exclamou. Haven sorriu e pegou os trabalhos, olhando para a figura de palitos totalmente distorcida que a menina fizera; a cabeça era gigantesca e adornada com um enorme tufo de cabelos castanhos. Havia também uma enorme boca vermelha e um sol amarelo que tomava metade do céu. Haven sorriu e disse:

– – –

Lindo. Você pode ficar com ele.

Obrigada – respondeu. – É muito bonito. Os olhos de Emma se iluminaram.

– – –

Posso ser uma artista como você? É claro que pode – respondeu Haven.

Pode ser qualquer coisa que quiser. Poesia japonesa tradicional, composta por pequenos versos e poucas estrofes. (N. E.)


Capítulo 19 Carmine enfiou uma chave de fenda na ignição de um caminhão de entrega e tentou ligá-lo, mas nada aconteceu. O motor não foi acionado. Resmungando, ele retirou a ferramenta da ignição e usou-a para forçar a retirada do mecanismo e abrir o painel de plástico. Outro caminhão passou por ele com rapidez, levantando cascalho e atirando-o contra o para-brisa, enquanto ele puxava os fios vermelhos do cilindro e em segundos retirava a proteção colorida antes de emendá-los. As luzes no painel acenderam de imediato e o rádio ligou sozinho, revelando um rock pesado nos alto-falantes baratos. Carmine pegou os fios marrons, desencapou-os e encostou-os com força nos fios vermelhos. Grande erro. Aquilo provocou uma faísca e um choque elétrico poderoso, que queimou as pontas de suas luvas. Ele soltou os fios e falou um palavrão. Nesse momento, ouviu uma pancada no lado do caminhão.

Vai rápido com isso, cara! – gritou Remy. – Liga logo essa porra! Frustrado, Carmine pegou os fios marrons de novo e prendeu o fôlego enquanto os ligava aos demais. Mais uma faísca, mas enfim o motor ligou antes que Carmine se visse forçado a soltá-los. Com o caminhão ligado, ele chacoalhou a mão, tentando se livrar da dor. Já tivera de usar a ligação direta algumas vezes, quando o truque da chave de fenda não funcionava, mas ainda tinha de descobrir um jeito de fazê-lo sem se eletrocutar. Remy pulou no lado da carroceria e olhou para dentro. Mesmo com o rosto coberto com a máscara preta de esqui, Carmine pôde perceber que o rapaz estava orgulhoso.

É assim que se faz, cara – ele disse, dando-lhe um tapinha nas costas. Foi legal, mas Carmine estremeceu com a pancada. – Leve-o até o ponto de encontro, tudo bem? Nós nos veremos lá. Antes que pudesse fazer qualquer objeção, Remy arrancou as chaves de Carmine do seu colo e correu para o carro. Carmine colocou o caminhão em movimento, sabendo que não teria outra escolha, e fugiu do estacionamento próximo às docas no Lago Michigan. O coração estava disparado e ele entrou pelas ruas de Chicago atrás de sua Mercedes, com os olhos concentrados nos demais carros para perceber qualquer sinal de problema. Distraído, ele acabou perdendo Remy de vista, enquanto desviava do tráfego pesado, entrando com o caminhão em lugares tão apertados que o veículo mal conseguia passar. Levou quase meia hora para que Carmine chegasse até o armazém isolado no subúrbio da cidade. O outro caminhão já estava estacionado atrás da construção e sendo descarregado por alguns sujeitos da Cosa Nostra. Carmine estacionou e desceu da cabine. Encostado na lateral da Mercedes, ficou observando enquanto os homens trabalhavam em silêncio. Ele ficou fascinado ao ver como o processo acontecia de maneira fluida, como se todos fossem peças de uma máquina bem lubrificada. Cada um tinha sua função e fazia o trabalho como numa corrida de revezamento de bastão. Aquilo se tornara habitual, à medida que ele lentamente se entregara àquela vida como membro de uma equipe de rua. Toda semana era a mesma coisa, os mesmos esquemas com os mesmos rapazes, mas em diferentes locais da cidade. E, embora não tivesse melhorado, e Carmine se arriscasse a dizer que isso jamais aconteceria, ele aprendera a arte do desapego, ou seja, conseguia abstrair por alguns momentos e olhar para o outro lado.


Ele estava dividido: de um lado estava a metade de um jovem ingênuo que bebia todas as noites para ficar inconsciente e tentar esquecer; do outro, o homem, entorpecido em relação a tudo, que apenas fazia o que precisava ser feito, dia após dia. Era o homem que saía durante as noites e fazia o que era esperado dele: os furtos, a violência, as fraudes. Mas era o garoto, de coração partido e enojado, que acordava na manhã seguinte para encarar os resultados. Levou cerca de uma hora para que os caminhões fossem descarregados. Em seguida, o dono do armazém entregou a Carmine um envelope com dinheiro. Ele o abriu e discretamente conferiu as notas antes de enfiá-lo no bolso com um aceno. Depois da transação concluída, o jovem saiu andando e hesitou fora do armazém. Seus olhos examinaram a propriedade sinistra e ele já estava prestes a entrar em pânico quando sua Mercedes surgiu do nada e parou bem ao lado dele.

O que o fez demorar tanto? – perguntou Carmine quando Remy saiu do carro. – Já se passou mais de uma hora.

Eu tinha de resolver um probleminha– ele respondeu, devolvendo as chaves a Carmine. – Esse carro é bacana, cara. Anda macio. Você é sortudo.

É, o carro é bom, eu acho – resmungou Carmine, sentando-se no banco do motorista enquanto Remy se acomodava no banco do passageiro. – E o que era tão importante que o fez deixar o trabalho de lado?

Eu não deixei o trabalho de lado –disse Remy, rindo. – Só fiz um pequeno desvio, só isso. E não foi nada de mais, pode acreditar. Só tinha que pegar uma coisa para a Vanessa. Sabe como é. Carmine não o pressionou para que lhe desse mais explicações. Afinal, se o cara estava sendo evasivo era bem provável que ele não quisesse dar maiores detalhes.

Haven deixou escapar um profundo suspiro ao entrar no prédio de tijolos com as chaves do apartamento na mão. Ela estivera envolvida numa atividade escolar até tarde daquela noite, mas deu um jeito de escapar assim que pôde. Estava exausta e seus passos não eram mais rápidos que o arrastar de uma lesma. Tocou na maçaneta da porta e ergueu as sobrancelhas ao perceber que ela se abriu sem ser destrancada. O coração começou a bater fora do ritmo normal. Em silêncio e com bastante cuidado, entrou no lugar e ficou apavorada ao ver suas gavetas reviradas. Retirou da bolsa um spray de pimenta que levava consigo, antes de cruzar o apartamento na ponta dos pés. Entrou na cozinha silenciosamente e esticou o braço para acender a luz, porém, no momento em que seus dedos tocaram o interruptor, a jovem ouviu uma pancada no andar de cima. O coração de Haven parou por um segundo e ela instintivamente olhou para o teto. Os pelos em seus braços se eriçaram à medida que uma sensação estranha invadiu seu corpo; a impressão de que não estava sozinha quase fazia seus joelhos dobrarem. Ela ficou imóvel como uma estátua, tentando convencer a si mesma de que estava ouvindo coisas. Foi então que ela escutou outra pancada forte no andar superior e prendeu a respiração. Em seguida, começou a tremer ao ouvir passos no apartamento de Kelsey, indo em direção ao hall. Eles eram pesados, como se fossem de alguém muito forte. Aquilo fez com que Haven se lembrasse do modo como Michael


costumava caminhar; o som de suas botas dentro de casa enquanto ela e a mãe esperavam no celeiro úmido por algum tipo de punição. Diante daquelas lembranças tenebrosas, ela teve de se concentrar ao perceber que alguém descia a escada, então se enfiou no armário do corredor e fechou a porta com muito cuidado. Os passos se aproximaram e algumas pessoas entraram no apartamento, passando direto por onde ela se escondia e ofuscando a luz por um momento. Ela voltou a prender a respiração, sem ousar fazer qualquer movimento enquanto eles estavam ali. Eles fechavam gavetas e moviam as coisas de um lugar a outro, respirando alto, mas sem dizer uma única palavra. Pareceu passar uma eternidade até que fossem embora. Haven os ouviu sair do prédio e saiu do armário. O caos que ela encontrara ao entrar no local havia desaparecido. Tudo estava em perfeito estado, e até mais organizado do que deixara pela manhã. Até mesmo a porta da frente fora meticulosamente trancada, o que não deixava nenhum sinal de que alguém estivera ali.

Carmine entrou no Luna Rossa, acenando com a cabeça para o segurança antes de seguir direto para a mesa dos fundos, onde sua equipe estava reunida numa das cabines da casa. Ele estava a poucos passos do seu destino quando alguém parou à sua frente e disse:

Venha comigo. Carmine empalideceu no momento em que Corrado fez um movimento em direção à porta. Ele estava com o casaco e foi possível ver algo prateado em seu cinto quando ele ergueu o braço. Uma arma.

– –

O quê?

Apenas me siga. Carmine hesitou por um momento, mas seguiu o tio até o lado de fora do clube e sentou no banco do passageiro, enquanto Corrado se sentava no banco do motorista. Sem demora, o tio ligou o carro e saiu dali em alta velocidade.

Aonde estamos indo? – perguntou Carmine. Será que havia feito algo

errado?

Alguns irlandeses têm aparecido narua Clark e incomodado o dono de uma loja de penhores da esquina. Carmine o olhou de um jeito peculiar.

– –

E?

E vamos fazer com que desapareçam. O estômago de Carmine ficou embrulhado. Trabalho. Ele nunca estivera num trabalho ao lado de Corrado, e não estava nem um pouco ansioso para fazê-lo naquele momento.


– –

Imagino que eles estejam lá agora, certo?

Estão jogando nas máquinas de videopôquer – ele disse, com a voz exalando repulsa. Carmine sabia que Corrado detestava jogos, embora muito de seu próprio dinheiro viesse de apostas clandestinas. Ambos ficaram em silêncio ao longo do curto trajeto até a loja. Corrado estacionou o carro e saiu sem dizer uma palavra. Carmine o seguiu até dentro do local, ouvindo a agitação nos fundos. Os homens gritavam e riam. O forte sotaque irlandês ecoava pela loja enquanto eles operavam as máquinas. Corrado caminhou pelos fundos, indo diretamente a eles. Carmine foi pela frente, se esgueirando por um corredor lateral para que pudesse observá-los sem ser visto. Os homens viram a aproximação de Corrado, mas sequer tiveram tempo de reagir antes que ele pegasse a parte de trás da cabeça de um sujeito e a batesse com violência contra a máquina em que estava. O cara deu um grito com a pancada e o sangue começou a escorrer do nariz quebrado. Ele levou a mão ao ferimento cambaleando no momento em que Corrado o deixou de lado. Corrado sorrateiramente alcançou a arma do homem no momento em que um segundo irlandês puxou a que trazia no cinto. Ambos apontaram um para o outro assim que Carmine saiu do corredor e se colocou atrás do sujeito, destravando sua pistola. Um pouco tenso e com a mão levemente trêmula, Carmine pressionou o cano contra a nuca do homem. Corrado sacou a própria arma e a apontou também. O irlandês hesitou, mas, devagar, ergueu as mãos, tirando o dedo do gatilho. Carmine o desarmou e deu um passo para trás. Corrado enfiou a arma do primeiro sujeito no bolso, mantendo a sua apontada enquanto encarava o homem da cabeça aos pés.

Se eu sequer ouvir falar que vocês retornaram aqui, farei mais que apenas quebrar um nariz. Você entendeu?

– –

Sim.

Certifique-se de dizer a O’Bannon que eu mandei um “olá” – disse Corrado. O tom de voz gelado fez com que a pele de Carmine se arrepiasse. – Agora saiam daqui. Eles hesitaram, parecendo espantados ao olhar para Corrado. Carmine interferiu:

Vocês ouviram o que ele disse. Ele os mandou sair, então saiam, filhos da puta. Ambos olharam para Carmine com raiva antes de caminharem em direção à saída. Entretanto, um dos sujeitos ainda se demorou à porta, virando-se para os dois com um olhar furioso.

Você quer que fiquemos longe de seu território, então diga ao seu Chefe que se mantenha

fora do nosso.

Nós nunca entramos no território de vocês – respondeu Corrado. – Nunca! O cara acenou com a cabeça. – Você fala como se realmente acreditasse em suas mentiras.


E eram mentiras. O próprio Carmine fizera um serviço em Sycamore Circle, então ele tinha certeza de que de fato a Cosa Nostra havia cruzado os limites invisíveis. Corrado suspirou quando eles enfim saíram, desviando o olhar para Carmine.

Você e essa sua boca. Os mais velhos acreditavam que deveríamos ser gentis na maneira como falamos e sempre estar apresentáveis no modo como nos vestimos. Colocar um terno é tão difícil para você? Carmine olhou para as próprias roupas. Ele vestia jeans e uma camisa preta, nada fora do normal.

– –

Ternos são para casamentos e funerais.

Então imagino que estará usando um no domingo, certo? Carmine ficou tenso.

O que tem no domingo? Corrado começou a falar, mas seu telefone tocou e o interrompeu. Ele o retirou do bolso e olhou para a tela.

Faça com que ele pague – disse Corrado, apontando para a direção do homem que estava no balcão. – Dois mil dólares. Um pouco hesitante, Carmine assentiu com a cabeça enquanto seu tio se virava para atender a ligação.

Alô? Está tudo bem? Pelo modo descontraído como Corrado atendeu, Carmine soube que não se tratava de negócios. Porém, quando o tio saiu como um raio pela porta da frente, o rapaz ficou confuso, afinal, ele não era do tipo de pessoa que atendia a um chamado pessoal durante o serviço. Ele deu de ombros. Nada parecia ter feito muito sentido naquele dia. Em seguida, caminhou até o balcão do estabelecimento.

– – – – –

Você tem algo para me entregar? Tenho alguma coisa – disse o homem. E quanto é alguma coisa? Ah, cerca de quinhentos dólares.

Você tá de brincadeira, né? – disse Carmine, dando a volta no balcão e se aproximando do sujeito. Viu um taco de beisebol escondido próximo à caixa registradora, para proteção, e o pegou.

dólares.

Muito bem, talvez mil – disse o homem rapidamente, voltando atrás. – Sim, eu tenho mil


São dois mil e quinhentos dólares –disse Carmine, com sangue-frio, saindo de trás do balcão e olhando de frente para o sujeito.

Eu sei, mas não tenho tudo agora –ele disse. – Meus filhos têm acampamento de verão e minha esposa está grávida. Eu lhe darei o resto na semana que vem, mas não tenho tudo hoje. Carmine caminhou pela loja ao mesmo tempo em que o homem mexia no cofre e retirava de lá um maço de dinheiro. As mãos dele tremiam enquanto contava o que tinha. Carmine tentou combater o sentimento de culpa. Aquelas pessoas eram inocentes, mas estavam tentando sobreviver no meio de tudo aquilo. Mas se não fossem eles a extorqui-lo, certamente seriam outros. Talvez alguém menos civilizado que exigisse muito mais. Além disso, ele pensou, era melhor que a alternativa. Se não estivesse roubando o dinheiro das pessoas, talvez estivesse roubando suas vidas. Ele preferia pegar o que poderia ser reposto.

Não é o suficiente – disse Carmine, balançando o taco com toda força, destruindo um balcão de vidro e espalhando cacos em todas as direções. Ele então atirou o taco para trás do balcão, quase atingindo o homem, e pegou o dinheiro. Carmine saiu da loja, sem conseguir encarar o proprietário, e abriu a porta do carro para sentar-se no banco do passageiro. Ao entrar, percebeu que o tio ainda estava ao telefone, com uma expressão séria enquanto ouvia a outra pessoa.

Estarei aí pela manhã – ele disse, saindo com o carro. – Sim, tenho certeza. Eu avisarei assim que pousar. Ele suspirou de modo exasperado no momento em que desligou e olhou para Carmine.

– – – –

Quanto conseguiu? Mil dólares. Só isso?

Era tudo o que ele tinha. Corrado esticou a mão e arrancou o dinheiro da mão dele. Em seguida contou o montante, mal prestando atenção ao tráfego enquanto acelerava pelas ruas da cidade. A curiosidade de Carmine foi mais forte e ele perguntou:

– –

Você vai viajar ou algo assim?

Ou algo assim – Corrado respondeu, entregando cem dólares ao rapaz e atirando o restante no console. – Você é bonzinho demais. Ele teria dado mais dinheiro.

Eu perdi a paciência e acabei comum dos balcões do cara – ele respondeu. – Imaginei que aquilo custaria mais em danos do que ele possuía.


Justo – disse Corrado enquanto estacionava de novo no clube. – Precisa aprender a controlar seu temperamento.

Estou trabalhando nisso – respondeu, olhando para o tio de um jeito curioso. Ele parecia distraído; seus olhos não se afastavam do relógio no painel. – Aonde vai?

Para onde sou necessário – Corrado respondeu de modo evasivo. – O lugar não importa. Mas tenho de partir imediatamente para conseguir retornar a tempo para o casamento, então você precisa descer.

Casamento – resmungou Carmine, até que lhe caísse a ficha. Domingo seria o casamento

de seu irmão.

Sim, o casamento. – Corrado se esticou, abriu a porta do passageiro e acenou com a mão. – Fora. Carmine saiu do carro e bateu a porta com força. Então viu quando Corrado apertou o acelerador e saiu cantando os pneus. As palavras do tio ficaram na cabeça de Carmine; era uma sensação estranha. O lugar não importa… Sua cabeça de repente voltou a pulsar; a dor no peito se tornou mais intensa e uma sensação de vazio no estômago surgiu no momento em que o carro de Corrado desapareceu.

Haven.

Não demorou muito para que Carmine se decidisse depois que Corrado virasse a esquina. O jovem reagiu de maneira impulsiva, entrou em seu carro, ligou o motor e acelerou para fora do estacionamento. As vias não estavam congestionadas àquela hora, mas Carmine não conseguia ver o tio em lugar algum, então seguiu na direção de seu bairro, na expectativa de que ele passasse em casa. No momento em que entrou na rua, o jovem viu a Mercedes parada na frente da casa do tio. Carmine estacionou a algumas casas dali e desligou os faróis. Corrado saiu logo em seguida, carregando uma mochila e olhou em volta com cautela antes de entrar no carro e partir apressado. Carmine esperou alguns segundos antes de pegar a estrada. Ele se colocou atrás de outro carro e seguiu costurando em direção ao aeroporto. Manteve-se o mais longe possível, certificando-se de que havia veículos suficientes entre os dois para não levantar suspeitas. Ele perdeu Corrado de vista umas duas vezes, mas conseguiu localizá-lo, já tendo uma ideia da direção que ele estava seguindo. Então, o tio inesperadamente entrou numa rua lateral depois de alguns quilômetros. Carmine reduziu a velocidade, sem entender o que ele estaria fazendo, mas decidiu segui-lo. Eles passaram por algumas ruas vazias antes de entrar num beco. Carmine pisou fundo no freio ao virar e quase bater no para-choque do carro do tio.


O coração dele disparou ao perceber que era uma rua sem saída. A porta do lado do motorista do carro de Corrado estava aberta e não havia sinal dele em lugar nenhum. Antes que Carmine pudesse acionar a marcha à ré, a porta de seu carro foi aberta e alguém o arrancou para fora. Tudo aconteceu tão rápido que ele ficou assustado e o carro deslizou. Ele teve tempo suficiente para puxar o freio de mão antes de ser tirado de dentro à força e atirado contra a parede.

O que pensa que está fazendo? – perguntou Corrado, pressionando o cano de sua arma sob o queixo de Carmine. Ele tremia, assustado.

– –

Eu, ah… Caralho! Eu sei lá. Eu só achei…

Você não é pago para pensar – disse Corrado –, e sim para seguir ordens, mas não me lembro de ter mandado você me seguir.

– –

Também não me disse para não seguir.

O que foi que você disse? – O som do dedo de Corrado destravando a arma o fez sentir um frio na espinha. – Estou cheio da sua falta de respeito.

Eu não tive a intenção! Eu só… Eu só tinha que saber. Eu tinha que ver, tio. Corrado ficou parado, sem se mover ou dizer uma palavra.

Acha que eu não o mataria por ser filho de Vincent? – perguntou Corrado, com a voz ameaçadoramente controlada. – Você acha mesmo que sou tão bonzinho?

Não, senhor – ele respondeu rapidamente, apertando os olhos. – Não quis desrespeitá-lo. Corrado afastou a arma e soltou Carmine.

– –

Não há a menor justificativa para você me seguir. O lugar aonde vou não lhe diz respeito.

Não? – ele perguntou, tentando par arde tremer e se firmar sobre as pernas. – Se você estiver indo aonde acho que está indo…

O que foi que eu acabei de dizer? –perguntou Corrado. – Eu disse, quando ainda estávamos em Durante, que tomasse uma decisão, e foi isso que você fez. Você precisa ser um homem dentro do seu mundo.

– –

Então estou certo? – ele perguntou de maneira exasperada. – Você está indo até ela? Você não tem o direito de interferir.


Não estou tentando interferir – ele disse, meneando a cabeça. – Eu só quero… Caramba… Eu só quero saber onde ela está, o que está fazendo. Por que você está partindo às pressas no meio da noite? Há algo de errado com ela? Ela está ferida ou algo assim? Corrado o encarou enquanto ele fazia essas perguntas; a expressão era vazia, mas Carmine podia ver que ele estava bastante irritado. Sabia que não deveria estar questionando o tio, mas precisava de alguma resposta, qualquer coisa… Apenas algo que o fizesse continuar de pé. Olhando para o relógio, Corrado suspirou impaciente. Parecia estar prestes a dizer alguma coisa e Carmine se encheu de esperança, mas ela se esvaiu quando seu tio levantou a arma novamente. Carmine se encolheu e o tio disparou duas vezes, deixando-o apavorado. Sem acreditar naquilo, Carmine se virou e viu que os dois pneus do lado do motorista do seu carro estavam esvaziando.

Se resolver seguir alguém, pelo menos seja discreto – alertou Corrado, recolocando a arma no casaco. – Chame um guincho e volte para casa. Não preciso que me atrase mais ainda.

Mas que bosta! – resmungou Carmine enquanto o tio se afastava. Corrado parou por um segundo e disse:

Isso é uma ordem, Carmine.


Capítulo 20 Nervosa, Haven observava o relógio e esperava pelo carro preto que lentamente entrou na rua. Corrado estacionou em frente ao prédio e saiu do carro ajeitando a gravata e olhando para os lados antes de entrar. Ele bateu à porta e, com paciência, esperou que a menina a abrisse. Ela começou a gaguejar assim que ele entrou, tentando explicar o que acontecera, mas ele ergueu a mão para interrompê-la. A garota piscou ao ver o movimento brusco e ele ficou parado.

Não tenho nenhuma intenção de machucá-la. Haven ficou imóvel perto da porta enquanto ele verificava o apartamento. O lugar parecia intocado e ela se sentiu ridícula, imaginando se Corrado teria viajado à toa.

– – –

Sua vizinha do andar superior está em casa? – ele perguntou. Ah… Não, ainda não – ela respondeu. – Kelsey passou a noite com um cara ontem.

Olhe por aí e veja se algo foi levado– ele instruiu. – Tenho de checar o apartamento dela e me certificar de que nenhuma de vocês tem uma escuta instalada.

Sim, senhor. Ela examinou tudo, fazendo um inventário, mas não deu falta de nada. Até mesmo o dinheiro que ela guardava na gaveta ainda estava lá. Ela se lembrou do que Corrado lhe havia dito: Sempre use dinheiro. Nunca deixe rastros em papel. Depois de algum tempo, Corrado desceu, deixando a porta semiaberta enquanto a examinava.

– – –

O lugar está limpo. Algo faltando aqui? Não – ela respondeu. – Mas eu não tenho mesmo nada de valor.

Valor nem sempre está associado à questão monetária – ele explicou. – Não há diários? Ela acenou a cabeça antes que a ficha caísse.

Ah… Que droga! Correndo para a sala de estar, ela procurou na estante e soltou um suspiro de alívio ao ver o livro de couro entre os demais.

Eu tenho o de Maura. Haven voltou-se para ele e começou a falar e perguntar o que deveria fazer. Então, a porta da frente se abriu e a pegou de surpresa. Ela prendeu a respiração quando Corrado se virou e buscou a arma no casaco. Ele chegou a pegá-la, mas não a puxou ao perceber Kelsey à porta. Seus olhos imediatamente repousaram sobre a dupla.


Quem é o papai bonitão? – ela perguntou, deixando a porta escancarada enquanto se movia em direção a Corrado. Seus olhos o examinaram da cabeça aos pés e um pequeno sorriso surgiu nos lábios da moça. Haven ficou corada.

Kelsey… Essa é sua amiga desaparecida? – perguntou Corrado. – A que mora no andar

de cima?

Desaparecida? – Kelsey ergueu as sobrancelhas. – Você é policial ou algo assim? Corrado a encarou.

– –

Pareço um policial?

Mais ou menos – ela disse. – Digo, você tem uma arma. Corrado tirou a mão de sua arma e a cobriu com o paletó.

– – – –

Ele é… – Haven começou a responder, sem ter certeza de como explicar. Corrado – ele completou, com educação e estendendo a mão. Sou Kelsey – ela disse, cumprimentando-o. – Mas é óbvio que você já sabe o meu nome.

Sim. Se me dá licença, preciso faze ruma ligação – ele disse, levantando-se e indo até a cozinha com seu telefone. No momento em que ele se afastou, Kelsey deu um cutucão no braço de Haven e perguntou:

– – –

De onde foi que ele surgiu? Ah… Bem, eu o conheço há algum tempo – respondeu em voz baixa.

Ei, não vou mentir. Eu realmente esperava que você não voltasse para casa sozinha ontem à noite. Queria que você se livrasse de um pouco desse seu jeito fechado e recluso, se entende o que quero dizer, mas como conseguiu esse sujeito?

– –

Você acha que nós…? – Haven se mostrou surpresa. – De jeito nenhum! Ele é casado!

E daí? – Ela deu de ombros. – Um homem como aquele precisa de mais de uma mulher para tomar conta dele. Não posso acreditar que passou a noite com ele e vocês não transaram.

E por que acha que passei a noite toda com ele?


Você está usando as mesmas roupas de ontem – disse Kelsey, como se fosse a coisa mais óbvia no mundo. – Você pelo menos deu uma chupadinha básica?

– – – –

Kelsey, cale a boca! Ah, você é tão pudica – disse, fazendo uma careta. – Se não estiver interessada, posso? Não! – Haven respondeu furiosa – Meu Deus, por que você iria querer uma coisa dessas?

Você está mesmo me perguntado isso? – ela questionou – Você é cega? Ele tem aquele olhar misterioso e perigoso. Não há como um homem desse não ser bem-dotado.

Pare! – ela disse, bufando. Kelsey revirou os olhos.

Ok, relaxe, eu compreendo. Você não tem nenhum interesse por homens, exceto por Cartman…

– –

Carmine – ela corrigiu.

Cartman, Carmine, é tudo a mesma coisa. Já te conheço há alguns meses, querida, e ainda não vi esse cara. Ele não liga, não escreve, não faz visitas. Ele pode até ser um fantasma, mas aquele belo espécime na cozinha é bem real. Ele é tangível. E chega um ponto na vida em que é preciso deixar de fantasiar e enfrentar a realidade – Kelsey fez uma pausa e olhou para o corredor enquanto Corrado retornava à sala. – E quer saber? Não faz mal nenhum que a realidade se pareça pra caramba com a minha fantasia. Corrado entrou na sala já colocando o telefone no bolso e olhou para Haven.

Você ficará segura aqui, mas farei com que todas as fechaduras sejam trocadas. Um silêncio tenso tomou conta do lugar. Os olhos de Kelsey se encheram de dúvida.

– –

Aconteceu alguma coisa aqui?

Alguém invadiu o apartamento – Haven disse em voz baixa. – Eles estavam aqui quando cheguei. Os olhos de Kelsey arregalaram.

Eles levaram alguma coisa? Será que eles foram ao meu apartamento também?


Ela os assustou antes que eles pudessem ter a chance – respondeu Corrado. – Não houve danos. Haven acenou com a cabeça, confirmando a mentira. Ela olhou para o relógio quando uma nova onda de tensão invadiu o ambiente.

– –

Preciso me arrumar. Temos um compromisso hoje.

Prefiro que falte a esse compromisso hoje – disse Corrado. Haven meneou a cabeça.

Mas eu não posso. Ele a olhou com curiosidade.

– –

Não pode ou não quer?

Não quero. Ele assentiu, como se já esperasse aquela resposta.

Vá em frente, então. Haven deixou os dois na sala e foi se arrumar. Kelsey estava sentada no sofá, comendo, quando Haven retornou, mas Corrado havia desaparecido.

Ele foi lá fora – disse Kelsey, antes que Haven tivesse a chance de perguntar. – Recebeu uma ligação, talvez da esposa. Isso acaba com qualquer clima. Haven acenou a cabeça.

– – – –

Ele não é seu tipo. É um homem sério. É, eu reparei – ela disse. – Ele é intenso. Você não está num PPT ou algo assim, não é? O quê? – perguntou Haven.

PPT. Você sabe, Programa de Proteção a Testemunhas. É quando o governo lhe dá uma nova identidade para que os gângsteres não a encontrem. Haven sorriu ao perceber a ironia da situação, considerando que fora justamente o gângster que lhe dera uma nova identidade para que pudesse se esconder do governo.

– –

Não, não há nada disso. Então por que eu nunca vi esse cara por aqui antes?


– – – – – –

Ele não mora por aqui. E onde ele mora? Por que você é tão curiosa? Porque é assim que sou – Kelsey respondeu, rindo. – Como o conheceu? Ele é… um amigo da família.

Verdade? Ele me parece bem familiar, como se eu já o tivesse visto em algum lugar antes – ela disse, colocando-se de pé. – É estranho. Mas ele é mesmo um policial, certo?

Para que todas essas perguntas? – Haven questionou. Kelsey deu de ombros.

Só estou tentando entender quem ele é. É algum crime querer saber sobre a vida da minha amiga? Você não fala muito sobre isso.

Não há nada para falar. Kelsey revirou os olhos.

Tudo bem, então. Eu vou me vestir para podermos sair. O carro de Corrado havia partido quando as duas saíram do prédio. Em silêncio, ambas dividiram um táxi até o Centro de Artes Arco-Íris e passaram toda a manhã limpando, organizando e reunindo os trabalhos feitos pelas crianças. Elas colocaram todos os desenhos em molduras e investiram outras duas horas fixando-os nas paredes e decorando o lugar para a festa. Num dado momento, Kelsey saiu para comprar lanches e bebidas, e Haven permaneceu no lugar para encher os balões. Ela se virou para pegar algo e quase colidiu com alguém que estava de pé atrás dela. A pessoa segurou seus ombros enquanto ela gritava, pega de surpresa.

– –

Relaxe – disse Corrado. – Sou eu.

Como sabia onde eu estava? – ela perguntou. Ele ergueu a sobrancelha.

– –

Acha mesmo que não rastreio todos os seus movimentos? Bem, eu sei que sim, mas não sabia que era de tão perto.


Próximo o suficiente para conseguir encontrá-la quando quiser – ele disse. – É parte do meu trabalho. É muito interessante o que faz aqui, a propósito.

Ah… – ela disse, enrubescendo. Será que aquilo fora um cumprimento? – Obrigada. Gosto

muito.

Imagino que sim – ele disse. – Maura fazia coisas parecidas. Ela sempre dizia que se conseguisse ajudar uma única pessoa, seu sacrifício teria valido a pena.

– –

Ela mencionou isso em seu diário –disse Haven em voz baixa. – Sinto o mesmo.

Então compreende por que Carmine a deixou? Haven se encolheu diante daquela pergunta, uma vez que não esperava escutá-la.

Vincent lutou muito para se assegurar de que Carmine não acabasse igualzinho a ele, mas aos dezoito anos o rapaz tomou exatamente a mesma decisão que o pai – Corrado explicou. – É lógico que se preocuparam com o fato de que o que aconteceu com Maura pudesse também acontecer com você. O que ambos não percebem, entretanto, é o que de mais importante Maura tentou ensinar a eles. Cambiano i suonatori ma la musica è sempre quella.

O que isso significa? – ela perguntou. Ele não respondeu por um instante, enquanto caminhava pelo salão e examinava as pinturas das crianças. Era estranho observá-lo. Haven jamais pensara em Corrado como alguém que pudesse se interessar por coisas daquele tipo.

– –

Você leu o diário dela, então posso assumir que sabe que falhei com ela, certo?

Você falhou com ela? – ela perguntou de maneira hesitante – Ela não via as coisas dessa maneira. Ela dizia que todos eram justos com ela, mesmo quando ela era… Você sabe… Em sua casa.

– – –

Eu poderia ter feito mais. Todos nós não podemos? – ela respondeu. – Somos apenas seres humanos, afinal.

Você se parece muito com Maura, mas existem algumas diferenças. Ela jamais teria permanecido aqui e conversado comigo. E certamente teria abandonado seus planos no momento em que eu lhe dissesse para fazê-lo – ele fez uma pausa e sorriu. – Apesar disso, entendo por que eles se preocupam, mas o fato de a situação de alguém mudar não significa que a pessoa mude. Não importa se você está na Carolina do Norte, na Califórnia, em Nova York ou em Illinois: você é exatamente quem você é. Foi isso o que quis dizer: trocam-se os músicos, mas a melodia continua a mesma. A porta se abriu e a luz de fora invadiu o ambiente.


Você alguma vez já esteve num Wal-Mart? – berrou Kelsey de longe, antes de entrar no salão desatenta e colocar as sacolas no chão. – Aquele lugar parece um hospício. Foi como se eu tivesse entrado num universo paralelo em que as mulheres ainda usam prendedores no formato de banana nos cabelos e sombra azul-claro nos olhos. E, Jesus, o que são aqueles cabelos enormes? Estou surpresa de ter saído de lá viva! Metade daquelas mulheres parecia capaz de me devorar no jantar! E eu juro que vi uma minivan no estacionamento com um daqueles adesivos de faculdade. A mulher que a dirigia usava… – só então ela parou de falar ao deparar de novo com Corrado – calças jeans até a cintura. Olá, de novo.

Olá – respondeu Corrado – Bem, acho melhor deixar vocês continuarem com seu trabalho – completou, caminhando em direção à porta e pegando seu telefone.

Ah… Um segurança particular? – perguntou Kelsey, com um olhar travesso e cintilante. – Será que é como no filme O guarda-costas, com todo aquele romance e tudo mais?

– –

Não. Eu já lhe disse, não há nada disso entre nós.

Que pena – ela deu de ombros enquanto abria as sacolas e preparava a mesa para o lanche. Em seguida, elas pediram pizzas e Haven preparou um ponche quando as pessoas começaram a chegar. As crianças correram felizes para dentro do local, enquanto seus cuidadores se reuniam num dos cantos. Alguns sequer se deram ao trabalho de entrar, deixando os menores ainda na calçada. Corrado ficou por perto e acompanhou a festa, observando com uma expressão cansada e de maneira tão reservada que a maioria das pessoas mal reparava em sua presença. Outras, entretanto, o encaravam com curiosidade e se mantinham afastadas. Haven sorria, percebendo que provavelmente elas imaginavam o mesmo que Kelsey, ou seja, que ele fosse um policial. Aquilo parecia um caos, com tantas crianças correndo de um lado para outro. Haven fazia o melhor que podia para manter tudo sob controle enquanto a cerimônia era realizada e os certificados entregues. Quando enfim o evento terminou e já era hora de todos partirem, Haven abraçou cada uma das crianças, dizendo a elas as mesmas palavras que lhe haviam sido ditas quando criança. Palavras que ela própria esquecera em meio a todo o sofrimento que enfrentou, mas nas quais Maura e sua mãe acreditavam do fundo do coração.

Nunca percam a esperança – ela repetia – Você é especial e alcançará coisas maravilhosas em sua vida. Eu acredito em você. Kelsey se ofereceu para levar uma das crianças para casa enquanto Haven limpava a bagunça. Ela podia sentir os olhos de Corrado sobre ela, mas fez o possível para ignorá-lo, tentando se concentrar e terminar suas tarefas. Corrado limpou a garganta e perguntou:

– –

Vocês eram muito ligadas? Como? De quem está falando?


– – –

Daquelas crianças. Sim – respondeu Haven, em voz baixa – Elas me faziam lembrar de mim mesma.

É estranho como essas coisas funcionam. Não importa aonde você vá, sempre haverá alguém. – Haven assentiu e se preparou para pegar o grande saco de lixo, mas Corrado o pegou antes. – Permita-me carregá-lo para você.

Obrigada – ela sussurrou. – A lata de lixo fica na parte de fora, lá atrás. Haven terminou a limpeza, pegou suas coisas e saiu em direção ao estacionamento. Viu o carro de Corrado, mas não havia sinal dele. A jovem deu a volta no prédio para ver se ele ainda estava próximo à lixeira e congelou ao vê-lo ao lado de um homem. A porta lateral de um carro preto estava aberta e as placas eram de Nova York. O sujeito estava de costas, então ela não podia ver seu rosto, mas sua linguagem corporal dizia que não se tratava de uma conversa casual. Depois de um segundo, o homem entrou no carro e saiu cantando pneus pelo outro lado do estacionamento. Corrado se aproximou.

– – –

Precisa de uma carona? Posso ir a pé – ela respondeu – São apenas alguns quarteirões.

Bobagem – ele retrucou – Entre no carro. Corrado não disse uma única palavra durante o trajeto. Não muito tempo depois de chegarem, alguém apareceu para trocar todas as fechaduras do prédio.

Tenho alguns assuntos a resolver, e preciso dormir um pouco – disse Corrado, entregando a Haven um novo conjunto de chaves. – Viajarei amanhã cedo para comparecer ao casamento. Casamento?

– –

Alguém vai se casar?

Dominic e Tess – disse Corrado, olhando-a com estranhamento. – Você não recebeu um convite? Ela meneou com a cabeça, devagar.

Não, eu não fazia ideia. A expressão dele mudou e ele pareceu titubear, franzindo os lábios.

Ah, devo ter me esquecido de enviar-lhe o convite. Mas ainda há tempo, se quiser enviar um presente. Passo aqui pela manhã antes de ir para o aeroporto para apanhá-lo. Se quiser, é claro.


– –

Claro – ela disse, sem saber como responder àquela oferta. – Obrigada, eu acho. Então eu acho que “de nada” – ele respondeu. – Tenha uma boa noite, criança.


Capítulo 21 Carmine estava sentado sozinho numa das cabines nos fundos do clube, com vários copos de shot espalhados à sua frente sobre a mesa. Ele podia sentir o álcool fluindo por suas veias, reduzindo o fluxo sanguíneo e impedindo que os pensamentos alcançassem sua mente. Eles ainda vinham; várias lembranças voltavam à sua cabeça, mas, para ele era mais fácil suportá-los em pequenas doses. Ele ainda estava machucado. Aquelas memórias eram um lembrete constante do que poderia ter sido, mas não foi e, no que dizia respeito a ele, jamais seria. Havia lembretes por todos os lados: no tom castanho-escuro da mesa que o fazia se lembrar dos olhos dela; no piscar das luzes do bar que o fazia recordar a caça aos vaga-lumes; na melodia que tocava e parecia com a que ela costumava cantarolar. Ela estava em todos os lugares, mas, ao mesmo tempo, em lugar nenhum. E cada segundo que passava o fazia sentir como se mais uma vez estivesse se afastando dela. Independentemente do que fizesse, do que tentasse, não conseguia esquecê-la. A lembrança de Haven o assombrava. Ele engoliu a última dose que estava na mesa e fechou os olhos ao sentir a queimação, esperando que aquilo aliviasse sua dor. Se alguém tivesse perguntado a Carmine como seria a vida em Chicago, ele teria dado uma resposta clichê, envolvendo dinheiro, poder e respeito, mas agora ele conhecia a situação de perto. La Cosa Nostra não tinha nada a ver com aquilo. Enquanto Sal se sentava confortavelmente, apontava o dedo e dava ordens a partir de sua mansão de doze milhões de dólares e bebia do melhor uísque que o dinheiro podia comprar, os homens que realizavam os trabalhos sujos mal conseguiam sobreviver. Eles arriscavam suas vidas por pessoas que apenas os observavam a distância, sem se importar com o que iria acontecer a eles, desde que sua parte lhes fosse devidamente entregue. Tudo se resumia a “pagar tributos”. Se um grupo de homens desviava uma carga, mais da metade do dinheiro ia direto para os bolsos dos administradores. Depois de pagarem aos parceiros e também as propinas a todos que olhavam para o outro lado, o que cada integrante da equipe recebia mal dava para pagar o aluguel. O sabor, eles diziam. Todos queriam provar o sabor. Como uma família, afirmavam que todos trabalhavam como um só, que era uma questão de respeito. Diziam que era a coisa mais honrada a se fazer. Por tudo o que Carmine havia testemunhado, tudo aquilo não passava de babaquice. Onde está o respeito em ser arrancado da cama às três da manhã para ver um homem com a cabeça esmagada pelo fato de não ter pagado o dinheiro que pediu emprestado? E cadê o respeito em queimar a casa de um homem, roubando-lhe tudo o que conseguiu na vida, só porque ele olhou para o chefe do jeito errado? Onde estava o respeito em intimidar uma jovem de dezessete anos e ameaçar matar todos que ela amava porque ela testemunhou algo que não deveria? Violência, extorsão, sequestro, desvio de cargas, roubo, pagamento de propina, jogatina, desmanches, prostituição, corrupção, incêndios criminosos, coerção, fraudes, contrabando, tráfico de seres humanos e assassinatos… Onde estava o respeito em tudo isso? Carmine certamente não conseguia vê-lo.

Noite ruim, cara?


Carmine olhou para cima no momento em que Remy se sentou à mesa, à sua frente.

É, acho que podemos dizer isso. Remy fez um movimento para chamar a garçonete e pediu-lhe uma dose de rum e uma Coca-Cola, além de uma dose de vodca para Carmine, por sua conta.

Logo percebi – disse Remy. – Você está com a cara típica de quem viu alguma coisa que jamais irá esquecer. Carmine empurrou o copo vazio para junto dos demais.

– –

Isso não quer dizer que eu não possa tentar, não é?

Claro, mas está tentando da maneira errada. O álcool é só um depressor. Como se a situação como um todo já não fosse deprimente o suficiente, embriagar-se apenas o levará mais para baixo. Você deixa de ser um filho da puta mal humorado para se tornar um filho da puta desprezível e infeliz. E ninguém gosta de um filho da puta desprezível e infeliz, DeMarco, nem eu. E olha que eu adoro todo mundo. Carmine esboçou um pequeno sorriso diante daquelas palavras.

– –

Isso me deixa entorpecido.

É, acho que provavelmente o entorpece o suficiente para que não sinta o concreto esmigalhar seus ossos quando seu cu deprimido se atirar de cima da Sears Tower – ele disse. – Mas lembre-se, nunca deve saltar a menos que saiba que pode voar ou, pelo menos, flutuar. Ninguém quer cair. É assim que acaba se machucando. Carmine encarou Remy enquanto tentava compreender aquelas palavras. Ele já não tinha certeza se estava muito bêbado ou se o sujeito estava falando em códigos.

– –

Sabe, não consigo me decidir se você é um gênio ou um maldito tagarela idiota.

E por que não posso ser as duas coisas? Carmine deu de ombros. Talvez ele fosse mesmo as duas coisas.

Seja como for, quer saber como é possível esquecer o inesquecível? – perguntou Remy. – Como realmente se esquece o que se viu?

– –

Como?

Em vez de se arrastar para baixo, levante-se. Você não quer ficar entorpecido, cara. Você quer ser feliz. Carmine meneou com a cabeça. Feliz. Ele se lembrou de uma época em que se sentia feliz.

Esse barco já partiu faz tempo, companheiro.


Ah, mas é aí que você se engana –um sorriso travesso apareceu nos lábios de Remy, que se inclinou na direção de Carmine e sussurrou como se estivesse prestes a envolvê-lo numa conspiração. – Acho que está na hora de eu te apresentar à senhorita Molly.

Molly? Remy assentiu.

Ela é linda. Uma única noite ao lado dela irá mudar sua vida.

Foi estranho, abrupto, mas ainda assim vagaroso. Num segundo não havia nada e, de repente, estava lá, deslizando por suas veias. Não houve um fluxo intenso de sensações que o deixasse ao mesmo tempo cego e extenuado. Carmine não se sentiu como se estivesse nas alturas. Não. Pela primeira vez em muito tempo, ele sentiu que tinha os pés firmes no chão. Tentou encontrar as palavras para descrever o que sentia, mas elas não existiam. Aquilo era novo, mas ainda assim familiar, como uma combinação de tudo de bom que sempre existira dentro dele. Era sua mãe viva. Estar apaixonado por Haven. Jogar futebol, ir para a faculdade e ter um futuro. Significava perdão, compreensão. Era como se tudo que estivesse errado de repente se tornasse certo. Era como o sol brilhando, luz e belos arco-íris se formando. Era como caminhar sobre a água antes de transformá-la em vinho. Era o paraíso. Era felicidade. Era como ter estado cego por toda a vida e, de repente, conseguir enxergar tudo. Era liberdade; felicidade. As estrelas haviam se alinhado e… alcançado uma paz mundial do caralho.

Que merda é essa? – perguntou Carmine, esfregando o nariz sem perceber enquanto olhava para o resto do pó branco sobre a mesa. A coisa brilhava como se fosse glitter sob as luzes do clube. Aquilo o deixava fascinado. Seus sentidos estavam mais claros; as notas da música ecoavam dos alto-falantes e penetravam sua pele, alcançando as profundezas de seu corpo. Ele não sabia bem por quê, mas de repente sentiu vontade de tocar piano de novo.

Eu já te disse: Molly – respondeu Remy. – Puro ecstasy. Carmine sorriu para si mesmo. Aquele era o primeiro sorriso genuíno que aparecera em seus lábios em todos aqueles meses, e ele se sentiu grato. Molly era mesmo linda. Era êxtase. Literalmente. Ele já havia ouvido falar daquilo, é claro, mas no formato de pílulas, nunca encontrara o produto antes. Ecstasy ainda não havia se infiltrado na sua pequena cidade da Carolina do Norte assim como nas cidades grandes.

Então, como se sente? – perguntou Remy. – Ainda entorpecido?


Carmine meneou a cabeça. A sensação de entorpecimento era oposta ao que ele experimentava. Aquilo o atingiu profundamente, preencheu um buraco e removeu a dor, o sofrimento, o sentimento de coração partido.

Eu me sinto como se pudesse enfrentar o mundo inteiro e sair vitorioso. Remy riu ao pegar o copo de rum e Coca e tragar o último gole.

É, bem, você não pode. O mundo ainda o destruiria, amigão, então não faça nada de estúpido… Não se quiser viver para ver um novo dia. Colocando-se de pé, Remy procurou no bolso e puxou um pequeno saquinho com o pó brilhante. Ele o colocou na frente de Carmine.

Um presentinho. Use apenas de vezem quando, ok? O efeito disso é bem longo. Carmine pegou a droga e a escondeu na palma da mão. – Obrigado.

Não diga nada a ninguém. – disse Remy, dando um passo em direção à porta e então retornando. – É sério, cara. Por favor, não diga nada a ninguém. Prefiro que as pessoas não saibam, entende?

Compreendo – disse Carmine, olhando para o pacotinho em sua mão. Os chefões não gostavam de mexer com drogas. Os homens no topo da hierarquia podiam até fingir que não viam nada e negociar por fora para ganhar dinheiro mais rápido, atuando como intermediários invisíveis num jogo bem maior, mas eles jamais deveriam sujar as mãos com o negócio de drogas. Era perigoso demais; muitas pessoas envolvidas, muita publicidade e grande risco de exposição. Aquela era uma das regras mais fundamentais do grupo, perdendo apenas para “manter a boca fechada e nunca dedurar os amigos”.


Capítulo 22 O prédio ocre e retangular ficava na esquina de um cruzamento tranquilo e tomava quase metade do quarteirão. O lado externo era modesto, com arcos na cor marrom e gramado bem verde e vivo. Uma placa na porta trazia as palavras THE ROSEWOOD HALL, em letras cursivas e informais. Carmine imaginara algo mais deslumbrante. Ele sempre achou que Tess fosse o tipo de noiva que exigiria cavalos brancos e um salão de dança com o piso dourado em um local afastado; que nunca aceitaria um salão simples no centro de Chicago. Encostado no prédio, ele olhou mais uma vez para o convite, checando pela terceira vez se aquele era mesmo o lugar certo, antes de enfiá-lo no bolso de seu terno preto. Observou em silêncio enquanto o estacionamento lotava, surpreso pela quantidade de pessoas presentes. Ele não conhecia metade dos convidados, o que o deixava nervoso. Todos haviam prosseguido com suas vidas, encontrado pessoas, feito amigos, mas ele estava sozinho… Ele era ainda o mesmo Carmine DeMarco. Pelo menos era o que parecia. Tanto havia mudado e, ainda assim, nada parecia diferente. Ele era novamente aquele adolescente solitário, sem ninguém com quem conversar, sem ninguém a quem confiar um segredo. Em vez disso, costumava enterrar tudo o que sentia, escondendo de todos seus segredos e a verdade, às vezes até de si próprio, enquanto enfrentava a realidade e se recusava a aceitar que metade daquilo de fato fizesse parte de sua vida. Era um belo dia em Chicago. A temperatura estava em cerca de vinte graus, mas ainda assim o suor se acumulava em suas costas e fazia com que sua camisa ficasse grudada ao corpo. Sentindo-se no limite, ele contemplou a ideia de ir embora, embora soubesse que não deveria fazê-lo. Não podia. Ele já havia desapontado muita gente em sua vida, feito escolhas erradas e impulsivas, mas se ausentar do casamento do próprio irmão seria a pior de todas. Mesmo que esse irmão já não se importasse se ele iria ou não aparecer. Soltando um suspiro, Carmine colocou a mão no bolso para pegar sua garrafinha e tomou um gole. O líquido forte queimou sua garganta e as chamas alcançaram seu peito. Ele tomava um segundo gole quando ouviu alguém chamar seu nome. A voz afiada o assustou e ele acabou engasgando e tossindo. O jovem rapidamente tampou o frasco.

– –

O que foi? – respondeu de maneira ríspida quando Celia se aproximou.

Era mesmo necessário trazer esse frasco? – ela perguntou, apontando para o pequeno vasilhame. Ele revirou os olhos enquanto o guardava no bolso.

– –

Seu marido está aqui?

Não, ainda não tive nenhuma notícia dele hoje – Celia franziu o cenho. – Não sei se chegará a tempo. Carmine sentiu um aperto no estômago.


– – –

Então ele ainda está com ela? Ela quem?

Não me trate como um idiota, Celia. Você sabe muito bem de quem estou falando. Ela o olhou com cautela.

– – – –

E o que o faz pensar que ele esteja com ela? Eu não penso. Eu sei. Não tenho certeza – respondeu a tia.

Sei tanto quanto você, criança. Ele saiu e eu não sei por que nem para onde ele foi, muito menos quando retornará. Mas tenho certeza de que se ele o flagrar bebendo não ficará nada contente. Vincent gritou da porta da frente do salão, dizendo que a cerimônia já iria começar. Todos entraram em silêncio em direção ao jardim na parte de trás. Um longo corredor fora preparado, cercado com dúzias de cadeiras enfileiradas. Celia arrastou Carmine até a frente, forçando-o a se sentar na cadeira ao lado dela. A cerimônia foi rápida. Carmine praticamente não ouviu uma palavra do que fora dito. Estava ansioso e não parava de mexer as mãos, ajeitar a gravata e olhar para os lados em busca do tio. Em seguida, todos entraram no prédio para a recepção. O garoto foi direto para o bar, sentou-se no banco e gritou para que o barman lhe servisse uma vodca. Ele bebeu duas doses, uma atrás da outra, assim que foram servidas. O barman continuou a servir outras doses, até a visão de Carmine ficar um pouco turva. A festa se desenrolava atrás dele; havia música e pessoas dançando e brindando, celebrando a união de Tess e Dominic, enquanto ele apenas apreciava o familiar entorpecimento que já afetava seus órgãos. Outra dose foi servida. Era a número cinco, talvez seis. Foi então que o banquinho ao lado de Carmine foi ocupado. Nervoso, ele se virou e viu Dominic soltando sua gravata. Ele não olhou para Carmine, tampouco reconheceu sua presença, apenas pediu ao barman que também lhe servisse uma dose. Dominic tomou num gole só e fez uma careta, pedindo que o copo fosse preenchido mais uma vez.

Não sei como consegue beber isso desse jeito, Carm. Carmine deu as costas ao irmão ao perceber o barman se aproximar. O rapaz encheu os dois copos, acenando levemente com a cabeça ao deixar a garrafa sobre o balcão. Já era hora de o sujeito entender que a garrafa devia ficar ali.

Seu corpo se acostuma depois de um tempo – respondeu Carmine. – Já nem sinto a queimação na garganta. É como beber água.

Ah – disse Dominic, tomando a segunda dose e mais uma vez fazendo careta. Ele balbuciou alguma coisa ao bater com o copo no balcão. Carmine deu risada e encheu os dois copos de


novo, mas Dominic não tocou no dele, apenas olhou. Depois de um momento, ele ergueu o copo e o girou em frente aos olhos como se estivesse pensando profundamente.

– – –

Vamos lá, diga de uma vez – murmurou Carmine. Não vale a pena – retrucou Dominic.– Seu estado miserável tira toda a graça.

Eu estou bem – insistiu Carmine, pegando o copo. Ele estava prestes a se servir de mais uma dose quando parou e recolocou a garrafa no balcão. Não havia razão para fingir; ambos sabiam que ele beberia todo o conteúdo.

Sabe, nenhum de nós tem qualquer notícia a respeito de Haven – disse Dominic, pegando um descanso de copo e tentando girá-lo no balcão.

– – –

Aconteceu alguma coisa com ela? –Carmine perguntou. – Ela está bem, não está? Tenho certeza de que se algo estivesse errado nós saberíamos. Corrado tem cuidado dela.

E quanto a Dia? – perguntou. – Elas não se veem mais? Dominic riu, achando graça.

Não. Ela viajou para a casa dos pais na primavera e, quando voltou, Haven havia desaparecido. Mas, a propósito, você saberia disso se tivesse mantido contato com ela. Carmine ficou surpreso.

– –

Dia também não me liga mais.

Isso é porque ela tem medo de que você perca as estribeiras. Ela acha que falhou pelo fato de Haven ter desaparecido, mas eu disse a ela que o que aconteceu foi algo que já era previsto. Você empurrou o pequeno pássaro do ninho e ele fez exatamente o que tinha de fazer.

– –

O quê? – perguntou Carmine.

Voou. Um sorriso surgiu nos lábios de Carmine ao ouvir aquelas palavras. Ela voou.

– –

Acho que beberei a isso.

Você beberia a qualquer coisa. Carmine ergueu a garrafa.

É, beberei a isso também.


Dominic se levantou e deixou o irmão, reunindo-se com as pessoas que estavam sentadas na mesa principal, ao lado de Tess e Dia. Carmine olhou para a garrafa na mão, percebendo que seu irmão fizera exatamente o que ele próprio fora teimoso demais para fazer: abriu mão do passado. O garoto hesitou antes de se levantar e caminhar até a mesa. Parou por um instante, olhou para todos em silêncio e se sentou numa cadeira vaga. Dia arriscou esboçar um sorriso de onde estava. Ele o retribuiu, sentindo conforto no calor e na aceitação da expressão dela. Os três conversaram sobre casamento, família e sobre o futuro, mas Carmine não falou muito. Afinal, não havia muito que pudesse dizer. Seu futuro estava entalhado numa pedra, e não era algo de que pudesse se orgulhar, tampouco podia compartilhá-lo. Entretanto, era bom poder estar ao lado daquelas pessoas mais uma vez. Não havia raiva nem ressentimento; não restava culpa nem acusações pelas coisas que aconteceram – ou que não aconteceram. Naquela mesa só havia amor e amizade, e até mesmo uma simpatia que já não sentia há muito tempo. Vincent veio depois de uns minutos, rindo e brincando. Carmine sentiu uma estranha sensação infundindo dentro de si enquanto o observava. Ali estava sua família – sua família de verdade –, aqueles que passaram por tudo junto a ele. Mesmo assim, ele ainda sentia um enorme vazio. Uma parte dele estava faltando. Ele sentia falta dela, e tudo o que mais queria era a presença dela. E, se quisesse ser honesto, ele também sentia outra coisa… A necessidade de sentir o mesmo que sentira na noite anterior.

O Rosewood Hall ficava próximo à Escola de Música para Crianças. Na mesma rua também havia um antigo cinema que, no ano de 1972, costumava exibir filmes a vinte centavos, mas que agora estava vazio e fechado. Vincent era apenas uma criança na época; uma criança levemente rebelde e facilmente impressionável. Com frequência ele saía de sua casa em Felton Drive, a dois quarteirões de distância de onde mais tarde viveria com a própria família, e se escondia no cinema sem que seus pais soubessem. Era uma época em que ele e a irmã, Celia, iam de um lado a outro sempre que tinham vontade. Mas não muito antes de a guerra brutal do submundo eclodir e mudar tudo. Antes de os pais passarem a controlá-los mais de perto e a monitorar cada um de seus movimentos… Antes de eles perceberem que precisavam fazê-lo. Sua mãe sempre foi muito rígida e talvez já se mostrasse um pouco delirante naquela época, recusando-se a permitir que eles assistissem à TV. Ela não queria que a mente deles fosse envenenada, então ele se acostumou a mentir sempre que ela perguntava, dizendo-lhe que ia ao parque com os amigos. O filme O poderoso chefão fora lançado naquele ano. Vincent assistiu a ele numa tarde nebulosa de terça-feira, no mês de julho, sentando na última fileira do cinema lotado. Aquelas três horas mudariam sua vida para sempre, colocando de cabeça para baixo tudo o que ele acreditava saber. Até aquele momento, ele compreendia pouco o que a Máfia significava, com base nas coisas que testemunhara e também nos surtos e desvarios de sua mãe, cujo temperamento era bastante volátil. Ele achava que fosse apenas um clube, talvez parte de um sindicato, considerando que ele vira seu pai receber dinheiro do Sindicato dos Caminhoneiros. Porém, a realidade se tornou clara naquela tarde, ao ser retratada na tela gigante do cinema.


Vincent ficou tão fascinado com o filme, tão movido com tudo o que viu, que sequer percebera que o lugar abrigava pelo menos uma dúzia dos melhores amigos de seu pai. Naquela tarde, ele voltou para casa com um milhão de perguntas na cabeça, percorrendo um caminho que ele conhecia como a palma de sua mão. Eram dois quarteirões para cima e um quarteirão para o lado; um desvio por uma ruazinha estreita e mais uns quatro quarteirões para o sul, até sua casa. Ele era capaz de ziguezaguear por aquelas ruas de olhos fechados e chegar ao seu destino em poucos minutos. Anos mais tarde, enquanto caminhava pelo local depois do casamento e de olhar para sua família uma última vez, seus pés pareciam percorrer o caminho instintivamente. Ele passou pelo velho teatro e examinou as janelas lacradas e os tijolos frágeis. Foi então que voltou a pensar no dia em que assistiu a O poderoso chefão. Ele pretendia perguntar à irmã quando chegasse em casa, mas nunca teve a chance de fazê-lo. Assim que abriu a porta da frente de sua casa e correu para o interior, ouviu a voz tempestuosa do pai que chegava a fazer a escada tremer: – Vincenzo Roman! Os pés de Vincent logo grudaram no chão enquanto ele se encolhia ao ouvir o som de seu nome completo. Olhando na direção do pai, ele o viu de pé à porta de seu escritório. Seu coração disparou. Aquilo não era bom; não era nada bom.

– –

Sim, papai?

Precisamos ter uma conversa. Antonio desapareceu dentro do escritório. Vincent ficou ali por um momento, intencionalmente protelando antes de forçar os pés na direção em que precisava ir. Ele se sentou à frente de seu pai, do outro lado da mesa.

Muito bem, o que foi que você fez hoje? – Antonio perguntou, recostandose na cadeira com as mãos juntas sobre o peito volumoso.

– – – – – – – –

Fui ao parque. Ao parque, não é? Sim. E como estava o parque, filho? Legal. E ficou lá a tarde toda? Sim. Você se divertiu?


– –

Sim.

Fascinante – disse Antonio. – Fico imaginando como conseguiu fazer isso, digo, estar em dois lugares ao mesmo tempo. Sabe, eu recebi uma ligação há alguns minutos e me disseram que você esteve no cinema esta tarde, e sei que você jamais mentiria para mim, não é? A cor desapareceu do rosto de Vincent. Antonio o encarou com seriedade, esperando por uma resposta que nunca foi dada.

Você não pode achar que não descobrirei essas coisas, que não ficarei sabendo – ele continuou, percebendo que Vincent pretendia manter o silêncio. – Tenho olhos e ouvidos espalhados por toda a cidade. Ninguém dá uma mijada na vizinhança sem que isso acabe chegando aqui. E não gosto do fato de meu filho, meu único filho, imaginar que poderia me passar a perna. Você me considera um idiota? Acha que seu pai seja algum estúpido? Vincent acenou de maneira negativa e veemente para o pai.

– –

Claro que não, papai.

Tem perguntas? Quer saber de alguma coisa? Venha falar comigo. Você não vai buscar informações com outras pessoas.

Sim, senhor – Vincent fez uma pausa, pensando em tudo aquilo. – Eu só queria assistir a um filme. Não sabia que… Antonio o encarou enquanto o menino se justificava, soltando um profundo suspiro ao se inclinar para frente.

Escute aqui, filho. Há um ditado que diz “a sorte favorece os audazes”. Se quiser coisas na vida, se quiser ser bem sucedido, é preciso se arriscar e aceitar os riscos. Você tem que fazer, sabe, algumas coisas que talvez outras pessoas não fizessem. A vida… é como um jogo de xadrez. Você conhece o xadrez, não é? Vincent assentiu.

Então sabe que o rei é a peça mais importante. Desde que ele continue de pé, o jogo continua. E o mesmo se aplica à vida. Você deseja se tornar o rei, mesmo que isso o transforme num enorme alvo. O rei é a chave de tudo; é dele que depende a vitória. Você nunca irá querer se tornar um peão, uma torre, nem mesmo um cavalo. Não quer ser descartável, apenas mais uma peça no jogo. Você precisa controlar o jogo. Compreende o que lhe digo? Mais uma vez ele assentiu.

Muito bem, uma vez que conhece o xadrez, também sabe a verdade – disse Antonio. – O rei dita o jogo, com certeza, mas e a rainha? É ela que mantém o poder real. E é por isso que não contaremos à sua mãe o que você fez hoje. Ela não precisa saber que você mentiu e quebrou as regras, porque a rainha não será tão compreensiva, capisce?


Sim, papai. Vincent se levantou para sair do escritório, mas só chegou até metade do caminho antes de Antonio voltar a chama-lo.

E como foi, filho? O poderoso chefão. Ele olhou para trás e disse:

Foi o melhor filme a que eu já assisti. Antonio sorriu de maneira genuína antes de mandá-lo sair. Anos depois, quando Vincent caminhava pelas ruas de Chicago, ele ainda conseguia se lembrar da expressão de orgulho no rosto do pai. Não era o tipo de olhar que ele via sempre. Na maioria das vezes ele se mostrava desapontado ao forçar o filho a aprender lições difíceis enquanto crescia; lições que ele levaria consigo durante toda a vida. Algumas boas, outras ruins, mas todas o haviam transformado de algum modo. Elas o haviam tornado a pessoa que era: um homem destruído pelo conceito de lealdade. Ele caminhou os três primeiros quarteirões com facilidade, diminuindo a passada ao se aproximar da rua estreita. Algo lhe dizia que optasse pelo caminho mais longo, mas ele ignorou aquela voz inoportuna e continuou. Entrou na pequena rua e caminhou pela trilha estreita enquanto olhava para os prédios altos, que precisavam desesperadamente de reforma. Mais ou menos na metade do caminho, parou e chutou alguns cascalhos no chão. Passou os dedos pela parede envelhecida de uma das construções e pequenos pedaços de tijolo se desfizeram em sua mão. Soltou um suspiro quando sentiu os sulcos e os arranhões profundos na fachada, e sentiu um aperto no peito por conta da ansiedade.

Vincent. Vincent observou enquanto Corrado caminhava pela rua estreita em sua direção. O terno estava amarrotado, seus olhos cansados, e ele trazia debaixo do braço um pequeno pacote embrulhado em papel verde.

– – –

Você perdeu o casamento, Corrado. Eu sei – respondeu. – Acabo de retornar de Nova York.

Negócios? – perguntou Vincent. – Algo em relação à família Amaro? À família Geneva? Aos Calabrese? Corrado meneou a cabeça.

Não, na verdade tem mais a ver com os Antonelli. As sobrancelhas de Vincent se curvaram para baixo.

Haven?


Não há motivo para preocupação –disse Corrado, tranquilizando o cunhado enquanto olhava para a viela imunda, transferindo o pacote para o outro braço. Seus olhos se concentraram na parede de tijolos atrás de Vincent. – Foi bem aqui.

Sim, foi bem aqui. Fora naquele exato lugar, mais de uma década antes, quando o mundo de Vincent se partiu violentamente. Ele sentia a pressão que o assolava, as lembranças que pesavam em sua memória. Sempre que piscava, naquele milésimo de segundo em que tudo ficava escuro, ele ainda conseguia ver: a tez pálida, os olhos sem vida, os cabelos ruivos cobertos de sangue. Seu rosto esboçava terror; uma horripilante máscara de perguntas sem respostas… Por que ela? Por que os dois? Por que agora? Havia coisas sobre as quais ele pensara por vários anos, questões que considerava ter respondido quando matou Frankie Antonelli. Mas, de pé naquele lugar, as perguntas ainda persistiam. Por quê?

É estranho, não é? – perguntou Corrado. – A sede por vingança. É fácil esquecer as coisas que fazemos, mas é impossível deixar de lado o que acontece conosco. Nunca pensamos nas famílias deles, mas quando se trata da nossa, jamais superamos a perda. Carregamos isso para sempre.

– –

Eu penso – disse Vincent. – Sempre considero suas famílias.

Você pensou na família de Frankie? Vincent hesitou.

– –

Não. Naquele momento pensei apenas na minha, mas hoje eu penso. Todos os dias.

Isso não conta – disse Corrado. – O único parente que resta é Haven, e eu lhe asseguro que ela não está sofrendo por sua “perda”. Vincent pensou naquilo por um momento.

– –

Você honestamente nunca considerou as famílias?

Nunca – disse Corrado, encarando-o com firmeza. – Minha consciência está limpa, Vincent. Não tenho arrependimentos e não quero começar a tê-los agora. E é por isso que, tendo Deus como testemunha, jamais puxo o gatilho sem ter certeza absoluta de que o mundo se tornará um lugar melhor sem aquela pessoa.

Você tem sorte – disse Vincent. – Cada vez que penso ter limpado minha consciência, outra coisa acontece.

Isso é porque você está se deixando viver como um peão de xadrez.


Uma risada amarga partiu do peito de Vincent.

Eu estava justamente pensando sobreo dia em que meu pai me disse para ser o rei, não um peão. Porém ele se esqueceu de me avisar que só poderia haver um rei. O restante de nós, bem… Só podemos fazer o que nos é possível.

Essa não é a questão aqui – disse Corrado. – Ser o rei nem sempre significa ter a coroa na cabeça. Às vezes esse título é apenas um artifício. Você quer o controle? Precisa estar no comando, sem que ninguém saiba que você o tem até que esteja pronto para agir.

E se a única ação que me restar for justamente quebrar as regras? Corrado deu de ombros e disse:

Bem, isso depende das regras que você quebrar e de por quem elas tenham sido estabelecidas. Em seguida ele acenou com a cabeça e foi embora. Depois que ele partiu, Vincent se voltou de novo para a parede da construção e passou a mão sobre os tijolos velhos que se desfaziam sob seus dedos.

Eu a verei mais tarde, Maura. Ti amo. Vincent caminhou pela viela e desceu o quarteirão em direção à pizzaria. John Tarullo estava de pé do lado de fora, varrendo o enorme tapete de boas-vindas com uma vassoura de palha. Ele ergueu a cabeça e fez um gesto de cumprimento.

– – – –

Doutor DeMarco, ouvi dizer que um de seus filhos se casou hoje. É verdade. Dominic. Ouvi dizer que ele é um bom rapaz.

Ele é – respondeu Vincent. – Meus dois filhos são bons rapazes. Tarullo olhou para ele desconfiado, erguendo as sobrancelhas.

– –

Pelo que sei, seu filho Carmine se tornou amigo do meu filho Remy.

Ah… Mas isso não significa que sejam pessoas más – disse Vincent. – Talvez um pouco sem rumo. Eu também era assim, e não acho que me considerava uma pessoa má. Ou estou errado?

Não – disse o homem imediatamente, mas Vincent pôde ver a verdade nos olhos dele. A resposta era sim, um sonoro e inegável sim. Vincent soltou uma risada e foi embora.


Carmine tomou mais um gole de sua bebida, esticando-se na cadeira branca de vime enquanto ouvia seus amigos e familiares conversando. Ele se sentiu relaxado, quase apreciando a vida por um momento, até que ouviu alguém pigarrear atrás. O rapaz ficou petrificado ao ouvir aquilo.

Isto é para vocês – disse Corrado, dando a volta na mesa e entregando o embrulho verde ao casal. Carmine se virou para encarar seu tio, que parecia exausto, mas bem, de modo geral. – Peço desculpas por não ter chegado a tempo para a cerimônia, mas tive assuntos inesperados a tratar.

Obrigado, tio – disse Dominic ao pegar o presente. – É compreensível. Corrado se foi sem sequer olhar para Carmine. O rapaz viu quando ele se aproximou de Celia e fez um movimento com a mão para que ela o seguisse. Os olhos de Corrado observaram tudo ao seu redor e o coração de Carmine disparou quando ouviu a voz de seu irmão.

Pé de Valsa. Carmine se virou tão rápido que quase derrubou uma taça de champanhe que estava sobre a mesa, imaginando por que ele teria dito aquele apelido, e viu que ele retirara um cartão do topo do embrulho.

Leia em voz alta – disse Tess. Dominic suspirou. Dom e Tess, gostaria de poder entregar este presente pessoalmente, mas estou enrolada aqui com várias coisas. Tenho certeza de que Tess estava linda em seu vestido. Talvez um dia eu possa ver as fotos. O noivo fez uma pausa antes de continuar.

Ah, ela está certa, amor. Você está sempre bonita, mas hoje está ainda mais bela. Sorrindo, Tess lhe pediu que continuasse. É difícil acreditar que já faz tanto tempo desde a última vez que nos falamos. Eu estou bem e tenho estado ocupada, mas não vou incomodá-los com detalhes. Por favor, digam olá a todos por mim na próxima vez que os virem e digam que sinto falta deles. Espero que você e Tess estejam indo bem na faculdade. Ele ergueu a cabeça e disse:

Bem, Pé de Valsa diz olá e que sente falta de todos os bundões que estão aqui. Ela espera que ninguém esteja se ferrando na faculdade. Carmine esboçou um sorriso quando seu irmão olhou novamente para o cartão. Não sei o que se deve dar de presente em casamentos. Alguém me disse que os noivos costumam fazer listas de presentes em lojas, de coisas para a casa, mas não achei que Tess fosse gostar de um liquidificador, então comprei algo que ambos irão apreciar. Sugiro que abram o pacote quando estiverem sozinhos, mas não acho que Tess vá ficar envergonhada de jeito algum.


Tess arrancou o embrulho das mãos de Dominic, rasgou o embrulho e abriu a caixa. Ela olhou para dentro, retirou o papel de seda que estava por cima e começou a rir.

– –

Eu sabia!

Mas quem diria, hein? Pé de Valsa é uma pervertida! – exclamou Dominic, pegando a caixa de volta e retirando de lá uma peça de lingerie e chamando a atenção de todos enquanto a balançava no ar. Tess ficou corada quando as outras pessoas da mesa se revezaram em pegar o conteúdo e atirá-lo de volta na caixa. Ela rapidamente a pegou de volta.

Você é tão idiota às vezes – ela resmungou, saindo apressada da mesa. Dia se desculpou e foi atrás da irmã.

– – –

Bem, parece que Haven estava errada – disse Dominic. – Tess ficou envergonhada. Nunca imaginei que fosse possível –disse Carmine.

Nem eu. Aliás, eu enviaria um bilhete de agradecimento, mas ela não deixou nenhum endereço. Não havia nada, Carmine percebeu. Nenhuma indicação de onde ela estava morando. Dominic se levantou para ir atrás da esposa e Carmine ficou sentado ali por um momento, terminando sua bebida sozinho enquanto a realidade voltava a assediá-lo, arruinando aquele breve momento de felicidade. Ele então saiu do salão, sem se importar em se despedir de ninguém, e optou pelo trajeto mais longo rumo à sua casa. Caminhou pela rua até lá, diminuindo o passo ao ver o pai sentado no primeiro degrau. O jovem franziu o cenho ao se aproximar, vendo um cigarro aceso nos dedos do pai.

Quando foi que começou a fumar? Vincent deu de ombros, livrando-se das cinzas sobre o concreto.

E quando foi que você começou? –retrucou o pai, apontando para velhas bitucas de cigarro espalhadas pelo jardim.

– –

Não são minhas – respondeu. – A maioria delas, pelo menos. Remy fuma.

Ah – Vincent puxou um maço de cigarros e ofereceu um a Carmine, juntamente a um isqueiro. O rapaz acendeu um cigarro e deu uma tragada enquanto olhava para o pai.

– –

Não faz muito sentido estar aqui fumando com você, um médico.

Já não sou mais um médico – ele disse, com um sorriso amargo. – Não é uma boa ideia manter no quadro hospitalar um suspeito que integra La Cosa Nostra, e ainda por cima segurando bisturis. Carmine se sentiu mal por ter trazido aquele assunto à tona.


Sinto muito. Vincent ergueu as sobrancelhas.

– –

Você por acaso acabou de me pedir desculpas?

Talvez. Vincent sorriu.

É, também sinto muito. Mas isso não importa, pelo menos não mais. As coisas são como

têm de ser.

Não é possível ser reintegrado depois do julgamento? Voltar a praticar medicina? DeMarco olhou incrédulo para Carmine, sem sequer considerar a pergunta.

Na verdade eu comecei a fumar depois que sua mãe morreu. E também passei a beber. E beber muito. Essa foi a principal razão para não conseguir encarar meus filhos por quase um ano. Sei que você se culpava e era difícil olhar para você, mas também não queria que você me visse.

E o que mudou? – perguntou Carmine com cautela. Aquilo era algo que sempre quisera saber, mas se mantivera concentrado demais em si mesmo para questionar. – O que fez com que você se reerguesse? Vincent deu uma longa tragada e respondeu:

Eu tentei matar Haven. Aquela resposta fez com que Carmine sufocasse com a fumaça do próprio cigarro.

– –

O quê?

Na noite em que dei fim nos Antonelli, eu também tentei matá-la. Minha arma falhou e ela continuou dormindo como se nada estivesse acontecendo. Mas naquela noite percebi que sua mãe teria ficado enojada. Não estaria respeitando a memória dela, tampouco fazendo justiça. Então tentei me refazer antes que mais alguém saísse ferido. Carmine atirou o cigarro no chão e pisou sobre ele. Ele não tinha certeza se fora a fumaça ou a admissão de seu pai, mas, repentinamente, seu peito começou a doer. Levando a mão ao bolso, o jovem pegou seu frasco de bebida e tomou um gole, tentando aplacar o sofrimento. Vincent o observou com curiosidade, até que Carmine ofereceu a bebida para ele. DeMarco hesitou, mas logo atirou o cigarro no chão e pegou o frasco. Ele fez uma careta ao sentir o líquido queimar sua garganta, o que não o impediu de tomar um segundo gole.

Eu falhei muito com você. Mantive segredos quando mais deveria ter sido honesto, e agora tudo o que me resta é lhe contar a verdade – disse Vincent em voz baixa. Ele parecia em frangalhos, derrotado. – Lembro-me do rosto de cada pessoa que matei. Eu as vejo onde quer que eu vá. Sei que não


estão lá, mas a lembrança de seus últimos momentos de vida permanece viva dentro de mim. O medo, o ódio, o coração partido; tudo isso me persegue de maneira constante. Também me lembro do rosto de sua mãe na noite em que a encontrei morta na viela.

Também me lembro – disse Carmine.– Eu me lembro dos gritos. Vincent olhou para o filho com atenção e percebeu que havia apreensão nos olhos dele. O garoto nunca conversara com o pai sobre aquela noite. As lembranças eram dolorosas demais para serem verbalizadas. A única pessoa com quem discutira aquilo fora Haven, mas estar ali com o pai e encarar a expressão de angústia em seu rosto parecia necessário. Soltando um suspiro, Carmine fechou os olhos e se sentou ao lado do pai no degrau, passando as mãos nos cabelos de um jeito nervoso enquanto se recordava de todos os detalhes do que acontecera naquela noite fatídica. Desde o momento em que saíram do recital de piano até o hospital, cada átimo de dor apareceu em suas palavras.

Mas não consigo me lembrar de como eles eram – disse o jovem. – Tentei imaginar os criminosos centenas de vezes, mas as imagens são turvas. O homem com a arma, não acho que ele jamais tenha olhado para mim; o outro, seu rosto parece sempre distorcido.

– –

Eles disseram alguma coisa?

“Cale a boca dela! Rápido!” Só isso. Vincent ficou em silêncio enquanto assimilava tudo aquilo com a cabeça abaixada.

Você quase morreu com a perda de sangue. Eu estava com tanta raiva dela naquela noite e, durante todo o tempo em que a segurava morta, você estava caído atrás daquela lata de lixo.

Não foi sua culpa – disse Carmine. –Os únicos culpados são os filhos da puta que empunhavam as armas naquela noite, naquela viela. Vincent limpou a garganta.

– –

Acho que está certo. Às vezes eu me pergunto se poderia ter interrompido tudo aquilo.

Bem, a mamãe certamente lhe diria que isso era conversa fiada, pura merda – retrucou Carmine, recebendo um olhar divertido do pai. – Bem, talvez ela não dissesse com essas palavras, mas sabe o que quero dizer. Como você mesmo falou há pouco, as coisas são como devem ser. Digo, ao longo desse último ano fiquei imaginando com frequência se poderíamos ter salvado Haven de um jeito diferente, para que agora eu pudesse estar com ela onde quer que ela esteja…

Nova York – disse Vincent, interrompendo o filho. Carmine o olhou com curiosidade.

Nova York?


Não sei exatamente onde, mas ela está em algum lugar de Nova York. Um sorriso surgiu no canto dos lábios do rapaz. Então ela foi para Nova York, como eles haviam falado.

O ponto é que eu aprendi que não faz sentido ficar pensando. Eu fiz o que fiz, você fez o que fez e nós estamos onde estamos. Temos de fazer o que é preciso e pronto.

Sabe, você tenta mascarar com a bebida e com os palavrões, mas o fato é que você cresceu muito nesse último ano.

Ah, tá. Bem, eu não acho que Corrado concorde com você nesse ponto – disse Carmine. – Ele me ameaça pelo menos uma vez por semana. Só estou esperando o dia em que ele tenha uma laringite e não consiga dizer “eu vou te matar” e então apenas o faça. Vincent deu risada, acenando a cabeça.

Ele já ameaçou me matar também. Eu também já ameacei matar muita gente, como a própria Haven. É assim que somos ensinados a controlar as pessoas, e isso se torna natural. A maioria dos homens com quem lidamos não teme nada, exceto a morte.

