Page 1

RIO Á I D do

L BRASI

Curitiba, quinta-feira, 4 de setembro de 2008 | Ano IX | nº 431| jornalismo@up.edu.br| Jornal-Laboratório do Curso de Jornalismo da Universidade Positivo |

Empresa suspende ação de despejo por mais 120 dias Arquivo/Despejo Zero

Giannetti lança livro apenas com citações

A companhia América Latina de Logística (ALL) assinou ontem um termo que suspende a ação de despejo de moradores da Vila Iguape I, em Curitiba, por quatro meses. O acordo foi firmado depois das manifestações da comunidade, que acontecem desde o mês de agosto. Porém, nas primeiras mobilizações os moradores não tiveram seus pedidos atendidos, apesar de algumas promessas terem sido assumidas pela empresa. Em contrapartida ao compromisso da ALL, a Cohab se comprometeu a desenvolver um projeto de relocação para as famílias da região.

Página 3

Mesa redonda discute a polêmica da morte Na próxima terça-feira será realizado um debate na Universidade Positivo sobre a ortotanásia, prática que permite o médico decidir se pára ou não um tratamento que prolonga a vida de um paciente em fase terminal. A manifestação dos moradores do Iguape I começou por volta do meio dia

Página 3

Eduardo Giannetti ministrou duas palestras no Teatro Positivo Grande Auditório, que foram vistas por cerca de quatro mil pessoas.

Páginas 4 e 5

Lona mostra perfil de músico da “Reles” Vocalista e compositor, Fábio Elias faz parte da banda Relespublica, que tem uma das maiores representatividades no cenário musical paranaense.

Página 6

Ensaio fotográfico vai para a aldeia Em pouco mais de 500 anos, o Brasil reduziu sua quantidade de índios de 5 milhões para 270 mil. Com esses números o país totaliza cerca de 5,4% do número original.

Página 8


Curitiba,

2

Igualdade Raphael Costa

No dia 26 de agosto foi comemorado o Dia Internacional da Igualdade Feminina. Olhando superficialmente a sociedade em que vivemos, poderíamos até dizer que hoje as mulheres e os homens vivem sob igualdade. Mas se olharmos para trás, vamos perceber que por muitos anos as mulheres foram tratadas como inferiores: não podiam estudar, trabalhar, votar, escolher os maridos. Atualmente, as mulheres quebram regras e enfrentam as barreiras da sociedade. O mundo passou a tratá-las com mais igualdade. Porém, igualdade propriamente dita e respeito ainda não foram alcançados. Por isso, o terceiro Objetivo do Milênio é: “Igualdade entre sexos e valorização da mulher”. De acordo com a descrição desse objetivo, a mulher no Brasil ganha cerca de 40% a menos que o homem. Além disso, ainda há muitos casos de violência contra as mulheres. Dados do portal Bem Paraná mostra que no ano passado houve, apenas em Curitiba, 95,4 casos de violência doméstica contra a mulher a cada mês.

Em 2006, foi necessária a criação de uma lei para punir de forma mais rigorosa aqueles que cometem violência contra a mulher. A Lei n° 11.340, de 7 de agosto, ficou conhecida como Lei Maria da Penha. Segundo a advogada Ahimsa da Costa Canena, a criação das leis é lenta porque surge de acordo com as mudanças na estrutura social, que são mais lentas ainda. A aprovação dessas leis sinaliza para uma mudança na sociedade, que aos poucos deixa de ser tão machista. Para a socióloga Eliane Basilio de Oliveira, as leis que protegem a integridade da mulher e as delegacias femininas são resultado de uma luta que se ampliou na década de 1980, com o fortalecimento da organização do movimento feminista, com o aumento das discussões e as pesquisas sobre as relações de gênero nas universidades brasileiras. A socióloga afirma que existiram ganhos muito importantes para as mulheres, porém ainda estamos longe de uma igualdade. Para ela, a diferença de gênero passa também pela diferença das classes sociais imposta por um sistema econômico bastante injusto.

Expediente Reitor: Oriovisto Guimarães. Vice-Reitor: José Pio Martins. Pró-Reitor Administrativo: Arno Antônio Gnoatto; Pró-Reitor de Graduação: Renato Casagrande;; Pró-Reitora de Extensão: Fani Schiffer Durães; PróReitor de Pós-Graduação e Pesquisa: Luiz Hamilton Berton; Pró-Reitor de Pla-

nejamento e Avaliação Institucional: Renato Casagrande; Coordenador do Curso de Jornalismo: Carlos Alexandre Gruber de Castro; Professores-orientadores: Ana Paula Mira (colaboração), Elza Aparecida de Oliveira e Marcelo Lima; Editores-chefes: Anny Carolinne Zimermann e Antonio Carlos Senkovski.

