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Igor Alcantara

Igor Alcantara

O Dia em que Deus Chorou 1ª Edição

Igor Raphael de Alcantara

2011 3


O Dia em que Deus Chorou

Créditos ISBN: 978-85-912003-1-3 Primeira Edição, 2011

Texto escrito por: Igor Alcantara

Contatos: Igor Alcantara: http://www.igoralcantara.com.br http://www.twitter.com/luzzifuge http://www.facebook.com/alcantaraigor leitor@igoralcantara.com.br

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Igor Alcantara

Prefácio Posso dizer, sem dúvida alguma, que este livro é até o momento a obra de minha vida. Não pelo fato de ser o melhor romance que escrevi, mesmo talvez sendo. Muito menos por acreditar em suas ideias, boa parte delas eu discordo. De todo modo, considero-o o livro mais importante que já escrevi, incluindo meus manuscritos jamais publicados, pelo esforço que tive ao fazê-lo. O Dia em que Deus Chorou foi escrito no ano de 1997. Terminei-o exatamente no dia 07/07/1997, dois meses após eu completar vinte anos de idade. Existia apenas uma cópia, escrita à mão em um caderno. Chorei ao terminá-la. Aquele não foi apenas o dia em que Deus chorou, mas o dia em que eu também chorei. Foi a única vez que um texto produzido por mim provocou tal efeito. Emprestei essa única cópia a meu amigo, meu melhor amigo, Bráulio Souza. Ele leu e não poupou elogios ao texto. Conversamos muito a respeito. Houve, no entanto, um problema. Quando pedi a obra de volta, ele procurou, mas não conseguiu achá-la. Havia perdido. A perda de minha mais intensa criação até então me doeu muito. No entanto, não me lamentei por muito mais tempo. Aproveitei que tudo ainda estava recente em minha cabeça e na mesma semana da perda eu tratei de reescrever a obra, desde o início. O trabalho foi árduo, mas fui compensado com o resultado final. Por incrível que pareça, a segunda versão do livro teve a mesma quantidade de páginas da primeira. Exatamente a mesma! E não o fiz de propósito, foi mais um fato curioso acerca desta obra.

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O Dia em que Deus Chorou O tempo passou e não me lembrava de onde tinha guardado os manuscritos da nova versão. Mudei-me de casa algumas vezes e inclusive de cidade. Foi quando ao final de 2010, achei o livro, escrito em um velho caderno. Entreguei à minha esposa que o leu com voracidade. Foi ela quem me disse: “você precisa publicar isso”. Foi exatamente o que fiz, após um árduo trabalho de digitação. Finalmente a obra foi publicada, no dia 07/07/2011, quatorze anos após sua primeira versão ser escrita. Foi uma dívida paga com o meu passado. Tive a oportunidade de mudar o texto e esse foi um desejo grande. Tanto tempo depois, apurei um pouco minha técnica. Todavia, contive esse desejo e mantive o texto original, para que deste modo o leitor possa ter contato com o escritor que fui aos vinte anos. Espero que aproveite essas páginas. Entenda que o estilo da narrativa procura transmitir as emoções pelas quais passa o personagem principal. Se às vezes é monótona, é porque ele se sente assim, se é repetitiva, é por razão da própria mente conturbada do narrador. Não desejo que chores ao final, como eu o fiz. Tive essa reação porque esta é minha criação, minha chance de existir. Espero, entretanto, que quando ler o último parágrafo, tenha o sentimento de ter gasto o seu tempo de forma proveitosa e que esteja feliz por assim tê-lo feito. O Autor.

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Capítulo 1 Chovia muito naquela tenebrosa noite de novembro. O inverno aproximava-se e este fato já podia ser notado pelo frio que se fazia sentir. O condutor transportava-me com extrema velocidade. Éramos os únicos na estrada. Não percorríamos um caminho usual, mas o dito condutor disse que por ali chegaríamos mais rápido ao nosso destino. Minha cabeça repousava no vidro ao lado, de onde eu podia ver as gotas da chuva pelo lado de fora. Era interessante o movimento da água na janela. Cada gotícula parecia ter a sua própria vida, com uma personalidade individual. Elas caminhavam diante de meus olhos com maior sutileza que uma dama em seu baile de casamento. E era exatamente isso que pareciam fazer: dançar. O som do vento que movimentava as folhas das árvores funcionava como música, disso eu me lembro muito bem. Se pensas que, pelo que narrei até aqui, a noite era calma e desprovida de preocupações, engana-se terrivelmente. Uma sensação de perigo iminente tomava minha alma e tirava-me o sono. Apesar da temperatura, um suor frio encharcava-me como se eu estivesse exposto à chuva. A visibilidade era mínima e a chuva aumentava a cada minuto. Só víamos alguma coisa além de três metros quando algum relâmpago cortava o céu e iluminava nosso caminho. Os trovões eram tão altos que mais pareciam um estrondoso grito de Deus, despejando em nós a sua ira. Quando apareciam tais relâmpagos e a claridade era plena por cerca de três segundos, eu podia ver os galhos das árvores na floresta imitando braços putrefeitos em busca de uma próxima vítima, que poderia ser eu. A certeza de que algo aconteceria aumentava cada vez mais, porém na mórbida curiosidade fazia-me querer continuar naquela estrada. Um sombrio medo começava a me dominar, findando com os poucos 9


O Dia em que Deus Chorou resquícios de sono que eu ainda possuía. As batidas de meu coração, de tão rápidas e fortes, mais pareciam os sons dos tambores de alguma tribo primitiva iniciando um ritual de sacrifício. Minhas mãos tremiam e, de um instante para o outro, o antigo calor que me fizera suar se transformou num intenso frio. Mesmo estando muito agasalhado, eu me sentia como se estivesse sido jogado na neve despido. Aos sons dos meus tambores cardíacos, misturavam-se vozes que não existiam, mas que eu imaginava ouvir. O medo agora havia se transformado em pavor e este mesmo pavor em pouco tempo se converteu em terror, um doce e desesperado terror. Eu ainda não sabia que era uma força superior quem havia me atraído para aquele lugar. Um ser mais poderoso que eu. Era como se estivesse buscando algo em algum local distante do universo que só poderia ser encontrado através de uma introspecção profunda. Minha mente já parecia ter passado por tudo aquilo, mas nem por isso denomino este momento como um mero dejà-vu. Era algo além; eu me sentia como no meio da encruzilhada dos tempos, onde passado, presente e futuro coexistiam. A tempestade aumentava na medida em que meu desespero tornava-se incontrolável. Meu terror não era pelo medo de algo acontecer, pois eu sabia que aconteceria, era pela dúvida do que poderia ocorrer. Eu e o condutor éramos incomunicáveis, o que só aumentava minha angústia. Levei minhas mãos à cabeça e comecei a rezar desesperadamente em busca de algum auxílio. É impressionante como apenas nestes momentos nós nos lembramos de Deus. O galope dos cavalos misturava-se à minha respiração ofegante compondo a mais tenebrosa sinfonia jamais tocada por nenhum mortal. O som dos cascos indo de encontro ao chão enlameado parecia a pulsação do próprio demônio. Estes mesmos cavalos deveriam ter os 10


Igor Alcantara olhos vermelhos como o fogo do mais baixo inferno. Em seus corpos, caso fechasse os meus olhos, não seria difícil imaginar longos pares de asas negras como as de um morcego. As vibrações que eu sentia eram realmente muitíssimo pesadas. Eu não mais possuía família, fui abandonado à minha própria sorte. A felicidade que tive foi ter sido logo criança adotado por um nobre de invejável respeito. Ele fez-me seu criado de confiança. Desde cedo tive uma boa educação, o que me possibilitou ser aceito na corte. Estava de viagem ao sul do país para cumprir o desejo de meu patrão. Sentia-me honrado por ter sido escolhido para a missão, era uma espécie reconhecimento pelos anos de leais préstimos. Senti que o condutor também estava apavorado. Talvez ele também pressentisse que algo haveria de acontecer muito em breve. Enquanto eu dispunha de certo conforto no interior da carruagem, ele estava exposto à chuva, completamente encharcado. Seu chapéu já havia sido jogado para longe pela força do vento. Pude perceber, olhando-o pela janela lateral, que seu queixo batia tamanho era o frio que sentia. Pensei em fazê-lo parar para dormirmos dentro da carruagem até a chegada do dia, mas o medo de sermos atacados por alguma criatura fez-me ficar calado. A cada relâmpago que iluminava o nosso redor, eu parecia enxergar seres monstruosos no meio da floresta. Na verdade, não existia nada além da vegetação local, mas o medo fazia-me ver coisas. Acreditava, na minha tola imaginação, que o perigo viria de alguma destas criaturas imaginárias. Muitas das aberrações que eu parecia ver eram, na verdade, galhos secos ou folhas grandiosas. A escuridão possui a incrível capacidade de modificar as formas da natureza fazendo-as parecer com criaturas horrendas. Foi então que, durante um dos relâmpagos, um vulto atravessou na frente da carruagem de forma assustadora e veloz. Parecia algo 11


O Dia em que Deus Chorou sobrenatural. Ouviu-se um grito alto e grave, era o condutor amedrontado. Os cavalos se assustaram, desprendendo-se da carruagem. A carruagem pendeu de lado e capotou. Não sei quantas vezes ela virou, mas o fato é que bati minha cabeça com inigualável força e desmaiei. Foi com dificuldade que abri os olhos vários minutos depois. Sentia muita dor na cabeça, nas pernas e no ombro. Não sei por quanto tempo fiquei desmaiado, mas creio que não fora pouco. A lama havia invadido o interior da carruagem e eu estava completamente sujo. A porta da carruagem estava travada pelo chão; afinal, havíamos capotado. Estava preso e sem condições de sair. Batia nas "paredes" de madeira e comecei a gritar por socorro desesperadamente. Mesmo que ali alguém estivesse para nos ajudar, não ouviria meus gritos por que o som dos trovões era muito mais alto. E o condutor? Onde estaria ele? Provavelmente, pensei eu estava também desmaiado lá fora. A situação era tão angustiante que eu ajoelhei no chão e comecei a chorar. Em um relance de racionalidade, cheguei à conclusão de que o melhor seria tentar sair de dentro daquela carruagem. Olhei para todos os lados e descobri como fazer isso. Deveria quebrar a janela lateral esquerda, que agora era o teto, e sair por ela. Eu não tinha forças para isso, a morte era quase certa. No entanto, algo estranho ocorreu. Alguém do lado de fora esmurrou o vidro e abriu assim uma passagem para que eu pudesse me salvar. Essa mesma pessoa ergueu o braço para que eu me apoiasse. Julguei ser o condutor da carruagem. Fiquei um tempo indeciso se deveria ou não aceitar o auxílio, mas logo vi que não teria outra opção. Com muito esforço, ele me ergueu e assim me tirou de dentro do acidentado coche. Entretanto, ao fazer isso eu senti pontas de vidro cortando-me por todos 12


Igor Alcantara os lados. Tentei agradecer ao meu bem-feitor, mas não conseguia ver o seu rosto. Era como se uma nuvem negra me impedisse de fitá-lo. Ele olhou para mim por algum tempo. Era estranhamente familiar. Fiquei alguns segundos deitado sobre a carruagem, observando-o sem o ver, até despenquei no chão e desmaiei. Após acordar, eu já estava sozinho. Rastejei alguns metros pelo solo enlameado. Sentia toda a fúria da chuva se expressando em cada gora d'água que tocava meu corpo. Após breve procura, avistei o condutor caído a alguns metros de onde eu estava. Foi com bastante dificuldade que eu consegui chegar onde ele se encontrava. Precisava ajudá-lo e agradecê-lo por ter salvado a minha vida. Olhei-o com atenção e percebi que ele havia batido a cabeça em uma pedra. Sacudi-o na tentativa de acordá-lo, mas ele permanecia imóvel. Coloquei meus dedos sob suas narinas e constatei que ele havia parado de respirar. Comecei a me desesperar, mas ainda tinha esperança. Encostei então meu ouvido em seu tórax para verificar seus batimentos cardíacos e constatei o pior: nenhum som havia. Ao erguer sua cabeça com minha mão esquerda vi que seu crânio havia sofrido uma fratura grave. Pedaços de cérebro misturavam-se ao sangue e à chuva. Neste instante aceitei o óbvio: Ele estava morto! Comecei a chorar compulsivamente. Meu pranto não era pelo condutor, eu nem o conhecia muito bem. Chorava por estar naquela situação extremamente difícil. Chorava também por perceber que minha mórbida previsão de que algo aconteceria se concretizara. Soltei um profundo grito para o céu em resposta ao responsável por tudo aquilo. Não sei quanto tempo gritei, mas isso também não importa. Parecia que eu não havia sido notado, pois a tempestade bem como os trovões continuava e não davam o menor sinal de compaixão para comigo. Se alguém me visse, creio que não notaria meu choro, pois as lágrimas, desde o início, 13


