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Curitiba, segunda-feira, 23 de maio de 2011

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Ano XII - Número 634 Jornal-Laboratório do Curso de Jornalismo da Universidade Positivo

Curitiba, segunda-feira, 23 de maio de 2011

lona.up.com.br

Conferência expõe preocupações com desenvolvimento sustentável Fábio Muniz

Especial

Profissão: professor. Os jovens que buscam a carreira, suas dificuldades e sonhos Pág. 4 e 5

Coluna As novas ferramentas de divulgação musical e a força da internet Análise do seriado global “Divã” e as virtudes de Lilian Cabral Pág. 6

Retrato

Nesta última semana, Curitiba recebeu a Conferência Internacional de Cidades Inovadoras (CICI), evento que contou com palestrantes dos cinco continentes do mundo. Fritjof Capra, físico austríaco, enfatizou a necessidade de combinar o conhecimento ecológico com a participação direta da democracia. Pág. 3

Kakané Porã: o retrato da primeira aldeia indígena urbana do Sul do país Pág. 8

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Curitiba, segunda-feira, 23 de maio de 2011

Editorial Nessas três semanas de edições diárias do Lona, tivemos um panorama bem interessante dos desafios de produzir jornalismo impresso. Das matérias factuais do dia, algumas com problemas de fontes, outras com insuficiência de produção, passando por matérias especiais com pouca profundidade de análise, tivemos contato com uma série de percalços e dilemas. Se os percalços são até necessários e muito úteis em nosso processo universitário - não podemos esquecer que somos um jornal-laboratório e que as falhas encaixam-se em um processo pedagógico - alguns dilemas são bem mais complexos de administrar. Um dos pontos que mais suscitam polêmicas no dia a dia do jornal é a diagramação das matérias enviadas pelos nossos companheiros de curso. O material que publicamos obedece, geralmente, uma ordem pré-estabelecida e agendada com os professores das disciplinas de Jornalismo Gráfico e,são entregues dentro de normas básicas de publicação. Alguns problemas acontecem nessa etapa, já que bus-

camos adaptar o material ao conjunto da nossa edição e ao nosso padrão de diagramação geral, muitas vezes, critérios mais subjetivos do que definitivos: são jogos de cores que são mudados, textos que são revisados, fotografias que não se encaixam num padrão de publicação adequado. Parêntese: estamos buscando ao máximo não publicar material de divulgação - haja vista que não existe tecnicamente material de divulgação, alguém tem direito autoral sobre a fotografia - entre outras rusgas que sobressaem após cada edição. O que queremos dizer com todas essas constatações é que integrar a equipe de edição do Lona é uma tarefa complicada e, ao mesmo tempo, extremamente proveitosa. Ter a oportunidade de receber críticas, sugestões e análise de um ombudsman a cada semana está sendo um grande aprendizado para toda a equipe e cremos que para todos que acompanham o Lona diariamente. Na busca por um jornal plural e bom de ler. Boa leitura a todos.

Expediente Reitor José Pio Martins Vice-Reitor e Pró-Reitor de Administração Arno Gnoatto Pró-Reitora de Graduação Marcia Sebastiani Pró-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa Bruno Fernandes Coordenação dos Cursos de Comunicação Social André Tezza Consentino Coordenadora do Curso de Jornalismo Maria Zaclis Veiga Ferreira Professores-orientadores Elza Aparecida de Oliveira Filha e Marcelo Lima Editores-chefes Daniel Zanella, Laura Bordin, Priscila Schip O LONA é o jornal-laboratório do Curso de Jornalismo da Universidade Positivo. Rua Pedro Viriato Parigot de Souza, 5.300 Conectora 5. Campo Comprido. Curitiba -PR CEP 81280-30 Fone: (41) 3317-3044.

Opinião

Os tricolores precisam acreditar

Luiz Fernandes Estive lendo no site Futebol Interior o Guia do Brasileirão da Série B 2011. Li e vi todas as escalações e contratações dos clubes e cheguei a uma constatação: o Paraná Clube vai brigar pelo acesso neste ano. Confesso que pensei muito sobre a situação do clube que acabou de ser rebaixado no Campeonato Paranaense. Mas digo isso com convicção, analisando alguns elementos: o nivelamento das equipes, as contratações dos outros clubes e principalmente as do Paraná. Só para relembrar, o time fraco que rebaixou o Paraná esteve em campo somente no 1° turno. Depois disso, a diretoria foi atrás de reforços, e mesmo não conseguindo salvar o tricolor, apresentou um elenco mais competitivo. Começo pelo gol. Zé Carlos, antes no Avaí, voltou para

ser o grande goleiro que foi no Paraná em 2009. Será essencial nessa caminhada. Foi também buscar em São Paulo os zagueiros Cris, Paulo Mirando e Amarildo, muito bons jogadores. Já aqui mesmo no estado, trouxe três destaques do estadual: Lisa, Cambará e Giancarlo. Uma lateral, volante e um atacante. Além deles, Welington e Thiago Santos, dois meias, também contribuirão muito para o tricolor. E não nos esqueçamos dos que aqui ficaram, como o bom atacante Léo, Kelvin, Diego, o lateral esquerdo Henrique (atualmente na reserva, mas que logo recuperará sua posição) e a presença de Kerlon, que se tiver menos lesões, será de extrema importância. Esse elenco me enche de esperanças em um bom campeonato. Porém, acho que o clube

