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Curitiba, sexta-feira, 27 de maio de 2011

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Ano XII - Número 638 Jornal-Laboratório do Curso de Jornalismo da Universidade Positivo

Curitiba, sexta-feira, 27 de maio de 2011

lona.up.com.br

Governo veta kit contra homofobia em escolas A presidenta Dilma Roussef vetou ontem projeto do Ministério da Educação que entregaria kits contra a homofobia em mais de seis mil escolas. Grupos que lutam por direitos humanos afirmam que a presidenta cedeu a pressões da bancada evangélica no Senado. Pág. 3

Especial No coração vermelho do MST Por Aline Reis e Suelen Lorianny

Pág. 4 e 5

Ensaio fotográfico O olhar de Aline Reis sobre as crianças e jovens do acampamento Pág. 8

Coluna “The Puppet Show”: o dia em que os direitos iguais chegaram aos seriados Os tablets, os impostos e o mercado brasileiro Pág. 6

Perfis Suelen Lorianny

José Carlos Fernandes, o mestre dos perfis da Gazeta do Povo

Pág. 7

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Curitiba, sexta-feira, 27 de maio de 2011

Editorial A penúltima edição do Lona deste primeiro semestre letivo - em ritmo de balanço editorial - pode servir de ligeiro parâmetro para algumas especulações acerca do jornalismo impresso e da própria função de edição: - O jornalismo impresso não mais desperta a atenção plena dos leitores mais jovens, grandes consumidores e produtores da informação, a ponto de eles interagirem no processo de crítica e construção do jornal de amanhã. Não há como aferir ainda se é uma questão de ausência de hábito, interesse ou falha de comunicação. - É cada vez mais difícil lutar contra o imediatismo e a banalidade da informação provida pela internet. - A internet não é exatamente uma vilã. É, inclusive, um suporte indispensável no fazer jornalístico atual, cada vez mais dinâmico e expansivo. O que pode ser averiguado de antemão é que os universitários dispensam um tempo precioso na manutenção de suas

redes sociais e ferramentas de interação virtual. Determinados discursos parecem não encontrar hipóteses de recepção. - Reportagens mais densas e de caráter analítico mais depurado não são facilmente assimiladas e as possíveis discussões não extrapolam âmbitos pessoais ou nichos opinativos. - Não conseguimos implantar uma reformulação gráfica capaz de conquistar o leitor mais, digamos, visual, o que nos remete para a necessidade de uma maior integração entre os cursos de Jornalismo e os cursos de Publicidade e Design. - Erramos demasiamente em confecções importantes, como numeração de páginas, padrões de diagramação e legendas, entre outras coisas, simples e urgentes. - Tentamos elaborar um periódico que abordasse o maior número possível de horizontes, brigasse diariamente pelos direitos humanos e entregasse ao leitor um certo espelhamento do que os editores são e almejam ler e saber em um jornal. Boa leitura a todos.

Expediente

Opinião

O oportunismo e o tratamento da violência

Daniel D’Alessandro Após os incidentes trágicos ocorridos em uma escola da rede pública em Realengo, Zona Oeste do Rio de Janeiro, tem-se debatido na mídia brasileira a possibilidade de um referendo sobre o desarmamento no país. A ideia foi introduzida na sociedade por muitas vozes, e ganhou coro na aderência de figuras políticas influentes no cenário do planalto central, como o presidente do Senado Federal, José Sarney (PMDB-AP). Aliados de Sarney, membros da cúpula do Ministério da Justiça, organizações não-governamentais e cidadãos comuns têm sinalizado pela necessidade da revisão na lei de portes de armas de fogo. Isso significaria o enrijecimento na fiscalização do seu uso, o que possibilitaria decisivamente a diminuição da criminalidade e de novas ocorrências como a chacina carioca. O referendo que mudaria a forma como o Estado encara o uso de armas praticamente anularia decisão adotada democraticamente há seis anos, quando foi realizado um referendo. A discussão aflorou nas últimas semanas, apoiada no

oportunismo de políticos que, em momentos de grande preocupação social com a segurança pública, tentam demonstrar ações positivas a favor da população. Sarney, nos dias em que a maioria dos brasileiros sente-se desprotegida em relação à violência iminente, apresenta-se como porta-voz do tema. Há muito tempo que o uso de tragédias populares para buscar audiência é notado nas raposas brasileiras. Nos dias seguintes de grandes chacinas, rebeliões cinematográficas, enchentes e grandes deslizamentos de terra, governos municipais, estaduais e da esfera federal anunciam medidas de notáveis proporções para a solução dos problemas. É um erro grotesco combater a violência urbana com base na repressão depois de fatos negativos. O Brasil vem se acostumando a “esperar” situações-limite para que atitudes consistentes – ou retoricamente consistentes - sejam tomadas. Retirar as armas dos cidadãos após a tragédia da escola do Rio de Janeiro não contribuirá com a solução.

No caso da proibição total do uso de armamentos no país, bandidos e maníacos, como Wellington, entregarão os objetos que utilizam para cometer os graves delitos? A resposta é não. O desarmamento defendido tiraria de circulação os revólveres, espingardas, carabinas etc, de pessoas comuns que colecionam, caçam ou que possuem a documentação específica para a defesa pessoal, se necessária. Os casos da pesca e caça podem representar delitos ambientais, sem justificar a atenção e a energia orçamentária da segurança pública. As metralhadoras, pistolas, fuzis, submetralhadoras, granadas e afins continuariam a circular livremente nos mercados negros (manchados de sangue) existentes no Brasil. Combate à violência se faz, de forma paliativa, no investimento do policiamento de fronteira, na contratação e valorização de policiais. Já em longo prazo, não há outra saída para o problema, senão repetir o já batido e cansativo argumento da importância da educação e do fim da corrupção.

