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RUY DUARTE DE CARVALHO (n. 1941), angolano de origem portuguesa, antropólogo doutorado pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, Paris. Poeta e ficcionista é autor de, entre outras obras, Os Papéis do Inglês (narrativa, 2000), Observação Directa (poesia, 2000), Como se o mundo não tivesse Leste (contos, [1977]2003), Vou lá visitar pastores (narrativa, 1999), Actas da Maianga – Dizer da(s) guerra(s) em Angola (ensaio, 2003), Paisagens propícias (narrativa, 2005) e Lavra. Poesia reunida 1970/2000 (2006), todos publicados nos Livros Cotovia.
QUINTAL METAFÍSICO
Título: Quintal Metafísico © Ruy Duarte de Carvalho e Edições Cotovia, Lda., Lisboa 2006 ISBN 972-795-163-5
Ruy Duarte de Carvalho
Quintal MetafĂsico
Cotovia
…
tem um lugar, dizia eu, tem um
ponto no mapa do Brasil, tem um vértice que é onde os Estados de Goiás, de Minas Gerais e da Bahia se encontram, e o Distrito Federal é mesmo ao lado. Aí, sim, gostaria de ir… é lá que se passa muita da acção do Grande Sertão: Veredas… e depois descer para o alto São Francisco, que é o resto das paisagens de 7
Guimarães Rosa… e ao baixo São Francisco, podendo, ia também… porque encosta aos Os Sertões euclidianos… sou estrangeiro aqui e nada me impede de incorrer no anacronismo de querer ir ver Guimarães Rosa e Euclides de perto… Era isto que eu dizia a duas senhoras paulistanas, sentado à mesa delas numa soberba fazenda de café do interior paulista… Dizia sim, e assim, mas quase tudo, já, a pensar noutra coisa… porque daquela exacta maneira quase sempre referida para descrever situações semelhantes, talvez porque não há outra, é que fui agarrado por certa ideia e envolvido nu8
ma bolha de temporalidade e de velocidade de pensamento dessas que não têm nada a ver com as durações comuns. Durante os escassos segundos em que dizia esse pouco que disse, eu não estava vendo já nem as senhoras que tinha à minha frente e nem a sala muito extensa e iluminada, de pé direito altíssimo e de um arranjo que restaurava uma construção por certo muito antiga até, mas muito ao gosto da arquitectura e da decoração restauratórias de agora. Pensava noutra sala de jantar, tão extensa e por certo tão antiga como esta, porém numa fazenda então praticamente abandonada pela proprietária, ausente durante mais de duas 9
décadas, em França. Ela estaria sentada agora ali também na companhia de duas filhas suas, nascidas já em Paris, e de alguém verdadeiramente ilustre, Cendrars, Blaise Cendrars, o escritor, o poeta amputado pela primeira guerra mundial e aventureiro, brilhante e de cigarro, sempre, no canto esquerdo da boca, talvez mesmo até enquanto agora ali jantava… e à volta havia mulheres a servi-los, negras e mulatas, algumas nascidas ainda no tempo da escravatura. Porque tudo isso se passava nos anos vinte do século passado, depois de uma viagem transatlântica que tinham feito juntos, com 10
início em Bolonha e apontada ao porto cafeeiro de Santos. * Estou a escrever, agora, alguns meses depois de Cendrars me ter vindo à cabeça enquanto jantava com aquelas senhoras numa fazenda do interior paulista. É evidente que andei entretanto a informar-me sobre Cendrars no Brasil. Naquele momento talvez soubesse só, ou sobretudo me ocorresse apenas de imediato — porque alguma coisa vem dita na introdução do D’Oultremer à Indigo que trazia na algibeira — que Cen11
drars, no Brasil, tinha estado em fazendas de café e que era aí que situava uma boa parte daquilo que o Brasil o levaria a escrever depois. Esteve algumas vezes em propriedades de café da família Prado, nomeadamente nas fazendas São Martinho e Santa Veridiana, e foi aí que utilizou a seu bel-prazer o Marmon, viatura de luxo, que entra na tal estória das senhoras, e um pequeno Ford que Paulo Prado colocava à sua inteira disposição (Cendrars era um apaixonado por viaturas automóveis e num período mais ou menos próspero da sua vida chegou mesmo a ter um Alfa Romeo de desporto com a cabina desenhada por Georges 12