O LONA é o jornal-laboratório diário do Curso de Jornalismo da Universidade Positivo – UP Rua Pedro V. Parigot de Souza, 5.300 – Conectora 5. Campo Comprido. Curitiba-PR - CEP 81280-330. Fone (41) 3317-3000

Missão do curso de Jornalismo “Formar jornalistas com abrangentes conhecimentos gerais e humanísticos, capacitação técnica, espírito criativo e empreendedor, sólidos princípios éticos e responsabilidade social que contribuam com seu trabalho para o enriquecimento cultural, social, político e econômico da sociedade”.

quinta-feira,

4

de

setembro

de

2008

O ônibus Divulgação/SMCS

Rodrigo Truppel

Saudade dos tempos de garoto, quando tudo era perto. O meu mundo era tão grande, tão grande, que podíamos passear nele a qualquer hora. Ele ia da casa do Luizinho, que morava três ruas acima da minha, até a casa do Gulin, que morava ao lado do Palácio Iguaçu, num total de nove quadras. Esse era o meu mundo. Sentia-me independente, nem precisava dar satisfação a minha mãe. Mas houve um dia em que conheci outro mundo, o mundo de verdade. Foi a maior festa: prefeito, governador, deputados e vereadores, todos juntos para inaugurar o futuro. Um ônibus que falava com você, que para pegálo você entrava em um tubo todo de vidro, sabe, coisa do futuro mesmo. Era prata, coisa de Hollywood, tinha o nome de Ligeirinho. Eu cheguei a achar que ele voava passando por cima dos carros, e num piscar de olhos você já estava no ponto de chegada. Juntei toda a turma e decidimos ver o que esse ônibus futurista era capaz de fazer. Inventei para minha mãe que iria jogar bola com meus amigos, em pleno domingo, às 7h00, e até hoje não sei se ela acreditou. Eram 7h30 e todos estavam na frente daquele tubo que nos levaria a outro mundo. Entramos e ficamos esperando. O olhar se perdia entre admiração em estar dentro daquele portal e com medo do que estaria por vir. O ônibus chegou e a porta abriu sozinha. Todos fizemos aquele famoso: Oh!!! Entramos e sentamos no fundão, os bancos eram mais altos e parecíamos os reis da espaçonave. A nave começou a andar, logo em seguida uma voz de mulher começou a falar com a gente. Próxima parada: Terminal do Boqueirão... Dê preferência a pessoas idosas, gestantes e deficientes... Ao embarcar, espere sempre o desembarque. Tenha uma boa viagem. Todos se olharam, e começamos a andar pelo ônibus à procura desta mulher. O Gulin falou que tinha certeza de

Passados uns 15 minutos o ônibus parou, a porta de novo abriu sozinha e todos desceram menos nós. Falei pra todos não mexerem um fio, então veio o motorista e nos mandou descer que ela ficava em um compartimento entre as rodas. O Zeca falou que estava sentada ao lado do motorista, que ele já tinha visto algo parecido numa viagem a Gramado. Ele foi até o motorista e voltou branco: não havia ninguém com o motorista. Ficamos com medo. Mais medo ainda foi quando olhamos para fora e não sabíamos onde estávamos. Carlinhos começou a entrar em desespero, sua mãe falou que se ele saísse do nosso “mundo”, havia grande possibilidade de o homem do saco pegá-lo. Eu não fiquei com medo, papai sempre falou que tudo que vai volta, então eu tinha quase certeza de que voltaríamos para o mesmo lugar de onde saímos, só rezava para que papai não estivesse errado, né. Passados uns 15 minutos o

ônibus parou, a porta de novo abriu sozinha e todos desceram menos nós. Falei pra todos não mexerem um fio, então veio o motorista e nos mandou descer. Entrei em pânico. Quando olhei em volta vi um mundaréu de gente e de ônibus. Uma placa dizia “Terminal do Boqueirão” e quando dei por mim o ônibus se foi. Tentamos correr atrás dele, mas ele era rápido mesmo. Um casal começou a rir do nosso sofrimento, da nossa angústia. O homem veio até nós e falou que era só entrar no outro tubo para voltar. Começou uma correria, nunca corri tanto na minha vida. O Marquinhos era o mais gordinho, eu só o ouvia chorando e falando: - Esperem por mim, não me deixem. Conseguimos entrar na espaçonave de novo, as lágrimas começaram a secar e todos os passageiros estavam rindo da gente. Quando o Marquinhos chegou ao tubo e entrou no ônibus os passageiros riram mais, e ele falava: - A gente não é um time? E vocês iriam me deixar para trás, grandes amigos vocês são! A volta foi bem mais tranqüila. Não via a hora de voltar para o meu mundinho. Durante anos passamos a nem querer botar os pés para fora do perímetro do nosso mundo, pois lá não havia espaçonaves, homens do saco e ninguém que ri do sofrimento alheio.


Curitiba,

quinta-feira,

Geral

4

de

setembro

de

2008

3

Movimento teve resposta rápida e resultou em 130 dias de trégua na reintegração de posse

Moradores da Vila Iguape I realizam nova manifestação Ednubia Ghisi

têm receio da manifestação da comunidade”.

