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com amor n達ao se brinca


Silvio Cerceau

com amor nãao se brinca 1ª Edição


Ficha catalográfica elaborada pela Bibliotecária Nina C. Mendonça CRB6/1288

C412c

Cerceau, Silvio, 1973-

Com amor não se brinca / Silvio Cerceau. – Belo

Horizonte : Literato, 2008.

p.; 21 cm. (Livre).

ISBN: 978-85-99885-20-8 1. Ficção brasileira. I. Título. CDD : B869.3


Esta obra é o segundo volume da trilogia iniciada em “Impossível Esquecer” Adquira agora o seu e saiba como a saga começou. www.editoraliterato.com/facil


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O

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O

G

O

hiago acordou aéreo, contemplou Loy caído ao

redor de uma poça de sangue. Tentou se levantar; sentiu

uma forte dor na cabeça. Aos poucos foi voltando à realidade.

O ontem...

Recebeu uma ligação de Loy.

_Preciso falar com você.

_Tudo bem. Que tal almoçarmos juntos? Lá a gente

conversa.

Encontraram-se em um restaurante reservado. _Loy, como está?

_Estou bem! Casei-me com a Susy, lembra-se dela? _Claro, a amiga da Aiko!

_Exatamente.

_E da Aiko, tem notícias?

_Você não ficou sabendo? A casa dela pegou fogo,

foi uma explosão que tremeu todo quarteirão. Um problema na encanação de gás. Perdeu os pais.

_Minha nossa! Deve estar arrasada. – torceu as 9


Silvio Cerceau mãos.

_Não estou tendo muito contato. Não estava em

casa na hora da explosão. Agora está morando no Leblon.

_Vou visitá-la.

_Hum! Olha, Thiago, por coincidência conhecemos

as mesmas pessoas, e desde então têm acontecido coisas estranhas, você não acha? _Não entendi!

_Thiago, não finja de bobo! Acha mesmo que

todas essas mortes e acidentes foram por acaso?

_Não acompanhei os resultados de nenhuma

investigação. Não me interessaram. _Talvez te interessassem sim.

_Por que deveria me interessar?

_Thiago, tem alguém matando essas pessoas por

um motivo muito pessoal.

_Ah, cara, para de criar coisas.

_Não estou criando. Thiago, você é quem matou

essas pessoas – foi uma afirmação. – Vou te denunciar. _Você ficou louco? – descontrolou-se.

_Estou te avisando porque não sou de trair ami10


COM AMOR NAO SE BRINCA gos. Vou levar minhas suspeitas ao conhecimento da polícia. Você discutiu com a Debby e ela apareceu

morta. Na festa de aniversário da Aiko vi você e Daisy

brigando. Ela morreu também. Tenho certeza de que

Aiko sabe tudo isso e te protege porque te ama. Você que

mandou sabotar o encanamento de gás da casa dela.

Porém seu plano deu errado, pois ela não estava lá e deve ter simulado esse seqüestro sem pedido de resgate

pra não levantar nenhuma suspeita; afinal é ex-namorado dela.

_Para não quebrar a sua cara, saia daqui agora.

_Estou saindo, direto para a delegacia.

Loy levantou-se rápido e foi em direção à porta.

Olhou para trás, fitou Thiago e lhe fez um gesto obsceno.

Thiago pegou o celular, discou um número.

_Olá, sumido!

_Aiko, preciso te encontrar agora!

_Que ótimo. É bom que vou te entregar o piloto do

meu novo livro. Estou precisando muito falar com você! _Perfeito, te espero no...

Thiago pagou a conta e seguiu em direção ao 11


Silvio Cerceau carro. Entrou e dirigiu rápido para o local do encontro. Não percebeu que Loy o seguia.

Loy estacionou alguns minutos após Thiago des-

cer do carro. Ainda o viu caminhando em direção àquele local deserto. Observou um táxi afastando–se aceleradamente.

Rumou-se ao local. Aquele galpão deserto.

Deparou-se com a cadeira de rodas vazia... um corpo

caído ao chão.

Foi atingido por algo.

As vistas escureceram.

Entendera todo o jogo. Fora Aiko a responsável

por tudo.

Thiago, durante alguns minutos, ficara ali, inerte.

A seguir levantou-se depressa. _Loy, acorda!

Ele balbuciou, se mexeu com dificuldade, abriu os

olhos, fitou Thiago e concluiu.

_Estamos vivos! – sentiu forte alívio.

_Fica firme, precisamos sair daqui!

_Espere um pouco, vou tentar – levantou-se vaga-

rosamente, pensou um pouco. – Thiago, me desculpe. Na 12


COM AMOR NAO SE BRINCA hora que cheguei vi a cadeira vazia, levei uma pancada na cabeça...

_Cara, que loucura... sempre soube que ela fingia

viver em uma cadeira de rodas!

_Nossa missão agora, Thiago, é encontrá-la, nem

que seja no inferno. Concorda?

_Sim. – concordou impulsivamente. _Este é o nosso pacto!

Apertaram-se as mãos.

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oston destaca-se no cenário mundial pelas ousa-

dias de suas construções.

Aiko hospedou-se em um hotel de luxo. Um jovem

atraente levou sua bagagem ao quarto. Meio sem graça, tratava-a educadamente. Ela estendeu-lhe a mão ofere-

cendo a gorjeta. Não se conteve em deixar de provocá-

lo. Segurar aquelas mãos atraentes.

_Tank you - agradeceu. A voz um convite.

_Senhorita, falo português, sou brasileiro.

_Ufa, que maravilha! – sentiu-se a vontade. – Qual

o seu nome?

_Leonardo – aproximou-se.

_Você é sempre pra frente assim com as hospedes?

_Só quando são comigo, tipo você. – tocou aquele

rosto de pele suave e ponderou: – Aqui não posso fazer

nada, mas podemos nos encontrar depois, trabalho até às seis da tarde – tentou disfarçar a excitação diante de um olhar pedinte.

_Hum... Pode ser, vou adorar conhecer a cidade em

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COM AMOR NAO SE BRINCA sua companhia.

_Te espero num restaurante que fica na próxima

esquina. Me diga o seu nome. _Karem.

_Prazer...

_O prazer é todo meu.

Assim que o jovem se retirou, sentou-se na cama

meio exausta. O passado teria que ser esquecido, mesmo

sendo uma bagagem habitante do seu emocional... a chave do presente... o futuro.

Apesar de todos os atos loucos, não tinha arrepen-

dimento. Via as pessoas como uma presa, usava-as

enquanto achasse conveniente; a partir do momento

que não precisava mais, ou se sentisse ameaçada, a morte seria uma solução... como nos velhos tempos de

infância, na puberdade, há alguns dias e horas atrás,

ninguém nunca soube.

Despiu-se peça por peça; o corpo perfeito ficou

exposto. Pegou um roupão, caminhou ao banheiro.

Entrou na banheira, com uma esponja, espalhou o sabo-

nete liquido e passou-o com apurada dedicação pelo

corpo de pele macia e bem cuidado. Os cabelos longos, 15


Silvio Cerceau os olhos ainda tristes... na cabeça um conflito... uma vontade.

