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Curitiba, quinta-feira, 25 de setembro de 2008 | Ano IX | nº 444| jornalismo@up.edu.br| Jornal-Laboratório do Curso de Jornalismo da Universidade Positivo |

Pesquisa do IBGE aponta crescimento no número de jovens nas salas de aula Elisa Cordeiro/LONA

Mesmo com seus problemas sociais, o Rio de Janeiro continua com sua imagem de cidade maravilhosa - Pág. 8 Divulgação

De dez anos para cá, o percentual de jovens que permanece estudando depois do ensino médio aumentou. Dados do IBGE apontam que o índice de pessoas com mais de 17 anos nas salas de aula fechou em cerca de 80%. No entanto, o fator determinante para que as pessoas continuem fazendo parte do grupo dos estudantes no Brasil continua sendo o econômico. Quando se analisam os números separados por classe social, o que se constata é que dos 20% mais pobres, 76,3% continam os estudos. Entre os 20% mais ricos o número salta para 93,6%. Para diminuir a desigualdade de oportunidades na educação, os especialistas dizem que as políticas públicas de incentivo, como o Programa Universidade Para Todos (Prouni), são essenciais.

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Perfil conta um pouco da história de Sérgio Porto

Hip hop ajuda pessoas Feira de mecânica com paralisia cerebral movimenta o setor

Muitos fãs do humorista e mestre das comparações enfáticas dizem que ele era completo: “do humor ao sério”.

Os especialistas dizem que esse tipo de terapia melhora a coordenação motora.

Com o aquecimento da indústria automobilistica, empresários aproveitam para negociar.

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Curitiba, quinta-feira, 25 de setembro de 2008

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Em defesa dos políticos fracos e oprimidos Fernanda Kuzma

É, mais uma eleição está chegando. As pessoas cobrem seus carros de adesivos, vestem a camisa dos partidos e discutem política pelas ruas. E como sempre muita sujeira e encrenca estão vindo à tona. No momento, as pessoas assistem a esse bombardeio e o passam adiante. Cada um defendendo seu candidato como se fosse um membro da família. Passando por cima de erros, esquecendo o passado e até o presente negativo na política. Gente, aloooou, nada está perfeito, e nem tão ruim que não possa piorar. Essa forma de escolher um partido ou um político e nele se agarrar nem que seja para afundar juntos não pode continuar. A consciência política não é simplesmente escolher um lado e criticar o outro sem pensar no que está sendo dito. Não podemos reclamar de obras que só trazem o bem para nós, os próprios moradores da cidade. Nem devemos fingir que a saúde não merece muito mais atenção, e, por favor, o nepotismo não pode ser esquecido nem aceito.

Se já sofremos tanto na mão desta “raça”, e independente do passar dos anos e da troca de partidos no poder, a melhora surpreendente, esperada e prometida não veio, por que defender um político com unhas e dentes passando por cima dos próprios valores? Se nenhum político se destacou como mais honesto, transparente e com iniciativa pra que defender um e apontar os erros de outros? Todos que estão lá no poder nos representando, ou os que lutam para isso precisam da nossa atenção. Até porque os queridinhos e queridinhas não estão aqui para nos defender ou encobrir nossos erros, isso porque estes erros prejudicam apenas a nós mesmos, já os deles... A memória fraca do povo brasileiro, unida a essa mania de sempre se agarrar em algo para acreditar, não está ajudando a fiscalizar e cobrar daqueles que nós mesmos elegemos. É necessário mais do que um voto, e mais do que uma opinião formada. O Brasil precisa de olhos abertos e uma opinião sempre em processo de formação para caminhar junto com a política. Porque eles...ah...eles não param!

Expediente Reitor: Oriovisto Guimarães. Vice-Reitor: José Pio Martins. Pró-Reitor Administrativo: Arno Antônio Gnoatto; Pró-Reitor de Graduação: Renato Casagrande;; Pró-Reitora de Extensão: Fani Schiffer Durães; PróReitor de Pós-Graduação e Pesquisa: Luiz Hamilton Berton; Pró-Reitor de Pla-

nejamento e Avaliação Institucional: Renato Casagrande; Coordenador do Curso de Jornalismo: Carlos Alexandre Gruber de Castro; Professores-orientadores: Ana Paula Mira (colaboração), Elza Aparecida de Oliveira e Marcelo Lima; Editores-chefes: Anny Carolinne Zimermann e Antonio Carlos Senkovski.

O LONA é o jornal-laboratório diário do Curso de Jornalismo da Universidade Positivo – UP Rua Pedro V. Parigot de Souza, 5.300 – Conectora 5. Campo Comprido. Curitiba-PR - CEP 81280-330. Fone (41) 3317-3000

Missão do curso de Jornalismo “Formar jornalistas com abrangentes conhecimentos gerais e humanísticos, capacitação técnica, espírito criativo e empreendedor, sólidos princípios éticos e responsabilidade social que contribuam com seu trabalho para o enriquecimento cultural, social, político e econômico da sociedade”.