Braque). Mas esteve também, e nunca deixou de referir isso como uma das glórias da sua vida, numa outra fazenda de café à medida exacta do seu desvario imaginativo. Aí teria dormido, em 1886, o Imperador D. Pedro II, e imperava nela agora, ou veio a imperar na ficção de Blaise Cendrars, um mais que mítico fazendeiro astrónomo, obstinada e definitivamente apaixonado por uma distante, quiçá jamais divisada, Sarah Bernhard, a divina. Cendrars situa essa estória, a das senhoras vindas com ele de Paris, numa fazenda então ensombrada por passados obscuros, e roída por desgostos fundos, a 13
desdobrar-se por dezenas de milhares de hectares de cafeeiros sem seiva, sufocados pelo cupim, arbustos, ervas daninhas e trepadeiras, e queimados pela geada dos nevoeiros que a madrugada congelava, vindos de um lago ao lado, olho de sáurio, na estória de Cendrars, injectado e feroz, onde tudo quanto caía, até as nuvens do céu e a paisagem invertida — e o próprio coração do narrador, doente de amores sem esperança por uma das senhoras mais novas, dona Maria — era para aí apodrecer e servir de festim a jacarés… Não era o caso desta fazenda onde eu agora me achava e me deixava alhear 14
assim, possuído pelas minhas divagações, fulminantes, rápidas, ao ritmo desse tempo alterado que é o do desenrolar de certas percepções, e de que aliás me iria em breve ver recuperado pela conversa efectiva. Esta fazenda, onde eu agora estava, produz muito, e um muito valorizado café, servido como privilégio nos melhores restaurantes de São Paulo… Esta será antes uma fazenda como a do Morro Azul, onde Cendrars situou o seu fazendeiro sideral, milhões e milhões de pequenos arbustos uniformemente verdes, do mesmo tamanho e idade, alinhados a perder de vista, cada planta tratada, cuidada, abrigada, nu15
merada… Para quê procurar dizer o mesmo de outra maneira se dito assim, como Cendrars falou há mais de oitenta anos, soa tão bem?… * …tem um lugar, dizia eu então, tem um ponto no mapa do Brasil, tem um vértice que é onde os Estados de Goiás, de Minas Gerais e da Bahia se juntam, e o Distrito Federal é mesmo ao lado, aí sim, gostaria de ir… é lá que se passa muita da acção do Grande Sertão : Veredas… e depois descer daí para o alto São Francisco, que é o resto das paisa16
gens de Guimarães Rosa… e ao baixo São Francisco, podendo, eu ia também… porque encosta aos Os Sertões euclidianos… sou estrangeiro aqui, nada me impede de incorrer no anacronismo de querer ir ver, de perto, Guimarães Rosa e Euclides… — E ao médio São Francisco, não? Richard Burton também andou por lá…, pergunta-me uma das senhoras, a mãe, e suspende-se a olhar-me nos olhos. Richard Burton?… …Sir Richard Burton, I presume — respondo eu sus17
pendendo, pela minha parte, o manuseio dos talheres —, o próprio Sir Richard Burton, sim, o da descoberta das nascentes do Nilo, o da viagem clandestina a Meca, tradutor das Mil e Uma Noites e dos Lusíadas, of course… andou pela Índia, por Goa, Costa do Malabar, pela Pérsia, Egipto, Harrar, Crimeia, Zanzibar, África Central, Fernando Pó, Camarões, Congo, Daomé, pradaria norte-americana, Salt Lake City, Paraguai, Síria, Trieste… aventureiro e homem de letras, soldado, espião e diplomata… que escreveu dúzias de crónicas de viagem e dezenas de livros, que foi etnólogo, conferencista e tradutor, fluente em 18
vinte e nove línguas. E que praticava, para além disso, hipnotismo e poesia, entre outras coisas… A senhora suspende a suspensão e olha para a filha… Não confundi com o actor… Passei na primeira prova…: — Pois também esse desceu o Rio das Velhas, de Sabará a Pirapora, e o São Francisco daí até à foz… E tudo quanto escreveu, dessa viagem, é sempre a dizer mal até que na Barra do Rio Grande, já muito adiantado no Estado da Bahia, entre a antiga cachoeira do Bom Jardim e Xique-Xique, encontrou um parente 19