Com ordem de despejo desde junho, moradores da Vila Iguape I, do Boqueirão, fizeram ontem uma manifestação para garantir a realocação ou a regularização do espaço em que moram. A ação que pede a retirada dos moradores foi movida pela América Latina Logística (ALL), dona da linha férrea que está ao lado da vila. A transportadora não é proprietária do lote e usa os espaço por concessão do governo federal. Esta é a segunda manifestação dos moradores, que reuniu cerca de 40 pessoas. O pedido desta vez era de uma a resposta definitiva e oficial. No primeiro protesto, realizado no dia 8 de agosto, a Companhia de Habitação Popular de Curitiba (Cohab-CT) garantiu que em 20 dias a ALL teria retirado a ação, mas não cumpriu o acordo. Outro motivo da ação é a denúncia da violência policial, problema constante na área. Segundo os moradores, desde as primeiras movimentações para o ato, no período da manhã, 10 seguranças da ALL circulavam nas proximidades da vila. “Logo que a gente come-

Morar e ter acesso “Valeu a pena. Vieram trazer uma resposta bem rápido, isso mostra que estamos incomodando”, conta Kátia Cristina dos Santos, moradora que cede a casa para realização das assembléia dos moradores. Mas para ela e os outros que estiveram na ação, os 120 dias de trégua na ameaça não significam garantia de moradia. Uma das preocupações é com relação ao lugar para onde as famílias podem ser realocadas. Sandra teme pela falta de trabalho. Como a maior parte dos trabalhadores do Iguape, ela sobrevive da coletora de material reciclável e não poderia ser realocada para uma área afastada – situação que é quase regra nos casos de realocação. Algumas famílias já foram transferidas para a Vila Verde, no bairro CIC, porém sem qualquer condição de moradia e de trabalho, principalmente na coleta de recicláveis. Para evitar surpresas quando passarem os 120 dias, os moradores decidiram, logo após o fim do protesto, marcar uma conversa com representantes da ALL e da Cohab.

Arquivo Despejo Zero

A manifestação reuniu cerca de 40 pessoas çou a se reunir encheu de segurança, e eles filmaram toda a movimentação”, relata a moradora Sandra Maria Almeida Prado. A manifestação aconteceu perto do meio-dia, e as respos-

tas vieram rápido. Em reunião realizada ontem com a companhia, a ALL assinou termo que garante suspensão da ação por 120 dias. Em contrapartida, a Cohab se compromete com o desenvolvimento de pro-

jeto habitacional à população do Iguape I. Para o integrante do Coletivo Despejo Zero Pedro Carrano, a rapidez da resposta confirma a força da mobilização. “O ato demonstrou o quanto eles (Cohab e ALL)

Mesa redonda na Universidade Positivo discute ortotanásia Lediane Filus Na próxima terçafeira, acontece o evento “Olhares sobre a doença e a morte”, promovido pelo curso de Medicina da Universidade Positivo. O assunto em pauta é a ortotanásia, prática que permite ao médico limitar ou suspender procedimentos e tratamentos que prolonguem

a vida do doente em fase terminal, de enfermidade grave e incurável. A vontade da pessoa ou de seu representante reconhcecido legalmente é respeitada. Mesas-redondas como esta acontecem desde 2006, duas vezes por ano. São três convidados de diversas categorias e um mediador. O que motivou o surgimento do evento foi o fato de que, tradicionalmente, a

morte não é discutida nos cursos da área da saúde. Estudos também apontam para a dificuldade dos profissionais em lidar com a morte de seus pacientes e mesmo de acompanhar o paciente e sua família quando é chegada a hora. Assim, para que se alcance uma formação integral, torna-se necessário criar espaços na universidade para discutir e refletir sobre a questão da

morte. Uma das organizadoras do evento, a professora Léa Resende Archanjo, explica que a intenção é abordar as visões da medicina, do direito e da bioética sobre a prática da ortotanásia. “Queremos possibilitar ao estudante um espaço de discussão e reflexão sobre a morte e o morrer”, explica. Participam da mesa o médico e diretor do Hospital

Pequeno Príncipe, Donizetti Giamberardino, o bioeticista Jean Carlos Seletti e a professora de direito Silvana Maria Carbonera. Quem faz a mediação é o coordenador do curso de medicina da Universidade Positivo, Ipojucan Calixto Fraiz. Todos os interessados podem participar da atividade, que acontece a partir das 18h, no auditório 2 do Bloco Amarelo.


Curitiba,

4 Especial

quinta-feira,

4

de

setembro

de

2008

O economista Eduardo Giannetti falou aos alunos da Universidade Positivo sobre s

Uma viagem pelo mundo d Anny Carolinne Zimermann

Para lançar seu trabalho mais recente, “O Livro das Citações: um breviário de idéias replicantes” (Companhia das Letras, 464 páginas, R$ 49) e propor uma viagem ao mundo das idéias de diversos pensadores ao longo da história, o economista e cientista social Eduardo Giannetti se apresentou na terça e na quarta-feira no grande auditório do Teatro da Universidade Positivo. O evento, que faz parte do programa “Grandes Encontros”, da Universidade Positivo, foi prestigiado por quase quatro mil pessoas, entre alunos, professores, coordenadores, dirigentes e convidados da instituição. “O principal objetivo é estabelecer um diálogo que permaneça na mente das pessoas a partir dessas idéias”, disse Giannetti. Como o próprio nome da obra já mostra, “O Livro das Citações” não tem nenhuma palavra de Giannetti. É uma obra feita de fragmentos de outros livros e autores. A primeira parte, “Ler, escrever, ser compreendido”, trata do uso da linguagem para a transmissão de idéias. “Formação de crenças e busca do conhecimento” mostra o processo de formação das crenças. Na terceira, “Ética pessoal: vícios, virtudes, valores”, são abordadas as questões que permeiam as escolhas pessoais e o universo interior das pessoas, como o autoconhecimento. A quarta parte, “Ética cívica: economia, sociedade, identidades”, fala das diferentes armadilhas e idéias da vida em sociedade. O final do livro é “A arte de concluir”, sobre as dificuldades de encontrar uma mensagem final. Mas, de acordo com o filósofo francês Pascal, citado por Giannotti, a grande dificuldade é o que colocar no início. O livro é organizado em 36 capítulos, numa seqüência encadeada de fragmentos. Com “O Livro de Citações”,

o autor propõe uma volta ao passado. Mas alerta: “Não se trata de visitar o passado como quem vai ao museu, de forma contemplativa e com certo deleite. São mensagens que sobrevivem e se perpetuam no espírito humano, com a intenção de despertar o espírito de desbravamento”.