Atendimento ao consumidor: será que ele realmente é eficiente? Amanda Fernandes

Reitor José Pio Martins Vice-Reitor e Pró-Reitor de Administração Arno Gnoatto Pró-Reitora de Graduação Marcia Sebastiani Pró-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa Bruno Fernandes Coordenação dos Cursos de Comunicação Social André Tezza Consentino Coordenadora do Curso de Jornalismo Maria Zaclis Veiga Ferreira Professores-orientadores Elza Aparecida de Oliveira Filha e Marcelo Lima Editores-chefes Daniel Zanella, Laura Bordin, Priscila Schip O LONA é o jornal-laboratório do Curso de Jornalismo da Universidade Positivo. Rua Pedro Viriato Parigot de Souza, 5.300 Conectora 5. Campo Comprido. Curitiba -PR CEP 81280-30 Fone: (41) 3317-3044.

Quem nunca comprou um produto com defeito e teve que ficar horas no telefone apertando infinitos números, sem resultado? O serviço de atendimento ao consumidor (SAC) das empresas tem o objetivo de resolver problemas do consumidor durante 24 horas por dia. O que acontece é que o consumidor leva mais tempo esperando no telefone do que sendo atendido. Sem contar o número de vezes que a pessoa tem que repetir os dados pessoais e é transferida para outros setores. De acordo com a regulamentação desse tipo de serviço, o número de telefone para entrar em contato com a empresa deve estar visível no produto e nos documentos de contratação. Além disso, as opções de cancelamento e de reclamações devem ser as primeiras alternativas durante a ligação, já

que são as mais procuradas. Muitas vezes, o consumidor quer apenas cancelar um serviço. Em vez de agilizar este processo, os atendentes são instruídos a tentar convencê-lo a continuar cliente; às vezes, propõem uma mudança de plano que parece ser melhor, normalmente acompanhado de um ano de fidelidade. Não é apenas por meio do SAC que o atendimento deixa a desejar. Mesmo no Procon, o serviço pode ser lento, e o consumidor, muitas vezes, não consegue resolver o problema na hora. Ele é encaminhado para outros setores. Passa tempo nas filas, e nem sempre recebe a orientação adequada sobre o que fazer. O maior problema das empresas que têm como objetivo auxiliar o consumidor é a falta de profissionais instruídos e que saibam encaminhar o cliente ao setor

adequado. Em grande parte, as empresas não sabem se posicionar sobre o assunto; e o que é pior: o atendimento muitas vezes precisa ser realizado por telefone, obrigando-o a esperar horas para ser atendido. E ter que ouvir gravações tais quais: “O que o senhor deseja?”. A má qualidade do atendimento ao cliente pode provocar queda nas vendas e no faturamento da empresa. Isso ocorre não somente em caso de um atendimento telefone mal-sucedido, mas também quando o consumidor decide se este produto ou serviço é realmente aquilo que procura. Além de produzir artigos de qualidade e criar serviços que realmente atendam as necessidades do consumidor, mudar os padrões de atendimento é fundamental para garantir a clientela.


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Curitiba, sexta-feira, 27 de maio de 2011

HOMOFOBIA

Suspensa a distribuição dos Kits contra a homofobia A presidenta Dilma Rousseff prorroga a distribuição dos kits; ABGLT alega pressão da bancada religiosa do Senado Barbara Zem

O kit contra a homofobia, um projeto do Ministério de Educação, e que seria distribuído em mais 6 mil escolas do ensino médio pelo país, não foi oficialmente finalizado pelo governo. Houve vazamento de alguns vídeos na internet que seriam apresentados com esse material e que acabaram causando grande polêmica. O kit educativo foi produzido por pessoas ligadas à defesa dos direitos humanos e da população LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e travestis), e tinha como função diminuir o preconceito existente hoje na sociedade. Com o desenrolar da polêmica durante o decorrer da semana, a presidenta da República Dilma Rousseff, optou ontem, 26, por cancelar a distribuição do kit educativo do projeto Escola Sem Homofobia. ABGLT alega que a decisão da presidenta teve grande influência da bancada religiosa. Edinei Ferreira, Presbiteriano, embasa a decisão do governo.“Baseado na palavra de Deus que criou macho e fêmea, nós não podemos aceitar e concordar com esse tipo de relacionamento”, diz.

