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O único jornal-laboratório diário do Brasil

lona.redeteia.com

Ano XV > Edição 882 > Curitiba, 07 de maio de 2014

Parlamentares lançam campanha contra drogas EDITORIAL “Projeto de permanência do pagamento do Bolsa Família foi aprovado por Comissão do Senado.” p. 2

Foto: Petry Souza

OPINIÃO

Aumento de gastos com despesas de viagem gera atritos na Câmara

Vereadores de Curitiba se alfinetam em meio à aprovação da proposta, criada por Serginho do Posto p. 3

“O Governo Federal parece estar se aproveitando desta falha para simular uma isenção que não possui.” p. 2

#PARTIU Wagner Moura estreia mais um drama, a temática é polêmica e fez muita gente ir embora do cinema p. 6

Foto: Petry Souza

Campanha “Frente Parlamentar Contra o Crack e Outras Drogas” entra na luta do poder legislativo para analisar e criar leis que auxiliem na p.3 briga contra as drogas; Crack está no centro do projeto COLUNISTAS Rodrigo Silva “O sinal bate. Ao lado, na mesa, Clodoaldo não está mais. Tem o hábito de chegar sempre antes dos alunos. Joga o copo no lixo. Vai à sala de aula. A p. 5 condição humana lhe enoja.” Julia de Cunto “Não esqueça de mudar a si mesmo, e pagar o preço da mudança como um adulto. O Brasil só irá pra frente quando o brasileiro deixar para trás os velhos hábitos de caráter duvidoso. “ p. 5


LONA > Edição 889 > Curitiba, 07 de maio de 2014

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EDITORIAL

Estratégia tucana

Ontem, mesmo com pressão da oposição, o senador Aécio Neves, do PSDB, teve seu projeto de permanência do pagamento do Bolsa Família aprovado pela Comissão de Assuntos Sociais do Senado. O projeto segue para votação na Comissão de Direitos Humanos do Senado, onde será analisado em caráter terminativo, ou seja, seguindo diretamente para Câmara, sem passar pelo plenário, caso seja aprovado. Além de manter o pagamento do Bolsa Família por seis meses para chefes de família que ultrapassarem a faixa de renda prevista pelo programa, sem serem excluídos dele, o pagamento vale para os casos em que o beneficiário conquistar um emprego com carteira assinada que, em função de atividade remunerada, perca as condições de extrema miséria. O projeto ainda determina a revisão, a cada dois anos, das regras de elegibilidade das famílias participantes do programa. Aécio Neves é pré-candidato do partido Tucano à Presidência, e um dos prováveis adversários da presidente Dilma Rousseff nas eleições de outubro. Com o apoio de senadores e aliados da oposição, conseguiu a vitória por dez votos contra 9. O PT ainda pressionou contra a aprovação da proposta, mas acabou derrotado na comissão. Este ato estratégico dos Tucanos acabou irritando seus concorrentes de esquerda. Deste modo, a atitude de Aécio para ganhar eleitores foi mal interpretada, pois eles querem que o projeto seja exclusivo deles, como também instrumento na campanha eleitoral. No entanto, votar contra a aprovação não foi uma maneira muito boa de defender as classes menos favorecidas. No fim, o foco sempre acaba sendo a rivalidade. O Bolsa Família, que completou dez anos em 2013, já gerou muita polêmica. Mas o fato é que recebeu o Award for Outstanding Achievement in Social Security, considerado o Nobel da seguridade social, que só é concedido a cada três anos, depois de uma série de pesquisas. Em meio a muitos “aproveitadores”, não podemos esquecer daqueles que só conseguem se alimentar com esta renda. Assim, com novas propostas, o projeto pode se tornar ainda mais colaborativo e eficiente.

OPINIÃO

O terremoto acabou, mas a miséria ainda faz tremer Lis Claudia Ferreira

Em meio ao caos causado por greves espalhadas por todo o país, manifestações contra e a favor da Copa do Mundo, especulações eleitorais e índios atirando flechas contra a polícia, a manchete que denuncia – mais uma vez – a situação desumana na qual vivem imigrantes haitianos no Brasil, passa praticamente despercebida pelos olhos dos brasileiros. Porém a situação existe, e é mesmo muito séria.Desde o terremoto que devastou o Haiti em 2010, aproximadamente 26 mil haitianos já cruzaram as fronteiras do Brasil na tentativa de fuga da situação de extrema miséria na qual se encontra o país. Em Brasileia (principal porta de entrada dos haitianos no Brasil) muitos desses imigrantes percebem que “trocaram seis por meia dúzia”. Não