Começo A idéia de fazer o livro surgiu 30 anos atrás, quando o economista, ainda estudante universitário, se deu conta de que sua capacidade de assimilar o que lia era muito baixa. “Isso me deixava muito perturbado e desgostoso. Eu lia os textos recomendados, o que precisava e o que não precisava. E restava muito pouco dessas leituras. Muito pouco tinha se tornado patrimônio meu”, explicou. Então, resolveu anotar o que despertava seu interesse, parafraseando ou copiando citações. “Quando passei a anotar essas coisas, deixei de ter uma relação superficial com a minha leitura e passei a assimilar muito mais. A partir desse momento, deixei de remar de costas para o meu objetivo. Fiz isso de maneira sistemática”. As partes três e quatro do livro foram temas da palestra, que enfocou a construção de uma trajetória pessoal com realização e felicidade. Giannotti enfatizou a importância de examinar criticamente os valores que norteiam a vida. Para isso, citou o filósofo grego Sócrates: “A vida não examinada não vale a pena ser vivida”. Para Giannetti, a condição humana na natureza é peculiar e até certo ponto cindida: “Existem coisas que independem da nossa vontade. Ninguém escolhe como vai digerir os alimentos que ingeriu. É um processo fechado à nossa escolha. Em outros casos, a autonomia, a liberdade de escolha, é o que torna o homem responsável por seu destino. E essas escolhas são feitas a partir do estado de consciência de cada um”.

Profissão Falando a uma platéia composta quase toda de estudantes, Giannotti dedicou grande parte da palestra aos dilemas da escolha de uma profissão. Segundo ele, uma boa opção profissional deve envolver duas forças opostas que devem ser resolvidas simultaneamente. Uma delas é o valor da prudência, ou seja, é preciso escolher o caminho seguro para trilhar; a outra é o pólo vocacional, que diz respeito a encontrar atividades que sejam prazerosas e que tragam satisfação e felicidade. “O prazer aperfeiçoa a atividade”. Foi a citação de Aristóteles que o palestrante usou para explicar que, quando uma pessoa gosta de fazer algo e o faz com persistência e aplicação, torna-se uma exímia praticante e encontra pessoas dispostas a pagar pelo seu trabalho.

Ética pessoal Giannotti explicou que o sucesso profissional depende, também, de como a ética pessoal será construída ao longo da história de cada pessoa. Segundo ele, a ética pessoal envolve escolhas intertemporais. Giannetti explica que há duas situações nesse caso: a de credor e a de devedor. Na primeira, as pessoas aceitam um sacrifício visando alcançar um objetivo à frente. Na segunda, desfrutam do presente e resolvem as conseqüências depois. “São duas situações que nos acompanham cotidianamente”. Para ele, um dos grandes desafios da ética pessoal é encontrar felicidade no que se faz. Dentro do tema, afirmou, a educação também é tida como uma troca intertemporal. “Você investe agora no aprimoramento dos seus conhecimentos para que se possa viver melhor no futuro”. No quesito relacionamento, afirma que é preciso construir vínculos afetivos duradouros. Giannetti advertiu sobre o cuidado com o quê se deseja e que não basta ver o melhor cami-

Giannotti disse que o sucesso profissional depende de como a ét

nho e o reconhecer como tal, porque às vezes a pessoa não está preparada para segui-lo. O escritor afirmou que os economistas pensam o desafio da ética do ponto de vista técnico. “É preciso maximizar preferências. As pessoas são racionais, consistentes e agem de acordo com seus ideais”.

Ética cívica “O ambiente econômico brasileiro é infelizmente distorcido”, disse o economista. Para ele, faltam oportunidades e condições para o empreendedor desenvolver seus projetos.

Para ilustrar essa idéia, disse que se o empresário norteamericano Bill Gates tivesse desenvolvido seus computadores nos fundos de uma garagem no Brasil, provavelmente, hoje, não teria tido sucesso. Giannotti defende que é preciso as mesmas oportunidades para que todos desenvolvam o seu potencial. “Não vejo problema na desigualdade de resultados, desde que o caminho para se alcançar esses resultados tenha sido justo”, afirma Giannetti. O processo para a distribuição dessas oportunidades não deve ser im-