O cancelamento do projeto causou grande surpresa para o presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Travestis e Transexuais (ABGLT), Toni Reis, e grande polêmica entre a Associação e suas 237 ONGs afiliadas. “Temos que saber direitinho o que aconteceu. Por enquanto, temos que pedir muita calma a todos e todas antes de tomar qualquer medida”, disse ele ao portal Terra Magazine. O grupo redigirá uma nota oficial que será distribuída para a imprensa. O kit foi avaliado por diversos órgãos e instituições, como o Conselho Federal de Psicologia, a UNESCO, a UNAIDS, o CEDUS (Centro de Educação Sexual), a União de Estudantes e a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas. Em nota oficial a Associação Brasileira de Lésbica, Gays, Travestis e Transexuais afirma que o cancelamento da distribuição do kit representa um grande retrocesso no combate a discriminação e a violência homofóbica. Segundo a ministra de Direitos Humanos, Maria do Rosário, o número de homossexuais mortos no Brasil todos os anos é um “absurdo”. O Grupo Gay da Bahia divulgou um relatório que mostra que no Brasil a cada 36 horas

Priscila Schip

Homossexuais reivindicam seus direitos e alegam que a cartilha foi aprovada por vários órgãos de defesa dos direitos humanos

um homossexual é morto. Nos últimos 5 anos essa estatística aumentou 113%. Só no ano de 2010 foram mortos 260 homossexuais no país e apenas nos três primeiros meses deste ano 65 foram assassinados. Segundo pesquisa realiza-

da em 13 capitais brasileiras (Belém, Cuiabá, Florianópolis, Fortaleza, Goiânia, Maceió, Manaus, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo, e Vitória) e no Distrito Federal em 2004, pela UNESCO, 39,6% dos estudantes

masculinos não gostariam de ter um colega homossexual na sala, 35,2% dos pais não gostariam que seus filhos estudassem com um homossexual e 60% dos professores dizem não saber como lidar com a questão da homossexualidade em sala.

Chegada do inverno exige cuidados Na estação, as pessoas ficam mais vulneráveis a diversos tipos de doenças respiratórios Larissa Nichele

A queda de temperatura, além de trazer baixa umidade do ar, faz com que algumas pessoas sofram com tosses, espirros e infecções durante o inverno. As doenças mais comuns dessa estação são as que atingem o aparelho respiratório e a garganta, entre elas estão a gripe, o resfriado, a rinite e até as alergias. Blusas de lã, cachecóis, casacos, além de evitar se expor ao vento e ingerir algo gelado, são opções que várias pessoas seguem durante a fria estação, porém, apenas isso, nem sempre, é o suficiente. “A maioria das doenças po-

dem ser prevenidas quando as pessoas evitam lugares aglomerados, além disso, deve-se ingerir água, cuidar da higiene e evitar choques térmicos, contribui na prevenção”, afirma o médico e professor da UP Moacir Pires Ramos. Mais preocupante A gripe H1N1 é a doença que causa mais preocupações à população, já que nos últimos anos causou muitas mortes. A campanha de vacinação contra a Influenza A, neste ano, vai até 13 de maio. Idosos, trabalhadores da área de saúde, povos indígenas, crianças de seis meses a dois anos e gestan-

tes serão imunizados. Os demais grupos de pessoas que receberam a vacina no ano passado não precisam ser vacinados, pois já estão imunes. Além da vacinação é possível se prevenir através de cuidados básicos de higiene, como lavar as mãos com sabonete e evitar colocá-las nos olhos, bocas e ouvidos; cobrir com lenço descartável o nariz e a boca ao tossir ou espirrar e não compartilhar alimentos, copos e toalhas. Deve-se evitar, também, ficar em ambientes fechados com grande aglomeração de pessoas e usar medicamentos sem orientação médica. Ramos afirma que em todo

inverno há casos da gripe A, porém neste ano não é esperado um grande número de casos resultantes em uma epidemia, como nos anos anteriores. Mesmo 2011 não sendo considerado um ano epidêmico, a Universidade Positivo (UP) disponibilizará álcool em gel para desinfectar as mãos, além de cartazes orientando as pessoas de como se prevenir. Outras consequências Não são apenas doenças as consequências de um inverno rigoroso, mas todo o organismo humano pode ser afetado. Ressecamento de pele é um fator co-

mum, principalmente por conta do ar seco, e isso pode ser tratado com cremes e sabonetes indicados por dermatologistas. Também é normal pessoas sentirem dores em ossos já fraturados por conta da mudança da pressão atmosférica e ressecamento nos olhos. O que poucas pessoas conhecem é a chamada Depressão de Inverno ou Depressão Sazonal, que é caracterizada por episódios depressivos durante a estação do inverno. Isso acontece principalmente pela falta de luminosidade e atinge cerca de 1% da população brasileira, por ser um país tropical. Já na Europa os casos chegam a 10% da população.


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Curitiba, sexta-feira, 27 de maio de 2011

ESPECIAL

Reforma Agrária: a terra

A luta de alguns para a construção da soberania alimentar no Paraná; é assim que o Movimento dos Suelen Lorianny

Aline Reis Suelen Lorianny “Vem, lutemos de punho erguido! Nossa força nos leva a edificar nossa pátria livre e forte, construída pelo poder popular” – com os braços para cima, mãos fechadas, os militantes cantam o refrão do seu hino. Anseiam por um lugar onde possam produzir, onde todos tenham terra e não haja fome. Buscam soberania alimentar e, para alcançar esse objetivo, sabem o caminho: reforma agrária. A Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios (Pnad), também divulgada no fim do ano passado, aponta que cerca de 2,4% dos lares paranaenses não têm segurança alimentar. Por outro lado, a safra de grãos do Paraná foi a segunda entre todos os Estados do Brasil. Para este ano, a previsão é de 31,1 milhões de toneladas de grãos na safra, de acordo com dados da Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento (SEAB). Toda esta produção vai para fora do país. Atualmente a produção paranaense representa 13% das exportações nacionais. Cerca de 1,05 milhão de hectares são cultivados no Paraná. Com esta área, seria possível alimentar milhares