existe nenhuma estrutura para recebê-los, a concessão de visto é burocrática e demorada, a alimentação e condições de moradia são precárias e doenças se disseminam rapidamente. O sonho de uma vida melhor no Brasil rapidamente se torna em um pesadelo. Essa situação, que envolve fatores ocorridos em outros países, denuncia um problema interno sobre o qual poucos tem conhecimento: o Brasil é um país de leis e políticas imigratórias muito atrasadas. Quando a lei de imigração foi criada, em 1980, não previu a imigração em massa por conta de desastres naturais – como o terremoto no Haiti. O Governo Federal parece estar se aproveitando desta falha para simular uma isenção que não possui. Já se provou que o governo do

Acre não possui condições financeiras ou estruturais para receber os haitianos e em busca de melhores condições de vida, muitos deles se deslocam para outros estados. No início de maio o Ministério do Trabalho recebeu a primeira denúncia de trabalho escravo envolvendo haitianos. Alguns brasileiros acreditam que não temos a obrigação de oferecer ajuda humanitária e, outros poucos, esperam que o governo federal realize concessões que facilitem a entrada e permanência desses estrangeiros no Brasil. A grande maioria, porém, sequer sabe sobre o Haiti, os haitianos, o terremoto e a miséria. Não há espaço para preocupações como essa, afinal, a Copa do Mundo está aí e é ela, o grande momento de união entre as nações do mundo.

“A força de um país representado em tela” > Imagem: Briana Seiderman

Expediente Reitor José Pio Martins Vice-Reitor e Pró-Reitor de Administração Arno Gnoatto

Pró-Reitora Acadêmica Marcia Sebastiani Coordenadora do Curso de Jornalismo Maria Zaclis Veiga Ferreira Professora-orientadora Ana Paula Mira

Coordenação de Projeto Gráfico Gabrielle Hartmann Grimm Editores Ana Carolina Justi, Kawane Martynowicz e Luiza Romagnoli Editorial Da Redação


Curitiba, 07 de maio de 2014 > Edição 889 > LONA

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NOTÍCIAS DO DIA

Campanha da Frente Parlamentar contra o Crack é aprovada Petry Souza

capaz de largar tudo e todos para consumir a droga.” O projeto cuida, ainda, de drogas lícitas como a bebida e o tabaco.

Parlamentares realizaram primeira audiência pública contra a legalização da maconha, e fizeram campanha contra projetos que permitam ou aceitem o uso de qualquer tipo de droga

primeira audiência pública contra a legalização da maconha e fizeram campanhas contra qualquer tipo de projeto que aceite drogas no país.

poder que a polícia tem, apenas analisam as leis, uma vez que consideram a droga um problema para a segurança pública, e para a saúde pública.

Todo e qualquer assunto relacionado às drogas, passam pela Frente Parlamentar Contra o Crack para que sejam feitos os acompanhamentos necessários. Apesar dos parlamentares estarem no legislativo, não possuem o

O crack, por tratar-se de uma droga altamente vicianta, que mata rápido, está no centro das atenções do projeto. Segundo o vereador Pastor Valdemir Soares, “o crack torna o jovem dependente já na primeira dose, o usuário é

Domingo passado aconteceu em Curitiba a Marcha da Maconha, que reuniu cerca de 600 pessoas. Elas percorreram alguns pontos conhecidos da cidade cantando marchinhas que defendem a legalização da droga. Além disso, um juiz de Brasília aceitou o pedido para que uma criança utilizasse um medicamento que contém maconha. O posicionamento do uso da droga para a saúde para o Vereador Pastor Valdemir Soares é que a situação é isolada e não pode exemplificar a discussão que existe na Campanha, é muito acima do que a discussão de pessoas que são a favor da legalização. O vereador completou dizendo “o Brasil não tem capacidade nem de controlar as drogas lícitas, porque há muito acidente de trânsito além de muitas brigas familiares, e agressões nas famílias. A saúde brasileira não consegue controlar os pacientes químicos da droga lícita, se aceitasse a legalização da maconha ou de qualquer outro entorpecente isso causará vários impactos sociais”.

alguns deslocamentos o valor seria aceito. Por isso o assunto foi debatido antes de ser aprovado. Após o debate, com a aceitação de todos, a lei foi aprovada.