O Clube Curitibano pode impedir um casal homossexual de ser sócio? Carolina Adam Helm

Quando criança a brincadeira tem o m e s m o motivo e a m e s m a vontade. Já na adolescência, as vontades mudam e se aperfeiçoam com o correr dos anos. Meninos e meninas crescem e passam pela fase do descobrimento do seu corpo, das suas vontades e de seus sentimentos. Quando isso se completa, a decisão de ser alguém como outro qualquer pode acarretar vários problemas, um tanto quanto preconceituosos. A padronização é homem e mulher, e quando isso não ocorre vem o desrespeito, a tão chamada imoralidade e, ainda pior, atitudes consideradas como distúrbios. O homossexualismo é a vontade de duas pessoas do mesmo sexo ter uma relação. O caso mais recente aconteceu no Clube Curitibano. Uma sócia está tentando incluir a sua parceira em união estável como dependente o que gerou a maior polêmica. O presidente do Clube, Heitor Dantas, explicou que o assunto foi discutido no Conselho, mas a decisão final será depois de uma assembléia, onde serão convocados os sócios e diretores. A estimativa para a

NÃO

Guilherme Sell

SIM

A história da cidade de Curitiba passa pelos salões do Clube Curitibano. Famílias celebraram com suas debutantes, casaram e até comemoram bodas de prata e ouro no Clube, que é um dos mais tradicionais da cidade. Toda essa tradição é mantida, mesmo com o passar dos tempos, mudança de valores éticos, sociais e morais. Os clubes sociais são instituições privadas que, assim como qualquer outro estabelecimento, podem aceitar ou não o ingresso de qualquer pessoa. As sociedades reunidas, no caso um clube social, escolhem suas

votação está prevista para até o final deste ano. Onde está o problema de um casal homossexual ser sócio de um clube? Hoje o mais preocupante são traficantes, contrabandistas que só aumentam o número de assaltos, assassinatos e que deixam a população cada vez mais aterrorizada. Ter medo de homossexual? Por quê? São seres humanos como todos nós, mas seus sentimentos são atacados, o que torna mais difícil a decisão de se assumir como é. Nos Estados Unidos, sete entre dez cidadãos são contra o

casamento homossexual. A utilização do termo “homofobia” já leva ao preconceito, com essa denominação, os oponentes do homossexualismo passam a considerar seus adeptos como doentes mentais, como portadores de um distúrbio que deve ser clinicamente tratado. Nos Estados Unidos já existe esse “tratamento”. Direitos iguais? É ainda uma precipitação falar que existem, afinal o preconceito está em toda a parte. Muitos tabus precisam ser quebrados. Direitos iguais para todos. Arquivo LONA

A piscina do Clube Curitibano

ações por meio de assembléia, votação e conselhos. Se a maioria escolher, nada podem fazer seus diretores a não ser aprovar o pedido dos associados. Os clubes perderam muito da sua atuação, hoje quem quer piscina ou academia vai a um local especializado, assim como bares, restaurantes e cursos. Com essa nova tendência, os clubes estão se destacando pelo glamour e valorização das relações pessoais, cada um em seu ramo segmentado. Os momentos maiores de glória do Clube já se foram, o quadro associativo se inchou, e hoje qualquer ação é calculada em milhares de sócios, das mais variadas crenças, classes e origens. Também não há tantas restrições para a associação à instituição. Em tempos passados, muitos clubes eram restritos, e

além da indicação de 10 associados e da compra da “jóia”, um pedágio para fazer parte, quem se inscrevesse comprava também o título e se comprometeria a pagar em dia as mensalidades de manutenção. Hoje, com mais de 30% de inadimplência, o Clube se mantém mais com o valor do bar, restaurante e eventos contratados. O problema maior nessa situação cai na aceitação ou nos preconceitos de milhares de associados que têm o direito ao voto. A decisão cabe aos associados. Os tempos de glória do clube devem voltar, a tradição e família, temas tão valorizados em Curitiba, merecem retornar aos salões do Clube, que aos poucos caminhava para se tornar um grande galpão de festas.


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Geral

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Crescimento se deve às políticas de distribuição de renda do governo federal

