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RIO DIÁ do

Curitiba, quinta-feira, 2 de setembro de 2010 - Ano XII - Número 584 Jornal-Laboratório do Curso de Jornalismo da Universidade Positivo

L BRASI

redacaolona@gmail.com Thomas Mayer Rieger/ LONA

Ônibus descontrolado causa acidente no Mossunguê Um ônibus biarticulado da linha Centenário/Campo Comprido atingiu cinco carros nesta quarta-feira no bairro Mossunguê. Além disso, 11 passageiros ficaram feridos, e a maioria deles foi encaminhada para hospitais da cida-

de. Estudantes de Jornalismo da Universidade Positivo estavam presentes no local do acontecimento e relataram o incidente para a equipe do LONA. Pág. 3

Intercom 2010

Opinião

Começa, em Caxias do Sul (RS), o principal evento acadêmico de comunicação do Brasil

Lei da palmada: sim ou não? Confira o que pensam nossos articulistas

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2 Expediente Reitor: José Pio Martins. Vice-Reitor: Arno Antonio Gnoatto; Pró-Reitor de Graduação: Renato Casagrande; Pró-Reitor de Planejamento e Avaliação Institucional: Cosme Damião Massi; PróReitor de Pós-Graduação e Pesquisa e PróReitor de Extensão: Bruno Fernandes; Pró-Reitor de Administração: Arno Antonio Gnoatto; Coordenador do Curso de Jornalismo: Carlos Alexandre Gruber de Castro; Professores-orientadores: Ana Paula Mira e Marcelo Lima; Editoreschefes: Daniel Castro (castrolona@gmail. com.br), Diego Henrique da Silva (ediegohenrique @hotmail.com) e Nathalia Cavalcante (nathalia. jornal@gmail.com) .

Missão do curso de Jornalismo “Formar jornalistas com abrangentes conhecimentos gerais e humanísticos, capacitação técnica, espírito criativo e empreendedor, sólidos princípios éticos e responsabilidade social que contribuam com seu trabalho para o enriquecimento cultural, social, político e econômico da sociedade”. O LONA é o jornallaboratório diário do Curso de Jornalismo da Universidade Positivo – UP Redação LONA: (41) 3317-3044 Rua Pedro V. Parigot de Souza, 5.300 – Conectora 5. Campo Comprido. Curitiba-PR - CEP 81280-30. Fone (41) 3317-3000