Serginho ressaltou que todos os valores estão disponíveis para a população no portal da transparência. É dever da população fiscalizar os seus representantes.

Ontem na Câmara de Vereadores foi aprovada a Campanha da Frente Parlamentar Contra O Crack e Outras Drogas, a campanha permite a maior comunicação com outros setores do governo para combater as drogas, que é um grande problema da capital paranaense. A Frente Parlamentar Contra o Crack e outras drogas têm trabalhado com a prevenção, análise de projetos e o fortalecimento da rede de ações contra as drogas dentro de Curitiba, além de contar com o apoio da Guarda Municipal, e ajudar em projetos de repressão nas praças da cidade orientando os cidadãos. Na Câmara de Vereadores já houve palestras, congressos e seminários analisando a importância das comunidades terapêuticas, e da saúde mental. Os parlamentares fizeram a

O Crack está no centro do projeto por ser altamente viciante, e matar rápido > Foto: Marco Gomes

Vereadores trocam farpas na Câmara Petry Souza

A aprovação do reajuste das diárias dos vereadores de Curitiba para 60% foi aprovada quase com unanimidade na Câmara. Os vereadores Pastor Valdemir Soares e o Professor Galdino, conversaram com a redação do LONA em meio a uma “troca de farpas”.

consultado o portal da transparência, ressaltando que os valores das viagens estão todos lá.

O Pastor disse não entender o motivo de o Galdino ter votado contra se ele é um dos que mais usou dinheiro para cobrir despesas de suas viagens.

Um dos criadores do projeto Serginho do Posto explicou que aprovaram a resolução que trata das diárias dos vereadores e servidores que viajam a trabalho, quando estão representando a câmara em outros municípios, gasto que cobre as diárias de hospedagem, o transporte e a alimentação.

Já, o Professor alega que “quem deve estar viajando é o Valdemir, por ter feito essa acusação”, o colega chamou -o, ainda, de preguiçoso por não ter

Quando questionado sobre o alto valor, Serginho disse que antes da correção feita pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), em

Professor Galdino foi um dos únicos que votou contra o reajuste > Foto: Pretry Souza


LONA > Edição 889 > Curitiba, 07 de maio de 2014

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GERAL

Um único momento pode mudar todo o rumo de uma vida Consumo de bebida alcoólica aliado à direção atingem amigos e familiares de pessoas envolvidas em acidentes automobilísticos Larissa Mayra

Leis Restritivas O primeiro país a criar uma lei restritiva para o consumo de bebida alcoólica e assumir o volante sob o efeito das mesmas foi os Estados Unidos, local aonde, atualmente, dirigir embriagado é crime punido com a prisão do motorista. Na União Europeia, a maioria dos países permite, em suas leis, um limite de 0,5g/l e 0,2g/l de álcool para motoristas sem experiência. No Japão, é considerado crime negar-se a realizar o teste do bafômetro. A punição é de três anos de reclusão, e pagamento de uma multa equivalente a R$ 8.120,00.

No dia 10 de janeiro de 2014, às 21h, no bairro Atuba, um motorista atropela um ciclista e o arrasta pendurado no vidro da frente do veículo por 6km consecutivos. Nessa mesma noite, Teresinha Bello Simioni, 64, assiste tranquilamente ao jornal da Globo em seu apartamento, no bairro Boa Vista. Diante da notícia, Teresinha entra em estado de choque, a senhora reconhece um dos nomes citados na reportagem: José Adir Simioni, seu irmão. No dia seguinte, jornais do país inteiro noticiam o ocorrido. Para os familiares de Marco Aurélio Sadlovski, de 31 anos, a dor da perda. Para os familiares de José Adir Simioni, a dor de ver a vida de uma pessoa querida ser destruída em apenas segundos. Preso em flagrante, José Adir é encaminhado à delegacia do Alto Maracanã, em Colombo, e depois transferido para a delegacia da mesma cidade. José Adir Simioni ficou detido por 80 dias. Durante esse tempo, emagreceu 15 kg em razão do ambiente hostil do presídio. Assim que conseguiu sua liberdade provisória ficou internado no Hospital Marcelino Champagnat. Teresinha foi visitar o irmão e, ao entrar no quarto indicado pela recepção, pensou ter errado a porta. A magreza e as rugas modificaram as feições de José Adir. “Tere, sou eu”, disse o irmão. Por fim, ela acabou retornando ao quarto, aonde permaneceu por mais de duas horas, conversando com Adir. “Ele nunca será o mesmo”, confessa a irmã.