O Dia em que Deus Chorou se confundiram com a própria chuva. Percebi que precisava fazer algo para que também não morresse. Pensei em continuar pela estrada, mas essa ideia foi logo descartada. Era uma via não usada e perigosa, sem contar que a vila mais próxima ficava há três dias se eu fosse a pé. Como eu não poderia ficar lá parado porque seria apressar minha morte, a única saída era adentrar na floresta e procurar um abrigo para me proteger até o fim da tempestade. Levanteime, dei uma última olhada na carruagem tombada e no cadáver do condutor e comecei a andar. A tempestade não mais representava meu maior problema, pois eu já estava tão encharcado que era impossível molhar-me mais. O que realmente me incomodavam eram as feridas que havia se formado em todo o meu corpo. A cada passo que eu dava mais sentia as dores profundas que me faziam perder o fôlego. Boa parte das minhas vestimentas já tinha sido manchada pelo vermelho. Era o sangue que escapava de minhas veias e gotejava no chão. Corria semelhante a alguém fugindo de seu pior temor. Minha velocidade e destreza em desviar dos obstáculos eram incríveis. Mesmo estando tão escuro, minha "fuga" estava sendo muito bem sucedida. O pavor, pelo nosso extinto de conservação, aumenta nossa energia e capacidade visual. Não foi diferente comigo. Após muito correr, avistei e toquei algo muito curioso. Era um muro alto e aparentemente forte. Eu estava no meio da floresta, como poderia ali ter um muro? Isso era algo um tanto quanto estranho para minha cabeça. O normal era existir muros próximos a estradas ou cidades, mas não dentro de uma floresta. Quem seria louco ou estúpido o suficiente para construir aquilo logo ali? E que utilidade teria? Não havia explicação lógica para isso, mas no estado em que me encontrava eu não possuía nenhuma escolha. Se for um milagre existir um muro ali, deveria me 14


Igor Alcantara aproveitar disso. Fui andando e apalpando o muro, quem sabe não encontraria um abrigo? Não muito tempo depois, para a minha felicidade, minhas mãos foram de encontro a um portão. Era grandioso, feito de um metal altamente trabalhado. Nas extremidades laterais havia dois anjos, um de frente para o outro. Eles possuíam cada um uma lira, creio que para dar boas-vindas a quem chegasse. Entretanto, quando um relâmpago possibilitou-me ver melhor, eu percebi que seus olhos puros disfarçavam um sarcasmo quase demoníaco. Isso, no entanto, não me assustou. Empurrei o portão e me surpreendi ao notar que o mesmo estava aberto. No início vacilei, mas logo vi que entrar era a única solução. Entrei e os portões fecharam-se logo após. Virei-me assustado, mas logo vi que nada mais era do que uma rajada de vento. Comecei a caminhar lentamente mesmo com tão furiosa tempestade. Notei, mesmo sem ver, que os anjos acompanhavam meus passos com seu olhar. É estranha a sensação de ser observado. Os trovões pareciam ser mais altos e raivosos. Os relâmpagos eram mais intensos. A chuva, de tão violenta, feria meu corpo como pregos espetados na pele. Andei um pouco e surpreendi-me ainda mais. Como poderia? Ao erguer meus olhos, vi no meio da escuridão um grandioso e imponente castelo. Ali era uma floresta, como poderia existir um castelo em tal lugar? Não seria uma ilusão aquilo? Eu estava ferido e cansado, chovia muito forte, poderia ser um delírio. Mas se fosse um delírio, porque por que tais imagens não desapareceram após um tempo? Ou então, quem sabe, não era tudo um terrível pesadelo? Essa ideia pareceu completamente agradável, pois se eu realmente estivesse em um sonho tudo o que havia acontecido fora irreal. O condutor estava vivo e a carruagem ainda corria pela estrada. Relaxei um pouco com esse pensamento, mas logo depois ocorreu-me duas interrogações: porque, se 15


O Dia em que Deus Chorou tudo era mesmo um sonho, o castelo mostrava-se tão real e as feridas doíam tanto? E porque já não havia acordado? Decidi que era melhor encarar os fatos e procurar sair deles. Por este motivo comecei a andar em direção à entrada do castelo. Cada passo parecia uma jornada. Andava e era como se não saísse do lugar. É uma sensação horrível essa que eu senti. O que eu queria realmente era entrar em algum lugar para me abrigar da tempestade. Foi então que me ocorreu um pensamento: E se os donos do castelo não permitissem minha entrada? O que deveria fazer? Implorar? Procurar outro local? Desistir de tudo e esperar a morte que, creio eu, não tardaria chegar? Eu estava muito cansado para tomar uma decisão segura, mas era preciso escolher um caminho no meio de tantos problemas. Quando menos percebi já estava em frente à porta do castelo. Fiquei por alguns segundos apenas observando a imponência da construção. Cada detalhe deveria ter sido minuciosamente pensado para no final compor uma obra de tão respeitável grandeza. Resolvi bater à porta para avisar aos moradores que havia alguém do lado de fora com um ardente desejo de entrar. Bati três vezes e esperei. Foram batidas fortes, mas ninguém veio abrir. Bati mais três vezes. Aguardei mais uns instantes com uma irritante impaciência, mas não ouvi nem o som de alguma pessoa se aproximando. Então dei quatro batidas com força maior ainda. Estava ficando aflito. Suava muito. Meu coração disparava e minha respiração era ofegante. E se não houvesse ninguém lá? Poderia ser um castelo abandonado. Pareceu-me uma possibilidade bastante lógica. Estava no meio de uma floresta, por que alguém moraria ali? Decidi que bateria mais uma vez e depois iria andar pelo terreno tentando achar um abrigo. Foram sete batidas em um ritmo quase de súplica. Olhei desolado para a porta que não se abria. Uma tristeza imensa invadiu minha alma. Virei16


Igor Alcantara me de costas para o castelo e comecei minha nova busca. Uma lágrima brotou de meus olhos e se desfez em minha face sofrida. Foi então que, por volta do terceiro passo, uma voz que eu jamais esqueceria encheu meu acelerado coração de alegria e esperança ao dizer: - Não desejas entrar, cavalheiro? Voltei-me para traz e vi uma porta aberta. O homem que me falou aparentava ter quarenta anos de idade. Possuía uma doçura nos lábios e uma sinceridade no olhar jamais imaginados. Senti um impacto ao encará-lo, era como se estivéssemos destinados a nos conhecer. Seus cabelos ainda não haviam perdido a coloração. Seu rosto ainda não aparentava possuir rugas. Pelos trajes, imaginei que era o senhor da casa. Eram roupas que invejariam os próprios nobres da corte na capital. Estranhei o fato de não ter sido recebido por um criado, mas não dei demasiado valor a isso. Fiquei ainda observando-o por alguns segundos quando ele voltou a falar: - Vamos, entre. O senhor precisa se abrigar. Aceitei o convite e entrei; feliz por sair de tão terrível tempestade. Um enorme salão servia de entrada ao castelo. Estava escuro, mas eu conseguia ver algumas obras de arte de extremo bom gosto. Ele ia à frente guiando-me. Segurava um belíssimo candelabro judeu em sua mão esquerda. Era uma peça, creio eu, feita de ouro da melhor qualidade, bastante adornada. Ele, vendo que eu o observava o artefato com demasiada atenção, disse-me que se tratava de um objeto datado no início do Século VI. Impressionou-me muito ver que ele possuía um candelabro com mais de novecentos anos. Notei também outros objetos raríssimos. Eram poltronas, quadros e até uma escultura que, segundo soube mais tarde, já decorou um salão numa residência patrícia localizada em uma acrópole de uma cidade (cujo nome 17


O Dia em que Deus Chorou prefiro não citar) antes dos conflitos do Peloponeso. Ali visualizei uma fortuna de valor incalculável. Passamos por mais dois salões igualmente belos antes de atingirmos uma escada. Ele não dizia uma única palavra. Aquilo estava me incomodando, mas não ousei iniciar um diálogo, pois não queria quebrar aquele estado de silêncio respeitoso. Apenas o som de nossos passos era ouvido no lugar, nada mais que isso. Sentia-me envergonhado por estar tão molhado, sujo e ferido em um lugar tão belo e limpo. No entanto, eu não tinha outra opção e, ao contrário, deveria estar feliz por ter encontrado um abrigo tão rico. Todavia, apesar de tanta sorte, algo na atmosfera do local me incomodava. O mais estranho de tudo é que, contradizendo o que deves pensar, esse tal "algo" que incomodava não era nem um pouco ruim, mas sim uma sensação boa. Não a bondade que conhecia, mas uma maior, a bondade pura. Acho que foi por isso mesmo que me senti daquele modo; via-me inferior a tudo aquilo. Estava bastante curioso para saber aonde ele ia me levar. No entanto, o seu silêncio insistente impedia-me de tentar descobrir. Andamos por um corredor longo e logo após percorremos outro. Este novo corredor estava repleto de portas, deveriam ser todos quartos. Entramos então em um terceiro corredor e paramos diante uma porta. Ele entrou no cômodo e convidou-me a fazer o mesmo. Era um belíssimo aposento, com poltronas, um enorme roupeiro, quadros e uma grande cama no estilo imperial. Então, como eu já imaginava, ele quebrou o angustiante silêncio e dirigiu-me a palavra: - Este será o seu quarto. Sinta-se à vontade, é meu hóspede. Aqui encontrarás toalhas para se enxugar e roupas limpas para se vestir. Faça isso e depois me encontre no quarto salão lá em baixo. - E, dito isso, ele fechou a porta deixando-me sozinho no aposento. 18


Igor Alcantara Tratei logo de tirar toda a roupa para poder me secar. Fui até o roupeiro, escolhi um belo traje limpo e o vesti. Uma incrível sensação de bem-estar invadiu meu espírito. Após tudo o que eu havia passado, poder me sentir limpo era como reconquistar minha própria dignidade. Direcionei minha atenção a um espelho grande e muito bem trabalhado que se localizava ao lado da cama. Mirei-me no tal espelho e contemplei meu rosto por alguns instantes. Cheguei a achar que nunca mais faria isso outra vez. Estava perdido e ferido na floresta e agora achava-me abrigado em um castelo grande, podendo vestir boas roupas e descansar num belo quarto. Sorri por isso. Era inacreditável ainda estar vivo. Obedecendo ao desejo de meu bondoso anfitrião, saí do quarto e fui andando pelos corredores do castelo a fim de me encontrar com ele. Tive o cuidado de decorar o caminho que fazia para não me perder mais tarde. Eram tantos corredores que eu me senti e um grande labirinto. Minha sorte foi que o caridoso desconhecido dono de tudo aquilo acendeu as velas dos candelabros fixos nas paredes do percurso que eu deveria fazer. Segui esse rastro de luz e logo me vi diante das mesmas escadas que antes havia subido. Desta vez, obviamente, desci as ditas escadas e cheguei ao terceiro salão. Este era grandioso como todos os outros. Possuía uma imponência enorme e uma iluminação tão intensa que era muito difícil precisar o número de velas responsáveis por isso. Foi então que cheguei ao quarto salão. Lá pude contemplar belíssimas poltronas e uma ardente lareira que aquecia o ambiente. Numa destas poltronas ele me esperava. Mesmo estando de costas, ele percebeu minha presença. Com toda a educação possível, ele se levantou, virou-se para mim e me convidou a sentar-me na poltrona (creio que provinda da Inglaterra) logo em frente à lareira. 19