Curitiba, quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Opinião

A polêmica palmada Violência que não gera respeito

Lei interfere na soberania do lar

Aline Reis

Rodrigo dos R. S. de Araujo

sccpaline@gmail.com

“Se você não se comportar, nós vamos voltar pra casa agora, entendeu?”. Foi o que uma mãe disse para sua filha, de uns quatro anos de idade, no corredor de um shopping. A criança, arteira, retrucou: “Não! Eu quero agora!”. Esse é um caso em que um tapa bem dado é mais do que justificado. Não digo um tapa pra doer e/ou deixar marca, mas sim um que faça barulho, assuste um pouco e que fique a lembrança de ter feito coisa errada para não mais repeti-la. Meu avô é militar aposentado e levou a disciplina do quartel para dentro de casa quando o assunto era a educação dos filhos. Meu pai conta que apanhava todos os dias. Se não era pela manhã, então era à tarde. De certa forma, é até justificável por quê. Baseado no que ele e meu tio contam, ambos eram sapecas e aprontavam tudo e mais um pouco. Apesar da rigidez, meu avô nunca espancou os filhos. Era uma cintada na bunda para aprender que quando o pai ou a mãe fala, eles tinham que abaixar a cabeça e obedecer. Meu pai foi um pouco mais liberal nesse quesito, mas mesmo assim não me livrei de levar umas boas chineladas ou palmadas quando aprontava. Da mesma forma que o trabalho enobrece o homem, a rédea curta dos pais molda o caráter dos filhos. Meu pai e meu tio são ótimos exemplos de justiça e caráter. Mencionados todos estes detalhes, vamos ao que interessa: essa lei de não poder dar um tapinha nos filhos é ridícula, uma invasão de privacidade. Criança tem que ser criada/tratada com muito amor e carinho e não pode faltar o diálogo com os pais, mas também é imperativo que façam uso da rédea curta para educá-las. Não para punir, mas sim para que cresçam com senso de respeito, responsabilidade e, principalmente, com limites. A psicóloga e consultora educacional Rosely Sayão, apesar de ser contrária à palmada, parece concordar comigo na questão legal: “Essa lei, junto com outras bem diferentes, mostram a invasão do estado na vida privada. Acho isso muito perigoso. Hoje podemos ser contra a palmada — eu sou — mas amanhã, sabe-se lá o que pode ser transformado em lei”. A função do Estado não é palpitar na criação do filho alheio, mas sim a de cuidar do bem-estar coletivo e do cumprimento das leis cabíveis. A partir do momento em que se ausentou da responsabilidade de prover educação, saúde e segurança de qualidade, automaticamente deixou de ter moral para cobrar qualquer coisa do cidadão. Agora me vem com essa de que não pode dar umas palmadas em criança malcriada? O que não pode é este Estado ausente e corrupto vir palpitar na maneira como crio meus filhos. Quero dizer, como não tenho filhos, ele palpita na maneira como os criaria, mas enfim. Cada indivíduo é soberano dentro do seu lar

Um tapinha dói, sim, ao contrário do que diz a letra do funk que embala, sensualmente, pessoas em todo o Brasil. O tapinha pode ser erótico, mas não quer dizer que seja bom – pelo menos no caso das crianças. Existe um bafafá acerca da lei que não permite que os pais e mães batam nos seus filhos e filhas. “É só um tapinha”, ouço corriqueiramente. Concordo. É só um tapinha. Um tapinha que não gera respeito e sim medo. O tapinha não serve para educar, serve para descontar a raiva que o pai ou a mãe estão sentindo naquele momento. Imagine se eu fosse bater nas pessoas das quais eu tenho raiva? Imagine se fôssemos bater umas nas outras a cada discordância que tivéssemos? Essa história de que “eu apanhei e sou uma pessoa de bem, e ele foi mimado e é um vagabundo” é ridícula. Ninguém se torna melhor porque apanhou. A educação se dá por meio do diálogo, e sim, talvez de punições, mas não

Essa história de que “eu apanhei e sou uma pessoa de bem, e ele foi mimado e é um vagabundo” é ridícula. Ninguém se torna melhor porque apanhou físicas. Privar um filho ou filha uma semana de televisão é muito melhor do que dar uma palmada ou até mesmo usar chinelos, cintos e afins para maltratar as crianças. Por que não batemos nos nossos chefes? Por que não batemos nos nossos parceiros e parceiras (embora, isso ocorra muitas vezes)? Porque quando se bate, se perde o respeito. Eu não disse que se perde o sentimento de apreço, carinho, afeto, amor, seja lá como você chama isso. Eu disse que se perde o respeito. Um homem e uma mulher de bem não se fazem batendo, mas sim respeitando e educando. O maior problema é que, ao que me parece, grande parte dos pais e mães se tornam um tanto quanto ausentes na educação de seus filhos e filhas, e, no entanto, querem que as crianças sejam educadas pelas babás, professoras, avós... Quando há um “deslize” do caminho que o papai e a mamãe acham que os filhinhos e filhinhas devem seguir, a solução é uma só: a pancada. Existe a substituição do diálogo pela imposição. Menos conversa e mais discurso. O problema é que pancada não vai resolver o problema (com o perdão da redundância). Se fosse assim, lutadores de boxe teriam auréolas acima das cabeças.

e educa seus filhos da maneira que julgar correta.