tem ainda tem que buscar três objetivos: o primeiro é tentar repatriar o meia Ricardinho, para ser o maestro desse time. O segundo é manter a base e não perder jogadores, buscar sempre se reforçar. Quando era líder em 2010, acabou tendo os salários atrasados, perdeu jogadores e despencou na tabela. Erros primários como esses, não podem acontecer novamente. O terceiro e mais importante é trazer o torcedor para a Vila. Sei que o momento vivido não é dos melhores, mas promoções para a torcida lotar o estádio precisam acontecem. Vencer em casa é primordial para buscar o acesso. Analisando as outras equipes, nada muito diferente. Clubes do mesmo nível, com uma leve preferencia por Goiás, Vitória e Sport. Por isso, acho que é hora de acreditar, pois o Paraná pode sim voltar a Série A do futebol Brasileiro.

OMBUDSMAN

Uma grande evolução Por Ana Mira, jornalista e professora Não acompanho o LONA há tanto tempo quanto outros professores da Universidade, mas, com certeza, percebo o salto de qualidade no jornal, em 2011. As discussões sobre público, linha editorial e sobre qual jornal gostaríamos realmente de fazer parecem, finalmente, estar refletidas nas páginas do LONA. Como ombudsman desta semana, divido minha análise no âmbito macro e micro da produção. No âmbito macro, ponto para o jornal no que diz respeito à escolha das pautas e adequação ao seu público. No entanto, peca ainda na questão gráfica, principalmente com mau aproveitamento das páginas centrais que podem ser em 4 cores. No âmbito micro, acho pertinente destacar algumas considerações sobre cada edição da semana. Na segunda, dia 16 de maio, uma falha na matéria sobre a Feiarte, ao usar assessor de imprensa como fonte – o erro é lição básica para quem vai depender de assessorias em 99,9% do seu tempo como jornalista. Ainda

neste dia, boa abordagem de um tema a princípio bastante no inverno – a alimentação. Na terça, dia 17, chamou a atenção a matéria sobre o Lupaluna. Pareceu-me uma cobertura um tanto quanto deslumbrada do evento, algo até compreensível em uma cidade extremamente carente de grandes shows e festivais por falta de espaço. A matéria especial sobre a camisinha foi criativa, porém pecou ao referenciar informações. Termos como “uma pesquisa feita com jovens” são vagos e demonstram falta de informação (o que, muitas vezes, pode não ser o que realmente aconteceu). Primorosa a edição de quarta, dia 18. Ótima matéria sobre a viagem a Buenos Aires, envolvente, explicativa e criativa. Além disso, os diversos olhares sobre os artistas de rua derrubaram meu preconceito ao ler o título. Imaginei que seria mais daquelas matérias falando sobre como viver com arte na rua, mas o texto foi muito além disso. A matéria especial de quinta, dia 19, foi a melhor da semana. Nunca é demais falar sobre a magia de con-

tar histórias, principalmente a um público que cada vez mais conta suas aventuras em 140 caracteres. Pertinente a pauta sobre dificuldades dos calouros ao entrarem na faculdade, porém, com pouca contribuição no quesito informação. A quinta teve, ainda, uma bela matéria sobre meninos que fazem ballet. Na sexta, 20, para fechar a semana, o LONA, ao publicar a entrevista com Ratinho Jr., soube pensar no seu público e explorou o que havia de mais importante na conversa: a necessidade de descobrir novos líderes na política. Além disso, o perfil emocionante de um ex-alcoólatra, que demonstrou a sensibilidade – e não deslumbramento – do próprio repórter com a história. Destaque merecido também aos textos opinativos da semana, especialmente “Mas e aqueles caras?” (16/5), “É hora de metalinguagem, sim” (19/5) e a coluna Internacional do dia 20/5. Senti falta do assunto do momento: a inflação. No entanto, isso não tira a competência e a inegável evolução no conteúdo produzido para o LONA neste ano de 2011.


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EVENTO

Conferência Internacional de Cidades Inovadoras discute desenvolvimento sustentável Curitiba recebeu na última semana a Conferência Internacional de Cidades Inovadoras (CICI), palestrantes dos cinco continentes estiveram presentes na edição de 2011 Fábio Muniz

