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Curitiba, sexta-feira, 16 de setembro de 2011

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Ano XII - Número 644 Jornal-Laboratório do Curso de Jornalismo da Universidade Positivo

Curitiba, sexta-feira, 16 de setembro de 2011

lona.up.com.br

Jornal Lona

Fórum discute a educomunicação como agente de transformação social Saúde Felipe Gollnick

Angelina Caron: uma cidade-hospital às margens da BR-116. Pág. 5

Crítica

Análise de “Taxi Driver”, de Martin Scorsese, por Nathalia Cavalcante. Pág. 7

Colunas

Jogo ruim... Brasil 0 x0 Argentina, por Marcelo Fontinele. Ecos do 11 de Setembro, por Thomas Mayer Rieger. A Semana de Comunicação prosseguiu ontem de manhã com o I Fórum de Educomunicação, série de debates e conferências organizadas pela Central de Notícias dos Direitos da Infância e Adolescência (Ciranda). No período da tarde, mais de duzentas pessoas participaram das dez oficinas do dia. Pág. 3

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Programação

Confira os eventos da Semana de Comunicação. Pág. 8

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Curitiba, sextta-feira, 16 de setembro de 2011

Editorial

Padrão de qualidade Elisa Schneider

A crise do jornalismo impresso não é culpa da internet. O Jornal do Brasil parou as suas rotativas há quase um ano e a internet pouco teve com isso, exceto por ter abrigado os últimos espólios do periódicos, agora somente lido em portal virtual. O JB era um periódico afundado em crises administrativas desde a década de 1980 e não fechou as portas por conta do avanço das “novas mídias” – que não são nada mais do que antigas ideias com tecnologia suficiente para serem implantadas. O Estado do Paraná, irmão discreto e mais elitista da Tribuna do Paraná - divulgador local do famoso bordão “espreme que sai sangue”, oriundo do precursor sanguinolento Notícias Populares -, também encerrou sua circulação impressa para se ancorar num endereço virtual, em outro caso de impresso com densa dificuldade de se inserir como veículo de concorrência a supremacia da Gazeta do Povo na região. Adendo: não deixa de ser sensato lembrar que as tiragens da Gazeta também sofreram severo impacto nos últimos dez anos, apesar do veículo seguir como o periódico referencial do estado, principalmente quando envereda para o jornalismo investigativo. É preciso cuidado com o senso comum e o espírito apocalíptico agregado gratuitamente nas discussões sobre o futuro do impresso. A crise é interna, de intelecto e de identidade. É preciso de renovação e da quebra de diversos paradigmas, acabar com os fragmentos de atraso doperíodo em que o jornalismo impresso era onipotente. Não é mais.

Expediente Reitor: José Pio Martins | Vice-Reitor e Pró-Reitor de Administração: Arno Gnoatto | Pró-Reitora Acadêmica: Marcia Sebastiani | Coordenação dos Cursos de Comunicação Social: André Tezza Consentino | Coordenadora do Curso de Jornalismo: Maria Zaclis Veiga Ferreira | Professores-orientadores: Elza Aparecida de Oliveira Filha e Marcelo Lima | Editores-chefes: Daniel Zanella, Laura Beal Bordin, Priscila Schip O LONA é o jornal-laboratório do Curso de Jornalismo da Universidade Positivo. Rua Pedro Viriato Parigot de Souza, 5.300 Conectora 5. Campo Comprido. Curitiba -PR CEP 81280-30 Fone: (41) 3317-3044.

DrOps

Opinião

Foto: Diego Silva

Greve dos Correios É greve. É greve geral! Os funcionários dos Correios de Curitiba entraram em greve geral por tempo indeterminado nesta quinta-feira, 15. Os grevistas fizeram caminhadas pelas ruas do Centro de Curitiba e se reuniram em frente à sede estadual dos Correios, na Rua João Negrão. Olha a carta!