Da mesma forma que o trabalho enobrece o homem, a rédea curta dos pais molda o caráter dos filhos. Meu pai e meu tio são ótimos exemplos de justiça e caráter


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Curitiba, quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Acidente

Biarticulado perde o controle e atinge carros no bairro Mossunguê O acidente não registrou mortes, mas 11 pessoas ficaram feridas Fotos: Thomas Mayer Rieger

Thomas Mayer Rieger Ehnaeull E. G. Gonçalves Daniel Castro Um ônibus biarticulado da linha Centenário/Campo Comprido sofreu um acidente na Rua Deputado Heitor Alencar Furtado, em frente à estação-tubo São Grato, no Mossunguê, por volta das 11h45min desta quarta-feira. As equipes de socorro levaram aproximadamente 20 minutos para chegar ao local. Pelo menos cinco carros foram atingidos pelo ônibus e uma árvore foi arrancada pela raiz. Dentre os 180 passageiros estavam vários estudantes da Universidade Positivo, que voltavam para casa. Os passageiros que se encontravam na última articulação do ônibus foram os mais afetados, sendo que, segundo o corpo de bombeiros, 11 deles ficaram feridos. Eles foram encaminhados para os hospitais Evangélico e Cajuru, com exceção de dois, que tiveram ferimentos leves e não quiseram ser encaminhados para o atendimento hospitalar. Segundo um fiscal da URBS, a única informação que foi passada diz respeito ao estado de saúde do motorista, que teria passado mal enquan-

“Na verdade, tem um monte de gente dizendo que o motorista apagou, tem gente que fala que o freio não funciona, mas não sei direito” Camila Collita, estudante de jornalismo

to estava na direção do veículo. Ele teve ferimentos leves e também foi encaminhado para o hospital. Segundo os passageiros, o veículo estava em alta velocidade desde a saída do terminal, que fica a três estações do local do acidente. Camila Collita, estudante de Jornalismo e uma das feridas (teve o braço esquerdo fraturado), confirma que o ônibus estava em uma velocidade acima do normal. “Ele estava bem rápido e não conseguiu frear”, conta. O estudante de Publicidade e Propaganda Willian Chan também estava no biarticulado. Ele explica a movimentação estranha feita pelo veículo. “Quando a gente chegou aqui ele começou a dar muita volta, fazer muito ziguezague”. Chan saiu ileso, porém um colega seu não teve a mesma sorte. “Meu amigo se machucou, se cortou no vidro. A gente o ajudou a descer do ônibus”, complementa. O estudante ainda colaborou com o amigo, deitando-o na grama e estancando seu ferimento até

o socorro chegar. As várias versões dadas pelos envolvidos no acidente dificultaram as conclusões e deixaram os passageiros confusos. “Na verdade, tem um monte de gente dizendo que o motorista apagou, tem gente que fala que o freio não funciona, mas não sei direito, diz Collita. As reações de quem viu o incidente foram variadas. O cobrador Moacir Vieira confessou já ter presenciado situações parecidas, mas não com a mesma intensidade. Ele conta que no momento da batida estava na companhia de uma mulher, que ficou chocada e chegou até mesmo a chorar. O designer Rafael Barbosa estava trabalhando quando ouviu o barulho causado pelo acidente. Quando desceu para verificar o que tinha acontecido, descobriu que o próprio carro havia sido atingido. “Foi muito triste. Peguei o carro há um mês na concessionária e ele estava com 300 quilômetros. Agora vou perder, provavelmente”, lamenta. O trânsito na região foi liberado por volta das 16 horas.

Falando nisso... Hoje pela manhã um protesto organizado pelo Movimento Passe Livre colocou cruzes na Praça Tiradentes para lembrar as vítimas de um acidente acontecido no dia 10 de junho. Na ocasião, um ligeirinho da linha Colombo/CIC causou a morte de duas pessoas e deixou outras 32 feridas. Nesse caso, o motorista também perdeu o controle do veículo, que atingiu uma unidade das Lojas Pernambucanas.


