Issuu on Google+

O

ún

ico

D

Curitiba, segunda-feira, 26 de setembro de 2011

jo

@jornallona

r do IÁ nalBr R lab as IO or il at

redacaolona@gmail.com

ór

Ano XII - Número 650 Jornal-Laboratório do Curso de Jornalismo da Universidade Positivo

Curitiba, segunda-feira, 26 de setembro de 2011

lona.up.com.br

Saúde brasileira: psicologia e retrato

A saúde pública está relacionada com o desenvolvimento efetivo do Brasil. Somos um país capaz de produzir medicina de Primeiro Mundo e incapaz ao entregar esses avanços à população. Somos referência em diversas áreas técnicas, entretanto muitos hospitais amargam filas para atendimento.Um dos grandes desafios de nosso país - e de nosso tempo - é conciliar crescimento econômico com aumento do bem-estar social.

HIV Pág. 3 Anorexia e Bulimia Pág. 4 e 5 Planos de saúde Pág. 6 Diabetes infantil Pág. 7 Câncer infantil Pág. 8

Especial |

SAÚDE

Aline Lima

io


2

Curitiba, segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Editorial

Opinião

Um imposto a menos, para os ricos Rodrigo Cintra

O jornalismo tem um papel preponderante nas temáticas relacionadas à saúde: bem informar, conscientizar, desenvolver campanhas, intermediar diálogos, antecipar movimentos, promover o debate, identificar concepções, tensões existentes com a saúde coletiva e abrir espaço para a contradição – porque a saúde necessita de muita reflexão crítica e de responsabilidades redimensionadas. Acima disso tudo, o jornalismo é um humanismo, o preenchimento do vazio informativo através da sensibilidade. Um jornal-laboratório como o Lona demanda encargos ainda maiores quando trata de educação, cultura e saúde – assuntos muitas vezes intrinsecamente conectados. Somos acadêmicos em desenvolvimento pleno de suas capacidades. Uma pauta sobre crianças com câncer exige de nós uma sensibilidade humana especial, muitas vezes anterior, a capacidade individual de lançar um olhar delicado sobre grupos diante de situações extremas, humanizá-los e dignificá-los. (Não que isso seja requisito dispensável em outras editorias.) As consequências da Revolução Industrial trouxeram para a dinâmica diária do jornalismo os procedimentos em série, o organograma, a produção de resultados e o viés capitalista definitivo. (Além de reconhecermos que a mídia determina padrões prejudiciais à saúde.) Entretanto, assuntos como diabetes em crianças, anorexia, bulimia e AIDS pedem bem mais do jornalista e das organizações. Pedem a reflexão sobre discursos que são privilegiados ou silenciados, a busca incessantes do espírito humano mais profundo: o olhar irmão sobre o outro. Uma boa leitura a todos.

Expediente Reitor: José Pio Martins | Vice-Reitor e Pró-Reitor de Administração: Arno Gnoatto | Pró-Reitora Acadêmica: Marcia Sebastiani | Coordenação dos Cursos de Comunicação Social: André Tezza Consentino | Coordenadora do Curso de Jornalismo: Maria Zaclis Veiga Ferreira | Professores-orientadores: Elza Aparecida de Oliveira Filha e Marcelo Lima | Editores-chefes: Daniel Zanella, Laura Beal Bordin, Priscila Schip O LONA é o jornal-laboratório do Curso de Jornalismo da Universidade Positivo. Rua Pedro Viriato Parigot de Souza, 5.300 Conectora 5. Campo Comprido. Curitiba -PR CEP 81280-30 Fone: (41) 3317-3044.

A Câmara dos Deputados chegou a uma decisão anteontem sobre um fantasma que parecia assombrar os brasileiros: a nova CPMF. Batizado de CSS (Contribuição Social da Saúde), o projeto foi inviabilizado quando os deputados aprovaram, por 355 a 76, uma sugestão do DEM que retira a base de calculo do imposto, impedindo que seja aplicado. Trocando em miúdos, isso quer dizer que não teremos mais que pagar o CSS. Isso é bom? É, mas, na prática apenas para uma minoria de brasileiros, a mais rica. O imposto, que deveria gerar renda a ser usada em gastos com saúde pública,