O uso de escutas telefônicas e a contratação de detetives particulares, na tentativa de descobrir detalhes da vida de pessoas famosas, culminaram no fechamento de um dos tabloides mais vendidos da Grã-Bretanha. Após 168 anos de circulação, o News of the World teve suas portas cerradas e deixou uma aura de desconfiança na imprensa considerada livre. O “espelho da sociedade” passou a refletir somente os interesses de seu mentor, Rupert Murdoch, que, numa tentativa de aliar poder político e mídia, ultrapassou todos os limites éticos da cobertura jornalística. Isso é resultado de uma prática de mercado que influencia diretamente na produção de conteúdo informativo. As empresas jornalísticas adquiridas pelo grupo News Corp. perderam sua identidade e se submeteram às lógicas do “jornalismo de resultados”, em que o que realmente importa é o lucro da empresa. Por serem os “donos da informação”, talvez se sintam no direito de fazer o que quiserem; até mesmo grampear telefones de vítimas de crimes hediondos a fim de conseguir informações exclusivas. A Fox News, empresa pertencente ao grupo, declarou guerra a Barack Obama, classificando-o como socialista e por isso desqualificou-o à reeleição. Até mesmo chefes da Casa Branca reconhecem que quando o presidente vai fazer uma declaração aos jornalistas da Fox News, ele não estará diante da imprensa tradicional, mas sim de um partido de oposição. Isso caracteriza o uso indevido de um veículo de comuni-

cação. Ao invés de formar uma sociedade crítica, dissemina a cultura da desinformação em massa. Como poderá uma pessoa fazer o seu próprio julgamento se está recebendo informações condicionadas a atender interesses maiores? Isso poderia ser evitado? Sim. Caso houvesse um órgão independente dotado de estrutura e poder para controlar as ações da mídia. A falta de regulação permitiu a compra de diversos veículos midiáticos por um só grupo. Hoje, o News Corp. é um império midiático e de entretenimento que engloba atividades diversas que vão do cinema à internet. É importante destacar que o conglomerado abrange uma área geográfica muito grande e ultrapassa os limites da América do norte, influenciando o conteúdo informativo do mundo todo. Sozinho, o consumidor de notícias dificilmente consegue discernir os interesses por trás de cada passo dessas grandes empresas. Os profissionais estão sendo sabotados em sua própria profissão, deixam de exercer o jornalismo e gastam mais tempo em atender interesses comerciais. Deve haver um entendimento único de que a palavra final deve vir da redação. O espaço dedicado a anúncios pode, e deve, ser comprometido em função dos conteúdos mais importantes do dia e de sua relevância. Essa regulação interna, de cada veículo, pode assegurar conteúdos de interesse público.

Os funcionários cessaram todas as atividades, o que significa que desde ontem não chega correspondência em lugar nenhum. O Procon-PR e a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) estão orientando a população em relação às dificuldades que podem surgir por conta da greve dos Correios e lembrando que aqueles que esperam boletos em casa e que provavelmente não os receberão, devem pagar juros e multas pelo atraso de pagamento. Procon para quem precisa O Procon-PR sugere ao consumidor que busque meios alternativos para a emissão da segunda via do documento de pagamento. Em vários casos, o boleto bancário pode ser impresso, acessando a página do fornecedor na internet. Também é possível contatar o SAC (Serviço de Atendimento ao Consumidor) da empresa e solicitar a remessa do boleto por e-mail ou fax (sim, fax), pedir o código de barras do documento, ou local para efetuar o pagamento. Mandou. Chegou? Os serviços de entrega rápida dos Correios, como Sedex Hoje, Sedex 10 e Disque Coleta, estão suspensos temporariamente. Segundo o presidente dos Correios, Wagner Pinheiro, a entrega de cartas e encomendas comuns continuará sendo feita, mas com ressalvas. O Sindicato alega que mais de um milhão de paranaenses podem ser afetados pela greve. Onde há fogo A assessoria de imprensa dos Correios informou que não há agências da estatal fechadas no Paraná. Maringá, Londrina, Ponta Grossa, Foz do Iguaçu e mais um tanto de cidades pararam, o correspondente a 20% de todos os funcionários do estado. Entretanto, quase 70% desse contingente são do setor operacional. Atenção às reivindicações, senhores patrões Os trabalhadores pediram um reajuste linear de R$ 400, além da reposição dos 7,16% da inflação referente ao período entre agosto de 2010 e julho de 2011. A categoria ainda queria discutir um piso salarial que seria de aproximadamente R$ 1.635 (atualmente o piso do carteiro é de R$ 807), além do aumento do valerefeição de R$ 23 para R$ 30.