Ehnaeull E. G. Gonçalves Luzimary Cavalheiro Em busca do desenvolvimento sustentável, a conferência foi palco de inúmeras discussões sobre o futuro das cidades e trouxe temas de importância ambiental e tecnológica para os grandes centros urbanos. O arquiteto e urbanista Jaime Lerner fez um panorama das cidades, segundo ele uma cidade sem sonhos não pode ser inovadora. Além disso, ressaltou que a palavra sustentabilidade não é bem entendida pela maioria das pessoas que acabam simplificando ou não sabendo o que fazer a respeito do assunto. As Redes de Desenvolvimento Local de Curitiba e Região Metropolitana apresentaram o programa de formação de agentes e o impacto desse trabalho nos bairros da cidade e RMC. O programa, que visa formar e capacitar universitários, principalmente da área de humanas, em líderes mobilizadores nas comunidades, mostrou que é auto-multiplicador, pois distribui o conhecimento das redes entre a sociedade. Para a agente de Colombo, Dalila Hennel, as redes têm contribuído para que as pessoas se tornem protagonistas na sociedade. “Cidadania é a palavra que expressa melhor o trabalho das redes. As pessoas começam a ver que têm um papel importante e que podem fazer algo para promover mudanças em suas próprias localidades”. Completa a estudante de Ciências Sociais da UFPR. Um debate entre Augusto de Franco e Parag Khanna apresentou o tema ‘Reflorescimento das Cidades ‘, o destaque foi para o papel das cidades e suas mudanças no

cenário mundial, a importância do potencial humano na contribuição de uma cidade auto-organizada e protagonista nas relações mundiais. O físico Fritof Capra resumiu bem o enfoque do evento em sua palestra na quinta-feira (19). “Precisamos ensinar crianças, jovens, líderes, empreendedores e políticos a habilidade crítica com relação ao ecossistema”. O físico afirmou ainda que é preciso combinar o conhecimento ecológico com a participação direta da democracia. Que modelos biológicos do ecossistema são exemplos de organização - trabalham em rede em um sistema de cooperação. Falou também que as redes não são estruturas lineares, são modelos de relacionamento, e, portanto, conceituais. Com o tempo, os seres humanos se dividiram, deixaram de agir em comunidade. A chave para a mudança é o relacionamento entre os sistemas e o meio ambiente, disse Capra. Em outras palavras, o austríaco ressaltou a importância de nos mantermos conectados localmente, pensando sempre num mundo globalizado, sendo que cada parte tem sua característica que não pode ser reduzida nem igualada ao todo, e, sustentabilidade ecológica é o que tem de mais importante a se pensar atualmente. Educação na América Latina

Representantes de diversas cidades do continente mostraram a situação do ensino em suas localidades. No segundo dia da CICI diversos estrangeiros estavam presentes, tanto para assistir quanto para palestrar. Dentre esses últimos, estavam os representantes de várias cidades da América Latina, que vieram apresentar

O físico austríaco Fritjof Capra palestrou no evento

as iniciativas de educação de suas localidades. Da Colômbia até a Argentina, passando pelo interior paulista, foram muitas as contribuições mútuas entre os que discursaram. A secretária de educação do Atlântico, Lilian Ogliastri, mostrou os avanços no ensino em várias cidades colombianas. O destaque foi dado para o aparato tecnológico educativo, que alavancou consideravelmente a educação. Já reconhecida internacionalmente pelo seu trabalho na área, ela destacou a importância da especialização dos profissionais do ensino, para que possam saber usar didaticamente os novos equipamentos. “É necessária uma formação sólida, para beneficiar alunos e professores”, coloca. A mesma ideia é compartilhada pelo representante do município argentino de Rafaela, Marcelo Sanches. De acordo com ele, essa capacitação é o motor para o avanço da

educação. No caso da cidade, houveram aulas especiais com o objetivo de orientar os docentes sobre a utilização dos instrumentos digitais de

“Com o tempo, os seres humanos se dividiram, deixaram de agir em comunidade. A chave para a mudança é o relacionamento entre os sistemas e o meio ambiente”. Fritjof Capra aprendizado. Os pais dos alunos também foram conscientizados sobre o material. “A tecnologia propicia uma opor-

tunidade única para nossa educação”, concluiu Marcelo. Por parte das cidades brasileiras, São Caetano do Sul esteve presente. Maristela Alcântara, diretora do Centro Digital do município, exibiu os projetos da localidade. Com o melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país, São Caetano do Sul tem grande investimento em educação, com 36% dos professores pós-graduados. Iniciativas como a Rede do Educador, método de ensino a distância, são marcar da cidade. O Centro Digital, uma delas, surgiu para que os alunos pudessem ter educação tecnológica de qualidade, desenvolvendo também a produção e a criatividade. Tantos recursos não deixam de ser integrados ao currículo escolar – o que se deve ao esclarecimento dos docentes. “Não é a tecnologia que vai guiar o processo, mas sim o professor”, afirma Maristela.


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EDUCAÇÃO

Quem quer ser um professor? Encontrar jovens que queiram seguir carreira de professor está mais difícil do que ganhar na loteria, mas ainda há os que se “aventuram” Laura Beal Bordin Rotina difícil. Salários baixíssimos. Alunos desinteressados. Falta de recursos. Estes são apenas alguns dos desafios que milhares de professores enfrentam todos os dias, em milhares de salas de aulas espalhadas pelo Brasil inteiro. Segundo dados do Censo Escolar 2010, o país tem hoje cerca de 52 milhões de alunos matriculados na educação básica. São 200 mil escolas e 2,5 milhões professores de educação básica para atender a demanda educacional brasileira. Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), cerca de 40 mil vagas por ano são abertas para docentes. Com tantas dificuldades e pouquíssimo reconhecimento pelo trabalho que exercem, cada vez menos pessoas veem na docência uma opção de realização profissional. Cada vez mais o trabalho do professor fica mais complexo, e o prestígio da profissão diminui. Cada vez mais o abis-