O Dia em que Deus Chorou Timidamente eu fiz o que ele pediu. A dita poltrona era confortabilíssima. O calor da lenha queimando diante de mim só aumentava o meu bem-estar. Notei que ele possuía quatro recipientes com líquidos cuja natureza não consegui identificar e três bacias pequenas. Colocou um pouco do conteúdo do primeiro recipiente em uma bacia e em outra pôs certa quantidade do que havia no terceiro frasco. Já a terceira bacia foi preenchida com uma mistura do segundo com o quarto frasco. Após isso ele olhou pra mim e disse: - Precisamos tratar destes ferimentos. Tire sua camisa que eu faço isso pra você. Obedecendo ao que ele me pediu, tirei a camisa e aguardei. Ele estava sentado no chão ao meu lado. Pegou alguns panos secos e molhou-os nos recipientes. Primeiro passou nos ferimentos o pano umedecido na primeira bacia. Senti que o líquido que me tocava era muito frio. Fez isso repetidas vezes até que tal sensação desaparecesse. Depois disso, ele secou as feridas e molhou-as de novo, mas agora com o pano que estava na terceira bacia. Senti dores intensas quando minha pele era tocada, mas percebia, não sei como, que aquilo me fazia bem. Após muito passar o dito pano molhado com o tal líquido, ele aguardou um pouco. Então, como eu imaginava, embebedou o conteúdo de um pano na bacia que restava e passou nas ditas feridas. Desta vez não senti dor, mas sim um grande alívio. Passados alguns minutos, ele pediu que lhe esperasse e saiu. Foi e voltou três vezes levando os frascos, panos e bacias e na última vez demorou um pouco mais. Eu já começava a sentir os benefícios que os misteriosos líquidos me faziam. Era impressionante, ele deveria ser um grande boticário. Seu conhecimento acerca de substâncias complexas me impressionou bastante. Creio que em toda a Europa não deveria existir ninguém com um dom tão apurado. 20


Igor Alcantara Quando voltou, ele pediu para que eu vestisse a camisa e o acompanhasse. Eu o fiz. Achei estranho ele não ter tratado os ferimentos das minhas pernas, mas quando o perguntei sobre isso ele me respondeu que cuidando dos ferimentos do abdome, tórax e braços, ele já estava cuidando indiretamente, de todas as outras lesões. Não entendi suas palavras, mas aceitei-as. Ele possuía tanta segurança e autoridade ao falar que eu não ousava contestá-lo. Fomos até o outro salão igualmente grandioso. Este possuía uma enorme mesa da mais nobre madeira. Deveria ser de alguma árvore retirada do novo mundo, a distante e infeliz América. Cada detalhe estava devidamente trabalhado, o que me encantou muito. As cadeiras assemelhavam-se a tronos imperiais. Creio que qualquer um que se sentasse à cabeceira de tal mesa sentir-se-ia como o próprio rei. Mas não podia ser diferente, em tal castelo tão imponente só poderia existir móveis de tal importância. Ele me levou até uma cadeira e me fez sentar. Diante de mim havia um prato fundo da melhor porcelana que já havia visto. Havia também uma belíssima taça de cristal repleta de vinho e o que mais me impressionou: talheres do mais puro ouro. No prato existia uma sopa bem quente. Ele olhou para mim e voltou a falar: - Coma, você deve estar faminto. - Sim estou. - Respondi. - Então, coma. - Ele concluiu, sentando-se ao meu lado. E foi exatamente isso que fiz. Eu estava com bastante fome, por isso mesmo comer era uma sensação que me causaria um enorme prazer. Provei a sopa e deliciei-me com seu sabor especial. Ele devia possuir um cozinheiro muito bom, pois eu nunca havia comido nada igual. Levei 21


O Dia em que Deus Chorou minha mão à taça, ergui-a com extremo cuidado e levei-a a boca. O vinho umedeceu meus lábios. Minha língua foi até eles buscar algumas gotas. Fechei meus olhos para melhor apreciar aquele momento. Quando virei a taça, senti o doce líquido percorrer cada centímetro da minha boca antes de atingir minha garganta. Era como se eu bebesse a própria saliva da bela Psyquê. O prazer que eu desfrutava era superior a todos os orgasmos que já havia sentido em toda minha vida. Aquele vinho só poderia ter sido feito com as uvas colhidas nos jardins do Olimpo. Não poderia precisar quanto tempo passei naquela mesa, mas ao terminar eu me sentia saciado e feliz. Limpei meus lábios com um lenço que havia ao lado do prato e me levantei. Meu anfitrião fez o mesmo. Perguntou se eu queria mais alguma coisa e eu respondi que não, estava satisfeito. Então ele me disse para ir ao quarto que havia anteriormente me indicado a fim de repousar. Nós nos encontraríamos naquele mesmo salão pela manhã. Após nossas últimas palavras, retirei-me do salão, deixando-o sozinho. Enquanto me dirigia ao que quarto que me foi concedido, eu pensava naquele bondoso nobre que havia me acolhido tão bem. Quem era ele? Qual seria o seu nome? A qual família pertencia? Seu modo sutil e educado de agir instigava minha curiosidade. Era um homem misterioso. Sua personalidade estava envolta em uma névoa de silêncio que eu desde já desejava desvendar. De qualquer modo, uma certeza eu possuía: ele era sem dúvida alguma, uma pessoa muito boa. Muitas coisas me deixavam confuso. Por que ele me recebeu tão bem sem me conhecer? Por que não se apresentou e não perguntou meu nome? Esse era o grande ponto: Nós não sabíamos o nome um do outro! Como é que alguém hospeda uma pessoa em sua propriedade e nem sabe ao menos como se chama? E se eu fosse um 22


Igor Alcantara ladrão? Ou até quem sabe um fugitivo das tropas do rei? Será que, ele não havia perguntado nada apenas por me ver num estado tão deplorável? Será que, logo ao amanhecer, eu seria expulso do castelo tendo que sobreviver a minha própria sorte? E se ele já imaginasse que era um indivíduo de índole duvidosa e só estava me tratando bem para que eu não lhe fizesse mal? Eram essas minhas principais angústias. Subi cada degrau da escada com um receio crescente. É incrível o que o desconhecimento de algo nos provoca, ou uma profunda estimulação ou um inexplicável temor, que era o que estava acontecendo comigo. Segurava o corrimão com extrema firmeza. Meu pescoço não parava de se movimentar levando minha cabeça para diferentes posições. Olhava para todos os lados em busca de algo que eu não sabia o que era. Não sentia medo, pois não havia o menor motivo para isso. O que me preocupava era o comportamento excessivamente bondoso e ao mesmo tempo misterioso de meu anfitrião. Aquilo não era normal na nossa sociedade. Todo bem que se fazia a alguém vinha sempre acompanhado de um interesse. Vivemos uma época de excessos e futilidades. Em todas as reuniões e festas da corte, o que se comenta são banalidades. As pessoas são vazias. É como se o espírito humano estivesse adormecido. E o pior de tudo é que todos sabem, reconhecem e até louvam este culto à futilidade. Achase que compete aos plebeus, que são os únicos que trabalham, a preocupação com os problemas. Dizem que a vida é curta e, por isso mesmo, deve ser aproveitada ao máximo sem preocupações. A Europa toda vive este clima de individualismo. O que antes era caridade hoje chama-se de investimento. Se dá aos ricos é para esperar um favor em troca. Se dá aos pobres é para que estes não se revoltem. É por isso que toda essa benevolência de meu anfitrião me intrigava tanto. 23


O Dia em que Deus Chorou Percorria os corredores pensando nisto. Estaria eu sendo ingrato? E se realmente desejasse me ajudar? Ora, que eu poderia dar-lhe que ele já não tivesse? Sendo assim, considerando que eu não possuía nada que lhe pudesse interessar, por que minhas desconfianças acerca dos motivos que o levaram a me acolher? Se ele não houvesse aberto a porta para que eu pudesse entrar e me refugiar eu provavelmente estaria próximo ao mesmo destino do condutor da carruagem que me transportava. E, já não bastasse isso, ele deu-me roupas limpas, comida, bebida e um quarto para me recolher. Tratou de minhas feridas e era assim que eu lhe agradecia? Senti-me indigno de seus nobres préstimos. Quando segurei a maçaneta da porta do quarto que me foi cedido, senti uma intensa tontura que quase me fez cair. Abri a porta, entrei no quarto e sentei-me numa poltrona. Um incrível arrependimento por tê-lo julgado tão mal me fez chegar ao ponto de quase vomitar. Todavia, decidi não mais me aborrecer com isso. E quanto ao nome, resolvi perguntá-lo logo que amanhecesse. Respirei fundo para recuperar os sentidos. Levantei-me, fechei a porta e deitei-me na cama. Só então pude sentir toda a dor de horas de caminhada pela floresta. Olhava para o teto e todas aquelas tristes lembranças vieram-me à cabeça. Via a carruagem se despedaçando e o condutor morto com a cabeça coberta de sangue. Via os trovões e relâmpagos, mas o que mais me impressionava era a visão do vulto misterioso causador de tudo aquilo. Sentia-me cansado. Minhas pernas doíam muito, não sei descrever o quanto. Com os olhos fechados tentando dormir podia ouvir a fúria da tempestade que ainda não havia passado. A forte janela batia com a força do vento. Era até possível notar, mesmo com as pálpebras coladas, a claridade dos relâmpagos que penetravam pelas frestas. 24


Igor Alcantara Os trovões pareciam não acabar mais. Mesmo assim, sentia-me protegido dentro daquela inabalável fortaleza. Creio que nem se todos os oceanos desabassem sobre aquela planície numa única chuva, aquele castelo poderia cair. Imagino que se Deus viesse à terra e precisasse de um lugar para se refugiar, escolheria aquelas pesadas paredes. Não sei por quanto tempo fiquei ainda pensando em tudo aquilo, mas imagino que não demorei muito para dormir. Meu desgaste era grande e o que meu corpo mais precisava era de um tranquilo repouso. Meu sono foi ininterrupto e pesado. Também não me lembro de ter tido sonhos ou pesadelos, mas creio que não os tive. Não rolei na cama e muito menos mudei de posição, permaneci estático por toda noite. Queria ter visto o fim da tempestade que eu julgava infinita, mas o esgotamento físico que sofri foi maior que minha vontade. Quando o sono me dominou, ainda era possível ouvir as gotas d'água batendo na janela e os trovões explodindo no alto do céu. Tive medo de não acordar vivo por estar tão debilitado, mas creio que esse medo é normal se considerarmos o estado em que eu me encontrava.

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O Dia em que Deus Chorou

Capítulo 2 Os primeiros raios de sol vieram para trazer paz e tranquilidade ao meu sofrido coração. Abri os olhos e uma incontrolável felicidade tomou conta do meu ser. Isso era devido ao fato de eu ainda me encontrar vivo. O sono tinha-me sido reparador. As dores haviam sumido e eu me sentia como se nunca tivesse passado por aqueles fatídicos momentos. É milagroso o efeito que boas horas de sono podem causar. Sorri e agradeci em pensamento a oportuna boa vontade do homem que me acolheu. De repente, sem motivo algum, esse meu sorriso se transformou em alta e estridente gargalhada. Era um ato incontrolável, quase como um acesso de loucura histérica. Meu corpo se movia como que em um ataque de epilepsia grave. Minhas gargalhadas, quase demoníacas, ecoavam pelos corredores do castelo. Creio que esta minha atitude repentina foi um descarregamento de toda tensão que havia passado na noite anterior. Ou talvez eu estivesse ficando louco. Após algum tempo, consegui me controlar e as gargalhadas pararam. Respirei fundo para me recuperar. Decidi que o melhor a fazer era levantar da cama e descer até ao quarto salão. Uma vez estando lá poderia agradecer pela hospitalidade, planejar uma forma de ir embora e, obviamente, saber o nome do nobre que me abrigava. Era preciso que eu continuasse a viagem que fazia para cumprir os desígnios de meu senhor. Ele havia me confiado uma missão importantíssima, não poderia falhar. Se fosse possível, deveria partir ainda antes do sol se pôr. Levantei-me da cama já recuperado das dores que sentia. Vesti uma roupa que julguei apropriada, lavei o rosto com a água que encontrei em uma bacia e resolvi observar como estavam meus ferimentos.