Vassouras e outros mais Aline Reis

Uma vassoura de palha custa, em média, cinco reais. Eu tenho uma vassoura de palha. Só não imaginava como era um “pé” de vassoura. Conheci, então, o acampamento Manoel Jacinto Correia, em Florestópolis, município ao Norte do Paraná. Mais do que isso. Colhi as vassouras (ou “bassouras”) ,como dizem os acampados. Seu Zé e dona Tereza me levaram até a roça deles. Fazia um sol tremendo. Ele é um

de pessoas. As propriedades rurais, contudo, são imensos latifúndios de monocultivo. “As grandes propriedades visam o lucro, e têm produções mercadológicas, como a soja e a cana-de-açúcar”, diz o assessor jurídico da organização não-governamental Terra de Direitos, Fernando Prioste. A soberania alimentar da população depende também da produção, mas existe uma barreira para que o Estado seja autossuficiente na produção de alimentos. “Temos dados do último Censo Agropecuário que dizem que o pequeno e o médio agricultor produzem mais da metade dos alimentos do Brasil. E eles fazem isso em apenas 10% das terras plantadas do território”, explica Prioste. No trajeto da luta contra a fome está a nãorealização da reforma agrária no Brasil. “O censo agropecuário mostra que 1% dos proprietários de terra detém 49% delas. Então existe uma necessidade política, social e jurídica de que a reforma agrária aconteça. A concentração de terras é um dos fatores que mais geram desigualdade social”, acrescenta o assessor. O órgão responsável pela distribuição de terras é o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Mas para que lati-

fúndios sejam desapropriados é necessário que exista o descumprimento das regras funcionais da terra. Estas são questões ligadas aos direitos trabalhistas, preservação ambiental, produtividade e função social. “Uma dificuldade para o Incra é a Constituição ultrapassada. A lei que rege o quesito de produtividade é de 1975, ou seja, quando a produção era menor. Por ou-

tro lado, as demais funções da terra não são avaliadas pelo Incra”, diz Prioste. Com a troca de governo, os movimentos sociais – especialmente os do campo – estão apreensivos, devido às ações truculentas nos mandatos do ex-governador Jaime Lerner (PFL, atual DEM). Para militantes dos movimentos a repressão é certa,

mas os analistas preferem ser mais cautelosos. “O governador Beto Richa (PSDB) tem ligações com a bancada ruralista e isso talvez seja um obstáculo para a realização da reforma (agrária), mas temos que ter atenção sobre isso, ainda não há como definir já que o governo é recente”, completa ele.

homem alto e de peso médio. Tem pele queimada de sol e fala muito rápido. Ela é negra, tem um sorriso largo, fala devagar e é de uma alegria inebriante. Inebriei-me porque naquelas terras da Fazenda Santa Maria – agora ocupadas por homens e mulheres do MST – dona Tereza viu seu pai morrer. Dona Tereza trabalhou no corte de cana naquelas terras desde os doze anos. Agora ela deve ter uns quarenta e cinco. Aparenta isso. Talvez tenha menos. Não sei. O velho morreu de exaustão. Trabalhou até a morte. A fazenda foi ocupada há

pouco mais de um ano. Mas ela esteve lá a sua vida toda. Os “donos” das terras, conhecidos como Atala, não reivindicaram reintegração de posse. Deve ser porque havia trabalho escravo naquele lugar. Há um cemitério clandestino e um tronco onde pretos apanhavam. Depois da abolição o tronco permaneceu lá. Até os trabalhadores e trabalhadoras do MST chegarem. Para colher vassouras, o primeiro passo é cortar a parte da palha. Mais ou menos como se faz com a cana. Você passa horas fazendo isso. O sol é infernal. O almoço ocorre ali

mesmo, no meio da lavoura, entre formigas e palha seca. As pessoas que trabalham ali transpiram porque vestem calças compridas, botas e camisas fechadas até os punhos. Se não usarem este traje sentem uma coceira insuportável e têm as mãos e braços cortados. Eu tive mãos e braços cortados. Amadora. Não sabia que deveria vestir esse tipo de roupa. Dona Tereza só foi para lavoura na hora do almoço. Fui neste mesmo horário. Os homens já estavam lá, mas alguém precisava cozinhar. Eu fiquei ajudando dona Tereza, embora

não saiba matar frangos ou fazer uma panela enorme de arroz. Os homens comeram e tomaram uma coca-cola que seu Zé só comprou porque eu estava lá. Mesmo nas garrafas térmicas, a água estava quente. Depois do corte era necessário empilhar todas as palhas num lugar seguro para que não molhasse, caso houvesse chuva. Não houve, mas empilhamos. Olhei no relógio às duas da tarde. Colhi. Colhi. Colhi. Colhi. Colhi. Colhi muito. Resolvi olhar no relógio de novo. O ponteiro marcava duas e cinco da tarde.

XXXperience Neste sábado, 28 , o festival de música eletrônica XXXperience comemora 15 anos de estrada. O evento acontece em Piraquara, na Fazenda Heimari, e traz uma inovação ao público: o show será apresentado em 3D. Quem participar, usará os óculos para aproveitar a festa.

Atrações

Entre as atrações, os DJs Nic Fanciulli, Stephan Boszin, Ticon, Day.din, Ritmo, Felguk (formada pelos brasileiros Felipe e Gustavo) e Electrixx (dupla formada pelos alemães Erik e Marph).