Curitiba,

quinta-feira,

4

de

setembro

de

2008

5

seu trabalho mais recente, “O Livro das Citações”; palestra faz parte do programa “Grandes Encontros”

das idéias em mil citações Fábio Muniz/ LONA

tica pessoal é construída ao longo da história de cada indivíduo

posto, mas legítimo. Persistência De acordo com Giannetti, para alcançar sucesso e felicidade, as pessoas não devem desviar de seus objetivos. Ele citou como exemplo a lenda das sereis, presente no 12.º canto do poema épico “Odisséia”, do poeta grego Homero, que narra a volta do herói Ulisses para a ilha de Ítaca, depois de ter passado dez anos na Guerra de Tróia. Ulisses voltava para casa em seu navio, com a tripulação, e estava prestes a passar por

uma área em que havia uma grande quantidade de sereias. Com seu canto, elas atraíam os tripulantes de navios para que eles perdessem a concentração, batessem nos rochedos e afundassem. Ulisses conseguiu se salvar porque tapou os ouvidos de toda a tripulação com cera e obrigou os marinheiros a amarrá-lo ao mastro do navio. Giannetti contou a lenda para fazer uma comparação com a vida das pessoas ao falar que o herói deve lidar estrategicamente com o seu futuro, sem se fechar para o mundo e não superestimar a razão.

Ulisses escutou o canto da sereia, mas não se entregou.

O livro Giannetti explicou, em partes da palestra, que critérios adotou para montar o seu livro. “Não é uma mera coletânea de frases e ditos espirituosos. É um livro estruturado. O prefácio é uma coleção de citações sobre a inutilidade dos prefácios. Muitos autores escreveram prefácios dizendo que prefácios são inúteis. Eu resolvi fazer o meu prefácio juntando os pedaços em que os outros autores dizem que prefácios são inúteis”, comentou Giannetti. Para organizar o volume, o autor selecionou 36 temas diferentes de filosofia e, para cada tema, apresentou uma seqüência encadeada de citações. “Cada citação dialoga com a anterior e com a posterior. Então é como se fosse uma dramatização da história das idéias. Como se eu tivesse colocando num mesmo palco, num mesmo cenário, grandes pensadores dialogando sobre temas comuns”, explicou. “Eu chamo o livro de um breviário de idéias replicantes porque eu tento mostrar como as mesmas idéias vão sendo transmitidas de geração para geração e vão sofrendo mutações”. Giannetti compara esse fato com os genes, que vão sendo transmitidos de geração para geração e, nesse processo, também sofrem pequenas alterações. “No fundo é um exercício em história das idéias”, disse. Escolha pessoal “O critério fundamental que eu utilizei para selecionar os mil fragmentos, em torno de mil que estão no livro, são passagens belas, são passagens expressivas e que me despertam admiração. E em muitos casos me despertam até inveja, porque eu não as escrevi. Eu gostaria de tê-las escrito”, refletiu Giannetti. Algumas citações são do especial agrado do economista, como a do filósofo Cícero: “O amor é o desejo de alcançar a

amizade de uma pessoa que nos atrai pela beleza”. “Eu achei isso muito belo e muito feliz como expressão do sentimento do amor. Junta a atração física com a amizade. E da combinação dessas duas coisas é que surge um vínculo permanente”, explica. O autor que mais figura nas citações é o filósofo alemão Friedrich Nietzsche. “Mas não é qualquer Nietzsche. É o Nietzsche que é chamado pelos historiadores de idéias de Nietzsche Iluminista. Esse período do Nietzsche é um período com o qual eu tenho grande afinidade e não é à toa que ele é o autor que mais aparece”, argumenta

Giannetti. No livro também podem ser encontradas citações do filósofo norte-americano Ralph Waldo Emerson; o filosofo escocês Adam Smith; o poeta alemão Goethe e brasileiros como: Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Joaquim Nabuco, Manoel Bandeira, Gilberto Freire, entre outros. Giannetti quis deixar claro que o seu livro não se enquadra no filão de auto-ajuda. “Eu não motivo ninguém. Talvez eu até desanime as pessoas um pouco. É o avesso da auto-ajuda. É para deixar as pessoas um pouco mais confusas e não um pouco mais confiantes”.

Nome: Eduardo Giannetti da Fonseca Data de Nascimento: 23 de fevereiro de 1957 Local de Nascimento: Belo Horizonte Atuação: Professor titular do Ibmec São Paulo Prêmios § 2004 - Economista do Ano (Ordem dos Economistas de São Paulo) § 2001 - Research Fellowship (Centre for Brazilian Studies, Oxford) § 1995 - Premio Jabuti (Câmara Brasileira do Livro) § 1994 - Prêmio Jabuti (Câmara Brasileira do Livro) § 1993 - Joan Robinson Memorial Lectureship (Faculty of Economics, Cambridge) § 1984 - Research Fellowship (St John’s College, Cambridge) Livros publicados 1. O valor do amanhã: ensaio sobre a natureza dos juros (Companhia das Letras) 2. O Mercado das Crenças (Companhia das Letras) 3. Felicidade (Companhia das Letras) 4. Nada é tudo: ética, economia e brasilidade (Campus) 5. “Beliefs in action” (Cambridge University Press) 6. Auto-engano (Companhia das Letras) 7. As partes & o todo (Siciliano) 8. Vícios privados, benefícios públicos? (Companhia das Letras) Fonte: http://www.ibmecsp.edu.br


Curitiba,

6 Perfil

quinta-feira,

4

de

setembro

de

2008

Fabio Elias, vocalista da Relespublica, é um dos roqueiros mais atuantes de Curitiba