Laura Beal Bordin

mo entre a definição ideal de docência e a realidade da educação brasileira aumenta, e com ele aumentam também o desânimo e a frustração do profissional. Muitos veem a docência como uma vocação, uma habilidade inata. Outros acreditam que o professor tem um papel fundamental na transformação social. Mas, com a falta de políticas de formação do docente, precarização do trabalho, a massificação da educação, baixos salários, violência nas escolas, e aumento de horas trabalhadas, hoje em dia, quem quer fazer parte desta transformação? Um levantamento realizado pela Fundação Vitor Civita em 2009, mostra uma queda do ingresso de jovens em cursos de licenciatura. A pesquisa ouviu 1.051 alunos de ensino médio de 18 escolas brasileiras, determinadas por áreas de abrangência regional e revelou que, no espaço de tempo de um ano, caiu cerca de 10% o número de estudantes que procuram as

licenciaturas. Além disso, dentro destes cursos, há quem não pense em seguir a carreira de professor. É o caso da estudante de teatro Fernanda Caldas. Para ela, a licenciatura foi uma opção e não uma vocação. “Sempre gostei de teatro e na Faculdade de Artes do Paraná (FAP) temos a opção em bacharelado em artes cênicas e licenciatura em teatro. Como eu sei que a vida de atriz não é fácil, pelo menos com o diploma em licenciatura eu estaria mais protegida.” Para Fernanda, o profissional é muito cobrado e pouco recompensado. “É bem difícil dar atenção, controlar toda a turma, às vezes ter que berrar pra ser ouvida. O professor não é valorizado, e o desgaste físico e psicológico é muito grande por um salário tão baixo.” Dados da fundação Vitor Civita mostram que, dos estudantes que ingressarão no ensino superior, apenas 2% indicaram um curso de pedagogia ou alguma licenciatura como primeira opção. Quando se soma

Fundação Victor Civita ATRATIVIDADE DA CARREIRA DOCENTE NO BRASIL Relatório Premilimar, outubro de 2008

A coordenadora de pedagogia da UP, Josemary Morastoni

o número de estudantes que indicam uma opção de cursos ligados a disciplinas da escola básica, como história, matemática ou educação física (a mais comum entre os estudantes) sem explicitar um curso de licenciatura, este número cresce para 11%. Ainda assim, o total de estudantes que optaram por carreiras claramente desvinculadas do magistério é de 83%. A pesquisa revela um dado ainda mais alarmante: dos estudantes entrevistados, 32% disseram já ter pensado em seguir a carreira de docente, mas desistiram devido à falta de condições de trabalho. Os principais motivos das desistências destes alunos foram a baixa remuneração, a falta de valorização social e a rotina desgastante. E de fato é. Para Josemary Morastoni, coordenadora do curso de Pedagogia da Universidade Positivo, essa desvalorização é antiga. “De dez, quinze anos pra cá, a escola [e o professor] ficaram sobrecarregados. Foi uma mudança social”. Para Jo-

Novos estados Deputados federais do Norte e do Nordeste estão se articulando para a criação de pelo menos mais cinco estados no país. Eles seriam gerados por subdivisões do Pará, Piauí, Maranhão e Bahia.

semary, o principal motivo para a desvalorização do professor é a falta de organização da categoria. “Não há na educação uma organização como se vê, por exemplo, no direito ou na engenharia”. Segundo a coordenadora, o cenário ideal da educação e da docência no Brasil é valorizar mais o professor de educação infantil. “Hoje, a valorização do professor brasileiro funciona como uma pirâmide: valoriza-se o professor de ensino superior, e se esquece do profissional da educação infantil”, afirma. A pedagoga explica que, em países referência em educação, como a Finlândia, a pirâmide é ao contrário da do Brasil. “Na Finlândia, quem tem que ter mestrado, doutorado, é o professor de educação infantil. Uma inversão na valorização dos profissionais mudaria muita coisa. Não é a toa, que os alunos chegam no ensino superior e não sabem escrever. É tudo uma questão de base”.

Carajás e Tapajós

Os dois nasceriam de divisões do Pará. A Câmara já aprovou a realização de um plebiscito sobre o desmembramento.


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“Lecionar hoje não é viver, é sobreviver” Um dia na vida de um professor da rede pública