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Igor Alcantara Surpreendi-me deveras ao notar o que parecia impossível: As feridas já haviam cicatrizado quase que completamente. Apenas olhos bem atentos conseguiriam notar que ali já existiram cortes. O mais incrível foi que as lesões de minhas pernas, que não foram tratadas, também haviam se recomposto. Ele havia acertado: cuidando de meus braços, tórax e abdômen, já estava tratando de todo o corpo. Eu só não entendi como isso aconteceu. Suas habilidades médicas estavam confirmadas. Eu nunca havia visto nenhuma solução agir tão rápido no organismo. Essas minhas observações apenas reafirmaram as ótimas intensões do bondoso desconhecido. Saí do quarto tentando imaginar uma forma de ir embora para a cidade para onde estava indo antes. Como disse há pouco, Era imprescindível que retomasse meus afazeres. Meu senhor entenderia o atraso que fui impelido a cometer. Todavia, se esse atraso fosse muito grande, temia que ele não o compreendesse. Resolvi que pediria ao meu anfitrião uma carruagem de empréstimo. Na volta, seu condutor traria o pagamento do aluguel. Não havia outra solução. Era preciso ir, ele não se importaria em me ajudar. Deveria ter muitos criados e apenas um condutor de carruagens não faria falta. Enquanto atravessava os corredores, tentava imaginar o porquê de não ter visto um criado ainda. Ele mesmo abriu a porta, conduziu-me ao meu quarto e me serviu o jantar. Onde estavam os criados nesta hora? Será que ele fez isso para poder conhecer melhor a pessoa que iria hospedar? Mas se assim fosse, porque não perguntou meu nome e não se apresentou? De novo a dúvida acerca do nome voltava aos meus pensamentos. Ou então, pensei logo depois, ele, por ser tão bondoso, não quis acordar seus criados. Ora, que homem é esse que prefere ele mesmo trabalhar na 27


O Dia em que Deus Chorou madrugada sozinho à que acordar seus empregados? Seria isso bondade ou uma extrema falta de autoridade? Meu patrão é que estava certo ao dizer que os criados merecem o pior tratamento possível para que não abusem da benevolência de seu senhor. Este deveria ser o caso do inusitado dono daquele castelo. Desci as escadas. Apreciava cada novo momento daquele belo lugar. Fiquei imaginando se, por uma feliz coincidência, meu caridoso benfeitor não poderia conhecer o meu patrão. Isso era bem possível. Ambos eram ricos nobres. E se travassem uma amizade de longos anos? Tudo seria mais fácil para mim, pois sendo amigos, ele não se recusaria em me ajudar a continuar minha importante viagem. Raciocinando sob outro ponto de vista, e se fosses os dois cruéis inimigos? Bem, creio que me expulsaria no mesmo instante em que eu lhe contasse a quem servia. Poderia ser também que nem saibam da existência um do outro. Entretanto, para evitar maiores problemas, decidi que não revelaria o nome de meu senhor nem se torturado fosse. Ele entenderia minha lealdade. Foi com a mente cheia de dúvidas que cheguei ao salão onde me esperava o proprietário daquelas terras. A me ver, ele sorriu docemente e se levantou de sua cadeira desejando-me um bom dia. Retribuí sua gentileza e após ser convidado, sentei-me em frente ao lugar onde ele estava. Ele voltou a ocupar a cadeira. A mesa estava preparada para duas pessoas, o que eu estranhei bastante. Onde estavam os outros moradores? Ele parecia adivinhar meus pensamentos, mas não dizia nada. Esperei algum criado vir nos servir; nenhum apareceu. Só comecei a comer quando vi que ele fazia o mesmo. O que estariam fazendo os criados? Teriam saído para que pudéssemos conversar a sós? Era a explicação mais plausível. 28


Igor Alcantara A comida, como na noite anterior, estava sublime. Deliciei-me com os doces e os queijos. Comi com um enorme prazer tudo o que a mesa continha. No entanto, tudo isso sem perder minha refinada educação. Ele pareceu ficar feliz ao notar que eu aprovara o banquete matinal. Seu sorriso era puro e sincero. Enquanto mastigava as várias dúvidas que antes tinha, voltaram a me importunar. Vi que não conseguiria suportar tantas dúvidas por mais tempo. Deveria esclarecer tudo bem rápido. Decidi iniciar um diálogo. - Perdoe-me perguntar, mas por que sempre serves a comida pessoalmente se tens vários criados? - Ele sorriu, creio que já esperando minha pergunta, e falou: - Vistes alguns destes tantos criados aqui? - Não, não vi nenhum. - Ora, então como podes afirmar que existem vários aqui? - Possui um castelo grandioso, milorde. Apenas um número considerável de criados poderia cuidar bem de uma propriedade deste porte. - Realmente. Já possuí, se é que essa palavra seja a correta, muitos criados aqui. Hoje, no entanto, vivo só. - Perdoe-me de ser tão ousado, mas qual o motivo deles não mais estarem aqui? - Não vejo sua pergunta como ousadia, tranquilize-se. Chegou um dado momento da minha vida que eu precisei experimentar a solidão. Por isso, paguei-os muito bem e mandei-os embora. - E quem faz sua comida?

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O Dia em que Deus Chorou - Eu mesmo. -E tua família? - Eu não possuo família. Fiquei surpreso com tais declarações. Como poderia ele não possuir criados? Quando não vi nenhum servo, pensei em inúmeras possibilidades, apenas não imaginei a verdadeira razão. O que levou a expulsar seus criados? O que ele quis dizer com "experimentar a solidão"? Será que ele realmente não possuía família? A cada questão elucidada eram outras dúvidas que surgiam. O meu espírito curioso deixava-me inquieto. Pensei então em saber o nome dele. Será que me diria? Resolvi perguntar. Respirei fundo e retomei nosso diálogo. - Permitir-me-ia fazer mais uma pergunta? - Sempre que desejar saber algo não há necessidade de pedir permissão, já estás autorizado. - Porque não me disseste teu nome ainda? -Porque você não me perguntou. - E se eu perguntasse, você responderia? - Ora, e porque não? - Bem, qual é então seu nome? - Yves Druon. Esse é meu nome. - Belo nome. - Obrigado. 30


Igor Alcantara - E porque não perguntaste meu nome ontem à noite? Deu-me abrigo e comida e nem ao menos sabia quem eu era. - E por acaso é o teu nome que me dirá quem és? Não me importo com nomes, eles não são nada. O brilho de teu olhar ou a sinceridade de teu sorriso diz-me muito mais que um simples nome. Nomes e títulos só servem para exteriorizar aquilo que na verdade não temos. - E o que é que não temos? - A nobreza. Não perguntei teu nome porque não dou importância a isso. - Bem, mesmo assim di-lo-ei. Chamo-me Jacques Crisale. - Sinto um enorme prazer em conhecê-lo, Jacques. - O mesmo de minha parte. Foi muita bondade sua me socorrer. - Nada fiz além do que minha consciência me obrigou. Você iria morrer se eu não o ajudasse. - Mas você nem sabia quem eu era. Poderia ser um ladrão. - E não merecem ajuda também os ladrões? Não seria isso que me impediria de te ajudar. Nem teu nome, cargo ou posição social. Não se deve selecionar quem se vai socorrer. Foi então que percebi o quanto injusto havia sido ao julgar as razões que o levaram a me acolher. Imaginei-o tão mal quanto eu mesmo poderia ser. Meu orgulho impediu-me de ver o quanto ele era melhor do que eu. Naquele momento, no entanto, eu começava a perceber nele a bondade em sua forma mais pura. Somos tão inferiores que nossa visão limitada e animalesca nos impede de olhar para cima. Achamo-nos sempre 31


O Dia em que Deus Chorou melhores que tudo, quando a verdade é que não somos assim. Resolvi, então, parar de pensar um pouco nestas questões e procurar saber como ir embora. Voltei ao nosso diálogo. - Saber-me-ia dizer como posso sair daqui? - Sair daqui? - Isso mesmo. - Imagino que devias estar em uma importante viagem, mas houve um acidente. Já que chegou aqui sozinho, as outras pessoas com quem estava devem ter morrido. Acertei? - Perfeitamente! Estou impressionado. - Não se impressione, apenas usei a lógica. -E então, como faço para sair daqui? - Não desejas mais desfrutar minha companhia? - Oh! Por favor, não pense isso. Acho-o agradabilíssimo. Não é por este motivo. - É porque então? - Viajava como já adivinhaste em uma importante missão designada pelo meu senhor. Preciso concluir o que comecei. - Admiro tua lealdade. Para onde deves ir? - Para o sul do país. No entanto, peço-te condução apenas até a cidade mais próxima. Ainda tenho algumas moedas de ouro que consegui guardar do acidente. Uma vez estando lá, facilmente consigo quem me 32


Igor Alcantara leve ao meu destino. - Tens urgência nesta tua missão? - Sim, muita. - É uma pena. - Como assim? - Deixe-me explicar. Como bem vê, não tem nenhum criado. Também não tenho cavalos ou outro meio que possa te transportar. Meu único contato com alguém de alguma cidade é com um mercador. Ele vem aqui uma vez por mês trazer-me mantimentos. Pago-o bem por seus produtos e por seu sigilo. Pode voltar com ele. É a melhor solução. Andando você gastaria três dias e três noites se não parasse um só minuto. - E qual a próxima que vez que ele virá? - Daqui a dez dias. - Dez dias? É muito tempo! - É a única saída. - Creio que tens razão – respondi após refletir um pouco. - Então está resolvido! És meu hóspede nestes dez dias. - Não irei incomodá-lo? - De forma alguma, será um imenso prazer. Encare esse período como uma folga de seu trabalho. -Mas falaste-me agora a pouco que vives sozinho por opção própria. 33


O Dia em que Deus Chorou Não irei atrapalhá-lo? - Estou solitário há muitos anos. Será bom ter um amigo por alguns dias. - Bem, sendo assim, só tenho a agradecer – disse eu, tentando encerrar a conversa. Ele sorriu, levantou-se e ficou ao meu lado. Tocou-me o rosto e beijoume a face, voltando ao seu lugar logo em seguida. Só então voltou a falar. - Já que vais ficar aqui, tenho que te dizer algumas palavras. - Ouço-te atentamente. - Quero que te sintas à vontade. Podes percorrer todo o lugar à exceção de um local, a ala sul. Fico lá o dia inteiro trabalhando em algo muito importante e sigiloso. Desculpe-me por falar assim, mas eu o proíbo de ir lá. Nos veremos nas refeições e à noite, quando poderemos conversar. Alguma dúvida? - Não. Entendi perfeitamente. Não te preocupes, não irei à ala sul. - Ótimo! O resto do tempo ficará sozinho. Bem, agora preciso voltar para minhas tarefas. Fique à vontade. Até breve! - Adeus! -Despedi-me. Observei-o sair por alguns instantes. Que trabalho seria este que ele executava? Seria tão sigilosa essa atividade a ponto de ser-me proibido andar em qualquer lugar da misteriosa ala sul? O que haveria lá? Mais dúvidas surgiam. Tais dúvidas, no entanto, não teriam como serem elucidadas. Prometi não ir a tal ala. Não poderia, nem em pensamento, pensar nisso. Ele confiava em mim. Não deveria nunca traí-lo. Salvou minha vida. Devo isso a ele. Sempre lhe serei grato por sua hospitalidade 34


Igor Alcantara generosa. Independente do que poderia existir na ala sul, prometi para ele e para mim mesmo que nunca colocaria meus pés lá. Era mais que uma promessa, era um pacto de lealdade. Saí do quarto salão e sentei-me em uma poltrona localizada em outro ambiente do castelo. Olhava para todos os lados imaginando o que poderia fazer a fim de preencher o tempo até a chegada do almoço, quando nos veríamos novamente. Não conseguia pensar em nada agradável que pudesse fazer. Tudo o que vinha em minha mente eram ideias fúteis e desagradáveis. Não conseguia suportar a solidão, por isso era urgente procurar uma ocupação. Pensei muito até que veio em minha cabeça a atividade perfeita: ler. Isso era algo que me agradaria muito. Aquele castelo, com toda certeza, deveria abrigar uma enorme biblioteca em algum lugar. Foi então que percebi o problema maior. Como achar, com tantas salas, quartos e corredores, a localização da dita biblioteca? Era um castelo grandioso, seria muito trabalhoso encontrar o que eu procurava. Não poderia, no entanto, desistir antes mesmo de tentar. Decidi elaborar um plano de ação para facilitar minha busca. Existiam quatro alas, sendo que uma delas, a ala sul, eu estava proibido de ir. Restavam três. Agora era apenas escolher qual delas ir primeiro. Após uma curta reflexão, decidi começar pela ala oeste, que era aquela onde estava localizado meu quarto. Se não encontrasse nada, iria procurar na ala norte e, por fim, se obtivesse novo fracasso, partiria para a ala leste. Seria difícil, mas uma certeza eu tinha, iria conseguir. Teria sucesso, independente de quantas minhas investidas iriam custar. Sem perder mais tempo, parti para minha busca na ala oeste. Subi algumas escadas e logo cheguei ao primeiro corredor. Não era muito longo, mas era bem decorado. Já conhecia bem seus detalhes. Passei por 35