era criticado por políticos da base aliada e pelos opositores desde a sua criação com as alegações de que era desnecessário e que o brasileiro não queria pagar mais um imposto. Mas sua aplicação, na verdade, seria apenas entre as classes B e A, uma vez que o imposto incenderia apenas nos ganhos de quem tivesse renda individual mensal maior que R$ 3080 – grupo no qual não se enquadram os jornalistas, por exemplo. Não foi toa que o PT era o único partido a favor da criação do imposto durante a votação da proposta. Com o fim da discussão sobre o imposto, os gover-

nadores de 14 Estados e representantes de outros sete se reuniram ontem com o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), para discutir formas de financiar a saúde. A criação de um imposto para arrecadar dinheiro para financiar a saúde, no entanto, não foi descartada ainda. Entre as sugestões, está uma do próprio Maia, para que a taxa seja aplicada a apenas grandes fortunas. Outra sugestão prevê a reversão ou a criação de impostos sobre produtos que possam causar problemas de saúde, como o cigarro e as bebidas alcoólicas, assim como deveria ser.

Sicko Daniel Zanella

Em 2007, o polêmico cineasta norte-americano Michael Moore lançou “Sicko – S.O.S. Saúde”, documentário investigativo sobre o paradoxal sistema público de saúde dos EUA: a maior economia do mundo não é capaz de oferecer à sua população um plano de saúde gratuito que possa atendêla quando ela não tem recursos para pagar. Entre diversas incongruências e relatos de situações absurdas, o cineasta aponta as imensas dicotomias do próprio sistema capitalista e de como os planos de saúde enxergam os clientes norte-americanos – naquele tom peculiar de autores verborrágicos e com um pé e meio no ra-

dicalismo e manipulação. Com direito à ida ao Canadá e Cuba. Em 2009, Barack Obama, enfim, conseguiu aprovar no Congresso um plano nacional de saúde pública, mas com significativa perda de envergadura política e abertura de severas concessões. É o jogo. Em relação aos EUA, Brasil é um bom tanto mais adiantado em políticas públicas de saúde. O SUS (Sistema Único de Saúde) foi criado em 1988, mas é símbolo da ineficácia, corrupção e demora em atendimentos. Muitos hospitais nacionais estão sucateados e incapazes de atender seus pacientes

com a tecnologia necessária. Pergunte a recepcionista do postinho quanto tempo demora para agendar uma consulta com um ortopedista. Mas há nesse histórico alguns pontos positivos. O Brasil foi o primeiro país a derrubar as patentes dos medicamentos de combate à AIDS e a proporcionar aos soropositivos por preços acessíveis os famosos coquetéis. A situação da economia brasileira é favorável e investimentos mais amplos podem adequar a saúde nacional ao seu tempo e às suas necessidades. Entretanto, sabemos das dificuldades políticas de aplicação correta de recursos.


3

Curitiba, segunda-feira, 26 de setembro de 2011

ESPECIAL SAÚDE

Curitiba possui mais de 10 mil portadores do vírus HIV

Acesso a coquetéis evoluiu muito nos últimos anos, permitindo o tratamento acessível de milhares de soropositivos. Larissa Nichele

O último Boletim Epidemiológico, de 2010, mostrou que a incidência de AIDS na cidade de Curitiba caiu 75% em dez anos. Enquanto em 2010 a taxa estava em 10,6 pessoas contaminadas para cada grupo de 100 mil, em 2000 eram 41,7 por 100 mil. Essa queda demonstra um intenso avanço nas ações de prevenção da doença. No Paraná, estima-se que 21 mil pessoas contenham o vírus enquanto no Brasil, há quase 600 mil casos registrados de AIDS até junho de 2010. De acordo com os últimos dados, a região Sul do país destacou-se pela maior taxa de detecção da doença em 2009, 12,6 casos por 100 mil habitantes. Os novos dados também demonstram uma maior incidência de casos entre os mais jovens, de 13 a