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Curitiba, sexta-feira, 16 de setembro de 2011

COMUNICAÇÃO

Semana de Comunicação da UP traz educomunicação conferência e oficinas Alunos da universidade e comunidade participam do fórum realizado pela Central de Notícias dos Direitos da Infância e Adolescência (Ciranda) Luciana dos Santos Suelen Lorianny Juliane Cordeiro Dentro da Semana de Comunicação da Universidade Positivo aconteceu ontem o I Fórum Paranaense de Educomunicação. Organizado e produzido pela Ciranda, a abertura do evento contou com a conferência sobre “Educomunicação: o conceito, o profissional, a aplicação”. Para abordar o tema estava presente Ismar de Oliveira Soares, coordenador da Licenciatura em Educomunicação da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e coordenador do Núcleo de Comunicação e Educação da ECA/USP. A jornalista e educomunicadora da Ciranda Ana Paula Braga iniciou a mesa, que foi composta pelo gestor e jornalista da Ciranda, Douglas Moreira; pela professora e representante do curso de jornalismo da Universidade Positivo, Elza Aparecida Filha; pela diretora de incentivo a cultura da Fundação Cultural de Curitiba, Ana Maria Hladczuk, e o representante da Secretaria Municipal de Educação, Adilson Albuquerque. Douglas Moreira explicou as áreas que a educomunicação abrange e como a Ciranda colabora para a disseminação dessa forma de educação. Para ele, o conceito compreende os campos da educação, da participação do indivíduo dentro da sociedade e da comunicação e da informação de qualidade, que possibilita ao indivíduo se relacionar e se expressar na sociedade. A professora Elza Aparecida reforçou a importância do desenvolvimento da área.“Faz parte do nosso perfil incentivar nossos alunos a trabalhar outras formas de comunicação e a aprender a focar seus olhares em novas áreas”, disse. Participou também da mesa a integrante

da Central Jovem de Comunicação, Fabiane Silva Moreira, que destacou o uso das mídias na discussão de políticas públicas. Após a mesa, o evento seguiu com o professor Ismar de Oliveira Soares, que destacou principalmente o conceito de educomunicação e suas aplicações na sociedade. Segundo ele, apesar do surgimento de cursos acadêmicos de educomunicação, a universidade não pode formar um educomunicador, pois esta formação vem a partir de experiências realizadas pelo indivíduo dentro de sua sociedade e de sua realidade. A vivência se mostra mais importante do que a teoria, mesmo sabendo que as duas são necessárias. Quando o educador vai até a comunidade, convive com seus educandos e tem a oportunidade de sentir a realidade de cada um, o que valida sua formação como educomunicador. O professor acredita que dentro de dez anos a educomunicação estará em todo o país, sendo aplicada nas escolas e nas comunidades. “O desafio da educomunicação hoje é chegar nas grandes estruturas”, diz. Para chegar nessas estruturas, o método vem sendo aplicado em organizações não-governamentais, universidades e comunidades, conquistando esses espaços para futuramente ampliar sua área de atuação. O potencial da área visa lançar um olhar diferenciado na educação e na comunicação, possibilitando ao educador e ao educando um aprendizado mútuo, oferecendo uma alternativa à forma de educação praticada hoje nas escolas. A educomunicação também busca confrontar o sistema de comunicação vigente, mostrando que é possível o surgimento de novas formas de comunicação. “Um dos principais atrativos da área é a sua constante evolução e desenvolvimento. A educomunicação está em construção,

Felipe Gollnick

Soares: a educomunicação mostra que é possível o surgimento de novas formas de comunicação o que motiva os profissionais do setor”, completa Soares. IDDEHA Durante as palestras e oficinas do Fórum Paranaense de Comunicação, participantes dos projetos da Ciranda (Central de Notícias dos Direitos da Infância e a Adolescência e do Instituto de Defesa dos Direitos Humanos – IDDEHA, fizeram uma cobertura do evento voltada à

juventude. A equipe responsável por organizar os adolescentes a elaborarem matérias, vídeos e fotos foi formada por duas jovens de São Paulo: Amanda de Paula Martins e Evelyn Araripe, ambas da Revista Viração, destinado ao público jovem.” É importante fazer uma cobertura jovem porque se você faz um evento que vai falar sobre juventude não tem sentido não

ter a visão do jovem do evento”, afirma Amanda de Paula Martins, educadora. Para Michelle Garcia de Almeida, que participou da cobertura do projeto, o evento foi uma possibilidade de produzir conteúdos virtuais e saber um pouco sobre as redes sociais. “É muito legal a gente produzir um site, postar conteúdo e e ampliar o conhecimento pessoal”, disse Michelle.


