Issuu on Google+

Sidney Andrade (Org.) Nayara Brito Samelly Xavier Samantha Pimentel Yuri Emanuel


Sidney Andrade (Org.) Nayara Brito Samelly Xavier Samantha Pimentel Yuri Emmanuel


PREFACIO

04

VIDA YURI EMANUEL DESPEDIDA DO SILÊNCIO

05 06

MUNDO SAMELLY XAVIER EXALANDO NOVAS CORES

08 09

NATUREZA SIDNEY ANDRADE PEIXES DESPESCADOS

11 12

HUMANO NAYARA BRITO

15

´

~

17

FUTURO SAMANTHA PIMENTEL

19

´ NAYARA BRITO MAQUINA

21

PROGRESSO SIDNEY ANDRADE EU, SISTEMA

23 24

~

POLUICAO SAMANTHA PIMENTEL

~

26 27

RECICLAGEM YURI EMANUEL GEN 3:19

30 31

FICHA TECNICA

33

~

INTERACAO SAMELLY XAVIER DEDICAÇÃO

´


por Sidney Andrade Numa época em que “verde” deixou de ser uma cor, para tornar-se um novíssimo modo de agir sobre o mundo, conduta necessária para a “sustentabilidade” (outro termo vítima das mudanças atmosféricas, causadas ou não por nossas próprias atitudes); num tempo em que as palavras também se transformam com os ambientes, para assim carregarem com destreza o peso dos ciclos da natureza (esses nem sempre tão naturais quanto imaginávamos), falta-nos certezas sobre um futuro nem tao distante. O que nos sobra, então, são as definições que forjamos sobre o que nos afeta. Tanta ciência, tantas teorias. O homem é cada vez mais comunicativo e menos preciso no que comunica. “De onde viemos?”, “Quem somos?”, “Para onde iremos?” são perguntas que, de tão repetidas –pela TV, pela internet, pela vizinha fofoqueira – perderam o sentido. Hoje, a pergunta que não quer calar fica zunindo diante das manchetes do Jornal Nacional: “E agora?” E agora, um sábio já contou. Quando nada mais restar, ainda haverá a poesia. Poesia não filtra o gás carbônico do ar. Poesia não bloqueia os raios ultravioleta. Poesia nunca será capaz de manter de pé as calotas polares. Mas, se hoje estamos nos educando para uma “conduta verde” é porque viver ainda precisa ter licença poética. Verde talvez seja a escolha mais óbvia para o pensamento ecológico, por causa da cor das folhas. Mas por trás da cor existe a poesia nos dizendo que esverdear é ter esperança. E sem esperança, que será das árvores, da camada de Ozônio, dos icebergs e dos oceanos? Quando não pudermos mais dar às nossas palavras a carga de esperança que nos move em meio ao caos, aí sim, terá chegado o fim dos tempos.

04


Partícula de espaço, tempo, previamente amorfa. Centelha divina. Mutável, elástica, tenacidade variante. Varia de cor mediante a temperatura, possui tonalidade e dureza em níveis variantes. Descobriuse recentemente haver um princípio, teóricos já divagam a respeito do fim. É ainda particularmente curiosa, intrinsecamente ligada ao conhecimento, à evolução. Acreditamos ter um sentido, as buscas continuam. Não há níveis seguros para o consumo desta substância…

Yuri Emanuel 05


Não fazia exatamente ideia de quanto tempo estava ali, sentado numa das cadeiras do conjunto de estar da varanda naquela noite de verão. Mirava as luzes do centro de Campina enquanto percebia um ou outro movimento àquela hora, que era sete. Pairava seu pensamento como se apoiado pela haste fundamental do viaduto, e dali ganhava queda livre. Rumo à indisposição, rumo ao passado. A tarde quente de trinta e três graus de há pouco badalava como um relógio no século passado. Guilhotinava suas curas e esquivava de suas angústias como bêbado da sobriedade. O som, ao longe com sua energia, se estendia do horizonte ao Parque do Povo e não fazia questão de lhe tirar da cadeira pra qualquer que fosse o movimento. No seu olhar, havia um adeus sereno como um vão; algo que não se acredita num primeiro momento, algo que lhe faz sentar à varanda e fumar um cigarro de redenção já que Deus aparentemente não existe em certa estação. Atrás de si, uma vida inteira e seis cômodos. Talvez uma palavra, talvez uma traição. É certo que havia uma jura, uma missa bonita e umas dezenas de aplausos. Um passado tão distante quanto o futuro que se assina em marchas e canções de redenção. Um suspiro grave no meio do grito, um aceno calado pro vigia que passa. Vinte, dez, cem, quarenta anos… nós não entendemos muito bem, mas a vida trejeita por entre nós enquanto escorre em direção às catedrais. Buscamos algo que nos doa menos, que nos doa pouco; a alegria que não existe naquelas ruas se transforma no regozijo de vencer a morte que bate ponto em esquinas da Rua João Pessoa. Essa morte, essa alegria não lhe serve, não lhe condena.