– –

Sabe, é horrível a maneira fria e impassível como fala sobre matar a mulher que eu amo.

Você ainda a ama? – ele perguntou, curioso. Carmine acenou com a cabeça.

flor.

– – – –

Acho que a amarei para sempre. Apesar de toda essa merda, ela sempre será meu beija-

Beija-flor – Vincent repetiu. – Por que a chama desse jeito? Sei lá. Eu a chamei assim um dia e o apelido simplesmente pegou.

Sua mãe teria adorado esse apelido –Vincent sorriu para si mesmo. – Não tenho visto nenhum já faz tempo, mas no verão eles invadiam as árvores no jardim. Maura amava aqueles pássaros, o modo como conseguiam pairar no ar e voar para trás, sem nunca se cansarem. Ela tinha certeza de que a alma das pessoas puras e inocentes vivia dentro deles, e era por isso que eles desafiavam a natureza. Antes que Carmine pudesse respondeu seu celular tocou. Ele ficou tenso quando viu a mensagem familiar:

DOCAS, TERCEIRA COM WILSON.


Carmine enfiou o telefone no bolso e disse:

Acho que tenho que ir. Vincent acenou com a cabeça e acendeu outro cigarro, sem se mostrar surpreso, e não fez nenhum movimento para se levantar do degrau.

– – – –

Quer entrar? – Carmine perguntou. –Ainda é sua casa. Não, vou apenas ficar por aqui mais uns minutos e então irei embora. Tudo bem – disse Carmine, afastando-se do pai. – Te vejo depois.

Carmine? – chamou Vincent. Carmine se virou e viu a expressão séria no rosto do pai.

– –

Sim?

Eu te amo, meu filho – ele disse em voz baixa, dando mais uma tragada. – Acho que não lhe digo desde que você tinha oito anos, mas eu amo você.

Eu também te amo – Carmine respondeu. As palavras do pai o levaram ao limite. – Olha, vê se não vai fazer nada estúpido, ok? Vincent riu.

– – –

Não farei nada que você mesmo não faria. Ah, bem, é isso o que me preocupa, porque eu faço muita merda.

Vá! – disse Vincent, acenando com a mão. – Sabe que não deve se atrasar quando é chamado. Não se preocupe comigo.

Você é quem manda – respondeu Carmine em voz baixa, dirigindo-se para o carro. – Até

Até mais, filho.

mais, pai.

Capítulo 23

Era uma tarde de domingo e Carmine estava parado de pé nas docas. Um par de óculos escuros protegia seus olhos do sol forte. Ele hesitou por algum tempo, imaginando se aquele seria o lugar certo,


mas as palavras “The Federica” no casco do barco que estava bem à sua frente não deixavam qualquer dúvida de que aquele era o ponto de encontro. Cinco minutos se passaram, talvez dez, enquanto ele apenas olhava para o barco em silêncio, sem querer se aproximar. O álcool da noite anterior ainda corria por suas veias e a sensação remanescente de Molly também estava presente. A bebedeira havia passado e uma dor de cabeça já se pronunciava. Ele ficara de pé até quase o nascer do sol, divertindo-se com Remy e os outros caras de sua equipe. De fato, ele acabara de cair na cama quando Sal ligou para ele, dizendo-lhe para que o encontrasse exatamente à uma da tarde. Negócios? Assunto pessoal? Carmine não fazia ideia. Mas o que ele sabia era que não estava interessado em estar ali, qualquer que fosse o motivo. Um carro estacionou atrás do rapaz, no gramado ao lado da Mercedes de Carmine. Ele se virou e viu o tio sair do veículo e caminhar em sua direção. Corrado estava usando uma camiseta branca com decote em V, calças na cor cáqui e um par de mocas sim bege. Carmine baixou as sobrancelhas ao olhar para os pés do tio.

– –

Algo errado? – perguntou Corrado, aproximando-se dele na doca. Não – ele disse, acenando a cabeça.– É que nunca o vi vestido assim, de um jeito tão

casual.

É domingo – ele respondeu, dando de ombros como se aquela fosse uma boa explicação. – Celia vai passar a tarde com a mãe, então pensei em me reunir com Sal.

Tá – retrucou o rapaz, voltando a olhar para o barco. – De qualquer modo, o que estamos fazendo aqui? Corrado não respondeu. Em vez disso, caminhou em direção ao barco e se sentou numa cadeira de vinil. Carmine permaneceu imóvel por um instante, antes de se juntar ao tio, caminhando de um jeito trêmulo rumo ao deque de madeira encerado. Ele se segurou firme nas cordas para se estabilizar, pois o barco estava balançando. O jovem estava prestes a se sentar ao lado do tio quando Salvatore saiu de dentro da cabine, vestido de maneira ainda mais casual que o próprio Corrado. Pernas peludas apareciam abaixo da bermuda xadrez e ele vestia uma camiseta branca sem mangas que mal cabia em sua barriga avantajada. Pelo menos uma vez Carmine se sentiu adequado vestindo jeans e camiseta.

Principe! – disse Sal, com entusiasmo e desviando os olhos de Carmine para Corrado. – Corrado! Fico feliz que tenha conseguido se juntar a nós! Estamos apenas esperando mais uma pessoa. Carmine o olhou ansioso.

Quem? Sal acenou com a cabeça em direção à doca quando um sedã preto estacionou. Um frio percorreu o corpo de Carmine. Ver aquele homem saindo do carro o fez sentir como se suas veias estivessem cheias de gelo. A cicatriz no rosto do sujeito brilhava ao sol, como um aviso claro e sinistro de que o perigo estava à espreita.


A dor de cabeça de Carmine se tornou ainda mais forte. A intensa vibração o cegava e ele cerrava os dentes para evitar dizer qualquer coisa. Em vez de reagir, ele se forçou a se sentar ao lado do tio. Carlo entrou no barco com um andar determinado e uma aura de prepotência. Aquilo ficava evidente em cada passada, em seu sorriso e em sua postura; o sujeito se achava invencível.

Espero não estar atrasado – disse Carlo. Carmine olhou para o relógio: 13h13. Tecnicamente, todos estavam atrasados.

Não, de jeito nenhum – respondeu Sal, sorrindo e dando um tapinha nas costas de Carlo. – É bom revê-lo. Um minuto depois o barco deixou a doca e navegou até um lugar ermo onde não havia nada além das tranquilas e escuras águas do Lago Michigan, que os cercavam por todos os lados. Carmine permaneceu tenso. Todos os músculos de seu corpo estavam rígidos enquanto os homens preparavam seus equipamentos de pesca e atiravam os anzóis na água. Eles estavam relaxados, riam e bebiam seus drinques.

Então, temos um probleminha – disse Salvatore, enfim. Naquele momento, sua indiferença se transformou em seriedade. – Temos outro traidor entre nós com o qual precisamos lidar. Ele não deve estar preparado e, nesse ponto, ele confiará em poucos. Compreendem a gravidade da situação?

É claro – respondeu Corrado, de imediato. – Os ratos precisam ser eliminados. Salvatore se virou para Carmine e ergueu as sobrancelhas como se questionasse a opinião dele. O rapaz assentiu, embora não tivesse certeza do porquê ele estivesse lhe perguntando. Afinal, seu trabalho era apenas concordar.

– –

Sim, senhor.

Que bom que pensa assim – respondeu Sal, pegando um charuto e cortando a ponta –, porque preciso que Vincent seja apagado o mais rápido possível. Carmine ficou petrificado e seu coração parou de bater por um segundo. Vincent? Não podia ser. Ele não podia estar se referindo ao pai dele.

É um infortúnio, mas temos fontes que nos alertam para o fato de ele estar dando informações aos federais – continuou Sal, acendendo o charuto, saboreando-o e soltando a fumaça. – O pai dele, Antonio, que Deus proteja sua alma, foi um dos maiores chefes da história da organização. A traição de Vincent é algo que eu jamais iria sugerir se não tivesse certeza absoluta. Salvatore fez uma pausa e olhou para Corrado. Carmine segurou a respiração, esperando que seu tio defendesse Vincent, que ele convencesse Salvatore de que não havia nenhuma lógica naquilo. Vincent DeMarco jamais trairia a famiglia. No entanto, no momento em que Corrado abriu a boca as esperanças do rapaz se desintegraram.

Eu cuidarei disso.


Ele irá esperar por isso – disse Salvatore. – Ele sabe que você é o melhor. Corrado começou a responder, mas outra voz o silenciou:

– – –

E quanto ao garoto? – perguntou Carlo. – Por que não ele? Eu? – perguntou Carmine incrédulo.– Eu não posso…

Não pode? – questionou Sal, com os olhos enegrecidos. – Está se recusando? – Com todo o respeito, senhor, Vincent é muito experiente – disse Corrado. – E Carmine ainda é um amador.

É verdade, mas não atiraria no próprio filho, especialmente num que se parece tanto com a esposa. Seria como se Maura morresse de novo. Não, Carlo está correto, Carmine é a pessoa perfeita para o trabalho. Carmine encarou aqueles homens em estado de choque, sem saber de que modo reagir. O fato de Salvatore pensar em utilizar a memória da mãe dele como uma vantagem em seu jogo violento o deixava enojado. Não podia ser verdade que ele tivesse acabado de receber ordens para matar o próprio pai. Aquilo era impensável.

– –

Eu devo matar meu próprio pai?

Um traidor, Carmine – disse Salvatore com a voa afiada. – As ordens são para eliminar uma ameaça. De qualquer modo, já está na hora de você provar sua lealdade. Aliás, você já devia tê-lo feito há muito tempo, mas não quis pressionálo pelo fato de você ser quem é. Na verdade, já tolerei muita coisa que não deveria por conta de seu sobrenome, mas de agora em diante as coisas serão diferentes. Seu avô deve estar se revirando no caixão neste momento.

– –

Com certeza – afirmou Corrado. – Antonio jamais teria aceitado isso.

Então faça o que é esperado de você– prosseguiu Salvatore. – Resgate o respeito que sua linhagem merece.

Mas… Salvatore olhou para Carmine com fúria nos olhos e o fez se calar de maneira abrupta. O clima mais uma vez ganhou um ar tranquilo, enquanto Sal tragava seu charuto e voltava a cuidar de seu equipamento de pesca. Duas horas depois o barco chegou novamente à doca e Carmine foi o primeiro a sair. Ele seguiu em direção ao carro, ainda em estado dormente, e ouviu Corrado segui-lo, mas não se virou. Com o sangue fervendo, ele continuou a andar, mas o tio o agarrou pelo braço.

Me solta – gritou, afastando-se de Corrado.


Relaxe – disse o tio. – Você se saiu bem. Carmine riu de um jeito amargo.

Você está me pedindo para relaxar? Talvez você consiga matar sua própria família sem nenhum remorso, mas eu não sou capaz de fazê-lo! Como você pôde concordar com ele? Achei que conhecesse meu pai melhor que isso!

É óbvio que conheço seu pai melhor que você – ele retrucou. – Você é muito ingênuo se acredita que ele não sabia que isso iria acontecer.

– –

Está me dizendo que ele planejou tudo isso? Em que mundo nojento você vive?

No mesmo em que você vive – respondeu Corrado com calma, pegando o telefone no bolso. – Mas isso não faz diferença, porque você não irá matar ninguém, Carmine.

Isso é novidade para mim, considerando que acabei de receber exatamente essa ordem. O que esperam de mim?

Eu espero que volte para casa. Corrado então se virou e entrou em seu carro, deixando o lugar sem dizer mais nenhuma palavra. Carmine seguiu para casa, estacionando na garagem poucos minutos depois. A casa estava aquecida. O ar-condicionado ainda estava quebrado. O jovem pegou uma garrafa de Grey Goose do congelador antes de caminhar até a sala, atirando-se no sofá e chutando os sapatos para longe. O tempo passou e ele continuou sentado ali, olhando para o chão. Sua mente estava exausta enquanto ele tentava esquecer tudo aquilo com o álcool. A bebida fluía pelo sangue, mas era incapaz de extinguir a dor em seu coração. Na melhor das hipóteses, pensou Carmine, seu pai desapareceria e ele jamais o veria outra vez. Na pior, ele acabaria morto e, provavelmente, pelas mãos do próprio filho. Violência, caos, derramamento de sangue, destruição completa. Ele imaginava se haveria ainda alguma maneira de evitar tudo aquilo. Mais tarde ele ainda se mantinha sentado no sofá, segurando os cabelos e com a garrafa de vodca vazia aos pés. Incrivelmente, ainda estava lúcido. Sequer se aproximara de beber o suficiente para desmaiar. Ele se levantou dali quando o sol se pôs. A casa estava um pouco mais fresca e escura. O assoalho frio era uma boa sensação sob os pés enquanto ele caminhava até a cozinha. Sua cabeça estava explodindo e ele procurou mais bebida nos armários. Ficou ainda mais furioso ao não encontrar nenhuma garrafa e fechou com toda a força as portas que permaneciam abertas. Em seguida, ele pegou o telefone e deslizou o dedo na tela em busca de um nome. Remy.

– –

Alô? – respondeu Remy no primeiro toque. – E aí, cara, o que tá rolando?

Preciso de Molly. Remy soltou uma gargalhada e disse: – Chego aí rapidinho, cara.


Molly acabaria se transformando numa companheira para as noites de Carmine. A droga o fazia se sentir vivo de novo, preenchendo aquele vazio dentro de seu peito, mas se revelava uma bênção e uma maldição. Ela lhe proporcionava condições para se concentrar, algo pelo qual esperar, mas, enquanto isso, o arrastava cada vez mais para a escuridão. Quando o garoto estava alterado, ele não podia se sentir mais fora da realidade; porém, quando o efeito da droga acabava, ele se via cada vez mais fundo no poço. A depressão tomou conta dele. Sua cabeça era bombardeada por pensamentos suicidas. Imprudente e instável, ele já não conseguia pensar direito nem agir normalmente. Ele se tornou obcecado pela sensação, tentando vivenciá-la com cada vez mais frequência na tentativa de retardar o inevitável término do efeito. Chegou a um ponto em que estava constantemente drogado; em sua busca por sentir alguma coisa, o mundo ao seu redor desabou. Sua queda em espiral acontecia de maneira abrupta, como se despencasse de uma altura de doze andares e caísse direto no concreto.

O evento Novak Gala, que ocorria duas vezes ao ano numa galeria ao norte de Chelsea, sempre atraía os grandes amantes das artes. Centenas de pessoas se reuniam para celebrar artistas locais, desde os profissionais da área até os novos talentos pós-graduados que floresciam nas escolas da região. Peças eram leiloadas e o dinheiro arrecadado era usado para sustentar programas de arte em escolas públicas menos privilegiadas. A mídia sempre prestigiava essas ocasiões e mencionava os talentos em ascensão. Aquela era uma data bastante esperada pela comunidade, mas provavelmente ainda mais ansiada pelos alunos da SVA – School of Visual Arts. Afinal, em cada evento, alguns alunos sortudos ganhavam a oportunidade de mudar suas vidas: a chance de expor seus trabalhos. Os estudantes recebiam um tema e tinham de submeter uma única peça de arte para ser avaliada pela administração. A competição era duríssima: dos três mil inscritos, apenas vinte eram escolhidos. A probabilidade de ser um dos escolhidos era de menos de um por cento, o que não impedia os alunos de se aplicarem ao máximo. Novembro acabava com rapidez e com o passar das semanas se aproximava a data limite para a entrega das obras ao comitê avaliador. O tema para aquele evento específico era “Frieza” e Haven se manteve ocupada, criando vários cenários de paisagens brancas, nevascas e chuvas congelantes, antes de se decidir pela pintura de um campo sendo coberto pela neve que caía. Era algo simples, mas muito bonito. O branco se misturava ao verde desbotado. Ela passou o feriado de Ação de Graças fechada em seu apartamento, bem aquecida pelo grande radiador de metal, dando os últimos retoques em sua obra enquanto comia seu jantar direto da caixinha entregue pelo restaurante chinês. Ela estava tão concentrada e determinada em terminar seu trabalho que quase nem percebeu que se tratava de uma data especial.


Quando a escola reabriu na segunda-feira após o feriado, Haven entregou à senhorita Michaels, sua professora de Pintura Básica, o projeto já terminado. Ela o olhou por um momento e acenou com a cabeça.

– –

Eu o entregarei ao comitê esta tarde.

Obrigada – disse Haven, sorrindo orgulhosa ao olhar pela última vez para seu trabalho. Ela não conseguia ver nenhuma falha, tudo parecia preciso; várias técnicas de arte ensinadas foram incorporadas ao quadro. Ela não podia imaginar o que mais eles poderiam querer.

De nada, querida. A jovem correu para casa depois da aula naquela manhã, enfiada num casaco grosso, e se deparou com Kelsey saindo às pressas do prédio. Haven ficou surpresa e franziu as sobrancelhas. Ela não tinha nenhuma aula matutina agendada justamente para não ter que acordar cedo. – Estou indo aos estúdios – disse Kelsey antes mesmo que Haven tivesse a chance de lhe perguntar. – Esqueci do prazo de entrega e nem comecei meu projeto! Haven olhou para a amiga em choque, piscando algumas vezes. – Ah, boa sorte, então. Kelsey respondeu com um meio sorriso antes de correr rua a baixo.

Duas semanas depois, quando a aula terminou, a senhorita Michaels entregou a cada aluno um envelope. Na sala, o burburinho começou, junto ao som de papel sendo rasgado, amassado e, por fim, atirado no lixo no caminho até a porta. Eram notificações de que aquelas obras não haviam sido aceitas. Haven ficou nervosa ao ver aquilo. Com cuidado, ela abriu seu envelope e leu o que estava escrito na carta.

Apreciamos seu esforço… A competição foi dura… Tem muito talento… Receamos informar que… Desejamos melhor sorte da próxima vez…

Haven lentamente absorveu o conteúdo e ficou desapontada ao ler a última frase.


Sua obra obteve o 348º lugar. Bem longe dos vinte melhores.

Você está bem, querida? Haven olhou para a professora enquanto dobrava a carta e a enfiava de volta no envelope.

– –

Não compreendo o que havia de errado com o meu quadro.

Tecnicamente falando, absolutamentenada – disse a senhorita Michaels – Apenas não era o que estavam buscando.

– –

Por quê?

Veja, você encarou o projeto de modo literal e, embora não haja nada de errado, isso fez com que ele não apresentasse o que estavam buscando.

– –

E o que seria isso?

Alma – ela respondeu. – Era possível olhar para sua pintura e ver o frio, mas não era possível senti-lo. E é isso o que importa. Seus quadros devem ser capazes de fazer com que as pessoas sintam algo ao olhar para eles, mesmo que não façam ideia do motivo.


Capítulo 24 O tempo é algo peculiar. Um momento pode parecer uma eternidade, enquanto meses podem passar num piscar de olhos. É algo em que não se pode confiar e é instável, mas, da mesma forma, é o que há de mais constante no universo. Tempo. Independentemente do que você faça, não se pode pará-lo. Os ponteiros do relógio continuarão a se mover e os minutos se transformarão em horas, e as horas em dias, até que, de repente, você percebe que um ano inteiro já se passou. Era Natal. Doze meses haviam transcorrido desde que Carmine deixara sua casa em Durante. Fora um ano marcado por violência e incertezas, em que a dúvida pairava com frequência em sua cabeça, como uma nuvem teimosa que insistia em não se dissipar. E o tempo estava marcado em seu rosto; sua expressão estava mais dura, sua pele mais grossa e seus olhos mais frios, inamistosos e reservados. Porém, na mente de Carmine era difícil imaginar que estivera longe de sua antiga casa por tanto tempo. Era como se ele tivesse visto Haven no dia anterior, como se tivesse escutado sua voz ou ouvido sua risada apenas um segundo atrás, como se ele tivesse acabado de beijá-la e de fazer amor com ela. O tempo que passou representava apenas um átimo nebuloso para o jovem; um piscar de olhos, uma batida do coração, mas o cansaço em seus ossos revelava a verdade. Ele conseguira sobreviver um ano longe de Haven… O primeiro, ele pensou, de toda uma existência que teria pela frente. Embora agora já fosse um homem e já tivesse visto coisas que ninguém merecia ver e cometido atos que nenhum ser humano deveria cometer, lá no fundo ainda residia um garoto. Um garoto que se esquivava de sua família, evitava prestar contas de seus atos e preferia viver num mundo próprio e ilusório. Um mundo em que, de algum modo, ele acreditasse que poderia sim sobrepujar o tempo, que sua vida não era controlada por um relógio cujos ponteiros andavam para trás e faziam uma espécie de contagem regressiva das horas que ele ainda teria na Terra. Afinal, com a vida que ele levava, não iria demorar muito para que a morte o encontrasse. E aquele momento só se aproximava a cada toque do seu celular.

SYCAMORE CIRCLE

Carmine olhou para a mensagem enquanto descia descalço a escada de sua casa bagunçada, bebendo vodca diretamente da garrafa já pela metade. Soltando um suspiro, colocou sua bebida no balcão da cozinha antes de ligar para Remy, batendo o pé com impaciência enquanto o telefone tocava e tocava, sem resposta. Tentou ligar duas vezes mais antes de vestir um casaco e calçar os sapatos. Carmine precisava saber se o rapaz precisava de uma carona, mas todas as tentativas alcançaram a caixa postal.


O céu estava escuro. Não havia uma estrela sequer naquela noite. A única claridade vinha da neve do piso congelado. Até aquele momento o inverno fora peculiar e só tinham ocorrido alguns dias de gelo e neve pesada. E aquilo era uma das poucas bênçãos que Carmine registrava em sua vida naqueles tempos. Porém, de algum modo, ele podia sentir que uma tempestade se aproximava. As pontas dos seus dedos latejavam e seu nariz ficou dormente assim que saiu da casa e se deparou com o ar frio. Encolhendo-se, vestiu um par de luvas pretas e ergueu o capuz do casaco, entrando no carro e ligando o aquecedor antes de partir para a casa de Remy. Não havia sinal do amigo na casa. As luzes estavam apagadas e não havia nenhum carro na garagem. Outra chamada perdida, então Carmine se dirigiu ao ponto de encontro, imaginando que o encontraria lá. Dois outros carros se escondiam sob as sombras do prédio abandonado. Eles estavam estacionados bem perto de onde os caminhões estavam parados, mas nenhum deles era o velho carro de Remy. Ele tentou ligar mais uma vez, mas sem sucesso. Os homens estavam parados no local, observando e esperando, mas não havia nenhuma movimentação, assim como da última vez. Os caminhões estavam ali, prontos para serem roubados. Ou pelo menos era isso que parecia. Eles se reuniram e prosseguiram com a mesma rotina, quebrando cadeados e passando pelos portões, aproximando-se dos caminhões. Aquele era um procedimento metódico e rotineiro, fácil e rápido, até que, de repente, já não era mais. Carmine abriu o baú de um caminhão esperando encontrar armas, mas em vez disso não encontrou nada. Absolutamente nada. Seu coração saltou à garganta; sua visão ficou turva e ele sentiu uma tontura. Algo estava errado. Algo estava terrivelmente errado. Um único tiro foi disparado no escuro da noite, confirmando seus piores temores. Ele se virou com rapidez, com o sangue fluindo intensamente pelas veias e viu quando um dos rapazes de sua equipe caiu no chão, soltando um grito horripilante, tão alto e avassalador que reverberou por todos no local. – Homem ferido! – alguém gritou. – Caralho! Homem ferido! Antes mesmo que Carmine pudesse pensar ou reagir, as sombras se moveram e pessoas começaram a surgir de todos os lados. Ele pegou sua arma e começou a atirar de volta, mas não conseguia ver nada na escuridão. Uma bala passou zunindo por sua cabeça e ele logo sentiu a dor no rosto. Ela o atingira de raspão na face. Soltou um palavrão e correu, atirando para trás. Carmine escorregou no piso coberto de neve e perdeu o equilíbrio, mas conseguiu se levantar antes que outra bala quase o atingisse. Entrou correndo no carro e saiu voando do lugar. Suas mãos tremiam e seu estômago revirava. Dessa vez os homens estavam esperando por eles. Todos ali, prontos, esperando nas sombras, prontos para atacar em vez de se defender. Enquanto dirigia pela cidade, ziguezagueando em meio ao tráfego, tudo o que ele poderia pensar éque fora pego em uma armadilha. Alguém havia avisado sobre o furto. Um filete de sangue escorreu de seu rosto. Ele tirou o capuz da cabeça e passou a mão trêmula pelos cabelos desarrumados. Carmine estava aterrorizado. O medo substituiu o tédio em que sua vida se transformara. Ele estava tão acostumado a não sentir nada por conta de toda a bebida e de todas as drogas que engolia e cheirava que a emoção que o atingiu parecia insuportável. Aquilo tudo era real e seu coração batia violentamente. Teria sido Sal? Será que ele o queria morto? Desorientado, acelerou pelas ruas e foi direto ao clube em busca de Corrado. Passou pelo segurança da frente e foi para os fundos, pelo corredor estreito. Ao chegar à porta, ele percebeu que a música estava


muita alta; hip-hop tocava nos alto-falantes. Aquele era o primeiro sinal de que o tio não estava ali. Mesmo assim ele deixou de lado aquele pensamento e bateu à porta em desespero.

Ei – disse um guarda de segurança que o seguira desde a entrada. – Está procurando por

Moretti?

– –

Sim.

Ele saiu por um instante, mas não deve demorar. Pode beber alguma coisa se quiser – disse o homem. Frustrado, Carmine voltou ao clube, pegando uma toalha no bar para estancar o sangramento no rosto. Olhando ao redor, ele ficou ainda mais nervoso ao localizar Remy, sentado numa mesa lateral, cercado de garotas. Confusão e ódio tomaram conta de Carmine.

Onde diabos você se enfiou? – gritou Carmine, aproximando-se da mesa. Remy olhou para ele e arregalou os olhos.

– –

Merda, cara, o que foi que aconteceu com você?

O que aconteceu? – retrucou Carmine com um riso amargo, retirando a toalha do rosto ensopada de sangue e ficando ainda mais zonzo ao ver aquilo. – O que aconteceu foi que tivemos uma bosta de trabalho essa noite e você não estava lá! Remy se ajeitou rapidamente na cadeira e pegou o telefone.

Merda, merda, merda – ele repetiu, rolando a barra do celular e vendo as mensagens e ligações perdidas. – Não ouvi meu telefone, cara, eu juro. Carmine pegou a cadeira que estava mais próxima e a puxou, quase atirando ao chão a moça que estava sentada nela. Ela deu um pulo e Carmine se sentou.

– – – –

É, bem, foi uma emboscada, de qualquer modo. Não é possível! – disse Remy, meneando a cabeça sem acreditar. – Nas docas? Sycamore Circle. Caralho – Carmine meneou a cabeça. – É, caralho é a palavra certa.

Olha, cara, tome uma bebida ao algo assim – disse Remy, colocando-se em pé. – Vou ver o que aconteceu com os outros.

Passe a sua bebida – disse Carmine, pegando seu braço antes que ele saísse. – Eu preciso… Merda, eu preciso de alguma coisa. Enfiando a mão no bolso, Remy pegou um pequeno saquinho de pó.

É melhor ir com calma. Não é o que você está acostumado a usar.


Carmine o ignorou logo que saiu. Colocou um pouco de pó sobre a mesa e o inalou, repetindo a ação várias vezes, sem o menor cuidado, sem a menor prudência. Ele precisava sentir a excitação… Precisava aplacar o medo. Recostando-se na cadeira, esperou que a droga fizesse efeito. Depois de dois ou três minutos, a euforia tomou conta dele de maneira intensa e ofuscante. Ele curtiu a sensação, soltando um suspiro de alívio e esperando que o efeito se dissipasse, mas isso não aconteceu. Aquilo cresceu e se tornou cada vez maior dentro dele, apoderando-se de cada célula de seu corpo, até que não houvesse mais por onde se espalhar. Finalmente a droga alcançou seu coração acelerado, diminuindo os batimentos tão rápido que eles quase cessaram. Ele não conseguia respirar. Todo seu corpo foi envolvido por uma sensação de paz. Não havia mais medo, ansiedade; não havia nada. Aquilo foi demais para ele, rápido demais, intenso demais. A queimação no rosto foi substituída por agulhadas. Suas pálpebras estavam se fechando tão rápido que ele se sentia prestes a perder a consciência.

Merda – sussurrou, deslizando as mãos pelo rosto na tentativa de se manter acordado e espalhando o sangue em seu rosto. De repente, a música parou. A atmosfera do ambiente se transformou em escuridão. Aquela sensação desesperadora o consumiu por completo, até que uma voz familiar a distância interrompeu o silêncio, chamando seu nome:

Carmine! O garoto olhou na direção de quem o chamava, lutando para manter os olhos abertos, e viu Corrado aproximar-se com rapidez. Tudo parecia acontecer em câmera lenta. Era como se tudo se movesse conforme o piscar constante de luzes.

Mantenha-se acordado, criança – disse Corrado, com a voz calma e contida. Carmine o encarou brevemente, tentando obedecê-lo, mas a droga era muito forte. Apesar do ferimento no rosto que queimava e latejava, as pálpebras pesadas do rapaz se fecharam. O lugar estava um caos, mas Carmine só percebeu isso vagamente antes de perder os sentidos e adentrar a completa escuridão induzida pela droga pesada.

Bipe… bipe… bipe… Mas que merda é essa?, pensou Carmine ao abrir os olhos e se deparar com as fortes luzes fluorescentes acima dele. O som constante ecoava pelo quarto pequeno e fechado, oriundo de um monitor cardíaco posicionado à sua esquerda. O equipamento apresentava picos a cada respiração, emitindo os bipes em sintonia com o batimento de seu coração. As batidas pareciam fortes e regulares. Por um momento ele ficou olhando para a máquina, e então deslizou os olhos pelos fios que estavam conectados ao seu corpo, concentrando-se na agulha presa à sua veia. Ele estava numa desconfortável cama de hospital, vestido apenas com um fino avental e coberto com um lençol branco.


De repente, algo se moveu do outro lado do quarto. Carmine virou a cabeça e sua atenção se voltou para a janela. Corrado estava de pé ali, olhando para fora em direção ao grande estacionamento. Ele não se virou nem disse uma palavra, apenas ficou ali com as mãos enfiadas nos bolsos. Antes que Carmine pudesse compreender o que estava acontecendo, a porta se abriu e uma enfermeira entrou, seguida por um médico. De cabelos grisalhos e vestido de branco, o profissional trazia consigo uma prancheta. Então olhou com certa hesitação para Corrado antes de se voltar para Carmine no leito.

– –

Senhor DeMarco, é muito bom vê-lo desperto.

Ah… Sim. – disse Carmine, com a garganta arranhando. Ele pigarreou um pouco antes de voltar a falar. – O que eu estou fazendo aqui?

Não se recorda? – perguntou o médico, olhando para a prancheta. Carmine se lembrava do serviço que dera errado e de ter ido à procura de Corrado, mas quanto ao restante não fazia a menor ideia. – Bem, você foi trazido para cá há algumas horas, sem reagir depois de uma overdose.

– –

Overdose?

Os exames indicaram a presença de algumas drogas em seu organismo, mas o que provocou a overdose foi o uso excessivo de heroína. Carmine ficou sem palavras. Heroína? Ele já não absorvia mais nada enquanto o médico falava sobre Narcan, antitóxico, programas de reabilitação e efeitos colaterais de longo prazo. Mais uma vez ele se sentiu apavorado e o medo se espalhou por sua corrente sanguínea. Seus músculos estavam retesados; todo o corpo parecia enrijecido e dolorido. Era como se um caminhão o tivesse atropelado.

Faremos mais alguns testes e então você terá alta amanhã – continuou o médico. – Até lá, sugiro que o senhor repouse. Os olhos do médico se voltaram para Corrado uma vez mais antes de ele se despedir e sair junto à enfermeira. A tensão no quarto aumentou consideravelmente depois que os dois saíram. Carmine ficou deitado ali, tentando encontrar as palavras adequadas diante daquela situação, mas Corrado foi mais rápido.

As regras são tão simples – ele disse, ainda olhando pela janela. – De fato não existem muitas regras, mas esperamos que as que existem sejam seguidas à risca. Manter-se longe de drogas e dos holofotes. Que parte disso você ainda não compreendeu?

– –

drogas?

Eu, ah… Olhe, eu não queria que isso tivesse ido tão longe, eu… Não quero ouvir suas desculpas esfarrapadas, Carmine. Há quanto tempo você tem usado


– – – – –

Algumas semanas – Carmine admitiu. Há uns dois meses no máximo, eu acho. Você acha? Bem, eu não anotei o primeiro dia na agenda ou algo assim.

Você se dirigirá a mim com respeito, moleque – o tom de voz de Corrado fez Carmine sentir um frio na espinha. Ele não estava falando como membro da família, mas como seu superior. – Você compreende?

– –

Sim, senhor.

Muito bom. Agora, o que deu em você para realizar um trabalho em Sycamore Circle? Todos sabem que aquele território pertence aos irlandeses!

Eu, ah… Eu recebi uma mensagem no celular – Carmine olhou para os lados em busca de seu telefone, localizando suas roupas numa pilha no chão. – Pensei que a ordem tivesse partido de você.

Deve ter partido de Sal – murmurou Corrado, meneando a cabeça. – Três homens foram hospitalizados, sabia? Um deles quase morreu. E você fugiu do local… Fugiu para ir se drogar.

Eu fui atrás de você – disse Carmine, colocando-se na defensiva. – Foi uma emboscada. Eles estavam esperando por nós.

Mas é claro que estavam. Eles nos avisaram disso há semanas. Carmine não disse nada. Não sabia o que dizer.

Você conhece a história entre os italianos e os irlandeses em Chicago? – perguntou Corrado, olhando para o sobrinho e erguendo as sobrancelhas. O jovem fez um movimento negativo e limpou a garganta.

– –

Eles se odeiam.

Muito mais que isso – respondeu Corrado. – Nós já nos estranhávamos mesmo antes da Lei Seca, quando John Torrio estava construindo seu império. Ele era um homem diplomático, acreditava que o fato de sermos criminosos não justificava que agíssemos como selvagens. Bugs Moran, o subchefe da máfia irlandesa na época, tentou matar Torrio, que ficou muito ferido durante a tentativa de assassinato. Isso o fez entregar o poder nas mãos de Al Capone, que, por sua vez, continuou o que Torrio começara. Mas Capone não pensava diferente.


– –

Olho por olho – Carmine resmungou.

Exato – disse Corrado. – Moran tentou matar Capone algumas vezes, mas fracassou. Ele não era um bom atirador. Então, uma conferência de paz foi convocada. Durante a reunião, Capone disse que considerava Chicago grande o suficiente para todos, que era como uma grande torta e, assim, cada um poderia ter sua própria fatia.

– –

Faz sentido – disse Carmine, mesmo sem ter ideia de aonde aquela conversa iria chegar.

É, também faz sentido para mim – respondeu Corrado. – Por algum tempo, depois daquele encontro, o banho de sangue parou. Mas isso não durou muito. Sabe o que houve depois, não? Carmine olhou para o tio.

Mais ou menos. Nunca fui bom em História. Repeti duas vezes seguidas nessa matéria. Corrado soltou um riso amargo.

Essa é a única história que interessa… A nossa história. Moran começou a matar os amigos de Capone. Então a paciência do Chefão chegou ao fim e ele finalmente decidiu que já era demais. Ele enviou alguns homens até o armazém de Moran. Estavam vestidos de policiais. Seis homens dele foram colocados contra a parede e executados.

– –

O Massacre do Dia de São Valentim.

As mortes pararam depois daquilo. Mas isso só aconteceu porque sempre respeitamos os limites uns dos outros; só mantivemos a paz porque a torta foi dividida. – Corrado fez uma pausa. – Tudo isso termina agora, Carmine. Se eu ouvir que você voltou a usar drogas, se essa porcaria não matá-lo eu mesmo me incumbirei de fazê-lo. Não permitirei que se torne um viciado em heroína.

Eu não sabia que era heroína – o rapaz respondeu. – Eu achei que fosse Molly, você sabe, ecstasy. Corrado se virou onde estava.

– – –

Então essa é a tal Molly. Pensei que você tivesse arrumado uma namorada com esse nome. Pensou que eu estivesse saindo com alguém? – perguntou. – Isso é maluquice.

Não, maluquice é você destruir seu corpo com drogas ilícitas só para se sentir excitado, em vez de procurar algo mais seguro, como uma mulher. Carmine negou.

Só existe uma mulher na minha vida.


Corrado ignorou a resposta e se voltou para ele mais uma vez.

Este é o mesmo quarto, sabia? Foi reformado, mas é exatamente o lugar onde você ficou quando levou o tiro da primeira vez. Tive um déjà vu essa manhã, vendo você deitado nessa cama. A única diferença é que seu pai não está aqui agora. Mal consigo imaginar como ele se sentiria vendo você atirar sua vida no lixo dessa maneira… Uma vida que Maura perdeu justamente para proteger. Por um momento os bipes no aparelho se tornaram erráticos, diante da menção dos pais de Carmine. O garoto ficou muito envergonhado quando o tio continuou com o sermão.

Preciso poder confiar em você, Carmine, mas até agora você não me deu nenhuma razão para fazê-lo. Não pode continuar me desrespeitando dessa maneira, desrespeitando a organização que seu avô ajudou a construir. Já é ruim o suficiente que seu pai tenha… – Corrado parou de falar e sua postura se tornou mais rígida. Ele ficou paralisado, como uma estátua, e sua voz mudou de tom ao falar de novo. – Não manche ainda mais o legado dos DeMarco. A voz de Carmine foi apenas um sussurro.

Sim, senhor. Corrado caminhou até a cama.

– – –

Onde foi que você conseguiu? Conseguiu o quê?

As drogas, Carmine. Onde você as conseguiu? Carmine meneou a cabeça.

– –

Ah, eu… Diga de uma vez – Corrado exigiu. –Quero saber quem está fornecendo

drogas a você.

– –

Mas eu…

Diga quem foi! Com a respiração ofegante, uma única palavra escapou dos lábios de Carmine:

Remy. As sobrancelhas de Corrado se ergueram.

– –

Tarullo? Sim.


Antes mesmo que o rapaz pudesse elaborar sua resposta, a mão forte de Corrado o agarrou pelo pescoço. O monitor cardíaco disparou e os bipes inundaram o quarto enquanto Carmine lutava para respirar. Seus pulmões queimavam em busca de oxigênio.

Regra número um: nunca dedure seus amigos – disse Corrado em voz baixa, inclinando-se e aproximando-se do rapaz aterrorizado, colocando a boca em sua orelha. Corrado soltou o pescoço de Carmine, que inalou todo o ar que conseguiu. Lágrimas se formaram em seus olhos e sua visão ficou turva enquanto via o tio caminhar até a porta.

Eu voltarei. Tenho de pensar na melhor maneira de lidar com você. O sol estava começando a se levantar e os raios de luz invadiam o quarto pela janela à medida que refletiam sobre os para-brisas dos carros estacionados. Devia ser umas sete da manhã, talvez um pouco mais cedo. Carmine permaneceu deitado naquela cama desconfortável, atendendo a todas as ordens das enfermeiras enquanto elas tiravam seu sangue e checavam os sinais vitais, até ele se decidir que já era o suficiente. Livrando-se de todos os fios, retirando a intravenosa do braço e ignorando o sangue que escorria, ele mesmo se desconectou de todos os equipamentos. Os médicos correram para o quarto ao perceberem que o monitor cardíaco não emitia sinal de batimentos. Tentaram segurá-lo enquanto ele vestia suas roupas. Carmine ignorou todos os pedidos para que voltasse para a cama e, contra a vontade dos profissionais, passou por todos eles e foi direto para a porta do hospital. Mas ele não foi muito longe. Mais ou menos a um quarteirão do lugar o jovem entrou num bar cuja porta estava aberta e uma luz piscava na janela. Sua cabeça estava explodindo, seus olhos queimavam e sua garganta estava seca. Ele precisava tomar alguma coisa.

Me dá uma cerveja – ele resmungou, enfiando a mão no bolso e retirando de lá algumas notas amassadas.

Você tem algum documento? – perguntou o atendente. Carmine só olhou para o sujeito, sem dizer uma palavra. Ele não sabia se foi sua postura do tipo “vou cortar suas bolas se não me servir uma bebida agora” ou o fato de sua camisa estar suja de sangue, mas algo fez com que o cara mudasse de ideia.

Não se preocupe. Você parece ter idade suficiente. Ele serviu uma cerveja para Carmine, colocando a garrafa no balcão à frente dele e, sem dizer nada, pegou o dinheiro. Carmine pegou o caneco e tomou um gole, fazendo uma careta ao sentir o gosto amargo. Ele estava prestes a tomar o segundo gole, mais longo, quando alguém o agarrou por trás. Ele voou de cima do banquinho e caiu no chão, sentindo um forte impacto e também a bebida derramada sobre o corpo.

Mas que merda é essa? – reclamou Carmine enquanto a pessoa que o agredira o pegou firme pelo braço e o arrastou em direção à porta do estabelecimento. Foi só então que ele finalmente ficou de pé e viu que se tratava do tio. – Corrado?


Você sai da cama de um hospital evai direto para um bar? – disse Corrado, com o sangue fervendo. Ele o empurrou pela calçada e o colocou de costas para sua Mercedes, estacionada no local. Em vão, Carmine tentou livrar o braço, mas Corrado era forte demais para ele, e o forçou a se sentar no banco do passageiro. Em seguida, também entrou no carro e saiu cantando pneus. – Você quase morreu ontem à noite.

Bom, tudo bem, mas não morri. E como foi que você me encontrou afinal? Tem um chip GPS implantado em mim?

Não, claro que não – respondeu Corrado. – Mas, se quer saber, não acho que essa seja uma ideia ruim. É isso o que quer que eu faça? Que injete um chip em você, como seu pai fez com sua namorada?

– – –

Ex-namorada – Carmine resmungou. Ela não é mais a minha namorada.

Que sorte a dela – retrucou Corrado.– Isso significa que ela está evitando levar uma bala na cabeça… Diferente de você. Carmine tentou se manter firme e não demonstrar a dor que sentiu no momento em que o tio esticou a mão e beliscou seu rosto com força, no lugar do ferimento. Aquilo doía tanto quanto suas palavras duras. Corrado passou de carro em frente ao Luna Rossa e olhou para o clube pela janela.

Sou o proprietário desse lugar há décadas e, até a noite de ontem, nunca houve um único incidente ali. Assassinos e ladrões entram e saem por aquela porta todos os dias, mas foi preciso que um covarde como você acabasse com a tranquilidade do lugar.


Capítulo 25

Venha para casa comigo. Haven tirou os olhos do livro que estava lendo e ergueu a cabeça no momento em que Kelsey invadiu seu apartamento com cerca de uma dúzia de malas de diferentes tamanhos nas mãos. Cansada e com a respiração ofegante, os olhos da moça estavam tão arregalados que ela parecia uma maluca.

– –

O quê? – perguntou Haven. – Por quê?

Por quê? – retrucou Kelsey, deixando sua bagagem no chão. – Porque é Natal, é por isso. O semestre acabou e você não tem nenhum trabalho para fazer, portanto não há motivo para que não possa ir para casa comigo. Haven fechou o livro e respirou fundo.

– –

Mas é Natal.

Dã! Foi exatamente isso o que eu disse – falou Kelsey, revirando os olhos. – Você não deveria ficar aqui sozinha. Não é certo.

E a sua família? – Haven perguntou.– Não acho que o Natal seja uma ocasião para se levar uma estranha para casa.

Você está de brincadeira? Você não conhece minha família – disse Kelsey, abanando a cabeça e rindo de um jeito seco enquanto murmurava algo para si mesma. Depois de um segundo, ela se voltou para Haven, dessa vez com a expressão severa. – É sério, venha para casa comigo. Por favor, não me faça ir sozinha. Haven deu risada.

– –

Ah, eles não podem ser assim tão ruins.

Como eu já disse, você não os conhece – retrucou Kelsey. – Então, venha conhecê-los, passe a ceia de Natal conosco e discutiremos se eles são ou não assim tão ruins. Hesitando, Haven olhou para o lado.

– –

Eu não arrumei nada para viajar.

Arrume agora. O carro estará aqui em dez minutos. É tempo suficiente para você se preparar. E eu falo sério… – Kelsey olhou para Haven e enrugou o nariz. – Você leva menos que dez minutos para se arrumar toda manhã.


– –

Está bem! – Haven deixou o livro sobre o sofá antes de se levantar. – Eu vou.

Fantástico – berrou Kelsey, enquanto Haven caminhava até o quarto. – E troque de roupas enquanto está aí! Você não vai usar moletons quando estiver ao meu lado. Revirando os olhos, Haven bateu com força a porta do quarto depois de entrar. Dez minutos depois ela surgiu com uma mochila cheia de roupas e objetos pessoais, usando jeans e uma blusa rosa de mangas longas que combinava com os tênis Nike. Ela puxara os cabelos para trás, formando um rabo-de-cavalo. Pegou o casaco, parando diante da amiga para ser inspecionada.

– –

Está bom assim?

Muito bom – Kelsey se voltou para a janela quando uma buzina tocou na frente do prédio. – No tempo certo! O carro já chegou. Haven trancou o apartamento antes de seguir a amiga até a rua, mas seus passos vacilaram no momento em que pisou do lado de fora. Estacionada ao lado da calçada havia uma limusine; o motorista rapidamente pegou as malas de Kelsey e as colocou no porta-malas. Kelsey agradeceu com um sorriso amarelo antes de se virar para Haven.

O que você está esperando? O que ela estava esperando? A garota piscou algumas vezes, apertando os olhos com força da última vez, esperando que aquele carro enorme desaparecesse de sua frente ao reabri-los, mas ele ainda estava no mesmo lugar. Kelsey e o motorista a encararam de um jeito estranho.

Eu, ah… nada – Haven acenou negativamente a cabeça e caminhou até a limusine. Ela tentou colocar sua própria mala no porta-malas, mas o motorista a impediu, pegando-a de suas mãos. – Ah, obrigada.

De nada, senhorita – ele respondeu, caminhando até a porta de trás e abrindo-a para que ambas pudessem entrar no carro. Em seguida, deu a volta e se sentou ao volante. O cheiro de couro fresco era forte no veículo. Os bancos e o piso estavam imaculados; não havia um único sinal de sujeira.

– – –

Primeira vez numa limusine? – perguntou Kelsey, sentando-se de modo casual no banco. Isso parece tão óbvio?

Talvez – ela respondeu. – Meu pai envia uma para mim o tempo todo. “Nada além do melhor para o meu bebê” é o que ele diz. Haven sorriu.

Ele parece ser legal. A gargalhada de Kelsey reverberou pelo espaço confinado.


Legal? Tá, apenas espere pra conhecê-lo… As palavras da amiga só aumentaram a ansiedade de Haven.

– –

Você disse que ele é político, certo?

Certo. O bom e velho senador do grandioso estado de Nova York. Não que ele de fato faça alguma coisa, na verdade.

– –

E o que faz a sua mãe?

Bebe vinho e fica o dia inteiro repetindo as mesmas coisas – respondeu Kelsey. – Portanto, basicamente ela faz o mesmo que o meu pai: nada. Mesmo que a residência ficasse a apenas alguns quilômetros de distância, o tráfego pesado fez com que o trajeto até a casa levasse quase quarenta e cinco minutos. Era uma mansão de três andares localizada em Upper East Side. Haven ficou boquiaberta quando o carro estacionou diante da propriedade, admirando o gramado perfeito e as belas fontes decoradas.

Você morava aqui? – ela perguntou, descrente. – E por que você foi morar num apartamento minúsculo? Kelsey soltou um suspiro.

Meu pai se ofereceu para me arrumar um lugar mais próximo, mas eu queria morar em Chelsea. Esperamos tanto que foi difícil encontrar um lugar próximo à faculdade, mas no final ele fez algumas ligações e conseguiu alugar o apartamento em cima do seu. Haven meneou a cabeça, estupefata demais para compreender tudo aquilo. A limusine parou e o motorista logo abriu a porta para as duas. Ele também retirou as bagagens do porta-malas. Na mesma hora, a porta da frente se abriu e dois homens surgiram. Sem dizer uma palavra, eles pegaram as malas das mãos do motorista e as levaram para dentro. Um terceiro homem apareceu na sequência, caminhando de modo casual para fora da casa. Ele usava um casaco e uma gravata. Seus cabelos negros estavam perfeitos, com apenas alguns fios grisalhos brilhando sob o sol. Ele parou, olhando para as duas de maneira intensa.

– – –

Kelsey. Papai.

É bom revê-la. A garota resmungou de maneira inaudível, mas petulante, antes de limpar a garganta e responder:

– –

Digo o mesmo. Vejo que trouxe uma amiga.


De repente, o rosto de Haven ficou quente quando a atenção do homem se voltou para ela.

Sim, essa é minha vizinha, Hayden Antoinette – disse Kelsey. – Eu a convidei para passar o Natal conosco.

Ah, isso foi muito educado de sua parte – ele respondeu. – E nada característico do seu comportamento normal, diga-se de passagem. Kelsey estreitou os olhos.

Sei ser gentil. O homem ignorou sua afirmação ao se aproximar e esticar a mão para cumprimentar Haven.

– –

Hayden Antoinette, correto? Alguma relação com a Maria?

Maria Antonieta? – As sobrancelhas de Haven se ergueram enquanto ela cumprimentava o homem. Algo em seu toque, em sua presença imponente, fez com que ela ficasse ainda mais nervosa. – Bem, ah… Ela foi uma rainha francesa, certo? Eu sou apenas, ah… Bem, não faço parte da realeza. Ele deu uma gargalhada enquanto ela gaguejava e ficava ainda mais corada.

Eu estava apenas brincando, querida. É bom conhecê-la.

– – –

Digo o mesmo, senhor. Cain – ele respondeu, soltando sua mão. – Pode me chamar de Cain.

Pode me chamar de Cain – Kelsey imitou a voz do pai engrossando a voz. – Já terminou com a puxação de saco, senador? Será que podemos entrar? Cain fez um movimento com a mão na direção da entrada.

Mas é claro, querida, podem entrar. Kelsey agarrou a mão de Haven e a puxou para dentro da casa. Cain as observou cuidadosamente, como se estivesse estudando todos os movimentos das duas. Seu olhar deixou Haven um pouco desconfortável. Ela seguiu Kelsey e, com discrição, olhou para a casa conforme ambas se dirigiam para a escada. Kelsey a levou até o quarto de hóspedes, no qual a mala de Haven havia sido colocada ao lado da cama.

Meu quarto fica no final do corredor– ela disse. – A porta no final. Kelsey a deixou ali sozinha e Haven se sentou na ampla cama com um dossel. O quarto de hóspedes era do tamanho do seu apartamento na cidade e era decorado em vários tons de vermelho e dourado. O carpete era branco e parecia tão impecável que ela tinha medo de se mover.


Haven abriu a mala, buscando dentro dela o familiar diário de couro. Tirando os sapatos, se deitou na cama e olhou através do tecido dourado e transparente sobre ela, franzindo o canto dos lábios. Independentemente do quanto lutasse e tentasse manter um sorriso no rosto, a tristeza sempre prevalecia. Era véspera de Natal. O dia seguinte seria festivo. Já o próximo… Bem, ela não gostava de imaginar o que o dia 26 representava. Abrindo o livro, ela retirou o pedaço de papel que havia colocado ali e o desdobrou, olhando para a carta que fora escrita de maneira apressada no meio da noite após o Natal do ano anterior. Ela a havia lido tantas vezes que já memorizara cada palavra. Terminou de ler e seu dedo deslizou sobre três palavras simples: “Eu te amo”. – Eu também te amo – ela sussurrou. Um ano inteiro havia se passado, mas ela ainda o amava.

As

sobrancelhas de Carmine se enrugaram no momento em que Corrado passou a rua que daria acesso à casa dele. O jovem pigarreou. – Ah, acho que você passou direto pela rua. Os olhos de Corrado se mantiveram no caminho e ele não se deu ao trabalho de responder, apenas ligou o rádio, pressionando o botão para aumentar o volume. A voz de Frank Sinatra vibrava nos altofalantes; a música deixava a pele de Carmine arrepiada. Seu coração batia forte dentro do peito e ecoava em seus ouvidos. Frank Sinatra costumava desencadear certa reação em Carmine. Entrando em pânico, a paranoia do jovem chegou ao limite no momento em que Corrado seguiu na direção de algumas estradas vazias, entrando numa região da cidade à qual Carmine não retornava havia mais de uma década. Ele sabia que havia feito merda e que haveria consequências, mas nunca imaginara que seria daquele modo. Ele jamais considerara a possibilidade de que seu tio realmente se enchesse dele. Nunca pensara que Corrado pudesse de fato colocar um ponto final em sua vida. Até aquele instante, Carmine sempre acreditara que fosse invencível. Depois de dirigir por mais alguns minutos, Corrado diminuiu a velocidade e estacionou. Em seguida ele se esticou e abriu a porta do lado do passageiro.

Saia. Os olhos de Carmine buscaram algum sinal de vida no local. Corrado não o mataria se houvesse testemunhas.

– –

O quê?

Eu mandei sair! Carmine obedeceu ao ouvir o tom do tio. Ele saiu do carro e bateu a porta. Sua mente não parava de pensar no que fazer. O jovem considerou a possibilidade de correr, imaginando se conseguiria fugir e se esconder nas vielas no meio da noite, mas ele não teve de fazer nada. Corrado saiu cantando os pneus


e deixando para trás apenas uma nuvem de fumaça enquanto acelerava e desaparecia, deixando o sobrinho sozinho no meio do nada. Carmine observou as luzes traseiras sumirem no meio da noite. De certo modo ele se sentia mais aliviado, mas, ao mesmo tempo, atônito.

Mas que porra é essa? Virando-se de costas, Carmine buscou instintivamente por sua arma no cinto, porém, sem se surpreender, não a encontrou. Na verdade, ele não trazia nada consigo, nem documento, nem carteira, nem um centavo no bolso. Ficou petrificado ao perceber a situação. No entanto, seu pânico começou a se dissipar ao perceber alguém com uma batina a alguns passos de distância. A primeira coisa que ele notou foi o colarinho de padre, depois, as mangas de tecido branco que brilhavam na escuridão. Confuso, Carmine olhou para trás do homem e viu a grande construção marrom, absorvendo a porta da frente ornamentada e a escadaria que levava até ela. Corrado o havia deixado na frente de uma velha igreja.

Desculpe, senhor – ele sussurrou. –Quero dizer… Sua Santidade?

O padre sorriu.

– –

Pode me chamar de padre Alberto. Oque o está consumindo esta noite, meu rapaz?

Nada. Digo, não há nenhum problema. Eu só… – Carmine não fazia ideia do que dizer. Só, tipo, meio que fodi com a minha vida e pensei que meu tio fosse acabar com a minha vida pelas merdas que eu fiz…? – Eu só preciso de um telefone. Saberia me dizer onde eu poderia encontrar um? Quero dizer, sei que o senhor não teria, mas talvez saiba de alguém que pudesse me emprestar. Padre Alberto ergueu as sobrancelhas.

– –

E por que eu não teria um telefone?

Não sei. Talvez pelo fato de o senhor ser um padre mais velho, digo, da velha escola. O padre começou a rir. – Sou católico, filho, não Amish. Não tenho nenhuma aversão à tecnologia. Venha comigo. Poderá usar meu telefone. Fazendo um movimento para que ele o seguisse, padre Alberto seguiu para dentro. Carmine hesitou um pouco antes de entrar na igreja e olhou para todos os lados com cautela. O lugar estava escuro e tinha um brilho dourado que, de um jeito estranho, parecia convidativo e caloroso. Carmine se sentiu mais leve e tranquilo. Pelo menos, ele pensou, seu tio não o mataria numa igreja. Seguiu o padre até um pequeno escritório nos fundos. Lá havia uma mesa que ocupava a maior parte do espaço. Um velho telefone branco estava no canto, com o fio enrolado. Pegando o fone, Carmine ligou para o número de Celia enquanto o padre se sentou atrás de sua mesa. O jovem se encostou no móvel, esperando enquanto o telefone tocava. A secretária eletrônica atendeu depois do quinto toque e o celular foi direto para a caixa postal. Ele tentou ambos os números duas vezes antes de desistir.


– – –

Não atendem? – perguntou o padre. Não.

Então sente-se – disse o padre Alberto, apontando para a cadeira à frente da mesa. – Podemos conversar um pouco enquanto você espera e tenta novamente mais tarde. O jovem ficou em dúvida por um instante e então se sentou. Não que ele tivesse outra opção além daquela. Sem dinheiro nem amigos, ou ele esperava ali ou começava a andar, e ele estava exausto demais para a segunda alternativa.

– –

Obrigado – disse Carmine. – Pelo telefone e pela cadeira.

Não tem de quê. É o que nós, padres da velha escola, costumamos fazer, afinal. Sua voz era gentil e alegre, e Carmine deu risada.

– –

Desculpe o que eu disse. Eu não sabia. Nunca fui muito ligado às coisas de igreja.

E por que não? Carmine deu de ombros.

Sei lá, acho que não faz meu gênero. Padre Alberto o encarou de um jeito peculiar.

Acredita em Deus? Carmine temia aquela pergunta e por um momento pensou em mentir para agradar o padre, mas achou melhor ser honesto, uma vez que estava numa igreja. Ele escapara da morte duas vezes naquela semana. Algo lhe dizia que não teria a mesma sorte da terceira vez.

Honestamente, não tenho certeza. Talvez? Mas eu tenho visto muita mer… digo, muitas coisas ruins na minha vida, e isso me faz duvidar de que alguma porra lá em cima dê a mínima, digo, se importe, com quem está aqui embaixo. – Os olhos do garoto se arregalaram ao perceber que, mesmo se esforçando, não evitara uma linguagem vulgar. – Merda. Ah, me desculpe, padre. Está sendo uma noite muito ruim. Carmine esperava ser chutado para fora dali, mas padre Alberto apenas sorriu.

Você não é o primeiro a dizer tais palavras entre essas paredes e certamente não será o último. Preocupo-me mais com sua negatividade do que com as palavras profanas.

Bem, acho que é mais fácil o senhor conseguir me fazer parar de xingar do que mudar o meu modo de enxergar as coisas. É difícil acreditar que exista alguém lá em cima olhando por nós quando tanta gente se fode todos os dias.


Ah, esse é um argumento que ouço com frequência – disse padre Alberto. – Como pode existir um Deus quando tantos parecem ter sido abandonados? Mas o que você não percebe, filho, é que sem as coisas ruins não podemos verdadeiramente apreciar o que há de bom. O sofrimento ensina a nos tornarmos pessoas melhores. O que fazemos nos tempos ruins nos permite avaliar quão bons como pessoas nós somos. Carmine deixou escapar um riso amargo, recostando-se na cadeira enquanto pensava em como havia se adaptado àquela vida.

– – – –

Então acho que não devo ser um cara muito legal. Ah… Eu não acredito nisso. Isso é porque o senhor não me conhece. Não sabe as coisas que já fiz.

Então me diga – desafiou o padre. –Mude sua mente. Carmine respondeu, em tom de zombaria:

– – – –

Não posso. E por que não? – o padre perguntou –Sente vergonha? Não – Carmine hesitou. – Bem, na verdade sim, mas não é este o ponto.

Sim, este é justamente o ponto – retrucou o padre. – Este é um lugar seguro. O que quer que diga entre essas quatro paredes permanecerá aqui. Portanto, a única coisa que o impede de confessar seus pecados é sua relutância em admiti-los.

– –

Porque eu tô ferrado. Quem iria querer admitir isso?

Alguém sem ética – respondeu o padre –, o que nos leva de volta ao fato de eu considerá-lo um bom homem. Pessoas más não têm consciência, filho. Carmine pensou sobre aquelas palavras. O velho padre havia de algum modo invertido as coisas.

Se não quiser discutir seu passado, por que não falamos sobre o seu futuro? – sugeriu o padre. – Talvez possamos compreender por que Deus o trouxe até aqui esta noite.

– –

Deus não me trouxe aqui – respondeu Carmine. Não?


Não. Foi o diabo em pessoa quem me largou aqui na frente. De modo surpreendente, o padre sorriu diante daquelas palavras.

– –

E existiria alguma razão para que ele o fizesse?

Sei tanto quanto o senhor, mas estou começando a achar que ele tem senso de humor. O tempo passou enquanto os dois conversavam no escritório apertado. Ambos discutiram a respeito de religião e da vida. Nenhum dos dois se deixou abalar. De um lado, Carmine se recusava a abandonar sua linha de pensamento, mas começou a se sentir melhor à medida que o padre falava. Algo na voz daquele homem, a compaixão em suas palavras, deixou Carmine mais calmo. Por fim, ele começou a fazer pequenas concessões e a se abrir um pouco enquanto abordava superficialmente sua realidade e compartilhava pequenas coisas. O sol já havia começado a nascer quando Carmine voltou a ligar para os mesmos números, sem obter sucesso. Desligou e franziu o cenho, percebendo que ninguém viria para ajudá-lo.

– –

Ninguém atende ainda? – perguntou o padre.

Não – ele respondeu. – Acho melhor eu ir embora. Tenho um longo caminho pela frente.

Pretende caminhar? – perguntou o padre, fazendo um movimento negativo com a cabeça. – Isso é bobagem. Eu lhe darei uma carona. Carmine piscou algumas vezes, surpreso.

– –

O senhor tem um carro?

Mas é claro – disse o padre. – Um telefone, um carro e, inclusive, um micro-ondas, caso precise de um. O que é meu é seu. Carmine encarou o padre sem acreditar.

– – – –

Por que não me disse antes? Você não perguntou. Carmine ficou de pé, esticou seus membros cansados e passou as mãos no rosto. Perdemos a noite toda aqui, quando você poderia ter me levado para casa há várias horas.

Ah, mas eu não diria que perdemos anoite toda – retrucou padre Alberto. – Gostei muito de conversar com você. Foi bastante esclarecedor. Carmine seguiu o padre até o lado de fora da igreja, onde estava estacionado um velho Cadillac Deville. Ele sorriu ao vê-lo, observando a cor azul-claro e o interior bege.


– –

É seu? – Carmine perguntou.

Bem, tecnicamente ele pertence à igreja de Saint Mary, mas, sim – respondeu. – Um antigo paroquiano o doou para nós há anos. Acho que faz uns treze anos.

Caramba – disse Carmine, surpreso que o veículo ainda se movesse e deu um sorriso suspeito quando o padre o olhou de um jeito peculiar. – É só que, puxa vida. Meu avô tinha um igualzinho. Ele costumava me pegar na escola às vezes quando eu ainda era criança e me levar para passear. É a única lembrança que tenho dele.

– –

É mesmo?

É, ele morreu quando eu ainda era pequeno, talvez… – Carmine fez uma pausa ao fazer os cálculos mentalmente – há uns treze anos. O padre sorriu para ele antes de entrar no carro e ligar o motor. Ele não ligou de primeira, mas logo o ronco pôde ser ouvido e o carro começou a tremer ao ganhar vida. Soltando um suspiro, Carmine entrou no banco do passageiro e disse qual era seu endereço, olhando para fora da janela enquanto ambos cruzavam a cidade. Padre Alberto estacionou o carro na garagem assim que chegaram. Carmine se virou para agradecer ao padre, e foi então que reparou na expressão de admiração em seu rosto. Antes que o rapaz pudesse dizer qualquer coisa, o padre começou a gargalhar. Ele riu tanto que lágrimas surgiram em seus olhos. Carmine o encarou, confuso.

– – –

O que é tão engraçado? A porta agora é azul.

Sim, e daí? O padre meneou a cabeça. – Pensei que Vincenzo estivesse brincando. A expressão no rosto de Carmine ficou séria ao ouvir o nome do pai. Em choque, ele ficou apenas olhando o padre.

Ele realmente fez um péssimo trabalho pintando essa porta – continuou o padre Alberto –, mas eu o parabenizo por tê-lo feito mesmo assim.

– –

O senhor conhece meu pai?

Claro que conheço – disse o padre. –Não foi uma coincidência que tenha terminado sua noite diante da minha igreja, filho. Carmine assentiu. O que foi isso, uma intervenção divina ou algo assim?


Feliz Natal – sorriu o padre, dizendo adeus e completando –, e, só para deixar registrado, sempre suspeitei de que Corrado tivesse senso de humor.


Capítulo 26 O Natal em Upper East Side se revelou um evento mais formal do que Haven previra. Nenhum presente foi trocado pela manhã, nenhuma história foi compartilhada durante a tarde. Precisamente às 15h, todos se reuniram na ampla sala de jantar. Eram quatro pessoas sentadas a uma mesa que tinha comida suficiente para uma dúzia de convidados. Os empregados serviram a comida, em silêncio e com rapidez, oferecendo um prato a cada um antes de desaparecerem. Enquanto os outros começavam a comer, Haven olhou para seu prato e seu estômago parecia dar nós. Aquelas pessoas, os empregados… Será que eles não tinham família? Por que estariam trabalhando em pleno Natal? Os piores pensamentos se infiltraram em sua mente. Não era possível que eles fossem… Será…? Um senador, um homem da lei, também manteria escravos em sua casa? Será? A possível resposta para aquela pergunta deixava Haven aterrorizada.

Então, Hayden… Haven ergueu a cabeça e olhou para a mãe de Kelsey, Anita, que estava à extremidade da mesa. Ela usava os cabelos escuros presos num coque no topo da cabeça e um longo colar de pérolas decorava seu pescoço. Ela pegou o copo de vinho branco, que já havia sido preenchido duas vezes desde que se sentara, e tomou mais um gole.

– –

Sim, senhora?

Conte-me a respeito de sua família. Haven olhou para ela.

– – –

Minha família? Sim, sua família. Gostaria de saber por que não está com eles na noite de Natal.

Mãe… – Kelsey disse com os dentes cerrados. No mesmo instante, o pai murmurou:

– –

Anita, por favor.

Relaxem, só estou curiosa – ela retrucou, acenando com a mão enquanto olhava para Haven. – Então, sua família?

Bem, ah… Na verdade, eu não tenho uma – ela respondeu. – Meus pais já faleceram.


Uma órfã? – disse Anita em voz alta, inclinando-se em direção à mesa. – Mas que trágico! E como foi que eles morreram?

Acidente de automóvel – ela respondeu rapidamente, engolindo a verdade cruel de que o único parente que tivera havia tirado a própria vida para libertá-la das correntes que a prendiam… Correntes que lhe foram impostas pelo homem que supostamente seria seu próprio pai.

Mas que triste – disse Anita. – E quanto aos demais familiares? Irmãos, primos, tios, tias? Você tem alguém?

– –

Já chega, Anita! – exclamou Cain com a voz firme. – Pare com isso.

Ah, pelo amor de Deus – disse Anitaantes de tomar mais um gole. – Você não pode me dizer que não está curioso para saber por que uma garota tão jovem não tem um lugar para ir no Natal.

Ela tem um lugar para ir – Cain contra-atacou. – Ela está aqui, não está? Anita debochou:

Por favor, Cain. Ninguém realmente deseja estar aqui. Nem mesmo nossa própria filha gosta de estar nesta casa.

É justamente pelo fato de você aplicar um interrogatório a todos que entram aqui – ele disse. – Nem eu gosto de estar aqui na maior parte do tempo por conta de suas perguntas intermináveis.

Ah, não me venha com essa! Não é por isso que você não vem para casa! Talvez possa mentir para todo mundo e fazê-los acreditar nas mentiras que saem de sua boca, mas eu não.

Mentiras? – Cain bateu com a mão na mesa. – Você quer falar sobre mentiras, muito bem, falemos sobre mentiras. E os dois continuaram a discutir e a ofender um ao outro, utilizando de palavras duras. Kelsey continuou a comer normalmente, como se nada estivesse acontecendo, enquanto Haven piscava e se encolhia diante de toda aquela hostilidade. A discussão parecia não ter fim, até que ambos ficaram sem ter o que dizer. O silêncio tomou conta da sala de jantar. Haven comeu algumas garfadas do que estava em seu prato, forçando a comida goela abaixo, feliz por tudo aquilo ter acabado. Até que Anita voltou a falar.

– –

Então, Kelsey, querida, como foi o seu fracasso na escola dessa vez?

Eu não fracassei na escola – respondeu Kelsey. – A maioria das minhas notas ficou entre A e B, com exceção de um único D.


– – –

E em que matéria você conseguiu tirar um D? Pintura.

Mas como você conseguiu tal façanha? – disse Anita, acenando negativamente em desaprovação. – Até mesmo um macaco é capaz de passar nessa matéria. Qualquer idiota consegue passar tinta numa tela. Aquelas palavras abriram uma fissura no peito de Haven. Ela não conseguiu se controlar e soltou um suspiro involuntário, sentindo-se ofendida por aquele insulto. Os olhos de Cain se desviaram da garota e se fixaram na esposa.

– –

Mas que diabos está fazendo, Anita?

Ah, você é pintora? – ela perguntou.– Tenho certeza de que seu trabalho é adorável, querida. O de minha filha, em contrapartida… A discussão recomeçou. Haven soltou um suspiro aliviado quando o jantar terminou. Kelsey pediu licença e foi ao banheiro. Anita pegou sua garrafa de vinho e saiu da sala, deixando Haven sozinha na companhia de Cain. Os empregados apareceram para limpar a mesa. Haven os encarou curiosa, esquecendo-se de que o pai de Kelsey ainda estava na sala, até que ele abriu a boca.

Eles trabalham para minha família já há muito tempo. Haven olhou para ele, curiosa.

– –

O que disse?

Os empregados. Eles já estão conosco há vários anos, desde que Kelsey era bebê. Estar aqui no Natal só depende deles, porém, uma vez que recebem o dobro nos feriados, em geral preferem trabalhar parte de seu turno.

– –

Entendo – Haven sentiu certa suspeita em relação àquela resposta. – Como o senhor…?

Como eu soube que você estava imaginando isso? – ele perguntou, interrompendo-a no ato. – Não nasci um homem rico. Minha mãe fazia bico como dançarina de boate. Meu pai era um vigarista. Portanto, não é necessário dizer que conheço bem esse olhar em seu rosto. – E que tipo de olhar é esse?

O olhar de quem não entende como avida pode ser tão difícil – respondeu Cain, levantando-se e acenando a cabeça. – Foi muito bom conhecê-la, minha jovem. Será sempre bem-vinda em nossa casa. Ele saiu e deixou Haven sozinha na gigante sala de jantar. Kelsey retornou em seguida, ficando de pé à porta.


– –

E aí, o que achou?

O que eu achei? – disse Haven, colocando-se de pé. – Que talvez você não tenha exagerado, no final das contas. Kelsey deu risada.

Eu te disse. É terrível. Terrível? Talvez a palavra “terrível” não fosse a mais adequada, mas eles certamente a fizeram se lembrar de pessoas que ela tentara evitar desde que era uma criança.

A Igreja Católica de Saint Mary era como uma cidade fantasma no sábado à tarde. As fileiras que levavam ao altar ficavam vazias. As bíblias fechadas e guardadas em seus escaninhos, esperando pela missa do dia seguinte, quando as palavras ali contidas se tornariam mais uma vez o foco de dezenas de pessoas. Indivíduos que, de modo ao mesmo tempo casual e rígido, desconsideravam todos os mandamentos que juraram obedecer pela manhã assim que a lua brilhava no céu escuro. Vincent entrou na igreja escondido pela escuridão, disfarçado sob um casaco enorme e com capuz, coberto por flocos de neve. Removeu o capuz depois que já estava seguro dentro do prédio, expondo seus cabelos escuros e despenteados. Ele já não ia a um barbeiro há semanas, tampouco havia se barbeado. Os pelos recobriam seu rosto e ele vestia uma calça jeans folgada na cintura. Parecia o oposto do médico asseado e organizado que fora no passado. Ele caminhou pelo corredor até a frente da igreja, parando próximo ao gigantesco órgão à esquerda do púlpito. Não demorou muito até que ouvisse passos atrás dele. Eles eram sutis, quase imperceptíveis a ouvidos não treinados para escutar os perigos que se escondiam em todos os lugares. Ele não via padre Alberto há algum tempo. Pelo menos desde quando se confessara, contando-lhe seus segredos mais profundos e obscuros. Mas precisava falar com ele naquele momento. Necessitava de suas orientações. Precisava saber que, às vezes, era normal fazer coisas imorais para impedir que outros sofressem. Os fins não justificam os meios, ele sabia disso, mas não conseguia evitar imaginar que, talvez, só talvez, um erro inconcebível poderia ser perdoado se ajudasse a colocar tudo de volta nos seus devidos lugares. Vincent abaixou a cabeça, fechou os olhos cansados e fez o sinal da cruz. – Perdoe-me, Pai, pois eu pequei.

E qual é a novidade? Os olhos de Vincent se arregalaram ao ouvir a voz atrás dele, baixa, mas ainda assim firme e inconfundível; completamente desapegada e assustadoramente familiar. Cauteloso, o coração de Vincent batia acelerado quando ele se virou e ficou frente a frente com a última pessoa que esperava encontrar ali: Corrado.


Quase não o reconheci – disse Corrado, colocando-se ao lado do primeiro banco a apenas alguns passos de distância. – Você não está surrupiando as roupas do seu filho, está? Sua aparência não é nada boa. Vincent olhou para o cunhado de modo suspeito. Corrado parecia relaxado, com as mãos nos bolsos da calça de seu terno, enquanto encarava DeMarco e esperava uma resposta.

Como sabia que eu estaria aqui? – perguntou Vincent. Corrado acenou com a cabeça.

Sorte, eu acho. Você é um homem bastante previsível, para ser honesto. Tão previsível quanto seu filho.

– –

O que faz aqui?

Eu poderia lhe perguntar o mesmo, Vincent? – retrucou Corrado. – A ideia de as igrejas serem santuários sagrados já foi abandonada há séculos. Elas já não são capazes de garantir proteção a ninguém. Bem, talvez proteção divina, mas não em relação aos homens. E nada poderá protegê-lo da ira deles. Nem a polícia, muito menos um padre.

Não vim em busca de proteção – respondeu Vincent. – Estou aqui em busca de um

conselho.

Então talvez eu possa ajudá-lo. Por favor, continue. Perdoe-me, Pai, pois eu pequei. Já faz algum… – Corrado ergueu as sobrancelhas em expectativa ao continuar. Vincent olhou para os lados. Corrado bloqueava a principal saída da igreja. Não havia como ele sair dali, nenhum jeito de fugir, a menos que Corrado o deixasse passar.

– –

Já se passaram seis meses desde minha última confissão.

Seis meses – repetiu Corrado. – Acredito que tenha alguns arrependimentos a confessar, então. Vincent zombou:

Provavelmente não tantos quanto você. Corrado soltou uma gargalhada e tiro a mão do bolso. Os pelos na nuca de Vincent se arrepiaram quando viu as luvas negras. Era uma visão à qual ele estava acostumado e que significava que ele viera a trabalho. Ele era como um anjo da morte, um espírito maligno que ceifava a vida das pessoas antes de desaparecer sem ser visto ou deixar qualquer evidência. As vítimas de Corrado raramente tinham a chance de ver quem ou o quê os atingira. A maioria sequer sentia sua presença, uma vez que ele fazia o que tinha de fazer à noite, no escuro, com um único tiro na nuca, matando sua vítima de maneira instantânea. Tudo era muito simples, limpo, meticuloso e


indolor. Ele entrava e saía em questão de minutos e logo já estava pronto para seguir adiante. Corrado não gostava da ideia de torturar pessoas… A menos que o indivíduo o enfurecesse. Entretanto, quando isso acontecia e Corrado levava as coisas para o lado pessoal, uma característica diferente emergia. Um monstro horripilante saía de dentro dele, rasgando sua carapaça tranquila. Nesse caso, ninguém estaria a salvo de sua ira se ela aflorasse. Ele nunca cometia um erro, jamais agia de maneira não calculada, mas aquele homem geralmente frio e tranquilo deixava de demonstrar qualquer compaixão. Ele era capaz de cortar um sujeito em pedaços, lenta e metodicamente, até que tudo o que restasse dele já não pudesse ser reconhecido.

Foi Sal quem o enviou? – perguntou Vincent, tentando manter a voz calma. Corrado negou.

Não. Vim por conta própria. Não se trata de negócios. É pessoal. Corrado deu um passo à frente, ajeitando as luvas para se certificar de que estivessem no lugar. Vincent deu um passo atrás. Corrado voltou a se aproximar e Vincent se afastou mais uma vez. E isso se repetiu algumas vezes, como se ambos estivessem numa dança mortal.

Não quero acreditar nisso – disse Corrado –, mas vendo-o aqui, olhando para você desse jeito, não posso evitar imaginar se tudo é mesmo verdade.

Não é o que parece – disse Vincent. Corrado balançou a cabeça.

Nunca é, não é mesmo? Mas isso é irrelevante, e você sabe disso. Você cruzou uma linha e não importa por que tenha feito ou o que planejava fazer do outro lado. O fato de que esteve lá é imperdoável. Lupo non mangia lupo. Quantas vezes ouvimos seu pai dizer essas palavras quando estava vivo? Quantas vezes? Lobos não comem lobos. Não nos voltamos uns contra os outros.

Você está certo – disse Vincent. – Senão pode confiar nos da sua espécie, em quem irá

acreditar?

Em ninguém, de acordo com o seu filho – disse Corrado. – Non fidarsi di nesssuno. Você alguma vez parou para pensar em como isso irá afetá-lo? Como isso já o está afetando? Pensar em Carmine fez com que o peito de Vincent doesse profundamente.

– –

Ele está bem?

É claro que ele não está bem. Ele jamais ficará bem novamente! É tarefa dele matar você! Acovardando-se diante da hostilidade do cunhado, Vincent deu alguns passos para trás.

Você não pode deixar que ele o faça.


Não tenho a intenção de deixar – Corrado continuou acuando Vincent, sem perder um movimento. Foi então que uma voz ecoou na igreja, fazendo com que os dois parassem. Padre Alberto saiu de seu escritório, olhando para ambos com cara feia. Corrado se afastou, colocando alguma distância entre ele e Vincent à medida que o padre se aproximava rapidamente.

Senhores, não sou um homem que faz julgamentos, e nunca os condenei por suas escolhas na vida, mas para tudo há um limite! Não posso permitir que tragam isso para dentro da casa do Senhor. Este é um lugar de preces, de amor e de aceitação. Estamos sempre abertos, mas apenas para os que deixam seus pecados à porta.

O senhor está certo – disse Corrado, recolocando as mãos nos bolsos. – Esse não é o momento nem o lugar para isso.

E sobre o que exatamente vocês estão discutindo? – perguntou o padre. – Vocês são

família!

– –

Foi apenas um mal-entendido – disse Vincent. – É só isso.

Certo, um mal-entendido – concordou Corrado, limpando a garganta. – Se me dão licença, tenho de ir embora. Tenho assuntos a resolver esta noite, mais tarde. Padre Alberto ergueu as sobrancelhas.

– –

Espero que não tão tarde assim. Espero vê-lo aqui amanhã sentado num destes bancos.

Não perderia sua missa por nada, padre – disse Corrado, desviando o olhar do padre e encarando Vincent. – Tudo estará terminado antes de o sol nascer. Ele se virou e caminhou de modo casual em direção à saída, como se não tivesse nada com o que se importar no mundo. Vincent e padre Alberto ficaram observando em silêncio até que Corrado desaparecesse do lado de fora. Vincent soltou um suspiro, passando as mãos pelo rosto, exasperado. Isso não é bom. Isso não é nada bom.

– – – –

Diga-me, Vincenzo, no que foi que você se meteu agora? Numa situação para a qual não existe saída – ele disse em voz baixa. Não acredito nisso – retrucou padre Alberto. – Sempre há uma saída.

Vivo? Padre Alberto ficou em silêncio, olhando para a porta por onde Corrado havia saído enquanto pensava na pergunta de Vincent.


