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Título: Teatro © José Maria Vieira Mendes e Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 2008 Todos os direitos reservados ISBN: 978-972-795-279-3

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JosĂŠ Maria Vieira Mendes

Teatro

Cotovia

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Índice

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Nota Introdutória D ois

homens

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T1

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Se

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A

o mundo não fosse assim minha mulher

O Avarento O nde A os

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ou

A

141 última festa

vamos morar

peixes

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NOTA INTR O D U T Ó R I A

Dos textos reunidos neste livro, apenas dois (O Avarento ou A última festa e Aos peixes) não tinham já sido publicados – os restantes foram­‑no nos “Livrinhos de Teatro” dos Artistas Unidos ou em Três peças breves dos Livros Cotovia. Mas se tal facto poderá desanimar quem possui as anteriores edições, confortem­‑se então estes com a possibilidade de aqui encontrarem modificações significativas. Isto acontece não apenas porque o autor ao reler também reescreve, mas ainda porque alguns dos textos (Se o mundo não fosse assim e Onde vamos morar) foram editados em data anterior aos espectáculos que os estrearam, sofrendo durante os ensaios alterações que não ficaram registadas no papel. De Dois homens (1998) a Aos peixes (2008) vão dez anos que, assim concentrados num volume, se espera que desenhem um percurso de progressiva aproximação da escrita ao teatro. Não um tea­ tro predefinido e sabido, de fronteiras distintas e inamovíveis, mas aquele que foge às respostas seguras e clarezas dogmáticas, teatro sem hierarquias, onde quem escreve é mais um. Curioso, ou até paradoxal, será que, deste modo fixados, letra em papel, com aparência de eternidade, os textos se voltem a afastar da condição efémera do espectáculo, aparecendo enquanto literatura para leitores. Como compensação, espero que agora juntos ecoem uns nos outros e ganhem o tempo que o ouvido não tem e que o olho conquista. Postos em livro, objecto concreto que se arruma e desarruma, que se rasga e sublinha, que se queima ou empapa, que até se embrulha e oferece, resta­‑me esperar que conquistem novas leituras que dêem continuidade ao que aqui vai dentro. E se esta forma não é capaz de perpetuar os espectáculos que estão por trás dos textos, tente­‑se pelo menos registar agora o reconhecimento por quem os trabalhou. Actores

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Produtores Associados, Artistas Unidos, Solveig Nordlund, Tá Safo e Teatro Praga andaram com eles às costas, provocaram­‑nos, leram­ ‑nos, discutiram­‑nos ou melhoraram­‑nos, tal como os espectadores que provaram ou desaprovaram a sua existência. José Maria Vieira Mendes, Novembro de 2008

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Dois homens A partir de textos de Franz Kafka

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Dois homens estreou na Fábrica Mundet a 3 de Outubro de 1998 e foi reposto em Março de 1999 no Teatro da Comuna. Um espectáculo de Luís Gaspar e José Maria Vieira Mendes, produzido pelos Artistas Unidos.

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I Pois lembro­‑me muito bem, lembro­‑me que foram dois (muito bem! muito bem!), foram dois homens que me prenderam, para cima e para baixo, para cima e para baixo… Sem qualquer justificação (claro), sem qualquer explicação (claro, claro), dois selvagens. Canalha! No fundo, os dois, os seis, a rapariga, a minha acusação, no fundo a minha acusação… Não, não, mantém­‑te quieto, quieto, eu respeito, sempre respeitei, preso a estas correias (quando chegará a noite?), a minha educação, canalha, a minha acusação, foram dois homens. Não, foram seis. Prenderam­‑me a estas correias, pousaram a chave no chão, prenderam­‑me como uma gaiola procura um pássaro, despediram­ ‑se com alguma educação, um deles inclinou­‑se numa vénia, o outro cuspiu para o chão, disseram, “A sentença está escrita, o castigo definido, a culpa comprovada”, disseram­‑me eles e eu respeito, eu sempre respeitei, nunca duvidem da culpa, jamais duvidem da culpa e das ordens e das sentenças e das cores e por aí fora, sim senhor. Porque eu sempre respeitei, eu respeito as ordens (muito bem, muito bem). Nós jamais podemos duvidar da culpa, jamais, porque a nossa culpa, a nossa culpa vem dos outros. Eu dirijo a minha acusação. Eu… no fundo… eu dirijo a minha acusação, (para cima e para baixo), no fundo a minha acusação vai para, no fundo, a minha acusação vai para um conjunto de pessoas (pessoas, sempre pessoas). Canalha! Aos meus pais e a outros familiares, a alguns amigos da casa (canalha), ao meu pai eu dirijo esta acusação, a uma certa cozinheira que durante todo um ano me levou à escola, a uma cozinheira,