06

Yuri Emanuel


Queria de volta o murmúrio da brisa que levou pro mundo o cheiro do incenso. Um sorriso feliz enquanto sós, uma perspectiva enxergada num espelho cego, reflexos de amor que já não existem mais. O amor cega. Cega feito lâmina, mas cega muito por pouco tempo demais. E enquanto a vida se descarrega em certas serestas, o sereno da noite é a companhia da luz do luar. E só, somente quando as estrelas compõem um céu de mil eternidades, um pedaço resoluto dela faz parecer parada no tempo uma noite de mil horas, um descansar na varanda, um chorar de desapontamento. E seu pai lhe dizia “ô filho, tem certeza?”, e agora ele não podia dizer nada. Até se ria. Por hora, a vida lhe era irônica como os artistas da terra, como a mais bêbada canção. Era um adeus e era solene. Dera somente, e nada mais. Também não sabemos, mas a vida começa e acaba em mais variáveis que podemos calcular; um beijo oceânico após uma tarde de sinuca desembocou numa mágoa invomitável por uma pendência que não se pôde quitar. Há quem desconfie que a vida seja um pedaço de alma de vida infantil e tola, profundamente difícil de se acostumar: começa e termina navalha, chega ao fim ainda com medo de acabar. Cada trajeto, cada curva, cada concepção de infinito reabre um leque recém fechado, cada curso perene de escolhas… atrás de si, uma vida dessas de cansado, à frente um portão aberto da Getúlio Vargas. Procurou por Deus algo pelo qual se animar. E na ânsia por um último cigarro, caiu em si quando cansou de sereno, cansou de procura, cansou de se matar: Saiu pra comprar cigarro, partiu cansado pra nunca mais voltar.

07

Yuri Emanuel


(Do lat. Mundu) (Da lit. Mu(n)do) S.m (ou não; já que a Terra é mãe). (Plural mesmo quando singular). 1 – Canto onde se vive como se estivesse a passeio. 2 – Local onde se passeia como se fosse a própria casa. 3 – Espaço que se passa um tempo esperando a outra geração que vai passar mais um tempo esperando a outra geração que vai passar mais um tempo esperando a outra geração... 4 – O Globo (do mapa e do olho). 5 – Frequentemente associado ao fim e ao começo (Ninguém tá preocupado com o meio do mundo). 6 – Cada todo dentro de outro (Ex.: a borboleta é um mundo de cores do mundo; as crianças farão o novo mundo deste mundo). 7 – Minha e sua cabeça (Ex.: Cada cabeça é um mundo).

08


O teto está arranhado, as paredes rachadas, o piso quebrado e nossa casa já sem graça não tem mais quase nada. Pros que ainda inocentemente procuram, uma novidade e uma constatação: o mundo acabou. Faz tempo. E agora só nos resta um dia decidirmos refazê-lo. Porque é preciso ser muito mítico e gostar muito de ficção científica para não saber que vivemos entre ruínas. Ruínas do que um dia foi a atmosfera, ruínas do que conhecemos por lar, ruínas daquilo que antes se refletia no espelho a nossa frente, ruínas de crença. Somos ruínas do nosso tempo, tentando nos reerguer à base de silicone. E como não há oxigênio em conserva suficiente para todos, nos sufocamos com nossos peitos cada vez mais inflados. Eu passeio pelo mundo como quem anda nos destroços de uma guerra. Preto é o mais colorido que meus olhos de óculos de sol conseguem enxergar. O que é a Amazônia senão restos do que as minas não explodiram? Uma floresta de incêndios... O “Velho Chico” tem margens de muleta, peço a benção, mas ele está surdo. Vejo animais correndo todos os dias, procurando esconderijos, fugindo dos caçadores famintos. Animais que falam, mas não são ouvidos. Quando presos, viram feras. Quando soltos, assassinam. Extingui-los é um risco, um risco praticamente impossível. Darwin sugeriu a evolução, mas não estamos sendo favoráveis às suas naturezas. Nasceram para sorrir, mas por instinto de sobrevivência, só sabem ranger os dentes. Ao vencedor, as cascas das batatas. Eu não sou cachorro não, eu sou sabão omo sapiens.

