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Curitiba, terça-feira, 15 de junho de 2010

ma de pagamento foi o próprio quadro, que por sinal valia mais de mil reais.” A recomendação para evitar um possível problema é a ponderação. Os jogos de azar podem ser uma fonte de lazer, mas com moderação. Se a pessoa já tem uma inclinação para dependência química, ansiedade e/ou depressão, é um sinal de alerta. Estudos já confirmaram que há uma forte ligação entre essas patologias e jogos de azar. O ideal – por mais que nem sempre seja possível - é que essas pesso-

nos e bingos clandestinos são descobertos e fechados pela polícia. Mesmo assim, o dependente sempre terá onde jogar. Pode ser em um cassino clandestino, em um bingo ou mesmo em uma mesa de jogo na casa de algum conhecido”, afirma. Araujo lembra ainda que, no Brasil, há pouco tempo os bingos foram proibidos, mas há outras modalidades de jogos de azar em pleno funcionamento, e com amparo legal. Um exemplo disso é a corrida de cavalos. ”Há diversos casos de pessoas que

arruinaram vidas e carreiras fazendo esse tipo de aposta. Lembrando também da aparentemente inocente loteria. Muitas pessoas são dependentes de jogos em casas lotéricas, mas isso ainda é pouco estudado pelo meio científico”. Marcos (nome fictício) é dono de um cassino clandestino, localizado no bairro Campo Comprido, em Curitiba, e afirma que pessoas dos mais diferentes tipos frequentam seu cassino. “Já apareceu até mesmo um pintor, desses famosos e a for-

Fabielle Rocha Cruz

Conquista

A sociedade diz que chamar alguns de “ex-drogados” é errado. O que deveria ser visto como errado não é apenas o fato de começar a se envolver com drogas de qualquer tipo, mas também a recusa de ajuda para as pessoas que são vítimas desta realidade. O fato é que uma pessoa dificilmente entra nesse mundo de substâncias ilícitas porque quer, bem como dificilmente sai por não ter ajuda. No caso de R. C., jovem de 21 anos, muitas coisas aconteceram até que as drogas tivessem tomado conta de tudo e suas vontades passassem a ser todas voltadas para comprá-las e consumi-las. “Sabe quando você olha uma vitrine cheia de doces e acha ali o seu preferido, fica torcendo para que tenha e vai comprá-lo? Foi assim que começou. Quando eu menos esperava, tava viciado. Era como se eu quisesse comer todo dia meu doce preferido”, conta ele, que se envolveu com as drogas aos 14 anos. Tão fácil foi para entrar, mas tão difícil foi para sair. O rapaz - que conta ter seguido esse caminho pelo fato de ver nas substâncias que usava a saída para seus problemas, sempre tendo a sensação de poder e de força – foi expulso de casa quando seus pais descobriram, aos 17 anos. Sem ter o que fazer, acabou indo morar na casa da namorada, que também vivia o mesmo drama. “Era triste. Nós ficávamos entocados em casa. Os pais dela não sabiam. Os meus sabiam e nem me que-

as fiquem longe de locais onde o jogo é praticado. O psicólogo também afirma que a cura definitiva é difícil, e o que pode acontecer é o controle do vicio. “É fundamental que o paciente reconheça o seu vício e que busque ajuda. Esse é o primeiro passo que pode ser dado”. Outro passo que pode ser dado é mudar o círculo de amizades que são ligadas ao jogo. Se não adiantar, a pessoa deve procurar uma ajuda especializada. O psicólogo é o profissional que irá trabalhar as an-

sem apoio Dependentes químicos têm dificuldade de sair das drogas pela falta de apoio e incentivo

riam mais como filho por isso. Eu lembro até hoje de quando saí pela porta de casa, com meu pai gritando tudo o que podia para mim”, disse o ex-dependente químico. Depois disso, aconteceu o

que não acontece com muita gente: ele e a namorada escolheram mudar. Ela, porque estava cansada de ter que vender quase tudo de casa para ter mais fonte de prazer; ele, porque queria reconquistar a família e provar

“Sabe quando você olha uma vitrine cheia de doces e acha ali o seu preferido, fica torcendo para que tenha e vai comprá-lo? Foi assim que começou. Quando eu menos esperava, tava viciado. Era como se eu quisesse comer todo dia meu doce preferido”. R.C., 21 anos

que ainda podia ter tudo o que queria sem precisar de outras coisas para obter, exceto seu próprio mérito. “O caso dele foi tão difícil quanto outros casos. Ele quis resolver o problema, mas a família não estava ali para dar apoio, os recursos financeiros eram poucos. Sem contar que a sociedade faz uma pressão sobre eles que não tem tamanho”, comenta o psicólogo Luciano Galhardos, que ainda comenta que muitos pacientes em recuperação desistem porque concluem que não serão capazes de voltar a viver normalmente com todas as barreiras existentes e im-

gústias e os aspectos emocionais do paciente. Se houver necessidade, será feito o encaminhamento para um médico psiquiatra, e se esse assim diagnosticar, irá prescrever medicamentos para auxiliar no tratamento. “Essa é uma recomendação comum no tratamento de outras dependências, uma vez que o paciente altera as amizades ligadas a ela, e também a sua rotina. Não é possível um tratamento sem que esses passos sejam dados pelo paciente”.

postas pela sociedade. Depois de um ano e três meses dentro de uma clínica de reabilitação, o jovem decidiu que iria falar com a família. Para a sua surpresa, quando contou que estava tentando largar os vícios, os pais lhe aceitaram de volta e começaram a incentivar. A mãe o acompanha nas consultas do psicólogo. Para Galhardos, o problema maior está nas pessoas que fazem parte do círculo social do drogado. “A primeira coisa que elas fazem é se afastar, e não dar apoio. Os pais, amigos e quem mais estiver disposto a ajudar e dar à essa pessoa uma chance de uma nova vida sem precisar desses ‘alimentos’ ruins, será bem vindo. Ela precisa disso, da força”, afirma. De tudo o que passou, o jovem conta que nunca achou que a tentação de voltar para o mundo das drogas fosse tão grande. Mesmo com a reabilitação, ele conta que às vezes sente vontade, mas lembra-se que tem alguém para lhe dar apoio. “O problema é que as pessoas só veem o lado ruim de um drogado. Eu quis sair por conta própria, mas se a minha namorada não tivesse bancado para mim, jamais teria conseguido. Tudo ficou melhor quando meus pais me apoiaram. Eu tive certeza que estava fazendo a coisa certa. Hoje, só tenho a agradecer a todos pela oportunidade e torcer para que a juventude não saia do caminho certo, como eu fiz. E ainda perdi o melhor da minha vida por isso”.

LONA 577 - 15/06/2010  

JORNAL LABORATÓRIO DO CURSO DE JORNALISMO DA UNIVERSIDADE POSITIVO

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