24 anos, decorrentes das inúmeras relações sexuais sem prevenção e com parceiros desconhecidos. Chamou atenção a redução da incidência de casos, em 44%, nas crianças menores de 5 anos, comparando o intervalo de 10 anos entre 1999 e 2009. Vários estados do país apresentaram taxa de incidência menor que 1 caso por 100 mil habitantes. “A Aids é uma questão de saúde pública que envolve, direta ou indiretamente, toda a população do Brasil, não apenas a população sexualmente ativa. Não podemos negar que os números do último boletim epidemiológico já demonstram uma melhora em alguns setores, porém ainda há muito o que fazer”, afirma a psicóloga Roberta Lunardon. Transmissão O vírus do HIV pode ser transmitido de maneira sexual, sanguínea e pelo leite materno, tendo como fatores

de risco para essa transmissão variações frequentes de parceiros sexuais sem uso de preservativo; utilização de sangue sem o controle de qualidade; uso compartilhado de seringas e agulhas não esterilizadas; gravidez em mulher infectada pelo HIV e recepção de órgãos ou sêmens de doadores infectados. O tratamento é realizado pelo chamado ‘coquetel’, que recebeu vários avanços nos últimos anos. Além disso, a partir de 1995 o Ministério da Saúde recomenda a utilização de terapia combinada com duas ou mais drogas antiretrovirais. Segundo dados do Ministério da Saúde, cerca de 200 mil pessoas recebem regularmente os remédios para tratar a doença. Vale ressaltar que o Brasil é um dos poucos países que financia integralmente a assistência ao paciente com AIDS, com uma estimativa de gastos, de 2% do orçamento nacional.

COA oferece teste rápido e gratuito O Centro de Orientação e Aconselhamento (COA), de Curitiba, promove a testagem rápida de HIV. O teste é realizado por agendamento ou encaixe, com atendimento de segunda a sexta feira das 7 às 18 horas. Qualquer pessoa tem a possibilidade de fazer o exame, saindo com o resultado dentro de 1h30min. Dados do próprio serviço mostram que de janeiro a 23 de agosto, deste ano, foram atendidas 3267 pessoas, sendo que 217 delas obtiveram resultado positivo no exame. Deste total, 7.64% são homens

e 4.5% são mulheres. A autoridade sanitária do local, Dulce Blitzkow, diz que promove palestras em empresas a fim de incentivar a população a realizar o exame. O diagnóstico da infecção pelo HIV é feito a partir da coleta de sangue. Além do COA, os testes gratuitos são disponibilizados gratuitamente em todos os postos de saúde do SUS e na UFPR, para os alunos. Já em clínicas particulares são cobrados, em média, R$ 150. Os exames podem ser feitos inclusive de forma anônima.

Acoa apoia portadores de HIV há 16 anos Divulgação

A Associação Curitibana dos Órfãos da AIDS é um espaço que, há 16 anos, abriga menores, de 0 a 15 anos, que sofrem do vírus do HIV. Atualmente a casa atende 30 crianças e adolescentes que foram abandonadas, ou possuem mães falecidas ou então, famílias sem condições de dar sequência ao tratamento da doença. A voluntária do local, Joice Raimann, explica que as crianças são encaminhadas pelo conselho tutelar e que a casa sobrevive apenas por doações, além de uma verba bimestral concedida pela Fundação de Ação Social (FAS). A equipe é formada por 17 funcionários, além dos prestadores de serviço e voluntários que constituem a administração do local. Por conta das tarefas diárias, como escola e tratamento médico, as visitas são pré agendadas e realizadas somente durante os finais de semana, aos sábados é destinada a comunidade e aos domingos às famílias. Além da casa de apoio, a Associação oferece cestas básicas, roupas e medicamentos a 70 famílias cadastradas no Programa Social e que possuem seus membros (pai e mãe) com condições de terem seus filhos junto de si, morando em seus domicílios.


4

Curitiba, segunda-feira, 26 de setembro de 2011

ESPECIAL SAÚDE

Anorexia e bulimia, um modo de viver Jovens doentes assumem transtornos alimentares como formas de se obter um corpo perfeito Marcos Monteiro