09


Suponho que a lona preta está sendo providenciada para quando o luto for internacional. Em breve os que ainda não perceberam, perceberão: o mundo morreu. Fecharemos os olhos. Abriremos a boca. Extra! Extra! Extra! Impressa anuncia: o mundo morreu, não há mais matérias. Ponto. De madrugada, evocaremos o deus Sol e com os despertadores desligados, o veremos subir. Cada vez mais alto e, claro, claro e alto que só nosso olhar para acompanhar. Nossa íris será também o sol, já a lua continuará sendo a menina dos olhos. É só no deserto que se tem espaço para decidir: jardins ou arranhacéus. Lembraremos do furo na extra-extra-extratosfera. Os namorados trarão rosas coloridas para as amadas, e estas lhes receberão nuas, já que o pecado também foi pelo ralo. As mães amamentarão pelos poros dos dedos, puxando olheiras ou alisando os cabelos. Dará certo. Se parará de frente a uma folha seca onde o deus-mor estará escondido e reverenciaremos a formiga divina que neste momento passar. Voltaremos, sem saber, a falar com as pessoas e não delas. O nada nos confortará e nos desobrigará de sermos tradicionais e medíocres. Finalmente nos sentiremos responsáveis pelo que poderemos ter feito. E faremos: das ruínas ao novo

10


Se fosse para ilustrar “natureza”, muita gente começaria desenhando uma árvore. Eu desenharia um computador. Natureza é o que está por trás, estando bem na nossa frente. Assim: um computador tem uma programação, mas todo mundo acha que isso é o que o torna artificial. Esquecem, no entanto, que naturalmente tudo se move de acordo com um padrão. Alguns chamam de leis naturais, outros chamam de Deus, um hacker muito crédulo chamaria de código HTML da vida. É claro que poderiam rebater com o argumento de que nem tudo é determinismo, afinal o livre arbítrio está aí. Só que também é qualidade da natureza a capacidade de se transformar. A partir do código. Programando bem, todo mundo escolheria certo, apesar de sempre poder escolher torto. Na programação do livre arbítrio falta ainda uma atualização anti-erros. Mas tudo a seu tempo. O que não podemos é culpar o programador pelos colapsos no sistema, quando somos nós quem fazemos mau uso da máquina de que dispomos.

11


O garoto costumava assistir, nas manhãs de seus domingos monótonos, a um programa de pesca esportiva. A pesca esportiva consiste em ter toda a diversão de pescar o peixe aliada à sensação de preservação da natureza, pelo fato de o pescador, depois de ter apanhado o animal, jogá-lo de volta na água, deixando, assim, que continue a nadar normalmente. Fisgado pela TV, ele se impressionava com como era bonito poder participar de um ambiente alheio, com isenção e sem prejuízos. O menino se encantou com o fato de se poder despescar os peixes. Por isso ele quis se incluir cada vez mais no mundo. A primeira iniciativa foi libertar de suas gaiolas os pássaros que seus pais mantinham na varanda. Agora que já haviam cantado o suficiente e enfeitado bem a casa, mereciam voltar aos ares. Só que ele não notou o que significava o fato de que não bastava apenas abrir a portinha da jaula para eles saírem. Precisou mesmo empurrá-los para fora. Divertindo-se muito com a sensação boa de devolver o que pegara emprestado, passou-lhe despercebido a relutância dos pássaros a voarem além dos portões da frente. Aquilo foi uma brincadeira que ele levou muito a sério, porque seu ideal o conduzia. Depois disso, o cachorro na sala, que havia sido recolhido da rua muito novo e agora já até dormia aos pés da cama do seu irmão, onde os pratos de ração e água estavam sempre cheios, esse teria também a sua adiada libertação. O garoto abraçou o bicho com carinho, num adeus de quem não se arrepende. Era o melhor a se fazer, havia muito o cãozinho acompanhava os irmãos em brincadeiras, e estava mais do que na hora de ter aquela boa vontade natural retribuída. Arrancou a coleira e, com vigor, levou-o até a porta da frente. Soltou-o e fechou, realizado.