Aumenta percentual de jovens que se dedicam apenas aos estudos jovens entre 20 a 24 anos, os números são ainda menores: 10,1% são estudantes. Já sobre o núLevantamento do IBGE reve- mero de jovens que se dedicam la que no período 1997/2007 au- apenas ao trabalho, 32,3% esmentou a procura pelos estudos tão na faixa etária entre 18 e 19 no Brasil. Em 1997, 16,5% dos anos e 50,4% na faixa de 20 a 24 jovens de 16 e 17 anos apenas anos. Em um país em que 46% trabalhavam e 11,1% cuidavam das pessoas entre zero e 17 anos exclusivamente dos afazeres do- vivem na miséria, apenas estumésticos. Em 2007, esses núme- dar depois de atingir a maioridaros caíram para 10,2% e 8,3%, de se torna um privilégio. Segunrespectivamente. O aumento no do o IBGE, 1,7% dos jovens branúmero de jovens que se dedicam sileiros tem renda familiar suexclusivamente ao estudo subiu perior a 5 salários mínimos. Mesmo assim, o grande aude 45,5% em 1997 para 54,8% em 2007. O total de adolescentes nes- mento na procura do ensino essa faixa etária freqüentando a colar aumentou. O professor de sala é de 82,1%. O grande empe- economia José Guilherme Vieicilho para jovens continuarem ra credita a volta dos jovens à estudando é o econômico. Dos sala de aula principalmente às políticas de dis20% mais pobres tribuição de que tem entre 16 e 17 anos, 76,3% O aumento de renda e programas como o continuam na es- jovens que se Prouni. “Com cola, enquanto, entre os 20% mais dedicam somente o aumento da distribuição de ricos, 93,6% se- ao estudo subiu de renda, a popuguem os estudos. A estudante do 45,5% em 1997 lação pobre percebeu a corcurso de Publici- para 54,8% em relação entre dade e Propaganda Luana Garcia 2007 estudo e oportunidade. As não tinha certeza pessoas comese faria um curso superior. “Eu não tinha certeza çaram a buscar uma melhor se passaria na Universidade qualificação para entrar no Federal e também não teria con- mercado de trabalho”, diz José dições de pagar a minha facul- Guilherme. Além do Prouni, as cotas dade, mas graças ao Prouni eu me dediquei exclusivamente a es- universitárias influenciaram o tudar para o Enem e consegui aumento do número das clasuma bolsa de estudos”, conta ses mais baixas, a dificuldade Luana. Agora é a vez da sua irmã está na conclusão do curso. “A de 16 anos, Bárbara. Ela está no falta de uma base familiar forsegundo ano do segundo grau e te prejudica a formação do alunão pensa em fazer nada além no, tanto no aspecto financeiro de estudar antes do vestibular. quanto no aspecto moral e mo“Eu quero fazer odontologia, e tivacional”, segundo José Guicomo o curso é caro, vou ter que lherme. O abandono dos estuestudar bastante para passar na dos para trabalhar compromeFederal ou conseguir uma bolsa te muitas vezes um bom retordo Prouni”, diz Bárbara Garcia. no financeiro. Quase 25% dos No entanto, segundo a pes- jovens de 16 a 24 anos de idade quisa, a partir dos 18 anos estu- ganha no máximo meio saládar vira um privilégio. Os ado- rio mínimo, 49,7% ganham lescentes com 18 e 19 anos, cer- mais de um salário e destes ca de 25,8%, têm como atividade 70,1% cumprem jornadas de 40 exclusiva o estudo. No grupo de horas ou mais por semana. Rodrigo Ferraz

Feira da Indústria Metal-Mecânica mostra bom momento do setor Camila Ditzel Luísa Barwinski

Cerca de R$ 90 milhões em negócios. É este o valor pretendido pelas 250 empresas expositoras da 17ª Feira Sul Brasileira da Indústria MetalMecânica, a Expomac 2008, que acontece a cada dois anos. Todas elas esperam um crescimento maior do que o percentual estipulado pelo Sindicato da Indústria Metalúrgica, Mecânica e de Material Elétrico do Paraná (Sindimetal-PR), que é de 5%. O bom momento econômico pelo qual o setor automobilístico passa é a justificativa de tanta animação, uma vez que a maioria das indústrias fornece seus produtos para as fábricas e montadoras de automóveis. Por isso, os empresários do setor metal-mecânico vêm investido cada vez mais em suas fábricas e aproveitando oportunidades como a feira para fazer negócios. A demanda dos produtos de algumas empresas é tão grande que o número de funcionários que antes era de 58, passou a ser 82. É o caso da empresa curitibana Perfimec, que espera terminar este ano com um aumento de aproximadamente 40% no seu faturamento, tamanha é a divulgação durante a feira. Quando eventos desse tipo são realizados, os interesses dos expositores ficam divididos entre fortalecer a marca e reali-

Mais de 250 mil visitantes são esperados na edição de 2008 zar negócios durante e depois da feira. Segundo a assessoria de imprensa do evento, as empresas começam a sentir os benefícios e a maturação desses negócios dentro do prazo de 12 a 24 meses. Por esses motivos, não são só as empresas paranaenses que participam do evento. De acordo com os dados divulgados pela assessoria de imprensa, pouco mais da metade (51,4%) dos stands são de indústrias paulistas. As paranaenses representam 28,9%, enquanto as gaúchas somam 11,2%. Também participam as catarinenses com 6,9% e além de indústrias de outros estados brasileiros fechando 1,6% do total de 250 expositores. A empresa gaúcha Ferramentas Gerais possui matriz em Porto Alegre (RS) é líder nacional no fornecimento de ferramentas, máquinas, equipamentos e suprimentos, a empre-

Os empresários investem cada vez mais nas fábricas e aproveitam oportunidades como as feiras para negociar

sa fechou 2007 com faturamento de R$ 753 milhões. A meta do grupo é crescer aproximadamente 20% ao ano até 2011 e expandir sua atuação no Brasil e na América do Sul. Atualmente o Paraná possui 5,1 mil estabelecimentos industriais, sendo 2,3 mil em Curitiba e na Região Metropolitana (RMC). Todas essas indústrias reúnem um total de 109.878 empregados no estado e 70mil em Curitiba e RMC. Na última edição da feira em 2006, o volume em dinheiro dos negócios realizados ficou em torno de R$ 80 milhões,13% a menos do que os R$ 90 milhões esperados para este ano. Além disso, os números para a feira deste ano são bastante animadores. Em 2006 a Expomac contou com 220 empresas participantes, em 2008 o número subiu para 250.

Ser viço O período de visitação da Expomac 2008 começou ontem e vai até o dia 27 de outubro. Local: Expotrade, Pinhais. Horários de visitação: de quarta à sexta-feira das 15h às 21h e sábado das 13h às 19h.