Priscila Schip

como medicações, pelo medo de engordar. Números

“Não é uma coisa que você consiga pensar assim ‘ah eu quero ser magra’, não. É que eu preciso ser, eu preciso ser magra. Se eu não for magra eu vou morrer, porque isso é minha vida, é a base”. Esse era o pensamento de Clara* quando estava no auge da anorexia. Clara tinha 16 anos quando teve anorexia e 18 quando sofreu de crises de bulimia. Na época, ela sabia que estava doente, sabia e se orgulhava. Embora a anorexia seja um transtorno alimentar bastante grave, Clara não o encarava como doença e sim como uma forma de se chegar ao corpo ideal. Os transtornos alimentares, anorexia e bulimia, têm sua origem intimamente ligada à busca pela forma perfeita. Inseridos em uma sociedade pautada pelo consumismo e por uma espécie de ditadura da beleza, os distúrbios ultrapassam o conceito de doença para serem tomados como estilo de vida. Anorexia e bulimia A anorexia é o transtorno alimentar em que o paciente deixa de se alimentar ou se alimenta muito pouco em busca da magreza. Os anoréxicos costumam praticar muito exercício e não admitem estarem magros mesmo quando o seu peso está bastante inferior ao ideal. Já a bulimia é o transtorno alimentar caracterizado por episódios recorrentes de ingestão compulsória de grande quantidade de alimento, em que após esses episódios, o paciente tenta vomitar e/ou evacuar o que comeu, através de artifícios

De acordo com o Ministério da Saúde, a anorexia atinge cerca de 0,5 a 1% da população, enquanto a bulimia atinge de 1 a 4%. Porém esses números não adotam caráter real, já que quem sofre dos dois distúrbios não os assumem como doença. O que aponta para possíveis números bastante superiores como é o caso dos dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) de doze anos atrás, que revelam que nos Estados Unidos uma em cada 100 mulheres de 12 a 18 anos apresentava sinais de anorexia. Enquanto no Brasil, a proporção era um pouco inferior, mas ainda alarmante, uma em cada 250 adolescentes. Em 2002, uma pesquisa realizada em Belo Horizonte (MG) com 1450 entrevistados sendo eles alunos do ensino médio de escolas públicas e privadas indica os seguintes resultados: 46% sentem-se insatisfeitos com a imagem e 26% fazem algum tipo de dieta, cerca de 17% dos adolescentes provocam vômito e 8% fazem uso de diuréticos ou laxantes. Os números da pesquisa apontam para o grau de descontentamento que o adolescente tem consigo mesmo. E que esse descontentamento está intimamente ligado a questão de peso. É nesse cenário que os transtornos alimentares, anorexia e bulimia, se apresentam. Histórico O conceito que tomamos hoje, belo é o que é digno de admiração, porém a referência do que é tomado como belo é

bastante mutável. Durante os séculos tanto a beleza masculina como a feminina sofreram grandes alterações. No século XVI, por exemplo, uma mulher bela assumia um rosto delicado e bem desenhado, um colo bonito e cintura fina. Nessa época um dos métodos para se adequar ao conceito de belo era o uso do espartilho. No século XVIII o homem considerado belo era fortemente associado à ostentação. Nessa época o uso de adornos como perucas e saltos eram bastante comuns. Porém, com a chegada da Revolução Industrial no século XIX, os homens deixam de buscar o rótulo de belos para buscar o de práticos. A vaidade passa a ser vista como característica predominantemente feminina. No decorrer dos séculos a

beleza feminina sofre mais alterações passando a se valorizar o quadril e as pernas, que antes eram vistos apenas como pedestais. Mais recentemente, o corpo da mulher passa a ser admirado como um conjunto (busto, cintura, quadril e pernas). No Brasil e em grande parte do mundo ocidental durante as décadas de 40 e 50 o padrão estético eram quadris enormes, curvas sinuosas e cinturinhas de pilão, como de Marilyn Monroe e Elisabeth Taylor. Mas a partir dos anos 60 o mundo da moda trouxe o padrão da modelo Lesley Hornby, mais conhecida como Twiggy. A modelo de 1,67m de altura e apenas 42kg lançou o padrão das magérrimas que ultrapassou as passarelas. O conceito de beleza ainda pode variar de pessoa para pes-

soa, porém o meio em que estão inseridos assume grande influência. Atualmente, o padrão de beleza ainda permeia a magreza. “Hoje em dia tem um culto a magreza, né? Então se você é magra você é legal. E como aquilo ali estava tomando conta de mim e eu recebia um reforço muito grande, isso era apoio. Tiveram vários dias em que eu ficava pensando se valia a pena, mas ai sempre tinha alguém me dizendo que eu estava linda magrinha”, relembra Clara. Mídia A mídia reforça o argumento de que a magreza é o estilo de corpo ideal apresentando modelos e artistas cada vez mais magros. Muitos desses modelos e artistas são considerados ídolos

