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BUSCA PELA FELICIDADE – Maureen Child Uma segunda chance? Depois de dois longos anos, Sam Wyatt está de volta à cidade, trazendo grandes planos para os negócios da família. Mas, antes, ele precisa encarar as pessoas que deixou para trás… incluindo a mulher que nunca conseguiu esquecer. Lacy Sills ainda não havia superado o abandono do marido, e fica chocada ao descobrir que ele será seu novo chefe! Ela sabe que trabalhar ao lado de Sam significa se entregar ao seus encantos. Mas ao descobrir os motivos que o levaram a reatar o relacionamento, ela entende que jamais poderá perdoá-lo. E nem mesmo uma reviravolta do destino a faria mudar de ideia… PROMESSAS POR UMA NOITE – Elizabeth Bevarly Um desafio inigualável! Encantamento não era algo que o bilionário Marcus Fallon estava acostumado a sentir. Porém, quando seus olhos cruzaram com os de Della Hannan, ele sabia que precisava tê-la. Quando um beijo abre caminho para a rendição, Marcus percebe que uma noite não seria suficiente. O problema é que Della não queria um relacionamento sério! E, pela primeira vez na vida, esse infame playboy percebe que o jogo virou: a única mulher que ele realmente deseja não tem intenção alguma de ficar ao seu lado.


Maureen Child Elizabeth Bevarly

DESAFIADOS PELA EMOÇÃO Tradução Leandro Santos

2017


SUMĂ RIO

Busca pela felicidade Promessas por uma noite


Maureen Child

BUSCA PELA FELICIDADE

Tradução Leandro Santos


Querida leitora, Eu nasci e cresci na Califórnia e sempre sonhei em morar em um lugar onde pudesse realmente ver a mudança de estações. Com uma praia a alguns quarteirões da minha casa, eu me imaginava morando nas montanhas (eu sei, certas pessoas são impossíveis de agradar!). Alguns anos atrás, eu e minha família nos mudamos para a parte montanhosa de Utah, e adoramos curtir o outono e o inverno, apesar de ter demorado a me acostumar com a neve. Contei tudo isso porque Busca pela felicidade se passa em Ogden, Utah, em um resort de esqui totalmente fictício chamado Snow Vista. Lá, você vai conhecer Sam Wyatt, um herói ferido, com um passado que deixou cicatrizes e o transformou em um homem bastante cauteloso. Sua ex-mulher, Lacy Sills, mudou e amadureceu muito desde a última vez em que ele a viu. Porém, agora que Sam voltou para ficar, ele precisa corrigir os erros do passado se quiser ter um futuro ao lado de Lacy. Eu adorei usar a bela paisagem que me cerca como cenário, e os personagens realmente deram vida a essa história. Espero que goste de passar um tempo com Sam e Lacy nas montanhas de Utah. Boa leitura! Maureen Child


CAPÍTULO 1

– VOCÊ CONSEGUIU

voltar para casa – murmurou Sam Wyatt enquanto olhava a construção principal do resort de sua família. – A questão é: alguém vai ficar feliz por ver você? Por que ficariam? Ele havia partido de Snow Vista, Utah, dois anos antes, quando seu irmão gêmeo morreu. E, ao ir embora, deixou sua família para recolher os cacos após a morte de Jack. A culpa obrigou Sam a partir. Manteve-o longe. Agora, uma culpa diferente o trazia de volta. Talvez fosse hora de enfrentar os fantasmas que assombravam aquela montanha. O alojamento parecia igual a antes. Toras rústicas, telas cinza e uma larga varanda com poltronas e almofadas. A construção tinha três andares; a família Wyatt acrescentou o terceiro para servir de acomodações a eles alguns anos antes. Quartos de hóspedes ocupavam os dois primeiros andares, e também havia algumas cabanas no local, oferecendo privacidade e uma vista inigualável. Mas, em geral, os turistas que iam esquiar em Snow Vista se hospedavam em hotéis mais para baixo na montanha. O resort dos Wyatt não comportava todos. Alguns anos antes, Sam e seu irmão gêmeo, Jack, haviam traçado planos para expandir o alojamento, acrescentando cabanas e transformando a propriedade dos Wyatt no principal local das montanhas de Utah. Os pais de Sam, Bob e Connie, tinham se animado, mas, ao que parecia, as ideias de expansão cessaram quando Sam partiu. Assim como muitas outras coisas. Ele segurou com força sua bolsa de viagem e desejou loucamente poder


Ele segurou com força sua bolsa de viagem e desejou loucamente poder controlar seus pensamentos. Aquele retorno não seria fácil. Mas era hora de encarar o passado. – Sam! A voz que chamou o nome dele era familiar. Sua irmã, Kristi, vinha diretamente na sua direção. Ela vestia um casaco azul e calça de esqui presa dentro de botas pretas. Seus grandes olhos azuis faiscavam... e não de boasvindas. – Oi, Kristi. – Oi? Isso é o melhor que você pode fazer? “Oi, Kristi”? Depois de dois anos? Ele aceitou a raiva dela. Sam sabia o que enfrentaria quando voltasse para casa. – O que quer que eu diga? Ela fez um som de desdém. – É meio tarde para você me perguntar o que eu quero, não? Se você se importasse, teria perguntado antes de ir embora. Ele não tinha como contestar aquilo. Recordando-se da maneira como Kristi sempre havia se espelhado nele e em Jack, Sam percebeu que não seria fácil aceitar que a fase em que ela o idolatrava como um herói tinha passado. Claro, foi ele próprio quem a fez terminar. Contudo, ele não estava ali para remoer decisões antigas. Fez o que precisou fazer naquela época, tanto quanto estava fazendo agora. – Se tivesse me perguntado naquela época, eu teria lhe dito para não ir embora. – Sam viu uma película de lágrimas cobrindo os olhos dela. Mas Kristi piscou rapidamente, como se estivesse determinada a contê-las. – Você nos abandonou. Simplesmente foi embora. Como se nós não importássemos mais... Ele suspirou. – É claro que vocês importavam. Ainda importam. – Falar é fácil, não é, Sam? Adiantaria explicar que ele passou o tempo todo pensando em telefonar para casa? Não. Porque ele não havia feito isso. Não manteve contato, a não ser por


Não. Porque ele não havia feito isso. Não manteve contato, a não ser por alguns cartões-postais, até a mãe dele localizá-lo na Suíça na semana anterior. Sam ainda não sabia como ela o havia encontrado, mas Connie Wyatt era uma força da natureza quando tinha um objetivo em mente. – Não vou discutir isso com você. Ao menos, não agora. Só depois de ver papai. Como ele está? Um lampejo de medo surgiu nos olhos dela. Em seguida, desapareceu num surto de raiva. – Vivo. E o médico diz que ele vai ficar bem. Só acho triste ter sido necessário ele ter sofrido um infarto para você voltar. A fúria pareceu se esvair da voz dela. – Foi assustador. Mamãe foi uma rocha, como sempre, mas foi assustador. Ouvir que foi só um aviso aliviou um pouco a situação, mas, agora, parece que... As palavras dela desapareceram, mas Sam poderia concluir a frase. Um aviso significava simplesmente que, agora, a família estava observando Bob como se ele fosse uma granada, esperando para ver se ele explodiria. O que devia estar enlouquecendo o pai dele. – Enfim, se está esperando boas-vindas, vai se decepcionar. Estamos ocupados demais para nos importarmos. – Por mim, tudo bem – falou ele, apesar de incomodado por ver sua irmãzinha o desprezando. – Não vim em busca de perdão. – Então, por que veio? – Porque é aqui que precisam de mim. – Precisamos de você há dois anos – disse ela, e Sam ouviu a mágoa na voz dela. – Kristi... Ela balançou a cabeça, plantou um sorriso no rosto e falou: – Tenho uma aula daqui a pouco. Falo com você depois. Se você ainda estiver aqui. Ela se afastou, rumando para um dos percursos fáceis onde os esquiadores inexperientes eram apresentados ao esporte. Kristi era instrutora dali desde os 14 anos. Todos os filhos dos Wyatt haviam sido criados sobre esquis. Quando ela desapareceu em meio à multidão, Sam se virou para a


Quando ela desapareceu em meio à multidão, Sam se virou para a hospedaria principal. Soube que não seria fácil. Mas nada nos últimos dois anos havia sido. De cabeça baixa, ele caminhou na direção de casa, muito mais devagar do que quando foi embora. O HOTEL estava como ele se recordava. Quando Sam partiu, as reformas estavam quase concluídas. Agora, as mudanças pareciam ter dominado o local. As janelas da frente estavam mais largas; havia dúzias de poltronas de couro reunidas em grupos diante da lareira. Podia estar frio lá fora, mas, ali dentro, havia calor e acolhimento. Sam se perguntou se algo disso se estenderia a ele. Ele acenou para Patrick Hennessey, que cuidava da recepção. Em seguida, foi até o elevador particular da família Wyatt, que levava ao terceiro andar. Sam inspirou fundo e digitou o código que ele conhecia tão bem. A porta se abriu. Sam subiu e olhou rapidamente o salão da família. Fotos dos Wyatt emolduradas nas paredes, juntamente com imagens profissionais da montanha no inverno e na primavera. Janelas emolduravam uma ampla vista do resort, e o fogo ardia na lareira de pedra. Mas foram as duas pessoas do recinto que prenderam a atenção dele. Sua mãe estava aconchegada em sua poltrona floral favorita, um livro aberto no colo. E seu pai, percebeu Sam com alívio, estava sentado também em sua poltrona, assistindo a um antigo filme de faroeste. Na viagem da Suíça até ali, tudo em que Sam conseguiu pensar foi no infarto de seu pai. Claro, ele havia sido informado de que Bob Wyatt estava bem e havia recebido alta do hospital. Contudo, ele não se permitia acreditar até então. Ver o grande homem onde era seu devido lugar, com sua aparência rústica, aliviou aquele último e frio nó no estômago de Sam. – Sam! – Connie Wyatt jogou seu livro numa mesa de canto, levantou-se de um salto e atravessou o recinto às pressas. Ela o envolveu com os braços fortemente. – Sam, você veio. – Ela sorriu para ele. – É tão bom ver você!


Ele também sorriu e se deu conta da falta que sentiu dela e do resto da família. Durante dois anos, havia sido um cigano, viajando de um país a outro. Claro, ele esquiou um pouco. Sam não competia mais profissionalmente, mas não conseguia ficar muito tempo sem praticar o esporte. O esqui estava em seu sangue, mesmo tendo passado a maior parte do tempo desenvolvendo seu negócio: projetar trilhas de esqui nos principais resorts do mundo. A empresa de equipamentos para esqui que ele e Jack haviam aberto estava prosperando, e, com esses dois negócios, ele conseguia se manter ocupado o suficiente para não pensar demais. Agora, ele estava ali, olhando nos observadores olhos de seu pai, por cima da cabeça de sua mãe. Sam largou sua bolsa de viagem e envolveu sua mãe com um forte abraço. – Oi, mãe. Ela recuou, deu um tapa de brincadeira no peito dele e balançou a cabeça. – Não acredito que você está mesmo aqui. Deve estar com fome. Vou preparar alguma coisa... – Não precisa. – Não vou demorar – disse ela. Em seguida, lançou um rápido olhar para seu marido. – Vou trazer café para todos nós. Não saia dessa poltrona, mocinho. Bob Wyatt gesticulou para sua esposa, mas manteve o olhar fixo em seu filho. Quando Connie foi para a cozinha, Sam foi até seu pai e se sentou no apoio para pés diante dele. – Pai. Você parece bem. O homem mais velho semicerrou os olhos verdes que havia passado para seus filhos. – Eu estou bem. O médico disse que não foi nada. Só estresse demais. Estresse. Porque ele havia perdido um filho, o outro tinha desaparecido, e ele foi obrigado a cuidar do resort da família sozinho. Sam sentiu uma pontada de culpa. – Mas sua mãe está determinada a fazer de mim um inválido. – Você deu um susto nela. Deu um susto em mim. O pai o observou durante um longo tempo antes de dizer:


– Você também nos deu seus sustos há alguns anos. Foi embora sem avisar onde estava, como estava... Sam suspirou, a culpa novamente se assentando sobre seus ombros. – Alguns cartões-postais não são o suficiente, filho. – Eu não podia telefonar. Não podia ouvir a voz de vocês. Não podia... Droga, pai, eu estava arrasado. – Você não era o único, Sam. – Sei disso – disse ele, sentindo um lampejo de vergonha. – Mas perder Jack... – Ele era seu irmão gêmeo, mas também era nosso filho. Como você e Kristi. Sam precisava aceitar que tinha causado a seus pais ainda mais dor num momento em que eles haviam precisado lidar com uma perda. Naquela época, porém, aquela lhe pareceu a única saída. – Eu precisei ir embora. – Eu sei. – Havia compreensão e tristeza no olhar do pai. – O que não significa que eu tenha que gostar, mas entendo. De qualquer forma, você está de volta. Por quanto tempo? Sam esperava aquela pergunta. O problema era que ele ainda não tinha uma resposta. – Não sei. – Bem, ao menos é uma resposta honesta. – Posso dizer que, desta vez, vou avisar antes de ir embora. Prometo não desaparecer novamente. Assentindo, o pai falou: – Acho que isso vai ter que ser o suficiente. Por ora. Você já encontrou... mais alguém? – Não. Só Kristi. – Sam ficou rígido. Ainda havia campos minados a atravessar. Ressentimentos e dor a enfrentar. Por mais difícil que fosse encarar sua família, ele havia optado por encontrá-la primeiro, pois o que ainda estava por vir seria muito mais difícil. – Sendo assim, é melhor você saber que... A porta do elevador se abriu. Sam se virou para ver quem era e ficou imediatamente paralisado. Ele ouviu seu pai concluir a frase que ficou


interrompida. – ...Lacy está vindo. Lacy Sills. Ela parou na entrada do recinto, segurando um cesto com cheirosos bolinhos. O coração de Sam disparou. Ela estava linda. Linda demais. Com 1,72m de altura, seu comprido cabelo louro estava preso numa trança, o casaco azul-marinho desabotoado para revelar um suéter verdeescuro por cima do jeans preto. Suas botas também eram pretas, e iam até os joelhos. Suas feições continuavam as mesmas: uma boca generosa, um nariz pequeno e reto, e olhos azuis da cor do verão. Ela não sorriu. Não falou. E não precisava. Numa fração de segundo, o sangue desceu para a virilha dele, e Sam ficou excitado. Lacy sempre lhe causava esse efeito. Foi por isso que ele havia se casado com ela. LACY NÃO conseguia se mexer. Não conseguia respirar para vencer o nó de emoção em sua garganta. Seu coração estava batendo rápido demais. Ela devia ter telefonado primeiro. Devia ter se certificado de que os Wyatt estivessem sozinhos. Mas por que ela faria isso? Ela jamais esperou ver Sam sentado diante do pai dele. E, agora que havia visto, estava determinada a ocultar sua reação a ele. Afinal, não foi ela quem abandonou sua família. Sua vida. Não tinha feito nada vergonhoso. A não ser, claro, sentir falta dele. Tudo dentro dela estava fervendo, o familiar desejo a dominando. Como era possível que ela ainda sentisse tanto por um homem que a havia deixado de lado sem pensar duas vezes? Não era justo ele voltar justamente quando ela estava começando a se recuperar. – Olá, Lacy. A voz dele era o profundo trovejar de uma avalanche se formando, e Lacy sabia que continha o mesmo poder de destruição. Ele a observava com seus olhos verdes nos quais ela se perdeu no passado. E estava tão lindo! Por que ele tinha que estar tão lindo? Ele devia estar cheio de verrugas e erupções na pele pelo que fizera. O silêncio se estendeu. Ela precisava falar. Não podia ficar simplesmente


O silêncio se estendeu. Ela precisava falar. Não podia ficar simplesmente parada ali. Não podia permitir que ele soubesse como era difícil olhar nos olhos dele. – Olá, Sam. Quanto tempo. Dois anos. Dois anos sem qualquer contato, a não ser por alguns cartõespostais fajutos enviados aos pais dele. Ele nunca procurou Lacy. Nunca disse que estava arrependido. Que sentia falta dela. Ela passou incontáveis noites preocupada, sem saber se ele estava vivo. E se perguntando por que devia se importar. Perguntando a si mesma quando a dor da traição e do abandono cessaria. – Lacy. – Bob Wyatt estendeu a mão para ela. Ela não fugiria. Aquela montanha era seu lar. Ela não seria espantada dali justamente pelo homem que fugiu de tudo que amava. – O cheiro está delicioso – falou Bob. Agradecida pela tentativa de Bob de ajudá-la naquela situação tão estranha, Lacy sorriu para ele. Nos últimos dois anos, havia passado muitas noites imaginando como se comportaria quando visse Sam novamente. Ela seria fria, calma. Jamais deixaria transparecer que tudo dentro dela chorava pela perda apenas por olhá-lo. Não deixaria que ele percebesse que havia partido o coração dela! Forçando um sorriso, ela atravessou o recinto, olhando apenas para Bob, seu sogro. Era assim que ela ainda o considerava, apesar do divórcio que Sam exigiu. Bob e Connie Wyatt tinham sido uma família para Lacy desde menina, e ela não permitiria que isso mudasse só porque o filho deles era um péssimo projeto de homem. – Bolinhos de cranberry com laranja, seus preferidos – disse ela dando um beijo na testa do homem mais velho. Bob inspirou fundo, suspirou e sorriu. – Você é uma maravilha na cozinha. – E você gosta de qualquer coisa doce – brincou ela. – Por que não se senta? Connie foi pegar um lanche para nós. Eles costumavam se reunir naquele recinto, e havia risadas, conversas e uma ligação que Lacy pensava ser mais forte do que tudo. Mas esse tempo havia passado.


– Não, mas obrigada. Tenho que ir ao percurso de iniciantes. Tenho aulas marcadas para as próximas duas horas. – Se você diz... – O tom de Bob indicava que ele sabia exatamente o motivo de ela não ficar, e a compaixão em seu olhar significava que ele entendia. – Sim, mas volto amanhã para ver como você está. – Seria ótimo – falou Bob, dando um tapinha na mão dela. Lacy sequer olhou para Sam ao se virar para o elevador. Francamente, ela não sabia o que poderia fazer ou dizer se olhasse novamente naqueles olhos verdes. Seria melhor simplesmente seguir com sua vida, ensinando crianças e suas mães medrosas a esquiar. Depois, ela iria para casa, tomaria uma imensa taça de vinho, assistiria a alguma comédia romântica boba e choraria até não poder mais. No momento, porém, tudo o que ela queria era sair dali o mais rápido possível. – Lacy, espere. Sam estava bem atrás dela, mas ela não parou. Não ousou. Chegou ao elevador e apertou o botão. Contudo, no instante em que a porta se abriu, a mão de Sam tocou o ombro dela. Aquele simples toque fez o calor percorrê-la. Lacy baixou o corpo, escapando do toque dele, e entrou no elevador. Sam segurou a porta aberta, curvando-se na direção dela. – Droga, Lacy, precisamos conversar. – Por quê? Só porque você quer? Não, Sam. Não temos nada sobre o que conversar. – Eu la... Ela ergueu a cabeça e o olhou com irritação. – E, que Deus me ajude, se você disser que lamenta muito, vou fazer você lamentar de verdade. – Você não está facilitando as coisas. – Como você fez há dois anos? – Apesar de sua fúria, ela manteve a voz baixa. Não queria deixar Bob nervoso. Céus, ela não queria entrar naquele assunto. Não queria jamais falar do dia em que Sam lhe entregou a documentação do divórcio e a deixou. – Tenho que trabalhar. Solte a porta.


– Em algum momento, você vai ter que falar comigo. Ela arrancou os dedos dele da porta, permitindo que ela se fechasse. – Não, Sam. Não vou.


CAPÍTULO 2

FELIZMENTE, A aula que ela dava para crianças a mantinha tão ocupada que Lacy não teve tempo para pensar em Sam. Nem no que significava o retorno dele. Contudo, o fato de a mente dela estar ocupada não significava que seu corpo não tivesse começado a se recordar... e comemorar. Até mesmo a pele dela parecia se lembrar de como era o toque de Sam. E tudo em seu corpo vibrava de expectativa. – Tem certeza de que é seguro ensiná-la a esquiar tão cedo? – Uma mulher com olhos castanhos preocupados olhou de Lacy para sua filha de 3 anos, lutando para se manter de pé sobre um par de minúsculos esquis. – Claro – respondeu Lacy, deixando de lado os pensamentos em Sam. Se seu corpo estava ansioso por estar novamente com Sam, ele se decepcionaria. – Comecei aos 2. – Tenho muito medo, mas meu marido adora esquiar. Então... Lacy sorriu. – Você vai adorar. – Espero que sim – respondeu a mulher, melancólica. – Mike está em algum lugar lá no alto... – apontou para o topo da montanha – com o irmão. Ele vai cuidar de Kaylee enquanto faço minha aula hoje à tarde. – É Kristi Wyatt quem vai dar sua aula – falou Lacy. – Ela é maravilhosa. – A família Wyatt... Meu marido costumava vir aqui só para ver os irmãos Wyatt esquiando. O sorriso de Lacy pareceu um tanto rígido, mas ela se parabenizou por


O sorriso de Lacy pareceu um tanto rígido, mas ela se parabenizou por mantê-lo. – Muitas pessoas vinham. – Foi muito trágico o que aconteceu com Jack Wyatt. A mulher não era a primeira a falar do passado. Sem dúvida, não seria a última. Mesmo dois anos após a morte de Jack, os fãs dele ainda iam a Snow Vista numa espécie de peregrinação. Ele não foi esquecido. Assim como Sam. No mundo do esqui, os gêmeos Wyatt sempre seriam astros. Os olhos da mulher estavam cheios de bondade, solidariedade e também curiosidade, claro. Todos se recordavam de Jack Wyatt, campeão de esqui, e todos sabiam como a história dele havia terminado. O que eles não sabiam era o que a dor havia feito com a família. Dois anos atrás, Lacy não conseguiu pensar em outra coisa. Quase enlouqueceu, fazendo a si mesma perguntas que não tinham respostas, apenas possibilidades. Passou noites em claro, chorando. Jack havia morrido, mas quem sofreu foram as pessoas que ficaram para trás. – Sim – respondeu Lacy, sentindo seu sorriso desaparecer. – Foi mesmo. – Também foi trágico o que aconteceu com a família Wyatt depois da morte de Jack. – Meu marido acompanha tudo o que tem a ver com o mundo do esqui. Ele disse que o irmão gêmeo de Jack, Sam, foi embora de Snow Vista depois da morte dele. Deus, como Lacy poderia escapar daquela conversa? – Ele foi sim. – Aparentemente, abandonou o esqui competitivo e virou um designer de resorts de esqui maravilhoso. Agora, ele tem uma linha de equipamentos de esqui e parece que passou os últimos dois anos namorando aristocratas da Europa. O coração de Lacy se contraiu dolorosamente, e ela inspirou fundo, esperando conter suas emoções. Não foi fácil. Afinal, apesar de Sam não ter entrado em contanto, ele era um atleta famoso com um passado trágico e recebia muita atenção da mídia. Portanto, não foi difícil acompanhar o que ele havia feito nos últimos anos.


Portanto, não foi difícil acompanhar o que ele havia feito nos últimos anos. Ele era rico, famoso e lindo. Obviamente, a mídia não o deixava em paz. Sendo assim, naturalmente, Lacy viu muitas fotos de Sam acompanhando lindas mulheres a eventos glamorosos. E, sim, ele havia sido fotografado com uma condessa de cabelo escuro tão magra que parecia não comer há dez anos. Mas não importava o que ele havia feito; Sam era o ex-marido de Lacy. Ambos poderiam sair com quem bem entendessem. Não que ela tivesse saído com alguém... Mas, se ela quisesse, que ficasse à vontade! – Você conhece os Wyatt? – perguntou a mulher. – Ah, que pergunta boba. Claro que conhece. Trabalha para eles. E, até dois anos atrás, Lacy havia sido uma deles. – Conheço sim – respondeu Lacy, forçando outro sorriso. – E, falando em trabalho, é melhor eu começar logo a aula de hoje. SAM ESPEROU durante horas. Ele prestou atenção às aulas de Lacy e ficou maravilhado ao ver a paciência dela; não só com as crianças, mas também com os pais, que pareciam dar palpites sobre tudo. Ela não havia mudado. A cabeça fria de Lacy sempre solucionava os problemas que surgiam entre Sam e Jack. Ele e seu irmão gêmeo haviam discutido por tudo, e Sam sentia falta disso. Uma pontada atingiu seu coração, e ele a ignorou, como havia feito durante os últimos dois anos. Ele passou tempo demais enterrando todos os lembretes da dor que o afugentou de casa. Ele se concentrou na mulher que não conseguiu esquecer. O desejo despertou dentro dele. Isso também não havia mudado. – Certo, por hoje, é só – disse Lacy, e o som da voz dela desceu pela espinha dele como um toque. – Papais – falou ela, sorrindo. – Obrigada por confiarem seus filhos a nós. E, se quiserem se matricular para outra aula, é só falar com minha assistente, Andi. Como se tivesse sentido os olhos dele, Lacy levantou a cabeça e encontrouos. Imediatamente, ela desviou os olhos, sorriu e gargalhou com as crianças.


Imediatamente, ela desviou os olhos, sorriu e gargalhou com as crianças. Em seguida, foi lentamente na direção dele. Sam observou cada passo dela. Suas longas pernas ficavam ótimas dentro daquele jeans preto, e o pesado suéter que ela usava se ajustava a uma silhueta que ele conhecia bem demais. – Sam. – Lacy, precisamos conversar. – Já falei que não temos nada a dizer um ao outro. Ela tentou passar por ele, mas Sam segurou firmemente o braço dela. O olhar de Lacy se voltou imediatamente para a mão dele, deixando claro o que ela queria dizer. Sam não se importou. – Está na hora de acabarmos com esse clima – disse ele em voz baixa. – Engraçado ouvir isso de você – rebateu ela. – Não me lembro de você querer conversar há dois anos. Tudo o que me lembro é de vê-lo ir embora. Ah, sim, e da documentação do divórcio, que chegou duas semanas depois. Naquela época, você não tentou conversar. Por que essa vontade de repente? Ele a olhou fixamente, um tanto perplexo com aquela reação. Não que não fosse justificada. Mas Lacy sempre foi tão controlada. Tão... suave. – Você mudou um pouco – refletiu ele. – Se está querendo dizer que me mantenho firme agora, sim, mudei. O suficiente para não querer voltar a ser como eu era... flexível demais. – Parece que você se recuperou muito bem – ressaltou ele. – Não graças a você. – Ela olhou em volta, como se para se certificar de que ninguém estava ouvindo. – Tem razão – admitiu ele. – Mas, ainda assim, precisamos conversar. – Porque você está dizendo? Sinto muito, Sam. Não é assim que funciona. Você não pode desaparecer por dois anos e, depois, voltar e esperar que eu faça tudo o que você quer. A voz dela estava fria, mas seus olhos, não. Naquelas profundezas azuis, Sam viu faíscas de indignação que o surpreenderam. Mas Lacy tinha todo o direito de estar furiosa. Mesmo assim, ela o ouviria. – Lacy, estou aqui agora. Vamos precisar nos ver todos os dias. – Não se eu puder evitar. À volta deles, o dia prosseguia. Casais caminhavam de mãos dadas. Pais arrebanhavam seus filhos, e gritos de animação cortavam o ar. Na montanha,


um arco-íris de parkas de cores vivas descia pelas encostas. Ali, porém, Sam estava enfrentando um tipo diferente de desafio. Ela passou dois anos nos pensamentos e sonhos dele. Suave, meiga, ingênua. Contudo, aquele novo lado de Lacy também o atraía. Sam estava gostando das chamas que faiscavam nos olhos dela, mesmo que estivessem ameaçando engoli-lo. Quando ela tentou se desvencilhar da pegada dele, Sam a soltou, mas seus dedos arderam como se ele tivesse segurado um fio desencapado. – Lacy, você trabalha para mim... – Trabalho para o seu pai. – Você trabalha para os Wyatt. Eu sou um Wyatt. – Justamente o Wyatt do qual não quero saber. – Lacy? A voz de Kristi veio bem de trás dele, e Sam conteve um palavrão. Ela estava interrompendo de propósito, como se estivesse salvando Lacy. – Oi, Kristi. – Lacy abriu um sorriso para ela, ignorando descaradamente a presença de Sam. – Quer alguma coisa? – Na realidade, sim. – Kristi olhou seriamente para seu irmão. Em seguida, voltou-se para Lacy. – Se você não estiver ocupada, queria repassar os planos para a festa de esqui da semana que vem. – Não estou nada ocupada. – Lacy olhou fixamente para Sam. – Já terminamos, certo? Se ele dissesse que não, teria duas mulheres raivosas para encarar. Se dissesse que sim, Lacy acharia que ele estava disposto a recuar do confronto que precisavam ter. Sim, dois anos antes, ele foi embora. Agora, porém, estava de volta, e eles teriam de encontrar uma maneira de lidar com isso. – Por ora – disse ele por fim, vendo o alívio nos olhos de Lacy. Depois que Lacy e Kristi foram embora, Sam perambulou pelo resort. Ele se recordava perfeitamente de tudo, desde os percursos para iniciantes, passando pelos trajetos de slalom até as pequenas lanchonetes. Contudo, após passar dois anos longe, Sam olhava aquele lugar com novos olhos. Ele estava fazendo algumas mudanças no resort, a começar pela sonhada expansão, quando Jack morreu. Então, seus sonhos para aquele lugar haviam


desaparecido. Havia outros resorts em Utah. Grandes, pequenos, cada um tomando uma fatia da clientela que o Snow Vista poderia atrair. Enquanto ele olhava à volta, sua mente trabalhava. Eles precisavam de mais cabanas para hóspedes. Talvez outra hospedaria, separada do hotel. Um restaurante no cume, que oferecesse algo mais substancial do que cachorrosquentes e pipoca. E, para esquiadores avançados, eles precisariam abrir um percurso na parte posterior da montanha, onde a encosta era íngreme e havia árvores e saltos suficientes para um trajeto perigoso e empolgante. Ele tinha dinheiro mais do que suficiente para investir no local. Seria necessária apenas a aprovação de seu pai, e por que diabos ele não a daria? Com trabalho e uma publicidade criativa, Sam poderia transformar o Snow Vista no principal resort de esqui do país. Entretanto, para fazer todas essas mudanças, ele precisaria permanecer ali. Fincar raízes e recuperar a vida que havia deixado para trás. E Sam não sabia se queria fazer isso. Nem se seria capaz. Ele não era o mesmo homem que partiu dali dois anos antes. Havia mudado tanto quanto Lacy. Talvez mais. Ficar ali significaria conviver com o fantasma de Jack. Vê-lo em cada percurso de esqui. Ouvir sua risada ao vento. O olhar de Sam se fixou num solitário esquiador descendo a montanha velozmente. Sam quase conseguiu sentir a empolgação do homem. Tinha sido criado ali, e sua simples presença no local acalmava sua alma. Ali era o seu lugar. Assim, ele soube que ficaria. Ao menos durante o tempo necessário para fazer todas as mudanças que havia sonhado para o resort de sua família. – E VOCÊ quer supervisionar tudo isso por conta própria? – Sim – falou Sam, recostando-se numa das poltronas do salão de sua família. – Podemos tornar o Snow Vista o lugar aonde todos querem vir. – Você voltou faz duas horas. – Os olhos de Bob se semicerraram para seu filho. – Está se decidindo por isso tão de repente quanto foi sua partida. Sam mudou de posição na poltrona. Sua decisão estava tomada. Só precisava convencer seu pai de que era a correta. – Tem certeza de que quer fazer isso? Sam já vira que seu pai não estava correndo perigo. Sua saúde não estava


Sam já vira que seu pai não estava correndo perigo. Sua saúde não estava se deteriorando. Mesmo assim, o velho necessitava descansar, o que significava que eles precisavam de Sam ali. Ao menos por ora. – Sim, pai. Tenho certeza. Se eu começar imediatamente, consigo terminar a maior parte em poucos meses. – Eu me lembro de você e Jack passando a madrugada em claro, com desenhos, cadernos, planejando o que iam fazer com o lugar. – O pai suspirou, e Sam sentiu a dor dele. – Você vai supervisionar tudo? Ficar responsável? – Vou. – Então, isso quer dizer que você vai ficar aqui? – Sim. Ao menos até concluir tudo. – Era tudo o que ele poderia prometer. – Pode levar meses. – Para terminar tudo? Imagino que, no mínimo, uns seis. O pai dele olhou pela janela, para a maravilhosa vista do vale de Salt Lake. – Eu não devia deixar você usar seu dinheiro. Você tem sua própria vida agora. – Continuo sendo um Wyatt – falou Sam tranquilamente. Bob virou lentamente a cabeça para olhá-lo. – Fico feliz por você se lembrar disso. A culpa atingiu Sam novamente, e ele não gostou disso. Droga, até dois anos antes, a culpa nunca havia feito parte de sua vida. Desde então, porém, vinha sendo uma companheira constante. – Eu me lembro. – Demorou demais para isso – falou o pai dele levemente. – Sentimos sua falta. – Eu sei, pai. Mas eu tive que ir embora. Precisava ficar longe de... – Nós. Sam olhou fixamente nos olhos de seu pai, que estavam cheios de tristeza. – Não, pai. Eu não estava tentando me afastar da família. Estava tentando me perder. – Uma ideia não muito inteligente, já que você levou Sam embora junto. – Sim – murmurou Sam, levantando-se e andando de um lado para o outro. O argumento de seu pai fazia perfeito sentido. Contudo, dois anos


atrás, Sam não esteve disposto e nem conseguiu dar ouvidos a ninguém. Não queria conselhos. Nem solidariedade. Apenas espaço. Distância de tudo o que o fazia lembrar que ele estava vivo, enquanto seu irmão gêmeo estava morto. Sam finalmente parou diante do homem que estava sentado em silêncio, observando-o. – Na época, pareceu a única coisa que eu podia fazer. Depois que Jack... – Ele balançou a cabeça. Não importava mais o motivo de ele ter feito o que fizera. Dizer que se arrependia de suas escolhas não mudaria o fato de que ele havia abandonado as pessoas que o amavam. Que precisavam dele. Entretanto, nenhum deles seria capaz de entender o que significou para Sam a morte de seu irmão gêmeo, de sua outra metade. O pai dele assentiu. – A perda de Jack arrancou um imenso pedaço desta família. Despedaçou todos nós, especialmente você, imagino. Mas, deixando tudo isso de lado, preciso saber se você vai ficar até o final se começar algo aqui, Sam. – Dou minha palavra, pai. – É o suficiente para mim. – O velho se levantou e estendeu a mão. Quando Sam a apertou, Bob Wyatt sorriu. – Você vai ter que trabalhar com o gerente do resort para pôr isso em andamento. Sam assentiu. O gerente trabalhava com os Wyatt fazia 20 anos. – Dave Mendez. Vou procurá-lo amanhã. – Acho que você ainda não ficou sabendo. Dave se aposentou no ano passado. – O quê?! E quem o substituiu? O pai dele abriu um largo sorriso. – Lacy Sills. NO INÍCIO da manhã seguinte, Lacy estava tomando um café quando abriu a porta de seu escritório. Quase se engasgou ao ver o homem sentado à mesa dela. – O que está fazendo aqui? Sam não se apressou para erguer o olhar dos papéis diante dele.


– Analisando os relatórios do resort. – Por quê? A mente de Lacy estava confusa, seu cérebro ainda não havia engatado uma marcha acelerada. Era tudo culpa de Kristi. A irmã de Sam tinha ido até a cabine de Lacy na noite anterior, levando duas garrafas de vinho e um imenso prato de brownies. Pareceu uma ótima ideia. Embebedar-se com sua mais antiga amiga. Falar mal do homem que foi tão importante para a vida das duas. Sam. Sempre ele, pensou ela, desejando loucamente ser capaz de controlar aquela situação. Contudo, mesmo sem aquela ressaca, Lacy não ficaria bem encarando o homem que havia destruído seu coração. Ainda era difícil para ela acreditar que ele havia voltado. Ainda mais difícil saber o que fazer a respeito. O mais seguro seria manter distância. Evitá-lo o máximo possível e lembrar a si mesma que, sem dúvida, ele iria embora novamente. E Lacy faria o que fosse necessário para evitar se magoar outra vez. – Quando fui embora – disse Sam em voz baixa –, tínhamos começado a fazer mudanças aqui. – Sim, eu lembro. Terminamos as reformas do hotel, mas, depois disso, adiamos o resto. Seus pais não estavam... – Ela parou de falar. Os Wyatt não tinham estado animados para mudar nada depois que a morte de Jack havia mudado tudo. – Bem, enquanto eu estiver aqui, vamos aproveitar para implementar o resto dos planos. Enquanto ele estivesse ali. Estava bem claro o que aconteceria. – Falou com seu pai a respeito disso? – Falei. – Sam apoiou as mãos em seu abdômen reto e a observou. – Ele aceitou. Então, vamos avançar o mais rápido possível. – Com o quê, exatamente? – Inicialmente, vamos expandir a lanchonete no alto do teleférico. Quero um restaurante de verdade lá. Algo que atraia as pessoas e as faça passar mais tempo lá.


– Um restaurante. – Ela precisava admitir que era uma boa ideia. – É um começo ambicioso. – Não faz sentido continuarmos pequenos, faz? – Acho que não. O que mais? – Vamos construir mais cabanas. As pessoas gostam da privacidade delas. – Gostam mesmo. – Fico feliz por você concordar. – Mais alguma coisa? – Muitas – disse ele, apontando para a cadeira diante da mesa. – Sente-se. Vamos falar disso. Uma explosão de raiva a atingiu. Ele já havia dominado o escritório e a mesa dela, e, agora, ela estava sendo relegada à cadeira de visitas? Uma busca por poder? Balançando a cabeça, ela se sentou. – Vamos trabalhar juntos nisso, Lacy. Espero que não seja problema. – Sei fazer meu trabalho, Sam. – Eu também sei, Lacy. A questão é: vamos saber fazer juntos?


CAPÍTULO 3

DURANTE A hora que se seguiu, eles bateram cabeça continuamente. – Você fechou o percurso intermediário no lado Oeste da montanha – disse ele, erguendo o olhar dos relatórios. – Quero que ele seja reaberto. – Só podemos abrir na próxima temporada – respondeu Lacy. – Por quê? Ela respondeu ao olhar quase acusatório dele com uma fria indiferença. – Tivemos uma tempestade no final de dezembro, que derrubou alguns pinheiros e aumentou a camada de neve em mais de 40 centímetros. Os pinheiros estão bloqueando o percurso, e não temos como mandar uma equipe até lá para retirá-los porque a neve está funda demais. Ele franziu o cenho. – Você esperou tempo demais para enviar uma equipe. Ao ouvir a insinuação de incompetência dela, Lacy se levantou. – Esperei até a tempestade passar. Quando vimos o estrago, e levei em consideração os riscos para a equipe, fechei o percurso. – Quer dizer que vocês operaram em meia potência durante todo o resto da temporada? – Nós nos saímos muito bem – falou ela, tensa. – Verifique os números. – Já verifiquei. Não foram tão ruins... – Muito obrigada. – O sarcasmo pingava de cada palavra dela. – Teria sido uma temporada melhor com aquele percurso aberto. – Sim, mas nem sempre conseguimos o que queremos, não é mesmo? Os olhos dele se semicerraram, e Lacy parabenizou a si mesma em silêncio


Os olhos dele se semicerraram, e Lacy parabenizou a si mesma em silêncio por tê-lo atingido em cheio. Antes de Sam tê-la abandonado, Lacy não se recordava de um momento em que havia perdido a calma. Agora que ele estava de volta, porém, a raiva que ela costumava controlar não parava de borbulhar. – Deixando isso de lado por ora – disse ele –, a receita da lanchonete não está tão alta quanto antes. Ela deu de ombros. – Poucas pessoas se interessam por cachorros-quentes. A maioria prefere um almoço de verdade na cidade. – E é por isso que é importante construir um restaurante no cume. Lacy detestou admitir que ele tinha razão. – Concordo. Um meio sorriso curvou a boca dele por um instante, e tudo dentro dela se contraiu em resposta. Era involuntário. Sam sorria; ela estremecia. – Se podemos concordar em um ponto, talvez haja outros. – Não conte com isso – avisou ela. Ele a observou. – Não me lembro de vê-la tão teimosa. Nem irritada. – Aprendi a defender meus pontos de vista enquanto você estava longe, Sam. Não vou sorrir e assentir porque Sam Wyatt diz alguma coisa. Quando eu discordar, você vai saber. Assentindo, ele falou: – Acho que gosto tanto da nova Lacy quanto gostava da antiga. Você é uma mulher forte. Sempre foi, demonstrando isso ou não. – Não. Você não tem o direito de fazer isso, Sam. Você não tem o direito de fingir que me conhece. – Eu conheço você, Lacy – informou ele, contornando a mesa. – Fomos casados. – No tempo passado – lembrou ela, recuando dois passos. – Você não me conhece mais. Eu mudei. – Estou vendo. Mas a base continua a mesma – falou ele, reduzindo a distância entre eles. – Você ainda cheira a lilás. Ainda prende o cabelo nessa trança grossa que eu adorava desfazer e espalhar em cima dos seus ombros...


O ventre de Lacy se contraiu, seu coração disparou. Não era justo ele ainda ser capaz de fazer o corpo dela ganhar vida com poucas e leves palavras e um olhar tórrido. Por que o desejo por ele não se afogou no mar de mágoa e raiva que a envolveu quando ele partiu? – Pare. – Por quê? – Ele continuou se aproximando lentamente. – Você continua linda. E gosto do jeito como seu mau humor faz seus olhos faiscarem. Lacy se posicionou atrás da mesa, tentando mantê-la entre eles. Ela não confiava em si mesma perto dele. Desde menina, ela desejava Sam, e esse sentimento nunca a deixou. Nem mesmo quando ele partiu seu coração ao abandoná-la. – Você não tem o direito de falar assim comigo agora. Você foi embora, Sam. E eu segui com a minha vida. Mentirosa, berrou a mente dela. Ela não havia seguido com sua vida. Como poderia? Sam Wyatt era o amor de sua vida. O único homem que ela já desejara. O único que ela ainda desejava. Mas ele não saberia disso. Porque ela confiava nele. Mais do que em qualquer pessoa em sua vida, Lacy confiava nele, e Sam foi embora sem olhar para trás. A dor disso não desapareceu. – Você tem outro? Ela riu. – Por que você parece tão surpreso? Você passou dois anos fora, Sam. Achou que eu entraria para um convento ou algo assim? Que eu juraria nunca mais amar outro homem? O maxilar dele se contraiu quando ele cerrou os dentes. – Quem é? – Não é da sua conta. – Eu detesto isso, mas é verdade – concordou ele, aproximando-se. Tão perto que Lacy não conseguiu respirar sem inspirar o perfume dele. Lacy sentiu a contração de desejo que ela sempre associava a Sam. Nenhum homem a afetava daquele jeito. Nenhum homem jamais a tentou a acreditar na eternidade. – Sam. – Quem é ele, Lacy? – Ele tocou a ponta da trança dela com o dedo. – Eu


– Quem é ele, Lacy? – Ele tocou a ponta da trança dela com o dedo. – Eu conheço? – Não – murmurou ela, procurando uma saída, sem encontrar. Ela poderia se esquivar para o lado, mas ele a acompanharia. Perto demais. Ela inspirou fundo novamente. – Por que isso importa para você, Sam? – Como eu disse, já fomos casados. – Não somos mais. – Não – falou ele, erguendo o queixo dela com os dedos, fazendo-a olhar em seus olhos. – Seus olhos continuam tão azuis. O sussurro dele a fez estremecer. O toque dele fez raios de calor a percorrerem. – O gosto continua o mesmo? – perguntou ele a si mesmo, baixando a cabeça para a dela. Ela devia impedi-lo. Mesmo assim, Lacy não fez isso. Não conseguiu. A boca de Sam desceu sobre a dela, e tudo desapareceu. Tudo, menos o que ele a fazia sentir. O coração de Lacy martelava. Seu corpo latejava; sua mente estava repleta de prazer, da paixão que ela encontrava apenas com Sam. Ele a puxou para si com mais firmeza, e, por um curto e incrível momento, Lacy se permitiu sentir a alegria da estar pressionada junto ao peito rígido e musculoso dele novamente. De vivenciar os braços dele a envolvendo. De entreabrir seus lábios para a língua dele e conhecer a louca sensação que a percorria. Estava tudo ali. Dois anos, e bastou um beijo para que ela se recordasse de tudo o que eles haviam compartilhado no passado. O corpo dela se curvou na direção do dela, mesmo com sua mente berrando para que ela parasse. Depois do que pareceu uma eternidade, os berros finalmente foram suficientes para fazê-la dar ouvidos àquela pequena e racional voz dentro dela. Recuando, Lacy balançou a cabeça. – Não. Chega. Não vou fazer isso. – Acabamos de fazer. Ela ergueu a cabeça, furiosa com ele, mas ainda mais consigo mesma. Como pôde ser tão burra? Ele a havia abandonado. Agora, estava de volta à


montanha fazia apenas um dia, e ela já o estava beijando? Deus, que humilhação! – Foi um erro. – Não no que depender de mim. Ela precisava sair do escritório. Precisava ir aonde pudesse pensar novamente, onde pudesse obrigar a si mesma a recordar toda a dor que havia sentido por causa dele. – Você não pode me tocar de novo, Sam. Não vou deixar. Ele franziu a testa e perguntou: – Fiel ao novo homem? – Não. Isso é por mim. Para me proteger. – De mim? – Ele pareceu perplexo. – Acha mesmo que precisa se proteger de mim? Ele realmente não entendia?! – Uma vez, você me pediu para confiar em você. Para acreditar que você me amava e que nunca iria embora. As feições dele ficaram rígidas. – Mas você mentiu. Foi embora. Os olhos dele faiscaram uma vez, mas Lacy não soube se era de mágoa ou vergonha. – Acha que planejei ir embora, Lacy? Acha que eu quis aquilo? – Como posso saber? Você não falou comigo, Sam. Simplesmente me excluiu. Depois, foi embora. Você me magoou uma vez, Sam. Não vou deixar que faça de novo. Então, é melhor você se afastar. – Estou aqui agora, Lacy. E não vou me afastar de jeito nenhum. Esta continua sendo a minha casa. – Mas eu não sou sua – disse ela, aceitando a dor daquelas palavras. – Não mais. Ele suspirou e massageou a própria nuca. A familiaridade daquele gesto a atingiu. – Pensei em você – admitiu ele, fixando seu olhar no dela, sua voz baixando. – Senti sua falta. O prazer e a dor atacaram o coração dela ao mesmo tempo. Mas Lacy se apegou firmemente à dor.


– A culpa de você ter sentido a minha falta é toda sua, Sam. Você é quem foi embora. – Fiz o que precisava fazer na época. – Sem se importar com mais ninguém. Passando a mão pelo próprio cabelo, ele finalmente recuou. – Acho que foi isso que pareceu. – Foi o que aconteceu, Sam – disse ela, aproveitando a oportunidade para colocar novamente a mesa entre eles. – Você abandonou todos nós. Seus pais. Sua irmã. Foi embora da sua casa e nos deixou para juntar os cacos. – Eu não podia fazer isso. – Ele se virou para ela, seus olhos verdes lampejando como uma floresta em chamas. – Você precisa me ouvir dizer isso? Que não consegui aguentar? Que Jack morreu, e eu enlouqueci? Certo. Pronto. – Ele bateu com as duas mãos espalmadas na mesa e a olhou com irritação. – Está melhor assim? Mais fácil? Tantas emoções explodiram dentro de Lacy que ela não conseguiu separálas. Ela sentiu o impacto dos sentimentos que havia tentado enterrar dois anos antes, subindo à superfície novamente, exigindo serem reconhecidos. – Melhor? Sério? – A voz dela estava firme, mas baixa. Ela não gritaria. Não daria a ele a satisfação de saber como suas palavras a tinham dilacerado. – Acha que é possível melhorar? Meu marido me abandonou como se estivesse simplesmente jogando uma camiseta velha fora. – Eu não... – Nem tente argumentar. – Não vou fazer isso. Não consigo explicar nem para mim mesmo. Então, como poderia explicar para você ou qualquer outra pessoa? Sim, fui embora, e talvez isso tenha sido errado. – Talvez? – Mas estou de volta. Lacy balançou a cabeça. Um conflito com Sam não provaria que ela o havia superado. Não seria arrastada novamente para um drama da família Wyatt. Ela não era mais uma deles. O retorno de Sam não tinha nada a ver com ela. Sabia que precisava se proteger. – Você não voltou por minha causa, Sam. Então, não vamos fingir que voltou, está bem?


– E se eu tivesse voltado? – Não faria diferença – disse ela, torcendo loucamente para que ele acreditasse. – O que tivemos acabou. Ele a observou por um longo tempo, a tensão no ar entre ambos. – Acho que acabamos de provar que o que tivemos não desapareceu completamente. – Isso não conta. Surpreso, ele fez um som de desdém. – Ah, conta. Mas vamos deixar isso de lado por ora. Lacy suspirou. Era ridículo se sentir tanto aliviada quanto irritada de uma só vez. Ele ligava e desligava com tanta facilidade o que sentia! Havia deixado a própria vida, a própria esposa, para trás com tanta facilidade! – Voltemos aos negócios – disse ele, a voz fria, distante, como se aquele beijo avassalador não tivesse acontecido. – Ontem, você e Kristi estavam falando da festa de encerramento da temporada. – Sim. Os planos estão concluídos. Certo. Negócios eram o forte dela. Lacy vinha administrando o resort dos Wyatt fazia um ano e estava se saindo muito bem. Se ele analisasse os registros, veria por conta própria que ela não se manteve apática ao mundo porque ele tinha ido embora. Lacy amava sua vida, era boa em seu trabalho. Ela era feliz, droga! Contornando a mesa, ela o ignorou e apertou algumas teclas no computador para abrir um arquivo. – Pode ver por conta própria. Está tudo em andamento e dentro do prazo. – Parece tudo bem. Mas o final da temporada só costuma acontecer em março. Por que vamos fechar os percursos mais cedo? – Não neva significantemente desde o início de janeiro. O tempo tem estado frio o suficiente para manter a neve em bom estado, mas está aparecendo um pouco de gelo agora. Nossos hóspedes esperam a melhor neve do mundo... – Sim – falou ele ironicamente –, eu sei. Claro que sabia. Assim como Lacy, ele cresceu esquiando naquelas encostas. Criou uma vida, uma profissão, uma reputação com o esqui. – Então, deve entender por que vamos fazer o encerramento oficial mais


– Então, deve entender por que vamos fazer o encerramento oficial mais cedo. – Ela suspirou. – Os números vêm caindo ultimamente. As pessoas sabem que não temos neve nova. Por isso, não têm pressa de vir para a montanha. Fazer a festa de encerramento da temporada mais cedo vai trazêlas para cá. O hotel já está todo reservado, e só restam duas cabanas vazias... – Uma – disse ele. – Uma o quê? – Uma cabana vazia. Coloquei minhas coisas na cabana 6. Uma sensação de desespero a dominou. A cabana 6 ficava perto demais da casa dela. E Sam sabia disso. Ele teria escolhido aquela cabana de propósito? – Achei que você ficaria nos aposentos da família, no hotel. Ele balançou a cabeça. – Não. A cabana vai ser ótima para mim. Preciso desse espaço. – Certo. De qualquer forma, a população local vai continuar vindo esquiar aqui, mesmo que nós estejamos “oficialmente” fechados. Vamos manter os teleféricos funcionando, e, se tivermos mais neve, outras pessoas virão. Mas antecipar a festa nos dá uma publicidade que pode manter turistas chegando até a neve derreter. – Boa ideia. – Você parece surpreso. – Não estou. Você conhece este lugar tão bem quanto eu. Foi uma ótima escolha para administrar o resort. Por que eu ficaria surpreso por ver que você é boa no que faz? Seria um elogio? – Quero analisar o resto dos registros. Depois, como você é a gerente agora, vamos conversar sobre os planos para o resort amanhã. – Está bem – disse ela, indo para a porta e a abrindo. – Vejo você amanhã. – Lacy. Ela olhou por cima do ombro para ele. – Ainda não terminamos. Nunca vamos terminar. AQUELE BEIJO permaneceu com ele por horas. Durante dois anos, ele viveu sem ela. Não foi fácil. A dor, a fúria e a culpa haviam marcado tudo para ele, e Sam enterrou a lembrança dela no pântano,


com outras emoções. Havia convencido a si mesmo de que ela ficaria bem. Ela o atormentava à noite, claro. O sono dele era assombrado pela imagem dela, pelo seu perfume, pelo seu sabor. Agora, ele a havia provado novamente, e tudo dentro dele estava em chamas. Ele a amou no passado. Mas o amor não sobreviveu à dor dele. Agora, havia um farto desejo, atormentando-o de uma forma como ele não sentia desde a última vez que vira Lacy Sills. Ela disse ter um novo homem. Quem diabos a tocava? Quem a ouvia arfar ao atingir o clímax? Quem sentia as pequenas e fortes mãos dela subindo e descendo por sua pele? Sam estava enlouquecendo só de pensar naquilo. Quando ele voltou para casa, seu único pensamento estava voltado para seu pai. A preocupação impeliu todos os seus atos. Ele não parou para pensar em como seria estar perto de Lacy novamente. Encará-la de novo, encarar o que ele havia feito, indo embora. O coração de Sam lhe dizia que ele era um canalha, mas sua mente não parava de lembrar que ele precisara partir. Que teria feito coisas ainda piores se tivesse ficado. Agora, ele estava ali, ao menos por alguns meses. Como ele aguentaria não tocá-la? Resposta: ele não aguentaria. Ele a tocaria. Assim que possível. A reação de Lacy ao beijo lhe disse que, mesmo não querendo admitir, ela também o queria. Sendo assim, ao inferno com o outro homem. Sam girou a cadeira, seu olhar percorrendo o resort. Era impecável, lindo. Ele sentiu falta daquele lugar. Admitir isso era difícil, mas Sam sabia que seu retorno havia acalmado algo dentro dele. A volta para casa não foi fácil. Passou os últimos dois anos tentando convencer a si mesmo de que jamais voltaria. Contudo, agora que ele estava ali, havia fantasmas a enfrentar, o passado a confrontar e, acima de tudo, a necessidade de conseguir algum tipo de paz com Lacy. Mas talvez não fosse paz o que ele queria com ela... DURANTE OS dias que se seguiram, Lacy o evitou a todo custo, e Sam permitiu que ela se safasse com isso. Haveria tempo para resolver o que havia entre eles. Adiar aquilo apenas a deixaria mais tensa. E isso o beneficiaria. Uma Lacy fria e tranquila não era o que ele queria. O


E isso o beneficiaria. Uma Lacy fria e tranquila não era o que ele queria. O temperamento que ela desenvolvera o intrigava, fazia-o pensar na paixão que ela sempre demonstrou na cama. Juntos, eles haviam sido explosivos. Ele queria isso de volta. Ele a olhou e quase sorriu ao ver a distância proposital que ela mantinha. Como se isso adiantasse... O dia estava frio, o céu claro, e os pés deles esmagavam a neve no caminho para o cume. Desviando o olhar de Lacy por um instante, Sam observou a lanchonete que estava ali desde antes de ele nascer. Pequena e tradicional, ela já havia cumprido seu propósito. Atualmente, as pessoas queriam comidas saudáveis, não cachorros-quentes cheios de mostarda. – O que está pensando? – Lacy o olhou, claramente ainda irritada por ele tê-la arrastado para longe do hotel para subir ali. – Que quero um cachorro-quente. Por uma fração de segundo, o gelo no olhar dela desapareceu. – Você sempre gostou do cachorro-quente de Mike. – Andei pelo mundo todo e nunca encontrei nada parecido. – O que não é surpresa. Acho que ele põe combustível de foguete naquele negócio. Sam sorriu, e Lacy fez o mesmo, o que o surpreendeu e o agradou. Um frio vento atingiu o topo da montanha, levantando a trança dela. Suas faces estavam rosadas, seus olhos azuis reluziam, e ela estava tão bonita que Sam precisou de todas as suas forças para não agarrá-la. Contudo, no instante em que ele pensou isso, o sorriso dela desapareceu. – Acho que vamos manter a lanchonete, pelos velhos tempos – disse ele, obrigando-se a desviar o olhar dela. – Mas quero que o novo restaurante fique ali – apontou ele –, para que os pinheiros fiquem por trás dele. Vamos colocar um deque externo e um jardim. Ela assentiu. – É um bom lugar. Mas um deque de madeira exige muita manutenção. O que acha de um de pedra? – Boa ideia. Liguei para a empresa de construção de Dennis Barclay ontem, e ele vai vir amanhã fazer algumas medições e alguns desenhos para podermos ir à cidade dar entrada nas licenças.


– Dennis faz um bom trabalho. – Ela fez uma anotação em seu tablet. – Franklin Stone pode colocar os caminhos de cascalho e a pedra. Ele tem um pátio em Ogden com amostras. – Boa ideia. Podemos dar uma olhada quando conseguirmos as licenças e um desenho arquitetônico do restaurante. – Certo. – A voz dela estava fria, curta. – Contratamos a firma de Nancy Frampton para ampliar o hotel. – Eu lembro. Ela é boa. Certo, vou telefonar para ela amanhã. Dizer o que queremos. Ela fez outra anotação, e ele quase riu. Ela estava tão determinada a mantê-lo distante. A fingir que o que eles haviam compartilhado no escritório na noite anterior não havia acontecido. – Já que está fazendo anotações, registre que queremos algumas ideias de onde construir um anexo ao hotel. Quero perto o suficiente da construção principal para que faça parte dela. Mas também separada. Talvez unida por uma passarela coberta. – Isso daria certo. – Ela parou. – Sabe, há um ano, compramos um fogão, um forno e uma geladeira de alto nível na cozinha da construção principal. Estamos preparados para fornecer mais do que café da manhã e almoço agora. – Então, por que não oferecem? – Precisamos de um novo chef. – Lacy suspirou. – Maria está pronta para se aposentar, mas só vai fazer isso quando tiver certeza de que vamos sobreviver sem ela. Sam sorriu, pensando na mulher que estava no resort desde que ele era menino. – Sendo assim, ela não vai embora nunca. Lacy também sorriu. – Provavelmente. Mas, se quisermos oferecer um cardápio mais amplo para mais pessoas, precisamos de outro chef para tirar um pouco da carga dela. Maria não quer mesmo se aposentar, mas ela não tem como aguentar uma carga maior, mesmo dizendo que aguenta. Mais um chef faria toda a diferença. – Anote.


– Já anotei. – Certo. – Sam a segurou pelo cotovelo e a fez virar na direção da lanchonete. – Vamos. Temos que descer e finalizar os planos da festa. Mas, primeiro... cachorro-quente. Por minha conta. – Não, obrigada. Não estou com fome. – Se bem me lembro, você está sempre com fome, Lacy – disse ele, praticamente a arrastando para a lanchonete. – Ah, pelo amor de... – Ela parou de falar e começou a caminhar com ele. – As coisas mudam, sabia? Lacy tinha razão. Muitas coisas haviam mudado. Mas aquela vibração ardente e elétrica que havia entre eles continuava lá. Mais forte do que nunca. Dois anos distante não haviam reduzido o que ele sentia por ela. E, desde aquele beijo, Sam sabia que ela sentia o mesmo.


CAPÍTULO 4

– PAPAI ESTÁ muito feliz por Sam ter voltado. – Kristi acabou com seu vinho. Em seguida, pegou a garrafa na mesa para reabastecer a taça. – Eu sei – respondeu Lacy. – Sua mãe também está feliz. Kristi suspirou. – Eu sei. Ela não para de confeitar. Tortas, bolos, os biscoitos que eu trouxe. É loucura. Acho que o forno não esfriou desde que Sam chegou. Enquanto sua melhor amiga falava, Lacy olhava para as chamas na lareira. Lá fora, a noite estava fria e tranquila. Ali dentro, havia o calor do fogo e da amizade. Era bom estar ali relaxando... ao menos na medida em que ela era capaz de relaxar numa conversa sobre Sam. Mas, pelo menos, ele não estava ali, com um cheiro tão bom a ponto de fazê-la querer subir no colo dele, apoiar a cabeça em seu peito e simplesmente inspirar fundo. Ah, Deus. Já fazia dias, e a raiva dela continuava se derretendo numa poça de desejo. Ela não queria desejar Sam, mas parecia não haver escolha. E ela devia saber que não podia pensar assim. O que eles haviam vivido juntos não foi suficiente para mantê-lo com ela dois anos antes. Não seria suficiente agora. Ela não conseguia evitar desejálo. O que não significava que ela se renderia novamente ao que sentia por ele.