nosso que lhe mostrou a sua colecção de pedras… Richard Francis Burton — que nasceu na Inglaterra em 1821, viveu no Brasil entre 1865 e 1868 e veio a morrer, depois de ter sido feito sir, em Trieste com 79 anos — deixou mais de quarenta e três narrativas de viagem, e no fim da vida, em Trieste, trabalhava em onze livros eróticos ao mesmo tempo. E no entanto, enquanto esteve no Brasil, Burton não publicou nada, ou quase nada… Traduziu bastante (durante a vida toda Burton escreveu ao ritmo 20
de mil páginas por ano e nunca passou dois anos sem publicar um livro) mas, durante os anos do Brasil, artigos poucos e livros nenhum… O tempo de Burton no Brasil é visto pelos seus biógrafos como o da travessia de uma espécie de espesso limbo… É um tempo, dizem eles, em que Burton arrasta um penoso sentimento de derrota. Coisas a ver, sem dúvida, com lances recentes ligados à busca das fontes do Nilo. John Hanning Speke, o seu companheiro, subalterno e rival na corrida em que se tinham empenhado juntos para ver se de uma vez por todas assinalavam as nascentes do Nilo (era uma questão que desde Alexandre e Cé21
sar mobilizava o imaginário e o espírito inventivo de todos os que se implicavam com a África), John Hanning Speke tinha sido encontrado morto, estando já os dois na Inglaterra depois dessa expedição ter acabado, vítima de suicídio ou de um assaz inexplicável acidente de caça, durante uma reunião, nos arredores de Londres, da associação britânica para o progresso da ciência em que Burton e a mulher também participavam. Já para o fim dessa viagem exploratória acometida por ambos pelas grandes plagas da África Central, é que Burton, por fadiga, doença, abatimento, teimosia 22
ou birra, ou simplesmente para se livrar durante alguns dias da presença de Speke, de quem já estava farto, não atende às insistências deste, sempre até aí o mais frágil, indeciso e incapaz, para que se esforcem um pouco mais até alcançar uma imensa vastidão de águas a dezasseis ridículos dias de marcha, segundo os guias árabes que levavam. Burton não quer ir mas Speke decide ainda assim avançar sozinho, atinge esse mar interior que é o lago Nyanza, dá-lhe o nome de lago Vitória, e três dias depois regressa ao acampamento com a convicção absoluta, apoiada em medições altimétricas, de ter de facto acabado por achar as verda23
deiras e efectivas nascentes do Nilo. Voltam juntos à costa e Speke não perde tempo, agarra o primeiro navio para Londres. Burton, sempre mal disposto e ainda doente, parece não ter pressa nenhuma e prefere prolongar a sua convalescença em Adem. Ele lá sabia das suas prioridades e só tomará o mesmo rumo meses depois, tempo suficiente para que, quando por sua vez atinge Londres, já conste como válida a hipótese de Speke ter chegado de facto às cabeceiras do Nilo e Burton não. Depois disso e de um tempo em que esteve na Ilha de Fernando Pó como 24
cônsul e aproveitou para espreitar de novo para dentro de África, a partir do rio Congo e do reino do Daomé, é que foi nomeado para cônsul também no porto de Santos. * A mulher que o acompanha, odeia logo Santos e queixa-se à mãe, a quem escrevia com assiduidade, que o clima ali é atroz, as pessoas avacalhadas, os odores nauseabundos, que não dá para passear sem se afundar em pântanos. E os negros, tal como a bicharada e a comida, é tudo, segundo a sua despa25