12


Ao caminhar de volta para a sala, percebeu, no entanto, que havia algo arranhando amadeira da porta. Abriu-a para encontrar o cão ainda ali, esperando. Então o garoto entendeu. Como não sabia para onde ir, seu animal de estimação precisava de uma direção. O menino pegou-o no colo e, pensando muito bem em qual seria um lugar que fosse bonito à altura da estima pelo animal, caminhou pelas ruas até achar bom ponto de partida para a liberdade que o bichinho estava recebendo de volta. Ao deixá-lo naquele lugar tão desconhecido e correr depressa para se esconder, o garoto também não reparou no olhar perdido de seu melhor amigo. Aquele fora um domingo agitado. Teve que explicar muitas vezes aos pais os reais motivos de suas atitudes, e que o mínimo que aqueles animais mereciam como recompensa às alegrias que haviam trazido à casa era o retorno aos seus verdadeiros lares. Tão convicto que estava da justiça de sua atitude, quase não se importou da injustiça de ter recebido a semana de punição. É que os seus pais não compreendiam. A semana de castigo passou, amortecida pela memória de uma traquinagem bem intencionada. Os anos não devolveram os animais libertados, mas trouxeram a adolescência e o entendimento. Foi em outro domingo, ao perceber que aquele programa de pesca esportiva ainda era transmitido, que a graça da lembrança tornou-se remorso. O apresentador, agora também mais amadurecido pelos anos, explicava que os peixes que são apanhados naquele tipo de pescaria nem sempre conseguem continuar a nadar assim tão normalmente.

13


O que acontece é que, ao serem devolvidos, muitos deles têm a boca machucada devido ao anzol somado à falta de prática de alguns pescadores em retirá-lo. De fato, os peixes despescados voltam ao seu habitat, e teriam tudo pra continuar a nadar tranquilamente, não fosse pela ferida na boca que, sendo dolorida, traumatiza. Assim, eles param de querer se alimentar, pelo fato de simplesmente não conseguirem por causa da dor ao fazê-lo, e morrem de fome.

14


Vulgo ser humano, embora nem sempre o seja.

Humano Nayara Brito 15


Carrega em si todos os sentidos e anacronias do mundo E é imenso, como a humanidade o é, em toda a sua desmesura. É-se humano quando se reza Preza Ama Odeia Generoseia E mesmo violenta Bebe Chora Rasga Grita. É-se humano quando se É. E de tão humano que somos, às vezes queremos deixar de ser humano e ser planta, bicho, pedra mas nada encerra nossa humanidade em existência a não ser a desistência do ser em ser

16


Aquilo que a gente deixa por aĂ­, pra sujar o que antes era limpo.

17


Marcas deixadas. Resíduos, restos, estragos. Mudança. Mudança de ambiente, de aparência, de aspecto. Suja interferência sobre o limpo. Transformação. Acúmulo da própria criação. Produção humana.

18


Futuro ĂŠ tudo aquilo que a gente nĂŁo sabe, e imagina, enquanto espera pra conhecer.

19


Mesmo sabendo que sentada ali, naquela pedra, num sitiozinho, que ficava numa cidadezinha qualquer, pequenininha, como eram pequenos os limites da sua simples vida, ela dificilmente chegaria até lá. Ela imaginava. E nisso sim, podia transpor os limites, ou melhor, podia não ter limites. E podia visualizar tudo como quisera que fosse, o cabelo vermelho, como seria vermelho o carro no qual chegaria ao trabalho, sempre às pressas, sempre ocupada, como seriam ocupadas todas as suas noites, com eventos e festas, as quais sua presença seria requisitada por meio de convite especial, que viria endereçado “A Srta. Jaqueline Martins”. Senhorita, porque não casara, preferira aproveitar dos muitos amores que lhe surgissem, retirando deles apenas o que a fizesse feliz. Martins, porque assim o adotara, como “nome artístico”, porque achar, ao mesmo tempo, que Pereira não combinava com ela e que Martins soava muito bonito quando pronunciado. Uma piscina e bonequinhos de duendes teriam no jardim de sua casa, que seria não muito grande, mas teria muito verde, grandes janelas de madeira e a pintura azul, como era azul a casinha do sítio onde morava, assim, perto do azul e das árvores, se sentiria protegida. Nas férias viajaria, não a trabalho, como iria fazer sempre devido aos compromissos na agência, mas para divertir-se, fazer compras e conhecer outros mundos. Conheceria Londres, Paris, Veneza, Espanha, Portugal... e quando não pudesse fazer longas viagens, passaria um final de semana ao menos, em Búzios, na casa que teria comprado, e seria recebida calorosamente por D. Rita e seu marido Lauro, os caseiros que adoravam mimá-la. De quando em quando, também visitaria a cidadezinha onde nascera, para rever a família, sobretudo os pais, que se recusavam a deixar o lugar, mesmo ela insistindo muito para eles irem morar com ela. Ao menos aceitaram que ela lhes comprasse uma fazenda, e pagasse empregados para cuidar de tudo, assim poderiam viver com