Curitiba, quinta-feira, 25 de setembro de 2008

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Escolas de Curitiba já adotam sessões de psicomotricidade na grade curricular

Especial

Bárbara Pombo

Márcio

Brüggemann

Junte uma sala com cinco, dez ou quinze crianças. Ofereça a elas bolas, arcos, cordas, tubos, almofadas, caixas, jornais e tecidos para confeccionar fantasias. O circo está armado, e o ambiente de trabalho do psicomotricista também. Como o nome indica, a técnica da psicomotricidade une os movimentos e as atividades corporais das pessoas para trabalhar o aspecto emocional – afetivo delas. Nas crianças, são sentimentos e tensões que, muitas vezes, bloqueiam a aprendizagem. A psicomotricidade relacional auxilia no equilíbrio psicoafetivo, o que favorece o desenvolvimento global das crianças. Segundo Eloim Biscaia, psicólogo que estuda e trabalha com a psicomotricidade há dez anos, os pequenos lidam com todo o tipo de situação e dificuldade na hora da brincadeira, ao mesmo tempo que fazem releituras da própria história. “O corpo fala e nós devemos escutá-lo. É por isso que, com jogos simbólicos lúdicos, o psicomotricista ajuda a criança a superar suas limitações, além de incentivá-la a encontrar seu lugar na família e na escola, saber quem ela de fato é”, explica. João Paulo Arins Pens é psicólogo e recém-formado na especialidade pelo Centro Internacional da Análise Relacional (CIAR) em Curitiba. Ele acredi-

ta que a técnica é benéfica especialmente às crianças, pois possibilita o desenvolvimento da personalidade de maneira lúdica. “A comunicação mais primitiva que temos é a corporal, por isso é a mais verdadeira e acessível para a criança, aliado ao imaginário vivo inerente a elas. Os pequenos vêem a sessão de psicomotricidade de forma tão divertida, que muitas vezes acabam elaborando conflitos sem se dar conta”, diz. A agressividade é um dos diagnósticos mais freqüentes. “A tensão muscular é indicativa da emoção. Muitas vezes uma criança é vista como violenta, mas carrega uma tensão tão grande que não encontra meios de expressá-la e acaba perdendo o controle dessa agressividade”, explica Pens, que trabalha com crianças de cinco a seis anos em uma escola de Curitiba. Outros conflitos habituais estão ligados a dificuldades de inibição, aprendizagem e atenção, depressão, hiperatividade, contenção afetiva, senso de limite, poder; as ambivalências (ora age de uma forma, ora de outro), baixa auto-estima e autonomia. A psicomotricidade pode ser aplicada na clínica e na escola, mas com algumas distinções. No primeiro caso, a criança é trazida pela família por apresentar alguma dificuldade e limitação. Já na escola, tem efeito profilático, ou seja, de prevenção. Em sessões no

consultório, há a atuação de uma figura masculina e outra feminina, representativamente uma família simbólica formada por pai e mãe. No primeiro encontro do profissional com a família, o psicólogo faz o diagnóstico de com quem a criança tem maior dificuldade de relacionamento, se é com a mãe ou com o pai. Biscaia ilustra: “Como sou a representação do pai, a criança joga comigo a dificuldade que tem com a figura masculina. Com a feminina, a figura da mãe. Assim, temos clareza de que lado mora o problema dela”. Para ele, um exemplo marcante dessa dinâmica foi de uma menina que, aos seis anos, não aceitava o limite exigido pelo pai. “Em uma das sessões, ela amarrou minhas mãos, pernas e pés com cordas e vend o u

Fotos: Márcio Brüggemann

Brincar para o futuro As crianças têm a liberdade de viver seus super-herois meus olhos. O nível que a criança brinca conosco é a permissão que damos para que viva a sua história. Ela viveu isso comigo. Na prática, podemos supor que o pai estabelecia limites de maneira impositiva demais. Depois, é ela mesma quem me desamarra”, orgulha-se o psicólogo com a sensação do dever cumprido. Porém, em ambos os ambientes, as pessoas podem vivenciar simbolicamente algo vivo no mundo real e ter o psicomotricista relacional como parceiro simbólico e facilitador para elaborar conflitos e dar vazão a sentimentos. “É um processo bonito de ajudar a criança ao autoconhecimento”, acrescenta Biscaia. Durante os 50 minutos da sessão, o profissional observa e interage com a criança a fim d e

identificar como ela se posiciona diante dos objetos, das pessoas e das situações. Tudo isso com a utilização da linguagem nãoverbal – mímicas, gestos, olhares – enquanto a criança fala e externaliza todos os desejos e ações que surgem durante as brincadeiras. Da mesma forma, os materiais clássicos da psicomotricidade também são simbólicos. A criança simboliza no objeto alguma coisa que ela está ou ainda quer viver. “Para isso, existe uma seqüência de uso do material. Começamos pela bola, porque é o acesso mais fácil a criança. Quando ela está com o tônus baixo, quieta, a criança vai responder ao movimento da bola, e assim se estabelece a comunicação”, explica o educador físico e psicomotricista da escola Umbrella Marcio Jordan. E complementa: “Este método tem fortes traços da psicanálise, porque a criança não fala, mas demonstra diversas coisas”, afirma. Segundo Pens, “a observação se dá principalmente no modo que elas encontram para se relacionar dentro do setting, pois como se trata de uma prática espontânea, cada um interage da maneira que quer. E é neste momento que o ser