chada expressão, da mesma infecta e desprezível qualidade. Adoece mesmo, por fim, e acabam por ir morar para São Paulo. Burton partilha vagamente o seu tempo entre Santos e São Paulo, manda para Londres relatórios sobre a cultura do algodão, a geografia do país e o comércio em geral, e traduz, traduz muito. Quando Isabel deixar o Brasil em julho de 1868, levará consigo vários manuscritos, entre eles duas traduções em inglês de textos brasileiros (uma feita por ela, Iracema, de Alencar, a outra feita pelos dois, Manuel de Moraes, a chronicle of the seventeenth century). Mais os cadernos de onde Burton irá extrair o seu Lacerda’s 26
journey to Cazembe, que é a história das aventuras de um explorador português (paulista aliás, parece) na África Central, mais a introdução para a tradução feita por Albert Tootal da narrativa do alemão Hans Staden, que foi cativo de índios do Brasil entre 1547-55, e muito do que Burton já tinha trabalhado sobre a obra de Camões, que foi traduzindo ao longo de mais de vinte anos e cuja vida tinha como modelo. O seu interesse por diamantes, entretanto, atraía-o cada vez com maior frequência ao interior do Brasil. E sempre com falta de dinheiro, especulava forte 27
sobre as cotações do algodão, do café, do chumbo, do ouro e dos diamantes. Escapa por isso, por um triz, de ser demitido das suas funções de consul. Começa então a dar-se à bebida e após dezoito meses de funções pede três de licença para ir viajar por Minas Gerais. Argumenta que quer estudar os recursos mineiros e determinar qual seria o melhor traçado para uma linha férrea, mas tem é saudades de abrir caminhos e não resiste à oportunidade de explorar o curso de um grande rio, o São Francisco. Cai doente, na volta do São Francisco, e é a partir daí que vai deixar-se afun28
dar num dos maiores buracos da sua vida. Declaram-lhe uma hepatite que vem instalar-se sobre um quadro já grave de afectação pulmonar. Beira a morte entre sangrias, esculápios e água benta da capela que Isabel montou em casa, em São Paulo. Emagrece e os seus cabelos embranquecem. Com 47 anos parece que tem 60. Decide então dar por findo o seu consulado no Brasil. * As senhoras recolhem. As viagens, a de São Paulo até aqui e a do próprio jantar, foram longas e tensas pelos asfaltos 29
das auto-estradas e por curvas e picadas da memória. Parti apenas um copo, desta vez, não parti a loiça toda, como há quem tema que me aconteça sempre. O pessoal doméstico já recolheu faz tempo e há um quintal imenso, cercado pelos pavilhões laterais da casa, com um muro ao fundo, um muro alto, de que só vejo lances do topo porque a noite brilha é em cima no céu, luz em baixo é só a que cintila do fundo da piscina e a de lâmpadas escondidas nas folhagens dos cantos. Posso fumar à vontade, agora que estou sozinho, sem constrangimentos de cortesia, nestes tempos de campanha antitabagística generalizada que o Brasil, 30
tão vizinho da América, vai adoptando com ostentação e brio e se insinua por toda a parte, mesmo em salões assim, onde Cendrars terá ufanamente fumado desses portentosos charutos de São Félix a que em tal época o Brasil terá sem dúvida recorrido também para brandir e para espantar o mundo de então. E fuma-se tanto, no entanto, por toda a parte aqui. E de tudo, a bem dizer, por detrás dos biombos do decoro formal… Posso enfim agora aqui, neste quintal que declaro metafísico, basear a excitação no labirinto pessoal das minhas próprias derivas. 31
Se coisas destas ditas assim e agora, com a evocação de Blaise Cendrars a trabalhar-me ainda a cabeça, não estivessem condenadas a prevenir-me contra banalidades toscas quando as confronto a lances do que ele mesmo diz, ou com vagas hipóteses do que então diria numa situação como é esta (mas cada um, afinal, imagina como e até onde pode e à sua própria medida…), a luz da piscina em frente, que vem de um fundo azul e ondula em pregas mansas na superfície limpa de uma água espessa, haveria de ser um avantajado olho, não de sáurio e putrescente como o do lago de Cendrars, antes farol ciclópico que ao invés de as 32