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SAÚDE

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Cresce número de pessoas que fumam eventualmente Restrição aos cigarros em locais públicos cria nova categoria de fumantes Anelise Rodrigues Acender o cigarro somente nos fins de semana, em festas ou na roda de amigos, tem sido a escolha de grande parte da população. Isto porque muitos dos tabagistas regulares, após a sanção da lei que proíbe a prática do fumo em locais fechados, passaram a fumar com menor periodicidade, tornandose parte de uma nova classe de fumantes: os casuais. A diferença entre as respectivas classes é que, enquanto o fumante regular fuma ao menos um cigarro por dia, com a necessidade de fumar sempre nos mesmos horários - tendo crises de abstinência e demonstrando irritação caso não o faça ou até o próximo fumo - o fumante ocasional, contenta-se em fumar às vezes, sem se incomodar se passa dias sem consumir o tabaco. Ou seja, não tem a necessidade de fumar diariamente, preferindo fazê-lo em situações pontuais. Segundo um levantamento realizado pela Secretaria Municipal de Saúde de Curitiba, (SMSC) - a partir da pesquisa Vigitel Brasil, do Ministério da Saúde - desde 2006, o primeiro ano da proibição do fumo em lugares fechados, o número de fumantes regulares na capital paranaense estabilizou-se, enquanto o de fumantes esporádicos subiu 70%. De acordo com a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia o resultado não é privilégio de Curitiba, já que nos Estados Uni-

Marcos Monteiro

dos, após a implantação da lei, os fumantes regulares também reduziram o consumo e hoje, deixaram de ser a maioria. Jovens são maioria Devido às muitas campanhas contra o tabagismo e a vasta divulgação sobre os males do vício, os jovens, cada vez mais, procuram reduzir o consumo do tabaco. O fato é que, ainda que a prática esporádica do fumo diminua as chances de incidência de doenças, o risco de voltar a ser um fumante regular é alto, visto que o cérebro se acostuma e passa a pedir mais nicotina, a qual faz com que o cérebro libere a dopamina, o que proporciona ao fumante a sensação de prazer. O estudante curitibano Welington Ferreira , 16 anos, conta que já não fuma tanto como antes, mas confessa não ter sido fácil o abandono diário do cigarro. “Sempre fumei muito, e isto me deixava muito preocupado em relação à saúde, por isso atualmente, mesmo que seja bem complicado, tento fumar só quando saio com meus amigos”, conta. O estudante acrescenta que, mesmo não sendo mais um fumante regular, tosse muito e se sente cansado ao fazer atividades físicas. Riscos do tabagismo Para a presidente da SBPT - Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) – a médica Leda Maria Rabelo, o tabagismo, mesmo que esporádico, é uma ameaça à saúde respiratória. “Não fumar é essencial para evi-

Médicos alertam que o consumo esporádico de cigarro e narguile acarretam problemas de saúde tar as doenças no pulmão. Pois, independentemente da quantidade de cigarros consumidos, fumar compromete a qualidade de vida e pode ocasionar sérios problemas de saúdes, em alguns casos a própria morte”, alerta. A médica aconselha a todos os fumantes constantes, como também à todos os que fumam poucas vezes ao dia, que verifiquem com periodicidade o estado de sua saúde, através do exame de espirometria. Segundo ela, o exame serve para detectar qualquer doença, de modo que o fumante possa se prevenir e tratar as possíveis enfermidades, como a tuberculose, câncer de pulmão, asma, DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica), as quais acometem constantemente os brasileiros. A empregada doméstica

Zulmira do Rocio Ramos de 70 anos, é uma das fumantes ocasionais que segue a risca o conselho da médica. “Regularmente faço o exame. É bom porque você é avaliado e já sai sabendo qual é a doença para que se possa tratar, da última vez que fiz meu resultado deu alterado, agora sei que tenho que procurar um pneumologista com urgência”, afirma. Fumante há 10 anos, conta que a falta de ar e canseira para caminhar foram os motivos que a impulsionaram a realizar o exame. Narguilé Outra razão pela qual muitos narcóticos têm migrado à classe de fumantes ocasionais se dá pelo fato de fumantes buscarem outros meios para saciar o vício, a exemplo do Narguilé, o tradicional cachimbo

de água, comum no Oriente Médio, que nada mais é que um cachimbo de água no qual o tabaco, com aroma de frutas, que quando queimado com o uso de carvão, passa por uma vasilha de água enfeitada e é fumado por meio de uma mangueira. Segundo especialistas uma sessão de uma hora de narguilé, além de ser anti-higiênico, por passar de boca em boca, também facilita a transmissão de doenças graves, como a tuberculose. Além de deixar o ambiente com uma fumaça nos mesmos níveis tóxicos de cem cigarros, sendo que a ingestão de fumaça nesse período é igual a de 20 cigarros. Recentemente, uma pesquisa britânica apontou que o narguilé é tão prejudicial à saúde quanto o tabaco, podendo ser até 400 a 450 vezes mais perigoso do que fumar um cigarro.