Fitou em cima do lavabo um aquário com um

peixe solitário, o qual nadava feliz. Ela se aproximou

abaixou a face junto ao aquário. Passou o dedo por fora do vidro fino. O peixinho azul acompanhava-o feliz. Uma excitação não pode ser contida.

Tirou-o do aquário, colocou-o em cima do már-

more e fitou-o perdendo o ar pouco a pouco. O último suspiro deixou-a em plena satisfação.

Pegou aquele corpo sem vida e jogou-o novamen-

te no aquário. Em seguida terminou o banho.

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eonardo veio do Brasil há seis anos. Na época já

trabalhava em um hotel. Conheceu um hospede que se

apaixonou por ele intensamente. Na ocasião visitava o país com a intenção de expandir os negócios. A paixão foi demais. Foi fulminante!

Leonardo levou sua bagagem ao quarto e no final

daquela noite, pela primeira vez na vida, deitou-se com

um homem. Logo recebeu uma boa proposta, mudar-se para Boston, com salário bem tentador. Mantiveram aqueles encontros por alguns anos. O empresário

encontrou outro garoto e foi tentar a felicidade.

Para Leonardo foi um alívio, assim voltou à reali-

dade. Continuou trabalhando no mesmo local, mas seu

plano era voltar em breve a sua origem. Homem bonito,

desses que em hipótese alguma passa despercebido. Teve várias oportunidades de mudar de cargo, mas não quis, porque adorava visitar os quartos das hospedes

para deitar-se com as interessantes no final da noite. –

Nem as casadas resistiam – e dos hospedes para brin-

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Silvio Cerceau car um pouco com o jogo da sedução. Tudo em segredo,

pois adorava criar e guardar segredos.

Ao se deparar com Aiko na portaria, logo percebeu

que poderia levar as suas bagagens. Tinha os olhos atentos.

Naquele começo de noite saiu ansioso do trabalho,

foi direto para o restaurante no quarteirão ao lado.

Antes trocou de roupa, passou um perfume suave e agradável. seco.

Sentou-se no banco do balcão, pediu um Martini Conferiu a hora no celular.

Algum tempo depois Aiko entrou, olhou ao redor,

rumou-se ao balcão e sentou-se ao lado.

_Vou te acompanhar no Martini aqui mesmo, -

beijou-o no rosto.

_Hum... adorei este Chanel! É um excelente perfu-

me... me lembra uma pessoa...

_Como sabe que perfume é? _Conheço as coisas boas...

Conversaram algum tempo sobre suas vidas.

Falaram sobre a infância, escola, adolescência, família e 18


COM AMOR NAO SE BRINCA antigos amores. O que tinham em comum é que os dois

eram somente personagens.

_Moro a dez minutos daqui. É um apartamento

pequeno e confortável.

_Quero muito conhecer seu conforto!

Caminharam pelas ruas de mãos dadas observan-

do o cenário da cidade.

_Nossa! Esqueci-me de te dizer que o prédio não

tem elevador, mas são quatro andares, se quiser te carrego no colo.

lado.

_Quero cansá-lo de outra maneira – abraçou-o de Subiram quase que contando os degraus.

_Uhhh... estou meio fora de forma – disse ela. _Entre!

Aiko entrou observando o local. Realmente era

bem aconchegante. Estava diante de um homem de bom

gosto.

_Posso tirar a camisa?

Não houve resposta. Observou aquele tórax

atraente, aproximou e aninhou-se nele. Com as mãos suaves e unhas bem alinhadas percorreu levemente por 19


Silvio Cerceau todo panorama. Desceu-as lentas. Acariciou-o. O beijo ofegante, provido de vontade. Tomavam o ar um do

outro, numa necessidade inexplicável. Ele arrancava-lhe

as roupas. Os corpos se chocaram, um fogo lapidante os

consumiu. Aiko o sentiu dentro dela, e pedia que entras-

se mais, invadisse todo seu ser, sua alma. Os suspiros

quebravam o silêncio. Uma harmonia há tempos não sentida, por ele... por ela.

A noite foi pequena demais para saciar tanta von-

tade. Por isso nos dias seguintes se encontravam inces-

santemente.

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oy ficou imensamente feliz quando Susy anunciou

a gravidez. Seria o primeiro da prole desejada.

Ela ficou indignada quando soube tudo que Aiko

aprontou. O casal tornou-se amigo de Thiago e Charlotte. Tinham muito em comum, eram recém casa-

dos, com a mesma idade e planos parecidos. Toda sema-

na os casais freqüentavam teatros, cinemas e curtiam

algumas baladas noturnas. As mulheres trocavam expe-

riências, já que Charlotte também estava grávida.

Loy e Thiago não deram queixa contra Aiko, afinal

nem tinham provas que a incriminassem. Loy contratou

um detetive particular. Na investigação descobriu, ela passou pelo aeroporto naquela tarde; tudo estava regis-

trado na câmera de segurança, apesar de não ter sido

localizado seu nome em nenhuma lista de embarque. Entretanto, Loy tinha a certeza de que embarcara com nome falso.

Romeu, o detetive, prosseguiu investigando. Ia

concluir o desenrolar daquele carretel.

21


Silvio Cerceau Para Loy, encontrá-la seria preservar sua vida e de

sua família. Tinha a certeza de que era uma assassina

perigosa e , quando soubesse que não morrera, certa-

mente voltaria para se livrar dele. Terminar o que come-

çou.

Loy, naquela tarde, foi à sua joalheria. Há dias não

aparecia por lá. Ao entrar, logo foi recebido por Clara,

uma funcionária extremamente dedicada que por ele

carregava uma incontrolável paixão; fazia de tudo para chamar sua atenção. Carregava água na peneira se pre-

ciso fosse. Porém Loy tinha os olhos somente mirados na esposa.

_Oi meninas – sorriu cumprimentando a todas. –

Vou à minha e não quero ser incomodado. Preciso fazer um levantamento. Pode me ajudar, Clara?

_Sim, Senhor Loy, - estremeceu por dentro com

segundas intenções. – Vou aproveitar e levar aquele café que o senhor gosta. _Obrigado!

Dirigiu-se à sala, ligou o computador; enquanto a

máquina carregava pensava em Aiko. Afinal esse pensa-

mento tornou-se uma obsessão em sua vida. Precisava 22


COM AMOR NAO SE BRINCA encontrá-la para voltar a ter sossego. Precisava olhar em

seus olhos e lhe fazer uma única pergunta. A dúvida

quanto à morte do pai era uma lástima que lhe consumia. Seu pensamento foi interrompido por Clara.

_Está tenso? – perguntou gentilmente. – Vou lhe

fazer uma massagem, - sem esperar resposta passou por trás dele e tocou seus ombros rígidos pela tensão. Com

perfeição, seus dedos massageavam-no. – Desabotoa a

camisa – pediu ela. Caminhou até a porta e girou a chave.

_Há pessoas lá fora, podem pensar mal da gente –

tentou reprovar a atitude.

_Não estamos fazendo nada de errado, estamos?

Clara voltou à massagem, ousando as mãos naque-

las costas firmes. Tocou-lhe no abdômen próximo à cin-

tura.

Loy deu um forte suspiro, bruscamente a inter-

rompeu.

_Vamos ao trabalho.