Foi exatamente isso o que pensei –completou Vincent quando o padre não respondeu. – Mas acho que há coisas piores do que estar morto.

“Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu darei descanso a vocês” – disse padre Alberto, citando as palavras de Mateus 11:28. – Bem, por mais que isso seja verdade, não gosto de ouvi-lo como um homem derrotado. Você não pode desistir.

Não estou desistindo padre, estou me entregando. Nadei contra a corrente por muito tempo, mas no fim acabei sendo arrastado. E não posso continuar nadando. Não consigo. Estou cansado demais para continuar.

Então você resolve se deixar afogar?– perguntou padre Alberto sem acreditar no que

ouvira.

Não – respondeu Vincent. – Espero por alguém que me atire um salva-vidas e então deslizo pela água.

E se ninguém o fizer? Certas coisas não podem ser perdoadas. Não faça nada do que possa

se arrepender.

Tenho fé de que não será preciso. Padre Alberto negou com a cabeça.

Você parece péssimo, Vincenzo. Venha, tenho uma cama extra nos fundos para que você durma um pouco.

– –

Não devo.

Então pelo menos coma alguma coisa e tome um banho. DeMarco pensou em recusar, mas a ideia de se alimentar e se higienizar um pouco era tentadora demais. Seguindo o padre Alberto até os fundos, ele comeu dois sanduíches e um pacote de batatas fritas enquanto o padre, sentado à sua frente, estudava-o com olhos preocupados.

– –

Há uma razão para ter vindo aqui esta noite?

Conselho – ele disse. – Meu pai costumava usar este ditado: chi tace acconsente. E eu queria saber o que o senhor acha disso. Chi tace acconsente. Quem cala, consente. Antonio DeMarco acreditava que se você quisesse algo, se acreditasse em alguma coisa, era sua responsabilidade lutar por isso. Se permanecesse calado, se mantivesse o silêncio e não dissesse nada, então não poderia culpar ninguém exceto a si mesmo se nada acontecesse.


Eu considerava seu pai um homem sábio – disse padre Alberto. – Podia não concordar com suas escolhas, mas sempre o admirei por suas crenças no que dizia respeito à família e às suas responsabilidades. E é verdade: se você não lutar por alguma coisa, acabará caindo por nada. Vincent franziu as sobrancelhas.

Isso está na Bíblia? Padre Alberto sorriu.

– –

Não, acho que quem o disse foi Alexander Hamilton.

Obrigado, padre. – Vincent se levantou. – Tomarei aquele banho agora, se não se importa. Padre Alberto o levou até o pequeno banheiro. Vincent se despiu e soltou um suspiro ao puxar a correntinha que trazia no pescoço, colocando-a numa prateleira ao lado das toalhas. Com dificuldades por conta do espaço minúsculo, ele conseguiu se enfiar debaixo do chuveiro. Vincent saiu da igreja evitando se despedir do padre Alberto, enquanto fazia a inevitável jornada até a porta de saída. Mesmo com os cabelos molhados, ele cobriu a cabeça com seu capuz. Uma brisa suave atingiu seu rosto quando parou no topo das escadas e olhou para a rua vazia. Um frio percorreu sua espinha, mas nada tinha a ver com a noite gelada.

Corrado – ele disse em voz baixa, sem se importar em olhar para a figura que se escondia nas sombras ao lado dos degraus. Ele sabia que o cunhado estaria ali esperando por ele.

Bem, Vincent, nós poderíamos chamá-lo de um monte de coisas, mas covarde certamente não é uma delas.

Vamos logo! Já estamos atrasados! Corrado estava de pé no banheiro do andar superior, encarando seu reflexo no espelho enquanto a luz da manhã entrava pela janela. Ele já havia tomado banho e se vestido, mas, além disso, pouco fizera para se preparar para aquele dia. A exaustão infiltrava cada célula de seu corpo, e as linhas em seu rosto estavam bastante visíveis. Ele estudou cada uma delas, cada marca e cada cicatriz; analisou os cabelos brancos e os pequenos vasos em seus olhos cansados.

Você está me escutando, Corrado? Vamos nos atrasar!

Celia entrou no banheiro, franzindo a testa. Sem dizer uma palavra, ela caminhou até o marido e ajeitou a gravata por baixo do colarinho.


Vinte e sete anos – ele disse, olhando para ela pelo espelho. – Já estamos casados há quase três décadas e você ainda precisa arrumar a minha gravata, quase todos os dias. Ela sorriu.

– –

É difícil acreditar que já se passou tanto tempo.

É, eu sei – ele disse, desviando do olhar dela e concentrando-se em sua própria imagem. – Minha idade já está visível. Celia riu no momento em que ele se virou e olhou para a esposa.

– –

Você ainda continua tão bonito quanto no dia em que nos conhecemos.

E você está cada dia mais linda. Ele se inclinou e a beijou delicadamente, apreciando o toque dos lábios dela sobre os seus. Ela, entretanto, interrompeu o beijo em poucos segundos e franziu o nariz.

Mas você anda um pouco mais desleixado ultimamente – retrucou, esfregando os pelos duros no queixo do marido.

– –

Não tive vontade de me barbear hoje– ele disse. – Estava sem energia para isso.

Você parece cansado – ela comentou, deslizando as mãos de seu rosto até os cabelos. – Você, afinal, conseguiu dormir um pouco?

– –

Um pouquinho.

Você chegou bem tarde ontem à noite.– É verdade. Ele olhou para ela e percebeu as perguntas que pairavam naqueles calorosos olhos castanhos. Onde você estava? Onde foi que se meteu? O que fez? Com quem você estava? Quem você machucou dessa vez? Aquelas eram as perguntas que a incomodavam e estavam sempre na ponta de sua língua, mas que ela jamais elaborava. Ele se sentia grato por isso. Não queria mentir para Celia, mas não havia como lhe dizer que há apenas algumas horas ele havia rastreado o único irmão dela e o acuado como um animal ferido, na mesma igreja para a qual seguiriam naquela manhã.

Bem, vamos logo – ela disse, desviando o olhar. – Ainda temos de apanhar a mamãe e você sabe o quanto ela detesta chegar atrasada. Se não nos apressarmos, ela irá reclamar durante todo o caminho. Corrado saiu do banheiro, desligou a luz e seguiu a esposa até o carro. Nenhum dos dois falou muito durante o caminho até Sunny Oaks Manor, onde Gia DeMarco vivia há alguns anos. Corrado nunca gostara daquela mulher, muito menos de sua língua afiadíssima. Mesmo assim, tinha profundo respeito por ela.


Quando chegaram, Celia saiu do carro e subiu as escadas, enquanto o marido ficou esperando na entrada. Depois que elas desceram, ele caminhou até o carro e delicadamente abriu a porta de trás para a sogra. Gia se sentou sem sequer olhar para o genro. Com os braços cruzados, ela o repreendeu pelo atraso. Corrado fechou a porta e soltou um suspiro enquanto dava a volta e entrava no carro. Celia o olhou de modo direto, deixando claro que tudo o que ambos iriam escutar durante todo o trajeto seria por culpa dele. Ele aceitava aquele fato. Afinal, era o mínimo que poderia fazer.

Você parece ótima, Gia – ele disse com delicadeza logo que pegou a estrada. – Está usando um vestido novo?

Está usando um vestido novo? – ela resmungou, fazendo pouco caso do comentário do genro. Com um ar de teimosia, fixou os olhos na janela, recusando-se a se virar na direção dele. – Não sou criança, sabia, e não gosto de ser tratada como uma, especialmente por você. Se ainda estivesse vivo, Antonio daria fim a você. Que Deus proteja a alma daquele bastardo.

É, ele certamente faria isso – concordou Corrado, em silêncio. – Ele com certeza estaria bastante desapontado com o genro.

Mas é de fato um vestido muito bonito, mamãe – disse Celia, olhando para o banco de trás com um sorriso no rosto. – Aliás, esse tom de azul fica muito bem em você.

Está dizendo que as outras cores não me caem bem? – perguntou Gia, finalmente mudando de posição e olhando para a filha. Seu olhar cortante a mediu milímetro por milímetro. – Você não deveria usar roupas pretas com tanta frequência, Celia. A escuridão a engole e faz parecer como se estivesse sempre enlutada. As pessoas vão começar a achar que está infeliz, a questionar sobre seu casamento. É isso o que quer? Que todos pensem que não consegue satisfazer seu marido?

Não diga bobagens – retrucou Celia, voltando-se para frente. – Todos sabem que uso preto porque essa cor me faz parecer mais magra.

Bem, não parece estar funcionando –disse Gia. – Talvez devesse se exercitar em vez disso. Celia soltou um riso forçado, mas Corrado sabia muito bem pela expressão da esposa que as palavras ferinas da mãe a haviam machucado. Ele esticou o braço e pegou na mão da esposa, confortandoa sem dizer uma palavra. O carro parou no semáforo por um momento. Apesar de ser manhã de domingo, o trânsito estava congestionado. Gia soltou um suspiro dramático e Corrado olhou pelo retrovisor a tempo de vê-la se voltar mais uma vez para a janela.

– –

Não posso acreditar que estamos atrasados. Teremos de nos sentar na parte de trás. Nós sempre nos sentamos na parte detrás, mamãe.


Porque queremos sentar lá, não pelo fato de sermos obrigados a fazê-lo – reclamou Gia. – Detesto quando não tenho opções. Eu deveria poder escolher, sabia? Quando seu pai ainda era vivo todos esperavam que nós nos sentássemos primeiro. Era uma questão de respeito. Mas ninguém se importa mais com isso. Corrado se sentiu aliviado quando a luz ficou verde. A igreja já estava lotada quando finalmente chegaram e Corrado teve de estacionar na esquina. Ele desceu, deu a volta no carro e educadamente ofereceu o braço a Gia, mas ela recusou sua ajuda e seguiu para a igreja sozinha, reclamando e bufando o tempo todo. Celia ainda tentou acompanhar a mãe, mas Corrado não se importou em fazê-lo e, em vez disso, caminhou lentamente em direção à porta principal. Poucos minutos depois, ele se sentou ao lado da esposa e abriu o botão do paletó. A missa já havia começado e padre Alberto estava de pé no altar fazendo um sermão sobre amor e perdão. Corrado permaneceu quieto durante todo o rito, participando mecanicamente de todas as etapas, e não saiu do banco na hora da comunhão. Quando tudo já estava terminado, Corrado foi o primeiro a sair. Celia e Gia também deixaram a igreja e cumprimentaram alguns conhecidos e amigos. Ele esperava pacientemente por elas quando padre Alberto o encontrou em meio à multidão.

Não o vi no começo da missa, Corrado. Pensei que não viesse, afinal.

Eu não deixaria de vir, padre – ele respondeu. – Só chegamos um pouco atrasados. O padre o olhou mais de perto.

– – –

Será que voltarei a vê-lo durante as emana? E para quê?

Qualquer coisa – respondeu. – Minhas portas estão sempre abertas, mas, como bem sabe, toda quarta-feira eu atendo no confessionário. Ele com certeza estava atirando uma isca para Corrado. Queria informações que não lhe seriam reveladas.

É, quem sabe – respondeu. – A semana só está começando. Não há como prever o que acontecerá de hoje até lá.

Capítulo 27 O prédio em ruínas ficava afastado da estrada principal. Enormes buracos estavam espalhados pelo estacionamento coberto de cascalhos ao redor da construção. Para evitar possíveis atolamentos, os vários


carros que se encontravam no local não obedeciam a nenhuma ordem específica. Estavam simplesmente parados e completamente tortos entre as crateras. A placa fluorescente pendurada acima da porta trazia a palavra SINSATIONS em letras rosa choque.

– –

O que diabos estamos fazendo aqui?

perguntou Carmine ao sair do banco do passageiro da Mercedes de Corrado, depois que este o arrancou da cama às três da manhã e sem explicar aonde estavam indo. De todos os lugares que lhe passaram pela cabeça, um clube de striptease de quinta categoria seria a última possibilidade.

Negócios – respondeu Corrado, acenando para que Carmine o seguisse. O rapaz caminhou pelo estacionamento atrás do tio.

Você também é dono desse lugar? Os passos de Corrado vacilaram por um instante e ele se virou para o sobrinho com irritação.

Você claramente não me conhece muito bem se acha que eu seria o proprietário de um lugar desses. O dono paga uma taxa mensal e nós deixamos que eles mantenham essa lixeira imunda em nosso território.

Ah, chantagem e extorsão – resmungou Carmine. – Legal! Corrado soltou um riso seco.

É um negócio justo. Ninguém mexe com eles porque eles pagam o que nos devem e, em troca, nós utilizamos as instalações quando necessário.

– –

Mas o que você poderia querer nesse buraco fedorento?

Você logo verá. Assim que a porta foi aberta, o som forte do baixo se espalhou. Os ouvidos de Carmine começaram a zunir logo que entrou e o cheiro fétido do local fez com que ele fizesse uma careta. O odor parecia uma mistura de suor, bebida e fumaça de cigarro barato. Tudo isso formava uma nuvem densa, que o fez tossir assim que a inalou. Em seguida, olhou para a névoa que se formava no palco e viu garotas dançando ao redor de barras verticais com sapatos de plataforma. Elas se dobravam em direção aos homens que penduravam notas de dinheiro em suas calcinhas estilo fio dental. Nenhum ser humano respeitável colocaria os pés naquela espelunca; ele então percebeu que era justamente o ponto, ou seja, ninguém ali parecia respeitável.

Pare de olhar – disse Corrado, aproximando-se de Carmine e falando alto para ser ouvido. – Não estamos aqui em busca de prazer.

Engraçado – Carmine resmungou. –Se você acha que eu me envolveria com vagabundas desse tipo, então é você que não me conhece.


Eles seguiram para um escritório nos fundos e fecharam a porta depois de entrar. Corrado abriu um alçapão no piso e começou a descer a escada, mas o garoto hesitou quando ouviu o grito estridente de uma mulher. Seu coração quase parou ao escutar Corrado rosnar irritado:

Por que ela não está amordaçada? Ela gritou novamente e, em seguida, só restou o silêncio. Carmine começou a descer devagar, sem querer enervar ainda mais seu tio. As paredes grossas do porão abafavam a música, sendo possível ouvir apenas o tom grave do baixo. Ele olhou para os lados com cautela e ficou chocado ao se deparar com aquela imagem. Duas pessoas estavam sentadas em cadeiras no centro da sala; ambas estavam algemadas e cada uma tinha um saco de tecido grosseiro sobre a cabeça. Uma delas era claramente uma mulher e usava um vestido dourado; a outra usava jeans e camiseta. Além de Corrado e Carmine havia dois outros mafiosi no local, acompanhando a situação das laterais. Carmine estava olhando para os prisioneiros e avaliando a situação quando seus olhos se fixaram no velho relógio de ouro no pulso do rapaz. Um frio desceu pela espinha de Carmine e seu coração foi parar na boca.

não.

Não – ele sussurrou, horrorizado. Ele já havia visto aquele relógio no passado. – Deus,

Corrado olhou de volta para ele, escutando as palavras que saíam de sua boca. Os olhos de ambos se cruzaram por um momento antes que Corrado fizesse um sinal para que um dos sujeitos retirasse o saco da cabeça da mulher. Em desespero, ela olhou para os lados, apavorada ao deparar com os dois. Cabelos ruivos cobriam parcialmente o rosto dela no momento em que se fixou em Carmine. Ele se viu obrigado a desviar o olhar.

Você a conhece, Carmine? O jovem assentiu lentamente. – Ela é a namorada de Remy. Corrado soltou uma gargalhada e o som amargo fez Carmine sentir um calafrio na espinha.

O nome dela é Vanessa O’Bannon. Ela é filha de Seamus e, aparentemente, a responsável por fornecer as drogas a Remy, trazendo o produto dos irlandeses para o clube, bem debaixo do meu nariz. Corrado fez um movimento para que o outro sujeito retirasse o saco da cabeça do rapaz. Os olhos aterrorizados de Remy imediatamente buscaram os de Carmine; lágrimas escorriam deles enquanto, mesmo sem dizer uma palavra, o rapaz implorava pela ajuda do amigo.

Quais são as regras, Carmine? Recite-as para mim. Carmine mais uma vez desviou o olhar e piscou algumas vezes ao registrar a pergunta.

– –

Mantenha-se longe das drogas e não chame atenção para si mesmo. Continue.


– – –

Ah, nossas mulheres devem permanecer intocadas. E os filhos também. E?

Nunca dedure seus amigos – disse Carmine, sentindo o arrependimento borbulhar dentro de seu corpo. – Mantenha a boca fechada e fique longe da polícia.

– –

E o que mais?

Não roube o que pertence ao colega. Retribua à organização. Sempre esteja disponível quando for chamado, independentemente da situação – Carmine fez uma pausa. – É isso.

– – –

Está errado – disse Corrado. – Você se esqueceu de algo muito importante. O quê?

Nunca confraternize com o inimigo. Corrado enfiou a mão no casaco e puxou a arma. Sem aviso, um único tiro soou no porão e o som alto reverberou pelas paredes grossas. Carmine deu um pulo ao ver a bala atravessar a nuca de Remy e o sangue se espalhar pelo chão e pelas paredes. O ar desapareceu dos pulmões de Carmine. Seus joelhos fraquejaram quando o grito alto e estridente ecoou na sala. Ele não conseguia se mover. Seus olhos se fixaram nos respingos de sangue vivo que cobriam tudo, até seus tênis. Era o sangue de seu amigo… De repente, flashes de Nicholas retornaram à sua mente. Pela segunda vez, a culpa de ver um amigo morrer o consumia por dentro. Abismado, Carmine observou enquanto Corrado apontava a arma para a testa de Vanessa. A jovem soluçava e tremia; as lágrimas escorriam pelo seu rosto quando ela pressionou os olhos e Corrado puxou o gatilho, bem de perto, fazendo com que um clique sutil ecoasse pelo porão. Carmine sentiu o gosto da bile subir até sua garganta e então a engoliu novamente, sem querer vomitar. Vanessa continuava a soluçar, com a cabeça abaixada. Colocando a mão sob o queixo da moça, Corrado puxou seu rosto para cima, forçando-a a encarálo.

Sei onde mora. Sei por onde seu paianda. Sei qual é a escola que seu primo Jessie frequenta. Sua melhor amiga, Marie? Sei onde ela trabalha, e já estive na igreja onde sua avó costuma jogar bingo nas noites de terça-feira. Se voltar a se aproximar do meu clube, eu mato um por um, antes de cortar sua garganta enquanto você dorme. Capisce? Vanessa assentiu, soluçando e sem condições de falar. Corrado removeu as algemas e deu um passo para trás.


Saia daqui tranquilamente e arrume uma carona de volta para casa. Não diga uma palavra sobre isso a ninguém. Vanessa se levantou, e seguiu tropeçando em direção à escada. Carmine observou tudo aquilo em estado de choque. Seus olhos olhando para a porta e então para seu tio.

– –

Você a deixou ir embora? E se ela chamar a polícia?

Ela não vai – ele respondeu, guardando a arma antes de sinalizar para que os dois sujeitos se livrassem do corpo de Remy. Ambos o enrolaram num cobertor e o levaram para cima. Corrado supervisionou toda a ação e então se voltou para Carmine. – Limpe essa bagunça. Em pânico, Carmine passou a mão pelos cabelos.

– –

Eu? Sim, e seja rápido. Afinal, eu posso estar enganado e ela pode acabar abrindo a boca.


Capítulo 28 A longa mesa de mogno tomava toda a sala de audiência, deixando pouco espaço para que as pessoas empurrassem suas cadeiras. O lugar estava lotado e o clima pesado; Corrado respirava o mesmo ar já viciado que os outros seis homens na sala. Ele se sentou à extremidade da mesa, com Borza, seu advogado, à sua direita. O único relator do processo estava ao lado do advogado. O promotor público federal, cujo nome era Markson, estava do lado esquerdo, junto com dois assistentes. Havia ainda na sala um policial recostado numa cadeira próxima à porta, quase dormindo. Corrado não estava surpreso em perceber que eles haviam tomado o cuidado de convocar segurança para o encontro, considerando a natureza do caso, mas sentiu-se um pouco ofendido ao ver que eles realmente achavam que um único idiota seria suficiente para manter o grupo seguro. O relógio marcava 8h23. Já havia se passado quase meia hora desde o horário para o qual o procedimento estava agendado. Tensão tomava conta do lugar enquanto todos olhavam para a porta fechada, esperando que ela se abrisse a qualquer momento para que algo finalmente pudesse acontecer. Ninguém parecia saber o que dizer; nenhum dos lados queria ser o primeiro a verbalizar o que se tornava evidente. Vincent DeMarco não apareceu para dar seu depoimento. Os ponteiros do relógio continuavam a se mover e outros dez minutos se passaram, até que Borza limpou a garganta.

– – –

Acho que todos podemos concordar que esse depoimento não acontecerá hoje. Espere só mais um pouco – disse o promotor. – Ele virá.

Já esperamos trinta minutos – argumentou Borza. – É óbvio que ele decidiu não testemunhar. O promotor retrucou.

– –

Se ele não aparecer é porque algo o impediu de vir.

O quê, por exemplo? – perguntou Borza. – O trânsito? Um pneu furado? Essas não seriam exatamente boas desculpas nesse caso.

– –

Não, refiro-me a algo com o seu cliente.

Ah, por favor não me venha com essa– disse Borza, desqualificando a sugestão da promotoria. – O senhor Moretti passou a manhã inteira aqui, ao nosso lado. Você sabe disso. Aliás, ele já estava aqui antes de vocês.


É possível, mas e quanto à noite de ontem ou o dia anterior? E quanto à semana passada? – disse o promotor, voltando-se para Corrado de modo suspeito e com os olhos em chamas. – Quando foi a última vez que se encontrou com Vincent DeMarco? Corrado sequer teve a chance de pensar em responder. Borza empurrou a cadeira para trás, batendoa contra a parede e colocando-se de pé.

Sabe perfeitamente que meu cliente não tem obrigação de estar aqui por conta de toda essa tolice, muito menos de responder a perguntas paranoicas e absurdas! Entre em contato caso sua testemunha apareça e então reagendaremos esse showzinho. Do contrário, isso acaba aqui. O advogado saiu da sala furioso, enquanto Corrado se levantou com a maior tranquilidade possível.

– –

Tenham um bom dia, cavalheiros.

Isso tem exatamente a sua cara, Moretti – disse o promotor em voz baixa, fechando seu caderno de notas enquanto reunia suas coisas. – Você não sairá livre disso. Marque bem minhas palavras. Eu o terei fora das ruas antes do final do dia.

Não fazia nem duas horas que Corrado havia chegado em casa quando seu telefone começou a tocar de modo insistente. Ele ignorou as chamadas, sem o menor desejo de conversar com ninguém. Porém, percebeu, depois da terceira chamada consecutiva, que quem quer que fosse não iria desistir. Ele atendeu com um suspiro, apertando o viva-voz:

– –

Moretti.

Temos um problema. Corrado fechou os olhos ao ouvir a voz do advogado. Ele já estava cansado de ouvir Borza dizer aquelas mesmas palavras.

– –

O que foi agora?

A promotoria solicitou uma audiência emergencial com um pedido de revogação de fiança. Eles têm como base evidências de que você esteja planejando fugir e represente um perigo para a sociedade. Recostando-se na cadeira, Corrado deslizou a mão sobre o rosto, frustrado.

E quais são as evidências?


Bem, eles citam o desaparecimento de Vincent. Estão emitindo um mandato por não comparecimento, porém, até o momento, não há sinal dele, nem em Chicago nem na Carolina do Norte. E não haveria mesmo, pensou Corrado. Ninguém seria capaz de encontrar Vincent.

Parece que ele encontrou um meio de remover o mecanismo de monitoramento – continuou Borza. – Eles o localizaram em Chicago, mas estava dentro de uma lixeira. Fizeram uma busca, em todo caso, mas não há nenhum sinal de um… Você sabe.

– –

De um corpo – disse Corrado, completando o pensamento de Borza.

Sim. Uma forte tensão parecia presente em cada palavra dita ao telefone. Aquilo deixou Corrado preocupado. Até mesmo seu advogado demonstrava ter dúvidas.

Eu não chamaria isso de evidência de que eu tenha feito algo errado – retrucou Corrado. – Eles estão apenas buscando uma desculpa e me punindo pelos erros do meu cunhado.

Embora isso possa mesmo ser verdade, não significa que não irá funcionar – disse Borza. – Você está sendo julgado por algo que eles inventaram para conseguir pegá-lo por crimes com os quais você não está diretamente envolvido. O governo pode muito bem aceitar tais evidências para apoiar a promotoria.

Então o que está me dizendo é que eles podem vencer. Borza hesitou. Corrado já sabia qual seria a resposta mesmo antes de o advogado se pronunciar.

Há grandes possibilidades. Embora não estivesse surpreso, considerando as palavras de Markson naquela manhã, Corrado sentiu um soco no estômago diante daquela reviravolta no caso.

– –

E quanto tempo isso me dá?

A audiência está marcada para amanhã cedo. Eles queriam realizá-la ainda esta noite, mas consegui adiá-la. É melhor que não esteja presente, eu acho, ou poderão detê-lo imediatamente. Eles então lhe darão 48 horas para se apresentar.

– –

O final de semana – concluiu Corrado.

É, mais ou menos isso. Corrado ficou em silêncio por um momento, analisando a situação. Aquele prazo não seria suficiente para que ele fizesse tudo o que era necessário. Se eles o detivessem, ele poderia ficar preso por meses, até anos. Coisas demais dependiam de sua habilidade de permanecer livre.


Faça o que puder – respondeu Corrado. – Confio em suas habilidades.

Farei todo o possível, mas não posso operar milagres. Corrado deu risada.

– –

Está por acaso insinuando que só Deus é capaz de me ajudar agora?

Não, de modo algum. Só estou dizendo que talvez tenhamos de aceitar a derrota nesta batalha e nos concentrarmos em vencer a guerra. Corrado voltou a pressionar o botão, encerrando a chamada sem responder. Ele ficou sentado por um momento, com as mãos juntas sobre a mesa, esfregando as pontas dos dedos enquanto pensava. Então se levantou e pegou seu celular, o colocou no bolso e saiu de seu escritório, cruzando com a esposa no caminho em direção à porta.

Vai sair? – ela perguntou. Ele deu um beijo no rosto dela.

Tenho que resolver algumas coisas. Não me espere acordada.

Acho que algumas pessoas já nascem com o sangue impregnado de tragédia. Mesclados às células, ao plasma e às plaquetas, encontram-se segredos profundamente escondidos dos quais elas não podem escapar. Faz parte delas; foram passados ao longo das gerações, embora não as defina como seres humanos. Isso não significa que elas estejam amaldiçoadas. Como me disse certa vez um homem sábio, os fertilizantes mais fedorentos fazem crescer as mais belas flores. Haven passou os dedos na folha amarelada, serpenteando-os sobre as palavras escritas à mão enquanto relia mais uma vez o parágrafo. Ela estava sentada no centro do sofá, com as pernas cruzadas e com o diário de couro nas mãos. Kelsey, por sua vez, estava recostada numa poltrona do outro lado da sala. Com as pernas penduradas num dos braços da poltrona, ela zapeava com o controle remoto, sem se interessar por nada na TV. Depois de um momento, a voz familiar de Alex Trebek soou na sala:

– –

O autor da obra do século XX, O jardim secreto.

Frances Hodgson Burnett – Haven sussurrou, erguendo a cabeça e vendo o programa Jeopardy na tela. Kelsey a encarou ao ouvir a resposta, acenando negativamente com a cabeça ao mudar de canal.

Você é tão nerd.


Haven deu de ombros. Se a amiga disse aquilo como um insulto, não foi assim que a jovem recebeu a crítica. Kelsey ainda tentou mais alguns canais antes de desistir, desligar a TV e atirar o controle na mesa. Ajeitou-se na poltrona e pegou uma pasta azul contendo os registros para o próximo semestre escolar.

– –

Afinal, o que você está lendo?

Nada – respondeu Haven, fechando odiário. – É só um livro. Kelsey a encarou por um momento com as sobrancelhas erguidas.

Isso eu já tinha percebido, Sherlock. Haven se levantou e recolocou o livro na estante antes de pegar a outra pasta de registro. As aulas recomeçavam na manhã seguinte, o que daria a Haven um novo começo. Ela não se saíra tão mal no semestre anterior, não fora reprovada em nenhuma de suas matérias, mas tivera muita dificuldade em algumas delas.

Então, acho que vou deixar o curso de Desenho II e entrar no grupo de Escrita e Literatura com você – disse Kelsey, lendo seu próprio programa. Haven olhou para o programa da amiga.

Bem, minhas aulas são às terças e quintas e começam às oito da manhã. Kelsey fez uma careta.

– – – – –

Urgh, pode esquecer. Que tal Pesquisa sobre Arte Mundial? Nove e meia, nos mesmos dias. Ainda é cedo demais. Escultura?

Detesto. Haven deu risada.

II.

– – –

Bem, tudo o que resta então é Pintura

E quando é isso?

Segundas, quartas e sextas ao meio-dia. Um sorriso surgiu nos lábios de Kelsey.


Bingo! Kelsey anotou aquilo num pedaço de papel enquanto Haven colocava a lista de volta na pasta e a deixava sobre a mesa. Ela então voltou ao sofá e mais uma vez cruzou as pernas e, naquele exato momento, um som alto reverberou pelo cômodo.

O telefone está tocando – disse Kelsey, pegando uma almofada e atirando-a contra Haven, que a pegou, tensa e sentindo um calafrio. Seus olhos se voltaram para a estante onde repousava o telefone preto, brilhando e vibrando enquanto tocava. Além de Kelsey, somente uma pessoa tinha aquele número.

– –

Não vai atender? – perguntou Kelsey.

Ah… Claro – Haven caminhou até o telefone e identificou quem estava ligando, mesmo que não tivesse nenhuma dúvida. O nome de Corrado aparecia na tela. Sua mão trêmula pegou o aparelho, mas antes que pudesse atender, parou de tocar. Passaram-se trinta, quarenta e cinco segundos até que finalmente, depois de um minuto, o telefone voltou a apitar. Era uma mensagem de texto. Haven olhou para a tela e leu o que estava escrito: LIGUE PARA MIM.

O Luna Rossa estava lotado. Uma antiga música de Frank Sinatra ecoava dos grandes alto-falantes situados nos cantos do local, que, aliás, estava tomado por fumaça de cigarro. Os olhos de Carmine arderam e se encheram de água assim que ele pisou ali. Corrado o chamara e lhe pedira que o encontrasse imediatamente. Ele não adiantou o assunto ao telefone, o que deixou Carmine um pouco tenso. Será que era sobre seu pai? Haven? Será que algo havia acontecido a ela? Da última vez que estivera ali, as coisas não haviam saído muito bem. Lentamente, o jovem caminhou até o bar. – Uma vodca, por favor. O barman ergueu a sobrancelha.

Identidade, por favor. Carmine hesitou por um momento. Que porra é essa?

– –

Você já me conhece, cara. É, tem razão – respondeu o barman, sem se mostrar impressionado. – Eu te conheço.


– –

Então, vai me servir uma dose ou não?

Claro – disse o sujeito. – Assim que me mostrar sua identidade. Carmine olhou para ele, surpreso.

Tá de gozação comigo? O barman respirou fundo.

Olhe, eu sinto muito, mas você conhece bem o seu tio… E não vou perder meu emprego só porque você quer uma bebida. Ele proibiu que nós o servíssemos, para sempre.

Mas que merda é essa? – murmurou Carmine, desejando poder beber algo que aplacasse seus nervos em frangalhos antes de encarar Corrado. – Onde está o meu tio, afinal? Ele me disse pra encontrá-lo aqui.

No escritório dele – respondeu o barman, indicando o corredor. – Sabe onde fica. Frustrado, Carmine se afastou do bar e lentamente caminhou até os fundos. Ele bateu na porta e esperou. A última coisa que queria era discutir novamente com o tio.

Está aberta – gritou Corrado. Carmine entrou e se deparou com Corrado sentado em sua cadeira de couro. Sem erguer a cabeça e com certa indiferença, ele continuou a mexer em seus papéis. Não querendo interrompê-lo, Carmine se sentou na cadeira da frente e se manteve em silêncio. Corrado olhou para ele e interrompeu o que fazia.

– – –

Eu mandei você sentar? Ah, não.

Então acho que um homem com o mínimo de inteligência seria capaz de concluir que ainda deveria estar de pé. Você não é nenhum gênio, mas até uma criança de dois anos é capaz de seguir regras simples. Carmine manteve a boca fechada e se segurou para não responder ao insulto. Ele já deveria estar acostumado com aquilo, mas seu temperamento ainda era difícil de controlar. O garoto se levantou.

Agora você pode se sentar. Filho da puta, ele pensou. Carmine voltou a se acomodar e, tenso, começou a dedilhar nos braços da cadeira. Ele sentiu o suor se formando em sua testa; as luzes na sala eram fortes demais e desconfortáveis. Seu coração estava


acelerado enquanto esperava que Corrado lhe dissesse a razão para tê-lo convocado, mas o silêncio continuou. Corrado voltou a remexer os papéis, ignorando sua presença. Quase vinte minutos excruciantemente dolorosos se passaram antes que o tio olhasse mais uma vez para o rapaz.

– –

Está sob efeito de alguma coisa, Carmine? Não – ele respondeu, estreitando os olhos na defensiva. – Não tenho usado nada desde

que…

E é melhor não usar mesmo – disse Corrado. – Isso é inaceitável e desrespeitoso. Já matei alguns homens por muito menos que isso, e… Soltando um suspiro, Carmine se recostou na cadeira enquanto seu tio prosseguia com o sermão. Era a mesma merda que ele já ouvira dezenas de vezes nas últimas semanas. Ele já sabia de tudo aquilo. Na verdade, já sabia mesmo antes de aquele incidente acontecer e estava começando a se cansar de ser relembrado e repreendido por seu erro. Ele achava que já havia pagado o suficiente por aquilo, e o resultado fora algo que jamais esqueceria. O fato é que seus pensamentos já estavam longe quando o telefone tocou e interrompeu seus devaneios. Corrado parou imediatamente de falar e olhou para o aparelho com a expressão severa.

Se disser uma única palavra, eu o farei sofrer. Compreende? O jovem empalideceu e acenou rapidamente, aterrorizado demais para responder.

Estou falando sério – avisou Corrado. – Não ouse nem respirar alto demais. Pegando o telefone, Corrado o levou ao ouvido e o atendeu.

Alô, Haven. De repente, o ar desapareceu dos pulmões de Carmine. Corrado estreitou os olhos ao perceber o suspiro trêmulo do rapaz, mas ele não conseguiu evitar. A sala, de um momento para o outro, se tornara menor e sufocante; o ambiente, opressivo. Ele queria vomitar. Queria chorar. Queria dar um soco no tio e pegar aquele telefone de suas mãos e ouvir a voz de Haven mais uma vez. Mas ele não fez nada. Apenas se manteve sentado, olhando para o outro lado da mesa, tentando ao máximo escutar alguma coisa, qualquer coisa… Pelo menos uma parte da mulher que tanto amava.

– –

Só liguei para avisá-la que ficarei ausente por algum tempo – disse Corrado.

Não há nada com que deva se preocupar, mas talvez eu não possa ser encontrado por alguns meses. Corrado ficou em silêncio ao escutar a resposta da garota. Em seguida, tirou o fone do ouvido por um instante e o colocou sobre a mesa, apertando um botão na tela. Carmine sentiu o estômago revirar,


imaginando que o tio o tivesse desligado, até que ouviu um leve suspiro do outro lado. Era sutil, quase inaudível, mas estava lá. Corrado acionara o viva voz.

Como vai a escola? – perguntou Corrado, soando desinteressado e fixando os olhos em Carmine enquanto a questionava.

Bem, está tudo bem – Haven respondeu. – O novo semestre começa amanhã. Já me registrei para todas as minhas aulas.

Isso é ótimo – disse Corrado, dedilhando sobre a mesa. – Espero que esteja se divertindo e fazendo amigos.

– – –

Sim, eu estou. Ótimo – ele disse. – Fico feliz que esteja bem. Cuide-se, ok?

O senhor também. Carmine fechou os olhos quando o tio apertou outro botão e encerrou a chamada. Eles se sentaram em silêncio por um momento até que Corrado se voltasse para o rapaz.

Eu não estarei por perto para tomar conta de você, Carmine, então é melhor que você se mantenha na linha.

– –

Para onde você vai?

Para a prisão. Carmine piscou algumas vezes.

– –

O quê?

Enquanto falamos os promotores estão revogando minha fiança – explicou o tio. – Eles acham que tive algo a ver com o desaparecimento de seu pai. Depois de se forçar a ficar em silêncio, Carmine fez a pergunta que já não podia mais evitar:

E teve? Corrado acenou a mão, voltando a se concentrar em sua papelada.

Já pode sair, Carmine.


Capítulo 29 No instante em que Corrado entrou em casa naquela noite, o cheiro delicioso do molho à marinara despertou seus sentidos. Ele respirou fundo, inalando o aroma enquanto se dirigia à cozinha. Celia estava de frente para o fogão, com as mangas arregaçadas até os cotovelos e os cabelos presos num coque um pouco solto. Um avental azul protegia suas roupas dos respingos enquanto ela mexia o molho caseiro. Corrado a observou em silêncio, com apenas a sombra de um sorriso nos lábios. Ela não o ouvira entrar e continuou concentrada em suas tarefas, sem perceber a presença do marido. Ele adorava esses momentos, quando Celia estava fazendo o que mais gostava e o resto do mundo parecia desaparecer. Como um raio de sol, ela brilhava de maneira radiante enquanto se movimentava de um lado para o outro. Aquilo era o que tanto o atraíra naquela mulher: sua habilidade de iluminar um mundo tão escuro e devastador. Ele sentiria falta da esposa, quanto a isso não tinha dúvidas. Seu mundo logo se tornaria bem mais frio. Ele soltou um suspiro, sem querer imaginar o que aconteceria no dia seguinte. Celia levou um susto e derrubou a colher. Levando a mão ao peito, ela se virou e deu de cara com o marido.

Você me assustou! Não fazia ideia deque estivesse em casa. Corrado abriu um sorriso e, sem dizer nada, deu alguns passos na direção dela. Com cuidado, ele desfez o nó do avental e o atirou longe, enquanto Celia o encarava sem acreditar no que via. Ele ergueu a mão e puxou o grampo que prendia seus cabelos, deixando que caíssem nos ombros dela.

– –

O que está fazendo? – perguntou Celia no momento em que ele pegou sua mão.

Levando-a para cima – ele disse –, e me preparando para tirar suas roupas. Ela tentou se manter na cozinha e fazê-lo desistir da ideia, mas ele era bem mais forte que ela.

– – – – – – –

Corrado, espere! Estou cozinhando! E daí? O molho vai queimar. Você sempre poderá preparar outro mais tarde. Mas o fogo está aceso! E quem liga para isso?

Quem liga? – ela perguntou incrédula enquanto ele a puxava em direção à escada. – Mas e se pegar fogo?


– – –

Então eu lhe compro um novo fogão. Mas pode queimar a casa toda!

Então eu construirei uma nova casa para você. Ela riu sem acreditar.

Mas ela queimará enquanto nós dois ainda estivermos aqui dentro, Corrado. Ele olhou para ela, erguendo uma sobrancelha.

Acha mesmo que eu deixaria isso acontecer? Ela retrucou na hora:

E você realmente acha que poderia conter um incêndio? Corrado ficou momentaneamente em silêncio, ainda segurando sua cintura enquanto ambos estavam de pé diante dos degraus. Ele ponderou sobre a pergunta. Será que achava que poderia conter o incêndio?

Bellissima, eu seria capaz de fazer o tempo parar por você. Eu lhe daria a lua e as estrelas, aprenderia a desafiar a gravidade. Não há nada que eu não fizesse por você, ninguém que eu não matasse se você me pedisse, se precisasse. Salvá-la de um incêndio não seria nada além de puro instinto. Ela o encarou por alguns instantes, sem se mover, antes de relaxar o corpo e ceder. Não que aquela fosse uma decisão difícil de tomar. Ela sabia que Corrado faria qualquer coisa por ela, e ambos reconheciam que Celia nunca lhe negaria nada. Fosse o que fosse, em qualquer situação, Celia sempre estaria ao seu lado, por mais difícil que a vida se tornasse. De mãos dadas, Corrado levou Celia para o quarto. Ele fechou a porta, deixando de fora o mundo cruel que os separaria no dia seguinte. Aquela noite seria somente dos dois.

Horas depois, Corrado desceu a escada e se dirigiu à cozinha escura. Desligou o fogo e jogou o molho queimado na pia antes de tentar lavar a panela. Esfregou-a um pouco, mas quando percebeu que não valia o esforço, a atirou no lixo. Voltou a subir e tomou um banho, permanecendo debaixo da ducha quente até que começasse a esfriar. Usando uma lâmina fina, ele se barbeou cuidadosamente, contando apenas com o brilho do luar que invadia o banheiro. Em seguida, penteou os cabelos para trás e vestiu o terno mais caro que possuía, um Brioni preto. Com seu Rolex no pulso e sapatos de couro italianos nos pés, ele entrou no quarto e olhou para a esposa, que ainda dormia. Celia ressonava levemente, agarrada ao travesseiro do marido. Corrado se inclinou e a beijou na testa.


– Durma bem, bellissima. Ele voltou a descer e, usando seu celular, chamou um táxi. Não demorou muito até que o veículo estacionasse em frente à casa, e em pouco tempo, eles já haviam cruzado a cidade. Ele deu uma bela gorjeta ao motorista ao chegar no local e saiu do carro, acenando para que fosse embora antes que ele começasse a caminhar. Corrado entrou no Centro Correcional Metropolitano antes das três da manhã, com a cabeça erguida e os passos seguros. Estava ali para substituir seu terno por um uniforme laranja e ser confinado em um buraco, mas não via a menor razão para não fazê-lo com estilo.


Capítulo 30

Segurem com firmeza, todos vocês. As estocadas devem ser profundas. Para cima e para baixo, para cima e para baixo. Risos contidos podiam ser ouvidos na pequena sala de artes. Era como se alguém estivesse se afogando no próprio ar.

Experimentem com toques leves e mais pesados. Brinquem com isso e encontrem o ponto que lhes parecer mais confortável. Kelsey se inclinou para o lado e deu uma leve cotovelada em Haven, sussurrando:

Você acha que ela faz isso de propósito? Haven franziu a testa sem entender.

– –

Faz o quê?

Isso mesmo. Continuem, todos. Isso é exatamente o que gosto de ver: sua criatividade explodindo na tela enquanto eu os ajudo a alcançar o clímax. Kelsey tossiu mais alto, tentando esconder outro riso, mas outros na sala não conseguiam se controlar tão bem. A professora, entretanto, não percebeu. E, se percebeu, não reagiu.

A arte é algo pessoal. Só diz respeito a você e a seus instrumentos criando algo a partir do nada. Trata-se de um processo sensual. Vocês estão gerando amor.

Sim, é definitivamente de propósito –concluiu Kelsey. – A senhorita Michaels é uma pervertida. Haven sentiu o rosto corar ao perceber finalmente o motivo dos risos, e acabou derrubando o pincel no chão e olhou para as formas e os padrões aleatórios na tela, percebendo que tudo parecia sexualizado.

Belo trabalho, Hayden. Absolutamente fabuloso. Haven sorriu delicadamente, e ficou ainda mais vermelha ao ver a professora ao lado de sua estação de trabalho.

– –

Obrigada.

O prazer é todo meu. O restante da aula continuou do mesmo jeito, com risadinhas imaturas acompanhando cada palavra da professora que pudesse sugerir uma conotação sexual. Quando os alunos foram liberados, cerca de vinte minutos mais tarde, Haven estava tão perturbada que queria ser capaz de sair da própria pele.


Ela pegou suas coisas e saiu rapidamente da sala, tentando adiar a inevitável e embaraçosa conversa que Kelsey jamais deixaria de lado. Haven desceu do sétimo andar e saiu pela porta do prédio, trombando com alguém que estava na calçada. Ela quase se desequilibrou, tamanha a força do tropeção. Aquela segunda-feira não parecia mesmo ser o seu dia.

Sinto muito – ela se desculpou, afastando-se do sujeito à sua frente. Ele pareceu surpreso e se manteve imóvel com os olhos arregalados. Eles ostentavam um tom azul diferente, quase cinza. A pele do homem era bronzeada.

Não foi nada – ele respondeu, deixando o caminho livre. Seu tom de voz era agudo. O sotaque pesado do Brooklin era comum em Nova York. – Você está bem?

Ah, sim, claro – ela respondeu, dando um passo para trás. – Estou bem. Isso acontece o

tempo todo.

– –

O que acontece o tempo todo? – ele perguntou. – Você trombar com estranhos? Sim. O homem sorriu e seu rosto se iluminou, expondo duas covinhas.

Isso dá um novo significado ao termo “trombadinha”, não acha? Ela sorriu diante da piada, feliz pelo fato de ele não estar zangado.

É, acho que sim. Ele começou a falar novamente, mas ela não lhe deu tempo. Ao ouvir o riso de Kelsey logo atrás, Haven pediu desculpas novamente, desviou do sujeito e se misturou à multidão na calçada.

O curso de Pintura II, também conhecido como Arte do Coração, tornara-se o favorito de Haven desde o primeiro dia do semestre. Era a única hora em que ela conseguia deixar a cautela em segundo plano e se permitia sentir tudo o que se passava dentro de si. Não havia fingimentos, não quando ela pintava. Alma, dissera a professora, e Haven se empenhou ao máximo para colocar isso em prática.

Você acha que a senhorita Michaels tem orgasmos diante de um Da Vinci? – perguntou Kelsey na quarta-feira, enquanto elas deixavam a sala juntas. – Talvez A última ceia seja pornô para ela. Ela parecia estar gozando enquanto falava sobre a obra na aula de hoje – ela fez uma pausa, franzindo o nariz. – Gozando. Nojento. Agora eu estou sentindo isso. Haven revirou os olhos.


– –

Trata-se de uma pintura religiosa. Duvido que ela o considere erótico.

Tudo bem, então, que tal a Mona Lisa? – sugeriu Kelsey. – Também é do Da Vinci, não é? Ou… Espere um pouco, acho que é Van Gogh. Picasso, talvez?

– –

É de Da Vinci – respondeu Haven. –Como você pode ser uma estudante de artes?

São duas áreas de estudo totalmente opostas – retrucou Kelsey. – Eu desenho coisas num computador, enquanto vocês fazem amor com suas telas.

– –

Nós criamos amor nas telas.

E qual é a diferença? – perguntou Kelsey com desdém. – Para mim, as duas coisas parecem pervertidas. Haven meneou a cabeça, desviando o olhar de sua amiga enquanto saíam do prédio. Ela se deparou com um par de olhos azuis. Era o mesmo rapaz que conhecera há dois dias. Ele sorriu e acenou delicadamente. Haven enrubesceu ao reconhecê-lo.

Viu? Estou certa – retrucou Kelsey,reparando nas faces rosadas da amiga. – Todos vocês pintores se sentem excitados pela arte.

Na sexta-feira, quando se preparava para deixar a sala, o jovem estava lá novamente, assim como estaria nas próximas segunda e quarta-feiras. O ciclo continuou com olhares curiosos, sorrisos educados e acenos de mão em todos os demais dias da semana, sempre a uma hora. Ele sempre estava parado do lado de fora do prédio, como se esperasse alguém ou, quem sabe, alguma coisa. Duas semanas depois, também numa sexta-feira, Haven foi solicitada a permanecer um pouco mais na sala. Quando enfim saiu, os corredores estavam vazios e a rua livre de estudantes. Ela saiu do prédio arrumando sua mochila e depois de caminhar um pouco, seus passos vacilaram. Na esquina, encostado na parede de outro prédio, o mesmo sujeito parecia aguardá-la. Ele a olhou no momento em que a garota se aproximou. Sendo educada, Haven o cumprimentou.

Olá. Ele se afastou da parede e parou na frente dela.

Lembra-se de mim?


Sim. – Seu coração disparou ao reconhecê-lo prontamente. Ela sempre preferia quando ele não se dirigia a ela. – Eu não te machuquei, não é? Olhe, eu honestamente sinto muito pelo outro dia. Eu estava apressada e…

Ei, relaxe – ele disse, interrompendo-a com uma risada. – É só que você saiu correndo naquele dia antes que eu tivesse a chance de lhe falar.

Ah… – ela disse, olhando para ele desconfiada. – E falar sobre o quê?

Ele deu de ombros.

– –

Sobre qualquer coisa.

Ah… Muito bem. Ambos olharam um para o outro por um momento, mas o clima parecia tenso por conta do embaraço entre ambos. Haven deu um passo para o lado, tentando dar a volta, mas ele falou novamente antes que ela pudesse se afastar.

Então, posso acompanhá-la até sua próxima aula? Ela negou com a cabeça.

Já terminei por hoje. Ele tentou dizer algo, mas ela foi embora antes que ele tivesse a chance.

Ele tentou de novo na segunda-feira:

Posso lhe pagar um almoço? Ela recusou novamente.

Não estou com fome, mas obrigada. Na quarta-feira lá estava ele no mesmo lugar.

E que tal uma bebida? Ela passou por ele com a cabeça baixa e murmurou:

Não estou com sede. Na sexta, o rapaz estava parado no mesmo lugar e na hora exata.


Posso levá-la até sua casa?

A resposta foi direta:

Não estou indo para casa agora. Na segunda seguinte, Haven já estava preparada. Ela saiu do prédio depois da aula com a amiga Kelsey ao seu lado, conversando distraidamente, mas o garoto já esperava por ela. Ele se afastou do prédio em que estava encostado e parou diante das duas, voltando-se para Kelsey.

Por gentileza, senhorita, será que posso interromper? Kelsey franziu as sobrancelhas e, por um momento, ficou surpresa com o silêncio que se formou.

– –

Interromper?

Sim – ele disse. – Veja, tenho tentado conversar com sua amiga há semanas, então, bem… Estou um pouco enciumado neste momento. Um sorriso surgiu lentamente no rosto de Kelsey.

Ah! Mas é claro! A amiga se virou para Haven e deu uma piscada dramática, quase não contendo um gritinho ao deixar os dois e se perder na multidão. Haven ficou parada, sem acreditar no que acontecera, enquanto o rapaz sorria para ela.

Então, uma vez que sua amiga parece aprovar, será que posso acompanhá-la até onde quer que esteja indo hoje? Ela negou com a cabeça. Inacreditável, pensou.

– –

E por que você iria querer fazer algo assim?

E por que eu não iria querer? – perguntou. – Você é uma garota linda. Ao ouvir aquelas palavras, ela ficou surpresa e deu um passo para trás. Ele a estava paquerando. Aquele garoto estava flertando com ela. Ela ergueu os ombros de modo hesitante.

Ah, eu acho… Quero dizer, você pode fazer o que quiser. Não posso impedi-lo, não é

mesmo?

Certo – ele disse com o sotaque pesado. – Não vai me dizer a célebre frase “afinal, este é um país livre”?

Não, ou melhor, é… – ela disse, passando a mão na testa. – É um país livre, não é? Ou pelo menos é o que todos dizem.


Sim, mas não quero impor minha presença. Sei que tenho sido persistente, mas só queria uma chance de conhecê-la melhor. Pode recusar e, nesse caso, não voltarei a abordá-la. Havia uma certa mágoa naquelas palavras que a deixou surpresa. Ela não queria ser rude, mas sua presença a deixava alarmada e toda aquela atenção era enervante.

Bem, você não está impondo sua presença – ela disse. – Afinal, irá apenas me acompanhar,

certo?

Certo – ele repetiu, desviando o olhar e assentindo. Um sorriso surgiu nos lábios do rapaz, enquanto sinalizou para que ela seguisse adiante. – Você primeiro, vou apenas acompanhá-la. Haven caminhou pela rua e ele permaneceu ao seu lado com as mãos nos bolsos e olhando para o chão.

– – –

Então, para onde estamos indo? – ele perguntou. Para a biblioteca – ela respondeu.

A biblioteca não fica no campus? –ele perguntou. – Essa é uma escola de artes, não é? Só artes? Ou eles ensinam também as mesmas merdas das outras escolas? Ela o encarou curiosa. Mas que tipo de pergunta era aquela?

Só artes, mas gosto de pensar que é uma escola bastante normal. Ele fez um sinal negativo com a cabeça.

– – –

Ah, eu não quis ser ofensivo. Vejo que não frequenta essa escola –ela comentou –, ou saberia disso.

Não, não sou um aluno – ele riu para si mesmo. – É que eu passo por aqui todos os dias a caminho do trabalho. Eu trabalho na construção na Sexta Avenida. Ela o olhou com cautela. As roupas do rapaz eram limpas e bem arrumadas. Ele tinha no pulso um relógio caro.

Não parece trabalhar numa construção. Ele sorriu.

Não, eu fico mais na supervisão. Não gosto de sujar minhas mãos se não for preciso. Haven se soltou um pouco à medida que caminhavam. Ele se ofereceu para carregar o material dela e esperou enquanto ela deixava os livros que tomara emprestado na biblioteca. Depois, perguntou novamente se poderia acompanhá-la até em casa.


Por quê? – ela questionou, parando no meio da calçada à frente da Biblioteca Pública de Nova York. As pessoas passavam pelos dois, encarando-os por estarem bloqueando a passagem, mas ela não se moveu. Pelo menos não até que ele respondesse.

– –

Mas você já não me perguntou isso?

Sim, mas… – ela fez uma pausa. –Ouça, você está sendo legal. E as pessoas geralmente não são tão legais, a menos que queiram alguma coisa.

Eu sou legal – ele respondeu. – Mas, de fato, eu quero uma coisa. Haven estreitou os olhos.

– – – –

E o que é que você quer? Te conhecer melhor. E por que eu?

E por que não você? Ele estava sendo evasivo, respondendo a uma pergunta com outra. Haven ficou mais tensa.

Não é um policial, é? Você tem que me dizer a verdade se for um policial. Ele a olhou surpreso.

– – – – – –

Não, não tenho. Ou melhor, eles não têm. Quem disse isso? Um amigo. Bem, ele está enganado. É considerado legal que a polícia minta para as pessoas. Tem certeza? Sim.

E isso significa que você seja um? Ele caiu na gargalhada no meio dos prédios, assustando quem passava.

Sabe, a maioria das garotas ficaria preocupada em saber se o cara seria um assassino em série ou algo do tipo.

Mas você não é um assassino em série, é?


Não – ele respondeu. – Também não sou policial. Eu já lhe disse, trabalho na área de construção civil. Haven se preparava para responder e considerar a oferta do garoto quando o telefone dele tocou. Ele o pegou, com o ar mais sério, e o desligou.

Bem, você está com sorte – ele disse.– O trabalho me chama. Foi muito bom encontrála… – Ele então fez uma pausa, erguendo as sobrancelhas com curiosidade. Foi então que ela percebeu que não havia lhe dito seu nome.

– –

Hayden. Hayden – ele repetiu sorrindo. – Você pode me chamar de Gavin.

Pá, pingue, pá, pongue, pá, pingue, pá, pongue

Corrado estava deitado na cama inferior de um beliche com o braço em cima dos olhos, ouvindo o som das raquetes atingindo a bolinha na sala de convivência que ficava ao lado de sua pequena cela. O jogo era acompanhado de conversas e o barulho era alto o suficiente para fazer sua cabeça explodir. Ele estreitou os olhos, tentando evitar aquele incômodo, porém com o passar do tempo, o som parecia se tornar cada vez mais incômodo. Desde o momento em que se entregara, aquela foi a primeira vez em que se arrependera de pedir para ficar na carceragem normal. Não havia muito a fazer no Centro Correcional Metropolitano. Também não havia nada para ver e ninguém com quem conversar. As partidas de pingue-pongue e os jogos de carta pareciam as atividades nas quais a maioria dos internos investia seu tempo, mas nenhuma delas interessava a Corrado. Ocasionalmente ele se dirigia até a área de recreação da prisão em busca de um pouco de ar fresco, porém na maior parte do tempo, ficava deitado olhando para as paredes, afastado das outras pessoas, enquanto contava os dias. Já havia se passado três semanas e só Deus poderia dizer por quanto tempo ele ainda ficaria ali.

Pá, pingue, pá, pongue, pá, pingue, pá, pongue

Corrado tentava encarar aquilo com tranquilidade. Afinal, depois de tudo o que fizera ao longo dos anos, alguns meses atrás das grades deveria ser visto como uma punição leve. Em seus cálculos, era menos de um dia de pena por cada indivíduo que machucara. Apenas poucas horas de prisão por cada um


que matara. Era simples: cumpriria aqueles poucos meses de detenção e então retornaria à sua vida normal. Naquele dia, entretanto, estar ali parecia simplesmente insuportável. O barulho das bolinhas, a conversa fiada dos internos e as ordens dos porcos carcereiros enquanto caminhavam de um lado para outro esbravejando e bancando os machões, tudo aquilo era demais para ele. Respirando fundo, levantou-se da cama. Seu colega de cela baixou o livro que estava lendo e, da cama de cima, olhou para Corrado com cautela. Ambos não haviam trocado mais que algumas palavras durante todo aquele tempo.

– –

Você está bem, cara? – perguntou o sujeito, com certo cuidado.

Ficarei bem num minuto. Corrado saiu de sua cela e, sem hesitar, caminhou até a área de convivência. Alguns dos internos estavam nos cantos, sozinhos, mas a maioria se reunia ao redor da mesa de pingue-pongue. Corrado passou calmamente pelos presos, que, de modo instintivo, abriam espaço para que ele seguisse até o detento na ponta da mesa. O sujeito era o mais barulhento do grupo. Um cara grandalhão que estava cumprindo alguns anos por tráfico de drogas. O sujeito empunhou a raquete e, rindo, deu uma pancada na bola, sem se incomodar com a aproximação de Corrado. Pá, pingue, pá, pongue, pá, pingue, pá, pongue

POW

Esse foi o som que ecoou pelo salão de concreto quando o punho de Corrado encontrou o nariz do sujeito, que imediatamente foi ao chão, surpreso e com sangue por todo o rosto. Todos ficaram em silêncio e deram um passo para trás, recuando ao ouvir os apitos dos carcereiros. A luz foi desligada. Corrado ficou imóvel e ergueu as mãos enquanto uma horda de agentes correcionais se atirou sobre ele. De fato, ignoraram a pacífica rendição do detento e o agarraram violentamente, atirando-o contra a parede mais próxima. As mãos dele foram algemadas atrás das costas e seus tornozelos também foram presos. Em questão de segundos, ele foi levado para a solitária.

Péssima ideia, Moretti – disse um dos oficiais ao empurrá-lo para uma cela individual e sem janelas, iluminada apenas por uma lâmpada antiga que não parava de piscar. – Terá sorte se não for acusado de agressão. Corrado riu de maneira seca. A promotoria não perderia seu tempo com aquilo. Ela já havia se livrado de quatro acusações de assassinato, sete de agressão, três de extorsão e de pelo menos uma dúzia de supostas violações envolvendo porte, ocultação e uso de armas de fogo, talvez um pouco mais ou um pouco menos. Um murro não representava mais que uma multa por excesso de velocidade. Ao soltar Corrado na cela, o oficial acenou negativamente com a cabeça, irritado pelo fato de o detento se recusar a reagir.


– –

Você não é tão infalível quanto achaque é. Se fosse, não estaria preso agora, não é?

É apenas temporário – retrucou Corrado, esfregando as mãos. Os nós dos dedos já estavam inchados pela força do golpe.

– –

É, isso provavelmente é verdade – resmungou o oficial. – Nunca conseguirei compreender.

Não me surpreende – disse Corrado.– Compreensão não parece ser o seu ponto forte. O oficial ignorou o comentário, fechou a cela e se afastou. Finalmente sozinho, pensou Corrado, ao deitar-se no colchão fino e desconfortável e recolocar o braço sobre os olhos. Ele estava em silêncio. Em meio à paz do lugar, conseguiu dormir. Ao acordar, sentiu que a cabeça já não doía. Sentou-se ao mesmo tempo em que um buraco na porta se abriu e ele ouviu a voz de um oficial.

Correio. Dois envelopes foram enfiados ali e caíram no chão, ambos já abertos. Ele não estava surpreso. Fazia parte da rotina ter sua correspondência checada, confiscada por vários dias e lida e relida inúmeras vezes em uma tentativa de achar alguma mensagem oculta que eles nunca encontrariam. Não que elas não estivessem ali… Eles só não eram suficientemente espertos para decifrarem os códigos.

Ouvi dizer que hoje é seu aniversário– comentou o oficial. – Isso é verdade? – Sim. O oficial riu. – Confinado numa solitária. Que maravilhoso presente de aniversário. Corrado se levantou e pegou as cartas no momento em que o buraco na porta se fechou. O primeiro envelope era apenas um cartão de feliz aniversário de sua esposa, na cor azul e sem nenhuma mensagem muito especial em seu interior. Então ele olhou para o segundo envelope com curiosidade antes de retirar de dentro uma folha de papel. Era uma nota breve, escrita de forma confusa à caneta.

ROSAS SÃO VERMELHAS, VIOLETAS SÃO AZUIS, FUI TRABALHAR, E QUANTO A VOCÊ?

P.S.: PENSEI QUE VIOLETAS FOSSEM DE COR VIOLETA, NÃO AZUIS. FIQUEI SURPRESO. ACHO QUE PRECISO DE ALGUMA INSTRUÇÃO, DO TIPO PRÁTICO.

Corrado leu o bilhete duas vezes, surpreso pela mensagem ter passado pela segurança. O bilhete não estava assinado e era impossível ler o remetente, mas ele sabia muito bem de onde viera.


Ele não tinha caneta ou papel para responder, então não poderia fazê-lo imediatamente, mas já sabia o que iria dizer: HÁ FLORES DE TODAS AS CORES, MAS ALGUMAS JAMAIS DEVEM SER COLHIDAS. APRECIE A VISTA, MAS NÃO TENTE PLANTAR NENHUMA DE SUAS SEMENTES NO MEU JARDIM. DETESTARIA VÊ-LO SE SUJAR COM FERTILIZANTES.

Capítulo 31 No primeiro dia da primavera, 20 de março, caminhões e vans enchiam as ruas que cercavam o Prédio Federal Dirksen, no centro da cidade de Chicago. O sol brilhava com força e a tarde estava quente. As árvores ostentavam um verde brilhante e as flores estavam abertas. No entanto, a atmosfera no 12º andar do prédio não permitia que ninguém pensasse em como as coisas aconteciam do lado de fora. Sob a luz suave do tribunal, Corrado estava sentado atrás da longa mesa destinada aos réus, com as mãos unidas à sua frente e uma gravata mal-ajeitada no pescoço. Sua esposa não estivera ali naquela manhã para arrumá-la e ele se vestiu sozinho numa sala próxima de onde se encontrava agora. O ar estava frio, tanto no que diz respeito à temperatura quanto à atmosfera. Apesar de já viver em Chicago há décadas, Corrado ainda não se acostumara com o frio do lugar. Mas ele não tremia, recusando-se a parecer fraco.

OS ESTADOS UNIDOS CONTRA CORRADO MORETTI 1º DIA

O tribunal estava lotado. Não havia nenhuma cadeira vazia em lugar algum. Corrado já havia olhado os presentes quando viu Celia na parte de trás, acompanhada pelo sobrinho, Dominic. Ao lado deles não havia muitos rostos amigáveis. Nenhum amigo, nenhum familiar, ninguém da Cosa Nostra… Apenas vítimas e seus parentes lotavam a sala, sugando todo o oxigênio. Corrado podia sentir a hostilidade daquelas pessoas em sua pele. Mas não se importava com o que eles pensavam, apesar disso. As únicas opiniões que realmente valiam eram as dos doze jurados que ocupariam o espaço reservado. Havia oito homens e quatro mulheres. Todos ficariam hospedados num hotel barato das imediações enquanto durasse o julgamento, confinados 24 horas por dia. Aquela era a primeira vez que Corrado enfrentaria um júri mantido em reclusão. O juiz temia que ele se valesse de subornos para conseguir sair ou até que machucasse alguém para assegurar apoio. Se


depender de um resultado genuíno não o deixasse irritado, ele até ficaria lisonjeado pelo medo demonstrado. Recostando-se na cadeira, Corrado se inclinou até o advogado.

O fato de eles estarem mantendo o júri recluso com armas em punho não pode gerar certo preconceito contra mim?

Não mais do que eles já sentem – respondeu o advogado. – Eles já entraram aqui acreditando que você é um monstro. Nosso trabalho é humanizá-lo.

– –

E como é que você pretende realizar essa façanha?

Observe e veja. O senhor Borza se levantou, ajeitou a gravata e se aproximou do júri. – Senhoras e senhores, durante as próximas semanas ouviremos algumas histórias terríveis, aliás, algumas tão horripilantes que provavelmente farão revirar seus estômagos. Isso é um fato. Do modo como a acusação coloca este caso, ela descreverá a vocês um homem violento, imoral, sem a menor consciência, que apavora a população desta enorme cidade praticamente todos os dias. Estou aqui para dizer-lhes desde já que se tal homem existe, eu ainda não o encontrei, e certamente não o representaria se me pedisse. O júri ouviu com atenção, pensando a respeito de cada palavra do advogado. Borza caminhou sobre o tapete que estava à frente, olhando para cada um dos jurados nos olhos.

Permitam-me lhes falar um pouco sobre o homem que está em julgamento aqui – ele disse, apontando para a mesa do réu. – Corrado Moretti nunca frequentou uma faculdade. Ele sequer terminou o colegial, mas isso não o impediu de seguir seus sonhos. Ele é um cristão, temente a Deus; um homem que ama sua família… Em especial sua esposa, Celia. Eles estão casados há 27 anos. Foi preciso que Corrado se contivesse para não olhar para sua esposa naquele momento. Ele se manteve parado, observando o júri em busca de sinais de compaixão, mas não encontrou nada.

O caso da promotoria se baseia em meias verdades que serão proferidas por conhecidos mentirosos que sentarão no banco de testemunhas e lhes dirão o que quer que tenham sido instruídos a dizer. Eles lhes contarão todos os fatos, as invenções, porque o governo ofereceu a essas pessoas acordos interessantes. “Você me ajuda e eu ajudo você.” Por que estão fazendo isso? Porque têm uma vingança pessoal contra meu cliente – afirmou Borza antes de continuar.

O senhor Moretti construiu seu negócio a partir do zero, tijolo por tijolo, investindo cada centavo que tinha no Luna Rossa. Ele é o proprietário de um pequeno negócio que emprega mais de uma dúzia de funcionários e oferece a eles todos os benefícios. Ele paga seus impostos em dia. E vive o Sonho Americano. Apesar da falta de educação formal, ele alcançou o sucesso. Isso o faz parecer um homem imoral? Isso por acaso sugere que ele não tenha consciência? Em minha opinião, parece apenas que ele é um ser humano, como vocês e eu. Borza prosseguiu, torcendo todos os fatos, até que no final conseguiu transformar Corrado num gentil escoteiro. Enquanto o advogado se sentava, Corrado mais uma vez olhou para o rosto dos jurados


e, dessa vez, relaxou um pouco ao perceber um olhar mais compassivo por parte da jurada número seis. Ela o encarava com um brilho de esperança por algum sinal de humanidade. Ingênuo e bobo, talvez, mas aquela mulher queria acreditar no melhor dele. Aquilo era tudo de que ele precisava: de uma pequena abertura que lhe permitisse dar o primeiro passo rumo à liberdade.

9º DIA Escutas telefônicas. O som da voz de Corrado soava alto e claro no tribunal vindo dos alto-falantes colocados na frente. Pilhas de transcrições estavam espalhadas sobre as mesas, intocadas. A voz dele era clara e concisa. Não era preciso ler o que estava escrito, uma vez que suas palavras eram absolutamente claras.

Faça o que estou mandando – sua voz reverberava pela sala. – Quando eu acordar amanhã é melhor não ouvir que ele ainda esteja respirando, ou então é você que não estará até a hora que eu voltar para cama. Corrado passou a mão no rosto, frustrado. Como seu advogado explicaria aquelas palavras? Fita após fita, ameaça após ameaça. Não havia ali nenhuma prova, mas muitas insinuações perigosas. Todos ficaram apreensivos quando a promotoria colocou a última gravação do dia. Corrado se recostou na cadeira, ficando tenso ao ouvir uma voz familiar nos alto-falantes.

Está feito – disse Vincent. – Aconteceu esta noite, finalmente. Corrado identificou o diálogo. Ele estava sentado em casa quando seu cunhado ligou de Blackburn para dizer que havia conseguido Haven.

– – – – –

Já era hora – respondeu Corrado. – E quanto foi que você pagou? Duzentos e cinquenta mil – respondeu Vincent. – Mas eu teria pago mais se fosse o caso. Eu sei – retrucou Corrado. – Pagou bem caro por essa garota. Sim – Vincent suspirou do outro lado.

Todos nós pagamos. Quando aquelas palavras soaram em seus ouvidos, Corrado acenou negativamente com a cabeça: tráfico de pessoas para trabalho escravo. Aquelas palavras em sua acusação faziam sentido. As intenções ali não importavam. Aliás, em geral, não importam.

17º DIA


Testemunho do perito. Corrado não se ateve muito à parte em que a promotoria chamou um perito em contabilidade para testemunhar. Eles estavam vasculhando seus registros de caixa e tentando encontrar alguma grande soma em dinheiro que pudesse ter sido adquirida de maneira ilegal. Corrado estava entediado, sabendo que eles não encontrariam nada substancial. Pelo que sabia, alguns dólares aqui e ali não contavam.

Objeção! – exclamou seu advogado, interrompendo a linha de questionamento. – Não compreendo a importância de saber quanto o senhor Moretti gastou em suprimentos para os banheiros no mês de julho.

Objeção rejeitada! – disse o juiz, e acenou para que o promotor continuasse. Mais perguntas, mais bisbilhotices e mais desespero. Corrado olhou para o júri que, aliás, parecia tão entediado quanto ele próprio. Ele se fixou na jurada número seis, esperando que ela desviasse o olhar, mas ela o encarou, estudando-o com curiosidade nos olhos.

Objeção! – exclamou novamente o advogado. – Não vejo qual a relevância de tudo isso. O juiz respirou fundo.

Objeção rejeitada. Aquilo se estendeu por duas horas excruciantes antes que a acusação terminasse. O senhor Borza se levantou e se dirigiu à testemunha.

Com base em seus cálculos, qual o total de dinheiro no Luna Rossa que não foi reportado no ano passado?

Ah, US$15.776, 49 – respondeu o especialista. Corrado se encolheu. Eram mais que alguns dólares, afinal.

Parece muito dinheiro – disse Borza, verbalizando os pensamentos de seu cliente. – Porém, estamos falando aqui de um clube cujo faturamento no ano passado foi de três milhões de dólares, está correto?

– – – –

Sim. Esse dinheiro não registrado seria, portanto, o equivalente a meio por cento? Um pouquinho mais que isso, mas…sim.

Então mais de 99% da receita do Luna Rossa está nos registros, preto no branco. Considerar esse meio por cento seria o mesmo que acusar um homem de perder alguns centavos ao ganhar um dólar numa loja. Isso dificilmente poderia ser rotulado como um elaborado esquema de lavagem de dinheiro.


– –

Objeção! – gritou a promotoria. – Ele está tentando distorcer os fatos.

Mantida! Continue, senhor Borza. A resposta do juiz não abalou o advogado. Ele havia conseguido estabelecer um ponto importante, e prosseguiu:

– – – – – –

E esse meio por cento poderia ser apenas um erro matemático? É possível. Então pode ser que nenhum dinheiro tenha sumido, afinal. Objeção. Negada! Responda à pergunta.

É possível – respondeu o contador. –É justamente por isso que os impostos são auditados ao longo de um período de anos em busca de consistência e exatidão nos dados, porque erros desse tipo podem ocorrer. O senhor Borza sorriu e se sentou.

Erros desse tipo podem ocorrer. Eu não teria colocado melhor. 22º DIA Testemunha de acusação. Várias testemunhas juraram sobre a Bíblia e responderam às perguntas que lhes foram colocadas. Eram ex-parceiros, alguns da própria Cosa Nostra, que contaram algumas histórias violentas; donos de estabelecimentos e transeuntes sem muita sorte também disseram o que viram. Nenhum deles, entretanto, apontou o dedo diretamente para Corrado, mas havia o suficiente para associá-lo aos crimes, pelo menos de maneira superficial.

Senhor Gallo – disse o advogado de Corrado, dirigindo-se a um ex-capanga da Máfia. – O senhor testemunhou que, juntamente a outros três homens, esteve envolvido em uma série de roubos no mês de março de 1980. Isso está correto?

– – – –

Sim. E qual teria sido o papel do senhor Corrado Moretti nesse caso? Ele nos mandou fazê-lo. Em pessoa?


– – – – – – – –

Por mensagem de texto. Então imagino que haveria registros dessas mensagens, correto? Não, eram aparelhos pré-pagos, descartáveis. Certo, e as mensagens vieram do número do meu cliente? Não, de um número privado. Ainda possui esse aparelho pré-pago? Não, foi destruído. Você sabe, descartado.

Então, deixe-me ver se entendi corretamente… Você roubou esses lugares porque recebeu mensagens de texto anônimas para que assim o fizesse; mensagens das quais não há nenhuma evidência, e espera que aceitemos a sua palavra de que elas vieram de Corrado Moretti.

– –

Foi ele.

E se eu lhe dissesse que os outros três nomes mencionados nesses roubos afirmam não conhecer o senhor Corrado Moretti? E vão ainda mais longe, dizendo que esse foi um esquema planejado e executado por vocês quatro. O que o senhor me diria?

– –

Eu diria que eles estão mentindo.

Ah, então é possível que os três estejam mentindo – retrucou o senhor Borza. – Não seria mais provável que o senhor o estivesse?

O som de um alfinete caindo no chão poderia ser ouvido em meio ao silêncio tenso que tomava conta do tribunal. O promotor ficou de pé ao lado de sua mesa, mexendo em sua papelada enquanto as pessoas aguardavam que ele falasse. Todos estavam nervosos; os que acompanhavam o julgamento estavam ansiosos em suas cadeiras e seus olhos se voltavam para a porta a cada mínimo barulho. Um mês após o início do julgamento e a acusação estava prestes a chamar sua última testemunha. Carmine prendeu a respiração, assim como a maioria dos cidadãos de Chicago que lotava a sala. Ele faltara à maior parte das sessões, por respeito ou egoísmo, não tinha certeza, mas aquele era um dia em que teria de estar presente. Ele precisava estar lá, ver com seus próprios olhos e encarar a dura realidade. Ele tinha de saber se o pai ainda estava vivo.


Se Vincent tivesse sido localizado e colocado num programa de proteção à testemunhas, ninguém estaria ciente até que ele entrasse no tribunal, escoltado por oficiais armados. No entanto, se ele não aparecesse – … Carmine nem queria pensar no que aquilo significaria. Ele olhou para os lados, fixando os olhos em Corrado. Este, por sua vez, parecia relaxado e completamente entediado ao se recostar na cadeira. Seus olhos estavam concentrados no júri inquieto. Ele tinha se mantido daquele jeito, confiante e calmo, durante todo o julgamento ou será que ele sabia algo que os demais desconheciam? Carmine então se voltou para o outro lado do tribunal, onde estavam sentados sua tia e seu irmão. Nenhum dos dois o vira entrar e ele preferia que tivesse sido assim. A última coisa de que precisava era ser forçado a passar seu tempo com a família. O promotor Markson limpou a garganta.

Meritíssimo, a acusação… – Carmine fechou os olhos… – …chama Vincenzo DeMarco para que ocupe o banco de testemunhas.

…e encerra seus depoimentos. Não temos mais testemunhas. Carmine reabriu os olhos quando o silêncio foi quebrado pelo burburinho. O juiz exigiu silêncio e Carmine se levantou, saindo do tribunal antes que o julgamento pudesse continuar. Capítulo 32

Gavin se tornou um frequentador regular no prédio de artes no lado oeste de Manhattan. Era raro o dia em que ele não estava de pé ali no momento em que Haven saía da aula, encostado casualmente na parede. Era como se ele não tivesse nada mais a fazer. Haven conversava com ele nos dias em que o via e, de vez em quando, o rapaz a acompanhava à biblioteca em seu caminho até a construção, que ficava a apenas alguns quarteirões. Todavia, ele não quis se arriscar a propor algo além daquilo. Era confortável e tranquilo e, depois de algum tempo, Haven se acostumou àquele estranho arranjo, apreciando suas conversas breves antes que cada um seguisse seu caminho. Não era muito, mas já era alguma coisa. Era uma conexão, uma amizade que aflorava entre ambos e uma companhia que buscava naqueles três dias da semana. Haven sorriu para si mesma numa tarde de sexta-feira quando os dois caminhavam pela calçada. A multidão se movia rapidamente ao redor deles, mas nenhum dos dois tinha pressa de chegar a algum lugar. Gavin preencheu o tempo contando uma piada que ouvira no trabalho. Era algo vulgar que Haven não compreendeu muito bem, mas ela riu nos pontos em que achava que deveria.

– – –

Sabe, você me faz lembrar de alguém que conheci. Jura? – ele perguntou, erguendo as sobrancelhas. – Um namorado, talvez?

Não, de jeito nenhum. Apenas um amigo. Ele adorava contar piadas. A expressão de Gavin mudou.

Já estou sendo colocado na categoria de amigos?


Haven o encarou.

Não sei o que você quer dizer. Ele não deu muita atenção àquilo.

E esse seu amigo… Será que ele eratão bonito quanto eu?

Ela riu.

– – –

Não exatamente, mas poucos seriam. Caramba, será que isso é um elogio?

ele perguntou, parando de caminhar e piscando os olhos de um jeito dramático. – Você está dando em cima de mim? Haven revirou os olhos e se recusou a responder, continuando a caminhar. Ele não teve escolha, exceto segui-la.

É sério, isso foi um elogio? – ele perguntou. – Não consigo perceber quando está sendo

sarcástica.

– –

Eu nunca sou sarcástica.

Ei – ele fez uma pausa. – Espere aí, isso foi sarcasmo? Haven negou com a cabeça.

– –

Foi um elogio. Eu disse o que queria dizer.

Uau, estou chocado – ele respondeu, sorrindo. – Eu honestamente achava que você estava pensando na ideia de arrumar uma liminar para me manter longe de você. É bom saber que consegui fazer com que você gostasse de mim, pelo menos um pouquinho. Ela riu.

Eu nunca disse que gostava de você. Apenas que você era bonito. Isso não diz nada a respeito de sua personalidade.

– –

Bem, agora tenho certeza de que isso foi sarcasmo – ele declarou.

Eu não teria tanta certeza. Ele levou a mão ao peito.

Agora você me feriu. Haven deu um cutucão no cotovelo do garoto.


Sei que irá superar.

Uma folha de papel estava grudada ao vidro do estúdio de arte naquela sexta-feira. Duas palavras escritas à lápis e sem maiores explicações: aula cancelada.

Que maravilha! – exclamou Kelsey, atirando os braços para cima em comemoração. – Hoje não tem aula! Haven franziu o cenho. Ela sempre esperava ansiosa pela aula de pintura.

– –

Por que será que foi cancelada?

Quem se importa? – perguntou Kelsey. – Agora terei mais tempo para passar no laboratório e trabalhar no meu projeto. E, assim, talvez não tenha que ficar presa em casa o fim de semana todo.

Bem, nesse caso acho que terei tempo para… – Haven interrompeu a frase, sem conseguir pensar em nada para fazer –… ir à biblioteca. Kelsey soltou uma gargalhada.