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Curitiba, sexta-feira, 16 de setembro de 2011

SAÚDE

Angelina Caron: uma cidade-hospital Hospital reconfigura a cidade de Campina Grande do Sul Daniel Zanella

Andar nos arredores do Hospital Angelina Caron é como pertencer a um microcosmo particular. Flanelinhas observam o fluxo intenso dos estacionamentos, a revistaria atende clientes com sotaques nordestinos, a farmácia não vence o movimento do caixa, filas se formam no ponto de ônibus – que recebe coletivos nos dois sentidos e gera constrangedora confusão. “Pra onde vai esse ônibus, seu moço?”, pergunta ao motorista uma velhinha saída da quimioterapia. O médico Darvil José Caron – que é nome de rua em Campina Grande do Sul, cidade metropolitana a 40 km da capital – deu início à construção do HAC, em 08 de outubro de 1982, mal era possível dimensionar o impacto de seu empreendimento para a cidade e para o sistema público de saúde do Paraná. Localizado às margens da BR-116, o HAC é um dos mais modernos centros hospitalares do país, considerado o melhor hospital brasileiro especializado em atendimento à rede pública de saúde, e tem o maior fluxo de cirurgias cardíacas do Paraná, sendo referência internacional na área de transplantes. Recebe ao ano mais de 70 mil pacientes originários do SUS. Muitos médicos afirmam em simpósios que o HAC é igualável em tecnologia ao Hospital Albert Einstein, de São Paulo. A estrutura do hospital é composta por 284 leitos, clínicas, laboratórios, centros de diagnóstico e centros de treinamento e capacitação. O complexo ocupa uma área de mais de 51 mil metros quadrados de urbanização e 26 mil metros quadrados de construção, por onde todos os dias transitam mais de 2.500 pessoas entre

funcionários, médicos, voluntários, pacientes e acompanhantes. Além do volume de atendimentos e da infraestrutura, o HAC afeta diretamente a economia da cidade. Toninho da Silva Bruske, proprietário da Pensão do Toninho, é um dos tantos comerciantes que vive sob o desenvolvimento do hospital. “Trabalhamos há doze anos com a pousada e atendemos somente pacientes e acompanhantes do Caron”. Empresa de fortes marcações familiares, a Pensão do Toninho, recebe hóspedes de todo o país. “Já alojamos gente do Tocantins, do Acre... Hoje, só de Prudentópolis, foram oito”. Para angariar sua clientela, Toninho conta que visita o hospital diariamente, entregando panfletos e fornecendo informações sobre a sua pousada. A Pousada Nascer do Sol opera há quase três anos. Também é especializada em atender a demanda do HAC. “Vem gente do Brasil todo por causa desse hospital. Do oeste catarinense, do litoral do Paraná...”, alega Ari Pires, proprietário da pousada. O próprio hospital sentiu a necessidade de oferecer serviços de hospedaria para abrigar os seus pacientes. A pensão do HAC surgiu em 1989, quando a Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Estado do Paraná (Fetaep) propôs ao Hospital a construção de um local de acomodação de familiares e acompanhantes de pacientes vindos do interior. Joaquim Aurélio Pinheiro, o Seu Pinheiro, fundador do espaço, relembra os primeiros dias da pousada. “Na época, eram 40 leitos. Hoje são 86”, completa. Além das pousadas, o setor de alimentação também sente o impacto do HAC. Alexandre Fantin, proprietário do Restaurante Estação Caqui, próximo ao hospital, trabalha no ramo há cinco anos. “Atendemos

Elísio Siqueira

Mais de 90% dos atendimentos do HAC são destinados a pacientes do SUS uma clientela diversificada, mas é natural que muita gente do Angelina venha almoçar em nosso restaurante. Sabemos que muitos de nossos clientes são temporários”. O setor de transportes é representado pela frota de táxis. Juscelino Padilha,

taxista há 25 anos, alega que o ponto de táxi do Caron é o mais movimentado da cidade. “Tem dias que o movimento é muito grande, principalmente quando chove”. Dez táxis atendem a demanda do hospital. “Já fiz corrida até para o Rio de Janeiro”, afirma Padilha.

No estacionamento ao lado da pousada do HAC, direcionado para prefeituras conveniadas, há ônibus de Ivaí, Sete Quedas do Iguaçu, Cascavel e Prudentópolis. Um dos motoristas disse que um pessoal não irá voltar. “Parece que irão ficar numa pousada aqui perto”.