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Curitiba, sexta-feira, 27 de maio de 2011

de todos para todos

Trabalhadores Rurais Sem-terra (MST) buscam resgatar a agricultura familiar Dona Tereza cantava, perguntava se eu estava bem e fazia tudo isso com um sorriso no rosto. Sorria nas mesmas terras em que seu pai morreu. Entre uma conversa e outra, ela me disse o que a fazia sorrir depois de tanta exploração e sofrimento. “Eu jurei que um dia eu iria vingar a morte do meu pai. E quando eu conseguir um pedaço de terra vou ter feito isso. Se deus quiser...” Continuei recolhendo as vassouras. Os trabalhadores e trabalhadoras do MST são guerreiros. Gente sem dente, sem alfabeto, sem terra, com muita esperança. No acampamento não há luz elétrica e muito menos água encanada. Tomei um pseudo-banho num cano que saia uma água muito limpa e muito gelada. Minha cabeça doía muito por conta do sol. Tomei meia dúzia de remédios. Não adiantou. No outro dia, Dona Tereza subiu o carreador com uma garrafa de água e o boné vermelho do MST. A fazenda Santa Maria tem quarenta e dois mil hectares. Nas aulas de Jornalismo aprendemos que se deve aproximar essas medidas para que o leitor e a leitora compreenda do que estamos falando. Pois eu não vou aproximar. Gente da terra nunca foi ao campo de futebol e sabe quanto é quarenta e dois mil hectares. E nem todos da cidade conhecem um campo de futebol. Nesse tanto de terra havia um monocultivo de cana-deaçúcar que entristecia a fisionomia daquela gente. Isso porque gente não come cana. Gente como arroz, feijão, milho. Toda aquela produção é para se fazer etanol, o popular álcool. Só que nem todos que trabalham na terra têm um carro para pôr etanol. Pela manhã, outros trabalhadores e trabalhadoras faziam o mesmo ritual. Trabalhando duro para conseguir a terra. Dia após dia.

Cooperadores – povo Suelen Lorianny

Uma área de 250 hectares onde nada é de ninguém, ou melhor, tudo é de todos. Uma agrovila dividida para 23 famílias, onde cada uma possui sua casa. Uma horta para sustento dos cooperadores. Pecuária com bezerros, vacas, bois e porcos. A indústria canavieira que produz açúcar mascavo, melado e cachaça. Há 18 anos, nove famílias do Movimento de Trabalhadores Sem Terra (MST) chegaram à região de Paranacity, norte do Paraná, e ocuparam uma fazenda que não estava cumprindo sua função social. A ocupação foi tranquila e sem grandes conflitos como normalmente são noticiadas. Em um ano eles já não eram mais um acampamento e o total de 12 famílias estava assentado. No ano de 1993 o terreno de ponta a ponta era coberto por cana-de-açúcar, mas a maior parte tinha sido atacada por uma doença. Com isso, os assentados resolveram queimar tudo e começar do zero. Plantaram banana, mandioca e cana. E anos depois o que permaneceu foi apenas o canavial. Da área total do assentamento 75 hectares são destinados somente para a plantação de cana. A demanda é grande e o investimento maior ainda. Hoje todas as famílias assentadas possuem uma casa e um trabalho. Desde os jovens até os mais idosos trabalham em algum setor. Começo agora a detalhar - com muito carinho e com inspiração de quem colocou a mão na enxada - cada um desses setores. No primeiro dia, cheguei ao Assentamento Santa Maria - Cooperativa de Produção Agropecuária Vitória (COPAVI) perto das três horas da tarde. A ansiedade para conhecer todo o lugar, cada pessoa, ouvir histórias, sujar a mão de terra, estava exalando pelos meus poros.

Show Denorex 80 & Technotronic

Hoje, 27, no Curitiba Master Hall, às 21h, a banda Denorex 80 abre o show da dupla Technotronic, que apresenta seus grandes sucessos, como “Pump Up The Jam” e “Get Up”.

Encontrei o Seu Chicão, assim carinhosamente chamado pelos assentados, o coordenador-geral da COPAVI. Um homem com seus 80 anos, magro, alto, barba longa e bem branca, acompanhada de seu cabelo curto e bem branco. Ele repassou com muitos detalhes o histórico da ocupação dos trabalhadores na fazenda. “Esse ano o assentamento ficou de maior”, faz brincadeira ao comentar o aniversário de 18 anos do assentamento. Nesse momento dá para perceber o orgulho que sente por permanecer naquela terra durante todos esses anos. Não só nesse momento, mas em todo tempo ao falar das lutas e conquistas. Passaram por momentos difíceis, mas sempre com a força da bandeira vermelha erguida ficaram firmes. Todo final de tarde eu via seu Chicão subindo a rua de barro vermelho, indo para casa com seu carrinho-de-mão vazio e um chapéu de palha, como se tivesse trabalhado o dia todo. Não tinha. Em razão de sua idade avançada, só descia para horta ou para o pomar durante uma ou duas horas. Carpia, plantava ou adubava. Não quer deixar a fraqueza tomar conta, ainda quer trabalhar. “Essa terra vale muito, a luta foi grande. Eu e meu carrinho-de-mão temos muita terra para carregar. Não vou parar de trabalhar assim tão novo”, brincava com ele mesmo. Queria ter a capacidade para descrever a imagem que acabei de contar. Transmitia uma emoção com direito a trilha sonora ao ver Chicão, seu carrinho, pôr-do-sol e chão vermelho ao meio, imenso campo verde ao lado direito, algumas vacas e o pomar ao lado esquerdo. Imagem digna de um retrato. No dia em que fui trabalhar na pecuária conheci um rapaz muito interessante. Jack, 19 anos, pretende estudar Design de Moda. Por enquanto, é um trabalhador empenhado na pecuária e muito bom de conversa. Fazia pose para to-