Cinco e meia da tarde. O tubo. A fila. O ônibus. Fazendinha/Tamandaré. Lotado. As pessoas. Empurrando. Sentar? Impossível. Uma hora. De pé. Apertado. Mais meia hora. Ainda de pé. Ainda apertado. Sete horas da noite. O toque do sinal indica que todos devem ir para suas salas de aula. Cris respira fundo, pega seu caderno de presenças e se dirige a sala do primeiro ano do ensino médio. Cris é Cristopher Ramos, formado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Paraná, professor de sociologia em uma escola pública em Almirante Tamandaré. Formado desde julho de 2009, Cris sempre sentiu prazer em dar aulas. “Vocação? Não, não gosto da palavra vocação. Prefiro, hm... facilidade de expressão.” Apesar desta facilidade, Cris não escolheu seu curso pensando em dar aulas. “Entrei na Universidade pensando em pesquisa, querendo ser um pesquisador. Ao longo dos anos fui sentindo que queria dar aulas. Levava jeito. Até substitui professores nas aulas da graduação. Gostava de estar lá, discutindo as teorias sociológicas com os alunos. Achava instigante.” O peso da viagem de ônibus ainda o acompanha. Cris dá boa noite à turma e pega seu caderno de classe pra fazer chamada. “Odeio fazer chamada, me sinto como se estivesse obrigando os alunos a estarem ali. E sei que a maioria está ali por obrigação. Nada mais que obrigação.” Cris tenta iniciar a aula. A turma é difícil, não se acalma. Hoje, a missão é fazer com que os alunos comprem um livro. Um livro de bolso, baratinho. A turma se agita. Não tenho dinheiro professor! “Tudo bem, nós podemos tirar um Xerox, sai muito mais

barato”, diz Cristopher. “Eles esperam que tudo deve chegar em suas mãos por meio do Estado. A escola mesmo os educa assim.” A aula continua. Cris deve utilizar o livro didático, extremamente superficial. A classe divaga e ele se pergunta qual é o seu papel dentro da sala de aula. “Eu gosto de ser ativo, não gosto quando todos ficam de olhando. Sei que de 40 alunos, 6 estão entendendo o que estou falando.” Cristopher conta como chegou àquela sala de aula. “Eu fiz o Processo Seletivo Simplificado, da Secretaria Estadual da Educação... dar aulas para ensino médio não era a minha primeira opção, mas precisava de um emprego para me sustentar e juntar dinheiro para minha pesquisa de campo no mestrado.” Cris começou a dar aulas de história em uma escola diferente, na mesma Almirante Tamandaré. “Muitos professores dão aulas que não correspondem a sua formação. Conheço um que é formado em

“_____________________ Cheguei preparado para mudar, mas a escola não quer mudar a educação. Eu faço a minha parte, mas uma andorinha não faz verão.

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educação física e dá aulas de geografia, história, o que vier.” Ele achou que dar aulas em escola pública ia ser muito diferente. “Achei que teria liber-

Laura Beal Bordin

Cristopher faz a chamada, mesmo acreditando que este é só um artifício para obrigar os alunos a virem às aulas.

dade, que poderia fazer meus alunos pensarem, e não só reproduzir.” Encontrou uma realidade diferente. Uma realidade que quer que os alunos passem de ano, que enfatiza números e não formação. “Eu acho que a falta de liberdade, de uma escola que esteja preocupada com a formação do aluno cidadão é o que mais desmotiva. Cheguei preparado para mudar, mas a escola não quer mudar a educação. Eu faço a minha parte, mas uma andorinha não faz verão.” A aula continua e Cris se frustra em perceber quantos alunos estão ali forçados. Seja pelos pais, pelo mercado de trabalho, ou pela própria escola. Para ele, o professor não é mais um transformador da sociedade. É um mero instrumento de estagnação. “A escola não quer mudar. Há muita política envolvida.” Cris continua a aula, e a discussão sobre

o livro que o professor insiste que os alunos leiam. “Se eu pudesse, eu compraria um livro para cada um. Mas e aí, como eu fico?”. Ele tem uma jornada de 21 horas por semana. É apenas pago por 20 delas. O salário? Setecentos reais. “Se vale a pena? Em curto prazo eu diria que não. Mas penso, no meu futuro, no meu mestrado... aí vale.” E desabafa: “Hoje, lecionar é apenas sobreviver.” Mesmo com tantos desafios, o professor não pretende largar a docência. “Assim que terminar meu mestrado, quero dar aula na universidade. Os alunos são mais interessados, têm um motivo maior para estar ali. Não é apenas uma obrigação social.” Esperança na mudança da educação? “Sabe, quando eu era um dos alunos que sentava naquelas cadeiras sem um propósito sofria muito. Não tinha motivação”. Quando Cristopher entrou

Gurgueia e Maranhão do Sul

Gurgueia, englobaria 87 municípios do Sul do Piauí. Já há projeto sobre a divisão na Câmara. E Maranhão do Sul abrangeria 49 municípios do Maranhão, também há proposta sobre o tema em análise.

na Universidade encontrou a motivação, encontrou e entendeu o propósito da educação. “Tudo o que quero é que meus alunos passem pelo o que eu passei”. Cris ainda não desistiu. “Posso não mudar a educação, mas faço a minha parte”. Essa é a missão do professor. Com certeza seus quarenta alunos não mudarão a forma de ver o mundo. Mas se um mudar e se tornar um cidadão consciente, vale a pena. O sinal toca outra vez. Agora, dez e meia da noite. Cris dá boa noite à turma e segue para o ponto de ônibus. Fazendinha/ Tamandaré. Dessa vez não tão lotado. O cansado é evidente, e quando Cris percebe, já está próximo de casa. Lentamente, os ponteiros do relógio se juntam. Quase meia-noite. Agora é hora de descansar, por que amanhã as provas devem ser corrigidas e as notas fechadas. E a sociedade precisa ser transformada, pouco a pouco, aluno por aluno.