20


mais conforto, embora por teimosia ou por costume, ou quem sabe os dois, não deixassem de trabalhar na terra. Falaria inglês, e também francês que julga mais culto. Adorava comer comida japonesa e sair com as amigas para um dia de salão de beleza. Trataria todos com educação, como seus pais lhe ensinaram. E mesmo tendo tudo como sempre sonhou, nem sempre seria feliz, e vez por outra teria medo. E quando tivesse medo, teria também a coragem de enfrentá-lo, e quando não tivesse a coragem teria alguém que a ajudasse a encontrar, e ajudasse a entender melhor ela mesma. E quando não tivesse alguém, ela mesma tentaria se entender. Ficaria sozinha, pensando consigo mesma, deixando seus pensamentos viajarem livres, como quando ficava sentada naquela pedra, no sitiozinho onde morava, naquela cidadezinha qualquer, pequenininha... E imaginava.

21


Estrutura mecânico-imitativa da criação maior a que o Criador chamou Homem. Às vezes movimenta o Ser, mas nunca o Tempo.

22


em movimento move vento matéria e tudo o que é físico mas não move o tempo, apesar das tantas tentativas pois qual a mecânica do Tempo? não está na engrenagem do relógio seus ponteiros e roldanas isso que, em conjunto, também constitui máquina pra onde aponta seus ponteiros? (-- aonde leva o ser, em movimento, através do tempo?)

23


Tentando ilustrar “progresso”, a maioria desenharia um computador. Eu desenharia uma árvore. Progredir é transformar. Como a semente que, do esterco, do leito dos vermes, se parte e ergue-se. Estar à frente do seu tempo: para cada necessidade, uma solução simples. O verde das copas frondosas é pura tecnologia: da luz do Sol (pai de todas as cores), a árvore aprendeu a sintetizar somente o verde e, tão progredida, torna uma porção do etéreo em matéria, para, desse modo, nutrir-se. A capacidade de manter-se sem destruir. Ou, diante da irreversível destruição, edificarse a si e ao ambiente. Porque existir não consiste apenas em agir sobre, mas também fazer parte da paisagem. Evoluídos são aqueles que conseguem frutificar, isto é, de si brotar a potencialidade de/para o outro: um fruto que tanto é alimento que sacia quanto promessa de novas raízes, embalados na casca fina de um amadurecimento. Progresso é quando a gente aprende a técnica ancestral das árvores de ser para crescer.

24


Teria que contar até cem. Muito concentrado, quase não piscava. A ansiedade inundando-me, enquanto a contagem avançava. Precisava pensar bem aonde iria após o término, tantos lugares, inúmeras possibilidades. A eterna infinitude das buscas. Para onde elas me levariam? Até me assustava um pouco com isso. Entao, uma vez terminada a espera, seria a hora de por em prática o que havia programado. Já contava vinte quando temi não saber o que fazer depois. Mas a contagem avançando ritmadamente meio que me acalmava. Como num ritual, a ordem ia se estabelecendo ao passo que o número cem se aproximava cada vez mais. Seria libertador: ao final, todas as promessas ao meu alcance. Na ponta dos dedos, meus desejos se realizariam. A minha mão quase que se contorcendo de inquietude, pronta para a transformação. Uma importância imensa era aquela progressão, como se, findada a espera, algo muito essencial se modificasse. Sobretudo o desejo de uma transformação. Queria sentir-me outro através daquilo, ou pelo menos, outra versão de mim. Embora já tivesse feito isso outras incontáveis vezes e percebido que, apesar de toda espera, as mudanças ocorriam apenas num nível muito oculto, quase imperceptível. O desafio era encontrar o que se escondia por trás das alterações cotidianas. E já não era mais uma brincadeira ter que procurar, sem êxitos. Enquanto contava, dentro de mim, uma voz me falava coisas estranhas, me dizendo atitudes que eu deveria tomar: primeiro passo, segundo passo, aceitar, escolher o destino, concluir, reiniciar... Eu acataria qualquer coisa, porque meu tédio dependia daquela transformação. Dessa vez, tinha que ser diferente, ao retornar, minha espera teria que valer a pena. Depois de chegar a cinqüenta, o medo de não saber desvaneceu, dando lugar à confortável sensação de já ter passado da metade do caminho. Então a barra me parecia mais veloz, mesmo que, na prática, a contagem seguisse uma proporção lógica que a movia regularmente, a despeito das minhas vontades. Cada vez mais preenchida, aquela simulação de conquista,