das as fotos. Respondia a todas as minhas perguntas como quem conta uma história para criança. Minha curiosidade por todos detalhes também não o permitia que fosse diferente. Dei mamadeira para o Ronaldo, Mapamundi, Gaivota, Cachorro e Zulu. A mamadeira é de garrafa pet. Bebiam aquele leite como se fosse o melhor do mundo, e talvez seja. Ah, esqueci do detalhe, esses são os bezerros. Já na horta foi um pouco mais pesado. Logo cedo peguei a enxada para capinar canteiros cheios de tiririca, um mato pequeno que nasce entre as mudas. Ô peste essa tiririca! E o que não aliviava o trabalho era o sol forte daquela manhã, a urbana esperta aqui se esqueceu de passar protetor solar e ficou com o rosto vermelho por alguns dias e a marca de blusa regata no cor-

Show do Cidade Negra

Hoje, no Teatro Guaíra, às 21h, se apresenta o grupo de reggae Cidade Negra. O grupo, composto por Toni garrido, Bino Farias (baixo) e Lazão (bateria) trará uma coletânea dos principais sucessos da carreira.

Suelen Lorianny

po. Mas apesar disso, esse foi o setor que mais gostei. A Rose e o Closnei trabalham lá e se tornaram ótimas companhias. Não só para a roça, mas para o chimarrão no final da tarde. Longas prosas com esses dois. Conversamos sobre o tempo, sobre família, cidade e plantação. Cada um contou sobre sua chegada a COPAVI, Closnei há dezoito anos e Rose há cinco. Poderia escrever sobre cada personagem que conheci neste assentamento, mas o limite das linhas e a escassez de palavras não me permitem. Acho que meu vocabulário diante de tamanha experiência se torna miserável. Oito dias de vivência não foi suficiente para absorver todas as peculiaridades daquele lugar. Pessoas, animais, objetos, cores, atitudes, costumes, textura, sabor, sons. É, tenho muita coisa a dizer. Tenho muito mais a viver.

Show das Velhas Virgens Amanhã, 28, no Curitiba Master Hall, acontecerá a apresentação do grupo Velhas Virgens.A banda apresentação a última turnê “Ninguém Beija Como as Lésbicas” e o show será gravado para o novo clip da banda.


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Curitiba, sexta-feira, 27 de maio de 2011

Natasha Virmond

Rodrigo Cintra

@tashytashy

@rodrigo_cintra

Cursa o 7º período da manhã.

Cursa o 7º período da noite.

Tecnologia

Diversidade

Tablets

Para quem estuda a história do movimento gay no mundo, ou é viciado em sitcoms norteamericanas, o nome “The Puppy Episode” não deve soar estranho. Isso porque é um episódio duplo do seriado Ellen – estrelado pela atriz, comediante e apresentadora Ellen DeGeneres – e leva esse título porque os roteiristas pretendiam fazer a protagonista adotar um cachorro, já que ela nunca tinha química com os atores convidados para serem o par das tramas. O enredo envolve a personagem principal, Ellen, que resolve “sair do armário”. As negociações sobre o evento com a companhia que produzia o seriado, a ABC, teve início em 2006, mas somente no ano seguinte a gravação aconteceu. Os atores ligados diretamente com a cena ficaram sabendo o final das duas partes e muitos acabaram descobrindo apenas quando o episódio foi ao ar. Em meio à produção, a imprensa descobriu a ideia e logo os rumores começaram sobre quem iria assumir sua homossexualidade, se era a personagem, a protagonista ou ambas. Apesar de todo o tempo que os produtores dedicaram a esse capítulo, a ala mais conservadora dos Estados Unidos, formada principalmente pela Igreja – assim como alguns anunciantes – decidiram que a série era “muito gay”. Ellen DeGeneres e Laura Dern, a mulher pela qual a personagem principal se apaixonou, demoraram muito tempo para conseguirem papéis importantes depois desse show. Mesmo com os pro-

blemas, “The Puppy Episode” teve grande audiência, ganhou prêmios e se tornou rapidamente um fenômeno cultural. A frase “Eu sou gay”, dita sem querer em um microfone de aeroporto, quando a intenção era confidenciar o segredo recém-descoberto, pode parecer clichê para muita gente, mas para Ellen DeGeneres, assim como é para muitas lésbicas, foi um ato de coragem que precisou de anos de preparação. Por isso tudo, esse episódio merece toda a atenção do público que estuda a cultura LGBT. O GLAAD – Gay and Lesbian Alliance Against Defamation – considera o episódio como um dos momentos mais influentes da televisão e da cultura gay. A série Ellen pode ter terminado uma temporada depois, mas está até hoje na lista dos “100 melhores episódios da TV Guide”, o guia mais influente da televisão norte-americana. O preconceito em relação aos personagens homossexuais ainda existe, mas atualmente pode ser encontrado um conteúdo abertamente gay nas redes de televisão dos Estados Unidos. Seja em séries como The L Word e Queer as a Folk, realmente direcionadas ao grupo LGBT, ou em Skins, United States of Tara e Glee, que, como várias outras, aborda o tema sem estereótipos. Então, a dica para quem quer conhecer mais sobre a cultura gay é assistir, no Youtube o episódio “The Puppy Episode”, da série Ellen. Embora não tenha legendas em português, ainda vale a pena pelo conteúdo.