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a vários escritores, a um monte de professores, a um inspector escolar (a minha educação prejudicou­‑me muito, em vários aspectos), a umas senhoras no parque da cidade, a alguns transeuntes vagarosos, a um barbeiro, um pedinte, um professor de natação (eu dirijo esta acusação contra um conjunto de pessoas), uma certa cozinheira, umas pessoas que encontrei uma só vez por acaso na rua, um cobrador de impostos, o médico de família, um vendedor de bilhetes (canalha), uma vizinha, duas vizinhas, o porteiro da casa de um amigo, um jardineiro, um barbeiro e alguns escritores, o meu tio, um comerciante de… um comerciante de ratos, um comerciante de ratos, ratos… Eu lembro­‑me, eu lembro­‑me com toda a perfeição. Eu não me esqueço, aliás, eu nunca me esqueci. Canalha. Fizemos um buraco na areia, onde nos sentíamos muito confortáveis. Enrolávamo­‑nos todos dentro do buraco e o meu pai, à noite, cobria o buraco com troncos de árvores e espalhava umas ervas por cima e assim ficávamos protegidos contra as tempestades e os animais selvagens. Eu lembro­‑me. Espera, não, sabes o que és?, sabes? Lembro­‑me, sim senhor, lembro­‑me que… os ratos, os ratos, espera, pois, lembro­ ‑me, sim, sim, eu lembro­‑me tão bem, lembro­‑me, que o buraco era demasiado pequeno para mim e para os meus irmãos. Como uma gaiola. Mas sabe que se não ficássemos tão juntos uns dos outros durante a noite, teríamos medo, medo das tempestades e dos animais selvagens, medo do escuro, percebe, medo dos animais selvagens. Quando ficava escuro por baixo dos ramos de árvores, gritávamos “Paai!”, gritávamos nós e ele, “Paai!”, e ele então, “Paai!”, víamos ele, víamos os pés dele a escorregar para o nosso lado pelo escuro e ele deitava­‑se ao nosso lado e dava­‑nos pancadinhas nas costas, assim, uma pancadinha. E a pancadinha acalmava­‑nos, apesar de se espalharem uns ruídos, ruídos pequeninos das portas que se abrem e fecham, das tempestades, dos animais selvagens, das correias, lembro­‑me de todos os ruídos, sabe, lembro­‑me das portas, das insónias, do vizinho a cozinhar e por aí fora. Sim senhor. Mas então não é que uma das noites, lembro­‑me eu, umas das noites ouvi aproximar­‑se, primeiro longe, depois cada vez mais

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perto, qualquer coisa como um animal, cada vez mais perto, uma grande massa com um ruído que se fortificava e se tornava regular com pausas de pequenos segundos, sabe, como se fosse uma manada de… de… de, sei lá, de bisontes corcundas ou de chimpanzés ou gorilas ou uma manada de papéis a carregarem letras ou uma espécie de chacais subterrâneos, uma manada a engolir terra, uma manada de… de… ratos, ratos gigantes inspirando e expirando, inspirando e expirando, inspirando e expirando… Eu não me podia mexer com medo de acordar os meus irmãos e o meu pai, porque se acordasse o meu pai, porque então era: sempre a queixares­‑te, só me dás trabalho, sempre de lágrimas nos olhos como se não te apercebesses do luxo em que vives, porque se soubesses aquilo por que eu passei (se eu passasse), se vivesses aquilo que eu vivi, então sim, então era ver. (Se eu vivesse). O meu pai, o teu avô, batia­‑me com o cinto só porque eu chegava de mãos vazias ao fim da tarde. Sacrifiquei tudo por ti e pelos teus irmãos. Nunca vos faltou nada. Um inocente, uma criança ingénua, mas mais do que ingénuo, sabes o que és? Sabes? Um homem diabólico. Um homem diabólico. Alguma vez me ouviste queixar? alguma vez me viste desanimar? alguma vez me ouviste chorar? alguma vez me viste recuar? alguma vez me viste assustado? alguma vez?! Ãh?! Cala­‑te! (“Paai!”) Cala­‑te! (“Paai!”) Deixa­‑me! (“Paai!”) Larguem­‑me! (“Paai!”). Cinco homens que me agarram, atrás deles um sexto levanta a mão para me bater, berrei “Deixem­‑me!”, berrei “Deixem­‑me!”, berrei eu e rodei. Fi­‑los cair a todos, senti a força de uma lei qualquer, rodei que nem um pião e vi todos os homens a voarem para trás com os braços erguidos. Mas percebi, por uma lei qualquer, que eles se iriam lançar de novo sobre mim, uma lei qualquer, e então fugi, fugi como pude, como posso, agora, preso, preso a estas correias, preso. Espero a máquina que é para cima e para baixo. Nem sequer me deixaram comer. Já nem dormir descansado posso, tenho fome, a máquina, tenho fome, eram seis homens (eram dois), sem qualquer justificação, seis homens (dois), cuidado com a culpa, muito bem, mas cuidado, cuidado com a culpa, tenho fome,