7


5

Curitiba, segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Marcos Monteiro

dos adolescentes que, por sua vez, sonham em se assemelhar com eles. Na busca dessa semelhança, dietas e outros métodos de emagrecimento entram no dia a dia desses adolescentes. Em uma sociedade que vive com a máxima “Para ser belo, precisa ser magro”, revistas femininas incentivam e ensinam como chegar nesse padrão desejado. Uma enxurrada de regimes e dietas milagrosas ganham as capas das publicações e a rotina de uma parcela da população. A psicóloga Denise Cerqueira trabalha com transtornos alimentares há 20 anos e acredita que a sociedade, de uma forma geral, contribui para os distúrbios. “Toda a sociedade te ajuda a ficar anoréxica porque eles só querem gente magra. É ligar a televisão e ver essas modelos passando sempre, nas novelas todo mundo é magro. Então sem perceber a gente vai se condicionando a só gostar de gente magra. Gorda em Hollywood ou é empregada, ou a má, ou então a personagem engraçada. Nunca é a mocinha”. Segundo a psicóloga, no começo elas emagrecem dois, três quilinhos só que o problema é quando de três passa para 13 e pra 14 e aí ninguém mais sabe o que fazer. Estilo de vida Adolescentes, em sua maioria meninas, encaram os dois distúrbios como estilos de vida.

BELING, Maria Tereza. UFMG, 2008

As que “praticam” anorexia são “carinhosamente” chamadas de “Ana” e as “praticantes” de bulimia se denominam “Mia”. Essas adolescentes, Anas e Mias, têm o conhecimento de que os transtornos podem levar ao óbito, e nem isso as fazem parar. Nitidamente há uma desinformação sobre o processo que causa a morte, e por se tratar de uma concepção bastante abstrata, é vista com distância. Elas pensam o dia todo em comida. Passam o dia arrumando formas de esconder que não estão comendo, em como esconder o quanto estão emagrecendo. Escrevem diários com o que comeram no dia e apoiam umas às outras para conseguirem manter suas dietas desumanas. Costumam se isolar. Não querem ouvir que estão erradas. Viver em sociedade é ficar vulnerável. Clara deixou de lado tudo, estudos, amizades, parou de sair, parou de fazer tudo em função daquilo ali. “Tudo que você faz envolve comida, era assim que eu pensava. Ou seja, você vai no cinema, mas na verdade você está indo para comer pipoca, você vai na casa das suas amigas porque na verdade quer comer pizza, então não vou sair pra não comer, pra não estragar minha dieta”. Cura De acordo com a psicóloga Denise, elas só desistem desse

estilo de vida quando já perderam muita coisa. “Os dentes ficam fracos, os cabelos caem, nasce uma penugem sobre a pele, os ossos do quadril impedem que elas possam dormir. Elas não conseguem sentar na cadeira da escola porque cutuca, o osso cutuca. Dormir de bruço esqueça porque o osso da bacia incomoda”. Depois de muito sofrerem elas concordam em fazer tratamento. Mas a cura é como de qualquer transtorno psiquiátrico, uma depressão, um transtorno obsessivo compulsivo, uma síndrome do pânico, nenhuma dessas coisas fica completamente curada. O que isso quer dizer? Você fica curada da doença, mas em situações estressantes, a doença pode voltar. “Quem teve a síndrome do pânico, perdeu o emprego, pode ter pânico. Quem teve anorexia e perdeu o emprego,

pode retomar a anorexia. Tem cura, mas é recorrente. Tem que cuidar a vida inteira”. O maior problema é que o índice de óbito em anorexia é de quase 30%. Então em cada 100 meninas quase 30 morrem. Elas normalmente morrem do coração. O coração é a primeira coisa que fica fraca. Além do coração, as anoréxicas fazem uma coisa que a gente chama de autofagia. Como o corpo fica sem nenhum tipo de gordura para consumir, nenhum tipo de glicose, ele começa a consumir os órgãos internos, ficando bastante lesionados. “Só que se ela tiver um atendimento médico, psicológico, e nutricional certinho, ela sobrevive. Eu nunca perdi nenhuma paciente”. *Clara é um nome fictício. A equipe do Lona optou por usar deste artifício para preservar a identidade da fonte.