São Francisco

O estado seria criado no oeste da Bahia, com 35 municípios, já existe um projeto que deve formalizá-lo nos próximos dias.


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Curitiba, segunda-feira, 23 de maio de 2011

Felipe Gollnick

Willian Bressan

@felipegollnick

@willian_bressan

Cursa o 3ºperíodo da manhã e publica seus textos no endereço: www.defenestrando.com,

Cursa o 5º período da manhã.

Televisão

Música

Autopromoção musical na internet Milhares e milhares de bandas desconhecidas disputando espaço na Internet. Como fazer para se destacar? Eis alguns fatores que podem ajudar. Saber utilizar o Twitter é essencial. Se uma banda começa a tuitar coisas engraçadas, envolventes e inusitadas, seus seguidores começam a retuitála (o retweet é uma forma extremamente simples e eficaz de propaganda, por mais que não pareça). Assim, os tweets dela chegam a um público que não a conhece e que tornase potencial simpatizante do grupo. Daí ao tuiteiro curioso clicar em algum link e ir parar na página do conjunto do Myspace, é um piscar de olhos. Então chegamos a outro ponto importante: material de qualidade. A banda pode fazer o melhor trabalho de autopropaganda do mundo mas provavelmente não irá a lugar nenhum se não tiver músicas boas e bem gravadas disponibilizadas em algum lugar na Internet (uma boa imagem também vale muito, mas isso pode ficar em segundo plano). Veja o caso do Homemade Blockbuster: o conjunto indie-rock curitibano botou apenas duas músicas em seu Myspace – ambas gravações caseiras mas com boa qualidade técnica, além de serem ótimas composições – e agora já vai longe, com shows pelo país afora e contrato assinado com um selo do Rio de Janeiro. Mais um fator importante: sorte. E com esta é difícil lidar. Mas o caso é que se as pessoas certas por algum motivo não passarem pela página da

banda, ela também não sairá do lugar. E por pessoa “certa”, entenda-se qualquer tipo de pessoa que possa apaixonar-se pelo som e empolgar-se com ele já na primeira audição, e que esteja com disposição (esta depende do dia, do clima etc) para divulgar a banda por conta própria para os amigos, para a namorada, para o cachorro. Junte-se tudo isso e você tem um produto infalível. Não há anonimato que resista a uma combinação de música boa, autopromoção certeira e acaso. O mais recente e incrível caso é o de um grupo curitibano chamado A Banda Mais Bonita da Cidade: eles vinham trilhando um bom caminho ao disponibilizar registros de qualidade, ao fazer ótimos shows e ao utilizar com esperteza os recursos da Internet (com certa frequência eles fazem Twitcams para conversar diretamente com o público, por exemplo). Mas de uma hora para outra um vídeo que a banda subiu no Youtube na última quarta virou febre. O clipe da música “Oração” apresenta uma canção agradável e imagens extremamente felizes e emocionantes. Alguém publicou algum link; outra pessoa viu, gostou muito e divulgou outro link. O efeito foi viral e em poucas horas o clipe era assunto em incontáveis tweets e posts no Facebook. No dia seguinte, o vídeo já estava em blogs importantes e sites espalhados pelo país. Em apenas dois dias e meio, foram mais de 350 mil views no Youtube. Prova de que a combinação dos fatores funciona bem.

No divã

Pense em uma mulher comum , na faixa dos 40 anos, com problemas críveis – totalmente reais. Essa mulher é Lilia Cabral, ou melhor, Mercedes. A personagem de sucesso saiu do livro de Martha Medeiros, ganhou uma peça que foi montada por mais de 10 anos, um filme nacional de grande sucesso, e agora chega à televisão na série escrita por Marcelo Saback e dirigida por José Alvarenga Jr. Li em algum lugar, e reproduzo, que Lilia Cabral é uma mulher tão simples, tão próxima, que a gente poderia chamá-la para tomar um café na esquina. Lilia já declarou que emprestou muito dela para a Mercedes. Mercedes é uma personagem deliciosa, divertida, e que enfrenta os mais diversos problemas. Quem nunca viu ou passou por situações como as dela? “Divã” – o seriado – é um dos momentos raros de qualidade extrema da televisão brasileira nos últimos tempos. E isso acontece porque cada episódio é filmado como se fosse um filme, emprestando da sétima arte linguagem e movimentos de câmeras ainda inexplorados na televisão. José Alvarenga Jr, por ter dirigido mais seriado do que novelas, também faz a diferença, já que ele não tem o vício da linguagem técnica de televisão – como close, super close – e outros en-