25


a faixa verde pouco a pouco consumindo o acinzentado, como que me provava ser possível que minhas lacunas fossem preenchidas. E que o meu vazio não precisava ser tão longo. A cada segundo, uma linha a mais. Aos noventa, eu era pura antecipação, as mãos no queixo, lábios crispados, olhos profundos e secos presos como que por um campo magnético à expressão visual de um código que poucos compreendiam. Compreender o código oculto era para poucos iniciados, e eu não me importava. Para mim a maior importância da simulação não era o que ela seria, mas sim o que significasse. E depois de tudo pronto, depois do acerto final, quando a plenitude de uma barra totalmente preenchida me tomasse, eu conseguiria desapegar de minha máquina por um instante que fosse, só porque esse instante era parte fundamental de um processo de mutação. E quando retornasse ao início, procuraria com todas as forças determinar o que teria sido transformado, e que vantagens a mais a espera teria trazido, depois de tudo. Depois daquilo tudo, o que eu queria era ter subido um nível. Porque, afinal, contentar-se com a normalidade era tão difícil. Depois do noventa e nove, o suspiro. A operação havia sido bem sucedida. Mas ao me recuperar, de novo o tédio. Até conseguia perceber o que mudara, mas então agora a mudança feita era parte da minha normalidade, cinco segundos depois. Preciso, de novo, urgentemente, encontrar minha próxima atualização.

26


(Do lat: inter+ação) (Das novas línguas: in + TER + ação). S.f. (puro preconceito; já que os homens idem). (Plural, nunca singular). 1 – O ato de eu estar escrevendo aqui, você lendo ali e nós dois comentando acolá. 2 – Todo e qualquer conselho que o meu diabinho dá ao meu anjinho e viceversa. 3 – A prova de que o mundo são dois (Ex.: o ying batendo papo com o yang; o sim tentando convencer o não; o espelho me chamando de Samelly...). 4 – A quintessência do ato de ser. Humano. 5 – As formas doisem-um, a saber: bate-papo; rale-e-rola; vai-e-vem; toma-lá-dá-cá, olhono-olho e seus derivados. 6 – Conversa fiada, paga à vista.

27


Se eu pudesse te dizer alguma coisa, eu te diria do sorriso que nasce no peito quando a força da palavra vira ação. Diz-se que o mundo foi feito da palavra: faça-se o mundo e o mundo se fez. Não sei, nem sei se é necessário saber. O que sei é que no meu mundo foi assim: eu disse "façase a festa" e surgiram os amigos; "faça-se a alegria" e as crianças me circularam; "faça-se o amor" e minha mãe me abraçou; "faça-se a luz" e os sonhos passearam de uma ponta a outra do arco-íris. Não se engane: ao dizer "faça-se a tristeza", veio, então, a solidão Se eu pudesse te dizer algo sobre fé, eu te diria do quanto é verdade o sentimento em estado de inocência. Do quanto a ideia da transcendência me deixa mais firme do que meu pé em terra quente. E te diria que o Coelhinho da Páscoa não só existe, como pula as estrelas enquanto dormimos. Te diria que o Sistema não tem culpa de nada e que, às vezes, o que gritamos de conformismo, é apenas paz sem angustia de ser paz. Se eu pudesse te dizer sobre a vida, eu não te diria que com o tempo passa ou que com o tempo você aprende. Eu te diria que o tempo é um ex-menino brincalhão que, de cabelos brancos, senta no terraço para contar suas histórias. O Tempo nasceu rebelde, não se entrega sem luta. Mas respeitá-lo e suportá-lo, com paciência e dedicação faz Dele um amante bem resolvido. Um porta-retrato na estante do escritório, daqueles que a gente se acostuma, mas que cada visitante recente se encanta. O Tempo é ilusão e visita. E não sou eu quem espero a Eternidade; é ela quem se balança, tricotando o tempo, enquanto eu não a encontro, ou finjo que não sei quem ela é. (Ela sou eu).