6

Curitiba, segunda-feira, 26 de setembro de 2011

ESPECIAL SAÚDE

Ministério da Saúde cobra ressarcimento para tratamentos feito em rede pública

Neste ano a ANS já arrecadou R$ 32,6 milhões em ressarcimento junto às operadoras dos Planos de Saúde

Luisa Muraro A relação dos planos de saúde, pacientes e rede pública está muito perturbada nos últimos meses. A Agência Nacional de Saúde Suplementar, a ANS, passará a cobrar dos planos de saúde um ressarcimento se seus pacientes usarem atendimento de alta complexidade da rede pública, inclusive tratamento para câncer como quimioterapia e radioterapia e até acompanhamento psiquiátrico. Mas o dinheiro não voltará aos próprios pacientes e serão arrecadados e destinados ao Fundo Nacional de Saúde, que serão aplicados em algumas ações estratégicas. A data para essa medida ser colocada em prática não está definida. Ainda neste mês a ANS já tinha estipulado que o ressarcimento por internamento fosse realizado, somando até agora R$ 20.917. Já em todo

ano, depois de todas as exigências para com as operadoras o Ministério da Saúde tem “em caixa” R$ 32,6 milhões. A polêmica que se desenrola durante o ano de 2011 é dos preços que os médicos recebem por cada consulta, que são muito baixos, o tempo de espera para marcar uma consulta por um plano de saúde que pode demorar meses, enquanto para marcar uma particular pode ser para o dia seguinte. Uma das principais reclamações também é quanto aos serviços obrigatórios, uma cirurgia reparadora após uma cirurgia de estômago, onde a pessoa perde muitos quilos, é facultativo, sendo que cada plano de saúde usa seu critério para cobrir ou não a cirurgia. As medidas que estão sendo tomadas a favor do melhor atendimento aos pacientes são intermediadas pelo Ministério da Saúde, o último acordo feito foi entre médicos e anestesistas e o Plano de Saúde

Unimed, na metade do mês de agosto, que foi intermediado por uma Promotoria de Justiça. No acordo a Unimed reajustou a tabela de honorários e em contrapartida os médicos continuam recebendo os honorários pela própria operadora. Os médicos ainda exigiram que fossem fixados valores específicos para cada procedimento, dependo do seu porte. Os pacientes esperam que a situação seja resolvida o mais breve possível, tanto quanto os médicos, que querem ter uma condição melhor de trabalho, com melhores valores a serem pagos e valorização do seu trabalho. Hoje são cerca de 46 milhões de brasileiros que possuem planos de saúde para o atendimento médico, hospitalar e ambulatorial. Talvez isso deva envolver mais o governo, que como o serviço de saúde público não esteja satisfatório os brasileiros tem que procurar alternativas.

Como funcionam os planos de saúde - Consultas, exames e tratamento que estiverem na lista “Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde”, separados conforme cada tipo de plano de saúde. Estão na lista, por exemplo, consultas médicas, visitas aos pacientes internados, acompanhamento clínico, exames, anestesias e tantos outros. A lista tem 90 páginas de serviços que os planos de saúde são obrigados a fazer. - Todos os planos tem direito a internação hospitalar do tipo obstetrícia ou não. Os

pacientes devem analisar no contrato qual o tipo do seu plano e qual a rede credenciada, incluindo os hospitais, laboratórios e médicos. - Especificamente sobre os hospitais, sua operadora só poderá descredenciá-los em caráter excepcional. Nesses casos, é obrigatório substituir o hospital descredenciado do plano por outro equivalente e comunicar essa mudança ao consumidor. - Quanto ao período de utilização e carências, que é o tempo que você terá que es-

perar para ser atendido, deve estar presente no contrato. Existem algumas situações que são previamente estipulados por lei. Casos de urgência, acidentes, risco, são de 24 horas. Partos são de 300 dias. Doenças de lesões pré-existentes são de 24 meses. Demais situações são de 180 dias. Sendo esses os limites máximos, podendo ser exigido períodos menores. - Os prazos máximos para atendimentos. Consulta básica, sete dias. Consulta especializada, 14 dias. Urgência e emergência, deve ser imediata.