Levantou-se e destrancou a porta.

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iko acordou enroscada naquele homem monu-

mental. Por alguns minutos permaneceu fitando-o com

satisfação.

Ele abriu os olhos, espreguiçou. _Bom dia!

_Bom dia... já está atrasado?

_Não, hoje estou de folga.

_Que bom!

_E sabe o que vamos fazer?

_Nem imagino; estou perdida aqui, conheço

outros países e cidades, mas em Boston é a primeira vez

que venho.

_Vou te levar há alguns lugares interessantes.

Podemos almoçar e a tarde andar um pouco.

_Quero ir a um shopping ou a uma boa griffe

feminina. Trouxe poucas roupas. Gostaria de comprar algumas.

_Vai ficar aqui por quanto tempo?

_Olha, ainda não sei... na verdade vim fazer uma 24


COM AMOR NAO SE BRINCA pesquisa para meu novo livro. _Você é escritora? _Sim.

_Qual a sua obra?

_Com Amor Não se Brinca. _Interessante o nome!

_Não deve conhecer, minha obra ainda está restri-

ta ao Brasil.

_Caso não se importe, que tal fechar a conta no

hotel e ficar aqui.

_E quanto vou pagar?

_Hum... – nos olhos o desejo, - que tal todas as noi-

tes muitos beijos e abraços. _Ah! Somente isso...

Aiko sentiu por aquele homem algo tão profundo

como nunca sentira antes.

O mês passou depressa e naturalmente tornaram-

se namorados. Ela, às vezes, se pegava de ciúmes, imagi-

nava-o no quarto das outras hospedes, porém, Leonardo

também se aquietou a seu lado. Sentiu algo diferente no

seu coração.

Convidou-a para um jantar especial, fora. 25


Silvio Cerceau _Sabe, vir a Boston foi a melhor coisa que fiz em

minha vida. dar?

_Também acho – pediu um vinho. – Vamos brin_Sim.

_Ao amor... fez uma pausa, tomou o vinho, colocou

as mãos sobre a mesa e as palavras foram pronunciadas pausadas, - eu... te... amo!

Ela levou um choque e não sabia o que dizer, mas

era uma escritora; criava personagens que mexiam com as pessoas... agora chegara a hora de representar um.

_Eu também te amo! Aproximou-se e o beijou

demoradamente.

Dali para frente o tempo era calmaria. Talvez pela

carência de amigos, Leonardo tornou-se um homem perfeito; aquele que toda mulher almeja.

Saía cedo para o trabalho. Antes preparava o café

e levava na cama para ela. Trocava a ração e água do seu cachorro, fiel amigo desde que ali chegara.

_Gasparzinho... – o animal vinha latindo balan-

çando a cauda. – Isso, rapaz! Vem no papai... Que neném bonito! - o bicho rolava de felicidade. 26


COM AMOR NAO SE BRINCA Ela fingia não perceber tanta atenção destinada

aquele bicho.

Leonardo saiu para o trabalho.

Aiko levantou- se, recordou a infância. O ontem...

A fazenda da avó.

Caminhou até à sala...

_Vem, Gasparzinho!

O animal de raça pequena, pulou em cima da pol-

trona.

Ela fitava-o excitada, não podia mais conter sua

vontade.

Pegou-o no colo.

_Que neném bonito!

Por algum tempo permaneceu olhando-o profun-

damente enquanto articulava a maneira mais sofrida de

sua morte. De repente a solução: o vaso sanitário.

Colocou uma música num volume alto. Levou o animal até o banheiro; sob reluta jogou-o dentro do vaso,

fechou a tampa e apertou a descarga. A pele arrepiava.

Depois de alguns minutos, nada se ouvia além da músi-

ca. Abriu a tampa e contemplou o corpo sem vida. Vestiu-se e saiu.

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omeu trouxe boas notícias a Loy. De posse das fil-

magens do aeroporto naquele dia, conseguidas median-

te a sua boa influência, pôde analisar minuciosamente as imagens e descobriu que Aiko embarcou para Boston, usando o nome de Karem Parker.

_Eu não disse, - comemorou Loy, dando um soco

na mesa.

_Parabéns, Romeu, você é muito competente –

disse Thiago em tom debochado.

_Obrigado , rapaz – pegou a xícara de café – temos

que tomar cuidado, essa mulher é uma assassina em série e se descobrir que estão vivos...

_O pior é que não temos prova de nada. Não se

pode ligar um crime a outro, tudo foi muito perfeito – disse Loy.

_O meu depoimento de nada servirá – interveio

Thiago.

_Você é o culpado! – acusou Loy. _Epa, vai começar me agredir?

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COM AMOR NAO SE BRINCA _Thiago, a mulher te confessou que matou o

primo, a prima e a amiga e você não fez nada! Com cer-

teza, matou meu pai e também pode ter te seqüestrado. _Loy tem razão – interferiu Romeu.

_O que podemos fazer agora é tentar pegá-la ou

senão deixá-la livre para cometer outros crimes. Nossa

família corre riscos – comentou Loy em tom desesperador.

_Podemos mudar de cidade, assim ela não irá nos

encontrar;eu conheço Aiko muito bem. – Thiago tentava acalmá-lo.

_Thiago, me responda uma coisa; você também

sabia que ela fingia ser cadeirante? – indagou Romeu.

_Sim, esse foi o meu erro, sabia tudo sobre Aiko,

mas nunca pensei que ela chegaria a tanto. Sabe, amei-

a demais. Sinceramente ia me casar com ela. Quando percebi tudo e me revelou seus crimes, meu amor ces-

sou. Eu não podia amar alguém assim. Prometi-lhe o meu silêncio, hoje sei que foi isso que me manteve vivo. _Pode ter certeza que sim – concordou Romeu.

_Que vamos fazer? - perguntou Loy, passando a

mão na cabeça.

29


Silvio Cerceau _Ir atrás dela, pegá-la e fazê-la confessar tudo.

Somente uma pessoa pode fazer isso – disse Romeu

Olhou para aquele rosto inocente e amedrontado a

sua frente e disse:

_Você, Thiago! – apontou em sua direção.

_Eu?

_Sim, em você Aiko confia; confiou uma vez e sem-

pre confiará.

_Não posso me envolver nisso, é muito arriscado.

_Thiago, vamos os três para Boston. Você a encon-

tra. Basta fazê-la pensar que Loy está morto. O plano é o seguinte...

Romeu elaborou por vários minutos uma armadi-

lha para pegá-la.

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A

6

s vítimas são objetos das fantasias daqueles que

têm o desejo de matar.

Para Aiko, suas vítimas se resumiam a quem lhe

causasse qualquer insegurança, contrariedade ou ciú-

mes. Assim foi com Janier: negou-lhe o seu amor. Dayse,

que traiu sua amizade. Debby: intrometeu-se em sua

vida. Seus pais que representavam uma ameaça. O pai de

Loy que gerava nele o que ela não podia gerar. Thiago e

Loy que poderiam destruir a sua vida. O que Aiko não

tem conhecimento é que falhou na eliminação deles.

O animal de Leonardo tomava-lhe a atenção, o que

a deixou em plena amargura, mesmo sabendo que o

objeto de sua fantasia ficaria triste, precisou ir em frente.