Eloim Biscaia com os materiais clássicos da psicomotricidade


Curitiba, quinta-feira, 25 de setembro de 2008 humano realmente se mostra, a partir de seus movimentos e atitudes espontâneos”. Espontânea também é a definição dos jogos e atividades praticados. Quem escolhe são as próprias crianças. “O ambiente é livre para que cada um utilize os materiais como e com quem quiser”. Pens esboça que, quando a criança sugere um jogo, o psicomotricista valida a proposta e participa. Outras vezes, elas acontecem dentro do jogo simbólico. “Uma criança, por exemplo, diz que é um jacaré, ela rasteja pela sala, se expressa como este animal e desenvolve habilidades motoras ao mesmo tempo em que brinca”. “Na sessão os papéis se invertem e quem faz a vontade da criança é o adulto. Trabalhar em cima da demanda da criança, por isso não há conteúdo. Meu único planejamento é com o material. Há turmas que tem uma pulsão agressiva evidente. Para lidar e canalizar esse sentimento, trago os bastões de piscina”, exemplifica Jordan. O francês André Lapierre é o criador da psicomotricidade relacional. Segundo ele, “o corpo fala, e ele precisa falar”, assim como o profissional escuta os movimentos e responde a eles. Além da especialização de três anos, a sensibilidade e o autoconhecimento do psicomotricista devem ser desenvolvidos. “O estudo e a experiência com os casos nos passam a clareza do que a criança precisa. Devemos ser perspicazes”, afirma Biscaia. De acordo com dados do CIAR, o Paraná possui hoje 200 profissionais capacitados para atuação. Pens concorda. “Aprendemos a decodificar os movimentos, fazer a leitura da comunicação corporal. Conhecemos a personalidade da pessoa a partir disso, até porque o corpo mente menos do que as palavras. E nós somos parceiros nas atividades, não há uma relação de autoridade, o adulto e a criança passam a ser cúmplices no jogo simbólico e isto é fundamental em nossa atuação.” Jordan ressalta ainda que quanto mais novas forem as crianças, mais tempo ela leva para entrar na brincadeira, mais tempo para o psicomotricista se lançar na relação com eles. “No começo, os pequenos podem encontrar dificuldades para brincar. O cuidado de ter a leitura certa é para o profissional se relacionar da forma mais coerente com a pessoa. Não adianta eu

5 Psicomotricidade na escola é lei Nas escolas, a psicomotricidade relacional tem efeito preventivo. Auxilia a criança na sociabilização, na adaptação dentro do grupo e a se validar dentro dos conteúdos aprendidos. Biscaia completa que o trabalho dos psicólogos é um suporte ao ensino dos professores. “O objetivo final é que a criança tenha no currículo o embasamento desse trabalho emocional, de interação e sociabilização”. Em Curitiba, dez escolas já incluíram a técnica na grade curricular obrigatória. Segundo o diretor do CIAR José Leopoldo Vieira, em 2007, foi aprovada uma lei municipal que exige as sessões de psicomotricidade para professores e alunos da rede pública de ensino. Para Jordan, que atua na escola com crianças de um a seis anos, a inclusão da psicomotricidade na grade curricular é interessante porque qualifica as relações, além de fazer com que a criança seja mais espontânea, tenha desejo de aprender e vontade de ir a escola. “O fato de sermos parceiros simbólicos dentro das brincadeiras traz mais segurança a elas, não só confiança com o profissional, mas com a instituição em que ela está inserida. Por isso, a escola vê este método com bons olhos”. Apesar de também atuar como educador físico, Jordan pensa que a psicomotricidade é mais eficaz para o desenvolvimento de crianças até seis anos. “Não estamos atentos apenas às habilidades motoras, como na educação física. Desenvolvemos a capacidade de identificar o que uma criança quer ou não dizer a partir dessa expressão motora”.

Quinze é o número máximo de crianças por sessão tentar entrar na vida dela da minha maneira, tenho que notar uma brecha ou situação ou uma demanda que ela tenha, para intervir de maneira eficaz. Se a intervenção falhar, posso perder essa criança, e cada vez mais, vamos ter dificuldade na relação”, afirma. Cada frase e ação é medida até se alcançar o conflito, como no caso do menino de nove anos que tinha problemas de autoafirmação diante dos amigos. Os jogos competitivos e situações de dominador e dominado foram usados para provar à criança que ela pode vencer e reconhecer sua vitória, sem medo. “A criança se relaciona com um adulto que, antes de tudo, está ali para aceitá-la como ela é, vai possibilitar que ela dê vazão às suas necessidades e estará junto para enfrentar os desafios vividos dentro deste jogo simbólico”, afirma Pens. O psicólogo e professor Eloim Biscaia enfatiza que o adulto é o parceiro validador nesse processo. “É aí que entra o papel dos pais na hora de brincar e interagir com os filhos. Muitos deles buscam dar de tudo para as crias, mas não sabem o que os filhos realmente necessitam e querem. A criança precisa da cumplicidade com o adulto porque as brincadeiras de infância se refletem no futuro, é o espelho das atitudes dela na fase adulta”. Além disso, dentro da técni-

ca há a preocupação com as potencialidades dos pequenos. Para os dois psicólogos, essa valorização trilha a criança para o reencontro do desejo de ser e agir, primordiais ao desejo de aprender. “Valorizando suas capacidades, a criança reencontra sua espontaneidade e habilidades. Quando menos perceber vai ter superado suas limitações. Posteriormente, a criança transporta essa vivência para outros âmbitos, na escola e na vida”, avalia Pens.