O Dia em que Deus Chorou ele para ir até meu quarto. Possuía um tapete ornamentado que aparentemente deveria ter um valor muito alto. Não dava acesso a nenhuma porta, apenas a três corredores paralelos entre si. Entrei no primeiro destes três corredores, continuando o percurso que fazia para ir para meu quarto. Ele já era diferente por possuir várias portas em sua extensão. Comecei a abrir as tais portas uma a uma. Havia apenas quartos, nada mais. "Por que tantos quartos para um único morador?" - Foi o que pensei no momento. Continuei procurando, desta vez em outro corredor maior ainda. Mais quartos, era tudo o que eu conseguia encontrar. Um destes quartos, inclusive, era o meu. Olhei-o por alguns instantes e voltei à busca. Retornando ao corredor anterior, entrei em outro e continuei abrindo as portas. Desta vez foi um pouco diferente. Havia vários quartos, mas também duas saletas com poltronas grandiosas e outra sala maior com uma mesa muito bela. Em outro corredor também não obtive sucesso, eram apenas outros tantos quartos. Será que só existiam quartos naquela casa? Foi também assim com outros três corredores por onde andei naquela parte da ala oeste. Achar a biblioteca estava se tornando uma tarefa mais difícil do que eu havia imaginado. Voltei ao primeiro corredor e, a partir deste, dirigi-me a outra passagem. Ao entrar, não pude ver o fim do mesmo, tão grande ele era. Continuei no meu ritual de abrir de abrir e fechar portas, ainda não obtendo sucesso. Ao entrar em outro corredor dentro deste, deparei-me com uma escada que ascendia não se sabe para onde. Subi por ela e encontrei outra dezena de corredores. Continuei procurando; um pouco desanimado por ver tantos corredores 36


Igor Alcantara e também um pouco empolgado por sair da antiga rotina de cenários. Fui andando por todos esses corredores não deixando de abrir nenhuma porta. Eram salas, quartos, outros corredores e até mais escadas. Continuei abrindo portas, percorrendo corredores e subindo escadas em busca da tão desejada biblioteca. O resultado era sempre o mesmo: nada. Desci todas as escadas que havia antes subido e retornei ao primeiro de todos os corredores, aquele que não possuía portas, para poder, então, penetrar na última das três principais passagens. Se a biblioteca estivesse na ala oeste, estaria nele. No entanto, o que eu julguei fácil, tornava-se cada vez mais complicado. Esse corredor era ainda maior e dava acesso a um número considerável de outros halls. Retomei fôlego e prossegui a caminhada. Ao contrário do que eu mesmo previa, esta era a parte da ala oeste, mesmo sendo a maior, com a menor quantidade de quartos. A maioria das portas que eu abria, escondiam atrás de si um respeitável número de salas e salões. Tudo era de uma sincronia de decoração impecável. Algumas possuíam lareiras e outras, mesas. Todas, no entanto, eram providas de poltronas. Em um dos tantos corredores, visualizei uma escada que chamou minha atenção por sua singularidade. Ela era a única que possuía detalhes com temas diferentes ornamentados em seu corrimão. Cheguei bem perto para examinar. Era uma espécie de arte originária do oriente, provavelmente das Índias. Olhando melhor notava-se uma beleza quase exótica. Mulheres com três cabeças e quatro braços, cada qual um uma posição diferente. Não me recordo por quanto tempo fiquei observando estes detalhes, mas cada vez que olhava eu descobria novas formas. Além das já faladas estranhas mulheres havia vários animais. Entre esses, os que mais me impressionaram foram os elefantes. Eram um tanto quanto estranhos. Foi então que, em um momento de distração, algo passou por trás de 37


O Dia em que Deus Chorou mim e subiu com destreza a escadaria. Não consegui identificar quem ou o quê era o tal vulto, mas senti um incontrolável impulso de segui-lo. Rapidamente subi as escadas e cheguei a um vasto corredor. Não conseguia vê-lo, pois ia muito à minha frente, mas podia notar seu rastro. Deixava todas as portas abertas nos corredores por onde passava. O som que isso provocava era bastante alto. Por mais rápido que eu corresse era difícil alcançá-lo, pois sua velocidade era surpreendente. Como alguém (ou algo) poderia correr tão rápido? Aproveitei a perseguição para olhar pelas portas abertas que "ele" deixava. Assim estava também procurando a biblioteca. Corri bastante até esgotar-me e nenhum sinal dos dois: o vulto e a biblioteca. Voltei para a dita escada onde tudo havia começado. No caminho aproveitava e fechava as portas abertas. O que seria aquele vulto misterioso? Por que corria com tanta pressa? Yves não havia dito que morava sozinho? Não conseguia imaginar respostas para estas questões; por isso, decidi não mais pensar nisto e continuei minha cansativa busca. Penetrei em outros corredores e em todos era a mesma coisa. De qualquer modo, eu continuava minha procura. Não poderia dá-me por vencido. Já estava cansado de abrir e fechar portas e não encontrar o que tanto desejava achar. Estava me sentindo solitário, precisava de um livro para ocupar meu tempo. Que solidão poderia ser pior que a de não ter nem um livro para servir de companheiro? Era correto que existia Yves com quem eu poderia conversar, mas apenas nos veríamos à noite e durante as refeições. Era necessário procurar alguma atividade para as horas restantes. Por isso essa minha busca incansável à biblioteca. Tais pensamentos deram-me disposição extra para continuar. Foi o que fiz. Procurei em todos os corredores, abri todas as portas, subi e desci todas 38


Igor Alcantara as escadas. Após muito tempo cheguei à conclusão que já era óbvia desde muito: A biblioteca não estava na ala oeste. Não havia, e disto eu tinha absoluta certeza, nenhum lugar naquela região que meus olhos e pernas não haviam vasculhado. Meus pés doíam de tanto andar. Resolvi voltar ao segundo salão para descansar em uma das poltronas que lá existiam. E assim aconteceu. Precisava recuperar-me antes de prosseguir e aquele lugar era ideal; aprazível e relaxante. O meu próximo destino era a ala norte. Tinha dois desejos imediatos: Primeiro, que esta fosse menor que a oeste; segundo, que a biblioteca estivesse lá. Não era de meu interesse andar por muito mais tempo. Olhava para uma pequena estatueta à minha frente quando um pensamento veio à minha mente: e se a biblioteca não estivesse também na ala norte, e na ala leste, mas na misteriosa e proibida ala sul? Eu não poderia ir lá; por isso, desejei ardentemente que esse pensamento não fosse real. Pouco depois, outra ideia povoou minha cabeça, mas ela era absurda demais para que eu gastasse meu tempo pensando em tal bobagem. Como poderia um castelo daquele porte não possuir biblioteca? Já farto de não fazer nada, levantei-me a fim de me dirigir à ala norte. Atravessei três imponentes salões antes de chegar lá. O primeiro destes salões, creio que construído para reuniões sociais, era o maior de todos. Possuía um belíssimo cravo em um dos lados que me relembrou as festas da corte. Pensei em tocá-lo, mas como nunca tive aulas de música, logo desisti da ideia. A área de circulação era bastante generosa. O segundo salão, por sua vez, não possuía um bom tamanho. Deveria ser, segundo pensei, apenas uma área de transição. Não possuía nenhuma expressividade e nem nada que pudesse impressionar. 39


O Dia em que Deus Chorou O terceiro salão, todavia, tinha uma atmosfera própria. Sua sobriedade era estarrecedora. A cada inspiração, meus pulmões se preenchiam com o mefítico hálito da morte. A luminosidade era precária mesmo sendo dia. Apenas havia uma pequena janela por onde os tímidos raios de sol penetravam. Meus pés tocavam aquele solo com o máximo de cautela. Olhava para todos os lados à espera que algo fosse acontecer. Estava sentindo novamente o mesmo mórbido pressentimento que havia sentido dentro da carruagem. Minhas mãos estavam preparadas para se defender de qualquer perigo que se fizesse presente. Procurava respirar da maneira mais calma possível. Era necessário manter o autocontrole acima de tudo De súbito, uma rajada de vento reproduziu um estranho ruído que me assustou. A ameaça poderia vir de qualquer lado e, por isso mesmo, era necessário manter-me atento. Qualquer movimento não calculado poderia ser prejudicial. Cada passo que dava era minuciosamente pensado. E foi deste modo, em um clima que beirava o terror, que eu cheguei à entrada do meu próximo objetivo: A ala norte. Ao contrário da ala oeste, esta não se iniciava com uma escada, mas com vários corredores. Observei com atenção o que havia em minha frente e escolhi um destes para começar. Comecei minha busca de modo cauteloso. Este corredor possuía poucas portas, mas era o mais longo que havia visto até aquele momento. O aspecto era sombrio como no salão onde antes estava. A sujeira dominava o ambiente. Abri a primeira porta e vi uma sala vazia e coberta de poeira. O mesmo aconteceu com dois outros quartos que vasculhei. Continuei andando pelo corredor e encontrei outra porta. Dentro, para a minha surpresa, havia um belíssimo jardim. Olhei para cima e não vi o teto. Creio que a abertura existente em seu lugar seria para dar passagem à água quando chovesse. Era um jardim grandioso e muito diversificado. Havia várias 40


Igor Alcantara espécies de flores e um modesto pomar com aproximadamente doze árvores. A grama já estava bastante alta, mas isso pouco diminuiu a beleza que observava. Não desejando mais perder tempo, fechei a porta e continuei. O restante do longo corredor não mais possuía portas, o que só me levou a encontrar, no final, outro corredor. Contrariando todas as minhas expectativas, esse novo corredor não era perpendicular em relação ao que eu já estava. Ele era inclinado e até mais longo. Notei que entrara quase no meio desta passagem, tendo dois sentidos para escolher. Optei pelo que aparentava afastar-se mais em direção norte e prossegui. Desta vez não havia nenhuma porta, só corredores que se ramificavam diversas vezes. Preferi continuar em linha reta. Andei enquanto observava o modo estranho desses corredores se interligarem. Não demorou muito até que tive minha maior surpresa até então, logo ao chegar ao final do mesmo. Havia penetrado em um gigantesco salão. Sua forma era oval e dele saíam vários corredores, formando uma espécie de sol. Ao lado de cada um desses corredores existia uma estátua com alturas variadas, mas todas maiores que um homem. Entre uma escultura e outra, quase tocando a parede, haviam bancos esculpidos em mármore. Vários candelabros de três velas fixos em altura da cabeça das estátuas serviriam de iluminação caso eu pudesse acendê-los. O chão era feito de uma pedra da cor do bronze. Nele estavam esculpidos diversos desenhos de pessoas ajoelhadas e voltadas para o centro do salão. O teto era tão alto quanto eu conseguia enxergar, com todos os lados convergindo para o topo e para o centro formando uma espécie de pirâmide. Toda superfície do teto era pintada e possuía vitrais igualmente pintados com temas religiosos. A luz que entrava por esses vitrais convergia de forma descendente para o meio do salão. 41