Chegaram em casa no começo da noite. Ao abrir a

porta, Leonardo estranhou a falta do cachorro; cami-

nhou por todos os cômodos; ao entrar no banheiro se

deparou com a tristeza. _Karen, me ajude!

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Silvio Cerceau _O que foi? – fingiu se surpreender.

Leonardo pegou o corpo molhado do animal, colo-

cou-o no sofá e chorou feito criança.

_Meu amor, não fique desse jeito, vamos arrumar

outro bichinho para você.

_Eu não quero mais animal. Este cachorro foi meu

companheiro por mais de cinco anos. Mas tudo bem...

No dia seguinte ele acordou rápido e foi direto

para o trabalho.

Aiko sentiu imenso ódio da sua indiferença.

Há três meses estava ali e tudo se tornava monó-

tono a cada minuto. Aproximava a hora de partir. O sen-

timento por Leonardo se resumia somente a um desejo

de sexo. Tinha um corpo gostoso de tocar e uma rara

beleza. Itens essenciais a ela.

Passou o dia pensando o que fazer. Não via nele

nenhuma ameaça. Leonardo era fiel, amigo e bom

amante. Precisava de um motivo para lhe fazer infeliz... As pessoas tristes precisam morrer – pensou.

A partir disso, toda a estima por ele... ia e vinha...

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A

7

ntes de ir em busca de Aiko, Thiago precisava

acertar algumas coisas em sua vida, tudo aconteceu tão

depressa. Recordou-se do seu encontro com aquela mulher enigmática. Na ocasião eram somente crianças. Na adolescência, seus olhos iam rumo àqueles seios em formação, aquele corpo era um convite ao seu desejo, quantas vezes imaginou-a em seus braços, na sua cama.

Contudo o respeito que tinha por ela não lhe permitia qualquer ousadia.

O tempo foi passando e Thiago inventava motivos

para estar presente naquela casa. Após o acidente tomou

coragem e se declarou. Aiko se entregou sem reservas,

sem pudor.

Estavam no quarto dela, aproximou-se trêmulo,

pegou-a no colo, levou-a até a cama, despiram-se peça por peça. Nunca em sua vida o corpo queimara com tanto prazer.

Na adolescência era um rapaz viçoso, como conti-

nua sendo atualmente, um corpo muito perfeito e boni-

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Silvio Cerceau to. Disputado pelas meninas da mesma idade; escolhia toda semana uma diferente e levava para sua cama. A fama de pegador se espalhou. O que fez com que o dese-

jo das garotas ficasse mais aguçado.

Mas tudo não passava de aventuras, porque o seu

sentimento era de Aiko. Estava disposto a se casar com

ela. O fato de viver em uma cadeira de rodas não seria

um obstáculo para tamanho sentimento. Quando perce-

beu a farsa, toda a magia se acabou. Precisava somente arranjar um motivo para livrar-se dela. Não podia se

submeter a viver com aquela mulher e ser cúmplice

daquela mentira.

Na ocasião em que discutiram, Aiko despejou em

cima dele toda a verdade.

_Sei, meu amor, que você sabe de tudo – disse se

levantando da cadeira.

Por alguns segundos, Thiago sentiu-se mal. Balançou a cabeça e disse:

_Aiko – olhou-a com indignação: - você é louca! _Deixa eu te explicar tudo.

Ele escutou estático todo o lamentável relato.

_Pelo amor de Deus, jura que me perdoa e que 34


COM AMOR NAO SE BRINCA guardará este segredo, jura?

_Você matou! É uma pessoa perigosa.

_Sei que me ama, que me amou por toda a sua

vida e que eu mesma destruí o seu sentimento. Meu últi-

mo pedido é somente o seu segredo, nem precisa me

perdoar.

_Tudo bem, mas prometa-me que poderei seguir

meu caminho sem se intrometer nele.

_Sim, façamos este pacto – a expressão vitoriosa.

_Vou me casar com a Charlotte, preciso te esque-

cer! Ela me ama com extrema dedicação e tenho certeza de que com o tempo esse amor me contaminará.

_Thiago, este é nosso segredo! Irei cumprir e você

jura que também irá.

Não disse nada, apenas balançou a cabeça para

cima e para baixo. Partiu.

Agora parado, calado, relembrava esses episódios.

Nunca teve dúvida: Aiko foi o seu primeiro amor, seu

único amor. Em Charlotte encontrou somente o refúgio para sua fuga, foi demais para sua cabeça toda aquela

louca história.

Ir atrás dela seria o mesmo que regressar a todo 35


Silvio Cerceau este passado confuso, cheio de mentiras e ilusões. Seria

voltar a se encontrar com o seu único amor, e além de tudo levá-la ao abismo, essa viagem tornou-se um dile-

ma, mesmo sabendo que Aiko não se importou em ten-

tar eliminá-lo do mundo, mas o amor supera tudo. Não conseguia ter nenhuma magoa por ela, não podia falar

com ninguém sobre isso. Virou um tormento sem fim tal situação. Thiago perdeu o entusiasmo por tudo. Ia para

a editora, conferia algumas obras, à tarde caminhava em meio a cidade agitada, pegava o carro e calmamente

atravessava o trânsito sem nenhuma preocupação. Ao

chegar em casa jantava com Charlotte. Às vezes passava

em um restaurante e tomava um drink.

E a duvida permanecia em sua mente, domada

pelo sentimento da paixão.

Loy contava os dias para ir atrás de sua presa.

Precisava encontrar Aiko e olhar em seus olhos falsamente tristonhos.

Frente a frente com aquela criatura seria testar sua

paciência. Ainda não conseguia acreditar em como uma

pessoa poderia ser tão inconseqüente. Depois de todo o

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COM AMOR NAO SE BRINCA ocorrido, não conseguia pensar em outra coisa, senão

nela. Tudo era ainda muito claro. Ela sentada na cadeira de rodas, todas as manhãs, os mesmo olhos, a face ange-

lical. A primeira visita, a festa de aniversário, os chás de hortelã... os corpos misturados. Foi despertado por Susy.

_Meu amor, onde esta seu pensamento? – beijou-o

na face.

_Aqui mesmo, - sorriu sem graça.

_Olha que lindas as roupinhas do nosso bebê.

_Amor, já começou a comprar?Ainda nem sabe-

mos o sexo.

_Comprei cores neutras, é assim que se faz quan-

do não se sabe o que vai ser.

Loy pegou o pequeno casaco, os olhos brilhavam

de satisfação.

_Gente, serei pai, que louco – a voz de entusiasmo.

_Louco por quê, meu bem?

_Ah, parece que foi ontem que nos casamos.

Aconteceram tantas coisas, - fez uma pausa. Pensou um pouco e disse:

_Agora estamos aí, colocando outra vida no 37


Silvio Cerceau mundo, é muita responsabilidade, mas daremos conta –

aproximou-se e a abraçou ternamente. Por algum tempo permaneceram ali parados, sentindo somente o calor e

a respiração um do outro. O pensamento de que seriam

pais em pouco tempo, realmente amedrontava os dois. Preparavam-se para aquele fato inédito.