Psicomotricista da Escola Positivo, Pens também confia que a técnica seja mais abrangente, por trazer a criatividade e a liberdade do movimento do corpo à sala de aula. “Dentro da instituição escolar, tudo o que está relacionado com comportamento, relacionamento, dificuldade de aprendizagem e aspectos psicológicos que interfiram no processo de ensino, são conteúdos que o psicomotricista relacional pode contribuir. Da mesma maneira, a parceria e a troca de informações com a professora de classe são essenciais para proporcionar um desenvolvimento saudável para o aluno”, sustenta. Na escola Umbrella, a troca da psicomotricidade para atividade inclusa na grade curricular foi proposta por professores. Segundo Jordan, elas viram que as crianças chegam de outra maneira na sala de aula, depois das sessões. “Elas encontram nas sessões de vivências que não têm em casa, depois a criança entra na sala de aula com outra postura, mais aberta a aceitar o que a professora vai ensinar”.

No inicio da sessão, as crianças lembram das regras para a prática


Curitiba, quinta-feira, 25 de setembro de 2008

6 Cultura

O cronista Sérgio Porto, que tem sua obra reeditada, mostrou as mazelas do Brasil

Retrato em branco e preto Sandro Moser

te, Millôr Fernandes - que dele disse: “As dores ladravam, e Sérgio Porto passava. Ele foi meu amigo e meu irmão durante 20 anos: vivemos juntos, bebemos juntos e amamos juntos. Eu estava ainda deitado, mas já acordado, às nove horas da manhã, quando vieram me avisar que ele tinha morrido. Sem querer, dei um grito”. Porto era o mestre das comparações enfáticas. Em 12 palavras, traçou o retrato de uma época, os tais anos dourados nada permissivos, quando o preconceito prevalecia, principalmente em matéria de sexo: “Se peito de moça fosse buzina, ninguém dormia nos arredores daquela praça”.

No dia em que Sérgio Porto (19231968) morreu, durante o uísque crepuscular em Ipanema, os jornalistas Sérgio Cabral, Tarso de Castro e Jaguar lançaram a pedra (de gelo?) fundamental daquilo que viria a ser O Pasquim. Porto fundara e editava um tablóide semanal de humor chamado A Carapuça. Era setembro de 1968. A distribuidora Imprensa pensou em Tarso de Castro para substituí-lo. No colóquio decidiu-se que a Carapuça não servia sem Sérgio, melhor fechá-la e abrir outro jornal. A nata dos jovens jornalistas e humoristas do país apareceu para preencher o vazio de Um festival de besteiras seu desaparecimento. O humorista começou a surgir no Porto era de uma geração anterior. Radicada em Copacabana, do Clube dos Ca- semanário Comício (anos 40), excelente fajestes. De boêmios capazes de sair do bar escola de descontração do estilo jornaàs três da manhã, estar na praia às oito, lístico, que começa a arregaçar as manna máquina de escrever às dez. Como gas e tirar o paletó. Seu alter-ego (filho quase todo humorista brasileiro, trabalha- que se tornou mais célebre que o pai) nasceu no início dos dor braçal. Competên50, na Última Hora. cia adquirida cavouPorto era o mestre das Solicitado a cando uma datilograsubstituir o colunisfia 10 horas por dia, comparações enfáticas. social do diário, 16 anos seguidos - já Em 12 palavras, traçou o ta fez a seu estilo. que “o uísque de nosCriou Stanislaw sas noites é ganho retrato de uma época, os Ponte Preta (nome com o suor de nossos emprestado do Seradias”. No caso de Sér- tais anos dourados nada fim Ponte Grande de gio - “boêmio parado- permissivos, quando o Oswald de Andraxal que adora ficar em de), o sobrinho de casa, irreverente que preconceito prevalecia Tia Zulmira, a anrevê o que escreve, humorista a sério, com completa incapa- ciã do casarão da Boca do Mato, primo cidade para se deixar arrebatar por políti- do nefando Altamirando e do distraído ca e nutrindo ódio inconfesso por puxa- Rosamundo e entrou para o jornalismo sacos, militar metido a machão, burro como um dos mais mordazes críticos das metido a sabido e, principalmente, racis- mazelas de nosso país. Na mesma época o jornalista Jacinta” - extremamente responsável nas obrigações domésticas e sociais, só podia ser to de Thormes publicava na revista pago com um surplus terrível de esforço Manchete a lista das “Mulheres Mais em todas os meio de então, rádios, jornais, Bem Vestidas do Ano”. Stanislaw, que escrevia na mesma revista sobre teatrorevistas e a incipiente TV. Durante muitos anos as vicissitudes rebolado, não quis ficar por baixo e ino fizeram bancário do BB, embora seus ventou a lista das “Mulheres Mais Bem amigos dissessem que ele que tinha o Despidas do Ano” e estavam, assim, crifísico e o temperamento de um playboy. adas as “certinhas’ do Lalau” com as Além disso, era marido, pescador, cole- vedetes da época. Em 1964, com a edição do golpe milicionador de discos (só samba do bom e jazz tocado por negro, além de clássicos) tar, Stanislaw impressionado com a true com a vocação total pelas mulheres. culência da nova situação, mas ao mesOs amigos, inúmeros e inconsoláveis mo tempo tolhido pela censura, iniciou eram os colegas Rubem Braga, Joel Sil- um inteligente processo de noticiar as veira, Clarice Lispector, Paulo Mendes agruras do povo brasileiro sob o novo Campos, todos os mineiros, os “cafajes- regime intitulado “O Festival de Besteites” como Sandro Moreira e João Salda- ra que Assola o País, o Febeapá”. Stanislaw noticiava e comentava com nha, milhares de mulheres etc... Ou seja, todo o mundo que pensava, seu estilo cáustico os desmandos das bebia e escrevia no Rio e, principalmen- novas autoridades. Conseguiu com isso