– Estão todos tão felizes por ele ter voltado – disse Kristi. – Parece até que


– Estão todos tão felizes por ele ter voltado – disse Kristi. – Parece até que esqueceram como ele foi embora. – Eu entendo – falou Lacy. Para a família dele, era diferente, claro. Ter Sam de volta significava preencher lacunas nas vidas deles que haviam passado muito tempo abertas. Inspirando fundo, Lacy sorriu falsamente para sua amiga. – Seus pais sentiram muita falta dele. Só estão agradecidos por terem Sam em casa. – É, eu entendo. Mas como eles podem simplesmente ignorar a maneira como ele foi embora? O que ele fez com todos nós indo embora naquele momento? – Não sei. – Lacy pegou um biscoito com gotas de chocolate na mesa e o mordeu. – Acho que, para os seus pais, é mais importante recuperar o filho deles do que castigá-lo por ter ido embora. – Ele magoou todos nós. – Sim. Magoou. – Lacy sabia como sua amiga se sentia. Ela própria também não conseguia esquecer a maneira como Sam havia partido. Tê-lo ali de volta era difícil demais. Toda vez que ela o via, toda vez que ele se aproximava dela, seu coração palpitava. E ainda havia toda aquela história do beijo. Ela não conseguia esquecer. Não conseguia parar de pensar naquilo. Passou os dias seguintes alerta, esperando que ele tentasse novamente, para que ela pudesse rechaçá-lo. Mas ele não tentou. Droga. – Eu achava – falou Kristi – que tudo melhoraria se Sam simplesmente voltasse para casa. Agora que ele voltou, e as coisas não estão melhores. Estão simplesmente... sei lá. – Ele é seu irmão, Kristi. Você ainda está chateada com ele, mas você o ama e sabe que está feliz por ele ter voltado. – E você? – Eu o quê? – Você ainda o ama? O coração de Lacy disparou. – A questão não é essa. Isso não tem a ver comigo. Nem com o que eu


– A questão não é essa. Isso não tem a ver comigo. Nem com o que eu sinto. – Então, isso quer dizer que sim? – Não, não quer. – O fato de o coração dela disparar toda vez que ele se aproximava não significava necessariamente amor. O desejo sempre existiria, e Lacy aceitava isso. O amor era algo diferente. – Mesmo se fosse, não importaria. – Você também continua chateada. Lacy suspirou. – Sim. Continuo. – Ele vem trabalhando duro na festa de encerramento da temporada – admitiu Kristi, contrariada. – Até telefonou para um dos antigos amigos dele. Tom Summer. Ele tem uma banda muito popular, e Sam convenceu Tom a trazê-la para a festa. A música ao vivo vai ser muito melhor que a aparelhagem de som que tínhamos providenciado. – Vai mesmo. – Era irritante admitir que Sam havia providenciado tão facilmente uma boa banda, enquanto todas com as quais Lacy falou sobre a festa já estavam com a data reservada. Ele tinha amigos em todos os lugares, e todos estavam satisfeitos por tê-lo de volta, assim como a família dele. Ali, no Snow Vista, havia uma contínua Celebração de Sam. E Lacy era a única que não aderia. Bem, certo, Kristi também não participava. Mas, eventualmente, ela acabaria se juntando aos outros; Sam era o irmão dela, e, no final, essa conexão venceria. Quando isso acontecesse, Lacy ficaria sozinha. Excluída. – Parece que ele retomou a vida antiga dele sem perder nada. – Kristi balançou a cabeça novamente. – Ele fica longe da maioria dos esquiadores... acho que porque todos querem perguntar a ele sobre Jack, e Sam não quer falar dele. Não posso culpá-lo por isso. Nenhum de nós quer. – Verdade. – A própria Lacy tinha visto Sam se manter distante de desconhecidos, dos turistas que chegavam para esquiar no Snow Vista. Assim como o tinha visto visitar todos os percursos da montanha, menos o preferido de Jack. Ela sabia que as lembranças o estavam sufocando, tanto quanto os dois anos passados fizeram com ela. Até mesmo aquela cabana, onde ela cresceu, havia deixado de ser um


Até mesmo aquela cabana, onde ela cresceu, havia deixado de ser um santuário. Em vez de memórias dos dias passados com seu pai, as imagens na mente dela estavam tomadas de sua vida com Sam, desde que passaram a morar juntos. Lacy olhou pelo recinto familiar, vendo a mobília desbotada, embora confortável, os tapetes coloridos, as fotos emolduradas na parede. Quando ela e Sam se casaram, foram morar na casa dela. O plano era permanecer ali e ampliar a simples cabana até que eles tivessem a casa dos sonhos deles. A cabana ficava num lugar perfeito, ótima vista, perto do hotel e dos percursos de esqui, e era dela. Claro, aqueles planos de ampliação estavam pegando poeira num armário, e os quartos dos filhos que eles tinham planejado ter nunca haviam sido construídos. Entretanto, permanecer naquela cabana foi uma espécie de tortura agradável. Ela ouvia a voz de Sam, sentia sua presença muito depois de ele ter partido. Até mesmo a cama parecia grande demais sem ele para dividi-la. Sam havia destruído a fundação da vida dela, deixando Lacy nos escombros. – Sam já está conversando com papai sobre construir uma pista de luge, para dar aos turistas o que fazer no verão. Detesto o fato de que isso é uma boa ideia. – Entendo o que você quer dizer – admitiu Lacy. – Quero que ele falhe, sabe? Que tropece um pouco no comando depois de passar dois anos fora. Mesmo assim, ele está fazendo tudo. E está fazendo muito. Ele já enviou uma empreiteira para o cume, para analisar a construção do novo restaurante, e contratou Nancy Frampton para fazer os desenhos. Nesses últimos dias, ele fez mais do que nós fizemos em dois anos. – Irritante, não? – resmungou Kristi. – Muito. – Não sei se quero Sam aqui ou não. Quero dizer, fico feliz por mamãe e papai... eles sentiram tanta falta dele. Mas vê-lo todos os dias... – grunhiu. – Deus, isso já me deixa irritada. Imagino você. Como você está lidando com isso? – Estou bem. – Lacy achava que, se dissesse aquelas duas palavras com frequência suficiente, talvez elas se tornassem reais e ela ficaria bem de verdade. No momento, porém, não era o que estava acontecendo. Seu olhar vagou


No momento, porém, não era o que estava acontecendo. Seu olhar vagou para a janela mais próxima. Através dela, Lacy tinha uma vista da floresta nevada, do céu e, em meio às árvores, da cabana 6. Na maior parte do tempo, ela podia fingir que ele não estava lá, mas, à noite, quando as luzes ficavam acesas, era impossível ignorar. Enquanto observava, viu a sombra dele passar por uma janela, e seu coração disparou. Tê-lo tão perto era um novo tipo de tortura. Durante dois anos, ela não soube onde ele estava, nem o que estava fazendo, a não ser pelas ocasionais informações vindas dos pais dele ou da mídia. Ficar longe dele a havia dilacerado... ao menos nos primeiros meses. Agora, ele estava ali, e continuava fora do alcance dela. Não que Lacy quisesse tocá-lo. Mas tê-lo perto e, no entanto, distante, era mais difícil do que ela imaginava. Quando ele lhe disse que ficaria na cabana mais próxima da casa dela, Lacy se preocupou com a possibilidade de que ele fosse visitá-la. Entretanto, Sam não apareceu à porta dela nem uma única vez. E Lacy não sabia se isso a fazia se sentir melhor ou pior. Sua única certeza era que estava extremamente tensa, a ponto de explodir. – Você não está bem. – A voz de Kristi estava suave, cheia de compreensão. Lacy teria contestado aquela afirmação, mas Kristi era sua melhor amiga. Juntas, elas tinham frequentado o colégio e aulas na faculdade, haviam enfrentado garotas maldosas e corações partidos. De que adiantaria esconder aquilo agora? – Certo, não estou. Mas posso ficar. Só vai levar um tempo. – Detesto o fato de você estar assim por causa dele novamente. – Obrigada – respondeu Lacy, forçando um sorriso. – Eu também detesto. – O problema é que estamos deixando que ele nos afete. Isso dá todo o poder a ele. Precisamos recuperar esse poder. – Você andou lendo livros de autoajuda de novo. Um rápido sorriso surgiu no rosto de Kristi. – Verdade. Mas algumas coisas que eles dizem fazem sentido. Sam só pode nos incomodar se permitirmos. Então, temos que parar de permitir. – Que ótima ideia – disse Lacy, rindo. Como era bom rir! – Sabe como?


Kristi deu de ombros. – Ainda não cheguei nesse capítulo. – Como Tony consegue manter a sanidade com você? Tony DeLeon era inteligente, lindo e irremediavelmente apaixonado por Kristi. Durante o último ano, eles haviam sido inseparáveis, e Lacy tentava de verdade sentir felicidade por sua amiga, não inveja. – Ele me ama. – Kristi suspirou. – Quem diria que eu me apaixonaria por um contador? – Que bom que se apaixonou. Ele vem fazendo um ótimo trabalho nos livros do hotel. – Sim, ele é incrível. Mas o assunto não é ele. O problema é Sam. O problema de Lacy sempre foi Sam. Desde seus 15 anos, ela soube que ele era o homem que ela queria. Era Jack que os jornais chamavam de “o gêmeo divertido”, e Lacy imaginava que isso fosse verdade. Sam era mais quieto. Mais intenso. Jack era mais exagerado, com sua gargalhada alta e trovejante, seu amor imenso pela vida. E, quando ele morreu, levou consigo uma parte de todos que o amavam. A maior parte vinha de Sam. Aqueles tinham sido dias sombrios, terríveis. Impotente, Lacy viu Sam afundar na tristeza. Ele se perdeu na dor e não conseguiu escapar. Contudo, isso tornava mais fácil aceitar o que aconteceu entre eles. – Kristi, ele é seu irmão. Você não pode ficar irritada com ele para sempre. Inesperadamente, os olhos de Kristi se encheram de lágrimas, mas ela piscou para contê-las. – Todos nós perdemos Jack, e Sam não parece entender isso. Ele me magoou. Magoou todos nós. Vamos simplesmente perdoá-lo e esquecer tudo? – Não sei – falou Lacy, embora soubesse que jamais esqueceria ter sido deixada para trás, como se não importasse. Havia passado por isso quando criança e confiou em Sam quando ele prometeu que jamais a abandonaria. Então, ele fez exatamente isso, e a dor jamais desapareceria por completo. – Acho que não consigo – admitiu Kristi, levantando-se. Ela foi até a janela e olhou para a luz que vinha da cabana de Sam. – Eu quero – disse ela, olhando por cima do ombro para Lacy. – De verdade. E Tony não para de


dizer que tudo o que consigo me apegando a toda essa raiva é magoar a mim mesma... – Você o pôs para ler um dos seus livros, não foi? Entristecida, Kristi riu. – Sim. Acho que vou ter que parar com isso. – Ela se voltou novamente para a janela. – Não devia ser tão difícil. Não mesmo. – Você vai ter que continuar tentando – disse Lacy. – E você? Vai tentar? – Minha situação é diferente, Kristi. Ele é da sua família. – Lacy se levantou e retirou os biscoitos e o vinho da mesa. Havia sido um longo dia, e aquela reunião feminina estava se transformando num poço de melancolia. Ela preferia tomar um banho quente e ir para a cama. – Ele era minha família. Agora, não é mais. Então, não importa o que penso dele. Kristi abriu um triste sorriso. – Claro que importa. Você importa, Lacy. Não quero que ele magoe você de novo. Dando uma piscadela, Lacy relembrou o conselho de autoajuda de Kristi. – Ele só pode me magoar se eu permitir. E acredite, não vou fazer isso. A FESTA estava sendo um imenso sucesso. Ainda era o início da noite, e o Snow Vista estava lotado de moradores locais e turistas. A música cortava o ar com uma batida marcante. Em torno de Sam, as pessoas conversavam, riam, dançavam. Sendo assim, por que diabos ele estava tenso? Então, ele se deu conta do motivo. Fazia dois anos desde a última vez em que ele estivera em meio a uma multidão daquelas. Evitava aglomerações. Sempre foi Jack quem gostava delas. Ele adorava ser o centro das atenções, sempre esquiando mais rápido, saltando mais alto, arriscando mais. Sempre indo além dos limites. Jack era o aventureiro, pensou Sam, um meio sorriso curvando seus lábios quando ele se recordou. Mesmo quando criança, Jack sempre fugia do lugar-comum, esquiando entre as árvores, saltando sobre rochas... Jack adorava velocidade. Se não tivesse sido esse o caso, talvez ele não


Jack adorava velocidade. Se não tivesse sido esse o caso, talvez ele não tivesse morrido num acidente de carro. Ele não considerava os riscos. Não se preocupava com as consequências. Jack amava a publicidade, os repórteres. Adorava aparecer em revistas. – Jack teria se exibido tanto nesta festa – murmurou Sam. – Droga, como eu sinto a sua falta... – Sr. Wyatt! Sam virou a cabeça e avistou uma loura de cabelo curto segurando um microfone vindo em sua direção. Para piorar, um cinegrafista a seguia. Uma repórter. Tudo dentro dele se contraiu. Houve uma época em que Sam lidou com a mídia com maestria. Quando ele esquiava competitivamente, era acostumado a estar diante da câmera e a responder ao que pareciam ser as perguntas mais idiotas do mundo. Então, Jack morreu, e as perguntas haviam mudado. Desde então, Sam se esquivava o máximo possível de repórteres. Naquela noite, porém, isso não era uma opção. A festa de encerramento de temporada era uma grande notícia ali, e, como Lacy havia ressaltado, quanto mais publicidade eles recebessem, melhor seria para o Snow Vista. Por isso, ele cerou os dentes e esperou. – Sr. Wyatt – repetiu a mulher ao se aproximar. Ela abriu um fabuloso sorriso para ele. Em seguida, virou-se para seu cinegrafista. – Scott, coloque bem ali. Vamos pegar a festa ao fundo, para dar o clima. Ela sequer havia perguntado se ele queria falar. Simplesmente partiu do princípio de que sim. Provavelmente, a repórter estava acostumada com pessoas que faziam de tudo para ter alguns minutos diante da câmera. Quando a luz se acendeu, Sam semicerrou os olhos por um instante. À volta dele, curiosos começaram a se reunir. – Sou Megan Short, do Canal Cinco – disse a mulher com um falso sorriso. – Gostaria de falar com o senhor sobre este evento. – Claro. – Ótimo. – Ela se virou para a câmera e, quando o homem atrás da lente lhe deu o sinal, começou: – Eu sou Megan Short e estou no resort Snow Vista, onde está acontecendo a festa anual de encerramento de temporada. Sam se obrigou a relaxar. Ele permitiu que seu olhar percorresse a


Sam se obrigou a relaxar. Ele permitiu que seu olhar percorresse a multidão. Mais pessoas se reuniram atrás dele, tentando aparecer na filmagem, mas a maioria estava ocupada demais com a festa para prestar atenção. A música ainda martelava, as pessoas riam, as crianças patinavam no lago. O ar estava frio, o céu, límpido. Uma noite perfeita... a não ser pela repórter. – Segundo alguns moradores locais, nos últimos anos, a festa do Snow Vista não tem sido a mesma – disse Megan ao se virar para Sam. – Mas, esta noite, parece que tudo está nos conformes. E acho que isso se deve ao retorno do campeão local, Sam Wyatt. – Ela abriu outro sorriso para ele, prosseguindo: – Como é a sensação de estar de volta aqui, Sam, onde você e seu irmão gêmeo, Jack, dominavam as encostas? Ele já esperava que ela fosse falar de Jack. Afinal, tragédias davam audiência. – É bom estar em casa. – A trágica morte do seu irmão, há dois anos, deixou todo o estado perplexo. Estávamos todos envolvidos no sucesso dos gêmeos Wyatt. Como é a sensação de estar aqui sem Jack, Sam? Por baixo da crescente irritação, havia um fio de frustração. Por que os repórteres sempre perguntavam o que ele sentia? Não conseguiam imaginar? Ou simplesmente não se importavam por estarem jogando sal em feridas abertas? Mas ele tinha muita experiência no trato com gente que queria se meter com sentimentos particulares. Com a expressão velada, ele guardou suas emoções. – Jack adorava a festa de encerramento de temporada – disse ele. – Por isso, é bom estar aqui, vendo as pessoas se divertindo. – Certamente, mas... Ele a interrompeu, fingindo não ver o lampejo de raiva no olhar dela. – A banda de Tom Summer é ótima. Se virarem um pouco a câmera, poderão ver que o lago para patinação está aberto e que temos mais de duas dúzias de barraquinhas de comidas, oferecendo de tudo. – Ele sorriu para a câmera. – Sim – disse a repórter, determinada a retornar ao assunto de seu


– Sim – disse a repórter, determinada a retornar ao assunto de seu interesse. – Mas não seria muito mais especial estar aqui hoje se seu irmão gêmeo não tivesse falecido de forma tão trágica? Essa perda ainda abala a família Wyatt. Ele havia tentado. Forjara uma expressão, falara do resort e se esforçara para ignorar a dolorosa intromissão da repórter. Mas havia um limite. Ele não permitiria que aquela mulher se alimentasse da dor de sua família. Sam a olhou com tanta seriedade que a fez recuar levemente. Entretanto, a determinação nos olhos dela não se reduziu. – Sem comentários – disse ele tensamente. – Deve ser difícil lidar com a perda de um irmão... – Difícil? – Uma palavra tão pequena e fraca para descrever o que a perda de Jack havia feito com ele. Com a família. – Acho que já terminamos a entrevista. Ela não recuou. Claramente, havia estabelecido um objetivo e não tinha nenhuma intenção de deixá-lo de lado até ter sucesso em sua missão. – Nem consigo imaginar como deve ter sido para você – disse ela, aproximando-se, para entrar no enquadramento com Sam. – Competir com seu irmão gêmeo e, depois, ser doador de medula durante a luta dele contra a leucemia... Sam continuou respirando; foi tudo o que conseguiu fazer. Se ele falasse naquele instante, não seria algo bonito. As recordações voltaram com tudo. A avassaladora notícia de que Jack estava com câncer. Os tratamentos. Ver seu forte irmão enfraquecer com a quimioterapia. E, por fim, a doação de sua medula óssea numa tentativa desesperada de salvar sua outra metade. O transplante funcionara. E, ao longo das semanas que haviam se seguido, a força de Jack retornara. Sua poderosa vontade de viver o levou a se recuperar, a se tornar o homem que costumava ser. Para simplesmente morrer em seguida. – ...ajudá-lo a vencer aquela batalha – dizia a repórter –, a vencer o câncer, apenas para falecer num horrível acidente automobilístico a caminho do aeroporto para competir num campeonato internacional. – Ela levantou o microfone. – Conte para nós, em suas próprias palavras, o preço que você e sua família pagaram em decorrência de uma tragédia pessoal tão grande.


Sam cerrou os dentes, pois sabia que, se abrisse a boca para falar, insultaria a mulher por sua falsa solidariedade em nome da audiência. – Megan Short! – Lacy apareceu ao lado de Sam, sorriu para a repórter e falou: – Que ótimo! Sou Lacy Sills, gerente do resort. Estamos muito felizes com a presença do Canal Cinco no Snow Vista. Espero que seu público venha aproveitar a festa! Temos comidas à vontade, um rinque de patinação para as crianças, música ao vivo e os melhores doces de Utah. A noite é uma criança. Venham todos! Não demovida de seu objetivo, Megan voltou sua atenção para Lacy. – Obrigada pelo convite, Lacy. Talvez você possa responder à minha pergunta. Nossos telespectadores acompanharam Sam e Jack Wyatt ao longo dos anos, com os gêmeos vencendo praticamente todos os prêmios possíveis no esqui. Já que você foi casada com Sam, talvez possa contar a nossos telespectadores como foi difícil para você lidar não só com o fantasma de Jack Wyatt, mas também com o do seu próprio ex-marido. Por uma fração de segundo, Sam ficou dividido quando Lacy chegou. Feliz por vê-la, mas irritado por ela claramente pensar que ele precisava ser salvo. Contudo, o mais surpreendente era o fato de ela ter ido ajudá-lo. Ele já estava ali fazia quase uma semana, e ela fez de tudo para evitá-lo. Agora, chegava às pressas? Por quê? Ele a olhou, de suéter azul-marinho, jeans e botas, sua grossa trança loura pendendo sobre um dos ombros. Ninguém mais poderia perceber isso, mas Sam via o esforço que Lacy estava fazendo para estar ali, sorrindo para a mulher que a provocava. Lacy empinou o queixo, seus olhos faiscaram, e Sam se sentiu orgulhoso. Quando ela olhou nos olhos da repórter, ele se recordou de todas as vezes ao longo dos anos em que Lacy se manteve firme apesar de tudo. A admiração e o desejo explodiram dentro dele. – Não tenho como falar sobre Jack Wyatt, a não ser dizendo que todos nós sentimentos falta dele. Sempre sentiremos. – Com o rosto congelado num tenso sorriso, Lacy acrescentou: – Muito obrigada por ter vindo ao resort hoje, e espero que todos os seus telespectadores subam a montanha para aproveitar a festa! Agora, se puder nos dar licença, Sam e eu precisamos resolver algumas coisas.


Sem esperar resposta, Lacy deu o braço a Sam e o puxou consigo. Eles se afastaram da multidão, ficando nas sombras atrás do hotel. Se Lacy não tivesse aparecido naquele momento, talvez Sam tivesse dito àquela repórter exatamente o que ele pensava dela. E isso não teria sido bom para ele e nem para o resort. – Obrigado – disse ele. – Sem problema. – Ela se recostou na construção. – Venho lidando com Megan Short nos últimos dois anos. Ela não para. – Mas você lidou bem com ela. Lacy deu de ombros. – Só não sei bem por quê – disse ele. – Você podia ter me deixado sozinho lá, mas não deixou. Então... por quê? Lacy se afastou da parede. – Vi sua expressão. Mais um minuto com ela e você teria destruído toda a publicidade positiva que estamos recebendo. – Só isso? Foi pelo bem do resort? Ela o olhou. – Por que mais, Sam? – É o que quero saber. – O olhar dele a percorreu, subindo e descendo antes de se fixar finalmente nos olhos dela. – Sabe... Acho que não foi só isso. Acho que você ainda sente alguma coisa. Ela fez um som de desdém. – Sinto muitas coisas. Só que não por você. Um sorriso curvou a boca dele enquanto Sam a via mexer, inquieta, na ponta da trança. Ela sempre fazia aquilo quando estava se esquivando da verdade. – Você está mexendo no cabelo, e nós dois sabemos o que isso significa. Imediatamente, ela parou. – Sabia que, no mundo real, quando alguém te ajuda, você diz “obrigado”? – Eu já disse. – Verdade. Não há de quê. Ela se virou para ir embora, mas Sam segurou seu braço. – Ainda não terminamos. E ele a beijou.


CAPÍTULO 5

LACY DEVIA tê-lo empurrado para longe. Devia tê-lo chutado, pisado no pé dele, alguma coisa. Em vez disso, ela também o beijou. Como poderia não fazer isso? Dois anos a desejá-lo a tinham deixado louca o suficiente para querer os braços de Sam a envolvê-la outra vez. Para querer sentir a boca dele na dela. Por um louco momento, houve apenas o calor dele, abraçando-a, provando-a. O erótico deslizar de sua língua na dela fez faíscas de excitação percorrerem o corpo de Lacy. Ela se curvou na direção dele, o som da festa não passando de um zumbido em seus ouvidos. Como poderia ouvir mais, quando seu próprio coração martelava tão ruidosamente que abafava todo o resto? A jaqueta de couro preto que ele usava estava fria sob os dedos dela. Erguendo as mãos, ela os entrelaçou no cabelo dele, segurando a boca de Sam junto à dela, deleitando-se com as sensações. Ele recuou até deixá-la imprensada contra a parede dos fundos do hotel. As toras grossas e frias a fizeram sentir um calafrio, mesmo com o calor de Sam envolvendo ambos. Os anos se esvaíram, a dor desapareceu, e tudo o que restou foram as incríveis sensações que ela vivenciava apenas com Sam. A raiva foi coberta pela paixão, e Lacy soube que ela retornaria, mais forte do que nunca. Raiva dele. De si mesma. No momento, porém, ela não se importava. Era loucura. Uma festa lotada a menos de cem metros de onde eles


Era loucura. Uma festa lotada a menos de cem metros de onde eles estavam. Qualquer um poderia flagrá-los. Entretanto, tudo em que ela conseguia pensar era mais. As mãos dele deslizaram por baixo da barra do suéter dela para acariciar seu abdômen. Lacy colou seu corpo no dele, aproximando-se quanto podia. Mesmo assim, não foi suficiente para saciar o desejo que pulsava dentro dela. Ele afastou sua boca, e eles se entreolharam, arfantes. O olhar dele percorreu o rosto dela. Seus olhos estavam escuros à fraca luz e, mesmo assim, pareciam conter um forte brilho verde. Um instante depois, uma risada e um gritinho femininos quebraram o feitiço que os dominava. Sam recuou resmungando um palavrão quando um jovem casal surgiu atrás do hotel. Eles pararam imediatamente. – Ah, oi, cara. Desculpe. Só estávamos... hã... Claramente, o jovem casal estava procurando a mesma privacidade da qual ela e Sam estavam desfrutando. Sam pôs as mãos nos bolsos do jeans. – Não tem problema. Aproveitem a festa. – Sim – disse o garoto, sorrindo para sua namorada. – Estamos aproveitando. Eles desapareceram tão rapidamente quanto haviam surgido. – Que vergonha. – Lacy suspirou, endireitou seu suéter e se afastou de Sam, para não se sentir tentada a atacá-lo novamente. – Que péssima hora – resmungou ele, seu olhar fixo no dela. – Acho que eles apareceram na hora certa – falou ela, embora seu corpo discordasse. Mais um minuto dos beijos de Sam, e ela poderia ter esquecido tudo. Poderia ter cedido ao desejo que ainda clamava dentro dela. Ela quis ser tocada, beijada, amada. Quis Sam como sempre havia desejado. O que aconteceu não parecia estar ajudando. Lacy quase se afogou num mar de sua própria raiva e tristeza quando Sam foi embora. Para sobreviver, havia trancado a porta para esses sentimentos, bons e ruins. Precisou esquecer... ao menos tentar esquecer seu amor por Sam. A vida seria muito mais fácil agora se ela conseguisse se apegar a essa raiva. Em vez disso, era o calor do amor perdido que ela sentia, não o gelo da dor.


– Lacy... – Não. Não diga nada. – Eu quero você. – Droga – disparou ela, já caminhando com longas passadas, indo na direção da luz e do som da festa. – Pedi para você não dizer nada. – Especialmente aquilo. – Não dizer isso não muda nada. – Ele a seguiu. Lacy virou a cabeça para olhá-lo. – Foi um beijo, Sam. Só um beijo. – Havia sido mais do que isso, e ela sabia, mas jamais admitiria isso para ele. – Nós dois estávamos tensos demais, e a tensão explodiu. Foi só isso. Se aquilo fosse verdade, ela estaria se sentindo muito melhor agora, disse Lacy a si mesma. Em vez disso, ela estava mais tensa do que nunca. Era um milagre seu corpo não estar soltando faíscas. Sam se aproximou, e Lacy se manteve firme. Provavelmente, uma ideia idiota, mas ela não daria a Sam a satisfação de achar que ela não aguentava ficar perto dele. Especialmente porque não aguentava mesmo. – Se aqueles adolescentes não tivessem aparecido, ainda estaríamos nos agarrando. – Pode chamar de destino – falou ela. – Em algum lugar, alguém sabe que isso não devia ter acontecido e tentou corrigir. – Ou me matar – respondeu ele, e um canto de sua boca se ergueu, embora não houvesse nenhum toque de humor em seus olhos. – A resposta fácil é: mantenha seus lábios longe de mim. – O “fácil” nunca me atraiu. Você devia saber disso. – Não é justo. Você não tem o direito de falar de lembranças comigo, Sam. – Ela recuou, mas, quando Sam acompanhou o movimento, Lacy não se deu o trabalho de recuar mais. – É o nosso passado, Lacy – lembrou ele, sua voz baixando para um trovejar grave e sensual. – Passado. – Lacy suspirou e disse a si mesma para recuperar seu autocontrole. – Não existe mais nada entre nós. Então, você não devia ter me beijado de novo. – Eu não fui o único a beijar. E também não vou ser da próxima vez que


– Eu não fui o único a beijar. E também não vou ser da próxima vez que isso acontecer. – Não vai acontecer. – Você disse isso da última vez, e aqui estamos nós. De fato, havia dito. E falado sério. Lacy não queria ser atraída novamente pelos escaldantes sentimentos que tinha por Sam. Não queria ter seu coração novamente partido. Era uma pena que seu corpo não tivesse a mesma determinação que sua mente. – Por que está me beijando, Sam? Por que quer isso? Você me abandonou, lembra? Largou tudo e nunca mais pensou em mim. Por que fingir agora que isso é mais do que alguns hormônios, que existe futuro nisso? Ele a olhou, mas não falou. O que poderia dizer, afinal? Com suas palavras pairando no frio ar, Lacy se virou e caminhou às pressas para a segurança da multidão. À MEIA-NOITE, a festa terminou. Todos foram para casa ou seus quartos no hotel, e a montanha ficou em silêncio novamente. A equipe do Snow Vista limpava tudo. Então, o que restou para retirar pela manhã eram as barracas. A montanha estava escura, a não ser pelas luzes que brilhavam das janelas do hotel e das cabanas ao redor. O céu estava estrelado, a noite, serena. Em contraste, Sam se sentia um tigre enjaulado. Não conseguia ficar quieto nem relaxar. Assim como não conseguia tirar Lacy de sua mente. Ela permanecia lá, uma sombra em seus pensamentos, mesmo com ele sabendo que não devia pensar nela, que seria mais fácil para todos eles se ele simplesmente fizesse o que ela havia pedido e a deixasse em paz. Mas, droga... O mais fácil nem sempre era o melhor. Ele tinha sido criado esquiando nos percursos mais rápidos e perigosos que conseguia encontrar. Lembranças dominaram a mente dele. Mas não eram do esqui. Não eram dele e de seu irmão gêmeo em busca de perigo na montanha. Essas lembranças eram todas de Lacy. Do beijo dela. De seu toque. Da maneira como havia gargalhado numa noite, quando eles haviam saído para caminhar durante uma nevasca, inclinando a cabeça para trás e deixando que os grossos flocos de neve tocassem seu rosto. O brilho no cabelo dela, o calor de


sua pele. Todas as coisas que o haviam atormentado ao longo dos últimos dois anos. Cada momento com ela estava em destaque na mente dele, com imensa clareza, e Sam sabia que não conseguiria ficar longe. Recostando-se no batente da porta de sua cabana, ele olhou pelo bosque na direção da casa de Lacy. Do que, no passado, tinha sido a casa deles. Havia luzes nas janelas, fumaça saindo da chaminé. Tudo dentro dele se contraiu. Aquilo era o mais difícil de seu retorno para casa. Encarar sua família foi complicado, mas estar perto de Lacy e não estar com ela era uma tortura. Abandoná-la o deixou dilacerado. Retornar era ainda mais difícil. Aqueles beijos haviam servido apenas para atiçar as chamas dentro dele, e tudo o que Sam queria era mais um beijo. – Não – resmungou ele. – Você quer mais do que isso. Muito mais. Ele relembrou os últimos dias e se deu conta de que, por baixo do desejo, havia uma irritação. A Lacy que ele havia deixado para trás dois anos antes foi fria, calma. E louca por ele. Para si mesmo, Sam admitia ter esperado que Lacy se atirasse nos braços dele com um grito de alegria quando ele retornasse. E o fato de ela não ter feito isso doía. Não apenas isso; ele achava que precisaria lidar com uma fria distância da parte dela. Em vez disso, houve mau humor. Fúria. O que ele precisava admitir que o excitava. Ela podia negar o quanto quisesse, poderia resistir ao que ardia entre eles, mas a verdade era que ela ainda sentia aquilo, querendo ou não. Aqueles beijos provaram que Sam tinha razão. Agora, havia uma comichão dentro dele. E ele não ignoraria mais. Tudo aquilo começava e terminava com Lacy, disse Sam a si mesmo. Quando ele partiu do Snow Vista, dois anos antes, estava dominado por sua própria tristeza, por sua própria fúria. A perda de seu irmão dilacerou a alma de Sam. Ele se exilou propositalmente daquele lugar. De Lacy. Pegou os sonhos de Jack e os levou adiante por seu falecido irmão, acreditando que devia isso a ele. Contudo, sonhos de outra pessoa eram algo muito vazio. Agora, Sam estava de volta. Para ficar? Ele não sabia. Mas, enquanto estivesse ali, ele e Lacy esclareceriam algumas coisas. Sam sabia que, fosse lá o que houvesse entre ele e Lacy, estava na hora de


Sam sabia que, fosse lá o que houvesse entre ele e Lacy, estava na hora de ser resolvido. Ele vestiu sua jaqueta e saiu para a noite. Não demorou muito para que atravessasse a distância que separava sua cabana da dela. E, durante aqueles poucos momentos, Sam se perguntou por que diabos estava fazendo aquilo. A simples realidade, porém, era que ele precisava vê-la novamente. Precisava superar a muralha que ela havia erguido entre eles. Ao chegar na larga varanda, ele olhou pelas janelas e viu a lareira acesa, algumas lamparinas lançando halos dourados sobre o piso de madeira. E viu Lacy, aconchegada numa poltrona, olhando fixamente para as chamas. O coração de Sam disparou, seu corpo ficou rígido. Mas a paixão nunca foi um problema para eles. Bateu na porta e a viu franzir o cenho, levantar-se e ir até ele. Lacy abriu a porta e suas feições ficaram frias. – Vá embora. – Não. Lacy bufou. – O que você quer? – Conversar. – Não, obrigada. – Ela tentou fechar a porta, mas ele a segurou aberta. Sam passou por ela, entrando na sala, ignorando os sons de revolta de Lacy. – É melhor você fechar essa porta para não congelar. Olhando-o com irritação, ela pareceu querer discutir, embora estivesse usando apenas uma blusa de flanela. Tinha as longas e torneadas pernas nuas e estava descalça. O cabelo louro, livre da trança, pendia em ondas sobre os ombros dela, fazendo Sam querer segurar novamente aquela macia massa. Entretanto, os olhos azuis dela estavam semicerrados, e não havia nada de boas-vindas neles. Finalmente, ela fechou a porta. Mas não atravessou o recinto; ficou com as costas apoiadas na porta, os braços cruzados. – Você não tem o direito de vir aqui. Não convidei você. – Eu não costumava precisar de convite. Ela pareceu estar contendo suas palavras. A camisa de flanela que ela


Ela pareceu estar contendo suas palavras. A camisa de flanela que ela usava não devia ser sexy, mas era, e muito. Tudo naquela mulher o afetava como mais ninguém conseguia. Sam pensou ser capaz de deixá-la para trás, mas a verdade era que ele a levava consigo a todos os lugares. – O que você quer? – Você sabe a resposta. – Ele tirou a jaqueta e a jogou sobre a poltrona mais próxima. – Não fique à vontade. Não vai ficar muito tempo aqui. – Você não quer que eu vá embora, Lacy, e nós dois sabemos disso. Franzindo a testa, ela o olhou fixamente. – Às vezes, queremos coisas que não nos fazem bem. – Andou lendo os livros de autoajuda de Kristi? Um rápido sorriso curvou a boca de Lacy, desaparecendo num instante. – Você foi embora uma vez. Por que não podia simplesmente ficar longe? – sussurrou ela. – Porque não consigo tirar você da cabeça. – Tente se esforçar mais. Sam gargalhou, balançou a cabeça e foi na direção dela. – Não vai adiantar. Passei dois anos tentando. Aquelas lembranças, imagens dela, estavam tão arraigadas dentro dele que Sam praticamente já se convencera de que, na realidade, Lacy não podia ser tão boa quanto ele se recordava. Talvez fosse por isso que ele estava ali naquele momento. Para provar a si mesmo o que exatamente ardia entre ele e Lacy. – Sam... – Ela suspirou e balançou a cabeça, como se estivesse negando o que ele dizia, o que ambos sentiam. – Droga, Lacy, eu quero você. Nunca deixei de querer. – Ele se aproximou o suficiente para tocá-la. Então parou. Inspirou fundo, sentindo o perfume dela. Com o coração em disparada, Sam esperou pelo que pareceu uma eternidade, até que ela finalmente erguesse o olhar para ele e dissesse apenas: – Eu também quero. Num piscar de olhos, Sam a puxou para seus braços, e ela foi de bom


Num piscar de olhos, Sam a puxou para seus braços, e ela foi de bom grado, como se eles nunca tivessem se separado. Ele a abraçou com força, sentindo o coração dela trovejar no mesmo ritmo que o dele. Baixou a cabeça e possuiu a boca de Lacy num beijo que foi tanto uma libertação quanto uma rendição. As chamas lamberam dentro dele. Sua língua se entrelaçou à dela numa desesperada dança de desejo. Lacy se entregou ao momento, curvando seu corpo para o dele, subindo e descendo com as mãos pelos braços de Sam. Perdido na descontrolada paixão, num rápido movimento, Sam tirou a camisa de Lacy. O cabelo dela se espalhou sobre os ombros nus, caindo como seda sobre as mãos dele. A primeira imagem dela depois de dois anos o atingiu com tudo. Ela era ainda mais linda do que ele se recordava, e Sam não conseguiu esperar nem mais um segundo para pôr as mãos nela. Ele jogou a peça de roupa na poltrona atrás de si e cobriu os seios de Lacy com as mãos. Ela suspirou, inclinando a cabeça para trás, grunhindo de prazer. Os dedos dele acariciaram, massagearam os enrijecidos mamilos dela, e Sam viu aqueles olhos azuis se revirarem quando as sensações a dominaram. Contendo seu próprio grunhido, Sam observou o corpo dela de cima a baixo, antes de segurá-la pela cintura e erguê-la para poder prová-la. Primeiro, um dos seios. Em seguida, o outro. A boca de Sam se movimentou sobre a pele sensibilizada de Lacy, mordiscando, sugando. O cheiro dela o enlouquecia. Ela se agarrou nos ombros dele e enroscou suas longas pernas na cintura de Sam. A sensação de tê-la ali, em seus braços, era tão... certa. Sam segurou o bumbum nu de Lacy, e ela olhou em seus olhos, mostrando a paixão, o desejo que ele sabia que também brilhava nos dele. – Sam, Sam... – falou ela, arfante. – O que estamos fazendo? – O que sempre foi nosso destino fazer – murmurou ele, baixando a cabeça para mordiscar o fino pescoço dela. Lacy estremeceu, e aquela pequena reação reverberou dentro dele, desencadeando um terremoto que o atingiu por completo. Quem teria imaginado que, por melhores que fossem suas lembranças dela, elas sequer chegavam aos pés da realidade.


Os dedos de Lacy se entrelaçaram no cabelo de Sam, e ela afastou a cabeça dele para olhar em seus olhos. – Então, o que estamos esperando? – Chega de esperar – disse ele por entre os dentes. Sam apertou e acariciou o bumbum de Lacy até deixá-la se contorcendo junto a ele, e cada movimento dos quadris dela deixava o corpo dele ainda mais rígido, fazendo-o achar que explodiria. Ainda não, berrou o cérebro dele, mas seu corpo estava no comando agora. Dois longos anos tinham se passado desde a última vez em que ele a havia tocado. Agora que a tinha... nua, disposta, excitada... Sam não podia mais esperar. Ao que parecia, Lacy sentia o mesmo. Ela afastou seu comprido cabelo do rosto, beijou-o com força e baixou as mãos para o zíper da calça dele. Num segundo, ela já o estava segurando, acariciando-o da base até a ponta, e retornando à base. Sam cerrou os dentes, lutando para manter o controle, sem conseguir. Com as pontas dos dedos dela a acariciá-lo, ele não conseguia fazer nada além de respirar. De qualquer forma, era só disso que ele precisava. De ar... e de Lacy. Mudando sua pegada, Sam acariciou o centro quente e molhado dela. Lacy inspirou fundo e estremeceu, mas não o soltou. Na realidade, sua pegada ficou mais firme, suas carícias, mais determinadas, mais exigentes. Assim como as dele. Sam massageou o pequeno ponto de sensações no centro dela, e, toda vez que Lacy estremecia e gemia, isso alimentava a necessidade que ele sentia de tocá-la mais profundamente. Mais plenamente. – Sam, se você não me possuir agora mesmo, acho que vou morrer. – Nada de morrer – murmurou ele, fundindo sua boca à de Lacy. As línguas deles duelaram novamente, ainda mais desesperadamente. Ele tinha ido até ali com a ideia de derrubar com palavras as barreiras que os separavam ou seduzi-la. Nenhuma das duas coisas estava acontecendo. Aquilo não era uma sedução. Era uma urgência crua. Sam deu dois passos na direção da parede mais próxima, apoiou as costas de Lacy e interrompeu o beijo para poder olhar dentro dos olhos dela enquanto a preenchia com um longo e forte movimento.


Ela arfou, e ele foi obrigado a parar, tentando recuperar o controle. Ela estava tão apertada! Tão quente! Um momento se passou. Então, como se fossem uma pessoa só, eles se movimentaram juntos, Lacy o tomando bem dentro de si, os dois gemendo quando ele recuava, apenas para investir ainda mais fundo. Eles se movimentaram freneticamente, um ritmo acelerado que não deixava espaço para um amor lento e preguiçoso. Era pura paixão, desejo e uma necessidade desesperada de liberação, crescendo a cada segundo. Emoções, sensações os dominavam e eram abafadas pelas exigências imediatas de corpos havia muito solitários. Sam sentiu o frio da parede em suas mãos quando a apoiou ali. Sentiu os dedos dela se cravando em seus ombros enquanto Lacy o urgia a se movimentar mais rápido, mais fundo. Sam levou a mão entre os corpos e passou o polegar por aquele rígido e sensível ponto na junção das coxas dela. Instantaneamente, Lacy gritou o nome dele, estremecendo, explodindo em seus braços. O corpo dela se contraiu em torno do dele; os tremores internos o levando além do limite. Quando a primeira explosão o atingiu, Sam grunhiu alto e se esvaziou dentro dela. Segundos, minutos... talvez dias tivessem se passado sem que nenhum deles estivesse disposto a se mexer. – Uau. – A voz dela era um sussurro. – Sam, acho que estou cega. Ele a olhou. – Abra os olhos. Ela obedeceu. – Certo. Ótimo. Uau. – Você já disse isso – falou Sam, inspirando fundo quando ela se movimentou sobre ele, fazendo seu corpo despertar novamente. Assentindo, Lacy murmurou: – Foi digno de dois uaus. – Sim. Preciso admitir que foi. Ainda arfante, Lacy o olhou e falou: – É melhor eu mandar você ir embora agora. – Acho que sim – falou ele, mesmo sentindo seu corpo se enrijecendo


– Acho que sim – falou ele, mesmo sentindo seu corpo se enrijecendo novamente dentro dela. Lacy também sentiu isso, pois gemeu de prazer. – Mas não vou fazer isso. – Fico feliz por saber. – Sam a segurou mais firmemente, afastou-a da parede e caminhou até o corredor, os corpos deles ainda unidos. – Quarto? – Sim – disse ela, baixando a cabeça para provar novamente a boca dele. – Quarto. Era uma cabana pequena, e Sam ficou agradecido por isso. Ele a colocou sobre a cama que eles costumavam compartilhar e, relutantemente, retirou-se do calor de Lacy apenas por tempo suficiente para se despir. Então, retornou à cama, acomodando-se dentro dela num suspiro de apreciação. Seus quadris se movimentaram enquanto ele possuía o corpo de Lacy da maneira mais elementar possível. Ela acompanhou o ritmo dele naquela dança na qual eles sempre haviam se entendido. Ela levantou as pernas e as enroscou na base das costas dele, puxando-o mais profundamente para dentro de si. Lacy gemeu quando Sam beijou um dos mamilos contraídos e, em seguida, o outro, gerando uma cascata de sentimentos no corpo dela. Sem parar, ele lambeu, provou, mordiscou, enquanto seu corpo balançava dentro do calor dela. Não havia hesitação. Não havia dúvidas. Havia apenas o momento. Eles estavam rumando para aquela noite desde que Sam havia retornado à montanha. As mãos de Lacy subiram e desceram pelas costas dele. Seu perfume exalou no ar, envolvendo-o. Totalmente absorvido por ela, Sam os levou ao ápice novamente. E, quando ela gritou o nome dele, abraçou-o com força e o levou consigo.


CAPÍTULO 6

LACY OLHOU fixamente para o teto e, apenas por alguns instantes, desfrutou da adorável sensação flutuante que a preenchia. Fazia tanto tempo desde a última vez que havia sentido algo parecido! Nos últimos dois anos, ela se obrigou a esquecer como as coisas sempre haviam sido boas com Sam. Para sobreviver à ausência dele, precisou fazer isso. Agora, ele havia voltado. E estava na cama dela. Deus, como ela pôde ser tão idiota? – Precisamos conversar. Uma curta e ríspida risada escapou da garganta dela. – Ah, não quero falar disso de jeito nenhum. – Ela queria esquecer novamente. E logo. Sam se apoiou num dos cotovelos e a olhou. E Lacy tentou se proteger do brilho naqueles olhos. Se ela não tomasse cuidado, seu tolo coração ficaria em perigo. Por que ele havia voltado? Por que tinha ido embora? Com o maxilar contraído, ele olhou nos olhos dela e perguntou: – Você ainda está tomando anticoncepcional, certo? Ela piscou os olhos. Não era o que esperava. Contudo, agora que ele disse aquilo, um fio de pânico começou a se desenrolar dentro dela. Agora, sim, sua burrice havia alcançado proporções épicas.

– Já que você ficou pálida – disse ele ironicamente –, imagino que a


– Já que você ficou pálida – disse ele ironicamente –, imagino que a resposta seja não. – Esta é uma ótima hora para perguntar – resmungou ela, desejando poder culpá-lo por aquilo. Mas ela era uma mulher adulta e moderna, que assumia responsabilidade por seu próprio corpo. Portanto, a culpa era tanto dela quanto dele. – Não chegamos a conversar muito antes. – Verdade. – Ela suspirou e mirou novamente o teto. Era mais fácil do que olhar nos olhos dele. Mais fácil do que encará-lo enquanto imaginava que poderia ter engravidado de seu ex-marido. Ela cobriu os olhos com a mão. Sexo sem proteção. Nem mesmo aos 17 anos, quando entregou sua virgindade a Sam no topo da montanha, sob uma lua cheia de verão, havia sido tão inconsequente. Lacy sempre se protegeu. Sempre foi cautelosa. Sam afastou a mão dela. – Agora, temos ainda mais motivo para conversar. – Não, obrigada. – Ela não queria ter nenhuma conversa com ele. Especialmente sobre a possibilidade de um bebê não planejado. Ah, Deus. O destino não faria isso com ela, faria? Ele já não havia bagunçado a vida dela o suficiente? – Nada disso. Acabamos de fazer sexo. Duas vezes. Sem proteção. – Sim, eu estava presente. – Droga, Lacy... – Não estou no momento certo do ciclo. As chances são ínfimas. – Por favor, que ela tivesse razão. – Então, não se preocupe. Ele não gostou daquilo. Lacy viu a luz nos olhos dele e a reconheceu. Sam Wyatt nunca aceitara ordens muito bem. – De jeito nenhum. Quero saber junto de você. – E eu quero uma câmera nova, que tenha um zoom de 15 vezes. Parece que nós dois vamos nos decepcionar. – Droga, Lacy – repetiu ele. – Você não pode me deixar fora disso. Estou aqui. Estou envolvido nisso. – Por enquanto. – Uma parte dela ainda não acreditava que ela estava na cama com Sam, os dois nus, discutindo sobre uma possível gravidez. Depois que ele fosse embora da cabana dela, Lacy não falaria mais daquela


Depois que ele fosse embora da cabana dela, Lacy não falaria mais daquela noite com Sam. E usaria toda a sua lendária concentração para esquecer tudo o que aconteceu, especialmente para se proteger. Ela não conseguia pensar em estar com ele e não estar com ele. Essa era uma receita para ainda mais loucura e madrugadas de choro. Quando ela não falou, Sam pareceu entender o silêncio como aceitação. – Vim aqui hoje para conversar com você. – Sim – falou ela, suspirando. – Deu certo. – Tudo bem, talvez eu não estivesse só pensando em conversar. – Ele levou a mão ao quadril dela, subindo lentamente até segurá-la pelo seio, o que a fez sentir formigamentos de expectativa. Não é justo, disse ela a si mesma. O homem que havia partido seu coração não podia ter aquele efeito sobre ela. Mesmo sabendo que era um erro permitir que ele a tocasse, Lacy não teve forças para impedi-lo. E, se ela continuasse deitada ali, permitindo que ele a tocasse, tudo começaria novamente, e o que ela conseguiria com isso? Afundar-se ainda mais naquele buraco. Rapidamente, antes que ela pudesse se convencer a não fazer a coisa inteligente, ela saiu da cama. Sam a olhou fixamente enquanto ela pegava o roupão que havia jogado sobre uma cadeira na manhã daquele dia. Lacy o vestiu, amarrando a faixa para dificultar que ele fosse tirado. Depois de se cobrir, ela se sentiu um pouco mais no controle. – É melhor você ir. – Vim conversar, lembra? Ainda não fizemos isso. – E nem vamos fazer. Não estou com vontade de conversar, e você não mora mais aqui. Então, quero que vá embora. – Assim que resolvermos isso. – Ele se acomodou na cama, despreocupadamente nu, claramente sem a menor pressa de sair. – Tenho algumas coisas a dizer. – Agora você tem coisas a dizer? Agora quer se abrir comigo? – Ela soltou uma curta risada. A fúria cresceu dentro dela. – Há dois anos, você foi embora sem uma palavra de explicação. Simplesmente voltou do funeral, jogou umas roupas na mala e foi embora.


Num piscar de olhos, Lacy retornou àquele momento. Naquela mesma cabana, dois anos antes, quando seu mundo ruiu. O FUNERAL foi horrível. Perder Jack em um acidente sem sentido depois de ele ter sobrevivido ao câncer foi um golpe mais forte do que ela jamais teria imaginado. A família Wyatt, claro, havia se fechado num círculo, unido-se para lidar com a dor. Menos Sam. Mesmo dentro daquele círculo, ele se mantivera alheio, tornando-se estoico. Solitário. Não recorreu a Lacy em busca de conforto nem uma vez. Em vez disso, havia cuidado de todos os detalhes e preparativos para o funeral, para evitar que seus pais precisassem multiplicar sua dor lidando com as minúcias da morte. Foi ele quem fez o discurso no enterro, levando todos às lágrimas e às gargalhadas com recordações de seu irmão. Contudo, depois que todos haviam ido para casa, depois que a cerimônia terminou, Lacy esperou que ele finalmente a procurasse. O que não aconteceu. Em vez disso, foi imediatamente para o quarto deles e tirou sua bolsa de viagem do armário. Perplexa e abalada, Lacy conseguiu apenas assistir enquanto ele pegava roupas e as colocava na bolsa. No entanto, quando ele fechou o zíper e ficou olhando para a bolsa, ela perguntou: – Sam, o que está fazendo? Nós vamos a algum lugar? Ele a encarou, seus olhos verdes cheios de uma tristeza tão profunda que a dilacerou. – Nós, não, Lacy. Eu. Eu vou. Preciso... Ela engoliu em seco. – Você vai embora? – Sim. – Ele havia trocado rapidamente o terno preto por botas, jeans e sua jaqueta de couro. Durante todo o tempo, ela apenas conseguiu ficar olhando. Sua mente se esvaziou. Aquilo não podia estar acontecendo. Pouco tempo antes, ele havia lhe prometido que jamais a deixaria. Que ela sempre poderia contar com ele,


confiar nele. Nada daquilo fazia sentido. Ela não conseguia entender. Não acreditava que ele pudesse fazer aquilo. – Você vai me abandonar? Ele direcionou a ela um olhar que dizia tudo e nada. – Preciso ir. Ela não conseguiu respirar. Só podia ser um pesadelo. Sam não iria embora. Ele atravessou o quarto, a bolsa pendurada no ombro, e Lacy abriu caminho, perplexa demais para tentar impedi-lo. Ele parou na porta da cabana para olhá-la pela última vez. – Cuide-se, Lacy. – E partiu sem dizer mais nada. Sozinha na cabana, Lacy afundou até o chão, pois seus joelhos haviam cedido. Ela passou um longo tempo olhando para a porta, esperando que se abrisse novamente, que ele retornasse, dizendo que havia cometido um erro. Mas isso não aconteceu. AGORA, PENSANDO naquela noite, Lacy sentia vontade de dar uma surra nela mesma por ter permitido que Sam saísse de sua vida. Por ter chorado por ele. Por ter sentido sua falta. Por ter rezado loucamente para que ele simplesmente voltasse para casa. – Eu precisei fazer aquilo. – Sim – disse ela, tensa, surpresa por ver que, por mais irritada que já estivesse, a raiva continuava a crescer dentro de si. – Você também disse isso naquela época. Você precisava abandonar sua esposa, sua família. Uau, deve ter sido muito difícil para você. Sozinho, livre da sua esposa chata e dos seus pais e da sua irmã, que tanto irritavam você. Vagando pela Europa, namorando aristocratas. Coitadinho, como deve ter sofrido. – Não foi por isso que fui embora – disse ele por entre os dentes, e Lacy ficou satisfeita por ver uma raiva como a dela brilhando nos olhos dele. Ao menos uma discussão raivosa era algo honesto. – Foi só um ótimo benefício secundário, então? – Lacy, na época, eu não tive como explicar por que precisei ir... – Não teve como? Ou não quis? – Eu mal conseguia respirar, Lacy. Precisava de espaço. Isso não teve nada a ver com você ou com a minha família.


– Sério?! É assim que você enxerga? Teve tudo a ver conosco. Você não conseguia respirar porque a sua família precisava de você? Coitadinho... A vida é assim, Sam. Coisas ruins acontecem. O que define quem somos é a maneira como lidamos com isso. – E eu não lidei. – Não. Você fugiu. Fomos nós que ficamos para trás para juntarmos os cacos das nossas vidas. Não você, Sam. Você foi embora. – Eu não fugi. – Deve ser o que parece para você. – Na época, você não disse nada disso. – Como podia dizer? Você não queria falar comigo – rebateu ela. – Estava com tanta pressa para sair da cabana que mal me viu, Sam. Então, você deve conseguir entender que essa história de querer que eu coopere porque, agora, você quer conversar, é um tanto demais para mim. – O que aconteceu com a Lacy tranquila e tímida que nunca perdia a paciência? Ela corou. E torceu para que o quarto estivesse escuro o suficiente para que ele não percebesse isso. – O marido dela a abandonou, e ela resolveu virar gente. – Seja lá como tenha acontecido, estou gostando. – Ha! – Surpresa com o repentino elogio, Lacy murmurou: – Não me importa. Sam suspirou. – Você acha que eu quis ir embora. – Eu sei que quis. – Ela ainda sentia a ansiedade dele por ir embora. Por deixá-la. – Droga, Lacy, Jack tinha morrido. – E todos nós o perdemos, Sam. Você não era o único que estava sofrendo. Ele saltou da cama e ficou diante de Lacy. – Ele era meu irmão. Meu gêmeo idêntico. Perdê-lo foi como perder uma parte de mim. Dividida entre a empatia pela dor que ele ainda sentia e a fúria por ele achar que ela não entendia, Lacy disparou: – E você acha que eu não sabia disso? Que seus pais e sua irmã não faziam


– E você acha que eu não sabia disso? Que seus pais e sua irmã não faziam ideia do que a morte de Jack tinha feito com você? Nós estávamos aqui para ajudar você, Sam. Você não nos viu. – Eu não consegui ver. – Ele balançou a cabeça e pegou seu jeans no chão. Vestiu-o, deixando a calça desabotoada ao se virar novamente para Lacy. – Droga, eu estava enlouquecido de tristeza e raiva. Não podia ficar perto de você. – Ah – falou ela, assentindo sabiamente enquanto parabenizava a si mesma por não atirar nada na direção dele. – Quer dizer que você foi embora por mim. Que ato heroico. – Droga, você não está me ouvindo. – Não, não estou. Não é divertido ser ignorado, é? – Com dedos trêmulos e uma série de movimentos familiares, ela prendeu seu cabelo numa trança frouxa nas pontas. – E por que eu devia ouvir você? – Porque estou de volta agora. – Por quanto tempo? Ele franziu a testa novamente e balançou a cabeça. – Ainda não sei a resposta. – Então, está só de passagem. – Era incrível como aquela afirmação doía. E Lacy sabia que, se ela se permitisse ficar mais envolvida com ele, quando Sam partisse desta vez, a dor seria maior do que ela aguentaria. Por isso, se envolveu num manto de desinteresse. – Bem, tenha uma ótima viagem para... seja lá aonde você for. A dor estava forte como há dois anos. Naquela época, ela conseguiu sobreviver, enclausurando-se na solidão, concentrando-se em seu trabalho no hotel e em suas fotografias. As fotos que ela tirou durante aquela época eram em preto e branco, cheias de sombras que pareciam dominar a paisagem. Lacy as olhava agora e sentia a tristeza que tinha vivido. E ela não voltaria a esse lugar sombrio de sua vida. Sam suspirou de frustração. – Não sinto orgulho do que fiz há dois anos, Lacy. Mas precisei ir, acredite ou não. – Tenho certeza de que você acredita. – E eu...


– Não ouse dizer que lamenta. – Não lamento. Fiz o que precisei fazer. Não posso lamentar agora. Perplexa, Lacy o olhou fixamente. – Incrível. Você não se arrepende mesmo, não é? – De que isso adiantaria? – Isso não é resposta – ressaltou ela. – É tudo o que posso dizer. Durante dois anos, ela se perguntou como seria se ele voltasse, caso se dignasse a retornar à família que ele despedaçou com sua ausência. Mas, por algum motivo, Lacy sempre imaginou que ele voltaria arrependido. Ela já devia ter imaginado. Sam Wyatt fazia o que queria, quando queria, e não se explicava a ninguém. Droga, ela o conhecia fazia muito tempo, havia se casado com ele, que ainda mantinha uma parte de si mesmo trancada num lugar onde ela não era capaz de tocar. Ele sempre viveu à sua própria maneira e, por um tempo, a havia levado consigo. E ela ficava tão feliz por ser incluída que nunca pressionou para ter mais. – Deus – disse ele, rindo levemente –, quase consigo ver você pensando. Por que não diz logo o que tem a dizer? – Uau. Você não mudou nada mesmo. – O que quer dizer com isso? – Você quer controlar até o momento em que eu desconto minha raiva em você. – Nós dois sabemos que você tem algo a dizer. Então, diga de uma vez. – Você quer? – perguntou ela, cerrando os punhos. – Certo. Você abandonou todos nós, Sam. Abandonou uma família que o amava. Que precisava de você. Você me abandonou. Não se despediu. Simplesmente desapareceu, e, quando dei por mim, a documentação do divórcio chegou pelo correio. Ele suspirou. – Você nem me avisou, nem uma porcaria de um telefonema. Você sumiu, Jack estava morto, sua família estava destruída. E você não se importou. – Claro que me importei. – Se tivesse se importado, não teria ido embora. Agora, está de volta. Um herói? O retorno do filho pródigo? Desculpe por não termos feito um desfile


em sua homenagem. – Eu não esperava... – Dois anos. Alguns cartões-postais para avisar aos seus pais que você estava vivo, e mais nada. O que passou pela sua cabeça? Como pôde ser tão desalmado com pessoas que precisavam de você? Sam passou as duas mãos pelo rosto, como se fosse capaz de afastar o impacto das palavras dela, mas Lacy ainda não havia terminado. A voz dela baixou para um acalorado sussurro. – Você destruiu meu coração, Sam. Você me destruiu. – Ela pôs a mão no peito e olhou com irritação. – Eu confiei em você. Acreditei quando você disse que seria para sempre. Aí, você me deixou. Como a mãe dela a havia abandonado, pensou Lacy, sua mente, trazendo à tona imagens, lembranças que a deixaram fraca e sem fôlego. Quando Lacy tinha 10 anos, sua mãe foi embora da montanha, deixando o marido e a filha sem sequer olhar para trás. Nunca mais entrou em contato. Nem mesmo um telefonema. Ou uma carta. Nada. Lacy passou o resto de sua infância torcendo, esperando que a mãe voltasse para casa. Mas ela não voltou. E, embora o pai de Lacy tivesse ficado, ele também acabou sendo inevitavelmente levado dali. Agora, Lacy entendia que essa não fora a intenção dele. Contudo, a partida de sua esposa o atingiu a ponto de não permitir que ele continuasse sendo o mesmo homem de sempre. A família dela foi destruída. E, quando Sam a convenceu a confiar nele, a criar uma vida com ele, partindo em seguida, ela se sentiu novamente destruída. Lacy não permitiria que isso acontecesse pela terceira vez. Ela estava mais forte agora. Precisara mudar para sobreviver, e não havia mais volta. – Sabe de uma coisa? Acabou. Chega. Precisamos trabalhar juntos, Sam. Durante o tempo que você passar aqui. Mas é só isso. Trabalho. – Droga, Lacy... – Depois de um instante, ele assentiu. – Certo. Vamos deixar assim. Por enquanto. Lacy se sentiu agradecida por ao menos aquilo estar resolvido. Porque, se ele tentasse pedir desculpas por ter dilacerado o coração dela, talvez ela jogasse algum objeto pesado nele. – E o que acabou de acontecer? – perguntou ele. – E se você estiver


– E o que acabou de acontecer? – perguntou ele. – E se você estiver grávida? Aquela palavra a fez estremecer com algo que podia ter sido pânico... ou anseio. – Não estou. – Se estiver, ainda não terminamos. Ela corou novamente. – Já terminamos, Sam. O que tínhamos morreu há dois anos. O sussurro dela ecoou pelo recinto, e Lacy só pode torcer para que ele não identificasse a mentira por trás das palavras. Pois ela sabia que, independentemente do que acontecesse, o que havia entre eles jamais morreria. DOIS DIAS depois, Sam ainda estava pensando naquela noite com Lacy. Agora, parado no vento frio, olhando para o límpido céu azul, sua mente estava livre para vagar. E, como sempre, ele foi diretamente para Lacy. As palavras dela não paravam de ecoar na mente dele, e a visão dela estava marcada a fogo em sua memória. Ele jamais esqueceria a imagem dela de roupão, os olhos brilhando de fúria, a boca ainda inchada dos beijos. A antiga Lacy não o teria expulsado; ela teria contido sua raiva e simplesmente ficado com uma expressão... magoada. Essa nova Lacy o intrigava mais do que a antiga. Estar com ela novamente o abalou mais do que ele esperava. A sensação da pele dela, o som de seus suspiros, o toque de seus lábios nos dele. Era mais do que sexual, era mais... profundo. Ela havia retomado para si aquele pedaço do coração dele que Sam extirpara com tanto cuidado dois anos antes. Agora, ele não sabia o que fazer. Claro, ele passou longe do escritório nos últimos dois dias, dando a si mesmo tempo e espaço para pensar. Mas, até então, tudo o que ele conseguiu descobrir era que... ele ainda a queria. Durante dois anos, ele negou a si mesmo o que ele mais queria: Lacy. Agora que ela estava ao seu alcance novamente, ele não negaria mais. Ela podia achar que o que existia entre eles havia morrido. Mas, se ele matou o


sentimento, poderia ressuscitá-lo. Sam precisava acreditar nisso, pois a alternativa era inaceitável. Ele olhou de relance a janela do escritório e pensou em entrar para... o quê? Conversar? Não, ele não estivesse interessado em mais conversas que simplesmente se tornariam uma discussão circular. E aquilo em que ele estava interessado não poderia ser feito no escritório, quando qualquer um poderia aparecer. Por isso, Sam deixou esses pensamentos de lado e se concentrou no trabalho. Nos seus planos. Ele entrou no hotel e foi para o elevador. Havia algumas coisas que ele precisava discutir com seu pai. Uma ideia em especial havia capturado sua imaginação, e ele queria consultar o velho. Sam o encontrou em sua poltrona favorita no salão da família. – Oi, Sam – disse o pai, olhando à volta, como se certificando de que sua esposa não estava ali. – Que tal uma cerveja? Sam sorriu. Seu pai parecia desesperado. – Mamãe aprovaria isso? – Não, de jeito nenhum – admitiu ele com uma careta. – Mas, desde que você voltou, ela abasteceu a geladeira. Então, podemos aproveitar que ela foi à cidade. Ele parecia tão esperançoso que Sam não teve coragem de decepcioná-lo. – Claro, Pai. Vamos arriscar. O pai dele esfregou as mãos, na expectativa. Levantou-se e foi até a cozinha com passos longos e confiantes. Era bom vê-lo como antes. Bob Wyatt não era do tipo de homem que aguentava ficar sentado numa poltrona por muito tempo. Na cozinha, Sam se acomodou à mesa e esperou enquanto seu pai retirava duas garrafas de cerveja da geladeira. Ele entregou uma a Sam e ficou com a outra, sentando-se. Bob tomou um longo gole, suspirou de prazer e sorriu. – Sua mãe está tão determinada a me fazer comer tronco de árvore e beber umas gosmas saudáveis que esta cerveja é como férias para mim. – Sim, mas, se ela aparecer de repente, você está por conta própria. – Covarde. Sam sorriu. – Totalmente.