Você sabe o que é a ANS? A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) é a agência reguladora vinculada ao Ministério da Saúde, responsável pelo mercado de planos de saúde no Brasil. A ANS faz um conjunto de medidas e ações do Gov-

erno que envolvem a criação de normas, o controle e a fiscalização do mercado explorados por empresas para das segurança ao interesse público, promovendo sua defesa na assistência suplementar à saúde. Departamento de Arte


7

Curitiba, segunda-feira, 26 de setembro de 2011

ESPECIAL SAÚDE

Cresce o diabetes infantil no país A doença muda a rotina das crianças, que precisam controlar a alimentação e encarar um tratamento agressivo

Fernanda Cercal

O aumento da obesidade, associado aos maus hábitos alimentares e ao sedentarismo fizeram crescer o número de crianças diabéticas no Brasil. A Organização Mundial da Saúde revelou em uma pesquisa que, no país, mais de dez milhões de pessoas têm a doença, e o número de crianças diabéticas corresponde a cerca de 10% dos casos. O diabetes é uma disfunção crônica caracterizada pela deficiência parcial ou total do pâncreas na produção de insulina, e pela dificuldade do organismo em utilizar o hormônio de forma correta. Quando isso acontece, a taxa de glicose no sangue fica elevada e a falta de insulina faz com que o diabético careça de energia para realizar as atividades diárias. Esse é um dos principais sintomas do diabetes infantil – o cansaço e indisposição frequentes não são comuns em crianças. Foi o que percebeu a professora Ana Paula Belo, que logo procurou um médico para o seu filho de quatro anos, Gustavo Belo. “Ele ficava muito cansado depois de brincar, bebia muita água e urinava bastante. Com os exames nós descobrimos que o Gustavo estava com diabetes do tipo 1”. Tipos de diabetes Existem dois tipos de diabetes. O tipo 1 é o mais comum entre crianças de 5 a 8 anos e nos adolescentes, nessa forma da doença é necessária a injeção de insulina para regular a glicose do organismo. O tipo 2 é hereditário, e aparece quando as células têm resistência à ação da insulina. Os especialistas alertam para o crescimento desse tipo de diabetes nas crianças - que é consid-

erado como diabetes de adultos – por causa do aumento do sedentarismo e da má alimentação. Além desses sintomas, é preciso que os pais fiquem atentos quando notarem que a criança sente muita fome e ao mesmo tempo perde peso, tem cicatrização lenta, tremores e frequentes câimbras e formigamentos. Rotina mudada Hoje com doze anos, Gustavo Belo aprendeu a conviver com a doença e principalmente com o tratamento agressivo. Alguns cuidados são indispensáveis aos diabéticos como tomar os medicamentos corretamente e manter uma alimentação balanceada. “Quando eu descobri a doença tive que abrir mão de muitas coisas na minha alimentação. Por exemplo, antes eu gostava de pegar uma bolacha recheada no armário e comer, hoje eu não posso. Eu tenho que medir a minha glicose sempre, e se for preciso tomar a insulina para poder comer”. Outro hábito importante para os diabéticos são as atividades físicas, segundo a endocrinologista infantil Ana Paula Freitas, - “em muitos casos pode-se diminuir bastante a quantidade de insulina nos pacientes que fazem atividade física regular. Em alguns, é possível até tirar alguma das doses, principalmente aquela próxima do horário dos exercícios.” Essa melhora é confirmada por Gustavo, que aderiu a prática de atividades físicas e teve bons resultados. “Antes eu não praticava nenhum esporte, agora eu inclui essa atividade no meu diaa-dia, e por isso minha taxa de glicose ficou mais baixa do que costuma ser”. Os pais devem ficar atentos aos cuidados