Nesse momento Loy ficava em dúvida se ia valer

apena se expor a um risco por algo do passado que não

poderia mais voltar ou se simplesmente seguiria em

frente, deixando que o tempo afastasse essa lembrança ruim, cada vez mais.

38


L

8

eonardo chegou em casa exausto, devido a um

importante evento na cidade, o hotel esteve movimenta-

do dia o inteiro. Chegou sem o mínimo de bom humor, sentou-se no sofá, tirou os sapatos, em seguida a cami-

sa. Prostrou-se ali, sem forças até para um bom banho.

_Olá, meu amor – disse Aiko animadamente, - que

carinha de cansado – comentou ao fitá-lo.

_Hoje o dia foi um caos, estou morto!

_Precisa de um banho para se animar.

_Sim, preciso mesmo, mas que tal antes uma mas-

sagem. – tentou se entusiasmar. _Indecente!

_Oh! Indecente só porque pedi uma massagem?

Você quem colocou maldade. coço.

_Sei, - sentou-se no colo dele, acariciou-lhe o pes-

O desejo de sexo por ele vencia sua vontade de se

afastar. Aiko sentia raiva de si mesma, porque era

Leonardo aparecer e ela esquecia seus planos.

39


Silvio Cerceau Carecia tentar fugir daquele homem, sentia que

uma paixão ameaçava sua pessoa. Sabia que as pessoas

apaixonadas cedem a tudo. Aiko estava abdicando-se aos toques, carinhos e atenção dele.

Na ausência, planejava uma maneira de livrar-se

dele, uma forma de fazê-lo triste, porém quando

Leonardo chegava do trabalho, lá estava cumprindo seu

papel de mulher apaixonada. Não podia levar essa his-

tória adiante. O ontem era sua realidade. O contentamento.

Uma realização.

Cedo ou tarde iria se livrar dele por bem ou por

mal. Foi assim com Thiago, com Loy... com seus pais.

Nada de piedade. Mas Thiago era impossível esquecer...

Tomaram banho juntos, comeram uma pizza, saí-

ram para passear na noite calma. De mãos dadas sen-

tiam o vento ameno. Na madrugada, o orvalho molhava

os corpos quentes de prazer. Ele se entrelaçava nela. Ela não podia aceitar aquela paixão!

Durante mais dois meses, tudo acontecia numa

calmaria.

Leonardo seguia seus rituais diários e Aiko estava

40


COM AMOR NAO SE BRINCA a seu lado, sempre submissa a tudo, sem ação. A perfei-

ta oportunidade de realmente ser uma nova mulher e

apagar o passado como almejou na ida para ali. Mas algo no seu interior incomodava-a.

Naquela semana saiu cedo, andou um pouco ten-

tando respirar o ar fresco que o vento soprava.

Sentou-se num bar, pediu um café com chantilly.

Tomava calmamente, pensando no seu passado, nas

suas vontades.

_Speak portuguese?

Aiko virou-se depressa e fitou-o profundamente.

_Olá, sim falo, sou brasileira.

_Tudo bem com você? – perguntou ele.

_Sim, aceita um café?

_Não! Preciso somente de uma informação.

_Se eu puder ajudá-lo, porque também sou turista.

_Preciso ir a este endereço, onde minha irmã

mora. do.

Ela pegou o papel, leu e balançou a cabeça sorrin_Brincadeira... – fez uma pausa. – Se eu te contar

que moro no mesmo prédio, porém no quarto andar.

41


Silvio Cerceau _Que sorte a minha, - exclamou surpreso. _Somente coincidência – ressaltou Aiko. _Pode me explicar como chego lá?

_Estou indo para lá. Qual o seu nome? _Matheus, e o seu?

Pensou um pouco antes de responder e disse: _Karen. Mas o que veio fazer aqui?

_Como lhe disse, tenho uma irmã que mora aqui

há dois anos. Ela estuda na Harvard; meus pais fizeram questão que eu também viesse. E você?

_Eles têm razão, é uma das melhores do mundo –

tomou mais um gole do café, - estou de férias, por acaso encontrei um amigo, estou uns dias na casa dele com o meu irmão. Mas vamos...

Ela o deixou na porta do apartamento.

aqui.

_Engraçado pensei que não morava ninguém _É que minha irmã é interna no campus , vem aqui

vez ou outra.

_Tudo bem! Vemos-nos depois.

Foi subindo as escadas.

_Olha amanhã ficarei aqui de manhã, quer tomar

42


COM AMOR NAO SE BRINCA o café comigo? Será um modo de te agradecer pela carona.

_Vou pensar!

Naquela noite, Aiko não conseguiu sequer dormir.

43


C

9

harlotte percebeu que algo não estava bem para

Thiago, tentou conversar sobre, mas foi interrompida com a famosa frase:

Para de criar coisas.

Tentava fazer de tudo para que ele voltasse a ser o

que era no começo do namoro. Sentia que aquele amor

demonstrado estava falho.

Sentia-se incomodada, porém nada podia fazer.

Às tardes encontrava-se com Susy para continua-

rem nas compras do enxoval para os bebês. Para elas nada era mais satisfatório.

A cada dia visitavam um shopping.

_E o Loy, está bem?

_Sim, anda meio ocupado e também preocupado

com essa viagem atrás da Aiko.

_O quê? – gritou surpreendida. _Você não sabe?

te. 44

Charlotte apenas balançou a cabeça negativamen-


COM AMOR NAO SE BRINCA _Inclusive o Thiago vai também. Ele será a isca.

_Engraçado, não me contou nada. Ultimamente,

anda estranho, aéreo e ansioso.

_Ih amiga, acho que esses rapazes deveriam

esquecer essa história. Tem coisas que o melhor é esque-

cê-las.

_Pois não deixarei Thiago ir, mas de jeito e manei-

ra nenhuma – disse decidida. – Estou grávida e não per-

mitirei que aquele demônio estrague novamente minha

felicidade e você, Susy, deve fazer o mesmo com o seu marido. Chega! Pelo amor de Deus!

_Vamos tomar um lanche? Assim podemos con-

versar melhor.

Rumaram-se à praça de alimentação.

Thiago estava no meio de uma reunião editorial

quando o celular tocou. Pediu licença para atender. Ao escutar aquela voz disse:

_Oi! Sabia que ia me ligar. Por que de um número

confidencial?

_Para saber se estava mesmo vivo. Evitar cons-

trangimentos.

45


Silvio Cerceau _Como está?

_Assim igual a você, viva!

_Sinceramente não pensei que tinha motivos para

se livrar de mim, devo minha vida a Loy. Mas ainda guardo nosso segredo, por isso preciso que me dê sua

palavra que não fará nada contra mim e nem contra

minha família.

_Thiago meu amor, sabe ainda sinto seu cheiro,

suas mãos, sua saliva. Sei que exagerei, mas o medo nos

transforma. Perdoa-me!

_Tudo bem, isso é passado. _Você nunca será passado.

_Ainda vai voltar para me matar?

Um longo silêncio se fez.

_Alô, me responda – pediu Thiago ofegante.

_Meu amor, meu único amor, hoje vivo em outros

braços para tentar te esquecer, por você faço qualquer

coisa.

_Jura que faz?

dos.

46

_Sim. Embora os erros não possam ser conserta_O que você quer?