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medo, medo da fome, medo do sono, medo, medo, medo do medo do medo do medo do medo do…

II O meu vizinho do quarto ao lado, canalha, todas as noites vem lutar comigo, canalha. Nunca falei com ele, mal nos conhecemos, mas… todas as noites. Lançamos apenas algumas exclamações, mas… todas as noites. Ele diz, “Ora bem”, e eu digo, “Canalha”, e ele então diz, “Tinhoso”, e eu digo, “Canalha”, e ele, “Rato! rato!”, e eu, “Canalha! canalha!”, e geralmente, quando ele já está à porta de mão levantada para se despedir e eu me estou a sentar de novo na minha cadeira, ele então dá um salto para trás e sem que eu tenha tempo de reagir ele empurra­‑me com tal força que me atira ao chão como uma manada de… de… de, sei lá, de bisontes corcundas ou uma manada de papéis a carregarem letras ou uma espécie de chacais subterrâneos ou como uma certa cozinheira que durante todo um ano me levou à escola, como, não sei, como qualquer coisa, atira­ ‑me para o fundo do buraco e eles abrem caminho por entre a terra e até um abutre, que voava sobre o nosso buraco, que voava cada vez mais baixo, pousou nos troncos de madeira por cima das nossas cabeças e olhou­‑vos com um… com um sorriso. Estamos protegidos? Estão protegidos? Estão? Eu vejo­‑lhe o sorriso pelo bico (lembro­‑me do sorriso, lembro­ ‑me bastante bem), um sorriso pelo bico, que sorriso. Estão protegidos? Que lindo sorriso… Muito bem. Mas estão protegidos? Estão? Que bem… Que sorriso… Não, não, mantém­‑te quieto e aguenta, aguenta a terra que treme sob os meus pés e aguenta que eles inspiram e expiram, mantém­ ‑te, eu mantenho­‑me quieto, quieto (muito bem), sem queixas (que bem), ouço­‑lhes as patas rilhando a terra, mas… estão protegidos?

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Estão? Ouve­‑se um ruído que não é só mãos ou patas ou bicos escavando (o abutre sorri), mas sons de conversa: “Ora bem”, digo eu, e ele, “Vamos a isso”, e eu, “Canalha”, e ele, “Tinhoso”, e eu, “Canalha”, e ele, “Rato! rato!”, e eu, “Canalha! canalha!” e ele, “Os polietilenos de baixa pressão são formados por cadeias muito pouco ramificadas”, diz ele, e é claro que eu digo, “Canalha, canalha, canalha, canalha”, isto para não dizer pior (olha… bronco ou borrego ou cornudo ou cabrão ou acéfalo palhouco ou animal asnático e bordalengo e filho de merda purpurina e apedeuta e bolha de sangue e…). E então uma pata furou a terra! Sinto­‑os arfarem aos meus pés (tapa­‑te, tapa­‑te) e o meu pai, apesar da sua força, apesar do seu corpo enorme que me intimidava, quando na piscina nos despíamos e eu me sentia tão pequeno e magro ao lado daquele tronco largo… os braços seguros… pequeno e magro… O meu pai, seguro e largo, é incapaz de se defender a si e a nós dos monstros que nos assaltam. Mais uma pata grossa entra pela nossa toca dentro, os meus irmãos conseguem escapar, os meus irmãos conseguem, mas, mas eu não. O meu pai esqueceu­‑se de mim no buraco!! Eu chamo­‑o, eu grito, eu estendo­‑lhe a mão, eu não consigo, eu chamo­‑o, eu estendo­‑lhe a mão mas ele luta com o abutre que não o larga, eu grito “Paaaai”, eu chamo­‑o “Paai!”, mas ele não me ajuda a subir, ele não me ouve ou finge não me ouvir ou evita ouvir­ ‑me… E eu esforço­‑me por trepar sozinho. Mas as minhas pernas escorregam pela terra, para baixo, eu chamo­‑o, “Paai”, os bichos invadiram o nosso buraco, “Paai!”, as minhas mãos arranham­‑se na urze, na máquina, as raízes não resistem ao meu peso e eu volto ao fundo, pai, ao fundo. E os animais e as patas e a respiração das bestas, as garras e as tempestades e as manadas e os papéis e a máquina e o sorriso e as asas e a fome e eu e eu e eu e eu e eu e eu e eu e eu e eu e eu…… O começo da doença. A infelicidade do eterno começo, a falta de ilusão de que tudo é apenas um começo, sempre e só o começo.

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