Reprodução/ “Tia Zulmira e Eu”

Tia Zulmira, personagem de Sérgio Porto, no traço de Alcy Linares um público até então indiferente às suas tiradas. Sob esse título publicou três livros, além de centenas de crônicas - que estão de novo na ordem do dias das editoras, 40 anos depois. Sua vivacidade instantânea virou um estilo. O trocadilhista mor, dizia na lata a palavra certa, a observação irônica, o julgamento justo. Fez graça falando verdades, descobrindo verdades, tendo a coragem de ser odiado por dizêlas. Lamentava isso: “... o diabo o é que todo mundo pensa que sou um cínico; ninguém acredita que sou um sentimentalão que não agüenta uma gata pelo rabo”. De que morreu Sérgio Porto? Do coração (cardisplicente que era, como seu amigo Antonio Maria) e de trabalho. Trabalhava mais de 15 horas por dia em

diversos veículos nos últimos momentos. O dia só tem 24 horas e a vida, como ficou comprovado no seu caso, só teve 44 anos. Cartola Como se não bastasse tudo isso aconteceu de Sérgio Porto estar passando na frente de um estacionamento em Copacabana em uma tarde de 1966. Reparou no senhor negro lavando os carros e parou. Foi falar com o homem. “Você é o Cartola da mangueira, não é?” Era mesmo. O grande sambista vivia um período de ostracismo até hoje mal explicado. 20 anos de desaparecimento. Por intermédio de Porto e de seu tio Lúcio Rangel, Cartola foi redescoberto, arranjouse um emprego na burocracia federal, ele voltou para o seu morro, fez seu primeiro disco...


Curitiba, quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Saúde

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Jovens que sofreram paralisia cerebral usam hip hop como forma de terapia

Guerreiros do hip hop Ana Claudia Rodovanski

Durante a semana a rotina é puxada: sessões de fisioterapia, equoterapia, alguns vão à psicóloga, outros à fonoaudióloga. E não podemos esquecer a escola. Então chega o final de semana. Sábado. Sem descanso. Cedo todos têm aula de hip hop. Para eles, superar desafios já faz parte do dia-a-dia. Mas agora buscaram mais um: aprender a dançar. Parece uma tarefa fácil, mas não quando se tem uma dificuldade motora. O grupo é formado por crianças e adolescentes que sofreram paralisia cerebral e hoje apresentam uma disfunção na área cerebral que comanda os movimentos. O grupo é formado por 23 crianças e adolescentes, com idades entre 5 e 10 anos. A idéia veio da fisioterapeuta Joseana Wendling Withers, de 27 anos. Ela começou a dançar hip hop quando cursava o ensino médio. Na faculdade, as áreas que mais chamaram a atenção dela foram neurologia e a pneumologia, e no momento de montar o projeto do trabalho de conclusão de curso, veio a primeira idéia de juntar a dança com a sua futura profissão. Ao terminar a faculdade ela foi atuar nas áreas de reabilitação neurológica e cardiorrespiratória. Devido a um problema de saúde, Joseana acabou voltando para as aulas de dança e foi fazendo as duas coisas simultaneamente, trabalhando e dançando, que ela pode observar que a dança poderia ajudar, e muito, crianças que sofreram paralisia cerebral. “Os movimentos realizados nos passos do hip hop se assemelham aos movimentos estimulados durante o tratamento neurológico. As seqüelas motoras que se instalam nessas crianças após a lesão cerebral, dependendo da localização e extensão da lesão, causam uma rigidez de movimento que podem acometer diferentes áreas do organismo” esclarece. As crianças que têm dificuldades motoras fazem um tratamento com fisioterapia, que

ajuda a diminuir o enrijecimento dos músculos. Embora essa terapia seja essencial, pelo fato de ser um tratamento de longo prazo, ela acaba sendo cansativa e se tornando monótona. Pensando em oferecer uma forma de tratamento auxiliar, veio a idéia de usar as batidas do hip hop como um recurso terapêutico. Joseana compartilhou sua idéia com a neuropediatra Lúcia Helena Coutinho, responsável pelo ambulatório de espasticidade no Centro de Neuropediatra do Hospital de Clínicas (Cenep), onde constantemente são feitas pesquisas na área, que aceitou o projeto e autorizou que ele fosse realizado com as crianças do seu ambulatório. As aulas são feitas na Associação de Pais e Amigos da Criança com Deficiência Motora (Apacdm), uma associação que auxilia crianças que sofreram paralisia cerebral e seus familiares. O projeto teve início em abril de 2007, com um grupo de cinco meninas adolescentes. Em outubro mais um grupo foi encaminhadas para o projeto e em junho Joseana abriu mais uma turma.

