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AMAR Nテグ ACABA


Título: Amar não acaba 1.a edição: Setembro de 2004 2.a edição: Dezembro de 2004 3.a edição: Março de 2005 4.a edição: Junho de 2005 © Frederico Lourenço e Edições Cotovia, Lda., Lisboa, 2004 ISBN 972-795-102-3


Frederico Lourenço

Amar não acaba 5.a edição

Cotovia


Índice

1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13.

Embarque para Citera O jovem hindu Tlim O perdão da puberdade Fluviatilidades do rio Alva Abendempfindung Sem vagar para a escola Wagnerianismo Miguel Lyzarro e Pedro Romeiras Mara Zampieri Noé Fiordiligi Ao encontro do que me espera

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p. 13 21 29 39 49 61 71 77 83 89 93 101 109


Desenho de Richard de Luchi


Amar não acaba. É como se o mundo estivesse à minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera. Clarice Lispector, A Descoberta do Mundo


Embarque para Citera

À medida que o tempo passa, a vida parece-me ir adquirindo os contornos esfumados do Embarque para Citera pintado por Watteau, paisagem feérica povoada de figuras irreais à espera do amor, como que saídas das páginas de um pequeno Saint-Simon do sentimento, cronista da emoção e de mim próprio. A primeira vez que me apercebi da palavra “sexualidade” foi pouco antes de fazer doze anos, num livro em inglês sobre sexo que pertencia ao meu avô materno (secreto coleccionador de bibliografia dessa índole). A leitura trouxe revelação atrás de revelação. Houve coisas que me repugnaram, outras que me seduziram. E houve aquele capítulo em especial que teve um efeito fulminante na minha consciência. De um momento para o outro, foi descobrir o meu lugar no mundo; foi desfazer o ponto de interrogação invisível que pairava dentro da minha cabeça, sem que eu soubesse por que razão lá estava ou sobre que realidade, exactamente, lançava esse enigmático espectro da dúvida. Nesse dia, fiquei a saber quem era. A sensação foi menos de 13


espanto do que de alívio. Finalmente tudo fazia sentido: eu próprio fazia sentido. Não ruiu o universo, não fiquei a tremer, não senti medo de encarar as pessoas. Daí a poucos minutos já repusera o livro no “mirante” e já fora lavar as mãos para me sentar à mesa na casa de jantar dos meus avós. Ninguém deu por nada e o almoço passou-se na maior das normalidades — embora na minha cabeça tudo se transformasse a alta velocidade. É que muita coisa desagradável, que antes não fazia sentido, agora passava a fazer. A abundância de pormenores anatómicos no modo como eram descritas, no livro, as actividades próprias do sexo levava-me a compreender o alcance de certas coisas que, até aí, me tinham sido completamente opacas. Por outro lado, a evidente classificação desses actos sexuais numa categoria ética melindrosa tornava imperativa a necessidade de guardar só para mim a descoberta desse dia. Aliás, desde essa manhã de 1975 até à morte do meu avô em 1996, jamais houve ocasião (ou vontade da minha parte) para falar sobre o tema com a geração mais velha da família. Mesmo no caso dos meus pais, só aos dezassete anos é que eu falaria no assunto à minha mãe; e com o meu pai, de forma explícita, só aos vinte e cinco. A ocasião que me levou aos dezassete anos a abrir-me com a minha mãe foi um desgosto de amor, ocorrência banal naquela fase da vida. Como todos os adolescentes, eu vivia em estado permanente de paixão assolapada por alguém que, dia 14