Você passa mais tempo lá do que em casa. Haven deu de ombros. Aquilo provavelmente era verdade. Depois de se despedirem, Kelsey seguiu para o laboratório no andar de cima e Haven saiu do prédio. Ela caminhou pela rua, sem pressa de chegar a lugar algum, na direção da biblioteca. Sua mente se perdeu em devaneios no meio da multidão, e então ela percebeu que já havia passado de seu destino. Ela ficou confusa e olhou para a placa da rua: Sexta Avenida. Havia uma enorme obra na esquina da avenida do outro lado da rua. O terreno era grande e cercado por outros prédios. A estrutura já havia sido erguida e as barras de ferro juntas mais pareciam um labirinto elaborado. Tudo parecia sujo e caótico, exatamente como Haven havia previsto. Curiosa, a jovem atravessou a rua para olhar mais de perto. A maioria dos operários estava ocupada, operando equipamentos ou escalando a estrutura, mas alguns homens com capacete amarelo estavam de pé conversando. Um ou dois deles olharam para ela. Alguém soltou um assobio quando ela entrou no terreno, mas ela ignorou. Havia um trailer estacionado num dos lados e ela ouviu o barulho suave de um aparelho de ar-condicionado. Algo lhe dizia que se Gavin estivesse presente, era ali que ela o encontraria. Haven sentiu-se deslocada, e manteve a cabeça abaixada ao seguir em direção ao trailer. Ela havia caminhado até lá e achava que seria idiota ir embora sem pelo menos dizer olá. Um homem grande vestindo jeans surrados e camiseta branca estava inclinado no veículo, atirando pedras em algo sobre uma pilha de entulho. Haven se arriscou e olhou para o homem, sentindo as pernas vacilarem ao ouvir um gemido vindo dali. Seus olhos se fincaram no pequeno monte e localizaram a fonte do barulho: um pequeno gatinho branco. Ele mal conseguia se mover; seus pelos estavam manchados de sangue. O gatinho miou novamente e o homem atirou mais uma pedra nele, acertando sua lateral.


– Pare com isso! – disse Haven, horrorizada. – Por que está fazendo isso? O homem olhou para ela com olhos avermelhados, sem considerar as palavras da garota. Ele apenas se virou, pegou outra pedra e atirou no gatinho, que ficou tonto com o golpe. Os olhos de Haven se encheram de lágrimas.

– –

Não faça mais isso!

Cuide da sua própria vida, docinho –o homem resmungou. – Volte para o lugar de onde saiu. Aqui não é lugar para você. Ele pegou outra pedra, mas Haven não se deixaria abalar. Ela correu na direção do bichinho, segurando-o enquanto o homem atirava a pedra, que a acertou no lugar do gato. O golpe atingiu seu tornozelo, mas ela sequer demonstrou alguma dor, apenas segurou o gatinho nos braços.

Mas que diabos está fazendo? – gritou o homem, afastando-se do trailer. Ele deu dois passos na direção dela e logo se aproximou. Por puro instinto, Haven deu um passo para trás. Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, ou correr, a porta do veículo se abriu e ela escutou os risos. Dois homens saíram de lá. O primeiro era mais velho, usava terno e portava uma bengala. Ele acenou a cabeça para cumprimentar a todos antes de seguir até o carro que o esperava. O segundo vestia calças cáqui e uma camisa azul, e foi reconhecido imediatamente: Gavin. Ele se virou para os dois depois que o homem de terno havia partido e o sorriso em seu rosto desapareceu ao ver Haven. Ele franziu as sobrancelhas ao perceber que algo acontecia entre ela e o operário.

– –

O que está acontecendo aqui?

Também gostaria de saber! – exclamou o homem. – Eu estava aqui no meu intervalo, sem fazer nada de mais, e de repente essa garota entra e começa a me dizer o que devo ou não fazer! Acredita nisso? A expressão de Gavin se tornou sombria; seus olhos azuis adquiriram um tom acinzentado e ele ficou furioso. O coração de Haven acelerou e o gatinho começou a miar quando ela o apertou. O Gavin que ela conhecera era amigável, divertido. Ela nunca o havia visto nervoso antes.

– – –

Volte ao trabalho – ele rosnou para o homem. Mas…

Mas nada. Vá. Agora. O homem hesitou por um instante antes de ir embora. Gavin deu alguns passos bruscos até Haven, fazendo com que ela mais uma vez recuasse, mas ele não parou.

O que foi que aconteceu?


Ah, eu… O gatinho estava machucado e ele estava atirando pedras nele. Eu disse a ele que parasse, mas ele não parou. Então o gatinho miou. Eu não podia ficar somente olhando. Eu tinha de ajudar! Ele ficou bravo e então você saiu do trailer, e ele disse o que aconteceu e ah…

E aqui estamos nós? – ele completou. Haven assentiu com a cabeça, evitando os olhos do rapaz, que se aproximou, fazendo a garota se encolher, mas ele pareceu não reparar. Gavin pegou o gato dos braços dela.

Parece bem machucado – ele disse, avaliando a situação. – Há um abrigo para animais a alguns quarteirões daqui. Posso levá-lo até lá.

– – – –

E eles a ajudarão? – ela perguntou. É possível – ele respondeu. – E é um macho. Ah – ela franziu as sobrancelhas. – Oque quer dizer com “é possível”?

Bem, eu quis dizer que ou eles irão ajudá-lo ou… o colocarão para dormir. Haven se contraiu como se ele a tivesse ferido com aquelas palavras.

– –

E por que eles o fariam?

A cidade está cheia de animais sem dono. Tenho certeza de que o abrigo recebe mais deles do que pode dar conta. Talvez não valha a pena salvá-lo. Horrorizada, Haven arrancou o gatinho das mãos dele.

Eles não podem simplesmente matá-lo! Isso não é justo! Ele não fez nada de errado! Surpreso com aquela reação, Gavin deu risada e ergueu os braços defensivamente.

– – – – –

Caramba, tudo bem, relaxe. Há outras opções. Por exemplo? Bem, você pode deixá-lo ir, e talvez ele seja capaz de se curar sozinho. Fora de questão. O que mais? Você também pode levá-lo a um veterinário.


Ela olhou para o gato antes de olhar de volta para o rapaz.

– –

E você conhece um bom veterinário?

Acho que conheço um lugar – ele respondeu, olhando-a com curiosidade. – Mas o que você faz aqui? Digo, não entenda mal. É uma ótima surpresa, mas, ainda assim, uma surpresa. Eu estava prestes a ir até a escola.

Minha aula foi cancelada – ela respondeu. – Eu estava indo para a biblioteca e acabei vindo parar aqui. Gavin a olhou sem acreditar.

– –

Você acabou vindo parar aqui?

É. E já que estava aqui pensei em dizer olá, então… Olá. Um sorriso orgulhoso surgiu em seus lábios.

– – –

Então você deve ter sentido minha falta. E por que você acharia isso?

Porque não me viu ontem e não iria me encontrar hoje se não teve aula. Já estamos no final da semana, isso quer dizer que teria que esperar até segunda para me ver novamente. E isso é muito tempo. Ela revirou os olhos diante daquele tom esnobe.

– – – – – –

Não foi nada disso. Admita de uma vez – ele disse. – Você sentiu minha falta. – Não. Você gosta de mim. Não. Nem um pouquinho?

Bem, talvez um pouquinho – ela admitiu. – Mas só como amigo – ela esclareceu. – Nada mais que isso. Gavin acenou negativamente com a cabeça e deu um passo atrás.

Espere aqui. Vou pegar o endereço do veterinário.


Ele retornou ao trailer enquanto Haven se afastou ainda mais, acariciando o animal. Ele a olhou com olhos azuis bem vivos, que em nada combinavam com seu corpo machucado.

Bolinha de Neve – ela sussurrou depois que as palavras surgiram em sua mente. – Eu vou chamá-lo de Bolinha de Neve. Gavin saiu do trailer, parou nos degraus e fez um gesto para o homem que atingira o gato. A firmeza voltara à sua voz e mais uma vez sua expressão se tornou rígida. O sujeito se aproximou e Haven viu quando ele disse algo em voz baixa. O homem baixou a cabeça e soltou os ombros, sentindo-se envergonhado. Ele fez um aceno antes de se virar e caminhar na direção de Haven.

Sinto muito, senhorita – ele resmungou, recusando-se a encará-la. – Espero que aceite meu pedido de desculpas. Não sou do tipo que machuca gatos ou coisa do tipo. Só estava me divertindo. Mande a conta do veterinário e o senhor Amaro descontará do meu pagamento. Surpresa, Haven conseguiu apenas balbuciar:

Tudo bem. Gavin se aproximou dela logo que o sujeito voltou ao trabalho e deu-lhe um pedaço de papel com um endereço e um telefone.

– –

Obrigada – ela disse. – E o que foi que você disse a ele para que se desculpasse?

Eu só disse a ele quem você é. Ela ficou tensa ao ouvir aquelas palavras.

E quem sou eu? Gavin olhou para ela e a encarou por um momento antes de responder. Com as sobrancelhas erguidas, como se a pergunta o tivesse pego de surpresa, ele disse:

– – –

Uma amiga minha, é claro. Ah.

De qualquer modo, quer que eu a acompanhe? – ele perguntou. – Não fica longe, apenas um quarteirão voltando pelo mesmo caminho. Podemos caminhar. Ela olhou para o endereço no papel.

– –

Não quero fazê-lo sair mais cedo do trabalho. Está tudo bem – ele disse. – Eu já estava mesmo de saída.


Poucas horas mais tarde, os dois estavam sentados em cadeiras plásticas azuis na movimentada sala de espera de uma clínica veterinária de emergência. Haven parecia nervosa, movimentando as mãos sem parar. Suas costas já começavam a doer por causa da cadeira desconfortável. Uma enfermeira chamou pelo nome de Haven, que deu um pulo e caminhou na direção dela sem esperar por Gavin.

O gatinho ficará bem – disse a mulher. – Nós o limpamos e cuidamos do ferimento. É apenas um pequeno corte que deve cicatrizar logo. Ele também tinha muitas pulgas, mas já cuidamos disso. Enfim, não houve nada de mais com ele. Já pode levá-lo para casa agora. Sorrindo aliviada, Haven assinou a papelada antes de pegar o gato e se juntar a Gavin. Ambos saíram da clínica com o gatinho dormindo nos braços de Haven. O sol já estava se pondo e a maior parte do dia havia passado.

Então, o que pretende fazer com o gatinho? – perguntou Gavin. – Vai ficar com ele? Ela franziu a testa.

– – –

Não sei se tenho permissão para ter animais de estimação. Pode tentar encontrar um lar para ele– sugeriu Gavin. – Coloque um anúncio no jornal.

Mas e se alguém mau responder, como aquele sujeito com quem você trabalha? Gavin soltou um suspiro.

Não sei. Estou sem ideias. A menos que eu o leve para minha casa. A expressão de Haven se iluminou.

Você faria isso?

Ele ficou branco.

– –

Como?

Você ficaria com ele? – ela perguntou. – Sei que você seria bom para ele. Gavin hesitou, abrindo e fechando a boca algumas vezes antes de dar de ombros e soltar um suspiro. – Caramba, por que não? Haven sorriu, segurando o gatinho de pé e movendo suas patinhas na direção de Gavin.

Bolinha de Neve te agradece. A clínica ficava próxima à escola de arte. Todos os alunos já haviam saído para o fim de semana quando os dois seguiam pela calçada.

É uma longa caminhada daqui até a obra – Haven percebeu. – Afinal, o que você vem fazer aqui toda hora?


Ah, não é tão longe assim – ele disse.– Dez ou quinze minutos, no máximo. Eu vim aqui na primeira vez para ir à confeitaria.

E quanto a todos os outros dias? Ele deu de ombros.

Vim pela companhia. Haven ficou vermelha. Ambos conversaram de modo casual enquanto caminhavam – sobre o gato, a escola e até mesmo sobre o tempo. Levou quase meia hora para chegarem ao bairro onde Haven morava, embora geralmente o trajeto demorasse metade do tempo.

Sinto muito que tenha demorado tanto– disse Haven, parando diante do prédio quando

Não me importo – ele respondeu, erguendo os ombros. – Não tinha nada de importante

chegaram.

para fazer.

– –

E quanto ao trabalho? Eles não o esperavam de volta?

Eu faço meu próprio horário de trabalho, então isso não é um problema. Entro e saio quando quero. Ela o olhou com curiosidade. Ele realmente parecia não se importar.

– –

Sabe, você é muito legal. Não são muitas as pessoas que fariam o que você fez.

Será que isso fez com que gostas sede mim só um pouquinho mais? Ela sorriu.

casa.

– –

Talvez. Posso dizer que sim – ele disse fazendo uma careta. – Você me permitiu trazê-la até sua

Haven o olhou com surpresa. A ficha não havia caído até aquele momento. Depois de ele ter se oferecido tantas vezes para acompanhá-la e ela ter recusado, a jovem deixou que ele o fizesse sem que ele tivesse de pedir. Mas antes que a garota tivesse tempo de responder, a porta da frente se abriu e Kelsey apareceu, falando em voz alta em seu celular. Ela olhou para os dois e sua expressão se iluminou, antes de voltar a atenção para o telefone. Então, procurou um carro na rua e começou a abanar o braço como uma maluca.

Já está me vendo? Sim, é. Encontre um lugar para parar. Ela desligou e deu um gritinho.


E aí, pessoal? O que estão pretendendo fazer? Haven ergueu o animal.

– –

Eu encontrei esse gatinho, então Gavin foi comigo até o veterinário.

Daí eu a acompanhei até em casa –disse ele, com um tom orgulhoso. Haven revirou os olhos no momento em que Kelsey começou a brincar com o bichinho. – Bem, mas eu já estava indo embora. A atenção de Kelsey imediatamente se voltou para Gavin.

Indo embora? De jeito nenhum! Eu chamei alguns amigos… Vamos beber alguma coisa e nos divertir. Você precisa se juntar a nós, aliás, os dois. Haven acenou negativamente com a cabeça, mas um sorriso se abriu no rosto do rapaz.

– –

Fala sério?

Claro – disse Kelsey. – Será legal! Os amigos de Kelsey começaram a aparecer, sendo que alguns deles Haven só vira de longe, mas ninguém que conhecesse. Todos pareciam sociáveis, mas ela preferia se manter quieta. Todos desapareceram dentro do prédio, reunindo-se no segundo andar. Erguendo as sobrancelhas, Gavin olhou para ela com uma interrogação, esperando sua reação.

Bem, você vai me convidar pra entrar? Ela deu de ombros.

– –

Kelsey já o convidou.

Mas não vim até aqui por causa de Kelsey, portanto, não entrarei a menos que você me convide. Haven considerou aquelas palavras, sem saber direito como responder. Aquele fora um longo dia e ela realmente gostaria de tomar um banho e talvez ler um livro, mas quando a música começou a tocar no andar de cima, tão alto que as janelas balançavam, Haven soube que não teria nenhum momento de paz.

Muito bem – é melhor seguir a onda, ela pensou consigo mesma. Viva um pouco – Então vamos subir.

– –

Mas que tipo de convite é esse? O único tipo que irá receber.


Gavin deu risada e educadamente abriu a porta do prédio e colocou a mão nas costas dela, com suavidade. Passando pelo próprio apartamento, ela subiu a escada, ciente do olhar de Gavin sobre ela enquanto seguia adiante. Aquilo fez sua pele arrepiar e seu estômago apertar. O apartamento de Kelsey, embora idêntico ao de Haven no formato, era completamente diferente do seu; era como se tivesse entrado em outro mundo. Tudo era novo e brilhante; os móveis eram caros e preenchiam todos os cômodos. Havia belas obras de arte nas paredes. Haven sentou-se no primeiro lugar que encontrou vago, uma poltrona de couro com braços felpudos. Ela tirou os sapatos e levantou as pernas, sentando-se sobre elas, segurando com cuidado o gatinho no colo; Gavin se sentou casualmente no braço da poltrona. Só demorou alguns segundos para que Kelsey trouxesse bebidas para ambos. Com um sorriso no rosto, Haven optou pelo coquetel de limão, mas Gavin olhou com aversão para a garrafa de bebida com um líquido amarelo.

– –

Não consigo beber essa merda – disse para si mesmo em voz baixa.

Tenho certeza de que ela tem alguma outra coisa – disse Haven, apontando para o outro lado da sala. – A cozinha fica bem ali. Pode se servir, Kelsey não irá se importar. Ele se levantou e olhou para ela.

– –

Vai beber isso?

Sim – ela respondeu. – Acho que sim. Gavin caminhou até a cozinha segurando a garrafa na mão e entregando-a para Kelsey. Haven o observou com curiosidade, aproveitando para admirar o modo como ele naturalmente se entrosou com o grupo. Equilibrado e confiante, ele conversava com estranhos como se já fossem amigos. De repente, ela sentiu um pouco de inveja daquilo. Seria ciúmes pelo fato de ele estar compartilhando sua presença com outros, ou apenas por ele ter se integrado sem fazer o menor esforço? Ela acreditava que fosse a segunda opção, mas a mera possibilidade de que ela desejasse mantê-lo para si mesma a deixou desconfortável. Gavin retornou com um copo de plástico e sentou-se novamente no braço da poltrona. Ele tomou um gole de sua bebida e sorriu.

– – –

Bem melhor. O que é isso? – ela perguntou curiosa, olhando para o copo. – Cerveja?

Chama-se Mountain Dew. Haven tomou um gole de sua bebida e enrugou os lábios.

– –

Você não bebe? Sim – ele brincou. – Bebo água, leite e refrigerante.


– – –

Mas não bebe álcool? Não tenho esse hábito – ele respondeu.

Também não bebo – ela disse, elaborando melhor a resposta ao vê-lo franzir a testa. – Não, não normalmente. Não tenho idade para isso.

Bem, eu tenho idade suficiente, mas prefiro me manter sóbrio e no controle. Haven o olhou enquanto ele tomava um gole de seu refrigerante. Sua pele suave não revelava sua idade. Os olhos dele eram brilhantes e encorajadores, e seu sorriso, genuíno. Ele tivera uma vida tranquila, e isso parecia claro, mas pequenas cicatrizes em suas mãos diziam que o rapaz lutara pelo que tinha. Gavin se virou para ela como se pudesse sentir o olhar da garota.

– – – – –

O que foi? Quantos anos você tem? – perguntou. Vinte e seis. Uau, você é … Velho demais? – ele tentou adivinhar.

Ela riu.

Não, ia dizer que parece jovem demais para ser um gerente. Gavin franziu as sobrancelhas.

– –

Gerente?

Na obra. Você trabalha naquele pequeno escritório. Disse que supervisionava as coisas, certo? O rosto do garoto se iluminou, compreendendo finalmente o raciocínio da jovem.

Ah, claro. Bem, o que faço tem menos a ver com currículo e mais com preferências… Se é que isso faz sentido. Haven acenou com a cabeça.

Sim, claro. Afinal, fora justamente assim que ela própria chegara onde estava, fora admitida na escola e se mudara para Nova York. Corrado havia mexido alguns pauzinhos, é claro, passado por cima das leis e manipulado o sistema para beneficiá-la.


Haven ficou olhando para sua bebida enquanto pensava sobre tudo aquilo. Apesar de tomá-la em goles pequenos, ela podia sentir o álcool fazendo efeito em seu corpo em apenas alguns minutos, e relaxou as costas no encosto da poltrona. Suas pálpebras ficaram pesadas. Ao sentir-se tonta, sua cabeça flutuava e seu corpo formigava, aquecendo-se levemente sob o intenso olhar de Gavin. Ele continuou acomodado no braço da poltrona, sem desviar a atenção. Ela se desculpou quando sua bebida acabou e foi à geladeira pegar outra, ficando ali um momento para clarear a mente antes de voltar à sala movimentada. As pessoas estavam jogando, e as risadas reverberavam pelo apartamento e se misturavam à música. Ela havia acabado de se sentar no mesmo lugar e abrir sua garrava quando Kelsey gritou:

Ei, venham jogar com a gente! Haven ergueu a cabeça e olhou para os convidados da amiga.

– –

Jogar o quê?

“Eu nunca” – respondeu Kelsey. – Vamos, é fácil. Os participantes se revezam dizendo coisas que jamais fizeram na vida, e todos que já o fizeram têm de beber um gole. Haven ficou corada quando todos se voltaram para ela, que olhou Gavin, esperando desviar a atenção de si mesma. Ele ergueu os ombros e respondeu:

Claro, por que não? Todos se mudaram para a sala de estar. Uma dúzia de pessoas se reuniram no mesmo local e o volume da música foi reduzido para que todos conseguissem ouvir as declarações dos participantes. Nunca fiz sexo em casa quando meus pais estavam lá. Nunca fiquei embriagado. Nunca usei uma identidade falsa. Nunca fiquei bêbado numa festa da escola. Nunca dirigi um carro sem carteira de motorista. Todos riam e levantavam as mãos, dando tapinhas e relembrando experiências compartilhadas, enquanto Haven apenas tomava sua bebida, gole após gole. No final, ela bebeu muito mais do que esperava, considerando a vida regrada que tinha. Percebeu à medida que o álcool gradualmente invadia sua corrente sanguínea, que estava ficando confusa e perdendo o controle sob as próprias emoções, recordando-se das várias experiências às quais Carmine inconscientemente a expusera. Suas vidas haviam sido tudo, menos normais; seu amor podia ser chamado de tudo, menos comum. De algum jeito, ele conseguiu mostrar a ela o mundo que todas as outras pessoas conheciam; o mundo do qual ela sempre quisera fazer parte, aquele em que ela imaginava ter acabado de entrar. Aos poucos, o jogo se tornou mais intenso e as afirmações mais pesadas e rudes. A garota não voltou a beber tanto, mas o que ingerira até então ultrapassara um ponto sem retorno. Gavin participou do jogo, tomando goles de seu refrigerante ao ouvir coisas que faziam Haven ficar vermelha só de imaginar. Ele ria das reações dela, sorrindo com certa culpa diante das perguntas que brotavam nos olhos dela.

Nunca fui algemado – alguém disse.


Com a garrafa a meio caminho dos lábios, Haven hesitou ao lembrar-se do doutor DeMarco e do dia em que ele a algemara na cama como forma de punição. Ela bebeu um pequeno gole e Gavin ergueu uma sobrancelha ao ver aquilo antes de tomar sua bebida.

Não pergunte – ela sussurrou, acenando negativamente com a cabeça. Ele não queria saber. Mais algumas perguntas foram colocadas, algumas bastante grosseiras que, por alguns segundos, suspendiam os efeitos do álcool. Foi então que alguém disse:

Nunca vi um cadáver! Todos riram na sala, outros reviraram os olhos diante do absurdo, mas Haven empalideceu ao lembrar-se de todas as mortes, do caos e da destruição que vivenciara. Ela viu diante dos olhos o corpo da número 33, com aqueles olhos azuis sem vida que tanto a assombravam e o sangue escorrendo ao redor dos cabelos loiros. Fechando os olhos, ela tomou um longo gole de sua bebida e acabou virando o resto do conteúdo, tentando apagar as memórias. Talvez ela houvesse apenas imaginado aquilo, ou, quem sabe, fora apenas uma coincidência, mas ao reabrir os olhos Haven percebeu que Gavin também havia bebido. O jogo chegou ao final e as pessoas começaram a se dispersar em busca de mais bebidas. O volume da música voltou a aumentar. Gavin soltou um longo suspiro e olhou para o relógio, colocando-se de pé.

Está ficando tarde. Haven olhou para os lados em busca de um relógio, mas sua visão estava embaralhada demais para enxergar os números. Ficou de pé, ainda com o gatinho nas mãos, e se sentiu um pouco tonta. Gavin segurou seu cotovelo para equilibrá-la, pegando de suas mãos tanto a garrafa quanto o gatinho.

É melhor eu levá-la para casa – ele disse em voz baixa. – Você está bêbada. Apesar das objeções de Kelsey, Gavin levou Haven embora. Ele a ajudou a descer a escada, fazendo uma pausa no hall do lado externo enquanto ela tentava encontrar a chave certa.

Obrigada novamente por esta noite. A gente se vê na segunda. Ela se virou para entrar, mas o rapaz a interrompeu.

– – –

Vamos nos ver antes? O quê?

Vamos sair juntos. A cor desapareceu do rosto de Haven no momento em que ele pronunciou aquelas palavras.

– –

O que disse? Amanhã. Saia comigo amanhã.


Não posso – ela disse, negando coma cabeça. – Já tenho outros planos. Na biblioteca, ela pensou, mas evitou dizer aquilo em voz alta.

Então no dia seguinte – ele insistiu. –Saia comigo no domingo.


Capítulo 33 Haven estava nervosa e não parava de mexer com as mãos, olhando para as grossas cortinas brancas que adornavam sua sala de estar. Era início da tarde de domingo e a movimentação naquela região de Manhattan era intensa, como sempre. Havia turistas nas ruas, misturando-se aos moradores, e também vendedores de rua. Em geral, observar toda aquela atividade tranquilizava Haven, mas naquele dia cada movimento a deixava mais nervosa.

Relaxe – disse Kelsey, atirando-se no sofá de Haven com o controle remoto na mão. – Não há motivo para ficar estressada. Haven acenou com a cabeça.

– –

Ele deve chegar logo.

E daí? É domingo. Não é como se fosse um encontro romântico ou algo assim. Não era um encontro romântico. Haven tentava dizer a si mesma, mas as palavras não pareciam funcionar. Aquilo certamente parecia um encontro para ela.

– –

Então o que é? – ela perguntou.

Apenas duas pessoas se reunindo para fazer o que quer que gostem de fazer – retrucou a amiga. – Pessoalmente, a menos que envolva sexo ou bacon, não vejo razão nenhuma para fazer qualquer coisa no domingo.

– –

Bem, não faremos isso – Haven resmungou.

Sem bacon? Ele não é veja no, é? Não confio em homens que não comem carne. Haven sentiu o rubor nas bochechas.

Estou falando de sexo. Ela mal conseguiu pronunciar aquelas palavras. Kelsey caiu na risada.

Que pena. Eu ainda tinha esperanças por você. Meneando a cabeça, Haven olhou mais uma vez pela janela e o viu caminhando pelo quarteirão em meio à multidão. Ele estava impecável, com calças pretas e uma camisa branca. Os sapatos pretos brilhavam sob a luz da tarde. Ele tinha uma gravata escura meio solta em torno do pescoço. Andava de um jeito confiante, parecendo tranquilo e seguro. Vê-lo ali fez com que a jovem se sentisse tonta.

Caramba, não entendo por que está em pânico por causa disso – disse Kelsey. – Você vê esse cara o tempo todo.


Era diferente daquela vez, mas Haven sabia que a amiga jamais compreenderia. Kelsey estava sempre namorando, encontrando caras novos a cada semana, mas ela não era assim. Não tinha o menor interesse em namorar. As caminhadas nas tardes depois das aulas e as conversas amigáveis entre os dois eram coisas inocentes. Mas isso… isso fora planejado. Era um encontro marcado e artificial. E, para ela, aquela era a diferença entre amizade e algo mais. Aquele simples pensamento de alguém querer algo mais com ela a deixava completamente agoniada. Ela soltou a cortina, ajeitando as roupas no momento em que Gavin bateu à porta. Sentiu-se mal vestida usando calça jeans e uma blusinha rosa. E o que as pessoas vestem numa ocasião que “parece com um encontro, mas que de fato não é”?

faria.

faria.

Divirta-se – disse Kelsey, com um olhar travesso nos olhos. – E não faça nada que eu não

Não se preocupe com isso – resmungou Haven. – Eu não farei nem a metade do que você Haven abriu a porta, sorrindo um pouco sem graça ao se deparar com Gavin.

– – –

Olá. Olá – ele disse. – Já está pronta?

Ah, sim – ela disse, arriscando um passo fora do apartamento. – Minhas roupas estão adequadas, não é? Os olhos dele a mediram da cabeça aos pés diante da pergunta. A pele da jovem ficou toda arrepiada.

– – –

Claro, por quê? Não sei – ela respondeu. – É que você está todo arrumado e…

Ah, é verdade, acho que eu exagerei um pouco – ele disse, olhando para si mesmo e fazendo um movimento para frente e para trás, como se estivesse sem graça. – Mas você está ótima para o que tenho em mente. Haven fechou a porta e deu mais um passo na direção dele.

E o que você tem em mente? Ele enfiou as mãos nos bolsos no momento em que eles saíram do prédio e, em seguida, acenou para que ela o seguisse.

– –

Pensei que poderíamos caminhar ou algo assim. Mas isso nós fazemos todos os dias.


É verdade – ele riu. – Funciona para nós, não é? Vamos ver aonde o caminho nos leva. Digo, a menos que queira…

Ah, não – ela o interrompeu, sentindo sua ansiedade diminuir. – Caminhar é ótimo. Afinal, talvez aquilo não fosse mesmo um encontro. Os dois andaram pelas ruas e Gavin logo começou a conversar. O bate-papo normal continuou até que chegaram ao metrô na rua 23. Haven congelou na plataforma depois que os dois compraram suas passagens; seus olhos observavam as outras pessoas que esperavam o trem. Atrás dela se estendia uma parede de azulejos brancos, e o piso de concreto estava coberto de lixo. De repente, ouviu uma sirene e uma voz nos altofalantes que abafava a conversa das pessoas. Pessoas empurravam, outros gritavam e a velocidade com que os trens passavam levantava a sujeira e evidenciava ainda mais o cheiro de urina do local. Havia o som de eletricidade no ar, as luzes piscavam e as portas faziam barulho ao abrir e fechar, antes de os vagões partirem. Aquilo tudo parecia bastante contraditório. A movimentação era, ao mesmo tempo, ruidosa e caótica, mas também organizada, como uma gigantesca linha de montagem. Tudo era automatizado, robótico, quase não humano. Pessoas preenchiam os vagões e se moviam para dentro e para fora de uma maneira metódica, como em um relógio. O mundo ali embaixo era completamente diferente; um universo que Haven jamais imaginara que existisse sob a superfície. Os olhos arregalados da jovem observaram todo o cenário, absorvendo tudo em completo silêncio. Gavin percebeu aquela expressão e franziu o nariz.

– – –

É, eu sei, esse lugar é mesmo horroroso. Não, é… Ah… É que eu nunca havia andado de metrô antes. Nunca?

Ela acenou a cabeça.

– –

Nunca.

Mas como pode viver em Nova Yorke não usar o metrô? – ele perguntou. – Como chega ao outro lado da cidade?

– – – –

Ela acenou que não.

Eu não chego. Nunca estive lá. Nunca? Nunca. Madison Square Garden?


– – – –

Times Square? Não. Broadway?

Não. Um trem parou na plataforma e as portas prateadas se abriram. As pessoas se moveram e Gavin colocou as mãos nas costas de Haven, guiando-a para dentro do vagão todo grafitado. Ele forçou o caminho pela multidão, protegendo-a com o próprio corpo. Ela se sentou no último banco de plástico disponível. Sua figura pequena e delicada ficou espremida entre um adolescente que ouvia música e acompanhava o ritmo e um sujeito careca e gordo que cheirava mal, meio caído para o lado e roncando. Gavin ficou de pé na frente de Haven, encostado a uma barra de metal. As portas se fecharam e quando o trem partiu todos se desequilibraram um pouco, o que fez com que ela se aproximasse ainda mais do dorminhoco, que sequer percebeu. O piso abaixo de seus pés vibrava à medida que o trem deslizava sobre os trilhos velhos. Havia ainda um som metálico e o piscar das luzes no vagão lotado. O coração de Haven bateu mais forte em seu peito. Era uma mescla de medo e euforia. Seu rosto ficou vermelho ao perceber os olhos de Gavin fixos sobre ela, demonstrando curiosidade. Ela desviou o olhar e baixou a cabeça de um jeito tímido. Estavam tão próximos que seus joelhos quase se tocavam; as pontas dos pés se mantinham encostadas. Naquele momento ela comparou os calçados: os dele eram brilhantes, novos e pretos; os dela eram velhos e estavam gastos e sujos. Num impulso, ela deslizou os pés para trás antes de se arriscar a olhar novamente para o rosto do rapaz. Ele também havia reparado nos sapatos. Os olhos dele se mantinham fixos na jovem e ela podia sentir aquilo. Havia com certeza muitas perguntas por trás de sua expressão curiosa, mas ele não fez nenhuma. Depois de alguns minutos, os freios a ar foram acionados e ela ouviu um som que se parecia com fogos prestes a explodir. Haven se segurou no assento, com cuidado para não trombar em ninguém enquanto o trem parava. As portas se abriram e Gavin a levou para outra plataforma, em que estava escrito “COLUMBUS CIRCLE” num mosaico na parede.

Onde estamos? – perguntou Haven enquanto ele a puxava por entre a multidão. O fato de ela estar numa área da cidade em que nunca estivera a fazia sentir-se tensa e entusiasmada.

Você logo verá – ele respondeu. Ela o seguiu para fora da estação e até a rua acima. No momento em que pisou ali, algo dentro dela despertou. Ela então viu, exatamente como ele prevera. A visão infinita das árvores; uma floresta bem no coração daquela cidade borbulhante.

– –

Central Park – disse Gavin. – Já esteve aqui? Nunca – ela sussurrou. – Mas sempre tive vontade de vir.


Bem, então venha – Gavin acenou com a mão e esboçou um sorriso. – Nada poderá impedi-la agora. Nada poderá impedi-la agora. Haven seguiu Gavin até o outro lado da rua e ambos passaram por uma enorme estátua e adentraram o parque. Ambos caminharam lado a lado em silêncio, enquanto Haven admirava as árvores enormes que os cercavam, como gigantescos guarda-chuvas. A luz do sol filtrava por entre os galhos e formava manchas mais claras nas trilhas. O calor forçava seu caminho por entre as sombras. Haven adorou a sensação, pisando em cada mancha de sol que aparecia pela frente e olhando para o céu com um sorriso nos lábios. O paraíso, ela pensou. Parecia mesmo como se ela estivesse num pedaço do paraíso.

Então, o que gostaria de fazer? – perguntou Gavin. Haven ergueu as sobrancelhas. – Nós já não estamos fazendo?

– –

Bem, podemos apenas passear, se quiser, mas há muito mais para se fazer aqui.

Jura? Pensei que fosse só um, você sabe, um parque… – ela fez um giro com o corpo – … cheio de árvores. Ele riu.

De jeito nenhum. Venha, vou te mostrar.

Estátuas, pontes, trilhas, vida selvagem… Horas se passaram enquanto Haven absorvia tudo. Eles assistiram a um show de marionetes e ela brincou no parque antes de explorarem o zoológico e alimentarem os patos no lago. Gavin a ensinou a jogar xadrez e deliberadamente a deixou ganhar. Também comprou sorvete de um vendedor que passava pelo local. Havia música, jogos, risadas e entusiasmo. Ela cantarolou diante da torre do relógio musical enquanto olhavam as pessoas jogando frisbee e plantando árvores. Para todos os lados que olhava achava algo novo, diferente e, pouco a pouco, ela foi baixando a guarda. A mágoa que carregava consigo dera uma trégua, e esperança e alegria voltaram a preencher o vazio que havia ali. A jovem obstinada, contida e desconfiada nem percebeu quando sua vulnerabilidade se tornou aparente. Pedacinhos da verdadeira Haven Antonelli começaram a brilhar outra vez.

Vamos comer alguma coisa – sugeriu Gavin. Já estava ficando tarde e o sol já ia se por. – Não comemos nada o dia todo.

Eu tomei sorvete, lembra?


Isso não conta – ele retrucou, rindo.– Conheço um lugar legal. Podemos jantar e daí eu te levo para casa, afinal, você tem aula amanhã cedo.

– –

E você tem que trabalhar – ela disse.– Você costuma levantar muito cedo? Não, eu levanto na hora que quero –respondeu o rapaz. – Faço meus próprios horários,

lembra-se?

– –

É verdade. Seu pai também está na área de construções?

Mais ou menos – ele disse, franzindo o cenho ao olhar para o relógio. – Meu pai está envolvido numa variedade de negócios. Ambos saíram do Central Park e pegaram o metrô de volta até a rua 23. Durante o trajeto, Gavin sentou-se ao lado da garota, uma vez que havia um número bem menor de passageiros naquele horário. Eles desembarcaram na estação de destino e caminharam cerca de um quarteirão até um restaurante. Havia grandes janelas na construção de tijolos e Haven viu apenas umas poucas mesas no interior. Eles se acomodaram no salão, numa mesa para dois. Gavin pediu legumes ao curry e macarrão apimentado, sem sequer olhar o menu. Haven pediu um cheeseburguer e batatas fritas. Ambos se mantiveram em silêncio enquanto aguardavam os pedidos, apenas bebericando seus drinques e descansando os pés depois de andar tanto. Levou uns dez ou quinze minutos até que a comida chegasse à mesa. Depois de alguns segundos, Gavin limpou a garganta e disse:

– – –

Posso lhe fazer uma pergunta? Claro – ela respondeu, enfiando uma batata na boca.

Quem é você? Ela parou de mastigar.

– –

O quê?

É só que, você sabe… Você não se parece com ninguém que eu conheça. Há algo de diferente em você. Naquele instante, Haven sentiu que um muro se erguia entre os dois. O diferente não se misturava. O diferente não estava se mantendo longe dos holofotes. O diferente não fazia parte dos planos.

Como assim diferente? De que jeito? Ele ergueu os ombros.

nem fez nada.

Você vive em Nova York, mas não conhece nada da cidade. Você nunca foi a lugar algum


Haven não fazia ideia de como responder àquilo. Ela engoliu fundo e perdeu o apetite.

Nasci numa cidade muito pequena e nunca tive a oportunidade de ir a lugar nenhum. De fato, não havia nenhum lugar para ir, mesmo que eu pudesse. Só tinha minha mãe, mas ela não podia me levar para conhecer as coisas. Meu pai… Bem, eu nunca tive um pai de verdade, e então minha mãe morreu e… aqui estou eu, acho. Ela tropeçou nas próprias palavras, encolhendo-se ao lhe dar aquela explicação. Embora tudo fosse verdade, tecnicamente aquilo era uma mentira; uma omissão. Era o que se poderia chamar de meia verdade e, pelo que a jovem percebeu, tudo o que poderia lhe oferecer.

Você tem outros familiares, certo? Tias? Tios? Primos? A pergunta fez com que Haven se recordasse do último Natal em Durante. Dominic, Tess, Dia, Celia, Corrado, doutor DeMarco e… Carmine. Apesar de eles não serem sua família de verdade, eram a única que ela conhecera.

– – –

Sim, mas não tenho muito contato com eles. E por que não? Não sei. – Daquela vez ela estava sendo inteiramente honesta. – Todos moram muito

longe.

Então o que faz aqui? Haven começou a responder, erguendo a cabeça, mas suas palavras cessaram quando olhou para trás de Gavin. Seu olhar foi atraído para o pátio na parte de trás do restaurante, onde havia uma fileira de vasos com palmeiras alinhadas a um corrimão.

– –

Palmeiras.

Palmeiras? – ele perguntou, atraindo novamente a atenção da jovem ao falar. – Foi por isso que veio para cá?

Ah, não, bem… – ela deu risada e lágrimas surgiram em seus olhos. – Na verdade, não achei que houvesse palmeiras em Nova York. Ele olhou por sobre o ombro.

Ah, sim, eles as importaram. Para criar o ambiente. É meio esquisito, mas sei lá. Gavin não continuou a questioná-la, mas o dano já havia sido causado. Haven ficou distraída e seus pensamentos se voltaram para o passado enquanto ela continuava a olhar para as árvores. Seu prato permaneceu intocado. Sentia falta de todas aquelas pessoas, mais do que gostaria de admitir, porém, mais do que tudo, ela sentia falta dele. Ela tentava não pensar a respeito de Carmine, mas às vezes aquilo era inevitável. De vez em quando algo pequeno reabria a ferida, fazendo com que se lembrasse novamente de tudo que tentava esquecer.


Não ele, ela jamais o esqueceria, mas o fim do relacionamento. A devastação. O adeus. Ou talvez a falta de adeus. O que houve entre eles não havia terminado e, sem isso, aquela ferida jamais cicatrizaria. Ela ficaria ali para sempre, abastecida pela imaginação do que poderia ter sido. E o que poderia ter sido? Poderia ter sido Carmine passeando com ela e explorando o Central Park, conhecendo Nova York. Poderia ter sido Carmine ali à frente dela, sem fazer perguntas. Afinal, ele já conhecia a verdade. Ele conhecia o passado dela. Ele sabia de onde ela tinha vindo. Ele compreendia tudo pelo que ela havia passado. Mas não era ele e, enquanto estava sentada ali, ela permitiu que o vazio retomasse seu lugar dentro dela. Gavin pagou a conta no fim do jantar. Eles saíram do restaurante sem dizer uma palavra no caminho entre o restaurante e o apartamento. Ele esticou o braço e pegou a mão dela, entrelaçando os dedos. Haven não puxou a mão, não lutou contra isso. Suas emoções estavam à flor da pele e se sentia como numa montanha russa, confusa e desconcentrada.

– – – – – – – –

Obrigado pelo dia de hoje – disse Gavin, parando na frente do prédio. Não, eu é que agradeço a você. Foi muito legal. Legal – ele repetiu aquela palavra olhando-a de um jeito peculiar. – Nada além de legal? Não me entenda mal. Passei uma tarde maravilhosa e eu realmente gosto de você. Mas? Mas é que… Nada além disso – ele completou.

É – ela suspirou. – Não é nada com você. O problema é comigo, eu acho. Ele soltou uma risada repentina e abrupta que a pegou de surpresa.

eu”?

Você pretende mesmo usar a velha desculpa do “não é nada com você, o problema sou

Não. Bem… Sim. Mas é verdade. Você é um cara muito legal e tem uma personalidade que eu aprecio muito, mas…

– –

É isso que dizem para pessoas feias

ele retrucou. Ela revirou os olhos.


Não, não é. Estou sendo honesta. E, além do mais, você não é feio. Você é muito bonito. – Ela sentiu o rosto corar ao dizer aquilo. – Aliás, muito bonito.

Então qual é o problema? Ela olhou para as mãos ainda atadas.

Não sinto uma faísca dentro de mim. Não há eletricidade entre nós. Não vejo relâmpagos ao olhar para você. Algo surgiu nos olhos dele; as feições se tornaram mais suaves no momento em que ele soltou a mão dela.

– – – –

Ah, entendo. Eu sinto muito – ela disse. Não sinta – ele respondeu. – Você não me fez nenhum mal.

Tem certeza? Ele sorriu de maneira genuína.

– – –

Certeza absoluta. Mas eu realmente me diverti muito –ela disse. – Fico feliz em ter saído com você.

Eu também – ele retrucou, dando um passo atrás e enfiando as mãos nos bolsos. – Bem, acho que tenho que ir. Tenha uma boa-noite. Ele foi embora sem dizer mais nada, caminhando pela rua e desaparecendo na escuridão.

Na segunda-feira, Haven saiu do prédio no horário de sempre e logo viu Gavin encostado na parede. Eles trocaram sorrisos e caminharam juntos até a biblioteca, conversando como de costume. Na quarta, ele voltou a aparecer, assim como na sexta-feira. Porém na semana seguinte, ao deixar o prédio a calçada estava vazia. Pela primeira vez em semanas… Meses… Gavin não estava ali. Ela o esperou por alguns minutos na frente do prédio antes de seguir sozinha. Dias se passaram, então semanas, mas não havia sinal de Gavin. O que começara como dúvida rapidamente se transformou em frustração, antes de por fim se tornar preocupação. Será que havia acontecido algo com ele? Será que ele estava bem? Na sexta-feira à tarde, em vez de seguir para a biblioteca, ela decidiu ir à obra. Parou na esquina ao chegar lá, permanecendo de pé na calçada esburacada. Ela examinou o local. Pouco progresso ocorrera


desde a última vez. Mais algumas camadas de vergalhões, mas ainda não tinha forma definida. Havia muitos trabalhadores andando de um lado para outro. A distância, parecia um mar de capacetes amarelos, como patinhos de borracha num lago. Sua atenção se voltou para o trailer no momento em que a porta se abriu e Gavin surgiu no topo do degrau. Um grupo de rapazes o cumprimentou quando ele saiu. Ele se juntou a eles, tomando água de uma garrafinha e se sentou na pequena escada, rindo. Ela teve uma sensação de alívio, mas, logo em seguida, certa mágoa. Ele parecia estar mais que bem. Parecia estar feliz. Haven ficou ali parada por um minuto antes de se virar. Soube naquele momento e pôde sentir em suas entranhas quando a preocupação e a frustração se transformaram novamente em dúvida e confusão. Os laços de amizade entre eles já não existiam; desapareceram de repente, como se nada significassem… Se é que um dia significaram alguma coisa.

Capítulo 34 Intuição. Aquilo era algo em que Haven confiara desde criança, principalmente vivendo isolada num rancho na esquecida cidade de Blackburn. Aquilo a mantivera longe de problemas, alertando-a para coisas que não estavam certas. Era uma sensação que surgia sob a pele, um desconforto na barriga que a deixava tensa. Não fazia diferença se eram coiotes uivando durante a noite ou monstros se escondendo nas sombras, ela sempre sentia quando algo ou alguém estava ali quando não deveria. Ela se lembrava de apenas umas poucas vezes em que sua intuição falhara. Aquela tarde no quarto de Vincent DeMarco fora uma delas, quando ele a acuou depois que ela tocou em sua arma. A sensação de alerta surgiu tarde demais. Ele a havia pegado de surpresa, vulnerável e sozinha. Mas aquilo havia acontecido uma outra vez, anos antes, quando ainda era menina. Caminhando atrás da mãe pela estufa construída ao lado da propriedade, ela se sentiu entediada enquanto a mãe trabalhava sem parar. Ela estava numa idade em que ainda não compreendia a realidade em que vivia; ainda havia dentro dela uma alma sonhadora, viva, ingênua e inocente.

Posso ir ver a Chloe? – ela perguntou, puxando a camisa de sua mãe para atrair sua atenção. O ar frio de um aparelho de ar-condicionado soprava atrás delas, levantando seu vestido branco e imundo.

Não acho que seja uma boa ideia –respondeu a mãe sem tirar os olhos das plantas. – Você deve ficar aqui comigo.

– –

Não gosto de ficar aqui – a menina respondeu, enrugando o nariz. – O cheiro é ruim. O cheiro não é ruim.


É sim. E também está frio. Olhe! –ela mostrou seu braço arrepiado para a mãe, mesmo que ela não estivesse vendo. – E é claro demais, meus olhos doem.

– – – –

Hoje

você

está

cheia

de reclamações, não é?

Mas é tudo verdade! – disse a pequena Haven. – Posso ir? Prometo que vou me comportar! Sei que irá se comportar. É só que…Eu não sei…

Por favor? Chloe é minha melhor amiga. A mãe franziu a testa.

Tudo bem. Haven saiu correndo pela estufa, ouvindo sua mãe gritar para que tomasse cuidado, mas estava entusiasmada demais para responder. Ela não via Chloe havia vários dias e sentia falta dela; sua mãe lhe avisara que era perigoso demais que as duas se encontrassem com frequência. Haven olhou para os lados ao sair da estufa, certificando-se de que ninguém estivesse por ali, antes de correr pelo jardim o mais rápido que conseguia. Ela diminuiu o passo ao chegar na construção do outro lado da casa, bem ao lado dos estábulos onde ela e sua mãe viviam. O prédio era cinza, como se fosse uma casa de metal, e ela caminhou na ponta dos pés até a parte de trás, onde havia várias jaulas, uma ao lado da outra.

Chloe! – ela chamou, localizando-a imediatamente na primeira jaula. Ela deu um pulo assim que Haven disse seu nome, sentindo-se feliz. – Senti sua falta! Chloe começou a chorar e Haven correu até ela, tentando acalmá-la.

Tem que ficar quieta antes que eles escutem! – Haven se colocou de joelhos e esticou a mão para tocar a amiga, mesmo que somente através do arame. – Mamãe está trabalhando na estufa de novo – explicou. – Parece que as plantas estão doentes e o mestre disse à minha mãe que ela deveria resolver aquilo, mas acho que ela não sabe como fazer. Ela me perguntou se parecia que ela tinha dedo verde, mas quando tentei olhar, ela me disse que eu era boba. Então não sei se ela tem. Chloe só ficou olhando para ela, então Haven imaginou que ela também não soubesse.

Ah, e alguém veio aqui ontem! Não sei quem era, porque minha mãe me fez ficar longe. Ela disse que era para o meu próprio bem, mas e se fosse minha amiga? Chloe latiu.

Minha outra amiga – esclareceu Haven. – Você ainda é a minha melhorzíssima amiga, mas tenho outra que mora em outro lugar do mundo. Mamãe diz que o mundo é grande. Você sabia disso? Ela diz que existem muitas pessoas lá fora, e muitas casas também! Tipo, zilhões delas! Ela abriu os braços o mais que pôde para mostrar a quantidade. Chloe ficou entusiasmada e começou a pular e a fazer barulho. A menina rapidamente abaixou os braços e levou o dedo à boca.


– –

Shhhhh, fique quieta! Se alguém ouvir você…

Tarde demais. Parecia que todo o sangue no corpo de Haven havia congelado. Ela deu um pulo e se virou, tentando se esconder, mas Frankie estava ali na sua frente e a acuou. Ela ficou parada como uma estátua, imaginando que, se fechasse os olhos, poderia desaparecer. Ele iria embora e esqueceria dela de novo. Ela tentou contar mentalmente, como sua mãe lhe ensinara a fazer quando ficava com medo, mas não conseguiu passar do número seis. Ele a encarava com os olhos fixos. Haven deu um largo passo para o lado, pensando que conseguiria escapar, mas não funcionou. Os olhos dele se arregalaram e ele acenou com a cabeça.

Não fuja, menina. Ela não correu. Voltou a ficar imóvel como uma estátua. Então, ele caminhou até a jaula e se dobrou, tocando nela e estalando os dedos. Chloe veio imediatamente na direção dele, buscando atenção enquanto ele esfregava a cabeça dela.

Gosta do meu beagle? – ele perguntou, encarando Haven. Ela não sabia o que beagle significava, mas assentiu com a cabeça mesmo assim.

Ela é uma boa garota. Uma ótima caçadora. – Mais uma vez ele afagou a cabeça da cachorrinha antes de se levantar. – Você tem um nome para ela? Haven acenou afirmativamente outra vez.

Vai me dizer qual é? Outro aceno. Ela não sabia o que mais deveria fazer. Ele riu diante da mudez da garota e Haven cerrou os olhos ao vê-lo estender a mão na direção dela, que se preparou para levar um tapa, para que os dedos dele apertassem sua carne, pelos arranhões e hematomas, mas ele não fez nada disso. O homem apenas afagou sua cabeça como fizera com a cadelinha. A mão dele era pesada, mas não a machucou.

Devia ser mais cuidadosa, criança –ele disse, ainda rindo para si mesmo. – Nunca é bom quando alguém como eu encontra alguém como você. Foi somente aí, enquanto Frankie se afastava, que Haven sentiu os sinais de sua intuição, alertandoa quando já era tarde demais. Anos depois, sentada nos fundos de uma lanchonete, tomando uma xícara de café enquanto Kelsey comia ovos mexidos, ela sentiu aquela mesma sensação. Começou com um arrepio na pele, uma leve ferroada, antes que os cabelos de sua nuca se eriçassem. A princípio, ela ignorou a sensação, tentando prestar atenção em Kelsey, mas aquilo foi crescendo e se tornando cada vez mais forte.

Você por acaso está me ouvindo? –perguntou Kelsey, apontando o garfo para Haven.


Claro – respondeu a jovem, esfregando o pescoço sem perceber. – Mas o que foi que você

disse mesmo?

Vamos fazer uma viagem de carro. Haven franziu as sobrancelhas e olhou para a amiga.

– –

O quê?

Vamos fazer uma viagem de carro –Kelsey repetiu pelo que parecia ser a terceira vez. – Não temos mais nada a fazer nesse verão, não é?

Ah, bem… – Haven hesitou. – Uma viagem de carro? Pensei em ficar por aqui mesmo e me matricular para algumas aulas extras. Você sabe, me adiantar um pouco. Kelsey revirou os olhos de um jeito dramático.

Ah, tenha dó. A escola estará aqui quando retornarmos. Foi um longo ano, merecemos

uma folga.

– –

Eu não sei…

Bem, pense a respeito – disse Kelsey, atirando o garfo na mesa e se levantando. Ela deixou algum dinheiro sobre a mesa. – Poderíamos viajar logo depois do Novak Gala.

Tudo bem – respondeu Haven, bebendo o resto de seu café antes de colocar a xícara na mesa. – Vou pensar sobre isso. Ela não tinha a menor intenção de pensar a respeito daquilo, tampouco de deixar Nova York. Saíram da lanchonete e Kelsey continuou a tagarelar enquanto caminhavam em direção à escola. Haven estava tensa e seus olhos atentos enquanto andavam por entre a multidão, observando a aparência e o olhar das pessoas. Começou a olhar por cima do ombro, mas não tinha certeza do porquê. O que ela tinha certeza era da sensação no estômago. Sua intuição lhe dizia que alguém ou alguma coisa estava ali, mas não deveria estar.

Explique novamente. Haven ignorou Kelsey, agindo como se a amiga não tivesse dito nada ao olhar para a tela à sua frente. A tinta fresca brilhava sob as luzes fluorescentes do estúdio, e a vasta combinação de cores se cruzava como um arco-íris entrelaçado. Arte abstrata. Haven ainda estava tentando se aprimorar naquilo.


– –

Está bom? – perguntou ansiosa.

Parece legal – respondeu Kelsey. –Agora explique para mim de novo. Haven soltou um suspiro. –Nós saímos, foi legal, mas não houve química entre nós.

– –

E é isso?

Sim, é isso – confirmou Haven, ainda olhando para a tela. – Tem certeza de que isso está bom? Faz algum sentido?

– –

É abstrato. Não precisa fazer sentido

retrucou Kelsey. – Mas não compreendo por que você e Gavin não podem ser amigos. Tudo bem, não tem nenhuma faísca, mas vocês eram tão amigos antes, não é? O que mudou? Haven bufou. Ela não queria mais falar naquele assunto. Elas já haviam discutido aquilo por várias semanas.

– – –

Acho que para ele era tudo ou nada. Isso é besteira – Kelsey argumentou.

Ele não é desse tipo. Haven revirou os olhos.

– –

Você sequer o conhecia.

Mas você sim. O estúdio foi tomado pelo silêncio. Será que ela o conhecia mesmo? Ele trabalhava naquela obra. Negócio de família, ele dissera, mas Haven não sabia nada a respeito da família dele. Na verdade, ela pouco sabia além do nome dele: Gavin alguma coisa. Ela ouvira seu último nome antes, mas não conseguia se lembrar.

Não importa – disse Haven. – Não era para acontecer. As pessoas passam pela nossa vida por alguma razão, então prefiro acreditar que tenha havido um motivo para isso, algum motivo, mas não era que nos tornássemos amigos, eu acho. Repousando o pincel, Haven se afastou da tela. O Novak Gala se aproximava rapidamente, e todos deveriam entregar seus trabalhos até o final da semana. A garota lutava para criar algo que valesse a pena apresentar.


Vou sentir falta de ver o rosto dele por aí – disse Kelsey. – O cara era bem

bonitão! Haven deu risada.

– – – – –

Se gosta tanto assim dele, porque não o convida para sair? Com os olhos arregalados, Kelsey balançou firmemente a cabeça. Nunca. Eu não poderia fazer isso. E por que não? Por sua causa, dã – ela disse. – É como quebrar um código de amizade.

Não seja boba. Ele é um ótimo cara. Engraçado. Legal. Você seria capaz de fazer coisas bem piores. Aliás, você já fez coisas piores.

– – –

Você gostava muito dele – uma afirmação, não uma pergunta. Sim.

Então por quê? De verdade. Haven ergueu levemente os ombros e acenou a cabeça.

Não havia nada ali. A expressão de Kelsey se tornou mais suave.

– – –

É o seu ex-namorado. Carmine. O que tem ele?

Foi por isso que não sentiu nada por Gavin. Porque já sentiu isso por outra pessoa. Haven considerou aquelas palavras, lembrando-se da química que sentia com Carmine. Entre eles havia eletricidade. Tanta, na verdade, que ele a fazia brilhar. O pensamento de nunca sentir aquilo novamente e de ter de viver sua vida apenas com lembranças de como havia sido a incomodava.

– –

Você acha possível sentir isso mais de uma vez?

É claro que sim – respondeu Kelsey.– Eu sinto isso toda vez que um cara olha para mim ultimamente. Haven sorriu.


Ou… – Kelsey deu alguns passos na direção da amiga, olhando para o quadro colorido. – Ou talvez eu jamais tenha sentido nada como isso e você seja uma privilegiada.

Corrado Moretti é uma figura notória. Nas ruas ele é chamado de “Assassino de Aço”, o que nos mostra que ele é à prova de balas, intocável. E talvez ele seja, lá fora, mas não aqui. Aqui buscamos a verdade. Aqui fazemos justiça. E hoje, a justiça seria o veredito de culpado. O réu é um assassino, um mentiroso e um ladrão. Ninguém está seguro com ele andando pelas ruas. Nós provamos que ele pertence a uma organização que se orgulha de matar, que treina as pessoas para que elas machuquem outras. Que tipo de organização faz isso? Uma que seja imoral e ilegal. Uma que seja perigosa. O promotor discorreu sem parar por um bom tempo enquanto Corrado se sentava tranquilo na cadeira dura, só esperando. O julgamento de oito semanas finalmente estava chegando ao fim e agora só restavam os argumentos finais de ambos os lados. Logo tudo estaria acabado e ele poderia seguir em frente. Ou pelo menos era o que ele esperava. Quando chegou a vez da defesa, Borza se levantou e deu risada.

Assassino de Aço. Devemos nos lembrar de que a mídia inventou esse apelido para vender jornais. Puro sensacionalismo para ganhar dinheiro à custa de um homem inocente. A única reputação que meu cliente tem é a de um homem de negócios bem-sucedido e um homem de família. Seu registro criminal está limpo. O governo já gastou milhões de dólares e milhares de horas de seus homens vasculhando todos os aspectos de sua vida. E isso já acontece há anos. Eles estão sempre tentando encontrar algo grande, escandaloso, mas tudo o que conseguiram foram mentiras de criminosos condenados que estão dispostos a qualquer coisa para sair da cadeia. Ah, e também uma suposta evasão fiscal, pela qual meu cliente está disposto a fazer um cheque agora mesmo e reparar o erro. É isso. Corrado não olhou para seu advogado, apenas deslizou os olhos pelo tribunal, ainda acreditando que a jurada número seis seria sua salvação. Borza foi curto e eficiente, e o juiz instruiu o júri a se reunir na sala de trás para deliberar sobre o caso.

Quanto tempo acha que irá levar? –perguntou Corrado depois que a corte entrou em

recesso.

Não há como prever – ele respondeu.– Se eles retornarem ainda hoje, eu diria que as notícias serão positivas. Mas, honestamente, senhor Moretti? Se demorarem mais de 48 horas, eu começaria a rezar para que a decisão não fosse unânime, o que nos garantiria um novo julgamento.


Quarenta e oito horas se passaram, sem que o júri chegasse a uma decisão. Corrado permaneceu preso no Centro Correcional Metropolitano por quatro dias, vestido naquele enorme macacão laranja. O clima estava quente e abafado e o ar-condicionado continuava a funcionar mal. O cheiro de mofo e suor no ar denso tomava conta de tudo. Corrado já estava ficando impaciente. Cada vez que ouvia passos, ficava alerta, na expectativa de alguma notícia. Nada acontecia. Depois de uma semana, o júri apresentou uma carta ao juiz afirmando que não conseguiria chegar a um acordo, mas o juiz o mandou de volta para que deliberasse por mais alguns dias. Embora uma decisão não unânime fosse melhor que um veredito de culpado, ele não estava tão entusiasmado diante das possibilidades apresentadas pelo seu advogado. A falta de unanimidade por parte do júri significava um novo julgamento, um novo júri e mais tempo longe de sua vida… e de sua esposa. Vinte e quatro horas depois, Corrado estava deitado na cama quando ouviu passos pesados se aproximarem de sua cela. Ele se levantou e olhou para a porta, esperando, contra todas as possibilidades, que aquilo tivesse terminado. – Correio – disse o oficial, abrindo o buraco da porta e atirando um envelope. Corrado o pegou no chão. Mais um alarme falso. Soltando um suspiro, olhou para o envelope rasgado com um endereço de remetente escrito à mão. Mais uma vez, ficou surpreso pelo fato de eles terem deixado passar aquela correspondência. Ele retirou de dentro um cartão e olhou para a foto na frente. Corrado não entendia nada de arte, mas até mesmo ele saberia reconhecer o quadro O grito, de Munch. ESPERO QUE ESSA SEJA SUA EXPRESSÃO NO FINAL DO DIA.

Era isso o que estava digitado no cartão e, logo abaixo, de maneira quase ilegível: EU GRITO, VOCÊ GRITA, TODOS NÓS GRITAMOS… ATÉ QUE ALGUÉM OUÇA. Corrado releu várias vezes a mensagem. Estava ocupado demais tentando decifrar o conteúdo do bilhete que alguém havia conseguido fazer chegar até suas mãos.

Moretti. Corrado ergueu a cabeça e viu o oficial na porta.

– –

O que foi? Hora do show – disse o carcereiro. –O júri chegou a um veredito.


Haven caminhou pelas ruas movimentadas de Nova York, seus cabelos longos e encaracolados caíam nas costas enquanto seus pés cautelosamente a levavam pelo quarteirão. Apesar de se esforçar bastante, ela, com frequência, esbarrava nas pessoas e sentia os trancos e as cotoveladas ao passar.

Perdão – sussurrava, respirando de maneira pesada enquanto caminhava pela calçada, indo em direção ao seu apartamento. Trazia na mão um envelope branco e o segurava com força para não perdê-lo, e também para não perder o controle. Ao chegar no prédio, passou direto pela sua porta e subiu a escada correndo, indo ao apartamento de Kelsey no segundo andar. Na pressa, ela não se preocupou em bater, apenas girou a maçaneta e abriu a porta.

Kelsey, você não vai acredit… Ah,meu Deus! Ao ouvir gritinhos e risos na sala, imediatamente cobriu os olhos e se virou de costas para Kelsey e um amigo, enquanto eles procuravam suas roupas.

Eu sinto muito! – O rosto de Haven ficou vermelho e quente de vergonha. – Eu não sabia, bem, eu, você sabe…

Tudo bem – disse Kelsey. – Já estamos vestidos agora. Lentamente, Haven se virou e averiguou a situação olhando por entre os dedos.

– –

Eu deveria ter batido.

Você acha? – Kelsey se levantou e fez um sinal na direção do rapaz. – Você se lembra do Fred, não é? O arquiteto? Haven olhou para o homem alto de um jeito peculiar, absorvendo seus cabelos loiros curtos e os olhos azuis. Ela não se lembrava dele, mas sorriu e acenou de qualquer modo.

– –

Claro. É bom revê-lo, Fred.

Digo o mesmo – ele respondeu. – Bem, acho melhor eu ir embora. Ele beijou a bochecha de Kelsey antes de passar por Haven e desaparecer nas escadas. Haven ficou de pé ali por um momento, observando a amiga enquanto ela olhava para a porta ainda aberta.

Ele é gostoso, não é? – perguntou Kelsey. – Acho que esse cara pode ser o certo. Haven arregalou os olhos.

– –

Você sentiu aquilo? A fagulha?

É, eu senti – disse Kelsey, rindo e se voltando para Haven. – Bem, mas o que foi que aconteceu? Por que essa entrada triunfal? Todo o embaraço por conta do incidente evaporou quando Haven sorriu e seu rosto se iluminou. Ela ergueu o envelope amassado e o acenou


loucamente para a amiga

Eu consegui! Eu entrei! Kelsey franziu as sobrancelhas.

– –

Entrou onde?

Na Novak Gala – declarou Haven. –A senhorita Michaels me deu a notícia. Eu fiquei em 13º lugar! Eles vão expor meu quadro! Kelsey soltou um grito.

Você tá brincando! Isso é fantástico! As duas se abraçaram, pularam e gritaram para celebrar a novidade. Lágrimas surgiram nos olhos de Haven. A jovem estava completamente eufórica e sentia o sangue fluir forte por suas veias. Ela conseguira. Entre três mil candidatos, ela conseguira se classificar.

Isso é tão maluco – disse Kelsey, afastando-se. – Temos tanto a fazer agora! Precisamos comprar um vestido e sapatos para você. Também vai precisar cuidar do cabelo e usar maquiagem. Ela ficou pálida. Um vestido? Saltos? Uma transformação total?

Ah, e não podemos esquecer de um par! Precisamos arranjar um par para você. Haven piscou rapidamente.

– –

Um par?

Sim! Você pode levar acompanhantes, não é? Não pode ir sozinha! Pegando novamente o envelope, Haven o abriu e percebeu três convites amassados juntos a carta. Ela deixou o dela ali e entregou os outros dois para Kelsey.

– –

Quero que você vá comigo.– Eu? Mas…

Pegue, por favor – Haven insistiu. –Você tem sido tão maravilhosa comigo. Você me levou para sua casa no Natal e me apresentou sua família.

Eu é quem deveria te compensar por isso, não você. Haven sorriu.

Venha comigo. E se Fred for o escolhido, leve-o com você. Kelsey hesitou antes de pegar os convites.

Tem certeza?


Tenho, certeza absoluta – sorrindo, Haven deu um passo para trás na direção da porta. – Convide quem você quiser. Esse é meu agradecimento pela grande amiga que você tem se mostrado. Haven caminhou para fora do apartamento e escutou o grito de Kelsey atrás dela

Tudo bem, mas você ainda vai precisar de um vestido! Não pense que irá escapar!

Em relação à acusação de estar envolvido em atos ilícitos por intermédio de uma organização criminosa, desempenhando atividades ilegais, nós do júri consideramos o réu, Corrado Alphonse Moretti… – a pequena pausa entre essas palavras e o veredito final pareceu uma eternidade – … inocente. Naquele instante, todos começaram a falar ao mesmo tempo no tribunal lotado. Parte dos presentes celebraram; outros ficaram horrorizados diante daquela decisão. Os flashes das câmeras disparavam e registravam o momento, enquanto o juiz batia em sua mesa com o martelo exigindo silêncio. Todas as acusações foram lidas e, em todas elas, o resultado foi idêntico: inocente, inocente, inocente. Corrado se manteve imóvel atrás da mesa designada ao réu, sendo o único na sala a não demonstrar qualquer reação. Mas, internamente, sentiu o nó se desfazer em suas entranhas e o suor escorrer pelas costas. Aquela fora a única vez em sua vida em que ele não sabia qual seria o veredito antes que ele fosse lido em voz alta. Pela primeira vez em sua vida, vivenciou um momento em que não tinha certeza de qual seria o fim. Aquele instante para Corrado, ao contemplar seu futuro incerto, tinha sido pior que encarar a morte. Ele podia aceitar a morte, mas jamais a ideia de ficar enjaulado como um animal. Jamais demonstraria aquilo, entretanto. Continuaria ostentando apenas segurança. Algo que, aliás, beirava a prepotência e a total falta de sensibilidade. Quando o júri terminou a leitura, o juiz mandou que Corrado fosse imediatamente solto. Ele ficou de pé ao ouvir pela última vez o martelo e então se virou para cumprimentar Borza, ignorando por completo a gritaria e as ofensas que partiam das galerias. Virou-se à procura da esposa e a viu sozinha de pé nos fundos, com um sorriso no rosto. Ele inflou o peito. Parecia ter se passado uma vida inteira desde que a vira feliz pela última vez.

Meus parabéns – disse o senhor Markson com a voz amarga. – Estou curioso para saber como conseguiu dessa vez. Intimidação? Extorsão? A boa e velha propina? Corrado negou com a cabeça.

Não fiz absolutamente nada.


Assassinato, talvez? – perguntou o promotor com um olhar desafiador. – O senhor matou um membro de sua própria família, senhor Moretti? Foi isso o que aconteceu com Vincent DeMarco? Corrado encarou o sujeito sem revelar qualquer expressão. Ah, se ele soubesse a real profundidade daquela pergunta…

O júri apenas percebeu o que você não viu – respondeu friamente. – Você não tinha um caso. Deveria tentar se aprimorar nisso, sabia? Não parece muito bom no que faz. A postura do promotor se tornou mais rígida.

Sou bom no meu trabalho. O problema é que pessoas como você não têm nenhum respeito por ele. Não têm respeito pela lei. Mas um dia receberá o que está guardado para você.

Estou ansioso por isso. O promotor saiu da sala e Corrado se voltou para o advogado.

A jurada número seis… quero que descubra quem é ela. Borza ficou confuso.

– –

Mas por quê?

Porque acho que devo minha liberdade a ela. Corrado olhou então para as pessoas que assistiram à sessão e observou enquanto sua esposa se aproximava. Ele abriu os braços e a puxou contra o peito, num abraço caloroso. O corpo dela estava trêmulo e ela chorava de alegria enquanto ele beijava sua testa.

Seis meses longe de você foi tempo demais, bellissima – ele sussurrou. – Prometo que isso não voltará a acontecer.

Capítulo 35 A galeria de arte estava lotada. Não havia praticamente nenhum espaço entre as pessoas. Haven estava de pé do lado de fora do prédio, olhando para a porta de vidro que a separava do Novak Gala. Cada vez que ela se abria, era possível ouvir o som de música clássica, mas ele desaparecia quando a porta voltava a se fechar. Ela podia ver os patronos sorrindo e gargalhando, socializando enquanto admiravam as obras de arte. Eles estavam em seu próprio território; Haven, em contrapartida, se sentia como um peixe fora d’água.


Nervosa, ela segurou o vestido, sentindo-se ridícula, estranha e envergonhada naqueles sapatos de salto alto. Seu coração batia acelerado no peito, e tão forte que ela conseguia senti-lo na garganta. Ela temia que aquilo fosse justamente o que a estivesse impedindo de vomitar. Arrependeu-se de dizer a Kelsey que elas se encontrariam ali, apavorada com a possibilidade de cair de cara no chão. Respirando fundo para se acalmar, abriu a porta da galeria e entrou, entregando o convite ao homem na entrada. Ele o recebeu com um sorriso. Seu olhar era caloroso e não demonstrava qualquer indício de que ela não pertencesse àquele lugar. – Seja bem-vinda, senhorita – ele disse de modo educado, fazendo um movimento na direção de um livro de convidados à direita. – Por favor, assine seu nome e divirta-se. Ela assentiu e deu um passo ao lado, pegando a caneta e escrevendo na primeira folha em branco: Hayden Antoinette. Olhou para aquele nome e, por um momento, seu sorriso se desfez. Mas afastou qualquer pensamento triste, pois sabia quem era de fato, mesmo que ninguém mais o soubesse. A iluminação era suave e a atmosfera do local, confortante. Haven caminhou pela multidão, mantendo a cabeça baixa a maior parte do tempo. Seus olhos hesitavam a cada vez que passava por um quadro na parede. Apenas quando chegou no fundo da galeria, localizou sua obra. A visão familiar interrompeu seus passos no mesmo instante. Ela o encarou com os olhos arregalados e viu suas iniciais no canto da tela. Era surreal. Naquele momento, Haven teve de beliscar-se. Foi um sonho bom… disse Carmine na última noite que passaram juntos… Você fez uma pintura, alguma merda abstrata, sei lá, mas era tão boa que eles a expuseram num museu e todos a elogiaram pelo seu talento. Era como se você fosse a porra do Picasso, tesoro.

É um belíssimo trabalho, não é? – disse um homem, parando ao lado dela enquanto ela observava o quadro. Ele estreitou os olhos, estudando-o, analisando o fundo escuro coberto por branco e ocre, notas musicais distorcidas por manchas vermelhas. – Me faz pensar num concerto. Talvez o artista também seja um musicista. Haven sorriu. Ele não podia estar mais enganado.

É, talvez. O homem se afastou e Haven ficou ali de pé, escutando enquanto outras pessoas ofereciam suas opiniões. Ninguém conseguiu entender o que aquilo representava. Ela já estava prestes a sair e caminhar pela galeria para ver os outros trabalhos quando alguém pigarreou atrás dela.

Imagino que este seja o seu. Ela se virou tão rápido ao ouvir aquela voz familiar que quase perdeu o equilíbrio. Então viu um par de olhos azuis.

Gavin? O que você está fazendo aqui? Ele ergueu os ombros e deu um passo à frente.

Kelsey me convidou.


Ah! – Levou um instante para que ela entendesse a situação. – Ah! Então você e ela… Digo, vocês dois…? – Ela fez uma pausa e franziu as sobrancelhas. – Mas o que foi que aconteceu com o Fred?

– – – – – –

Não é nada disso – ele explicou, acenando a cabeça. – Não estou interessado nela. Não está? Todos os caras se interessam por ela. Não. E por que não? Não sei, mas acho que meu interesse está em outro lugar.

Onde? – ela perguntou. O rapaz curvou a sobrancelha ao olhar para ela de modo travesso e a vermelhidão tomou conta do rosto dela. – Ah. Gavin deu risada, virando-se para o quadro.

– –

É muito bonito.

Obrigada – ela disse, sentindo-se mais relaxada ao olhar novamente. – O que você vê? Ele ficou em silêncio, estudando a imagem antes que um sorriso apontasse em seus lábios.

Uma faísca. Ele acertou em cheio. O evento continuou e Haven recebeu inúmeros elogios. Ela se sentiu aquecida por aquelas palavras, enquanto bebia água com gás e passeava pelo salão ao lado de Gavin, rindo e batendo papo. Kelsey apareceu depois de um tempo, mas só ficou o suficiente para dizer olá. Haven mal a percebeu em meio ao caos. O evento fora bem mais sofisticado do que esperava e ela recebera tamanha aclamação por algo em que colocara sua alma. Quando a noite começou a se aproximar do fim, ela se sentia como se estivesse flutuando no ar. Então, o telefone de Gavin tocou, interrompendo a tranquilidade do momento. Ele o tirou do bolso e o desligou.

Tenho que ir. Assuntos de trabalho.

Ela franziu a testa.

– –

bom revê-la.

Obrigada por ter vindo. O prazer foi todo meu – ele disse com sinceridade na voz. – E foi muito


Digo o mesmo. Sorrindo, ele esticou a mão e fez um carinho no rosto da jovem.

Te vejo por aí, Haven. Ele se afastou, antes que ela pudesse dizer qualquer coisa. Então, no momento em que ele cruzou a porta de vidro, ela percebeu o que ele lhe dissera. Aquilo soou tão natural saindo de sua boca, tão casual, que ela teve sorte em perceber o nome que ele pronunciara. Haven. Então seu corpo ficou gelado e ela começou a tremer visivelmente. Seus olhos ficaram grudados na porta e sua mente começou a trabalhar de modo incessante. Será que ela estava enganada? Será que escutara errado? Talvez ele próprio tivesse dito seu nome errado e nem percebido. Ela nunca havia lhe dito e tinha plena certeza disso. A garota não podia imaginar onde ele teria escutado seu nome verdadeiro. Tentando aplacar seu pânico, ela caminhou até o livro de visitantes e o folheou, lendo a infinidade de nomes que apareciam ali até encontrar o que procurava: Gavin Amaro. Ela sentiu um nó no estômago. Naquele instante, saiu correndo pela porta, parando na calçada e respirando fundo o ar fresco da noite; seu coração batia acelerado. Ela sentia como se o peito estivesse em chamas. Foi então que sentiu uma corrente elétrica passando pela sua pele, um frio na espinha e um alerta. Intuição. Seu corpo foi tomado por uma camada de gelo e ela ficou aterrorizada. Trêmula, expirou o ar frio dos pulmões, virando-se abruptamente para encarar quem quer que ali estivesse. Por um momento, quase perdeu o equilíbrio mais uma vez ao se deparar com o rosto familiar, tão próximo que ela até poderia tocá-lo. Mas ela não o fez. Não podia se mover, apenas ficou ali, parada, imóvel ao sussurrar um nome: – Doutor DeMarco.

– Olá. O cumprimento de Vincent pairava no ar, em algum lugar entre os lábios dele e os ouvidos da garota. Boquiaberta e com o rosto tão pálido como se tivesse visto um fantasma, ela continuou parada no meio da calçada, equilibrando-se nos saltos.

Doutor DeMarco? Ele soltou um riso envergonhado quando ela repetiu seu nome pela segunda vez.

Sim. Ela acenou a cabeça sem acreditar, olhando cuidadosamente para os lados e dando um passo à frente em direção a ele.

Há algo de errado? Aconteceu alguma coisa?


Não – ele respondeu, esfregando a parte de trás do pescoço de maneira ansiosa quando alguém saiu da galeria atrás dela. Ele desviou o olhar, virando-se levemente para evitar ser visto de frente por aquelas pessoas antes que desaparecessem pela rua. Paranoico, talvez, mas ele tinha todas as razões para se sentir assim.

O senhor está bem? – ela perguntou, dando mais um passo em sua direção. – O senhor

parece…

– –

Um esboço de mim mesmo? – ele completou a frase dela.

Eu diria nervoso – ela respondeu. Nervoso. Aquele era certamente um bom eufemismo.

Estou bem – ele assegurou, sorrindo, esperando que aquilo aliviasse sua preocupação. – Acha que poderíamos ir a algum lugar para conversarmos?

É claro – Haven olhou rapidamente para a galeria antes de se aproximar dele. E deu apenas alguns passos antes de retirar os sapatos e carregá-los nas mãos. Ele assentiu, sorrindo suavemente, enquanto os dois desciam a rua. Ambos caminharam em silêncio, e a garota ainda o olhava de vez em quando sem acreditar que ele estivesse ali, enquanto ele mantinha a cabeça baixa, observando os arredores. Em poucos minutos chegaram ao seu destino. Haven pegou o chaveiro e abriu a porta do apartamento. Vincent não esperou pelo convite para entrar, e soltou um suspiro ao se sentir seguro longe das ruas.

Este é o seu apartamento? – ele perguntou, observando o pequeno espaço de um único dormitório. Aquele era o lugar em que Corrado a havia colocado? – É bem pequeno, não é?

Não é tão pequeno. Digo, é maior que a cocheira onde cresci.

Touché.

Então, o senhor queria me dizer alguma coisa? – ela perguntou, ansiosa, sentando-se numa cadeira na sala. – O que faz aqui? Vincent se aproximou do sofá e se sentou.

– Como

– –

Bem, eu estava imaginando se poderia me dizer alguma coisa a respeito do seu sequestro. que por milagre, Haven conseguiu ficar ainda mais pálida. Meu sequestro?

Sim – ele respondeu. – Você não temde fazer isso, é claro, mas eu estava imaginando se você poderia me dizer de quem se lembra de ter visto no local.


Ela hesitou, mas tentou se concentrar.

– –

O senhor já sabe. Digo, eles estavam lá quando… Bem, quando vocês vieram me resgatar.

Sim, eu sei, mas gostaria de ouvir de você – ele disse. – Gostaria de saber do que exatamente você se lembra. A garota suspirou fundo e olhou para as mãos sobre as pernas. DeMarco conseguia ver que Haven não desejava falar a respeito daquilo e quase se sentiu envergonhado por levantar a questão, mas era importante que ele escutasse de sua boca. Muito importante, aliás.

Bem, Nunzio estava lá. O homem chamado Ivan era quem dava as ordens. Havia alguns outros homens, mas não me lembro dos nomes. A maioria era de russos. E havia ainda as mulheres… A enfermeira apareceu e então veio a outra.

Que outra? Haven hesitou por um momento.

– – – –

Não me recordo o nome dela. Certo – respondeu Vincent. – Então isso é tudo? Bem, eu acho que sim.

Você acha? – perguntou Vincent, inclinando-se para frente e apoiando os cotovelos sobre as coxas. – Quem mais estava lá?