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Curitiba, quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Criar - Arquitetura Sustentável/ Divulgação

Arquitetura Sustentável

Puff com fibras de bambu, paredes pintadas com tinta natural, iluminação em leds e piso em tecnocimento integram o projeto de sala ao lado

Arquitetura

consciente

De bem com o meio ambiente, arquitetos trazem a sustentabilidade para seus projetos

Monique Ferreira A construção e planejamento de casas, prédios, conjuntos habitacionais, condomínios, e até mesmo de bairros inteiros já estão sendo pensados dentro da chamada “arquitetura sustentável”. O coordenador do curso de arquitetura da Universidade Positivo, Orlando Ribeiro, define arquitetura sustentável como sendo “um conjunto de estratégias que têm por finalidade, por meio do arquiteto ou urbanista, preservar os recursos naturais para as gerações futuras”. O planejamento sustentável começou a ser pensado mais seriamente a partir dos anos 70, com o crescimento populacional dos grandes centros urbanos. “As cidades foram ficando, de certa forma, caóticas. Isso fez com que começasse a se repensar todas as escalas”, diz Orlando Ribeiro. A preocupação do arquiteto vai desde o posicionamento da casa, sua direção em relação ao sol, a disposição das janelas até as origens dos materiais

utilizados. Em um projeto de arquitetura sustentável, o pensamento abrange todo o ciclo da edificação. Vai desde o projeto às questões práticas que envolvem a reciclagem e reaproveitamento de muitos materiais até o destino dos resíduos gerados pela obra, que podem ser reaproveitados na fabricação de tijolos e aterros. Medida que reduz o volume do que é encaminhado aos aterros sanitários. Vale lembrar que a adoção de soluções ambientalmente sustentáveis não acarreta aumento de preço, principalmente se as medidas forem adotadas durante a concepção do projeto. A implantação de alguns sistemas, como o de aquecimento solar, pode aumentar os custos, mas a longo prazo a economia alcançada durante a utilização paga o investimento. Nos dias atuais, muito se fala em sustentabilidade. Várias áreas do conhecimento estão sendo estudadas por um novo ângulo. Os produtos pensados neste aspecto

buscam responder, em sua produção, a três perguntas básicas que constituem o triângulo da sustentabilidade. São elas: é economicamente viável? É ambientalmente correto? É socialmente justo? Em outras palavras um produto sustentável deverá ser acessível, economicamente, ao maior número de pessoas possível, respeitar o meio ambiente com a diminuição da energia gasta na produção e dos recursos naturais empregados. E, por último, o produto deverá alcançar a satisfação do consumidor. Na arquitetura, bem como na construção civil, várias medidas sustentáveis já estão sendo empregadas em grande escala. Destaca-se o melhor aproveitamento dos recursos naturais como a luz natural e a ventilação natural, a captação da energia solar ou eólica e sua transformação em energia elétrica, a captação da água da chuva para reutilização na área da jardinagem e limpeza, a iluminação de baixo consumo, enfim, tudo que minimize o impacto

ambiental que aquela construção pode gerar. Ribeiro acredita que a questão da sustentabilidade na arquitetura é um caminho sem volta. “Atingimos um estágio que não pode mais ser caracterizado como tendência, não é um estágio pas-

sageiro. Daqui em diante, nós devemos sim, nos preocupar com essa pauta de maneira eficiente, correta e cada vez mais se aprofundar nesses estudos para que as próximas gerações possam usufruir da vida que nós temos hoje.” Divulgação

The Green Building | África do Sul Construío com blocos de concreto reciclado e madeira de áreas de reflorestamento


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Curitiba, quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Evento acadêmico