após dia, era o meu último pensamento naquela zona mágica da consciência, entre o gesto de apagar a luz da mesa de cabeceira e o acto de adormecer. E logo de manhã, no milésimo de segundo subsequente ao acordar, lá estava o rosto amado, o nome, a imagem. Por um lado, para me atormentar: pois os meus amores naquele tempo eram invariavelmente não correspondidos; mas, por outro, para dar um fascínio e uma beleza sobrenatural ao dia, qualidades que não estariam lá se eu não estivesse apaixonado. Hoje parece-me evidente que, na noite em que falei à minha mãe dos meus sentimentos, “qualquer coisa” já lhe teria passado pela cabeça. Ela reagiu com enorme fleuma e à vontade. Deixou que eu dissesse o que queria dizer; não me pressionou com perguntas, nem procurou indagar até que ponto, naquela altura, a minha vivência da sexualidade já teria adquirido alguma base empírica. Teve a espantosa clarividência de perceber tudo o que estava em causa naquele momento: de perceber que qualquer passo em falso da parte dela levaria o filho a fechar-se daí por diante, a nunca mais lhe contar nada. Passou com nota máxima num dos mais difíceis exames a que uma mãe pode ser submetida. Estar-lhe-ei para sempre profundamente grato. No caso de a admirável discrição da minha mãe não ter prevalecido durante aquela conversa, teria eu já alguma coisa a relatar no campo da vivência empírica da sexualidade? Talvez um pouco mais do 15


que seria de esperar num adolescente de dezassete anos — mas não muito mais. A curiosidade, que afinal todos sentimos, já me levara a procurar fundamentação concreta para as informações colhidas no livro. Hoje não deixo de sentir um ligeiro calafrio ao recordar que a tendência, natural em qualquer rapaz adolescente, para procurar apoio emocional junto de homens adultos me colocou, uma vez ou outra, em situações que poderiam ter assumido um carácter traumático. Tive imensa sorte. E felizmente para mim, a mecânica do sexo era, pelo menos naquela altura, um apetite satisfeito de modo surpreendentemente duradouro por meio de ínfimas doses de carnalidade. Seria só mais tarde que eu me aventuraria a desembarcar de vez em Citera, ilha de Vénus, para explorar — por vezes intrépido, por vezes a medo — as suas veredas misteriosas. Na minha ingenuidade de adolescente, entretinha-me muitas vezes no autocarro a contar os homens que não ostentavam no dedo aliança de casamento. Como os solteiros eram raros, eu concluía que, pelo menos a avaliar pelos transportes públicos, em Portugal quase não havia pessoas como eu. À medida que a experiência e a observação da realidade foram corrigindo a minha propensão para conclusões precipitadas, fui percebendo que a questão da aliança de casamento era a mais pura das falácias; e que longe de ser um país despovoado de pessoas como eu, Portugal estava cheio de homens vestidos de fato e gravata com aliança no dedo, para 16


quem o sexo desportivo com desconhecidos era apenas um escape, que não punha em causa a vida familiar, nem a própria identidade heterossexual. Aliás já no tempo em que Watteau pintou o Embarque para Citera, Portugal era considerado um país dotado nesse campo de floração abundante. Nas suas Memórias Instrutivas sobre Portugal (1723-1726), Charles Frédéric de Merveilleux observa que “a Inquisição põe um poderoso freio à sodomia, vício odioso ao qual os portugueses pela sua natureza ardente são demasiadamente inclinados”. Entretanto a Igreja Católica foi modificando a sua atitude e, hoje em dia, direcciona simplesmente o feixe da sua desaprovação contra o sexo extra-matrimonial. Seja qual for a orientação sexual do crente, há apenas uma alternativa católica ao matrimónio: a castidade. Nas palavras do Catecismo da Igreja Católica (§ 2359), “as pessoas homossexuais são chamadas à castidade. Pelas virtudes do autodomínio, educadoras da liberdade interior, e, às vezes, pelo apoio de uma amizade desinteressada, pela oração e pela graça sacramental, podem e devem aproximar-se, gradual e resolutamente, da perfeição cristã”. Ora todos sabemos que, se há estado para o qual a natureza humana não foi programada pelo Criador, é a castidade. A própria bioquímica do organismo (e qualquer homem sabe do que estou a falar) é absolutamente avessa à inactividade sexual; e mesmo que se queira impor a abstinência por via 17