Acidentes mudam a vida de familiares e envolvidos > Foto: Milton Jung

pela Secretaria de Estado da Segurança Pública do Paraná (SSP-PR), no ano de 2013, apenas na cidade de Curitiba, 191 pessoas foram vítimas de homicídio culposo de trânsito. Isto é, quando o motorista tira a vida da vítima sem a intenção de matar, em razão de uma imprudência, imperícia ou negligência ao volante. Se considerarmos todo o estado do Paraná, esse número cresce para 2.036 mortes no ano de 2013.

“José Adir Simiono nunca mais será o mesmo.”

Um hábito aceitável O impacto de um acidente de trânsito é enorme, e pode ser sentido em um número ainda maior de pessoas. De acordo com um relatório divulgado

Apesar das mortes e dos casos que causam comoção nacional, são poucas as pessoas realmente capazes de mudar os seus hábitos para criar um melhor convívio no trânsito. Na dissertação de mestrado sobre a “Percepção e comportamento de risco de beber e dirigir: um perfil do universitário de Curitiba”, a psicóloga Marina Cuffa realizou entrevistas com 386 estudantes universitários de Curitiba. Os resultado s são preocupantes, e apontam que 76,6% dos participantes relataram terem dirigido alcoolizados alguma vez

na vida. Em média, os entrevistados relataram terem assumido o volante 1 hora e 39 minutos após consumir bebidas alcoólicas, sendo que 35% esperaram menos do que 1 hora; e 25,7% não esperaram, e dirigiram logo após consumirem as bebidas.

No Brasil, as leis que restringem o consumo de álcool e direção sob os efeitos do mesmo foram mudadas diversas vezes. A Lei 11.705 de 19 de junho de 2008, conhecida como ‘Lei Seca’, determinou como infração de trânsito dirigir sob a influência de álcool ou substância psicoativa, qualquer que seja a dosagem. O motorista que se envolver em acidentes de trânsito, ou solicitado pela fiscalização, será submetido a testes de alcoolemia, como o exame do ar alveolar, conhecido como bafômetro, ou exame de sangue. O consumo de bebidas alcoólicas pode acarretar na suspensão da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) por doze meses e multa, além da retenção do veículo.

Sobre o aspecto da percepção de riscos de beber e dirigir, muitos entrevistados concordaram com afirmações como “para você, não existem riscos em beber e dirigir se você só tomou um copo de cerveja na refeição” e “para você, não existem riscos em beber e dirigir se a quantidade de álcool no seu sangue está dentro do limite legal”. Contrária a essa “brecha” para dirigir, a medicina aponta que mesmo as condições mais brandas de intoxicação pela bebida alcoólica afetam a capacidade de julgamento e percepção do indivíduo. Mesmo o menor consumo de álcool pode alterar a percepção do indivíduo > Foto: Luca Grieco


Curitiba, 07 de maio de 2014 > Edição 889 > LONA

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COLUNISTAS

Geni e o Zepelim Rodrigo Silva

Encontros casuais Assim que entrou na sala dos professores foi cumprimentar o velho amigo de trabalho. Clodoaldo Albuquerque, professor de Química, é um senhor reservado. Deve ter mais de 70 anos. Numa primeira olhada é fácil de identificar seu perfil. Organizado, não deve há muitos anos ir a uma loja de roupas e sapatos. Seu primeiro curso foi o de Letras. Nunca lecionou a disciplina. Preferia as ligações químicas e os experimentos. Estava sentado, com as mãos apoiadas na pasta de couro marrom, desgastada do tempo. Devia tê-la há

muito. “Bom tarde, professor! Como vai?”. “Educadamente bem. Por dentro destruído”. Segurou sua mão por mais por mais tempo que o normal. Processava a informação. Em primeiro lugar, a frase era estranha; em segundo, vinha de alguém que não combinava com aquele discurso. Largou a mão de Clodoaldo e sorriu lentamente. Fazendo um sim com a cabeça, afastou-se e foi pegar um café. Acima da mesa do cafezinho havia um mural de recados. Horários. Tabelas. Planilhas e avisos. Nunca os lia. Naquele dia, enquanto