– Então, quer me dizer por que veio aqui no meio do dia? – Você sabe que temos muitos planos em andamento para o resort. – Sim. Preciso admitir que você tem boas ideias, Sam. Até agora, estou gostando do seu plano, mas fico meio preocupado com o dinheiro que você está injetando aqui. – Não se preocupe com isso. – Sam tinha dinheiro mais do que suficiente. Se não pudesse se divertir gastando, de que adiantava ganhá-lo? – Bem, eu vou continuar me preocupando, e você vai continuar gastando. Então, cada um faz o que pode. Sam sorriu novamente. Sequer se dava conta da falta que sentiu de se sentar e conversar com seu pai. A simplicidade de estar naquela cozinha novamente, compartilhando uma cerveja com o homem que o havia criado, aliviava boa parte da tensão dentro dele. – Se gostou dos planos até agora, vai gostar desse também. – Enquanto ele ordenava seus pensamentos, Sam olhou a cozinha. Paredes verde-claras, armários brancos e bancadas de granito preto. Aquele cômodo foi o coração dos Wyatt. Ele, Jack e Kristi se sentavam àquela mesa para fazer a lição de casa antes do jantar em família. Aquela cozinha testemunhou discussões, gargalhadas e lágrimas. Era o lugar de reunião aonde todos iam quando precisavam ser ouvidos, amados. – Sam? – Ah, sim. – Ele abriu um sorriso melancólico. – Muitas lembranças aqui. – Mais boas do que ruins. – Verdade. – Mesmo durante o tratamento de Jack, a família acabou se refugiando ali, dando forças uns aos outros. Sam quase conseguia ouvir a risada de seu irmão, e a dor dessa lembrança marcou sua alma. – Você não é o único que sente falta dele, sabia? – Às vezes – admitiu Sam, suspirando –, ainda espero que ele entre aqui rindo, dizendo que foi tudo um grande mal-entendido. – Estar aqui torna, ao mesmo tempo, tudo mais fácil e mais difícil. Porque, mesmo que, às vezes, eu consiga enganar a mim mesmo, quando vejo a cadeira dele vazia na mesa, preciso reconhecer que ele se foi de verdade. Mas as boas recordações são mais fortes que a dor, e isso é um conforto quando você permite que seja.


– Acha que não quero ser confortado? – Acho que, quando Jack morreu, você decidiu que não tinha o direito de ser feliz. Perplexo, Sam não falou nada. – Você exige demais de si mesmo, Sam. Sempre exigiu. Enquanto tomava sua cerveja, Sam pensou naquilo e, em silêncio, admitiu que seu pai tinha razão. Sobre tudo. Talvez o que o levou para longe de casa não tivesse sido apenas a perda de Jack e a necessidade de realizar os sonhos de seu irmão, mas também o fato de que, no fundo, Sam acreditava que não merecia ser feliz sem Jack ali. Isso era algo a se pensar. Depois. Balançando a cabeça, ele falou: – Em relação a essa nova ideia... Aparentemente aceitando que Sam precisava mudar de assunto, o pai dele assentiu. – No que está pensando? – Quero abrir um novo percurso para iniciantes do outro lado da montanha. A inclinação é leve, há menos árvores e temos espaço suficiente para dois percursos operarem simultaneamente. – Tem um problema nisso. A hesitação na voz de seu pai fez um alarme disparar dentro de Sam. – Qual? – A questão é que aquele terreno não nos pertence mais. O alarme ecoou com força total. – Do que está falando? – Você sabe que a família de Lacy mora naquela encosta há anos... – Sim... – Bem, depois que você foi embora, Lacy ficou mal. – Bob franziu o cenho ao dizer aquilo, e Sam soube que seu pai estava amenizando a situação. A culpa o atingiu como uma bala. – Por isso, sua mãe e eu repassamos o terreno para ela. Era o mínimo que podíamos fazer para aliviar sua dor. Sam conteve o grunhido que cresceu dentro de seu peito. – Então, se você está determinado a construir aquele percurso, vai ter que se resolver com Lacy. Baixando a cabeça, Sam percebeu que se resolver com Lacy basicamente


Baixando a cabeça, Sam percebeu que se resolver com Lacy basicamente resumia toda a sua vida até o momento. Ele pensou na expressão nos olhos dela quando havia saído de sua cabana na outra noite. A tristeza estampada lá, apesar do que eles haviam acabado de compartilhar... Droga, talvez por causa disso. Partir dali foi algo que ele precisou fazer. Retornar significava enfrentar as consequências dessa decisão. As coisas não ficariam mais fáceis. – Ela não chegou a dizer que você e mamãe tinha dado o terreno a ela. – Ela devia ter dito? – Não. – Balançando a cabeça, Sam tomou outro gole de cerveja. Ele queria aquele terreno. Só não sabia ainda como o conseguiria com Lacy. Do jeito como as coisas estavam entre eles, sabia que ela jamais o venderia. E talvez fosse melhor simplesmente esquecer isso. O terreno era de Lacy, e ele precisava recuar. Por ora, contudo, havia outros assuntos a tratar com seu pai. – Sabe aquela foto do hotel na primavera? A que fica em cima da lareira daqui? – Sim, o que tem ela? – Queria usá-la no novo site que estou projetando. Então, vou precisar falar com o fotógrafo. Quero mostrar o hotel em todas as estações do ano. Essa da primavera mostra o hotel de um jeito muito bonito. – É uma das de Lacy. Sam olhou para seu pai durante um longo tempo. Então, gargalhou, nada surpreso. – Claro que é. Assim como imagino que a foto do hotel no inverno, com a árvore de Natal na janela da frente, seja também. O pai dele assentiu, sorrindo. – Exatamente. Ela ficou conhecida neste último ano. Hóspedes do hotel fizeram questão de comprar algumas das fotos que estavam penduradas. Lacy imprime algumas cópias extras para nós, para podermos agradar os turistas. Ela anda ganhando um bom dinheiro vendendo as fotos numa galeria em Ogden também. – Ela não falou disso. E era estranho perceber que ele não estava a par da vida de Lacy. Houve um momento em que eles tinham sido muito próximos, nada entre eles era


segredo. Agora, havia um grande pedaço da vida dela do qual ele nada sabia. Tudo culpa dele mesmo, o que não tornava mais fácil aceitar. O pai dele assentiu. – Sim. Novamente, algum motivo pelo qual ela devia ter falado? – Não. – Suspirando de frustração, Sam observou seu pai. Havia uma expressão no rosto dele que dizia que ele estava se divertindo com aquilo. – Ela não me deve nada. Entendo isso. Mas, droga, também tivemos muitos momentos ótimos. Eles não significam nada? Sim, eu fui embora. Mas voltei agora. Isso também conta, não? – Para mim, conta. Talvez seja mais difícil convencer Lacy. – Eu sei. – E Kristi. – Eu sei. E mamãe. – Sua mãe está muito feliz por você ter voltado, Sam. – Sim. Mas percebo que ela está se contendo, esperando que eu vá embora de novo. – E você vai? A culpa começou a corroer o coração dele. – Ainda não sei. Queria saber. Mas prometi a você que ficaria ao menos até a conclusão desses planos. E, com tudo que estou acrescentando, talvez eu nunca termine. – Verdade. Talvez seja bom você perguntar a si mesmo por que não para de arrumar mais coisas para fazer. Coisas que dão a você uma desculpa para passar mais tempo aqui. Ele não havia pensado por esse lado, até agora. Talvez, inconscientemente, ele estivesse mesmo trabalhando para ficar ali de vez. – De qualquer forma – falou o pai dele –, você vai ter que falar com Lacy para usar as fotos dela na publicidade. – Vou falar. – Ela é muito boa, não é? – Sempre foi – reconheceu Sam, sabendo que estava falando sobre mais do que o talento dela na fotografia.


CAPÍTULO 7

– VOCÊ QUER usar minhas fotos? Sam sorriu para Lacy. Era bom surpreendê-la. Ele gostava de ver os olhos dela se arregalando, sua boca se abrindo. – Quero. E não só no site. Quero usar em publicidade impressa, também. – Por que... – Não finja que não sabe que você é uma boa fotógrafa. – Não sei como responder sem parecer metida. – Bem, já que você vai ficar em silêncio, vou aproveitar para falar outra coisa. Quero transformar algumas das suas fotos em cartões-postais para vendermos no saguão do hotel. – Cartões-postais. – Ei, algumas pessoas gostam de correspondência de verdade. Podemos pedir para um advogado preparar o contrato, mas estou pensando em 70 por cento para você nos cartões e imagens que vendermos. Quanto à publicidade, podemos trabalhar com royalties, e você recebe toda vez que usarmos suas fotos. Ela piscou os olhos, e Sam adorou vê-la sem saber o que fazer. – Royalties. Sam se curvou, ergueu o queixo dela com os dedos e deu um forte e rápido beijo na boca de Lacy. Enquanto ela ainda estava perplexa com aquilo, ele endireitou o corpo e falou: – Pense nisso. Vou encontrar a arquiteta. Volto depois. Ele a deixou ali, olhando fixamente para a porta por onde ele saiu. O


Ele a deixou ali, olhando fixamente para a porta por onde ele saiu. O coração de Sam trovejava dentro do peito, seu corpo estava totalmente retesado. Bastava estar perto dela para querer tudo o que havia abandonado no passado. Sam saiu para um pátio gramado, onde a neve derretia sob um forte sol. Ele inspirou fundo, olhou à volta, para as pessoas, e se deu conta de que havia precisado de dois anos distante para descobrir que ali era seu lugar. Que sua vida estava ali. E ele queria Lacy em sua vida novamente. Sorrindo para si mesmo, Sam decidiu que a reconquistaria. Aquela encosta teria que esperar, falou ele, rumando para seu carro. Pois, se Lacy descobrisse que ele queria um terreno dela, jamais acreditaria que Sam a queria pela mulher que ela era. LACY FEZ cara feia para o forte cheiro do café de Kristi, enquanto elas caminhavam pelo centro de Ogden. Ela adorava aquele lugar. Geralmente, passear por aquela rua e olhar as vitrines a animava, mas, naquele dia, ela havia se forçado a ir com Kristi. – Desde quando você recusa café? – perguntou a amiga. – Desde que o meu estômago passou a não gostar muito de comida. – Ela engoliu em seco, inspirou fundo e esperou que o ar fresco acalmasse seu estômago. – Que tristeza. Foi algo que você comeu? – Espero que sim – murmurou Lacy. Ela não queria pensar nas outras possíveis causas de seu estômago nada feliz. Fazia duas semanas desde sua noite com Sam, e ela não conseguia parar de pensar que seus repentinos surtos de náusea poderiam durar nove meses. Mesmo assim, ela não queria contar nada daquilo a Kristi ainda. Portanto, numa voz mais alta, ela falou: – Deve ter sido a pizza fria que comi ontem no jantar. – Você podia ter usado o micro-ondas. Não estamos mais na Idade da Pedra, sabia? – Vou me lembrar disso. Elas passaram por uma loja de lembranças, a vitrine lotada de lindos vasos de flores, luvas de jardinagem e um avental de churrasqueiro; promessas da


primavera. Mas o céu estava nublado, o vento soprava da montanha, fazendo a primavera parecer um conto de fadas. Mesmo não estando bem, era bom estar longe do Snow Vista, perambulando pela rua principal de Ogden, onde não havia nenhuma chance de encontrar Sam. O homem não saiu da montanha desde que havia retornado. E, nas duas últimas semanas, eles mal se falaram. Depois daquele sexo avassalador, Lacy achou que ele apareceria querendo mais... ela própria queria. Contudo, Sam manteve distância, e Lacy sabia que devia se sentir agradecida. Em vez disso, estava irritada. – Quer me dizer o que anda acontecendo entre você e Sam ultimamente? A pergunta de Kristi surpreendeu Lacy. Aquela mulher era sua melhor amiga fazia anos. Não havia nada que elas não contassem uma à outra, desde primeiros beijos até a perda da virgindade e muito mais. No entanto, Lacy simplesmente não se sentia confortável para falar de Sam no momento. Especialmente com a irmã caçula dele. Ela deu de ombros. – Nada. Por quê? – Por favor – falou Kristi, fazendo um som de desdém. – Também não estou falando com ele, mas você está deixando a situação toda muito clara. – Como assim? – Mamãe disse que você foi lá faz alguns dias, visitar papai. E, quando Sam apareceu, você foi embora tão rápido que chegou a deixar um rastro de poeira para trás. Lacy suspirou. – Sua mãe é maravilhosa, mas é exagerada. – Sei que deve ser difícil para você o fato de Sam estar de volta e tudo mais. Mas achei que você já o tivesse superado. Você disse que tinha superado. – Também sou exagerada – resmungou Lacy, esperando para atravessar a rua e olhando para o outro lado. Ao final da rua, havia a estação ferroviária de Ogden. Lindamente restaurada, com uma deslumbrante torre de relógio no centro. Lá dentro, Lacy sabia que havia pisos de madeira polida, tetos altos e murais nas


paredes, feitos pelo mesmo artista responsável pelos murais da Ilha Ellis na década de 1930. Naquele dia, havia uma feira de arte e artesanato lá dentro. Ela e Kristi estavam indo até ali para dar uma olhada nas barraquinhas e ver se as fotografias de Lacy estavam vendendo bem. – Eu sabia que você não o tinha superado – falou Kristi com um sorriso convencido. – Eu disse. Você ainda o ama. – Não, não vou amar. – Lacy parou, inspirou fundo. – Quero dizer, não amo. – Mesmo assim, ela se sentia enfraquecendo. Que tipo de idiota ela seria, expondo-se para ser novamente magoada? Elas atravessaram a rua. – Qualquer livro de autoajuda decente diria que o que você está dizendo é perigoso. – Kristi sorriu. – Você está se esforçando muito, mas é inútil. Você o ama... só não quer amá-lo. Nem perdoá-lo. Entendo isso perfeitamente bem. Tony não para de dizer que preciso esquecer isso. Aceitar que Sam fez o que precisou fazer, como todos nós fizemos. Todos nós ficamos, mas ele precisou ir. Simples assim. – Não é de se esperar que um homem defenda outro homem? – Foi o que eu pensei também – admitiu Kristi. – Mas, de certa forma, é um bom argumento. Lacy fez um som de desdém. – É difícil acreditar que Sam precisou ir embora. – Sim – suspirou Kristi. – Essa necessidade de fugir de uma situação difícil era mais do feitio de Jack do que de Sam. Jack nunca conseguiu suportar nada profundamente emotivo. Se uma mulher chorasse perto dele, ele desaparecia num piscar de olhos. – Eu lembro – falou Lacy, melancólica. Todos eles haviam feito piadas com a incapacidade de Jack de lidar com relações mais profundas. – Amo meus dois irmãos – falou Kristi –, mas sempre soube que era com Sam que eu podia contar. Jack era divertido, e muito! – Ela sorriu por um instante. – Mas você nunca sabia se ele voltaria para jantar em casa ou se estaria a caminho da Áustria para esquiar. Kristi tinha razão. Sam sempre foi o irmão responsável. Aquele com o qual se podia contar. E foi justamente isso que tornou a partida dele muito mais difícil de entender. De aceitar. E como podia perdoar alguém em quem ela


havia confiado acima de todos por não ter cumprido sua palavra e lhe partido o coração? – Eu detesto admitir isso, mas talvez Tony tenha razão – falou Kristi. – Quero dizer, ainda estou chateada com Sam, mas, quando o vejo com papai, é mais difícil ficar irritada, sabe? – Eu sei. – Isso era parte do problema dela, pensou Lacy. Ela queria muito manter sua raiva ardendo, mas, toda vez que via Sam com o pai dele, Lacy amolecia um pouco. Quando ela o viu na encosta no dia anterior, ajudando um garotinho a fazer uma curva paralela. Quando ela o viu parado no vento, falando dos planos para o futuro com o encarregado da empreiteira. Todas essas imagens estavam começando a minar a fúria que ela teve certeza que permaneceria consigo para sempre. – Papai está tão feliz por ele ter voltado. Acho que está se recuperando do infarto mais rápido porque Sam vai lá todos os dias, e os dois ficam falando dos planos para o Snow Vista. – Ela tomou outro gole de café, e Lacy a invejou. – Mamãe está um pouco mais fria, quase como se esperasse que ele desaparecesse de novo, mas até ela está feliz por ele ter voltado. Vejo isso nos olhos dela. Talvez fosse mais fácil perdoar e ficar feliz por ele ter voltado se eu soubesse que ele ficaria de vez. Lacy ficou alerta. Aquela era uma informação importante. Ele decidiu permanecer ali, afinal? E o que isso significaria para ela? Para eles? – Ele não disse nada a nenhum de vocês? – Não. Simplesmente faz o trabalho dele, visita nossos pais e evita falar do futuro... a não ser pelos planos que ele tem para o resort. – Kristi jogou o copo vazio numa lixeira. – Então, todo dia, espero alguém me dizer que ele partiu. Ele foi embora tão rápido da última vez... – Ela parou de falar e fez uma expressão sofrida. – Desculpe. – Não há nada pelo que se desculpar – falou Lacy quando eles chegaram à entrada da estação. – Ele foi embora mesmo, e também não estou convencida de que ele vá ficar. E Lacy não sabia se isso facilitava ou dificultava sua vida. Se ele fosse embora novamente, ela precisaria manter distância para proteger seu coração. Não poderia se permitir se envolver novamente. E, se ele fosse ficar... o quê? Ela poderia amá-lo? Poderia acreditar que ele não a deixaria novamente?


E se ela tivesse mesmo engravidado daquela noite com ele? Devia lhe contar ou guardar esse segredo? Sentindo que sua cabeça explodiria, Lacy deixou tudo isso de lado e entrou na estação ferroviária. Imediatamente, foi atingida pelo barulho de centenas de pessoas, conversando, rindo, gritando. Havia jovens mamães com bebês em carrinhos e de mãos dadas com crianças. Havia alguns homens que pareciam querer estar em outro lugar. E também havia vovós andando em grupos. Lacy e Kristi se juntaram à multidão. Havia tantas barraquinhas que era difícil ver tudo de uma vez, o que significava que ela e Kristi percorreriam o lugar diversas vezes. – Ah, adorei isto! – Kristi já havia parado para pegar uma saladeira feita à mão. Enquanto ela conversava com o artesão, Lacy continuou andando. Viu guirlandas florais, placas de boas-vindas pintadas à mão e, depois, passou propositalmente às pressas por uma barraquinha com babadores, roupinhas de bebê e lindos berços. Ela não pensaria nisso. Apenas se fosse necessário. E, se havia uma pequena parte dela que adorava aquela chance de estar grávida, ela não lhe daria voz. Ela parou numa barraquinha de lanches e olhou os pacotes de biscoitos. Seu estômago ainda estava infeliz. Por isso, ela comprou um pequeno saco de pipoca, esperando que isso ajudasse. Petiscando enquanto andava, ela observou o local. Havia pinturas, vasos e taças de vidro soprado, brinquedos e mobília, tudo feito por verdadeiros artesãos. Entretanto, Lacy atravessou a multidão com seu destino em mente. A galeria de arte local montava uma barraquinha na feira todos os anos, e era para lá que Lacy estava indo. Ela vendia suas fotografias por intermédio da galeria e gostava de saber quais tipos de fotos vendiam mais. Ela adorava seu trabalho no hotel, gostava de ensinar as crianças a esquiar, mas fotografar, capturar momentos era seu verdadeiro amor. Lacy subiu os degraus até o local de exibição da galeria. A proprietária estava ocupada com um cliente. Por isso, Lacy ficou observando as imagens à mostra, juntamente com lindas pinturas a óleo e aquarelas. Ver suas imagens da montanha a deixou empolgada como sempre. Seu


Ver suas imagens da montanha a deixou empolgada como sempre. Seu coração estava ali. Tirar fotos, encontrar a maneira certa de contar uma história numa imagem; era isso que alimentava sua alma. Agora, Sam queria usar o trabalho dela para promover o resort. Lacy estava se sentindo lisonjeada e emocionada, enveredando novamente por aquele perigoso terreno que era voltar a gostar dele. A proprietária da galeria, Heather Burke, entregou a fotografia em preto e branco que Lacy havia feito de um pinheiro nevado a uma mulher bemvestida, que carregava uma deslumbrante bolsa de couro azul. O orgulho dominou Lacy. As pessoas valorizavam o trabalho dela. Não só Sam e todos do hotel, mas também desconhecidos, gente que olhava as imagens e viam arte, beleza ou recordações. E esse era o grande presente. Saber que os outros apreciavam os vislumbres da natureza que ela imortalizava. Lacy sorriu para Heather quando ela se aproximou, uma expressão de satisfação no rosto. – Adorei aquela foto. – Ela também adorou – falou Heather com uma piscadela. – O suficiente para dar 300 dólares por ela. – Trezentos?! – A quantia era surpreendente, embora Heather sempre tivesse dito que Lacy punha preços muito baixos em suas fotografias. – Sério? – Sério. – Heather riu. – E vendi sua foto do garotinho patinando no gelo por 200. – Uau. – Empolgante. E, ainda melhor, se ela estivesse mesmo grávida, ao menos Lacy soube que não precisaria se preocupar com o dinheiro para cuidar do bebê. – Eu disse que as pessoas estão dispostas a pagar por coisas bonitas, Lacy. E, agora que a primavera e os turistas de verão já estão quase chegando, vou precisar de mais fotos suas para a galeria. Meus estoques estão terminando, e não queremos perder vendas, certo? – Certo. Vou trazer mais na semana que vem. – Ótimo. – Heather tocou o braço dela e sussurrou: – Acho que temos mais um interessado. Falo com você depois. – Ela foi falar com um idoso que observava a foto de um esquiador solitário descendo o pico do Snow Vista.


O coração de Lacy disparou, como sempre acontecia quando ela via aquela imagem. Era Sam, claro, numa foto tirada alguns anos antes, pouco antes do início da temporada, quando ambos tinham estado sozinhos nas encostas. Ela quase conseguia ouvir a risada dele em sua memória. Mas aquilo era passado. – Eu me lembro desse dia. A voz de Sam veio de trás dela, e os pensamentos de Lacy perderam o rumo. Ela se virou para olhá-lo, mas ele estava observando a fotografia que o senhor de idade segurava. – Jack estava na Alemanha, e nós dois estávamos sozinhos na encosta. – Eu lembro. – Ela o olhou fixamente e viu as recordações nos olhos verdes dele. Dominada pelo passado, ela o acompanhou naquela lembrança. – Também lembra como esse dia terminou? – Ele passou a mão pelo braço dela, fazendo Lacy estremecer. – Claro que lembro. Como se ela pudesse esquecer... Eles haviam feito amor na cabana do teleférico enquanto a neve caía. Ela se recordava de ter sentido que eram as únicas duas pessoas que existiam no mundo, envoltos pelo silêncio da neve e pelo amor. Era tudo tão fácil naquela época! Ela amava Sam. Sam a amava. E o futuro se estendia diante deles com uma reluzente glória. Então, dois anos depois, Jack morreu, Sam foi embora, e Lacy ficou sozinha. Agora, ele a observava com calor nos olhos e um meio sorriso nos lábios, e Lacy sentiu seu coração palpitar. O amor estava tão próximo que ela quase podia tocá-lo. Mas o medo também estava ali. Por isso, ela deixou de lado as lembranças. – O que está fazendo numa feira de artesanato? – perguntou ela. Ele deu de ombros. – Kristi disse a Tony onde vocês estavam. Então, decidimos vir encontrálas. Pensei em almoçarmos juntos. Só de pensar em almoçar, Lacy sentiu seu estômago se revirar. Ela engoliu em seco e inspirou fundo. – Ei. – Ele segurou firmemente o braço dela. – Você está bem? Ficou pálida de repente. – Estou ótima. Só com algum problema no estômago, eu acho.


Ele a olhou fixamente, como se ele fosse capaz de expor todos os segredos dela. Lacy não desviou o olhar para não dar mais um motivo para ele especular. – Tem certeza de que é só isso? Ele estava pensando “bebê” tanto quanto ela. Contudo, como não tinha a resposta para aquela pergunta, Lacy se esquivou. – Sim. Só não estou com muita fome. – Certo... – Ele não pareceu convencido, mas ao menos parou de olhá-la como se ela fosse uma bomba prestes a explodir. Mirando novamente para as imagens expostas, ele falou: – Suas fotografias mudaram tanto quanto você. – Como assim? Ele voltou novamente seu olhar para ela. Então, pegou um pouco da pipoca de Lacy. – Você cresceu. Suas fotos, também. Elas têm mais profundidade agora. Mais... – Ele olhou nos olhos dela. – ...facetas. Lacy corou com o elogio e ficou mais emocionada do que queria admitir. Ao longo dos últimos dois anos, ela havia mudado mesmo. Foi obrigada a crescer, a entender que, embora tivesse amado Sam, ela seria capaz de sobreviver sem ele. Poderia ter uma vida da qual se orgulhasse, uma vida que ela amasse, sem ele. E, embora o vazio em seu coração tivesse permanecido, ela havia se tornado alguém de quem se orgulhava. Saber que Sam enxergava e até mesmo gostava dessas mudanças era desconcertante. Para disfarçar seus sentimentos confusos, ela perguntou: – Isso foi um elogio grosseiro? – Não. Não teve nada de grosseiro. Só uma observação de que você é uma mulher e tanto. Ele a olhava como se a enxergasse de verdade, por completo, e Lacy viu a admiração nos olhos dele. Isso foi uma surpresa, e ela gostou. Um tanto demais. Ele a estava afetando demais. O que ela estava começando a sentir por Sam Wyatt agora era muito mais do que havia sentido no passado, e isso a preocupava. Quando ele foi embora, ela sobreviveu, mas Lacy não sabia se conseguiria sobreviver novamente. – Acho melhor eu procurar Kristi... – Ah, ela foi embora com Tony – disse Sam com um meio sorriso que o


– Ah, ela foi embora com Tony – disse Sam com um meio sorriso que o deixou muito simpático, como o Sam que ela conheceu, e aquilo a desconcertou por um instante. O passado e o presente se fundiram. Quando ela finalmente absorveu as palavras dele, perguntou: – Espere. Ela foi embora?! – Ele se propôs a pagar um calzone para ela no La Ferrovia. – Ah. Ele conhece os pontos fracos dela. Mas quem pode culpá-la? Aqueles calzones são lendários. – Sim – falou ele, começando a caminhar ao lado dela. – Quando estive na Itália, tentei encontrar um de espinafre tão bom quanto o deles e não consegui. – Itália, é? – Ela sentiu uma pontada no coração, pensando no tempo que ele passou longe dela. O que ele havia feito e visto. E, sim, com quem esteve. Ela não devia se importar. Afinal, ele a havia deixado. Contudo, era difícil simplesmente desligar os próprios sentimentos porque alguém tinha pisado nele. – É lindo – disse ele, mas não pareceu muito feliz com as lembranças. – Jack sempre adorou a Itália. – E você? – Foi legal. Alguns lugares incríveis. Mas ver algo maravilhoso sozinho não é tão gratificante. – Ele deu de ombros. – Mesmo assim, foi bom estar lá. Ver o lugar como Jack via. Mas não encontrei um calzone bom como o do La Ferrovia. Lacy imaginou que Sam teria amado ver os principais locais de esqui da Europa. O fato de que isso claramente não aconteceu a fez pensar. – Mas a minha pipoca até que está servindo bem a você – disse ela. – A companhia, também – acrescentou ele, pegando um pouco mais. – A propósito, esta pipoca é ótima. – É Chelsea Haven quem faz. Comprei a comum hoje por causa do meu estômago. Ele ergueu as sobrancelhas, mas ela ignorou isso. – Ela tem vários sabores ótimos. Nacho, pimenta e, o meu favorito, churros. Ele riu.


– Virou entendida de milho? – Eu tento – falou ela, dando de ombros e parando na barraquinha seguinte. Prateleiras de madeira e uma mesa de exposição continham coloridos sabonetes artesanais. Lacy comprou duas barras azul-claras. Sam observou os sabonetes por um longo momento antes de pegar um verde, cheirar e perguntar: – Quem faz isso? – Uma empresinha em Logan. Eu adoro. Ela fungou o sabonete, sorriu e o ergueu para que Sam cheirasse. – É o seu – disse ele, sorrindo. – O cheiro que está sempre na sua pele. Lilás. – Bom olfato – falou ela, começando a andar novamente. – Certas coisas um homem não esquece. – Ele baixou a cabeça e, em voz baixa, sussurrou: – Como o cheiro da mulher que ele leva para a cama. Esse tipo de coisa fica marcado na memória. Ela estremeceu da cabeça aos pés, e Sam sorriu. O corpo de Lacy formigava, sua mente estava um tanto confusa, e ela arfava. Quando ela olhou nos olhos de Sam e viu o calor neles, Lacy sentiu seu coração disparar novamente. Desta vez, ela não tentou negar. Com Sam, não havia como impedir a reação de seu corpo, de sua alma. Seu cérebro, porém, era uma história diferente. Ela ainda podia lembrar a si mesma do perigo que era arriscar novamente com Sam Wyatt. Entretanto, apesar do risco, Lacy sabia que aquilo era tudo o que ela queria fazer. O que significava estar muito encrencada. Ele endireitou o corpo, observou a multidão à volta deles e murmurou: – Estou me sentindo meio acuado. Deve ter só uma meia dúzia de homens aqui. – Vai embora? – perguntou ela, lançando um rápido olhar para ele. Sam a olhou diretamente nos olhos. – Não vou a lugar nenhum. E, subitamente, Lacy soube que ele não estava falando apenas da feira. SAM PASSOU mais uma hora com ela, enquanto percorriam a feira à qual ele jamais teria ido. Contudo, estar com Lacy em terreno neutro compensava o


fato de ele se sentir um tanto deslocado no que, em geral, era considerado território feminino. Entretanto, enquanto eles caminhavam e Lacy fazia compras, a mente dele pensava em ideias. Quando saíram da estação, Sam parou para observar a histórica rua principal e além, olhando as montanhas nevadas ao longe. Árvores cresciam, o ar estava mais quente, o sol brilhava. – Senti falta disso – falou ele, mais para si mesmo do que para Lacy. – Acho que eu só soube a falta que senti disso tudo quando voltei para casa. – E você está em casa? Estendendo a mão, Sam afastou levemente o cabelo do rosto dela, prendendo-o atrás da orelha. Havia passado dias fazendo aquela pergunta a si mesmo. Não conseguia dar uma resposta direta a seu pai porque ainda se sentia dividido. Partir? Deixar para trás as lembranças daquela montanha e passar o resto de sua vida fugindo do próprio passado? Ou ficar e enfrentar tudo, recuperar a vida... e a mulher... que ele havia deixado para trás? Não era simplesmente perfeito se dar conta, agora, de que a mulher que ele queria era dona do terreno que ele queria? Se ele tentasse conquistá-la naquele momento, Lacy jamais acreditaria que ele a amava de verdade. Parecia que o destino estava se divertindo muito à custa dele. Ele precisaria encontrar uma maneira de contornar a situação, pois já estava farto de tentar se esconder do passado. Estava na hora de resolver tudo. Imediatamente. – Sim, Lacy. Estou. Desta vez, para sempre.


CAPÍTULO 8

– QUERO ABRIR uma loja de lembranças – falou Sam, vendo Lacy olhá-lo com surpresa. Ele vinha pensando muito desde o passeio deles pela feira no dia anterior. Embora ele não tivesse se sentido tentado a comprar nada, Sam era astuto o suficiente para perceber como outras pessoas se sentiam. Ele imaginava que os turistas ficariam ansiosos para comprarem peças feitas por artesãos locais. Ele sorriu ao ver a confusão de Lacy. – Sim, eu sei. Não era exatamente o que você esperava que eu dissesse. Mas enxergo possibilidades em tudo. – É mesmo? – Pode apostar. – Ele se sentou na beira da mesa dela. – Já falei com você sobre usar as fotos do hotel... – Sim? Ele sorriu por tê-la deixado confusa. – Quando estávamos na feira, percebi que tem muita gente talentosa na região. – Claro. – É por isso que estou pensando numa lojinha. Algo separado do hotel, mas também claramente conectado. Talvez entre o hotel e o novo anexo que vamos construir. Também quero alguns lanches gelados. Para pessoas que estejam com fome, mas não queiram uma refeição completa. Tipo sanduíches pré-embalados, bebidas, frutas, essas coisas...


– Certo, é uma boa ideia, mas... – Mas mais do que uma lanchonete. Quero exibir artistas locais. Não só as suas criações, que são ótimas, mas também tipo o escultor em madeira da feira, o artista em vidro que vi lá. Ainda quero seus cartões-postais, e também podemos vender fotos emolduradas. – Não sei o que dizer. Balançando a cabeça, ele falou: – Conhecendo você, isso não vai durar muito. Mas o quero dizer é que, se vamos expandir o Snow Vista, podemos trazer vários artistas locais conosco. Acho que os turistas adorariam isso, e isso daria aos artistas outro canal de vendas. – Tenho certeza de que eles adorariam – disse ela lentamente, cautelosamente. Não havia problema naquilo. Ele era capaz de lidar com a desconfiança dela. Em breve, Lacy veria que ele estava falando sério. – Vamos pedir para um advogado fazer os contratos, claro. Específicos a cada artesão. – Contratos. Ele assentiu. – Estou pensando em 70 por cento para todos, assim como vamos dividir com você. – Isso é incrível – falou ela, inclinando a cabeça para o lado e o olhando como se nunca o tivesse visto antes. – Sei o que você está pensando. Nunca me envolvi em nada além do hotel ou do esqui. – Sim... – Como eu já disse. As pessoas mudam. Voltando ao aspecto financeiro, acho que o que vamos oferecer é justo. E vamos ajudar uns aos outros, o hotel e os artistas. – Ele olhou nos olhos dela. – Quero uma variedade de produtos diferentes nessa loja. Quero exibir o talento local, Lacy. Desde os artistas, passando pelos chefs, até a mulher que faz as conservas de amora que usamos no restaurante. – Beth Howell. – Isso. Você a conhece, certo? Aliás, deve conhecer todos os artistas daqui.


– A maioria, sim... – Ótimo. Então, sendo gerente do resort, você pode cuidar disso. Fale com eles. Veja o que acham. Quando chegarmos mais perto da inauguração, resolvemos a parte jurídica. Ela piscou os olhos. – Você quer que eu assuma o comando disso? – Algum problema? – Ele sorriu, sabendo que a havia pego desprevenida novamente. – Não. Só estou surpresa. – Por quê? – Ele se levantou da mesa e parou diante de Lacy, curvando-se, apoiando as mãos nos braços da cadeira dela. – Você sabe que suas fotos são ótimas. Por que ficaria surpresa por eu querer exibi-las, ajudar a vendê-las? Lacy suspirou e mexeu nervosamente na ponta de sua trança loura. – Acho que, por causa do nosso passado, fico me perguntando por que você está sendo tão... gentil. – Quero você, Lacy. Aquela noite não foi o suficiente. Nem perto disso. Ela inspirou fundo, corando levemente e mostrando a Sam que ela ainda sentia as chamas ardendo entre eles. – Voltei para ficar. Isso significa que vamos fazer parte da vida um do outro novamente. Balançando a cabeça, ela começou a falar, mas Sam a interrompeu. – Mas é mais do que isso. Quero ir mais a fundo, fazer mudanças que vão pôr o Snow Vista no mapa. E, acima de tudo, quero convencer você de que não vou embora. – Por que isso é tão importante para você? Por que se importa com o que penso? – A voz dela era um sussurro, e aquilo o dilacerou. – Você não confia em mim – disse ele, vendo o brilho nos olhos dela que confirmava isso. Sam detestava o fato de que ela ainda desconfiava dele, mas entendia. – Eu entendo. Mas as coisas estão diferentes agora, Lacy. Eu já disse que vi como você mudou. Mas eu também mudei. – Ele pegou os nervosos dedos dela. – Não sou o mesmo homem que foi embora daqui há dois anos. – E isso é bom? Ou ruim? Era típico de Lacy ser tão direta. Ele sorriu.


– Acho que você vai ter que descobrir por conta própria. – Para você, não devia importar o que eu penso. – Devia, sim. Você, acima de tudo. Tive muito tempo para pensar enquanto estive longe. – Sim. Eu também tive. Sam assentiu, reconhecendo o que ela dizia, ao mesmo tempo em que se censurava por tê-la feito sofrer tanto. Ele não foi capaz de enxergar nada além de sua própria tristeza dois anos antes. Agora, porém, tudo parecia claro o suficiente para enxergar que ele havia causado tudo aquilo. Precisava consertar a bagunça que ele mesmo havia criado. – A questão é que analisei muito a minha vida. As escolhas. As decisões. Não gostei de muitas delas. Não gostei de aonde elas me levaram. Então, agora, estou em casa e vou conviver com o que me trouxe de volta. Ela inspirou fundo quando ele passou o polegar no dorso da mão dela, e Sam sentiu o calor ganhando vida entre eles. Os olhos azuis de Lacy se semicerraram, desconfiados. Sam entendia por que ela o olhava como se estivesse esperando que ele desse meia-volta e fugisse. Mas ele não estava mais buscando uma fuga. Estava ali para ficar, e ela precisava se acostumar com isso. – Entendo sua desconfiança – disse ele, olhando nos olhos dela. – Mas estou em casa agora, Lacy. Não vou embora, e você vai ter que encontrar um jeito de aceitar isso. – Ele se curvou para perto. – Fui embora há dois anos... Ela inspirou fundo novamente. – Você não para de me lembrar disso. Acredite, não é necessário. – A questão é que esses dois anos nos fizeram mudar... mas nada pode mudar o que ainda existe entre nós, e não vou permitir que você negue essa chama. Lacy umedeceu os lábios, claramente desconfortável, e aquela discreta ação o deixou excitado. – Sam... Ah, sim, ela estava sentindo. Só estava determinada a resistir. Mas ele sempre gostou de um desafio. – Vou conquistar você, Lacy. – O quê? Por quê? – Ela recolheu os dedos, mas Sam a viu esfregá-los,


– O quê? Por quê? – Ela recolheu os dedos, mas Sam a viu esfregá-los, como se ainda formigassem com a sensação. – Porque quero você. – Ele não falaria em amor; não apenas porque ela não acreditaria, mas porque Sam não sabia se conseguiria tocar nesse assunto novamente. Ele teve o amor dela no passado, mas não o manteve seguro. Não estava disposto a tentar e fracassar novamente. O fracasso não era uma opção. Sendo assim, ele manteria as coisas simples. Olhando nos olhos dela, acrescentou: – Não é só o que eu quero, Lacy. Você também me quer. Ela pareceu querer contestar aquilo, mas não o fez, e Sam considerou isso uma vitória. – Você está mesmo tentando me desequilibrar, não está? – perguntou ela. Ele abriu um lento e malicioso sorriso. – Como estou me saindo? – Bem demais. – Bom saber. – Ele se levantou abruptamente e anunciou: – Vou ao escritório da arquiteta. Quero falar com ela sobre o projeto dessa loja de lembranças. – Você já está fazendo tanta coisa... – Não faz sentido desperdiçar tempo, faz? – E ele estava falando tanto da loja quanto do que existia entre eles. Sam tinha certeza de que Lacy também entendia isso. – Acho que não. – Então, fale com alguns dos seus amigos – falou ele, rumando para a porta. – Veja se eles estão interessados em se envolver. – Tenho certeza de que sim... – Ótimo. Podemos jantar mais tarde e conversar sobre tudo. Ele a olhou uma última vez e ficou satisfeito ao vê-la completamente abalada. Era assim que Sam a queria. Um pouco desequilibrada, um pouco incerta. Se ele a mantivesse daquele jeito, a chance de Lacy recuar, de se apegar à raiva seria menor. Sam estava determinado a dar um jeito de voltar à vida dela. De tê-la na sua. E ele sabia exatamente como fazer isso. Antes, ele não deu romance a Lacy. Eles simplesmente haviam se apaixonado e, em seguida, se casado. Foi tudo muito fácil. Talvez, pensou


ele, enquanto atravessava o saguão e saía pela porta do hotel, tenha sido por isso que as coisas houvessem se deteriorado. Foi tudo fácil demais, e ele não apreciou de verdade o que tinha até perder tudo. Ele não cometeria esse erro novamente. DUAS HORAS depois, Lacy estava em casa, trancada no banheiro, olhando fixamente para três testes de gravidez. Ela tinha ido até Logan comprá-los apenas para não esbarrar com ninguém conhecido na farmácia. Optou por três tipos diferentes de testes, pois estava se sentindo um tanto obcecada e não confiaria no resultado de apenas um. Positivo. Nos três. Ela ergueu o olhar para seu próprio reflexo no espelho do banheiro. Esperou que uma sensação de pânico explodisse dentro dela. Esperou para ver a preocupação brilhando em seus olhos. Mas essas emoções não vieram. – Ai, meu Deus. Sério? – A voz dela ecoou na cabana silenciosa. Sozinha, ela sorriu. Um sorriso cada vez maior. Ela teria um bebê. Instintivamente, Lacy pôs a mão delicadamente em seu abdômen, como se estivesse confortando a criança que havia ali dentro. Quando ela e Sam estavam juntos, ela sonhava com a construção de uma família com ele. Com o momento em que ela lhe daria a feliz notícia de que estava grávida. – Os tempos mudam – murmurou ela. – Agora, não sei nem se vou contar. Mas ela precisava contar, não precisava? Claro que sim. Eles haviam feito um bebê juntos, e ele tinha o direito de saber. – Não estou nada ansiosa por isso... Engraçado, alguns anos antes, teria havido comemoração, felicidade. Agora, Lacy estava feliz. Mas e Sam? Ele disse que a queria, mas isso não era amor. O desejo ardia forte, mas se transformava em cinzas rapidamente. E o amor também não era nenhuma garantia. Ele a amou dois anos antes, mas partiu mesmo assim. Ela o amava agora, mas isso não era suficiente. – Ah, Deus. – Ela olhou fixamente em seus próprios olhos, vendo-os se arregalarem. Kristi tinha razão. Lacy ainda amava Sam de verdade. Contudo, esse amor havia mudado, tanto quanto ela. Estava maior. Mais maduro. Menos ingênuo. Ela sabia que havia problemas. Sabia que não estava pisando


em terreno firme, mas isso não era suficiente para apagar o que ela sentia. Especialmente porque ela não sabia se queria apagar o que sentia. Céus, ela gostava mesmo de sofrer. Patético. O bebê adicionava um novo aspecto àquela situação. Sam precisava saber. – Mas você não tem nenhuma obrigação de contar a ele agora. O problema era que Lacy queria que ele estivesse ali naquele exato instante. Queria se atirar nos braços dele, senti-los a envolvê-la. Queria compartilhar aquela... magia com ele, vê-lo feliz por isso. Queria que ele a amasse. Ela se sentou no vaso e ficou ali, em silêncio, perplexa. Ela ainda amava o homem que havia partido seu coração. Ela podia ter enterrado suas emoções e sua dor durante dois longos anos, mas não foi capaz de apagá-los de seu coração. Ele permaneceu lá pois ali era o seu lugar, pensou Lacy. Sempre foi. Entretanto, amá-lo era uma receita para a tristeza se ele não retribuísse esse amor. E, se ela lhe contasse a respeito do bebê, ele diria e faria todas as coisas certas; Lacy o conhecia bem o suficiente para ter certeza disso. Talvez ele quisesse se casar novamente com ela. Criar o filho deles juntos, e ela jamais saberia se ele a teria escolhido sem o bebê. Ele teria voltado não só para casa, mas também para ela? Lacy não poderia viver o resto de sua vida sem saber. Ela se levantou e jogou os três testes na lixeira. Tocando seu abdômen, ela falou: – Sem querer ofender, meu amor, mas preciso saber se o seu pai iria me querer mesmo se você não existisse. Então, vamos guardar esse segredo entre nós por enquanto, está bem? – ESTÁ TUDO bem com você? – perguntou Sam na manhã seguinte, quando a viu olhando fixamente para o nada. – Ainda está com problema no estômago? – O quê? – Lacy se surpreendeu. – Hã... não. Estou muito melhor. – O que não era mentira, disse Lacy a si mesma. Depois da primeira meia hora se sentindo péssima, tudo melhorava. Claro, ela sentia muita falta do café. Chá de ervas era... decepcionante. – Certo. – Ele a olhou com desconfiança, como se tentando descobrir se


– Certo. – Ele a olhou com desconfiança, como se tentando descobrir se ela dizia a verdade. – Você também estava meio estranha ontem à noite quando levei o jantar. Porque ela ainda estava perplexa com o choque de se descobrir grávida. Lacy não esperava que ele aparecesse, especialmente trazendo calzones de La Ferrovia. E, quando ele entrou na cabana, ela presumiu que Sam fosse tentar levá-la novamente para a cama. Mas isso não aconteceu. Em vez disso, eles tinham conversado sobre os velhos tempos, sobre os novos planos dele para o resort, sobre tudo, menos o que ardia entre eles. Durante algumas horas, eles haviam compartilhado o jantar, gargalhadas e uma história composta por uma vida inteira de intimidade. E, droga, pensou Lacy, ela havia ficado completamente encantada e abalada. Ele disse que a conquistaria, e, se a noite anterior era o início disso, Sam havia começado muito bem. – Já conseguiu falar com algum dos seus amigos sobre a loja de lembranças? – Ah, telefonei para alguns deles, sim, e eles estão muito interessados. – Ótimo. Vou me reunir com a arquiteta daqui a uma hora. Quero que os desenhos sejam feitos o mais rápido possível. – Acho que isso não vai ser problema – falou ela, irônica. – Por quê? – Ninguém consegue dizer não a você por muito tempo, não é? Sam sorriu. – Isso inclui você? Lacy sentiu sua compostura se dissolvendo. Um sorriso dele, um comentário sussurrado a deixava dominada pelo calor. Não era justo ele ter tanta munição contra ela. – Se bem me lembro, eu também disse “sim” faz alguns semanas. – Verdade – falou ele, seu olhar a percorrendo como um maçarico. Lacy se contorceu na cadeira. Então, obrigou-se a se controlar quando percebeu que ele estava percebendo. – Não fique arisca – disse ele, contornando a mesa para se curvar na direção dela. – Se não quer que eu fique arisca, é melhor se afastar um pouco.


Aquele sorriso surgiu novamente. – Sedução no escritório não é romance. Por isso, por enquanto, você está em segurança. Mas podia ser, pensou ela, desejosa. Se trancassem a porta, fechassem as cortinas... Ah, sim, o escritório serviria. Ele lhe deu um leve e rápido beijo. – Vou para Ogden encontrar a arquiteta. Se precisar de mim, ligue para o meu celular. – Pode deixar. – Se precisar de mim. Ela conteve um suspirou. Lacy precisava mesmo dele, mas não daquele jeito. – Certo. Sam já estava quase na porta quando Lacy lembrou que precisava consultálo a respeito de uma coisa. – Contratei um chef extra para ajudar Maria na cozinha. Ele começa amanhã. – Ótimo – falou ele, olhando-a fixamente. – Você não precisa me consultar com essas coisas, Lacy. Tem feito um trabalho e tanto administrando o resort já faz um bom tempo. Confio em você. Ele foi embora, e Lacy ficou sozinha com aquelas palavras ecoando em sua mente. Ele confiava nela. E ela estava escondendo o bebê dele. Seria errado esperar? Ver se talvez a ideia dele de conquistá-la tinha mais a ver com a ressurreição daquele amor, em vez de apenas desejo? Como Lacy poderia saber? Tudo o que tinha eram seus instintos, e eles estavam berrando para que ela se protegesse, pois, se ele a arrasasse novamente, talvez não conseguisse se reerguer desta vez. DURANTE AS semanas que se seguiram, Sam se concentrou em pôr seus planos em andamento. Quando fevereiro deu lugar a março e a primavera se aproximou, ele ficou mais ocupado do que nunca. Era bom retornar ao Snow Vista, criar um novo lugar para si ali. E Lacy era uma grande parte disso. Eles jantavam juntos quase todas as noites; ele adquiriu o costume de aparecer na cabana dela com sanduíches ou comida italiana ou chinesa. Eles conversavam


e planejavam. E, embora ele estivesse enlouquecendo com isso, ainda não havia tentado levá-la para a cama novamente. Ele estava determinado a dar a ela o romance que eles não haviam tido da primeira vez. E isso incluía enviar flores, tanto no trabalho quanto em casa. A desconfiança nos olhos dela estava desaparecendo, e Sam ficava feliz por isso. O rugido do motor de uma das retroescavadeiras que trabalhavam na obra do restaurante trouxe os pensamentos de Sam de volta ao presente. A equipe de construção estava preparando a fundação. Contanto que o sol continuasse brilhando e as temperaturas não ficassem congelantes, eles começariam o anexo ao hotel na semana seguinte. Ainda havia esquiadores indo à montanha, mas, para a maioria dos turistas, o início da primavera significava o fim da busca pela neve. O que o fazia lembrar seu mais recente plano, um que ele já havia posto em andamento. No momento, havia um engenheiro e uma equipe estudando a melhor rota possível para o passeio na floresta. Haveria trilhos para veículos individuais, e o público iria poder reduzir a velocidade se não gostasse de descer a encosta com velocidade. Os arquitetos estavam fazendo os desenhos e as alterações nas quais a família Wyatt insistia. Sam sorriu, virando o rosto para o vento. Ali, no alto do Snow Vista, tinha a melhor vista do mundo. Ele sentiu tanta falta daquilo! Percorreu o planeta inteiro, escalou os Alpes, esquiou em encostas incríveis na Alemanha, Itália e Áustria. Contudo, para ele, nada superava aquela vista. Os pinheiros eram altos, os galhos nus dos carvalhos balançavam. As árvores logo verdejariam, as flores silvestres retornariam, e o rio voltaria a correr com força total. O olhar dele percorreu a encosta, que, por ter tantas árvores, não servia para esquiar. O passeio alpino que ele queria instalar seria um ótimo uso para aquele terreno. Como uma montanha-russa, mas sem as descidas e subidas loucas. Seria um passeio mais lento, ao ar livre, por entre as árvores, exibindo a fantástica vista do topo da montanha. O Snow Vista poderia ser conhecido também pela diversão no verão, não apenas no inverno. Ele já visualizava tudo. Os teleféricos, a montanha-russa alpina, o restaurante oferecendo ótima comida a preços razoáveis. Se eles instalassem


um gazebo e algumas outras coisas na parte plana, poderiam abrir o resort para casamentos, encontros corporativos... As possibilidades eram infinitas. E ele estaria ali para ver tudo. Sam esperou a vontade de partir e, quando ela não veio, ele sorriu. Era muito bom estar de volta. – Sei que o sol já nasceu, mas ainda está frio demais para ficar aqui fora. Rindo, Sam se virou para sua irmã. – Estamos na primavera, Kristi. Aproveite o frio antes que o calor do verão chegue. Ela se aproximou dele, sua expressão tão fria quanto o vento. A irmã não havia dito nada a respeito da decisão dele de ficar, e Sam sabia que precisaria dar duro para convencer ela e Lacy disso. Ele tinha quase certeza de que já estava na metade do caminho com Lacy, mas talvez aquela fosse sua chance de ficar bem com sua irmã. – Você voltou não faz nem um mês e já está fazendo todo mundo correr para acompanhar suas ideias. Sam deu de ombros. – Agora que decidi ficar, não faz sentido me conter. Quero que o resort comece a oferecer novidades assim que possível. – Foi por isso que você ofereceu o bônus para a equipe se eles conseguirem estabelecer a fundação antes de 1º de abril? Sam sorriu. – Dinheiro é um ótimo motivador. – É mesmo. E papai está muito feliz com tudo o que você vem fazendo. – Eu sei. Era bom saber que seu pai estava empolgado com o futuro. Isso significava que ele pensava à frente, não no passado ou em seus problemas de saúde. Sam ainda ia ao hotel todos os dias para repassar os planos com seu pai. Para mantê-lo envolvido no que estava acontecendo. Para ouvir a opinião dele e, sim, apenas para estar com ele. Sam sentiu falta daquela conexão com seus pais ao longo dos últimos dois anos. Estar ali com eles novamente fazia bem a sua alma... mesmo com o fantasma de Jack pairando sobre todos. – E você, Kristi? O que acha de tudo isso? De mim? Ela suspirou. – Gostei de todos os planos – falou ela, olhando-o nos olhos. – Mas ainda


– Gostei de todos os planos – falou ela, olhando-o nos olhos. – Mas ainda não decidi o que pensar de você. Sam sentiu seu bom humor se esvaindo e concluiu que era hora de esclarecer algumas coisas com sua irmã caçula. – Por quanto tempo você vai me fazer pagar? – Por quanto tempo você pode pagar? – Kristi deu de ombros, mas seus olhos estavam emocionados, não irritados. – Não tenho como me desculpar para sempre. – Para Sam, nunca foi fácil pedir desculpas. Nem mesmo quando criança. Ter que engolir o fato de que ele havia feito uma grande bobagem dois anos antes não era muito fácil. Mas ele estava fazendo isso. – Eu voltei. Isso deve contar. – Talvez conte, porque estou feliz por você estar de volta, Sam. De verdade. Sua presença aqui é uma coisa boa. Mas o que você fez há dois anos afetou todos nós, e não é tão fácil superar isso. – É, eu sei – assentiu ele, aceitando o fardo de decisões passadas. – Lacy. Mamãe. Papai. – Eu – disparou ela, chegando bem perto dele. Inclinando a cabeça para trás, Kristi o olhou com irritação. – Sua partida me ensinou que confiar em qualquer pessoa é arriscado demais. Você sabia que Tony já me pediu em casamento duas vezes e eu recusei ambas? Ele inspirou fundo. – Não, eu não sabia disso. – Foi o que aconteceu. E eu recusei porque... – A voz dela desapareceu. Kristi engoliu em seco e direcionou a Sam um olhar que quase chamuscou o cabelo dele. – Porque, se você foi capaz de abandonar Lacy, como posso acreditar que Tony vai ficar comigo? De que adianta? Eu não conseguiria acreditar, porque você me deixou sem chão. – Droga, Kristi. – Ele estava se sentindo ainda pior agora. De alguma forma, ao bagunçar sua própria vida, havia feito o mesmo com a de sua irmã. Mais uma culpa a ser acrescentada ao fardo que ele já carregava. Sam cerrou os dentes e aceitou aquilo. Então, pôs as mãos nos ombros dela. – Você não pode me usar como desculpa para não tentar. Estraguei tudo, mas foram decisões minhas. – Dizer aquilo lhe dava um gosto amargo, mas Sam seguiu em frente. – Você não pode julgar todo mundo pelo que eu fiz. Tony é um


ótimo homem, e você sabe disso. Quem manda na sua vida é você, Kristi. Quem define seu futuro é você. – É fácil dizer isso quando não foi você quem foi abandonado. Era um bom argumento, embora ele se sentisse dilacerado por admitir isso. Droga, as repercussões do que ele havia feito há dois anos não paravam de chegar. No entanto, Sam também sabia que não devia ser tão duro consigo mesmo. Quando Jack morreu, Sam não conseguiu pensar. Não conseguiu respirar, de tanta dor. E ele reagiu a isso. Fugindo das lembranças, das pessoas que recorriam a ele em busca de respostas que ele não tinha. O vazio que ele sentiu com a morte de seu irmão o levou além da lógica, além da razão. Agora, sua decisão de voltar para casa significava que ele seria obrigado a encarar as consequências de seus atos. Reconhecer a dor que ele havia causado a outras pessoas era algo difícil. Ele olhou para Kristi e a viu em diversas imagens em sua mente, em cada uma das fases da vida dela. O bebê que os pais dele haviam trazido do hospital. A menininha loura que corria atrás dele e de Jack. O acompanhante para o baile de formatura que ele e Jack haviam torturado com promessas de sofrimento se ele não se comportasse com a irmã deles. Os três irmãos gargalhando juntos no alto da montanha antes de descerem com velocidade máxima pela encosta numa das muitas corridas que eles haviam apostado. Lentamente, porém, as imagens desapareceram, e Sam ficou olhando nos olhos dela, vendo o presente, e o amor por ela o dominou. Seguindo seu instinto, ele a puxou, mesmo com a resistência, para um abraço, e apoiou o queixo no alto da cabeça dela. Levou apenas um ou dois segundos para que Kristi o abraçasse com força também. – Droga, Sam, nós precisamos de você... eu precisei de você... e você não estava aqui. – Agora, estou – disse ele, esperando até que ela o olhasse novamente. Ela estava linda e triste, mas não mais furiosa, e Sam se sentiu agradecido por eles terem conseguido superar esse obstáculo. – Mas, Kristi, não deixe que os meus erros façam você perder algo incrível. Você ama Tony, não ama? – Sim, mas... – Não. Nada de “mas”. Você sempre foi louca por ele, e está claro que ele


– Não. Nada de “mas”. Você sempre foi louca por ele, e está claro que ele também ama você. Ou não aguentaria todos esses livros de autoajuda que você vive citando. Ela fez um som de desdém e baixou a cabeça por um instante. Um sorriso ainda curvava sua boca quando ela o olhou novamente. Balançando a cabeça, Sam falou em voz baixa: – Não me use como desculpa para não arriscar, Kristi. Ninguém é perfeito, menina. Às vezes, você tem que arriscar para conseguir algo que quer. Ela fez cara feia para ele. Então, mordeu o lábio inferior. Sam sorriu e deu um beijo na testa dela. – Confie em Tony. Droga, Kristi, confie em você mesma. – Vou tentar – falou ela. Em seguida, acrescentou: – Estou tão feliz por você estar em casa. – Eu também estou.


CAPÍTULO 9

A CONVERSA com sua irmã ainda ecoava dentro dele quando Sam passou na cabana de Lacy naquela noite. Havia passado horas ouvindo a voz de Kristi se repetindo em sua mente enquanto ele aceitava todo o sofrimento que causou aos outros há dois anos. Perceber o que ele perdeu com sua atitude o fez ver que ele não só queria, mas também precisava de Lacy novamente em sua vida. Agora, devia encontrar uma maneira de fazer isso acontecer. Noites ocasionais com ela não eram suficientes. Ele queria mais. E Sam não pararia até conseguir. Havia levado consigo uma pizza e a necessidade de estar com ela. De simplesmente estar no mesmo lugar que ela. De poder olhar naqueles olhos que o haviam atormentado por tanto tempo e perceber que ele teria uma segunda chance de acertar tudo. – Trazer pizza é golpe baixo – falou Lacy, acomodando-se no sofá com uma fatia. Ele gargalhou. – Por quê? Temos que comer. Você sempre adorou pizza. – Por favor. – Ela revirou os olhos e balançou a cabeça. – Todo mundo adora pizza. – Não muitas adoram pizza de pepperoni e abacaxi. Lacy deu uma mordida e grunhiu levemente de prazer, o que fez o corpo dele se retesar em resposta. – As pessoas não sabem o que é bom – disse ela, dando de ombros. Normalmente, ele poderia se divertir discutindo com ela, mas, naquela


Normalmente, ele poderia se divertir discutindo com ela, mas, naquela noite, Sam estava inquieto. Ele deixou sua pizza de lado e olhou fixamente para o fogo que ardia na lareira. Os estalos das chamas eram um som tranquilizante, mas não reduziam a tensão que ele sentia. Ele não conseguia deixar de lado aquela conversa com Kristi. – O que houve? Sam a olhou, a luz da lareira dançando no rosto dela, destacando o dourado de seu cabelo, que pendia solto em torno dos ombros. Essa mesma luz brilhava nos olhos dela enquanto o observava. Ela estava de jeans, suéter vermelho e um par de meias listradas. Mesmo assim, continuava sendo a mulher mais linda que ele já vira. – Sam? O que foi? Ele se levantou, foi até a lareira e apoiou as duas mãos na prateleira acima dela enquanto olhava as chamas. – Falei com Kristi hoje. – Eu sei. Ela me contou. Claro que havia contado. Mulheres contavam tudo umas às outras, e isso deixava a maioria dos homens arrepiada só de pensar. Ele se virou para olhála. – Ela contou que está deixando a vida dela toda em suspenso por causa do que eu fiz há dois anos? – Sim. Sam passou uma das mãos por seu cabelo, deu as costas à lareira e olhou diretamente para Lacy. Sua mente estava a mil por hora, a culpa o dilacerava com garras afiadas. – Sabe, nunca me dei conta de como minhas decisões de dois anos atrás tinham afetado a todos. Lacy deixou sua pizza de lado e uniu as mãos sobre seu colo enquanto o olhava. – Como poderiam não afetar, Sam? Massageando a própria nuca, ele disse de uma vez: – É, agora, eu sei disso. Mas, naquela época, não conseguia enxergar além da minha própria dor. Da minha própria tristeza. – Você não quis deixar ninguém ajudá-lo. Você se fechou para todos nós,


– Você não quis deixar ninguém ajudá-lo. Você se fechou para todos nós, Sam. – Eu sei disso – falou ele, tenso. – Sei mesmo. Mas eu não podia recorrer a você, Lacy. Não com a culpa me devorando vivo. – Por que você se sentiria culpado pelo que aconteceu com Jack? Não consigo entender isso. Ele suspirou, engoliu em seco e admitiu: – Quando Jack ficou doente... e foi diagnosticado com leucemia... Foi aí que a culpa começou. – Sam, por quê? Não foi você quem o deixou doente. Ele soltou uma ríspida risada. – Não, não fui eu. Mas eu estava saudável, e isso foi o suficiente. Nós éramos gêmeos idênticos, Lacy. O mesmo óvulo gerou ambos. Sendo assim, por que ele estava doente e eu não? Jack nunca disse, mas sei que ele pensava isso, porque eu pensava. Por que ele? Por que não eu? Um leve suspiro escapou de Lacy, e Sam não soube se era de solidariedade ou frustração. De qualquer forma, já não importava mais. Ele estava finalmente contando a ela exatamente o que passou por sua cabeça naquela época, e precisava contar tudo. Mas, droga, era mais difícil do que ele imaginava. Balançou a cabeça, levantou a mão para massagear novamente a própria nuca e voltou a falar. – Fiquei ao lado de Jack durante todo esse tempo, mas não tinha como compartilhar aquilo com ele. Não tinha como pegar minha metade da doença para facilitar para ele. – Sam cerrou os punhos, batendo-os inutilmente contra a lateral de seu corpo, enquanto sua mente o levava de volta aos dias mais sombrios de sua vida. – Eu me sentia tão impotente, Lacy. Não podia fazer nada. – Mas você fez alguma coisa, Sam – lembrou ela. – Você doou sua medula óssea para ele. Deu a ele uma chance, e deu certo. Ele fez um som de desdém ao ser lembrado das esperanças que tiveram. Do alívio que ele sentiu por finalmente ter sido capaz de ajudar seu irmão gêmeo. De salvar a vida dele. – Só que acabou não adiantando nada no fim.