da força de vontade, nenhum homem se safa das cinco erecções nocturnas (em média), nem dos orgasmos involuntários que dessas tumescências tantas vezes resultam. No entanto, o Catecismo insiste que “a castidade significa a integração conseguida da sexualidade na pessoa” (§ 2337). Se graças à Psicologia já sabemos há muito dos perigosos efeitos secundários que a castidade desencadeia ao nível mental, a Medicina tem vindo a provar que, à semelhança do tabaco, a inactividade sexual, sobretudo nos homens, prejudica gravemente a saúde: investigações recentes demonstram que próstata e sistema cardiovascular agradecem ejaculações frequentes. Todavia, como Galileu descobriu à sua custa, a religião vai sempre alguns passos atrás da ciência; e mesmo que a Igreja aceitasse os dados médicos sobre os benefícios higiénicos do sexo, dir-nos-ia certamente que, a bem do corpo e da alma, todos os católicos deviam casar. O que voltaria a deixar muitos crentes de fora, começando por mim. Na minha adolescência, o conflito entre os apelos contraditórios da volúpia e da espiritualidade acabava sempre com a vitória da segunda sobre a primeira. Deus era tudo para mim. Na altura eu sentia uma fé tão avassaladora que os parcos episódios de sensualidade se me afiguravam meros acidentes de percurso: não afectavam em nada o meu projecto de entrega a Deus. Graças ao romantismo próprio de todos os adolescentes, decidi, logo após as primeiras experiências eróticas empreendidas 18


sob o signo da curiosidade, que se o sexo era de facto pecado mortal, só valeria a pena incorrer na condenação divina se ambos os intervenientes estivessem verdadeiramente apaixonados. E vejo hoje, retrospectivamente, que estes ideais de romantismo e de espiritualidade me ajudaram a salvaguardar “qualquer coisa”, que não sei bem dizer o que é; a adiar por mais uns anos experiências que, para um adolescente, teriam sido prematuras. Há o momento certo para tudo: e tal como a adolescência não é a melhor altura para uma rapariga ter a experiência da gravidez e da maternidade, também não me parece ser, do ponto de vista do desenvolvimento emotivo e psicológico, a altura certa para um rapaz viver em pleno uma relação sexual. Devo dizer, apesar de tudo, que o choque dentro de mim entre sexo e religião foi bastante mais suave do que no caso de muitos amigos e conhecidos, cujos testemunhos eu viria a ouvir mais tarde. É que, no mais íntimo de mim, não conseguia (nem consigo) entender por que razão a homossexualidade é ofensiva aos olhos de Deus. Até porque o Génesis, que condena actos sexuais entre homens, não pode constituir doutrina infalível sobre todos os assuntos: basta pensar no problema de o mundo não ter sido criado em seis dias. Quanto a São Paulo, manterei reservada a minha opinião sobre o papel por ele desempenhado na história do Cristianismo e direi tão-somente que o facto permanece, irrefutável: Jesus Cristo nunca condenou a homossexualidade. 19


No tempo em que eu era católico praticante, este facto foi muitas vezes debatido através das grades do confessionário. A minha tenacidade argumentativa levou vários padres a ficarem-se, perplexos, pela aporia de repetirem “vem na Bíblia, filho, vem em São Paulo”, ao que eu tentava responder “sim, mas na Bíblia a usura também é pecado: se a Igreja não condena a banca e a alta finança e se o próprio Vaticano tem um banco, não tem nada que condenar o sexo entre dois homens. Ou então que condene também o crédito à habitação.” Entendo e aprovo que exista uma barreira intransponível entre a sexualidade abrutalhada e a experiência religiosa: que qualquer acto sexual assente na violação, exploração ou humilhação de outrem seja contrário à vontade de Deus, na medida em que esta parte, como é consenso geral, da própria dinâmica do amor, do altruísmo, da dádiva generosa, da confraternização amistosa entre as pessoas. Mas havendo respeito absoluto pela dignidade de outrem e o reconhecimento do direito inalienável de cada homem ou mulher à volição livre no que toca ao seu próprio corpo (desde que daí não advenham danos físicos e psíquicos aos intervenientes em causa), não creio que a intimidade voluntária entre pessoas adultas se destitua automaticamente de espiritualidade por ter uma dimensão sexual.

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Amar não acaba