COM AMOR NAO SE BRINCA _Sua cumplicidade, o seu amor.

_Te prometo minha cumplicidade. Mas hoje sou

casado.

_Volto em breve. Quero te ver!

Thiago sentiu um frio na barriga, sentiu-se exci-

tando.

_Onde te encontro?

_Eu te ligo assim que chegar. Nosso pacto está

feito, sua segurança e a dos seus em troca de seu silên-

cio... – fez uma pausa, suspirou, - e o seu corpo nem que

seja pela última vez. Ah! Não se preocupe, também vol-

tarei casada. È um homem muito cordial. Serão amigos. Desligou sem tempo de resposta. Thiago ficou

pensativo. De repente, percebia que aquele desprezo por

ela antes foi apenas uma fuga do amor que sentia.

47


A

10

iko fingia dormir, quando Leonardo saiu para o

trabalho. A seguir tomou um longo banho, vestiu um

traje básico e sensual, passou no pescoço uma gota de perfume.

Desceu às escadas, tocou a campainha.

_Bom dia! – disse ao deparar-se com Matheus. Ele

trajava somente uma bermuda, sem nada por baixo. Ao contemplar aquele corpo, ficou desordenada. _Vim tomar o café! – disse sutilmente.

_Que bom, entre.

Frente a frente o beijo foi o inicio de tudo. As horas

passaram sem que percebessem.

_Nossa, preciso ir – disse ela.

_Ah não! Fica mais um pouco.

Aiko tentava encontrar Thiago em cada um que

tocava. Nos momentos ofegantes de prazer, de olhos

fechados pensava nele, cada toque, cada beijo, cada

gesto e cada abraço. Ela tinha algo muito encantador, por isso Matheus apaixonou-se. 48


COM AMOR NAO SE BRINCA O que era sem graça, de repente virou um jogo

interessante.

Durante os dias de sol, chuva, calor ou frio, fazia

companhia a Matheus, nas noites escutava as juras de

amor de Leonardo. Situação que a deixava em plena satisfação.

Porém seu tempo estava terminando.

Sua maneira peculiar diabólica de conduzir a

situação. Convenceu Matheus de que Leonardo era um

irmão, ciumento e anti-social.

_Se quiser continuar me tendo é melhor guardar-

mos tudo em segredo – avisou.

_Quero namorar sério contigo – interveio

Matheus meio em desespero.

_Na hora certa te aviso – empurrou-o para a cama

– confie em mim, meu amor.

Matheus estava dominado. Era somente isso que

Aiko precisava.

Espero que este pirralho não dê trabalho – pensa-

va preocupada.

Na semana seguinte, novas cobranças começaram. Discutiram durante horas.

49


Silvio Cerceau _Hoje vou falar com seu irmão, está decidido –

comunicou Matheus com a voz alterada.

_Querido! – tentou manter a calma. – Tem razão.

Com um sorriso no rosto, abraçou-a, apertou-a em

seus braços com vontade de ficar daquele jeito pra sem-

pre.

Alguns minutos depois estavam na cama.

_Eu te amo, - dizia ele, a voz ofegante, - casa comi-

go? – o movimento mais rápido, - quero ser seu para

sempre! – a explosão inevitável, - meu amor, minha

vida, - as forças esgotadas.

Aiko se levantou, foi até a cozinha, respirou fundo,

tomou água. Voltou ao quarto. Matheus estava sentado na cama, na pele suave e clara, o suor escorria. _Tá chateada comigo?

_Não – respondeu depressa.

_Olha Karen, sei que nos conhecemos há poucos

dias, mas o amor vem sem tempo certo, me apaixonei

por você verdadeiramente. Nunca senti nada assim. Mas

veja bem, desde que nos conhecemos, nem sequer saí-

mos de casa. Assim que seu irmão sai, você vem e fica-

mos aqui isolados do mundo! Ainda bem que à noite

50


COM AMOR NAO SE BRINCA sempre vou ao mercado comprar algo para nós. Parece

que vivemos escondidos.

_Tem razão. Vamos sair agora, aqui tem um terra-

ço maravilhoso, fica no oitavo andar, vamos lá; quero te mostrar algo.

_Hum... gostei – comemorou, - primeiro vou

tomar um banho, é rápido!

Cuidadosamente, Aiko pegou uma luva, e com um

pano limpou rápido alguns lugares do apartamento.

Antes que Matheus saísse do banho abriu a porta

limpou a fechadura, foi até o triturador de lixo, jogou as luvas, voltou, fechou a porta com a ponta do sapato.

Alguns minutos depois, ele vestiu uma bermuda

que deixou a mostra as pernas atraentes do joelho para baixo, uma camiseta regata destacava o tórax e os braços desenhados.

_Vamos amor – disse ele.

Abriu a porta, saíram sem se tocar.

_Ah pode ir subindo, somente vou pegar uma sur-

presa para você.

Algum tempo depois ela chegou ao terraço,

Matheus se encontrava sentado no peitoral.

51


Silvio Cerceau _Nossa que vento bom... tem coragem de sentar

aqui comigo?

Aiko se aproximou bruscamente, empurrando-o

rumo à queda. Sequer ele conseguiu gritar. Descendo rápido às escadas, ainda ouviu o estrondo do corpo tocando o chão.

O maior sonho ficara na infância, jogar uma ami-

guinha laje abaixo. Idiota, não tinha como você escapar.

Sinto muito por ter apaixonado por mim.

Da janela, observou vários curiosos acompanha-

rem o resgate do corpo.

52


T

11

hiago andava ainda mais estranho, evitava Loy de

todas as maneiras. Naquele dia não conseguiu se conter e explodiu.

_Loy, não vou atrás de Aiko de jeito nenhum, não

quero mais saber desse assunto, - exasperadamente foi

direto em suas palavras.

_Cara, não podemos deixar aquela louca solta!

_Loy, Loy, Loy... cai na real, vai viver a sua vida.

Esquece isso! É uma história tão sem lógica que nem a

polícia vai acreditar. Olha seremos pais e seguir a vida deixando isso tudo para trás é o melhor.

_Por isso estou preocupado, agora tenho esposa e

em breve um filho, se ela voltar para se vingar. _Não vai voltar – foi uma afirmação.

Desconfiado, Loy fitou-o profundamente. _Como sabe? Olha para mim, Thiago.

_Eu prefiro acreditar que nunca voltará. _Tudo bem!

Depois desse encontro Loy não falou mais com 53


Silvio Cerceau Thiago. As esposas continuavam amigas, e através de

Susy com quem Loy falava sobre tudo, Charlotte sentiu-

se aliviada em saber que o esposo desistira da louca

idéia de ir atrás de Aiko.

Na realidade o alívio tomou conta da vida delas. Thiago continuou falando com Aiko toda semana,

muitas vezes enquanto escutava declarações e palavras de amor, ele explodia num orgasmo irracional.

_Já sabe quando vem? Não agüento mais ficar

longe de você.

_Olha estou terminando meu novo livro, dentro de

três meses, com certeza estarei ai. _Vai vir para o Rio, mesmo? _Ainda não decidi. _Aiko, eu te amo!