Divulgação

Um episódio “made in Brazil��� revolucionário

Os tablets, computadores portáteis com tela sensível ao toque, estão se tornando uma nova mania em todo mundo. Depois que a Apple lançou o iPad – o primeiro do gênero - em abril de 2010, não demorou muito para que o computador se transformasse em uma mania entre os aficionados por tecnologia. Somente no Brasil, foram vendidos mais de 100 mil desses aparelhos em 2010. Várias empresas de tecnologia seguiram o exemplo e, em menos de um ano, já são pelo menos seis modelos diferentes à venda no mercado mundial, sem contar as previsões de lançamento feitas para este ano. Aqui, no Brasil, além do iPad, já dá para comprar o Xoom, da Motorola, o Galaxy Tab, da Samsung, e o ZTE V9, que chegou ao mercado brasileiro este mês. O sucesso dos tablets é tamanho, que o governo brasileiro decidiu incluí-los na Lei do Bem, que dá incentivos fiscais para a fabricação de computadores e notebooks em território nacional. Com isso, as empresas que decidirem fabricar no Brasil poderão estar isentas de pagar o PIS, o COFINS e terão redução do Imposto

Sobre Produtos Industrializados. O desconto total em impostos é de 31%. Isso deve igualar os preços aqui aos do mercado internacional, segundo o ministro da Fazenda , Guido Mantega, declarou através a Agência Brasil. Atualmente, o tablet mais barato vendido aqui é o Galaxy Tab, que custa a partir de R$ 556 em planos especiais de operadoras de telefonia móvel. A medida ainda está sendo analisada pela Câmara dos Deputados, porém, tudo indica que deve ser aprovada. Com a medida, o governo brasileiro espera atrair empresas de tecnologia para fabricarem aqui. Depois do anúncio, doze empresas já se cadastraram para produzir os aparelhos no Brasil. Uma delas, a Apple, já tinha planos de se instalar no País para fabricar computadores e notebooks. O anúncio é animador, mas ainda não dá para ficar feliz. Como em toda lei, os reflexos dessa vão demorar a chegar até os consumidoresfinais. Na melhor das hipóteses, só no final do ano que vem os tablets nacionais poderão ser comprados nas lojas.


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Curitiba, sexta-feira, 27 de maio de 2011

PERFIL

O artesão da palavra O jornalista José Carlos Fernandes trata do gênero perfil, sua marca registrada há quase 20 anos Daniel Castro Após três tentativas frustradas de encontrar uma sala livre na redação da Gazeta do Povo, o jornalista José Carlos Fernandes – o Zeca – indicou aquele que seria o lugar apropriado para a nossa entrevista. Na pequena sala nos fundos da redação, nada mais do que uma mesinha e um arquivo de jornais sobre um velho piso de madeira, contribuindo, de certo modo, para ampliar o clima antigo que evidenciado nos óculos do jornalista, passando por seu biotipo alto e magro e culminnado em seu vasto conhecimento acerca do gênero literário. - Qual foi o seu primeiro contato com o texto de perfil? - A primeira vez que prestei atenção no assunto foi em 1994, quando o Caderno G caderno de cultura da Gazeta do Povo - passou a ter na edição de sexta-feira uma página de perfil feita pela Márcia de Freitas, uma colega nossa que hoje faz outro trabalho por aqui. Na faculdade, eu devo ter visto em outras ocasiões, mas no caderno cultural a gente acaba fazendo muito perfil, a prática e a sensibilidade que ele tem acabou gerando o meu encontro com esse gênero. - Na época você trabalhava como repórter? - Trabalhava, mas não fazia, olhava mais os perfis da MárFoto: Rodolfo Buhrer

cia. Depois que a gente passou dessa fase, começamos a fazer, não lembro se na quinta ou na quarta-feira, vários perfis. Lembro de ter feito o do cartunista Solda, da Fernanda Rocha, que na época era apresentadora da CBN, da Irair Casagrande, uma historiadora... Era uma busca por pessoas que não estavam muito em evidência. Com quase 20 anos de experiência nesse tipo de reportagem, Zeca pode ser citado como referência para quem está começando. Além de indicar a leitura de autores, como o brasileiro Sérgio Vilas Boas e o norte-americano Gay Talese, influente representante do New Journalism (gênero famoso pela mistura de técnicas narrativas e literárias), ele aponta a percepção e a sensibilidade como características fundamentais do bom escritor. - O que você considera essencial para escrever um bom perfil? - Neste gênero, você percebe um aspecto da vida do personagem que seja desencadeador de todo resto, é a chave da leitura, principalmente com populares, que elaboram menos as suas vidas. Você começa a perguntar, vai garimpando as pistas e diz: ‘ah, foi aqui que a vida dele deu a dobra’, e é onde o perfil começa. - E qual é a reação desses po-

pulares quando recebem a sua obra?

- O mérito foi seu por ter a deixado à vontade?