– Eu nunca soube que você estava sentindo tudo isso. – Ela se levantou, foi até ele e olhou em seus olhos. – Por que não me falou disso naquela época, Sam? Ele suspirou. Olhar nos olhos dela foi a coisa mais difícil que Sam já havia feito. Tentar explicar o inexplicável foi igualmente difícil. – Como eu poderia dizer à minha esposa que eu me sentia culpado por estar casado? Feliz? Vivo? – Ele passou as duas mãos pelo cabelo. Em seguida, inspirou fundo, como um afogado, na esperança de mais alguns segundos de vida antes que o mar o arrastasse para suas profundezas. – Deus, Lacy, você me amava, e Jack não tinha ninguém. – Ele tinha todos nós – rebateu ela. – Você entendeu o que eu quis dizer. – Ele balançou a cabeça novamente. – Ele estava morrendo bem na minha frente. – Na nossa frente. Lacy tinha razão, e Sam sabia disso. A perda de Jack não afetou apenas ele. Ele se recordava da agonia e da preocupação de seus pais. Das preces sussurradas no quarto de hospital. Ele viu seu pai envelhecer, sua mãe conter lágrimas arrancadas de seu coração, mas, mesmo assim... – Naquela época, eu não conseguia sentir isso – admitiu ele. – Não queria sentir isso. Eu estava vendo meu irmão gêmeo morrer e estava tão mal que não conseguia enxergar uma saída. – Mas você finalmente encontrou... – Sim – disse ele em voz baixa, olhando-a naqueles olhos, vendo a tristeza, o pesar, e odiando a si mesmo por ter causado aquilo e por estar despertando tudo agora. – Não sei se você consegue entender o que fiz, Lacy. Droga, agora, nem eu sei se entendo. – Tente me explicar. – Ela cruzou os braços e esperou. Deus, por dois anos, ele conteve tudo dentro de si. Soltar tudo de uma vez era como... Sam nem conseguia pensar numa metáfora adequada. Era incrivelmente doloroso, mas já estava mais do que na hora de contar a Lacy exatamente o que havia acontecido. Por que havia feito o que fez. – Depois do transplante de medula, depois que deu certo e o câncer de Jack entrou em remissão, foi como... – Ele parou, procurando as palavras certas para explicar o que sentiu, tendo certeza de que não as encontraria.


Até que simplesmente recomeçou a falar. – Foi como se o destino tivesse dito de repente: “Certo, Sam. Você pode seguir em frente e ser feliz de novo. Seu irmão está vivo. Você o salvou. Então, está tudo certo.” Ele se recordava tão bem daquilo, do incapacitante alívio, das gargalhadas. Ver seu irmão se recuperar, ficar forte novamente, acreditar que o mundo deles estava voltando aos eixos. Lacy estendeu a mão e a colocou delicadamente no antebraço dele. Para Sam, foi como uma vida inteira, mantendo-o naquele lugar, naquele momento, não permitindo que ele mergulhasse demais num passado cheio de tristeza. Sam cobriu a mão dela com a dele, precisando daquele calor que ela lhe oferecia enquanto ele concluía o que estava dizendo. Ele baixou o olhar para as mãos unidas dele e falou em voz baixa: – Jack estava cheio de planos, Lacy. Ele estava bem outra vez. E, depois de tanto tempo se sentindo péssimo, ele mal podia esperar para sair pelo mundo novamente. – Eu lembro. – Ele me mostrou a “lista” dele. Não era uma lista do que fazer antes de morrer, já que ele não estava mais morrendo. Era uma lista de sonhos. Uma lista de vida. A primeira parada dele seria a Alemanha. Ele ia se hospedar na casa de amigos enquanto esquiava e recuperava tudo o que o câncer tinha roubado dele. Ela não falou, apenas continuou a fitá-lo com olhos brilhando de lágrimas. – Ele estava bem, droga. – Sam se afastou dela e passou as duas mãos no próprio rosto, como um homem tentando despertar de um pesadelo. – Jack estava feliz de novo, estava com o pé na estrada. Aí, ele morre num maldito acidente de carro? Foi loucura. Surreal. – Eu sei, Sam. Eu estava com você. Todos nós estávamos. – A questão é essa, Lacy. – Ele olhou novamente nos olhos dela, desejando que ela entendesse como havia sido para ele. – Você estava lá, mas eu não podia tê-la. Não podia me permitir tê-la, porque Jack estava morto, e os sonhos dele tinham morrido com ele. Eu o tinha salvado, e ele morreu mesmo assim. Foi como se o destino estivesse brincando conosco. Nada fazia sentido. Eu não podia trazê-lo de volta. Por isso, disse a mim mesmo que


precisava escolher a segunda melhor opção. Eu precisava ao menos manter vivos os sonhos dele. Segundos se passaram antes que Lacy o olhasse e dissesse: – Foi por isso que você foi embora? Para tornar realidade a lista que Jack tinha deixado? – Ele tinha tantos planos! Planos grandes. E, sem ele aqui, esses planos foram tudo o que me restou. Como eu podia permitir que eles morressem também? – Sam... – Ela inspirou fundo. – Você achou mesmo que realizar a lista de Jack o manteria com você? Deus, por que soava tão idiota quando ela dizia aquilo? Na época, não pareceu nada idiota para Sam. Ele pensou mesmo que viver os sonhos de seu irmão, a vida de Jack, seria como se ele jamais tivesse morrido. – Foi importante para mim – murmurou ele. – Eu precisava mantê-lo vivo de alguma forma. – Deus, Sam... – Ela ergueu a mão para cobrir a própria boca, seus lindos olhos brilhando com lágrimas. – Manter Jack comigo significava me afastar da realidade da morte dele. Foi por isso que precisei ir embora. Eu não podia ficar aqui, encarando todos os dias o fato de que ele tinha morrido. Deus, como ele se sentia idiota! Tão fraco por ter aberto mão de sua própria vida por não ter sido capaz de aceitar a morte de seu irmão. – Peguei os sonhos de Jack e os vivi para ele. Por um tempo, eu me perdi com o esqui, desconhecidos e muita bebida. – Ele fez um som de desdém ao se recordar dos quartos de hotel vazios e das ressacas. – Mas beber só deixava a dor ainda mais forte, e o esqui e o anonimato logo perderam a graça. – Você devia ter falado comigo, Sam. – E dito o quê? – perguntou ele, subitamente cansado. Seu olhar se fixou no dela, e tudo dentro de Sam desejou que eles ainda fossem o que haviam sido um para o outro. Ele ficou um pouco abalado por perceber como a queria de volta. Como ainda a amava. – O que eu podia dizer, Lacy? Que eu não tinha permissão para ser feliz porque Jack estava morto? Você não entenderia. – Tem razão – falou ela, assentindo. – Eu não entenderia. Eu diria a você


– Tem razão – falou ela, assentindo. – Eu não entenderia. Eu diria a você que viver seria a melhor maneira de honrar Jack. Viver seus próprios sonhos. Não os dele. Sam suspirou. Lacy tinha razão, e ele conseguia enxergar isso agora. Mas não naquela época. – Meus sonhos não pareceram importar depois que os dele morreram. – Isso adiantou? Ir embora? Resolveu o problema? – Por um tempo. – Ele abriu um meio sorriso. – Mas não muito. Não consegui encontrar satisfação nos sonhos de Jack, porque eles não eram meus. Mas eu devia a ele essa tentativa. Lacy tomou o rosto dele nas mãos, e o leve calor do toque penetrou profundamente em Sam para espantar o frio de seu coração. Deus, como ele conseguiu viver por dois anos sem aquele toque? Sem o som da voz dela, ou a suave curva de sua boca? Como ele foi capaz de ficar longe da mulher que tornava sua vida digna de ser vivida? – Sam – falou ela em voz baixa –, você não deve sua vida a Jack. – Eu sei – respondeu ele, cobrindo a mão dela com a dele. Era cedo demais para dizer que a amava. Por que diabos ela acreditaria depois do que havia feito com a vida deles? Com o casamento deles? Não, ele a surpreenderia aos poucos. Faria parte do mundo dela todos os dias, mostrando lentamente que estava ali para ficar e que jamais a abandonaria novamente. – Foi por isso que voltei, Lacy. Para reconstruir minha vida. E quero que essa vida inclua você. – Sam... – Não diga nada ainda, Lacy. Só me deixe provar que posso ser o homem certo para você. Ela perdeu o fôlego, seus olhos reluzindo de emoção. – Vamos simplesmente viver as coisas com calma e descobrir um ao outro novamente, está bem? Ela assentiu lentamente. Nos olhos dela, Sam enxergou esperança misturada a cautela. Em silêncio, ele jurou que acabaria com a hesitação dela. – Pode confiar em mim, Lacy. Eu juro. – Eu quero confiar, Sam – sussurrou ela –, por mais motivos do que você imagina...


– Só me dê uma chance. – Quando ele a puxou para si, baixou a cabeça e a beijou, ela se curvou na direção dele, mostrando, em silêncio, que ela estava disposta a tentar. E isso era tudo o que ele poderia querer. Por ora. A ternura cresceu entre eles, e, à leve luz da lareira, uniram-se como se fosse a primeira vez, com a brilhante promessa do futuro quase ao alcance de cada um. LACY AINDA estava sorrindo na manhã seguinte. Sentia que ela e Sam finalmente haviam criado uma fraca ponte entre o passado e o presente. Ele finalmente havia revelado o motivo para ter ido embora, e, embora ainda doesse, Lacy quase conseguia entender. Por mais tristes que todos tivessem ficado com a morte de Jack, para Sam, devia ter sido ainda mais devastador. Como perder uma parte de si mesmo. E Lacy também conseguia admitir que não foi capaz de ser aquilo de que ele precisou na época. Ela esteve preocupada demais com suas próprias inseguranças. Quando Jack morreu, tudo o que ela conseguiu pensar foi graças a Deus, não foi Sam. Ela era jovem e inexperiente demais para conseguir enxergar o que Sam estava sentindo. Sendo assim, como poderia tê-lo ajudado? Agora, era como se ambos estivessem ganhando uma segunda chance de fazer as coisas do jeito certo. Ela pôs a mão na barriga e sussurrou para a criança que dormia ali dentro: – Acho que vai ficar tudo bem, bebê. Seu papai e eu vamos fazer isso acontecer. Vamos construir um futuro, apesar do passado. E, para provar a si mesma, e também a Sam, que ela estava disposta a confiar nele, disposta a acreditar, Lacy decidiu lhe contar a respeito do bebê no jantar daquela noite. O estômago dela se revirou quando ela pensou naquilo. Sim, ela estava nervosa, mas era a coisa certa a se fazer. Se eles queriam que aquilo entre eles desse certo desta vez, ela precisaria ser tão honesta quanto ele foi na noite anterior. Ela acariciou sua barriga e, sorrindo, atravessou o saguão. Havia hóspedes espalhados pelo salão, desfrutando da lareira, lanchando, conversando. Ela


ignorou todos eles, saiu e inspirou fundo o frio ar da primavera. As flores estavam desabrochando, as árvores estavam começando a verdejar. Era como se a neve estivesse se derretendo junto do gelo dentro do coração dela. Lacy se sentia mais leve do que jamais se sentiu nos últimos dois anos. E estava pronta para se desapegar do passado e entrar com tudo num futuro que lhe parecia muito promissor. – Lacy! Ei, Lacy! Ela se virou e sorriu para Kevin Hambleton, que vinha correndo na direção dela. Kevin era jovem; era sua primeira temporada trabalhando no hotel. Ele estava ajudando na loja de aluguel de esquis, mas vinha querendo um cargo de instrutor. – Oi, Kevin – disse ela quando eles começaram a caminhar juntos na direção do teleférico que a levaria ao canteiro de obras. Lacy não queria ver só como a construção estava indo; também queria ver Sam. E ela sabia que, se ele não estava no hotel, trabalhando no escritório, o acharia no canteiro de obras, vendo seus planos ganharem vida. – Vou subir para ver como está a equipe, o progresso... – É ótimo, não é? – O rosto dele quase brilhava de empolgação. – Muitas coisas acontecendo aqui agora que Sam voltou. – E mais coisas ainda vão acontecer – disse ela, pensando na loja de presentes, no pórtico e na expansão do hotel. Dali a alguns anos, o Snow Vista seria um dos principais destinos turísticos. – Eu sei, li no jornal hoje de manhã. – O quê? – Ela ergueu o olhar para ele. Até onde Lacy sabia, a loja ainda não tinha sido anunciada. – Sim, publicaram um artigo hoje falando de todas as mudanças e que Sam vai abrir um novo percurso para iniciantes na parte de trás da montanha e tudo mais... Lacy balançou a cabeça, franziu o cenho e tentou se concentrar no que ele estava dizendo. Mas seu coração estava martelando, e seu cérebro entrava em curto-circuito. – Ele vai construir um percurso do outro lado da montanha? – Sim, e eu já queria deixar meu nome com você, sabe? – Ele sorriu. – Para começar a trabalhar desde o início. Quero muito ser instrutor, e achei que


começar com os novatos seria uma boa ideia. – Certo. – Com a mente a mil por hora, Lacy já estava ouvindo a empolgada voz de Kevin como um zumbido. O vento frio a atingia, as pessoas à sua volta gritavam ou gargalhavam. Ela precisou de todas as suas forças para continuar caminhando. – Com um percurso novo, vocês vão precisar de mais instrutores. Então, eu queria saber se você podia pensar em mim para isso. Ele estava parado ali, olhando-a com um esperançoso sorriso no rosto. Lacy se sentiu fraca, sua cabeça estava girando, e havia uma bola de gelo em seu estômago. Mesmo com todo o estardalhaço dentro de sua mente e seu coração em disparada, Lacy soube que precisava dizer algo. – Como você ficou sabendo desse percurso novo? – Como eu disse, li no jornal. Quero dizer, minha mãe leu e me contou. Ele estava parecendo preocupado agora, como se tivesse feito algo errado. Por isso, Lacy sorriu para ele e tocou seu ombro para acalmá-lo. Não havia motivo para puni-lo porque o mundo dela estava começando a se descontrolar repentinamente. – Tudo bem, Kevin. Vou colocar seu nome na lista. – Obrigado! – Ele suspirou de alívio. – Agradeço de verdade. Obrigado, Lacy! Quando ele se afastou correndo novamente, Lacy o viu ir embora, mas sua mente não estava mais pensando em Kevin. Estava fixa unicamente em Sam Wyatt. Aquele desgraçado mentiroso. Deus! Ela pensou na noite anterior... como havia feito a manhã inteira... só que, agora, ela a enxergava com olhos diferentes. E, droga, não era apenas a noite anterior, mas as últimas semanas. Conquistá-la. Ela quase perdeu o ar. Sam havia dito que a conquistaria, mas não era isso que ele vinha fazendo. Esse tempo todo, ele vinha conduzindo uma espécie de partida de xadrez, com ela sendo seu peão, a ser colocado onde ele quisesse. Sam passou semanas a enfraquecendo até conseguir dar o golpe de misericórdia na noite anterior. Em seguida, ele a dominou com solidariedade, deixou-a verter algumas lágrimas por ele, por eles, e, depois, levou-a para a cama, onde seria impossível pensar racionalmente. – Ah, ele foi bom – murmurou ela, seu olhar fixo no topo da montanha,


– Ah, ele foi bom – murmurou ela, seu olhar fixo no topo da montanha, onde Lacy sabia que ele estava. – Ele chegou a me convencer de verdade. Ele me enganou. Que humilhante era admitir aquilo! Lacy fez uma careta interna ao se recordar de como foi facilmente dominada pelo charme e pelas mentiras dele. Sam passou despercebido por todas as defesas dela. Fez Lacy sentir pena dele. Conseguiu que ela o perdoasse pelo que havia feito dois anos antes. Fez com que ela acreditasse novamente. Na noite anterior, ele finalmente a havia convencido de que eles talvez tivessem uma chance de reconstruir suas vidas. Contudo, ele não estava nada interessado nisso. Nem nela. Tudo o que ele queria era o terreno que ganhara da família dele. Para seus planos. Para suas mudanças. Ele a deixaria de lado como há dois anos. E, assim como naquela época, Lacy só percebeu depois de ser tarde demais. A irritação cresceu dentro dela. Mas ela não era a mesma Lacy de antes. Estava mais durona. Mais forte. Tinha que estar. E, desta vez, Sam não escaparia ileso. ELA O encontrou no canteiro de obras, onde esperava que ele estivesse. Sam passava metade de seu tempo ali em cima, conversando com os trabalhadores, observando o progresso do novo restaurante. E, durante todo esse tempo, ele devia estar planejando a tomada da propriedade dela. A subida pelo teleférico não deixou Lacy mais tranquila, como costumava fazer. Normalmente, a maravilhosa vista debaixo dela, a sensação de passear pelo céu, eram suficientes para aliviar todas as suas tensões. Mas não naquele dia. A tensão estava forte demais. Dilacerante demais. A fúria que ela sentiu quando Kevin falou com ela, dando aquela notícia, cresceu até borbulhar dentro em seu íntimo. As mãos de Lacy tremiam de raiva, e seus olhos estavam perigosamente semicerrados. Balançando a cabeça, ela saltou do teleférico assim que ele chegou ao topo. E, antes que tivesse uma oportunidade de tentar esfriar os ânimos, ela seguiu o constante barulho de máquinas até as obras. Sam estava lá, as mãos nos bolsos de sua jaqueta de couro preto, o vento bagunçando seu cabelo escuro, seu olhar fixo nos trabalhadores que não


paravam de se movimentar. Teria sido impossível para ele ouvi-la se aproximar com todo aquele barulho, mas, quando Lacy chegou mais perto, de alguma forma, ele a sentiu e se virou para sorrir. Esse sorriso durou uma fração de segundo antes de desaparecer numa expressão de confusão. – Lacy? – falou ele, alto o suficiente para ser ouvido acima do barulho das obras. – Está tudo bem? – Nada está bem, e você sabe disso – rebateu ela, acelerando o passo até ele, aproximando-se o suficiente para tocá-lo no peito com o dedo indicador. – Como pôde fazer isso? Você mentiu para mim. Usou minha própria dor contra mim. Você me usou, Sam. De novo. – Do que você está falando? Ah, ele era um ótimo ator mesmo. A expressão de perplexa surpresa teria sido convincente se Lacy não soubesse da verdade. – Você sabe muito bem do que estou falando. Então, não banque o inocente. Deus, ela estava tão furiosa que mal conseguia respirar. Entretanto, as palavras que embargavam sua garganta saíram sem nenhum esforço. – Kevin me disse o que está acontecendo de verdade aqui. Eu devia ter imaginado. Você querendo me conquistar – acrescentou ela desdenhosamente. – Flores. Jantares. A confusão no rosto dele ficou ainda mais profunda, deixando Lacy com vontade de socá-lo. Ela nunca havia sido uma pessoa violenta, mas, no momento, estava desejando muito ser. – Por que você não se acalma? – disse ele. – Vamos conversar para você me dizer o que a está incomodando. – Não me diga para ficar calma! – Ela levantou a mão para puxar seu próprio cabelo, que voava livre ao vento. – Não acredito que caí nessa. Faltava isto aqui... – Ela fez um movimento com o polegar e o dedo indicador, um bem próximo do outro – ...para que eu confiasse em você outra vez. Achei que a noite de ontem tivesse significado alguma coisa... Agora, a raiva substituiu a confusão, e a expressão dele ficou séria, seus olhos se semicerrando. – A noite de ontem significou algo, sim.


– Claro – rebateu ela, com a dor, a humilhação de saber que foi tudo uma farsa. – Foi a cereja do bolo de mentiras que você vem preparando há semanas. O grand finale do Plano de Conquistar Lacy. Meu Deus, eu caí direitinho, não foi? Sua tristeza, seu luto... – Ela bufou, enojada com ele, consigo mesma, com tudo. – Preciso admitir... funcionou mesmo comigo. Aí, você me levou para a cama logo, para me fazer lembrar como as coisas costumavam ser entre nós. Para me fazer querer. Algumas máquinas pararam de funcionar, e a redução no barulho foi substancial, mas ela continuou. Lacy não estava prestando atenção em nada que não fosse o homem que a olhava fixamente, como se ela estivesse falando grego. – Você armou tudo isso, não armou? Desde o início. – Eu armei o quê? – Sam levantou as duas mãos, deixando-as pender novamente dos lados de seu corpo. – Se você disser do que está falando, talvez eu possa responder. – O lado oposto da montanha – disparou ela. – Meu terreno. O terreno que seus pais passaram para mim. – Ela estava ficando sem fôlego, sua voz estava sumindo. – Você quer aquele terreno para fazer um percurso novo para os iniciantes. Kevin me disse que leu isso no jornal hoje de manhã. Seu segredo foi revelado, Sam. Agora, eu sei a verdade e vim dizer que não vai funcionar. – No jornal? – repetiu ele, claramente perplexo. – Como diabos eles... – Ha! – gritou ela. – Não era sua intenção que essa notícia vazasse tão cedo, não é? Você queria mais um tempo para me enganar ainda mais? – Não foi isso que eu quis dizer... Deixe para lá. Não importa. Ela arfou. – Seu desgraçado! É claro que importa. É tudo o que importa. Você mentiu para mim, Sam. Você me usou. E, droga, eu deixei que isso acontecesse. – Ela era tão burra! Como pôde ser tola o suficiente para permitir que ele entrasse novamente em seu coração? Como pôde, mesmo por um segundo, permitirse ter esperanças? Sonhar? – Pode ir parando com isso – falou Sam de uma vez. – Posso explicar tudo. Ela recuou um passo e nem percebeu quando a última das máquinas foi desligada e o silêncio dominou a montanha por completo.


– Ah, aposto que pode. Aposto que você tem histórias e explicações preparadas para qualquer contratempo. – Espere um instante aí, Lacy... – Até onde você estava disposto a ir, Sam, para conseguir o que queria de mim? Até se casar? – Se você calar a boca e me ouvir por um instante... – Não me mande calar a boca! E, para seu governo, não vou mais ouvir nada vindo de você. – Lacy recuou mais um passo, empinou o queixo e lançou para ele o olhar mais gelado possível. – Você quer o terreno? Mas não vai ter. A única coisa que você quer de mim, você não pode ter. Ele foi na direção dela. – Não é isso que eu quero de você. – Não acredito em você. – Ela balançou a cabeça, seu olhar fixo no dele. – Agora, eu já sei a verdade. Sei o verdadeiro motivo de você estar passando tanto tempo comigo. De estarmos nos reconectando. – Você não sabe de nada – falou ele, aproximando-se ainda mais. – Eu admito que queria um novo percurso para iniciantes no lado oposto da montanha, mas... – Pronto. Finalmente. A verdade. – A cabeça dela fez um movimento, como se ele a tivesse estapeado. – Foi tão difícil assim dizer? – Ainda não terminei. – Ah, sim – falou ela –, terminou. Nós terminamos. Fosse lá o que existisse em nós, já terminou. – Nunca vai terminar, Lacy. – A voz dele estava soturna, profunda, cheia de determinação. – Você sabe disso tão bem quanto eu. – O que eu sei é que, uma vez, eu acreditei quando você disse que nunca ia me abandonar. Você sabia o que isso significava para mim. Porque minha própria mãe me abandonou. Você prometeu que não faria isso. Jurou que ia me amar para sempre. – Ah, Deus, como era difícil dizer aquilo! Ela já não conseguia mais respirar. Havia grilhões de ferro em torno de seu peito, apertando seus pulmões, constringindo seu coração. – Aí, você foi embora. Simplesmente partiu. Quebrou sua promessa e partiu o meu coração. Você não vai ter uma segunda chance de fazer isso. Não vou sangrar por você outra vez, Sam.


– Você está irritada – disse ele, sua voz contendo o tom levemente paciente que as pessoas reservavam para quando lidavam com alguém histérico. – Quando você se acalmar um pouco, podemos esclarecer tudo isso. Ela gargalhou, e aquilo causou uma forte dor na garganta de Lacy. – Já disse o que vim dizer... e não quero ouvir mais nenhuma palavra sua. Nunca mais. Lacy deu meia-volta e foi às pressas até o teleférico para descer a montanha. SAM A viu indo embora, seu próprio coração martelando de forma trovejante dentro de seu peito. O silêncio se estendeu à volta dele, e foi apenas então que ele percebeu que todos os homens haviam parado de trabalhar e o estavam observando. Provavelmente, eles haviam ouvido cada uma das palavras ditas ali. Ele virou a cabeça e viu Dennis Barclay. – Parece que você está bastante encrencado, Sam – disse o homem. Uma grande verdade, pensou ele, mas não permitiu que Dennis visse como ele estava preocupado. Ele nunca havia visto Lacy tão irritada antes. Mesmo quando ela se mostrou furiosa com a volta dele para casa, mesmo quando ela havia gritado com ele por causa de seus pecados do passado, houve algum tipo de controle. Algum tipo de comedimento. Naquele dia, porém, não houve nada além de pura ira e dor. Dor que ele havia lhe causado. Novamente. Pensar nisso o deixou tanto envergonhado quanto enfurecido. Como diabos aquela informação sobre o percurso de iniciantes foi parar no jornal? Ele não havia contado a ninguém. Não disse uma palavra sequer. – Ela vai se acalmar – falou Dennis, oferecendo esperança. – Sim – concordou Sam, embora uma parte dele não tivesse tanta certeza assim. A dor e a fúria que ele havia acabado de testemunhar não eram coisas que desapareceriam tão rapidamente assim. Se é que um dia desapareceriam... Ele teria estragado tudo a ponto de não haver mais volta desta vez? A tristeza explodiu dentro do peito dele, comprimindo seu coração até que a dor quase o deixasse de joelhos. Uma vida sem Lacy? Ele não suportaria pensar nisso.


CAPÍTULO 10

OS INSTINTOS de Sam lhe diziam para ir imediatamente atrás de Lacy. Para segui-la. Para obrigá-la a ouvir o que ele tinha a dizer para que pudesse esclarecer tudo aquilo. No entanto, dois anos antes, seus instintos tinham estado completamente equivocados. Por isso, Sam hesitava em dar ouvidos a eles agora... quando a decisão era tão importante. Ele conteve sua vontade de ir até Lacy e, em vez disso, seguiu para o hotel, subindo para os aposentos da família. Ele sequer sabia por que, mas estava sentindo que não devia ficar sozinho com os sinistros pensamentos que dominavam sua mente. O salão estava vazio. Por isso, ele seguiu seu olfato até a cozinha. O aroma de molho de espaguete chegou até ele, e, apesar de tudo, o estômago de Sam roncou de apreciação. Outra coisa da qual ele sentiu falta enquanto esteve longe era o molho caseiro de sua mãe. Sam parou na porta e a observou diante do fogão, enquanto o pai dele estava sentado à mesa redonda de carvalho, jogando uma rodada de paciência. – Sam! – O pai dele o viu primeiro, e sua mãe se virou do fogão para abrir um sorriso de boas-vindas. – É bom ver você – disse o pai dele. – Como está indo o trabalho na montanha? Pode me contar tudo, já que a sua mãe ainda não quer me deixar subir até lá. – Está tudo bem – respondeu Sam, indo até a mesa se sentar. A cozinha estava iluminada, animada com a luz do sol que entrava pelas janelas. – Você não parece muito feliz com isso – falou a mãe dele.


Sam a olhou e forçou um sorriso. – Não é isso. É que... – Lacy – completou ela. – Bem – falou Sam, rindo tristemente –, é bom saber que seu radar de mãe ainda está em plena forma. Connie Wyatt sorriu para seu filho. – Não foi tão difícil assim adivinhar, mas agradeço pelo elogio. – Então, o que está havendo? – perguntou o pai quando Sam se sentou de frente para ele. Ele mal sabia por onde começar. Mas, droga, tinha ido até ali para conversar, para tirar aquele peso de seu peito. Ele só precisava contar tudo a eles. Portanto, Sam inspirou fundo e disse de uma vez: – Parece que alguém falou com um repórter. Saiu no jornal de hoje que eu quero construir um percurso para iniciantes no terreno de Lacy. – Ui. – O pai dele fez uma expressão de dor. – E ela descobriu – disse Connie. – Sim. – Sam tamborilou com os dedos na mesa. – E também me passou um sermão e tanto. Só não consigo entender como o repórter ficou sabendo disso. Quero dizer, eu mudei meus planos quando descobri que o terreno era de Lacy. – Isso deve ter sido culpa minha. – Bob, o que foi que você fez? – exigiu saber a esposa dele. Resmungando, o mais velho dos Wyatt olhou primeiro para seu filho e, em seguida, para sua esposa. – Uma repórter telefonou para cá no outro dia – falou ele, balançando a cabeça melancolicamente. – Fez perguntas sobre todas as mudanças que estão acontecendo aqui. E me pediu para falar dos diversos percursos que temos a oferecer. Depois, ela falou que era uma esquiadora iniciante, e eu disse a ela que podíamos ensiná-la a esquiar e que você queria construir um percurso novo para iniciantes no lado oposto da montanha, mas que esses planos ainda não estavam definidos. Pedi para que ela não dissesse nada por causa disso... mas acho que ela disse mesmo assim. Sam grunhiu. Ao menos aquilo explicava como aquela informação foi parar no jornal. E seria muito mais simples se ele pudesse simplesmente


colocar a culpa daquela confusão em seu pai. Contudo, a realidade era que, se Sam tivesse simplesmente sido honesto com Lacy desde o início, nada daquilo teria acontecido. – Não se preocupe com isso, pai. Cedo ou tarde, ela ficaria sabendo. – Sim, mas teria sido melhor ficar sabendo por você – ressaltou o senhor. – Essa possibilidade deixou de existir quando eu não contei a ela. – Sam desabou na cadeira, pegando a caneca de café que sua mãe pôs diante dele. Tomando um longo gole, ele permitiu que o calor percorresse seu corpo numa agradável onda. – Então, o que você vai fazer a respeito de tudo isso? – perguntou a mãe dele em voz baixa. Ele a olhou. Connie estava com as costas apoiadas na bancada, os braços cruzados diante do peito. – A questão é essa – disse Sam honestamente. Seu peito doía como um dente cariado, e ele suspeitava de que seu coração não se sentiria melhor tão cedo. Não do jeito como as coisas estavam entre ele e Lacy. – Eu realmente não sei. E era verdade. Com as palavras de Lacy ainda ecoando dentro da mente dele, o brilho magoado dos olhos dela ainda fresco na memória de Sam, ele não conseguia enxergar claramente o que precisava fazer. Ele sabia o que queria fazer. Ir até ela. Dizer que a amava. Mas ela jamais acreditaria nisso agora. Foi mais fácil... embora mais egoísta... dois anos antes, quando ele não levou em consideração como sua decisão de partir afetaria alguém que não ele mesmo. Agora, contudo, havia coisas demais em que pensar. Apenas mais uma pedra no traiçoeiro caminho que a vida dele havia se tornado. – Eu quase fui atrás dela... – Má ideia – disse o pai dele. – Nunca vá atrás de uma leoa no covil quando ela ainda está louca para morder você. Falo por experiência própria – acrescentou ele com um olhar sorrateiro para sua esposa. – Muito engraçadinho – reclamou a mãe de Sam. Em seguida, voltou-se para Sam. – E quanto tempo você acha que vai levar para ela se acalmar? – Uma ou duas décadas devem ser suficientes – refletiu Sam, brincando apenas em parte. Ele passou uma das mãos por seu cabelo e suspirou. –


Droga, meu retorno para casa deixou todo mundo abalado. Talvez seja melhor para todos se eu simplesmente for embora novamente e... – Nem diga isso – avisou a mãe dele, sua voz fria como aço. – Samuel Bennett Wyatt, você nem ouse pensar em ir embora daqui outra vez. Chocado com a veemência do tom dela, tudo o que Sam conseguiu fazer foi olhá-la. – Eu não ia embora de verdade. Só estava pensando que poderia ser mais fácil para todos se eu... – Se você o quê? – perguntou a mãe dele. – Se desaparecesse novamente? Se nos deixasse sem saber se você está vivo ou morto outra vez? Abandonar seu lar? Sua família? De novo? Agora, foi a vez de Sam fazer uma expressão de sofrimento. Ele estava se sentindo como aos 13 anos, quando precisou encarar sua mãe depois de bater com um motoneve nos fundos do hotel. – Mãe – disse ele, levantando-se. – Não – interrompeu ela, afastando-se da bancada como se estivesse entrando numa batalha. E talvez estivesse. Connie deu três curtos passos até parar bem diante de seu filho, inclinando a cabeça para trás para olhá-lo com irritação. – Desde que você voltou, eu tenho ficado calada. Não disse tudo o que estava louca para dizer a você porque não queria desestabilizar as coisas. Mas pode se preparar porque vou dizer agora. – Oh-oh – sussurrou o pai dele. Os olhos da mãe dele estavam cheios de lágrimas e fúria, seus ombros tensos, sua voz ríspida. – Quando você foi embora, logo depois de Jack morrer, foi como se eu tivesse perdido meus dois filhos. Era como se você estivesse morto também – continuou ela. – Você foi embora e nos deixou de luto, preocupados. – Colocando as duas mãos nos quadris, ela prosseguiu: – Quatro cartõespostais em dois anos, Sam. Foi isso. Foi como se você tivesse desaparecido tão completamente quanto Jack. Como se você estivesse tão fora de alcance quanto ele. Ninguém era capaz de fazer um homem adulto sentir tanta vergonha e culpa quanto sua própria mãe. Sam baixou o olhar para ela e soube que jamais seria capaz de compensar tudo o que havia feito.


– Eu precisei ir embora, mãe. – Talvez – admitiu ela tensamente, assentindo de forma curta. – Talvez tenha precisado mesmo, mas, agora, você voltou e, se for embora de novo, não vai ser nada melhor do que Jack foi, sempre fugindo da vida. – O quê? – argumentou Sam, perplexo: – Não, isso não é verdade. Jack sempre quis viver a vida ao máximo. Ele se agarrava a cada gota de prazer que podia extrair de cada dia. Connie suspirou fortemente, e Sam viu a raiva se esvair dela quando a mãe balançou a cabeça e ergueu a mão para tocar o rosto dele. – Ah, querido. Jack só queria saber de experiências, não de vida. Os carros mais rápidos. Os melhores esquis. A montanha mais alta. Isso não é vida. É esbanjamento. Sam nunca pensou em seu irmão naqueles termos. Teria sido desleal, pensou ele, mas, com sua própria mãe ressaltando aquilo, era impossível contestar. – Eu amava Jack – disse ela, cerrando o punho junto ao peito. – Quando ele morreu, perdi um pedaço do meu coração que nunca mais vou recuperar. Mas não sou cega para os defeitos dos meus filhos só porque os amo loucamente. – Connie abriu um melancólico sorriso para ele. – Quando o assunto era aventura, não havia ninguém melhor que Jack. Mas ele nunca teve coragem de amar uma mulher e construir uma vida com ela. De enfrentar as crises cotidianas que apareciam, de pagar as contas, de pegar empréstimos, de levar os filhos ao dentista. Isso é a vida, Sam. Uma vida de verdade, com os altos e baixos, as lágrimas e gargalhadas que vêm junto dela. Esse tipo de coisa o aterrorizava, e ele fez tudo o que pôde para evitar isso. Sam pensou naquilo e se deu conta de que sua mãe tinha razão. Jack sempre preferia as mulheres que não lhe dariam nada além de uma noite de sexo. O tipo que detestava compromissos tanto quanto o próprio Jack. – Você teve essa coragem no passado, Sam. Quando se casou com Lacy e começou a construir uma vida junto dela. – Ela suspirou e olhou nos olhos dele. – Você abandonou isso, e não vou dizer agora se isso foi certo ou errado, porque já está feito e não pode voltar atrás. Minha pergunta é: você ainda tem essa coragem, Sam? Ainda quer aquela vida com Lacy? A pergunta pairou no ar entre eles e pareceu reverberar dentro dele


A pergunta pairou no ar entre eles e pareceu reverberar dentro dele também. Sam olhou para sua mãe, para seu pai. Para o recinto ao redor deles e para as lembranças entalhadas naquelas paredes. Sua vida estava ali. Estava na hora de ele pegá-la e assumir o comando de uma vez por todas. Ele queria de verdade aquela vida que, no passado, havia sido tolo o suficiente para jogar fora. Queria outra chance de construir o que seus pais haviam construído. Ele não era Jack. Sam queria algo permanente. Queria o dia a dia com a única mulher que tornava cada um deles especial. Tudo o que ele precisava fazer era encontrar uma maneira de fazer Lacy ouvi-lo. De fazê-la entender que ele a amava e que ela o amava também. – Sim, mãe – disse ele em voz baixa, estendendo as mãos para puxá-la para um abraço. – Eu quero. Ela o abraçou com força... não havia mais cautela dentro dela... e, pela primeira vez desde que havia retornado ao Snow Vista, Sam se sentiu verdadeiramente em casa de novo. – VOCÊ ESTÁ grávida? – Sim, e não conte ao seu irmão. – Não vou dizer nem uma palavra – jurou Kristi. – Está de quanto tempo? Ah, esqueça. Não deve ser muito. Ele só voltou faz um mês. É de Sam, certo? Lacy a olhou com irritação. – Certo, certo – falou Kristi, usando as duas mãos num gesto para descartar suas palavras. – É de Sam. Aquele idiota. – Isso basicamente resume o que estou pensando dele no momento. Lacy vinha falando de Sam durante a última hora e, quando a notícia do bebê escapou, ela precisou obrigar Kristi a jurar silêncio. No entanto, ela não conseguia se arrepender de ter contado seu grande segredo à sua melhor amiga. A sensação de contar a alguém era boa demais. Lacy ainda estava tão furiosa que mal conseguia enxergar com clareza. Mas, em geral, a raiva era de si mesma, por ter acreditado novamente nas histórias de Sam. Se você vai cometer erros, pensou ela, ao menos tenha o bom senso de cometer erros novos. Mas como poderia ter evitado ser sugada novamente por ele? Ela ainda o amava. Mas precisaria encontrar uma


maneira de superar isso. Talvez ela devesse começar a ler aqueles livros de autoajuda nos quais Kristi era tão viciada. O que Lacy precisava agora era de um livro intitulado “Como apagar aquele homem da sua vida”. – O que você vai fazer? Lacy desabou na poltrona mais próxima e olhou fixamente para o fogo em sua lareira. – Vou ter um bebê e nunca mais falar com o seu irmão. – Hmm... – Kristi se acomodou também em sua própria poltrona. – Aplaudo essa intenção, mas vai ser difícil. Com vocês dois morando aqui e tudo mais. – Ele não vai ficar – resmungou Lacy. – Logo, logo, ele vai embora de novo, vai correr atrás dos sonhos do falecido irmão dele. – Eu costumava achar que Jack era o irmão burro, mas, infelizmente, preciso dizer que, na realidade, é Sam quem leva esse prêmio – refletiu Kristi. Lacy fez uma expressão de dor. – Desculpe. Eu não devia estar descarregando tudo isso em cima de você. Ele é seu irmão. Você não devia se envolver. – Está de brincadeira comigo? Em assuntos assim, no que depender de mim, são sempre meninas contra meninos. Lacy sorriu. – Você é uma boa amiga, Kristi. – E seria ainda melhor se você me deixasse ir dar um chute em Sam. – Não. – Agora, a raiva estava lado a lado com a tristeza, as duas tão entrelaçadas dentro dela que Lacy mal conseguia respirar. Entretanto, ela sabia o suficiente para se dar conta de que dar a Sam mais atenção seria justamente o que ele iria querer. Por isso, ela o ignoraria. Para sempre. Ah, pelo amor de Deus, como seria capaz de fazer isso? Não demoraria muito para que a gravidez dela ficasse óbvia, e Sam ficaria sabendo do bebê e... – Talvez seja eu quem deva ir embora. – Não ouse – rebateu Kristi num piscar de olhos. – O que eu faria aqui sem você para conversar? Além do mais, é meu sobrinho que está aí dentro... – Ela gesticulou, indicando a barriga de Lacy – e quero conhecê-lo. – Sim, mas... – Mas, acima de tudo – falou Kristi, convencida –, se você for embora, vai


– Mas, acima de tudo – falou Kristi, convencida –, se você for embora, vai mostrar a Sam que tinha medo demais de ficar na sua própria casa. Ah, ela não gostaria nem um pouco disso. Além do mais, a verdade era que Lacy não queria se mudar. Ela amava sua cabana. Amava seu emprego. Amava a montanha. Amava Sam, droga. – É possível a cabeça de alguém explodir de verdade? – perguntou a si mesma em voz alta. – Espero que não – respondeu Kristi solenemente. – Agora, por que não saímos para jantar ou algo assim? Tirar da sua cabeça aquele idio... Quero dizer, meu irmão. Lacy sorriu, como devia fazer, mas balançou a cabeça. – Não, obrigada. Só quero ficar em casa e enterrar a cabeça embaixo de um travesseiro. – Parece um bom plano. – Kristi se levantou da cadeira. – Vou deixar você realizá-lo. Lacy também se levantou e envolveu sua amiga num forte abraço. – Obrigada. Por tudo. – Sem problema. Vai dar tudo certo, Lacy. Você vai ver. – Elas ouviram uma batida na porta, e Kristi perguntou: – Quer que eu vá atender e mandar embora quem quer que seja? – Deus, sim. Obrigada. Kristi abriu a porta, e Lacy ouviu a voz de Sam dizendo: – Quero falar com ela. – Surpresa – respondeu Kristi –, ela não quer falar com você. Lacy grunhiu e foi encarar Sam, pois não podia pôr irmãos em pé de guerra por causa dela. Era cedo demais, foi tudo o que ela conseguiu pensar. Fazia apenas algumas horas desde aquela horrível cena no topo da montanha. Ela precisava de um ou dois... ou cem... dias antes de ficar disposta a falar com Sam novamente. Entretanto, parecia que o destino não se importava com as suas necessidades. – Está tudo bem, Kristi, eu cuido disso. – Tem certeza? – Os olhos da amiga dela se semicerraram de preocupação. – Sim, estou bem. – Obviamente, não estava, mas Lacy não daria a Sam a satisfação de saber que ele a havia deixado abalada por estar ali. Ela ficaria


calma. Fria. Controlada, droga! – Certo, eu vou embora – anunciou Kristi com um olhar raivoso para Sam. – Mas não vou estar longe daqui. Idiota. – Obrigado – respondeu ele ironicamente –, muita gentileza da sua parte. – Fique agradecido por Lacy ter me feito prometer que não ia dar um chute em você – falou ela por cima do ombro. Lacy o viu olhar com irritação para sua irmã e, em seguida, cerrar os dentes ao se virar de frente para a porta. Infelizmente, ela não teve tempo suficiente para bater a porta antes que ele pudesse a mão espalmada nela para mantê-la aberta. Ele ainda estava com a jaqueta preta e o jeans. Seu cabelo escuro ainda parecia soprado pelo vento e implorava para ser tocado. Seus olhos estavam com sombras, sua boca estava séria, e, apesar de tudo, o coração de Lacy disparou, seu corpo vibrou com um desejo que, provavelmente, jamais terminaria. Mente e coração estavam em guerra dentro dela, mas, pelo seu bem e de seu bebê, ela precisava ser forte. Atrás de Sam, ela viu os últimos e fracos raios de sol atravessando os pinheiros. Os brotos verde-escuros de narcisos que logo floresceriam despontavam por todo o quintal, e o que restava da neve estava acumulado em montes pequenos e sujos. – Lacy, você disse o que quis na montanha – falou Sam a ela, fazendo com que ela o olhasse nos olhos. – Ao menos ouça o que tenho a dizer agora. – Por que eu devia fazer isso? Ele a olhou durante longos segundos. Então, admitiu: – Não consigo pensar em nenhum motivo. Mas ouça mesmo assim. SAM ENTROU na sala principal e reservou um momento para se recompor. Ele olhou à sua volta, para o espaço familiar, a mobília confortável, o aconchego de tudo aquilo e sentiu seu coração relaxar. Engraçado... Havia passado a maior parte de sua vida pensando na montanha como sua casa. Mas sua casa era aquele lugar. Era Lacy. Onde quer que ela estivesse, esse seria o lar dele. Sam só esperava que ela o aceitasse de volta. Um punho invisível se fechou em torno do coração dele, apertando com


Um punho invisível se fechou em torno do coração dele, apertando com toda a força. Ela ainda estaria furiosa a ponto de não lhe dar ouvidos? Não permitiria que ele consertasse aquilo? O que poderia ser pânico começou a atacá-lo por dentro, mas Sam deixou isso de lado, ignorou. Ele não fracassaria naquilo, a coisa mais importante que já havia feito. Ele a faria ouvir. Faria Lacy entender e, depois, faria com que ela admitisse que o amava, droga. Lacy entrou no recinto atrás dele, mas parou a um metro de distância. Cruzou os braços diante do peito, empinou o queixo no que só poderia ser uma postura de luta e falou: – Diga o que veio dizer e, depois, vá embora. Ela havia chorado. Seus cílios ainda estavam molhados, seu rosto corado, e sua boca trêmula, mesmo com ela tentando firmá-la. Maldito, pensou ele, por tê-la feito sentir aquilo. E, se Sam pudesse dar um soco em seu próprio rosto, ele faria. No entanto, isso não resolveria nada. – Primeiro – disse ele tensamente –, vamos esclarecer uma coisa de vez. Fique com seu terreno. Eu não o quero. As sobrancelhas dela se ergueram, transformando-se em dois arcos louros. – Não foi o que o jornal publicou. – Eles se enganaram. – Sam passou a mão pelo próprio cabelo. – Certo, admito que tive, sim, a ideia de construir um novo percurso para iniciantes no lado oposto da montanha. A boca de Lacy se contraiu ainda mais, numa linha séria que não pareceu nada promissora para Sam. Contudo, ele seguiu em frente, determinado a dizer tudo o que precisava ser dito. – Mas meu pai me disse que eles tinham passado o terreno para você. Por isso, deixei essa ideia de lado. – Quanta gentileza sua. Franzindo a testa, ele disparou: – Droga, Lacy, eu não sabia que o terreno era seu. Quando descobri, mudei meus planos. – E você quer que eu acredite na sua palavra? – Acredite ou não, não faz diferença – rebateu ele, dando um passo na direção dela. Lacy não se afastou, e Sam não soube se foi por pura teimosia


ou por estar disposta a ouvir. Ele interpretou como sendo a segunda opção. – Você só precisa acreditar que eu amo você. Os olhos dela lampejaram de emoção, mas Sam não conseguiu identificar se boa ou ruim. Por isso, ele continuou falando. – Levei dois anos para me dar conta do que eu tinha. Do que eu tinha perdido. Agora, eu já sei que nosso lugar é um junto do outro, Lacy. Ela bufou e balançou a cabeça. Suas mãos apertaram os próprios braços até os nós de seus dedos ficarem brancos, mas ela não falou. Não ordenou que ele saísse. Isso devia significar algo. – Sei que magoei você quando fui embora. Ela fez um som de desdém. – Você me destruiu. Ele fez uma expressão de dor e continuou falando. – Fiz isso, sim, e peço desculpas. Mas, mesmo quando nos casamos, as coisas estavam instáveis entre nós. Você vivia esperando que eu a decepcionasse. Que abandonasse você, como sua mãe fez. – E eu tinha razão, não tinha? – disse ela num sussurro, mas Sam ouviu e se sentiu mal por ela. – Sim, acho que tinha. Mas sabe... Você sempre enxergou o que a sua mãe fez... abandonando você... como se o amor fosse isso. Por isso, achou que eu faria o mesmo. Você nunca acreditou de verdade que eu ficaria. Admita ao menos isso. Ela inspirou fundo e disse: – Para aliviar a sua culpa? Por que eu faria isso? Posso dizer que eu queria acreditar em você, mas, se eu tivesse acreditado completamente, sua partida teria me matado. A dor o atingiu no centro do peito, e Sam achou que merecia por ter feito com que ambos passassem por tudo aquilo. – Mas eu confiei em você, Sam – disse ela, aumentando ainda mais a tristeza dele. – E você partiu meu coração. O pôr do sol marcava o céu lá fora, mas, ali dentro, onde a luz estava fraca, Sam conseguia enxergar a mágoa nos olhos azuis dela. – Eu sei e vou me arrepender disso para sempre. Quem me dera poder voltar e mudar isso. – A voz dele baixou para um rouco sussurro que fez a


garganta de Sam doer, enquanto seu coração doía pelas palavras dela. – Mas, Lacy, sua mãe não foi um exemplo de amor. Seu pai foi. Ele ficou. Ficou com você. Bem aqui. Ele suportou a infelicidade e nunca permitiu que ela afetasse a maneira como ele tratava a filha dele. É esse tipo de amor que estou oferecendo agora. Alguns longos instantes se passaram enquanto ela pensava no que ele havia dito. – Você tem razão a respeito do meu pai – concordou ela. – Nunca pensei nisso desse jeito, mas você está certo. Ela foi embora. Ele permaneceu. Ficou solitário. Triste. Mas ficou aqui. Você não ficou. – Não. – Ele detestava admitir isso. – Mas estou de volta agora. E não vou a lugar nenhum. Ela balançou a cabeça novamente, sem querer acreditar na palavra dele, e a culpa disso era toda de Sam. – Estou aqui para sempre, Lacy – disse ele, desejando que ela acreditasse. Que confiasse. – Quero uma vida com você. Filhos com você. Quero envelhecer nesta montanha e ver nossos filhos e netos administrando o Snow Vista. Ela balançou um pouco; Sam entendeu aquilo como esperança e se aproximou. – Se eu tiver que passar os próximos dez anos tentando conquistar você para que acredite em mim, é o que eu vou fazer – jurou ele. – Vou trazer flores todos os dias, jantar todas as noites. Vou beijar você, tocar em você, fazer promessas a você e, no final das contas, você vai acabar acreditando novamente em mim. – Vou? – Sim – respondeu ele levemente, um sorriso curvando sua boca. – Porque você me ama, Lacy. Tanto quanto eu amo você. Ela inspirou fundo e prendeu o ar durante um longo momento. Sam a observou ali, seu longo cabelo solto e macio, suas feições tensas, incertas, seus olhos úmidos de lágrimas. O coração dele se inflou até ele achar que explodiria dentro do peito. – Lacy, eu magoei você. Sei disso e, se eu pudesse mudar o passado, eu mudaria. Mas tudo o que posso fazer é prometer a você o amanhã e todos os


amanhãs depois disso. – Arfante, ele deu mais um passo na direção dela. – Sabe... Ontem à noite, depois que conversamos, depois que eu disse tudo a você, percebi algo que eu nunca tinha percebido antes. – O quê? Apenas duas palavras, mas ele também interpretou isso como um bom sinal. – Não foi só a perda de Jack que me levou embora daqui... apesar de isso ter sido devastador. Eu estava com medo. Eu a amava tão mais do que meu próprio irmão gêmeo que pensar em perder você foi algo insuportável. – Sam... – Não – disse ele rapidamente –, ouça o que tenho a dizer. Eu não conseguia suportar a ideia de que podia perdê-la também. Agora, parece idiotice abandonar você por ter medo de perder. – Sim – concordou ela, irônica. – Parece mesmo. – Mas o fato de eu ter ido embora não acabou com o medo – falou ele. – Eu continuei pensando em você. Continuei me preocupando com você. Continuei amando você. Ficar com você é a única coisa que pode evitar esse medo. Agora, eu já sei disso. Quero ficar com você. Sonhar com você até o final das nossas vidas. – Ele inspirou fundo, expirou e falou: – Quero arriscar sentir essa dor para ter esse amor. O coração de Lacy estava em disparada dentro do peito. Sua mente estava a mil por hora. Ela olhou nos olhos dele e soube que ele tinha razão. A respeito de tudo. No início do casamento deles, ela ficou esperando que Sam a decepcionasse. Manteve a guarda alta, preparada para se magoar. Pois mais que tivesse amado Sam, ela nunca se entregou por completo. Conteve uma parte de si. Sempre cautelosa. Ela esqueceu mesmo que seu pai sempre esteve presente. Em sua dor pela perda da mãe, se recusou a enxergar que o amor nem sempre ia embora. Às vezes, ele permanecia. E isso era algo com que se podia contar. Em que se podia confiar. Esse era o amor em que queria acreditar. O tipo que jamais abandonava. O tipo que durava para sempre. Sim, pensou Lacy, erguendo o olhar, Sam havia cometido erros, mas ela também. Se tivesse sido mais forte, mais confiante, talvez o tivesse obrigado a conversar nos dias após a morte de Jack. Eles poderiam ter resolvido aquilo


juntos. No entanto, em parte, esperou que ele partisse. Por isso, quando Sam foi embora, ela permitiu que isso acontecesse, em vez de lutar pelo que queria. Agora, ela estava disposta a lutar. Ele a observava com aqueles lindos olhos verdes, e Lacy soube que o próximo passo precisaria ser dela. Sempre era assim. Ela precisava perdoar. Precisava acreditar. E, ao olhar nos olhos dele, ela soube que perdoaria. O amor não era perfeito. Sem dúvida, no futuro, ambos cometeriam erros. Mas também permaneceriam ali. Juntos. – Você tem razão – disse ela, vendo parte da tensão se esvair dele. – Em relação a muitos pontos. Mas, acima de tudo – continuou ela –, tem razão quando diz que arriscar sentir dor é a única maneira de ter a alegria que sinto quando estou com você. – Você vai arriscar? – perguntou ele, seu olhar jamais se desviando do dela. – Quer se casar comigo de novo, Lacy? Vai confiar que eu vou estar sempre presente para você e que sempre vou te amar? Vai ter filhos e criar uma família comigo? Ali estava tudo o que ela queria, brilhante e reluzente, ao alcance dela. Tudo o que ela precisava fazer era esticar as mãos e pegar. Lacy estendeu a mão para Sam e, quando os dedos dele se fecharam em torno dos dela, ela sentiu o calor dele a penetrando, aliviando o frio. – Sim, Sam. Quero me casar com você. Vou acreditar em você. E vou amar você por toda a minha vida. Ele a puxou, e ela foi voando para os braços dele. Ao abraçá-la, ele sussurrou: – Graças a Deus. Eu amo você, Lacy. Agora, sempre, para sempre, eu amo você. – Eu também amo você, Sam. Sempre amei. E sempre vou amar. – Ela aninhou a cabeça no peito dele, ouvindo as trovejantes batidas do coração de Sam. Com os braços ainda a envolvendo, ele perguntou em voz baixa: – O que me diz de começarmos a fazer bebês imediatamente? Um lento e satisfeito sorriso surgiu no rosto de Lacy quando ela se inclinou para trás para olhá-lo.


– Pode riscar isso da sua lista de pendências, Sam. – O que você... – A compreensão veio, e os olhos dele se arregalaram. Sam ficou de queixo caído. – Está querendo dizer que... você... já está? Ela assentiu, esperando que o prazer superasse o choque. Não demorou muito. O sorriso dele se alastrou por seu rosto, iluminando seus olhos com o tipo de alegria que Lacy sempre sonhou ver. A realidade era muito melhor. – Vamos ter uma vida ótima – prometeu ele, uma das mãos baixando para tocar ternamente a barriga dela. Lacy pôs a mão sobre a dele e falou: – Nós já começamos. Ele a beijou, e o mundo de Lacy se transformou num lugar lindo e iluminado.


EPÍLOGO

LACY ESTAVA num quarto particular na maternidade do Hospital McKayDee, em Ogden. Lá fora, nevava, mas, ali dentro, havia uma comemoração em andamento. Sam baixou o olhar para sua esposa, que embalava o filho recém-nascido deles, e sentiu tudo dentro dele explodir de felicidade. De contentamento. Os últimos meses haviam sido corridos, atarefados e ótimos. O restaurante foi aberto no outono e ficava diariamente lotado. A loja de lembranças estava sendo um imenso sucesso, não só com turistas, mas também com os artesãos locais, e o anexo ao hotel já estava quase pronto para receber hóspedes. No entanto, o melhor de tudo era o tempo passado com Lacy. Redescobrindo como eles eram bons juntos. Eles estavam morando na cabana dela, embora tivessem acrescentado tantos cômodos que o lugar já estava irreconhecível. Havia mais quatro quartos, dois banheiros e uma grande cozinha da qual Lacy raramente queria sair. Eles tinham planos para encher aquela cabana com filhos e risadas e, naquele dia, tinham dado início a tudo. – Você foi incrível – disse ele a ela, curvando-se para beijar a testa de Lacy, a ponta de seu nariz e, em seguida, a boca. Lacy sorriu para ele. – Nosso filho é incrível. Olhe só para ele, Sam. Não é lindo? – Igual à mãe – falou Sam, passando a ponta de um dos dedos pela bochecha de seu filho. Ele jamais teria acreditado no amor profundo e pleno


que se podia sentir por uma pessoa que não tinha nem mesmo uma hora de vida. Ele era pai. E um homem de muita sorte. – Ele tem o seu cabelo e os meus olhos. Não é incrível? É uma pessoa própria, mas é parte de nós dois. – Ela suspirou, feliz, beijando a testa de seu filho. – Como você está se sentindo? – A preocupação marcava as palavras dele, mas Sam podia ser perdoado por isso. Havia acabado de vê-la se esforçar durante oito horas para dar à luz! Uma experiência traumatizante que ele não estava com pressa de repetir. – Cansada? Com fome? Ela riu um pouco ao ouvir aquilo, pegou a mão de Sam e a apertou. – Ah, sim, acho que eu engoliria um dos sanduíches de bife de Maria inteiros. Mas estou me sentindo ótima. Estou com tanta energia que posso até me levantar e esquiar pela Trilha do Urso. O percurso mais rápido e mais perigoso do Snow Vista. Balançando a cabeça, ele falou: – Pode esquecer isso por um tempo. Lacy sorriu e deu de ombros. – Imagino que sim, mas não estou mesmo cansada. – Semicerrando os olhos para ele, ela falou: – Mas você está exausto. Devia ir para casa descansar. – Não vou a lugar nenhum sem você. – Felizmente, o hospital fornecia camas para que os novos papais pudessem dormir nos quartos das esposas. Mas ele teria ficado ali mesmo que precisasse dormir na cadeira ao lado da cama dela. Ele a beijou novamente, beijou o topo da cabeça de seu filho. Em seguida, endireitou o corpo e olhou de relance para a porta. – A família está esperando para entrar. Está pronta para enfrentar todo mundo? – Completamente. Ele foi até a porta, gesticulou chamando a multidão dos Wyatt e foi se posicionar na cabeceira da cama de Lacy enquanto todos entravam. Os pais dele estavam radiantes: o pai segurava um ursinho de pelúcia roxo impossivelmente colorido, a mãe trazia um vaso de rosas amarelas. Sua irmã, Kristi, também estava ali, segurando a mão de seu marido, Tony. Os dois finalmente haviam se casado no mês de maio, e Kristi já estava grávida, esperando o primeiro filho deles.