Só pessoas que já não estão entre nós– ela sussurrou. – Se é que algum dia estiveram. Vincent processou lentamente aquelas palavras; o significado se tornando mais claro ao repensar nas imagens que vira no diário de Haven. A memória o feria.

– –

Maura.

Sim – ela sussurrou –, e também minha mãe. E a número 33. Os olhos dele se fixaram nos dela com curiosidade.

– –

Número 33?

Uma garota que vi num daqueles lugares… Ela estava à venda. Seu número era 33. Vincent franziu o cenho quando se deu conta do que ela estava lhe dizendo.

Um leilão?


Sim. Frankie me levou quando eu ainda era criança. Vincent sentiu seu estômago revirar.

Ele jamais soubera daquilo.

– –

Mas por quê?

Ele disse que era para me ensinar uma lição – ela respondeu. – Aquela garota tentou escapar, então… Bem… Frankie a matou. E então ele disse que era aquilo o que acontecia com pessoas que esqueciam qual era seu lugar. É por isso que quando o senhor me disse que ia me fazer lembrar do meu olhar naquele dia, eu pensei que… Vincent cerrou os olhos quando a garota disse aquilo. Ele ainda podia se lembrar do olhar no rosto dela naquela tarde, quando despertou algemada na cama. Por favor, ela sussurrara. Não quero morrer. Antes que Vincent pudesse dizer qualquer coisa, Haven voltou a falar.

Sei que elas não estavam realmente ali, mas eu as vi no armazém. Conversaram comigo e me deram a força de que precisava para me manter viva.

Havia mais alguém? – perguntou Vincent. – Talvez alguém menos desejável, como um… monstro, quem sabe? Haven ficou imóvel, olhando para Vincent antes de sussurrar.

Carlo. DeMarco ficou surpreso.

– –

Você sabe o nome dele.

Eu ouvi quando Frankie disse seu nome no dia do leilão – ela respondeu. – Ele queria que meu mestre me vendesse para ele. Fiquei aterrorizada. Pensei que fosse me vender.

– –

Graças a Deus que não o fez.

Sim, mas ele ainda me perseguiu ao longo dos anos. Eu costumava vê-lo quando vinha a Blackburn. Ele ficava de pé na minha frente, olhando para mim. Era só um olhar. Ele sempre machucava minha mãe. Sempre… – Ela fez uma pausa, com lágrimas de raiva surgindo em seus olhos. – Ele fazia coisas com ela, mas nunca me tocou. Apenas me olhava o tempo todo, como se estivesse esperando o momento certo.

E você o viu naquele armazém? Ela acenou afirmativamente a cabeça, secando os olhos quando uma lágrima escorreu pelo rosto.


Eu o imaginei, eu acho. Sobre mim, apenas me encarando como sempre, como se ainda não tivesse chegado a hora. Ele parecia mais velho, mas com certeza era ele. Eu jamais esqueceria aquele rosto. Haven soltou um riso amargo e Vincent permaneceu imóvel. Ele não queria acreditar, mas algo nas palavras da menina o fizeram imaginar se ela não havia de fato imaginado tudo aquilo.

– – –

Muito obrigado – respondeu Vincent. Eu

precisava

que

você

o confirmasse.

De nada – Haven respondeu, olhando-o com atenção. – Tem certeza de que está bem, doutor DeMarco? Será que as pessoas que o monitoram não me rastrearão até aqui agora?

Já não uso mais o meu monitor eletrônico. Os olhos dela se arregalaram.

Seu julgamento terminou? Ele a encarou, percebendo naquele momento o quão ela estivera afastada de tudo o que acontecera nos últimos tempos. Ele já a vinha seguindo há semanas, reunindo coragem para abordá-la… Um homem que a maioria das pessoas acreditava estar morto. Mas ela nem fazia ideia daquilo. Não sabia de nada. Colocando-se de pé, Vincent esticou suas costas doloridas.

– – –

Ainda não acabou, mas logo tudo chegará ao fim. Não há nada com que se preocupar. Muito bem.

De qualquer modo, é melhor eu ir embora agora. Já tomei muito do seu tempo. Haven o levou até a porta, e, por um instante, ambos hesitaram em silêncio no hall. Havia tanto que Vincent achava que precisava ser dito. As palavras estavam na ponta da língua e ele quase conseguiu forçá-las para fora tentando superar o orgulho que ainda lhe restava, assim como a grande vergonha que guardava. Foi então que a porta da frente do prédio se abriu atrás dele. O riso feminino se espalhou pelo piso inferior. Vincent imediatamente abaixou a cabeça, mas seus olhos observaram a moça com cuidado, tentando reconhece-la. A filha do senador Brolin. – Ah, uau – disse a moça com um sorriso no rosto. – Mais um? Vincent não permaneceu ali para tentar descobrir o que a jovem queria dizer.


Capítulo 36 No primeiro fim de semana de junho, Carmine recebeu uma ligação de Salvatore a respeito da celebração pelo livramento de Corrado. Sem nenhuma vontade de comparecer, ele se vestiu naquela noite de sábado e dirigiu até a casa de Salvatore quando já estava anoitecendo, estacionando o carro na parte de trás antes de sair do automóvel, ainda hesitante. Ele apertou a campainha e Abby apareceu, aparentando estar aliviada ao se deparar com Carmine.

Olá – ele disse quando ela o deixou entrar. – Como você está? Ela sorriu suavemente; sua voz era apenas um sussurro.

– – –

Bem, e o senhor? Bem, estou aqui com esses filhos da puta, então obviamente não me sinto tão bem.

Fico feliz que esteja aqui – disse a moça, envergonhada, oferecendo-se para retirar o casaco do rapaz. – Você fala comigo como se eu fosse uma pessoa.

Você é uma pessoa, Abby. Eles apenas são infames demais para percebê-lo. Ela o encarou, surpresa pela resposta franca, antes de se afastar para fazer seu trabalho. Carmine seguia para o escritório quando alguém chamou seu nome. Ele se virou e o sangue congelou em suas veias no momento em que olhou para Carlo. O sujeito deu um sorriso amarelo ao caminhar na direção de Carmine.

Tem sorte pelo seu padrinho não ter ouvido essa conversa. Algo me diz que ele não ficaria muito feliz. Carmine o encarou enquanto lutava para controlar seu temperamento diante da expressão esnobe do homem.

– –

Não há nada de errado em dizer olá.

Mas você disse muito mais que apenas olá. Carlo parecia pronto para dizer mais alguma coisa quando Corrado entrou no cômodo e o interrompeu:

Carlo, Carmine. Algum problema por aqui?


Eu só estava lembrando o jovem senhor DeMarco de que ele deveria tomar mais cuidado com o que diz e com quem conversa – retrucou Carlo. – Afinal, se ele não for cuidadoso, alguém pode ter uma impressão errada.

Eu não… O rapaz estava prestes a dizer que não havia feito nada de errado quando Corrado o interrompeu:

O jeito sarcástico de Carmine é notório. Acho que as pessoas teriam uma impressão errada se ele não ostentasse sua ironia de vez em quando. Carmine olhou para Corrado em choque, sem esperar que ele o defendesse. Carlo soltou um riso amargo.

Só porque é esperado não significa que seja aceitável. Ele precisa aprender a demonstrar respeito. Ele estava conversando com aquela escrava…

Respeito? – retrucou Corrado. – E suponho que considere que você poderia ensiná-lo isso depois de falar dessa maneira na presença dele? Sabe muito bem qual é o histórico da mãe dele, e ainda assim quer falar sobre ter respeito? Talvez você mesmo precise aprender a demonstrar algum.

Eu conquistei meu lugar aqui… Já me dediquei o suficiente – respondeu Carlo, com o rosto tomado pela fúria. – Eu já provei meu valor, mas ele ainda não. Ele precisa respeitar seus superiores.

O mesmo se aplica a você – disse Corrado com a voz afiada. – Ou será que já esqueceu de que eu sou seu superior? Conhece o protocolo. Ou também esqueceu? Carmine é meu homem. Se tiver um problema com ele, dirija-se a mim. Carlo estreitou os olhos. Corrado certamente o havia irritado.

– –

Tudo o que estou dizendo é que ele não deveria tagarelar tanto.

Eu o ouvi da primeira vez, mas não vejo o porquê de você querer criar uma cena aqui – disse Corrado. – Não é nada tão sério assim. Então ele é bocudo? Não é como se ele houvesse matado sua família, Carlo. Carmine congelou ao ouvir aquelas palavras amargas saindo da boca do tio. Carlo parecia um veado pego pelos faróis de um carro no momento em que Corrado o encarou com uma sobrancelha erguida, esperando por uma resposta que nunca foi dada.

Senhores – disse Salvatore, colocando-se entre eles com a expressão extremamente séria. – Talvez devêssemos nos sentar mais tarde para amainar o clima, mas, por enquanto, vamos apenas celebrar. Vão se divertir, tomar uma bebida, conhecer uma das belas garotas que estão lá dentro. Corrado acenou de modo obediente.

Claro, senhor.


Carlo repetiu as mesmas palavras quando Salvatore pediu licença; a bomba parecia ter sido desativada por enquanto.

Não sei o que você disse, mas eleestava certo – falou Corrado quando os dois ficaram sozinhos. – Precisa mesmo aprender a controlar sua boca.

– –

Eu sei.

Também deveria ter vestido um terno– repreendeu o tio. – Parece um desleixado. Carmine olhou para si mesmo. Estava vestindo uma camisa de mangas longas e calças. Só havia deixado de lado a gravata. Não era como se estivesse com jeans desbotados e um casaco esportivo com capuz, embora fosse exatamente o que desejasse naquele momento. Assim, se fosse forçado a se sentir miserável, pelo menos estaria mais confortável. O garoto passaria as próximas duas horas batendo papo com outros homens e associados, conhecendo as famílias daqueles que eram descarados o suficiente para fazê-las conviver com homens tão odiosos e sem coração. Carmine fingia se importar, sorrindo e encarando perguntas curiosas a respeito do paradeiro de seu pai (Não, não o tenho visto. Tenho certeza de que está apenas se mantendo discreto nesse momento.); fazendo o papel de Principe, neto de Antonio (Sim, meu avô era um Deus entre esses homens; espero um dia ser como ele.). Entretanto, em sua mente, ele apenas contava os minutos para poder sair daquele lugar (Duas outras horas ainda pela frente; duas já haviam ficado para trás.). Para um grupo que se orgulhava de seu silêncio e honradez, eles fofocavam mais que um bando de meninas no colegial. Aquele não fora o primeiro encontro obrigatório para Carmine, mas com certeza era o mais desconfortável. A reputação de seu pai estava arruinada e todos estavam cientes daquilo, ou seja, de que o “prazo de validade” para Vincent DeMarco já havia vencido. Carmine bebeu bastante durante todo o tempo, dolorosamente consciente de que Corrado o observava do outro lado da sala. Ele já o havia instruído a não beber naqueles encontros, mas o garoto não conseguia evitar. O álcool que invadia sua corrente sanguínea era a única coisa que o impedia de tentar escapar de sua própria pele. Com o tempo, o número de pessoas no lugar começou a diminuir; associados e homens de posições mais rasas, os soldados, pouco a pouco deixaram o lugar; os que faziam parte da cadeia de comando se reuniram no escritório. Carmine percebeu a mudança na atmosfera como uma dica de que a noite finalmente chegara ao fim. Pouco depois das nove, ele se dirigiu até Corrado, já se sentindo um pouco mais relaxado e aliviado, e disse:

– –

Bem, estou indo.

Ótimo – respondeu Corrado. – Vá para casa e fique sóbrio. Carmine se virou e fez uma continência de brincadeira para o tio por trás de suas costas enquanto ele entrava no escritório. Em seguida, dirigiu-se até a porta, mas logo ouviu a voz estridente de Salvatore:

Aonde pensa que vai, Principe? O garoto o olhou de maneira apreensiva.


– –

Para casa, senhor.

Isso é bobagem – disse Salvatore, fazendo um movimento na direção do escritório. – Junte-se a nós. Carmine suspirou, sem a menor vontade de permanecer ali por um minuto sequer.

– –

Senhor, eu realmente preferia…

Não foi um convite – disse Sal, interrompendo-o enquanto tentava escapar. Carmine xingou em silêncio, observando um olhar alarmado no rosto de Corrado no instante em que adentrou o escritório.

– –

Achei que estivesse indo embora.

Ah, ele estava, mas eu pedi que permanecesse – retrucou Salvatore, acomodando-se na cadeira de sempre. E então apontou para uma cadeira vaga ao lado dele para que Carmine se sentasse. Nervoso, o garoto passou a mão nos cabelos. Havia cerca de uma dúzia de homens ao lado dele naquele espaço, mas ele era o único soldado raso presente. Essas reuniões eram somente para convidados e, até então, o jovem apreciava o fato de que nunca antes fora chamado a participar, pelo menos até aquela noite. Por algum tempo, os homens conversaram sobre coisas que não importavam, como times de beisebol e marcas de uísque, enquanto Carmine permanecia quieto, bebendo ainda mais para acalmar seu nervosismo. Ele não fazia ideia de por quanto tempo aquele pessoal ficou na conversa fiada, até que por fim mergulharam nos negócios: quem devia dinheiro; quem não estava produzindo o suficiente; quem tinha potencial; e com quem eles já estavam cheios de ter de lidar. Os que pertenciam à última categoria logo foram ticados, sem que nenhuma pergunta fosse feita e nenhuma objeção fosse levantada. Não havia qualquer preocupação em relação à família dos sujeitos ou quanto às obrigações deles. Intenções não importavam. Foram julgados e condenados sem que sequer tivessem a chance de se defender. Aquilo fez o estômago de Carmine revirar, de saber que algum dia eles poderiam estar falando a respeito dele mesmo. Sua vida poderia ser decidida por aqueles homens como algo tão sem importância como marcas de bebida.

Acho melhor desmembrá-lo – disse alguém à mesa. – Corte o cara em pedaços e então queime os restos.

Não, faz muita sujeira – disse um outro. – Apenas coloque algo na comida dele. Faça parecer um ataque cardíaco. Fácil e limpo.

– –

Isso é covardia! É melhor colocar uma bomba no carro dele. Isso é baboseira! E uma bomba não seria covardia?


– –

Não. Isso enviaria a todos uma mensagem quando a rua toda explodisse.

É, isso seria uma mensagem, com certeza… E provavelmente mandaria muitos de seus vizinhos para o hospital. Essas pessoas não fizeram nada para nós.

– – –

E daí? Como se transeuntes nunca tivessem se machucado antes. É, mas eles têm crianças. E nós não machucamos crianças, pelo menos se pudermos evitar.

Ah, apenas desapareça com ele – sugeriu outro. – Não é uma atitude covarde… É inteligente. O fato é que ele não vale nada. Não há motivo para uma cena. Apenas puff e pronto. Alguém zombou:

Sempre é covardia, a menos que você o torne pessoal. Não é isso, Carlo? É isso que você sempre diz. Os olhos de Carmine cruzaram a sala até onde o homem com o rosto deformado estava sentado, bebendo seu uísque. Carlo apenas acenou afirmativamente a cabeça, confirmando o que fora dito.

Sempre olhe para eles nos olhos para que saibam que foi você, e também para que você possa ver seu medo. Você quer que eles associem a própria morte ao seu rosto… É assim que se sabe que está fazendo a coisa certa. Então, quando compreendem, você faz isso rápido: explode a cabeça; atira na boca do cara no momento em que ele tenta gritar por ajuda. Não há nada melhor. Sempre foi minha assinatura. Aquelas palavras atingiram Carmine profundamente, revirando suas entranhas enquanto flashes daquela noite na viela voltavam à sua mente. O som dos gritos aterrorizados de sua mãe, o pavor nos olhos dela no instante em que soube que iria morrer.

Cale a boca dela! – gritou um sujeito. – Vá logo! – Então tudo o que pôde ser ouvido foi o som de um tiro disparado na boca de Maura, para silenciá-la. Carmine se levantou antes mesmo de se dar conta do que estava fazendo. A bebida escorreu do copo que ele esmigalhou e caiu no chão. Seu movimento repentino assustou a todos, fazendo com que a conversa parasse e todos se levantaram, já treinados para sentir o perigo. Todos empunharam suas armas e vários cliques foram ouvidos no cômodo à medida que as travas foram desativadas e as pistolas apontadas para a cabeça de Carmine. Os olhos do garoto se fixaram única e exclusivamente em Carlo, que permaneceu esticado em sua cadeira, de modo casual, enquanto girava o copo com uísque que tinha na mão e encarava Carmine. O rosto do homem era pura indiferença, mas seus olhos contavam outra história bem diferente. Eles se mostravam desafiadores e incitavam o jovem a dizer algo. Longos segundos se passaram, carregados de tensão e confusão, antes que Salvatore interferisse:

Cavalheiros, isso é desnecessário. Somos todos família aqui.


Os homens abaixaram suas armas imediatamente, escondendo-as mais uma vez e retornando aos seus lugares. Burburinhos faziam a sala vibrar. Era impossível compreender o que era dito, mas o ar estava repleto de hostilidade, o que sufocava Carmine. Aqueles homens teriam facilmente atirado nele; bastaria que um dedo escorregasse para que sua vida chegasse ao fim. Ele se sentiu como se estivesse prestes a vomitar ao se dar conta daquilo. – Carlo, Carmine – disse Sal, olhando para os dois naquele momento. – Saiam agora. Sal deixou o escritório, mas Carmine permaneceu no lugar por um momento, enquanto seus olhos acompanhavam os movimentos de Carlo, que seguia as ordens do chefe. De modo hesitante, Carmine os seguiu, sabendo que não teria escolha. Os três se sentaram nas cadeiras de couro no pátio externo, ao lado da piscina coberta. Sal pediu a Abby que lhes trouxesse bebidas antes de mandá-la sair com um aceno e orientando que permanecesse em seu quarto pelo resto da noite. Não escapou aos olhos de Carmine que Carlo observou a menina conforme ela se afastou. Era o olhar de um predador se preparando para atacar sua presa. Era doentio. Depois que ela saiu, Salvatore ergueu as sobrancelhas com curiosidade.

Como vão as coisas, Principe? Carmine não gostou da pergunta. Está tudo maravilhoso, obrigado por perguntar.

– –

Tudo bem.

Tudo bem – repetiu Salvatore, observando os dois homens brevemente antes de se voltar para Carmine. – E o que está acontecendo entre vocês dois?

– –

Nada.

Nada? Posso sentir a tensão entre ambos. Você está me escondendo alguma coisa. O que aconteceu antes para provocar aquela briga no meu hall? Carmine não disse nada. Independentemente de permanecer em silêncio ou contar seu lado da história, sabia que perderia a batalha. Percebendo que não conseguiria uma resposta de Carmine, Salvatore voltou-se para Carlo:

– –

Talvez você esteja mais disposto a falar.

Só fiquei surpreso com a atitude do jovem DeMarco – disse Carlo. – Nunca ouvi alguém falar de maneira tão vulgar e desrespeitosa. Salvatore se voltou para Carmine, curioso, mas antes que o garoto pudesse falar, um riso inesperado foi ouvido ao lado dos três. Aquele som quase fez o coração de Carmine parar de bater. Ele rapidamente olhou para a direção de onde a risada surgira e, sem acreditar no que via, se fixou em seu pai. Vincent DeMarco estava de pé a uns cinco metros de distância, vestido dos pés à cabeça de preto, com um terno novo italiano, coberto por um casaco longo que chegava aos calcanhares e expunha apenas de relance um


par de sapatos de couro pretos que brilhavam sob o luar. Seus cabelos escuros estavam penteados para trás e seu rosto estava bem barbeado.

Bem, Carlo, sabe que isso não é verdade – disse Vincent, dando alguns passos na direção deles. – Age como se essa organização estivesse repleta de santos. Meu filho certamente não é o primeiro a falar mais que a boca.

Ah, Vincent – disse Salvatore com um tom evidente de surpresa na voz. Seus braços estavam tensos; sua expressão dura como se estivesse entalhada em pedra. Não acontecia com frequência, mas o chefe fora pego de surpresa. – Estava imaginando se voltaria a vê-lo. Nenhum dos três sabia como reagir. Carmine só olhou para o pai, e Carlo colocou a mão em sua arma sob a mesa.

Com certeza você sabia que nos encontraríamos novamente, Sal. Seria rude da minha parte tirar uma licença permanente sem me despedir de você.

É verdade – respondeu Salvatore de modo cauteloso, desesperado por retomar o controle. – Venha, sente-se conosco. Vamos conversar. Vincent negou com a cabeça.

Estou bem aqui. Sal se moveu sutilmente na cadeira para ver melhor.

Você esteve sumido por bastante tempo. Estava preocupado que algo de ruim tivesse lhe

acontecido.

– –

Tenho certeza de que estava.

Eu estava, honestamente – respondeu Sal. – Em especial quando faltou ao julgamento. Fiquei muito apreensivo com o que aquilo significaria para o seu futuro.

– – –

Ah, sim, aquilo. Bem, achei que não valia mais a pena prosseguir com aquela charada. Não posso dizer que esteja surpreso, Vincent. Desapontado, sim, mas não surpreso.

Bem, você me conhece a fundo – respondeu Vincent. – É uma pena que eu nunca tivesse conhecido você, entretanto. Achei que sim, mas estava equivocado. Sal deu risada, com certo nervosismo na voz.

O que vê é exatamente quem eu sou.


Gostaria que isso fosse verdade – disse Vincent. – Sempre pensei que fosse um homem de palavra; um homem que via o mundo em branco e preto. Nunca imaginei o quanto você se ocultava nas sombras para atender às próprias necessidades.

– –

E o que o faz imaginar algo tão ridículo?

Haven Antonelli. Carmine involuntariamente abriu os lábios ao ouvir aquele nome. Os olhos de Salvatore se voltaram para o garoto, com ódio, antes de ele se virar de novo para Vincent.

– –

E o que essa garota tem a ver com tudo isso?

Tudo – disse Vincent. – Não aja como se não soubesse do que estou falando. Salvatore olhou para Vincent sem acreditar, mas não estava claro se ele estava de fato surpreso ou apenas chocado diante daquilo. O coração de Carmine batia acelerado enquanto seus olhos vagavam entre os dois. Todos estavam no limite, com os ombros tensos e prontos para atacar.

Entre, filho – disse Vincent. – Gostaria de conversar com seu padrinho a sós. Afastando a cadeira devagar, Carmine começou a se levantar quando Salvatore bateu com o punho na mesa à sua frente.

Fique onde está! Carmine sabia que não podia desrespeitar uma ordem direta do chefe. Olhando para o pai, ele tentou se desculpar e voltou a se sentar. Uma expressão de pânico tomou conta de Vincent e Carmine percebeu. O que quer que estivesse prestes a acontecer não parecia nada bom.

Ainda não compreendo o que a menina Antonelli tem a ver com qualquer coisa – retrucou Salvatore, voltando sua atenção para Vincent. – Diga-me, por favor.

– –

Sabia que ela virou uma artista?

Eu não podia estar menos preocupado com o que ela é ou deixa de ser – respondeu Sal. – Ela não é nada para mim.

Ah, mas é claro que sabe que ela é uma artista – continuou Vincent, ignorando a hostilidade. – Na verdade, sabe bastante sobre ela, mais do que jamais admitiria, incluindo o fato de que ela não representa nada para você.

Não sabe do que está falando – disse Sal. – Ela jamais será nada além de uma escrava aos meus olhos, um pedaço de carne sem valor por quem vocês, idiotas, desperdiçam suas vidas. Ela é irrelevante em meu mundo. Ela sequer deveria existir!


Carmine se encolheu ao perceber a irritação tomar conta do rosto de seu pai.

Sabe, não parecia fazer sentido na época – disse Vincent. – Nunca compreendi por que Frankie se recusou a entregá-la; por que ele não abria mão dela uma vez que não queria ter nada a ver com a menina. Ela era apenas um fardo, outra boca para alimentar, então, por que não aceitar dinheiro para se livrar logo dela?

Ela era neta dele – afirmou Salvatore. – E você sabe disso.

Mas isso não importava para ele –retrucou Vincent. – O fato de seu filho engravidar uma escrava não seria nenhuma desgraça a seu ver, ou uma mancha em sua descendência; ele teria apenas desejado se livrar da criança. Então por que ele não só a manteve ali como matou por causa dela?

– –

Ele não queria que ninguém soubesse.

Sim, isso foi o que você me disse –retrucou Vincent, acenando com a cabeça. – E acreditei nisso por anos, porque não achei que mentiria para mim, afinal você afirmou ter certeza. Eu matei Frankie e a esposa, e em seguida coloquei a arma na cabeça daquela menina enquanto ela dormia e puxei o gatilho, porque você jurou que ela fora a razão para tudo que perdi. E era justamente isso o que você queria que eu fizesse, não era? Você usou meu sofrimento para resolver o seu problema, e quase funcionou. Se a minha arma não tivesse falhado, eu teria matado tudo o que respirasse naquele lugar.

– –

Não mandei que você matasse ninguém.

Não precisou fazê-lo! Você sabia exatamente o que eu faria com a informação que me passou, e me deu tempo suficiente para executá-lo antes de me chamar.

– –

Eu jamais teria ordenado a morte de uma criança!

Porque não pode! Os homens jamais teriam voltado a acreditar em nada do que dissesse se ao menos suspeitassem que estava envolvido nisso. Teria havido um motim! Mas você sabia como me controlar, como fazer com que eu reagisse. Você queria todos mortos e usou a mim para manter suas mãos limpas.

– –

Isso é ridículo – retrucou Salvatore.– Por que eu os quereria mortos?

Evidência – disse Vincent. – Nunca deixe nada para trás que possa ser ligado a você. É bem simples, algo que todos nós sabemos. Mas no momento em que percebeu seu erro, queria que ele fosse apagado.

Que evidência?


A descendência da menina. O rosto de Salvatore foi tomado pelo pânico. Carmine o olhou em choque, percebendo que o padrinho não estava surpreso… Ele de fato sabia. O garoto ficou totalmente confuso e aquela informação quase o deixou paralisado. O tempo todo, diante de tudo o que aconteceu, Salvatore sabia do parentesco. – Está maluco.

Pode ser, mas ainda estou certo – disse Vincent. – Tudo o que foi necessário foi uma picada no dedo e uma vida inteira de segredos se revelou por completo.

– –

Não sei do que você está falando.

É, eu cheguei a acreditar nisso. Pensei que fosse tão vítima quanto ela, mas isso mudou quando ela foi sequestrada. Você não queria se envolver porque sabia o motivo pelo qual eles a haviam levado e não queria ter nada a ver com isso! Teve medo de que eles o expusessem e então pensou… ou esperou… que eles fossem se livrar dela. Mas eles não conseguiram. Você tinha fome por poder e fez com que sua própria família fosse assassinada. Costumava falar sobre o quanto a família significava e eu sentia pena de você pelo fato de que não lhe havia restado ninguém. E o tempo todo fora culpa sua!

Como você ousa me acusar disso? –disse Salvatore com ódio. – Eu o matarei por isso! No momento em que ouviu aquelas palavras, Vincent sacou sua arma e a apontou para Salvatore. Carmine deu um pulo, assim como Carlo, chocando as cadeiras na pressa de se proteger. Um deles pulou na piscina rasa. Salvatore permaneceu imóvel, sem sequer piscar. Carmine congelou ao ver Carlo puxar a arma e mirar em Vincent.

Você não fazia ideia de que depois de trinta anos surgiria o teste de DNA – ele prosseguiu, mantendo os olhos e a arma fixos em Salvatore. – É por isso que ele não me vendia a menina… Ele estava tentando proteger você, e talvez até protegê-la em meio a tudo isso. Quando você ouviu dizer que Maura estava fazendo perguntas, você entrou em pânico, e foi aí que colocou o plano em andamento. Mandou que matassem minha esposa para encobrir seus rastros, e eu nunca quis acreditar nisso. Jamais quis imaginar que você pudesse fazer aquilo comigo, que fizesse aquilo com meus filhos. Mas Haven desenhou alguns retratos depois de seu sequestro. Afinal, como eu disse antes, ela é uma artista. E ela desenhou um de Carlo. Eu não quis acreditar nisso, neguei para meu próprio filho, mas chegou um momento em que não podia mais negar. Seu homem de confiança, seu melhor amigo, estava ali para cuidar de tudo! Lágrimas escorreram dos olhos de Vincent. Carlo gritou, negando as afirmações, e Salvatore olhou para o lado, aterrorizado. Carmine fitou o padrinho com nojo.

Carmine – ordenou Sal com firmeza. Ele sabia o que queria e esperava que o rapaz seguisse suas ordens e fizesse o que já lhe havia sido ordenado.

Não dirija a palavra ao meu filho –disse Vincent entredentes. – Você já o feriu o suficiente! Mas, diga-me uma coisa, quando mandou que matassem minha esposa, também queria que ele tivesse morrido?


– –

É claro que não! Ele é meu afilhado!

Mas não nega que queria minha esposa assassinada? Não nega que mandou matar sua irmã? Não nega que estava mancomunado com os russos? Meu Deus, quão doente um homem precisa ser para transformar os entes da própria família em escravos?

A vida dela deveria ter sido tranquila! – resmungou Salvatore, perdendo o controle e buscando sua arma. Carmine soltou um palavrão e deu alguns passos para trás, quase tropeçando numa cadeira. – Frankie me implorou para que eu lhe desse a menina, aquele estúpido! Ele me implorou para que deixasse a criança viva. Foi ele quem falhou! Ele a tratou como um lixo! Permitiu que o filho a estuprasse! Ela estaria melhor se tivesse morrido!

É por isso que jamais ia até Blackburn, apenas mandava que nós fôssemos até lá? – perguntou Vincent, sem qualquer hesitação na voz. – Não podia olhar para ela, sabendo o que fizera?

– –

Está errado!

E foi por isso que insistiu tanto em ver Haven quando nos visitou? Foi por isso que ficou feliz pelo fato de Carmine ter se apaixonado por ela? Foi por isso que você quis que ele se responsabilizasse por ela? Vocês finalmente voltariam a formar uma família?

– –

Cale a sua boca!

Achou que seria um tipo de redenção! Eles eram suas propriedades! E teve a ousadia de me perguntar se teria valido a pena comprá-la? Se ela valia a pena depois de tudo o que eu sofrera, tudo o que perdi, e foi você quem provocou tudo isso! Você sentiu prazer em fazer isso? Você sente tanta satisfação pelo fato de exercer poder sobre as pessoas?

– – –

Você está completamente maluco! E você é um perturbado mental! Um traidor!

Como você ousa me acusar disso?!Justo você, que tem fornecido informações aos federais? Diga-me, Vincent, como se sente em agir como um rato? Como se sente em quebrar o juramento que fez? Como é saber que irá morrer por causa disso? Vincent ficou imóvel por um segundo antes que um sorriso sinistro surgisse no canto de seus lábios.

Você primeiro. O disparo da arma de fogo ecoou pela noite e Carmine se encolheu, percebendo que seu pai puxara o gatilho. Ele se cobriu de modo defensivo enquanto Salvatore cambaleou para trás e soltou sua arma depois de levar um tiro no ombro. Virando a mesa do pátio, Salvatore se abaixou quando Carlo revidou.


Vincent atirou novamente, atingindo Carlo na coxa e fazendo-o dobrar a perna. Mesmo assim, o sujeito conseguiu se manter de pé e atirar. Uma bala da arma de Vincent atingiu a mesa atrás da qual Salvatore se escondia, ricocheteando e seguindo na direção de Carmine, que se abaixou ao ouvir o barulho. A bala quase o atingiu.

– –

Merda!

Carmine! – gritou Salvatore, com avoz quase inaudível em meio ao tiroteio. – Mate-o! Carmine não sabia o que fazer. Ele lentamente puxou sua arma e, completamente atordoado, tentava se manter lúcido. Mate ou seja morto. Ele sabia como tudo aquilo funcionava. Se ele não matasse seu pai, Sal com certeza o mataria. Antes de poder considerar a ideia de mirar em qualquer coisa, outro tiro passou por ele. Carlo caiu para trás, com a camisa ensanguentada. O homem tropeçou e caiu, com o corpo tremendo enquanto agarrava o estômago. Gritos horríveis escapavam de sua garganta enquanto Vincent se aproximou e disparou mais duas vezes com ódio. Cada tiro atingiu um braço de Carlo, que ficou sem ter como se defender. Outro projétil cruzou sua rótula enquanto ele tentava se arrastar. Salvatore deu um salto para o lado e agarrou sua arma antes de se abaixar. Vincent estava determinado, com a expressão séria ao se abaixar e pegar Carlo pelo colarinho. Ele enfiou o cano na boca de Carlo e puxou o gatilho sem hesitar. Sangue se espalhou por todos os lados conforme o crânio de Carlo explodiu. Carmine mal conseguia conter a dor que reverberava pelo seu peito ao se recordar do que acontecera com sua mãe. Vincent olhou para Carmine com preocupação, em busca de possíveis ferimentos.

Saia daqui, filho – ele ordenou antesde se voltar para Salvatore, que se escondera na porta de trás. Vincent se levantou, mas não teve tempo de mirar, sendo atingido no peito por Salvatore. Ele sentiu o impacto e cambaleou, mas conseguiu se manter de pé e atirar de volta.

Carmine, é uma ordem! – gritou Salvatore, continuando a atirar, mas sem conseguir atingir o alvo. – Faça-o agora ou eu mesmo o matarei!

Não ameace meu filho! As palavras de Salvatore fizeram com que Vincent recuperasse sua força. Houve uma grande comoção quando a porta do escritório se abriu e vários homens correram para fora. Corrado os seguiu, mas ficou petrificado, avaliando a cena enquanto Carmine soltava o pino de segurança de sua arma. Corrado percebeu o movimento. Levantando sua arma, ele mirou em Carmine.

O que diabos voc… – ele tentou dizer, sem conseguir pronunciar o resto da frase antes que o tio puxasse o gatilho. A bala atingiu levemente as costas de sua mão e ele deu um berro, derrubando a arma e segurando o ferimento, que queimava como fogo e sangrava muito. Corrado correu na direção de Carmine e o derrubou, colocando-o de barriga contra o chão e ordenando:

Não se mexa.


Colocando-se de pé, Corrado atirou ao acaso, mas as balas deliberadamente não acertaram o alvo. Vincent se virou e atirou contra Corrado, com a mira igualmente ruim, antes de se abaixar e buscar abrigo atrás da casa. Salvatore e os outros se protegeram próximos da porta de trás, enquanto Corrado e Carmine se moveram para o lado, de onde tinham uma visão clara. Os tiros diminuíram enquanto todos recarregavam suas armas. Outros homens se juntaram ao grupo para ajudar Salvatore. Carmine viu o pai soltar a pistola e segurar o peito ao dar alguns passos. Vincent abriu o casaco revelando uma pequena Uzi presa em seu ombro. O sangue que corria nas veias de Carmine o deixou sem ação; a visão do garoto se embaralhou enquanto lágrimas escorriam pelo seu rosto. Vincent abaixou a cabeça, fez o sinal da cruz e moveu sua boca rapidamente falando consigo mesmo. Rezando, ele percebeu. Seu pai estava rezando. – Não! – Carmine gritou ao perceber o que iria acontecer. Seu pai nunca tivera a intenção de sair vivo daquela missão. Vincent se virou, olhando rapidamente para o filho antes de dar um passo ao lado e se colocar de frente para onde os homens de Salvatore estavam. Corrado se atirou no chão e puxou Carmine para baixo quando ele tentou se levantar. O tio segurou o sobrinho no solo enquanto uma tempestade de balas reverberou em meio à noite. Aquilo foi ensurdecedor. A cabeça do garoto parecia explodir a cada disparo quando o tiroteio iluminou o jardim. Carmine gritou, implorando que seu pai não prosseguisse com aquilo, mas já era tarde demais. Não havia como voltar atrás. Ele fizera sua cama e estava disposto a deitar nela… Ele estava pronto para cair. Mas Carmine não se sentia assim. Ele jamais se sentiria assim. Tentou empurrar Corrado para o lado, mas o tio não se moveu um milímetro, protegendo o jovem durante todo o tempo. Dois sujeitos caíram nas proximidades com os corpos convulsionando no solo; outros se abaixavam em busca de cobertura. No meio do caos, Carmine perdeu a noção de quem estava lá. Corpos caíam enquanto outros corriam. Gritos de dor se misturavam ao som das balas. Um tiro atingiu o estômago de Vincent, que cambaleou, tirando o dedo do gatilho por um segundo, tempo suficiente para que os outros se recuperassem. Eles atiraram sucessivamente, atingindo o ombro de Vincent e então sua panturrilha. Ele ficou de joelho, vacilando e tentando se manter firme. Vincent mais uma vez puxou o gatilho e atingiu mais homens com a Uzi. A troca de tiros parou abruptamente quando o cartucho ficou vazio. Vincent tirou a arma do ombro e a deixou cair no chão. Ele se sentou no jardim, com o corpo tremendo enquanto olhava para a grama pisoteada. Alguém ficou de pé próximo à casa e Carmine entrou em pânico porque seu pai estava desarmado, mas Corrado reagiu instintivamente. Ele atirou e atingiu o homem na têmpora. Carmine gritou pelo seu pai, mas Corrado o empurrou ainda mais contra o chão, enfiando a cabeça do rapaz contra o concreto para silenciá-lo. O garoto xingou enquanto sangue jorrava de seu nariz. Sirenes começaram a soar à distância. Alguém gritou:

É a polícia! Todos tentaram desaparecer no escuro da noite. Corrado enfim soltou o sobrinho quando a multidão se dispersou. Carmine se levantou e olhou para o jardim no momento em que seu pai se arrastava até o canto da casa. Corrado foi na direção dele quando Vincent chegou ao canto, ajoelhando-se, sentando-se sobre as pernas, segurou sua pistola vazia.


Vincent! – gritou Corrado, com pânico na voz. Vincent olhou na direção deles. Carmine soltou um suspiro ao olhar o rosto de seu pai. A cor havia desaparecido; sua pele estava acinzentada e seus olhos inertes e sem vida. Ele ainda conseguiu dizer alguma coisa em voz baixa, mas Carmine não pôde ouvi-lo; no entanto, o que quer que tenha sido fez com que os passos de Corrado vacilassem. As sirenes se tornavam cada vez mais altas. Corrado negou com a cabeça, com firmeza e raiva, mas Vincent acenou com determinação.

Saia daqui, Carmine! – gritou Corrado. Carmine começou a correr na direção deles, ignorando a ordem do tio, mas ficou petrificado ao ver seu pai erguer a arma e apontar para o próprio queixo.

Não! Pai, não! Os olhos de Vincent se fecharam e seu dedo tremia violentamente no gatilho. Corrado abaixou a cabeça e suspirou fundo, dizendo com a voz baixa:

Perdonami. Perdoe-me. Sem hesitar, Corrado ergueu a arma e puxou o gatilho. Um grito rouco vibrou no peito de Carmine e dolorosamente subiu pela sua garganta, quando a última bala atravessou o cérebro de seu pai. Vincent caiu para trás, imóvel sobre o gramado. Carmine caiu ao mesmo tempo, sem conseguir se mover, apenas tremendo e soluçando de dor. Corrado passou por ele e se aproximou da piscina. Pegou a arma de Carmine e a sua própria, as limpou com a camisa e as atirou na água com cloro. Seus olhos se voltaram para a carnificina. Havia corpos espalhados por todos os lados. As sirenes estavam agora bem próximas e as luzes dos carros de polícia já invadiam a propriedade. Corrado ergueu as mãos e se atirou ao chão antes que o mandassem fazê-lo. Carmine se virou de bruços e fez o mesmo que o tio. Carmine estava completamente confuso e atordoado quando os policiais algemaram os dois. Corrado deitado ao lado dele na grama, murmurava para si mesmo em italiano. Levou um momento para que Carmine percebesse que o tio estava rezando. O jovem perdeu o controle ao ouvir aquilo e soltou um soluço forte ao ver um lençol branco sendo colocado sobre o corpo sem vida do pai. O tecido imediatamente se tingiu de vermelho. Carmine tentou silenciar seus gritos quando os oficiais puxaram Corrado do chão e o levaram, mas não fazia sentido. Ele estava totalmente perturbado.

Sete mortos, incluindo o doutor DeMarco – disse um oficial. – Ainda aguardando a confirmação sobre outros seis.

– –

Ande com isso – retrucou uma voz vagamente familiar. – Alguém lá dentro?

Apenas a vítima de tráfico que DeMarco avisou que estaria aqui – disse o homem. – A moça não quer falar nada, então não sabemos sequer o nome dela.


Dê algum tempo a ela, falará ao perceber que está segura. Passos se aproximaram e Carmine ouviu a voz familiar chamar seu nome. Ele olhou para cima e se deparou com o agente especial Cerone, que se abaixou e abriu as algemas do garoto, suspirando ao pegar a mão dele e olhar o ferimento.

– –

Chamem um médico para cuidar desse ferimento, por favor.

Sim, senhor. Cerone olhou Carmine por um momento enquanto ele se sentava.

Bem, você terá de prestar um depoimento, mas estará livre pela manhã, desde que coopere. Quer fazer alguma declaração agora? Carmine passou a mão no rosto, tentando enxugar as lágrimas e gemeu ao perceber que tudo o que fez foi espalhar sangue em sua face.

Abby – ele disse em voz baixa. A garganta dele doía de tanto gritar e a palavra quase não

foi ouvida.

– –

Abby? A garota lá dentro – disse Carmine. –O nome dela é Abby.

Capítulo 37 A sala de interrogatório na central de polícia cheirava como se alguém tivesse tentado limpá-la com urina velha. Corrado fez uma careta e suspirou profundamente, sentindo o forte cheio de amônia e água sanitária queimando seus pulmões. Olhando para o outro lado da mesa, na sua frente, ele encarou o agente especial Cerone com tédio. O agente se preparou para falar, mas Corrado o interrompeu antes que pudesse começar: – Eu não estava lá. Eu estava em casa. Estava sozinho, dormindo, e ninguém me viu. O agente ficou boquiaberto.

Eu o vi esta noite, senhor Moretti. Corrado ergueu as sobrancelhas.

– –

É mesmo? Claro.


– – – – –

Tem certeza? O senhor foi preso na cena do crime. Fui? Há algo de errado com a sua memória?

Talvez – respondeu Corrado. – Acho que não me lembro de nada desta noite – completou, mantendo um olhar de indiferença à medida que o agente o encarava sem acreditar no que ouvia. O oficial se recompôs rapidamente, cerrando os dentes enquanto virava as folhas de seu caderno de anotações. Ele tinha centenas de documentos, mas nada que o preparasse para enfrentar Corrado. – Sabe, Vincent DeMarco era um bom homem.

Era? – perguntou Corrado. – Aconteceu algo com ele? Exasperado diante daquela situação, o agente acenou negativamente com a cabeça.

Você vai mesmo se fazer de idiota, não é? Corrado deu de ombros.

Bem, como eu estava dizendo, ele era um bom homem. Acho que o julguei mal. Ele não era egoísta nem insensível. Preocupava-se com sua família e faria qualquer coisa por eles. E então comecei a pensar… Talvez o senhor seja igual a ele. Talvez eu estivesse errado em relação ao senhor também. Os lábios de Corrado formaram um sorriso sarcástico.

Duvido. O agente o olhou por um momento antes de cair na risada. Corrado era esperto demais para cair nas táticas psicológicas da polícia. Ele já passara por tudo aquilo antes e conhecia os truques utilizados.

– –

É provável que tenha razão. Só por curiosidade, o senhor aceitaria passar pelo polígrafo?

Não – ele respondeu. – É contra minha religião. O agente franziu o cenho.

– – –

Como disse? Somente Deus pode me julgar. E eu certamente não confiaria numa máquina para fazê-lo. Só teria de temer a máquina se pretendesse mentir. Planeja mentir?


Não, planejo ficar só aqui, sentado mesmo. O agente soltou um suspiro.

– –

Quando começou a ser assim tão sarcástico? Não sei se entendo o que está dizendo – disse Corrado. – Aliás, nem sei o que estou

fazendo aqui.

Vejo que estou perdendo meu tempo– retrucou o agente Cerone. – Há algo que gostaria de dizer antes que acabemos com isso?

Só que gostaria de ver meu advogado. O agente Cerone reuniu suas coisas sem demonstrar surpresa.

Mas é claro. Aguente firme. Vai demorar um pouco até que o senhor seja liberado, mas acho que vai sair com tempo de ir ao funeral. – Funeral de quem?

– –

Vincent DeMarco.

Vincent está morto? O agente acenou negativamente com a cabeça.

Pelo menos é consistente no que fala. Mas, sim, ele está. Eles devem avisar a família a qualquer momento. Quando o agente já se preparava para sair, a expressão de Corrado mudou. Estava cansado demais para manter aquela charada. Ele se aprumou na cadeira e olhou a parede à sua frente, sentindo um frio no estômago… demonstrando certa ansiedade. Ele já não percebia mais o cheiro da sala. Agora sua preocupação se mostrava ainda mais forte.

– – –

Espere – disse ele, interrompendo os passos do agente. Sim, senhor Moretti?

Preciso fazer uma ligação. O agente suspirou.

Seu advogado está na sala ao lado com Carmine DeMarco. Eu o mandarei entrar assim que terminarmos lá.

Não precisa chamar meu advogado –ele retrucou. – Quero ligar para a minha esposa.


Sua esposa não poderá ajudá-lo neste momento. Corrado olhou para o homem.

– – –

Ela vai achar que fui eu? O quê?

Disse que eles a notificariam logo. Assim que chegarem à porta da minha casa, ela pensará que eu morri. Naquele momento, o rosto do agente ficou confuso e seus lábios franziram.

Seu irmão, seu marido… Ela ficará mal de qualquer modo. Os oficiais explicarão o que

aconteceu.

Eu fiz uma promessa a ela. Disse que jamais a deixaria novamente – retrucou Corrado. – Não quero que ela pense que quebrei minha promessa, mesmo que por um único momento. O agente franziu as sobrancelhas.

Como pôde fazer uma promessa dessas a ela com a vida que leva? É óbvio que um dia irá

quebrá-la.

– –

Não – ele respondeu. – Não há nada que não faria para cumprir minhas promessas.

Mesmo que isso implique matar? Corrado apenas encarou o agente, que também o olhou com firmeza. O oficial desistiu primeiro, embora um suspiro ainda ecoasse em seu peito ao olhar para o outro lado. Franzindo o cenho, ele tirou Corrado da sala de interrogatório e o levou para um cubículo, em que pegou um telefone preto e o entregou na mão dele.

Tem cinco minutos. Corrado ligou imediatamente para casa, mas demorou bastante até que a esposa o atendesse. De fato, ele estava quase desistindo quando ouviu a voz de Celia. Embora ela falasse com hesitação, ele conseguiu perceber que não estava magoada. Preocupada, mas não de coração partido. Ela não havia recebido a notícia ainda.

– –

Alô?

Pensei que não fosse atender. Celia soltou um suspiro.

Corrado, por que o identificador de chamadas está dizendo que esta ligação está vindo da central de polícia de Cook County?


– – –

É uma longa história. E ela termina com você sendo preso novamente?

Não – ele disse, olhando para si mesmo e observando as algemas nos pulsos. – Tecnicamente não.

Precisa que eu o tire daí? – ela perguntou. – Não acho que consiga arrumar o dinheiro da fiança até amanhã cedo, embora possamos ter…

– – –

Celia, pare de falar. Não estou ligando por minha causa. Posso cuidar de mim mesmo. Carmine! – Ela ficou desesperada. –Ah, meu Deus, o que foi que ele fez? Ele está bem?

Ele está… – Corrado acenou a cabeça. – Carmine ficará bem. Também não é sobre ele. É sobre o pai dele. A linha ficou muda por alguns momentos. Se ele não tivesse detectado a respiração regular da esposa, poderia ter imaginado que ela desligara.

– – –

Celia, Vincent está… Não… Por favor, Corrado, apenas não diga isso.

Sinto muito, bellissima. Antes que ela pudesse reagir, antes que ele pudesse dizer outra palavra, o agente esticou a mão e desligou o telefone, encerrando a ligação.

– –

Você tem muita coragem – disse Corrado, com os dentes cerrados.

Queria lhe contar pessoalmente e já o fez – respondeu o agente. – E eu não precisava lhe conceder esse favor.

Desorientado, Carmine sentia como se a sala de interrogatório se movesse; as paredes cinza-escuro pareciam se fechar. Mesmo com o ar gelado soprando sobre ele, resfriando sua pele tensa, seu corpo parecia estar em chamas. O suor pingava de sua camisa rasgada e manchada de sangue, deixando-o desconfortável. O rapaz tentava explicar tudo o que acontecera, mas não conseguia pensar de maneira clara. Tudo aquilo era demais para ele. O agente Cerone e um outro homem, cujo nome Carmine não se lembrava de


ter ouvido, estavam sentados à frente dele, enquanto o doutor Borza se mantinha à sua direita. O advogado

6

pedia a Carmine que cooperasse, mas as luzes fluorescentes não permitiam que ele se concentrasse.

– – – – – – – – – – – – – – – – – – –

Quem atirou primeiro? Não me lembro. Foi tudo muito rápido. Quantas pessoas estavam atirando? Eu não faço ideia. Algumas. Você também disparou alguma arma? Não. E quanto a Corrado Moretti? Não sei dizer. Eu já disse, tudo aconteceu rápido demais. Bem, e o que você fez quando o tiroteio começou? Nada. Nada? É, nada. E não viu o que aconteceu? Tiros. Quantos? Muitos. Eu não contei. Quem estava envolvido no tiroteio? Eu não sei. Então poderia ter sido Corrado?


– – –

Poderia ter sido Jimmy Hoffa! Eu apreciaria se não agisse com sarcasmo. Essa é uma situação séria.

Não estou sendo sarcástico. Eu já disse que não vi. Não vi quem atirou primeiro, quem atirou em quem, quem está morto ou quem está vivo. Só sei o que eu fiz.

– –

E o que foi que você fez?

Nada. Não fiz absolutamente nada. Eles continuaram em círculos, obtendo as mesmas respostas vagas para as mesmas perguntas. Ele não viu nada, não fez nada e não conseguia se lembrar de nada. E era verdade… Pelo menos parcialmente. Carmine não sabia o que esperavam dele. Tudo de que conseguia se lembrar era dos últimos momentos de seu pai. Aquela imagem brutal o assombrava, como se alguém tivesse pegado uma tocha e queimado a cena em seu cérebro. Morto… Seu pai estava morto. À medida que o peito de Carmine se contraía, uma lembrança surgia em sua mente. Acontecera poucas semanas antes de sua mãe ter sido assassinada, quando seus pais levaram ele e o irmão ao parque de diversão Six Flags. Ambos entraram numa daquelas xícaras giratórias, e o movimento foi tão brusco e constante que, quando tudo terminou, ele não sabia para que lado ir. Suas pernas se dobraram ao deixar o brinquedo e seu estômago se contorcia violentamente. Ele simplesmente caiu ao chão e vomitou sem parar no meio do parque. Agora, dentro daquela sala, ele se sentia exatamente igual. Confuso e desorientado, atônito nas mãos da polícia. Vincent o havia colocado de pé naquele dia no parque, ajoelhando-se diante do filho. O rosto de Carmine ficou vermelho e lágrimas de embaraço se formaram em seus olhos. Ele os manteve fixos no cimento, sem querer que ninguém o visse chorar, especialmente seu pai. – Você está bem? – perguntou Vincent. Carmine hesitou, mas aos poucos ergueu os olhos, acenando afirmativamente enquanto via a expressão séria do pai. – Todos caem em algum momento da vida, filho, mas o truque é se levantar imediatamente. As pessoas sempre terão como alvo aqueles que parecerem vulneráveis, então precisa ser forte. Finja até conseguir. Carmine não entendeu naquele momento, mas seu pai estava lhe oferecendo o primeiro conselho sobre como sobreviver àquele estilo de vida, e aquela fora uma lição que surgiu em sua cabeça durante aquele tenso interrogatório. Lágrimas não derramadas queimavam seus olhos. Ele lutava para represá-las, sem querer se dobrar sob o peso do sofrimento. Precisava ser forte; precisava manter-se firme. Não podia deixar que aqueles filhos da puta o vissem em pedaços. O som de seu nome sendo chamado o tirou daquele transe e o trouxe de volta à realidade. O agente Cerone e o outro sujeito o encararam, repetindo as mesmas perguntas. Os ouvidos dele ainda zuniam por conta do tiroteio incessante; aquele barulho em sua cabeça o estava levando ao limite. Ele cerrou as mãos, querendo que tudo aquilo acabasse e franziu o rosto quando a dor provocada pelo tiro em sua mão subia pelo braço. Olhou para sua mão e viu sangue pingando da bandagem. Tudo ficou branco à sua frente e


flashes de memória começaram a surgir diante de seus olhos. Ele segurou seu próprio colarinho. O ar estava tão denso que ele achou que estava sufocando. Sangue… Havia tanto sangue por todos os lados. Fechando os olhos, forçou-se a pensar em mais alguma coisa, tentando evocar a imagem de Haven. Ela estava livre, ele se fez lembrar. Ela estava perseguindo seus sonhos. Desde que estivesse assim, desde que tivesse sua própria vida, tudo teria valido a pena. A dor em seu peito, sua mão latejando e o fato de ele estar ali naquela sala. Tudo teria valido a pena. Todo o sangue, o suor e as lágrimas que ele derramara haviam valido a pena, porque ela merecia tudo aquilo. Ele sentia falta dela. Deus, como sinto falta do meu beijaflor. Carmine estava tão envolvido em seus pensamentos que se esqueceu de onde estava, até que alguém o cutucou. Ele deu um pulo, batendo no peito com a mão machucada e fazendo uma careta ao abrir os olhos. O agente Cerone se colocou de pé ao lado dele e segurou em seu ombro, erguendo as sobrancelhas e perguntando:

– –

Posso lhe arrumar alguma coisa? Um copo d’água, talvez?

Pode me deixar ir embora – ele retrucou. – Quanto tempo vocês planejam me manter aqui? Eu não fiz merda nenhuma.

– – – – –

Só precisamos lhe fazer mais algumas perguntas. Não há nada mais para falar – ele disse, acenando negativamente com a cabeça. Quem é seu beija-flor? – perguntou Cerone ao se sentar de novo. Os olhos de Carmine se arregalaram. O quê?

Há um momento você disse que sentia falta de seu beija-flor. O jovem o olhou em choque, percebendo que havia dito aquilo em voz alta, sem saber o que mais teria falado sem perceber.

Não vejo o que isso pode ter a ver com o incidente desta noite – interrompeu Borza. – Eu apreciaria se vocês se mantivessem no assunto em questão.

É justo. – Os olhos de Cerone se mantiveram mais um pouco em Carmine. – Há quanto tempo conhece Salvatore Capozzi?

Ele é meu padrinho – ele sussurrou. A expressão no rosto de Cerone se iluminou naquele instante. Carmine então negou com a cabeça e esclareceu. – Ele é meu padrinho de batismo.

Ah, então ele é como um parente para você?


– – – –

Ele era. Era? – Cerone perguntou com curiosidade. – Está dizendo que não é mais? Ele está morto, não está? – o jovem retrucou.

Ah, bem… Não. Carmine encarou Cerone, esperando que tivesse ouvido errado.

– –

Não?

Não – repetiu o agente. Aquela confirmação fez o coração de Carmine disparar. Se Salvatore não estava morto, sua vida estava em risco… Muito em risco. Ele havia testemunhado tudo e conhecia seus segredos sujos, os fatos que ele, Salvatore, tentaria encobrir de qualquer modo para evitar ser exposto. Além disso, Carmine desobedecera a uma ordem direta. Não havia como Sal esquecer aquilo e perdoá-lo. Ele tinha muito a perder se desse uma chance ao afilhado. – Pelo que sabemos, ele conseguiu se evadir do local. Temos razões para crer que ele esteja ferido, mas não há nenhuma evidência de que não tenha sobrevivido ao ataque. Carmine absorveu aquela informação, tentando manter a expressão firme, embora estivesse em pânico por dentro.

Há quanto tempo você foi iniciado? –perguntou o outro agente, casualmente mudando de assunto. Carmine o olhou, surpreso com a frieza da pergunta.

– –

Iniciado no quê?

La Cosa Nostra. O jovem retrucou:

– –

Tá de brincadeira, né?

Parece que eu estou brincando? – o oficial perguntou, elevando o tom de voz. – Sabemos que está envolvido, portanto não faz sentido você negar.

Você deve ter exagerado e assistido demais a Scarface – ele resmungou. – Essa coisa não existe, não é real. O homem respirou fundo e olhou para Carmine irritado.

Sabemos que existe. Não somos estúpidos.


Nem eu – Carmine retrucou. – Leve essas suas perguntas sobre a Máfia para outra pessoa, porque não tenho nada a ver com isso. Ponto. Fim de conversa. Um silêncio tenso se fez presente na sala antes que o agente Cerone limpasse a garganta.

– – –

Eu a vi, sabia? Quem? – perguntou Carmine. A mudança de tópico o pegou de surpresa.

Haven – explicou o agente, franzindo os lábios ao tentar evitar um sorriso.

Como…? – A confusão em sua mente se aprofundou. – Como é que você…? Você está

mentindo.

– –

Não, não estou – ele respondeu. – Estou pensando em ir atrás dela novamente.

Deixe-a em paz, pelo amor de Deus –Carmine respondeu, colocando-se de pé e empurrando a cadeira para trás. – Eu juro por Deus que se você… Antes que pudesse terminar, Borza segurou seu braço e o puxou de volta para a cadeira.

– – –

Ameaçar as pessoas que meu cliente ama não irá ajudar em nada. Eu não estava ameaçando ninguém. Estava simplesmente dizendo que…

Estamos todos cientes do que você está dizendo – respondeu Borza –, e não foi nada mais, nada menos que uma ameaça velada. Você diz que quer a cooperação dele, mas ainda assim traz à tona o nome da senhorita Antonelli, apenas para irritá-lo ainda mais.

Não fiz isso – disse o agente Cerone.– Pelo que sei, ele não dá a mínima para ela. Na verdade, da última vez que conversamos ele sequer admitiu conhece-la.

Então por que falar sobre ela? – retrucou Borza. – Eu já lhe pedi que se mantivesse no tópico, mas me parece óbvio que não tem a intenção de fazê-lo. O senhor DeMarco concordou em responder a suas perguntas, mas não tem tal obrigação. Considerando o fato de que há apenas algumas horas ele testemunhou o assassinato do próprio pai, eu diria que ele tem sido bastante cooperativo.

Ele não nos deu nada – disse o outro agente, encarando Carmine.


Isso é porque ele não tem nada a oferecer – respondeu Borza. – Não pode arrancar o que ele não sabe. E por causa disso acho que a conversa está encerrada. Faça uma acusação formal ou deixe-o ir.

Não temos de fazer nenhum dos dois– retrucou o agente de maneira arrogante, cruzando os braços sobre o peito. – Temos todo o direito de detê-lo.

É verdade, mas não farão isso. Não apenas por meu cliente estar ferido, mas também por estar traumatizado. A mídia teria um prato cheio se soubesse que vocês o detiveram… Como se já não tivessem muitos danos a conter. Não precisam da acusação de assediar um jovem inocente para complicar as coisas. – Assediar? Inocente? Ele é um deles!

Ele? – perguntou Borza, olhando para Carmine. – Acha mesmo que alguém irá olhar para este jovem e considerá-lo um criminoso? O agente Cerone suspirou.

É, tem razão. O outro agente olhou para o colega sem acreditar.

– –

Vai deixar que ele vá embora?

Eu dei minha palavra – disse o agente Cerone em voz baixa, empurrando sua cadeira e olhando para o relógio. – Aguardem um pouco enquanto cuido da soltura do rapaz. Eu disse a você que o deixaria sair pela manhã e parece que eu estava certo, considerando que o sol logo vai nascer.


Capítulo 38 Kelsey e Haven estavam sentadas na lanchonete próxima ao prédio, numa cabine perto da porta. Era manhã de domingo do primeiro fim de semana de suas férias de verão. Havia alguns outros clientes no local, um casal de idosos a pouca distância e uma família nos fundos, e também dois homens bebendo café no balcão. Uma senhora usando calças cáqui, blusa branca e um avental preto entregou às garotas dois cardápios plastificados.

– – –

O que as moças gostariam de beber? Café – respondeu Kelsey. – Com creme, um pouquinho de leite desnatado e três pacotes de adoçante. Ah, e dois cubos de gelo.

Também quero café – completou Haven. – Mas puro, por favor. Você sabe, comum. A mulher retornou com as bebidas enquanto Haven abria o cardápio e o examinava. Kelsey disse uma lista de itens, enfatizando sua necessidade por bastante bacon, enquanto Haven pediu uma pilha de panquecas. Por mais faminta que estivesse, nada parecia lhe agradar. – Providenciarei tudo num momento – respondeu a garçonete, afastando-se novamente e levando consigo os cardápios. Haven suspirou e tomou um gole de seu café, enquanto olhava pela janela. Ela ouviu quando um dos homens sentados ao balcão pediu que a garçonete ligasse a TV e, poucos segundos depois, o local estava tomado pelo som das notícias. As reportagens eram em sua maioria de caráter político, com escândalos locais dominando as manchetes. Ela investira algum tempo aprendendo a respeito dos partidos políticos de Nova York. O pai de Kelsey mais uma vez estava concorrendo a uma vaga no senado e Haven sempre lhe perguntava sobre isso, mas a amiga costumava evitar o assunto, dizendo que aquilo não importava para ela, que nem se incomodaria em votar se o emprego de seu pai não dependesse disso, afirmando que nada jamais mudaria, independentemente de quem assumisse o comando. Haven nunca se contrapôs à amiga, embora não concordasse. Abraham Lincoln e o 38º Congresso dos Estados Unidos aprovaram a 13ª Emenda, que aboliu a escravatura. Woodrow Wilson e o 66º Congresso norte-americano aprovaram a 19ª Emenda, que garantia às mulheres o direito de votar. Para Haven, tudo aquilo importava. Os dois homens começaram a debater as questões mencionadas e pareciam estar em lados opostos em cada detalhe. Ela continuou tomando seu café enquanto a discussão de ambos se tornou mais audível. Eles falavam sobre controle de armas e Haven congelou, derramando seu café ao olhar de relance para a TV. Seu estômago se contraiu ao ver o rosto familiar na tela e seus olhos se voltaram para o nome que aparecia na parte inferior do vídeo: agente especial Donald Cerone, Departamento de Justiça. Deixando a xícara escorregar de sua mão e bater com força na mesa, o líquido quente queimou sua pele, fazendo-a cerrar os dentes por causa da dor. Todos ficaram em silêncio no local ao perceberem a comoção da garota na mesa, mas Haven os ignorou, concentrando-se apenas na TV. Ela não conseguia ouvir bem as palavras, por conta da ardência na mão, mas sentiu como se estivesse se afogando.


[…] fez uma declaração sobre o incidente na cidade de Chicago […] um grande embaraço para o departamento […] massacre na suposta mansão do Chefão da Máfia, Salvatore Capozzi […] que teria sido o incidente mais mortal na história da organização criminosa […] o debate sobre como as testemunhas devem ser adequadamente ouvidas […]. Haven ficou petrificada ao ver a imagem do doutor DeMarco na tela.

– –

O suposto membro da Máfia estava desaparecido […]

Meu Deus – disse o homem ao ver a imagem de uma grande mansão e dúzias de carros de polícia estacionados diante de um cordão de isolamento amarelo.

Uma testemunha dos agentes federais[…] teria fornecido informações que desencadeariam a invasão ao local […] o tiroteio teve início antes da chegada da polícia […] não têm certeza de qual era o principal alvo […] um mandado foi expedido contra Capozzi […] supostamente ferido durante a troca de tiros… – uma imagem de Salvatore apareceu na tela com um número de telefone no rodapé. Haven estremeceu e lágrimas imediatamente se formaram em seus olhos. – […] sete mortos no local […] vários levados em custódia […] Haven respirou fundo ao ver a figura de Carlo na tela, seguida de vários outros. Vítimas, segundo eles, que já estavam mortas antes de a polícia chegar. Ela ficou em choque… Carlo estava morto? A garota estava tão perplexa que mal conseguiu registrar as palavras seguintes.

O funeral de DeMarco está marcado para amanhã […] Funeral. Um dos sujeitos na lanchonete suspirou exasperado.

– –

Um ótimo exemplo de por que precisamos de um controle de armas neste país.

De jeito nenhum – retrucou o outro. –Eles nos fazem um grande favor ao matar uns aos outros. Um forte soluço escapou da garganta de Haven quando conseguiu registrar tudo aquilo e ela levou a mão à boca para abafar. Tremia de maneira incontrolável e acenava com a cabeça furiosamente, sem acreditar. Funeral? O doutor DeMarco estava morto?

Hayden? – chamou Kelsey. – Você está se sentindo bem? Haven tentou responder, mas assim que tirou a mão da boca outro soluço ecoou pela lanchonete. Ela saiu correndo da mesa e quase caiu ao sentir que suas pernas mal conseguiam segurar seu corpo. Ela passou pela amiga e saiu pela porta, desceu a rua às pressas até seu apartamento. Kelsey gritou tentando chamar a atenção da amiga, mas ela não se virou. Lutando para encontrar as chaves, entrou rapidamente e se encostou à porta, fechando os olhos e tentando se controlar. Aquelas palavras do noticiário se repetiam em sua mente, mas não conseguia compreender o que havia acontecido. Como ele podia estar morto? O que acontecera, afinal? Depois de controlar a respiração, ela abriu os olhos e secou as lágrimas que escorriam pelo rosto. Então pegou o telefone preto e discou o número de Chicago, esperando ser atendida.


Corrado Moretti. Deixe uma mensagem. Haven afastou o nervosismo que sempre acompanhava aquelas chamas. A queimação em seu peito foi aplacada por outra sensação. Diante daquele choque, de todo o horror que sentia e do medo, ela se decidiu e as seguintes palavras escaparam de sua boca:

Estou a caminho de Chicago.

Haven saiu de seu apartamento no escuro da noite, levando consigo apenas uma pequena mala de roupas. Trancou o apartamento e caminhou pelo quarteirão até o estacionamento mais próximo, pegando o elevador até o terceiro piso. Localizou o Mazda parado precisamente onde o havia deixado quase um ano antes. A grossa camada de poeira cobria a tinta e escondia os arranhões que ainda adornavam o teto. Custou-lhe quase todo o dinheiro que tinha pagar pelo tempo que o carro ficara estacionado ali e ainda encher o tanque para iniciar a viagem. Seu coração doía enquanto dirigia rumo à estrada. Sua mente estava tomada por pensamentos envolvendo doutor DeMarco. Diferentemente do que ocorrera tantas vezes no passado, em que o incidente em que ele a punira sempre voltava à sua cabeça, agora tudo em que conseguia pensar era nos bons momentos: o dia em que Vincent lhe dera uma foto de sua mãe, os feriados, as risadas que ecoavam pela casa e o olhar de orgulho no rosto de Dominic ao se graduar. Ela pensou em tudo que recebera de DeMarco e na ocasião em que ele lhe entregara as chaves de seu próprio carro para que ela aprendesse a dirigir. Ele sequer ficou irritado quando ela voltou para casa com um arranhão no espelho. Parecia que mais de um ano de boas memórias tinham invadido sua mente e, com elas, as lágrimas também inundaram seus olhos. As palavras de Dominic ressurgiram em sua cabeça, aquelas que ele lhe dissera quando caminhavam perto do rio em Durante: – Já perdi minha mãe para esta vida – ele disse. – Não quero perdê-lo também. Dominic fizera Haven compreender que não havia nada de errado em querer mais da vida. Ele a ajudara a encarar seus piores medos. Era mais que justo que ela estivesse ao lado dele para também ajudálo a suportar aquela dor.

Capítulo 39 Haven ficou sentada dentro do carro estacionado próximo à guia; seu estômago parecia uma gelatina enquanto ela olhava para a porta azul da antiga casa. Ela só havia estado ali uma vez, quando se sentara no primeiro degrau ao lado de Carmine. De algum modo, mais de um ano se passara desde aquele


dia… Mais de um ano desde que ela o vira pela última vez. Ela ficou imaginando se ele ficaria feliz em revê-la ou bravo pelo fato de ela ter vindo. Tantos cenários inundaram sua mente no momento em que ela saiu do carro e atravessou a rua. Ela tentou controlar sua ansiedade ao caminhar para a varanda, mas antes mesmo que pudesse bater à porta, ouviu seu nome vindo da rua. Sua visão ficou turva e seu coração acelerou no momento em que se virou e viu Corrado, que se aproximava lentamente.

– –

Senhor.

Fico feliz por saber que está bem. –Ele a olhou intensamente, com uma expressão séria em seu rosto. Haven ficou nervosa, imaginando se seria errado ela estar ali. A garota entrou em pânico diante da possibilidade de estar em perigo.

– –

Eu não sabia se deveria vir.

Você fez bem em aparecer – ele disse ao se aproximar.– Peço desculpas por não ter ligado antes. Quando tive a oportunidade, já havia recebido sua mensagem, então presumi que alguém lhe tivesse dito.

Eu vi na TV – ela disse em voz baixa. – Eles disseram que houve um massacre. Corrado zombou da palavra utilizada.

Aquilo não foi um massacre. Se este fosse o caso, ninguém teria sobrevivido, mas Carmine e eu conseguimos sair vivos.

– –

Carmine? – ela perguntou horrorizada. – Ele também estava lá?

Sim – respondeu Corrado. – E como você pode imaginar, ele não está nada bem. Depois do assassinato de Maura, ele não falou uma única palavra com ninguém por muito tempo. Parece que está lidando com a morte do pai do mesmo jeito.

Meu Deus! – A queimação se espalhou pelo peito enquanto seus olhos se encheram de lágrimas. – Ele viu os dois morrerem. – É verdade.

Ele está…? – ela perguntou, apontando para a porta. – Ele está em casa? Corrado negou com a cabeça.

– –

Ele já foi para o funeral com minha esposa. Ah…


Pode vir comigo – disse Corrado. –Estou esperando que um carro me apanhe aqui. Há muito tempo para nos encontrarmos com eles no cemitério. Haven olhou para si mesma e reparou em sua camiseta amarrotada e jeans sujos. Ela vestia a mesma roupa desde a manhã do dia anterior. Não tivera tempo de se trocar.

– –

Não tenho nada comigo para usar.

Deus não se importa com o que está vestindo, Haven – disse Corrado. – Isso também não importaria para Vincent. Mas se isso a fizer se sentir melhor, tenho certeza de que algo no armário de minha esposa resolverá o problema.

Ah, não, eu não poderia – disse Haven, negando. – Eu não quero abusar tanto de sua paciência. Corrado soltou uma gargalhada.

Depois de tudo o que já fiz, acho que uma troca de roupas não é nenhum abuso. Aquilo a fez ficar em silêncio.

Venha – ele insistiu. – E sem desculpas. Haven o acompanhou em silêncio até a casa dele e seguiu para o quarto de Celia, para escolher algo para vestir. Ao abrir o armário, ela foi direto a um vestido preto e simples. Era um pouco grande, mas lhe caiu melhor que o esperado. Ela também tomou emprestado um par de sapatos que, embora apertassem um pouco, eram mais que adequados para o momento. Ela não se preparou muito e em menos de vinte minutos já estava de volta à sala. Corrado a esperava no andar inferior e olhou para a porta ao ver o carro preto estacionar na frente da casa. Ambos entraram no veículo e Haven se mostrou ansiosa, mexendo-se sem parar no banco de couro.

Eu tentei – disse Corrado em voz baixa depois de alguns minutos. – Fiz tudo o que podia por Carmine, mas parece que está além de minha capacidade. Ele é muito teimoso e descuidado demais. Do jeito que vão as coisas, a vida dele já está por um fio. Por um fio? Aquelas palavras reverberaram dentro dela, enquanto ela sentiu um frio percorrer seus ossos.

– –

Você desistiu dele?

Não importa… Não quando ele já desistiu de si mesmo. Antes que Haven pudesse responder, o telefone de Corrado tocou. Ele o tirou do bolso, soltando um longo suspiro ao responder a chamada.

Moretti… Sim, está tudo arranjado. Tenho certeza de que tudo correrá conforme os planos.


Ele desligou rapidamente, recolocando o celular no bolso e voltando a se concentrar na garota.

Essa visita é temporária ou precisa que suas coisas sejam trazidas de Nova York? Ele ficou sem resposta.

Bem, eu… Eu não sei. Corrado se virou para a frente e se concentrou no caminho.

Diga-me assim que se decidir.

O longo caixão em tom dourado se destacava sobre o pequeno monte de terra coberto de grama. Havia coroas de flores coloridas por todos os lados. Uma multidão de pessoas se reunira ali, dúzias de pessoas vestidas com suas melhores roupas, cabisbaixas e com os olhares absortos, como se tentassem evitar enfrentar a realidade. A tristeza e o sofrimento envolviam a todos; a atmosfera estava pesada e a dor pairava no ar. Haven fez uma pausa a alguns metros de onde o funeral acontecia, suas pernas estavam fracas. O corpo do doutor DeMarco jazia naquele caixão, seu coração já não batia e a vida o deixara para sempre. Ele havia partido e jamais voltaria a abrir seus olhos para enxergar um novo dia. O ar parecia ser forçado para fora dos pulmões da garota diante daquele pensamento, e sua visão ficou turva. Ela deu alguns passos para o lado e encostou-se numa árvore para recuperar o fôlego. Corrado prosseguiu e se reuniu à multidão. Ela os observou de longe enquanto se recompunha, conseguindo identificar de longe apenas Celia e Dominic. Os demais estavam fora de sua visão. Ela queria se aproximar, desesperada para ver Carmine, mas seus pés não se moviam, apesar de todo o esforço que fazia.

Vincenzo era um homem leal – declarou o padre, de pé ao lado do caixão, segurando uma Bíblia contra o peito. – Ele foi um marido e um pai, um filho e um irmão. Não era um homem perfeito, e certamente cometeu erros, mas nenhum homem é perfeito. Todos nós cometemos pecados; todos nos tornamos vítimas da tentação. Vincenzo não era diferente de ninguém.

Soberba, luxúria, gula, preguiça, ira, inveja e avareza. Os sete pecados capitais. Ele lutava contra todos, tentando equilibrar o que havia de bom e de ruim em sua vida e, em muitas ocasiões, ele falhou. Mas apenas pelo fato de ter sucumbido ao mal que existe no mundo, não significa que ele fosse um homem mau. Vincenzo me visitou várias vezes antes que sua vida chegasse ao fim e expressou remorso por todo o sofrimento que provocou e, por causa disso, tenho certeza de uma coisa: apesar de suas falhas, Vincenzo Roman DeMarco era um verdadeiro homem honrado. Choro e soluços podiam ser ouvidos entre a multidão, mas Haven não conseguia decifrar de onde vinham. Quando o padre terminou depois de alguns minutos, os presentes se revezaram atirando longas rosas vermelhas sobre o caixão, despedindo-se individualmente do homem que jazia ali dentro. Haven conseguiu identificar Tess e Dia, mas a família estava à frente de ambas, bloqueando a passagem.


Nervosa, Haven mexia as mãos sem parar enquanto a multidão se dispersava, descascando o esmalte rosa-claro que cobria parcialmente suas unhas. Foi então que viu Carmine pela primeira vez. Ele estava usando um terno preto; os cabelos estavam penteados para trás e a cabeça abaixada, olhando para o buraco na terra. As pessoas se dirigiam a ele ao se despedir, mas ele não olhava para ninguém. Apenas se mantinha ali, parado, como uma fria estátua de mármore, imóvel e em silêncio, de pé no mesmo lugar. Ela viu quando Celia acariciou as costas de Carmine antes que ela e Corrado se afastassem. Corrado colocou a esposa na direção de Haven. Surpresa, Celia sentiu as pernas vacilarem ao se aproximar da jovem com um sorriso caloroso e abraçá-la com carinho.

– –

Você está ótima, criança. Já faz tanto tempo.

Obrigada – agradeceu em voz baixa, vendo o rosto de Celia vermelho e com a maquiagem borrada de tanto chorar. – Estou tão triste pela sua perda, Celia.

Eu também, minha querida – ela sussurrou, olhando de volta para Carmine e franzindo o cenho antes de olhar de volta para a moça. – Vá – ela disse, apontando para o rapaz. – Certifique-se de que ele volte para casa em segurança, ok? Corrado colocou o braço ao redor dos ombros de Celia, acenando positivamente para Haven, antes de levar a esposa embora. Haven ainda permaneceu parada ali por mais um momento, olhando para Carmine, e imaginando se ela de fato conhecia a pessoa que estava à sua frente. Ele parecia tão diferente, desde sua postura até o modo como estava vestido. Tudo era tão estranho. Seus ombros caídos mostravam um homem derrotado. O jovem parecia alheio a tudo o que havia ao seu redor. Haven deu alguns passos na direção dele, mas parou novamente ao vê-lo se abaixar, pegar uma rosa e se aproximar do túmulo. Ele se agachou diante da lápide e depositou a flor no solo antes de passar os dedos sobre as palavras gravadas no mármore envelhecido. Haven deu mais alguns passos, curiosa. Foi então que percebeu onde estava. Certa vez, ele lhe dissera que sua mãe estava em Hillside. O coração da garota bateu acelerado ao sentir que talvez estivesse invadindo a privacidade de Carmine. A lembrança dele sentado diante de seu piano, com os ombros caídos, chorando no dia do aniversário da morte de Maura surgiu em sua mente e a dor tomou conta de seu peito. Nesse instante, ela deu um passo atrás. Carmine deve ter sentido o movimento, pois o corpo dele se enrijeceu; seus ombros ficaram retos e ele ergueu a cabeça, como se estivesse em alerta. Algo na atmosfera havia mudado. O sol da tarde desaparecia por trás das nuvens pesadas, tornando o cemitério ainda mais sombrio. Uma brisa suave fez balançar o vestido de Haven, provocando nela um frio na espinha. Tudo pareceu acontecer em câmera lenta. Carmine se virou em direção a Haven e seus olhos se cruzaram. Ela enfim viu o rosto do rapaz, com os lábios franzidos e os olhos vermelhos e inchados. A expressão vazia mudou quando ele a viu, e seu rosto foi tomado por emoções fortes; as mesmas que surgiam dentro dela. Choque, descrença, confusão, desespero, medo, saudade, esperança, tristeza, sofrimento… Tudo aquilo atingiu Haven imediatamente no instante em que o viu em frangalhos; aquele mesmo homem a quem ela entregara seu coração e jamais o recuperara. Ela o amava, tanto quanto sempre amou, e quando viu o mesmo sentimento refletido nos olhos dele tudo fez sentido. Afinal, apesar de tudo que havia mudado, a despeito de tudo que não lhe parecia familiar, independentemente da dor e do coração partido, o amor entre os dois ainda estava lá.


Naquele momento, algo parecia estar certo novamente. De um jeito hesitante, o rapaz deu um passo em direção a ela, o que a fez sair em disparada. Ela tirou os sapatos, os jogou longe e correu para ele, tremendo e chorando ao se atirar nos braços de Carmine, que se firmou numa tentativa de se manter de pé e se desequilibrou um pouco ao abraçá-la. O corpo dele tremia violentamente quando um gemido abafado rasgou seu peito. Nenhum dos dois disse uma única palavra. Parecia que a garganta de Haven estava bloqueada, o que tornava impossível que ela pronunciasse qualquer coisa; ela apenas chorava. Ela fechou os olhos quando ele a abraçou, entregando-se ao perfume e ao calor tão familiares. Apesar de saber o quanto ele estava vulnerável, do quanto o solo debaixo dos pés dele parecia inseguro, ela se sentiu tranquila nos braços dele. Era como se tudo o que havia enfrentado e encarado se resumisse agora àquele momento único em que ela finalmente se sentia em casa de novo. Ele era o seu lar. Sempre fora. Haven não sabia dizer quanto tempo ficaram ali, entre os túmulos dos pais de Carmine, abraçados um ao outro e compartilhando todo seu sofrimento, sua dor, seus corações partidos através de suspiros trêmulos, compartilhando cada lágrima salgada que escorria pelo rosto dos dois. Podiam ter se passado alguns minutos, ou até mesmo algumas horas. O tempo mais uma vez congelou para os dois.