Divulgação

quadramentos tão comuns vistos a exaustão nas nossas novelas. O texto de Marcelo Saback, por sua vez, é delicioso e une drama e comédia numa dose perfeita e não deixa nada a desejar em relação aos seriados americanos, bem diferente da atração que a antecede no horário, “Tapas & Beijos”, que é uma diversão fácil e popular. “Divã” poderia ter corrido o risco pelo que muitos best-sellers passam ao serem adaptados para outras mídias: o esgotamento de assunto e o desinteresse pelo público. Felizmente, isso não aconteceu, porque Mercedes é uma mulher comum que tem problemas que todos nós temos. Ela lida com traição, se relaciona (sem querer) com o namorado da sua melhor amiga, e tem que aguentar a namorada mais velha de seu filho. Os conflitos são universais, mas as tônicas do texto e da direção dão o brilho especial e único a esse seriado que, infelizmente, não terá vida longa. Amanhã vai ao ar o último episódio da primeira temporada. A curta duração é explicada por dois motivos: o primeiro é o sistema de rodízio de seriados. E o segundo é que Lília Cabral vai brilhar na próxima novela das 21h, “Fina Estampa”. Para você que não acompanhou, vale a pena dar uma olhada na última conversa que Mercedes terá com Lopes no divã.


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PERFIL

O jovem que escolheu viver da luz

Amanda Queiroz Nilo Biazzetto Neto. Um cara aparentemente muito novo, mas com uma grande história e experiência de vida. Quem olha para ele não diz que, por trás daquela barba por fazer e a aparência de moleque, existe um homem com muitos sonhos e ambições, e existiu um menino que traçou um destino para si e acreditou, sendo um verdadeiro empreendedor. Com apenas 36 anos, ele é o fundador e proprietário da maior e melhor escola de fotografia de Curitiba, a Portfólio, e é um dos mais requisitados profissionais na área. Como ele conseguiu? Com muita força de vontade, mas principalmente, tendo amor pelo que faz. A história da vida de Nilo começou em Curitiba mesmo, cidade onde nasceu no dia 2 de março de 1975. Cresceu e começou a despertar interesse pela fotografia aos 19 anos, na faculdade, enquanto cursava Publicidade e Propaganda na PUC-PR. Formou-se em 1996 destinado a seguir a carreira de fotógrafo, e desde então passou a estudar fotografia e linguagem realizando diversos cursos em Curitiba e São Paulo. Dois anos após se formar,

empenhado a realizar seu sonho, fundou a Portfolio, que hoje é uma das mais conceituadas escolas de fotografia do Brasil. Desde 1999, quando se especializou em fotografia publicitária pelo SENAC-SP, atua no mercado nacional da área. Tem seu trabalho profissional direcionado para a fotografia de moda e gastronomia. Mas a paixão por viajar fez com que desenvolvesse um conceito próprio para sua fotografia: Liberdade Fotográfica, um dos cursos que Nilo mais gosta de lecionar. Mas seus projetos não pararam por aí, Nilo é um profissional de grande currículo. Sua ambição o ajudou a crescer e conseguir trabalhos cada vez melhores. Na medida em que seus feitos iam ganhando maior importância, Nilo adquiria mais experiência no mercado. Em 1999, desenvolveu o trabalho Paixão RubroNegra, quando fotografou a torcida do Atlético Paranaense por uma temporada, e realizou a exposição na Arena da Baixada, com 64 imagens e mais de 15.000 visitantes em 30 dias. Esse foi até então, um de seus maiores trabalhos, e um salto para a sua carreira.

Conforme ia sendo reconhecido, mais projetos importantes surgiam. O ano de 2000 foi de muitas conquistas. Nesse ano, Nilo foi o fotógrafo da Expedição às Terras do Sul, realizada pelo amigo e aventureiro, Mauro Rocha, uma viagem de 45 dias pelo interior de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, que deu origem à exposição fotográfica Terras do Sul. Também idealizou e organizou a I Maratona Fotográfica de Curitiba, hoje um dos maiores eventos de fotografia do Brasil, que se repetiu pelos próximos anos. Em 2005, o evento teve o apoio da Lei Rouanet e recursos de patrocinadores. Em 2001 foi o fotógrafo enviado especial do Clube Atlético Paranaense, para cobrir o fechamento da Cápsula do Tempo. O projeto criado pelo The New York Times e pelo American Museum of Natural History, reuniu elementos da civilização do ano 2000, que foram colocados em uma cápsula que será aberta apenas no ano 3000. A Camisa do Atlético, um disco de Tom Jobim e uma garrafa de água Ouro Fino, foram alguns dos elementos do Brasil, incluídos na cápsula. O material fotográfico gerou uma

Foto: Divulgação

Foto: Nilo Biazzetto Neto

exposição e uma revista comemorativa. No ano seguinte, participou da exposição fotográfica Coletiva Água, Fonte de Vida, que reuniu 19 Fotógrafos da Abrafoto e Duplas de Criação de Agências de Propaganda do Paraná, num grande evento cultural. Em 2003, recebeu, junto com a amiga e artista plástica Maria Regina Maluf, o Grand Prix Du Júri, no Concurso Internacional de Arte da Fundação Domenico Chiesa, na Basiléia, Suíça. Também no mesmo ano, inaugurou o Estúdio Portfolio, um espaço moderno de produção, projetado pelo irmão e arquiteto Guto Biazzetto. Em 2008, teve três imagens selecionadas entre as 51 finalistas da categoria cor do Premio Leica - Fotografe. Hoje, continua com os trabalhos externos, mas seu foco principal é dar aulas. Dirige a Escola Portfolio e ministra cursos nas áreas de fotografia