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Curitiba, sextta-feira, 16 de setembro de 2011

Marcelo Fontinele

Thomas Mayer Rieger

@marcelofonti

@tthms

Cursa o 4º período da manhã.

Cursa o 6º período da manhã.

Internacional

Esportes

Muita camisa, pouco football

Divulgação

MEDO

Na noite de quarta-feira aconteceu o superclássico da Américas entre Brasil em Argentina, em jogo válido pela Copa Roca. Apesar de ambas as seleções só contarem com jogadores que atuam em seus respectivos países, a expectativa da torcida e da imprensa era de que teríamos um grande espetáculo. Não tivemos, muito pelo contrário. Assim, o resultado não poderia ser outro, um empate em zero a zero, em um jogo feio tecnicamente, cheio de lances ridículos, nem de longe parecia um Brasil e Argentina. No começo do primeiro tempo, a seleção argentina esboçou uma pressão, principalmente nas jogadas do atacante Mauro Boselli, jogador do Estudiantes, porém ele sentiu uma lesão muscular, e foi substituído logo depois e o jogo que já não estava grande coisa ficou ainda pior. Já quase no fim do primeiro tempo, o Brasil teve uma boa chance, quando Neymar puxou um rápido contra-ataque, invadiu a área, deixou seu marcador no chão e cruzou, Leandro Damião chegou batendo de

primeira, mas acertou a trave. Na volta do intervalo, a Argentina seguiu fazendo pressão, sem muito sucesso. Mas o jogo esfriou e ambas as seleções não criavam chances reais de gol. E o segundo tempo foi tão fraco quanto o primeiro. Sem dúvida o clássico deixou a desejar tanto no futebol quanto na garra. Durante os 90 minutos de jogo, apenas um lance fez valer a pena pagar o ingresso. Foi quando o atacante do Internacional, Leandro Damião, deu uma lambreta no adversário, e ainda acertou a trave do goleirão argentino. Foi um lance incrível, em que Damião mostrou grande categoria. Com certeza será o centroavante titular do Brasil em 2014. Sempre existiram críticas aos técnicos brasileiros, por eles não chamarem um número maior de jogadores que atuam no futebol brasileiro. Considerando que em todas as convocações da seleção, a maioria é sempre formada por jogadores que atuam no futebol europeu, no jogo de ontem ficou claro que os atletas daqui (ao menos alguns) não estão prontos ou preparados para defender a seleção.

Defina um muçulmano em poucas palavras. Se pensou em turbante, burca, árabes ou terrorismo, considere-se influenciado pelos ecos do onze de setembro de 2001. Deve-se esclarecer: todo árabe não é muçulmano, a burca e/ ou turbante não são vestimenta padrão de todos esses povos e o terrorismo pouco tem a ver com os islâmicos em geral. Ao longo da semana ouvimos comentários e retrospectivas a respeito dos efeitos do atentado em Nova Iorque. Especialistas das mais diversas áreas elencaram os efeitos políticos e econômicos desse acontecimento, construindo uma análise do porquê o mundo está como está e qual a participação da destruição do World Trade Center nessa situação. Existe, entretanto, um resultado ligado a essa data que não é dos mais evidentes: a islamofobia global. Pouco se conhecia dos povos de religião islâmica e, depois dos atentados, sabe-se ainda menos. Na verdade, construiu-se algo mais danoso que o desconhecimento: preconceito. É possível extrair uma frase ao se considerar o comportamento social em relação ao desconhecido: quem não conhece, teme. E o comportamento de quem teme é imprevisível, podendo desembocar tanto em distanciamento do tema quanto em enfrentamento irracional. E essas duas verten-

tes são percebidas na discussão a respeito dos povos de religião islâmica. Ao se desconhecer um tema, a tendência é primeiro considerá-lo único, sem qualquer diferenciação. Ignoramse as possíveis ramificações e levam-se em consideração apenas percepções superficiais. No caso do islã, tem-se uma imagem superficial – reproduzida inclusive pela mídia ocidental – bastante agressiva e ignorante. São emitidos pontos de vista tendenciosos, revelando normalmente o que chama mais atenção: mais válido mostrar um ataque terrorista perpetrado por um grupo radical num país distante que discutir a pluralidade de mentalidades e comportamentos pertencentes a um grupo populacional. Com isso, os consumidores de mensagens tendem a acreditar que esse comportamento isolado é comum a todos um agrupamento social, sendo que não se sabe, inclusive, quais os limites desse. Deve-se tentar enxergar além das explosões, bombas e destruição vistas em fotos e vídeos. Por trás das polêmicas veiculadas nos meios de comunicação existe um agrupamento social como qualquer outro, com suas crenças e comportamentos, diversidade e pluralidade. O que deve ser combatido não é o desconhecido, mas o desconhecimento.