La mia bella ragazza – ele suspirou, com a voz fracionada. Aquelas palavras a fizeram sentir toda a saudade que se acumulara desde a separação. A garota fechou os olhos e deixou que a eletricidade do toque de Carmine percorresse suas veias.

Carmine! Ele se afastou por um segundo para olhá-la. O rosto dele estava coberto de lágrimas e seus cabelos estavam alvoroçados. Ela esticou a mão para tentar ajeitá-los, mas seus dedos logo ficaram presos no que parecia um ninho de produtos para fixar os fios.

Seus cabelos. Um sorriso triste surgiu no cantinho da boca do jovem e, embora ele não tivesse respondido, ela sabia que ele compreendia. Ele esticou a mão e secou as lágrimas que escorriam pelo rosto dela, que fechou os olhos ao sentir o toque carinhoso. Então, deslizou os dedos pela face e pelo maxilar da garota, gentilmente, explorando cada milímetro de seu rosto. Em seguida, afastou um cacho de cabelos e o colocou atrás da orelha de Haven. Também secando as lágrimas do rapaz, Haven repetiu o que ele fizera, olhando de modo peculiar para a pequena marca na bochecha do jovem e passando os dedos sobre ela. Ela nunca vira aquela marca antes.

– –

Você tem uma nova cicatriz.

Você é tão linda – ele disse, esboçando um sorriso quando viu o rosto dela ficar vermelho. – E continua ficando envergonhada também.

Você ainda me deixa assim – ela sussurrou, olhando para ele. – Está usando um terno. Olhando para si mesmo, ele fez uma careta.


Eu ainda detesto ternos, mas é um funeral – a voz dele falhou ao dizer aquela palavra e ele se virou, respirando de maneira profunda e calculada. Então olhou para algo atrás dela. – Você estava usando saltos.

Eu ainda os odeio, mas… é um funeral – ela disse, repetindo aquelas palavras. – Você não está usando seus tênis Nike.

Gostaria de estar com eles – ele murmurou. – Essa porra de sapato machuca meus pés. Ela segurou uma risada.

– –

E você ainda diz essa palavra.

Que palavra? – ele perguntou, erguendo as sobrancelhas quando ela não respondeu. – Bem, acho que você ainda não a utiliza. Haven ergueu os ombros. Ambos permaneceram ali por algum tempo. Aquela conversa podia parecer trivial, considerandose a situação, mas era a maneira de eles se reconectarem. Lembraram-se de todos os detalhes a respeito um do outro e tentavam descobrir as novidades, à medida que o conforto e a familiaridade se restabeleciam. Inúmeras vezes ela imaginou o que diria se voltasse a ver Carmine, pensando no que ele responderia ao vê-la, mas a garota nunca pensou que o reencontro seria tão reconfortante, como se nunca tivessem se separado. Ambos haviam mudado e aquilo era óbvio. Bastava que ela olhasse para os profundos olhos verdes do rapaz para perceber que a escuridão pairava dentro deles, mas ainda assim aquilo não o havia consumido. Carmine parecia em frangalhos, mas sua alma continuava intacta. Foi como encontrá-lo pela primeira vez, só que dessa vez já sabendo exatamente quem ele era: Carmine Marcello DeMarco… E, mesmo parecendo um trapo velho, ele ainda era muito bonito.

Não consigo acreditar que esteja aqui – ele disse, abraçando-a novamente. Ele enterrou seu rosto nos cabelos da garota para sentir o cheiro. – Isso tem que ser uma porra de um sonho.

– –

Não é um sonho – ela respondeu. –Eu estou aqui.

E por quanto tempo? Ela hesitou. O telefone de Carmine tocou e a tensão entre ambos cresceu quando ele fez um movimento para que ela permanecesse onde estava. Ela o olhou preocupada enquanto ele se afastou, levando o fone até o ouvido e falando em voz baixa para se assegurar de que ela não ouvisse. Ela sentiu algo forte na boca do estômago. Sabia que a tranquilidade não duraria para sempre, que aquilo que mais parecia um encontro, não um reencontro, se racharia em breve. Ele fazia parte daquela vida e havia coisas sobre ele com as quais ela não poderia se envolver; coisas que ela jamais deveria saber. Carmine guardava segredos que nunca seriam compartilhados.


Sem querer parecer curiosa, Haven deu um passo para trás e olhou para a lápide no túmulo da mãe dele.

MAURA DEMARCO ABRIL 1965 – OUTUBRO 1996 “AMA, RIDI, SOGNA – E VAI DORMIRE”

Ela tinha apenas 31 anos quando morreu; era jovem demais para ter sido arrancada deste mundo. Doutor DeMarco vivera mais de uma década sem a esposa. Haven não conseguia sequer imaginar como ele havia se sentido acordando todos os dias e percebendo que jamais a veria novamente, que jamais sentiria aquela faísca.

– – –

Desculpe – disse Carmine, interrompendo os pensamentos da jovem. Era…

Não preciso saber – disse Haven, interrompendo-o, embora tivesse escutado o nome de Corrado em certo momento. Um silêncio embaraçoso pairou entre eles antes que Carmine soltasse um suspiro.

“Ama, ridi, sogna – e vai dormire” – ele repetiu, lendo o que estava escrito na pedra. – Quer dizer “ame, ria, sonhe e então vá dormir”. Haven sorriu delicadamente.

– – – –

Gosto disso. Eu também – ele murmurou, com um sorriso triste nos lábios. – Era isso o que ela fazia. Ela era uma mulher fantástica.

Era mesmo. É uma pena que não tenha puxado mais a ela. Em vez disso, sou como ele. – Lágrimas surgiram novamente nos olhos do rapaz, e certa raiva pôde ser sentida junto a suas palavras. – Filho de Vincent DeMarco, o que me transforma na porra de um inimigo. Por mais que eu deteste tudo isso, é a pura verdade. Sou um deles.

– –

Não, não é.

Eu sou. Você nem sabe o que está falando – ele disse, acenando negativamente com a cabeça. – Não teria coragem de olhar para mim se soubesse.


– –

Você só fez o que teve que fazer.

Você nem sabe o que eu fiz – ele retrucou. – O que eu vi e as coisas a que assisti sem dizer uma única palavra. Eu vi pessoas morrerem e mantive minha boca fechada como se aquilo não importasse, como se elas não importassem. Que tipo de pessoa faz isso?

Eu – Haven disse em voz baixa. – Já se esqueceu de quando Frankie matou aquela menina? Número 33. É tudo o que sei a respeito dela, um número escrito num pedaço de papel preso à roupa dela. Ela está morta e nem sei o nome dela. Nunca fiz nada para ajudá-la. Ele negou.

– – – – –

Isso é diferente. E de que modo? Eles a teriam matado se fizesse alguma coisa. Está me dizendo que eles não o matariam se não seguisse as ordens?

Ainda não é a mesma situação – ele insistiu, com a voz ainda mais séria. – Você nasceu dentro disso, mas eu escolhi essa vida. Eu optei por me tornar essa pessoa odiosa.

boa.

Por mim – ela retrucou. – Se não for por nada além disso, esse ato já o torna uma pessoa

Pessoa boa – ele disse com desprezo. – Eles falaram sobre a pessoa boa que o meu pai era, sobre todas as pessoas que ele ajudou, mas e quanto ao mal que provocou? Ele ajuda algumas pessoas e de repente tudo o que fez de odioso é esquecido? E quanto ao que ele fez a você? E o que ele fez a mim? Ele abriu fogo naquela casa e tive de testemunhar toda aquela merda! Então ele… Ele tentou dar fim à própria vida… Carmine começou a tremer enquanto tentava se controlar, à beira de hiper ventilar. Haven passou a mão nas costas dele no momento em que ele começou a chorar. Ele estava ferido e ela não tinha ideia de como ajudá-lo.

Ele se foi – disse Carmine depois deum instante. – Ele saiu em busca de vingança e eu não posso evitar odiá-lo pelo fato de ele ter me deixado também. E a pior parte é que não fiquei surpreso, porque ele fez exatamente o que eu teria feito em seu lugar. Eu teria matado cada um daqueles filhos da puta. Sou igualzinho ao meu pai. Haven agarrou o braço de Carmine para acalmá-lo, uma vez que seu temperamento mudava tão rápido que ela mal conseguia acompanhá-lo. Ele se soltou dela e buscou no bolso um frasco de metal com bebida.


Levando-o à boca, ele fechou os olhos e seu corpo estremeceu ao tomar um gole.

– –

Eu te devo um monte de desculpas, mas dizer que sinto muito não parece o suficiente.

Suas intenções sempre foram as melhores – disse Haven, sem apreciar toda aquela auto depreciação. Com base naquele comportamento, ela concluiu que ele já o vinha fazendo há algum tempo.

Como é que diz o ditado? O caminho para o inferno está repleto de boas intenções? Faz sentido, eu acho, já que estou rumando para lá. Ela recuou.

– –

Não diga isso, Carmine.

Me desculpe, você está certa – ele disse, tomando mais um gole de seu frasco. – Eu não deveria estar lhe dizendo essas coisas. É só que… Eu sinto muito. Estou feliz que esteja aqui. Você não precisava ter vindo. Não deve nada à minha família, mas é bom ver você de novo. As palavras dele já não continham a mesma emoção que ele demonstrara há poucos minutos.

– –

Também é bom ver você. Senti sua falta.

Jura? – ele olhou para Haven. – Também senti sua falta. Você parece estar ótima, tesoro. O coração dela começou a bater de modo irregular e ela sentiu algo bom ao escutar a palavra tesoro escapar dos lábios do garoto. Ele tentou passar a mão sobre os cabelos, mas sentiu uma forte dor e olhou para a bandagem que a envolvia.

O que aconteceu com a sua mão? Ele a enfiou de volta no bolso, tentando esconder o ferimento.

– – –

Corrado atirou em mim. Ele atirou em você? Mas por quê?

Terá de perguntar a ele – ele voltou a ficar em silêncio e Haven sabia que ele não queria contar. – Ah, e foi daí que surgiu a cicatriz no meu rosto também. Alguém atirou em mim. Mas daquela vez não foi Corrado… Algum irlandês filho da puta. Haven o encartou quando compreendeu a situação.

– –

Isso é apavorante.

É a vida – ele disse, dando de ombros como se não fosse grande coisa. – É a minha vida agora, de qualquer maneira. Mas graças a Deus que não é mais a sua.


O silêncio reinou mais uma vez, enquanto ele tomava alguns goles. Ele olhava para todos os lados, menos para ela. A garota conseguia ver a tristeza no rosto dele, a necessidade que ele sentia em ter algo que achava não mais poder. Aquilo provocou uma forte dor no peito de Haven.

Um cara chamado Gavin me convidou para sair há alguns meses – ela disse. Carmine congelou com o frasco ainda nos lábios, contraindo-se ao escutar aquelas palavras. A tensão se fez aparente.

– – – –

Você saiu com ele? Uma vez, mas jamais iria funcionar. E por que não?

Porque ele jamais poderia me conhecer de verdade – ela disse em voz baixa. – Eu tinha amigos, mas eles também não me conheciam. Ninguém me conhecia. Eles não sabem de onde eu vim ou das coisas pelas quais passei. Só conhecem a história fictícia, a mulher que finjo ser… A garota que todos querem que eu seja… A garota que eu ainda gostaria de poder ser. Eles acham que o mundo de onde eu venho só existe nos filmes.

É justamente o ponto – ele disse. –Você pode ser quem você quiser agora. Ela soltou um suspiro.

Será que você não compreende, Carmine? Eu sou esta garota. Eu sempre serei esta garota e, acredite ou não, gosto de ser quem eu sou. Gosto de ser Haven. Gosto de mim.

– –

Também gosto de você – ele retrucou–, mas você merece mais do que essa vida, Haven.

Bem, o mesmo se aplica a você. Ele rosnou.

mim?

– –

Eu escolhi essa merda. Então por que você não me deu a escolha? – ela perguntou. – Por que você escolheu por

Porque eu jamais poderia permitir que você jogasse tudo fora por alguém como eu. Você é melhor que gente do meu tipo. Haven negou, sem acreditar no que ouvia.

Gente do seu tipo? Como pode dizer isso? Justamente você, o cara que me repetiu milhões de vezes que eu superaria meu rótulo… Como você pode rotular a si mesmo? Você queria que eu saísse


pelo mundo e explorasse minhas opções. Eu fiz isso, Carmine, e adorei, mas eu estava sozinha. Sabe como é estar numa sala lotada e ainda assim se sentir como se fosse a única pessoa ali? Sabe? Porque foi exatamente assim que me senti.

– –

Eu não podia ser algo em que você apostasse sua vida, Haven.

Acha que estar ao seu lado seria colocar minha vida em risco? Eu sempre farei parte do seu mundo. Sempre haverá alguém me controlando, se certificando de que eu não abra a boca. Minha casa foi invadida e sequer pude chamar a polícia. Tive de ligar para o seu tio! Como eu explico isso para as pessoas? Não é normal. Eu não sou normal! Estar lá fora e sozinha no mundo, passando a vida fingindo ser alguém que eu não sou… Acha que isso é uma boa aposta, Carmine? Será que você sequer se importa com o que eu quero? Carmine suspirou de um jeito exasperado, bebendo outro gole. – É claro que me importo.

Então por que fez o que fez? Ele a encarou, fixando intensamente seus olhos nos dela.

E o que você faz quando a coisa que você mais quer na sua vida está além do seu alcance? Aquela pergunta pegou Haven de surpresa.

– –

O quê?

Você escreveu isso em seu próprio diário – ele disse. – Eu não podia prendê-la. Um riso amargo de descrença partiu do peito da garota.

Então foi por isso? Está brincando comigo? A resposta para essa pergunta não é desistir, Carmine. Você não desiste. Você continua tentando. Continua esticando a mão. Tudo o que sempre quis foi alguém que me enxergasse, que me amasse, que me compreendesse. Nunca tive de me esconder de você. Nunca tive de fingir ser alguém que não era. Você me conhece; você conhece essa pessoa que ninguém jamais irá conhecer. Eu queria estar com você, pensei que ficaríamos juntos e então você foi embora! Desapareceu enquanto eu dormia! Haven acenou negativamente com a cabeça, colocando para fora todo o seu sofrimento naquelas palavras, tudo o que ela guardara pelos últimos dezoito meses escapou de sua boca como um vulcão em erupção.

– –

Eu queria o que fosse melhor para você – ele disse. – Queria que você tivesse uma chance.

Uma chance? – ela perguntou. – Você me pediu uma chance certa vez. Lembra-se disso? E eu lhe dei essa chance. Não me arrependo nem por um segundo. Nunca me arrependerei. Se você não me amasse, tudo bem, mas…


É claro que eu te amava! – Os olhos dele se encheram de lágrimas. – Eu só não queria que você acabasse morta!

– – –

Você não é o seu pai, Carmine, e eu não sou sua mãe. Eu sei disso – ele retrucou.

Sabe mesmo? Está tão ocupado tentando impedir que a história se repita que ignora completamente o que está bem diante do seu nariz! Ele secou os olhos.

– –

E o que é que está bem diante do meu nariz?

O destino – ela disse. – Você apareceu em minha vida porque era o que tinha que acontecer. Não foi um acidente! Então, não me empurre para fora de sua vida, porque… Porra… eu te amo, Carmine DeMarco, e você só está se ferindo ao fazer isso! Furiosa, Haven cruzou os braços sobre o peito, tentando se recompor. Carmine olhou para ela confuso, mas no instante em que um soluço escapou da garganta dela, ele retornou à realidade e a abraçou com força.

Ah, tesoro – ele sussurrou sobre os cabelos dela. – Porra, eu também te amo! Ambos ficaram abraçados por algum tempo até que o telefone de Carmine voltou a tocar e a interrompê-los. Ele resmungou ao pegá-lo e olhar para a tela.

Senhor? – ele disse, com a voz desprovida de emoção, sem deixar de olhar para Haven dessa vez. – Sim, senhor. Trinta minutos. Entendi. Ele desligou, olhando para Haven de um jeito curioso.

Você tem que ir? – ela adivinhou. Ele assentiu.

– –

E você também. Estão esperando por nós.

Era Corrado? – ela perguntou, surpresa quando ele assentiu. – Parecia sério, como, você sabe… trabalho. Ele sorriu de um jeito triste.

Corrado significa trabalho para mim. Ele é meu chefe primeiro, só depois vem a família. Já não posso mais mandá-lo se foder. Não gostaria que ele atirasse em mim de novo. Haven olhou para a mão dele de um jeito instintivo.


– –

Ainda não consigo acreditar que ele tenha feito isso.

É, bem, eu consigo. Ele já ameaçou-me matar mais vezes do que fui capaz de contar, então isso era apenas uma questão de tempo. – Haven o encarou horrorizada e ele soltou um riso nervoso. – Para falar a verdade, eu mereci. Já aprontei muito.

– –

De que jeito? Digo, se você puder…

Talvez mais tarde – ele disse, olhando para o relógio. – Ficaríamos aqui a noite toda se eu tentasse explicar, e agora só temos 28 minutos. Ele deu mais uma olhada ao redor e fixou os olhos nos túmulos dos pais, pressionando as costas de Haven para levá-la embora.

– – –

É, acho que eu estava errado. Sobre o quê?

Provavelmente sobre tudo, mas, na verdade, eu estava me referindo a você nunca dizer “porra” – ele disse, acenando com a cabeça. – Não posso acreditar que tenha dito isso justamente para mim.

Nenhum dos dois disse nada durante o trajeto. Tanto tempo havia se passado que Haven sabia que seria impossível que os dois retomassem exatamente de onde haviam parado. Parecia irrealista esperar ter de volta tudo aquilo que compartilharam no passado. Ainda estava tudo ali, entretanto, enterrado sob a superfície. Demoraria algum tempo para desenterrar os sentimentos e cultivá-los para que recobrassem a saúde. Isso se ele estivesse disposto a tentar. Assim que chegaram, os dois foram à casa dos Moretti. Carmine estava muito nervoso, com as mãos enfiadas nos bolsos e o corpo tenso. Manteve a cabeça baixa, fechando-se cada vez mais a cada passo. Ele entrou sem bater, parando no hall. Ela entrou logo atrás e viu Corrado de pé na ponta da escada. Ele olhou para o relógio.

Trinta e nove minutos. Atrasado. Uma voz animada pôde ser ouvida no corredor conforme caminharam para a sala de estar. Haven sorriu diante de toda a familiaridade, reconhecendo imediatamente Dominic. Carmine parou à porta e ela parou atrás dele, olhando além do rapaz com certo nervosismo. A sala ampla estava lotada de pessoas e ela logo viu Dia, sentada num sofá. Tess estava ao lado dela, mas fora de visão, uma vez que Dominic estava à sua frente. Celia estava sentada numa cadeira próxima à porta, ao lado de uma mulher mais velha.


Havia pelo menos mais umas duas dúzias de pessoas ali, gente que Haven não conhecia, mas cada uma delas ouviu atentamente o que Dominic falou. Ele contou uma história sobre uma pescaria de que ambos participaram na infância, discorrendo sobre como Carmine havia derrubado todas as minhocas que os dois haviam reunido na noite anterior. Olhando para Carmine, Haven não percebeu qualquer emoção em seu rosto, nenhuma demonstração de reconhecimento enquanto o irmão narrava os fatos. Ele se manteve de pé, tenso, com as mãos ainda enfiadas nos bolsos e com a cabeça baixa. Haven percebeu, olhando para o garoto, que ele sabia exatamente como ela se sentira quando estava sozinha. Ele sabia muito como era estar numa sala lotada, cercada de pessoas e, mesmo assim, sentir-se absolutamente sozinho. Haven deslizou seus braços por baixo dos dele, enfiando as mãos nos bolsos e tocando suas mãos. Ela entrelaçou os dedos e encostou a cabeça nas costas do rapaz. Carmine não se moveu nem disse uma palavra, mas seu corpo relaxou com aquele contato. Várias histórias foram compartilhadas, uma atrás da outra, até que a sala ficou em silêncio. Uma sensação sombria se espalhou quando ninguém mais parecia saber o que dizer. Haven se afastou de Carmine e o viu ficar nervoso novamente quando ela limpou a garganta.

– –

Acho que tenho algo a compartilhar.

Pé de Valsa! – Dominic atravessou a sala no momento em que a viu e lhe deu um forte abraço, erguendo-a do chão. – Estou muito feliz que esteja aqui!

Coloque-a no chão, Dominic – disse Tess. Dominic colocou Haven no chão e sorriu de um jeito sem graça. Dia e Tess disseram olá para a garota antes que Celia interferisse.

Prossiga, Haven. Adoraria escutar oque tem a dizer sobre Vincent. Nem todos pareciam tão confiantes quanto Celia em ouvir o que Haven teria a dizer. Corrado a encarou apreensivo e ela percebeu que alguns outros também ficaram nervosos, todos cientes do que DeMarco havia feito a ela.

Há cerca de um ano e meio, quando ainda vivia em Charlotte, eu não estava muito bem. Acho que poderia dizer que sentia, ah… saudades de casa –ela olhou para Dia, que compreendeu o que ela queria dizer e sorriu. – Tudo o que eu queria era correr de volta para aquilo que era familiar para mim, e o doutor De… e Vincent sabia disso. Em puro desespero, cheguei ao fundo do poço certa noite e fiz algo estúpido. Ele veio conversar comigo. Disse que sabia que eu estava com medo, mas que eu precisava dar uma chance à minha vida. Ele me disse para mostrar a todos que duvidaram da minha capacidade que estavam errados, que eu era forte o suficiente e que, se depois de tudo isso eu ainda sentisse saudades de casa, ele me ajudaria a encontrar o caminho de volta. Ele me prometeu que quando eu estivesse pronta, me ajudaria, mesmo que fosse a última coisa que fizesse. A garota respirou fundo e olhou para Carmine. Seus olhos se conectaram imediatamente.

É provável que ele tenha pensado que teria de quebrar sua promessa, mas não fez isso. Aliás, ele cumpriu exatamente o que disse. Agora que estou pronta, ele me ajudou a encontrar o caminho de volta para casa. Eu só gostaria que essa não tivesse sido a última coisa que ele fez.


Uma lágrima escorreu pelo seu rosto conforme olhou para aqueles olhos verdes que pareciam recebê-la de volta. Ele abriu a boca como se fosse dizer algo, mas nenhum som escapou de seus lábios. Contudo, aquilo não importava, pois ela sabia exatamente o que ele estava lhe dizendo: Bem-vinda de volta à sua casa. Então, a senhora sentada ao lado de Celia se pronunciou, com a voz cheia de cinismo.

– – –

Quem é essa garota? Como ela conheceu Vincenzo? Esta é… – Celia interrompeu a frase.– Bem, mamãe, esta é Haven Antonelli. Ela é…

Antonelli? Você está falando daquela garotinha que era escrava? As pessoas na sala se encolheram e respiraram fundo, certamente afetadas pelo que poderia chamar de vergonha alheia, mas Haven apenas acenou de modo positivo.

– –

Sim, sou eu mesma.

Inacreditável – disse a mulher, examinando-a da cabeça aos pés. – Bem, acho que não podemos chamá-la assim, entretanto, não é? Não, a neta de Federica não é uma escrava. Ela faz parte da família. Dúzias de olhos se voltaram para a mulher quando ela disse aquelas palavras, e um silêncio mortal tomou conta da sala.

– – –

O que foi que disse, Gia? – perguntou Corrado, chocado e pestanejando. Eu disse que ela é a neta de Federica– respondeu Gia. – Mas o que foi, vocês não sabiam?

Não, quer dizer, sim, eu sabia, mas como você ficou sabendo? Gia acenou a mão com desprezo.

Antonio me contou há muito tempo. Ele planejou matar aquela Salamandra quando descobriu, mas não teve a oportunidade. Deus decidiu levar meu marido primeiro, eu acho. Corrado a encarou boquiaberto.

– –

E por que você nunca nos disse nada?

Vocês nunca perguntaram – retrucou Gia, dando de ombros. – Além disso, todos vocês me consideram maluca. Alguém teria acreditado em mim? Mais um minuto de silêncio se passou antes que Corrado acenasse negativamente com a cabeça.

Não, é bem provável que eu não tivesse acreditado mesmo.


Capítulo 40 Porra, eu te amo.

Aquelas palavras ainda ecoavam na cabeça de Carmine mesmo depois de uma hora. Será que poderia ser assim tão fácil? Ele queria acreditar que sim, queria ceder, mas ainda sentia um grande conflito. Ele não tinha certeza de que conseguiria mantê-la segura ou ser o homem que ela tanto merecia. Ele lutava para sobreviver sozinho, e a última coisa que queria era arrastá-la para aquela vida. Jamais se perdoaria se ela se machucasse. Carmine desviou o olhar de Haven, suspirando enquanto considerava a situação e reparou que Corrado o observava de um jeito peculiar. Aqueles olhos fixos e penetrantes o faziam sentir-se em chamas. Era doloroso e, ao mesmo tempo, cruel. Todavia, por trás daquele escrutínio e julgamento, parecia haver pena. Carmine também o encarou e, apesar de seus olhos terem se conectado por apenas alguns segundos, aquilo pareceu uma eternidade. O telefone tocou e o garoto respirou aliviado quando seu tio tirou o telefone do bolso para atendêlo. Porém, Corrado apenas o desligou e o recolocou onde estava. Permaneceu sentado e imóvel por um momento, com a expressão vazia e os ombros relaxados, mas Carmine era capaz de dizer, pelo modo como flexionava os dedos, que o homem estava estressado. E Corrado no limite nunca era bom para ninguém. O homem então colocou o braço sobre o ombro de Celia e a puxou para perto de si, sussurrando algo em seu ouvido. Ela ficou tensa ao ouvi-lo e olhou diretamente para Carmine, que estava de pé à porta. Quando ele percebeu a preocupação no rosto dela, todo o alívio que sentira no momento anterior se dissipara. Algo estava acontecendo e, pelo rosto de Celia, o que quer que Corrado estivesse planejando, dizia respeito a ele. Carmine não ficou surpreso. Enquanto Salvatore ainda estivesse solto por aí, sua vida estaria em risco. Olhando novamente para Haven, o garoto voltou a sentir-se paranoico. Todos lutaram para mantê-la longe da linha de fogo e, sem saber, ela havia retornado para o campo de batalha. Ele permaneceu ali por mais um minuto, ficando cada vez mais nervoso, até que não aguentou. Saiu da sala em silêncio, desesperado por uma bebida, esperando que um gole o ajudasse a clarear seus pensamentos conflitantes. Olhou para fora, observando a rua à procura de algum sinal de problema, e saiu. No entanto, antes mesmo que conseguisse pisar na calçada alguém o chamou. Carmine congelou ao ouvir a voz de Corrado e se virou, dando de cara com o tio.

Está planejando ir embora sem dizer nada? Aonde está indo? Carmine suspirou no momento em que seu tio parou ao lado dele na calçada.

– –

Para casa.

Para casa? – Corrado acenou negativamente com a cabeça. – Depois de tudo o que já lhe falei sobre seu comportamento, era de se esperar que você já tivesse compreendido alguma coisa! Você não tem nenhum respeito pela sua família.


Você os trata como se todos fossem descartáveis. Ao menos se importa com eles pelo que estão passando neste momento? Seu pai está morto! Agindo de modo defensivo, Carmine perdeu o controle e retrucou:

Ele está morto por sua causa. Naquele momento, os olhos de Corrado escureceram. Ele se virou e agarrou o pescoço de Carmine antes que o garoto pudesse dizer qualquer outra palavra, pressionando-o contra a parede de tijolos e apertando sua garganta com força, quase asfixiando-o. Carmine lutava desesperadamente para se soltar, mas as mãos de Corrado eram fortes demais.

Se sabe o que é bom para você, nunca mais falará comigo desse jeito – alertou Corrado, com a voz baixa e cheia de veneno. – Sua família já está sofrendo o suficiente agora. Não me faça dar a eles mais uma razão para isso. Ele soltou o garoto e deu alguns passos para trás enquanto Carmine se dobrou, tentando respirar.

Que porra é essa? – ele retrucou, com os olhos queimando e repletos de lágrimas. Corrado deu um passo à frente e Carmine se ergueu rapidamente, erguendo as mãos para se defender. – Meu Deus, não quis dizer isso! Eu, ah… Eu sinto muito, tá bom?

Não, não está nada bom – respondeu Corrado. – Durante todo esse tempo, eu venho aguentando você pelo fato de não conseguir superar seu relacionamento com Haven, e agora que ela está aqui, é assim que você age? O que há de errado com você, afinal?

O que há de errado é que ela não deveria estar aqui – ele disse, ainda arfando e tentando recuperar a respiração. – Ela vai se machucar. Todos aqui vão acabar se machucando.

Ah, então você os está evitando para mantê-los seguros? – perguntou Corrado soltando um riso amargo. – Bem, acho que é uma atitude… honrada de sua parte, eu suponho, mas também é insultuosa. Você realmente acha que eu não irei protegê-los? Que não seja capaz? Eles são minha responsabilidade. Mantê-los em segurança é o meu trabalho. Se eu não tivesse certeza de que Haven estaria plenamente segura ao seu lado, ela não estaria aqui agora. Se por um momento eu considerasse você um perigo para minha esposa, não deixaria que você chegasse a cem metros de distância dela. Corrado fez uma pausa quando seu telefone tocou de novo, apenas para silenciá-lo mais uma vez.

Você compreende o que estou lhe dizendo, rapaz? – ele perguntou, continuando no mesmo tom. – As chances de Haven morrer em um acidente são bem maiores do que as de ser assassinada por conta de alguém tão banal quanto você. Porque é exatamente isso o que você é, insignificante. Você compreende isso? Você não é nada! Ele parou mais uma vez quando o telefone tocou pela terceira vez, com ódio no rosto ao ouvir o toque, mas dessa vez nem se preocupou em olhar quem estava chamando.


Tenho assuntos a resolver. Vá e reúna-se com as pessoas que de fato ligam para você. Não perca a chance. Nunca se sabe quando só nos restam algumas horas de vida para apreciar a companhia delas. Carmine sentiu um frio na espinha ao ouvir aquelas palavras, e ficou parado por um momento depois que Corrado saiu, tentando se acalmar. Bastante agitado, arrancou o cigarro da primeira pessoa que passou por ele na calçada. A fumaça queimou seus pulmões no momento em que deu a primeira tragada. A nicotina logo aplacou seus nervos. Deu algumas baforadas e então atirou o cigarro mentolado barato no chão e pisou em cima dele. A casa ainda estava barulhenta quando ele entrou, mas as pessoas haviam se dispersado pelos outros cômodos. Ele caminhou pelo piso inferior e encontrou Celia na cozinha, que ficou surpresa ao vê-lo.

– –

Olá, criança.

Oi – ele murmurou, pegando uma garrafa na geladeira. Ele precisava desesperadamente de uma bebida de verdade, mas achou melhor não ingerir nenhum álcool ali. – Ah, onde… Onde está…?

– –

Ela está no pátio atrás da casa – respondeu Celia, sabendo a quem ele se referia.

Obrigado – ele respondeu. Em seguida, caminhou em direção à porta dos fundos, encontrando o grupo sentado nos velhos móveis de jardim. Ele caminhou em sua direção, mais uma vez sentindo-se nervoso, mas todo o desconforto se dissipou quando Haven o olhou. Um sorriso radiante iluminou seu rosto e seus olhos brilharam. O coração de Carmine quase parou ao ver aquilo. O garoto teve de se controlar ao máximo para não se atirar de joelhos à frente dela e implorar para que sempre olhasse para ele daquele jeito. Ele queria pedir que jamais deixasse de amá-lo, que o perdoasse por tudo o que fizera de errado, até mesmo as coisas que ela desconhecia. Ele queria que ela lhe garantisse o perdão, que fosse seu anjo salvador, que jurasse que valia a pena ser salvo. Ele nunca desejaria que ela se sentisse envergonhada por sua causa, e, com toda a certeza, jamais gostaria de ver qualquer desapontamento em seus olhos. Ele queria que ela se orgulhasse dele e, naquele momento, queria jurar que faria qualquer coisa que ela lhe pedisse para provar que era digno de seu amor. No entanto, em vez de colocar seus sentimentos para fora, ele apenas os engoliu e manteve a boca fechada, pegando uma cadeira e se juntando ao grupo, sentando-se ao lado de Dominic, de frente para Haven, e manteve os olhos fixos nos dela.

E aí, cara – disse Dominic, dando um tapinha nas costas do irmão. – Já voltou? Ele ergueu os ombros.

– –

Nem cheguei a sair, só fui até lá fora para tomar um pouco de ar.

É, tenho certeza de que só saiu para tomar ar – disse Tess com sarcasmo. – Você está cheirando a cigarro. Fique longe de mim. Isso fede.


Nem está ventando, Tess – ele retrucou. – Cale sua boca. A voz suave de Haven capturou sua atenção. Com um olhar curioso, ela perguntou:

– – – –

Você fuma? De vez em quando dou umas tragadas, mas não fiz disso um hábito. E falando em hábitos… – Dominic se virou para a garrafa na mão de Carmine.

Isso aí Normalmente não é sua bebida favorita. Carmine estreitou os olhos.

– –

é

mesmo

água,

cara?

É, é apenas água. É tão difícil assim de acreditar? Bem, eu diria que é. A única bebida transparente que você bebeu durante esse ano foi

vodca.

– –

O caralho. Não pode afirmar isso sem em tem me encontrado com frequência.

Isso é porque você está bêbado na maior parte do tempo – retrucou Tess, soltando uma gargalhada. – É bem provável que nem se lembre de ter se encontrado conosco.

Eu não bebo tanto assim – ele respondeu, sabendo que era uma mentira no momento em que as palavras saíram de sua boca. Na verdade, ele se acostumara a beber até ficar inconsciente, mais vezes do que conseguia contar. Com certeza sua memória estava cheia de espaços em branco. Dias inteiros completamente esquecidos.

– –

Você bebeu alguma coisa hoje? – perguntou Dia, na cadeira atrás de Haven.

É, cadê o seu frasco? – perguntou Dominic. – Você o tem aí? Carmine baixou a cabeça. Aquele assunto o fazia desejar ainda mais uma boa dose de bebida. Ele começou a coçar o pescoço sem perceber e sua ansiedade foi se tornando cada vez maior.

– – – –

Mas o que é isso, uma intervenção? Talvez – respondeu Dominic. Bem, estão perdendo seu tempo, porque não preciso de uma. Nós discordamos – Dia retrucou. –Você sempre bebeu, mas a situação está piorando agora.


Deixa para lá, Dia. A moça começou a argumentar, mas Tess a interrompeu: – Para com isso. Tudo bem, ele bebe. E daí? Pelo menos ele não está mais curtindo a Molly. O clima ficou pesado e todos ficaram em silêncio. Carmine ergueu os olhos lentamente e encarou Tess, que percebeu a fúria e a hostilidade no rosto do garoto. Ela empalideceu e começou a gaguejar sobre não ter sido sua intenção dizer aquilo, mas ele a interrompeu:

Apenas cale a boca, Tess. Fale sobre qualquer outra coisa, sobre o que estavam conversando antes que eu os interrompesse.

Estávamos apenas nos lembrando das coisas – respondeu Dominic, olhando de um jeito preocupado para Carmine, rapidamente mudando de assunto. – Estávamos compartilhando algumas lembranças que temos do papai.

Bem, então continuem – ele respondeu, abrindo sua garrafa de água e tomando um gole. O líquido estava gelado e desceu suavemente pela garganta, mas não provocava a queimação que ele tanto desejava. O clima ficou um pouco mais leve enquanto compartilhavam histórias e se cutucavam uns aos outros. Haven parecia tranquila, sorrindo e dando risadas, mas sem falar muito. Carmine queria ouvir sua voz e escutar suas histórias, saber o que havia feito durante aquele tempo sozinha. Ele queria saber tudo, e abrigava um certo ciúme por ter perdido tanta coisa. Ela vivera inúmeras experiências sobre as quais ele não sabia nada, e aquilo não o agradava. Celia se juntou ao grupo depois que vários convidados já haviam saído, e também compartilhou algumas outras histórias. De vez em quando, Haven olhava para Carmine e suas bochechas coravam. Eram resquícios da garota tímida da qual ele se lembrava surgindo novamente. Para o garoto, aquilo era um sinal de esperança. Algo que deixara de sentir desde que saíra de sua casa em Durante. Talvez eles tivessem uma chance. Talvez ela pudesse perdoá-lo algum dia.

Tess, querida, temos que ir andando– disse Dominic. Ambos se colocaram de pé. Dominic olhou para todos e se fixou por um instante a mais em Carmine. – Foi muito legal encontrar com vocês novamente. Precisamos repetir isso mais vezes, e não apenas quando, vocês sabem… quando algo acontece. Todos concordaram. Eles se despediram e, antes de sair, fizeram com que Haven prometesse manter contato. Dia partiu logo depois, deixando Haven e Carmine sozinhos. Ambos ficaram ali sentados, olhando-se. O ar ficou denso por conta de perguntas não feitas.

Você gostaria de, ah… – ele começou a pergunta sem saber como terminá-la. – Caralho, não sei. Gostaria de tomar um café ou algo assim? É isso o que as pessoas fazem? Ela riu.


Bem, não sei se é isso o que as outras pessoas fazem, mas me parece uma boa ideia. Carmine mais uma vez ficou nervoso e sentiu um desconforto na boca do estômago. Ele tinha medo de dizer algo errado e arruinar qualquer chance de consertar as coisas. Ele estendeu a mão para ela, mas a garota apenas ficou olhando, com uma expressão apreensiva no rosto que o fez ficar em dúvida. Ele baixou a mão e a enfiou no bolso.

Você não precisa ir. Eu só achei que, bem… Meu Deus, porque essa porra toda parece tão

embaraçosa?

Não sei – ela disse ao se colocar de pé. – Quero dizer, somos só nós dois, certo? E não é que eu não queira tocar na sua mão, mas ela está machucada e não quero feri-lo ainda mais.

Ah! – Ele tirou a mão do bolso para olhar para ela. – Você não vai me machucar. Nervosa, ela mordeu o lábio inferior ao oferecer sua mão a Carmine. Ele a tocou com um sorriso, entrelaçando os dedos e apertando levemente. O rapaz sentiu uma forte dor no pulso e se contraiu. Era óbvio que sua mão não estava em boas condições como ele dissera.

– –

O ferimento é grave? – perguntou Haven. – E seja honesto comigo.

Eu não sei – ele murmurou, soltando a mão dela e desfazendo o curativo. – O médico disse que não era sério, mas não fui a um hospital. Haven olhou para a mão dele. A parte de trás estava vermelha e ela pressionou a pele com os dedos, suspirando quando ele se contraiu.

– – –

Isso está infeccionado. Como sabe disso?

Está falando sério? – Ela ergueu as sobrancelhas e olhou para Carmine como se aquela fosse uma pergunta estúpida. – Nós nos machucávamos com frequência em Blackburn e não tínhamos acesso a médicos, então aprendemos a perceber os sinais. Já vi pessoas morrerem com ferimentos menos sérios do que este.

– –

Ah, sei – ele disse, olhando para a mão. – Não é só limpar e colocar algum remédio?

Tão teimoso – ela resmungou, entrelaçando os dedos mais uma vez. – É melhor tomar um antibiótico, portanto, vá a um médico. Por favor? Ele suspirou, resignado e parcialmente irritado pelo fato de ela saber exatamente como convencêlo. Tudo de que precisou foi da porra de um “por favor”.

Eu vou marcar uma consulta amanhã, mas agora eu tenho um, ah… Seja lá o que for. Um encontro, eu acho.


Um pequeno sorriso se abriu nos lábios de Haven ao ouvir aquelas palavras. Eles deram a volta na casa para evitar encontrar qualquer pessoa enquanto saíam. Carmine não estava disposto a encarar o sentimento de pena disfarçado em simpatia. Ele estava no limite no momento em que desceram a rua. Embora mantivesse a cabeça baixa, estava atento a tudo que acontecia ao redor dos dois. Não importava o que Corrado lhe havia dito: ele não conseguia controlar a paranoia. Salvatore ainda estava solto, em algum lugar, e até que ele tivesse certeza de que aquela situação estava resolvida, não haveria como relaxar. Carmine soltou a mão da garota quando chegaram à sua casa e destrancou a porta. Ela entrou e deslizou os olhos com curiosidade. Ele percebeu que Haven recuou diante da gigantesca bagunça.

Ah, cozinha, sala de jantar, sala de estar, banheiro e lavanderia, ou sei lá o nome – ele disse, apontando para cada cômodo no térreo. – Aquela sala depois do hall, do outro lado da sala de estar, costumava ser o escritório do meu pai quando eu ainda era criança, mas agora só está cheia de caixas. Nunca me importei em desempacotar tudo.

– – –

Você vive aqui há mais de um ano e ainda não desfez os pacotes? Não. E por acaso você fez alguma faxina nesse tempo todo? Ele piscou algumas vezes, olhando para ela, mas não respondeu à pergunta.

Sinta-se em casa. Eu volto já. Carmine a deixou sozinha por alguns momentos e subiu no andar superior. O jovem chutou os sapatos para dentro do armário e então substituiu o terno por calças jeans e uma camiseta verde de mangas compridas. Calçou seus Nikes e entrou no banheiro. Molhou os cabelos e tentou passar os dedos por entre os fios, mas aquilo fez sua mão latejar. Ele procurou nos armários e encontrou um frasco de antisséptico. A ferida queimou no momento em que despejou o remédio sobre ela. Ele desceu as escadas e se deparou com Haven de pé na sala de estar, olhando para o piano ainda coberto. Ela o olhou de um jeito inquisitivo.

Carmine, quem é Molly? Ele congelou ao ser pego desprevenido pela pergunta.

Tudo bem se ela foi, ah, você sabe…Não é nada de mais – ela disse, fazendo uma careta, mas sua reação não combinava com as palavras. – Só fiquei pensando se você e ela…

Molly não é uma pessoa – ele disse, acenando negativamente com a cabeça. – Molly é um tipo de droga. Eu queria me sentir melhor e acabei me viciando. Isso provavelmente teria me matado… Bom, na verdade, essa porra quase me matou mesmo. Na verdade, eu estaria morto se Corrado não tivesse interferido.


– –

Ele conseguiu livrá-lo das drogas?

É, acho que podemos dizer que sim. Ela olhou para Carmine ao ouvir aquelas palavras. – E funcionou? O rapaz franziu o cenho.

– –

Eu já lhe disse que parei.

Estou me referindo à Molly – ela esclareceu. – Essa droga o fez se sentir melhor? Ele soltou um suspiro ao considerar a pergunta.

Funcionou por algum tempo, mas não era real. Não importava o quanto eu ficasse nas nuvens, nunca encontrava o que estava buscando. E isso acabou me atrapalhando mais que ajudando. Ele a puxou para um abraço e ela o encarou com brilho nos olhos. O ar tornou-se denso com tamanha emoção no momento em que ela colocou os braços ao redor da cintura dele, seu coração disparou ao sentir aquele abraço, e o sangue correu furiosamente por suas veias. Ele se inclinou de um jeito leve e hesitante, avaliando a reação de Haven, e os olhos dela pareciam instintivamente se fixar em sua boca. Ele assumiu aquilo como um sinal e torceu para que não estivesse cometendo um erro ao aproximar seus lábios dos dela. No último segundo, Haven entrou em pânico e desviou o rosto, fazendo com que ele beijasse apenas sua face corada. Mantendo o silêncio, o rapaz se repreendeu. Rápido demais.

– –

Eu, ah… – ela disse, retorcendo os dedos e se afastando dele. – Sinto muito.

Não sinta – ele disse, olhando para o relógio com um suspiro. Já passava das 19h. – Bem, e que tal um café? Ela assentiu e enfiou a mão no bolso, retirando de lá um chaveiro e o atirando para Carmine, sem nenhum aviso. Ele mal pôde ver o que era antes que caísse no chão, olhando para aquilo com curiosidade e vendo o molho familiar.

– –

Caralho, você só pode estar brincando. Está estacionado bem aí na frente –ela disse. – Imaginei que talvez você gostasse de dirigi-

lo novamente.

Carmine dirigiu pelas ruas do leste de Chicago, recostado no banco do motorista do Mazda preto. O interior escuro tinha o mesmo cheiro de quando ele o guiara pela última vez; de algum modo, o assento de couro ainda tinha sua forma. As rádios da Carolina do Norte estavam programadas nos botões do estéreo e o mostrador apontava para sua estação favorita: a 97.1 FM. Um perfumador preto no formato de uma árvore ainda estava pendurado no retrovisor, e ele suspeitava que ainda fosse o mesmo que ele colocara em Durante.


Você chegou a dirigir esse carro? –ele perguntou, olhando para a quilometragem no painel… Apenas algumas centenas a mais do que ele se lembrava.

Claro – ela disse. – Eu dirigi até aqui ontem à noite. Carmine acenou com a cabeça, voltando a se concentrar na rua. Estacionou na primeira cafeteria que encontraram, saiu do carro, deu a volta e abriu a porta para Haven. Ela sorriu com doçura ao desembarcar e pegou na mão dele para entrar no local. A cafeteria estava lotada. Havia grupos de pé conversando e outros em torno das mesas.

Do que você gosta? – perguntou Haven ao entrar na fila. Carmine deu risada.

– – –

Bem, não posso dizer que goste de nada. Eu nem bebo café. Então por que me convidou para tomar café?

Achei que seria mais fácil convencê-la a tomar alguma coisa do que a jantar comigo – ele respondeu, olhando para a placa com as opções. – Jesus, quem paga cinco dólares por uma bebida que nem tem álcool em sua fórmula? Por esse preço é melhor que venha acompanhado de uma boa chupada ou algo assim.

Carmine – ela disse, respirando fundo ao perceber que as palavras do garoto estavam atraindo a atenção das pessoas ao redor. Ele sussurrou um pedido de desculpas e reparou num homem a alguns passos de distância que os encarava. Estreitou os olhos para o sujeito e fez um movimento com a boca: “Algum problema?” O sujeito logo desviou o olhar. Carmine fez uma careta de desdém e voltou a olhar para a placa. Então Haven perguntou:

– –

Você vê alguma coisa que ache que possa gostar?

Não sei o que é nenhuma dessas bebidas – ele respondeu. – Eu consigo ler o que está escrito em italiano, mas isso não me diz nada a respeito do sabor. O que você costuma beber?

– –

Café puro.

É sério? Com todas essas opções sofisticadas como frappé de chai latte e caramelo Fraputa-que-pariu-ccino à base de café, você vai pedir justamente café puro? – ela assentiu, o que o fez rir e puxar a mão da garota e dar um beijo na parte de trás. – É, essa é a Haven de que eu me lembro, aquela que gosta das merdas mais simples. A barista perguntou a Carmine o que ele queria e ele respondeu:


Dois cafés pretos puros – com a expressão de quem a estivesse desafiando a corrigir seu linguajar. Ela apenas acenou com a cabeça e ele resmungou ao ver o preço do pedido.

Eu tenho algum dinheiro comigo – disse Haven, colocando a mão no bolso. – Pelo menos,

eu acho.

Nem ouse – ele disse, olhando-a incrédulo. – Eu roubaria este lugar antes de permitir que você pagasse a conta. Ela tirou a mão do bolso quando ele pegou a carteira e puxou uma nota de vinte dólares. A mulher deu o troco a Carmine, encarando-o com cautela, mas ele enfiou a nota de dez dólares na caixinha de gorjetas.

– –

Isso foi bem generoso – comentou Haven. É, pois é, eu tipo que ameacei até roubar o lugar, então não achei justo ainda parecer mão-

de-vaca.

– –

Mas você não roubaria este lugar –ela retrucou de modo confiante.

Não, eu não roubaria – ele respondeu. – Pelo menos desde que não recebesse ordens para fazê-lo. Carmine pegou as bebidas e levou Haven até uma mesa no canto, longe da multidão. Eles se sentaram e Carmine tomou um gole de sua xícara fervente, engasgando por causa do gosto.

Essa merda é amarga pra caralho. Ela então tomou o primeiro gole.

Para mim parece bom. O jovem quase esvaziou o açucareiro na xícara e ainda acrescentou um pouco de creme para tornar o sabor mais tolerável, mas ainda assim não tinha a menor vontade de beber aquilo. Os dois conversaram enquanto Haven tomava seu café e ele ouviu atentamente enquanto ela lhe contava a respeito de sua vida em Nova York. Ela falou sobre ter frequentado uma escola e criado seus próprios trabalhos artísticos; contou sobre as pessoas que conheceu e os novos amigos, antes de explicar como ficou sabendo sobre a morte de seu pai no noticiário.

Essa não foi a primeira vez que eu quis vir para cá. Quando ainda vivia em Charlotte, saí correndo de casa no meio da noite, peguei um táxi até a rodoviária – ela riu bem-humorada ao se lembrar do fato. – Eu estava completamente descontrolada e já não conseguia dormir há algum tempo. Seu pai me impediu. Foi a isso que me referi na casa de Celia. Carmine ficou boquiaberto.


Você poderia ter sido presa por comportamento suspeito, sabia? A polícia não brinca em serviço. Todo mundo está de cabelo em pé por causa dessa onda de terrorismo. Ela começou a rir.

– – – – –

Eu não pareço uma terrorista. Bem, nem eu, mas a aparência pouco importa. Mas você também não é um terrorista– ela retrucou. – Então isso prova que estou certa. Não, não prova nada – ele disse. –Não prova merda nenhuma. Eu aterrorizo as pessoas.

Não é a mesma coisa – ela afirmou, estreitando os olhos e se mostrando um pouco chateada. – Está sendo duro demais consigo mesmo.

– – – –

Não, é você quem está sendo mole de mais comigo – ele retrucou. – Você nem faz ideia… Então me diga – ela falou de maneira séria. Não posso.

Não pode me contar nada? – ela perguntou, erguendo uma sobrancelha e o desafiando. – Ou será que não quer me dizer simplesmente porque não quer que eu saiba?

– –

É porque você não gostaria de saber. Acredite.

Se você acha que sairei correndo por aquela porta por causa de qualquer coisa que me diga, está errado – ela disse. – Se não puder me dizer, compreendo, mas não esconda nada de mim apenas por achar que é melhor que eu não saiba.

Não lhe fará nenhum bem saber o que acontece – ele retrucou. – Você olhará para mim e não me verá mais como antes. Você verá aquelas pessoas. Também verá os que machuquei e as coisas que fiz. Então, me desculpe se prefiro que você olhe e enxergue somente a mim, ok? Ela abriu a boca para responder, mas hesitou, apoiando os cotovelos sobre a mesa e se aproximando de Carmine.

– –

Você já teve de, ah…?

Matar? – ele completou a pergunta. Ela olhou ao redor para se certificar de que ninguém estivesse escutando antes de assentir com a cabeça. Ele podia ver a curiosidade nos olhos dela, mas


também percebia nitidamente a apreensão. E isso era algo que ele jamais desejaria para ela. – Faria diferença para você?

– – – –

Não – ela respondeu. – Se o tivesse feito, saberia que foi porque teve de fazê-lo. Então por que está me perguntando? Só quero saber.

Não. Ela olhou para ele com cautela.

Não vai me dizer, não é? Ele soltou um suspiro.

– –

Essa é a resposta, Haven. Não.

Ah – ela ficou em silêncio por um momento, parecendo perdida em seus próprios pensamentos. – E é isso o que vê quando olha no espelho? As pessoas que você machucou?

– –

É difícil ver algum bem quando existe tanto mal ao seu redor.

Eu vejo o bem – disse Haven, sorrindo de um jeito suave e olhando para Carmine. – Talvez falar com alguém o ajudasse, entretanto. Não devia manter tudo isso dentro de si.

– –

Ainda não vou conversar com você sobre essas merdas – ele disse, negando com a cabeça.

Eu sei – ela respondeu. – Estava me referindo a um profissional. Ele cerrou as sobrancelhas.

Está sugerindo que eu vá a um psiquiatra? Ela ergueu os ombros.

E por que não? Sei que existem coisas sobre as quais jamais poderá falar, mas isso não significa que eles não sejam capazes de ajudá-lo. Eu assisti a um filme em que um gângster da máfia ia a um psiquiatra, e também havia aquele outro no programa de TV. Ele era o Chefão, também. Carmine fez uma careta ao perceber o que ela havia dito. Ele tentou controlar o riso, mas não conseguiu. Haven ficou vermelha.

Não fique envergonhada – ele disse, esticando o braço e colocando a mão sob o queixo da moça. Ele sentiu a pele quente em sua palma, e sorriu


envergonhado. – É muito legal que você se preocupe comigo, mas as coisas não funcionam como na TV, tesoro. Na vida real não podemos fazer isso. Ele tocou suavemente a bochecha da garota e ela sussurrou:

Gostaria que pudesse.– Eu também.

O sol já havia se posto quando saíram da cafeteria. A escuridão cobria o lugar. Ele a segurou pela mão enquanto caminhavam pelo estacionamento e o clima entre o casal estava tranquilo e leve mais uma vez. Era como se um enorme peso tivesse sido retirado do peito de Carmine; o mundo dele parecia um pouquinho mais brilhante quando Haven voltou a fazer parte. Contudo, aquela sensação de tranquilidade não duraria muito. Não que ele esperasse por isso. Retornaram à casa e ele perguntou se ela queria assistir a um filme. Mal tinham se acomodado para ver os créditos iniciais quando o telefone tocou. Carmine o pegou de um jeito hesitante e ficou tenso. Corrado.

– – –

Senhor? Esteja na frente de minha casa em cinco minutos.

Sim, senhor – ele murmurou, mas suares posta foi em vão, uma vez que Corrado já havia desligado. Recolocou o celular no bolso e olhou para Haven, que passou a mão nos cabelos dele, ansiosa.

Você tem que ir – ela disse em voz baixa, com um ar de tristeza na voz. Porém, ela forçou um sorriso no rosto. – Eu compreendo. Ela se preparou para se levantar, mas ele segurou seu braço.

Não vá. Haven olhou para Carmine um pouco confusa.

– – –

O quê? Eu só… Caralho. Apenas fique, ok?

Eu não sei – ela respondeu. – Está tarde. Eu tenho de procurar um hotel. Ele soltou um suspiro bem alto, como se estivesse bufando.

fique.

Olhe, não quero lhe dizer o que fazer. Se quiser ir, tesoro, tudo bem, vá, mas prefiro que


Eu, ah… – ela começou a responder, mas o telefone dele tocou novamente. Os cinco minutos já haviam se passado. Carmine xingou e respondeu prontamente:

– –

Estou indo, senhor.

Agora – esbravejou Corrado antes de desligar. Carmine se colocou de pé e olhou cuidadosamente para Haven.

Apenas… Espere por mim, ok? Ela não respondeu, mas também não fez menção de sair, portanto, ele não tinha certeza em relação ao que Haven tinha em mente. Por outro lado, não tinha tempo de descobrir, então a olhou pela última vez antes de pegar sua arma e sair feito um raio pela porta. Ao pisar do lado de fora, uma lembrança surgiu em sua cabeça: a última vez que ele dissera aquelas mesmas palavras para ela, Haven se recusara a esperá-lo. Carmine olhou para trás em direção à casa enquanto descia a rua, com esperança de que desta vez ela esperasse por ele.

Capítulo 41 O telefone de Carmine tocou mais uma vez no momento em que ele chegava ao ponto de encontro, mas ele não se incomodou em atender, uma vez que já estava tão perto. O carro de Corrado estava estacionado na frente da casa, com as luzes apagadas e o motor ligado. Carmine entrou no banco do passageiro e olhou com cautela para o tio, percebendo o olhar de impaciência. Por um momento, teve medo de que o homem fosse surtar. Corrado desligou seu aparelho e não disse uma palavra quando o de Carmine parou de tocar. Corrado arrancou com o carro, esperando até que estivesse a um quarteirão de distância antes de acionar os faróis. Carmine olhou para o tio e percebeu que ele estava vestindo suas luvas pretas, e imediatamente se deu conta de que algo sério estava prestes a acontecer.

– –

Espero que sua noite com Haven tenha sido boa – disse Corrado, quebrando o silêncio.

Ah, sim, foi ótima – respondeu Carmine. – Aliás, queria agradecê-lo por tudo que fez. Ela já me contou tudo.

Não há razão para me agradecer – ele disse de um jeito frio. – Eu só estava fazendo meu trabalho, Carmine. É isso o que fazemos. Sentimentos pessoais são irrelevantes. Seguimos ordens. E uma coisa que você já deveria ter aprendido a meu respeito, e algo pelo qual eu espero que me respeite é o fato de que nunca falho em minhas tarefas. Jamais. Carmine acenou.


– –

Sim, senhor.

Ótimo. E não queria ter interrompido sua noite, mas chegou a hora. Carmine o olhou com cautela, imaginando que hora havia chegado, mas Corrado não continuou e o jovem achou melhor não perguntar. À medida que Corrado dirigia sem dizer nada, embrenhando-se numa área perigosa no sul de Chicago, o rapaz teve uma sensação ruim que arrepiou até os seus ossos. O local estava quase deserto, exceto por algumas pessoas estranhas que perambulavam. Ambos os lados da rua estavam tomados por construções caindo aos pedaços e cobertas por pichações. Era território de gangues, uma região que não interessava a ninguém. Eles se matavam entre si apenas para garantir o controle das ruas. O fato de estarem ali, adentrando aquele território, não parecia bom para Carmine, então ele enfiou a mão debaixo da camisa para se certificar de que sua arma estivesse mesmo na cintura. E só para o caso de precisar, já destravou o pino de segurança.

rapaz.

Os vagabundos dessa área o assustam? – perguntou Corrado, percebendo o movimento do

Não – ele respondeu. – Só acho que qualquer pessoa que se arrisque a vir para esses lados não estará segura.

logo.

Isso é verdade – disse Corrado, fazendo uma pausa antes de continuar. – Tudo terminará

Aquelas palavras fizeram o coração de Carmine disparar. Aproximaram-se do fim da rua principal e viraram à esquerda, parando na metade de uma viela. Corrado desligou o motor e abriu a porta, hesitando ao olhar para Carmine.

– –

Deixe sua arma no carro. Você parece estar com o dedo leve esta noite.

Como é? – Algo estava errado e Carmine podia sentir. Entrar desarmado naquele lugar era o mesmo que pedir para ser morto.

Você ouviu o que eu disse – insistiu Corrado. – E não me questione. Carmine pegou a arma e a colocou no porta-luvas. Foi obrigado a fazê-lo ou o próprio Corrado a teria arrancado dele. Carmine seguiu o tio até o outro lado da rua, rumo a uma casa em ruínas que parecia inabitada há décadas. As venezianas mal se sustentavam nas janelas e velhas placas de madeira substituíam todos os vidros. Eles entraram na varanda da casa e Corrado bateu duas vezes na grande porta da frente. Antes que tivesse de bater pela terceira vez a porta foi aberta. Corrado entrou e Carmine o seguiu com cautela. Seus olhos se fixaram num homem italiano que estava dentro do imóvel. Ele tinha praticamente a mesma idade de Carmine e seu rosto parecia familiar; era com certeza alguém da organização. O sujeito segurava uma arma de modo defensivo, mas pareceu relaxar um pouco quando Corrado acenou.


Aquela troca de olhares silenciosa fez Carmine se sentir apreensivo. A sensação ruim o dominava quase por completo. Ele tentou organizar seus pensamentos e compreender o que estava acontecendo, até considerando por um segundo a possibilidade de sair correndo pela porta por onde havia entrado enquanto ainda tinha uma chance. Perguntava-se quão longe conseguiria ir desarmado, mas percebeu que aquela linha de raciocínio não fazia o menor sentido. Seria apanhado antes mesmo de alcançar a varanda. Ele precisava se manter calmo e agir do jeito certo, sem permitir que identificassem o medo que sentia, mesmo que fosse isso o que se passava dentro dele. Na verdade, ele estava aterrorizado. Depois que a porta da frente foi fechada, Corrado pegou Carmine pelo braço e o empurrou em direção às escadas para que seguisse o italiano. Ninguém disse uma única palavra nem lhe deu qualquer instrução, então, mesmo contra a vontade, Carmine subiu os degraus à frente de Corrado. Ao se deparar com um longo corredor, o rapaz se sentiu como gado sendo levado para o abate. Eles finalmente pararam diante de uma porta. Assim que entrou no cômodo, Carmine ficou petrificado; sua visão ficou turva e seus joelhos enfraqueceram no momento em que o pavor se irradiou pelo seu corpo. Ele quase caiu, mas Corrado o segurou, mantendo-o de pé e empurrando-o ainda mais para dentro. Num instante, todas as peças do quebra-cabeça se juntaram. Ele deveria ter percebido antes; deveria ter se dado conta do que estava prestes a acontecer. Todos os sinais eram óbvios: o olhar no rosto de Celia, o… modo como Corrado se dirigira a ele em diversas ocasiões naquela noite: “Nunca se sabe quando só nos resta algumas horas de vida”, “Não queria ter interrompido sua noite, mas chegou a hora…”, “Tudo terminará logo”. Intuitivamente, quando Corrado mandou que deixasse sua arma no carro, ele já deveria ter percebido o que encontraria naquela casa: sua própria morte. Mas no momento em que seus olhos verdes se depararam com os olhos escuros, frios e embaçados que o encaravam do outro lado da sala, tudo fez sentido. Agora se tornara óbvio porque Corrado lhe dissera para não temer qualquer tipo de retaliação: durante todo o tempo ele havia planejado levá-lo diretamente a Salvatore. O Chefão estava de pé num canto da sala vazia, perto de uma janela espatifada, protegida por uma única placa de madeira envelhecida. A luz da lua entrava por um vão, garantindo a Carmine luz suficiente somente para identificar seu padrinho. Salvatore estava desarrumado, seu braço direito numa tipoia azul. O homem deu alguns passos na direção dos dois e seus movimentos pareceram rígidos, como se já não pudesse dobrar seu joelho esquerdo.

Já era hora de vocês chegarem – ele disse com a voz ríspida e os olhos fixos em Carmine. O italiano seguiu na direção da janela para vigiar o movimento na rua.

Peço desculpas pelo atraso, senhor, mas sabe como é o garoto – disse Corrado atrás de Carmine, bloqueando a única saída.

Sim, eu sei exatamente como ele é – disse Salvatore, com ódio em cada palavra. – Ele não escuta. Você o manda fazer uma coisa e ele ignora as ordens. Ele parece achar que sabe mais que todo mundo aqui; é como se estivesse acima de nós e não tivesse de obedecer a ninguém.

Bem, ele é certamente filho de DeMarco – disse Corrado.


Carmine percebeu algo na voz do tio, talvez diversão ou uma pitada de sarcasmo, e começou a se virar para olhá-lo, para avaliar seu humor, mas Corrado o pegou pelo pescoço com violência e o manteve na posição em que estava. A expressão de Salvatore se tornou ainda mais colérica ao ouvir o nome de Vincent. Possesso, ele cuspiu no chão. Era como se pensar no pai de Carmine o fizesse querer vomitar. Carmine começou a tremer e seus olhos instintivamente avaliaram a sala. Os pecados do pai estavam prestes a ser pagos pelo filho. Seu cérebro funcionava sem parar enquanto tentava imaginar um modo de fugir. Ele estava desarmado e sozinho, e todos naquela sala tinham bem mais experiência que ele.

Procurando um jeito de escapar? – perguntou Salvatore, aproximando-se lentamente. – Infelizmente para você não há nenhum. Com violência, Corrado o empurrou contra o chão, forçando-o a se ajoelhar no meio da sala. Em seguida, ele soltou o pescoço do rapaz e sacou sua arma.

Por favor, não faça isso! – Carmine implorou com as palavras trêmulas. – Eu juro… Porra! Isso não é necessário! Mas antes mesmo que pudesse dizer qualquer outra coisa, Corrado pressionou o cano da arma contra a nuca do sobrinho. O rapaz fechou os olhos e sentiu as lágrimas queimarem por dentro até alcançarem a superfície no momento em que abaixou a cabeça em desespero. Se existe a porra de um Deus, Ele não deixará que eu morra hoje.

Como você ousa me dizer o que é necessário! – esbravejou Salvatore. – É justamente disso que eu estava falando! Você se acha mais esperto que todo mundo! Eu lhe dei uma ordem simples, e você teve todas as oportunidades de cumpri-la, mas me desobedeceu deliberadamente! Vincent jamais teria atirado em você, e agora, por conta de sua traição, meus homens estão mortos! Seu pai recebeu o que merecia e, francamente, digo o mesmo em relação à sua mãe! Toda a sua família é uma desgraça! Carmine lutou para controlar o choro, mas seu corpo tremeu de modo descontrolado ao ouvir aquelas palavras. O mundo estava implodindo e havia uma arma apontada para sua nuca. Corrado era um perfeito atirador e jamais erraria o alvo. Seu próprio tio, um membro de sua família…

Por favor – Carmine sussurrou. – Pelo amor de Deus, não faça essa porra. Assim que ele pronunciou aquelas palavras, sua cabeça foi atingida com força por um golpe forte, que o fez cair para frente, equilibrando-se sobre os joelhos e as palmas das mãos, que ficaram cheias de farpas do piso de madeira apodrecido. Ele sabia que não podia desistir. Não morreria sem lutar. Seria impossível vencê-los, mas ele não era um covarde. Não ficaria parado esperando que lhe tirassem a vida. Talvez esse tipo de reação lhe tivesse passado pela cabeça há um mês, ou até mesmo no dia anterior, mas não agora. Não hoje.

Adeus. Aquela única palavra que saiu dos lábios de Corrado fez com que Carmine esticasse o corpo e rolasse pelo chão, ouvindo um som ensurdecedor ecoar pela sala. Ele cruzou os braços diante do peito,


tentando de algum modo se proteger, mas não sentiu nada. Não havia nenhuma dor, nenhum sangue. Seria pura adrenalina ou apenas muita sorte? Carmine se forçou a ficar de pé e se voltou para a porta, mas um movimento próximo à janela capturou sua atenção: o jovem italiano perto da janela desabou no chão com sangue escorrendo de um único ferimento no centro da testa. Salvatore se virou horrorizado no momento em que Corrado voltou a empurrar Carmine, que mais uma vez caiu de quatro no chão. Enquanto tentava mais uma vez escapar, o rapaz observou em choque quando o tio usou a distração para arrancar a pistola que Salvatore trazia no cinto, com rapidez e habilidade. Salvatore se virou novamente para Corrado. Com os olhos arregalados, ele viu as duas armas apontadas para sua cabeça.

– –

Mas o que diabos você está fazendo?

Seguindo ordens – respondeu Corrado com calma. – Quando fui iniciado, fiz um juramento. Jurei a Antonio DeMarco que seria um homem honrado, um homem que sempre colocaria a organização em primeiro lugar. Para alguns, essas podem ser apenas palavras sem sentido, mas para mim elas têm um grande significado. La Cosa Nostra ou a morte. Foi esse meu juramento. Escolhi La Cosa Nostra e, desde então, sempre agi no sentido de defendê-la. É uma pena que tenha escolhido a morte, senhor. Corrado abaixou a arma e disparou dois tiros, acertando ambos os joelhos de Salvatore, que soltou um grito de pavor e caiu no chão. Corrado ficou imóvel ao lado do chefe, que tentava desesperadamente se arrastar para longe enquanto suas pernas sangravam e ensopavam suas calças cinza.

Sabe o que acontece com ratos, Carmine? – perguntou Corrado. – Sabe o que fazemos com canalhas? Com velhos desleais e desonrosos?

Sim – respondeu o rapaz com a voz fraca e trêmula. Havia uma espécie de lenda urbana dentro da organização. Uma história que todos compartilhavam em voz baixa, mas da qual ninguém tinha provas de que jamais ocorrera. – Ratos para os ratos – ele completou. Corrado deu alguns passos na direção de Salvatore e acertou-lhe um chute no nariz. Carmine se contraiu enquanto o padrinho tentava se proteger. Mas Corrado não parou. Pelo contrário, ele continuou desferindo golpes sucessivos contra o homem no chão. A brutalidade nos movimentos de seu tio, a raiva e a paixão que eclodiram naquele instante deixaram Carmine aterrorizado. Corrado repetiu os golpes, vez após outra, até que o rosto de Salvatore sangrasse como uma torneira quebrada.

Este lugar está infestado – disse Corrado, com as palavras estremecidas enquanto tentava recobrar o fôlego. A ira havia comprometido por alguns momentos sua postura fria. – Se ouvir com atenção, conseguirá escutá-los nas paredes, arranhando-as enquanto buscam comida. Não levará muito tempo até que sintam o cheiro de sangue. E assim que perceberem a existência de carne fresca, invadirão este local, às centenas. É um jeito brutal de morrer: ser comido vivo. O estômago de Carmine se contorceu e ele teve de se segurar para não vomitar. Que tipo de monstro planejaria algo assim? Corrado se virou para ele como se tivesse escutado seus pensamentos, e a total falta de expressão em seu olhar respondeu à pergunta silenciosa. Seu tio parecia inumano; o monstro das lendas sobre a qual


ouvira tanto falar. O Assassino de Aço. Não havia no rosto dele nenhum remorso, nenhuma emoção e nenhum sinal de consciência.

Não se preocupe, Sal já está cientede tudo isso. Afinal, foi justamente por essa razão que escolheu este lugar. Ele só não imaginou que seria o prato principal. Corrado enfiou novamente a arma no casaco, ignorando os gritos de Salvatore e concentrou sua atenção na pistola que tirou do chefe, removendo as balas, uma por uma. Em seguida, girou o tambor e caminhou até a porta, fazendo uma pausa para colocar a arma no chão.

Deixei uma única bala na pistola, Salamandra. Levará algum tempo para se arrastar até aqui, mas tenho certeza de que conseguirá fazê-lo se quiser colocar um fim no seu sofrimento. A escolha é sua.

Seu traidor! – gritou Salvatore. – Queimará no inferno por isso! Corrado soltou uma gargalhada amarga.

É bem provável que eu queime no inferno por tudo o que já fiz em minha vida, mas esta é uma das coisas pelas quais acho que terá valido a pena. Ele saiu do cômodo sem dizer mais nada. No instante em que Carmine ouviu os passos do tio na escada, se levantou e correu atrás dele, tropeçando numa placa solta no chão e quase caindo. O garoto ainda conseguia ouvir os gritos de Salvatore quando saiu da casa, mas aquilo não pareceu mexer com Corrado enquanto ele caminhava na direção do carro. Carmine correu, abriu a porta e tentou se sentar no banco do passageiro. Foi então que se deu conta de tudo o que acontecera. Ele mal conseguia respirar. Era como se tivesse bebido e se drogado demais e não conseguisse vomitar, mesmo com a ânsia incessante. Corrado esperou pacientemente que Carmine se refizesse e se sentasse antes de ligar o carro e sair dali.

As pessoas não irão ouvir os gritos?– perguntou Carmine enquanto secava as lágrimas nos

olhos.

É bem possível, mas isso não importa – ele respondeu. – Como você mesmo disse, qualquer um que venha a este lugar estará colocando a própria vida em risco. Eles voltaram em silêncio, mas o clima era sufocante. Carmine chegara ao extremo, à beira de sofrer um colapso, e tentava agora se agarrar desesperadamente ao que lhe restava de sanidade. De repente, todas as lembranças o atingiram de uma só vez: todo o caos, toda a destruição, a dor, todos os assassinatos.

Por que fez aquilo? – ele perguntou, com a voz embargada. Corrado olhou para ele e retrucou:

Preferia que tivesse sido você?


Não estou me referindo a Sal – ele negou enquanto lágrimas continuavam vertendo de seus olhos. – Meu pai. Corrado soltou um suspiro exasperado, girou o volante para a direita e parou o carro, desligando o motor.

Seu pai morreu há muito tempo – ele disse, com a voz baixa. – O fato de ele ainda caminhar e respirar não significava que estivesse vivo, Carmine. Morremos quando perdemos o desejo de seguir adiante; perecemos no instante em que deixamos de nos importar com a nossa vida. O Vincent que eu conheci, o homem que lhe deu vida e cujo sangue corre em suas veias, deixou de existir quando você tinha oito anos. Ele morreu naquele quarto de hospital, em vigília ao lado de sua cama, sofrendo pela morte da esposa. Eu assisti a cada segundo doloroso dessa história enquanto ela se desenrolava, e não fiz nada para impedir a morte dele. Corrado evitou olhar para o sobrinho e, em vez disso, concentrou-se na lua cheia no céu.

Ele tinha trabalho a fazer, então continuou a fazer até o fim. Quando finalmente terminou, chegou a hora de partir. Para ele, essa seria a melhor alternativa. Ele não tinha nenhuma intenção de ir para a prisão.

Mas por que ele iria? – perguntou Carmine, acenando negativamente com a cabeça. – Não precisava ter sido desse jeito. Digo, os Federais…

Está equivocado – retrucou o tio. –Seu pai não fez um acordo para se salvar, tampouco se tornou uma evidência contra mim. Na verdade, ele aceitou seu destino há muito tempo. Ele cooperou com os Federais por sua causa. Por causa de Haven e de todos a quem ele amava. Ele forneceu ao governo tudo o que eles queriam para que sua família fosse deixada em paz e, ao fazê-lo, honrou a memória de Maura salvando a vida de uma jovem. Corrado fez uma pausa para organizar seus pensamentos antes de continuar.

Vincent tomou sua decisão, mas eu não podia permitir que ele o fizesse por si mesmo. Ele jamais encontraria a paz que buscava se tivesse se suicidado. Ele queria reencontrar sua mãe. Queria viver novamente ao lado dela. Eu fiz isso para que ele conseguisse o que desejava. Carmine encarou o tio enquanto processava suas palavras.

– – –

Mas por que então você pediu a ele que lhe perdoasse? O quê?

Quando puxou o gatilho, você disse a ele me perdoe. Corrado negou.

Eu não estava pedindo perdão a ele. Religando o motor, Corrado voltou a dirigir pela cidade.


Ainda temos mais uma coisa a fazer esta noite, portanto, controle-se. Cruzaram a cidade até chegarem ao prédio em ruínas do clube de striptease, o mesmo em que estiveram na noite em que Remy foi morto por Corrado. O estacionamento estava lotado com os familiares sedãs pretos. Corrado estacionou ao lado da construção e saiu do carro, olhando cautelosamente para os lados.

– –

Tem registro para votar?

Ah… Não – respondeu Carmine ao sair do carro. Corrado acenou a cabeça como se aquilo não o surpreendesse e fez um sinal para que Carmine o seguisse. O clube estava lotado e o ar denso com fumaça de cigarro. Ambos passaram pelo segurança sem dizer uma palavra e seguiram até o escritório nos fundos.

Votar é importante – disse Corrado, fazendo uma pausa antes de abrir o alçapão. – As pessoas gostam de se sentir como se de fato tivessem o direito de dar suas opiniões naquilo que irá acontecer, mesmo que isso seja apenas uma ilusão. Corrado abriu a porta do alçapão e pessoas puderam ser ouvidas dentro do porão, mas se calaram no momento em que ambos desceram a escada. Carmine hesitou no último degrau, olhando ao redor do pequeno espaço imundo, ainda em choque. Havia pelo menos uns 24 homens presentes; pelo que sabia, a maioria do grupo era formada por Capos. Aqueles eram os homens de nível hierárquico mais elevado que haviam sobrado na organização em frangalhos. Todos olharam para Corrado no momento em que ele entrou e acenaram positivamente para ele, que limpou a garganta para atrair a atenção de todos.

Todos sabemos por que estamos aqui. Indicações? Alguns disseram o nome de Corrado, enquanto outros apenas assentiram com a cabeça, concordando na hora com a sugestão.

Mais algum candidato? – Todos se mantiveram em absoluto silêncio. – Alguma objeção? – perguntou Corrado. – Fale agora ou leve esse pensamento para o túmulo. Carmine olhou ao redor. Os homens pareciam nervosos e se entreolharam antes de voltarem a atenção para Corrado. Mais uma vez o silêncio se fez presente; ninguém disse uma única palavra. Tudo aquilo pareceu muito estranho para Carmine.

Então o escolhido é Moretti – disse Corrado. – Esta reunião jamais aconteceu. Corrado deu meia-volta e fez um movimento para que Carmine viesse atrás dele sem que tivesse pronunciado uma palavra. Seguiram para o estacionamento, fazendo uma pausa ao lado do carro pouco mais de cinco minutos depois de deixarem o lugar.

Como eu disse antes, as pessoas gostam de acreditar que têm uma escolha, mesmo quando na verdade não têm. O tio sentou-se atrás do volante e Carmine ocupou o banco do passageiro, olhando-o com cautela.


– – –

Você agora é o Chefão? Sim.

E o que teria acontecido se alguém tivesse feito alguma objeção? Essa pessoa teria recebido a permissão de sair?

Com certeza ela teria saído – respondeu o tio. – Só que em uma dúzia de pedaços.

Assim que abriu a porta de casa, Carmine tentou escutar algum barulho no local, mas percebeu que tudo estava no mais completo silêncio. Contudo, o brilho da TV iluminava a sala de estar. Haven estava deitada no sofá, dormindo profundamente, com os sapatos jogados no chão. Carmine deu a volta e se agachou ao lado dela, colocando a arma debaixo do sofá com bastante cuidado antes de esticar a mão e retirar uma mecha de cabelos do rosto da moça. Ela se mexeu, mas continuou dormindo. O rapaz permaneceu ali por um momento, apenas olhando para Haven enquanto ela respirava. Se ainda lhe restasse qualquer dúvida, foi naquele momento em que ele teve certeza absoluta. Foi ali, olhando para ela dormindo, que ele o sentiu. O garoto não fazia ideia do que iria acontecer no futuro, mas com certeza eles seriam capazes de ficar juntos e seguir adiante se tentassem. Mais uma vez, Carmine lutou para segurar as lágrimas, ainda sem conseguir se controlar totalmente depois de tudo que acontecera. A vida pesou sobre seus ombros, atirando-o para lados opostos enquanto ele próprio permanecia estagnado, tentando manter-se inteiro. Ele estava cercado por violência e morte; todo aquele horror o desintegrava internamente, mas então, do outro lado havia Haven. Ela representava paz, esperança e a mais pura beleza. Ela era o bem que ele esperava ser capaz de superar o mal.

Haven – ele sussurrou, passando as costas da mão na face da garota. – La mia bella ragazza. Ela mais uma vez se mexeu, mas dessa vez abriu os olhos, piscando-os rapidamente, um pouco confusa, parecendo surpresa ao perceber onde estava, e um sorriso ainda sonolento se abriu em seus lábios.

– – – –

Você voltou. E você esperou por mim. É claro que esperei. Eu disse que não fugiria de você, Carmine. Eu também não – ele respondeu, sorrindo suavemente. – Eu jamais a

deixarei de novo.

Você jura?


Pode ter certeza, tesoro. Ela deu risadas enquanto encarou Carmine com curiosidade ao sentar-se. Haven colocou a mão direita na face do rapaz, passando os dedos suavemente sobre sua pele e deslizando seu polegar sobre sua boca.

– –

Você andou chorando?

Talvez – ele respondeu, inclinando-se para frente e pressionando seus lábios contra os dela. Dessa vez, Haven não se afastou, tampouco desviou a cabeça. Em vez disso, respondeu ao beijo, movendo seus lábios no mesmo ritmo que os do rapaz. Aquele foi um ato de pura doçura e inocência, mas suficiente para ambos. Ele abaixou a cabeça e encostou o nariz no pescoço dela, inalando seu cheiro e beijando sua pele exposta. A presença de Haven era irresistível; o toque de sua pele, seu perfume e o sabor de sua boca o deixaram completamente maluco.