– Ele é lindo! – exclamou Connie Wyatt. – Que menino bonito – concordou Bob. – Qual é o nome dele? – perguntou Kristi, olhando de Lacy para Sam. Ele baixou o olhar para sua linda esposa e sorriu quando ela falou: – Conte a eles, Sam. Ele pôs a mão no ombro de Lacy, unindo-os. Sam olhou para sua família e falou: – O nome dele é Jackson William Wyatt. Tem o nome de Jack e do pai de Lacy. Sam viu os olhos de sua mãe se encherem de lágrimas, e ela não tentou contê-las enquanto sorria, orgulhosa. – Jack ficaria tão feliz. Nós estamos, não é, querido? Bob Wyatt envolveu sua esposa com o braço e a puxou para si. – Estamos. Foi muito bom o que vocês fizeram. Sam viu a família conversar em empolgados sussurros. Ele viu Lacy entregar o bebê Jack à mãe dele e viu quando sua mãe se virou para o pai dele, os dois embalando e brincando com seu primeiro neto. A vida era boa. Não havia como ser melhor. Tudo o que faltava, pensou ele com um toque de tristeza, era seu irmão. Ele queria que, de alguma maneira, Jack soubesse que eles haviam sobrevivido à perda dele. Que haviam encontrado a felicidade, apesar de sentirem falta dele. Um lampejo de movimento chamou a atenção de Sam, e ele virou a cabeça, lançando um olhar para o canto do quarto, onde o sol de inverno pintava um pilar de luz dourada. Sam perdeu o fôlego. Jack estava ali, na luz, sendo parte dela. Com o coração martelando dentro do peito, tudo o que Sam conseguiu fazer foi olhar fixamente para seu irmão gêmeo, incrédulo. O zumbido da conversa em torno dele se abrandou, desapareceu enquanto ele e seu irmão se entreolhavam, um de cada lado do quarto, além do abismo entre a vida e a morte. Jack assentiu, como se entendesse perfeitamente o que Sam estava sentindo. Então, abriu um lento e largo sorriso para seu irmão gêmeo, como costumava fazer. E, enquanto Sam observava, Jack desapareceu com o que restava da luz, até que o canto do quarto ficasse novamente vazio e escuro.


– Sam? – falou Lacy. Ainda maravilhado com o que tinha acabado de ver, ele se virou para ela, um meio sorriso curvando sua boca. – Está tudo bem com você? Ele olhou novamente para o canto do quarto. Aquilo teria mesmo acontecido? Ou ele teria simplesmente visto o que queria ver? Isso importava? Jack fazia parte deles, sempre faria. Talvez ele tivesse encontrado uma maneira de avisar a Sam que ele também estava bem. Voltando-se novamente para Lacy, Sam se desapegou do que restava de sua dor e acolheu a alegria que lhe era oferecida. – Melhor do que bem – garantiu ele. – Está tudo perfeito. Ele deu as costas ao passado e adentrou o futuro com sua esposa e seu filho.


Elizabeth Bevarly

PROMESSAS POR UMA NOITE

Tradução Leandro Santos


Querida leitora, Está na hora de revisitar a Talk of the town, a boutique de alta-costura mais famosa de Chicago. Ok, minha boutique de alta-costura mais famosa. Na verdade, minha única boutique. Você deve se lembrar dela e de sua dona, Ava, de Etiqueta do amor (ed. 244 de Desejo). Agora, é a vez de Della Hannan aparecer na loja, querendo se arrumar para uma ocasião muito especial. Quando era criança, ela prometeu a si mesma que celebraria seu 30º aniversário de forma grandiosa. Della também tinha planejado ser milionária ao chegar a essa idade, mas não podemos ter tudo o que queremos, certo? Então, por mais que essa última parte seja só fingimento, o estilo será bem real… mesmo que alugado! O único problema é que Della não pode ser vista andando pela cidade. Afinal, ela tem um pequeno segredo. Ok, ok, um grande segredo! Porém, é difícil não ser vista quando está vestida da cabeça aos pés de Carolina Herrera e Dolce&Gabana. E quem a nota é justamente Marcus Fallon. E como nota! Porém, a última coisa que um homem como ele quer é ser mantido em segredo. “Mergulhe de cabeça ou desista”, esse é o lema de Marcus. E ao ficar preso com Della por uma nevasca, tudo o que ele deseja é aproveitar ao máximo esse momento… Espero que se divirta lendo a história de Della e Marcus. E que seus sonhos também sejam muito estilosos! Boa leitura! Elizabeth Bevarly


CAPÍTULO 1

APENAS UMA coisa poderia deixar o trigésimo aniversário de Della Hannan ainda melhor do que ela planejara ser. E era uma coisa que ela sequer planejara. Isso significava muito, pois vinha ajustando os detalhes da comemoração desde que era uma menininha que morava num bairro onde festas de aniversário eram um luxo inalcançável e, portanto, ignorado. Onde muitas coisas eram inalcançáveis e ignoradas. Coisas como... Bem, coisas como Della. E fora por isso que ela prometera a si mesma um evento tão festivo. Pois, desde que era uma menininha, soubera que poderia depender apenas de si mesma. Claro, os últimos 11 meses haviam mudado esse pensamento, pois, desde que conhecera Geoffrey, não tivera escolha a não ser contar com ele. Mas Geoffrey não estava ali naquela noite, e ela não se permitiria pensar nele ou em qualquer outra coisa daquele mundo. Aquela noite era especial. Aquela noite era dela. E seria tudo o que uma criança pobre de um dos bairros mais perigosos de Nova York poderia imaginar. Quando mais nova, Della jurara que, antes de completar 30 anos, já teria escapado daquelas perigosas ruas de seu bairro e se tornado milionária, morando no melhor lugar da cidade. Ela também jurara marcar seus grandes 3.0 no estilo dos ricos e famosos, um estilo ao qual imaginara que já teria se acostumado naquele momento de sua vida. Ela não negaria essa promessa, embora estivesse comemorando em Chicago, não em Nova York. Começaria jantando num restaurante cinco estrelas. Depois, um assento num camarote


na ópera. Para finalizar a noite, iria a um clube que permitia a entrada apenas da nata da sociedade. Ela estava usando roupas de milhares de dólares, pura alta costura, cheia de rubis e diamantes, e fizera seu cabelo e suas unhas no melhor salão da cidade. Suspirou de contentamento enquanto desfrutava da primeira parte de sua noite. O restaurante onde ela estava era caríssimo. Pedira os itens mais caros do cardápio; todos com nomes europeus. Afinal, isso era o que pessoas sofisticadas e ricas faziam, certo? Pensar nisso a fez olhar sorrateiramente à volta, para ter certeza de que Geoffrey não a seguira, apesar de ela ter conseguido sair às escondidas e de ter combinado falar com ele apenas no dia seguinte. Mesmo que ele descobrisse que ela saíra, não teria como saber aonde ela iria. Della planejara a fuga daquela noite muito mais meticulosamente do que planejara a comemoração de seu trigésimo aniversário. Para todos ali, Della tinha tanto pedigree quanto eles e pertencia àquela sociedade. E sentia mesmo que seu lugar era ali, tomando champanhe enquanto esperava a chegada de seu aperitivo de lulas. Ela vinha se movimentando em ambientes como aquele fazia anos, apesar de não ser de família rica. Lutara para sair da pobreza, subindo para as altas camadas da sociedade. Os tons vermelhos de seu vestido e seu sapato, alugados por uma fortuna, complementavam seus olhos de cor acinzentada e o cabelo loiro-escuro que já estava comprido o suficiente para ser preso num coque em estilo francês. Della sorriu. Gostava de seu cabelo longo. Passara toda a sua vida com ele masculinamente curto até o início daquele ano. Mas ela não pensaria em nada disso. Aquela noite seria perfeita. Seria exatamente como planejara tantos anos antes. A não ser, talvez, pelo lindo e elegante homem que a hostess acomodara numa mesa perto da dela alguns instantes antes. Della não conseguia parar de olhá-lo de esguelha. Quando mais nova, nunca pensara na ideia de ter uma companhia em sua noite especial. Talvez pelo fato de ela nunca ter podido contar com ninguém além de si mesma. Ou talvez por nunca ter se imaginado com um homem como aquele. Sem aviso, o homem ergueu os olhos, seu olhar se conectando ao dela.


Sem aviso, o homem ergueu os olhos, seu olhar se conectando ao dela. Algo entre eles... estalou. Ou algo assim. O homem fez um movimento com a cabeça para Della, cumprimentando-a, um canto de sua boca se erguendo num meio sorriso. Depois de hesitar por um instante, ela ergueu sua taça para ele, num brinde. Ele estava com um smoking que fora feito sob medida para enfatizar cada maravilhoso centímetro dele. Seus olhos escuros ganhavam o calor da luz da vela no castiçal de cristal diante dele, e aquele meio sorriso fez algo quente e elétrico descer pela espinha de Della. Pois aquele era o tipo de sorriso que dizia a uma mulher que ele não apenas a estava despindo com os olhos, mas que também estava pensando em usar várias outras partes de seu corpo nela. Ao se sentir corar, Della desviou rapidamente o olhar, tentando se concentrar em outra coisa. Inevitavelmente, porém, sua atenção vagou de volta para o homem. Que ainda a olhava com bastante interesse. – Então, o que acha? – perguntou ele a ela, erguendo a voz o suficiente para ser ouvido a duas pequenas mesas de distância da dele. Della piscou os olhos, perplexa. Um milhão de respostas diferentes ricochetearam dentro da mente dela. Acho que você é o homem mais lindo que já vi, por exemplo. E: O que vai fazer no Réveillon? – Para o jantar – acrescentou ele, levantando o cardápio. – O que recomenda? Aaaah, era o que ela achava a respeito disso? – Hã... Não sei bem – disse ela. – É a primeira vez que venho aqui. – Por algum motivo, ela não achou que um homem como ele ficaria muito impressionado se ela lhe dissesse para pedir o que houvesse de mais caro para fazê-lo parecer sofisticado e rico. Ele já parecia tudo isso apenas por existir. A resposta dela pareceu surpreendê-lo. – Como isso é possível? Este restaurante é uma instituição de Chicago há quase cem anos. Você não é daqui? Della não responderia de jeito nenhum. Especialmente porque ninguém além de Geoffrey sabia que ela estava ali, e ele estava de olho nela. Mesmo que não soubesse onde ela estava naquele exato instante, ela não arriscaria. Por isso, Della precisaria mentir para aquele homem, o que jamais fazia,


Por isso, Della precisaria mentir para aquele homem, o que jamais fazia, embora sua honestidade já a tivesse posto em encrencas várias vezes. Do contrário, sua resposta levaria ao tipo de conversa que poderia fazê-la falar de seu passado. Ou, ainda pior, de seu presente. E Della queria se afastar o máximo possível dessas duas coisas naquela noite. – Pedi o especial da casa. Adoro frutos do mar. De início, ele não disse nada. Então, falou: – Vou me lembrar disso. Por algum motivo, ele falou como se fosse se lembrar do fato de que ela adorava frutos do mar, não da recomendação. Ele abriu a boca para dizer algo mais, mas o garçom chegou para colocar um coquetel diante dele e outro drinque rosa no lugar, na mesa ao lado dele. O homem estava esperando alguém. Uma mulher, a julgar pela cor do drinque. Casais não jantavam em lugares como aquele, a menos que seu relacionamento fosse mais que casual. Aquele cara estava lançando olhares ardentes para ela, até mesmo flertando, apesar do fato de que uma mulher logo se juntaria a ele. Isso significava que ele era um completo canalha. Certo, talvez o aniversário de 30 anos dela não estivesse saindo tão perfeito quanto ela planejara, já que ela sentara perto de um idiota. E... Está bem... Talvez não fosse apenas por causa do idiota. Talvez não fosse nem porque o vestido e os acessórios dela haviam sido alugados, e não pegos casualmente do armário dela. Talvez fosse porque a vida que Della vinha vivendo não era exatamente a de uma milionária, nem mesmo a dela própria. Ultimamente, tudo o que ela fazia, todos os lugares aonde ia, todas as palavras que dizia precisavam ser julgadas e controladas por Geoffrey. A vida dela nunca mais seria normal. Seria uma vida fabricada e orquestrada por outra pessoa. Mas ela não pensaria nisso naquela noite. Naquela noite, não queria ser Della. Ao menos por uma noite, queria ser a mulher que ela imaginara duas décadas e três mil quilômetros atrás: CinderDella, o assunto da cidade, a rainha do baile. Nada mancharia aquela noite. Nem mesmo o príncipe nada encantado que a olhava como se a quisesse levar para a cama enquanto esperava a namorada. Na hora exata, a hostess acomodou um barulhento grupo de quatro


Na hora exata, a hostess acomodou um barulhento grupo de quatro pessoas na mesa entre eles, bloqueando totalmente a visão do homem. Della se sentiu agradecida, nada decepcionada, embora uma parte estranha dela a deixasse pensando que era decepção que ela sentia. Bem, mesmo que ele fosse um canalha, continuava sendo o homem mais lindo que já vira. E ela o viu novamente uma hora e meia depois, quando estava tentando encontrar seu assento na ópera. Depois de se dar conta de que estivera do lado errado da plateia, Della pedira orientação a um funcionário, que apontara para um camarote do outro lado do recinto, com uma incrível vista do palco... e onde estava o lindo desconhecido que ela vira no jantar. E, como no restaurante, ele estava sozinho. Ao descer pelo corredor até seu lugar, se deu conta de que, além de no mesmo camarote, ela também se sentaria na mesma fileira do homem, uma que continha apenas três cadeiras. E viu que ele deixara uma programação e uma rosa sobre o assento a seu lado, como se a poltrona logo fosse ser ocupada. Sendo assim, estava claro que a namorada dele se atrasara para o jantar, mas pretendia encontrá-lo ali. Della sentiu um frio na barriga ao pensar em se sentar tão perto daquele homem. Quando ela passasse por ele para chegar a seu lugar, não haveria como escapar dele. Ela inspirou fundo e avançou até o fim da fileira, ao lado dele. A cabeça dele se ergueu de súbito, e, quando a reconheceu, abriu novamente aquele sorriso que a deixara arrepiada. O calor fulgurou dentro dela. Ele murmurou um cumprimento ao se levantar, mas Della mal ouviu, pois estava ocupada demais tentando não desmaiar. Ele não apenas tinha um cheiro delicioso, mas também era muito mais alto do que ela imaginara. Mesmo chegando a mais de 1,80m com seus saltos, ela precisou inclinar a cabeça para trás para olhar nos olhos dele. Entretanto, foi o rosto dele que chamou a atenção dela. Seu rosto era esculpido, seu nariz era reto e refinado, e seus olhos... Ah, aqueles olhos. Eram da cor de chocolate amargo, um castanho tão escuro e tão atraente que Della não conseguiu desviar o olhar. Então, deu-se conta de que não era a cor deles que a cativava tanto. Era o fato de ela ter reconhecido algo dentro


deles que contrastava com seu deslumbrante sorriso. Uma seriedade, até mesmo uma tristeza, inconfundível. No instante em que ela identificou o sentimento, porém, uma sombra cobriu os olhos dele, quase como se ele tivesse ciência do que ela vira e não quisesse que Della enxergasse profundamente dentro dele. – Precisamos parar de nos encontrar assim – disse ele, alargando o sorriso. O humor no tom dele a surpreendeu, e ela não conseguiu conter um sorriso. – Meio esquisito, não? – Na realidade, estava pensando em outra palavra. – É? – Sorte – disse ele imediatamente. – Eu estava pensando que foi sorte. Della não soube o que responder. Então, levantou seu ingresso e indicou sua poltrona. – Pode me dar licença? Aquela é minha poltrona. Por um instante, ele apenas continuou a olhá-la. Então, respondeu: – Claro. Ele saiu para o corredor para deixá-la passar. Della se apressou a ir até sua poltrona, abrindo imediatamente sua programação para lê-la antes que ele tivesse a oportunidade de começar uma conversa. Contudo, ele não entendeu a indireta. – Como foi o jantar? Sem erguer os olhos da programação, Della respondeu: – Ótimo. A curta resposta dela também não o dissuadiu. – Acabei pedindo o pavão. Estava incrível. Quando Della apenas assentiu, ele acrescentou: – Você devia experimentar da próxima vez que for lá. Recomendo bastante. Ele estava tentando arrancar informações dela, tentando descobrir se ela morava na cidade, como fizera quando lhe perguntara por que ela nunca fora àquele restaurante. Estava tentando saber se havia ou não a chance de eles se


esbarrarem novamente, por acidente ou propositalmente. Mesmo com uma rosa e uma mulher misteriosa entre eles. – Vou me lembrar do conselho. – Sabe... Não conheço muitas pessoas da minha geração que gostam de ópera. Especialmente a ponto de assistir ao vivo. Ou gastar com um lugar num camarote. Você deve adorar. Que golpe baixo. Ela não seria capaz de resistir a uma conversa sobre a coisa que ela mais amava no mundo. – Adoro mesmo – disse ela, deixando a programação cair em seu colo. Quando Della se virou para olhá-lo novamente, a expressão dele deixou claro que ele estava tão deleitado quanto ela por estar ali e que gostava tanto de ópera quanto ela, a ponto de sua paixão pela arte ter expulsado a escuridão anterior de seus olhos. Agora, ela percebia que eles não eram exatamente castanhos. Pontos dourados marcavam as íris, deixando seus olhos multifacetados e ainda mais atraentes. – Amo ópera desde menina. Nosso vizinho era fanático e me mostrou todos os clássicos. Na primeira vez em que assisti ao vivo – continuou ela, sem dizer que fora na televisão, não num teatro –, fiquei encantada. Ela adoraria ter feito uma faculdade de música e passar a vida estudando ópera. Mas a universidade estava além de uma estudante da classe econômica dela. Por isso, Della fora trabalhar imediatamente após se formar no colégio, como contínua numa das corretoras de ações mais respeitadas de Wall Street. E, embora ela tivesse chegado a assistente executiva com muito trabalho, ela nunca tivera tempo de se formar numa faculdade. Ela se sustentara muito bem com seu salário e estivera feliz com o rumo que sua vida estivera tomando. Ao menos até sua vida ter sido estilhaçada em um milhão de pedaços, restando-lhe apenas Geoffrey, que lhe oferecera um refúgio um tanto dúbio... e por um preço. Naquele exato instante, a música surgiu, as luzes foram reduzidas. Della não conseguiu resistir a dar uma última olhada em sua companhia, mas, ao vê-lo olhando para ela, e perceber que a poltrona entre eles continuava vazia, ela voltou rapidamente sua atenção para o palco. Depois disso, mergulhou no mundo de Mimi, Rodolfo e seus amigos boêmios, deixando a própria realidade de lado. Tanto que, quando as luzes


se acenderam para o intervalo, Della precisou de um instante para retornar da Paris do século XIX para a Chicago do século XXI. Ela piscou algumas vezes, inspirou fundo e, antes que pudesse evitar, olhou para o homem, que a olhava da mesma maneira como antes, quase como se tivesse passado toda a metade da ópera a observá-la. Aquela estranha vibração surgiu dentro do ventre dela novamente, fazendo-a olhar rapidamente para a plateia. Viu muitas das mulheres darem o braço a seus companheiros ao saírem para o intervalo e percebeu como os homens curvavam a cabeça afetuosamente na direção delas enquanto riam ou conversavam. Por um instante, ela sentiu um forte pesar, porque aquela noite não duraria para sempre. Não seria maravilhoso desfrutar de noites assim sempre que quisesse, sem pensar no custo ou no risco de ser vista num lugar onde não deveria estar? Della não conseguia se recordar da última vez que saíra à noite. Geoffrey a mantinha trancada como Rapunzel. Ela passava seu tempo lendo livros, assistindo a filmes e olhando para as paredes do que era, na prática, sua cela. Se sentia uma prisioneira. E o seria até que Geoffrey lhe dissesse que poderia ir embora. Contudo, nem mesmo esse pensamento lhe trazia conforto, pois ela não fazia ideia de para onde iria ou o que faria quando Geoffrey decidisse que ela não era mais necessária. Ela precisaria recomeçar do zero, como fizera ao deixar seu velho bairro para trás. Isso era mais um motivo para aproveitar ao máximo aquela noite. – O que está achando até agora? Ela se virou ao ouvir a aveludada voz de barítono, e sua pulsação disparou ao ver o olhar dele. Ela precisava se controlar. Aquele homem não apenas já demonstrara que era um grande canalha, flertando com uma mulher enquanto devia estar com outra, mas também era areia demais para o caminhãozinho dela. – Tenho que admitir que La Bohème não é uma das minhas favoritas – disse ela. – Acho que Puccini estava um pouco reservado quando a compôs, especialmente em comparação com a empolgação de algo como Manon Lescaut. Mas estou gostando. Bastante. Claro, parte disso poderia ter a ver com a companhia no camarote.


– E você? Qual é seu veredicto? – Acho que já assisti vezes demais para ser objetivo. Mas é interessante você falar de Puccini sendo muito reservado nela. Sempre pensei o mesmo. Na realidade, gosto muito mais da interpretação de Leoncavallo do livro de Murger. Ela sorriu. – Eu também. Ele retribuiu o sorriso. – Somos minoria, você sabe. – Sei. – Na realidade, gosto de La Bohème de Leoncavallo ainda mais do que a Pagliacci dele, uma opinião que faria uma pessoa ser expulsa de uma ópera. Della gargalhou. – Também gosto mais do que de Pagliacci. Parece que vamos ser chutados para a sarjeta juntos. Ele riu, ambos ficando em silêncio ao mesmo tempo, parecendo não saber o que dizer. Depois de alguns constrangedores segundos, Della arriscou: – Bem, se já viu La Bohème tanto e não gosta tanto dela quanto gosta de outras óperas, por que está aqui hoje? Ele deu de ombros, mas havia algo no gesto dele que não parecia tão despreocupado assim. – Tenho ingressos de temporada. Ingressos. No plural. O que significava que ele era mesmo o proprietário da poltrona vazia ao lado da dele e estivera esperando que alguém a ocupasse naquela noite. Uma esposa, talvez? Ela olhou rapidamente para a mão esquerda dele, mas não viu nenhuma aliança. Mesmo assim, havia muitas pessoas casadas que dispensavam a história das alianças ultimamente. Della se perguntou quem costumava ir com ele ali e por que essa pessoa não estava naquela noite. – É por isso que sei que você não costuma vir muito aqui. Ao menos não nas estreias e não na poltrona em que você está hoje. – Ele sorriu novamente. – Eu teria percebido. Ela deu o melhor de si para ignorar o frio em sua barriga. – É a primeira vez que venho aqui – admitiu ela.


Ele a observou mais atentamente. – Sua primeira vez naquele restaurante. Sua primeira vez neste teatro. Você se mudou para Chicago recentemente, não? Della foi salva de ter que responder, pois os deuses da ópera sorriram para ela. O homem foi chamado lá de baixo por um casal que o reconhecera e queria dizer oi, um casal que o chamou de Marcus. Eles conversaram até que as luzes piscassem três vezes, indicando que o espetáculo retornaria. Com aquilo, o casal se afastou, e ele... Marcus... virou-se novamente para Della. – Dá para enxergar direito de onde você está? – Ele tocou a poltrona a seu lado, que ainda continha a programação fechada e a rosa. – Talvez a vista seja melhor desta poltrona, o melhor ângulo para “Addio Dolce Svegliare Alla Mattina”. O italiano surgiu da língua dele como se ele o falasse fluentemente, e algo quente e derretido despertou dentro dela. Embora o campo de visão não fosse diferente de onde ela estava no momento, Della ficou surpresa com sua vontade de aceitar a proposta. Claramente, quem costumava se sentar ali não surgeria. E ele não parecia muito incomodado com isso. Talvez o relacionamento dele com a pessoa que ocupava aquela poltrona não fosse romântico, apesar da rosa. Ou talvez ele fosse simplesmente um conquistador com o qual ela não deveria ter nada além de uma conversa sobre ópera. Talvez ele devesse ser apenas mais uma adorável e efêmera memória daquela noite. – Obrigada, mas a visão daqui está ótima. E estava, disse Della a si mesma. Por ora. Por aquela noite. Mas, infelizmente, não para sempre.


CAPÍTULO 2

MARCUS FALLON

estava sentado à sua mesa de costume, tomando seu drinque de costume na boate de sempre, pensando coisas muito incomuns. Ao menos pensando numa mulher muito incomum. Uma mulher diferente de todas que ele já conhecera. E não apenas por ela compartilhar a paixão dele pela ópera, além de suas opiniões a respeito. Infelizmente, no instante em que a cortina se fechara para La Bohème, ela passara às pressas por ele, dizendo rapidamente um boa-noite e se perdera em meio à multidão antes que pudesse dizer qualquer coisa. Ela desaparecera. Quase como se nunca tivesse estado ali. E ele não fazia ideia de como encontrá-la. Ele observou a multidão, como se estivesse a procurá-la novamente. Estranhamente, Marcus se deu conta de que estava mesmo fazendo isso. Entretanto, tudo o que ele viu foi o público de costume. A imagem de uma pessoa flertando com o barman fez Marcus pensar novamente na misteriosa mulher de vermelho. Não que isso fosse uma surpresa. Desde o instante em que a vira no restaurante, tudo o que ele pensara fora em sexo. O estranho, porém, fora o fato de que, após começar a conversar com ela na ópera, o sexo ficara de lado em sua mente, e tudo o que quisera fazer fora conversar mais com ela sobre o assunto. E não apenas por ela compartilhar das incomuns opiniões dele, mas pela maneira como ela se iluminava ao falar daquilo. Por mais linda que ela tivesse estado sentada sozinha no restaurante, ficara ainda mais radiante durante a conversa deles.

Radiante. Ele nunca usara essa palavra para descrever uma mulher. Talvez


Radiante. Ele nunca usara essa palavra para descrever uma mulher. Talvez porque raramente fosse além do estágio em que achava uma mulher bonita. O que significava que ele raramente chegava a conversar com elas. Ao leválas para a cama, o que costumava acontecer logo depois de conhecê-las, Marcus perdia o interesse. Indesejada, uma voz surgiu dentro de seu cérebro, censurando-o por seu comportamento. Mas não era a voz dele. Era a voz rouca de Charlotte, que ficara assim depois de muitos cigarros ao longo de 82 anos. Por diversas vezes ao longo das duas últimas décadas desde que ele a conhecera, Marcus deixara escapar algum comentário politicamente incorreto a respeito do sexo oposto, e ela o censurara. Como ele sentia falta dela! Olhou para o cosmopolitan cor-de-rosa ao lado de seu uísque sobre a mesa, o copo suando com a condensação, pois estava parado ali fazia muito tempo. A rosa também começara a murchar. Até mesmo a programação da ópera já parecia velha, surrada. Tudo estava no fim da vida. Assim como Charlotte estivera da última vez que ele sentara à aquela mesa, olhando na mesma direção. Ela morrera dois dias após o encerramento da temporada no teatro. Fazia sete meses desde seu funeral, e Marcus ainda sentia profundamente a perda. Se perguntou mais uma vez o que acontecia depois que uma alma partia deste mundo. Charlotte ainda poderia desfrutar de seu cosmopolitan? Havia apresentações de Verdi e Bizet onde ela estava agora? Poderia comer a costela que tanto amara no restaurante? Marcus esperava que sim. Charlotte merecia apenas o melhor, onde quer que estivesse. Pois o melhor fora o que ela sempre lhe dera. Um lampejo de vermelho chamou a atenção dele, e Marcus ergueu o olhar. Mas não era ela. Marcus analisou novamente o recinto, mas viu apenas as pessoas de sempre mais uma vez. Ele conhecia todos ali. Sendo assim, por que estava sentado sozinho? Ele ergueu seu copo e acabou com o que restava de seu uísque. Em seguida, tomou também o drinque de Charlotte. Ele fechou os olhos por um instante enquanto esperava o sabor abandonar sua boca. Como ela aguentara tomar algo assim? Em seguida, ele abriu novamente os olhos...


...e encontrou uma visão de vermelho sentada a uma mesa do outro lado do recinto. Ele não conseguiu acreditar em sua sorte. Vê-la uma vez fora o acaso. Vê-la duas vezes, pura sorte. Vê-la pela terceira vez... Só podia ser o destino. Esquecendo por ora que ele não acreditava nisso e não querendo arriscar perdê-la novamente, Marcus se levantou imediatamente e foi até onde ela estava, gesticulando para Stu, o barman. Sem esperar um convite, ele puxou a cadeira e se sentou diante dela. Ela ergueu o olhar ao vê-lo surgir, a surpresa esculpida em suas feições. Contudo, os lábios dela se curvaram num leve sorriso, o que o tranquilizou. Aquela era outra experiência nova para ele. Nunca precisara ser tranquilizado. Pelo contrário, nunca dera o devido valor às coisas da vida. Isso era o que acontecia com alguém que vinha de uma das mais antigas e ilustres famílias da Gold Coast. Ele tinha tudo o que queria; geralmente, sem precisar pedir. – Precisamos parar de nos encontrar assim. Desta vez, foi ela, não Marcus, que disse aquelas palavras. – Pelo contrário – respondeu ele. – Estou começando a gostar de encontrar você assim. Um toque de cor-de-rosa surgiu nas faces dela, e Marcus se deleitou por vê-la corar. Ele não conseguia se recordar da última vez que fizera uma mulher enrubescer. Ao menos não de timidez. Geralmente, quando ele fazia uma mulher corar, era por sugerir que eles fizessem algo entre quatro paredes que a maior parte da sociedade consideraria vergonhoso. E isso era outro motivo para que ele desfrutasse dessas coisas. Mas ele estava pensando demais no futuro. Qualquer coisa entre quatro paredes com aquela mulher ainda estava a horas de acontecer. – Posso me sentar com você? – perguntou ele. – Acho que você já fez isso. Ele fingiu surpresa. – É verdade. Sendo assim, tem que me deixar pagar uma bebida para você. Ela abriu a boca para responder, e, por um instante, ele temeu que ela fosse recusar a proposta. Outra experiência nova para Marcus. Não apenas o temor de uma mulher recusá-lo, já que isso quase nunca acontecia, mas


também o sentimento de decepção pela possibilidade. Nas raras ocasiões em que uma mulher recusava uma proposta dele, ele simplesmente deixava aquilo de lado e seguia para a próxima. Com aquela mulher, porém... Bem, ele não conseguia imaginar uma próxima. – Está bem – respondeu ela por fim, quando Stu chegou à mesa deles. Ela olhou para o barman. – Vou querer uma taça de champanhe, por favor. – Traga uma garrafa – instruiu Marcus. – Não é necessário... – começou ela, a voz desaparecendo em seguida. Concluindo que aquilo acontecera porque ela não sabia como chamá-lo, ele completou para ela: – Marcus. Marcus... – Não me diga seu sobrenome. – Por que não? – Apenas não diga. Por algum motivo, ele resolveu acatar o pedido dela. Isso era ainda mais estranho, já que Marcus Fallon jamais fazia a coisa honrada. – Certo. – Ele levantou a mão para apertar a dela. – E você é...? Ela hesitou antes de pegar a mão dele. Então, aceitou. Os dedos dela eram finos e delicados, e, incapaz de evitar, Marcus fechou a mão possessivamente em torno da dela. A pele era macia e quente, clara como marfim, e ele se perguntou se o resto do corpo dela também seria assim. – Della – respondeu ela por fim. – Meu nome é Della. Nada de sobrenome também. Certo, pensou ele. Ele não a pressionaria. Contudo, antes que a noite terminasse, ele saberia não apenas o sobrenome dela, mas tudo a seu respeito. Especialmente a localização de cada uma das zonas erógenas dela e os sons eróticos que ela fazia sempre que ele encontrava uma delas. Nenhum deles disse mais nada; eles apenas ficaram se observando, as mãos ainda unidas. Ela tinha olhos incríveis. Acinzentados, claros e translúcidos. Olhos nos quais um homem poderia se perder para sempre. Do tipo que não ocultava nada e dizia tudo. Olhos honestos. De uma pessoa que sempre faria a coisa certa. Droga. Stu pigarreou, e ela recolheu a mão, colocando-a sobre a mesa. Marcus fez


Stu pigarreou, e ela recolheu a mão, colocando-a sobre a mesa. Marcus fez o mesmo, deixando seus dedos quase tocando os dela. – Algo mais? – perguntou Stu. Marcus pediu apenas um aperitivo para Stu, sem especificar qual. Honestamente, ele não estava se importando com nada que não fosse a intrigante mulher diante dele. – Bem – começou ele, tentando reiniciar a conversa. – Se está aqui no Windsor Club, você não deve ser muito nova em Chicago. Eles têm uma lista de espera para entrar, e, da última vez que fiquei sabendo, a espera era de ao menos dois anos. A menos que tenha vindo como convidada de outro sócio. – Que azar seria aquilo! Conhecer uma mulher como aquela e ela estar envolvida com outro homem. – Estou sozinha – disse ela. Então, depois de uma pequena hesitação, acrescentou: – Esta noite. Sugerindo que não ficava sozinha em outras noites, pensou Marcus. Pela primeira vez, ocorreu-lhe a ideia de olhar a mão esquerda dela. Não que uma aliança já o tivesse impedido de seduzir uma mulher. Mas ela usava apenas um anel, e era na mão direita. – Ou talvez – continuou ele, pensativo – você seja de alguma das famílias que criaram o Windsor originalmente. – Ele sorriu. – Como eu. Por mais que eles tentem me expulsar deste lugar, não podem fazer isso. Ela também sorriu. – E por que eles expulsariam um exemplo de formalidade e decência como você? Ele ergueu as sobrancelhas ao ouvir aquilo. – Você é mesmo nova na cidade se ainda não foi avisada a meu respeito. Geralmente, é a primeira coisa que dizem a socialites jovens e bonitas. Ela gargalhou ao ouvir aquilo. Sua risada era linda. Desinibida, incontida, verdadeiramente feliz. – Não acredito em você. – Não gosto só de ópera, sabia? A cor surgiu nas faces dela novamente, fazendo-o rir. Porém, ela foi salva quando Stu chegou com o champanhe e uma bandeja de frutas e queijos. O barman fez um floreio um tanto exagerado para abrir a garrafa,


provavelmente, porque ele também sabia que Della... Sim, Marcus gostava desse nome... Não era uma cliente costumeira. Na realidade, não havia nada de costumeiro nela. Era extraordinária. Stu serviu uma taça para cada um. Enquanto ele fazia isso, Marcus falou para Della: – Sou famoso nesta cidade. Pergunte a qualquer um. Ela se virou para o barman, que estava colocando o champanhe num balde com gelo. – Ele é mesmo famoso? O barman olhou primeiro para Marcus, que assentiu. – Ah, sim, senhora. E não apenas em Chicago. Ele aparece nas colunas sociais do país inteiro, aonde quer que vá, e costuma estar sempre nesses sites de celebridades. Se for vista com ele, pode apostar que também irá parar lá. Ele é infame. Della se virou para Marcus, seus olhos já não cheios de risos, mas de algo parecido com... medo? Ah, certamente não. Do que ela teria medo? – É verdade? – perguntou ela. Ainda confuso com a reação dela, mas não querendo mentir, especialmente porque seria fácil descobrir isso com uma simples busca na internet, ele respondeu: – Infelizmente, sim. A expressão dela foi quase de pânico. – Não se preocupe. Eles nunca deixam gentalha como os paparazzi entrarem aqui. Você está em perfeita segurança. Ninguém vai ver você comigo. Ao dizer aquilo, ocorreu a Marcus que ela poderia não ter medo de algum paparazzi vê-la com ele, mas algum indivíduo em particular. Realmente era o que parecia, concluiu ele ao observá-la novamente. Mimada, bem cuidada... Ao menos pela parte externa. O tipo de mulher que avançava no mundo se oferecendo para homens que poderiam pagar seu preço. Ainda havia um surpreendente número de mulheres assim na sociedade. Não que ele já tivesse visto Della entre mulheres desse tipo nos círculos sociais onde ele se movimentava.


Ela finalmente emitiu uma simples, embora nada humorada, risada. – Claro. Quero dizer... Eu sabia disso. Só estava brincando. Ele assentiu, mas uma parte dele não estava tão convencida. Talvez ela tivesse mesmo alguém. Talvez pertencesse a essa pessoa. Talvez essa pessoa não ficasse muito feliz por ela estar ali sozinha. Talvez ela tivesse medo de que sua foto aparecesse em algum lugar, com Marcus a seu lado, e isso causasse sérios problemas com essa pessoa. Quem seria aquela misteriosa mulher de vermelho? E por que Marcus queria tanto descobrir? Num esforço para deixar de lado a estranha tensão que surgira entre eles, ele ergueu sua taça de champanhe. – Saúde. Houve outra pequena hesitação da parte dela antes que também erguesse sua taça. – Saúde. O brinde não deu fim ao desconforto que pairava sobre a mesa, mas devolveu parte da cor às faces dela. Era o suficiente. Por ora. DELLA OLHAVA fixamente para o homem sentado diante dela à mesa enquanto tomava seu champanhe e se perguntava exatamente quando a noite se descontrolara. Num minuto, ela estivera prestes a embarcar na última parte de sua noite, desfrutando de uma taça de champanhe no celebrado Windsor Club de Chicago, onde conseguira entrar subornando o segurança. No seguinte, ela se flagrara olhando novamente nos olhos castanho-chocolate com pontos dourados que a tinham deixado tão intrigada na ópera. Marcus. O nome era adequado. Estoico e clássico, dominante. Que estranho ela encontrá-lo em todos os seus destinos! Por outro lado, ela se esforçara para encontrar destinos que atraíssem ricos e poderosos, e ele se adequava a esse perfil. Claro, agora, ela sabia que, além de rico, ele era famoso, e Della precisava evitar essa condição. Mas ninguém parecia estar dando atenção a eles ali. Estava tarde, e, mesmo sendo sábado, 90 por cento da população fora para casa, pois havia


previsão de neve para mais tarde. A maioria devia estar aconchegada na sala ou no quarto, esperando um domingo tranquilo, ilhada em casa pela neve. Della desejou poder desfrutar de algo assim, mas ela já se sentia como se tivesse passado os últimos onze meses presa dentro de casa. Ao menos quando não estava ao dispor de Geoffrey. Mas esse não era o caso naquela noite. Naquela noite, ela estava se divertindo. Devia considerar a cereja do bolo a oportunidade de compartilhar as últimas horas de sua comemoração com um homem como Marcus. – Então... – começou ela, tentando recapturar o tom de flerte da conversa anterior deles. – O que você fez para ser tão notório? Ele saboreou outro gole de seu champanhe e colocou a taça na mesa entre eles. Contudo, em vez de soltá-la, ele subiu com os dedos pela haste, subindo pelo recipiente, passando pelas elegantes linhas das laterais. Della se flagrou hipnotizada pela jornada daqueles dedos, especialmente quando ele começou a percorrer lentamente a borda com o dedo do meio. Girando e girando, bem devagar, até deixá-la tensa por dentro. Della se flagrou imaginando como seria se ele traçasse círculos lentos como aqueles em outro lugar. Num lugar como... ela. Em seus ombros, talvez. Ou na coxa. Tocando-a também em outros lugares... Lugares onde carícias assim poderiam levá-la à beira da loucura. Ela fechou os olhos numa tentativa de expulsar essa imagem, mas isso apenas as deixou mais vívidas. Mais eróticas. Della abriu novamente os olhos, o que a fez olhar para Marcus, que a observava levemente entretido, como se soubesse exatamente o que ela estava pensando. Enquanto ele a olhava, parou o dedo sobre a borda da taça e colocou o indicador ao lado dele. Della observou, impotente, enquanto ele fazia um lento movimento de tesoura com eles. Ele os dobrou para dentro da taça até que tocassem a superfície do líquido, molhando-os. Então, com cuidado, ele os retirou e os levou aos lábios dela. O calor a inundou, fazendo seus seios formigarem e seu coração disparar, deixando-a molhada entre as pernas. Sem nem mesmo pensar no que estava fazendo, ela entreabriu os lábios o suficiente para permitir que ele pusesse um dos dedos em sua boca. Ela provou o champanhe e a leve essência de Marcus. E Marcus foi o mais inebriante.


Rapidamente, ela recuou a cabeça e lambeu de seus lábios o que restava do toque dele. Mas isso não reduziu sua excitação. O que dera nela? Como ela podia se sentir tão atraída por um homem com aquela rapidez? Ela não sabia quase nada a respeito dele, a não ser o fato de que ele amava ópera e um bom champanhe e que, no início da noite, levara uma rosa para alguém que... A rosa. Como ela pudera esquecer? Ela podia estar desfrutando dos avanços de um homem casado! Onde estaria a rosa? Ele a teria jogado no lixo? Involuntariamente, ela observou as outras mesas do recinto até ver uma vaga, não muito longe, com uma rosa e uma programação da ópera. E um copo de cosmopolitan... vazio. A mulher que ele esperara finalmente o encontrara? Momentos antes, ele estivera compartilhando um momento daquele com outra pessoa? Ele podia ser tão canalha assim? – Quem você estava esperando esta noite? A pergunta escapou da boca de Della antes que ela se desse conta. Obviamente, aquilo também surpreendeu Marcus, pois suas sobrancelhas escuras se ergueram. – Ninguém. Nem mesmo você. Eu jamais teria previsto alguém como você. – Mas a rosa... O drinque cor-de-rosa... Ele se virou para acompanhar o olhar dela e viu a mesa onde ele se sentara antes de ela entrar. Seus ombros desceram um pouco, e sua cabeça baixou, como se estivesse derrotado. Ou melancólico? Quando ele a olhou, as sombras que Della percebera antes estavam de volta em seus olhos. – Comprei de fato a rosa e pedi o drinque para outra pessoa – disse ele. – E sim, era uma pessoa especial. – Era? Então, você e ela não estão... – O quê? – Juntos? A expressão dele não revelou nada do que ele poderia estar sentindo ou pensando. – Não. Della quis perguntar mais a respeito da mulher, mas algo no comportamento dele lhe dizia para não fazer isso. Não era da conta dela.


Mas, fosse lá quem fosse a mulher, ela não fazia mais parte da vida dele. Mesmo que fosse igualmente óbvio que ele queria que fizesse. E por que perceber isso a incomodava tanto? Della nunca mais veria Marcus depois daquela noite. Não importava se ele gostava muito de outra pessoa. Quanto menos ele soubesse a respeito dele, melhor. Assim, seria mais fácil esquecê-lo. Mesmo que ele fosse do tipo de homem que uma mulher jamais esquecia. – Eu sabia que ela não viria, mas me pareceu estranho não comprar a rosa e pedir o drinque como eu sempre fazia antes. Ela sempre se atrasava. Era quase como se eu a estivesse traindo se não pedisse, quando, na realidade, foi ela quem... – Ele parou abruptamente e olhou nos olhos de Della. Agora, porém, ele já não parecia tão soturno. – Um surto de sentimentalidade nada característico da minha parte, imagino. Mas não, Della. Não tenho ninguém. – Ele hesitou antes de perguntar. – Você tem? Que pergunta difícil! Della não tinha ninguém... Ao menos não da maneira como Marcus estava perguntando. Ela não tinha ninguém fazia quase um ano. E essa pessoa fora alguém com quem jamais deveria ter estado. Não apenas pelo tipo de homem que Egan Collingwood se revelara. Mas Della estava de fato com alguém... de um jeito diferente. Estava com Geoffrey. Ao menos por ora. Enquanto ela estivesse com Geoffrey, jamais poderia ter outra pessoa. Entretanto, ela não queria dizer isso a Marcus. Por isso, apenas levou a champanhe aos lábios para mais um gole. Quando ele continuou a observá-la daquela maneira inquisitiva, ela tomou outro gole. E outro. E mais outro. Até a taça se esvaziar. No instante em que Della a colocou na mesa, Marcus a encheu novamente. Ela sorriu. – Marcus, está tentando me embebedar? – Sim. A franqueza dele a surpreendeu, e Della gargalhou. Ela não conseguia se recordar da última vez que rira tanto. Mesmo antes de Egan, não fora muito propensa a brincadeiras. – Mas não vai funcionar – disse ela enquanto erguia cautelosamente a taça para a boca. – Tenho um metabolismo incrível.


O sorriso dele se tornou predatório. – Na realidade, estou contando com isso. Nossa! Bem, seria ela quem riria por último. Porque o sr. Marcus Famoso poderia achar que sua noite já estava definida com uma maratona de sexo ardente para encerrá-la, mas isso jamais aconteceria. Della precisava devolver suas roupas alugadas ao meio-dia do dia seguinte, para não perder seu depósito. Nem mesmo a promessa de uma maratona de sexo ardente com um homem loucamente irresistível seria capaz de impedir que ela esquecesse isso. Olhou para Marcus, para aqueles olhos escaldantes, para o sorriso tórrido. Para o rosto brutalmente forte, implacável. Como se para tentar conter o caráter rústico das feições dele, uma mecha de cabelo escuro caíra sobre a testa dele, implorando pelo toque delicado dos dedos de uma mulher. Bem. Provavelmente, isso não a impediria de receber seu depósito. Humm... Que decisão difícil. Por outro lado, Della não podia passar a noite fazendo algo em outro lugar. Se Geoffrey telefonasse para casa naquela noite e ela não atendesse, ele ficaria louco. Claro, bastaria que ele ligasse para o celular dela para saber que estava bem, mas ele ficaria furioso por ela não estar enclausurada onde deveria estar. Se Geoffrey soubesse das raras saídas dela, ele desejaria torcer seu pescoço. E ficaria ainda mais determinado a mantê-la escondida. Ainda olhando para Marcus, mas tentando não pensar no que ele a fazia sentir, ela falou: – Quer dizer que você embebeda as mulheres e se aproveita delas? Agora, sei o que você andou fazendo para ficar tão famoso. – Ah, nunca preciso embebedar uma mulher para me aproveitar, Della – disse ele com total confiança e sem nenhuma arrogância. – Na realidade, nunca preciso me aproveitar delas. Ela não tinha dúvidas de que era verdade. Acabara de conhecer o homem e já estava tendo pensamentos e vontades que não deveria ter. – Então, o que deixou você tão famoso? Ele se curvou à frente, apoiando os cotovelos na mesa. – Por onde começo? E, o mais importante, você tem a noite toda? Uau.


Sem saber o que dizer, ela ergueu a taça para tomar mais um gole. Já estava começando a sentir um leve e agradável torpor. Como se ele tivesse percebido o rumo que os pensamentos dela haviam tomado, Marcus esticou a mão pela mesa até que seus dedos tocassem os dela. Uma faísca percorreu Della, mesmo com aquele simples e inocente toque. E, quando a mão dele subiu sobre a dela, essa faísca se transformou numa chama. – Porque, se você tiver mesmo a noite toda, eu ficaria muito feliz em ilustrar tudo muito minuciosamente para você. Uau novamente. E mais um gole. O que ela ia dizer mesmo? Algo sobre precisar voltar para casa por já ser quase meia-noite. Della buscou palavras que a libertassem daquela situação, mas nenhuma lhe ocorreu. Provavelmente, porque sua mente estava totalmente dominada por imagens dela e Marcus. Ele era mesmo incrivelmente sensual. E fazia tanto tempo desde a última vez que ela estivera com alguém que a excitava como ele. E, certamente, ela demoraria muito até encontrar alguém com quem quisesse ficar novamente. Não fazia ideia do que aconteceria quando Geoffrey não quisesse mais saber dela. Tudo o que Della tinha de certo era o agora. Aquele lugar. Aquele momento. Aquele homem. Aquele homem sexy, notório e disposto. Aquele homem ao qual ela não devia se permitir sucumbir. Aquele homem que a atormentaria pelo resto da vida. Aquele homem que, por algum motivo, ela ainda não conseguia deixar para trás...


CAPÍTULO 3

DELLA DESVIOU seu olhar do dele, obrigando-se a olhar para alguma coisa, qualquer coisa, que não fosse Marcus. Ela se flagrou olhando para as janelas das portas duplas que ficavam perto da mesa deles. A neve prevista começara a cair. Sendo nova-iorquina, Della estava acostumada com a neve. Contudo, naquele dia, havia algo de mágico na neve, como quando era criança. Naquela época, quando nevava, o bairro dela deixava de ser uma paisagem suja de concreto e se transformava num mundo branco, cintilante e encantado. A neve impedia que as gangues e os traficantes saíssem para as ruas. Assim, tudo o que Della via lá fora eram radiantes castelos brancos. Ao menos por um tempo. Que adequado nevar justamente naquela noite, quando ela estava desfrutando de uma aventura com um príncipe encantado que, quando criança, precisara inventar. – Está nevando – disse ela suavemente. Marcus se virou para acompanhar seu olhar, e se virou para Della novamente. Sua expressão indicava que, para ele, a neve não gerava a mesma fascinação. – A previsão é de até 15 centímetros – disse ele, parecendo decepcionado com a mudança de assunto. Ele baixou o olhar para as mãos deles, a dele sobre a dela. Com clara relutância, Marcus recolheu sua mão. Era o que ela queria, disse Della a si mesma. Uma mudança de assunto para mudar seus sentimentos, em vez de


mudar de ideia. Sendo assim, por que o recuo dele causara o efeito oposto? Por que ela queria que ele pegasse novamente sua mão, mas, desta vez, virasse-a, para que as palmas se tocassem e os dedos se entrelaçassem? Ainda assim, ele não recuou por completo. As pontas de seus dedos ainda tocavam as dos dela, e Della sentia o calor da pele dele. Precisou de todas as suas forças para não pegar novamente a mão dele. Era melhor assim, disse ela a si mesma. Aquele encontro era temporário. Uma conversa temporária. Tudo era temporário ali. Especialmente agora que a neve começara, ela devia ir embora. Dissera ao motorista de seu carro alugado que ficaria ali apenas até meia-noite. A hora já estava chegando. Ela precisava encerrar aquilo, fosse lá o que fosse, com Marcus e partir. Então, por que ela não estava fazendo isso? – Vamos ter neve o suficiente para bagunçar tudo – disse Marcus, desgostoso, dando a ela a deixa perfeita para se despedir. Infelizmente, ele acrescentou: – Ao menos ninguém vai ter que enfrentar a hora do rush para ir trabalhar. Aquilo a fez lembrar que o dia seguinte seria um domingo. Portanto, ela não precisaria acordar tão cedo assim. Devia aproveitar mais alguns momentos... – À tarde – continuou ele –, a cidade vai se transformar num bolo de gosma preta. A neve é um pé no... – Eu adoro neve. Acho linda. Marcus sorriu. – Parece a opinião de alguém que nunca teve que se movimentar nela – respondeu ele. Então, animou-se. – Mas, com essa dica, posso aumentar meu conhecimento sobre você. Agora, já sei que não apenas chegou a Chicago recentemente, mas também que veio de um lugar quente e ensolarado, que nunca teve que se preocupar com os contratempos da neve. Ela não falou nada para contradizê-lo. Não dizer nada não era o mesmo que mentir. Com o silêncio dela, ele sorriu de satisfação. – Acertei, não foi? Você veio de um lugar que é quente o tempo todo, não veio? Ah, se ele soubesse...


– Sim. Della se sentiu culpada por fazê-lo acreditar que ela era uma pessoa que não era na realidade. Por deixá-lo acreditar que aquilo iria a algum lugar... Mas ela tentou afirmar para si mesma que não estava fazendo esta última coisa. Nenhum deles estava prometendo nada um ao outro. Della nem sabia quais eram suas próprias intenções em relação a Marcus. Ele estava claramente interessado em compartilhar mais do que champanhe, frutas e queijos com ela. Estava esperando que ela lhe desse algum sinal de que também queria isso. E, embora houvesse uma parte nada pequena dela que estava interessada, havia outra que ainda se apegava à racionalidade, à sanidade, à fidelidade. Pois, embora sucumbir à sedução de Marcus não a tornasse infiel a outro homem, isso a tornaria infiel a si mesma. Ela não lutara para fugir de suas destruidoras origens e entrar numa das mais poderosas firmas de Wall Street acreditando em contos de fadas e dando asas a caprichos. Fizera isso sendo pragmática, trabalhadora e focada. Por outro lado, fora justamente isso que a obrigara a fugir da vida que ela lutara tanto para construir. E ali estava ela pensando novamente em coisas que não devia pensar naquela noite. Relembrando a dissolução de sua antiga vida e se preocupando com a indefinição da nova. Era o aniversário dela. O único dia do ano em que não havia problema em ser egoísta. Por ora, tudo o que importava era o momento. O momento era a única coisa certa para ela. Com mais um olhar para Marcus, se levantou e foi até as portas para ver a neve. Havia um pequeno terraço além delas, escuro por causa da hora e da fria estação do ano. Della conseguiu discernir o contorno de algumas mesas e cadeiras, tudo coberto pelo inverno. Devia estar nevando fazia mais tempo do que ela imaginara. Por outro lado, quando uma mulher se entretinha com um homem como Marcus, era difícil lembrar que havia outras coisas no mundo. Como se conjurado por aquele pensamento, ela sentiu Marcus atrás de si. Disse a si mesma que estava apenas imaginando que sentia o calor do corpo dele, mas aquele perfume... Era real demais. Maravilhoso demais. Empolgante demais. – Não estava nevando quase nada quando entrei – disse ela. – Estou


– Não estava nevando quase nada quando entrei – disse ela. – Estou surpresa com a quantidade de neve que já caiu. Por um momento, ele não disse nada, apenas continuou a emanar seu calor e sua inebriante fragrância. Por fim, em voz baixa, ele falou: – A neve não foi a única coisa surpreendente esta noite. Ela não podia discordar. Entretanto, por mais inesperado que Marcus tivesse sido, sua presença parecera perfeitamente certa. O príncipe encantado era a única coisa que estivera faltando no plano de Della, digno de um conto de fadas, para aquela noite, mesmo sendo um completo desconhecido. Por outro lado, ele não era um desconhecido de fato. Eles já se conheciam fazia horas. De certa forma, haviam compartilhado um ótimo jantar, uma ópera espetacular, uma boa conversa e toques delicados. Haviam arrancado sorrisos e gargalhadas um do outro. Um fizera o outro... sentir coisas. Della gostava de Marcus. Ele gostava dela. Isso os tornava algo mais do que desconhecidos, sem dúvida. Impulsivamente, ela testou a maçaneta e descobriu que estava destrancada. Outra surpresa. Ou talvez mais magia. Incapaz de evitar, Della abriu a porta e saiu rapidamente para o terraço, virando-se lentamente na neve que caía. – Della – protestou Marcus de dentro –, o que está fazendo? Está gelado aí fora. Estranho, mas ela não estava sentindo frio. Pelo contrário, estar com ele a aquecia até a alma. – Não consigo evitar – disse ela ao parar de girar e ficar de frente para ele. – É tão bonito. E tão silencioso. Ouça. Com a neve, os sons da cidade eram abafados, mas a própria neve parecia fazer um suave som ao cair. Relutantemente, Marcus enfiou as mãos nos bolsos da calça e saiu para o terraço, balançando a cabeça. – Você é pior que uma criança – disse ele. Mas estava com aquele delicioso sorriso novamente. Quando ele se aproximou, Della se afastou até ficar encurralada no canto mais distante do terraço, longe da porta. Quando suas costas tocaram a parede, o movimento deslocou um pequeno monte de neve em algum ponto acima dela, fazendo-o cair em sua cabeça. Ela gargalhou ao balançar a cabeça


para espalhar os flocos de neve, soltando o pente que segurava seu cabelo preso. Marcus foi imediatamente até ela, escorregando um pouco no caminho e se segurando no parapeito para se equilibrar enquanto ria junto dela. – Estamos todos bagunçados – disse ela. Não que ela se importasse. Sua vida já vinha sendo uma bagunça havia um ano. Ao menos aquela bagunça estava sendo divertida. Ela estendeu a mão sobre o parapeito para deixar os flocos de neve se acumularem em sua palma. – Olhe só, Marcus – disse ela. – Como pode não achar isso lindo? Ele se acomodou no canto do terraço escuro. – Eu acho frio – corrigiu ele. – E você deixou seu agasalho lá dentro. Como um paladino, ele tirou seu paletó e o pendurou nos ombros dela. A peça quase a engolia, mas tinha o cheiro e o calor dele, e Della não conseguiu evitar puxá-la fortemente em torno de si. – Agora, é você quem vai ficar com frio – disse ela. – Não sinto frio desde o instante em que pus os olhos em você. Coisas pequenas como a neve e uma temperatura congelante não vão mudar isso. Della também não estava sentindo frio. Não que isso a tivesse feito devolver o paletó a ele. Era bom demais estar envolta por ele. Quase como se estivesse envolvida pelo próprio Marcus. Quase. Como se estivesse lendo, novamente, a mente dela, ele começou a se curvar à frente, baixando a cabeça na direção da dela. Sabendo que ele pretendia beijá-la, Della se virou rapidamente de costas. O motivo, ela não fazia ideia. Queria que ele a beijasse. Mesmo assim, ela não conseguia se permitir fazer isso. Não era a mulher que ele pensava. Della estava começando a ter dúvidas se ela era a mulher que ela mesma pensava ser. Logo seria outra pessoa. E, dali a poucas horas, ela e Marcus não passariam de uma lembrança agradável na mente um do outro. Que tipo de lembrança ela queria ser para ele? Que tipo de lembrança ela queria que ele fosse para ela? Marcus não lhe deu tempo de pensar nisso, pois, no instante em que ela se virou de costas para ele, ele envolveu a cintura dela com os braços para puxála para si. Seu largo peito ultrapassava os limites dos ombros dela, mas seu


longo torso se alinhava perfeitamente com o dela. Contudo, foi na base das costas que ela mais o sentiu, pois, ao puxá-la para perto, um corpo roçando no outro, ele despertou junto dela. O coração de Della disparou quando percebeu que ele estava ficando tão excitado quanto ela. O calor a percorreu quando ele baixou sua cabeça para a dela, a boca pairando ao lado de sua orelha. A respiração dele estava quente e úmida na pele dela. – Posso dizer que a neve não é maravilhosa – murmurou ele, sua voz ardente e exigente como o resto dele –, porque vi algo muito mais maravilhoso esta noite. Na realidade, você, minha intrigante Della, é absolutamente eletrizante. Em vez de responder, especialmente por temer o que poderia dizer e ainda mais o que poderia fazer, Della se curvou ainda mais na direção da neve que caía. Ela virou o rosto para a carícia do ar frio, esperando que ele fosse o antídoto de que ela precisava para conter as fervilhantes sensações dentro de si. Em vez disso, sua nova posição fez seu bumbum ficar pressionado de forma ainda mais íntima junto a Marcus, e ela o sentiu intumescer ainda mais. Della engoliu em seco, segurando fortemente o parapeito, com medo de suas mãos vagarem para outro lugar. Com seus pensamentos, porém, ela não teve tanta sorte, pois eles vagaram bastante, dizendo-lhe coisas que ela não queria ouvir. Coisas como o fato de que ela jamais conheceria outro homem como Marcus. Ela inclinou a cabeça para cima, recebendo de bom grado a suave cascata de flocos de neve, esperando que eles entorpecessem seu cérebro e a fizessem esquecer... ...tudo. Todas as horrendas lembranças de onde ela crescera. Todos os deploráveis sentimentos que ela tivera desde que descobrira a verdade sobre Egan Collingwood. Todos os momentos ansiosos que ela vivenciara desde que descobrira verdades ainda piores. Todos os terríveis calafrios de solidão que a haviam atormentado ao longo dos últimos 11 meses. Todos os motivos pelos quais ela não devia fazer exatamente o que queria com Marcus. Ele era o presente-surpresa de aniversário que o destino lhe dera. Novamente, como se tivesse lido os pensamentos dela, ele cobriu as mãos de Della com as dele, afastando-as, abrindo o paletó diante da frente do


vestido dela para poder deslizar os dedos entre as duas peças. Eles foram imediatamente para o abdômen dela. Ondas de prazer percorreram Della enquanto ele a tocava, e ela suspirou de deleite. Incapaz de se conter, se recostou nele, esticando as mãos para trás para enroscar os dedos no cabelo dele. Marcus usou aquela nova posição para atacá-la à vontade, cobrindo seus seios com dedos confiantes. – Ah – murmurou ela ao toque dele. – Ah, Marcus... Ele não respondeu, apenas baixou a cabeça para o pescoço dela, beijando. Uma das mãos massageava delicadamente o seio dela, enquanto a outra começou a se aventurar mais para baixo, percorrendo as elegantes curvas da cintura dela, da coxa, onde ele amontoou o tecido do vestido na mão. Devagar, ah... Tão devagar, ele ergueu a peça até que Della sentisse o frio e a neve em suas pernas, cobertas por meias-calças. Por causa do comprimento do vestido e do frio, ela usara meias que iam até o joelho, deixando as coxas nuas. Quando ela sentiu o frio em sua pele nua, arfou, não apenas pelo ar gelado, mas também por perceber como as coisas tinham avançado em pouco tempo. – Marcus – começou ela. Mas as palavras não pareceram determinadas a seus próprios ouvidos. – Shh – disse ele. – Só quero tocar em você. Sentir sua pele. Fazia tanto tempo desde que ela sentira o toque de um homem pela última vez! Della esquecera como era delicioso estar tão perto de outro ser humano. Esquecera como era essencial compartilhar a intimidade física com outra pessoa. Esquecera como isso podia ser maravilhoso. Marcus encontrou a parte inferior da calcinha dela e a afastou para o lado, passando seus dedos pelo centro úmido e quente de Della. Ah... Ah, Marcus... Ela também esquecera aquela sensação. – Você está tão molhada – murmurou ele no ouvido dela. – Della... Ah, querida... É como se você já estivesse pronta para que eu... Ele movimentou novamente seus dedos, fazendo-a gemer. Della segurou novamente o parapeito, passando as mãos de um lado para o outro, como se estivesse tocando no... Marcus a acariciou novamente, e, de alguma maneira, ela soube que ele estava observando o movimento das mãos dela, pensando o mesmo que ela.