O Dia em que Deus Chorou A uns quinze passos largos de onde eu estava, havia uma pequena escadaria, igualmente ovalada que levava ao centro do salão. Aproximeime com muito cuidado e comecei a subir a escadaria. O salão foi construído de tal forma que, chegando de qualquer que fosse o corredor, a pessoa teria a mesma visão simétrica. Notei que cada degrau possuía desenhado em sua extensão, uma longa serpente que comia o próprio rabo. A posição da cabeça das cobras variava, estando cada cabeça de frente com um corredor. Sendo assim, o número de corredores era o mesmo que o de degraus. Continuei subindo e logo estava no topo. Deparei-me, logo que cheguei, com um altar imponente. As luzes de todos os vitrais convergiam para uma cruz pouco maior do que eu, cravada no centro. Rodeando-a, havia uma mesa redonda com um orifício por onde atravessava essa mesma cruz. Essa mesa possuía uma toalha branca e limpa. Olhei para o teto e notei que no centro de convergência dos lados do mesmo havia um cristal esférico quase que suspenso no ar. A cruz era de uma belíssima pedra prateada e brilhante. Ao seu redor, formando uma espécie de contorno, havia vários pequenos diamantes. No ponto de união das duas pedras que formavam a cruz, existia encrustado um imenso rubi esférico rodeado por uma circunferência de ouro. Fiquei impressionado com tamanha beleza. Meus olhos brilhavam, parecia paralisado. Em um impulso que não pude conter, subi na mesa e me aproximei da cruz. Observei-a por alguns instantes e inconscientemente levei minha mão ao rubi e toquei-o. Meu coração disparou quando notei que o conjunto mesa-cruz-piso se moveu um pouco para o lado como se fosse uma peça só. Esperei alguns instantes até me acalmar e desci da mesa. Ao tocar o rubi, acabei disparando algum tipo de mecanismo que fez a pedra redonda do 42


Igor Alcantara chão, logo acima do último degrau da escadaria, mover-se, levando consigo a cruz e a mesa que sustentava. Esse movimento abriu alguma espécie de passagem subterrânea. Sem perder muito tempo, voltei à mesa, acendi as velas de um dos candelabros que lá estava e levei-o comigo. Foi com certo receio, mas também com empolgação pela minha já falada curiosidade, que adentrei pela obscura passagem. Era uma espécie de torre subterrânea no formato de um cilindro em pé. Havia uma escada em forma de hélice. Fui descendo com o candelabro à minha frente para iluminar o caminho. Era uma decida bastante acentuada e perigosa, pois não havia corrimão para me apoiar. Caso escorregasse, fatalmente cairia no profundo poço que a torre formava. O clima era de tensão. A passagem era muito profunda. Quanto mais eu descia, mais o ar se tornava denso e sujo. A respiração era difícil pelo excesso de poeira que havia em suspensão. Foi deste modo que cheguei ao fim da escada. A escuridão era plena. Se não estivesse com o candelabro, seria-me impossível enxergar qualquer objeto que se colocasse em minha frente. Comecei a andar com o intuito de explorar aquela área tão obscura do castelo. Novamente minha insistente curiosidade agia obrigando-me a correr riscos desnecessários. Eu tinha plena convicção de que a biblioteca não estava lá, mas como havia descoberto tal passagem, deveria continuar minha peregrinação até o fim. Ao contrário do que deves supor, eu não estava com medo. Uma inexplicável tranquilidade dominava-me, levando-me adiante. Encontrava-me em uma espécie de salão. A sujeira era maior do que sua capacidade de imaginá-la. Não posso precisar o tamanho do ambiente. A luz do candelabro apenas me permitia ver alguns metros. Era notadamente uma área do castelo não visitada há muito tempo. Andei 43


O Dia em que Deus Chorou mais alguns passos e deparei-me com uma porta de exagerada espessura. Notei que se estava aberta e resolvi entrar. Não se tratava de um quarto, como inicialmente pensei. Era uma pequena, segura e imunda cela. Movi as velas de um lado para o outro para visualizar a totalidade do ambiente. Não existia janela ou qualquer outro local por onde a luz pudesse penetrar. Todos os outros cômodos que visitei naquele calabouço eram igualmente celas. Não havia, entretanto, indícios de que algum prisioneiro já tivesse lá vivido. Não encontrei ossos, restos de comida ou alguma roupa. Era como se aquelas celas nunca tivessem sido usadas. Aquela escuridão e a sujeira começaram a me incomodar. Pensei em sair dali para continuar a busca pela biblioteca. Já começava a subir a escada quando me lembrei do tamanho da mesma e desanimei. Decidi procurar primeiro outra saída menos íngreme para não me cansar muito. Comecei a andar por um estreito corredor que era como rampa ascendente. A cada passo dado, a escuridão era menor. O caminho possuía a forma de uma espiral. Havia, com incrível facilidade, encontrado o caminho de volta. Foi deste modo que cheguei ao fim do corredor e adentrei em outro. Continuei abrindo e fechando portas. Encontrei quartos, salões e até uma belíssima capela, mas nada da biblioteca. Por todos os corredores que andava também não achei nenhum sinal do antigo salão oval (o salão-sol) por onde adentrei no calabouço. A verdade é que eu havia perdido a noção de direção e sentido que antes me guiava. No entanto, não me preocupava com isso, queria encontrar a biblioteca. Essa busca tornou-se uma obsessão. Eu precisava achar algo que me ocupasse durante os dias que me separavam de meu transporte ao destino da viagem. 44


Igor Alcantara Quando entrei em um novo corredor não percebi que a atmosfera havia mudado. Não sei dizer se era algo bom ou ruim, mas garanto que me deu um pouco de paz. Era um corredor repleto de obras de arte. Quadros, uma escultura ao lado de uma porta e até uma belíssima armadura que, creio eu, deveria ter sido usada na guerra contra os infiéis do oriente para a retomada das terras sagradas. Todo esse esplendor não me chamou a atenção. Foi apenas um quadro, aquele que parecia ser o mais simples, que me tocou. Era uma mulher sentada sob uma árvore em um belo jardim. O quadro era tão real que eu podia sentir o brilho do olhar da dama. Ela parecia estar apaixonada por alguém que julguei ser o pintor, pois seus olhos olhavam-me com tal expressividade que fiquei paralisado, como que enfeitiçado. Cada detalhe do seu corpo era perfeito. Como poderia existir mulher assim? Seus lábios entreabertos excitaram-me mais do que se estivesse nua. Não parecia ser uma pintura. Possuía algo mais. Possuía vida. Era como se a mulher daquele quadro existisse dentro daquele mundo pintado. Não sei por quanto tempo fiquei observando a imagem, mas quando voltei à realidade, notei o que já era quase óbvio: Estava perdido! Isso me desesperou. Precisaria encontrar logo a saída. Supus que a biblioteca deveria estar na ala leste, pois aquela dita ala norte, além de mais parecer um labirinto, não apresentava a atmosfera necessária para possuir uma biblioteca. Meu objetivo passava a ser então, a busca do caminho que me permitiria sair daquela obscura ala. E foi neste momento que respirei fundo e comecei a andar.

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O Dia em que Deus Chorou Cada vez mais, os corredores pareciam pontos incomuns em meio a uma imensidão de caminhos e possibilidades. Cada ambiente guardava um segredo que minha mente tentava em vão desvendar. Optei por não abrir nenhuma porta mais naquela ala. Isso só me faria perder mais tempo. Quanto mais eu andava mais perdido me encontrava. A cada instante uma aflição desconcertante me dominava. Minha respiração começava a ofegar e meu pulso já se encontrava acelerado. A sensação de se perder é horrível, algo que nunca mais quero sentir. Será que era esse o mal que eu havia pressentido? Ou, tremi só de pensar nessa possibilidade, algo pior me esperava? Apressei o passo como se isso fosse me ajudar em alguma coisa. Minha cabeça olhava de um lado para outro como um caçador, em plena mata, buscando sua presa. O pior é que, considerando as circunstâncias, eu é que era a caça. Estava fugindo, mas não sabia para onde nem de quem. Procurava algo familiar, algum detalhe ínfimo que já tivesse visto. Assim, poderia seguir esta pista e achar a saída. Andei por longo tempo, mais atento que uma águia, mas não encontrei nada que estimulasse minha memória. Meus passos, de tão rápidos, começaram a se transformar e em pouco tempo eu já estava correndo. Corria desesperadamente como um garoto fugindo do seu pior pesadelo. Eram mais e mais corredores e nenhum sinal de saída. Percorri cada um deles e não notava que, algumas vezes, repetia um caminho já feito. Em certo momento, não me lembro de exatamente quando, meus pés cansaram-se demais e eu sentei no chão para descansar. Coloquei minhas pernas dobradas com os joelhos à altura dos ombros e apoiei minha cabeça entre elas. Não sei qual o motivo, mas de repente comecei a chorar. Era um choro contido, calado e solitário, mas sincero. As lágrimas desciam ao mesmo tempo em que eu soluçava. Estava perdido e indefeso. 46


Igor Alcantara Foi estranha essa minha atitude, mas compreensível. Minha cabeça estava baixa e eu abraçava meus próprios tornozelos na tentativa de manter-me equilibrado. Meu nariz começou a ficar úmido e seu líquido, fazendo companhia às minhas lágrimas, extravasou indo de encontro com meus lábios secos. As paredes que me cercavam e toda a imponência daquele gigantesco castelo amedrontou-me a este ponto. Sim, eu chorava. Não sei dizer por que, foi apenas um impulso de momento. Inexplicavelmente, uma força interior vinda dos confins de minha alma inundou-me de esperança. Senti vergonha de minha fraqueza e de meu choro infantil. Limpei meu rosto, transbordei meu pulmão de ar em uma forçada inspiração e levantei. Continuei minha busca pela saída com uma disposição invejável. Atravessei os corredores e andei por todos os lados, não me importando com o fracasso. Andei por um tempo considerável até que, em um corredor qualquer, vi uma porta entreaberta. Parei subitamente e observei aquilo por alguns momentos. Existiam duas possibilidades (lá esta eu de novo criando hipóteses acerca de detalhes insignificantes) a se pensar: Aquela porta havia aberto por mim mesmo, e isso seria ótimo, pois significava que a saída estava próxima; ou existia alguém naquele cômodo, talvez o tal vulto visto (e perseguido) por mim horas antes. O fato é que não havia justificativa para me manter parado diante de tal dúvida. Deveria esclarecê-la caminhei em direção à porta. Transpirava de forma abundante apesar do frio (já era praticamente inverno). Cada passo que eu dava era calculado com precisão. Meu coração parecia desejar saltar fora do meu corpo tamanha era sua agitação. Olhava para todos os lados prevenindo-me de qualquer surpresa indesejada. 47


O Dia em que Deus Chorou Eu e o tal vulto havíamos adquirido uma antipatia mútua. Temia ter que sentir novamente a horripilante sensação dele passando por trás de minhas costas. O mais intrigante de tudo é que, apesar de toda essa repugnância, eu nunca havia visto o tal vulto. Apenas senti sua presença, nada mais. E se ele nem existisse de verdade, não passando de mero fruto de minha imaginação? Todo aquele ar de mistério que envolvia o castelo poderia ter me feito criar em minha mente a existência de algo ou alguém imaginário. A solidão enlouquece as pessoas e eu temia estar sofrendo este efeito. Não mais perdendo tempo com pensamentos evasivos, prostrei-me frente à porta e terminei por abri-la. Uma enorme alegria dominou-me ao ver que eu encontrara o antigo jardim que antes havia visto. Agora seria fácil achar a saída. Bastava percorrer o caminho de volta e estaria tudo resolvido. Fechei a porta e, em um maravilhoso treinamento de memória, fui refazendo o percurso que me levara àquela área tão indesejável ala norte. Não foi longo o tempo que andei depois disso. Logo já me via fora da ala norte. O cansaço que sentia era enorme, não podendo descrevê-lo em palavras. Decidi que não perguntaria à Yves sobre a biblioteca. Era uma questão de honra encontrá-la. Só me restava a ala leste, não seria tão mais difícil. Mas isso deveria ser feito apenas no período da tarde, pois estava com fome e meu anfitrião poderia estar à minha espera para comermos. Percorri os salões com uma gratificante alegria por ter conseguido sair da ala que mais parecia um labirinto. Por um momento, não tão breve, confesso, cheguei a pensar que ficaria preso para sempre. Como era bom estar de volta!