ver iluminasse a lua e as estrelas… E ouso mais imaginar, ali à mão, um desses dispositivos de controle para accionar e pôr a deslizar, sobre os rebordos da piscina, uma tela azul que avançasse e recuasse, fechando e abrindo, como uma pálpebra… O rasgo da minha idéia seria o da surpresa, do inquietante choque, de ver, de observar, em função do movimento da pálpebra, a luz da lua e das estrelas, em cima, a se extinguir ou a realuminar-se…
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* Terá sido num quintal metafísico assim que Cendrars urdiu a ideia da sua metafísica do café, titulo de um artigo que publicou em O Jornal de 15 de outubro de 1927? Considerado por alguns como um dos documentos mais expressivos da euforia cafeeira paulista, exalta a vontade, a determinação e a inteligência do espírito genericamente humano empenhado em vencer, com ordem e harmonia, a força da natureza selvagem. Soava melhor então do que soa agora, mas suspeito que ninguém, ainda hoje, pode ficar indiferente ao espectáculo das 34
geometrias cafeeiras paulistas, milhões e milhões de pés de café plantados em quicôncio e a descoberto. É de facto um mar esmeralda, um oceano profundo, sombrio e petrificado. De pendências metafísicas tenho eu também andado agora acometido, tentado por refúgios metafísicos ou pela metafísica como refúgio. E é assim que de transposição em transposição, de preocupação em ruminação, de ruminação para ideia, também aqui me vejo à beira de enredar-me nessa questão maior, por ser assim mesmo e ter neste momento, por simpatia, muito boas razões para de35
ter-me nela, que é a de saber o que mais há de temer quem se vê perante o escândalo de ter a sua morte agendada: se é o desconhecido ou o nada… Nem cedo também à grata tentação de escrever um texto para um filme que haveria de chamar-se O Anjo Filmado no Fim do Mundo, título sem dúvida tributário de O Fim do Mundo Filmado pelo Anjo Nossa Senhora, escrito este por Cendrars, evidentemente, mas de que me tinha lembrado em Paris precisamente antes de rumar a São Paulo mas sem saber que havia de me deter nele agora aqui, quando cruzei com um anjo e o segui, fascinado, durante não mais do que cinco ou 36
dez minutos pelas galerias dos impressionistas do museu do Quai d’Orsay, acabando por fugir depois para a rua, sabendo enfim que na vida a gente cruza um Anjo é quando, nem que seja só durante um breve instante, fica a saber como agir na altura. Outras estórias. Mas posto agora a debater-me com as figuras de Cendrars e de sir Richard Burton, após este jantar, acomete-me o aperto de um outro nó que me tem andado a deter a ideia. É uma vertigem de datas e de idades. Nunca me senti muito atraído nem pela literatura nem pela história da geração imediatamente anterior 37
à minha. Estarei mesmo tentado a admitir que com o tempo, com a idade, qualquer um acabará por ser levado a admitir que seu, também, terá sido afinal o tempo do seu próprio pai. Daqui a cem anos, para o mundo, os meus filhos e eu teremos sido, pura e simplesmente, contemporâneos. Teremos vivido, grosso modo, o mesmo tempo. Conheci um bisavô meu, de quem me lembro, que morreu com 96 anos de idade, tinha eu 5, e terá nascido em 1850. Se a mesma coisa tivesse acontecido a esse meu bisavô, se ele também tivesse tido um bisavô, etc, eu teria sido interveniente de uma, como chamar-lhe… de uma arti38
culação de memórias vivas que remeteria a 1754… pura pirotecnia… uma cosmoagonia… Mas não me larga… Olhando agora, 2005, daqui, do interior de São Paulo, para o tempo da chegada de Cendrars ao Brasil, 1924 (que foi o ano, aliás, em que a minha mãe nasceu), faz 81 anos… Sentir-se-ia então Cendrars tão próximo de 1843 como nós, como eu me sinto neste momento distante de 1924? Não, Cendrars não tinha nessa altura a mesma idade que eu tenho agora… Tenho antes a idade que Cendrars viria a ter (consolação oportuna) no princípio dos anos 50, quando andavam a vir a público livros que dariam prova 39