Como as crianças diabéticas tornam-se dependente dos pais é importante que os seus responsáveis aprendam a tomar alguns cuidados. Os pais devem ensinar a criança a falar para um adulto sempre que sentir algo diferente em seu corpo. Além disso, é importante que conversem com os professores para que eles fiquem atentos ao seu filho durante a aula. Quando a criança tem hiperglicemia o ideal é que ela consuma bastante água, chás de ervas e sucos dietéticos para evitar a desidratação. Além de se alimentar bem para manter energia no corpo. Os pais também devem aprender a ler os rótulos dos alimentos para saber o que estarão fornecendo para a criança, e dar preferência sempre aos alimentos diets, que são próprios para os diabéticos. Quanto à lancheira das crianças diabéticas, elas devem sempre ter sanduíches naturais, frutas, barras de cereais diet e sucos diet. A escola também tem o importante papel de apoias os alunos diabéticos que precisam resistir aos doces e refrigerantes da cantina. Prevenção A prevenção da doença pode ser feita desde o nascimento. O aleitamento materno, o cuidado com alimentos desnecessários nessa fase e hábitos alimentares saudáveis com uma dieta rica em fibras, pobre em açúcares e dividida em seis refeições diárias podem diminuir as chances de contrair a doença. Direito do diabético Para o tratamento do diabetes, o fornecimento de medicamentos e insumos é gratuito, garantidos pela Constituição Federal. Para saber onde e como retirar, as quantidades ou tipos fornecidos, basta dirigir-se a uma unidade do SUS.

APAD A Associação Paranaense do Diabético Juvenil (APAD) é uma entidade civil filantrópica com o objetivo principal de auxiliar na melhor qualidade de vida do diabético. Aos diabéticos carentes a APAD oferece: atendimento nutricional, psicológico, oftalmológico, além de endocrinologista e orientação de cuidados com os pés. Para estes e todos os

demais: educação em diabetes, palestras, cursos de culinária e outros. A APAD dispõe de uma farmácia especializada e um empório com alimentos e bebidas diet. Não havendo restrição para nenhum tipo de público. O horário de atendimento é de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h, e aos sábados das 9h às 13h.

Marcos Monteiro


8

ENSAIO FOTOGRÁFICO

Curitiba, segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Além do câncer Por Aline Lima O câncer afeta milhares de crianças em todo o mundo. Segundo o Ministério da Saúde, cerca de nove mil casos são descobertos em crianças no Brasil todos os anos. A neoplasia pode se desenvolver em qualquer parte do organismo. Em crianças e adolescentes é mais comum o desenvolvimento de leucemias, tumores no sistema nervoso central e linfomas. Apesar do câncer ser uma doença dolorosa, de difícil tratamento e que exige disciplina diária para facilitar a recuperação, as crianças não deixam afetar o seu lado infantil. A APACN (Associação Paranaense de Apoio à Criança com Neoplasia), instituição filantrópica, é um ambiente que abriga crianças que necessitam fazer tratamentos médicos, mas moram longe dos hospitais onde tratam a doença. Em uma visita na APACN, foi possível constatar que mesmo com as difíceis rotinas de tratamentos e formas de recuperação, elas ainda podem brincar e desenvolver sua criatividade. O artista plástico Eduardo Gomes Dalazen faz trabalho voluntário com as crianças que passam um período na instituição, trabalhando com artes, pinturas e desenhos. Ele teve câncer há dois anos e hoje estimula as crianças a desenvolverem suas capacidades, dando liberdade para expressarem seus sentimentos. Também acredita na importância de se atentar ao lado mais “criança” das garotas e garotos com quem trabalha. “Acho que crianças são muito sonhadoras, e precisam, como qualquer outra criança, de alegria, de brincadeiras, de risos, de se sentirem crianças normais, pois essa doença é passageira e logo vão conseguir o transplante que é o sonho delas, dentre outros muitos outros, mas no momento é esse o maior desejo delas, eu escutei isso muitas vezes.” Janete dos Santos é mãe de Caroline Santos, 7 anos, que tem leucemia. Janete explicou que sua filha já era um pouco madura, mas que com a doença, não deixou de ser criança, continua correndo, pulando, mesmo quando o tratamento que ela sofre exija um pouco mais de repouso. Explica que as crianças que possuem câncer e convivem com Caroline são muito espertas. Nessa visita feita à instituição, localizada na capital do estado, foi possível perceber que, além das dificuldades que as crianças passam desde cedo, elas não deixam afetar o que possuem: sua alegria, seu bom humor, sua energia e, principalmente, sua esperança de continuarem vivas.


LONA 650 - 26/09/2011