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Igor Alcantara No salão de refeições, minha presença era aguardada por monsieur Druon. Um cordial sorriso formou-se em seu rosto e isso me tranquilizou bastante. Sentamo-nos à mesa a fim de saciarmos a fome. Um espetacular banquete estava à nossa frente. Impressionei-me muito com as qualidades culinárias de meu novo amigo. Tenho certeza que ele não faria papel de idiota perante nenhum "chef" da capital. A "caçada" à biblioteca abriu em mim um apetite incrível. Como o sabor da comida estava maravilhoso, eu comi bem mais do que dita a boa educação. Yves, no entanto, não demonstrava ofender-se com isso. Notei que ele, por comer uma quantidade bem menor que a minha, mastigava em uma lentidão quase cadavérica. Creio que fazia isso para que pudéssemos terminar juntos, o que evitaria que eu ficasse constrangido. Conversamos pouco à mesa. Estávamos absortos em nossos pensamentos e não fizemos nada para quebrar a barreira existente entre nós. Por um momento tentei imaginar o que ele tanto pensava, mas a mente humana é complexa demais para que eu pudesse ao menos me aproximar da verdade que rondava Yves Druon. Sabia, no entanto, que não era eu quem povoava seus pensamentos. Ele estava em algum lugar além de minha compreensão. Era isso que seus olhos mostravam. Creio que poderia dançar nu encima da mesa e ele nem notaria. Seu olhar transmitia um brilho impossível de descrever. Ah! Aqueles belos olhos... Sei que nunca poderei esquecê-los. Sua atenção só retornou a mim após algum tempo que eu já havia terminado de comer. Ele pediu-me desculpas, acho que envergonhado. Disse que o trabalho, o tão importante trabalho que executava, estava deixando-o distante. Falei que isso não era motivo para pedir-me desculpas, compreendia-o muito bem. Foi então que ele me respondeu com uma frase que me lembrarei para sempre: 49


O Dia em que Deus Chorou - Não podes me compreender sem saber quem eu sou verdadeiramente sou. - Minha resposta foi um desconcertante silêncio. Então, percebendo o efeito que causara em mim, ele se despediu e saiu. Fiquei um tempo paralisado após ouvir aquilo. Quando nos fitamos, todo meu passado voltou em minha mente e eu tive medo de despencar no chão. O olhar dele tinha o incrível poder de investigar nossa alma até os confins do nosso subconsciente. Sua personalidade era como um novo oceano a ser descoberto. Ele era vasto, mas ao mesmo tempo, misterioso. Todavia, isso não era algo que me incomodava ou me fizesse mal. Ao redor dele reinava uma atmosfera de paz que me tranquilizava. Não haveria motivo para se preocupar, já estava mais do que provado que ele queria me ajudar. O que eu deveria fazer era parar de pensar nisto e retomar minha busca à biblioteca. Pus-me deste modo, a caminhar em direção à ala leste. Atravessei três grandes salões e já lá estava. Respirei fundo e pensei no quanto trabalhoso seria essa minha nova busca. Deveria estar atento para que não ocorresse de novo o que havia acontecido na ala norte. Decidi que deixaria uma porta de cada corredor que passasse aberta. Assim, caso me perdesse, poderia facilmente achar o caminho de volta. Se tivesse tido essa ideia antes, não teria me perdido na obtusa ala norte. Entretanto, não ajudaria em nada lamentar-me do passado, deveria sim concentrar-me o bastante para concluir o que já havia começado. Adentrei no primeiro corredor um tanto temeroso, mas decidido sobre o que iria fazer. A ala leste era um tanto diferente das demais que tinha visitado. Ela era mais ampla, clara e muito mais bela. Seu aspecto era antigo, mas mesmo assim ela encontrava-se limpa. E, contrariando meu pensamento inicial, a quantidade de quartos era mínima nesta ala. 50


Igor Alcantara Existiam ambientes de diversos usos e aplicações. Encontrei lá, inclusive, uma belíssima sala de jogos. Fiquei imaginando quantas vezes no passado nobres cavalheiros já não foram àquele lugar fumar e conversar sobre as trivialidades da vida. Era um salão bem amplo com espaço para diversas pessoas. Possuía uma beleza particular que me encantou. Continuei minha busca por outros corredores seguindo o mesmo velho ritual de abrir todas as portas. Em um dos aposentos, o qual julguei ser a sala de chá, vi um retrato que muito me impactou (é incrível como deixo retratos me impressionarem). Abaixo do quadro havia apenas escrito "Conde Druon - 1273". Logo notei se tratar de um antepassado de Yves. Não percebi isso apenas pelo nome ou pela data de séculos atrás, mas pelos traços que pouco lembravam meu novo amigo e anfitrião. O senhor do quadro possuía as feições rígidas e o rosto marcado pelo sofrimento. Tinha um vasto bigode que conferia-lhe um ar severo, como um típico nobre do interior. Deveria ter sido alguém convicto em suas tradições. Logo que o vi, pensei: "Eis um homem que viveu". Ao final do terceiro corredor, um pouco escondida, havia uma escada. Seu formato era o de uma circunferência e ela dava acesso ao andar superior. Sem pensar duas vezes pus-me a subi-la. Guardava em minha memória cada detalhe que pudesse evitar que eu me perdesse. O silêncio era tão grande que cada passo dado emitia um estrondoso som que ecoava por toda aquela região. A escada era de um tamanho considerável. Creio que poderia deitar-me em qualquer degrau sem que nenhuma parte de meu corpo ultrapassasse os limites do mesmo. Não sei o porquê de tanta imponência já que não era costume mais de duas pessoas subirem lado a lado uma escada. No entanto, essa (a imponência) era a forma dos nobres mostrarem sua superioridade em relação aos outros. 51


O Dia em que Deus Chorou No andar superior, encontrei um salão de uma perfulgência impressionante. Fiquei embasbacado com tanta beleza. Tentei, entretanto, não perder mais tempo olhando para aquele local. Sendo assim, escolhi uma das passagens e continuei minha procura. Andava já um pouco desestimulado pelos fracassos anteriores. Em contrapartida, um desejo interior provindo não sei de onde me dava forças para prosseguir. Sei que deve parecer um tanto tolo tamanho sacrifício apenas para achar uma biblioteca, mas eu não conseguia parar nada que já tivesse começado. Sempre fui assim e acho que essa minha característica que é responsável por boa parte dos sucessos que já havia tido. Por isso, entenda, eu precisava continuar. Felizmente, ao contrário do que eu já previa, essa procura não demorou muito tempo. E a explicação para isso, como deves imaginar, é muito simples: eu encontrei a biblioteca! Fiquei alegre como se tivesse vencido uma guerra. Ela era a sétima porta à esquerda do terceiro corredor daquele novo andar que investigava. Depois de tanto sacrifício, foi muito bom obter sucesso em tal investida. Pela simples sensação que tive e pela bela vista da biblioteca, eu seria capaz de fazer tudo novamente. Existiam lá mais livros do que eu poderia ler em toda minha vida, mesmo se dedicasse todas as horas durante um século. O novo problema, esse muito fácil de resolver, seria escolher a melhor opção de leitura para aquele momento. Eram tantos títulos que eu não tinha a menor ideia por onde deveria iniciar. Passei rapidamente os olhos pela estante próxima a mim, onde parecia haver os livros mais novos. A princípio, nenhuma obra ou autor em especial chamaram minha atenção. Foi então que olhei de relance um manuscrito em ótima encadernação que despertou minha curiosidade. Peguei-o logo que o vi. 52


Igor Alcantara Era uma obra recente com o título "Groatsworth of Wit". Um livro que, segundo eu já sabia, tinha sido distribuído à apenas alguns poucos amigos do autor. Este por sua vez, eu tive a oportunidade de conhecer. Era Robert Greene, um dos dramaturgos da Companhia de Teatro Real. Na minha juventude, quando meu senhor mandou-se a Londres a fim de continuar meus estudos, acabei entrando para esta companhia, sem o conhecimento de meu patrão, obviamente. Sentei-me, portanto, em uma poltrona e iniciei a leitura. Era a autobiografia do Sr. Greene, ao final de sua carreira, quando sua obra já havia sido esquecida. Uma parte do livro chamou minha atenção. O trecho dizia "há um jovem ator, nem formado e nem fidalgo, mas um 'agita-cenas' presunçoso, que tem a audácia de se apresentar como dramaturgo e escrever peças que o público prefere às minhas. Nada mais é do que um coração de tigre envolto na pele de um ator". Parei um pouco para refletir naquela frase. Não havia a menor dúvida que se tratava de meu melhor amigo em terras inglesas. Ele era um ator como eu, mas em pouco tempo começou a escrever peças, ficando rapidamente popular. Isso irritou bastante ao Sr. Greene, pois ele era apenas um pobre camponês que largou sua vida humilde em Warwick, nas baixas colinas de Budbrooke, para tentar um futuro melhor na capital do império. O fato é que eu não pude acompanhar seu sucesso, pois fui logo expulso da companhia ao descobrirem que era estrangeiro. Esse meu grande amigo foi muito importante para mim. Foi ele, inclusive, que me incentivou a começar a escrever. Escrevi uma única peça sobre um jovem príncipe que descobre que seu tio matou seu pai para tomar-lhe o trono e, após saber desta revelação, resolve se vingar. Não gostei muito, por isso deixei os manuscritos com ele. Eu nem ao menos dei um título à peça. A última e única notícia que tive sobre ele foi que faleceu quatro anos atrás. Quando li o livro, logo soube 53


O Dia em que Deus Chorou que se tratava dele, pois quem mais poderia ser o "agita-cenas"? Continuei lendo as considerações finais de Robert Greene quando comecei a me sentir sufocado dentro daquela biblioteca abafada. Decidi que o melhor a fazer era sair e ler em um local mais arejado. E foi isso mesmo que fiz. Sem demorar-me mais, levantei-me da poltrona e me pus a andar em direção ao jardim externo do castelo. Empunhei o livro com a mão esquerda tendo o máximo cuidado para não estragá-lo, pois era uma raridade. Fechei a porta da biblioteca com bastante cuidado, além de taciturno e até um pouco medroso. Por isso, tanta precaução em minhas andanças pelas obscuras alas do castelo. No caminho ia tentando imaginar como meu anfitrião, o nobre Yves Druon, havia conseguido um exemplar daquela obra que, como já disse, fora distribuída apenas a alguns amigos do autor. Seria ele amigo de Greene? Ou conhecia alguns dos íntimos do mesmo? Com certeza, deveria ter contatos ilustres em Londres. Pela existência desta importante obra em sua biblioteca logo se vê que não se trata de um sujeito ignóbil. Afinal, ele era um rico nobre dono de um gigantesco castelo e possuidor de uma bondade nenhum pouco comum na atualidade. Quantos mistérios não esconderia dentro de si o intrigante Yves Druon? No caminho, tive o cuidado de fechar todas as portas que por pura precaução abri no ato de busca à biblioteca. Isso faz parte de outra característica minha muito marcante que pode, à primeira vista, não ter nenhuma relação com as outras que citei agora a pouco, mas que, se analisadas friamente, se relacionam harmonicamente. É o meu quase doentio perfeccionismo. Quando criança, e até hoje em dia, tudo o que eu faço com uma parte do 54


Igor Alcantara meu corpo, tenho logo que fazer com a outra parte simetricamente correspondente. Por exemplo, se o lado direito do meu pescoço coçar, eu esfrego-o com uma mão e, logo em seguida coço o lado esquerdo do pescoço com a mesma mão. Depois, sem perder tempo, repito o exato procedimento com a outra mão. Se assim não o fizer, não consigo me sentir bem. Muitas vezes fui taxado de louco por essas atitudes. Todavia, isso é algo que eu não consigo controlar. Faz parte de uma espécie de equilíbrio interno sagrado. Em uma época, logo que voltei da Inglaterra, eu realmente cheguei a me julgar anormal. No entanto, logo depois percebi que não passava de uma característica exacerbada de minha pessoa. Não muito tempo depois, já estava eu no salão de entrada no castelo, pronto para sair. A luz que penetrava timidamente pelas frestas da gigantesca porta era um convite a um passeio externo. Imaginava quão majestoso não deveria estar o sol. Era quase inverno, é verdade, mas isso não tirava a beleza de uma calma tarde no campo. Dei uma última olhada ao meu redor e não tive mais dúvidas. Ergui a cabeça como se enfrentasse o próprio rei diante de mim e pus-me a marchar em direção a saída. Meus passos eram largos e firmes como de um soldado determinado. Abri a porta e logo me vi do lado de fora. Eu ainda não havia tido a oportunidade de observar com calma, mas a paisagem no exterior do castelo era belíssima. Caminhei por entre a grama um pouco alta como se passeasse nos jardins do meu próprio castelo. É certo que eu não possuía propriedade alguma, mas era assim que me sentia. Não consegui ver nenhuma flor, elas só viriam em abril, mas creio que isso não diminuiu em nada a beleza do ambiente. Andei mais um pouco até chegar a uma aconchegante sombra sob uma árvore já quase sem folhas. Dirigi-me até ela e me sentei 55