Horas 96

Até a próxima segunda-feira, acadêmicos da área da comunicação participam do Intercom 2010

de comunicação

Diego Henrique da Silva Começa hoje em Caxias do Sul (RS) o principal evento acadêmico do Brasil na área de comunicação. Trata-se do Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, o Intercom 2010, que já está em sua 33ª edição. No período de 2 a 6 de setembro, estudantes de jornalismo, membros da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, professores, mestres e doutores em comuni-

cação vão se reunir para participar do congresso. Palestras, oficinas, Grupos de Trabalho (GTs), debates, lançamentos de livros acadêmicos e apresentação de trabalhos científicos são algumas das atrações do evento. Além disso, há também a Exposição da Pesquisa Experimental em Comunicação (Expocom), que premia os melhores trabalhos práticos de alunos. Esses trabalhos podem ser de Publici-

dade e Propaganda (cartazes, campanhas, propaganda em vídeo etc.); Jornalismo (revistas, telejornais, radiojornais, documentários etc.); Relações públicas (pesquisa de opinião, organização de evento etc.); Cinema e Audiovisual (roteiro, curta e longa metragem, etc.); Produção editorial e transdisciplinar em comunicação (edição de livro, fotonovela, fotografia artística, quadrinhos, games).

Divulgação/ UCS

Diego Henrique da Silva

Luísa Barwinski (esquerda) junto à professora Elza Aparecida de Oliveira, durante a edição regional do evento, em Novo Hamburgo (RS)

Campus da Universidade de Caxias do Sul (UCS), que sedia o evento

Juventude que participa A jornalista Luísa Barwinski vai apresentar o blog que criou em seu trabalho de conclusão do curso (TCC) de jornalismo. Ela compete com estudantes de outras quatro regiões do Brasil, na categoria Produção Editorial e Transdisciplinar em Comunicação: modalidade blog, no prêmio Expocom. Segundo ela, o projeto nasceu há um bom tempo, quando tinha o blog ‘Palitos de Gina’, que depois virou seu TCC. “Participar do evento também é importante para o reconhecimen-

to do blog, que deu trabalho pra caramba”, declara. Deu trabalho, pois não é mais uma página na web, pois foi fruto de intensa pesquisa e trabalho. “Foi um processo, desde fazer toda a fundamentação teórica até fechar as pautas e começar a fazer as primeiras reportagens”, comenta. Ela segue com o produto até hoje, que pode ser acessado em paliteiro.com.br Luísa sabe que trazer o prêmio não vai ser fácil. “São pessoas que já ganharam o prêmio na sua região. A gente

sabe que não vai competir com trabalho fraquinho”, analisa. A dica que ela dá para quem estuda comunicação e nunca se interessou em participar do Intercom, seja na fase regional ou nacional, é que tente se empenhar e produzir trabalhos. “Isso conta pra currículo. Por mais que algumas pessoas pensem ‘o que tem a ver dizer que já participei do Expocom?!’, é importante, pois quem é da área da comunicação (e pode contratar), sabe”, defende a jornalista, que se formou no ano passado pela Universidade Positivo (UP).

Um bate-papo com a organizadora geral De acordo com a presidente da comissão que organiza o Intercom na Universidade de Caxias do Sul (UCS), Marliva Gonçalves, cerca 3.300 pessoas se inscreveram. Entretanto, serão aproximadamente 4 mil participantes, pois os universitários do campus também estão integrados. Para Marliva, os principais desafios de organizar um evento desse porte é juntar esforços, preparar infraestrutura e organizar o atendimento. “Precisamos pensar em tudo: se as salas têm equi-

pamentos necessários e suficientes, pensar no transporte dos congressistas, recepção, logística e na questão de comunicação com os participantes que falam em outros idiomas”. Perguntada sobre o que pensava da participação dos estudantes no evento, Marliva destacou a questão da vida profissional. “Antigamente, bastava ter diploma, falar uma língua estrangeira e saber datilografar/ digitar. Hoje os alunos precisam ter um diferencial para conseguir espaço no mercado de trabalho. A participação em congressos e seminários conta muito”, explicou.