_Eu também te amo! Queria voltar hoje, mas você

sabe que corro muito risco, afinal o Loy sabe de tudo... o

pior, ele, Susy e Charlotte.

_Não se preocupe com eles, não irão fazer nada.

_Meu querido, sou uma pessoa pública, ao lançar

meu livro, estarei exposta a eles. Não posso correr esse 54


COM AMOR NAO SE BRINCA risco.

_É mesmo, eu não tinha pensado nisso.

_Se me ama de verdade, pode me ajudar! _Como Aiko?

_Dando um jeito no Loy e sua interiorana brega.

_Não posso fazer isso.

_Claro que pode! Para me ter vale a pena! A mesma excitação dominou-o de novo. As semanas passaram.

Susy sentiu um desconforto, uma dor aguda. Foi

logo para hospital.

Na sala de espera, Loy andava de um lado para

outro. Estalava os dedos. Sentava e levantava.

Ela entrou em trabalho de parto, embora estivesse

no sétimo mês.

A criança não resistiu.

Loy recebeu a notícia em desespero, não podia

acreditar naquele novo golpe do destino. Chorou feito criança.

Ficou ali na recepção sentado olhando para o

nada. Sua vida passava feito um filme. Sentiu-se tão 55


Silvio Cerceau sozinho. Tão triste. Queria ter alguém que lhe desse o colo, o ombro para desabar todas as suas tristezas.

Clara entrou com os olhos a procura dele, sentou-

se ao lado e disse;

_Meu amigo Loy, vem comigo – amparado nela,

saiu dali sem se opor.

Entraram no carro dela.

_Se importa de ir para meu apartamento? Quero

cuidar de você.

_Não posso – a voz chorante – tenho que voltar

para o hospital.

_Loy, ela necessita ficar em observação, será libe-

rada somente amanhã.

Clara era amiga da médica de plantão que lhe pas-

sou informações confidenciais. Sorriu carismática e disse.

– Vamos, Loy, você precisa descansar.

Ele fez que sim com a cabeça.

Ao chegar ao apartamento, não se conteve e cho-

rou... chorou pela mãe, pelo pai, pela verdade sobre sua vida... chorou pelo seu filho.

Carinhosamente, Clara o escutou com atenção,

56


COM AMOR NAO SE BRINCA limpou suas lágrimas, acariciou seu rosto triste.

Abraçou-o calorosamente. A seguir, tirou seus sapatos,

suas meias, fez carinhos naqueles pés perfeitos, beijouos. Colocou suas pernas em cima do sofá, e velou aque-

le sono necessário.

Com cuidado desabotoou-lhe a camisa, suavemen-

te beijou-o no tórax quente, sentiu as batidas descom-

passadas daquele coração ferido.

Mas tinha que reprimir seu desejo e sentimento.

No dia seguinte, Loy acordou assustado. _Que horas são?

_Não se preocupe – disse Clara sorrindo.

_Eu não podia ter ficado aqui – comentou arre-

pendido.

_Meu amigo, está tudo bem! Já liguei para o hos-

pital, a Susy ainda dorme.

_Clara, nem sei como te agradecer por tudo. _Não precisa agradecer.

_Posso tomar um banho?

_Claro que sim, já deixei a toalha no banheiro e

também te preparei um café bem reforçado.

Ele sorriu, levantou meio sem graça, foi para o 57


Silvio Cerceau banho.

Loy via em Clara uma amiga espetacular, seu

braço direito na joalheria, e agora também na vida pes-

soal. Talvez por enxergá-la sem maldade alguma, não percebesse o amor que ela sentia.

58


D

12

ois meses depois.

O filho de Thiago nasceu saudável. Charlotte esta-

va imensamente feliz. Ao olhar aquela criança, ainda não acreditava que era dela. Tudo se comparava a uma magia sensacional, coisas da vida.

Destinou-se a atenção ao filho, também nos últi-

mos meses Thiago tornou-se tão estranho. Todo o entu-

siasmo do casamento acabara-se de uma hora para outra. Nem se tocavam mais, ela deu um tempo pensan-

do ser por causa da gravidez, porém o tempo continuou passando provando que de fato, o amor sentido um pelo

outro não poderia superar a rotina do casamento. Belo disfarce da paixão em se passar por amor durante algum tempo. Charlotte sempre foi decidida, não aceita-

va ser escrava de nenhuma situação que lhe causasse

sofrimento, pois já passara por isso quando ele desapa-

receu no dia do casamento. Não podia admitir nada que

não lhe conviesse.

59


Silvio Cerceau Sem receio e muito segura pediu a separação. _Você arrumou outro? – perguntou ele.

_Thiago! Claro que não, o problema dos homens é

esse, quando tomamos uma decisão logo pensam que estamos com outro, nos julgam por si mesmos. Há

meses senti que sua felicidade se apagou. Isso fez com

que a minha se apagasse também. Amo muito você, hoje

temos um vínculo maior que é o nosso filho, mas está na hora de cada um seguir seu caminho. _Nem sei o que dizer.

_Não precisa dizer nada! Um advogado cuidará do

nosso divorcio e questões relacionadas à pensão. Olha Thiago, sou uma mulher de família humilde, mas sou

totalmente orgulhosa e sensata. Quero lembrar somente das coisas boas que vivemos.

Com lágrimas nos olhos, ele manteve-se calado.

_As lembranças boas é que farão a diferença daqui

para frente.

_Porque não fica aqui? Eu vou para um apart.

_Nem, nem, nem... vou para casa de meus pais.

Tenho certeza que terão por mim o mesmo afeto de antes.

60


COM AMOR NAO SE BRINCA _Eu também não ficarei. Vamos colocar a venda! _Você quem sabe. _Me perdoa!

_Perdoar pelo o que? Não me fez nada.

Simplesmente acordamos de um sonho. _Acha que não te amei.

_Com certeza, acho sim. Você teve por mim um

encanto, um desejo, e até um afeto, mas amor? _E você, me amou?

_Te amei enquanto fui correspondida. Não posso

dar a alguém algo tão precioso sem nenhuma pretensão. _Tudo bem!

_Olha, meu pai me buscará hoje à tarde, depois

venho buscar minhas coisas pessoais.

Thiago retirou-se dali aliviado. Nunca havia para-

do para pensar que viveu meses numa prisão. O celular tocou.

seu.

_Oi, me separei definitivamente... agora posso ser

O relógio continuava a bater...

61


Silvio Cerceau Thiago convidou Loy para ir ao clube naquela

tarde.

_Nossa cara, mas logo hoje, no meio da semana.

_Melhor ainda, pelo menos está vazio. A gente

pega uma sauna, e o sol, que hoje está ótimo.

Ambos foram no mesmo carro, Thiago sentia-se

feliz, como há tempos não sentia.

Logo se trocaram, ficando em trajes de banho.

Usaram a piscina, depois a sauna, a seguir pega-

ram uma cerveja.

_Loy, ela me ligou.

boca.

Com olhar de espanto, retirou devagar o copo da _O quê?

_Exato. Olha, pensei muito antes dessa conversa

contigo, porque preciso me abrir com alguém. Posso confiar em você?

_Sim, claro que pode.

_Eu amo aquela mulher!