Um cara do rock Françoise Sumi

Ana Tigrinho

Na sala que ao mesmo tempo é de jantar e de estar, como também pode ser um quarto ou um salão de festas, móveis antigos e de bom gosto fazem a decoração. Uma estante grande guarda fotografias, troféus e, é claro, bebidas. Nas paredes, fotos com caretas e um quadro do The Who. Ao lado da televisão, num rack em forma de carrinho, uma vitrola com um disco na agulha. Numa caixa no chão, as preciosidades: discos de vinil, Pete Townshend, Led Zeppelin, Who, Elvis, Clash, Beatles... Uma discografia básica. Tudo na casa denuncia: aqui mora um cara do rock. Este cara atende pelo nome de Fabio Elias. Guitarrista, vocalista e compositor da banda Relespublica, um dos grupos de maior expressividade do Paraná, que está na ativa há 19 anos. Em casa estava à vontade, de moletom e com os pés no chão. Mas quem o encontra nas noites, tocando ou bebendo com os amigos, vai vê-lo de terno, calça social, all star e bottons, bem ao estilo dos Mods dos anos de 1960. Mas também não é sempre assim: “Em casa gosto mesmo é de ficar pelado, sentindo na pele o frio de Curitiba”, revela. Mod é uma tribo de jovens que surgiu no início dos anos 60 e que até hoje tem seus remanescentes. O que caracteriza os Mods são, principalmente, as roupas retrô e o estilo musical. Usam terninhos, calças justas, all stars, e escutam basicamente jazz e rock n’ roll, bandas como Who, Beatles, Yardbirds, entre outras. Deitado à vontade em um colchão jogado ao lado da janela, Fabio descreve como ele é: “Sou um capricorniano teimoso, muito criativo, muito amigo, muito louco. Sou pouco paciente, não gosto ficar esperando as coisas acontecerem, tenho que fazer acontecer. Sou um bom amante, gosto de garotas que me tratem bem. Tenho gosto simples, não tenho frescura para comida. Adoro beber, um bom vinho com uma boa com-

Fabio Elias em ação: “A Reles virou patrimônio de Curitiba” panhia é a melhor coisa que existe. Viajar é um barato, estar na estrada é minha vida. Faço o que gosto desde sempre, então sou feliz!” Fabio nasceu em Curitiba em dezembro de 1975. Desde os quatro anos está ligado ao rock. Com esta idade ganhou seu primeiro disco, um vinil de Elvis Presley. Com oito anos começou a tocar violão. “Comecei tocando Jimmi Page, a primeira música que tirei foi “Tangerine”, do Led Zeppelin. Não é para qualquer um”. A mãe até o colocou em uma escola de violão, mas nem precisava. “A professora dizia que minha mãe gastava dinheiro à toa, porque eu chegava lá e saía tocando tudo”. A Relespublica nasceu como nascem várias bandas: amigos adolescentes que querem tocar as músicas que gostam e cur-

tir um barato. O ano era 1989. Fabio na guitarra e voz, o vizinho Ricardo Bastos no baixo e Emanuel Moon, amigo dos dois, na bateria. “A gente começou a fazer rock numa época em que só se ouvia lambada e technotronic”. A influência veio dos irmãos mais velhos e do rock nacional que tocava em algumas rádios. “Na Reles somos todos caçulas, os irmãos mais velhos influenciaram a gente. Tocava no rádio as músicas dos anos 1980: Ira!, Ultraje, Titãs... A gente curtia tudo aquilo que curte até hoje”. A base da Reles foi sempre o trio, mas ela passou por outras formações. Em 1991, Daniel Fagundes assume os vocais, mas um acidente fatal em 1994 o tiraria da banda. No final de 1997 uma nova formação: além dos três, Kako Louis no vocal e Ro-