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Curitiba, sexta-feira, 16 de setembro de 2011

CRÍTICA DE CINEMA

Solidão em conflito

A sociedade e sua rede de aparências em uma crítica de Scorsese Divulgação

Nathalia Cavalcante A palavra “trama” cabe muito bem a Taxi Driver. O filme de Martin Scorsese foi às telas de cinema em 1976, e enredou o público em uma história de conflito pessoal de um jovem Robert De Niro, dono de umas das personagens mais enigmáticas do cinema: Travis Bickle. O motorista de táxi, de 26 anos, sofre com insônia constante, e é incomodado com a sujeira da cidade. A imundície referenciada por Travis não está, necessariamente, no lixo das ruas, mas sim, nas pessoas, no modo como encaram a vida. A crítica é direcionada a sociedade. A solidão que acompanha a rotina de Travis, ao passo que poderia trazer momentos de calma, para ele, é um período de inconformismo e agitação, já que não se encontra naquela sociedade suja. É evidente que ele busca uma inserção, seja na roda de conversa com seus colegas de trabalho, ou em um encontro frustrante com Betsy, uma jovem que trabalha no comitê de Palantine, um candidato à presidência que promete, com veemência, realizar mudanças na sociedade. Mesmo assim, Travis não consegue uma inserção efetiva. Os dias passam vagarosamente para ele. Não há o que fazer. Mas a inquietação o deixa cada vez mais decidido a tomar uma atitude. E assim a mudança começa a ser gerida. O estopim é o encontro inesperado com Iris, uma garota de 12 anos, interpretada por Jodie Foster, no seu segundo filme com Scorsese. A jovem, transtornada, entra no táxi de Travis,

“Taxi Driver” foi o primeiro grande filme de Robert de Niro, alçando ao estrelato porém, Sport a retira do carro, joga uma nota de dinheiro amassada e pede para que ele esqueça aquela cena. No entanto, Travis não se conforma com o que presenciou e por alguns dias a segue. A missão, a partir daquele momento, era “limpar a cidade”. Para ele, o que poderia tirá-lo daquele desconforto, era fazer justiça com as próprias mãos. Depois de comprar um verdadeiro arsenal de um caixeiro, Travis mergulha em seus questionamentos. A primeira ação aconteceu sem planejar, em um pequeno mercado, durante uma tentativa de roubo. Travis estava com Divulgação

Martin Scorsese: marca maior do cinema norte-americano

uma das armas, e assassina o bandido. Foi encoberto pelo dono do estabelecimento, já que não possuía licença. Esse episódio o fortaleceu e, com isso, ele se reveste de armas para atingir o primeiro alvo, Palantine, mas a experiência ousada não lhe rende o resultado que queria. Por mais que não se interessasse por política, a demagogia presente nela, não o agradava. Daí o motivo para alvejar o candidato à presidência. Depois disso, viria a verdadeira razão de sua mudança: Iris. A garota, que se submetia aos desmandos de Sport, que a explorava, tornou-se a principal missão de Travis. Para ele, era necessário retirá-la daquela situação e devolvê-la aos pais. A vida desregrada de Iris transforma Travis. A rotina exaustiva, dirigindo o táxi, havia se modificado. O comportamento do pacato taxista passou a dar lugar a um justiceiro. Como se não tivesse nada a perder, e até mesmo, como se fosse o único a enxergar aquela realidade, Travis, decide não permitir a continuidade daquela condição que manchava a sociedade. As indagações, desde a cena em que questiona o espelho com a famosa frase “Are you talkin’ to me?”, passando pelo pon-

tapé na tevê ao grand finale, a interpretação de De Niro é perturbadora, pois, embora a personagem siga em uma linha de cotidiano, sem grandes acontecimentos aparentes, o seu psicológico se evidencia. Esse elemento de atuação somado à simbologia que o diretor apresenta, por meio de um corredor vazio, com a voz de Travis ao fundo se desculpando com Betsy, pelos instantes em que ele está acompanhado pelos colegas, mas ao mesmo tempo desolado, remete a condição deslocada de Travis. O sujeito de atitudes estranhas, ignorado e motivo de risos, que não se posiciona em uma sociedade – que para ele precisa de uma reforma –, também pode tornar-se motivo de orgulho. Esse meio, que estranha Travis, pode se aliar a ele, assim como acontece na vida fora das telas. A discussão de “Taxi Driver” vai para além de uma rotina. Adentra no espaço atual, sem grandes diferenças. Discussões raciais, de gênero, psicológicas, que se misturam e fundem em um espaço onde as pessoas devem conviver juntas, porém ao mesmo tempo, distantes entre si. Assim, Scorsese, escancara em “Taxi Driver”, por meio das ações inconsequentes, de Travis, o lado que está à margem. O pedaço que insiste em permanecer