Sentindo o mesmo. Querendo a mesma coisa. Ele acariciou novamente o pescoço dela com o rosto. Desta vez, mordiscando levemente, um ato que Della achou incrivelmente erótico. Em resposta, ela levou a mão atrás de si, em busca do cinto dele, abrindo tanto a fivela quanto o zíper da calça com dedos trêmulos. Por que não? Era o aniversário dela. Ela estava comemorando. Por que não desfrutar daquele homem como ambos queriam desfrutar um do outro? Quando Marcus percebeu o que ela estava fazendo, ele se afastou por tempo suficiente para ajudá-la a concluir a ação. Della começou a se virar, mas ele colocou firmemente as mãos na cintura dela e a segurou de costas para si. Por isso, ela esticou as mãos para trás e as colocou dentro da calça dele, encontrando-o nu, rígido e pronto. Marcus arfou, provavelmente, porque a mão dela estava gelada, mas Della as esquentou rapidamente. Segurando a pesada ponta do membro dele na mão, ela passou a palma por toda a extensão dele. Descendo. E descendo. Até perder o fôlego ao perceber como ele era magnífico. Baixando a mão da cintura dela, Marcus segurou novamente o tecido da saia. Só que, desta vez, foi pelas costas, e ele a ergueu acima da cintura dele. Quando Della se agarrou ao úmido parapeito, Marcus baixou a calcinha dela além dos joelhos. Della fez o resto, tirando-a por completo. Então, ele já estava se movimentando atrás dela novamente, colocando rapidamente um preservativo. Em seguida, com a neve caindo em torno dela, Marcus a penetrou por trás. Quando Della gemeu alto por ser penetrada tão profundamente, ele cobriu delicadamente sua boca com a mão. Então, começou a se movimentar dentro dela, retirando-se quase por completo antes de investir para dentro dela novamente, indo ainda mais fundo. Della precisou morder o lábio para ficar em silêncio, mas ele a recompensou com a mão entre suas pernas, tocando as úmidas dobras de sua carne. Claro, isso apenas a fez querer gemer alto novamente... Mas Della não fez isso. Apenas sentiu. Sentiu o calor em seu ventre ficar mais forte, deixando seu corpo à beira de explodir. Sentiu o homem atrás dela preenchê-la por diversas vezes, sentiu as inebriantes sensações de sede e


desejo. Então, sentiu a ardente liberação de seu clímax, que a atingiu, seguido imediatamente pelo dele. E ele logo estava se retirando de dentro dela, dando um nó no preservativo usado, arrumando as roupas deles da melhor maneira possível antes de virála para si e cobrir sua boca com a dele. Durante um longo tempo, ele apenas a beijou. Então, finalmente, recuou o suficiente para poder tomar o rosto dela nas mãos. Já estava nevando mais forte, o que os deixava envoltos por um tornado branco. Marcus estava arfante, assim como ela. Ele apoiou a testa na dela. – Nunca tinha me acontecido nada assim antes. Della, meu Deus. Você é viciante. Ela não soube ao certo como responder àquilo. Por isso, não disse nada. Apenas segurou a camisa dele com força, junto a si. Eles ficaram daquele jeito por um longo tempo. Della estava confiante de que ninguém lá dentro vira o que acontecera. O lugar não apenas já estava deserto àquela altura, mas eles dois tinham ficado ocultos pela escuridão e pela neve. Finalmente, Marcus recuou. Mas apenas para poder olhar nos olhos dela. Della esperava que ele lhe pedisse o paletó de volta e dissesse algo do tipo: “Nossa, já está tarde! Tenho que ir.” Em vez disso, ele entrelaçou delicadamente os dedos no cabelo dela e, em voz baixa, perguntou: – Sabe qual é minha coisa preferida no Windsor Club? Della apenas balançou a cabeça. – O fato de ser ligado ao Hotel Ambassador. Em noites assim, quando pode ser perigoso dirigir por causa do tempo, da escuridão e de um champanhe muito bom, você pode simplesmente... passar a noite lá. Não precisa pôr o pé para fora para chegar lá. Pode descer pelo hall e chegar à recepção em questão de minutos. E, graças ao seu status platinum club, logo pode estar numa suíte de luxo pedindo outra garrafa de champanhe. – Mas não tenho status platinum club no Hotel Ambassador. – Ah, é verdade. Você acabou de chegar de Chicago, não é? Sendo assim, acho que você precisaria estar com alguém que tivesse status platinum club. Ela sorriu. – E quem eu poderia conhecer que tivesse isso?


– Quer dizer que não seria problema você passar a noite no Ambassador? Comigo? Não tem nenhuma... obrigação em outro lugar? Apenas a de devolver suas roupas até o meio-dia e falar com Geoffrey até as 9h, como ela fazia todas as manhãs. E Della sempre acordava às 5h, mesmo sem alarme. Isso já estava incutido nela, pois o sr. Nathanson, o chefe dela, sempre insistira para que estivesse em sua mesa no mesmo horário em que ele, às 7h em ponto. Antes de todos chegarem. Na época, Della pensara que isso se devia ao fato de o homem ser viciado em trabalho. Se ela tivesse sabido que, na realidade, fora por ele ser corrupto... Ela voltou sua atenção para Marcus novamente. Ele era um presente, lembrou ela a si mesma. Uma noite com ele seria o presente de aniversário mais incrível de sua vida. – Não – disse ela por fim. – Não tenho nenhuma obrigação. – Ela levantou a mão para entrelaçar os dedos no cabelo dele, adorando a maneira como a neve o deixara úmido. – Só amanhã. Uma noite, Marcus – obrigou-se a dizer, pois era muito importante que ele soubesse que isso era tudo o que seria. E ainda mais importante que ela soubesse disso. – Uma noite é tudo o que posso prometer. – Uma noite é tudo o que peço, Della. Provavelmente, era tudo o que ele queria de qualquer mulher, pensou ela. Pois devia ser tudo o que um homem como ele poderia prometer em resposta. Aquela noite seria tudo o que ela planejara tantos anos antes. Uma noite. De magia. Seu presente.


CAPÍTULO 4

MARCUS ESTAVA diante da larga janela da suíte do hotel, de roupão azul, vendo a neve cair sem parar. Inacreditável. O que devia ter sido uma neve suave, de até 15cm de acúmulo de neve, se transformara numa nevasca durante a noite. Toda a cidade estava em modo suspenso até que as escavadeiras pudessem fazer seu trabalho. O que demoraria para acontecer. Ninguém iria a lugar nenhum até, no mínimo, o dia seguinte. Não que Marcus se importasse. Pois isso significava que a noite que Della lhe prometera se transformaria em duas. Sem dúvida, ela devia se importar com isso. A última coisa que ele procurava numa noite de sexo era que ela se prolongasse até a seguinte. Quando ele se satisfazia de uma mulher, não havia motivo para continuar perto dela. Com Della, porém, mesmo tendo se saciado pela terceira vez, ele não perdera o apetite. Os dois haviam sido insaciáveis na noite anterior, a ponto de dormirem apenas o suficiente para se recuperarem do ato sexual anterior e, em seguida, recomeçarem. Naquela terceira vez, eles tinham precisado usar unicamente carícias orais para levarem um ao outro ao clímax, pois a segunda vez fora pesada demais. Della fora exigente e selvagem como uma tigresa, e Marcus montara nela como um felino da selva possuiria sua companheira.

E nem mesmo isso fora suficiente para saciá-lo. Na realidade, apenas o


E nem mesmo isso fora suficiente para saciá-lo. Na realidade, apenas o fizera querê-la mais. Quando ele acordara naquela manhã ao lado dela, os corpos deles estavam tão entrelaçados que Marcus mal conseguira saber onde o dela terminava e o dele começava. Ele nunca dormia com uma mulher depois de fazer sexo. Jamais. E certamente nunca abraçara uma mulher de forma tão íntima, com um sentimento tão possessivo. Por um longo tempo depois de acordar, ele simplesmente ficara deitado em silêncio ao lado dela, abraçando-a, ouvindo a suave respiração dela, inspirando seu perfume. E Marcus ficara novamente excitado, precisando de toda a sua força de vontade para não possuí-la novamente enquanto dormia. Em vez disso, ele saíra da cama com cuidado para não acordá-la, vestira o roupão e chamara o serviço de quarto. Ele deu as costas à janela, soltando a cortinas, o que lançou o quarto na escuridão criada pela pesada neve. Ele adorava o luxo discreto do Ambassador, a mobília feita sob encomenda. Ele quisera uma suíte maior, mas não houvera nenhuma disponível. Isso não lhe parecera um problema, já que sabia que ele e Della precisariam do lugar apenas por algumas horas. Agora que a estadia deles parecia que se estenderia por boa parte do final de semana, teria sido bom ter um pouco mais de espaço. Ele olhou para a cama, onde ela ainda dormia, e sorriu. Por outro lado, havia vantagens em lugares apertados. Della estava deitada de bruços, os lençóis cor de marfim enrolados na parte inferior do corpo dela, suas costas e seus ombros claros e desnudos. Ele se aproximou da cama. O cabelo dela fluía como um rio de mel pelo travesseiro. Seus lábios estavam inchados da ferocidade dos beijos deles, seu rosto, rosado pelo atrito da barba dele. Ele se recordou de quando segurara punhados daquele cabelo nas mãos enquanto a possuía na noite anterior, alisando-os de volta em seu lugar quando os dois haviam ralentado os movimentos depois do clímax. Ele estava prestes a se virar de costas para servir duas xícaras de café quando ela começou a despertar. Lentamente, murmurando levemente, ela inspirou fundo. De olhos ainda fechados, Della rolou de lado e esticou os braços acima da cabeça. A ação fez com que os seios dela fossem exibidos da melhor maneira possível, deixando rígidos seus rosados mamilos. Então, ela


esticou as pernas, o lençol caindo quando ela as afastou, deixando visível os pelos loiro-escuros entre suas pernas. Novamente, o corpo de Marcus despertou apenas por olhá-la. Ela era totalmente perfeita, uma beleza tão imaculada e pura que ele quase desejou não tê-la manchado. Quase. Incapaz de evitar, ele se curvou na direção dela e passou o dedo do meio pela panturrilha de Della. Ela gemeu levemente em resposta ao toque dele, abrindo um sorriso muito tentador, mas não abriu os olhos. Por isso, Marcus subiu mais com o dedo, passando pelo joelho, percorrendo a coxa. Della arfou um pouco dessa vez. Em seguida, fez um grave e erótico som. Ainda assim, ela não abriu os olhos. Então, Marcus se curvou sobre a cama, levando o dedo à parte interna da coxa dela, para mais perto da junção das pernas. Della, por sua vez, afastou mais as pernas. Marcus sorriu, levando a mão aos sedosos cachos que ocultavam o centro feminino dela. Durante longos segundos, ele a acariciou com movimentos leves e lentos, passando os dedos pelas dobras quentes e úmidas da carne dela. Propositalmente, ele evitou o maravilhoso ponto que a faria perder o controle, mas passou perto dele uma ou outra vez, apenas para ouvi-la inspirar fundo e grunhir de prazer. Quando ele se afastou novamente, deslizou um dos dedos para dentro dela com delicadeza, pois ela ainda devia estar dolorida da noite anterior. Quando Della ergueu os quadris do colchão para tomá-lo mais profundamente, Marcus recolheu o dedo, reinserindo-o novamente em seguida. E outra vez. E mais outra. Quando ele soube que ela estava à beira de se descontrolar, utilizou também seu polegar, massageando o doce ponto dela. Della começou a contorcer loucamente seus quadris com aquele ataque. Os dedos dele estavam cobertos pela essência dela. Com um último movimento, ele a levou ao clímax, fazendo-a gemer alto. Della arqueou o corpo uma última vez, descendo para a cama lentamente em seguida. Marcus passou a mão pelo torso nu dela, contornando um dos mamilos e, em seguida, o outro, antes de levar a mão às delicadas linhas do pescoço dela. – Bom dia – disse ele. Ela ainda estava arfante e trêmula.


– Ah, sim. Um dia muito bom. Eu poderia acordar assim todas as manhãs. Aquelas palavras deviam tê-lo deixado em pânico. A última coisa que ele queria era ouvir que uma mulher queria incluí-lo em seu cotidiano. Em vez disso, ele se flagrou gostando da ideia de acordá-la daquela maneira todos os dias. Sem dúvida, porque qualquer homem que começasse seu dia sabendo que levara uma mulher ao clímax teria uma sensação de poder e bem-estar. Sem falar no convencimento. Aquilo não tinha nada a ver com simplesmente desfrutar de um momento íntimo com uma mulher excepcional. – Tem café da manhã – disse ele. – Eu não sabia do que você gostava. Por isso, pedi um pouco de tudo. – Café – disse ela, ainda um pouco sem fôlego. – Puro – acrescentou ela quando ele estava prestes a perguntar como gostava, quase como se ela estivesse lendo sua mente. Isso também devia tê-lo deixado incomodado. Ele não queria que mulheres entendessem como seu cérebro funcionava. Especialmente porque poucas delas aprovariam os pensamentos dele. Contudo, ele até que estava gostando da conexão com Della e, estranhamente, não queria pensar em mais nada que não fosse ela. Por isso, disse apenas: – Café puro saindo. Quando ele terminou de servir duas xícaras e de tirar as tampas dos pratos frios que o serviço de quarto trouxera, Della já estava fora da cama, enrolada num roupão idêntico ao dele, parada diante da janela como Marcus estivera antes. – Parece uma nevasca lá fora – murmurou ela, incrédula. – Não parece. É uma nevasca – corrigiu Marcus ao parar ao lado dela e oferecer o café. Ela o pegou automaticamente. – Como vamos voltar para... casa? Ele percebeu a hesitação dela na última palavra. Outra pista de que ela estava apenas visitando a cidade. Mesmo assim, ela garantira a Marcus que ninguém daria por falta dela, ao menos não até aquele dia. Mas esses pensamentos o incomodaram muito mais do que deviam. Em primeiro lugar,


não devia se importar se Della tinha ligações com outro homem, já que Marcus não a queria para si permanentemente. Em segundo, ambos haviam querido e prometido apenas uma noite. Isso devia ter sido mais do que suficiente para satisfazer o desejo deles. O fato de ela estar em Chicago apenas temporariamente ou a possibilidade de que estivesse envolvida com outro homem não devia ter nenhum peso. Na realidade, isso devia ser uma garantia para Marcus de que não haveria compromisso entre eles. Por algum motivo, porém, Marcus não gostava da ideia de ela ser apenas uma visitante em Chicago. E gostava ainda menos da possibilidade de ela estar envolvida com outra pessoa. Ele estava ilhado pela neve com uma mulher deslumbrante e incrivelmente sexy. Por que ele estava pensando nisso? – Ninguém vai a lugar nenhum hoje – disse ele antes de tomar um gole de café. – Nem mesmo as escavadeiras vão conseguir sair até que a neve diminua. Della se virou para olhá-lo, aquela estranha expressão de pânico retornando a seus olhos. – Mas não posso passar o dia todo aqui. Preciso ir para... casa. Novamente, a hesitação antes da última palavra. – Você tem que estar em algum lugar sem falta hoje? – Quando ela não respondeu imediatamente, apenas franzindo a testa de preocupação, ele completou: – Ou melhor, tem alguém esperando que você esteja em algum lugar hoje? Ela baixou o olhar. Basicamente a única reação de que ele precisava. Então, havia mesmo outra pessoa na vida dela. Alguém a quem ela teria que dar satisfações a respeito de qualquer ausência prolongada. – Um marido? – perguntou ele. O olhar dela se ergueu para o dele, lampejando de raiva. Ótimo. Raiva era melhor que pânico. A raiva se originava da paixão, não do medo. – Eu não estaria aqui com você se tivesse um marido me esperando. Marcus não soube por que gostara tanto daquela resposta. – E você? – rebateu ela. – Tem uma esposa esperando você em algum lugar? Ou ela já espera esse tipo de comportamento seu? Ele riu. – No dia em que eu tiver uma esposa me esperando em algum lugar,


– No dia em que eu tiver uma esposa me esperando em algum lugar, podem me jogar numa cela acolchoada. – Quando Della continuou insatisfeita com a resposta, ele disse diretamente: – Não sou casado, Della. Não tem ninguém me esperando. – Então, depois de hesitar por um instante: – Mas alguém vai ficar preocupado com você se você não voltar para... casa... hoje, não vai? – Ele fez uma pausa deliberada antes da palavra casa também, para mostrar a ela que percebera a própria hesitação dela. Della inspirou fundo e olhou fixamente para dentro da xícara, não para Marcus, ao falar. – No momento, casa é um conceito um tanto fluido para mim. – O que quer dizer com isso? – Não posso explicar. – Não pode ou não quer? Desta vez, ela olhou nos olhos dele. Mas seus olhos estavam inexpressivos. Sem pânico, sem raiva, sem nada. – As duas coisas. – Por quê? Ela apenas balançou a cabeça e tomou um gole de café. Em seguida, foi até o carrinho que continha o café da manhã para inspecionar as opções. Mas Marcus não conseguiu deixar de perceber como ela olhou o relógio enquanto andava, ou como seus olhos se arregalaram de surpresa quando ela viu a hora. Ainda não eram nem 8h. De um domingo. Parecia cedo demais para que alguém desse por falta dela. – Você pediu mesmo um pouco de tudo – disse ela. – Pães, bacon, linguiça, ovos, frutas... Ele pensou em dizer algo sobre eles precisarem repor as energias depois da noite anterior, mas, por algum motivo, pareceu uma grosseria fazer um comentário assim. Outro acontecimento estranho, pois Marcus nunca se preocupara com isso antes. Além do mais, sobre o que mais eles poderiam falar depois daquela noite? A reação deles um ao outro fora sexual desde o início. Eles mal haviam trocado uma dúzia de palavras entre o momento em que haviam saído do Windsor Club e acordado naquela manhã... A não ser as palavras maliciosas e excitantes que eles haviam murmurado, dizendo o que queriam e o que fariam um com o outro. Eles tinham passado 90 por


cento do tempo flertando e copulando. O que eles poderiam dizer um ao outro que não envolvesse sexo? Ela pegou um pão doce e o colocou num dos pratos. Em seguida, depois de uma pequena pausa, acrescentou outro. E um terceiro. Em seguida, colocou alguns morangos e algumas fatias de melão. – Gosta de doces, é? – perguntou ele, enquanto ela lambia um pouco de glacê do polegar. – Só um pouquinho – disse ela, indo até a cama e colocando o prato e a xícara sobre o criado-mudo. Em seguida, acomodou-se na cama. Sem dúvida, aquilo era promissor. Marcus encheu o outro prato com ovos, bacon e uma rosquinha. Em seguida, pegou seu café e se juntou a ela. Percebendo a maneira como o roupão se abria o suficiente para revelar a parte superior dos seios dela, ocorreu a Marcus que nenhum deles tinha roupas para vestir que não fossem as da noite anterior, que não eram exatamente confortáveis. Fazer o quê? Ele a viu mordiscar um morango e se perguntou como poderia achar tão excitante um ato de tamanha inocência. – Bem, já que não quer me dizer por que o seu conceito de casa é tão “fluido” – disse ele –, pode ao menos me dizer onde ela fica no momento? – Não. Ele pensou em continuar com aquele assunto, mas decidiu tentar outra abordagem. – Então, pode me dizer o que trouxe você a Chicago? – Não. Ele tentou novamente. – Pode me dizer de onde você é? – Não. – Quanto tempo vai passar aqui? – Não. – Para onde vai depois? – Não. – Sua idade? – Definitivamente, não.


– Você gosta de piña colada e de ser pega pela chuva? Ele não soube ao certo, mas achou que ela poderia ter sorrido ao ouvir aquilo. – Não especialmente. – E gatinhos felpudos, caminhadas na praia, carícias diante da lareira? Ela arqueou as sobrancelhas, confusa. – Ah, é verdade. Desculpe. Essa era a Miss Novembro. Errei. A expressão dela se abrandou, mas Della não disse nada. – Qual é seu signo? – Marcus tentou novamente. Aquilo finalmente a fez sorrir. Não um sorriso grande, mas não foi nada ruim. – Sagitário – respondeu ela. Isso dizia muito a respeito dela, pensou Marcus. Ao menos diria, se ele soubesse algo sobre astrologia. Mas já era alguma coisa. Pessoas de sagitário eram as que nasciam em junho, certo? Ou seria outubro? Março? Certo, certo. Ele continuava sem saber nada sobre ela. No entanto, ele sabia que ela estava dizendo a verdade. Marcus não sabia por que, mas acreditava que Della não era uma mentirosa. Era apenas uma mulher que não queria revelar nada de significante a respeito de si mesma. Contudo, aquela mulher era uma página em branco; poderia ser qualquer pessoa. Mas isso também não estava certo, pensou ele. Havia muitas coisas que ele sabia a respeito de Della. Ele sabia que ela adorava uma forma de arte esotérica que a maioria das pessoas da idade dela nunca nem mesmo experimentara. Ele sabia que ela chorava em todas as partes tristes de uma ópera e que ficava maravilhada com os detalhes da música. Marcus vira todas essas reações no rosto dela quando a observara na noite anterior. Sabia que ela gostava de champanhe. Sabia que ficava encantada com a neve. Sabia que ela gargalhava facilmente. Sabia que se sentia confortável usando vermelho. Tudo isso dizia muito a respeito de uma pessoa. E ele sabia que ela vinha de uma família com dinheiro, mesmo que, no momento, estivesse sobrevivendo à custa de alguém. Não fora necessário inspecionar as joias ou a marca das roupas dela para saber disso. Ela era inteligente, confiante e articulada; claramente educada em escolas excelentes.


Ela se movimentava com sofisticação e elegância, estando óbvio que fora criada por pais que davam importância a isso. Não que riqueza e refinamento fossem responsáveis por tudo o que Della era. O próprio Marcus sabia disso por experiência própria. Ele fora expulso de todas as caríssimas escolas particulares em que seus pais o haviam matriculado até que o pai dele finalmente tivesse subornado o diretor da última delas com uma imensa contribuição para a construção de um novo centro multimídia. Essa mesma contribuição comprara o diploma de Marcus, já que as notas dele não tinham sequer chegado perto de lhe garantir isso. Não por ele não ser inteligente, mas por não se importar. Quanto à sofisticação e elegância, quando adolescente, ele se esforçara para não ter nenhuma das duas coisas, envergonhando sua família em todos os eventos da alta sociedade. Ele atacara armários de bebidas, pilhara carros e estragara debutantes... com frequência, tudo na mesma noite... e ganhara uma ficha na política antes mesmo de completar 16 anos. Se não fosse Charlotte... Ele afastou aquelas lembranças e se concentrou em Della. Se não fosse por Charlotte, Marcus não estaria ali com ela naquele momento. E não apenas porque a ausência de Charlotte na noite anterior permitira que ele desse início a uma conversa com Della não uma, mas três vezes. Mas porque, se não fosse por Charlotte, Marcus estaria na cadeia ou estaria vivendo na pobreza, tendo sido deserdado por sua família. – O que você está pensando? A pergunta de Della o trouxe ao presente. Contudo, não era uma pergunta que ele queria responder. Com o silêncio dele, ela acrescentou: – Você pareceu bem distante. – Eu estava distante. – Onde? Ele olhou fixamente nos olhos dela. – Não vou dizer. – Por quê? – Como você não quer me dizer nada sobre você, também não vou dizer nada sobre mim. Por um instante, ele pensou que ela recuaria e lhe daria algumas respostas


Por um instante, ele pensou que ela recuaria e lhe daria algumas respostas para conseguir algumas dele. Em vez disso, Della assentiu e falou: – É melhor assim. Droga. – Para você ou para mim? – Para nós dois. Quanto mais ela falava, mais confuso e curioso Marcus ficava. Quem era ela? De onde viera? Para onde iria? Por que não queria falar de si mesma? E, por que, droga, ele queria tanto saber tudo a respeito dela? – Certo, se quer mesmo saber, eu estava pensando numa coisa do trabalho – mentiu ele. Ela não disse nada, apenas pegou um dos pães doces e o mordeu. – Não quer nem mesmo saber o que faço da vida? – Não. – Trabalho para uma corretora de títulos – disse ele, sendo propositalmente vago em relação a seu cargo lá, apesar de querer dizer muito a respeito de si mesmo. Mas não pelos motivos de costume. Geralmente, ele só se abria com uma mulher dizendo coisas pensadas para impressioná-la, para levá-la mais rapidamente para a cama. Contudo, ele já levara Della para a cama e continuava querendo impressioná-la. Isso era muito estranho. Ainda mais estranho era o fato de suspeitar de que a melhor maneira de impressioná-la era não se gabar de si mesmo. Ela estava engolindo quando ele falou de seu emprego, mas o pedaço de pão devia ter descido errado, pois começou a tossir imediatamente. Bastante. Marcus estava prestes a lhe dar uns tapinhas nas costas, mas ela levantou a mão para impedi-lo e pegou o café. Depois de alguns goles, ela ficou bem, embora seu rosto ainda parecesse um tanto pálido. – Engoli errado. Ele assentiu. E, quando teve certeza de que ela estava bem de fato, retomou a conversa. – Eu trabalho na... – Pare – disse ela, levantando a mão. – Não me diga o que você faz, nem onde trabalha. Por favor, Marcus. Nós combinamos. Sem sobrenomes. Sem compromisso. Sem passado, presente ou futuro.


– Também combinamos que seria só uma noite – lembrou ele –, mas, claramente, não vai ser esse o caso. Vamos passar pelo menos mais 24 horas ilhados aqui. Não há mal nenhum em nos conhecermos um pouco melhor. Pela expressão dela, Marcus percebeu que ela achava que havia mal nisso de fato. Ele nunca conhecera uma mulher cujo rosto fosse um livro tão aberto. Era possível descobrir muito a respeito de Della apenas olhando para o rosto dela. E o que Marcus descobriu agora foi que não ela não se abriria com ele. Mesmo assim, isso não significava que não pudesse se abrir com ela. – Trabalho na Fallon Brothers – disse ele antes que ela pudesse impedi-lo. Ele não acrescentou que o Fallon do nome da empresa multibilionária que o empregava vinha de seu tataravô e de seu tio-bisavô, nem que ele fazia parte da quarta geração do império Fallon, que, um dia, administraria a empresa, juntamente com seu primo Jonathan. Seria Marcus quem se tornaria o diretor executivo quando o pai dele se aposentasse no ano seguinte. Isso significava que ele trabalharia ainda menos do que trabalhava agora como vice-presidente, o que lhe permitiria viver ainda mais loucamente. – Marcus, por favor – disse Della novamente. – Não diga mais... – Moro na Lakeshore Drive – continuou ele, ignorando-a. Ele pegou o bloco e a caneta com a logomarca do hotel. – Vou anotar para você. Mas também tenho casas em Londres, Hong Kong, Tóquio e Aruba. Na realidade, em todas as grandes capitais financeiras. Quando ergueu o olhar depois de anotar o último dígito do número de seu celular, ele também anotara os telefones de seu escritório e sua cobertura... Della o olhava com consternação. Como ela ficava bonita quando estava consternada! – Desde quando Aruba é uma grande capital financeira? – perguntou ela. – Desde que gastei uma fortuna numa casa lá e gasto outra em rum toda vez que vou até lá. – Entendo. – Tenho 38 anos e sou de Chicago – acrescentou ele ao largar o bloco com seu endereço e telefone sobre o colchão, entre eles. Não que Della sequer tivesse olhado para eles. – Eu me formei em Administração em Stanford e fiz MBA em Harvard. Sim, sou um homem de negócios clichê, só que não me


formei com louvor. O que não significa que eu não seja bom no que faço – apressou-se ele a acrescentar. – Significa simplesmente que não sou acima da média e que encontro tempo para outras coisas além do trabalho. – Ele lançou seu olhar mais malicioso para ela, apenas para o caso de Della não ter entendido. Mas Marcus teve certeza de que ela entendera, pois corou. – Marcus, eu queria de verdade que você não... – Vejamos, o que mais posso dizer? Quebrei o braço num acidente de esqui quando tinha 8 anos, e o tornozelo aos 10. Tenho duas irmãs, mais velhas e casadas com homens que meus pais escolheram para elas. Minha cor favorita é vermelho. – Ele esperou que ela entendesse o significado daquilo e, novamente, ficou satisfeito quando a cor surgiu nas faces dela outra vez. – Minha culinária favorita é mediterrânea, especialmente a grega. Você já sabe sobre a ópera, mas minha segunda maior paixão é o vinho do porto. Meu signo é leão. E também não gosto de piña colada e nem de ser pego pela chuva. Quando ele finalmente terminou, a irritação de Della com ele estava quase palpável. Marcus a sentira crescendo enquanto falava. Ela passara o tempo todo quebrando seu pão doce em pequenos pedaços e os largando sobre o prato. – Eu queria de verdade que você não tivesse me dito essas coisas. – Por quê? – Porque, toda vez que descubro algo, isso torna ainda mais difícil esquecer você. Algo despertou dentro dele quando Marcus ouviu aquelas palavras, mas não soube dizer exatamente o quê. Não era uma sensação desagradável, mas também não era exatamente agradável. Era apenas... diferente. Algo que ele nunca sentira antes. Algo que demoraria um pouco para ser explorado. – Interessante – disse ele. – Porque não sei nem um décimo disso a seu respeito e sei que vai ser impossível esquecê-la. Ainda analisando o pão quebrado, ela fez uma careta, como se não tivesse percebido a destruição causada no pão. Della colocou o prato sobre o colchão, em cima do bloco de papel com as informações que ele anotara, mas Marcus teve quase certeza de que ela olhara o que ele escrevera antes de


cobrir. Com sorte, teria memória fotográfica. Com ainda mais sorte, aquele pedaço de papel sairia da cama para dentro da bolsa dela. A bolsa dela, pensou ele. Bolsas de mulheres eram notórias por conterem informações. Não que Marcus apoiasse esse tipo de coisa. Ele nunca se sentira inclinado a vasculhar a bolsa de uma mulher antes. Na realidade, isso era algo bem desprezível. Ele mal podia esperar para vasculhar a de Della. – Está bem – disse ela. – Eu digo algumas coisas sobre mim. Finalmente, eles estavam chegando a algum lugar. Aonde exatamente, ele não sabia. Mas já era um avanço. Nada nunca o impedira de ir atrás do que ele queria. E ele queria Della. Queria muito.


CAPÍTULO 5

DELLA TENTOU não perceber que Marcus parecera se aproximar dela durante a conversa. Contudo, ela não conseguiu evitar observar outras coisas. Como o fato de o cabelo escuro dele estar bagunçado pelo ato de amor deles e a barba rala que cobria seu rosto; duas qualidades que evocavam um ar de perigo em torno dele. Ou talvez tivesse sido o comportamento dela na noite anterior que fora perigoso. E também o fato de ela ainda estar com ele naquela manhã, sem ter como voltar para casa. Não apenas por ela estar correndo um risco maior de que Geoffrey descobrisse sua ausência, mas também porque ela estava começando a sentir coisas por Marcus, coisas que ela não tinha nada que sentir. Coisas que tornariam mais difícil deixá-lo quando essa hora chegasse. Ela nunca, jamais, devia ter se permitido sucumbir a seus desejos na noite anterior. Não aprendera do pior jeito possível que isso levava a problemas? Da última vez que ela se rendera tão facilmente a um homem, sua vida ficara despedaçada. E Egan não fora atraente e inesquecível como Marcus. – Sou da Costa Leste – disse ela. – Onde? – perguntou ele. Ela franziu a testa e repetiu teimosamente: – A Costa Leste. – Norte ou sul? – É tudo o que vou dizer, Marcus. Não pressione. Senão, não vou dizer mais nada. Ele abriu a boca para falar algo mais, mas a fechou novamente, claramente


Ele abriu a boca para falar algo mais, mas a fechou novamente, claramente nada feliz por ter que acatar a exigência dela. Della não sabia ao certo se devia dizer algo a respeito de sua família, especialmente porque ela não os via fazia anos. Mesmo quando todos haviam morado sob o mesmo teto, eles não haviam sido exatamente uma família. Era triste admitir isso, mas Della não sentia nada de verdade por nenhum deles. Mesmo assim, se Marcus queria informações, talvez fossem essas que Della devesse lhe dar, pois, emocionalmente, não lhe custariam nada. E elas poderiam enganá-lo, já que a maioria das pessoas mantinha contato com seus parentes. Por isso, ele poderia achar que ela não viajara para muito longe de sua família. – Tenho um irmão mais velho – admitiu ela. – E um mais novo também. – O primeiro fora embora aos 16 anos, quando Della tinha 14, e, desde então, não o vira. O outro, da última vez que ela tivera notícias, cerca de dez anos atrás, entrara para uma gangue. Aos 15 anos. Também não havia como saber onde ele estava agora. Nas raras ocasiões em que Della pensava em seus irmãos, tentava convencer a si mesma de que eles haviam sido motivados pelas mesmas coisas que ela. Que eles haviam saído do velho bairro e encontrado vidas melhores, como fizera. Às vezes, ela até mesmo acreditava nisso. Entretanto, em geral, temia que eles tivessem estragado as próprias vidas, também como fizera. – Sobrinhos? – perguntou Marcus. Ela apenas balançou a cabeça em resposta. Para Della, o gesto significava não sei. Para Marcus, poderia significar o que ele quisesse. – Alguma lesão sofrida quando criança? – perguntou ele, referindo-se à que ele mencionara. Della achou que não haveria mal em lhe contar a respeito de quando ela cortara seu pé com uma garrafa de cerveja quebrada num terreno baldio enquanto jogava bola e precisara levar pontos, mas isso nem se comparava a um acidente de esqui. Por isso, ela disse apenas: – Nenhuma que valha a pena ser mencionada. – Formação? Na Escola da Vida, quis dizer ela. Mas Della sabia que ele estava querendo


Na Escola da Vida, quis dizer ela. Mas Della sabia que ele estava querendo respostas específicas. Queria que ela fosse um tipo específico de mulher. O tipo que vinha da mesma sociedade que ele, que vivia e se movimentava naqueles círculos como ele. Não sabia ao certo se ele era do tipo de aristocrata que a desprezaria se soubesse as verdadeiras origens dela, mas, sem dúvida, ele ficaria decepcionado. Para Marcus, Della era glamourosa. Ele deixara isso claro. Ela era intrigante. Uma mulher misteriosa e erótica. A última coisa que ele queria ouvi-la dizer era que fora criada num bairro pobre, sem educação formal, que lutara para conquistar tudo o que tivera e que aprendera tudo o que sabia imitando os outros. Por isso, ela respondeu: – Sim, eu fui formada. Ele sorriu. – Não. Eu estava perguntando onde você est... – Minha cor favorita é azul. E minha comida favorita são fruits de mer. – A pronúncia dela em francês era tão boa quanto a dele fora em italiano na noite anterior, e Della se orgulhou disso. Infelizmente, fruits de mer era basicamente a única coisa que ela sabia dizer em francês. – Depois da ópera, minha maior paixão é... Ela parou abruptamente. Aquilo seria um problema. Pois, além da ópera, Della não tinha nenhuma outra paixão de fato. Ela nunca tivera a oportunidade de encontrar algo assim. Depois de conseguir seu emprego na Whitworth and Stone aos 18 anos, ela se concentrara totalmente em mantêlo. Fizera hora extra sempre que pudera, para conseguir dinheiro, e passara o resto do tempo tentando se aprimorar como possível. Lendo romances clássicos da biblioteca. Imitando a fala de atores em filmes. Pegando revistas encontradas na lixeira do edifício para se educar em relação à moda e etiqueta. A ópera fora a única indulgência que ela permitira a si mesma, tanto por amá-la quanto pelo fato de ela contribuir para a pessoa que Della queria ser. Ela não tivera muito mais para amar além disso. – Depois da ópera... – disse Marcus. Ela o olhou, contendo outra onda de pânico. Della nunca se sentira uma impostora tão grande quanto naquele momento. Realmente não tinha nada a


dizer. Pela primeira vez desde que deixara sua vida em Nova York, ela percebeu como sua vida estava totalmente vazia, como estava sozinha. – Depois da ópera... – Ela sentiu as lágrimas em seus olhos. Por favor, não. Tudo, menos isso. Ela não chorava desde criança. Não chorara quando as coisas haviam desmoronado em Nova York. Nem quando Geoffrey lhe dissera que ela teria que ir embora com ele. Nem durante os 11 meses desde então, quando precisara entregar sua vida inteira a outra pessoa. Por que agora? Por que ali? Por que diante da última pessoa que ela queria que a visse chorar? Della ergueu a mão para ocultar seu rosto e saltou da cama. – Com licença – disse ela apressadamente enquanto ia ao banheiro. – Acho que entrou um cílio no meu olho. – Enquanto fechava a porta, ela falou por cima do ombro: – Se não se importa, vou tomar banho primeiro. – Sem esperar uma resposta, Della trancou a porta e abriu o chuveiro no máximo. Então, pegou uma toalha e desabou no chão, colocando-a com força contra a boca. Não vou chorar. Não vou chorar. Os olhos dela ficaram úmidos. Por isso, ela os fechou com força. Não vou chorar. E, por algum milagre, Della conseguiu conter as lágrimas. NO INSTANTE em que Marcus ouviu o som da cortina do banheiro se fechando, ele foi até a cômoda onde Della deixara sua bolsa. A bolsa era minúscula, mas continha uma carteira de motorista, dinheiro e um celular, juntamente com um batom, uma escova de cabelo dobrável, um chaveiro de metal simples com uma única chave, de uma casa, não de um carro, e, curiosamente, um pen drive. Nada de cartão de crédito, percebeu ele, estranhando. O que significava que ela pagara por tudo na noite anterior em dinheiro. Interessante... Marcus olhou a carteira de motorista primeiro e viu que ela era do estado de Nova York. Portanto, ela fora honesta quando dissera ser da Costa Leste. Olhando mais atentamente o documento, ele viu que o nome completo dela era Della Louise Hannan e que tinha 30 anos. Na realidade, ela completara 30 anos no dia anterior. Sendo assim, a noite passada fora a comemoração


dela desse marco. O fato de ela ter comemorado sozinha o animou... mais do que deveria. Marcus olhou o endereço dela, mas ficava numa das ruas de número mais alto, fora das melhores partes de Manhattan, que ele conhecia como a palma de sua mão. Ele esperara ser capaz de identificar o endereço de Della, mas não ficava perto da Fifth Avenue e nem do Central Park. Ele o memorizou para investigar depois, guardou a carteira de motorista na bolsa e retirou o celular dela. Infelizmente, era um modelo muito simples que não continha um menu de fácil acesso. Por isso, ele precisou vasculhar um pouco para encontrar o que procurava; as chamadas recebidas e feitas. Depois de um instante, ele as encontrou e descobriu que todas tinham sido de uma única pessoa, identificada simplesmente como Geoffrey. Todo o otimismo que Marcus começara a sentir se dissolveu. Geoffrey podia ser um nome próprio ou um sobrenome, mas, por algum motivo, ele soube que era o nome de um homem. Marcus passou por mais algumas telas até encontrar a lista de contatos dela, indo até o G. Ele demorou um pouco para chegar. Della tinha dezenas de contatos, a maioria listada pelo sobrenome, mas alguns, a maioria mulheres, estavam identificados pelo primeiro nome. Finalmente, ele chegou a Geoffrey e clicou nele. Havia dois números listados, um de trabalho e um celular. O número de trabalho tinha código de área 312; o homem trabalhava em Chicago. O celular, porém, começava com 847, um número do subúrbio. Isso não revelava nada a Marcus. Muitas pessoas moravam nos subúrbios e trabalhavam na cidade. Ele lembrou a si mesmo que Geoffrey poderia ser um irmão ou um primo. Não havia motivo para pensar que fosse necessariamente um interesse romântico. A não ser pelo fato de ser a única pessoa com a qual ela mantinha contato, apesar de Della conhecer muitas outras. Contudo, era isso que alguns homens faziam, não? Isolavam a mulher que queriam de seus próprios amigos e parentes até que ela não tivesse ninguém além dele. Fosse lá quem o tal Geoffrey fosse, Marcus estava gostando cada vez menos dele. Ele percorreu mais algumas telas até encontrar uma que continha as fotos de Della. Não havia muitas, mas o suficiente para lhe dizer mais a respeito


dela. Várias eram de Della com três outras mulheres, todas mais ou menos da idade dela. Entretanto, Marcus levou alguns instantes para perceber que uma das mulheres das fotos era Della, pois estava diferente nas imagens. Seu cabelo estava curto e preto, não dourado e na altura dos ombros como agora. Mas por que ela cobriria uma cor como aquela? E por que o deixaria tão curto? Mulheres... A julgar pelo comprimento do cabelo dela agora, aquelas fotos deviam ter ao menos um ano. Em algumas, Della e as ouras mulheres estavam vestidas como executivas, sentadas a uma mesa com drinques diante delas, parecendo relaxar após um dia de trabalho. Certo, então, Della tinha um emprego e não era necessariamente a socialite ociosa que ele pensara. O que não significava que ela não viesse de família rica. Talvez até mesmo fosse cliente de alguma daquelas mulheres. Descendo pelas fotos, Marcus finalmente encontrou o que procurava. Fotos de Della, ainda de cabelo curto e escuro, sentada com um homem numa praia. Um homem que parecia ter idade para ser pai dela, mas de boa forma e aparência. Claramente muito rico. Claramente muito poderoso. Claramente casado. Marcus soube tudo isso a respeito do homem pois conhecia aquele tipo. Ele trabalhava e lidava com homens assim todos os dias. Muitos eram seus amigos. Aquele só podia ser Geoffrey. Quem mais seria? Ninguém mais, a não ser pelas amigas, estava identificado informalmente pelo primeiro nome na lista de contatos de Della. Ele foi até a lista de chamadas e viu que a última vez que Geoffrey telefonara para Della fora três noites atrás. A última vez que Della telefonara para ele fora na manhã anterior. E na manhã anterior àquela. E na outra. Ele continuou descendo. Ela telefonara para Geoffrey em todas as manhãs, dia de semana ou final de semana, sempre por volta das 9h. Fosse lá quem fosse Geoffrey, ele a estava monitorando. E se certificando de que fosse ela quem telefonasse para ele, não o inverso. Outra maneira de exercer seu controle sobre ela. Della não dera e nem recebera telefonemas de mais ninguém havia pelo menos três meses. O tal Geoffrey a desconectara de seus amigos e parentes por um longo tempo.


Teria sido por isso que ela fora a Chicago? Para fugir de seu amante abusivo? Mas, na noite anterior, ela lhe dissera que uma noite era tudo o que ela poderia lhe dar e telefonara para Geoffrey no dia anterior. Sendo assim, estava óbvio que aquele homem ainda não estava fora da vida dela. Marcus olhou a hora: 8h45. Dali a 15 minutos, Della precisaria dar seu telefonema diário obrigatório. Entretanto, apostaria que ela não o faria com ele presente. Ele planejara tomar um banho depois que ela terminasse, mas já estava pensando em esperar um pouco. Talvez até bem depois das 9h. Seria interessante ver como Geoffrey reagiria à falta de cooperação de Della. Talvez ele telefonasse para ela. E, sem dúvida, Marcus queria presenciar isso. Não por ele querer confirmar suas suspeitas de que Della tinha ligações com outro homem... Um pensamento que fez o estômago dele se revirar. Mas porque, se alguém a estivesse maltratando, fosse física ou emocionalmente, Marcus queria saber. Depois, ele descobriria o nome completo do homem. E o endereço. Para ir socar o homem até não poder mais assim que as estradas estivessem liberadas. Quando o chuveiro foi desligado, Marcus desligou a tela do celular às pressas e o devolveu à bolsa de Della. Rapidamente, ele pegou o jornal que fora trazido junto com o café e voltou à cama, fingindo ler. Quando Della saiu do banheiro, envolta novamente pelo roupão azul e secando o cabelo com uma toalha, ele já conseguira conter a ira que começara a sentir por aquele desgraçado chamado Geoffrey... Ao menos por ora. – O chuveiro é todo seu – disse ela. – Obrigado – respondeu Marcus sem erguer os olhos do jornal. Pelo canto do olho, ele a viu olhar o relógio. Faltavam poucos minutos para as 9h. A agitação de Della com a resposta morna dele foi clara. – Talvez... Hã... Seja melhor ir logo. A água quente pode acabar. – Ele levantou o olhar por tempo suficiente para vê-la inquieta. – Como ninguém deve sair hoje, deve ter muita gente usando o chuveiro. Ele voltou sua atenção novamente para o jornal. – Não creio que um hotel como o Ambassador permita que a água quente acabe. Não tem problema.


– Mesmo assim... – Primeiro, quero terminar de ler esta matéria sobre... – O que ele estava fingindo ler mesmo? Droga. Ele pegara a seção de Moda. – Esta matéria sobre a volta do... Hã... Do colar grosso de metal. Uau. Eles chegaram a sair de moda? E também tem uns artigos na seção de Economia que parecem interessantes. – Ele olhou para Della novamente e viu a expressão de pânico da noite anterior. – Não tenho nenhum compromisso mesmo. E faz tempo desde a última vez que pude ler um jornal relaxado. – Mas... Está bem. Sendo assim, eu vou... Hã... Secar o cabelo. – Apática, ela apontou por cima do ombro. – Tem uma escova na minha bolsa. Marcus assentiu, fingindo estar entretido com a seção de Moda. No instante em que ela se virou de costas, porém, ele ergueu os olhos a tempo de vê-la pegar tanto a escova quanto o celular na bolsa, guardando o telefone no bolso do roupão. Quando Della começou a se virar novamente, ele voltou imediatamente seu olhar para o jornal. – Quer saber? – disse ela subitamente. – Adoro gelo no suco de laranja. Então, vou até o final do corredor ver se tem uma máquina de gelo neste andar. Depois, pensou Marcus, ela se esconderia na escada de emergência para ligar para o homem que estava tentando controlar a vida dela. – Peça para o serviço de quarto trazer – disse ele, ainda olhando o jornal. – Não quero incomodá-los com isso. Devem estar ocupados levando o café da manhã para as pessoas. Desta vez, Marcus baixou o jornal. – Então, eu pego gelo para você. – Não – disse ela, um tanto rápido e hesitante demais. Della pareceu perceber o exagero em sua reação, pois forçou um sorriso e falou: – Eu... Hã... Estou começando a me sentir enclausurada demais. Uma caminhada no corredor vai me fazer bem. – De roupão e descalça? – Ninguém vai ver – respondeu ela enquanto começava a se esgueirar na direção da porta. – Deve estar todo mundo dormindo até tarde. – Não se estiverem dando trabalho ao serviço de quarto e usando toda a água quente, como você disse.


– Você entendeu. – Nós não dormimos até tarde – ressaltou ele. – Sim, mas nós... – Ela parou abruptamente, claramente não querendo mencionar o motivo de eles terem acordado cedo. – Quero dizer... Mesmo que alguém me veja – disse Della, tentando uma abordagem diferente –, que diferença faz? É um hotel, domingo de manhã. Deve ter muita gente ainda descalça e de roupão. Não com uma nevasca lá fora, quis dizer Marcus. O único motivo de ele e Della não estarem vestidos era o fato de não terem roupas para vestir. Contudo, ele não ressaltou nada disso. Se ele continuasse tentando impedir que ela saísse do quarto, Della inventaria ainda mais motivos para sair. E, se ele a pressionasse, ela ficaria desconfiada. – Certo – disse ele, olhando novamente o jornal... e vendo tudo vermelho. – Não esqueça a chave. – Claro – respondeu ela ao pegar a chave. – Não demoro. Se ela pretendia cumprir essa promessa, pensou Marcus, as conversas dela com Geoffrey não deviam ser longas. Apenas o suficiente para que o homem se certificasse de que ela fazia o que ele mandava. Marcus esperou até a porta se fechar. Em seguida, foi em silêncio abri-la novamente, apenas o suficiente para poder ver Della descendo pelo corredor. Ela já retirara o telefone do bolso e estava discando. Impacientemente, ele esperou até ela fazer a curva no final do corredor para ir atrás dela rapidamente. Quando ele espiou além da curva do corredor, viu-a passar pela porta que levava à escada e a ouviu falando ao telefone. Contudo, ela estava falando baixo o suficiente para que ele não distinguisse nenhuma palavra. Por isso, ele foi às pressas atrás dela e parou diante da porta pela qual ela entrara, inclinando a cabeça para perto. Infelizmente, tudo o que ele conseguiu ouvir foram murmúrios incompreensíveis dela. Por isso, o mais silenciosamente possível, girou a maçaneta e entreabriu a porta, para ver que ela se sentara no primeiro degrau, de costas para ele. Então, Marcus abriu um pouco mais a porta. – É sério, Geoffrey, estou bem – dizia ela. – Não tem motivo para você vir até aqui. Você ficaria preso na neve.


Ele tentou discernir algo na voz dela que soasse temeroso ou acovardado, mas ela parecia bem. – Quero dizer, sim, a neve é um saco – continuou ela –, mas você nunca me deixa ir a lugar nenhum mesmo. Então, ela não devia mesmo estar na rua. As suspeitas de Marcus se confirmaram. – Encomendei coisas do supermercado esta semana – disse ela – e baixei alguns livros. Obrigada pelo e-reader e pela assinatura do serviço de filmes on-line. Ajudou bastante. Era o mínimo que aquele desgraçado poderia fazer, já que não permitia que ela fosse a lugar nenhum. – O quê? – perguntou Della. Então, riu levemente. – Não, nada do tipo. É a última coisa de que preciso. Em geral, comédias românticas. Preciso de algo leve, uma fuga. Ela fez uma pausa. – Certo, já que você quer saber, O diário de Bridget Jones, Simplesmente amor e Orgulho e preconceito. – Outra pausa. Ela riu novamente. – Sim. Adoro Colin Firth. Assim como a sua esposa, se você não se lembra. Não era nem um pouco a conversa que Marcus esperara ouvir dela com um homem casado que a mantinha basicamente como uma prisioneira. Entretanto, aquilo também não acabou com as suspeitas dele de que Della estava sendo controlada. Mas o que o incomodava era o fato de haver algo diferente na voz dela quando falava com Geoffrey. Uma casualidade, uma tranquilidade, uma falta de formalidade que ela não demonstrara com Marcus. O que diabos aquele homem significava para ela? Então, Marcus a ouviu dizer algo que o deixou gelado. – Olhe, Geoffrey, quanto tempo mais vou ter que viver assim? Você me disse que eu só precisaria fazer isso por seis meses. Isso foi há quase um ano. Você me prometeu que, se eu fizesse tudo o que vocês dissessem... Vocês? Geoffrey não era o único? Ela estava sendo dividida por um grupo? Ele ouvira mesmo aquilo direito? – ...que, depois, eu estaria livre. Mas ainda estou... O homem devia tê-la interrompido, pois Della parou de falar e ouviu


O homem devia tê-la interrompido, pois Della parou de falar e ouviu obedientemente. Ele a viu levar a mão à cabeça e afastar o cabelo com um movimento que indicava ansiedade. Ela fez alguns sons de consentimento e, em seguida, dobrou o corpo à frente, apoiando a testa na mão. Finalmente, claramente desanimada, e talvez um pouco amedrontada, ela respondeu: – Duas semanas? É todo o tempo que me resta? Até o quê?, quis berrar Marcus. Do que diabos ela estava falando? O que diabos aquele homem esperava que ela fizesse? – Então, vai acontecer mesmo – disse ela, claramente resignada. – Vou mesmo ter que fazer isso. Isso o quê?! – Não, eu entendo. Vou ter que ir até o fim. Quero dizer, não tenho escolha, tenho? – Outra pausa, e ela continuou: – Sei que prometi. E vou cumprir minha parte do trato. É que... não achei que seria assim, Geoffrey. Não achei que me sentiria assim em relação a tudo. – Mais suavemente, ela acrescentou: – Não achei que me sentiria assim comigo mesma. – Então, como Geoffrey aparentemente não ouvira a última parte, Della falou com inconfundível melancolia: – Não era nada importante. Deixe para lá. Nada importante. Marcus se sentiu um tanto nauseado. O que ela sentia a respeito de si mesma não era importante. Aquele homem a dominava tanto que Della sequer percebia como aquele relacionamento era desequilibrado e insalubre. Relacionamento? O que Della tinha com aquele homem era um trato. Ela própria dissera isso. E claramente era um trato ruim. Ao menos para ela. – Então, duas semanas – repetiu ela. – Tenho duas semanas para me preparar. Marcus detestava imaginar o que envolveria essa preparação. Ele a ouviu responder mais algumas perguntas de sim ou não e, em seguida, ouviu-a prometer que telefonaria na manhã seguinte, no horário de sempre. Depois, ouviu o som do telefone sendo fechado. Ele estava prestes a puxar a porta e correr de volta ao quarto antes que ela o flagrasse, mas ouviu outra coisa que o fez parar de imediato... O som muito fraco de um choro abafado.


Algo se contorceu dentro dele. Ele não estava acostumado a ouvir uma mulher chorar. Em geral, porque ele se certificava de se envolver com mulheres tão fúteis quanto ele. Obviamente, Della não era fútil. Obviamente, ela se importava com muitas coisas, como o envolvimento. Mesmo que ela estivesse envolvida com o homem errado no momento. Deixando de lado, por ora, o fato de que essa expressão se aplicava tanto a ele quanto a Geoffrey, Marcus abriu a porta e, em silêncio, entrou. Não soube por quê. Teria sido melhor para ele e para Della se ele tivesse voltado ao quarto e fingido não saber nada da conversa dela. Teria sido melhor se eles tivessem passado o resto do final de semana fingindo que não existia nada além daquele quarto até precisarem sair. Entretanto, quando ele a viu sentada no degrau, os braços envolvendo os joelhos, a cabeça apoiada nos braços, os ombros tremendo levemente, Marcus soube que não conseguiria fingir mais nada. Della ainda estava com o celular na mão, mas o aparelho caiu no chão quando começou a chorar mais forte, e ela não se deu o trabalho de pegá-lo. Em vez disso, ela se rendeu ao choro. Estava tão dominada pela desesperança que não fazia ideia de que Marcus estava atrás dela. Marcus não soube o que fazer ou dizer. Tudo o que ele pôde fazer foi ficar ali, sentindo-se impotente. Essa era uma ideia estranha para ele. Seus instintos lhe diziam para fugir antes que ela o visse, mas sua consciência, e ele ficou surpreso por descobrir que ela existia, ordenava que ele fizesse algo para fazer Della se sentir melhor. Hesitante, ele acabou avançando um passo, e outro. Quando Marcus estava baixando a mão para segurar o ombro dela, ela virou a cabeça. Quando o viu ali, seus olhos se arregalaram de pânico, e Della se levantou tão rápido que quase caiu escada abaixo. Marcus envolveu o punho dela com os dedos, enquanto ela se equilibrava, mas nenhum deles pareceu saber o que dizer ou fazer depois. Por um longo momento, eles simplesmente ficaram ali, em silêncio, entreolhando-se. Então, por fim, Della subiu para o patamar onde Marcus estava. Ele soltou o punho dela, mas enxugou uma lágrima da face de Della com o polegar. Ele não fazia ideia do que dizer. Ele, Marcus Fallon, a quem nunca haviam faltado palavras antes. Que belo cavaleiro de armadura reluzente ele estava


se revelando. Por outro lado, nunca quisera ser um cavaleiro de armadura reluzente. Não até aquele momento. – Você está bem? – perguntou ele levemente, entrelaçando os dedos no cabelo dela. Os olhos dela estavam imensos, deixando-a com uma aparência vulnerável e frágil. Ele sabia que Della não era nenhuma dessas coisas, e perceber que uma conversa com Geoffrey era capaz de fazê-la se sentir daquela maneira o fez desprezar ainda mais o homem. Della assentiu, mas não disse nada, apenas enxugou os olhos úmidos com as duas mãos. – Você não parece bem – disse Marcus. Ele pôs a outra mão na nuca de Della. – Estou bem – garantiu ela em voz baixa, não soando nada bem. Sabendo que seria inútil fingir que não a ouvira ao telefone, ele perguntou: – Com quem estava falando? Ela olhou para o telefone no chão e novamente para Marcus. – Até onde você ouviu? Marcus pensou em dizer que ouvira o suficiente para saber que ela estava se metendo com quem não devia, alguém que a obrigava a fazer algo que ela claramente não queria fazer, mas Marcus não tinha moral para dizer isso. Ela também não devia estar se metendo com ele. Não sendo do tipo de mulher que era, uma cujas emoções tinham um mínimo de profundidade. – Quase nada – mentiu ele. – Fiquei preocupado quando você não voltou. Então, vim procurar você. – Fiquei tanto tempo fora assim? Ele sorriu. – Alguns segundos já são tempo demais longe de você. Quando ela não retribuiu o sorriso, o dele desapareceu. – Então, com quem você estava falando, Della? –Ninguém importante. – Era com ele que você estava preocupada, achando que daria por falta de você hoje, não era? Della hesitou por um instante. Em seguida, assentiu.


– Mas não do jeito como... – Ela fez um som irritado. – Não do jeito como o quê? – Nada. – Ela se afastou dele e se curvou para pegar o celular e o balde de gelo, ainda vazio. Olhou no rosto dele, mas seu olhar se voltou imediatamente para a porta. – Podemos voltar para o quarto e esquecer que isso aconteceu? Quando ele não respondeu, Della o olhou novamente. – Podemos? Por favor? Ele cruzou os braços, dizendo a si mesmo que aquele gesto não era defensivo. Marcus Fallon não ficava na defensiva; era o ser humano mais ofensivo do planeta. – Não sei, Della. Podemos? Ela desviou o olhar. – Se você puder... Por algum motivo, ele duvidou daquilo. Pois, além de ser o homem que chamava Della de sua no momento, Geoffrey parecia do tipo que não permitiria que ela esquecesse de nada. Apesar disso, Marcus assentiu. – Certo. Vamos simplesmente esquecer que aconteceu. Ainda sem olhá-lo, ela respondeu: – Promete? – Sim. Quando ela o olhou novamente, não havia mais resquícios de tristeza. – Fico agradecida. Foi apenas então, quando ela soou tão formal, que Marcus se deu conta de que, por alguns momentos, ela fora tão familiar com ele quanto com o homem ao telefone. Agora, porém, sua voz estava reservada novamente. Quando ele a olhou, percebeu que essa reserva também estava na postura dela. Eles haviam voltado a fingir. Ele devia ficar aliviado com isso. Mas, por algum motivo, Marcus sentiu vontade de chorar.