segurava o copo, ficou pensando no que poderia ter passado na cabeça do velho amigo para me responder daquela forma. Clodoaldo fora enfático. Duro. Inclusive estava certo de que aquela frase era necessária. Por vezes, nas manhãs, quando chegavam à sala dos professores, conversavam. Discutiam, riam das capas dos jornais. Abriam a página dois e faziam alguns comentários sobre os colunistas do dia. Clodoaldo era sério, mas sempre fora sarcástico. Tinha o hábito de fazer um comentário e rir com apenas um canto da boca. Fumava demais. Tinha os dentes horríveis e um hálito insuportável. Por que é que estava pensando tudo isso? Algumas vezes, encontravam-se na Praça Rui Barbosa. Ambos compartilhavam do hábito de dirigir. Seguiam de ônibus. Onde será que ele mora. Desciam e caminhavam pela 24 de Maio. Sempre conversando. Agora lhe vem essa, nunca pensou nisso. Será que ele é casado. Vinte anos trabalhando com ele e não sabia isso. Ora, ele também é reservado, jamais

falaria de família. Alguns domingos, encontrava-o no Couto Pereira. Cumprimentavam-se e sentados assistiam ao jogo. Ao final, despediam-se. Que loucura. Esses anos todos e não sabe de nada. O que é que está fazendo aqui parado. Por que pensar nisso. Não é possível. No fundo, sinte-se culpado. Alguém que nunca conversou, mas sempre conversou com uma pessoa. Mas nada sabe dela. Como é possível. Fica pensando que no fundo, quando perguntamos a alguém se ela está tudo bem, só há uma resposta que desejamos ouvir. Um sim. Um balançar de cabeça que resuma tudo. Mas jamais alguém que despeje sobre nós seus problemas. Não. Jamais. De jeito algum. Isso seria inconveniente. Desagradável. Não há tempo para isso e muito menos paciência. O sinal bate. Ao lado, na mesa, Clodoaldo não está mais. Tem o hábito de chegar sempre antes dos alunos. Joga o copo no lixo. Pega o material e vai à sala de aula. A condição humana lhe enoja.

O junho que deixamos para trás Em junho do ano passado, um senso de indignação generalizado tomou conta do Brasil. O país foi sacudido pelas manifestações que começaram com um objetivo claro - a redução das tarifas de transporte público - mas que tomaram proporções gigantescas conforme as reivindicações se tornavam mais subjetivas. Você se lembra? Era o brasileiro se levantando contra toda essa corrupção e violência. Porém o ato de protestar havia se tornado maior do que as causas das manifestações de fato. Em plena Copa das Confederações, o “país do futebol” não estava nem aí com os resultados dos jogos, mas sim, preocupado com os gastos da Fifa em relação a Copa do Mundo, além do alto custo de vida, da precariedade dos serviços públicos e outras demandas acumuladas pela população depois de anos de passividade. Sociólogos, filósofos e analistas políticos ainda não sabem dizer o que realmente desejavam as multidões

que se reuniram em todos os estados do país. E, embora os partidos políticos explorem os acontecimentos a seu favor, afirmando que “estiveram nas ruas junto ao povo brasileiro”, os manifestantes diziam-se apartidários. Estava claro, também, de que não se tratavam de um protesto contra o governo federal, mas sim, contra a política tradicional que se pratica no Brasil, que favorece a corrupção, as diferenças sociais e a ignorância do povo em relação aos seus direitos e deveres. Mas e você, que foi a rua, sabia que a manifestação era contra você? Sabia que corrupção faz parte do cotidiano e já foi até institucionalizada no velho ‘’jeitinho brasileiro’’? Embora associados a partidos políticos, ações de prevaricação, suborno e perversão são praticadas diariamente por pessoas comuns, quando driblam normas e adotam manobras anti-éticas para conseguirem vantagens. Exemplos não faltam: pagamento de propina para se

Poética Emblemática

Julia de Cunto

livrar de multas, não devolver o troco que recebeu a mais no mercado, furar filas, desrespeitar as vagas de estacionamento para idosos e deficientes físicos, trabalhar sem carteira assinada para continuar recebendo o segurodesemprego, burlar cadastro do governo federal para receber o Bolsa Família, apresentar atestado médico falso para faltar ao trabalho ou à escola, roubar sinal de TV à cabo, entre tantos outros comportamentos em desacordo com as propostas das manifestações que ganharam as ruas. Então, um ano depois, dias antes da Copa do Mundo - que você assidua-

mente protestou contra - você finalmente se tocou que sair na avenida com suas certezas e palavras de ordem, foi, talvez, uma hipocrisia? Você vai agradecer ao feriado no dia do jogo do Brasil, você vai votar em políticos corruptos, e vai, ainda, praticar o jeitinho brasileiro. Você é parte da corrupção. Se você não mudar, o país não vai mudar. Mas não adianta todo mundo apenas demandar que “o poder” conserte as coisas. Quer mudar o país? Não esqueça de mudar a si mesmo, e pagar o preço da mudança como um adulto. O Brasil só irá pra frente quando o brasileiro deixar para trás os velhos hábitos de caráter duvidoso.