ger Gor no teclado. pare a Dona Lucia, a mãe do Nestes 19 anos de RelespuFabio. “Minha mãe é o máxiblica, muita história, shows, mo! Ela tem o maior orgulho fãs, parcerias, três CDs e um da gente, canta as músicas DVD gravados. “Um dia que me quando está lavando louça, famarcou muito foi quando tocazendo comida. Ela diz que é nosmos no Rock in Rio. Descarresa fã número um. Meu pai é guei tanta adrenalina e endormais fechado, mas se orgulha fina que fiquei louco e não me muito também. Toda vez que lembro de nada. Minha mão fieu apareço no jornal ele vai moscou dura, não conseguia trocar trar para os amigos. Eles quedireito de acordes, fiquei muito riam que eu me formasse numa louco na hora”. Outro momenfaculdade, mas respeitam mito emocionante foi a gravação nha decisão e dizem que eu sou do MTV Apresenta. “Foi um troo filho mais feliz entre os três ço louco, o melhor show da nosporque eu faço o que gosto”. sa vida”. Fabio Depois e Reles do álbum CDs lançados são tipiMTV as E o Rock n’ Roll Brasil? – 1998 camente c o i s a s O Circo está Armado – 2000 curitibam u d a - As Histórias são Iguais – 2003 nos. “A ram: “A Reles já MTV Apresenta: Relespublica - 2006 comunidavirou pade do trimônio Orkut aumentou, o público da cidade”. E um patrimônio também, os amigos e a família boêmio, como os bares ou o Larvieram parabenizar, o reconhego da Ordem, lugares muito cimento começou a vir. Pela freqüentados por Fabio e comprimeira vez uma banda de Cupanhia... “Minha atividade é ritiba tinha feito um DVD nadormir de dia e acordar à noite. O dia, além de me dar precional. Mas nunca foi fácil, a guiça, é nocivo. Tenho fotofobia, gente sempre correu atrás do não posso ficar exposto à luz do nosso sonho, nunca ficou espesol. Eu adoro e sou noite, é onde rando”. Mas há coisas que não você encontra pessoas interesmudam: a união da banda, a santes e é de onde pago minhas simpatia dos integrantes e a recontas. Sou boêmio mesmo, lação com os fãs. adoro boemia”. No palco, aquele gordinho Boêmio sim, mas não se encom costeletas na altura do caixa totalmente no estereótiqueixo e óculos de aros grossos po de que vida de roqueiro é soé totalmente o contrário daquemente “sexo, drogas e rock n’ le cara calmo deitado no colchão roll”. “Geralmente é isso o que embaixo da janela. Corre, pula, pensam, mas para mim é muifaz caretas, mexe com as menito rock n’ roll, um tanto especininhas, canta e toca horrores. al de sexo, mas não só quantiOs fãs cantam e dançam fascidade, e drogas só mesmo ‘o nados com o carisma que ele gole’. Maconha já usei, agora desperta. só dou uns tapinhas de vez em Quando o assunto é fãs, quando. Prefiro a bebida porquem se fascina é ele. “O públique é mais sociável. Ccocaína co da Reles é como joguinho da eu odeio”. Grow, pessoas de todas as idaVida de músico não é fácil, des gostam. Isso é que é legal, nem para este roqueiro “dispinão tem preço, não tem cachê ruque”. Mas qual é o segredo que pague”. Mas a relação com para ser feliz nestes 32 anos de os fãs não se limita ao palco. vida, 28 deles de puro rock n’ “Nossos fãs são nossos amigos roll? “Dedicação total. Não tetambém. Nós temos um monte nho outra banda ou outro emde fã que freqüenta nossa casa, prego, tenho Relespublica e vem aqui tomar um vinho. Eles meus instrumentos. Essa é respeitam a Reles, eles sabem minha vida. Não é fácil, mas o limite entre ser amigo e ser eu não troco por nenhuma oufã”. tra. Eu amo o que faço!” Mas não tem fã que se com-


Curitiba,

quinta-feira,

Geral

4

de

setembro

de

2008

7

IV Congresso Brasileiro e I Congresso Latino-Americano de Equoterapia acontecem juntos na UP

Congresso latino-americano discute avanços da equoterapia Camila Pagno

Até amanhã, acontece na Universidade Positivo, simultaneamente, o IV Congresso Brasileiro de Equoterapia e o I Congresso Latino-Americano de Equoterapia, com o tema: “A família, o praticante, o cavalo e a equoterapia”. A palavra equoterapia foi criada e devidamente registrada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) no ano de 1999, pela Associação Nacional de Equoterapia (ANDE), vinda da junção do radical equo, originário da palavra latina equus, que significa cavalo, com a palavra grega therapeia, que significa terapia. Os trabalhos desenvolvidos por meio da equoterapia são reconhecidos pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) como método terapêutico e educacional, utilizado para auxiliar na reabilitação de pessoas com necessidades especiais. Segundo dados do último Censo Demográfico do Brasil, realizado em 2000 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há no Brasil em torno de 24,6 milhões de pessoas portadoras de deficiência, ou seja, 14,5% da população do país. Elas enfrentam desafios diários em torno de suas dificuldades. São mi-

lhares de famílias que sofrem com o preconceito e que travam uma grande batalha em busca da inclusão social e do tratamento adequado para seus familiares. No Brasil, a Lei Federal nº. 7853/89 assegura os direitos básicos dos portadores de deficiência. Entre os direitos está a criação de uma rede de serviços especializados na reabilitação e habilitação e o desenvolvimento de programas de saúde voltados para as pessoas portadoras de deficiência, desenvolvidos com a participação da sociedade e que lhes dêem a oportunidade da integração social. Pela Constituição, os direitos estão assegurados, porém, na prática, há muitas barreiras a serem enfrentadas. O acesso a programas de assistência à reabilitação dos portadores de limitações, tais como o trabalho desempenhado pela equoterapia, são fatores decisivos para a melhoria de vida destas pessoas. As equipes montadas para trabalhar com estes serviços devem ser preferencialmente multidisciplinares, contando com apoio de profissionais das áreas de fisioterapia, terapia ocupacional, psicologia, educação física, pedagogia, fonoaudiologia, assistência social, entre outros. Há os mais variados casos de limitações que