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Curitiba, quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Priscila Schip

Henrique Bonacin

Escreve quinzenalmente sobre gênero, sempre às quintas-feiras priscilaschip@gmail.com

Escreve quinzenalmente sobre política hbonacin.ike@gmail.com

Gênero

Política

Bispo, Dilma e aborto no Brasil precisamos pegar. Qual é a primeira coisa que precisamos fazer para resolver um problema? Identificá-lo. Certo? Pois é, mas antes disso é preciso outra coisa: o problema, para ser problema tem que existir. E é isso, o aborto é um problema porque ele existe, ele é praticado. Então não adianta ficar falando em direito à vida e blá blá blá, quando o aborto acontece. Essa que é a questão, sendo legal ou não, ele acontece. Em 1991, no Brasil, as estimativas eram de que o número de abortos ilegais praticados por ano variavam entre 300 mil e 3,3 milhões, isso de acordo com Singh & Wulf. Em 1994, o Alan Guttmacher Institute publicou os resultados de uma investigação sobre aborto inseguro na América Latina, incluindo o Brasil, estimando que um total de 1.443.350 abortamentos inseguros ocorria no país. A mesma pesquisa revelou uma taxa anual de 3,65 abortamentos por 100 mulheres de 15 a 49 anos. O estudo mais recente é o que traz valores de 2005. De acordo com a pesquisa, 1.054.242 abortos foram induzidos no país. Porém, é preciso ter em mente que esse número é baseado apenas em dados referentes a internações no Sistema Único de Saúde (SUS), e em pesquisas com abordagem direta, ou seja, perguntar às mulheres se já praticaram o aborto. No caso do SUS é preciso levar em consideração que nem toda a população brasileira feminina utiliza o sistema, e de que muitas mulheres não procuram o atendimento por medo. Quanto à abordagem direta o problema é mais evi-

incomodam

dente, não é comum uma mulher que praticou o aborto falar disso abertamente. O que nos atenta que o número de abortos é possivelmente bem maior. Segundo o Comitê para a Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW), a tipificação do aborto como crime não desestimula a mulher de se submeter ao aborto, e acaba incentivando as práticas de risco. Quer dizer, as mulheres que têm dinheiro recorrem a clínicas clandestinas, e as que não têm, usam práticas de trauma voluntário, como: quedas, socos e atividades físicas excessivas. O aborto pode ocorrer também, por meio de inserção de objetos no útero: cateter, arame, agulhas de tecer e cabides. As clinicas clandestinas não têm nenhum padrão de atendimento, não existe nenhum tipo de segurança; e uma mulher que recorre a esse serviço não tem como saber se quem a atende realmente é um médico. Quanto às práticas “caseiras” que induzem o aborto, não é nem preciso dizer o quanto são perigosas. Hoje o aborto é a 4ª causa de morte materna, superado apenas pela hipertensão arterial, hemorragia e infecção. Colocá-lo como crime sempre tendo em mente que ele acontece é não dar direito à saúde a essas mulheres, é simplesmente ignorá-las. E é sim, eu concordo que a legalização do aborto acaba sendo uma muleta. O ideal é que abortos não existam. É claro que muita coisa precisa ser mudada e, enquanto isso, não podemos ficar de braços cruzados. Essas mulheres que cometem o aborto precisam que o sistema de saúde as apóiem, cuidando da saúde delas, é só isso.