- Eu tenho uma hipótese. Quando não responde, ou ele não leu, porque não teve acesso, ou nem se interessa. Ele só vem depois dizer que gostou não que tenha que agradecer, não é isso - mas ele só dá um feedback quando outras pessoas dizem: ‘puxa, eu também vejo você assim’. Então ele demora a entender que aquilo ali é um fragmento dele. Imagino que se eu fosse perfilado por alguém, também pensaria: eu sou tantas coisas, por que ele olhou justamente aquele aspecto?

- Sorte. Acho que ela estava procurando alguém para contar e sabia que um dia teria que fazer isso. Teve um caso, inclusive, de uma família que conheço desde criança por serem amigos lá de casa, em que um dos meninos se suicidou e a mãe dele, Dona Flori, nunca tocou nesse assunto. Até que em um Dia das Mães, ela me mandou uma carta que o filho dela tinha escrito e aconteceu a mesma coisa. Nós sentamos e ela me deu o perfil completo do Édson, o suicida, e dela, em 20 anos da morte do filho. Fiquei impressionado com esses dois casos, parecia que elas estavam esperando uma hora para falar de si.

Esfregando as mãos para que Zeca possa se identificar nesse modelo híbrido de perfil e entrevista, me intrigo com os olhares curiosos de quem passa pela pequena sala como se estivesse se perguntando quem eu era para tomar o tempo do repórter xodó e com isso desfalcar a equipe com um pedaço tão importante da redação, justo às 4 horas da tarde de uma terça-feira. No entanto, dentro do cômodo ligeiramente apertado, Zeca parecia não se incomodar com o horário e voltou a falar entusiasticamente . - Na hora de fazer um perfil tento perceber pessoas que estão fora do universo do “jornalismo coitadinho”, em que você se sente pai do personagem. Alguns outros são muito legais. Quando você tem a oportunidade de conversar com pessoas imponentes, que ganharam muito dinheiro ou tiveram alguma projeção, é bom ver algo nelas que não seja exatamente isso. Aconteceu com a Sabine Wahrhaftig, que foi a dona da boutique Noi, uma figura de 82 anos, 1,80m, inteira. Ela sentou e contou a perseguição dos nazistas aos judeus sem eu perguntar nada, parecia que a pessoa estava esperando um dia encontrar alguém.

- Todo mundo é um bom perfilado? - Aconteceu um caso uma vez com o seu Milton, motorista de ônibus, que todo mundo cantou a bola dizendo que ele era ótimo, mas não rolou, ele não me convidou para entrar em sua casa. Ele se deixou fotografar, dominava o código da fotografia, mas me perguntava: ‘para que você que saber isso?’, então não rolava nenhum grau de intimidade. Desisti de fazer o perfil e disse que um dia a gente podia tentar de novo. Existem pessoas que não tiveram um fato forte para contar, mas em alguns personagens aparentemente fracos, se você olhar com calma pode enxergar algo. Tenho medo de afirmar que todo mundo daria um bom perfil, mas todo mundo tem uma boa história para contar. Zeca parecia muito menos quieto do que haviam me descrito. Ele cursou Jornalismo e Filosofia, aventurou-se pela Escola de Belas Artes e ainda carrega na bagagem uma faculdade inacabada de Teologia. Como se não bastasse, foi seminarista, de onde até hoje carrega a devoção pelo conhecimento. Para

que não houvessem mal entendidos, fez questão de deixar claro que fora da reportagem e das salas de aula, a timidez permanece. Portanto, a sua carga de trabalho tipicamente jornalística faz crer que são raros os momentos onde o acanhamento se evidencia. Os primeiros livros entraram pela porta da casa de Zeca por ocasião do Natal. Francisco Cunha Pereira Filho, ex-presidente da Rede Paranaense de Comunicação (RPC, hoje GRPCom), falecido em 2009, presenteou o pai do jornalista, um português da Ilha da Madeira que trabalhava como motorista do grupo. Assim que chegavam, as obras eram colocadas ao lado da televisão, sendo expostas como objetos a serem venerados por terem vindo das mãos de quem veio. Depois, o madeirense abriu uma banca de jornal, a qual administrava com muito zelo. Da herança fez-se o repórter. “Tanto na banca quanto no seminário, a gente acaba aprendendo a lidar com populares”, conta Fernandes. - Você se preocupa muito com a valorização de Curitiba nas colunas e perfis que escreve... - Há anos, por conta das aulas que dou, não viajo pelo jornal. Por isso acabei ficando preso na cidade e pensando em encontrar coisas aqui. A gente queria tirar o leitor da sua ilha de conforto. O nosso público, da Gazeta do Povo, é formado pelas classes A e B. Então queríamos tirar esses caras das ilhas e mostrar que existem coisas interessantes nas ruas para eles prestarem atenção, mostrar que a rua é divertida e só ela pode conter a violência. Uma cidade só existe se as pessoas estão circulando nas ruas. - Você continua achando que não seria um bom perfilado? - A gente sempre fica tímido... Despeço-me de Zeca sem antes conferir, para alívio dos leitores, que em sua gaveta existe uma caderneta com páginas e páginas de anotações, garantindo assim boas histórias para serem contadas durante muitos anos.


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FOTOGRAFIA

Curitiba, sexta-feira, 27 de maio de 2011

OS ROSTOS DO MST ALINE REIS

Entre cultivo de terras, o trato de animais e bandeiras dos trabalhadores rurais, as crianças e os jovens cursam a vida, entregando à câmera olhares profundos e reveladores.


LONA 638 - 27.05.2011