CAPÍTULO 6

O CLIMA estava consideravelmente mais soturno quando eles retornaram. Della foi imediatamente até a janela e abriu as cortinas para confirmar seus piores medos. A neve estava caindo ainda mais forte agora do que quando acordara. Ela jamais conseguiria sair dali. Por outro lado, de que isso importava? Não havia nada de especial esperando por ela lá fora mesmo. Nada além de uma casa comum, cheia de mobília comum num subúrbio comum de Chicago povoado por famílias comuns. A área fora escolhida especificamente por não ter nada de especial. Della vinha vivendo ali fazia 11 meses, e até ela teria dificuldades de descrever como eram as casas de seus vizinhos. Era o último lugar onde queria estar, o último lugar onde ela deveria morar, o último lugar onde alguém pensaria em procurá-la. E claro, a intenção era essa. O que piorava tudo era o fato de ela ter sido expressamente proibida de interagir com qualquer pessoa ou pôr os pés fora da casa, a menos que isso fosse absolutamente inevitável, e jamais sem pedir permissão a Geoffrey primeiro. Até então, ele não considerara nenhum dos motivos dela absolutamente inevitável. Era por isso que ela saía às escondidas nas ocasiões em que teria enlouquecido se tivesse ficado dentro de casa. Por mais desconcertante que fosse estar presa ali com Marcus até o dia seguinte, uma parte dela estava empolgadíssima com isso. Ela nunca se sentiu


tão livre e desinibida como se sentia com ele. Nunca se comportara como se comportava com ele. Não apenas a parte de fazer sexo com um homem que ela acabara de conhecer, também pela imensa quantidade de sexo que eles haviam feito. E a carnalidade daquilo. Ela nunca fizera com outros homens o que fizera com Marcus na noite anterior. Com ele, porém, não se sentira reticente ou envergonhada. Algo quente e aconchegante borbulhou dentro dela, um misto de desejo e contentamento, de vontade e satisfação. Ela passara a noite inteira sentindo isso; geralmente, entre os momentos em que eles faziam amor, quando seus corpos estavam molhados e entrelaçados. Mas Marcus estava do outro lado do quarto agora, e a conversa deles na escada não fora nada gratificante. Mesmo assim, Della ainda se sentia daquela maneira apenas por estar no mesmo lugar que ele, sabendo que Marcus não a deixaria. Não ainda. Sendo assim, por que ela estava tão ávida por ir embora? Talvez fosse porque uma parte dela ainda sabia que aquilo não poderia durar para sempre e não via sentido em prolongar. Quanto mais aquilo se estendesse, mais difícil seria quando chegasse a hora de eles se separarem. E eles precisariam se separar. E logo. A fantasia que ela e Marcus haviam criado na noite anterior já devia ter terminado. Eles deviam ter se separado antes do amanhecer. Eles dois tinham obrigações que não envolviam o outro; Della com Geoffrey, e Marcus com a mulher anônima pela qual ele claramente ainda sentia coisas profundas. Mesmo que ele não estivesse mais “com” ela, como ele afirmava, estava claro que ainda gostava muito dela. Demais para haver a possibilidade de incluir uma pessoa nova em sua vida. E quanto ele ouvira da conversa dela com Geoffrey?, perguntou-se Della ao se virar e ver Marcus servindo outra xícara de café para si. Ela tentou se recordar se dissera algo que pudesse ter dado uma pista do que sua vida se tornara, mas estava confiante de que ele jamais suspeitaria da verdade. Pois a verdade era algo digno de ficção. Subitamente, Marcus ergueu o olhar e, quando a viu observá-lo, ergueu o bule e perguntou: – Quer? Uma pergunta comum de um homem que parecia ter manhãs como


Uma pergunta comum de um homem que parecia ter manhãs como aquela o tempo todo. Entretanto, Della conseguia sentir uma vibração emanando dele, algo que não era nada comum e típica. Era fria e distante, e Della tinha certeza de que fora gerada pela conversa deles na escada. As coisas entre eles seriam assim pelo resto do tempo deles juntos? Tensas, difíceis? Por favor, não. De alguma forma, eles precisavam recapturar a magia de antes. Ao menos por um tempo. – Sim – respondeu ela, embora seu estômago estivesse se revirando. Ela só queria algum tipo de conversa com ele que não fosse cheia de ansiedade. Ela foi até o carrinho do café da manhã, parando o mais próximo de Marcus que ela ousou, vendo-o servir o café. Ele tinha mãos magníficas, fortes, com dedos robustos e sem nenhum adorno. Olhando as mãos dele, jamais teria imaginado que ele trabalhasse para uma corretora de títulos. Ele tinha as mãos de alguém que as usava para algo que não apertar as teclas de um computador ou um celular durante o dia inteiro. – Você pratica algum esporte? – perguntou ela impulsivamente. A expressão dele foi de surpresa enquanto lhe entregava o café. – Achei que não quisesse saber nada sobre mim. Ah, sim. Ela não queria. Já sabia mais do que queria. Sendo assim, talvez não houvesse mal em saber um pouco mais. Ignorando a lógica sem sentido daquilo, Della falou: – Mudei de ideia. Ele entregou o café a ela com um suspiro de resignação. – Squash – disse ele. – Três vezes por semana. Com outro dos... – Ele parou, como se tivesse estado prestes a revelar algo a respeito de si mesmo, mas, desta vez, algo que não queria que ela soubesse. – Com um colega de trabalho. Por quê? – Suas mãos. Você tem boas mãos, Marcus. Não são as de alguém que trabalha num escritório. Os olhos dele pareceram escurecer quando ele ouviu aquilo, e Della lembrou que as mãos dele eram boas de outras maneiras também. Ela se virou de costas, afastando-se com as pernas trêmulas. Contudo, quando ela se deu conta de que estava indo na direção da cama, mudou rapidamente o


caminho para rumar para as duas cadeiras que ficavam uma de cada lado de uma mesa perto da janela. – Ainda está nevando – disse ela ao se sentar. – Talvez até mais forte que antes. Marcus foi até a janela, ergueu a cortina e a deixou cair em seguida. – Acho que podemos ligar a TV para ver quanto tempo esperam que dure. – Acho que sim. Mas nenhum deles fez isso. Eles apenas se entreolharam. Della sabia por que não fora ligar a televisão. E se perguntou se o motivo de Marcus seria o mesmo. Finalmente, ele se acomodou na outra cadeira. Cruzou as pernas com uma falsa casualidade, apoiou o cotovelo no braço da cadeira, acomodou o queixo na mão e, olhando nos olhos dela, perguntou: – Quem é Geoffrey? Della se sentiu como se tivesse levado um soco no estômago. Claramente, ele ouvira mais da conversa dela do que deixara transparecer. Ela se perguntou quanto. Perguntou-se acima de tudo como ela poderia explicar a Marcus seu relacionamento com Geoffrey. Não havia como ser vaga em relação a algo assim. Della lembrou a si mesma que não precisava contar nada a Marcus. Nem a verdade, nem uma farsa, nada. Ela poderia dizer que não era da conta dele, repetir o que eles haviam combinado, de não revelarem detalhes pessoais e mudar de assunto. Contudo, ficou surpresa ao descobrir que uma parte de si mesma queria contar a Marcus a respeito de Geoffrey. E não apenas Geoffrey, mas tudo o que a levara a conhecê-lo. Della quis contar a Marcus tudo sobre a confusão que começara no Ano Novo, trazendo consigo o pior ano da vida dela, os meses de medo e incerteza que haviam se seguido até o encontro dela com ele no restaurante. Quis lhe contar como passara 11 meses sem se sentir segura ou feliz. Quis contar a solidão que sentira. A desesperança e o medo. Ao menos até encontrá-lo no restaurante. Foi apenas então que Della se deu conta de que não sentira nada disso desde que conhecera Marcus. Pela primeira vez em 11 meses, talvez pela primeira vez em sua vida, ela se libertara da ansiedade, ficara agradavelmente relaxada. Ela passara as últimas


12 horas enclausurada numa bolha de plenitude, onde nada que pudesse lhe fazer mal poderia entrar. Tudo por causa de um homem cujo sobrenome ela sequer sabia. Mas também não podia contar nada disso a ele. Não podia dizer nada. Fizera praticamente um voto de silêncio em relação ao que acontecera em Nova York, e recebera a informação de que, se ela revelasse algo a alguém, isso poria tudo em risco. Assim, os últimos 11 meses se escondendo e ficando tão implacavelmente sozinha teriam sido em vão. Duas semanas, lembrou ela a si mesma. Fora esse o tempo que Geoffrey lhe dissera que ela precisava esperar. Só mais duas semanas. Depois, tudo seria revelado, e Della ficaria livre de todos eles. De Geoffrey, de Egan Collingwood, de seu chefe, o sr. Nathanson, e de todas as outras pessoas da Whitworth and Stone. E, mesmo que essa liberdade significasse perder tudo o que ela possuía agora e recomeçar do zero em outro lugar, mesmo que significasse que precisaria se tornar outra pessoa, ao menos tudo teria terminado. Ela estaria em segurança. Estaria livre. Só precisava aguentar mais duas semanas. Della abriu a boca para dizer a Marcus que Geoffrey não era da conta dele e mudar de assunto em seguida, mas acabou dizendo: – Eu esperava que pudéssemos esquecer o que aconteceu na escada. E você prometeu. – Fiz muitas promessas desde que conheci você. E não cumpri muitas delas. Acho que é melhor você saber isso a meu respeito. Sou ótimo em prometer. Péssimo em cumprir. Ela assentiu. – Bom saber. – O que não me torna uma pessoa ruim. Apenas mais humana. E também era um excelente lembrete, pensou Della. A afirmação de que ele não cumpria promessas ilustrava mais claramente por que ela não podia lhe contar mais nada sobre si mesma. Ela poderia acabar se tornando o assunto do próximo coquetel ao qual ele fosse. Não por ele ser uma má pessoa, como ele dissera. Mas por ser humano. E Della aprendera a não confiar na humanidade. – Então, quem é ele, Della? Ela hesitou, tentando lembrar novamente a si mesma todos os motivos


Ela hesitou, tentando lembrar novamente a si mesma todos os motivos pelos quais não podia contar a verdade a Marcus. – Geoffrey é um homem que... que, de certa forma... – Ela suspirou. – De certa forma, ele cuida de mim. Marcus não disse nada por um instante. Então, assentiu. Sua expressão ficou mais branda, e ele pareceu entender completamente. O que era impossível, pois a própria Della ainda não entendia completamente. – Quer dizer que você é a amante dele – falou Marcus de forma incrivelmente casual. – Tudo bem, Della. Sou adulto. Pode falar francamente comigo. Della demorou um momento para absorver o que ele estava dizendo. E não apenas por a palavra amante ser tão antiquada. Marcus achava que ela e Geoffrey tinham um relacionamento sexual. Que ele era um homem rico que dava dinheiro e presentes a ela em troca de favores sexuais. Que ela, Della Hannan, a única menina do bairro que estivera determinada a escapar daquele lugar sem usar o sexo como meio de vencer, estava ganhando a vida se vendendo sexualmente a quem pagasse mais. Ela devia se sentir ofendida. Em vez disso, quis rir. Pois, em comparação com a realidade de sua situação, o que ele pensava, por mais sórdido que fosse, era tão... tão adoravelmente inocente. Uau. Se ela fosse amante de Geoffrey, isso facilitaria demais a vida dela. Mas, em primeiro lugar, o homem era casado. Em segundo, tinha idade para ser pai dela. Em terceiro, ele parecia uma versão de 60 anos de Dwight Schrute. E, em quarto, ele jamais conseguiria sustentar uma amante tendo dois filhos na faculdade e uma filha que se casaria dali a seis meses. Afinal, agentes federais não eram das pessoas mais bem pagas do mundo. Provavelmente, Marcus achou que ela havia ficado ofendida, pois continuou rapidamente: – Olhe, Della, isso não faz diferença para mim. Sou a última pessoa que julgaria a maneira como outra pessoa vive a vida dela. Não considero sua situação triste, ruim, vulgar ou vergonhosa. Além do mais, eu também já... Hã... Sustentei uma mulher antes. Della não soube ao certo, mas quase parecia que ele estava prestes a oferecer esse posto a ela agora.


– O que estou tentando dizer é que não penso menos de você por isso. Às vezes, para sobreviver neste mundo, as pessoas precisam recorrer a métodos não convencionais. Isso não as torna menos humanas. De certa forma, até as torna melhores do que as pessoas que não precisam lutar para seguir em frente. Porque elas são... sobreviventes, Della. É isso que elas fazem. Elas... sobrevivem. E é isso que você é. Uma sobrevivente. Você é diferente e... está se mantendo no mundo e... está sobrevivendo. Você não é... – Amante de ninguém – completou ela, interrompendo-o. – Não é assim que Geoffrey cuida de mim, Marcus. Não temos nenhum relacionamento sexual. Quero dizer, Geoffrey é o sobrenome dele. Eu nem o chamo pelo primeiro nome. – Era Winston. Provavelmente, era por isso que ele pedia para que todos o chamassem por seu sobrenome. O alívio de Marcus foi quase palpável. Ela teria rido se ele não tivesse acertado uma coisa: ela estava mesmo sobrevivendo. E dependia da presença de Geoffrey em sua vida para conseguir isso. Della não podia dar a Marcus nenhum detalhe do que acontecera em Nova York, nem do fato de ela ser uma testemunha crucial num caso federal que envolvia o ex-empregador dela em Wall Street, a firma Whitworth and Stone, e seu ex-chefe, Donald Nathanson. Especialmente agora que ela sabia que Marcus trabalhava para a igualmente ilustre Fallon Brothers. Não seria improvável que ele conhecesse pessoas da Whitworth and Stone e frequentasse os mesmos círculos. Não que ela temesse que ele fosse denunciá-la, já que ninguém de lá sabia... ainda... da investigação que os federais estavam realizando. Para todos da Whitworth and Stone, Della parara de ir ao trabalho sem nenhum aviso por motivos pessoais que tornariam intolerável a realização de seu trabalho. Afinal, Egan Collingwood fora um dos mais destacados executivos da Whitworth and Stone. Ela não tinha como saber como Marcus reagiria à revelação de que ela, em seu cargo de assistente executiva de um dos vice-presidentes da firma, descobrira indícios de lavagem de dinheiro para grupos do exterior e mau uso de fundos de ajuda do governo. Della não podia contar a ele que passara duas semanas roubando arquivos, nem que contara ao FBI o que descobrira. Também não podia contar que eles a haviam colocado imediatamente no


serviço de proteção a testemunhas, tirando-a de Nova York para mantê-la em discrição até que pudesse testemunhar perante o júri. Certamente, ela não poderia lhe dizer que, depois que o julgamento terminasse, e Geoffrey acabara de lhe dizer que isso aconteceria dali a duas semanas, ela permaneceria sob proteção federal, por medidas de segurança. Embora sua vida não tivesse sido ameaçada e nenhum dos crimes tivesse sido violento, ser delatora não era exatamente o posto mais celebrado do mundo. Ela nunca mais encontraria emprego no mundo financeiro. E, embora isso fosse improvável, não havia garantias de que não houvesse retaliações contra ela. Alguns dos grupos para os quais a Whitworth and Stone desviara dinheiro haviam feito coisas bem terríveis em outras partes do mundo. Seria melhor que ela recomeçasse do zero com uma nova identidade, num lugar totalmente longe dos holofotes de que Marcus tanto gostava. A última coisa que Della podia permitir era que alguém a visse com ele e a reconhecesse. Seria ainda pior que ela fosse reconhecida depois de prestar seu testemunho, colocando muita gente poderosa atrás das grades. A realidade era que aquela situação com Marcus não poderia durar mais de um final de semana. Ele jamais abriria mão de seu amado estilo de vida esbanjador e exibido. – Mas, se Geoffrey não... sustenta você – perguntou Marcus –, quem é ele? Um parente? – Que diferença faz? Quando a neve parar, eu e você nunca mais vamos nos... – Eu só quero saber, Della. – Mas por quê? – Talvez porque você tenha se debulhado em lágrimas depois de falar com esse cara? Ah, sim. Havia isso. O que também assustara Della. Contudo, por algum motivo, durante a conversa daquela manhã com Geoffrey, ela começara a sentir exatamente quão sozinha estava. Durante 11 meses, Geoffrey fora o único vínculo dela com o mundo lá fora, ao menos até ela conhecer Marcus, e as conversas que tinha com ele nunca duravam mais do que o tempo que ele levava para saber se estava tudo bem com ela. Della sempre queria conversar por mais tempo, já que nunca podia falar com ninguém.


Simplesmente ouvir uma voz humana que não viesse de um dispositivo eletrônico. Todas as vezes, Geoffrey interrompia a conversa, pois não havia motivo para prolongá-la. Especialmente nos finais de semana, quando ele queria ficar com sua família. E Della sempre ficava isolada, esperando, sozinha. Naquela manhã, porém, depois de desligar, ela percebera que não precisava ficar sozinha. Naquela manhã, ela soubera que Marcus a estava esperando. Alguém que conversaria com ela. Alguém que compartilharia o café da manhã. Alguém que cuidaria dela. Que ficaria com ela. Que a tocaria. Ao menos por algum tempo. E pensar que teria essa intimidade, mesmo que temporária e superficial, apenas piorara a ideia de deixá-lo para trás. Della simplesmente não conseguira conter as lágrimas. Ela sentiu as lágrimas chegando novamente e expulsou esse pensamento para o canto mais distante e escuro de sua mente. – Também não é um parente. – Então, como e por que ele está cuidando de você? Ela suspirou, impaciente. – Acho que você não se contentaria com um “é complicado”, não é? Ele balançou a cabeça. – As instruções para montar uma ogiva nuclear são complicadas. A vida? Nem tanto. Ela conseguiu sorrir. – Acredite, Marcus, minha vida está muito complicada no momento. – De que jeito? Ela não poderia contar. Talvez se ele não tivesse o emprego que tinha. Talvez se não fosse um homem rico, se não estivesse atento ao mundo financeiro. Se fosse apenas um homem comum, com um emprego comum, que não entendesse como Wall Street funcionava... – Precisei ir embora do lugar de onde vim da Costa Leste porque... eu me meti em encrenca. – Você fez algo ilegal? – Não – garantiu ela rapidamente. – Nada do tipo. Mas... fui envolvida numa coisa... nada boa... sem querer. Por isso, Geoffrey encontrou um lugar


onde eu pudesse viver até que as coisas acalmassem. E ligo para ele todos os dias para avisar que estou bem. – Não parece complicado. Parece perigoso. Della abriu a boca para contradizê-lo. Então, percebeu que não poderia fazer isso sem mentir. A chance de ela estar em perigo era muito pequena. O principal motivo de os federais quererem escondê-la era para que ninguém da Whitworth and Stone percebesse que a firma estava sendo investigada. E também para garantir que Della cumprisse sua promessa de testemunhar. – Não é perigoso – disse ela. – Eles só querem garantir. – Eles quem? A polícia? Della balançou a cabeça, mas não explicou. Não era a polícia que a estava protegendo. Ao menos não em tese. Era uma instituição muito mais alta na hierarquia da autoridade. – Então, quem? – Não posso dizer mais do que isso. Só falei isso porque queria que você soubesse a verdade sobre Geoffrey. Eu não tenho... ligações com ele. Não desse jeito. – Você tem... ligações com alguém... desse jeito? Ela devia dizer que sim. Fazê-lo pensar que estava envolvida com alguém que significava muito para ela. Talvez isso tornasse mais fácil a separação deles quando a hora chegasse. Se Marcus pensasse que ela iria para casa, para outro homem, se pensasse que era fútil o suficiente para fazer sexo com ele estando envolvida com outro, seria mais fácil para ele deixá-la no passado e mantê-la lá. Se ao menos ela pudesse fazer o mesmo... Entretanto, sua maldita honestidade surgiu novamente. – Não tenho ninguém – disse ela. – Há muito tempo. Ela imaginava que tivesse sido por isso que se afeiçoara tão fácil e rapidamente a Marcus na noite anterior. Por ele ter sido a primeira pessoa com quem tivera contato direto nos últimos meses. A primeira pessoa que conversara com ela. Que sorrira para ela. Que gargalhara com ela. Que a tocara. Passara tempo demais sem satisfazer a necessidade humana mais básica: a de se associar a outra pessoa. Marcus a observou, pensativo.


– Então, se não foi nenhuma encrenca com a Justiça, que tipo de encrenca foi? – Não posso dizer mais, Marcus. – Por quê? – Porque... é complicado. Ele colocou sua cadeira diretamente de frente para ela. Em seguida, sentou-se perto o suficiente para que os joelhos deles se tocassem. Marcus pegou as mãos dela. – Olhe, existe uma boa chance de que eu possa ajudar você. Conheço muita gente na Costa Leste. Bons amigos. Gente em quem confio, que pode mexer uns pauzinhos. Alguns me devem favores. E, de outros, sei coisas que eles estariam dispostos a me fazer favores para que não viessem a público. – Não sei bem se isso bate com a minha definição de amigos. – Talvez não. Mas confio que eles vão fazer o que eu pedir. Muitos têm influência. Conhecem pessoas que podem resolver as coisas. E era justamente dessa rede de pessoas que conheciam outras que Della tinha medo. Sem querer, Marcus podia acabar revelando o segredo dela para pessoas que estavam sendo investigadas. Os amigos dele podiam ser amigos dessas pessoas também. Eram pessoas como ele, ricas, poderosas, que não queriam esse status comprometido. Trabalham no mesmo ramo. Ele podia até não querer ajudá-la se soubesse o que estava em jogo. – Você não tem como ajudar. Agradeço pela proposta, Marcus, mas não há como. – Como você sabe? – Eu sei. Ele a observou por mais um instante. – É porque você não confia em mim. Porque acabou de me conhecer e não sabe nada sobre mim. Mas não precisa ser assim, Della. Eu... – Não é isso. – E Della ficou surpresa ao perceber que era verdade. Ela confiava em Marcus. Apesar de ter acabado de conhecê-lo. E, depois de uma única noite, ela sabia mais sobre ele do que sobre muita gente que conhecia havia anos em Nova York. – Deve haver algo que eu possa fazer, Della – insistiu ele, quase suplicando. – Pensar em você metida em encrencas... Não é certo.


Incapaz de evitar, ela se curvou à frente e tomou o forte rosto dele na mão. – Você é um bom homem, Marcus. E é muita generosidade sua querer ajudar. Mas tenho que resolver isso sozinha. Eventualmente, as coisas vão melhorar, mas, por enquanto... Ela não completou. Especialmente porque, por enquanto, ela queria esquecer. Della tinha mais um dia e uma noite para passar com Marcus, ali naquele quarto de hotel, onde nada de fora poderia atingi-los. Por ora, só queria pensar nisso. Marcus cobriu a mão dela com a dele. Em seguida, virou o rosto para dar um leve beijo no centro da palma dela. O calor a envolveu com aquele gesto. Era tão meigo! Tão terno! Tão diferente da união deles na noite anterior. – Deve haver algo que eu possa fazer para ajudar – repetiu ele. – Por favor, Della. É só me dizer o que fazer. Ela passou a mão pelo cabelo dele, levando os dedos à testa, ao maxilar, à boca dele. – Você pode fazer amor comigo de novo – disse ela delicadamente. – Pode me abraçar e me tocar, dizer coisas sem sentido que nós dois sabemos que não são verdadeiras em nenhum lugar além deste quarto. Pode fazer com que eu me sinta segura e querida. Pode me fazer esquecer tudo no mundo, menos nós dois. Se fizer isso por mim, eu... Ela parou antes que dissesse eu vou amar você para sempre. Apesar de ter certeza de que ele saberia que seria um exagero, Della achava que não devia dizer aquilo. Ele sorriu, mas havia algo um tanto vazio naquele gesto. No entanto, seus olhos estavam escuros de desejo. – Se você insiste...


CAPÍTULO 7

SEM HESITAR, Marcus se curvou à frente, tomando a boca de Della com a dele, mergulhando as mãos no decote do roupão para envolver os ombros nus dela com os dedos, enquanto aprofundava o beijo. A pele dela estava quente e cheirosa do banho recente, ele abriu lentamente o tecido do roupão. Percorreu delicadamente o caminho até a base do pescoço com os dedos, indo até a nuca, entrelaçando-os no cabelo dela, como se quisesse manter sua mão ali para sempre. Ele desejou que eles pudessem ficar abraçados daquele jeito para sempre. Jamais se cansaria de tocá-la. Della pareceu sentir os pensamentos dele, pois suas mãos foram para o nó do roupão, abrindo-o antes de ela tomar o rosto dele nas palmas. Incentivado pelo silencioso convite dela, Marcus desceu com as mãos, passando o dorso delas na pele sensível acima dos seios dela antes de arrastar o dedo do meio pelo delicado vale entre eles. Della arfou quando ele curvou os dedos debaixo de um dos seios, erguendo-o. Ela abriu mais a boca, para convidá-lo. O último pensamento coerente de Marcus foi que ele estava reagindo a ela da mesma maneira como na noite anterior, entregando-se com uma velocidade e uma intensidade que superavam todas as outras reações, todas as outras emoções que já sentira. No instante em que ele a tocava, todo o resto deixava de existir. Della pareceu entender isso também, ou talvez estivesse sentindo o mesmo, pois logo se pôs a desatar freneticamente a faixa do roupão dele, para poder mergulhar as mãos lá dentro e explorá-lo. Os dedos dela perderam um


pouco a concentração quando ele começou a massagear delicadamente o seio dela, mas ela se recuperou rapidamente, empurrando o roupão dele para trás, abrindo-o ainda mais. Quando Marcus deu por si, ela já estava de joelhos diante dele, uma das mãos se fechando na grossa coxa dele, a outra se movimentando sobre o membro rígido dele. Ele quase explodiu com o contato, fechando os olhos e inspirando fundo, enquanto ela o tocava delicadamente. Durante longos momentos, ela lhe deu prazer daquele jeito, fazendo o coração dele disparar. E, quando Marcus sentiu a boca de Della se fechar em torno dele... Ah, Della... Quando os dedos dele se contraíram no cabelo dela, ela devia ter sentido como ele estava prestes a perder o controle, pois se levantou e pegou a mão dele, levando-o até a cama. Quando Della tirou totalmente o roupão dos ombros dele, empurrando Marcus para o colchão, ele foi de bom grado, observando com grande interesse enquanto ela também tirava o próprio roupão. Della se juntou a ele na cama, mas, quando tentou se virar de frente para Marcus, ele segurou os ombros dela, fazendo-a se virar delicadamente, colocando-a apoiada nas mãos e nos joelhos. Então, ele levou as mãos para os quadris de Della, ajoelhando-se atrás dela. Abriu as mãos sobre as costas dela, passando-as para cima e para baixo enquanto a penetrava lentamente. Em seguida, curvou-se à frente até que seu peito estivesse tocando totalmente as costas de Della. Ele tomou os seios dela nas mãos e os segurou por um instante, passando os polegares pelos mamilos rígidos, arrancando um selvagem som de dentro dela. Ele se retirou lentamente, investindo mais uma vez para dentro dela. Com força. Ela gemeu alto por ter sido penetrada tão profundamente e segurou o lençol com força. Marcus a preencheu novamente, com ainda mais força, despertando em Della uma reação ardente, erótica e exigente. Sendo assim, o que Marcus podia fazer se não obedecê-la? Ele nunca ficara com uma mulher que fosse tão desinibida com o sexo. Della comandava e se entregava de maneiras como nenhuma outra mulher já fizera antes. Ela montava nele, envolvia sua cintura com as pernas quando estava por baixo, exigia que ele a possuísse de joelhos, sentada, de pé. Quando eles finalmente se renderam ao clímax que os atingiu simultaneamente, ela estava curvada sobre a cadeira


onde eles haviam começado, enquanto Marcus a penetrava por trás novamente. Eles atingiram o ápice juntos, gritaram de satisfação juntos, retornaram do orgasmo juntos. Então, juntos, relaxaram, desabando na cadeira. Por longos momentos, eles ficaram ali, entrelaçados; Marcus na cadeira, Della no colo dele. Della abriu a mão no centro do peito de Marcus, e ele fez o mesmo com ela, percebendo como o coração dela estava acelerado, como o dele. Gradualmente, as batidas se ralentaram, também junto com as dele, até que assumissem um ritmo feliz e contente. Ao menos por ora. Marcus suspeitava de que não demoraria muito para que o desejo deles os dominasse novamente. Contudo, houvera algo diferente naquela união. Ele não sabia ao certo o que era, nem por que isso importava. Sim, o sexo fora ardente, intenso e carnal. Sim, eles haviam sido consumidos por uma paixão incontrolável. Sim, eles tinham dito e feito coisas que talvez não tivessem dito e feito com outros parceiros. Mas houvera algo mais, algo que Marcus também não tivera com outras parceiras. Não apenas uma desinibição, mas uma ausência de medo. Como se a união com Della fosse simplesmente uma reação natural a sentimentos que ele tinha fazia muito tempo. Marcus não sabia outra maneira de descrever isso, embora eles só se conhecessem fazia questão de horas. O sexo com Della parecia... certo. Como se tudo até então tivesse sido apenas um aquecimento. Marcus tinha certeza de que isso significava algo. Se ao menos conseguisse descobrir o quê... NO INSTANTE em que acordou, Marcus soube que Della fora embora. Apesar de ainda estar escuro dentro do quarto. Apesar de a fragrância dela ainda permanecer no travesseiro ao lado dele. Apesar de os lençóis ainda estarem quentes no lugar onde ela estivera. Talvez, se ele se apressasse, ainda conseguisse alcançá-la antes que chegasse ao elevador. Ou, se ela já tivesse entrado no elevador, talvez pudesse ser mais rápido e encontrá-la no saguão antes que saísse. Contudo, no instante em que esses pensamentos lhe ocorreram, ele soube que nada disso era verdade. Acordara por sentir que Della se fora


irrevogavelmente, que ele estava sozinho. Sozinho, refletiu Marcus ao se sentar na cama. Essa era uma condição conhecida, mas a sensação nunca fora aquela. Ele nunca se incomodara por viver sozinho, ou comer sozinho, ou trabalhar sozinho, ou fazer qualquer outra coisa sozinho. Pelo contrário, ele sempre preferira a própria companhia à dos outros. Bem, a não ser por Charlotte, mas isso acontecera porque ela também fora uma criatura solitária. Marcus nunca sentira que tinha muito em comum com as outras pessoas. Se ele quisesse companhia, era fácil encontrar. Sempre havia alguém para quem telefonar, algum lugar aonde ir. Mas ele gostava de ficar sozinho. Naquela manhã, não estava gostando. A ausência de Della o envolvia como uma carcaça fétida. Ele se levantou e vestiu o roupão, indo até a janela. Com o facho de luar que entrava pelo espaço entre as cortinas, ele vislumbrou um pedaço de papel sobre a mesa, entre as duas cadeiras, onde ele e Della haviam estado sentados poucas horas antes. Ele sentiu um aperto no peito ao pegar o papel, pois achou que fosse um bilhete dela. Entretanto, era o papel no qual ele anotara seus números para ela no dia anterior. Ela o deixara para trás. Porque queria deixar claro que não o procuraria. Ela dissera ter se metido em encrencas em Nova York. Marcus não conseguia imaginar em que tipo de encrencas uma mulher como Della poderia ter se metido. Contudo, se ela dissera estar encrencada, era porque estava de fato. E, se dissera que ele não podia ajudá-la... Bem, Della podia estar enganada nesse aspecto. Marcus amassou e jogou o papel sobre a mesa. Em seguida, abriu a cortina. O céu estava preto e límpido, pontilhado de estrelas. Sem se importar com o frio, ele abriu totalmente a janela e olhou para a Michigan Avenue. Ele nunca vira aquela rua deserta antes, a hora nenhuma, mas era como estava naquele momento, embora as escavadeiras já tivessem passado. Por algum motivo, Marcus olhou à direita e viu a lanterna vermelha de um carro fazendo a curva alguns quarteirões à frente. Outra luz, no teto, indicava que era um táxi. O táxi de Della. Ele soube disso como sabia seu próprio nome. Como sabia o nome dela também. Ele nunca se sentira tão agradecido por sua falta de decoro como naquele


Ele nunca se sentira tão agradecido por sua falta de decoro como naquele momento. Se ele não tivesse vasculhado a bolsa dela, não saberia nada a respeito de Della que não fosse o primeiro nome. Isso e a lembrança do final de semana mais inesquecível de sua vida. Marcus soube onde poderia encontrar Della Hannan. Talvez não em Chicago, mas em Nova York. E isso já valia muito. Contanto que ele conhecesse as pessoas certas. E Marcus, sem dúvida, conhecia as pessoas certas. Ele fechou a janela, pegou seu paletó, sentou-se na beira da cama e retirou o telefone do bolso dele. Ele e Della haviam desligado os celulares assim que haviam entrado no quarto, prometendo mantê-los desligados. Marcus cumprira a promessa. Agora que o curto interlúdio deles terminara, ele o ligou novamente. Uma dúzia de mensagens de voz estava esperando por ele. Ignorou todas e foi imediatamente para seus contatos, procurando até encontrar o que queria. Um detetive particular que ele contrata algumas vezes, mas sempre em relação a negócios. Mesmo assim, o homem tinha uma excelente reputação também em relação a investigações de natureza pessoal. Marcus estava prestes a descobrir se essa reputação era justificada. Depois de três toques, uma voz atendeu. Com um cabeludo palavrão, mas isso era de se esperar pela hora. – Damien, é Marcus Fallon. – Certo – disse Damien depois de uma pausa. – Do que precisa? – Dos seus serviços para algo um pouco diferente do que costumo contratar. – Sem problema. – Tenho um nome, uma descrição física e um antigo endereço na cidade de Nova York. Com isso, você consegue encontrar uma pessoa que está morando em Chicago agora? – Claro. – Consegue rápido? – Depende. – Do quê? – De se essa pessoa quer ser encontrada. – E se eu quiser muito encontrar essa pessoa? Levou mais alguns instantes para que o cérebro dele aquecesse o suficiente


Levou mais alguns instantes para que o cérebro dele aquecesse o suficiente para captar o significado daquilo. – Quanto? Marcus relaxou. Aquilo era o que ele fazia de melhor. Bem, além do que ele e Della haviam passado o final de semana fazendo. – Vamos negociar. DELLA FORA forçada a abandonar muitas coisas em sua vida, sua família, seus amigos e sua casa, quando fora embora de seu antigo bairro aos 18 anos. Empregos, escritórios e conhecidos à medida que ela subia no mundo corporativo, indo de um setor da Whitworth and Stone a outro. Uma vida nova que ela construíra para si em Manhattan. Ela logo deixaria para trás tudo com que se familiarizara em Chicago também. Mas ela não achava que seria tão doloroso abandonar essas coisas quanto seria abandonar o vestido vermelho, os sapatos de grife e as joias. Não por serem lindos e caros. Mas por serem as únicas lembranças que ela tinha do tempo passado com Marcus. Ao menos as únicas lembranças físicas, já que ela deixara para trás o papel no qual ele registrara todos os seus telefones. E ela estava se censurando por causa disso agora, apesar de ter memorizado todos eles. Teria sido bom ter algo que ele tocara, algo pessoal, com a própria caligrafia dele. E quando fora que ela se tornara tão sentimental? Em toda a sua vida, nunca quisera uma lembrança pessoal de ninguém. Nem mesmo de Egan Collingwood. Provavelmente, isso significava algo, mas Della se recusava a pensar no quê. Além do mais, ela tinha vários outras coisas para se lembrar de Marcus, pensou Della enquanto devolvia as coisas que alugara. Tinha suas recordações. Recordações que a atormentariam pelo resto da vida. A maneira como Marcus passara os dedos com tamanha sedução na borda de sua taça de champanhe. A maneira como os olhos castanhos dele pareciam brilhar como ouro quando ele ria. A sensação e o cheiro do paletó dele quando ele o pendurara nos ombros dela. A neve cintilando ao soprar em torno dele no terraço, caindo em seu cabelo escuro. A voz dele trovejando no ouvido dela quando murmurara promessas tão eróticas.


Mas, acima de tudo, ela se lembraria dele adormecido na cama antes de ela tê-lo deixado. Ele estivera deitado de lado, o braço estendido onde ela estivera deitada; Della acordara com ele pendurado sobre seu corpo. Marcus estivera banhado por um facho de luar. Seu cabelo estava bagunçado da última união deles, e sua expressão, pela primeira vez desde que ela o conhecera, estivera totalmente tranquila. Ele parecera... feliz. Contente. Satisfeito. Como se tivesse descoberto a resposta de alguma pergunta ancestral que ninguém entendia. Ela tentara escrever um bilhete para ele, tentara capturar com palavras escritas o que quisera tanto lhe dizer. Contudo, quando ela se dera conta do que queria dizer, Della rasgara o papel. Haviam sido palavras bobas, os sentimentos que ela começara a pensar que tinha por ele. Eram impossíveis. Não apenas por ela tê-lo conhecido menos de 48 horas antes. Não apenas por ele ainda estar apaixonado por outra mulher. Mas também porque Della não era do tipo de mulher que se apaixonava. – Pronto – disse Ava, a atendente da loja ao terminar de conferir tudo. – Se puder assinar aqui, confirmando que tudo foi devolvido em segurança, vou estornar a quantia do seu depósito de garantia. – Mas devolvi com atraso – disse Della. – Eu devia ter vindo no domingo de manhã. Não segunda. Ava fez um gesto deixando de lado aquela ideia. – Eu também devia ter estado aqui no domingo. Mas a Mãe Natureza teve outros planos para nós, não teve? Nem me fale... – Então, segunda-feira de manhã era a segunda melhor opção – continuou Ava. – Agradeço por ter vindo tão cedo. Sim, Della era assim. Sempre chegava na hora certa. Especialmente para coisas que bagunçavam sua vida. Se ela tivesse se atrasado cinco minutos para encontrar Egan no Réveillon, ela não o teria visto com a mulher que ela descobrira ser a esposa dele. Se tivesse se atrasado dez minutos para chegar ao escritório no primeiro dia do ano, não teria visto o memorando para seu chefe que desencadeara tudo. Ela ainda estaria vivendo sua vida abençoadamente alheia a tudo, em Nova York. Mesmo que ela acabasse


descobrindo que Egan era casado e mesmo que pedisse demissão por causa dele, ela logo teria encontrado outro cargo em algum outro lugar em Wall Street. Ainda estaria comprando seu café matinal no quiosque de Vijay, ainda estaria desfrutando dos sábados no Central Park, ainda teria a ocasional noite no Met, quando pudesse pagar. E nunca, jamais, teria conhecido Marcus. Della não conseguiu decidir se isso era bom ou ruim. O pensamento tradicional dizia que era melhor ter amado e perdido do que nunca sequer ter amado, mas Della não tinha tanta certeza. Talvez fosse melhor nunca saber o que se estava perdendo. Não que ela amasse Marcus. Mas... – Gostou de La Bohème, srta. Hannan? – perguntou Ava, trazendo Della de volta ao presente. Ela sorriu. – Foi maravilhoso. Não me lembro da última vez que aproveitei tanto uma noite. – Ou a madrugada que veio depois. Ou o dia seguinte. Ou a noite seguinte. – Nunca fui à ópera. Muito menos um evento de gala como uma estreia. Deve ter sido muito empolgante ter companhias tão refinadas num ambiente deslumbrante. Aquela afirmação surpreendeu Della, mas ela não soube o motivo. Certamente havia muitas pessoas, especialmente da idade dela, como Ava parecia ser, que não gostavam de ópera o suficiente para assistir ao vivo. Mas foi o comentário sobre o evento de gala e a qualidade arfante da voz dela que não correspondiam à afirmação. Ava tinha um inconfundível ar de sofisticação e riqueza que indicava que ela devia frequentar os mesmos círculos que iam a óperas e promoviam eventos de gala, com ambientes deslumbrantes. Em ambas as ocasiões em que Della encontrara Ava, a outra mulher emanara elegância e pedigree. Seu cabelo castanho-avermelhado estava preso num impecável coque, seus olhos verdes indicavam inteligência e sofisticação. Diante dela, do outro lado do balcão, Della teve mais ciência do que nunca de seu passado pobre. Ela se sentiu uma impostora. Estava claro que Ava Brenner vinha de família rica, algo que Della precisava fingir ter... sem


nunca pertencer a esses círculos. Della reconhecia todos os sinais, já que ficara cercada por pessoas como Ava em seu trabalho. Não pela primeira vez, ela se perguntou por que aquela mulher tinha uma loja como aquela. Provavelmente, era rica o suficiente para não precisar fazer nada, mas estivera na butique na tarde de sábado, quando Della pegara as roupas, e estava ali agora também, numa manhã de segunda-feira. Por algum motivo, isso fez Della baixar o olhar para a mão esquerda de Ava; nada de aliança. Ela se perguntou se Ava já teria amado e perdido e o que achava disso. Della expulsou esse pensamento. Mulheres como Ava podiam escolher o homem que quisessem. Ela era linda, inteligente, bem-sucedida e chique. Quando ela punha seus olhos num homem, ele não teria chance. Ele a amaria para sempre e a tornaria o centro de seu universo. Ela jamais se contentaria com uma única noite de sexo com um homem que ela nunca mais veria. – Espero que pense em nós da próxima vez que precisar ficar mais linda do que nunca – disse Ava. A próxima vez em que Della precisaria ter uma bela aparência seria quando testemunhasse perante o júri, dali a duas semanas. Um dos terninhos de sua antiga vida cumpriria perfeitamente esse papel. Mas, talvez em sua nova vida... Della expulsou também esse pensamento. Sua nova vida seria longe de Chicago. E as chances de ela usar algo da alta costura eram mínimas. Seriam apenas roupas profissionais, já que ela não faria muito além de se estabelecer num novo emprego, recomeçando do zero. Ela demoraria muito até receber o suficiente para retomar o tipo de vida que tivera em Nova York. E levaria ainda mais tempo para que ela confiasse o suficiente num homem para permitir que ele se aproximasse dela novamente. Não foi o que aconteceu com Marcus, comentou uma vozinha dentro da cabeça dela. Mas Marcus era diferente. Marcus fora apenas uma noite de sexo casual. Era fácil confiar em alguém que você sabia que jamais veria novamente. Sério?, perguntou a voz. Foi por isso que você quis ir para a cama com ele? Hã... Sim, respondeu Della.


Certo. Mas você está tentando enganar a si mesma, sabia? Calada, voz. – Tome cuidado lá fora – disse Ava. – A neve pode ter parado, mas ainda tem alguns pontos escorregadios na calçada. – Não se preocupe – respondeu Della. – Sei cuidar de mim mesma. E sabia mesmo. Ela passara a vida inteira fazendo isso. E as coisas não mudariam simplesmente porque teria que recomeçar sua vida. Especialmente porque não haveria nenhum Marcus no futuro dela. Homens como ele apareciam apenas uma vez na vida... Se aparecessem. Dali a duas semanas, Della estaria embarcando numa segunda vida. Uma vida na qual ela estaria novamente sozinha. Na realidade, na qual ela continuaria sozinha, pois Egan nunca estivera com ela de fato. Apenas uma vez em toda a sua existência, Della se sentira compartilhando sua vida, compartilhando a si mesma, com outra pessoa. E fora com uma pessoa que ela nunca mais veria.


CAPÍTULO 8

NOVE DIAS depois de devolver o vestido, Della ainda estava lutando para voltar à sua rotina. Agora que tinha lembranças de Marcus em sua mente o tempo todo, nada mais parecia rotina. A casa onde os federais a tinham acomodado era o que se esperaria da classe média, algo mediano: mobília em cores neutras, tecidos sintéticos, paredes brancas e obras de arte que podiam ter sido compradas numa venda de quintal num subúrbio. A falta de personalidade da casa apenas contribuíra para a sensação que Della tinha de estar presa, mas essa sensação piorava por causa de sua separação de Marcus. Os poucos dias que lhe restavam ali se estendiam como séculos. E Della estava com ainda mais medo do futuro do que antes. Antes, ela estivera preparada para encarar a vida sozinha e tivera uma considerável certeza de que conseguiria aguentar. Contudo, agora, ela sabia como poderia ser em outras circunstâncias. Maravilhosa. A vida com Marcus teria sido maravilhosa. Porque ele era maravilhoso. Nenhum outro homem jamais chegaria aos pés dele. Della suspirou. E lá estava ele novamente, predominante nos pensamentos dela. Ela disse a si mesma que só o considerava tão maravilhoso assim porque não sabia muito a respeito dele. Qualquer pessoa podia ser maravilhosa durante 36 horas num pequeno quarto sem ninguém olhando. O tempo passado com ele fora uma fantasia. Ele fora uma fantasia. Fora daquele quarto de hotel, Marcus poderia ser como Egan se revelara.

Afinal, como ela podia saber que Marcus não mentira a respeito de tudo?


Afinal, como ela podia saber que Marcus não mentira a respeito de tudo? Ele dissera que a mulher que ele estivera esperando não estava mais em sua vida, mas e se ele só tivesse dito isso para conseguir seduzir Della? Como ela poderia esperar que ele fosse completamente franco e honesto se ela própria não fora? Quando o conhecesse melhor, quando descobrisse que tipo de pessoa ele era na realidade... Mas como ela faria isso se nunca mais o veria? Se não sabia nem mesmo o sobrenome dele? Desse jeito, ele permaneceria como uma fantasia para ela e, com o tempo, ele se tornaria um amante e um homem ainda mais lendário. Então, nunca mais teria uma oportunidade de am... Ou melhor, ela nunca teria a oportunidade de apreciar alguém com quem ela pudesse ser compatível. Uma maneira de anular essa possibilidade lhe ocorreu fortemente. Ela podia não saber o sobrenome de Marcus. No entanto, sabia onde ele trabalhava. Na Fallon Brothers. A empresa devia ter milhares de empregados ao redor do país, mas Marcus não era um nome muito comum nos Estados Unidos, e ela podia concentrar sua busca em Chicago. Ele próprio dissera que aparecia bastante em vários sites. Portanto, uma busca na internet pelo primeiro nome dele, Fallon Brothers e Chicago deveria retornar muitos resultados. Muitos resultados infames. Talvez, se ela o visse em sites notórios. Cercado de mulheres lindas e notórias em situações notoriamente comprometedoras, ela percebesse que Marcus não era do tipo de homem que ela precisava em sua vida. Talvez fosse mais fácil esquecê-lo. Que mal haveria nisso? Ela nunca mais o veria. Ele nunca conseguiria encontrá-la, mesmo que tentasse. Em questão de dias, teria um novo nome, um novo endereço. Seria verdadeiramente impossível que ele a encontrasse. Ao se acomodar na cama e ligar o laptop, Della sentiu seu coração disparar. Ela não sabia ao acerto o que era mais empolgante: a ideia de saber mais sobre Marcus ou a de ver o rosto dele novamente, mesmo que numa foto. Ela abriu um site de busca e clicou na opção de imagens. Em seguida, digitou o nome Marcus e a palavra Chicago, juntamente com Fallon Brothers. E, num piscar de olhos, ela já estava olhando para as primeiras três fileiras do que o site dizia serem centenas de imagens. Marcus estava em todas da


primeira leva. E na segunda, na terceira... Ao rolar a página para baixo, Della o viu ainda mais. Às vezes, sozinho, mas, em geral, com mulheres. Muitas mulheres. Muitas mulheres diferentes. Todas sorrindo. Todas agarradas nele. Todas lindas. Della só se deu conta de que estava tremendo quando movimentou a mão para usar o mouse. Ela não fazia ideia do motivo. Talvez porque o fato de ver Marcus on-line apenas reafirmasse que o final de semana acontecera de fato. Que ele existia mesmo. Que ela tinha alguma ligação, ainda que tênue, com ele. Dali em diante, onde quer que ela estivesse, ou o que quer que estivesse fazendo, ou quem fosse, ela ainda seria capaz de encontrá-lo. Teria fotografias dele para acompanhar as imagens em sua mente. Ele não seria efêmero como ela temera. Ainda poderia ficar com ela para sempre. Mesmo que não ficasse. Della flexionou os dedos para acalmá-los e escolheu uma foto de Marcus sozinho. Não era uma foto espontânea, mas posada. Um retrato formal que ele devia ter tirado por motivos profissionais. Devia ser do site da Fallon Brothers. Quando a foto foi ampliada, surgiu uma descrição que dizia Marcus Fallon, Diretor de Investimentos, Fallon Brothers Chicago. A mão de Della começou a tremer novamente. Marcus Fallon. Ele era membro da família Fallon, um dos executivos mais poderosos da empresa. Ela soubera que ele devia ter boas conexões nos negócios. Mas aquilo... Ele era descendente de algumas das pessoas que haviam projetado a maneira como o país fazia negócios. Os antepassados dele haviam sido equivalentes à realeza naquela sociedade capitalista. Ele era quase como um príncipe. Então, o príncipe encantado de CinderDella era mesmo um príncipe. E ela... Bem, isso a colocaria no papel de mendiga, não? Della se recordou de quando ele dissera ter amigos influentes na Costa Leste que poderiam ajudá-la e se sentiu nauseada. Esses amigos deviam ser tão poderosos quanto ele, só que no distrito financeiro de Nova York. Alguns deviam ser diretores da Whitworth and Stone. Ela não se surpreenderia se alguns dos amigos dele acabassem atrás das grades por causa dela. Todas as minúsculas esperanças que Della poderia ter tido por Marcus e ela... E ela ficou surpresa por descobrir que vinha mantendo de fato


esperanças, e nada pequenas, que foram esmagadas quando ela se deu conta disso. Quando desse seu testemunho ao júri, seria exilada do mundo financeiro. Não importava o fato de ela estar trazendo à tona atividades ilegais que deviam ser contidas e punidas. Ninguém em Wall Street a aplaudiria, e todas as portas se fechariam. Gente como Marcus... e o próprio Marcus... não desejaria saber dela. Ela derrubaria pessoas muito poderosas. E outras pessoas muito poderosas não gostariam disso. Incapaz de se conter, Della clicou no link e se flagrou olhando uma versão maior da foto de Marcus, que, de fato, fazia parte do site da Fallon Brothers. Ela leu que ele era o sobrinho-neto mais velho de um dos fundadores da Fallon Brothers e que ele assumiria o posto de diretor executivo de seu pai em breve. Leu a respeito dos hobbies favoritos dele... Ela já sabia sobre a ópera, o squash e o vinho do porto, mas a vela e o polo foram uma surpresa... e sobre a formação dele nas melhores escolas do país. Na realidade, era uma versão branda do Marcus que ela conhecia e não ajudou muito. Por isso, ela voltou à busca e começou a clicar em outras fotos. Havia uma de Marcus com uma antiga Miss Illinois tirada na festa de Réveillon do ano anterior. Mais ou menos na época em que o mundo de Della começara a ruir, mas Marcus parecia não ter nenhuma preocupação no mundo. Outra foto o mostrava com uma ruiva muito bem-dotada num evento beneficente para um hospital pediátrico. Outra o mostrava no deque de um arranha-céu com o lago Michigan ao fundo e uma loira muito bem-dotada em seu colo. A próxima era uma fotografia dele num evento de gala, com uma mulher que se parecia muito com uma nova estrela de Hollywood, famosa por aparecer em público sem roupa íntima. Era assim que ela precisava se recordar dele, disse Della a si mesma. Em fotos praticamente seguidas com mulheres diferentes. Ela precisava parar de pensar nele como seu príncipe encantado e começar a reconhecer a realidade de que ele era apenas outro rico que achava que podia fazer o que bem entendesse. As emoções dele eram superficiais, e ele não dava valor aos outros. Provavelmente, ele parara de pensar em Della no instante em que acordara e não a vira a seu lado. Ele não era o príncipe encantado de um castelo fantástico. Era um sapo grande e feio. Quanto antes ela o esquecesse, melhor.


Della repetiu isso para si mesma de várias maneiras diferentes, toda vez que clicava numa foto nova. Contudo, suas recordações dele abafavam sua censura. Ela se recordava do sorriso, dos toques ternos dele, da tristeza genuína em seus olhos quando ele falara da mulher que não o encontrara naquela noite. Ela sabia que esse era o verdadeiro Marcus Fallon. Talvez não um príncipe encantado, mas também não um sapo. Della só esperava que, fosse lá quem ele fosse, Marcus também tivesse boas recordações dela. MARCUS ESTAVA sentado no estúdio de sua cobertura na Lakeshore Drive, seu roupão de seda preta aberto sobre uma calça de pijama também preta. Ele segurava uma taça de vinho do Porto e analisava um fino arquivo com informações que lhe fora entregue naquela tarde. Além da imensa janela à sua direita, o lago Michigan estava preto como o céu, pontilhado com algumas luzes de embarcações comerciais, como o céu pontilhado de estrelas. Entretanto, ele não deu muita atenção à paisagem. Estava acomodado numa confortável cadeira, banhado pelo brilho cor de âmbar de um abajur de chão. Na realidade, boa parte do cômodo tinha a cor âmbar. Marcus gostava desses tons. Eles o faziam se sentir calmo. Geralmente. Naquela noite, ele não estava nada calmo. Pois o arquivo que ele pensara que fosse estar cheio de informações sobre Della Louise Hannan de Nova York continha poucas coisas que ele próprio não teria sido capaz de descobrir. Contudo, isso não tornava aquelas informações menos interessantes. Especialmente a parte que dizia que ela trabalhara para a Whitworth and Stone, uma das maiores potências de Wall Street. Marcus conhecia muitas pessoas que trabalhavam lá. E havia uma chance de que ele conhecesse alguém que a conhecesse. No dia seguinte, assim que o expediente começasse na Costa Leste, ele daria alguns telefonemas. A informação sobre o tempo de Della na Whitworth and Stone não o ajudaria muito, já que fazia quase um ano que ela saíra da firma. Na realidade, Della Hannan basicamente desaparecera da face da Terra em janeiro daquele ano. O apartamento onde ela morara estava alugado e ocupado por um casal que chegara em março, e fora anunciado como


“apartamento mobiliado”, pois Della deixara praticamente todos os seus pertences para trás. Ela largara seu emprego de forma igualmente abrupta; simplesmente deixara de ir trabalhar. O mais perturbador era o fato de que, apesar do repentino sumiço dela, ninguém a cadastrara como pessoa desaparecia. Nenhum parente, nenhum amigo, nenhum vizinho, nenhum amante, nem mesmo seu patrão. Não havia nenhum boletim policial, nenhuma reclamação formal do senhorio, nada no arquivo pessoal dela na Whitworth and Stone que dissesse por que ela parara de ir trabalhar depois de mais de uma década sem perder um único dia de trabalho. Havia, porém, um burburinho no escritório em relação ao motivo disso tudo. Boatos que corriam no departamento dela diziam que Della estivera namorando um executivo de outro setor da empresa, um executivo casado. Não estava claro se Della soubera do status conjugal do homem. Ou ela soubera e ficara irritada pelo homem ter se recusado a deixar a esposa, ou ela não soubera e fora embora assim que descobrira a verdade. Em qualquer uma das situações, o caso dela no escritório parecia ser o motivo indicado por todos para o sumiço. Era uma explicação razoável. Podia até ser o motivo de ela ter partido de Nova York. A não ser pelo fato de ela ser nova-iorquina nativa, sem parentes ou amigos em nenhuma outra parte do país a quem recorrer. E também pelo fato de que ela não começara a trabalhar em outro lugar. E o de que não havia nenhum registro dela fazendo qualquer coisa, em qualquer lugar depois de 16 de janeiro. Ela não se candidatara a nenhum emprego. Não dera entrada num pedido de carteira de motorista em nenhum estado. Não acessara sua conta bancária e nem usara seus cartões de crédito. A conta de celular dela fora cancelada por falta de pagamento, apesar de ela ter uma boa quantia no banco, intocada. Os pensamentos dele pararam ali por um instante. O celular dela. Marcus lembrou que vasculhara as informações dela no hotel, todas as fotos e contatos que ainda tinha, embora ela não tivesse telefonado para nenhum deles. Claramente, ela estava usando um número diferente agora, mas por que não havia nenhum registro do novo número? Damien teria sido capaz de descobrir essa nova linha. Por que não descobrira? E por que ela transferira todos os contatos do telefone antigo para um


E por que ela transferira todos os contatos do telefone antigo para um novo, claramente querendo mantê-los, mesmo sem usar nenhum deles? Marcus se censurou por não ter visto qual era o número daquele celular. Tudo teria sido muito mais fácil assim. Ele voltou sua atenção para o relatório do detetive. Marcus teria tido dúvidas se a mulher que ele conhecera era mesmo Della Hannan, mas as fotos contidas no arquivo, juntamente com as informações, garantiam que era ela. Havia a foto do crachá dela na Whitworth and Stone, juntamente com cópias de fotos do anuário dela no colégio e das primeiras carteiras de habilitação. Sem dúvida, a mulher que ele conhecera era a mesma daquelas fotos, mas, como também acontecera com as fotos do telefone dela, seu cabelo estava mais curto e mais escuro em todas elas. Ela mudara de visual depois de desaparecer, mas não mudara seu nome, e o contato dele não encontrara nenhuma evidência de que ela tivesse pseudônimos. Sendo assim, as chances de ela ser uma golpista eram pequenas, e as de que ela estivesse encrencada, como ela lhe dissera, muito grandes. O arquivo também continha informações sobre o início da vida de Della, informações que corroboravam o que lhe dissera. Havia informações sobre os dois irmãos que ela dissera ter, um mais velho e um mais novo. O que ela não mencionara, provavelmente, por não querer que ele revisse seus conceitos a respeito dela, era o fato de que ela viera de um bairro notoriamente perigoso e de que não fazia parte da alta sociedade. No final do arquivo, havia uma anotação feita à mão por Damien. O único motivo de alguém desaparecer assim é estar nas mãos dos federais. Ou estar tentando evitar os federais. Tenho um amigo que trabalha para o governo e que me deve um favor. Eu aviso o que ele descobrir.

Marcus levou a taça à boca. Mas o vinho não acalmou seus pensamentos caóticos. Então, a encrenca na qual Della se metera em Nova York era do tipo criminal. Mas qual seria a posição dela? Ela estava ajudando as autoridades ou se escondendo delas? Quem diabos ela era? Em muitos aspectos, ela parecia uma desconhecida para Marcus agora. Por outro lado, ele a sentia muito mais próxima do que


antes. Mas por que e como ela desaparecera assim? Não uma, mas duas vezes. Pois ela desaparecera novamente. Damien não conseguira encontrar uma única pista que indicasse onde ela estava morando em Chicago, quanto tempo fazia que chegara à cidade e nem quando planejava partir. Ele fechou o arquivo e se levantou. Começou a se afastar, mas acabou retornando. Para pegar a taça, disse ele a si mesmo. Para levá-la à lavadora antes de ir para a cama. Contudo, ele também pegou o arquivo e o abriu novamente. Retirou de lá a foto de Della que estivera em seu crachá da Whitworth and Stone. Ela era a perfeita imagem da eficiência profissional; séria, sem maquiagem, seu cabelo curto e masculino penteado para longe do rosto. Ela não se parecia nada com a Della que passara aquele tempo com ele. Mesmo depois de tirar a maquiagem do rosto, continuara linda. Mesmo depois da inconveniência da neve, ela continuara feliz. Assim como ele. Foi quando Marcus começou a entender sua obsessão por encontrá-la. Não por Della ser uma misteriosa mulher de vermelho que ele não conseguia esquecer. Mas porque o tempo que passara com ela marcara a primeira vez que ele fora verdadeiramente feliz em sua vida. Não sabia ao certo por que e nem como. Sabia apenas que, com Della, ele se sentira diferente. Da mesma maneira como Charlotte entrara em sua vida quando ele era adolescente e o guiara na busca pelo contentamento, Della entrara na vida dele quando era adulto e o guiara na busca pelo contentamento com outra pessoa. Era isso que sempre lhe faltara; alguém com quem compartilhar tudo. Ele compartilhara sua vida com Charlotte enquanto ela vivera, e isso tornara a vida dele muito melhor. Com Della, Marcus compartilhara a si mesmo. E isso o tornara um homem melhor. Eestivera de luto desde a morte de Charlotte, não apenas por ela, mas pelo vazio que a ausência dela trouxera para sua vida. Ao longo do final de semana passado com Della, esse vazio começara a ser preenchido novamente. A ferida começara a se fechar. Com Della, Marcus começara a sentir novamente. E os sentimentos que ele tinha... Ele começou a guardar a fotografia dentro do arquivo, mas parou. Depois de levar a taça à cozinha, Marcus levou tudo para seu quarto. Ele colocou a


foto de Della sobre a cĂ´moda, apoiando-a num abajur. Mesmo que a mulher da foto nĂŁo se parecesse muito com aquela da qual ele se recordava, Marcus gostava de tĂŞ-la em sua casa. Gostava muito.


CAPÍTULO 9

DUAS NOITES depois de encontrar Marcus na internet, Della ainda não sabia o que pensar de tudo o que acontecera e tudo o que aconteceria. O frenesi midiático que ela temera que pudesse vir após o anúncio das prisões na Whitworth and Stone fora relativamente fraco. Geoffrey lhe dissera que, naquele momento, isso não era nenhuma surpresa. Quando se tratava de pessoas ricas e poderosas, os advogados impediam que as informações fossem divulgadas à imprensa. Seria apenas após a reunião do júri, quando as evidências fossem apresentadas, que a tempestade midiática começaria. Mas Geoffrey também lhe garantira que, quando isso acontecesse, Della estaria em segurança, oculta em sua nova vida em algum outro lugar. Oculta das repercussões. Oculta de tudo. Entretanto, ela estava se esforçando ao máximo para não pensar em nada disso ainda. Era uma noite de sexta-feira, seu último final de semana em Chicago. Na segunda, ela voltaria a Nova York. Na terça, faria sua primeira aparição perante o júri. Em cerca de uma semana, ela seria retirada às pressas daquela vida e levada para uma nova. Uma semana. Era tudo o que restava a Della Hannan. Depois... Deus do céu, ela precisava muito de uma taça de vinho! Della vestiu seu pijama, serviu para si uma taça de pinot noir e pegou um livro que chegara naquela manhã pelo correio. Ela estava se acomodando numa poltrona da saleta quando a campainha tocou. O som a assustou, a


ponto de fazê-la dar um salto tão forte que ela derramou seu vinho tanto no livro quanto na camisa de seu pijama. Ninguém nunca tocara a campainha daquela casa antes. Nem mesmo Geoffrey, nas poucas ocasiões em que fora até ali. Ele sempre telefonava primeiro, para avisar que estava a caminho e batia algumas vezes na porta, dizendo seu nome. Della não fazia ideia de quem podia estar do outro lado da porta. Certamente não era Geoffrey. Poderia ser outro agente, ou alguém para lhe explicar como ela deveria se portar perante o júri. Mas Geoffrey teria lhe avisado se algo assim fosse acontecer. E nenhuma reunião desse tipo aconteceria depois das 22h de uma sexta-feira. Della não soube se devia ficar quieta e fingir que não havia ninguém em casa ou se devia ir pegar o celular no quarto para telefonar para Geoffrey. Qualquer movimento dela poderia revelar sua presença a quem estivesse lá fora. Claro, poderia ser simplesmente alguém que confundira o endereço dela. Podia ser algum entregador de pizza. Ou crianças pregando peças. Mas Della duvidava de que fosse. O mais silenciosamente possível, ela fechou o livro, colocando-o na mesa de canto, juntamente com a taça. Em seguida, levantou-se com cuidado. A campainha tocou novamente quando ela estava dando o primeiro passo na direção do quarto. Della foi o mais rápido possível para o quarto e pegou seu celular, digitando o número da casa de Geoffrey, mas sem apertar o botão para iniciar a chamada. Se fosse mesmo uma entrega errada, ela não queria incomodar Geoffrey. A campainha tocou pela terceira vez quando ela se aproximou da sala, mas, desta vez, foi seguida de uma série de rápidas batidas na porta. As cortinas da frente estavam fechadas, como ficavam todas as noites, e não havia nenhuma luz acesa no cômodo. Della segurou firmemente seu celular ao parar diante da porta. Em seguida, colocou a outra mão sobre o trio de interruptores à esquerda. O mais próximo dela acendia uma lâmpada exageradamente forte na varanda, que cegaria temporariamente quem estivesse lá fora. Por ora, contudo, ela apenas olhou pelo olho mágico para ver quem estava lá fora. Ah, ótimo. Uma silhueta escura que poderia ser praticamente qualquer


Ah, ótimo. Uma silhueta escura que poderia ser praticamente qualquer pessoa. A silhueta devia ter sentido ou ouvido Della se aproximar, pois uma voz veio do outro lado da porta. – Della? Você está em casa? Abra para mim. Precisamos conversar. O som da profunda voz de Marcus a surpreendeu ainda mais do que a campainha. O telefone escorregou dos dedos dela e caiu no chão, o coração de Della começou a martelar como o de um maratonista, e sua mente disparou em um milhão de direções diferentes. Como ele a encontrara? Por que estava ali? Se ele a encontrara, alguém mais sabia que estava ali? A presença dele comprometeria o caso? Os federais chegariam ao ponto de prender Marcus para mantê-lo em discrição também? O que ela deveria fazer? – Della? – chamou ele novamente. – Você está aí? Como ele a encontrara? Por que ele a encontrara? E, se ele sabia do paradeiro dela, saberia também de todo o resto que acontecera? O que ela deveria fazer? Em vez de entrar em pânico, porém, uma estranha tranquilidade dominou Della de súbito, apesar de todas as dúvidas, apesar de sua confusão, apesar de seus medos e incertezas. Embora Della não soubesse o que fazer, ela sabia perfeitamente bem o que queria fazer... A corrente estava presa, como sempre. Portanto, ignorando o telefone no chão, Della soltou os três trincos da porta e a abriu. Ainda estava escuro demais do outro lado para que ela discernisse Marcus com clareza, mas a ausência de luz a fez se sentir melhor. Se ela não conseguia vê-lo, ele também não conseguiria vê-la. Porém, não era por causa da vaidade, por estar de pijama manchado de vinho, sem maquiagem ou com o cabelo preso num rabo de cavalo torto. Era porque ela sabia que Marcus não poderia enxergar a verdadeira Della Hannan desse jeito. Ela ainda poderia ser a fantasia que ela esperava que estivesse na lembrança dele. – Della? – disse ele mais uma vez, claramente ainda sem ter certeza de que a encontrara de fato. Tudo o que ela conseguiu responder foi: – Oi, Marcus.