28


Se eu pudesse te dizer sobre minhas palavras, sobre minha vida, sobre minha fé... Eu te diria que dentro de mim cabe mais amor do que definições no dicionário. E que dentro de ti é do mesmo jeito, mas você ainda não soube. E se eu pudesse mesmo, eu dedicaria minha fé nas palavras, vestidas de vida, a você. Somente a você, minha ambígua, irritante, antiga e juvenil H.u.m.a.n.i.d.a.d.e...

29


Diz-se do processo de renovação de um ciclo ato de reciclar. Abrangente, abraça produtos, pessoas, memórias e o tempo. A reciclagem das horas no renovar dos minutos, as memórias extintas num ímpeto de coragem, o renovar das folhas a cada volta do outono. A reciclagem dá novo significado ao que já não serve; transforma a morbidez de um marasmo em calmaria pacificadora. Comumente, reciclam-se silêncios: por vezes, o silêncio da expectativa provém de um silêncio do cansaço. Tais ciclos dependem essencialmente de um ponto de equilíbrio para, harmonicamente, tornar-nos concêntricos, conseguintes, imortais.

Yuri Emanuel

30


Gen 3:19 Nós vivemos um suicídio coletivo. De verdade, nós estamos realmente nos matando. E esse é um ato burro, pesado, impensado, maldoso… e honrado. As sirenes dinamizam o caiar da noite na cidade, enquanto curtimos uma pouca brisa relaxar nossos pés cansados, os sapatos gastos de um dia a dia de calçadas e labutas, enquanto a sarjeta nos convida pra mais uma dose num botequim de esquina. Ouvimos o samba triste no rádio, as notícias de um mundo esquisito, lembramos a morte de quem não veio, a vida de quem se foi… estamos atirados num abismo em busca de redenção, e eu me pergunto onde moram Deus e os anões de jardim. As belas coisas, essas coisas de verão… dessas que se pregam na porta da geladeira. Lutamos contra a fadiga pra compensar o zero mais dez. Sonhamos em frases, pagamos à prestação. Lutamos contra a fonte de toda a luta, e a vida parece peculiarmente finda na beira dos trinta. Não há mais protestos joviais e sonhadores; não há heróis que possam arcar com a overdose… há só a morte, que espreita com o cabo da foice indicando o dia cinco de todo calendário. Nesse ritmo, atiramos longe nossos calçados e queimamos os pés no asfalto de quarenta graus. Uma aliteração de suspiros, uma controvérsia de sucessos; o revés nos abate roubando terça parte de todas as conquistas, que se ficam perdidas no tempo. As pessoas, aquelas que gritam em silêncio nos sinais, atravessam faixas de pedestres e se imaginam numa passarela de glamour e suor, os óculos escuros da última temporada. A derradeira temporada: à têmpora, o final.

Yuri Emanuel

31


E ao rezar o Pai Nosso, ensinado por todas aquelas políticas batinas, pedimos que nos livremos de todo mal. Mas o mal está em nós, e isso nos faz bem. Então nos sentimos sozinhos, enquanto nos empanturramos de batatas fritas e comédia romântica. Que o romantismo nunca morre, quem morre são os serenos. Estamos ficando carecas, nos impressionando com a velocidade do tempo, e ao passo que a vida parece se estagnar num momento sem sucesso, a relatividade geral nos assola: pra quem parou, todo santo dia é um dia eterno. Nos apegamos ao novo. De novo. Outra vez, quanto for preciso. Nossa vida tem um tom de outono, e achamos graça no modo como as folhas caem, são levadas pelo vento. Toda folha é cadente, as sempre vivas também morrem. Voltam ao chão, ressecam, governam, o carbono sobe… e a gente cai. Cai de produção, à estaca zero, aos tropeços, em staccato. E ao sorrir para a ínfima infinidade de todas as voltas que o mundo dá, olho pro mundo e me dou meia volta. Um ciclo. Na minha própria superfície de revolução, reviro, reciclo, removo, renovo, retorno… revivo. Que ainda é opção.