Divulgação

Em julho deste ano, o bispo de Guarulhos, Dom Luiz Gonzada Bergonzini, publicou um artigo no site da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) recomendando o boicote à candidatura de Dilma Rousseff por causa da defesa do aborto nos casos permitidos por lei. Embora o artigo não possa mais ser encontrado no site, alguns trechos foram salvos, ai estão eles: “Denunciamos e condenamos como contrárias às leis de Deus todas as formas de atentado contra a vida, dom de Deus, como o suicídio, o homicídio, assim como o aborto, pelo qual, criminosa e covardemente, tira-se a vida de um ser humano, completamente incapaz de se defender”. “Isto posto, recomendamos a todos verdadeiros cristãos e verdadeiros católicos a que não deem seu voto à senhora Dilma Rousseff e demais candidatos que aprovam tais ‘liberações’, independentemente do partido a que pertençam.” Dilma deu sua resposta dizendo que essa opinião – defendida pelo bispo – não é de toda CNBB e que o que ela defende é que a lei seja cumprida, afinal, o aborto é permitido no Brasil em casos de estupro e de risco de morte para a mãe. Ela explicou dizendo que o que acontece é que mulheres com melhores condições fazem abortos em clínicas, enquanto as menos favorecidas acabam recorrendo a técnicas perigosas, como o uso de agulhas de tricô. E disse mais, disse que a questão do aborto tem de ser tratado como um problema de saúde pública e não religioso. E é nesse ponto, exatamente nesse pontinho que

Atitudes que

Alguns dias atrás estava na Assembleia Legislativa do Paraná fazendo uma cobertura jornalística no plenário e, ao final da tarde, comecei a ficar com fome. Subi dois andares até a lanchonete da Assembleia, acompanhado de uma menina que estagia comigo. Estávamos conversando sobre o que aconteceu naquela sessão plenária, enquanto esperávamos nosso pedido. Papo vem, papo vai, e de repente, sentou-se à mesa ao nosso lado um homem de meia idade. Ele apresentava um semblante amigável. Depois de um certo tempo, começou a conversar. Falava algumas coisas sem nexo, mas acima de tudo, era uma pessoa muito comunicativa. Ao final da nossa refeição, estávamos falando sobre o tempo bonito que fazia fora da Casa do Povo. O homem para tentar entrar na conversa começou a emendar um papo sobre o Batman e Gotan City, que por sinal, só fazia sentido para ele. Mas, enfim, loucuras à parte, nos despedimos. Não disse a ele a respeito de nossa profissão e o que fazíamos ali na Assembleia. Apenas: “Tchau, tchau, até a próxima”. Ele nos respondeu: “Tenham uma boa campanha”. Nesse momento, para qualquer jornalista, ou projeto de jornalista, uma expressão como essa soa como

um grito em nossos ouvidos. Se ele está nos dando um “boa campanha” quer dizer que muita gente nesse lugar faz campanha. No entanto, a Assembleia Legislativa do Paraná tem a função pública de criar nossas leis, fiscalizar e atender aos interesses públicos da população. Se existe tanta gente dentro da Assembleia fazendo campanha eleitoral, onde fica a real função dos deputados estaduais? Tudo bem, eles adiantaram algumas sessões, para saírem antes para suas campanhas. Entretanto, até que ponto eles podem usar os gabinetes deles, na Assembleia, para fazer campanha, em dia de plenário? Nesses momentos, eles e suas equipes de gabinete têm a obrigação de fazer isso, e somente isso. No restante do tempo, poderiam fazer suas campanhas. Se for para fazer pela metade, que fechem as portas da Assembleia durante os meses de campanha eleitoral. Assim, como andaram especulando nas últimas semanas, que após o recesso do sete de setembro, poderiam prolongar a pausa, e o retorno ocorreria apenas após as eleições. Atitudes de deputados em campanha como essa, com certeza, não devem agradar aos eleitores.


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Curitiba, quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Página Literária

Drinking Drinking Drinking Again Again Again

... Ou não

Caroline Evelyn Todos os dias ao deitar ela pede para morrer. Imagina todas as situações. Já morreu um milhão de vezes, em todas as suas formas, em todos os seus mundos. Sente seu corpo sendo dilacerado, imagina os cortes, o sangue, a dor; maneiras indolores, ineficazes, assustadoras. Maneiras que não machuquem ninguém, maneiras de não sentir culpa, de não culpar. Quer morrer, evanescer, desaparecer, não existir, sumir. O delírio mais belo e inalcançável, jamais ter existido, e sem existir, não precisar sumir. O deleite do fim sem começo, de não precisar partir, de nunca ter estado. Todas as noites, ela permite que sua realidade e suas fantasias se misturem com seus sonhos, e no fim, é sempre abraçada pela escuridão, engolfada em uma onda negra que não tem fim. E no meio de toda a turbulência, ao ser devolvida pelas marés para a claridade, de nada sabe, de nada lembra. Um momento que não existiu, um buraco no tem-