LONA > Edição 889 > Curitiba, 07 de maio de 2014

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ACONTECEU NESTE DIA

Ocorre a queda de Constantinopla, na Turquia Em 29 de maio de 1453 ocorreu a queda de Constantinopla, marcada pela conquista da capital bizantina pelo Império Otomano, sob o comando do sultão Maomé II. Isto marcou não apenas a destruição final do Império Romano do Oriente e a morte de Constantino XI Paleólogo, o último imperador bizantino, mas também a estratégica conquista crucial para o domínio otomano sobre o Mediterrâneo. A queda de Constanti-

nopla para os turcos otomanos foi um evento histórico que, segundo alguns historiadores, marcou o fim da Idade Média e o início da Idade Moderna na Europa, e também decretou o fim do último vestígio do Império Bizantino. Constantinopla é o antigo nome da cidade de Istambul, na atual Turquia. O nome da cidade era uma referência ao imperador romano Constantino, que tornou esta cidade a capital do Império Romano no ano de 330.

Restos da muralha de Constantinopla > Foto: Arquivo Wikimedia Commons

#PARTIU Teatro Uma Cama Para Três Comédia > 60 min > 16 anos Local: Teatro Lala Schneider Data: até 31 de maio > Horário: 21h Ingressos: sexta-feira R$30 > sábado R$40 Super-homens Comédia > 18 anos Local: Teatro Data: até 8 de junho > Horários: 18h e 20h Ingressos: R$30

Em Cartaz A Recompensa Comédia > 93min > 16 anos Praia do Futuro Drama > 100min > 16 anos Malévola Fantasia > 97min > 10 anos Sob a Pele Ficção > 108min > 16 anos

Exposição Homem de Couro O acervo do Museu da Fotografia Cidade de Curitiba mostra a série da artista argentina Maureen Bisilliat, feita por imagens do sertanista nordestino e suas vivências. Data: 27 de maio a 10 de outubro – de terças a domingos > Ingresso: gratuito Horário: 3ª a 6ª - 9h às 12h e 13h às 18h. Fins de semana e feriados - 12h às 18h. Local: Museu da Fotografia de Curitiba

Wagner Moura em um drama polêmico Wagner Moura interpreta Donato, um rapaz que trabalha como salva-vidas na Praia do Futuro, em Fortaleza, no Ceará. Seu irmão caçula, Ayrton (Jesuita Barbosa), tem grande admiração por ele devido à coragem demonstrada pelo mais velho ao se atirar no mar para resgatar desconhecidos. Depois de fracassar pela primeira vez em um resgate, Donato conhece Konrad (Clemens Schick), um alemão de olhos azuis resgatado pelo protragonista. O fato muda completamente sua vida. Agora, motivado a mudar de ares, Donato resolve recomeçar em Berlim, na Alemanha, junto com Konrad, deixando tudo para trás. Então, Ayrton, querendo reencontrar o irmão, parte para a Europa em direção ao irmão que tanto admira.

Pôster do filme > Imagem: Divulgação

Filme maléfico chega aos cinemas Baseado no conto da Bela Adormecida, de 1959, o filme conta a história do ponto de vista da vilã Malévola (Angelina Jolie), que é uma mulher movida pelo sentimento de vingança. Antes disso, Malévola tinha uma vida bucólica na floresta do reino. Até que o exército do Rei a invadiu, e ameaçou a paz e felicidade do local. Então, a protagonista torna-se a protetora da floresta, mas acaba sendo terrivelmente traída, o que transforma seu coração puro em rocha.

A personagem se transforma completamente, e fica irreconhecível. Para se vingar do Rei, o traidor, ela coloca um feitiço em sua filha, Aurora (Elle Fanning), fazendo com que a garota fique indecisa entre defender o reino dos humanos e o reino da floresta, do qual aprendeu a gostar. Quando Malévola percebe que Aurora está prestes a estabelecer a paz entre os mundos, a vilã é obrigada a tomar uma decisão.


Lona 900