Você ainda sente isso? – ele perguntou, tocando sua pele na região do pescoço. – Digo, a eletricidade entre nós? Por favor, diga que ainda sente.

– –

Eu sinto – ela sussurrou. Preciso de você, Haven – ele disse, com as palavras embargadas e presas

na garganta.

Eu sei. Um soluço escapou da garganta do garoto e aquilo a fez abraçá-lo com ainda mais força e sussurrar baixinho enquanto ele chorava em seus braços. Ele não conseguia se controlar. Ela mais uma vez destruíra suas muralhas; ela o desarmou por completo, e todas as emoções dele emergiram de uma só vez.


Capítulo 42 A vida se revelou um vendaval; cada dia se transformava no próximo sem que eles percebessem. Haven ficou com Carmine e as coisas entre o casal relaxaram à medida que ela transformou aquela casa em seu lar. Era surreal, exceto pelos ocasionais beijos doces e toques gentis. Exausto, Carmine se tornou cada vez mais saturado. Seu sono era permeado por pesadelos e ele tentava ao máximo se manter sóbrio, mas a bebida parecia atraí-lo cada vez mais. Haven nunca disse uma palavra em relação àquilo, mas ele conseguia identificar a preocupação nos olhos da garota cada vez que ela o via com um copo na mão. Aqueles olhares atingiam Carmine e então ele se enchia de culpa a cada gole de bebida. Mas não foi o suficiente para fazê-lo parar. Todavia, apesar da bebida, as coisas pareciam bem. Na verdade, quase bem demais. Carmine continuava a esperar que algo ruim acontecesse ao redor deles. Tudo aquilo parecia surpreendentemente bom para ser verdade. Era como se ele não tivesse enxergado a data de validade escrita em letras pequenas em algum canto da embalagem. Para sua surpresa, as pessoas os deixaram em paz. Ele achava que seu irmão iria visitá-lo com frequência para ver Haven, ou que Corrado o chamasse para tratar de negócios, mas nada daquilo aconteceu. Ninguém os visitava, não havia telefonemas; não acontecia absolutamente nada. Somente uma semana depois de tudo o que ocorrera é que alguém bateu à sua porta. Meio que reclamando, Carmine abriu a porta e ficou surpreso ao se deparar com o carteiro parado na varanda. Ele olhou para o envelope que lhe foi entregue, estreitando os olhos ao ver seu nome escrito.

– – –

Carmine DeMarco? Sim, sou eu.

Correspondência registrada – disse o carteiro, entregando-a nas mãos do garoto para que ele assinasse o recibo, que o fez e devolveu o papel ao profissional, agradecendo-lhe antes que fosse embora. Carmine se dirigiu à sala de estar e sentou-se ao lado de Haven. Viu que era do advogado e abriu o envelope imediatamente, retirando um documento.

O que é isso? – perguntou Haven. Os olhos de Carmine deslizaram pelo papel.

O testamento de meu pai será lido na próxima segunda-feira. Aparentemente, ele me deixou alguma coisa.

Por que você parece tão surpreso? –ela perguntou. – Você é filho dele.


Não sei – ele respondeu, dando de ombros ao abaixar o documento. – Ainda não parece real. Digo, eu sei que é… Sei que ele se foi. Afinal, eu testemunhei toda aquela porra. Mas ainda é difícil acreditar que de fato aconteceu.

Aposto que sim – ela respondeu. –Gostaria de falar sobre isso? Ele negou.

– –

Esta é a última coisa sobre a qual gostaria de pensar nesse momento.

Muito bem – ela disse, inclinando-se e empurrando Carmine para trás no sofá. Ela o abraçou e repousou a cabeça em seu peito; o jovem pegou o controle remoto, ligou a TV e começou a zapear pelos canais. Ambos permaneceram ali pelo resto da tarde e noite, alheios a tudo o que acontecia fora daquelas paredes. No entanto, aquela solidão não duraria muito tempo. No dia seguinte, na mesma hora da tarde anterior, Carmine mais uma vez ouviu alguém batendo à porta. De novo se levantou e, reclamando, foi até a porta. O mesmo carteiro estava de pé na varanda, com um envelope similar nas mãos.

Que bosta é essa? Déjà vu? Você não veio aqui ontem entregar isso aí? O carteiro se lembrou e confirmou, olhando para o envelope que trazia nas mãos.

– –

Haven Antonelli?

Ah, sim – ele respondeu, abrindo um pouco mais a porta e chamando por Haven. Ela apareceu, olhando primeiramente para Carmine e, em seguida, para o carteiro, confusa. O rapaz apontou para o envelope e disse:

– –

É para você, tesoro.

Para mim? – perguntou Haven surpresa, pegando o envelope e assinando seu nome em letra cursiva perfeita. Carmine observou com um sorriso, lembrando-se do quanto ela se esforçara para aprender aquilo. A moça devolveu o papel assinado ao carteiro, que lhe desejou um bom-dia e foi embora. Ela não respondeu, apenas ficou parada de pé à porta, olhando para o envelope.

Por que você parece tão surpresa? –ele perguntou, repetindo as mesmas palavras que ela lhe dissera no dia anterior. – Você é a namorada do filho dele. Haven olhou para Carmine e ergueu as sobrancelhas.

– –

Eu sou? O quê?


Sua namorada? Ele hesitou diante da pergunta.

Não sei, você é? Ela sorriu.

– – –

Perguntei primeiro. Você acha que estamos indo rápido demais?

Não sei, você acha? Ele a encarou enquanto tentava compreender aquela conversa.

– –

Não sei. Essa porra é ridícula, Haven.

É – ela retrucou, voltando sua atenção para o envelope em sua mão. – O que será que ele deixou para mim?

Pode ser qualquer coisa – retrucou o namorado, enquanto ela abria o envelope e se deparava com as mesmas instruções, data e horário. – Dinheiro, propriedade… Quem sabe.

Mas por quê? – ela perguntou. – Nada disso importa para mim. Ele deu de ombros.

Sei lá, mas acho que iremos descobrir na segunda-feira.

Os dois passaram o fim de semana juntos, indo ao cinema e jantando fora enquanto ele mostrava a cidade para a garota. A segunda-feira logo chegou e ele vestiu calças pretas e camisa branca, tentando parecer adequado, uma vez que Corrado certamente estaria lá. Para completar, ele calçou um par de Nikes nas cores preto e branco e seguiu para o piso inferior enquanto Haven tomava banho. Abriu o freezer e pegou uma garrafa de Grey Goose. Tirou a tampa e levou o vasilhame aos lábios, tomando uma boa tragada. Aquilo queimou sua garganta, mas aliviou seus nervos; a ansiedade do rapaz diminuiu. Ambos seguiram para o escritório do advogado, chegando lá precisamente às 13h15, quando a leitura do testamento estava marcada para começar. Haven sentou-se numa ampla cadeira preta ao redor de uma grande mesa de madeira. Carmine puxou a cadeira ao lado dela. que sorriu e esticou a mão sob a mesa, entrelaçando seus dedos aos dele. Eles estavam cercados pelos demais familiares: Celia e Corrado, Dominic e Tess. Até a avó de Carmine estava presente, embora não parecesse nada feliz em estar ali. O senhor Borza limpou a garganta antes de começar.


– Bem, todos aqui conheciam Vincent muito bem, então acho que concordam que ele apreciaria se agíssemos de maneira informal. Ele deixou uma carta contendo seus últimos desejos; eu apenas a lerei para todos. Haven se ajeitou na cadeira, olhando de maneira ansiosa para Carmine. Ele apertou a mão da jovem, esperando que ela relaxasse. Borza deu início à leitura.

É COM UM PESO NO CORAÇÃO QUE ESCREVO ESTA CARTA. SINTO MUITO POR QUALQUER DOR QUE EU TENHA CAUSADO A VOCÊS. TUDO O QUE FIZ SEMPRE FOI TENDO VOCÊS EM MINHA MENTE, E SEI QUE COMETI ERROS, MAS SEMPRE TENTEI AGIR DA MANEIRA QUE CONSIDERAVA MAIS CORRETA. NÃO ESPERO QUE TODOS COMPREENDAM, MAS QUE, COM O TEMPO, ENCONTREM PAZ EM MINHA DECISÃO. ASSEGURO A TODOS DE QUE EU ESTOU EM PAZ COM ELA.

Durante os vinte minutos seguintes, as propriedades foram divididas e os itens mais pessoais foram deixados a todos como herança. A casa em Durante ficou para Dominic, enquanto a de Chicago foi passada oficialmente para Carmine. Tess recebeu uma grande quantia em dinheiro na forma de títulos e Dia receberia o mesmo, embora ela não pudesse estar presente. Para Gia, Vincent deixou dinheiro suficiente para que ela se sustentasse. Celia recebeu vários itens de valor que invocavam memórias do passado. A Corrado foi entregue a chave de um guarda-volumes particular. O restante dos bens deveria ser dividido igualmente entre os dois filhos. A leitura já estava chegando ao final quando o nome de Haven finalmente foi mencionado. Naquele momento, todos os olhares se voltaram para ela, que ficou nervosa e apreensiva com toda aquela atenção.

Deixo a você, Haven, um envelope – leu Borza. – Parece algo pequeno em comparação a tudo o que os outros receberam, mas não acho que irá se importar. O que está aí dentro é tão importante e pessoal para mim quanto para você, e gostaria de tê-lo entregue pessoalmente como planejara, mas, enfim, terá de ser desse modo. Borza entregou um envelope branco para Haven e ela o pegou com cuidado. A curiosidade era visível nos olhos de Carmine, mas ele sabia que aquilo não dizia respeito a ele, então voltou sua atenção para o advogado.

– – – –

Tenho um último pedido – leu Borza. Trata-se de um favor que peço ao meu filho Carmine. Carmine revirou os olhos. Por que será que não estou surpreso? Todos riram e Borza continuou.

Peço que vá até a Igreja Católica de Saint Mary e encontre-se com o padre Alberto. Deixei algo lá, uma coisa que acho que um dia Carmine precisará.


O advogado colocou o documento na mesa.

É isso. Carmine olhou para Haven, lutando para controlar a forte emoção que emergiu em seu peito, mas ficou ainda mais tenso ao ver lágrimas escorrendo dos olhos da jovem. Ela abrira o envelope e o colocara sobre a mesa, segurando nas mãos trêmulas apenas o papel que tirou de dentro dele.

Tesoro, você está bem? – ele perguntou em voz baixa, estendendo a mão e secando as lágrimas no rosto dela. Ela olhou para ele e negou com a cabeça antes de entregar o papel ao rapaz. Ele o pegou com cuidado e sorriu ao ler as palavras escritas à mão no centro da folha. VOCÊ VALEU A PENA.

Acho que deveríamos celebrar – disse Celia. – Que tal um jantar em família em homenagem a Vincent? Podemos ir a algum lugar, ou eu posso cozinhar.

– – –

Eu cozinharei – disse Haven, enfiando o papel novamente no envelope. Mas você não precisa, querida.

Eu sei – ela disse. – Na verdade, não cozinho há muito tempo, desde que passei a morar sozinha. Seria ótimo poder fazer isso novamente. Celia sorriu.

– –

Quer minha cozinha emprestada?

Não, eu quero cozinhar em casa – ela disse, arregalando os olhos e começando a gaguejar enquanto completava. – Digo, vocês sabem, na casa de Carmine. Um sorriso apareceu no canto dos lábios de Carmine. Em casa.

Sei o que quer dizer, querida – disse Celia, dando uma piscadinha. – E tenho certeza de que falo por todos ao dizer que adoraremos vê-la cozinhando novamente. – Com certeza – declarou Dominic. – Eu senti muita falta de sua comida.


Algumas horas mais tarde, Carmine estava de pé à porta da cozinha, observando enquanto Haven se movimentava de um lado para o outro, cantarolando em voz baixa. Todos os balcões estavam tomados por ingredientes. Havia mais comida ali naquele único dia do que no ano anterior inteiro.

Então, o que precisa que eu faça para ajudar? – Ele sabia o suficiente para fazer um sanduíche, mas cozinhar a partir do nada era algo que jamais fizera. – Acho que eu deveria fazer alguma coisa. Ele esperava que Haven não tivesse grandes expectativas, pois certamente iria fazer uma confusão… Como de costume.

Ah, bem, pode começar o frango? –ela perguntou. Ele olhou para o frango ainda embalado sobre o balcão e perguntou:

– –

Por “começar o frango”, você quer dizer colocá-lo no forno?

Não, preciso que você o limpe. Confuso, o jovem

ergueu

as sobrancelhas.

O que quer dizer com “limpá-lo”? Eu não vou arrancar as penas da porra de uma galinha. Haven revirou os olhos.

Ela já não tem penas, mas é preciso lavar. Ele não gostou muito da ideia.

Eu só tenho de lavar o bicho na pia ou o quê? Ela confirmou e pegou uma tábua de carne, colocando-a sobre o balcão.

Retire os miúdos que vêm dentro do frango e então lave o interior com água fria. O rapaz pegou o frango e o colocou sobre a tábua. Em seguida, se armou com uma faca e retirou a embalagem. Pegando numa das coxas, Carmine a levantou e encarou a abertura. Ele ficou ali, parado por alguns segundos com certo nojo antes de olhar para Haven. Ela estava ocupada quebrando ovos em uma tigela para preparar o recheio. – Eu devo enfiar minha mão aqui dentro? – ele perguntou, erguendo uma sobrancelha. A garota confirmou. Carmine respirou fundo e colocou a mão dentro da ave, encolhendo-se todo ao sentir o interior do animal em sua pele. Ele encontrou um saquinho e o pegou.

– –

O que diabos é isso?

São os miúdos – ela explicou. – O pescoço, o fígado, a moela, o coração. O garoto arregalou os olhos e retirou a mão dali o mais rápido que pôde, dando um passo para trás, sentindo-se completamente enojado.


Que porra é essa? Por que essas coisas estão ali dentro, Haven? Quem comeria o coração de uma galinha? Haven pegou o pacotinho e o atirou no lixo.

As pessoas usam essas partes para fazer farofa ou molho, ou apenas as comem cozidas ou

assadas.

Tem gente que come coração de galinha? – ele perguntou, achando a ideia repulsiva. – Por favor, me diga que você nunca me deu isso para comer. Ela negou enquanto ria.

Não, eu nunca lhe servi isso. Mas não ficaria nada surpresa se você já tivesse comido isso por aí. – Ela então pegou o frango e o colocou na pia. – Pode lavá-lo, por favor?

Claro. Ele abriu a torneira e tentou segurar a ave debaixo da água, mas logo desistiu, optando pela mangueirinha. Pressionou o gatilho do esguicho e o disparou como se estivesse metralhando o animal.

É assim? Ocupada no preparo da massa, Haven não ouviu da primeira vez e ele repetiu.

– –

Haven?

O quê? – ela perguntou, voltando- separa ele com massa entre os dedos. Nesse momento, ele apontou o esguicho para ela e pressionou o gatilho a curta distância. Ela deu um pulo quando o jato de água atingiu seu pescoço e, de maneira instintiva, ergueu as mãos tentando se proteger. A meleca que estava nas mãos dela espirrou na direção dele e parte grudou no rosto do jovem.

Sua va… – ele interrompeu a palavra na hora em que ela arregalou os olhos e optou por atingi-la com mais uma esguichada. O caos se formou quando ela desviou do jato e tentou arrancar a mangueirinha da mão dele. Eles começaram a disputar o esguicho e, com isso, ficaram ensopados. Haven conseguiu passar por ele e fechar a torneira, caindo na gargalhada.

– – – –

Eu não acredito nisso. Estou toda molhada! Foi você que provocou – ele disse, agarrando-a por trás. – Você me ignorou. Eu não te ouvi.

É a mesma coisa. Escapando dele, a jovem pegou a tigela com o recheio e a empurrou para ele.


Acha que pode dar conta disso? Ele considerou a pergunta e respondeu:

Bem, desde que “isso” não envolva algum trabalho de vodu com coração de galinha.

Ela riu.

– –

Pode deixar pra lá. Não… Me diga o que devo fazer. Apenas não me peça nada que envolva entranhas de

bichos.

– –

Nem água – ela retrucou, olhando ao seu redor. – Você pode cortar os legumes?

Claro, eu consigo fazer isso – ele disse com um sorriso sarcástico. Com certeza ele saberia lidar com uma faca, pelo menos. Haven separou algumas cenouras, batatas, cebolas e também aipo, e instruiu Carmine sobre lidar com cada um, mas tudo o que ele escutou foi que precisava cortá-los. Eram apenas legumes, afinal. Quão difícil aquela tarefa poderia ser? Haven recheou o frango com a mistura que havia preparado e disse a Carmine que colocasse os legumes na travessa junto com o frango quando terminasse. Ele cortou as cenouras e o aipo sem o menor problema, mas teve um pouco mais de dificuldade com as batatas, uma vez que ela não dissera a ele que precisavam ser descascadas. Ou será que ela havia dito? Bem, ele não prestara atenção. Por fim, chegou a vez da cebola, e Carmine olhou para ela de um jeito suspeito. Haven o observou enquanto ele removia a casca, interrompendo-o antes que prosseguisse.

Ah, você não quer que eu faça isso?– ela perguntou. Ele disse que não precisava de sua ajuda. A jovem passou por trás dele em busca do vinagre para passar na tábua de carne. – O vinagre ajuda no processo químico, evitando um pouco a queimação. Ele ergueu as sobrancelhas.

– –

Jeopardy? Só um truque que aprendi com o tempo. Fogo também ajuda. Posso pegar uma vela, se

quiser.

Não preciso de uma vela, Haven. Posso perfeitamente lidar com uma cebola. Ela sorriu, mas não respondeu. Carmine pegou a faca e cortou a cebola em duas partes para, em seguida, começar a fatiá-la. No momento em que ela se abriu, o sumo da cebola atingiu os olhos do garoto, fazendo com que eles queimassem e ele piscasse sem parar. Cada nova fatia parecia tornar a sensação mais intensa. Ele estreitou os olhos, que se encheram de lágrimas. Depois de poucos minutos, a coisa ficou tão intensa que sua visão se turvou e ele começou a


piscar na tentativa de conseguir enxergar, mas tudo o que sentiu foram lágrimas escorrendo pelo rosto. Ele resmungou e começou a cortar mais rápido, virando-se para o lado para secar os olhos com o braço. Foi então que ele perdeu a concentração e acabou atingindo o dedo. Carmine imediatamente largou a faca e ergueu a mão em choque, vendo o sangue escorrer. Apesar de ser um corte pequeno, o sumo da cebola provocou um forte ardume, que o fez levar o dedo à boca numa reação instantânea e se encolher ao sentir o gosto da cebola. Haven puxou a mão dele e franziu a testa.

Você está bem? Ele fez que sim com a cabeça e ela o puxou até a pia, colocando a mão do namorado debaixo da água fria e lavando o corte.

– –

Olhe para você, cuidando de mim –ele disse. – Quando foi que invertemos os papéis, hein?

No momento em que você decidiu cozinhar. Carmine jogou um pouco de água no rosto antes de desligar a torneira e pegar uma toalha. Em seguida, se apoiou no balcão e observou Haven enquanto ela rapidamente terminava de cortar a cebola. O garoto se sentiu um pouco inútil pelo fato de tudo aquilo parecer tão fácil para ela. Ela ligou o forno e, com rapidez e muita facilidade, terminou de organizar as coisas. Depois que tudo já estava na panela, ela se virou para Carmine com um sorriso.

– –

Quando o forno estiver pronto, pode colocar a travessa dentro dele? Preciso me trocar.

Mas é claro. Ele ficou ali parado por um momento, até que uma sequência de bipes começou a soar pela cozinha. Carmine pegou a travessa e seguiu na direção do forno, sem reparar na poça de água que se formara no chão. Ele escorregou e soltou a travessa enquanto tentava se segurar. Conseguiu ficar de pé, mas a travessa foi ao chão; o frango e os legumes se espalharam por toda a cozinha. Sem saber o que fazer, reuniu tudo e colocou de volta na travessa, ao mesmo tempo em que ouviu passos na escada. Soltando um palavrão baixinho, ele agarrou o frango no exato instante em que Haven entrou na cozinha. A moça ficou paralisada e pasma ao ver toda aquela confusão.

Aplicamos a regra dos cinco segundos? – ele sugeriu, segurando o frango por uma das

coxas.

– – –

Qual foi a última vez em que esse piso foi lavado? Isso aqui conta? – ele perguntou, apontando para as poças d’água no chão. Não.


Bem… Então… – ele fez uma pausa, tentando calcular. – Onze anos atrás, quando minha mãe morava aqui. Ela ficou parada olhando-o, boquiaberta e piscando. Ele soltou o frango, deixando que ele caísse no chão novamente e pegou o telefone no bolso. Ligou para a tia Celia e esperou que ela atendesse.

Ah, bem, será que a gente podia remarcar o jantar para amanhã à noite? Ótimo. Obrigado. Ele desligou e olhou para Haven. – O que acha de comida chinesa?

Comida chinesa parece ótimo – ela respondeu, deslizando os olhos até o frango no chão. – Já salmonela, nem tanto.

O banco da igreja parecia duro como ferro e a bunda de Carmine já estava formigando de tanto esperar. Impaciente, ele batia os pés no chão, tentando prestar atenção à missa, mas tudo aquilo soava como blá-blá-blá para ele.

Por que não para quieto? – perguntou Gia, com um falso sussurro que ecoou por toda a igreja. Os fiéis que estavam nas imediações se viraram e o encararam com um olhar repreendedor. – Parece que ele está possuído! Tem um capeta nele! Celia chamou a atenção da mãe em voz baixa, enquanto Corrado soltou um riso amargo.

Chama-se vício. Ele não bebeu nada hoje. Gia fez uma careta.

Não permita que ele tome a comunhão, então. Ele roubará todo o vinho. Carmine revirou os olhos e tentou relaxar no assento, mas suas pernas não paravam de se mover enquanto Haven segurava sua mão. O que o fizera decidir se juntar ao grupo na missa de domingo ele não sabia muito bem, mas certamente estava arrependido a essa altura. Sua testa estava suando e a ansiedade fluía por suas veias, deixando-lhe a pele vermelha. A missa prosseguia lentamente. Ele ficou sentado no banco durante a comunhão, ignorando os comentários sarcásticos de sua avó à medida que ela passava por ele para seguir a fila que ia até o altar. Haven permaneceu ao lado dele, absorvendo silenciosamente cada palavra. Seus olhos estavam arregalados com um fascínio inocente. Ela nunca havia entrado numa igreja antes. Depois que a missa terminou, Carmine puxou Haven para o corredor central. Porém ele deu apenas alguns passos antes de parar, hesitando ao olhá-la.

Será que você se importaria de voltar para casa com Celia e Corrado? Ela ficou confusa e ergueu as sobrancelhas, mas assentiu, sem lhe perguntar nada. Ele deu-lhe um beijo, certificando-se de que a levariam para casa em segurança antes de seguir até a frente da igreja.


Padre Alberto ainda estava no altar, conversando com alguns paroquianos. Ele percebeu a presença de Carmine e pediu licença às pessoas, dirigindo-se a ele.

Ah, senhor DeMarco, precisa usar meu telefone novamente? Carmine deu risada e puxou seu celular do bolso.

– –

Não, hoje eu estou prevenido.

Uma carona, talvez? Ele levantou o chaveiro.

– – –

Não, hoje estou tranquilo. Então o que posso fazer por você? Esperava que pudéssemos conversar.

Padre Alberto sorriu.

Mas é claro que podemos. O padre levou Carmine até o escritório nos fundos, o mesmo lugar em que os dois haviam conversado antes, e acenou para que se sentasse. Um pouco nervoso, Carmine passou a mão pelos cabelos ao ocupar o lugar sugerido, permanecendo em silêncio até que o padre também se sentasse.

É muito bom revê-lo – disse o padre.– Queria ter falado com você depois do funeral de Vincenzo, mas estava ocupado com a moça e eu não quis interrompê-los.

Sim, aquela é Haven. Ela é… Bem…

Ela é…

– – –

Eu sei quem ela é – disse o padre. –Já ouvi falar muito a respeito dela. Do meu pai?

Bem, isso eu não posso lhe dizer –disse o padre com um sorriso amarelo e dando uma piscadela. Definitivamente ele ouvira da boca de seu pai. – Confissões são confidenciais.

– – –

Mesmo depois que a pessoa morreu? Com certeza. Sua relação com Deus não termina com a morte, filho.

Isso não me surpreende – resmungou Carmine, olhando para o padre do outro lado da mesa. – Bem, mas é mais ou menos por isso que gostaria de falar com o senhor. Quando leram o


testamento do meu pai, ele me pediu que lhe fizesse um favor; queria que eu viesse aqui… Disse que havia deixado algo. O padre confirmou, sem demonstrar qualquer surpresa em sua expressão. Ele já esperava por Carmine.

– – –

Sim, ele deixou mesmo. Mas antes que eu o dê a você, diga-me uma coisa. O quê?

Como você está se sentindo? Soltando um suspiro, Carmine acenou negativamente com a cabeça.

– – – –

Como parece que eu me sinto? Bem, você parece estar aguentando muito bem. É, bem… As aparências enganam.

Não diga bobagens. Talvez você não esteja conseguindo ver. Carmine fez uma pausa, hesitando por um instante, mas a dor tornou-se pesada demais para que suportasse. A represa se partiu e as palavras fluíram de sua boca como uma onda gigantesca de emoções. Ele se sentiu como se estivesse inundando o escritório do padre com a confissão de seus pecados. Padre Alberto o olhou e escutou silenciosamente tudo o que ele desabafava, sem dizer nada até que tivesse terminado. Não houve nenhuma formalidade em tudo aquilo; ele não pediu perdão a Deus ou aos homens. Era apenas Carmine e a verdade, sendo dita para a única pessoa que poderia ouvi-lo sem encarálo de um jeito diferente. O padre era o único ser humano que poderia escutá-lo sem jamais contar nada a ninguém.

E como se sente agora? – perguntou o padre depois que o escritório voltou a ficar em

silêncio.

Acho que preciso de uma bebida –ele murmurou. O padre deu risada.

– –

Vou lhe dizer o que pode fazer no lugar disso.

Não preciso que me dê penitência, padre. Não pretendo jejuar, nem rezar Ave-Maria uma dúzia de vezes. Para mim, isso é baboseira.

Mas eu não ia lhe pedir que o fizesse– disse o padre. – Eu só ia lhe sugerir que fizesse uma lista. Escreva num papel o nome de todos a quem você acha que tenha feito mal e encontre uma maneira de se redimir e fazer a coisa certa algum dia.


Isso levaria o resto da minha vida. Padre Alberto ergueu os ombros.

Tem algo mais importante a fazer? Certa vez conheci um homem que tentou beber o suficiente para aplacar sua dor. Ele bebia para esquecer a família, para aliviar a perda de uma vida e, quando finalmente se tornou um homem sóbrio, teve de pagar por tudo o que fez de algum jeito. E então começou a corrigir seus erros, até o dia em que morreu. Carmine o olhou com a boca semiaberta. O pai dele?

Ah, e por falar nisso, seu pai lhe deixou uma coisa – disse o padre, alcançando algo em sua gaveta e erguendo uma longa corrente de ouro com uma única aliança pendurada. Carmine sentiu uma forte dor no peito ao reconhecer aquilo. Afinal, ele já havia visto aquela aliança milhares de vezes no dedo da primeira mulher que amara em sua vida e, posteriormente, no pescoço do primeiro homem a quem aprendera a respeitar. Era a aliança de casamento de sua mãe.

Tenho certeza de que sabe exatamente o que fazer com isso – disse o padre, entregando o pingente a ele. Com cuidado, o garoto pegou a corrente e a colocou no pescoço, escondendo-a debaixo da camisa. Ele sentiu o metal frio contra o peito.

– –

Obrigado.

De nada, meu filho. Ah, mas eu também reparei que não tomou comunhão. Não gostaria de fazer isso agora? Carmine negou ao ficar de pé.

– –

Talvez da próxima vez.

Próxima vez – disse o padre, enquanto Carmine caminhava até a porta. – Muito bem. Isso significa que talvez você retorne algum dia.

Vinte e quatro horas depois, os seis se reuniram na casa dos Moretti para um jantar em homenagem a Vincent. Lá estavam Haven e Carmine, Celia e Corrado, Tess e Dominic. No final, o evento acabou sendo transferido para lá, uma vez que Carmine se deu conta de que sequer havia uma mesa de jantar em sua casa. Haven e Celia cozinharam juntas. Eles se reuniram à mesa, com os pratos cheios, e compartilharam boas risadas e comeram até se fartar. Dia foi a única a não comparecer, pois já havia retomado sua vida normal em Charlotte. Aquilo


deixou Haven pensativa durante o jantar, conforme pensava na vida que a esperava em Nova York. De fato, Kelsey ligara para ela dúzias de vezes, mas Haven se sentia muito dividida para retornar qualquer chamado.

É tão bom, estamos todos reunidos aqui – disse Celia. – Tentei trazer a mamãe, mas ela

não quis vir.

– –

Meno male – resmungou Corrado.

Ah, ela não é assim tão horrível – Celia fez uma pequena pausa enquanto todos a olharam com certo ceticismo. – Tudo bem, ela é mesmo uma pessoa difícil. Mas ela contava bastante com o Vincent nos últimos anos, então todos nós teremos de nos empenhar um pouco agora que ele se foi.

– –

Eu mal a conheço – retrucou Dominic.

Digo o mesmo – respondeu Carmine.– E pelo pouco que percebi, ela não quer porra nenhuma com a gente.

Isso não é verdade – disse Celia. –Ela só é um pouco teimosa. Corrado soltou um riso sarcástico.

Não quero parecer desrespeitoso, bellissima, mas os problemas de sua mãe vão muito além de teimosia ou tenacidade. Nós dois sabemos muito bem que ela sabe como ser deliberadamente cruel.

– –

Pode até ser, mas ela faz parte da família.

É verdade, razão pela qual farei o que se espera de mim – respondeu Corrado. – Mas isso não quer dizer que eu tenha de gostar dela. Não consigo entender como Antonio foi capaz de conviver com ela durante tantos anos. Aquele homem era um santo.

– –

Meu pai? – perguntou Celia. – Será que estamos nos referindo ao mesmo homem?

Todo homem peca, Celia. Até os mais santos. O jantar se desenrolou, assim como a conversa. A noite já havia caído há bastante tempo quando se separaram. Tess e Dominic pegaram a estrada rumo a Indiana, enquanto Carmine e Haven desceram a rua caminhando. Com os dedos levemente entrelaçados, ambos se mantiveram em silêncio durante todo o percurso. Carmine parecia feliz, com os ombros relaxados, mas havia algo em sua expressão. De repente ele parou de um jeito abrupto a poucos metros de sua casa e soltou a mão de Haven, enquanto ela prosseguiu mais um passo. Ela se virou para ele ao sentir a desconexão, percebendo as sobrancelhas dele franzidas e seus lábios retos.

O que há de errado?


Fale-me sobre Nova York. Ela ergueu as sobrancelhas.

– – – –

Agora? Sim. Mas eu já te falei sobre isso.

Você me falou o que havia de errado lá, sobre tudo de que sentia falta estando lá, mas quero ouvir o lado bom. Você sabe, os sonhos. Seus sonhos. Ele não disse aquilo, mas ela percebeu nos olhos do rapaz: ele queria saber se deixá-la viver sua vida fora um erro.

Bem, a vida em Nova York é tumultuada, como você mesmo já havia me dito – ela começou. – Sempre havia algo acontecendo. Pessoas em todos os lugares. A garota contou ao rapaz todos os detalhes sobre sua vida na Big Apple, os dois de pé na rua escura. Ela não escondeu nada de Carmine, querendo que ele soubesse que sua vida fora boa. Talvez não tivesse sido perfeita, mas as coisas nunca são. Carmine ouviu atentamente, como se saboreasse cada palavra, e não disse nada até que ela terminasse.

– –

Você ama aquele lugar – ele disse em voz baixa.

Amo – ela disse sorrindo. – Eu realmente amo aquele lugar. Ambos olharam um para o outro enquanto aquela verdade pairava no ar. Haven percebeu a expressão dele mudar aos poucos e outra pergunta se formar em seus olhos. Ela não perguntou, tampouco reconheceu sua existência, pois esperou que ele desse o primeiro passo. Haven esperou que ele perguntasse, que reunisse a coragem para pronunciar as palavras. Os olhos dele diziam ame a mim ainda mais…

– –

Você, bem… – ele disse, passando as mãos no rosto e soltando um suspiro. – Você ficaria?

Ficar? Ele assentiu e finalmente perguntou:

– –

Você ficaria aqui?

Sim, eu ficaria. Os cantinhos da boca do rapaz seguraram um sorriso.

Você fará isso?


– –

Ficar?

Comigo – ele pigarreou de um jeito nervoso. – Você sabe, ficar aqui comigo. Ela abriu a boca para responder, mas as palavras nem saíram de seus lábios. Carmine percebeu o que havia dito e a ansiedade tomou conta dele.

Meu Deus, não consigo acreditar que te pedi isso. O que diabos há de errado comigo? Isso não está certo! Não posso te pedir que escolha a mim! Haven segurou o braço dele, interrompendo-o quando começou a andar.

Você não está me pedindo que escolha você. Não há nada a escolher sobre isso. Sempre foi você. Seu pai uma vez me disse que a gente sempre tem uma escolha, mas acho que ele estava errado. Penso que algumas vezes as coisas nos escolhem. É como respirar. É natural. É parte de nós. Apenas acontece. Podemos prender a respiração e tentar não respirar mais, e talvez isso funcione por alguns minutos, mas acabaremos desmaiando e a natureza assumirá o controle. É impossível não respirar, assim como para mim é impossível não amá-lo.

– –

Mas e quanto a Nova York? – ele disse. – E quanto à sua vida?

As melhores partes da vida não têm nada a ver com lugares. Amor, amizade, felicidade… Não preciso estar em Nova York para ter tudo isso. Tenho tudo aqui mesmo.

– –

Mas e quanto à escola? As aulas de pintura? E quanto a tudo isso?

Posso fazer isso em qualquer lugar, Carmine. Mas você… Você está em Chicago. Um sorriso de expectativa se formou em seus lábios e ele não se conteve mais.

– – –

Uma tela em branco? Tão em branco quanto nossa tela poderia ser.

O que já é uma merda bem manchada. Ela riu, observando-o por um momento antes de estender a mão. Suas bochechas ficaram vermelhas de nervoso. Uma tela em branco.

– – –

Olá, meu nome é Haven. Carmine – ele disse, estendendo a mão. – Você tem um nome interessante, Haven. Quer dizer “um lugar seguro” – ela explicou.


Eu sei – ele respondeu, entrelaçando os dedos de suas mãos novamente. – E algo me diz que ele cai perfeitamente em você.

Capítulo 43 Os chefes das cinco famílias se reuniram em uma grande mesa nos fundos de um sofisticado restaurante italiano nos arredores de Nova York. A conversa em voz alta e desenfreada sobrepujava o som suave do violino que era tocado no salão principal. Aliás, seus risos e sua alegria no interior já se destacavam desde o estacionamento. A hostess apontou a direção deles para Corrado no momento em que ele adentrou o estabelecimento; as palavras se faziam desnecessárias. Eles já o aguardavam. Ele se aproximou dos homens e pessoalmente cumprimentou cada um antes de ocupar a única cadeira vazia.

Moretti – disse o chefe da família Calabrese. – Estamos felizes que tenha se juntado a nós. Corrado acenou com a cabeça.

O prazer é todo meu. Regada a bebidas, a conversa entre os chefes abrangia tudo, desde política até música, deixando os negócios em segundo plano durante a maior parte da noite. O diálogo era fluido, quase amistoso, mas Corrado não se deixava enganar; sabia que estava sendo testado. Todos estavam atentos a cada movimento que fazia e pesavam cada uma de suas palavras, avaliando se estariam ou não dispostos a negociar com ele. Ele já conhecia todos aqueles homens enquanto trabalhava como capo, mas agora as coisas eram diferentes. Aquela seria a entrevista de sua vida.

O que o traz a Nova York? – perguntou Sergio Geneva, chefe da facção Geneva. – E quanto tempo pretende permanecer aqui?

– – –

Apenas esta noite – respondeu Corrado. – Eu trouxe meu sobrinho e a namorada dele. Então trata-se de assuntos pessoais?

Na maior parte. O Chefe da família Calabrese olhou para Corrado do outro lado da mesa e disse:

Estou feliz que esteja aqui. Há algo sobre o qual gostaria de falar com você. Um amigo meu, Sammy Graves… ele abriu um novo casino. Você sabe a qual estou me referindo?

Claro.


Ele é um bom sujeito, honesto e decente. Tem família e filhos. Tentei ajudá-lo a abrir seu próprio negócio, oferecendo-lhe uma linha de crédito, mas ele recusou. Queria fazê-lo por conta própria, e tudo de maneira estritamente legal.

– –

Isso é admirável – disse Corrado.

Então tenho certeza de que consegue perceber como esse acordo que fechou com Chicago tem sido um problema. Ele nunca desejou isso, você sabe, jamais quis fazer acordos.

Compreendo – respondeu Corrado. –Diga a ele que não tem mais de se preocupar com Chicago. Seu amigo é meu amigo. O Chefe Calabrese ergueu sua taça.

– –

Transmitirei a ele sua mensagem.

Como anda a trégua em Chicago? –perguntou outro Chefe de Nova York. Ele considerou a questão e respondeu:

– –

É uma situação delicada.

O’Bannon ainda está forçando a barra e abusando de sua própria sorte? Na verdade, quem o pressionou antes fora o próprio Salvatore.

– –

É apenas uma questão de tempo, imagino, antes que ele volte a nos testar.

Mantenha-nos informados quando isso ocorrer – ele disse. – O que quer que precisar, bastará nos pedir. Somos todos amigos aqui. Corrado assentiu, pegando o copo e tomando um gole; a conversa voltava a se concentrar em banalidades. Embora sua expressão se mantivesse firme, com seus olhos fixos e escuros, e revelava o mesmo homem frio que todos ali já conheciam, ele se sentiu satisfeito. Ele olhou para todos na mesa e seus olhos se fixaram nos de Johnny Amaro, Chefe da família Amaro e um dos poucos homens que Corrado considerara um verdadeiro aliado pessoal ao longo dos anos. A família dele sempre comandara aquela facção, desde o início. Era um negócio passado de geração para geração já há décadas. Johnny ergueu sua taça, numa celebração silenciosa. Você acertou em cheio.

Caixas de papelão cobriam o chão da sala de estar do pequeno apartamento no piso inferior do prédio da Oitava Avenida. Havia pilhas delas, uma sobre a outra, e todas estavam completamente cheias.


As pilhas estavam separadas em duas categorias: as que seriam levadas e as que seriam deixadas para trás. Mais uma vez a vida de Haven estava sendo reavaliada e categorizada, e ela se livraria de vários itens e prosseguiria. Emoções misturadas pulsavam em seu peito; alegria e tristeza colidiam de frente conforme terminava de empacotar as coisas para se mudar definitivamente para Chicago. Era um pouco como prosseguir rumo aos seus sonhos, deixando outros para trás; era como quebrar uma promessa para manter outra. E ela acreditava que Carmine compreendia perfeitamente aquele sentimento.

Sabe de uma coisa? Você não tem que fazer isso – ele disse, de pé no meio da sala com as mãos enfiadas nos bolsos de suas calças jeans. – Podemos resolver de outro jeito. Ela olhou para ele.

ver.

– – – – – –

De que outro jeito, por exemplo? Sei lá! – Ele deu de ombros. – A gente podia ficar cada um onde já está e viajar para se

Viajar para se ver? É, você fica aqui e eu fico lá. E nós nos visitamos sempre que tivermos uma oportunidade. E é isso o que você quer?

Não. Haven riu para si mesma, colocando seus últimos livros dentro de uma caixa. Ela então pegou o diário que pertencera a Maura e o abriu aleatoriamente. Virou as páginas e considerou as palavras ali escritas, chegando numa passagem mais ou menos na metade e lendo o que estava escrito em letras vermelhas no topo da página:

Às vezes eu perco a perspectiva, mas parar e olhar para os lados ajuda. Talvez eu não tenha tudo, mas tenho mais que o suficiente. E suficiente, aos meus olhos, é bem mais do que muitos possuem.

Haven colocou o livro dentro da caixa antes de fechá-la.

– –

Temos algo que muitas pessoas não têm, sabia?

O quê? Sorrindo, Haven afastou a caixa de livros para o lado, junto aos pertences que ela planejava manter.


Uma chance. Não temos a garantia do amanhã, portanto devemos valorizar o que temos hoje. Carmine a ajudou a empacotar mais algumas coisas antes de se desculpar e se afastar para fazer uma ligação. Dirigiu-se ao quarto enquanto Haven ficou de pé na sala de estar, olhando para as caixas. De repente, ela ouviu uma movimentação no hall externo e se virou ao ver a porta da frente se abrindo e batendo com força contra a parede. Era Kelsey. Os olhos da jovem estavam arregalados como os de uma pessoa maluca. Haven estava prestes a cumprimentar a amiga quando ela deu um pulo para a frente, gritando de maneira histérica.

Mas o que diabos aconteceu com você? Onde você esteve? O que houve? O que está fazendo? – Kelsey falava sem parar, apontando para as caixas. – Você pretende se mudar? Verdade? Você está em alguma enrascada? Por que não me ligou? A porta do quarto se abriu e Carmine apareceu no cômodo.

Mas que porra de gritaria é essa? Kelsey piscou rapidamente e sua atenção se voltou para o rapaz.

E quem é você? Carmine estreitou os olhos.

Eu? Quem diabos é você? Haven soltou um profundo suspiro e se colocou entre os dois.

Carmine, esta é minha amiga Kelsey.Kelsey, este é meu, ah… Este é Carmine. Ambos olharam um para o outro, mas nenhum deles agiu como se tivesse escutado uma palavra do que fora dito. A expressão de Kelsey se tornou um pouco mais suave no final, embora seus olhos tivessem substituído o pânico por suspeita.

– –

É, acho que ouvi falar em você uma ou duas vezes.

Digo o mesmo. Revirando os olhos diante daquela discussão, Haven olhou para o apartamento, certificando-se de que tudo estivesse nas caixas. As paredes brancas estavam vazias, e o lugar agora parecia bem menor que antes.

Então você está…? – perguntou Kelsey. – Você está se mudando? Haven se virou para a amiga com um sentimento de culpa estampado nos olhos.

– –

causa dele.

Sim, eu estou. Mas por quê? – questionou a moça, encarando Carmine. – Ah, deixe-me adivinhar… Por


Carmine permaneceu onde estava, com os braços cruzados sobre o peito, e torcendo os lábios como se estivesse lutando para não responder.

– – –

Não por causa dele – respondeu Haven. – Por ele. E tem alguma diferença?

Um homem muito sábio me disse certa vez que sim. Kelsey soltou um suspiro.

– – – – – –

Escute aqui, Hayden, eu… Hayden? – Carmine interrompeu, erguendo as sobrancelhas. – Que porra de nome é esse? Haven franziu o cenho e começou a explicar. Esse é o meu nome aqui. Por quê? Foi ideia do Corrado – ela disse em voz baixa. – Foi ele quem o escolheu.

Espere, do que você está falando? –Kelsey meneou a cabeça, mostrando-se confusa. – Seu nome aqui? Meus Deus, esse não é seu nome verdadeiro? Quem é você?

– –

Ah, eu posso explicar – disse Haven fazendo uma pausa. – Bem, na verdade, eu não posso.

Não pode? Haven acenou a cabeça de modo lento e negativo. A atenção de Kelsey mais uma vez se voltou para Carmine, que deu de ombros quando seu telefone tocou.

Também não posso explicar – ele disse, olhando para a tela antes de pegar o celular. – Mas talvez ele possa – retrucou Carmine, apontando para o telefone.

Uma hora mais tarde, depois de uma troca de diálogos bem tensa entre os três, Corrado chegou ao apartamento e ficou de pé no meio da sala de estar. Kelsey estava sentada no sofá e olhou para ele desconfiada.

Sabe quem eu sou? – ele perguntou.


Algum tipo de oficial de polícia? –ela arriscou. – Não foi isso o que ficou subentendido quando nos vimos? Corrado deu um sorriso amarelo.

Sou Corrado Moretti. Meu pai, Vito, morreu na prisão enquanto cumpria prisão perpétua por um assassinato ordenado por Antonio DeMarco – Corrado apontou para Carmine e prosseguiu. – Antonio era o avô deste rapaz. Este é Carmine DeMarco, e o pai dele, Vincent, morreu num tiroteio na casa de Salvatore Capozzi – Corrado em seguida apontou para Haven. – Salvatore era tio-avô dela, cujo nome é Haven Antonelli. O pai dela, Michael… Bem… Digamos apenas que tudo aqui se completa. Kelsey olhou para Corrado atônita e com a boca aberta.

– –

Somos uma família – ele prosseguiu.

Às vezes nós brigamos e seguimos caminhos diferentes, mas, no final do dia, ainda somos uma família. Compreende o que estou lhe dizendo? Depois de alguns segundos de hesitação, Kelsey assentiu.

Cresci em Nova York. Sei tudo sobre

a… Bem…

– – –

Sobre a família – completou Corrado. A família – ela repetiu. – Meu pai, ele…

Ele é um senador que foi indicado ao Congresso por causa de seu último nome. O pai dele, ou seja, seu avô, era o senador de Nova York na época em foi criado um comitê especial para investigar o crime organizado. Foi por causa desse comitê que meu pai foi condenado, no fim das contas.

não…

Eu, ah… – Kelsey gaguejou. Algo brilhou em seus olhos. Medo, talvez. – Eu

Não sou do tipo que costuma punir o filho pelos erros do pai – prosseguiu Corrado, interrompendo-a. – E seu pai também não acredita nisso. Nós dois temos um acordo sobre isso.

– –

Vocês têm?

Sim. Veja, não existem coincidência asna vida, tampouco acidentes. Tudo o que acontece é resultado de um movimento calculado que nos leva até onde nos encontramos. E o lugar em que estamos, Kelsey, é bem aqui neste apartamento, tendo esta conversa que, aliás, jamais aconteceu. Capisce? A jovem confirmou.


– –

Sim.

Ótimo – disse Corrado voltando-se para a porta. – Haven, Carmine, partiremos pela manhã. Tenho algo mais a resolver esta noite.

O local das obras estava silencioso por volta da meia-noite e todos os equipamentos já haviam sido desligados há horas. Não havia nenhuma perfuração, nenhuma conversa ou qualquer tipo de movimentação de trabalhadores. Nem mesmo o barulho do gerador podia ser ouvido no terreno. O lugar parecia abandonado, mas havia um fio de luz vindo de uma janela do pequeno trailer que mostrava o contrário. Corrado caminhou silenciosamente pelo local sob a completa escuridão, evitando se aproximar do sensor de movimentos para não atrair atenção desnecessária. Ele prosseguiu até o trailer, andando de maneira rápida e cuidadosa, tocou na maçaneta usando suas luvas e abriu a porta. Gavin estava sentado a uma pequena escrivaninha, de costas para a porta. Ele endireitou o corpo ao ouvir Corrado entrar, ficando com os ombros tensos e o corpo rígido, mas não se moveu para olhar. Sua atenção permaneceu nos livros distribuídos à sua frente. Nomes e números preenchiam as linhas e colunas; havia também variadas estatísticas com as probabilidades devidamente anotadas na margem. Era como olhar para um elaborado conjunto de exercícios de álgebra. Para alguém ingênuo, tudo aquilo poderia parecer como se o jovem fosse um aluno se preparando bastante para uma prova importante, mas Corrado não era do tipo ingênuo… Tampouco era ignorante.

Jamais deveria se sentar com as costas para a porta – disse Corrado. – Seu pai não o

ensinou isso?

Meu pai me ensinou muito – respondeu Gavin de um jeito frio. – E uma das coisas mais importantes que ele me ensinou foi que se Corrado Moretti aparecesse à sua porta, seu dia com certeza seria bem ruim. Os cantos dos lábios de Corrado formaram um pequeno sorriso.

Também é bom revê-lo. Os ombros de Gavin relaxaram um pouco à medida que ele se virou devagar para encarar Corrado, com uma expressão cautelosa. Corrado não podia culpar o jovem por estar no limite.

Você precisa de alguma coisa? – perguntou Gavin. – Estou apenas dando uma olhada nos livros de controle do bairro, mas se precisar que eu faça alguma coisa…

Não, é justamente o contrário, na verdade – respondeu Corrado. – Só vim até aqui para lhe dizer que seus serviços já não são necessários.


Corrado enfiou a mão no casaco rapidamente e Gavin ficou tenso mais uma vez, empurrando sua cadeira para trás até o limite. O medo parecia estar estampado em seus olhos enquanto ele erguia os braços para se proteger de algo que não aconteceria. Corrado retirou do bolso um envelope e o entregou ao jovem.

Qual o problema? Achou que eu estivesse aqui para matá-lo? Gavin respondeu no ato:

Não. Sabendo que aquilo era mentira, Corrado soltou um riso afiado e atirou o envelope sobre a mesa, sobre um dos livros.

Você não fez nada que justificasse ser morto… Pelo menos não que eu saiba. Mas apreciei sua ajuda e queria lhe dar algo para expressar minha gratidão. De um jeito hesitante, Gavin pegou o envelope e olhou o conteúdo. Dentro dele, presos por um elástico, havia dez mil dólares em notas novas de cem dólares. Gavin piscou rapidamente ao olhar aquilo, mas não disse nada. Corrado o havia contratado meses atrás para que ficasse de olho em Haven. A ideia era que Gavin a mantivesse em segurança enquanto ele próprio estivesse preso. E foi isso o que o rapaz fez, inclusive enviando-lhe mensagens codificadas na prisão para mantê-lo informado.

Foi só para isso que vim – disse Corrado. – Agora deixarei que se concentre em seus livros. Ele já caminhava rumo à porta de saída quando Gavin se levantou, segurando o envelope.

Espere. Corrado se virou.

O quê? Gavin acenou negativamente com a cabeça e deu um passo à frente.

Não posso aceitar isso. Sei que deveria ter sido apenas um trabalho, mas para mim não pareceu. Não acho correto aceitar seu dinheiro. Sinto como se fosse… desonesto. Corrado ergueu as sobrancelhas.

Esse é um sentimento terrível, Amaro. Seu pai também já deveria tê-lo ensinado que não há lugar para emoções nesse tipo de vida.

Eu sei – respondeu Gavin –, mas, na realidade, ela não faz parte dessa vida. Sei que disse que ela é importante para sua família… uma garota comum. Mas estar com ela não foi nenhum trabalho. Foi muito bom, aliás. E meu pai… Bem… Algo que ele realmente me ensinou é que nunca se rouba um amigo. E aceitar isso parece um roubo. Corrado pegou o envelope e o enfiou de volta no bolso, acenando com a cabeça.

Como foi que ela chegou a você?


– –

Como?

Só estou curioso para saber como foi que ela o conquistou – ele respondeu. – Como foi que ela fez com que se apaixonasse por ela a ponto de se arriscar a me ofender dessa forma, não aceitando meu dinheiro. Gavin soltou um suspiro e desviou os olhos pelo trailer até encontrar um pequeno gatinho branco, dormindo no cantinho.

Honestamente? Não sei dizer como aconteceu. Corrado o encarou por um momento antes de se virar para sair.

Ninguém nunca sabe.

Capítulo 44 Carmine estava de pé em silêncio à porta do estúdio, encostado na parede com os braços cruzados sobre o peito. O grande cômodo mais parecia um armazém, pintado na cor gelo, exceto pelo chão escuro de concreto. Luzes fluorescentes brilhantes estavam penduradas no teto, iluminando dúzias de quadros coloridos pendurados nas paredes. Aquelas obras brilhavam de um modo proeminente e exigiam atenção, mas nada se sobressaía mais que a cena bem no centro do salão. Haven estava sentada num banquinho de madeira, diante de uma tela. Havia papéis amassados atirados no chão aos seus pés; eram desenhos que ela descartara, com manchas e respingos de tinta que os atingiram ao longo do dia. A bagunça que a rodeava deixava Carmine fascinado, considerando o fato de aquela ser a pessoa mais organizada que ele conhecia em sua vida. Ela não conseguia deixar que as roupas sujas acumulassem, o piso tinha de ser varrido todos os dias, os pratos precisavam ser lavados logo depois de serem usados. Ela achava que tudo tinha seu lugar certo, mas em momentos como aqueles tudo aquilo parecia fluir pela janela. Quando Haven pintava, era apenas ela e a tela. O prédio poderia ser atingido por um furacão e o teto despencar, mas é bem provável que ela sequer reparasse. O apocalipse poderia ocorrer e Jesus poderia se materializar atrás dela, tentando levá-la para o céu, mas ela com certeza o faria esperar até que tivesse terminado. Ninguém a interrompia nessas ocasiões, nem mesmo Carmine. E era por isso que ele estava de pé ali, em silêncio, esperando à porta. Mas ele não se importava. Na verdade, apreciava tudo aquilo: vê-la pintando e ouvi-la cantarolando enquanto trabalhava a apenas alguns metros de distância eram coisas que tranquilizavam sua alma. Há não muito tempo ele estivera tão próximo de desistir da vida, estava exausto com todas as reviravoltas que tivera de encarar, mas ela voltou a aparecer no momento em que ele mais precisava. Já havia se passado alguns meses desde que ela se mudara para Chicago. Um novo ano escolar começara e ela se matriculara numa pequena escola de artes no centro, enquanto Carmine prosseguia com


sua vida… Aquela mesma vida na qual se envolvera desde que saíra de Durante. O fato de o poder ter mudado de mãos não alterou as circunstâncias de modo algum, mas, ainda assim, algo estava diferente. Ele encarava sua vida de um jeito novo. Não era tão descuidado… Não agora, que tinha uma razão para voltar para casa toda noite. Ainda detestava tudo aquilo. Odiava cada segundo da vida que desperdiçava dentro da Cosa Nostra com cada célula de seu corpo. Haven soltou um suspiro mais alto e exagerado no salão vazio. Levantou-se e empurrou o banquinho para trás enquanto dava alguns passos para frente e para trás para analisar a tela. A pintura da árvore parecia boa para Carmine, mas ele podia sentir que, para ela, havia algo de errado. A jovem acrescentou um pouco mais de cor ao tronco antes de misturar um pouco de amarelo em algumas folhas, finalmente colocando o pincel no aparador. Ela olhou atentamente o quadro, inclinando a cabeça para o lado, como se a visão por um ângulo diferente lhe permitisse de algum modo alterar o resultado. Carmine sorriu e caminhou até Haven. Ela ficou tensa ao perceber a presença do namorado, respirando fundo antes de voltar a relaxar.

– –

Há quanto tempo estava aí?

Só um pouquinho – ele respondeu, colocando suas mãos nos quadris da moça. Ele então a puxou contra seu corpo e se inclinou, enfiando a ponta do nariz no pescoço dela. – E como você sabia que era eu?

Senti seu cheiro – ela respondeu deum jeito casual. Ele franziu as sobrancelhas.

Está me dizendo que eu cheiro mal? Ela riu e deu um cutucão em Carmine ao se virar para ele.

– –

Mas é claro que não. Você cheira bem, e sabe disso.

É, eu sei – ele disse, fazendo uma careta. – Como a porra do brilho de um novo dia, certo? Ela revirou os olhos.

– –

Não aja como um cara de pau convencido.

Hum, e por que não? – ele disse, apertando-a mais ainda contra seu corpo. – Sempre gostei da minha cara de pau em você. Haven ficou vermelha e se virou para o quadro.

– –

Então é uma árvore? – ele perguntou.– Parece legal.

Há algo de errado – ela disse, inclinando a cabeça novamente para o lado ao estudar a pintura. – Não concorda comigo?


– –

Bem, parece uma árvore para mim. Oque tem de errado com ela? Não faço ideia – ela respondeu. – Algo está faltando. Não parece com a mesma árvore,

parece?

Que árvore? – ele perguntou. – A Árvore Branca de Gondor? A porra do Salgueiro Lutador de Hogwarts? Ou a porcaria da macieira de onde Eva colheu o fruto proibido?

A árvore em Durante – retrucou Haven, impaciente. – Você nem a reconheceu, então é óbvio que não está certa.

É uma árvore, tesoro. Ela tem tronco, folhas, as bolotas do carvalho e toda a merda que existe em qualquer árvore. Eu diria que está perfeita.

Não são bolotas – retrucou a garota.– Isso é um plátano. Está mesmo parecendo com um carvalho? Elas não têm nada a ver uma com a outra. Ele soltou um suspiro. Como poderia saber disso?

Haven, querida, você poderia me dizer que essa era a Árvore de Josué e eu iria concordar, porque… Bem… Eu não sei qual é a diferença. Ela bufou de um jeito exagerado e olhou-o.

E ter de ouvir isso justamente de alguém que gastou quase uma hora escolhendo uma árvore de Natal daquela vez?

O que posso te dizer? Sou enjoado. Não nego. Mas nem todos nós temos a memória fotográfica que você tem. Você vê algo e de repente aquela imagem fica gravada em seu cérebro por toda a vida, mas a única planta que consigo identificar é a do tipo que posso fumar.

Ah, está falando dessa aqui? – perguntou, pegando o pincel, enfiando-o na tinta verde e rapidamente desenhando uma folha de maconha no canto da tela. Ele riu.

É, essa mesmo, mas você não deveria ter feito isso aí. Fodeu sua pintura. Frustrada, ela negou e enfiou o pincel na água turva.

Isso não importa, Carmine. Já estava fodida. Ele a olhou boquiaberto.

O que foi que você disse?


– –

Eu disse que já estava fod…

Jesus, tesoro, você não deve dizer essa merda! – ele a interrompeu antes que pudesse repetir as palavras. – Sabe o que isso provoca em mim? Ela sorriu e ficou vermelha, desviando os olhos para o zíper da calça do rapaz. Sim, ela sabia exatamente o que aquele tipo de palavra provocava em Carmine. Fechando os olhos, ele soltou um gemido.

Eu pediria desculpas, mas, honestamente, não posso dizer que esteja arrependida. – ela

admitiu.

Então não peça desculpas – ele sussurrou. – Aliás, você nunca deveria se desculpar por dizer o que pensa. Pelo contrário, há casos em que você inclusive deveria colocar seus pensamentos em prática… Como agora, por exemplo.

– –

Mas nunca se deve dizer coisas que irão machucar outras pessoas – ela acrescentou.

Ah, deixa isso para lá. Estou falando de outra coisa. Além do mais, às vezes é preciso sim dizer coisas que machucam as pessoas. Haven olhou para Carmine sem acreditar naquilo.

– –

Não, nunca é preciso dizer algo que irá machucar as pessoas.

Ah, às vezes é preciso sim. Ela estreitou os olhos.

– – –

Em que situação? Em várias.

Me dê um exemplo. Ele não se esquivou do desafio.

– –

Quando alguém lhe diz algo que o machuca primeiro.

Neste caso você deve simplesmente dar as costas e ir embora – ela retrucou. – Dois erros não tornam uma coisa certa.

– –

Tá, e se você não puder dar as costa se ir embora? E se não for possível? E acha que ser rude irá ajudá-lo nessas ocasiões?


Ela o deixou sem resposta, mas ele insistiu:

Muito bem, e se tiver algo de errado com você, tipo, algo preso no seu dente? Eu não deveria alertá-la?

– –

Sim, mas isso não seria uma maldade. Isso seria útil.

Mas e se fosse algo permanente, como, por exemplo, o seu nariz? E se o seu nariz fosse torto e fodido? Haven imediatamente levou a mão ao nariz e deslizou o dedo sobre ele enquanto olhava hesitante para Carmine. Ele soltou um gemido, percebendo que era como se ele houvesse dito aquilo sobre o nariz dela. Ele se lembrou do quão preocupada ela costumava ser no passado e se sentiu um idiota. Boa, DeMarco, da próxima vez por que você não dá um soco direto no nariz dela???

Não estou falando do seu nariz, tesoro. Não estava me referindo a você. Seu nariz é bonito. Aliás, a porra do seu nariz é perfeito. Eu só estava falando, você sabe, de maneira hipotética…

Bem, de maneira hipotética, por que seria necessário me dizer isso? Isso não o afetaria em nada, então para que me magoar? – E, mais uma vez, ela o deixou sem ter o que responder.

Tá, muito bem, e se a sua pintura fosse uma bosta? Como esta árvore. E se fosse a pior árvore que você já pintou?

– –

E é provável que seja mesmo.

Ok, mas e se fosse um trabalho que valesse nota e eu tivesse de dizer a você que está ruim para que não fosse reprovada?

Esse trabalho vale nota. Ele a encarou incrédulo antes de olhar novamente para a tela.

E você pintou uma folha de maconha num trabalho de escola? Ela deu de ombros.

Não importa. A indiferença dela o deixou chocado.

Há algo de errado com você. Ela riu. Ela apenas deu risada. Se a ideia era provar que Carmine estava certo, ela o conseguiu naquele exato momento. De fato, havia algo de errado com ela.

Posso começar de novo – ela disse. –Quem sabe pintar algo diferente… – Você não deveria fazer isso – ele retrucou. – Gosto dessa pintura.


– –

Por quê? – ela questionou, olhando para o quadro com desdém – É apenas uma árvore.

Mas é a nossa árvore – ele completou, voltando ao ponto inicial. – Nós descemos pela porra dessa árvore duas vezes. E você caiu dela uma vez, lembra? Isso a torna especial. O sorriso que surgiu nos lábios da garota aqueceu o coração dele. Ele adorava aquele sorriso. Significava que ela estava feliz, que ele a fizera se sentir feliz. E não havia nenhum sentimento melhor que aquele. Depois de passar tantos anos de sua vida sem fazer nada além de desapontar as pessoas ao seu redor, era bom ser capaz de fazer algum bem de vez em quando.

– –

Muito bem, então. Talvez eu pinte por cima da folha de maconha.

É, pinte umas nuvens bem alegres para acompanhar sua árvore linda e mágica – ele brincou. Ambos ficaram ali por um momento, imersos no silêncio enquanto ela olhava para o quadro, antes que Carmine a puxasse em sua direção. Ela soltou uma risada gostosa e o abraçou. Porém, no instante em que deslizou as mãos pelas costas do garoto e alcançou o cinto, a jovem congelou.

Meu Deus, por favor me diga que isso não é… – ela interrompeu a frase, afastando-se dele. – Isso aí é o que eu acho que é?

Isso depende do que você acha que é. Ela segurou o cinto dele e estreitou os olhos.

Você entrou aqui armado, Carmine? Você não pode fazer isso.

E por que não? Ela abriu a boca ao ouvir aquela pergunta.

Porque tem uma placa na porta que diz justamente isso? Você não pode entrar nesse lugar com armas escondidas!

– –

Tesoro, relaxe. Eu a levo para todos os lados comigo, e você sabe disso. Sim, mas até aqui? – ela o questionou. – Isso é ilegal! Agora era a vez de ele cair na risada.

Nós vivemos em Chicago. O fato de eu sequer olhar para uma arma já é ilegal. Gostaria que eu me livrasse dela de uma vez?

Sim.


A resposta dela foi rápida e firme, pegando-o de surpresa. Ela olhou para Carmine com segurança, que negou com a cabeça. – Então você prefere me ver indefeso? A garota ficou pálida.

– – – – – –

Claro que não. Então qual é o problema? Não quero que seja preso. Não serei. Você não sabe com certeza.

Mas eu sei – ele retrucou. – Sei muito bem o que estou fazendo. – Tá, tudo bem, mas… – Não tem nenhum mas. Ela bufou ao ser interrompida e o ignorou completamente.

Mas para que trazer isso a lugares como este? Entendo que precise dela em seu trabalho, mas por que quando está comigo?

– –

Nunca se sabe quando algo pode acontecer.

É mesmo? Você também nunca sabe quando irá chover, mas não o vejo carregando um guarda-chuva só para o caso de acontecer. Ele riu diante da comparação absurda, embora ela estivesse falando muito sério.

– –

Bem, o homem do tempo geralmente nos avisa quando vai chover.

E você também não é alertado? Corrado não lhe diz quando algo está prestes a acontecer? O que aconteceu com a intuição?

Bem, de fato, mas nem sempre é possível planejar. Às vezes só tenho tempo de reagir. Ela o achou paranoico. Jesus, ele provavelmente estava sendo paranoico, mas tinha o direito de se sentir daquele jeito. Ele sabia quão cruéis aquelas ruas podiam se revelar e, se estivesse pensando de maneira clara, ela também seria capaz de perceber. Mas ele compreendia a preocupação de Haven. A vida que ele levava ainda a assustava. Na verdade, aquela vida também apavorava Carmine, mas a melhor maneira de lidar com tudo aquilo era estar sempre preparado. Além disso, independentemente do que ela dissesse, às vezes era preciso ser duro para sobreviver. Era assim que o jogo se desenrolava. Se não for o predador, acabará se transformando em presa.


– – –

Aliás – ele acrescentou –, pelo que sei, um pouquinho de chuva não será capaz de te matar. Mas se for uma tempestade, os raios poderão fazê-lo.

E acha mesmo que um guarda-chuva iria te proteger nesse caso? – ele perguntou, devolvendo-lhe um de seus próprios argumentos. Ele esperou que ela respondesse, imaginando que teria algo a dizer, mas a garota permaneceu calada, num silêncio tenso, enervante e horrível. – Você confia em mim? – ele perguntou, sabendo que estavam num impasse e que não chegariam a lugar nenhum naquele momento.

– –

Sim.

Então confie em mim em relação a isso, ok? Podemos discutir sobre árvores e ditados e qualquer outra coisa pela qual você se interesse, mas não a esse respeito. Ela suspirou, frustrada, mas ele sabia que aquilo significava que ela estava cedendo ao seu pedido.

Muito bem, mas eu escolho aonde vamos esta noite. Ele franziu o cenho.

Bem, em relação a isso… Era uma sexta-feira, um dia que se tornara só deles. Os horários de ambos eram bastante conflitantes. Ela frequentava a escola e Carmine seguia as ordens que recebia, mas as sextas-feiras eram a exceção. Era quando os dois conseguiam ficar juntos e fazer as coisas normais que outros casais costumavam fazer, como ir ao cinema e a parques de diversão. Era a única noite da semana em que todo o resto ficava de lado; quando não tinham de pensar sobre o caos em suas vidas e podiam apenas curtir um ao outro. Corrado parecia compreender bem, então geralmente deixava Carmine em paz naquele dia da semana. Todavia, a palavra-chave aqui era “geralmente”. Às vezes ele jogava um balde de água fria nos planos do casal.

– – –

…é que tem um lance marcado para hoje à noite, e todos deverão estar lá. Que tipo de coisa? – ela perguntou, estreitando os olhos.

É só uma pequena reunião – ele respondeu, dando de ombros. – O filho do subchefe da organização vai se casar ou algo assim, então todos irão se reunir no Sicillitas. Em geral, aquele tipo de evento ocorria na casa do Chefão, mas Corrado não era do tipo de pessoa que costumava misturar as coisas. Ele tentava manter a Máfia fora de seu lar, então ocasiões especiais costumavam ser celebradas em estabelecimentos privados. O Sicillitas era um restaurante italiano que pertencia a um dos Capos.

Então você terá que ir? – ela perguntou em voz baixa.


Nós – ele a corrigiu. – Corrado foi bastante claro a esse respeito ao dizer “você e Haven”. Ela franziu a testa. Carmine não a culpava por sentir-se assim, afinal, nem ele queria estar lá, mas Corrado insistia em apresentar um grupo forte e sólido. Ele passara por situações complicadas quando se responsabilizara por ela, algo que, aliás, fizera com que alguns dos homens questionassem seu julgamento. Era crucial para ele que Haven se integrasse aos poucos àquele mundo. Ademais, mesmo que Corrado jamais o admitisse, Carmine tinha quase certeza de que ele gostava de tê-la por perto.

Não ficaremos lá por muito tempo –ele assegurou. – Na primeira chance que tivermos, escaparemos e faremos o que você quiser.

Tudo bem – ela resmungou. Ele a observou enquanto organizava as tintas, se livrava dos papéis sem serventia e reunia seus pertences. Ele se sentia mal por não ajudá-la, mas sabia que acabaria atrapalhando mais que colaborando. Aquele era o santuário dela, e ninguém deve interferir na zona de conforto de outra pessoa. Ela vestiu o casaco e pegou a pintura da árvore antes de se voltar para Carmine.

Está pronta? – ele perguntou. Ela assentiu e sorriu de um jeito suave, mas aquele sentimento não se refletia nos olhos de Haven. Na verdade, eles estavam repletos de medo; a alegria que ele havia lhe proporcionado alguns momentos antes havia se dissipado. Aquilo o fazia sofrer. Ele precisava de uma bebida. Talvez duas. Quem sabe dez. Ele precisava de alguma coisa, qualquer coisa que aplacasse a dor que sentia ao desapontá-la. Carmine a levou para fora do estúdio e ela se sentou no banco de passageiro do Mazda, prendendo o cinto de segurança enquanto ele se sentava ao seu lado. O caminho para casa ocorreu em silêncio. Uma sensação de desconforto e embaraço pairava sobre eles, invadindo a pele de Carmine e o fazendo se contorcer por dentro. Detestava quando as coisas ficavam assim entre o casal, pois nunca sabia o que dizer a ela. Algo do tipo “sinto muito que esteja irritada, tesoro. Não posso evitar o fato de ser um fracassado. Então, acostume-se com isso, pois é bem provável que eu ainda vá desapontá-la bastante” não parecia adequado, embora fosse exatamente assim que Carmine se sentisse. Ela continuou sem dizer uma palavra quando chegaram em casa. Apenas pegou suas coisas e saiu do carro antes que ele sequer desligasse o motor. Ela usou as próprias chaves e desapareceu dentro da casa sem esperar por Carmine, que aguardou um pouco mais e, ao entrar em casa, não a viu em lugar nenhum. Foi direto ao refrigerador e pegou uma garrafa de Grey Goose, removendo a tampa e entornando a bebida. Ele então se apoiou no balcão e continuou bebendo a vodca. Seu peito ainda doía, e o álcool não era capaz de aliviar seu sentimento de culpa. De onde estava, ele ouviu quando o chuveiro foi ligado e então desligado no segundo andar. Em seguida, ouviu os passos dela descendo a escada e tampou a garrafa, guardando-a novamente no congelador. Haven apareceu à sua frente e, naquele momento, o coração dele quase parou de bater. Seus cabelos ainda úmidos estavam levemente ondulados; seus cachos escuros quase se mesclavam ao


preto do vestido. Seus pés descalços sobre o piso de madeira ostentavam as unhas pintadas de vermelho. A pele de seu rosto, a despeito das cicatrizes, não trazia qualquer maquiagem. Simples e ao mesmo tempo linda. Aquela era Haven. A garota olhou para Carmine de um jeito peculiar ao vê-lo ali na cozinha.

O que está fazendo? – ela perguntou, desviando os olhos para o congelador antes de se fixar no rapaz. Ele não a culpava por desconfiar dele, afinal, ela o conhecia muito bem.

Nada. – Não deixava de ser verdade, de certo modo. Ele de fato não estava fazendo nada além de estar de pé ali.

– – –

E o que você estava fazendo? – ela foi mais específica. Nada – ele repetiu, sem a mesma honestidade dessa vez.

Ah, ok – ela murmurou, ainda olhando para Carmine enquanto caminhava na direção da pia. – Vai se trocar antes de sairmos? Ele olhou para as próprias roupas. Estava usando uma gravata, pelo menos, e aquilo parecia bom o suficiente para ele.

Acha que preciso? Ela deu de ombros.

Não acho que Corrado irá gostar dos tênis. Na mesma hora ele olhou para os Nikes.

É, você tem razão – ele disse, afastando-se do balcão. Ele se preparou para sair, mas Haven agarrou seu braço. Ele se virou e a olhou com curiosidade. A moça puxou Carmine em sua direção e ficou na ponta dos pés. Ele congelou e ficou surpreso quando ela repousou seus lábios nos dele. Quando finalmente percebeu o que estava acontecendo e abriu a boca para beijá-la, ela se afastou de um jeito abrupto, afastando-se.

Você estava bebendo. Não havia raiva nem irritação na voz dela. Ela não o estava acusando, apenas relatando um fato. Ele estivera bebendo.

Um pouquinho – ele respondeu. Ela acenou positivamente e se virou para olhar pela janela. Ele ficou ali parado por um instante, mas ela não voltou a falar. O assunto estava encerrado e não havia mais nada a dizer. Ele subiu e foi ao banheiro. Lavou o rosto e olhou para seu reflexo no espelho.


Algumas vezes achava difícil se reconhecer. Círculos escuros e pesados rodeavam seus olhos vermelhos. Sua pele estava seca por conta do clima instável de Chicago. Ele usara um gel para assentar os cabelos naquela manhã, o que tornara o tom dos fios um pouco mais escuro, deixando sua pele ainda mais pálida que o normal. Entrou no quarto e pegou um par de sapatos pretos do armário, sentando-se na beirada da cama para calçá-los. Haven entrou no momento em que ele os calçava e enrugou o nariz.

– – – –

Seus sapatos estão riscados. Ah, isso não importa. Não é como no exército, em que eu precisaria lustrar as botas. Tem certeza?

Sim, tenho certeza – ele respondeu, olhando para o relógio. Já eram quase oito da noite, horário em que Corrado lhe dissera para estar lá. – E você, está pronta? Carmine esperou enquanto ela calçava um par de sapatos de salto alto e ambos pegaram seus casacos antes de saírem. Haven estava quieta ao chegar no carro e continuou calada à medida que se afastavam da casa. Ansioso, ele começou a mexer nos botões do rádio, precisando de alguma distração, mas Haven apenas olhou para ele com o cenho franzido.

O que foi agora? – perguntou Carmine, irritado.

Nada – ela respondeu, enfatizando a palavra. Mas o modo como respondeu já dizia o suficiente: era um “nada” do tipo “seu cuzão, você acha que eu sou tonta? Não acredito que tenha pensado que pudesse me enganar”.

– – – –

Sinto muito. Sente? Sim.

E pelo quê? Ele a encarou, sabendo exatamente o que ela queria ouvir. Ela queria que ele se desculpasse por ter bebido, mas ele não podia fazer isso.

– –

Sinto muito por desapontá-la – ele disse. – Eu detesto aquela merda.

Eu sei – ela respondeu, estendendo a mão e dando um beliscão no rosto dele antes de deslizar os dedos pelos cabelos até a linha do pescoço. Os dedos dela ficaram presos por causa do gel e ela fez uma careta. – O que eu detesto é quando você usa essa coisa nos cabelos.


Ele olhou para o retrovisor. Corrado preferia que ele mantivesse os cabelos bem curtos, mas ele não gostava.

Acho que fico meio que parecendo com o meu p… Carmine segurou firme no volante, sem conseguir terminar a frase. Quatro meses haviam se passado… Cerca de dezesseis semanas… Cento e poucos dias… Mas a ferida ainda estava aberta como se tudo tivesse ocorrido naquela mesma noite. Ele ainda via aquela cena quando fechava os olhos, revivendo o instante em que seu pai respirara pela última vez. Às vezes, aquela sensação era tão forte que ele mal conseguia respirar, tamanha era a dor que sentia. Era como se tivesse levado todos aqueles tiros. Haven massageou o pescoço de Carmine enquanto se concentrava na estrada, tentando ajudá-lo a recobrar o controle.

Então, já que alguém está se casando, isso significa que posso escolher o que quiser? – ela perguntou de um jeito casual, distraindo-o de seus pensamentos. Ele franziu o cenho.

– –

O quê?

Não é verdade que quando alguém se casa na famiglia pode-se pedir qualquer coisa ao Chefão e ele não poderá recusar? Levou um tempo até que ele registrasse o que ela lhe dissera, então começou a rir.

Você anda assistindo a O poderoso chefão? Ela ficou corada.

– –

Não.

Bem, de qualquer modo, isso não é verdade – ele respondeu negando. – Dizem por aí que no dia do casamento da filha do Chefão ele não recusará nenhum favor a ninguém, mas isso é papofurado.

– –

Ah – ela murmurou.

Mas o que você pediria, se fosse ocaso? – ele perguntou com curiosidade. – Se pudesse ter um desejo realizado, o que pediria?

– –

Não sei. E você?

Estou feliz – ele respondeu. – Não há nada que eu precise além disso. Haven olhou para Carmine sem acreditar.

Há algo que alguém poderia dar a você. E, na verdade, seria exatamente o que eu iria pedir.


– –

E o que seria?

Sua liberdade. Carmine não sabia muito bem como responder.

– –

Bem, é uma pena que as coisas não funcionem desse jeito.

É, é uma pena mesmo. Em poucos minutos, os dois chegaram ao restaurante. Eles entraram, e Carmine imediatamente localizou o tio, sentado a uma mesa do fundo ao lado de Celia. Havia muitos homens ao redor deles, formando uma espécie de barreira humana, mas Celia também conseguiu vê-los no meio da multidão. Ela acenou e atraiu a atenção de Corrado. Ele os observou quando se aproximaram com a expressão vazia, mas Carmine podia perceber a irritação em seus olhos.

Saiam – ele disse aos dois homens que estavam sentados à sua frente. Eles se levantaram e afastaram suas cadeiras, liberando-as para o casal. Corrado fez então um movimento com a mão. – Sentem-se. Haven imediatamente se sentou na primeira cadeira vazia e olhou de modo apreensivo para Carmine. Ele sorriu para ela, tentando tranquilizá-la, mas a verdade é que ele próprio estava tenso.

– – – – –

Está atrasado – disse Corrado, olhando para Carmine de onde estava. Carmine olhou para o relógio: 20h05. Acho que estou atrasado. Você acha que está atrasado? Sim – ele respondeu. – Tentei chegar na hora, mas…

Mas nada – disse Corrado com a voz afiada. Carmine fechou a boca enquanto algumas pessoas se voltaram para ele. – Não há desculpas para impontualidade. – Eu sei, só estava dizendo que…

Sei o que estava dizendo, Carmine –Corrado voltou a interrompê-lo. – E eu estou dizendo que não há desculpas.

– –

Sim, e eu…

Ele sente muito por isso – disse Haven de repente. Corrado a encarou com uma expressão indefinida.

Ele sente?


Ela acenou de um jeito hesitante.

– –

Sim, senhor.

Bem, pelo menos isso, não é? O clima ficou tenso, pois Corrado continuou a encará-los. Haven não parava de mexer com as mãos, o que deixava Carmine ainda mais nervoso. Depois de um momento, Celia soltou um suspiro e acenou negativamente com a cabeça, virando-se para o marido.

Bem, se já terminou de mostrar que é o mandachuva, eu gostaria de comer. Corrado parou de olhar para Carmine e se voltou para a esposa.

– –

Não estou mostrando quem é o mandachuva.

Está sim – ela retrucou. – Você é um grande chato. Age como se ele tivesse ignorado o horário marcado. Foram apenas alguns minutos e isso não causou nenhum problema.

Desta vez – disse Corrado. – Pode não representar nada neste momento, mas cinco minutos podem fazer a diferença entre a vida e a morte em outras circunstâncias.

Sim, em outras circunstâncias, o que significa que isso não se aplica neste caso. Portanto, pare de pegar no pé do menino.

– – – – –

Ele não é um menino, Celia – retrucou Corrado, com a expressão mais séria. Sim, ele é – ela argumentou. – Ele é meu sobrinho. Ele é meu soldato. Mas já era meu sobrinho antes disso.

Não importa. Ele sempre será meu. Carmine congelou ao ouvir aquelas palavras da boca do tio. O jovem sentiu um frio na boca do estômago. Ele já havia presenciado muitas conversas ridículas em sua vida, mas vê-los discutir a respeito da vida dele era surreal. Celia empurrou a cadeira e ficou de pé.