O Dia em que Deus Chorou confortavelmente. Olhei para todos os lados a fim de registrar o ambiente em minha memória. Respirei fundo prendendo o ar em meus pulmões por insignificantes momentos. Só depois de todos esses preparativos foi que eu abri o livro e continuei a ler. A obra não era muito longa. Sendo assim, antes do final da tarde eu já havia terminado. Deixei-o, então, cair ao meu lado e cochilei não propositadamente. Só acordei quando ouvi alguns passos. Abri os olhos assustado, já me preparando para fugir ou me defender. No entanto, quando virei o rosto para identificar o perigo, vi que não passava do meu amigo Yves. Ele percebeu minha agitação, pois notei que seu sorriso procurava tranquilizar-me. Logo que ele chegou senti a atmosfera de paz que o acompanhava sempre e fiquei feliz com a sua presença. Ele se sentou ao meu lado e começou a olhar para o horizonte em estado de admiração. Eu, desejoso de ver o encerrado silêncio, iniciei nosso diálogo: - É realmente muito belo, não acha? - Notei que quebrei sua concentração. Ele, entretanto, não se irritou com isso. Ao contrário, até que respondeu com educação:. -Falas do pôr do sol? - Exatamente! - Sim, concordo, é belíssimo. Aliás, tudo o que desejar pode ser belo. - Como assim? - Ora, a verdadeira beleza está no nosso interior. Se teu coração é puro, até o mais árido dos desertos será maravilhoso. - Creio que tens razão. - Ficamos uns momentos calados até ele retornar: 56


Igor Alcantara - Em minha opinião, Deus é o maior de todos os pintores. -Como? - Veja isso - E apontou para os tons avermelhados e amarelos que o jazer do sol produzia - Conheces mais alguém capaz de pintar isso? O céu é sua tela preferida. - E saberias me dizer - Disse eu em tom sério, mas querendo fazer uma anedota - De onde Deus tira suas tintas? - Do fundo de sua essência, meu caro. - Paralisei-me com aquelas palavras. Como pude eu brincar com algo tão sério? Conversamos mais dois ou três detalhes antes de voltarmos para o castelo. Já havia escurecido e fazia bastante frio. Yves havia me dito que a ceia já estava pronta e seria prudente comê-la logo, antes que congelasse. O relativo calor do interior do castelo nos foi bastante confortável. Entramos e fomos para a sala de jantar. A mesa estava muito bem preparada. Havia uma deliciosa sopa em nossos pratos. Por sorte ainda estava quente e não nos foi nem um pouco desagradável comê-la quase que de uma única vez. Eu precisava daquilo, estava com muita fome. Ao meu lado deixei o "Groatsworth of Wit" bem visível. Assim, Yves podendo vê-lo, poderíamos conversar sobre seu conteúdo e, quem sabe, ele até não me relataria como conseguiu tal obra? No entanto, comemos tudo e ele não fez nenhum comentário. Ao final de nossa refeição, Yves levantou-se e me convidou a acompanhá-lo a outro lugar para podermos conversar. Aceitei o convite de imediato. Achei melhor não levar o livro, deixando-o onde estava. Levantei-me e segui-o como se fosse sua própria sombra. Ele andava 57


O Dia em que Deus Chorou muito lentamente. Isso não me incomodou em nada; afinal, nós tínhamos todo o tempo do mundo. Subimos uma escada, não muito longa, devo dizer. Yves mantinha seu ar sereno de sempre. Seu semblante fazia-me supor que ele estava sempre distraído, pensando em outras coisas. No entanto, ele estava atento como nunca. Talvez essa aparente lassidão fosse para esconder toda a energia e vitalidade que ele possuía dentro de si. O que sei com toda certeza é que não tive muito tempo para pensar nisso tudo, pois logo nós já nos encontrávamos em frente ao nosso destino. Era um belo salão com algumas poltronas elegantes e uma varanda ampla decorada no estilo romano. Fui direto para a sacada enquanto esperava Yves acender as velas. Estava fazendo uma noite dardejante, com milhares de estrelas visíveis. A lua encontrava-se próxima e seu tamanho era exagerado. Possuía uma cor amarelada que lhe conferia uma beleza única. Admirei-a, quase apaixonado. Notei que Yves se aproximava. Ele se colocou ao meu lado, também apoiado no parapeito e imitou-me em observar a lua. Seu olhar era profundo. Ele parecia ter bastante intimidade com o céu e com a noite. Esperou alguns instantes, olhou para mim, e disse: - É incrivelmente bela a lua, não concordas comigo? - E eu, saindo do meu estado de fixação, respondi: - Sim, muito bela. O único problema é ser tão perigosa. - Como? Perigosa? O que quer dizer com isso? - O povo diz que ela é fonte de insanidade. - E credes nisso?

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Igor Alcantara - Como poderia não crer? Conheci na corte um jovem que, de tanto olhar para a lua, enlouqueceu e pulou da torre do castelo de sua família. -Enlouqueceu? - Sim, ficou completamente lunático. Foi tomado pela loucura. - Loucura? O que é a loucura, diga-me, caro amigo Jacques Crisale? -Ora, - Estranhei o teor da pergunta, mas resolvi responder. - É um estado de espírito onde se perde a razão. Vive-se em um mundo de ilusões. É um mal bastante comum hoje em dia, Sr. Druon. - E era assim que esse jovem se comportava? - Sim. Ele falava coisas incompreensíveis para qualquer um. - Talvez não fosse ele um lunático, mas vocês incapacitados de entendêlo. - Mas, repito-lhe: todo mundo tentava entendê-lo e ninguém conseguia. Ele só falava coisas sem sentido. - E só porque vocês eram maioria significava que estavam certos? - Claro que sim! – Respondi, ao que ele sorriu, creio que impressionado com minha ignorância, e respondeu: - O fato de mais pessoas acreditarem em algo não é sinal de que elas estejam certas. Normalmente, o que acontece é o oposto. Ele poderia estar correto e todos vocês, errados. Sua mente poderia ser tão superior que vocês não o entenderam. Nós humanos, temos medo de tudo que não conseguimos compreender. Isso nos leva a julgamentos precipitados como esse que acabaste de fazer.

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O Dia em que Deus Chorou - O que queres me dizer com isso? - Quero dizer que esse seu conceito de loucura está equivocado. - Como assim? E o que é loucura? - A loucura? Ela não é nada! Não existe loucura. Definitivamente, loucura não existe. É apenas um título que foi inventado para classificar uma pessoa com um comportamento diferente da maioria. - Como? - É exatamente isso! Responda-me: Se todos possuíssem um comportamento igual à desse jovem e ele fosse como vocês, quem seria taxado de louco? - Ele? - Claro! Percebe agora que o que importa para a humanidade não é o ato, mas o número de pessoas que o pratica? Quando se é minoria, sempre se está errado. É isso que chamamos de justiça? - Isso tudo provocou uma estranha reviravolta em minha cabeça. Para dar continuidade à conversa, perguntei-o: - E o que aconselhas a fazer? - Respeito, eis a palavra! Devemos respeitar o modo de pensar e agir dos outros desde, é claro, que esse modo não prejudique nada. Diga-me: Esse jovem, alguma vez, fez mal a qualquer um dos que o acusaram? - Não, nunca. - E mesmo assim vocês o condenaram. Já pensaste que o suicídio dele pudesse ter sido não pela suposta loucura, mas por não suportar mais as injúrias? 60


Igor Alcantara Aquilo me atingiu como um punhal. Seria mesmo isso que aconteceu? Voltei a falar: - Então, podemos tê-lo destruído mesmo sendo ele inocente? Havia um tom de culpa em minha voz. Acho que ele percebeu isso, pois logo me respondeu com sua voz doce: - Não se sinta tão mal. Vocês não o destruíram. Não se pode destruir aquilo que não existe. - Como? -Estagnei. - Está me dizendo que ele não existiu? - Sim, estou. Ele realmente não existiu. - Duvidas de minha palavra? – Perguntei, quase ofendido. - Oh! Por favor, não me entenda mal. Eu acredito em você, só estou dizendo que ele não existiu. - E como pode isso ser possível? - Ele não existiu da mesma forma que você não existe. - Eu não existo? - Não! E nem eu existo e nem ninguém. Não existe nada e, no entanto, nem o nada existe. - Como posso eu não existir? Eu penso, ando, durmo e me alimento. Não é isso uma prova de que existo? - De maneira alguma. Não igualmente pensas, andas, dormes e comes em teus sonhos? - Sim. 61


O Dia em que Deus Chorou - E teu sonho existe? - Creio que não. - Aí está! - Disse ele com empolgação. - Conclui-se que pensar, andar, dormir e comer não são provas de que existas. Então, se não pode provar que existe, como podes afirmá-lo? - E, se não existo, que faço aqui? Quem sou eu? - Nós somos o eterno sonho de Deus. - Aquelas palavras bateram-me como uma pedrada. - Não entendo. - Ora, nós não existimos porque somos destrutivos e a destruição não faz parte da obra de Deus. O que destruímos é porque na verdade não existe. Como poderíamos destruir algo que Deus criou? Não somos tão poderosos. O que destruímos não foi criado por Deus, foi apenas imaginado por ele. Só por isso já é possível perceber um pouco do poder dele. Se só com sua imaginação veio tudo isso, imagine como é sua criação? Só existiremos quando pudermos também criar e para criar o primeiro passo é não destruir. - Mas o sonho de Deus já não é uma criação? - Não, assim como nosso sonho também não é. - Respondeu ele, com calma. - Mas isso não tem lógica! - E, por acaso, existe lógica nos sonhos? - Na verdade, não.

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Igor Alcantara - E aí que se engana. Existe lógica nos sonhos. Existe lógica em tudo. É uma lógica imperceptível aos olhos humanos por ser muito superior à compreensão geral. - E porque não existimos? -Por que não merecemos existir ainda. Já te disse, somos destrutivos. Seria um desastre se existíssemos. - E por que Deus não nos criou bons desde o início? - Porque o mérito de teus atos não seria teu, mas dele. Devemos conquistar nossa existência. - É tão estranho tudo isso, meu amigo Yves. - Não é estranho, é apenas novo para você. Mas, pense por um lado, não é comum nossa mente ser enganada e sentirmos sensações falsas como se fossem reais? - Como assim? - Por exemplo , quando se encontra em estado de febre avançada, não ouvimos sons que não existem? Não existem povos, como no oriente, que fazem uso de substâncias que provocam visões irreais? Quando estamos com medo não sentimos uma presença que não existe? E o que é tudo isso? - Ilusões? - Isso mesmo. E não parecem reais? - Sim, com toda certeza. - Ora, então o que impede você de acreditar que tudo isso também não é 63


O Dia em que Deus Chorou uma ilusão? É verdade, amigo. Pode ser difícil de acreditar, mas nós não passamos de meros personagens do eterno sonho de Deus. - E dito isso, ele se retirou. Minha cabeça estava muito confusa. Tudo o que ele havia dito soava muito estranho. Como poderia ele estar certo? Eu não existo? Era muito difícil para que eu compreendesse algo tão absurdo. O problema era que Yves possuía como eu havia acabado de notar, um poder de argumentação muito grande. Por que ele negava a existência da loucura? Seria uma forma de esconder algo que afetava ele mesmo? Era muito lógico pensar assim, mas eu no fundo sabia que ele poderia ser tudo, menos um louco. Tudo o que ele falou era muito complexo e seus argumentos eram convincentes, mas eram ideias tão absurdas que resolvi não mais pensar nisso. Voltei para o meu quarto após poucos minutos de reflexão. Não andei muito, pois o lugar onde conversamos era também na ala oeste. Apenas tive o cuidado de antes pegar o livro que retirei da biblioteca e devolvê-lo a seu lugar. Fiz tudo isso quase sem refletir, de maneira inconsciente. As palavras de meu anfitrião não me saíam da cabeça. Tentando parar de pensar em tais quimeras, deitei-me na cama e fiquei olhando para o teto esperando o sono chegar. Todas as imagens do dia viam em minha cabeça. Senti as dores da busca �� biblioteca em minhas pernas. Era incrivelmente bom deitar após tão longas caminhadas. Olhei para o teto até a imagem se apagar por completo. Não me lembro do momento exato em que dormi, mas creio que não demorou muito. E foi esta manhã, tarde e noite que se fez o primeiro dia.

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O Dia em que Deus Chorou