po que não se permitiu acontecer. Volta como quem não foi, mais uma noite que não aconteceu e que a devolve a um dia que ela não deseja. Então em uma de suas idas, cheia de chegadas e partidas, em meio a noites recortadas pela impossibilidade de dormir sem fim, mais uma vez ela se permite abraçar, mais uma vez entrega-se à escuridão. Sem que seus pensamentos sombrios deem ideias aos seus sonhos, ela parte sem nada esperar. O mar, no entanto, não é sombrio, nem turvo e nem conturbado. Ele se mostra claro e real como a realidade jamais consegue ser. E nessa vida que nunca viu, nessa casa que nunca conheceu, ela é feliz como nunca havia sido. Na certeza da realidade de cada instante, ela vive, se permite, se joga. Sem duvidar de impossibilidades, sem perceber que jamais viveu nada antes, ela vive como se aquela vida fosse sua, um presente merecido que teve desde sempre e

Ser que nunca vai acabar. De repente um desconhecido, o medo, um susto, um revolver, ela vislumbra o fim. Com a bala, sente o calor, o sangue escorrendo, o corpo esmorecendo. Sem dor e com total consciência, se permite um pensamento “devia ser um sonho, não entendo porque isso não é um sonho”. Mas ela sente claramente, que não é. O sangue quente escorrendo não permite dúvidas. Enquanto ela perde o resto de consciência, os olhos vão se abrindo e fitando a total escuridão. A garganta trancada não permite o grito que rasga as entranhas, mas as lágrimas já afogaram o rosto. Em total desespero, percebe que a realidade voltou, e pela primeira vez o caminho se faz inverso, da luz para a escuridão. Sem saber em qual realidade está, ela já não mais pode escolher entre a morte da vida e a vida de morte.

Daniel Zanella Gay Talese, em Fama & Anonimato, transcreve uma reportagem que fez pra revista Esquire, em 1965, sobre o cotidiano de Frank Sinatra. O título é “Frank Sinatra Está Resfriado”. A reportagem conta o cataclisma que um resfriado gera no cantor, seus modos um tanto rudes com todos que o rodeiam, seu infindo mau humor e as compenetradas doses de uísque enquanto a voz não melhora. Gay Talese não entrevistou o cantor. Estou a ouvir Frank Sinatra. Gosto muito de uma canção chamada Drinking Again e o que ela tem de melancólica, trôpega, sarjeta e suicida. Hoje pouco trabalhei, não teve aula, o futebol na tevê estava contido de emoções, minha companheira me deu uma resposta um tanto lacônica sobre minhas letras de saudade e, subitamente, me deu uma vontade de se

embebedar sozinho. Levanto do sofá e espreito a minha carteira. Sei que ela pouco pode fazer por mim hoje. A solução terá que ser caseira. Ando até a cozinha e abro o armário. Vejo que há uma garrafinha de vidro de uma cachaça de maçã, cortesia de um amigo que achou a bebida horrível. A fruteira quase vazia é uma benção: tenho limões, os melhores limões. O açúcar? O açúcar acabou. Não faz mal. Tenho gelo. Impressiona-me em Gay Talese a dimensão humana que ele confere ao cantor, a revelação afetuosa e crítica de seus momentos de instabilidade e irritação, a consciência própria de grandeza, seu perfeccionismo salutar, os atos de generosidade e apreço ao álcool. Não sou Sinatra, mas também aprecio o álcool e seu potencial de revelar as profundezas. Hoje só preciso dormir. O dia sempre ameniza as questões.

Gay Talese

Divulgação


LONA 584 - 02/09/2010