Todo o corpo dele pareceu relaxar com o cumprimento dela. – É você mesma – disse ele em voz baixa. O comentário não dava deixa para uma resposta. Por isso, Della não disse nada. De fato, ela não fazia ideia do que dizer. Se Marcus sabia que estava ali, ele devia saber também o motivo de ela estar ali. Os agentes federais a tinham mantido oculta por 11 meses sem nenhum problema. No entanto, em menos de duas semanas, Marcus conseguira encontrá-la, tendo apenas o primeiro nome dela. Àquela altura, ele já devia saber tudo sobre o que acontecera. Por um longo momento, nenhum deles disse nada e nenhum fez qualquer movimento. O frio vento de inverno o açoitava pelas costas, fazendo seu sobretudo balançar em torno das pernas, o cabelo se espalhara em torno do rosto. Apesar de Della não conseguir discernir as feições dele na escuridão, ela se recordava de cada elegante contorno do rosto dele; o maxilar rústico, o nariz reto, as faces esculpidas. Quando o vento soprou, passando por ele e a atingindo, trouxe consigo o perfume dele, o cheiro apimentado e esfumaçado do qual ela se recordava tão bem. Ao sentir novamente o cheiro dele, mesmo de forma passageira, ela foi preenchida pelo desejo e pela sede. Della precisou de todas as suas forças para não retirar a corrente da porta e escancará-la, recebendo-o em sua casa, em sua vida, dentro dela. Mas ela não podia fazer isso. Não era a mulher que pensava que era. Ele podia não ser o homem que ela pensara que fosse. E, mesmo que eles dois pudessem ser o que o outro queria, em questão de dias, Della desapareceria em outra vida, uma vida da qual Marcus não poderia fazer parte. A nova vida dela seria uma de discrição, uma que exigiria uma existência tranquila e sem pompa. A vida dele era vivida de forma ousada e exuberante. Os dois jamais conseguiriam conciliar aquilo. – Posso entrar? – perguntou ele. – Não – respondeu ela rapidamente. – Della, por favor. Precisamos conversar. – Já estamos conversando. – Não estamos, não. Estamos nos cumprimentando. – Então, comece a falar. Ele rosnou um palavrão.


– Está frio. Quero entrar. Bem, nisso, ele tinha razão, admitiu ela. Os pés de Della, cobertos por meias, já estavam berrando que estavam prestes a congelar. Sem falar no fato de que o robe dela estava em outro cômodo. E sem falar que queria ver Marcus novamente. Queria muito. De perto e com uma boa iluminação. Queria estar perto o suficiente dele para sentir seu calor. Perto o suficiente para inspirar seu perfume. E queria fingir novamente, apenas por um tempinho, como fingira durante o final de semana deles juntos, que nada na vida dela jamais estaria errado novamente. Incapaz de evitar, Della fechou a porta por tempo suficiente para soltar a corrente e a abriu novamente em seguida. Estranhamente, Marcus não entrou com tudo, trancando a porta após entrar. Em vez disso, ele permaneceu na entrada, esperando que ela o convidasse. Tentando deixar o clima mais leve, Della falou: – A menos que você seja um vampiro, não precisa de um convite formal. Marcus hesitou por um instante e, em seguida, falou: – Mas eu gostaria de ser convidado mesmo assim. Della se recordou da noite no Windsor Club, de como ele se juntara a ela sem perguntar se poderia e de como ele tomara a iniciativa de tudo depois daquilo. Não houvera nenhuma incerteza nele naquela noite, duas semanas atrás. Agora, porém, era como se Marcus estivesse tão incerto a respeito de tudo quanto ela. Por algum motivo, isso fez Della se sentir um pouco menos incerta. – Você quer entrar? – perguntou ela em voz baixa. Ele assentiu. Em seguida, deu alguns passos à frente. Quando Della saiu do caminho para permitir que ele passasse, seu pé atingiu o celular no chão, fazendo-o deslizar até o outro lado do foyer. Quando ela se curvou para pegá-lo, Marcus fechou a porta. No recinto escuro, Della continuava sem conseguir detectar o que ele podia estar sentindo ou pensando. Por isso, ela o levou para a saleta. Enquanto ela caminhava, puxou inquietamente a presilha de elástico de seu rabo de cavalo, esforçando-se ao máximo para afofar e domar seu cabelo enquanto fazia isso. No entanto, não havia nada que ela pudesse fazer a respeito do pijama manchado de vinho. Assim, o que ela fez


foi cruzar os braços sobre a mancha, tentando cobri-la da melhor maneira possível e dizendo a si mesma que aquela postura não era defensiva. Mesmo que ela estivesse se sentindo um pouco defensiva. Ela apontou para o sofá. – Pode se sentar – disse ela ao se acomodar na poltrona. Marcus, porém, não se sentou. Em vez disso, ficou de pé, com as mãos enfiadas dentro dos bolsos do casaco, olhando fixamente para ela. Ele estava magnífico, diferente da última vez que ela o vira, mas, de alguma forma, totalmente inalterado. Pessoalmente, ela o vira apenas usando um smoking e um roupão, de um extremo ao outro, e aquela versão dele era algo entre os dois. Sua calça era casual, com uma cor em tom grafite, e estava combinada com um grosso suéter preto. Junto do casaco escuro e do cabelo escuro dele, e tendo vindo da escuridão como ele viera, Marcus ainda parecia tão avassalador quanto estivera na primeira vez que ela o vira. Seus olhos, contudo, estavam ansiosos e marcados por leves manchas roxas em formato de meia-lua. Seu cabelo estava um tanto desgrenhado, e seu rosto não estava perfeitamente barbeado. Sua postura estava, ao mesmo tempo, tensa demais e cansada demais, como se ele estivesse preso num estado entre as duas coisas. Ou talvez ambas as condições o estivessem dominando. No geral, ele parecia um homem que vinha se preocupando muito com alguma coisa... ou talvez com alguém. Quando ele não se sentou, Della automaticamente se levantou novamente. – Vinho? – perguntou ela. Suas palavras saíram apressadas e trêmulas quando ela continuou. – Acabei de abrir uma garrafa de pinot noir. Fica bom numa noite como a de hoje. Vou pegar uma taça para você. Sem esperar uma resposta, Della pegou sua taça e foi para a cozinha pegar uma para ele, sua mente novamente a mil por hora com todas as repercussões que a entrada dele em sua realidade trazia consigo. Por quê? Por que ela fora permitir que ele entrasse? Por que não telefonara para Geoffrey no instante em que ouvira uma batida na porta? E se não tivesse sido Marcus lá fora? Quando ela se virou para voltar à saleta, Della o viu parado ali, emoldurado pela porta da cozinha. Ele tirara o casaco e passara a mão por seu cabelo bagunçado pelo vento, mas não parecia mais calmo do que ela


própria se sentia. Desmoronando com a observação dele, Della desviou o olhar. Então, deixando as duas taças esquecidas sobre a bancada, ela foi até a mesa se acomodar numa das cadeiras. Marcus puxou imediatamente uma cadeira ao lado da dela e, depois de se sentar, arrastou-a para perto o suficiente para que sua coxa ficasse alinhada com a dela. Por mais um longo momento, nenhum deles disse nada. Nenhum deles olhou para o outro. Nenhum deles se mexeu. Finalmente, incapaz de suportar o silêncio, Della tomou a iniciativa. – Como você me encontrou? Por um minuto, Marcus não disse nada, apenas baixou o olhar para a mesa e começou a passar inquietamente o dedo pelos desenhos na madeira. No entanto, tudo o que ele disse foi: – Tenho boas conexões. – Ninguém tem conexões tão boas assim, Marcus. Estou aqui há 11 meses sem que ninguém saiba. Tudo o que você tinha era meu primeiro nome e você conseguiu me encontrar em menos de duas semanas depois de nós... Ela parou ao ver o rubor que surgira no rosto dele. Aquela mancha não estivera lá quando ele entrara. Portanto, não podia ser fruto do frio. Isso significava que algo que ela dissera o deixara desconfortável. Ele ergueu o olhar para Della quando ela parou de falar. Então, quando Marcus a viu observá-lo, seu olhar se desviou rapidamente outra vez. – Marcus, como você me encontrou sabendo apenas meu primeiro nome? Ele continuou evitando o olhar dela. – Então... A respeito disso, eu... Hã... Na realidade, eu tinha mais do que o seu primeiro nome. Eu meio que tomei a liberdade de vasculhar sua bolsa enquanto você estava tomando banho e descobri seu sobrenome e seu endereço em Nova York na sua carteira de motorista. Della fechou os olhos ao ouvir aquilo. Como ela pudera ter sido tão descuidada? Ela nunca saía daquela casa sem sua carteira de habilitação. Por precaução, já que havia uma chance, ainda que remota, de que ela sofresse algum tipo de acidente. Assim, ela poderia ser entregue às devidas autoridades. Pensar em morrer sem um nome a incomodava tanto quanto pensar em morrer sem amigos. Della, porém, nunca esperara que alguém, que não alguém do serviço médico de emergência ou alguma autoridade,


fosse ver sua identidade. Ela sabia que só devia usar dinheiro vivo, em vez de cartões de crédito, para evitar se identificada, e seu telefone era o que Geoffrey lhe dera, um celular que não podia ser rastreado. Mas a história da identidade... O fato de ela não ter pensado nisso enquanto estivera com Marcus era outra indicação de como ela passara a confiar nele. Ou talvez de como fora ingênua. – Então, eu tinha mais do que o seu primeiro nome para dar ao... meu contato – admitiu Marcus. – O endereço que está na minha carteira de motorista não é mais meu endereço – disse ela. – Não moro em Nova York há quase um ano. – Eu sei. Mas bastava ter um endereço recente, junto com o seu nome completo, para que o meu funcionário fosse capaz de encontrar você. Della se permitiu absorver aquela afirmação por um instante. Fora muito fácil que alguém a encontrasse. Mas ninguém a encontrara até então. E Geoffrey lhe dissera que, durante os interrogatórios e também no momento em que as acusações haviam sido feitas, todos os réus tinham ficado sabendo que havia uma testemunha sob custódia dos agentes federais que estava disposta a testemunhar contra todos eles. E que a testemunha em questão havia roubado documentos que corroboravam cada uma das acusações. Della não conseguira dormir ou comer direito depois de ouvir aquilo, tendo ficado muito ansiosa com a possibilidade de que alguém da Whitworth and Stone estivesse tentando descobrir quem era a testemunha e que informação ela possuía, fazendo a conexão entre o desaparecimento dela e o momento em que a investigação fora iniciada. Contudo, ninguém fizera isso. Ou ao menos ninguém tentara localizá-la. Ou menos ninguém conseguira. Antes de Marcus. Que, ao menos pelo que ela sabia, não tinha tanto em jogo quanto os réus. Então, Della lembrou que Marcus fazia parte do mundo no qual ela acabara de causar um imenso abalo. Quem poderia dizer que ele não estava ali justamente pelo motivo que ela temia? Não, disse ela a si mesma imediatamente. Isso era impossível. Apesar de tudo, ela ainda confiava nele. Apesar de tudo, ela ainda... gostava dele. Quando Della confiou novamente em sua voz, perguntou:


– Você contratou alguém para me encontrar? – Sim – admitiu ele sem hesitar. – Por quê? Desta vez, a resposta veio de forma mais lenta. Por fim, ele lhe falou: – Porque eu não consegui aguentar pensar que nunca mais veria você. Algo que estivera totalmente contraído dentro de Della começou a se afrouxar, a se aliviar com as palavras dele. Até ela lembrar que era impossível eles ficarem juntos. Marcus começou a dizer algo mais, mas Della ergueu a mão para impedilo. – Até onde você sabe da minha situação? Quero dizer, se a pessoa que você contratou para me encontrar me encontrou, ela deve ter descoberto muitas informações a meu respeito também. Marcus pareceu decepcionado por ela ter mudado de assunto, mas respondeu: – Sei que você está sob a custódia de agentes federais. Sei que você vai ser uma das principais testemunhas num caso de justiça federal. Além disso, não pedi mais detalhes, a não ser onde você estava morando agora. Ela balançou a cabeça. – Ainda não consigo acreditar que você me encontrou com toda essa facilidade – disse ela, enrolando. – Que trabalho malfeito é esse que os federais estão fazendo? – Não foi fácil encontrar você – rebateu Marcus. – O detetive particular que sempre contrato para conseguir as informações de que preciso costuma me retornar com resultados em menos de 48 horas. – Mesmo quando essas informações são protegidas por federais? – Nada é a prova de tudo, Della. Meu detetive era um agente do alto escalão do governo antes de se tornar autônomo. Ele consegue descobrir coisas que outras pessoas não conseguem porque ainda tem muitos contatos poderosos. Nos governos federal, estaduais e municipais. – Ele deve cobrar uma fortuna – murmurou ela. – E cobra mesmo. Della reservou um momento para encontrar um enorme prazer no fato de que Marcus estivera disposto a gastar uma quantia exorbitante de dinheiro


para encontrá-la. Em seguida, ficou sóbria novamente quando o impacto da descoberta dele a atingiu. – Mas nem mesmo ele foi capaz de trabalhar tão rápido quanto costuma trabalhar – continuou Marcus. – E não conseguiu tudo o que eu queria. Della não soube ao certo se Marcus estava falando apenas de informações naquela afirmação. Por isso, ela retornou ao assunto original deles. Mas deu o melhor de si para ser o mais vaga possível. Ela não queria dizer nada que pudesse comprometer sua audiência na semana seguinte. Não conseguiria suportar a ideia de que tudo pelo que ela passara nos últimos 11 meses acabasse sendo em vão. Por outro lado, sem os últimos 11 meses, ela jamais teria tido seu final de semana com Marcus. Sendo assim, independentemente do que acontecesse no futuro, aqueles meses entediantes, ansiosos e intermináveis jamais teriam sido em vão. – Olhe, Marcus, não posso dar nenhum detalhe sobre o caso em que estou envolvida – disse ela. – Nem sei se o simples fato de você estar aqui agora vai estragar tudo ou não. Basta dizer que, um dia, eu estava fazendo meu trabalho e vivendo minha vida, e tudo estava o mais normal possível. No dia seguinte, descobri algo ilegal que meu patrão estava fazendo e entreguei todas as informações que tinha às devidas autoridades. Quando dei por mim, já estavam me dizendo que eu não podia voltar ao trabalho e que eu seria posta em custódia de proteção enquanto o governo assumia a investigação. Disseram que isso levaria só uns dois meses. Isso foi há 11 meses. – E, para explicar seu sumiço – disse Marcus –, eles inventaram uma história sobre você ter tido um caso com um homem casado de outro departamento. Agora, foi a vez de Della corar e desviar o olhar. – Isso não foi inventado – disse ela em voz baixa. – E, se você sabe disso, sabe mesmo algo a respeito da minha situação. A expressão dele mudou naquele instante, ficando pensativa, e Marcus passou um momento sem dizer nada. Então, sua expressão mudou mais uma vez. Desta vez, para uma de compreensão. – Whitworth and Stone – disse ele. – Eles eram seus patrões. – Sim.


Os lábios dele se entreabriram, como se ele fosse dizer algo mais. Então, fecharam-se novamente. Por mais um momento, Marcus a observou em silêncio. Em seguida, abriu a boca novamente. Mas, mais uma vez, levou um momento até falar. – Li sobre as prisões em publicações especializadas. Foi por sua causa, não foi? Della sentiu novamente um nó no estômago e balançou a cabeça veementemente. – Não posso dizer nada a respeito. – Nem precisa dizer – disse ele. – Só me ocorreu juntar os pontos agora. Não tem saído muita coisa sobre o caso no noticiário. Na realidade, as repercussões foram tão contidas que a maioria de nós imaginava que as acusações fossem falsas, que fosse simplesmente o governo querendo manter Wall Street em seu devido lugar ou que um ou outro executivo fosse receber uma advertência por alguma infração pequena. Nunca me ocorreu que isso fosse acabar virando um caso federal. Della não disse nada, mas também não conseguiu desviar o olhar. O cérebro de Marcus estava claramente funcionando a todo vapor naquele momento. Um homem como ele, na posição que ocupada na comunidade financeira, era capaz de entender perfeitamente o que estava em jogo ali e o tamanho da encrenca em que uma empresa como a Whitworth and Stone poderia estar metida. Um homem como ele saberia exatamente como o papel de Della era importante no que estava acontecendo e entenderia perfeitamente como o impacto poderia ser devastador. Ele assentiu lentamente. – Mas o motivo de não ter havido muita cobertura da imprensa é justamente o fato de que esse caso vai tomar proporções imensas. Executivos tão poderosos assim e com tanto dinheiro e recursos à disposição... Sem falar em tudo o que têm a perder... Têm como pagar advogados bons o suficientes para manter tudo em silêncio, ao menos por ora. Della continuou sem dizer nada. E continuou sem conseguir desviar o olhar dele. – Nunca me ocorreu a ideia de fazer a conexão entre essas prisões e o seu desaparecimento – disse Marcus. – A história do amante casado fazia muito


mais sentido. – Eu não sabia que ele era casado – disse ela, finalmente aliviada por poder fazer de algo que não pusesse o caso em cheque. – Eu tinha combinado de encontrá-lo no Réveillon. Mas depois de meia-noite, porque ele disse que precisava ir a um jantar profissional. Cheguei um pouco antes da hora e o vi dando um beijo de boa-noite numa mulher antes de colocá-la num táxi. Quando perguntei quem ela era, ele me informou que era a esposa dele e que não tinha nenhuma intenção de deixá-la, porque, além de tudo, ele tinha três filhos e a família da esposa dele tinha boas conexões sociais e financeiras, conexões que não podia se dar o luxo de perder. A expressão de Marcus indicava que ele ainda estava raciocinando ferozmente, embora numa direção diferente desta vez. – Você desapareceu no meio de janeiro, o que significa que deve ter descoberto as falcatruas da Whitworth and Stone logo antes disso. – No primeiro dia do ano – disse ela sem pensar. Mas aquela informação não comprometeria nada, comprometeria? Certamente, não. Marcus assentiu lentamente, como se estivesse fazendo mais conexões em sua mente. – Então, no último dia do ano passado, você descobriu que o homem com quem estava saindo era casado. Aí, horas depois, descobriu que seu empregador estava envolvido em assuntos que ameaçavam a segurança nacional. – Sim, basicamente, é isso. – Que péssimo jeito de começar o ano. Della desejou ser capaz de rir. Então, perguntou a si mesma se voltaria a enxergar humor em algo um dia. – Sim. – Sabe... Qualquer pessoa teria ficado arrasada com qualquer uma dessas duas coisas, mas, mesmo depois de passar pelas duas, você ainda teve a presença de espírito e a coragem de fazer a coisa certa. Della nunca enxergara por esse lado. – Eu só fiz o que qualquer um faria no meu lugar. – Não, não fez – disse ele. – Muitas pessoas teriam deixado as duas coisas de lado e sentiriam pena delas mesmas. Ou teriam ficado de boca fechada


para não arriscar perder o emprego, os benefícios ou fazer qualquer coisa que pudesse atrapalhar a vida delas. – Talvez... – Em vez disso, você arriscou tudo para garantir que pessoas que estavam colocando outras... estranhas, gente que você nem conhece... em perigo não se safassem do que estavam fazendo. – Sim. Marcus levantou a mão e começou a levá-la na direção de Della. Então, hesitou, como se temesse a reação dela. Relutantemente, sem tocá-la, ele baixou a mão para a mesa. – E você ainda pergunta por que vim procurar você. O que restava do nó dentro dela se desatou. Apesar disso, ela falou: – Você não devia ter vindo, Marcus. – Por que não? – Porque vou embora de Chicago daqui a três dias e não vou voltar. – Sei que esse era o seu plano antes, mas, agora... – Agora, continua sendo o plano – disse ela. – Não posso ficar aqui, Marcus. – Por que não? Como ela poderia dizer aquilo sem que soasse melodramático e paranoico? Talvez ela devesse simplesmente explicar de uma vez. – Porque, depois que eu testemunhar diante do júri, vou ser uma das pessoas mais odiadas de Wall Street. Ninguém vai querer me contratar. As pessoas que vou ajudar a prender têm contatos em todos os lugares. Não apenas em corretoras de títulos, mas em bancos e todos os tipos de negócios. O mundo corporativo americano come na mão delas. Ninguém vai me contratar. Delatores podem ser ótimos para filmes e documentários, mas, no mundo real, a vida deles é destruída. Eles não conseguem encontrar trabalho. Não têm como sustentar suas famílias. Perdem tudo. Marcus ainda a olhava de um jeito que deixava claro que ele não entendia o que ela estava dizendo. Por isso, Della tentou explicar ainda mais. – Depois que isso terminar, o governo vai me dar uma nova identidade. Um novo nome, um novo histórico, tudo novo. Eles vão me colocar num lugar onde eu tenha a oportunidade de recomeçar do zero, sem que ninguém


me conheça e onde não haja chance de eu ser reconhecida. Vou conseguir encontrar um emprego fazendo algo que eu ame, algo em que sou boa. Não vou ser mais Della Hannan. Marcus se recostou na cadeira e a observou fracamente. – Então, quem você vai ser? Para onde vai? – Ainda não sei – respondeu ela. – Mas não vou ficar aqui. – Por que não? É tão fácil recomeçar em Chicago quanto em qualquer outro lugar. Aonde mais você precisa ir para encontrar isso tudo? Pode mudar seu nome e seu histórico. Você vai continuar sendo Della. Vai continuar sendo a mulher que conheci naquele restaurante. Vai continuar sendo a mulher com quem passei o fim de semana mais incrível da minha vida. Vai continuar sendo a mulher que eu... Ele parou antes de concluir. Provavelmente, porque Della começara a balançar a cabeça assim que ele terminara a primeira frase. – Se eu ficar aqui, Marcus, vou querer ficar com você. Ele ficou de queixo caído. – E isso é um problema? – Sim! – gritou ela. – Porque você é tão... – Ela se recordou do adjetivo que ele usara para descrever a si mesmo. – Notório. Está estampado em todas as colunas sociais e aparece o tempo todo em vários sites de celebridades. Você mesmo disse isso. Ele fechou a boca. Della teve quase certeza de que Marcus estava começando a entender. Contudo, como ela ainda estava em modo de explicação, Della continuou: – Você vive uma vida esbanjadora, Marcus. É isso que faz você feliz. É a pessoa que você é. Você gosta da notoriedade. E não culpo você por isso – acrescentou ela às pressas. – Essa vida é adequada a você. Você nasceu sob os holofotes. Mas eu... – Ela deu de ombros. – Eu não nasci para essa vida. Agora, mais do que nunca, preciso ser invisível. É o único jeito de eu reconstruir minha vida. O único jeito de eu conseguir recuperar tudo o que perdi. – Em outras palavras, você não quer ser vista comigo. – Eu não posso ser vista com você – corrigiu Della. – E se alguém me reconhecer? E se, quando eu estiver começando a me recuperar, alguém do


seu mundo se der conta de quem eu sou de verdade? Essa pessoa poderia destruir tudo o que tenho. – Ela engoliu em seco para vencer a angústia que ameaçava dominá-la. – E poderia prejudicar você também. Com o que você faz da vida, se fosse visto se associando à mulher que derrubou a Whitworth and Stone, ninguém nunca mais confiaria em você. Sua vida também seria destruída. Não posso deixar isso acontecer. Não posso ser responsável por isso. – Eu nunca me preocuparia com algo assim – disse ele. – Eu sempre me preocuparia com isso – rebateu Della. – As coisas nunca dariam certo entre nós, Marcus. Seria um erro eu ficar. E é melhor assim, porque, depois de segunda-feira, já não vou mais estar aqui. Ele se curvou à frente na cadeira, pegando as mãos dela. – Não, Della, você não pode fazer isso. Precisamos conversar mais sobre... Desta vez, quando Marcus parou de falar, não foi por ele ter interrompido a si mesmo. Desta vez, foi por causa de um estrondo na sala de estar, que Della teve quase certeza de que fora o som da porta da casa sendo arrombada, seguido por um grito preocupado: – Della, sou eu, Geoffrey! Você está bem? Então, como nos filmes, tudo virou um caos.


CAPÍTULO 10

MARCUS ESTAVA sentado no sofá na casa de Della, embora ambos claramente pertencessem ao Tio Sam, e se perguntava quando fora que sua vida se transformara num filme. Num instante, ele estivera sentado à mesa da cozinha, tentando dizer o que sentia por ela. No seguinte, estava com a cara no chão, com o joelho de um homem na base de suas costas, enquanto o homem em questão gritava para que ele mantivesse as mãos onde ele pudesse vê-las. Ao menos o homem, que Della finalmente pudera apresentar como sendo o agente federal encarregado de ficar de olho nela, tirara as algemas depois de empurrar Marcus para o sofá. Agora, enquanto ele esfregava os próprios punhos e tentava inclinar a cabeça para o lado, desviando do homem, para ver como Della estava, o homem, que Marcus não conseguia evitar pensar que parecia uma versão mais velha de Dwight Schrute, mas não tão bemvestido, inclinava o corpo na mesma direção em que ele tentava olhar, bloqueando a visão de Della. Novamente. – Geoffrey, está tudo bem – disse Della. Novamente. Pela frenética conversa entre Della e o agente federal momentos atrás, Marcus entendera que ela discara o número de Geoffrey sem pressionar o botão para realizar a ligação, e que, quando ela deixar o celular cair no chão, de alguma forma, o aparelho realizara sozinho essa função. Geoffrey atendera o telefone depois de ver o nome de Della na tela e ouvi-la falar com alguém ao longe. Mesmo que a conversa não tivesse soado ameaçadora e ela


não tivesse soado amedrontada, ela não devia falar com ninguém. Por isso, ele entrara em ação e fora de carro até a casa verificar como ela estava. Então, quando confundira a mancha de vinho na camisa dela com sangue... Bem, fora quando o joelho nas costas de Marcus quase quebrara sua coluna. Agora, porém, tudo estava bem. O agente apenas o olhava como se pretendesse lhe dar um tiro em cada joelho com a pistola que ele sequer tivera a decência de guardar. Ao menos ele não estava mais apontando a arma para Marcus. – Diga mais uma vez – disse Geoffrey – o que diabos você pensa que está fazendo aqui. Marcus já dissera aquilo duas vezes, e Della fizera o mesmo, mas Geoffrey não parecia satisfeito. Aquilo, sim, talvez Marcus conseguisse entender, já que ele não fora completamente honesto com o homem. No entanto, ele jamais diria a um completo desconhecido que estava ali porque estava apaixonado por Della Hannan se ele não dissera isso nem mesmo à própria Della ainda. – Ele é um amigo – disse Della. Novamente. Marcus olhou para Geoffrey para ver se aquilo o satisfaria. Claramente, não foi o que aconteceu. – Achei que você não tivesse amigos em Chicago – disse Geoffrey para Della. Ainda olhando para Marcus. Quando Della não respondeu imediatamente, o agente olhou por cima do ombro em silêncio. Em seguida, voltou novamente sua atenção para Marcus. Como se estivesse percebendo o dilema dele, de não poder ver ambos ao mesmo tempo, Della foi se sentar no sofá também. Marcus não interpretara demais o fato de que ela se acomodou no canto mais distante possível dele. Entretanto, por mais alarmista que ele fosse, aquele gesto não era exatamente um incentivo. Della olhou de relance para Geoffrey e novamente para o chão, parecendo uma menina de 12 anos flagrada com seu primeiro cigarro. – Eu o conheci há duas semanas – disse ela. Geoffrey semicerrou os olhos para ela. – Como pode tê-lo conhecido há duas semanas se você nunca sai desta


– Como pode tê-lo conhecido há duas semanas se você nunca sai desta casa? Della mordeu nervosamente o lábio, mas não disse nada. – Della? – pressionou Geoffrey. – Sim, sobre isso... – disse ela. Então, lançou-se numa longa e enrolada explicação sobre como ela saía da casa de vez em quando por se sentir enclausurada demais. Depois, falou de alguma promessa que ela fizera a si mesma quando criança. Em seguida, falou bastante sobre ópera em geral e, em especial, sobre La Bohème. Então, disse algo sobre uma lojinha na Michigan Avenue e sobre alta costura. Depois, falou do jantar, de Marcus e... Parou abruptamente. Provavelmente, pensou Marcus, porque ela chegara à parte onde os dois haviam entrado no hotel Ambassador. Naquele momento, se Geoffrey fosse um personagem de um romance antigo, ele teria sido descrito como apoplético. Contudo, sua voz estava tranquila quando ele falou para Della: – Não acredito que você anda saindo escondida da casa regularmente sem me avisar aonde vai. – Só algumas vezes – disse ela defensivamente. Quando Della ergueu o olhar e viu como seu protetor a olhava com seriedade, ela se corrigiu: – Certo, seis vezes. Mas foi só isso. E, se eu tivesse contado, você não teria me deixado ir. Eu sempre tomo cuidado. Geoffrey passou mais alguns minutos a censurá-la como se ela fosse uma criança, fazendo Della parecer ainda mais culpada. – Dê um tempo, Geoffrey – disse Marcus, interrompendo o homem no meio de uma frase. – Isso é culpa dos federais, por terem mantido Della enclausurada aqui durante 11 meses. Tanto Geoffrey quanto Della o olharam com irritação por aquilo. A irritação de Geoffrey Marcus entendia, mas a de Della? – Não deixe as coisas piores do que já estão – disse ela. – Geoffrey tem razão. Eu não devia ter saído da casa. Nunca. Algo na maneira como ela disse aquilo fez Marcus pensar que o raciocínio dela tinha menos a ver com o fato de que ela violara as regras e mais a ver com as consequências de seus atos. Ele só esperava que as consequências em


questão não envolvessem tê-lo conhecido e passado o final de semana com ele. Marcus abriu a boca para tentar garantir a ela que o fim de semana que eles haviam passado juntos não fora nada de errado, mas Geoffrey balançou as algemas que ainda segurava e falou: – Se continuar assim, Fallon, vai acabar ficando sob custódia federal também. Só que não vai ser numa casa. Certo, certo, certo, quis dizer Marcus. Ele conhecia seus direitos. Assistia à televisão. – Eu só quis dizer que... – Não me importa o que você quis dizer – censurou Geoffrey. – Acho que eu devia mesmo manter você sob custódia. Ao menos até Della ir embora da cidade. – Mas... – Mas, já que ela se responsabiliza por você e, como ela mesma está dizendo, você é um exemplo de profissional e de ser humano – foi impossível não perceber o sarcasmo na voz dele quando ele disse aquela parte –, então vou deixar você ir embora. Marcus conteve a indignação que sentiu e se obrigou a resmungar de forma razoavelmente controlada: – Obrigada. – Mas você vai ter que ir embora daqui imediatamente e não voltar mais. E lá se ia o comportamento razoavelmente controlador dele... – O quê? Mas você mesmo acabou de dizer que Della se responsabiliza por mim. Sendo assim, que mal pode haver em... – Não preciso explicar novamente que mal há nisso – afirmou Geoffrey enfaticamente. Então, para completar, acrescentou: – A nenhum de vocês. No momento, talvez a ameaça física a Della seja mínima, mas ela tem um trabalho e tanto para fazer na semana que vem, e não podemos pôr isso em risco porque ela se sente inquieta ficando enclausurada. Tanto Marcus quanto Della começaram a falar de uma vez, mas Geoffrey ergueu a mão para impedi-los. Quando nenhum deles falou, o agente federal ergueu a voz acima da deles, atropelando-os com sua fala. – O que vai acontecer é o seguinte – disse ele. – Fallon, você vai para casa


– O que vai acontecer é o seguinte – disse ele. – Fallon, você vai para casa e esquece que viu Della Hannan aqui, em Chicago. – Ah, não vou, não – disse Marcus. Ele não se importava com o volume da voz do homem. – Vai sim – rebateu Geoffrey. – E, Della. – Ele voltou sua atenção para ela antes que Marcus tivesse oportunidade de protestar novamente. – Você vai arrumar suas malas com tudo o que trouxe para Chicago enquanto eu espero. – O quê? Mas por quê? – Della soava tão incomodada quanto Marcus. – Porque você vai fazer o check-out do Chez Tio Sam hoje mesmo – explicou Geoffrey. – A casa já não é mais segura. Você não pode ficar aqui. – Mas Marcus é o único que sabe... – A casa já não é mais segura – repetiu Geoffrey. – Você não pode ficar aqui. Agora, vá fazer as malas. Vamos encontrar outro lugar para você ficar durante as próximas duas noites. Não que eu vá perder você de vista, o que significa que vou perder o bar mitzvah do meu sobrinho preferido no domingo, muito obrigado. Depois, na segunda-feira, você vai pegar um avião de volta a Nova York, conforme programado. Por um instante, Marcus achou que Della fosse resistir às ordens do outro homem. Ela ficou com o corpo totalmente rígido, seus olhos faiscaram de raiva, seus punhos se cerraram. Então, a postura dela mudou rapidamente. Seus ombros baixaram, seu olhar se voltou para baixo, seus dedos se esticaram. – Está bem – disse ela em voz baixa. – Acho que isso é inevitável. – E, Della – disse Geoffrey, chamando a atenção dela –, quero o celular que demos a você. Você não deve ter nenhum contato com ninguém de fora até depois da audiência com o júri. E vamos designar uma escolta 24 horas para você em Nova York... Não, duas escoltas 24 horas para você em Nova York – corrigiu ele às pressas –, até que os poderosos digam que podemos retirar você do programa. – Programa? – perguntou Marcus. Geoffrey se virou para olhá-lo. – O programa de proteção à testemunha. Marcus olhou para Della. – Isso é verdade? – perguntou ele.


– Sim. – Você vai mesmo entrar no programa de proteção à testemunha? – Eu disse a você que precisaria recomeçar do zero em um lugar diferente, Marcus, onde ninguém me conhecesse. Onde eu tivesse uma nova identidade. – Eu sei, mas pensei que... Desta vez, ela o olhou de fato. – Pensou o quê? Ele lutou para encontrar palavras. – Pensei que... Quero dizer, só achei que... Depois de tudo o que aconteceu entre nós... – Ele parou, inspirou fundo e expirou lentamente. – O programa de proteção à testemunha significa que você nunca mais vai poder ter contato com ninguém da sua antiga vida – disse ele por fim. – Significa que não vou ter como encontrar você. Nem mesmo o meu detetive particular, com os contatos dele, vai conseguir encontrar você assim. – Que detetive com contatos? – perguntou Geoffrey, ficando desconfiado novamente. Marcus o ignorou. Della baixou novamente o olhar para o chão. – Della – suplicou ele. – Não faça isso. – Que detetive com contatos? – repetiu Geoffrey. – Se ele sabe como passar pelos bloqueios do governo, precisamos saber dele. – Sendo assim, você pode me interrogar na minha casa depois. – Marcus disparou aquelas palavras sem sequer olhar para o agente. – Ah, vamos fazer isso, sr. Fallon. Com certeza. Della permaneceu em silêncio. Marcus sabia que seria impossível encontrá-la depois que ela desaparecesse. Estava claro que a preocupação de Geoffrey com ela ia além da obrigação de um agente federal. Desde o instante em que ele entrara com tudo na cozinha, houvera um inconfundível ar de paternidade no homem. Ele estava protegendo Della como protegeria uma filha. Era como se Marcus estivesse duelando com uma mamãe-urso. – Della – disse ele novamente –, por favor. Você e eu precisamos conversar. – Não esta noite – garantiu Geoffrey. Então, para Della, com uma voz


– Não esta noite – garantiu Geoffrey. Então, para Della, com uma voz muito mais suave, ele falou: – Vá arrumar suas coisas. Vou dar uns telefonemas para encontrar outro lugar para você. Um lugar que seja seguro – disse ele, olhando para Marcus, claramente sem confiar nele ainda. Della levantou a cabeça e olhou para Marcus, seus olhos brilhando de lágrimas. – Desculpe – disse ela a ele. – Eu... Eu simplesmente... não posso... – Ela balançou a cabeça. – Adeus, Marcus. Ela se levantou do sofá e desapareceu no corredor. Sem pensar, Marcus se levantou para seguiá-la, mas uma pesada mão em seu ombro o impediu. – A porta de saída fica para aquele lado – disse Geoffrey. – Vá usá-la. Marcus não teve escolha se não obedecer. Ele deu dois largos passos na direção da porta, mas parou para olhar pelo corredor. Havia uma luz acessa num dos quartos ao fim do caminho, e ele conseguiu ver a sombra de Della se mexendo diante da luz. Isso era tudo o que ela era para ele agora; uma sombra. Assim como fora antes de entrar em sua vida. Marcus voltara a ficar sozinho. Não, percebeu ele quando um pensamento se formou dentro de sua cabeça. Antes, não fora assim. Pois, antes, Marcus não se dera conta do que lhe faltava. Antes, ele não reconhecera o vazio, pois fora capaz de preenchêlo com mulheres sem rosto. Antes, Marcus conseguira se iludir, dizendo a si mesmo que tinha tudo o que poderia querer, que não faltava absolutamente nada em sua vida. Antes, ele fora capaz de fingir que era feliz e contente. Agora, porém... Agora, ele sabia de verdade o que a felicidade e o contentamento eram. Porque essas haviam sido as coisas que ele sentira quando estivera com Della. Agora, sabia como sua vida poderia ser plena, divertida, fantástica. Agora, entendia como era muito mais agradável compartilhar a vida com alguém. Ele sabia que amar alguém não era algo que uma pessoa simplesmente fazia, mas um estado no qual a pessoa existia. Marcus estava apaixonado por Della, e isso o completava como ser humano. Era algo que lhe trazia uma alegria maior, uma paz maior do que jamais teria imaginado. Sem Della... Bem, ele continuaria apaixonado por ela. Sempre seria apaixonado por ela. Contudo, se Della fosse embora, uma parte dele iria junto. Uma parte que


sempre estaria com ela, uma parte que ele jamais recuperaria. Não a menos que tivesse Della consigo. Mas ela iria para um lugar onde os agentes federais garantiriam que jamais fosse ser encontrada novamente. EMBORA AS audiências perante o júri tivessem durado apenas uma semana, elas haviam parecido ainda mais intermináveis e emocionalmente cansativas do que os 11 meses que Della passara enclausurada em Chicago. Como ela era a única testemunha que os promotores federais tinham, seu testemunho ocupara a maior parte do tempo, e ela falara durante horas todos os dias até achar que ficaria sem voz, sem palavras e sem coragem. Ao final do procedimento, tudo o que ela queria era fugir para sua nova vida, onde seria deixada em paz. Até ela se recordar do que isso significaria. Estaria sozinha. Se ela pudesse ao menos levar Marcus consigo... Mas não podia fazer isso. O que dificultava ainda mais as coisas era o fato de que, mesmo após a conclusão das audiências com o júri, ela não ficaria em paz... Não ainda. Em algum momento, ela precisaria retornar a Nova York para repetir tudo o que dissera. Como o júri recebera uma avassaladora quantidade de provas contra a Whitworth and Stone e contra diversos de seus mais altos executivos, sem dúvida, eles decidiriam que o caso deveria ir a julgamento. Um julgamento que envolveria a mesma testemunha-chave: ela. Apenas depois disso tudo seria capaz de retornar a seu novo anonimato. Só que, desta vez, seria para sempre. Por algum motivo, a expressão para sempre a fazia pensar em Marcus. Por outro lado, quase tudo a fazia pensar em Marcus. Toda vez que alguém lhe trazia uma xícara de café, ela pensava nele servindo uma para ela no hotel. Sempre que o serviço de quarto aparecia com o jantar dela no hotel onde estava hospedada em Nova York, ela pensava em Marcus pedindo aquele banquete de café da manhã para ela. Quando via os homens de terno no tribunal, pensava nele. Quando via homens de sobretudo nas ruas da Nova York, pensava nele. Entretanto, o pior de tudo acontecera na noite de sexta-feira, quando ela saíra do tribunal federal na cidade de Nova York, de casaco de pelo de


camelo, cachecol vermelho, luvas e chapéu, vestida para o clima de Nova York, com um agente federal igualmente agasalhado de cada lado dela. Começara a nevar. Talvez não tão furiosamente quanto nevara na noite em que ela conhecera Marcus em Chicago, mas, ao ver os cintilantes flocos de neve brancos caindo do céu escuro, Della foi dominada por lembranças do que acontecera no terraço do Windsor Club, quando ela tivera a experiência sexual mais incrível de sua vida, com um amante misterioso chamado Marcus. Mas ele não fora um mistério por muito tempo. Della passara a conhecê-lo muito bem durante o tempo deles juntos, ainda melhor do que ela imaginara. Ao longo do tempo que se passara desde o final de semana deles juntos, e ainda mais desde que eles haviam se separado em Chicago, ela começara a se dar conta de quão bem ela conhecia Marcus e quão profundos eram seus sentimentos por ele. Della não tinha como identificar exatamente o momento em que isso acontecera durante aquele fim de semana... Talvez quando ele enxugara as lágrimas dela, ou quando lhe servira uma xícara de café, ou quando passara o dedo num amoroso gesto pelo ombro nu dela... Mas ela se apaixonara por Marcus. O que começara como uma reação sexual crescera em poucas horas para um vínculo emocional. Ela só queria ter admitido isso para si mesma quando ainda havia chances de contar a ele. Della amava Marcus. Talvez ela não tivesse admitido isso para si mesma naqueles momentos porque a sensação era muito nova e desconhecida para ela. Contudo, tinham sido essa novidade e esse desconhecimento que finalmente a haviam feito perceber que ela estava amando. Estar com Marcus a fizera se sentir completa pela primeira vez em sua vida. Quando ela estava com ele, sentia que poderia aguentar qualquer coisa. Tudo o que houvera de errado subitamente parecera perder a força para dominá-la. Ela sentira menos medo quando estivera com Marcus. Menos ansiedade. Sentira-se menos atormentada. Entretanto, acima de tudo, com Marcus, ela se sentira feliz. Desde que ela o deixara... Desde que ela o deixara, nada parecia certo. Nem mesmo a neve que caía em torno dela naquele momento tinha a magia que teria tido, que tivera, meras semanas antes. – Parem – disse Della aos dois agentes ao parar na metade da escadaria do


– Parem – disse Della aos dois agentes ao parar na metade da escadaria do tribunal enquanto desciam. O homem à direita dela, cujo nome era Willoughby, parou imediatamente, mas a mulher à sua esquerda, Carson, desceu mais dois degraus, olhando para a direita e, em seguida, para a esquerda antes de se virar para Della. – O que houve? – perguntou Carson. – Nada. É que... Está nevando – disse Della por fim, como se isso devesse explicar tudo. – E daí? – Daí que quero ficar aqui um pouco e aproveitar. – Ou ao menos tentar. Ela ouviu Willoughby suspirar, irritado, viu Carson revirar os olhos. Della não se importou. Ela já fizera muito por seu país naquela semana. Sacrificara o ano anterior inteiro de sua vida. O mínimo que seu país podia fazer era permitir que ela desfrutasse de um minuto na neve. Ela fechou os olhos e inclinou a cabeça para trás, deixando que os gélidos flocos se acumulassem em suas faces, seu nariz e sua boca. Della suspirou ao senti-los se derretendo um a um, apenas para serem substituídos por outros. Ela ouviu o som de um táxi que buzinou, sentiu a movimentação das pessoas à sua volta, inspirou o cheiro de um ônibus que passava. E sorriu. Ela amava a cidade. Não ligava para o que as pessoas diziam sobre o barulho, as multidões e o trânsito. Tudo isso apenas provava como a cidade estava viva. Ela crescera naquele lugar. Ele fazia parte dela. Por pior que ele a tivesse tratado, quando criança ou adulta, Della não conseguia se imaginar vivendo em nenhum outro lugar. Ela esperava que, fosse lá onde fosse sua nova vida, ela fosse morar novamente numa cidade grande. Pois talvez o fato de estar cercada de pessoas, mesmo que fossem desconhecidas, ajudasse a manter a solidão afastada. – Della. Os olhos dela se abriram ao som daquela conhecida voz. A primeira coisa que ela viu foram as costas de Carson, pois a mulher se posicionara diante dela. A segunda coisa que ela viu foi Willoughby pondo a mão dentro de seu sobretudo para pegar sua arma. A terceira coisa que ela viu foi Marcus. De início, ela pensou que o estivesse imaginando, pois ele estava com uma aparência tão semelhante à que tivera no Windsor Club, soturno, lindo e


misterioso, cercado pela neve. A única diferença era que ele trocara o smoking por um terno escuro. Isso e o fato de que ele parecia muito perdido e solitário. – Marcus – disse ela levemente. Ela segurou o ombro de Carson com umas das mãos enquanto envolvia o braço de Willoughby com os dedos da outra. – Está tudo bem – disse ela a eles. – Ele é... um amigo. Carson sequer se virou para ela ao dizer: – Nossas ordens, srta. Hannan, são para... – Eu assumo responsabilidade total por qualquer coisa que aconteça – disse Della. – O problema não é esse – informou Carson. – O problema é... Mas Della nem esperou que ela terminasse. Ela se afastou rapidamente dos dois agentes, descendo pelos degraus do tribunal, até parar em um acima do de Marcus, de frente para ele. Foi apenas então que ela se deu conta de que ele estava segurando uma mala. Ele devia ter ido para ali diretamente do aeroporto. Devia ter estado acompanhando o processo e sabia que, naquele dia, tudo chegaria ao fim. – Oi – disse ela levemente. – Oi – respondeu ele numa voz igualmente baixa. Nenhum deles disse mais nada por um instante. Marcus pôs a mala no chão ao seu lado e enfiou as mãos nos bolsos de seu sobretudo. Então, Della tomou a iniciativa, erguendo suas mãos enluvadas até os ombros dele, curvando-se à frente e cobrindo a boca de Marcus com a dela. Ela disse a si mesma que estava fazendo isso porque não tivera oportunidade de dar um beijo de despedida nele. Então, era isso que aquele beijo seria. Uma chance de se despedir dele do jeito certo. Mas, que engraçado, no instante em que os lábios dela encontraram os dele, Della não sentiu que aquela fosse uma despedida. Pois, quando deu por si, Marcus estava envolvendo a cintura dela com os braços e esmagando o corpo dela junto ao dele, erguendo-a completamente do chão. O ar, que estivera frígido em torno dela, tornou-se subitamente escaldante, e o calor explodiu dentro dela, deixando em chamas todas as suas extremidades. As recordações dele que a haviam torturado durante toda a semana se evaporaram, substituídas pelas impressões daquela realidade. Ela sentiu os


braços de Marcus em torno de sua cintura novamente, o atrito da barba dele em seu rosto novamente, a sólida força dos ombros dele em suas mãos novamente. Della não conseguia acreditar que ele estava ali de verdade. Espere um minuto. O que ele estava fazendo ali? Esse pensamento a fez recuar, mas Marcus a acompanhou e capturou sua boca com a dele novamente. Apesar de tê-la colocado no chão, ele curvou suas mãos em torno dos quadris dela para mantê-la ali e a beijou ainda mais profundamente. Della se permitiu se perder nas abençoadas sensações por mais um longo momento. Contudo, quando ela ouviu o som de não uma, mas duas pessoas pigarreando de forma nada discreta atrás dela, ela encontrou forças para se afastar dele mais uma vez. Marcus também devia ter ouvido a reação dos agentes, pois não tentou beijar Della novamente. No entanto, ele subiu para o mesmo degrau onde ela estava e envolveu os ombros dela com o braço. Em seguida, puxou-a para si, como se tivesse medo de que os guardiões dela tentassem tirá-la dele. Contudo, nenhum dos agentes parecia ter vontade de separá-los. – Ele parece mais do que... um amigo – disse Carson. – É, não tenho nenhuma... amiga... assim – concordou Willoughby. – Acho que minha esposa não gostaria muito se eu tivesse. Della sentiu Marcus relaxando a seu lado. Mas ele não afrouxou sua pegada nela. E ela não se importou. – Podem me dar licença? – disse Della aos dois agentes. – Posso conversar por alguns minutos com o meu... amigo? Carson e Willoughby trocaram um olhar desconfiado. Então, viraram-se novamente para Della. – Sinto muito, srta. Hannan – disse Carson –, mas privacidade é uma coisa que uma testemunha federal não costuma ter. E a senhorita ainda não está livre da custódia de proteção. Se quiser conversar com seu... amigo... vai ter que ser na minha frente e na frente de Willoughby. – Não tem problema, Della – disse Marcus. Com mais um olhar de súplica para seus acompanhantes, que balançaram a cabeça, pesarosos, em resposta, ela se virou para Marcus. Ele levou a mão ao rosto dela para traçar o contorno das faces dela, de seu nariz, do queixo e


da boca. Ele não pareceu incomodado com a plateia. E Della estava tão feliz por vê-lo que também não se importava com quem pudesse vê-los. – Cedo ou tarde, eu vou ter que me acostumar com essa história de proteção à testemunha mesmo – disse Marcus. – É melhor que seja de uma vez. O comentário a deixou confusa. – Por que você vai ter que se acostumar? Marcus inspirou fundo e suspirou lentamente. Em seguida, afastou a mão do rosto dela para poder pegar a mão de Della. Quando as luvas dela o frustraram, ele retirou uma delas delicadamente. Em seguida, entrelaçou seus dedos aos dela firmemente. – Vou ter que me acostumar porque vou com você. Ela ficou levemente boquiaberta com aquilo. – Do que está falando? – Vou com você. Ela balançou a cabeça. – Marcus, isso é loucura. Você não sabe o que está dizendo. – Sei exatamente o que estou dizendo. – Ele levou a mão dela à boca e deu um pequeno beijo no centro da palma. Em seguida, falou pela terceira vez: – Vou com você. – Mas você não pode – insistiu Della. – Você tem uma vida em Chicago. Uma vida ótima. Muita gente vai sentir sua falta se você desaparecer. – Ninguém que importe tanto quanto você. – Mas seus amigos... – ...não são especialmente íntimos – concluiu ele. – Não importam tanto quanto você. – Sua família... – ...mais parece uma entidade corporativa do que uma família – garantiu ele. – Passei 90 por cento da minha vida me rebelando contra eles, e os outros 10 por cento me aproveitando deles. Também não somos tão íntimos assim. Definitivamente, eles não importam tanto quanto você para mim. – Mas sua empresa. Seu cargo é... – ...em geral, decorativo – disse ele. – E especialmente ele não importa tanto quanto você. Não faço tanta coisa para a Fallon Brothers no momento,


Della. Quando eu assumir o comando, vou fazer ainda menos. Vou simplesmente ganhar um monte de dinheiro para não fazer nada. – Seu dinheiro. Você não pode abandonar tudo. É... – ...apenas dinheiro – concluiu ele tranquilamente. – Nada mais. Também não importa tanto quanto você. – Nada mais? – repetiu ela, incrédula. – Marcus, é de muito dinheiro que você está falando. Milhões de dólares. Ele apenas sorriu, retirou a outra luva dela e pegou aquela mão também, dando nela um beijo idêntico ao que dera na outra. – Na realidade, são bilhões – disse ele casualmente. Tudo o que Della conseguiu fazer para responder àquilo foi soltar um fino grito. Aquilo apenas fez Marcus rir. – Della, eu achava que você seria a primeira pessoa a entender que tanto dinheiro assim pode trazer muitos problemas para a vida de uma pessoa. Não é tão difícil assim deixar tudo para trás. – Ah, claro – gaguejou ela. – Diz aquele que nunca ficou sem dinheiro na vida. – Della, a vida é mais do que dinheiro – afirmou ele. – As melhores coisas da vida são de graça. Os prazeres simples são os melhores. O dinheiro é a raiz de todo o mal. Ela balançou a cabeça para ele, mas não conseguiu evitar sorrir. Provavelmente, por causa das ternas sensações que a percorriam. Ele se curvou para perto dela, levando a boca à orelha de Della. Bem baixo, Marcus sussurrou: – Além do mais, a mulher com quem pretendo passar o resto da minha vida está determinada a reconstruir a carreira dela. Ela pode cuidar de mim. Afinal, ela me ama. A ternura dentro de Della se transformou num rio escaldante. Incapaz de evitar, Della também se curvou à frente para apoiar sua testa no ombro de Marcus. Ele envolveu a cintura dela com os braços e apoiou o queixo no alto da cabeça dela. – Viu? – disse ele em voz baixa. – Você me ama mesmo, não ama? Della ficou maravilhada ao ouvir uma inconfundível incerteza na voz dele.


– Sim – sussurrou ela junto ao tecido do casaco dele. Marcus deu um beijo no alto da cabeça dela. – Ótimo. Porque eu também amo você. Ele também a amava, pensou Della. Ele também a amava. Também a amava. Eram como palavras mágicas de um encanto dentro da cabeça dela, quebrando todos os feitiços malignos de sua antiga vida e trazendo coisas novas consigo. Ele também a amava. – Mas, Marcus – falou ela em voz baixa –, você devia levar em consideração muitas outras coisas além de... – Della, não tenho mais nada em que pensar que não seja você. Tive semanas para pensar em nós dois, e sabe o que descobri que mais importa? Com a cabeça ainda pressionada no peito dele, era tão bom estar ali, ela perguntou: – O quê? – Que eu não precisava de semanas para pensar nisso. Não precisava nem mesmo de dias para pensar nisso. Nem precisava pensar de fato. Só precisava sentir. E o que sinto por você, Della... Quando ele não terminou a frase, Della inclinou a cabeça para trás para olhá-lo. Ele ainda estava sorrindo, mas, naquele sorriso, havia algo que ela nunca vira em nenhum dos outros antes. Paz. Contentamento. Felicidade. Ela reconheceu tudo isso porque, com ele a seu lado, ela também sentia todas essas coisas. – O que sinto por você é diferente de tudo o que já senti na vida. E gosto disso, Della. Gosto muito. Quero me sentir assim para sempre. – Ele baixou a cabeça para a dela e a beijou novamente. Quando recuou, repetiu com determinação: – Por isso, vou com você. Della não sabia por que continuava querendo contestar aquilo, mas não conseguiu evitar tentar mais uma vez. – Mas e se... Marcus levantou a mão para pressionar levemente os dedos na boca de Della. – O “se” não importa – disse ele. – Aconteça o que acontecer, Della, vamos enfrentar tudo juntos. Vamos estar juntos. Isso é tudo o que importa. – Mas...


– Shh – disse ele. Então, baixou os dedos de sua boca para dar um inocente beijo nela. Foi o suficiente para calar a voz de Della, embora não para aliviar suas ressalvas. Ele tinha razão, disse Della a si mesma. Não importava o que o futuro reservasse, contanto que eles dois estivessem juntos. Ela se erguera de um início muito humilde e criara uma vida decente para si antes que tudo desse errado na Whitworth and Stone. E conseguira aproveitar ao máximo uma situação ruim durante 11 meses em Chicago. Sem dúvida, o lugar onde ela recomeçaria sua vida seria infinitamente melhor do que os lugares onde ela começara antes. E, desta vez, Della não embarcaria nessa jornada sozinha. Desta vez, ela estaria com Marcus. E isso tornara tolerável até o futuro mais sombrio de todos. Ele prendeu uma mecha de cabelo loiro-escuro atrás da orelha dela e se curvou até que sua boca estivesse bem perto dela. Sua cálida respiração sobre a pele fria de Della a fez sentir um delicioso calafrio na espinha. Ou talvez fosse a simples proximidade dele que fizesse isso. Assim como fizera com a boca, Marcus deu um pequeno e leve beijo no lóbulo da orelha de Della. Então, recuou o suficiente para murmurar numa voz baixa o suficiente para que ninguém além dela ouvisse. – Além do mais, 30 por cento da minha fortuna é líquida e altamente acessível. Está em contas bancárias na Suíça, e vou poder acessar quando quiser. Não vamos morrer de fome, querida. Acredite em mim. O que significava, pensou ela, sorrindo, que nunca mais precisaria se contentar com roupas alugadas. Uma única e feliz risada escapou dela. Entretanto, nem mesmo essa informação importava. Era como Marcus dizia: tudo o que importava era que eles dois ficariam juntos. Para sempre. Della olhou para a mala aos pés dele. Não parecia muito grande. – Isso é tudo o que você vai levar para sua nova vida? – perguntou ela. Marcus baixou o olhar para a mala. Em seguida, voltou-o novamente para Della. – Na realidade, é até mais do que preciso. Porque tudo de que preciso está bem aqui. Então, ele a beijou novamente. E outra vez. E mais outra vez. E mais uma. Na realidade, ele a beijou durante tanto tempo e tantas vezes que apenas o


surgimento de Carson e Willoughby, um de cada lado deles, fez Marcus parar. Mesmo assim, Della precisou de alguns momentos para se recordar de onde estava. Porém, quando ela viu os dois agentes sorrindo, recordou-se perfeitamente bem de tudo. Ela concluíra o que fora fazer em Nova York. Agora, era hora de rumar para um novo capítulo de sua vida. – Carson, Willoughby – disse ela aos dois agentes. – Digam à chefe de vocês que houve uma ligeira mudança nos meus planos. – Ela se virou para Marcus e deu o braço a ele. – Digam a ela que vou carregar um pouco mais de bagagem do que eu tinha planejado. E, em termos de bagagem, pensou ela, Marcus era do tipo que ela carregaria feliz consigo para sempre.


HERDEIROS DA PAIXÃO Michelle Celmer

– Jeremy nunca lhe contou que tinha um irmão gêmeo idêntico? Ela balançou a cabeça parecendo abismada e confusa. – Ele me disse que não tinha família. E Jason era a prova viva de que tinha. – Jeremy mentiu para mim – ela continuou balançando a cabeça sem poder acreditar. Encarou Jason e podia ver raiva, mágoa, e muita confusão em seus olhos. – Por que teria feito isso? Jason já se fizera a mesma pergunta milhões de vezes. O irmão morrera e ele ainda estava arrumando suas bagunças. Iria consertar as coisas para livrar a cara de Jeremy. Como fizera tantas vezes no passado. – Quem sabe posso entrar para conversarmos – sugeriu, pois era esquisito ficarem os dois meio fora, meio dentro do apartamento. Sem dúvida precisavam conversar para que ele pudesse fazer um cálculo dos danos. Fosse lá como Jeremy prejudicara essa mulher ele iria consertar a situação. – Sim, é claro – ela concordou. Jason se levantou e estendeu a mão. – Quer que eu a puxe? Ela concordou com um aceno e, apertando firme, levantou devagar. Era mais alta do que ele imaginara. Devia ter mais de um metro e setenta de


altura, e batia no queixo dele. Também era muito magra, quase esquelética e com olheiras escuras no rosto. Jason sentiu uma pontada de suspeita. Seria uma drogada precisando de uma dose? Será que fornecia drogas para seu irmão ou vice-versa? Uau. Espere um minuto. Deu um passo atrás mentalmente. Nada sabia sobre essa mulher. Não era justo presumir que se drogava só porque seu irmão fora um viciado. Seria uma presunção de culpa. Ela oscilou um pouco e ele apertou seu braço para estabilizá-la. – Vá com calma. Ainda tonta e de novo pálida, ela disse: – Talvez seja melhor me sentar. – Não é má idéia. Ela moveu as longas pernas hesitantes dentro do jeans justo enquanto Jason a ajudava até o sofá ali perto. Foi então que viu as mamadeiras meio vazias na mesinha de canto. Jesus. Será que seu irmão tivera o desplante de se meter com uma mãe solteira? Pois ela não usava aliança. A ideia deixou Jason enjoado. Sentou na beira da mesinha em frente, perto o suficiente para ampará-la caso desmaiasse de novo. – Conhecia Jeremy há muito tempo? – Há mais de um ano. – E vocês dois estavam... envolvidos? Ela franziu a testa. – Jeremy não lhe contou que estava casado? Casado? Jeremy? Isso sim foi um choque. – Não, não contou. Não falava com meu irmão há cinco anos, desde que meu pai o expulsou de casa. – Então não sabe sobre os meninos. – Meninos? – Nossos filhos. Devon e Marshall.


E leia também em ESCRITO NAS ESTRELAS, edição 254 de Desejo, Amor de inverno, de Jules Bennett.


DESEJO 254 – ESCRITO NAS ESTRELAS Herdeiros da paixão – Michelle Celmer Jason Cavanaugh não sabia o que encontraria ao bater à porta da amante de seu falecido irmão. Porém, jamais poderia sonhar que conheceria seus sobrinhos. Agora, Jason fará de tudo para cuidar dos bebês… até mesmo se casar com a bela Holly Shay. Amor de inverno – Jules Bennett Por anos, Max Ford acreditou ter sido enganado por Raine Monroe. Agora, ele está determinado a descobrir a verdade. E ficar preso por uma nevasca com ela é a oportunidade perfeita para Max desvendar todos os segredos da irresistível Raine. Último lançamento: DESEJO 252 – RICOS & RECLUSOS Amante da meia-noite – Kristi Gold Selene Winston não conseguiu resistir à atração que sente por seu novo chefe. Porém, se ela deseja ser algo mais do que amante, precisa domá-lo além das quatro paredes. Senhor do desejo – Susan Crosby


Zach Keller deveria ser protetor de Julianne, mas ela se sente totalmente exposta sob seu olhar. E, para piorar, Zach insiste que a única forma de mantê-la em segurança é se ela se tornar sua esposa… Mestre da paixão – Michelle Celmer Uma intensa noite de paixão abalou Tess MacDonald tão profundamente que ela fugiu do hipnotizante desconhecido que a levou para a cama. Mas existem coisas das quais ninguém pode se esconder...


CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

C464d Child, Maureen Desafiados pela emoção [recurso eletrônico] / Maureen Child, Elizabeth Bevarly; tradução Leandro Santos. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Harlequin, 2017. recurso digital Tradução de: After hours with her ex; Caught in the billionaire's embrace Formato: epub Requisitos do sistema: adobe digital editions Modo de acesso: world wide web ISBN: 978-85-398-2458-8 (recurso eletrônico) 1. Romance americano. 2. Livros eletrônicos. I. Bevarly, Elizabeth. II. Santos, Leandro. III. Título. 17-40497

CDD: 813 CDU: 821.111(73)-3

PUBLICADO MEDIANTE ACORDO COM HARLEQUIN BOOKS S.A. Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Título original: AFTER HOURS WITH HER EX Copyright © 2015 by Maureen Child Originalmente publicado em 2015 por Harlequin Desire Título original: CAUGHT IN THE BILLIONAIRE’S EMBRACE Copyright © 2011 by Elizabeth Bevarly Originalmente publicado em 2011 por Harlequin Desire Publisher: Omar de Souza Editora: Juliana Nóvoa


Assistente editorial: Tábata Mendes Arte-final de capa: Ô de Casa Produção do eBook: Ranna Studio Editora HR Ltda. Rua da Quitanda, 86, sala 218 – Centro – 20091-005 Rio de Janeiro – RJ – Brasil Tel.: (21) 3175-1030 Contato: virginia.rivera@harlequinbooks.com.br


Capa Texto de capa Rosto Sumário

BUSCA PELA FELICIDADE Querida leitora Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Epílogo

PROMESSAS POR UMA NOITE Querida leitora Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9


Capítulo 10

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