Yuri Emanuel

32


33

´ FICHA TECNICA


Sidney Andrade, nascido com a primavera de 23 de setembro de 1986, na pequena Coremas, no sertão paraibano, mas criado desde menino em Campina Grande, sua cidade do coração. Comunicólogo em formação pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), dedicando-se a pesquisas com ênfase na convergência entre o campo literário e as novas tecnologias da informação. Criou o blog literário DiVAGANTE, meio pelo qual descobriu sua paixão pela Literatura, aos 20 anos, após ter perdido quase que totalmente a visão devido a descolamentos das retinas. sidneyandrade23@hotmail.com @sidneyandrade23 www.sidneyandrade.blogspot.com

Eu sou Nayara Brito, sou estudante de jornalismo e, como já se tornou praxe dizer, amante das letras e das artes. Busco nelas meu sentido e meu modo de estar-no-mundo. Entre outras mil, tenho me dedicado ao estudo do meu corpo de atriz, ainda em formação. Mas, foi arte?, estou no meio. E estou e sou, hoje. Amanhã, não sei de mim. nay_brito@hotmail.com @naybbrito

Samelly Xavier tem algumas primaveras, mas acredita que tem muito mais verões. É professora por acreditar que utopia é uma realidade que ainda está por vir. É escritora por necessidade. De existir. Dizem que é poeta, mas ela não tem certeza se acredita nisso. Na poesia sim, ela crê e se devota. Publicou três filhos-literários: Ousadia (2003), Universo: o verso une (2005) e ETC (2007). Eles podem ser adotados por qualquer estante através da Livraria Cultura (Campina Grande) ou por e-mail. Não sabe se fez Letras ou se as letras a fazem. Dá gargalhadas em vermelho e abraça além dos braços. Atualmente coordena o Curso de Leitura e Escrita Samelly Xavier – CLESX, no qual tem desenvolvido – junto com sua equipe – habilidades de ler e escrever, com crianças a partir de 8 anos de idade até alunos universitários. livrosdesamellyxavier@gmail.com @samellyxavier sao-seus-olhos.blogspot.com www.cursosamellyxavier.com.br

34


Samantha Pimentel é graduada em Comunicação Social (UEPB). Estudante de Arte e Mídia (UFCG). Jornalista, atriz, e ser humano. Multiplicadora do Teatro do Oprimido, método sistematizado por Augusto Boal. Gosta de observar. Escreve quando é preciso e/ou quando tem vontade. samanthapimentel@hotmail.com @smthpimentel www.livrepauta.com

Campinense, 21 anos, estudante de Arquitetura e Urbanismo, Yuri Emanuel iniciou suas atividades literárias efetivamente em 2009, ao começar o romance Azul Miosótico. Com foco nas atividades cotidianas, deu continuidade a seu trabalho literário ao conceber Hemisfério, no gênero da poesia, e foi publicado pela Editora Corpos em Portugal. Poucos meses após esta publicação, recebeu convite para incluir-se em antologia Nossos Autores, da mesma editora. Seu romance, Azul Miosótico, foi publicado em setembro de 2011 na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, inaugurando ao lado de outras duas obras o selo editorial Subtítulo, promovido pela Editora Oficina de Livros, do Rio de Janeiro. Ainda no ano corrente, prepara novos títulos tanto na poesia quanto no ��mbito romântico, além de trazer consigo pequena experiência como roteirista na Sílvio Toledo Produções. yuriemanuel.silva@hotmail.com www.muralyuriemanuel.blogspot.com

35


Anderson Marcos Direção anderson.mrcs@gmail.com @andersonmrcs Mayara Silveira Programação Visual silveira.mayara@ymail.com @mayara_silveira mayarasilveiraa.blogspot.com

Este livro é parte integrante do projeto World, desenvolvido na disciplina Projeto III, no Bacharelado em Arte e Mídia, Universidade Federal de Campina Grande, e foi orientado pelo professor Paulo Matias de Figueiredo Júnior. Campina Grande, novembro de 2011.

36



WOR(L)DS - Vocabulário ecologicamente poético