Vou ao banheiro. Corrado acenou com a cabeça quando a esposa saiu e o subchefe, que estava sentado à sua esquerda, deu-lhe um tapinha nas costas.

Ah, chi non ha moglie non ha padrone.


Carmine fez uma careta ao ouvir aquelas palavras e Corrado sorriu, mas de um jeito forçado. Ele estava furioso pelo fato de Celia tê-lo desafiado na frente de seus homens. Ele esticou a mão e pegou o copo à sua frente, bebendo um gole no momento em que Haven se virou para Carmine.

O que foi que aquele homem disse? –ela sussurrou, tentando ser discreta, mas Corrado escutou o que ela disse. Colocando o copo na mesa, ele respondeu antes que Carmine tivesse a chance de fazê-lo:

Ele disse que um homem sem esposa é um homem sem um mestre. Ela ficou nervosa.

– –

Ah…

Esqueci que não fala italiano – ele disse. – Já pensou em aprender o idioma? A jovem ficou pálida ao se tornar o centro das atenções. A maioria das pessoas na organização já sabia que ela era uma Principessa, embora muitos jamais tivessem se aproximado dela. Era natural que estivessem intrigados. Carmine compreendia aquela curiosidade, mas isso não o deixava menos irritado.

– –

Ah, sim – ela respondeu. – Já aprendi um pouquinho.

Com Carmine? Ela olhou para o lado e ele se sentiu mal, vendo o pânico nos olhos dela. Ela estava se esforçando ao máximo para se manter calma pelo menos superficialmente, mas ele era capaz de ver que estava se sentindo péssima por dentro.

– –

Sim, ele me ensinou um pouco.

Então presumo que já conheça vários palavrões – disse Corrado. Ela assentiu.

– –

É, mas já aprendi outras coisas também.

Por exemplo…? Ela olhou para Carmine novamente, como se esperasse que ele a ajudasse, mas ele não podia. Mesmo que tentasse, Corrado o interromperia. Então, depois de perceber que estava por conta própria, ela se virou para Corrado e, ainda com as mãos nervosas sob a mesa, respondeu:

– – –

Como ti amo e sempre. E o que mais?

E ciao, buongiorno, grazie, prego – a pronúncia da jovem era perfeita. Eram frases simples, e bem melhor que nada. – Ah, e também vaffanculo?


Todos imediatamente olharam para ela ao ouvir aquilo, e o silêncio tornou-se ainda mais embaraçoso. Depois do que pareceu uma eternidade, a expressão de Corrado suavizou e um sorriso surgiu no canto de sua boca. Ele deu risadas, de um jeito bastante genuíno. – Isso é um palavrão.

– –

Ops… – ela respondeu, enrubescendo. – É que Carmine fala isso todo o tempo.

O que não me surpreende nem um pouco. Todos se sentiram mais relaxados e começaram a conversar em voz baixa. A própria atitude do Chefe influenciou a todos. A tensão se dissipou e Haven começou a se soltar, sentindo-se mais aliviada. Celia retornou e ela e Corrado também se mostraram mais relaxados, sussurrando palavras entre si. Carmine os observou, percebendo a química que havia entre os dois. Apesar de tudo, de todas as dificuldades, da violência e também das merdas que tinham de enfrentar diariamente, às vezes eles conseguiam viver uma vida normal e sentir-se felizes juntos. Os dois se amavam e era justamente aquele amor que permitia que eles superassem tudo. Enquanto houvesse amor, nada poderia separá-los. Carmine olhou para Haven, pegando sua mão debaixo da mesa. Ele a apertou com seus dedos e ela sorriu de um jeito suave, olhando de volta para ele. O rapaz percebeu o mesmo tipo de amor nos olhos dela, aquele que é praticamente inquebrável. O lugar estava repleto de comida, bebidas, conversas e risadas. O tempo passou rapidamente e, para sua própria surpresa, Carmine percebeu que de fato estava se divertindo. Um sorriso se mantinha constante nos lábios de Haven enquanto ela conversava com todos, sem parecer nervosa ao lado de gente como ele. Gente como ele. Ele detestava dizer aquilo, mas era a pura verdade. La Cosa Nostra era sua família. E, como no caso de uma família verdadeiramente disfuncional, ele a odiava na maior parte do tempo. Ele olhou ao seu redor e viu todos os tipos de pessoas que jantavam ali. Havia casais e famílias, amigos e parceiros de negócios. Todos pareciam felizes e relaxados, indiferentes ao perigo que se concentrava naquele lugar. Era estranho para Carmine o fato de ninguém se mostrar desconfortável com a presença da Máfia entre eles; era como se todos ali se mantivessem alheios à violência e ao sofrimento. Pareciam desconhecer o fato de eles próprios, suas esposas e seus filhos estarem respirando o mesmo ar que criminosos frios, impiedosos e calculistas. Bem, pelo menos era o que a maioria deixava transparecer. Então, seus olhos se fixaram num homem sentado sozinho num canto. A atenção dele se concentrava nas mesas próximas. Os olhos dele se cruzaram com os de Carmine depois de um instante e, mesmo o sujeito estando do outro lado do recinto, o jovem conseguiu sentir a frieza em sua expressão. Com certeza não se tratava de um rosto amigável. Carmine mediu-o da cabeça aos pés antes de o homem se levantar, atirar algum dinheiro sobre a mesa que ocupava e sair. A noite prosseguiu, com muita comida e bebida. Com o tempo, a multidão começou a diminuir e, com ela, qualquer pensamento relacionado ao sujeito esquisito.

Vocês desejam mais alguma coisa? –perguntou uma garçonete que se aproximou da mesa em que estavam. Eram quase dez da noite. Corrado e Celia estavam a alguns metros de distância, conversando com os noivos.


Haven negou com a cabeça e continuou se deliciando com a sobremesa em seu prato. Carmine, em contrapartida, ergueu seu copo para mostrar que estava vazio. A jovem se afastou sem dizer uma palavra e logo em seguida retornou com outra vodca com Coca-Cola. O rapaz pegou o copo, agradeceu e a funcionária seguiu para outra mesa. Haven baixou o garfo e olhou para a direção de Carmine. Seus olhos, entretanto, estavam fixos no casal de noivos.

– – –

Você sabe como eles se conheceram? É um casamento arranjado – ele respondeu.

Um casamento arranjado? Isso acontece? Ele deu de ombros e assentiu. Na verdade, ele não sabia exatamente como responder ou explicar a situação.

Eles se conhecem desde crianças. Eles foram apenas… reunidos, eu acho. Não sei se isso faz algum sentido, mas é como a maioria deles age. Eles se unem a outras pessoas cujo estilo de vida é igual ao deles. Assim tudo fica mais fácil. Haven ficou perplexa por um instante antes que a ficha caísse.

Como Michael e Katrina, por exemplo. Ele confirmou.

E os pais deles. A maioria das pessoas aqui fez exatamente isso. Eles não gostam de pessoas de fora do círculo. Meu pai quebrou esse protocolo.

– – – – – –

E você também – ela retrucou. Não sei, tesoro, afinal você é uma de nós. Mas você não sabia disso, e eu definitivamente não fazia parte do seu “círculo”. É verdade. Você teria feito isso? – ela perguntou. Você teria agido como os outros e encontrado alguém para se casar, como todos os

demais?

Não.


– –

Como sabe disso?

Porque não existe mais ninguém para mim – ele respondeu. – Essa gente se importa com linhagem e posições hierárquicas, com poder e merdas desse tipo, mas nada disso faz sentido para mim. Nunca iria atrás de uma mulher pelo fato de ela ser filha desse ou daquele. É bem provável que eu a detestasse. E caso não tenha notado, a maioria das mulheres nessa vida é mimada; umas vacas irritadiças que acham que todos sempre devem alguma coisa a elas. E me recuso a aceitar o fato de dever algo a alguém… Exceto a você, talvez. Portanto, a resposta definitivamente é não, obrigado. Haven abanou a cabeça.

– –

Então quer dizer que ficaria sozinho?

Se fosse para me sentir péssimo de qualquer maneira, sim, eu preferiria ser um miserável solitário – ele respondeu. – Mas por que você está perguntando isso?

Só estava pensando sobre tudo isso –ela disse, ainda observando o casal. – Acha que aqueles dois se amam, pelo menos?

É possível – respondeu Carmine. –Às vezes o que eles sentem é real. Sei que Celia, por exemplo, jamais ficaria com Corrado se não o amasse, então é possível que aqueles dois se casem e sejam felizes também.

– – –

Mas você não acha que teria ao menos tentado? As perguntas dela o deixaram confuso. Não sei.

Não acha que é importante ter alguém por perto? Alguém que o compreenda? Antes mesmo que ele tivesse a chance de pensar em como responder àquilo, Corrado e Celia se aproximaram deles. Celia se sentou, e Corrado parou ao lado de Carmine, encarando-o desconfiado.

Quantos copos já bebeu? O jovem hesitou, olhando para o copo pela metade.

– –

Bem…

O fato de ter de pensar sobre isso já é suficiente para que eu saiba a resposta – retrucou Corrado, esticando a mão. – Suas chaves. O coração de Carmine acelerou ao olhar para a expressão séria do tio. Ele enfiou a mão no bolso, pegou as chaves do Mazda e observou enquanto Corrado as arrancava de sua mão.


Tome – ele disse, atirando-as para Haven. – Certifique-se de que ele chegue em casa em

segurança.

– –

Sim, senhor – ela disse em voz baixa.

E lá vai você bancando o mandachuva de novo – comentou Celia. Corrado soltou um risinho amargo.

Bem, ele ainda não tem uma esposa, então sou o único mestre que ele tem no momento. Carmine se controlou para não revirar os olhos e pegou novamente o copo quando Corrado foi chamado em outra mesa. Depois de entornar o copo, o jovem se voltou para Haven.

Está pronta para ir, tesoro? Eu já tive minha cota de família por hoje – ele disse, olhando para a tia Celia e completando – Sem ofensa, é claro.

Você não me ofendeu – respondeu Celia. – Vão se divertir. Haven levantou-se e sorriu, então ambos caminharam na direção da porta. Eles haviam quase escapado na surdina, quando Corrado os viu e chamou Carmine:

Mantenha-se disponível, para o caso de eu precisar de você. Ah, e da próxima vez, use sapatos mais limpos. Será que é muito difícil lustrá-los de vez em quando? Leva mais que cinco minutos?

Ah, claro – ele murmurou. – Não me dei conta. Haven o olhou com um jeito convencido, mas sua expressão mudou rapidamente quando Corrado se dirigiu a ela.

Haven? A jovem ficou tensa.

– –

Sim, senhor?

Você se saiu bem esta noite – ele disse. – Foi um prazer tê-la aqui conosco. Os olhos dela se iluminaram.

Obrigada, senhor. Fiquei feliz pelo convite. Carmine agarrou a mão de Haven e a puxou, querendo fugir dali antes que Corrado decidisse que tinha algo mais a dizer.

Você disse a verdade? – perguntou Carmine enquanto os dois caminhavam pelo estacionamento. – Ficou mesmo feliz por ter sido convidada?


– –

Sim – ela respondeu. – Na verdade, todos me pareceram muito… legais.

Com certeza. São os filhos da puta mais legais que conheço, tesoro. São como o arco-íris e o brilho do sol. Ela riu e deu uma leve cotovelada em Carmine.

Sabe o que quero dizer. Nenhum deles foi frio comigo, como achei que seriam uma vez que sou uma … Quero dizer, que eu fui…

Eles não são estúpidos – ele interrompeu, apertando a mão da jovem. – Corrado os teria matado se a desrespeitassem. Ela pareceu surpresa e parou ao lado do carro.

– –

Acha que ele faria mesmo isso?

Claro que faria – retrucou. – Corrado não tem filhos, portanto, você é o mais próximo que ele tem de uma filha. Os olhos dela se arregalaram.

– –

Eu?

Ele se comprometeu por você. Na cabeça dessa gente, ele deu vida a você. Digo, caramba, Haven. Ele exigiu sua presença esta noite, mesmo sabendo que você preferiria estar em outro lugar. Ele só costuma torturar sua própria família desse jeito. E agora você faz parte dela, querendo ou não.

– –

Acho que quero – ela disse em voz baixa. – Quero dizer, eu gosto da ideia.

Que bom. Agora vamos dar o fora daqui – disse Carmine, estendendo a mão. – As chaves? Haven deu um sorrisinho seco, segurando-as com firmeza.

Acho que não. Eu dirijo – ela retrucou com uma piscadela ao caminhar até o lado do motorista. Carmine resmungou um pouquinho, fingindo estar irritado, embora não se importasse que ela dirigisse. Ele confiava plenamente em Haven. Sempre confiara e sempre confiaria. Ela ligou o carro e ele prendeu o cinto de segurança, já sabendo que ela não sairia dali antes que ele o fizesse. A jovem ajustou os espelhos e alterou a posição do assento para que pudesse alcançar os pedais. Carmine se controlou para não dizer nada, recusando-se a se irritar por coisas tão banais. Há apenas alguns anos ele teria surtado, mas a ideia de perdê-la novamente dava ao jovem uma nova perspectiva. A posição do assento poderia ser reajustada, assim como os espelhos. O carro todo podia ser substituído, aliás, mas ela era a única mulher de sua vida.


Carmine olhou para os lados enquanto ela se ajeitava e identificou um vulto perambulando pelo estacionamento. Ele estreitou os olhos ao lembrar-se de alguma coisa e reconheceu o sujeito. Era o mesmo que estava sentado no canto do restaurante e que saíra de lá pelo menos uma hora antes. Embora mantivesse a cabeça abaixada ao caminhar entre os carros, Carmine não tinha a menor dúvida de que se tratava do mesmo homem. De repente, o sujeito entrou num Chevy Camaro escuro e passou por eles. Carmine avaliou rapidamente o automóvel, conseguindo identificar que a placa era de Illinois. No entanto, tudo o que conseguiu vir além disso foram as duas primeiras letras: JK.

Conhece aquele cara? – perguntou Haven, percebendo que ele o estava observando. Carmine deu de ombros.

Não. Mas o carro é bem legal. O trajeto de volta até a casa foi bem diferente do caminho de ida. Haven se manteve dentro do limite de velocidade (se é que chegou até o limite), enquanto ele se recostava no banco do passageiro, sentindo o álcool em seu sistema. Haven pediu licença por um minuto enquanto Carmine trancava tudo e acionava o alarme das portas e janelas. Ele caminhou até a cozinha, guardou sua arma no gabinete superior e pegou a garrafa de Grey Goose no freezer. Encostando-se mais uma vez no balcão, tomou um gole e fechou os olhos, saboreando a queimação na garganta. Um minuto depois, ouviu Haven se aproximar e abriu os olhos, deparando-se com ela à porta do cômodo. – O que você gostaria de fazer, tesoro? Ela não disse nada, apenas caminhou em sua direção depois de já ter se livrado dos sapatos no meio do caminho. Ele tomou mais um trago, e ela parou, pegou a garrafa da mão do rapaz e, depois de hesitar por um instante, deliberadamente levou o vasilhame até os lábios e o entornou. A garota fez uma careta quando a bebida alcançou sua boca. Pelo olhar em seu rosto, engolir aquilo foi bastante doloroso. Esticando a mão por trás de Carmine, ela despejou o conteúdo da garrafa dentro da pia, bem devagar, mantendo os olhos fixos no rapaz o tempo todo. Carmine se sentiu em pânico por um segundo. Sentiu-se congelado e o estômago foi parar na boca enquanto ouvia a bebida escorrendo pelo ralo da pia. Mesmo assim, se controlou, recusando-se a perder o controle. Ele poderia tê-la impedido… se precisasse. Mas aquilo não era o fim do mundo. Havia coisas mais importantes na vida e ele não precisava de vodca para seguir adiante. Aquele pensamento passou por sua cabeça e ele desejava muito acreditar naquilo. Haven então agarrou a gravata do namorado e o nó começou a se soltar. Ele não impôs qualquer resistência, tampouco se fez de difícil quando ela o puxou para fora da cozinha e o levou em direção à escada. No fim, ela o soltou, mas, de modo obediente, o namorado continuou a segui-la, sem dizer uma única palavra. Seus pés pesavam como se estivessem presos em blocos de concreto; ele estava exausto, física e mentalmente, mas só pensava em atender aos desejos dela. Ele fechou a porta do quarto assim que entraram. O som do clique da maçaneta ecoou em meio ao silêncio que pairava no ar. Olhou-a, observando-a através do brilho do luar que passava pela janela. Ela abriu o zíper e deixou que o vestido caísse no chão. A pressão que ele trazia no peito, assim como a queimação que afeta os viciados, diminuíram um pouco quando ela se virou e o olhou.


– – –

Lembra-se da primeira vez em que fizemos amor? – ela perguntou em voz baixa. É claro que me lembro.

Naquele dia, você me admirou e me valorizou – ela disse. – Na verdade, pensando bem, você sempre me admirou e me cultuou. Sempre foi tão atencioso e fez eu me sentir amada, mas nunca tive a chance de fazer o mesmo por você. Digo que amo você o tempo todo, e de fato… Eu te amo… Eu te amo tanto, Carmine… Mas acho que nunca mostro a você o suficiente.

Mas você… Ela ergueu a mão para silenciá-lo antes que o rapaz fizesse qualquer objeção.

Apenas cale-se, ok? Por que sempre tem que dizer alguma coisa? Ele entortou uma sobrancelha ao olhá-la, e um riso de surpresa escapou de seus lábios no momento em que sinalizou para que ela prosseguisse. Ela parecia bem ousada.

Nunca demonstro a você o suficiente– ela repetiu. – Você faz tanto por mim, enfrenta tantas coisas na vida e precisa receber amor também. Você merece ser admirado e cultuado. Carmine permaneceu na frente da porta, sem se arriscar a mover um único músculo. Ele prendeu a respiração quando Haven terminou de se despir diante dele, ficando completamente nua. Ele a olhou da cabeça aos pés, saboreando cada milímetro de sua estrutura pequena e percorrendo cada uma de suas curvas suaves. As cicatrizes brilhavam sob a luz da lua, formando padrões intrincados que escondiam inúmeras histórias, algumas das quais somente ele conhecia. Aqueles eram segredos que ela havia lhe contado e que o jovem levaria consigo para o túmulo, independentemente de quando acontecesse. Ela deu um passo à frente, pegando novamente na gravata e, dessa vez, desfazendo o nó e atirando-a para o lado. De um jeito lento e cuidadoso, desabotoou a camisa dele, que continuou imóvel, lutando com todas as forças para não estender a mão e acariciar a pele da namorada. Haven tirou a camisa do rapaz e deslizou seus dedos pelo abdome antes de alcançar o cinto da calça, sem jamais desviar o olhar. Ele lambeu os lábios e sua boca de repente ficou seca. Os músculos de seu corpo se tornaram cada vez mais rígidos. O coração do garoto batia de um jeito acelerado enquanto suas calças caíam ao chão e ela delicadamente abaixava a cueca até seus tornozelos. Ele sentiu um frio na espinha e estremeceu ao sentir a força da ereção. Seu pau se ergueu e enrijeceu mais do que em qualquer outra ocasião. – Caralho – ele sussurrou, recostando-se contra a porta no momento em que Haven se colocou de joelhos. Numa enorme demonstração de carinho, ela abriu a boca e envolveu o órgão de Carmine, aquecendo-o enquanto o resto do corpo nu do rapaz se arrepiava por completo. – Ah… Meu Deus. Ele sabia que não conseguiria resistir por muito tempo, não seria capaz mesmo que quisesse. À medida que ela o chupava, escorregava sua língua pelo pau rígido, movimentando o órgão com firmeza, ele sentia a pressão se acumular em suas entranhas. Ele queria poder avisá-la, mas as palavras simplesmente não vinham. Tudo o que conseguiu fazer foi suplicar e sentir a forte explosão no momento em que segurou firme a cabeça dela e ejaculou em sua garganta.


Então, depois que terminou, ela se ergueu e continuou massageando o membro, que mais uma vez se enrijeceu e cresceu em suas mãos. Ela beijou o peito dele e em seguida alcançou seu pescoço, que respondeu inclinando-se na direção dela e capturando seus lábios. O restante das roupas que ele usava foram descartadas no chão antes que a moça o puxasse para a cama e o fizesse deitar. Ela não hesitou nem por um instante, apenas escalou seu corpo e se sentou sobre ele, que a preencheu de maneira profunda e por completo. Seus corpos se uniram num só, e a sensação era ao mesmo tempo inebriante e deliciosamente sufocante. Ele manteve as pernas afastadas, observando os movimentos dela e saboreando a paixão que irradiava do corpo da jovem. Conseguia sentir toda a devoção de Haven, assim como todo o desespero e todo o desejo que ela abrigava; ele era capaz de gozar com sua necessidade, sua lascívia e seu amor. Era possível perceber tudo aquilo em cada movimento de seus lábios, na dinâmica de seus corpos que se moviam na mais plena sintonia, enquanto ele enterrava seu pau o mais fundo que podia. Concentrava-se na voz dela, em seus gemidos profundos, nas repetidas vezes em que pronunciava seu nome de um jeito rouco, até que o orgasmo a fizesse estremecer. O fato é que a cada suspiro ela o deixava mais enlouquecido; cada golpe o levava mais ao limite. Ele queria desesperadamente poder virá-la de costas para a cama e penetrá-la, com força, com fome, deliciando-se a cada milímetro conquistado e reclamando para si mesmo a posse daquele corpo. Mas não fez isso. Ele não podia. Mais tarde haveria tempo suficiente para aquilo. Agora era o momento dela. Tudo o que ele tinha de fazer era obedecer às regras que ela impusera naquele jogo. E aquele era um jogo no qual ele se sentia exultante em disputar. As sensações que se formavam dentro dele provocaram algo especial, uma euforia vagamente familiar; o prazer de todos os prazeres se infiltrava em cada uma de suas células, tomando todo o seu corpo até que ele se sentisse flutuando no ar. E dessa vez tudo aquilo aconteceu sem qualquer dependência em relação àquela merda chamada Molly.

Capítulo 45 Enquanto a noite prosseguia, ambos permaneceram deitados lado a lado na cama. A cabeça de Haven estava apoiada no peito nu de Carmine. Os cabelos da moça estavam despenteados e formavam nós. Carmine afagava as costas dela enquanto os dedos da jovem exploravam a trilha de pelos que descia abaixo do umbigo do namorado. – Eu te amo – ela suspirou. – Você é a melhor coisa que já aconteceu para mim. A melhor coisa que já acontecera para ela. Aquilo fez Carmine se sentir exatamente o oposto do que vinha se sentindo, quando via a si mesmo como um desgraçado. A convicção nas palavras de Haven fez com que ele realmente quisesse acreditar naquilo, mesmo achando que ela merecia mais para sua vida, talvez, apenas talvez, ele fosse o suficiente para aquela jovem.


Ela caiu no sono antes mesmo que ele encontrasse as palavras certas para compartilhar aquele sentimento. Em segundos, o quarto silencioso foi tomado pelo ressonar suave da garota. Carmine ficou ali, abraçando-a com carinho. Entretanto, apesar de sua exaustão. o rapaz não conseguia pregar os olhos. Sua mente parecia trabalhar a trezentos quilômetros por segundo; uma sensação estranha insistia em permanecer, e não conseguia se livrar daquilo, que invadiu seu corpo, incomodando e alfinetando-lhe a pele. Carmine estava no limite. Estava em alerta e qualquer barulho intensificava ainda mais sua paranoia. Algo estava errado e ele podia sentir. Com cuidado para não acordar a namorada, ele tirou o braço que estava sob o corpo dela e lentamente saiu da cama, dirigindo-se em silêncio à janela do quarto. Em seguida, deslizou algumas faixas da persiana e olhou para fora. Já eram quase três horas da manhã. O céu estava muito escuro e a cidade, tranquila. Mesmo assim observou a rua, em busca de qualquer sinal de problema, ficando tenso ao pousar os olhos sobre um carro estacionado na frente de sua casa. Tratava-se de um Chevy Camaro escuro, vagamente familiar. O rapaz se afastou da janela e olhou para Haven brevemente antes de sair do quarto. O instinto assumiu o controle e cada um de seus movimentos tornou-se calmo e calculado. Ele vestiu suas calças, desceu as escadas, pegou sua arma e saiu pela porta dos fundos, dando a volta pelo lado e alcançando o Camaro por trás, olhando para a placa. No instante em que viu as letras JK, sentiu a adrenalina fluir em seu corpo. Mantendo-se protegido pelas sombras, observou o carro por alguns instantes. O sujeito estava sozinho no banco do motorista e, estranhamente, não estava concentrado na casa de Carmine, mas cada vez que um par de faróis brilhava no final da rua, ele observava com olhos de falcão até que o veículo passasse. Estava à espera de alguma coisa, mas Carmine não sabia exatamente do quê, até que os faróis de um automóvel surgiram no começo da rua. O homem se abaixou quando a Mercedes preta cruzou ao seu lado e estacionou no quarteirão seguinte. Corrado. Carmine não tinha certeza do que deveria fazer, dividido entre reagir e alertar Corrado, mas não teve muito tempo para pesar as opções. O motorista abriu a porta do carro e desembarcou, mantendo a cabeça baixa e caminhando rumo ao próximo quarteirão. Sem pensar duas vezes, Carmine o seguiu, evitando a luz dos postes de energia e mantendo-se o mais próximo possível. O sujeito diminuiu o passo ao chegar à casa de Corrado e parou para avaliar a melhor maneira de invadi-la. A luz da sala estava acesa. Carmine podia ver sombras se movendo do lado de dentro, e também ouvia os risos de Celia que saíam por uma janela semiaberta. O homem se abaixou ao lado da casa e Carmine hesitou, respirando fundo e pegando sua arma antes de seguir na direção dele. O sujeito havia quase chegado ao jardim de trás quando ouviu os passos do garoto. Ele se virou surpreso, mas já era tarde para reagir. Carmine o empurrou para a lateral da casa, e pressionou a arma contra a têmpora do homem.

Se fizer um movimento, estouro sua cabeça. Ele xingou e acenou negativamente com a cabeça enquanto Carmine o revistava, retirando tudo de dentro dos bolsos do sujeito. Encontrou uma arma em seu casaco e se certificou de que o pino de segurança estivesse ativado antes de enfiá-la na cintura. Pegando a carteira do homem, Carmine a abriu e olhou para a carteira de motorista.


– – –

Oisin Quinn. Que raio de nome é esse? Não me machuque – implorou o sujeito. – Não estou procurando encrenca.

O caralho que não está – retrucou Carmine. – Ninguém perambula por este bairro com uma arma se não estiver à procura de encrenca.

– – – –

Juro que é apenas um engano! O que é um engano? Isso!

E o que diabos é isso? – perguntou Carmine, puxando-o da parede e o empurrando na direção do jardim na parte de trás. O homem tropeçou mas conseguiu se equilibrar e, depois de hesitar por um segundo, saiu correndo pelo quintal. Por um milésimo de segundo, Carmine ficou paralisado, sem acreditar naquilo. Ele havia acabado de tirar a mão do sujeito, que conseguiu escapar. Quão estúpido ele deveria ser? A adrenalina fluiu pelo corpo do rapaz e ele apontou a arma. Entretanto, preferiu correr atrás do sujeito e conseguiu apanhá-lo, atirando-o no gramado pouco antes da cerca. Em pânico, o sujeito se debateu e tentou lutar com Carmine, dando-lhe um soco no lado direito da mandíbula. O rapaz sentiu a dor, que o deixou no limite. Tudo bem, se o sujeito queria brigar, era exatamente isso o que Carmine faria. Ergueu o braço que segurava a arma e deu um golpe no rosto do homem, descontando por meio daquela pancada toda uma existência de agressividade, desapontamento, ódio, vergonha e coração partido. Carmine não o conhecia, mas não importava, pois, naquele momento, toda a dor que sentia presa no peito escoou de uma só vez ao espanca-lo. Depois que o homem já estava imóvel, Carmine o levantou e o empurrou pelo jardim, forçando-o a ficar de joelhos diante da porta dos fundos de Corrado.

Fique parado, seu filho da puta – ordenou o garoto, dando-lhe um chute na lateral do corpo por mera frustração. Sua mandíbula doía. O jovem mal conseguia respirar e havia sangue em suas mãos.

Fico feliz que tenha decidido não atirar nele. Aquela voz pegou Carmine de surpresa. Ele olhou para cima e deparou com Corrado de pé à porta, imóvel enquanto assistia ao embate.

– –

Mas que porra? Há quanto tempo estava aí? O bastante.


E não podia ter me ajudado? – retrucou o rapaz, irritado pelo fato de Corrado ter apenas observado toda a ação.

Você parecia ter tudo sob controle –ele disse. – Além disso, foi bem divertido observar. Carmine o encarou.

– – –

Divertido? Não há nada de divertido nisso tudo! Discordo.

Bem, você está errado – retrucou Carmine, levando a mão à cintura em busca da arma do sujeito. O jovem voltou a xingar ao perceber que ela já não estava ali e olhou ao redor, percebendo que havia caído durante a luta. Ele a pegou e ergueu para que Corrado a visse. – Ele podia ter me matado. Corrado soltou um riso seco.

– – – –

Está exagerando. Você o controlou todo o tempo, sem nenhum problema. Você não podia ter certeza de que isso aconteceria. Sim, eu podia. Ele não fez o dever de casa se estacionou o carro na frente da sua casa.

Como sabe…? – Carmine parou, estreitando os olhos no momento em que a ficha caiu. – Espere, você sabia que ele estava lá?

Claro que sabia – respondeu Corrado. – Ele não foi nem um pouquinho discreto, Carmine. Até você reparou nele. – Puta que pariu – resmungou, irritado. – Então eu fiz tudo isso por nada?

Eu não diria que tenha sido por nada– respondeu Corrado, sorrindo e se divertindo. – Como eu já disse, foi bem divertido assistir. Carmine acenou negativamente com a cabeça enquanto o sujeito ainda estava de joelhos ali, chorando com a cabeça baixa.

– –

Mas, afinal, quem é esse tal de Oisin Quinn?

Então é esse o nome dele? – perguntou Corrado ao pegar nas mãos a carteira de motorista do homem. – Imagino que tenha sido enviado pelos irlandeses. Estou correto? O sujeito choramingou.

Por favor! Eu sinto muito, só… Por favor!


– – – –

Não implore – retrucou Corrado. –Apenas me diga quem o mandou aqui. Eu não sei – ele disse. – Eles me pagaram. Quem pagou?

Um cara. Ele disse que seria muito fácil! Corrado agachou ao lado do homem e o segurou pelo ombro. Carmine já conseguia identificar sinais de fúria no tio e deu um passo para trás. Uma coisa que Corrado detestava era ser subestimado.

– –

Sabe quem eu sou?

Sim. Bem, não. Digo, eles me deram o seu endereço e disseram onde eu poderia encontrálo esta noite. Eles disseram que seria fácil, só entrar e sair. Carmine acenou negativamente com a cabeça, estupefato diante de tamanha idiotice, embora uma parte dele ainda estivesse no limite.

Eu odeio ser o portador dessa notícia, mas alguém o queria morto – disse Corrado ao sujeito. – Eles sabiam que jamais sairia vivo daqui… de minhas mãos. Não se manda um João Ninguém atrás do Chefe da La Cosa Nostra. Eu o vi no momento em que entrou naquele restaurante. As sobrancelhas de Carmine franziram no momento em que ele começou a pensar no encontro, em busca de qualquer sinal de que Corrado estivesse tenso. Tudo retornou à sua mente até a última frase que lhe fora dita por Corrado.

Seu filho da puta, você sabia que isso iria acontecer! Corrado sorriu levemente, como se sentisse orgulho por tudo aquilo. Estúpido. Em vez de responder à afirmação do sobrinho, simplesmente fez um gesto para que ele fosse embora.

Volte para casa, Carmine. Eu mesmo cuidarei disso. Carmine reclamou consigo mesmo e seguiu as ordens do tio, ouvindo o sujeito gritar enquanto contornava a casa. De repente, o choro foi interrompido por um som curto e abafado, como de uma bombinha que estourasse no chão. Um único tiro com um silenciador, ele pensou naquele instante. Era óbvio que ele não iria voltar para descobrir. Correndo de volta para casa, Carmine torcia para que ninguém o tivesse visto. A casa estava silenciosa e tudo parecia quieto. Entrando na cozinha, lavou as mãos antes de guardar a arma em segurança. A garrafa de vodca vazia ainda estava no balcão, atraindo Carmine. Depois de tudo que acontecera, ele bem que poderia tomar um gole. Você não precisa disso, ele pensou consigo mesmo. Você está vivo. Está com a sua garota e não precisa de mais nada! Ele seguiu para o andar superior e se deparou com a porta do quarto aberta. Na cama só restavam lençóis e cobertores desarrumados. Não havia sinal de Haven em lugar algum. Em silêncio, saiu no corredor e percebeu uma luz fraca vindo de um outro quarto. Ele fez uma pausa na porta e a viu sentada


diante da tela com um pequeno pincel na mão. Haven estava usando a cueca preta de Carmine e uma camiseta branca que sobrava por todos os lados e praticamente a engolia. Ela estava trabalhando na pintura da árvore novamente. A folha de maconha havia desaparecido como que por milagre, escondida sob nuvens pesadas de uma tempestade. Carmine deu alguns passos até ela, sorrindo ao ver aquilo.

– –

Estou surpreso que esteja acordada.

Ah, bem, a empresa de segurança ligou e me acordou – respondeu Haven. – Aparentemente alguém saiu pela porta dos fundos e esqueceu de desativar o alarme. Por sorte, consegui chegar a tempo antes que eles alertassem a polícia.

– –

Mas que merda! – Isso teria sido desastroso. – Por favor, me desculpe.

Tudo bem – ela respondeu. – Eu te dei cobertura. Carmine riu ao ver o jeito como ela falou, com seu tom divertido, mas não tinha dúvidas de que ela estava falando sério. De fato, ela lhe dava cobertura. Em tudo o que precisasse e a qualquer momento ela sempre estaria ali ao lado dele, pronta para fazer o que ele pedisse. Ela não era apenas um sistema de apoio, uma espécie de colete salva-vidas que o protegia na forte corrente de um rio furioso, ela era tudo o que mais importava para ele. Sem ela, Carmine certamente se afogaria. Haven se virou e suas sobrancelhas franziram ao olhar para Carmine.

Mas, afinal, o que é que você estava fazendo lá fora? Você está imundo! O garoto olhou para baixo, reparando na terra e na grama que cobriam seus jeans. Deu de ombros enquanto ela apenas riu, esticando a mão para retirar uma folha dos cabelos despenteados do namorado. Então, percebeu quão maluco parecia diante dela: descalço, sem camisa e coberto de sujeira.

– – –

Eu só tive que cuidar de umas merdas, tesoro. Parece que andou disputando uma partida de futebol.

Digamos que eu me sinta como se estivesse disputando uma partida de futebol – ele murmurou, esfregando sua mandíbula. – Bem, foi isso ou alguém me deu uma surra.

Então é isso o que faz à noite quando desaparece? Vai a um clube de luta clandestino e

secreto?

Não posso lhe dizer, tesoro. Conhece as regras – ele respondeu, rindo. – Mas, de qualquer modo, a pintura está ótima!

É, eu descobri o que estava faltando– ela disse, colocando o pincel no recipiente de água antes de apontar para duas figuras sombreadas sobre os galhos. – Nós. Carmine sorriu, colocando os braços ao redor dela e beijando a nuca da namorada.


Bem, agora está mesmo perfeito. Sei que às vezes é difícil ver o que está bem diante do seu nariz. Eu mesmo já fodi com tudo algumas vezes ao não perceber o que deveria ser óbvio.

– –

Por exemplo…?

Como o que você disse antes, sobre ter alguém ao seu lado que o compreenda – ele respondeu. – Você está certa. Isso é importante. Quando a deixei em Durante, pensei que estivesse vindo para cá para ficar com pessoas iguais a mim, que vivem a mesma vida que eu, mas eu estava errado. Essa gente não entende. Eles não conseguem. Talvez eles saibam de tudo pelo que passei, mas não fazem ideia de como é senti-lo, de como é perder sua mãe para essa vida, de como é ter sua infância roubada, de como é ter que pagar pelos erros dos outros. Eles não compreendem, mas você… Você compreende. Você é a única pessoa que sempre compreendeu. Achei que ficaríamos bem longe um do outro, mas eu estava redondamente enganado. Não preciso de muita coisa, Haven, mas de uma coisa eu tenho certeza: eu preciso de você.

Também preciso de você, sabia? – ela disse. – Você me faz sentir segura. Ele sorriu, beijando o topo da cabeça da jovem. Há uns vinte minutos ele encarara a morte, lidando com um sujeito que provavelmente não hesitaria em matá-lo, e mesmo assim ela ainda se sentia segura ao lado dele. Ela acreditava nele. Ela o amava. E ele a amava… Mais que qualquer outra coisa no mundo. Ela se entregara a ele novamente. Todas as barreiras que havia entre ambos desabaram, todas as perguntas não respondidas, toda a preocupação, tudo se resolvera no momento em que eles ficaram juntos outra vez.

Haven – ele disse. – Se eu pudesse ter qualquer coisa nesse mundo, sei exatamente o que eu pediria agora. Ela se afastou por um instante e o olhou com genuína curiosidade.

E o que seria? Carmine deu um passo para trás, levando a mão atrás do pescoço para puxar a corrente de ouro. Em seguida, abriu o fecho, retirou de lá a pequena aliança e a olhou por um momento na palma de sua mão antes de se ajoelhar diante dela.

Se eu pudesse ter qualquer coisa nesse mundo, seria você como minha esposa. Foi como se todo o ar do quarto fosse instantaneamente sugado. Ela o olhou em choque e o coração dele disparou enquanto esperava que ela dissesse alguma coisa… Qualquer coisa. Depois de um momento, lágrimas haviam se formado nos cantos de seus olhos e uma delas escorreu sobre o rosto da garota. Ele a secou rapidamente no momento em que ela sorriu. Aquela visão o tranquilizou, pois era a única resposta de que precisava.

baixa.

Você não pediria para ter sua liberdade de volta em vez disso? – ela perguntou em voz

Ele negou com a cabeça.


Ela não significaria nada sem você.


Capítulo 46

Isso é completamente desnecessário– resmungou Haven, olhando para fora da janela escura do carro. Os prédios passavam num ritmo regular enquanto eles seguiam pelas ruas de Chicago, o cenário exterior mais parecia uma mancha na escuridão.

O senhor DeMarco discorda, madame – disse educadamente uma voz oriunda do banco

do motorista.

Ah, e me chamar de madame também é totalmente desnecessário – ela completou, olhando para frente e reparando que ele a enxergava pelo retrovisor, com um ar de nervosismo no rosto. Era óbvio que ele era novo no emprego e não queria estragar a primeira chance de se provar eficiente.

Sinto muito, madame – ele respondeu com a voz baixa, evitando o olhar dela. Ela sorriu de um jeito suave ao mirar fora da janela, sem deixar de perceber a ironia de toda aquela situação. Ela estava surpresa com o modo como tudo havia mudado; a vida deles tinha se transformado de uma maneira que jamais teriam imaginado no início. Haven com frequência pensava em tudo o que acontecera para que chegassem àquele ponto, sentindo-se curiosa sobre como as coisas poderiam ter terminado se as circunstâncias tivessem sido diferentes. Ela sabia que não fazia o menor sentido pensar naquilo, já que era impossível alterar o passado, mas para ela era impossível não imaginar. E independentemente do número de vezes que pensasse sobre o assunto, tudo se resumia a um único evento que dera início a tudo aquilo: o assassinato de seus avós. Avós. Ela duvidava que um dia se acostumaria a dizer aquela palavra. Nunca considerara a existência de uma família além de sua mãe. Carmine se ofereceu para explicar o que sabia a respeito, comprometendo-se a ser mais aberto com ela no futuro, mas, no fim, fora Corrado quem lhe dissera toda a verdade. Ele narrou fatos que ouvira sobre o tipo de pessoas que eles haviam sido: uma família forte e cheia de orgulho. Corrado também disse que os avós de Haven ficaram muito felizes com o nascimento da filha. Era assustador ouvir sobre o início da vida de sua mãe e saber o quanto ela havia sido querida… O quanto tinha sido amada.

Madame? – Haven olhou novamente para o motorista e percebeu que ele a estava observando. – Houve um acidente na rodovia 41 que bloqueou o trânsito em direção ao norte. Tive de pegar um desvio, mas só irá demorar alguns minutos a mais. Ela olhou para o relógio, quase sem conseguir ver o horário na escuridão: 22h15. Tudo bem.

– –

Peço desculpas pelo inconveniente. Tudo bem – ela disse. – E, por favor, me chame de Haven.


Ela mais uma vez se voltou para a janela e continuou assim pelo resto do trajeto. O motorista não voltou a falar com ela até que estacionasse a limusine diante de uma enorme casa branca. Ele saiu e olhou para os lados com cautela antes de abrir a porta para a garota, que saiu do automóvel.

– –

Obrigada.

Não há de quê, madame. Ela negou com a cabeça, compreendendo que não fazia sentido corrigi-lo novamente e tirou algum dinheiro da bolsa. Ele tentou recusar a gorjeta, dizendo que era uma honra transportá-la, mas ela revirou os olhos e enfiou o dinheiro no bolso do casaco do homem. A casa estava escura e silenciosa. Não havia ninguém ali. Haven imediatamente chutou os sapatos para o lado assim que entrou e, em seguida, foi até a cozinha. Pegou um copo do armário e o encheu de água. Encostando-se no balcão, ela tomou um gole enquanto seus olhos observavam o cômodo. Havia pedaços de papel toalha sobre o balcão, além de algumas xícaras fora do lugar. Os pratos definitivamente não haviam sido lavados durante o dia. Parte do balcão estava coberto por migalhas de pão e havia também um pote de geleia ao lado da pia. A tampa não estava fixada e uma faca repousava ao lado do recipiente. Algo grudento também havia sido derrubado no chão, que precisava desesperadamente ser limpo. Ela soltou um suspiro e desviou os olhos da bagunça, fixando-se no calendário na parede. Parecia caótico, repleto de coisas escritas à mão, com dias riscados, mas nada parecia saltar tanto aos olhos que uma data no final. 29 DE JUNHO Aquela data estava circulada em vermelho e Haven sorriu ao ver a palavra escrita claramente no espaço: casamento. Já havia se passado um ano desde que os dois se reencontraram e em apenas cinco dias sua união se tornaria oficial. Casamento. Ainda era difícil acreditar que haviam chegado tão longe. Não fora um caminho fácil, uma vez que não podiam se esconder numa bolha, como fora o caso em Durante. Precisavam fazer parte daquele mundo; tinham de se integrar nele e descobrir a melhor maneira de se encaixarem. Aquilo às vezes era motivo de conflitos entre os dois, que tentavam buscar o equilíbrio entre a vida do casal e suas vidas pessoais. Mas não era impossível ajeitar a situação. Discordavam em relação a detalhes, do tipo como se manterem seguros e, embora às vezes ela achasse aquilo absurdo, tolerava muito do que Carmine desejava. Ela jamais se acostumaria com os seguranças ou serviços de limusine, mas sabia que era um preço baixo a pagar para garantir que Carmine ficasse tranquilo. Afinal, tranquilidade era um luxo ao qual o rapaz raramente tinha acesso. Haven tomou mais um gole antes de colocar o copo no balcão. Começou a se afastar, mas hesitou por um instante, voltou e pegou o copo, colocou-o na máquina de lavar e reuniu os pratos que ficaram espalhados pela cozinha. O chão grudento até poderia esperar até o dia seguinte, mas, apesar de todas as mudanças, certos hábitos permaneciam os mesmos. Como dissera Corrado certa vez: Cambiano i suonatori ma la musica è sempre quella.


Carmine respirou fundo para se tranquilizar, inalando o cheiro de queijo oleoso e pepperoni apimentado. Seu estômago se contorcia e ele não conseguia definir se era fome ou apenas seus nervos em frangalhos. Ele entrou na pizzaria lotada e localizou Corrado sentado sozinho a uma mesa na lateral. O olhar de Carmine permaneceu focado no piso brilhante e quadriculado ao se aproximar do tio, ignorando o olhar intenso que recebera do caixa. – Olá, Corrado – Carmine o cumprimentou. – Digo, ah, olá, senhor. Corrado não se preocupou em olhar para cima. Apenas empurrou com o pé a cadeira à sua frente e pegou uma fatia de pizza da caixa sobre a mesa. O cheiro de cebola era forte, assim como o da pimenta e o da linguiça. O estômago de Carmine ficou ainda mais revirado. Eram definitivamente seus nervos. Ele se sentou e tentou evitar o cheiro da pizza, respirando pela boca. Nenhum dos dois abriu a boca enquanto Corrado comia, sentado de modo casual como se não tivesse de se preocupar com nada na vida. Depois que terminou, fechou a caixa vazia e se recostou, cruzando os braços sobre o peito.

– – – –

Sou todo ouvidos. Eu… Bem, quero dizer, nós… Nós?

Haven e eu – esclareceu o jovem. – Nós queríamos saber se…

Por que ela não está aqui? – perguntou Corrado, interrompendo-o. – Se ela tem um problema, é plenamente capaz de vir conversar comigo pessoalmente.

Ela tinha um compromisso na escola esta noite – disse Carmine, suspirando. – Mas, de qualquer modo, não se trata de um problema. É mais um favor.

Você me liga e diz que é importante. Tão importante que eu interrompo meu próprio jantar para ouvi-lo e agora você me diz que precisa de um favor?

– –

É, é isso.

É melhor que seja importante, então. Carmine respirou fundo, encolhendo-se ao sentir o cheiro da comida e em seguida forçou as palavras a saírem de sua boca, antes que perdesse a coragem.

– –

Bem, você sabe que nós nos casaremos em breve…

É óbvio que eu sei – retrucou Corrado. – Recebi um convite e me planejei para comparecer. Ainda sou um convidado, certo?


– –

Certo.

Muito bem, então. Não há problema. Já me certifiquei de que sua agenda ficasse livre neste fim de semana, assim não teria nenhum problema para … consumar o casamento. Carmine franziu o nariz diante das palavras do tio.

– – –

Não é isso. Então do que se trata? Estou ficando impaciente.

Gostaríamos de saber se você concordaria em entregar Haven. Corrado o encarou do outro lado da mesa, imóvel e sem sequer piscar, como se não tivesse escutado bem o que Carmine lhe dissera. Mas escutara e, depois de um minuto, ele acenou negativamente a cabeça como se tentasse processar aquelas palavras.

– – – –

Entregar Haven? É, você sabe, levá-la até o altar na igreja. Sei o que quer dizer, Carmine.

O pai dela, bem… você sabe. Eu pediria ao meu pai, mas… você também sabe. Corrado matara ambos e, embora nenhum dos dois tivesse expressado em palavras, pensaram a mesma coisa.

Muito bem – ele disse. – Eu a levarei até o altar. Os olhos de Carmine se arregalaram. Ele estava esperando um não retumbante.

– –

Caralho, você está falando sério?

Cuidado com a língua! Carmine ficou pálido.

– –

Quero dizer, ah… Então você a levará mesmo até o altar?

Sim! Carmine sorriu aliviado, mas aquilo não ajudava a acalmar seu nervosismo. O simples fato de estar a um quarteirão daquela pizzaria já o deixava desconfortável e tenso.


Você está incomodado com alguma coisa? Não para quieto – disse Corrado. – Estava tão nervoso assim só para me pedir isso?

– –

Não – respondeu o jovem. – Bem, eu estava. Mas esse não é o meu problema.

Então qual é? Carmine encarou o tio, atônito pelo fato de ele parecer tão confortável.

todo.

– –

Não o incomoda em nada estar aqui? E por que me incomodaria? – retrucou Corrado, confuso. – Sempre como aqui. O tempo

Sim, mas… – o rapaz se inclinou na direção da mesa e sussurrou. – E os filhos dele? Corrado também havia matado os dois filhos do proprietário. Os olhos de Corrado desviaram para o homem atrás da caixa registradora. Virando o corpo, Carmine encarou o dono do lugar, John Tarullo, com cautela. Ele mal reconhecia o sujeito, afinal, só o vira em sua infância, quando jantava ali com os pais. Entretanto, ele sabia que John salvara a vida dele naquela noite de outubro. Carmine devia muito a ele; sua própria vida, para ser mais preciso. No entanto, o garoto mal conseguia encarar o homem já envelhecido. Ele se transformara na porra de um lembrete ambulante e falante de tudo de ruim que Carmine tivera de enfrentar ao longo dos anos. Sentindo a atenção, ou talvez por mera coincidência, John escolheu aquele momento para olhar para os dois homens. A expressão dele parecia firme, era um relacionamento estritamente comercial, mas Carmine conseguia sentir a profunda tristeza nos olhos escuros do velho.

Fiz o que tive de fazer – retrucou Corrado. – Se eu os tivesse deixado vivos, se tivesse permitido que continuassem naquele rumo, minha família teria sido prejudicada. Portanto, a resposta é não, isso não me incomoda. Agora, perder um de vocês? Isso poderia me incomodar. Corrado se levantou e seguiu em direção à porta, acenando educadamente para Tarullo antes de sair do restaurante.

Depois de tomar um banho e vestir-se de modo confortável, Haven desceu a escada e viu a luz da cozinha acesa. Carmine estava parado na frente da geladeira com a porta escancarada, olhando para dentro depois de chegar de onde quer que estivesse enquanto ela estudava. A coisa era simples: ela não perguntava e ele não dizia.

Não consegue encontrar nada? – ela perguntou.


Não – ele respondeu, observando o cardápio do restaurante delivery que estava preso à porta com ímãs de geladeira.

Posso preparar alguma coisa – ela se ofereceu. – Já deve estar cansado de comer todo dia as mesmas coisas. Ele deu uma risadinha travessa e franziu as sobrancelhas de um jeito sugestivo.

– –

Bem, isso depende do que eu como.

Seu pervertido – ela podia sentir o calor subindo pelas bochechas, sabendo que era inútil tentar disfarçar.

– –

É, mas você adora isso – ele disse num tom de brincadeira.

Adoro – ela disse, não vendo nenhum sentido em negá-lo. Afinal, Carmine a conhecia muito bem. O garoto deu risada e se virou, concentrando-se novamente no cardápio.

Vou pedir comida chinesa. Já está tarde e você não precisa perder tempo cozinhando, principalmente considerando que já limpou a cozinha uma vez. Não pense que não reparei. Eu podia ter limpado, sabia? Aliás, eu teria feito isso.

Sei disso – ela disse com franqueza. Carmine jamais fazia certas coisas, como lavar roupa ou varrer o chão, mas ele era muito bom em limpar a bagunça que fazia. Não que ele gostasse, mas o fazia por ela.

– –

Não me custou nada.

Bem, obrigado, então. Ele pegou o telefone sem fio na parede e discou rapidamente o número.

Sim, preciso de uma entrega. O nome é Carmine DeMarco – ele disse logo que atenderam, fazendo uma pausa enquanto checavam os dados. – Sim, sou eu mesmo. Quero rolinhos de porco mu shu, um filé ao molho Mongólia, frango xadrez e duas porções de sopa de wonton. Sei lá, grande? Ah, e alguns rolinhos primavera. Quantos vêm numa porção? Dois? Só isso? Isso é um roubo. Carmine olhou para Haven e ergueu as sobrancelhas.

– –

Esqueci de alguma coisa? Não.


Sim, é só isso. Ah, e não se esqueça dos biscoitos da sorte – ele disse ao telefone, franzindo o cenho. – Como assim vocês não têm biscoitos da sorte? É um restaurante chinês, não é? Vocês têm que entregar biscoitos da sorte. O quê? Não, não me importa se eles estão em falta. Não me venha com essa conversa fiada, ok? Quero meus biscoitos da sorte. Trate de dar um jeito. Ele encerrou a chamada, batendo com o telefone no balcão e assustando Haven. Então, abriu a porta do freezer e olhou para dentro. Haven soube na hora o que ele estava procurando. Na verdade, ele agira a partir do impulso e da frustração, encarando o lugar vazio em que a vodca costumava ficar. Logo, bateu a porta do freezer e voltou a abrir a geladeira. Haven pegou a lata de Coca-Cola da mão dele e, num ato de carinho, esfregou as costas do rapaz.

Ei, a falta de biscoitos da sorte não é um problema tão sério – ela disse, empurrando-o para o lado para apanhar um copo no armário. Carmine se encostou ao balcão e a viu enquanto colocava cerejas no refrigerante. – Você nem come esses biscoitos. Sempre diz que eles têm gosto de papelão.

É verdade, mas você gosta – ele respondeu. O jovem parecia nervoso e agitado, esfregando a palma das mãos nas próprias calças. – Você gosta deles. Ela sorriu de um jeito suave, entregando-lhe o refrigerante.

Bem, muito obrigada por você pensarem mim, mas aquilo foi desnecessário. Do mesmo modo como enviar aquela limusine até a escola para me buscar.

Tá, talvez os biscoitos não sejam mesmo necessários, mas a limusine foi necessária, sim – ele retrucou, bebendo um gole do refrigerante. – Não queria que voltasse a pé.

Tudo bem, mas eu poderia ter pegado um ônibus – ela respondeu. – Gosto de andar de ônibus. Nunca pude ir para a escola de ônibus. Isso torna as coisas mais divertidas e autênticas. Ele olhou para a namorada com um ponto de interrogação.

– – –

Você não voltaria para casa de ônibus. E por que não? Não é um problema para mim.

É um problema, sim – ele retrucou, elevando o tom de voz. – O ponto de ônibus não é perto de casa, então você ainda teria de caminhar no escuro.

Mas são apenas alguns quarteirões –ela respondeu, tentando tranquilizá-lo. – Aliás, nem demoraria tanto se eu cortasse pela viela… Haven interrompeu a frase imediatamente ao perceber o que havia dito. Carmine ficou petrificado, seu corpo rígido e tenso. O ponto de ônibus ficava próximo ao velho teatro, a apenas alguns quarteirões do local onde ocorrera o recital de Carmine em outubro de 1996. Aquela era a mesma viela que ele pegara com sua mãe naquela noite e um lugar de onde ele jamais se aproximara desde então.


Tudo bem – ela respondeu. As chances de algo acontecer a ela eram mínimas, porém, mais uma vez ela preferia manter a paz de espírito de Carmine. – Não usarei o ônibus de noite, mas ainda quero usá-lo durante o dia.

Você é a única pessoa do mundo que conheço que prefere transporte público – ele resmungou, sem se mostrar muito feliz com a decisão dela, mas também sem discordar.

Apenas não vejo razão para dirigir quando não preciso – ela explicou. – Além do mais, limusines são muito chamativas. Gosto de me misturar com as pessoas e você mandar um carro daquele tamanho para me apanhar na escola não ajuda muito. Se o motorista se atrasar e você não quiser que eu pegue um ônibus, posso chamar um táxi. Carmine deu uma risada seca.

– –

Tá, e sou eu o teimoso, né?

E você é mesmo teimoso – ela retrucou. – Quer saber? Acho que está sendo super protetor. Ele ficou em silêncio por um instante antes que seus lábios se abrissem num sorriso.

Ah, quanto a isso não tenha dúvida s:tenho planos bastante “super protetores” em relação a você esta noite.

Ah, meu Deus – ela resmungou, acenando negativamente com a cabeça e olhando noutra direção. Ele deu risada da reação da jovem antes de suspirar, resignado.

Nada de táxis, mas tudo bem, vou mandar buscá-la com carros menos chamativos. Eles têm carros que não são tão sofisticados. Se eu achar que devo enviar um carro, mandarei um deles. De outro modo, tudo bem, acho que pode usar o ônibus.

Obrigada – ela disse, sorrindo. – Você é muito bom para mim, sabia? Ele revirou os olhos e começou a responder, mas foi interrompido pelo telefone. Sem hesitar, ela saiu da cozinha. No mesmo instante, houve uma batida na porta. Carmine reapareceu e saiu para ver quem era. Curiosa, Haven voltou à cozinha para olhar pela janela. As sobrancelhas dela franziram quando viu Carmine de pé no primeiro degrau da varanda com dois homens; ela não reconheceu nenhum dos dois. Todos pareciam tensos e o diálogo era sério entre eles. Negócios, ela presumiu. Em geral, o coração dela acelerava sempre que o via em situações de trabalho, uma sensação de medo surgia dentro dela. De repente, Carmine se virou em sua direção e a expressão dele ficou tensa quando os olhos deles se encontraram. Ela se afastou, sem querer irritá-lo, mas viu quando um carro parou na calçada. Os dois homens se afastaram e Carmine abriu a porta, indo direto ao escritório quando viu o entregador se aproximar com a comida. Antes que o rapaz pudesse bater, Carmine retornou com sua carteira e abriu a porta da frente.


– –

São US$47,75.

Caralho, isso é caro demais – Carmine resmungou. Haven caminhou até a porta da cozinha e parou, observando enquanto ele conferia a carteira. Ele retirou uma nota de US$50 e entregou-a ao rapaz, hesitando antes de pegar outra nota de US$5 e dá-la como gorjeta. Ela sorriu quando o viu dar o dinheiro ao jovem antes de pegar as sacolas de comida e fechar a porta.

– – –

Você não deveria ser tão bisbilhoteira – ele disse ao vê-la de pé atrás dele. Não estava sendo bisbilhoteira, apenas curiosa.

É a mesma merda – ele resmungou, antes de acrescentar. – Apenas seja cuidadosa, ok? Sabe que essas porras me deixam nervoso. Haven pegou um refrigerante na geladeira e também a Coca-Cola com cereja para Carmine, seguindo-o até a sala de estar. Os dois se sentaram e jantaram, conversando de modo casual e assistindo à TV. Depois que já estavam satisfeitos, Carmine colocou as embalagens de lado. Em seguida, puxou um saco branco e o abriu. Riu ao derrubar o conteúdo na mesa de centro. Haven ficou chocada ao ver uma dúzia de biscoitos da sorte. Ao ler a embalagem, eles perceberam que, embora tivesse feito o pedido no Satay, os biscoitos foram obtidos no Ming Choy.

– –

Você os deixou tão assustados que arrumaram biscoitos da sorte em outro restaurante.

É, acho que a gorjeta deveria ter sido maior, né? – ele disse, sem conseguir disfarçar o divertimento. Então pegou um dos biscoitos e o atirou contra ela, antes de pegar um para si. Abriu o pacotinho, retirou o biscoito de dentro e puxou o papel.

“O mais importante na vida é jamais deixar de questionar” – ele leu, atirando o papelzinho fora e pegando outro biscoito. – Isso é pura baboseira. Ela riu e puxou o papelzinho do seu biscoito.

“Seus sonhos se tornarão realidade quando menos esperar” – ela disse, lendo o que estava escrito e mordendo o biscoito. Carmine fez uma careta. – Meus sonhos já se realizaram: família, amigos, escola, casamento. Não poderia pedir mais nada.

– – –

Ainda não está casada, tesoro. Eu sei – ela sorriu ao olhar para a tirinha de papel. – Amanhã. É, amanhã – ele concordou.


Na tarde seguinte, Haven estava de pé diante de um espelho antigo, surpresa ao olhar para seu reflexo. Seus cabelos estavam encaracolados e a parte da frente puxada para trás e presa com uma tiara dourada que mantinha o véu no lugar certo. Seu vestido branco era bem simples, longo, com um ombro só e uma pequena cauda. Ela usava um par de sapatos de salto alto. Não era nada extravagante, mas não havia dúvidas de que ela estava lindíssima. Exatamente como havia sonhado ao longo de toda sua vida. Lágrimas inundavam os seus olhos e os pensamentos insistiam em recair sobre a mãe. Haven sentia muito sua falta e gostaria demais que ela estivesse ali, imaginando como ela se sentiria orgulhosa naquele instante. Era tudo o que Miranda sempre desejara para a filha, tudo o que dissera a Haven que ela encontraria no mundo. Daquela vez ela duvidara da mãe, pensando que seria impossível, mas agora tudo aquilo estava prestes a se tornar real. A porta atrás de Haven se abriu, ela se virou e viu Corrado. Ela se virou rapidamente, nervosa, enquanto ele se colocou ao seu lado diante do espelho e permaneceu em silêncio por um momento; aquilo não ajudou em nada a tranquiliza-la.

Principessa della Mafia – ele disse enfim, com a voz calma. – Quando Vincent me disse pela primeira vez quem você era, eu disse a ele que não conseguia acreditar, que você não parecia uma de nós. Haven estava muito nervosa, e seu coração batia tão acelerado que chegava a machucar.

Mas vejo perfeitamente agora – ele disse, contemplando o reflexo dela no espelho e esboçando um sorriso no canto dos lábios. – Não sei como fui incapaz de perceber antes. A declaração dele pegou Haven de surpresa, deixando-a boquiaberta. Ele pigarreou, sentindo-se ainda desconfortável em demonstrar qualquer sinal remoto de afeição.

Eu lhe darei um momento. Então, saiu sem dizer uma única palavra. Os olhos de Haven voltaram a se encher de lágrimas quando ouviu o som do piano; ela mais uma vez pensou em sua mãe. Lembrou-se de quando a viu pela última vez em Blackburn, e também das últimas palavras que dissera: que sempre estaria com ela, em seu coração; que o mundo se tornaria um lugar melhor com a jovem fazendo parte dele. Miranda queria que sua filha vivesse sua vida, fosse feliz e perseguisse os próprios sonhos e, naquele dia, ela sabia exatamente qual seria seu destino: Carmine.

Obrigada, mamãe – sussurrou Haven no quarto vazio, olhando pela última vez seu reflexo antes de pegar o buquê de rosas brancas. Ela se uniu a Corrado no corredor e pegou em seu braço assim que ele o ofereceu. Ele levou Haven até a porta da igreja e ambos fizeram uma pausa no início do corredor, para que ela tivesse um momento para se preparar. Sua visão ficou turva e ela se sentiu um pouco tonta. A imagem à sua frente a deixou estupefata. Os bancos estavam completamente lotados. Ela não conhecia muitas daquelas pessoas, e todos se colocaram de pé no momento em que eles entraram. Ela estava ciente de que muitos não estavam ali por causa dela. Eram membros da organização e suas famílias, mas aquilo não importava. Todos vieram por Carmine, e também por respeito ao homem de pé ao lado dela.


Haven olhou para a parte da frente da igreja e seus olhos se fixaram em Carmine. Ele parecia congelado, e seu rosto, maravilhado. Haven não conseguiu segurar as lágrimas e algumas delas acabaram escorrendo pelo rosto no momento em que começaram a caminhar pelo corredor central. Corrado soltou a mão de Haven quando ambos chegaram ao altar, assentindo para Carmine antes de se unir à esposa no primeiro banco. A música parou e o padre fez uma pequena prece, que foi seguida por uma movimentação geral quando todos os convidados se sentaram. Haven entregou seu buquê a Tess enquanto Carmine olhava para ela, fascinado. A felicidade irradiava do rapaz em forma de ondas. Ela o mediu da cabeça aos pés, algo que sempre fazia ao encontrá-lo… Sempre em busca de ferimentos, para se certificar de que ele estivesse intacto. Ela riu quando seus olhos se depararam com os pés do noivo.

Nikes? – ela sussurrou. – O que houve com seus sapatos? Ele fez uma careta.

Eu me esqueci deles. As lágrimas da garota continuaram a transbordar e ele rapidamente passou a mão no rosto dela enquanto o padre Alberto se dirigia a eles.

Carmine e Haven, vocês estão aqui por livre e espontânea vontade e sem qualquer impedimento para que se entreguem um ao outro em matrimônio?

– –

Sim – ambos responderam ao mesmo tempo. Vocês prometem honrar e respeitar um ao outro como marido e mulher para o resto de

suas vidas?

– –

Sim – eles disseram, sem ter que pensar nem por um segundo.

Isso não faz parte da cerimônia tradicional, mas a noiva e o noivo me pediram a oportunidade de falar e a igreja concordou em garantir a eles essa chance. O padre olhou para o casal e Haven limpou a garganta, tentando se livrar do nó que se formara ali.

A primeira vez que você me pediu que me casasse com você, Carmine, foi há três anos. Você disse que não precisaria ser naquele dia, nem no dia seguinte, nem mesmo naquele ano. Você só queria que eu jurasse que me casaria com você quando estivesse pronta. Eu disse que sim, é claro, e fui absolutamente sincera. Éramos jovens e talvez bastante ingênuos, imaginando que tudo seria tão simples. Entretanto, uma coisa da qual jamais duvidei é de que havíamos nascido um para o outro. Haven fez uma pausa e secou mais lágrimas que se formaram em seus olhos. – Na primeira vez que o vi, não soube bem o que pensar. Você era diferente de todos que eu já havia conhecido. As coisas que você fazia me assustavam e tudo o que eu queria era ficar bem longe de você, mas eu não podia. Eu me sentia atraída por você. Você me dava esperança. Você acreditava em mim e me ajudou, mas, acima de tudo, você me amou. A mim. De todas as pessoas neste mundo, você escolheu a mim. Eu já estava acostumada a ser negligenciada, a ser invisível, mas você me viu. Eu não seria a pessoa que sou hoje sem


você. Eu o amo, Carmine Marcello DeMarco, e quero te dizer que agora estou pronta. Estou pronta para passar o resto de minha vida ao seu lado.

Sempre – ele sussurrou, engasgando ao dizer aquela palavra. Ele tentava manter a compostura e a firmeza diante de tantas pessoas.

Sempre – Haven a repetiu com a força de cada célula de seu corpo. Com toda a segurança que trazia em si. Ele agora pertencia a ela, e para sempre. Então foi a vez de Carmine.

Tenho certeza de que se lembra do nosso primeiro encontro. Foi de madrugada, na cozinha da minha casa na Carolina do Norte. E sei que se recorda do desastre em que aquilo acabou se transformando – disse Carmine. – Eu não esperava que alguém estivesse ali. Derrubei meu suco de laranja e você começou a limpar o chão, tentando ajudar e eu… Ah, bem… Você sabe o que eu fiz. Haven sorriu de um jeito triste ao se lembrar. Na época, ele era um jovem tão raivoso… Parecia que internamente estava partido em pedaços. Carmine ainda ostentava alguns ferimentos profundos e algumas cicatrizes da época em que se sentiu destruído, mas, apesar disso, estava agora conseguindo se manter firme. E era isso o que de fato importava.

O que você não sabe, Haven, é que quando nós nos ajoelhamos como dois idiotas naquela poça de suco, a única coisa em que eu conseguia pensar era em como você era linda. Como você é linda. Você estava assustada e confusa, e sei que não ajudei em nada, mas, lá no fundo, você era apenas linda, Haven. Você ganhou o meu coração desde a primeira vez em que coloquei os olhos em você. Lembrome de que naquela mesma manhã eu me peguei imaginando que você iria complicar minha vida – ele fez uma pausa e riu para si mesmo. – E complicou mesmo. Tudo o que sabia, tudo em que acreditava… desapareceu pela janela. Você me virou do avesso e me fez sentir vivo novamente. Você salvou minha vida, mesmo que eu não percebesse na época que ela precisasse ser salva. Pensei que estivesse bem, que não necessitasse de ninguém, mas eu estava errado, porque preciso. Preciso muito de você, caralh… Os olhos de Haven se arregalaram e o padre Alberto prendeu a respiração ao ouvir aquela última palavra. Percebendo o que começara a pronunciar, Carmine parou de falar e pensou: merda, eu acabei de dizer um palavrão em pleno altar e na cara do padre. Haven sabia o que ele iria dizer antes que a palavra escapasse completamente e colocou a mão em seus lábios antes que mais alguém escutasse. Ele olhou para ela com cautela e pânico, mas Haven apenas sorriu suavemente, demonstrando ao noivo que não havia ficado incomodada. Ele relaxou, sentindo-se aliviado. Então, quando ela retirou a mão de sua boca, automaticamente se inclinou para a frente e a beijou. Ela retribuiu o beijo, abrindo os lábios e soltando um gemido no momento em que a língua dele encontrou a dela.

Ainda não, cara – sussurrou Dominic, pegando no braço de Carmine e puxando-o levemente. – Você está atropelando as coisas. O padre limpou a garganta e Carmine soltou um suspiro exasperado.

Desculpe, padre.


– –

Gostaria de terminar? – perguntou o padre. Ah… Não – respondeu Carmine, acenando negativamente a cabeça. – Acho que já disse

o suficiente.

Muito bem, uma vez que é a intenção de ambos se unirem em matrimônio, unam as mãos direitas e declarem seus votos perante Deus e Sua Igreja – disse o padre, ansioso para terminar logo aquela cerimônia. Carmine pegou a mão de Haven, entrelaçando seus dedos nos dela e apertando-os levemente.

Carmine, você aceita Haven como sua esposa e promete ser fiel a ela nos momentos bons e ruins, na saúde e na doença, amando-a e respeitando-a durante todos os dias de sua vida?

– –

Sim.

Haven, você aceita Carmine como seu esposo e promete ser fiel a ele nos momentos bons e ruins, na saúde e na doença, amando-o e respeitando-o durante todos os dias de sua vida?

– –

Sim.

Ambos declararam sua intenção perante a Igreja. Que Deus em sua bondade fortaleça a decisão do casal e os abençoe. E o que Deus uniu, nenhum homem poderá separar. Depois de ouvirem as palavras do padre, eles trocaram alianças. A mão de Haven tremia enquanto Carmine deslizava a aliança de ouro em seu dedo, aquela que a jovem sabia ter pertencido à mãe dele. Tomada pela emoção, ela olhou para o noivo no momento em que o sacerdote os declarou marido e mulher.

Agora você a beija – disse Dominic, cutucando Carmine. Haven ergueu a cabeça novamente e percebeu quando Carmine olhou para o irmão antes de se concentrar nela, com o rosto iluminado pelo mais puro amor. Ele gentilmente colocou a mão sob o queixo da esposa e se inclinou para frente; os olhos dela se fecharam e seus lábios se encontraram. O beijo dele foi doce, mas carregado de paixão… Uma paixão que, aliás, ela estava determinada a sentir pelo resto de sua vida.


Capítulo 47

Apenas mais algumas. Carmine tentou parar de se contorcer, mas aquele terno o estava deixando sufocado. Parecia que estavam parados ali a horas, enquanto o fotógrafo tirava um milhão de fotos, colocando-os em todas as posições imagináveis para garantir o melhor ângulo. O garoto fez o que pôde para manter os olhos na câmera, mas sua atenção era constantemente atraída pela linda mulher ao seu lado.

– – –

Relaxe – disse Haven em voz baixa, sentindo o desconforto do marido. Estou tentando – ele murmurou.

Todos sorrindo! – gritou o fotógrafo. Carmine atendeu ao pedido, torcendo para encerrar aquilo, então o profissional tirou uma série de fotos de uma só vez. – Pronto, isso foi para finalizar. Carmine suspirou aliviado e imediatamente soltou a gravata.

– –

Essa merda levou uma eternidade.

Ah… Não foi assim tão ruim – disse Haven, rindo. – Foram apenas uns vinte minutos. Carmine a pegou pelos quadris e ela soltou um gritinho quando ele a puxou na direção de seu corpo.

Está redondamente enganada, Haven DeMarco. Foi assim tão ruim, porque durante esses vinte minutos eu não pude fazer isto. Ele se inclinou sobre ela e a beijou profundamente. Tess soltou um grunhido e se virou.

– –

Eu não quero ver isso.

Então pare de olhar, caralho – ele retrucou, afastando-se de Haven somente o tempo suficiente para pronunciar aquelas palavras e depois retomando o beijo apaixonado.

Bem, estamos entrando – disse Dominic, dando um tapinha nas costas do irmão. – Olha lá, hein. Não deixem todos esperando por muito tempo. Ambos ficaram de pé do lado de fora por alguns instantes, se beijando, enquanto todos os convidados entravam no Luna Rossa para a recepção. Por fim, ela se afastou do marido, tentando recobrar o fôlego e com as bochechas coradas.

Talvez devêssemos entrar.


Ah, eles que vão se foder – ele retrucou, deixando uma trilha de beijos desde o rosto da jovem até o pescoço. – Vamos dar o fora daqui.

Não podemos simplesmente dar o fora, Carmine – ela disse. – Essas pessoas estão aqui por nossa causa.

E daí? – ele sussurrou. Ela riu, afastando-se dele e o rapaz suspirou. – Tá bom, você está certa. Precisamos entrar.

– –

Não reclame – ela disse, agarrando a mão dele. – Vai ser bem divertido. Claro, mas acho que nos divertiríamos muito mais se estivéssemos sozinhos nesse

momento.

– –

Talvez – ela retrucou. – Mas haverá muito tempo depois para isso.

Ah, e eu mal posso esperar pelo depois. Haven começou a caminhar em direção à porta, puxando-o pelo braço, e o garoto só se moveu depois de resmungar. Eles se depararam com aplausos no momento em que pisaram no salão. Haven enrubesceu e abaixou a cabeça; Carmine deu risada à medida que os dois seguiam em direção à mesa principal que fora preparada para os noivos. Ela agradeceu a todos enquanto ocupavam seus lugares e aguardavam que o jantar fosse servido. Os pratos foram colocados diante deles e, em seguida, os garçons serviram os copos com o conteúdo de garrafas de vidro verdes. Carmine acenou a cabeça no momento em que um líquido borbulhante foi despejado em seu copo. Ele pegou o copo e o levou até o nariz, fazendo uma careta ao sentir o cheiro. Dominic, que estava sentado bem ao lado, soltou uma risada e balançou levemente a bebida que trazia na mão.

Nunca imaginei que um dia estaria no casamento do meu brother e bebendo suco de uva com gás – ele disse, acenando negativamente a cabeça.

Também temos chá de jasmim com gás – completou Haven –, além de outros tipos de refrigerantes que imitam vinho. Eles até se parecem com champanhe, mas não têm álcool. Carmine suspirou fundo e colocou o copo na mesa sem beber, e também sem apreciar o rumo que aquela conversa estava tomando. Para os convidados, Corrado oferecera um open bar. Aquele fora seu presente para o casal, mas Carmine ainda estava proibido de se aproximar de bebidas alcoólicas no Luna Rossa. A discussão foi encerrada assim que todos receberam seus pratos. Carmine pegou seu garfo e começou a mexer na comida, mas sentiu o estômago embrulhar. As palmas das mãos estavam suadas e suas pernas logo começaram a tremer debaixo da mesa. Ele se sentia visivelmente desconfortável. A compulsão pela bebida ainda o perseguia. Ele sentia falta do álcool e seu organismo parecia gritar por pelo menos um gole para se manter saciado. Ele quase podia sentir a queimação na garganta,


precisando de um pouco daquele calor em seu peito só para reviver os velhos tempos… Só o suficiente para protegê-lo de um ataque de pânico. Mas ele sabia muito bem, e por experiência própria, que aquilo não funcionava em seu caso. Embora seu corpo pedisse apenas por um gole, aquilo jamais se revelava o suficiente, e então ele não conseguiria mais parar. Um gole se transformava em dois e quando se dava conta a garrafa já estava vazia, o que, por sua vez, o fazia acordar no dia seguinte com uma dor de cabeça insuportável, um chefe extremamente irritado e nenhuma lembrança do que acontecera na noite anterior. Com certeza, não desejava passar por tudo aquilo mais uma vez. Haven esticou o braço sob a mesa e segurou a coxa do marido, forçando-o a parar. Ele a observou com cautela e a jovem sorriu, sem qualquer sinal de irritação em seu rosto. Em geral, ela conseguia perceber quando ele estava em conflito.

– –

Você está bem? – perguntou.

Sim, eu ficarei bem – ele respondeu. A tensão começou a se dissipar no momento em que ele olhou para a esposa. O rosto dela brilhava, e ao perceber a felicidade nos olhos dela, o peito dele se encheu não apenas de emoção, mas de expectativa de que ela vislumbrasse o mesmo brilho no rosto dele. Ela significava tudo para Carmine. Seu amor por ela era mais forte que qualquer outra coisa, mais potente que qualquer bebida ou droga. Ela representava seu mundo, sua vida complicada e, agora, era sua mulher. Sua esposa… Quem teria imaginado que Carmine DeMarco um dia tivesse uma esposa?

Você deveria jantar – ela disse em voz baixa, com o olhar mais travesso ao voltar-se para o prato ainda cheio. – Precisará de energia mais tarde. Ele rosnou ao ouvir a insinuação e começou a cortar a fatia de carne em seu prato. Parecia ser de origem suína, mas ele não tinha certeza. Celia se responsabilizara pelo bufê, uma vez que nem ele nem Haven se importavam muito com as formalidades desse tipo de recepção. Para ele, bastaria pedir umas pizzas e deixar que cada um ali se servisse, porém, isso certamente não funcionaria com o grupo ao qual pertenciam.

– –

Não se preocupe, Haven. Terei toda a energia do mundo para você.

Ah, mas eu não estou preocupada –ela disse, antes de levar uma garfada à boca. – Mas você deveria estar. Ele riu quando ela começou a mastigar, já se sentindo bem melhor. A tremedeira em geral era passageira, embora os pensamentos que envolviam o vício se mantivessem arraigados em sua mente. Carmine estava tomando refrigerante quando Dominic ficou de pé e bateu com o garfo em sua taça, atraindo a atenção de todos.

Bem, acho que todos aqui sabem quem eu sou, mas, de qualquer modo, meu nome é Dominic. Sou o irmão mais velho, e também mais esperto, de Carmine, embora ele jamais tenha admitido. Ele, entretanto, teve o bom senso de admitir que eu fosse a pessoa ideal para ser seu padrinho e, como tal, é minha responsabilidade me colocar de pé e tentar deixá-lo o mais envergonhado possível. Há tantas coisas que eu poderia dizer a respeito de Carmine, tantas palavras que poderiam ser usadas para descrevê-lo que é quase impossível saber por onde começar. Ele é teimoso, imprudente,


enjoado, temperamental, instável, rápido em julgar as situações e mais rápido ainda para reagir. Também o considero um sujeito muito feio, mas essa é apenas uma opinião pessoal.

– –

Vá se foder – Carmine retrucou em voz baixa, passando a mão nos cabelos.

Ah, eu esqueci de mencionar que ele tem a boca suja, algo que todos vocês puderam testemunhar esta noite. É bem provável que o padre ainda esteja exorcizando a igreja – ele disse com bom humor. – Porém existem algumas características menos conhecidas de Carmine: ele é um ferrenho defensor e protetor das pessoas que ama, e também é extremamente determinado em relação àquilo em que acredita. Com frequência, passa a imagem de um indivíduo egoísta, entretanto, é bem provável que ele seja a pessoa mais abnegada que eu conheça.

E aqui temos Haven, que com certeza deve ser a pessoa mais paciente do universo para conseguir lidar com Carmine. Aliás, no início, os dois pareciam ser completamente opostos: de um lado, a menina tímida e ingênua, que a tudo experimentava pela primeira vez; do outro, o cara rabugento, descuidado e que parecia estar de saco cheio de tudo. Não acho que nenhum de nós pudesse ter previsto que duas pessoas tão diferentes em tudo seriam capazes de se encontrar e chegar a um meio-termo, mas foi exatamente o que aconteceu. Eles conseguiram oferecer equilíbrio um ou outro e, juntos, foram capazes de encontrar o amor. Sei que parece brega, como citar uma frase de algum filme da Julia Roberts ou algo do tipo, mas é a mais pura verdade: o que existe entre eles é raro. Carmine olhou para Haven e ela sorriu, estendendo a mão sob a mesa para pegar a dele enquanto Dominic continuava.

Não sei se todos aqui sabem disso, mas ainda no ensino médio meu irmãozinho aqui era um ótimo jogador de futebol – ele disse. – Não quero parecer clichê, mas algo que aprendi