da recuperação do seu vigor criativo, um tanto por baixo, ao que consta, quando veio pela primeira vez ao Brasil, a fugir do cinema e ao encontro dos modernistas… Cendrars nasceu em 1887, tinha então Sir Richard Burton 66 anos de idade… Que é quando, segundo uma tipologia do próprio Burton, só resta, a quem não se precata, fazer o luto da sua juventude, depois de, cinquentão, ‘quando os dentes escurecem e os cabelos embranquecem’, ter passado pela idade em que se lamenta o tempo gasto e as oportunidades que se perderam e desbarataram. Dos quarenta aos cinquenta, diz ele, um homem reconhece a sua própria 40
imensa ignorância, depois de ter achado, entre os vinte e os trinta, que sabia tudo e não tinha mais nada para aprender. Aos trinta, com sorte e durante dez anos, poderá ter até chegado a pensar que é possível viver com confiança e fé na vida. Mas corre então o risco de deixar possuir-se por essa exaltação e mesmo com calma é aproveitar porque também não dura. A consciência de ver-se condenado a permanecer um consumado ignorante, que se lhe impõe a partir dos quarenta, pode passar a revelar-se em tudo, inclusive numa constante, surpreendente e sempre serôdia e arrasadora surpresa perante as renovadas evidên41
cias, cada vez mais irrefutáveis, daquilo que nunca quis admitir antes. Isto acrescento eu. E dou-me por fim conta, e não era sem tempo, do que está de facto a acontecer-me… E por que não ? Um livro a insinuar-se? E por que não? Um livro mais de “viagem”, mas que também não fosse um desses registos paraliterários de errâncias e de evasões a puxar para o sério e para a auto-ajuda. Que remetesse para os domínios em que me movo mas admitisse derivas. Tentasse evitar aquilo que também poderia ser, se a intenção fosse essa: a mais vigorosa 42
das penetrações analíticas, uma orgásmica exposição de evidências e de equações, um desafio algébrico à plácida aritmética do senso comum. Ensaiasse tão-só, talvez, dizer do Brasil. A ver, a olhar e a ler, da maneira como me cabe e se me impõe, sem deixar de garantir espaço à condição pessoal de órfão parricida de impérios, à cor da pele, mas que ainda assim, e a partir daí, tivesse em conta que o Brasil tem sido até agora, e desde o início da expansão europeia, terreno privilegiado para observadores e exploradores europeus, ou originários do hemisfério norte, e para brasileiros, naturalmente, mas talvez não tanto para quem como eu esti43
vesse a vir de outro ponto do hemisfério sul. * Livros, sertões, viagens e famílias… Um programa completo. Fazer do São Francisco um itinerário de observações e de leituras, de acercas e de a-propósitos, uma articulação galopante de casos e comentários, de ideias e de palavras. Razões bastantes para fazer um livro e aceitar um convite. Conquanto não perca o pé… A conferência que Cendrars fez em São Paulo durante a sua primeira estadia aqui, foi promovida, consta, para 44
ver se lhe arranjavam maneira de ganhar uns cobres. Por sugestão do próprio Paulo Prado, seu anfitrião, é que as entradas foram pagas e o dinheiro entregue ao conferencista. Paulo Prado já estava ficando sem jeito de lhe dar dinheiro a toda a hora para as suas pequenas despesas. E a própria mulher de Paulo Prado viria mais tarde a contar que um dia, quando num restaurante, em Paris, Cendrars achou que era a hora de oferecer-lhe uma rosa, até para isso cravou, à sua frente, duzentos francos ao marido dela e mecenas dele.
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Acabou de imprimir-se em Maio de 2006 na Tipografia Guerra (Viseu) numa tiragem de 1500 exemplares. DEPÓSITO LEGAL
242383/06