podem ser trabalhados para melhorar a qualidade de vida pela equoterapia, tais como a paralisia cerebral, autismo, deficiências visual e mental e lesão medular traumática. No cronograma do evento identificam-se discussões em torno de diversos aspectos do trabalho de equoterapia com a participação de pessoas de várias regiões da América Latina nos artigos apresentados. A fisioterapeuta Andéa Baraldi Cunha, que trabalha em um projeto da área desde 2001 na Universidade de São Paulo (USP), em Piracicaba, apresentou um artigo sobre “O efeito da equoterapia na função motora de crianças com paralisia cerebral”. Segundo Andréa, a melhora dos pacientes com tratamento em equoterapia é muito rápida e diferente de quando se tenta trabalhar somente através da fisioterapia: “Na equoterapia, o ambiente favorece, pelo trabalho em equipe multiprofissional, os ganhos são mais rápidos e as crianças também se divertem mais fazendo a terapia”. Pacientes que apresentam paralisia cerebral são grande parte dos beneficiados pelo programa. A paralisia cerebral é um termo amplo, que abrange alterações do movimento da postura, do equilíbrio, da coordenação, decorrente de uma lesão no cérebro em desenvolvimento, resultando em comprometimentos neuromotores, variando de caso em caso. Cristiane Fernandes, estudante de fisioterapia, veio de Brasília para participar do congresso. Para ela, a convivência e a participação de pessoas de vários lugares acrescenta muito, tanto para profissionais bem qualificados quanto para iniciantes: “Cada um tem a sua forma de lidar. Se você não sabe, você aprende, e se sabe, você pode mudar um pouco para fazer a diferença”. A Universidade de Passo Fundo (UPF-RS) atende há

Camila Pagno/LONA

O processo de adaptação com o animal acontece aos poucos cinco anos pessoas com deficiência visual, autistas e crianças com paralisia cerebral. Um grupo de crianças portadoras de paralisia cerebral começou a praticar equoterapia no início desde ano e já apresenta resultados notáveis. O tratamento é cuidadoso. As crianças começam a se acostumar pouco a pouco à convivência com os cavalos. Com o passar do tempo adquirem confiança e melhoram o desenvolvimento do tratamento. Com os autistas, o trabalho funciona por meio da aproximação entre o animal e a pessoa. Eles têm a capacidade de comunicação, estabelecimento de relacionamentos e respostas comprometidas tanto em relação a pessoas como a objetos e eventos. A utilização do cavalo, além

de sua função cinesioterápica, ou seja, terapia pelo movimento e pelo andar a cavalo, produz uma importante participação no aspecto psíquico, favorecendo a reintegração social. Já no caso dos deficientes visuais, por possuírem um déficit sensorial, são acarretadas limitações de apreensão com o mundo externo, havendo necessidade de estímulo das estruturas sensoriais para diminuir os impactos da perda de atividades motoras. Com a equoterapia, o objetivo é resgatar o estímulo, a autoconfiança, a comunicação e o aprimoramento de habilidades básicas do corpo. A sede da Ande-Brasil fica no Distrito Federal, em Brasília, porém possui afiliados em todos os estados brasileiros e na Venezuela.


Curitiba,

8

Aldeia na cidade Texto e fotos: Rhuana Ramos da Silveira Em 1500, quando os europeus chegaram ao Brasil, a população indígena era de cerca de 5 milhões. Hoje, a Funai estima que seja de apenas 270 mil. Destes, 10 mil vivem no Paraná. Dentre esses, mais da metade são guaranis e 69 residem na aldeia Caruguá, em Piraquara. A aldeia existe há nove anos, mas só no ano passado a Prefeitura de Piraquara doou os 40 hectares onde os índios moram. Não foi apenas o número de índios que mudou com o passar dos anos: a cultura também se transformou. Ao chegar à aldeia, a expectativa era a de encontrar ocas, arco e flecha, índios com o corpo pintado e usando cocares. Porém, não é isso o que se vê na aldeia Caruguá: lá, os índios estavam vestidos – o cacique Marcolino da Silva, por

exemplo, vestia bermuda de brim e camisa —, usando chinelos havaianas e portando aparelhos de celular. Já o olhar curioso, a caça, a pesca, a vida em comunidade e o artesanato ainda estão presentes na cultura guarani. Mas há uma mistura entre esse mundo e o urbano: o artesanato é a fonte de renda para comprar roupas e alimentos (os índios são proibidos pela prefeitura de plantar no local) e, mesmo tímidos, sentem-se à vontade diante da câmera fotográfica (mas apenas depois da difícil autorização do cacique para a produção das fotos). Foi através da fotografia que começou a conversa com a índia Natalina da Silva, de 62 anos. Ela e a neta, Josiléia da Silva, de 13 anos, não se intimidaram ao serem fotografadas enquanto faziam o almoço dentro da casa de reza. Cozinhavam feijão e arroz no fogão de chão aquecido a lenha. Contaram que normalmente o cardápio é o mesmo,

só muda quando algum homem da família sai à caça e volta ou com um quati ou um tatu. Josiléia fala pouco português. Quase tudo o que fala é em guarani, que é traduzido pela avó. Ela freqüenta a escola da aldeia durante a manhã e à tarde ajuda nos afazeres de casa. Confessa gostar da vida que leva e que não pretende sair da aldeia para morar na cidade. Natalina concorda com a neta. Apenas lamenta que a cultura indígena esteja se transformando, correndo o risco de mudar completamente. Ela mesma é vítima da urbanização nas aldeias: portava um celular, no qual sempre mexia quando se sentia tímida com a entrevista. A conversa terminou da mesma forma que começou: com uma fotografia. Natalina pediu para que tirasse uma foto dela, fez pose e até arriscou um sorriso – mais com os olhos do que com os lábios.

quinta-feira,

4

de

setembro

de

2008

LONA 431- 04/09/2008  

JORNAL- LABORATÓRIO DIÁRIO DO CURSO DE JORNALISMO DA UNIVERSIDADE POSITIVO.

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you