velado, às escuras de quem passa ao lado e prefere não enxergar. O trecho em que é preferível não conhecer, para não provocar um envolvimento, já que pode ser mais cômodo assistir, somente. Parceria Essa não foi a primeira vez que Robert De Niro e Martin Scorsese trabalharam juntos. O início da parceria aconteceu, em 1973, com a realização de Caminhos Perigosos (Mean Streets). Com essas produções somam-se mais seis, entre as mais aclamadas, destacamse Touro indomável (Raging Bull), de 1980, e Os Bons Companheiros (Goodfellas), de 1990. O último encontro foi, em 1995, com Cassino. A dupla promete, após 16 anos, um novo projeto.chamado O Irlandês (The Irishman). Desde 2008, a produção está na fila de Scorsese, que já divulgou a presença de De Niro. O roteiro está nas mãos de Steve Zallian, um dos responsáveis por Gangues de Nova York, também de Scorsese, lançado em 2002, com Leonardo Di Caprio e Cameron Diaz no elenco. Agora, resta aguardar a finalização de O Irlandês, e assistir a mais uma parceria de sucesso.


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Curitiba, sextta-feira, 16 de setembro de 2011

Oficinas do I Fórum de Educomunicação são marcadas pela diversidade e engajamento Semana de Comunicação seguiu com temáticas sociais e boa presença de público Daniel Zanella Crianças, adolescentes, pedagogos, profissionais liberais, jornalistas, estudantes, gente do Tatuquara, de Quatro Barras, Araucária, Ponta Grossa: as oficinas do Fórum de Educomunicação, organizadas pela Ciranda – Central de Notícias dos Direitos da

Marcos Monteiro

Infância e Adolescência – e pelo Ponto de Cultura Educamídia, com apoio da Fundação Cultural de Curitiba e do Ministério da Cultura, foram marcadas pela diversidade. Mais de 200 participantes integraram as dez oficinas oferecidas no período da tarde desta quarta-feira, 14, integrantes da Semana de Comunicação orga-

O comprometimento dos estudantes foi a tônica das oficinas

Oficinas de Fotografia e de Produção de Conteúdo Para Internet foram muito concorridas

nizada pela UP. De técnicas básicas de fotografia a cultura negra no rádio, as oficinas tiveram público muito participante e engajado. A estudante de Pedagogia da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) Ana Carolina Gilgen, da oficina de Violência e Cultura de Paz, ressaltou a importância de didáticas voltadas aos direitos humanos. “Essa oficina foi uma ótima oportunidade de discutir os direitos das crianças e adolescentes, uma forma de criar novas abordagens sobre assuntos de vital importância social”, disse a estudante.

das oficinas tiveram grande aproveitamento, os ministrantes também puderam discutir suas áreas de atuação e trabalhar com um público diferenciado. Para Fabio Muniz, fotojornalista e professor de fotografia da UP, a essência de uma coletânea de oficinas tão diferentes e plurais é a mesma. “É preciso abranger todos os públicos, entender a dinâmica de cada pessoa. Alguns têm maior facilidade com as ferramentas, outros estão entrando em contato com o material pela primeira vez”. O comprometimento dos participantes foi o fator primordial apontado por Muniz para o bom retorno de cada oficina. “É um pessoal muito esforçado, com uma vontade imensa de aprender”, completa.

Pluralidade Se os integrantes

Engajamento Vinicius tem treze anos.

Estuda no Colégio Guilherme de Albuquerque Maranhão. Com acento ou sem acento? “Sem acento. Tá aqui no crachá”. Participou da oficina de Comunicação Popular Como Elemento de Mobilização. “Gosto desse negócio de se comunicar, de mobilização social...” Também gostou dos salgadinhos do intervalo. Programação Hoje é o segundo dia da oficina de Tratamento de Imagem, com apresentação dos trabalhos dos participantes da oficina. Também acontece a oficina de primoramento em língua portuguesa, com ênfase no emprego de crase e pontuação, com a jornalista e professora universitária Ana Paula Mira. A professora de web Rosiane Freitas ministrará oficina de Matemática para Jornalistas.


LONA - 644-16/09/2011