de moda, gastronomia e foto publicitária, além do Curso Liberdade Fotográfica. Como fotógrafo comercial atua principalmente nas áreas de moda, gastronomia e retratos publicitários. Além do trabalho comercial tem diversos projetos autorais em andamento. Nilo é para seus alunos, além de professor, um exemplo. Ele mostrou que não é impossível realizar os seus sonhos, só basta ter força de vontade e não desistir. “O caminho pode ser sinuoso, mas que se encontra no final é extremamente gratificante, é o que eu sempre digo”, comenta Nilo, que criou uma espécie de filosofia de vida. E há quem diga que a aula dele faz qualquer um se apaixonar por fotografia, pois ele ensina uma arte, e não um produto a ser comercializado. “Não tem uma pessoa que não sai dessa escola apaixonada por fotografia. As aulas dele são demais, dá até pra ver que ele fala da profissão com um brilho nos olhos, ele realmente ama o que faz. Mas também, ele nasceu pra isso né, tira cada foto incrível” comenta a aluna do curso de Fotografia Avançada Publicitária, Juliana Batistella. Mas o mais gratificante ainda é para as filhas de Nilo. O pai conta que elas são novinhas, e que toda vez que estão com uma amiguinha diferente e passam por um outdoor do restaurante Madero, apontam e gritam cheias de orgulho: “Olha, meu pai que tirou aquela foto!”

Nilo fotografando com sua lente preferida, a 50 mm de abertura 1.8.


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Curitiba, segunda-feira, 23 de maio de 2011

Kakané Porã : As dificuldades de uma aldeia de concreto A primeira aldeia urbana do sul do Brasil luta para preservar a cultura indígena Dilcélia Queiroz Kakané Porã é a primeira aldeia urbana do sul do Brasil. No espaço cedido pela prefeitura, vivem hoje 35 famílias de três etnias: caingangues, guaranis e descendentes de xetas. São 150 pessoas, sendo 40 crianças, morando em uma área de 44 mil metros quadrados, 9 mil metros quadrados de bosque, e área para cultivo e reflorestamento. Antes disso, o grupo viveu por seis anos na Reserva Ecológica do Cambuí, próxima de São José dos Pinhais, local inóspito no qual muitos índios pereceram. A moradora caingangue, Camila da Silva, conta que não havia o menor conforto na antiga aldeia. “Lá no Cambuí era horrível, muita gente morria por causa das péssimas condições. Não tínhamos casas, nem mesmo um banheiro para usar”, lembra. Durante esse tempo, o cacique Carlos Luis dos Santos e a ONG Aldeia Brasil travaram uma luta incessante para conseguir um local melhor para os indígenas. Oswaldo Eustáquio, presidente da Aldeia Brasil lembra das muitas reuniões com a pre-

feitura e a Cohab: “Algumas pessoas davam risada da gente. Achavam-nos sonhadores. Mas, mesmo assim, nunca pensamos em desistir do projeto”. Em 28 de novembro de 2008 os índios do Cambuí foram transferidos para a aldeia urbana Kakané Porã, no bairro Campo do Santana, em Curitiba. Além de tirar os indígenas de áreas de risco, onde a maioria morava, a aldeia também facilita a manutenção da cultura indígena. Para o cacique Carlos, a principal preocupação dos moradores é a preservação da língua nativa: “Aqui dá para resgatar muitas coisas que estão perdidas, uma delas é a língua. Essa é a principal preocupação de nosso povo, passar nossa língua para as crianças”, afirma. A socióloga Eliane Basílio também acredita que a vivência dos índios em meio urbano contribui para a crescente perda de suas raízes culturais. “As condições oferecidas nas cidades para a população indígena são precárias, por isso temos que criar espaços adequados para eles. A importância da cultura indígena tem que ser destacada dentro da sociedade para que possa

Dilcélia Queiroz

As crianças de Kakané terão aulas de sua língua nativa

ser valorizada e respeitada pelos brasileiros.”, explica. Outro traço mantido pela aldeia é o trabalho com o artesanato. A maioria das mulheres confeccionam cestos que são vendidos em feiras. Já os homens trabalham nas indústrias próximas ao local e as crianças estudam nos colégios da região do Tatuquara. Em Dilcélia Queiroz

As construções em cimento possuem dois quartos, banheiro, cozinha e uma varanda.

breve a aldeia ganhará um professor bilíngüe, responsável por ensinar as línguas nativas para os pequenos indígenas. Kakané Porã, ou “fruto bom da terra” em guarani, tem um desafio pela frente, ser um ninho de disseminação da cultura indígena e não ser engolida pelos problemas da periferia da cidade, problema

que já acabou com muitas outras aldeias urbanas do Brasil. “A cultura indígena está na base da formação da identidade e da cultura brasileira. Defender essa diversidade cultural é uma maneira de resistir ao processo de dominação das grandes nações capitalistas.”, reforça Eliane. Dilcélia Queiroz

Na nova aldeia os indígenas lutam pela preservação de sua cultura


LONA 634 - 23.05.11