As aulas A aula é divida em cinco fases. Na primeira os alunos fazem um aquecimento, com movimento simples, apenas para que aumente a temperatura do corpo. Em seguida o alongamento, quando a professora faz um trabalho para estimular os músculos em que as crianças tenham mais rigidez. Na terceira fase ela começa a trabalhar alguns passos do hip hop e faz com que os alunos vão repetindo. Joseana dá preferência para os passos com apoio do calcanhar, mobilidade de quadril e tronco, e exercícios de chão, que exigem as mãos e braços para a sustentação do corpo. Durante as aulas eles vão montando coreografias com os passos que são trabalhados, isso faz com que as crianças se concentrem para o treino, exercitem a memória e a coordenação motora. Na quinta fase ela faz o relaxamento, alongando os

Arquivo Joseana Wendling Withers

Crianças preparam coreografia músculos que foram mais trabalhados durante a aula. As crianças nem sentem que essa aula é uma terapia. Para eles o interessante é aprender a dançar, mesmo com as limitações impostas pela dificuldade motora. Um dos alunos é Lucas Rocha, ele tem 9 anos, e está dançando desde novembro de 2007. “Depois que comecei a dançar senti que meus músculos ficaram mais soltos. Ela me ajuda na fisioterapia e aqui fiz amizades com crianças que tem dificuldades como eu. Pude ver que não sou só que sou assim, eles também dificuldades”, conta ele.

Grupo de pais A presença dos pais é muito importante. Joseana explica que toda crianças é influenciada pela família. Nas crianças com paralisia cerebral essa influência é ainda maior, pelo fato delas terem maior dependência de seus pais, e isso pode se reverter para o lado positivo ou negativo. Por esse motivo, em paralelo com a dança, foi iniciado um grupo de pais. Enquanto as crianças dançam, duas psicólogas conduzem o encontro. Ali eles discutem a relação com a criança, trocam experiência e tem a oportunidade de se auto-avaliarem. Para a mãe Maria Francisca Rocha, essa reunião de pais

trouxe muitos benefícios para o grupo. “Depois que começamos a fazer os encontros senti que as crianças ficaram mais seguras. Antes eles eram agitados e agora estão mais calmos e tranqüilos. Isso também uniu o grupo. Outro benefício é que usamos esse momento para nos conhecermos e trocarmos experiência. Pude perceber que aqui tem pessoas que passam pelas mesmas coisas que eu, ou até mesmo por situações mais difíceis. Isso nos dá força”, diz Maria Francisca. Para auxiliar o trabalho da Joseana e das psicólogas, juntou-se ao grupo um terapeuta ocupacional, que auxilia as crianças no posicionamento durante a aula e na execução dos movimentos, além de orientar o grupo quanto a questões de atividades de vida diária. Mas o projeto acabou indo além das aulas de hip hop. Para que os alunos compreendessem melhor a proposta da cultura hip hop, a qual questiona os valores da sociedade e prega a igualdade e a solidariedade entre os povos, foi elaborado um cronograma de atividades, fora da sala de aula, para levá-los a passeios culturais como eventos de música, teatros, cinema, parques, museus, etc. O projeto não tem o objetivo de fins lucrativos, as aulas são gratuitas, e muitas crianças que participam não tem condi-

ções financeiras. Para que isso não se tornasse um obstáculo, os pais se organizaram e acharam uma forma de levantar dinheiro para manter o grupo. Vão à busca de prêmios para fazer rifas. “Com as rifas não levantamos uma quantia grande de dinheiro, mas o suficiente para ajudar alguns alunos no transporte, para vir para as aulas, comprar o uniforme, e pagar as eventuais despesas nos passeios”, explica Maria Francisca. Para acompanhar a evolução desses alunos, eles são submetidos a uma avaliação da marcha (caminhada), por meio de filmagens feitas pela fisioterapeuta Larissa Bitar Neves. Todas as crianças, antes de participar do projeto fazem uma primeira avaliação, onde a fisioterapeuta filma a caminhada e analisa vários aspectos, como o quadril, coluna, pernas, ombro e braços, e essa avaliação é refeita a cada seis meses. “Este método de avaliação permite analisarmos e compararmos o comportamento corporal durante a caminhada antes e depois das atividades com a dança”, explica Joseana. Com a grande evolução dos alunos, a professora está organizando o primeiro festival de dança de hip hop do grupo, que será realizado no dia 5 de novembro, no Teatro Londrina, em Curitiba.


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Coisa mais linda

Curitiba, quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Texto e fotos: Elisa Cordeiro O Rio de Janeiro é a segunda metrópole do Brasil. Cidade brasileira mais conhecida no exterior, funciona como um espelho ou retrato nacional, seja positivo ou negativamente. Mesmo sendo conhecido pelo vasto número de favelas, alto índice de violência e grandes contrastes econômicos e sociais, o Rio de Janeiro continua lindo. Povo simpático e orgulhoso, o carioca encanta com seu sotaque e malemolência. Figuras como Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Tom Jobim, Cazuza, Cartola, Gozaguinha, Erasmo Carlos, entre outros, são oriundos da cidade maravilhosa.

LONA 444- 25/09/2008  

JORNAL- LABORATÓRIO DIÁRIO DO CURSO DE JORNALISMO DA UNIVERSIDADE POSITIVO.

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