Loy ficou sem palavras naquele momento, pois

sentiu tamanha emoção naquela pronúncia.

_Não vai dizer nada – perguntou Thiago.

62


COM AMOR NAO SE BRINCA Loy respirou forte. Colocou o copo no canto. _Eu já desconfiava disso.

Agora entendera tantas coisas, tantas perguntas

sem respostas.

_Você é cúmplice dela?

_Não. Afastei-me dela ao saber de certas coisas,

mas não podia entregar a pessoa que amo para a polícia.

_Thiago, somente você poderia e poderá denun-

ciá-la. É uma testemunha chave. Cara, ela matou várias

pessoas, e tenho certeza: meu pai também foi morto por

ela.

_Não vou denunciá-la! Não vou atrás dela! Não

posso fazer nada para prejudicá-la. Tenho confiança que se arrependeu e buscou um novo rumo.

_Ufa... nem! Não quero opinar neste assunto. Pode

não gostar do que direi.

_Espero que não me julgue mal.

_Quem sou eu para julgar alguém. Cada um sabe o

que faz. Sabe o certo ou errado. Apenas te lembro que

sua amada não pensou duas vezes ao tentar matá-lo.

_Eu queria muito entender isso. Por isso vou 63


Silvio Cerceau encontrá-la ainda, preciso saber o porquê da tentativa. Na época agi por impulso. Meu casamento foi um escudo para esconder meu amor por Aiko, um amor que cul-

tivei desde a adolescência.

_Foi esse o motivo da separação?

_Também. Não posso viver com alguém sem amor.

Tornei-me infeliz e Charlotte igualmente.

_Deve ser mesmo complicado viver assim. _Você vai atrás dela?

_Não, já dispensei o Romeu. Chega de jogar

dinheiro, um dia esse caso será resolvido. Quero mais é

cuidar de minha família. Depois da perda do meu filho,

tudo se tornou muito difícil, Susy até hoje não se recu-

perou. Ainda faz terapia. A dor da perda não passa, vira uma saudade sem fim. E o tempo nos distancia das tris-

tezas nos recheando de lembranças.

Com lágrimas nos olhos Loy tomou a cerveja

numa virada.

Thiago levantou-se calmamente, caminhou até a

piscina e nadou alguns minutos.

Nadou tentando refrescar seus pensamentos. Loy fez o mesmo alguns minutos depois.

64


M

13

eses depois...

Aiko continuava a viver com Leonardo inesquecí-

veis momentos de paixão e desejo.

Queria fugir de tudo aquilo, mas ao mesmo tempo

sentia-se tão segura e aconchegada. No seu íntimo a ter-

rível duvida a consumia, mesmo sem querer. Prosseguia brigando consigo mesma.

Leonardo tirou férias. Decidiram voltar ao Brasil,

inicialmente sem a definição se ficariam ou retornariam a Boston em breve.

Essa situação deixou-a em tensa ansiedade. De

repente uma sensação estranha, voltar ao passado.

O passado é uma bagagem que carregamos para

sempre – trazia essa convicção. Agora estava na hora de

ficar diante de tudo o que deixou para trás.

Teria de ser cautelosa. O medo precisava ser extin-

to definitivamente.

Recordou Thiago. Quanta nostalgia. Quanto amor 65


Silvio Cerceau contido. Reencontrá-lo talvez fosse seu maior risco, por-

que o amava intensamente. Não podia continuar essa brincadeira.

Respirou fundo, tomou um demorado banho. Ao

sair deparou-se com Leonardo, sem dizer nada, aproxi-

mou-se e o beijou. Em minutos os corpos se tocavam.

A seguir permaneceram deitados na cama, cada

um com seu pensamento oculto, às vezes as mãos se atreviam e percorriam pelos corpos.

_Engraçado – disse ele, - eu e você – fez uma

pausa, sorriu. – Fico perdido quando recordo como nos

encontramos. Nunca imaginei que ia me apaixonar –

levantou-se, como se a realidade fosse dolorida. – Agora estamos juntos há...

_Meses... nem percebi o tempo – interrompeu ela.

Levou o dedo naqueles lábios vermelhos e antes que

Leonardo pudesse pronunciar algo, o beijou. Foi o beijo mais longo que já deu em toda a sua vida.

_Você é louca mesmo. Vamos nos casar – as pala-

vras soaram bruscamente. Pega de surpresa não conse-

guiu dizer nada, beijou-o de novo.

Imbecil – pensou - amo outro – completou o mal-

66


COM AMOR NAO SE BRINCA doso pensamento.

Aiko na realidade queria desaparecer daquele

lugar, porém, sua vontade de ficar ali recebendo os carinhos daquele ser, vencia o seu querer.

Os dias passaram depressa. Finalmente o embar-

que. Ela pegou o passaporte, fitou-o por muitos minutos, balançava a cabeça e sorria somente no âmago.

Quando eu morrer o demônio não me deixará

entrar no inferno!

Aproximava a hora de mudar o seu personagem. As lembranças... quantas lembranças...

Não conteve as gargalhadas.

_De que está rindo – perguntou Leonardo.

_Nada, - tentou disfarçar, - sou mesmo boba. _Está ansiosa para voltar ao Brasil? _Acho que sim.

_Você esconde algo?

_Não entendi – enrubesceu a face.

_Desculpe, não quis ser incordial.

_Vocês homens – o tom de indiferença. – São

todos iguais.

_Por quê, meu doce? 67


Silvio Cerceau _Deixa para lá.

Fizeram o chek-in. Para evitar que Leonardo tives-

se acesso ao seu falso passaporte, Aiko logo criou uma

desculpa, pediu que buscasse-lhe água. Sem maldade ele foi.

Minutos depois aguardavam na sala de embarque.

_Olha Leonardo, como eu comentei antes, embora

sem entrar em detalhes, moro sozinha, mas ficaremos

num flat – fingiu engolir um soluço. – Meus pais morre-

ram há poucos meses foi um incêndio causado devido a um vazamento de gás. Tenho poucos parentes que

moram em São Paulo, na realidade, quase não tenho

contato com eles. Sou escritora e meu nome é Aiko - for-

çou lágrimas nos olhos – vim para cá, porque precisava me encontrar e refazer minha vida...

_Não se preocupe, meu amor... – abraçou-a terna-

mente – Cuidarei de você por toda a minha vida, -

Leonardo estranhou aquele desabafo contraditório, por-

que no começo ela havia dito que estava pesquisando sobre seu novo livro. Não comentou a incoerência. Algum tempo depois o avião levantou vôo.

68


T

14

hiago sentiu um aperto no peito. Caminhava pela

praia de Copacabana, parou pegou uma cerveja em lata. Uma moça elegante aproximou-se e perguntou: _Você tem fogo, por favor?

Ele olhou-a maldosamente, pensou:

Tenho muito fogo!

_Não tenho... não fumo!

_Que bom! Fumar é um erro, mas não consigo

parar – olhou em volta em desespero para acender o cigarro. – Qual o seu nome? _Thiago e o seu?

_Ana Cláudia. Muito prazer!

_O prazer é todo meu – o sorriso sarcástico. A voz

insinuante.

Fizeram sem querer companhia um ao outro.

Depois de muito bate papo, um beijo calou todas

as palavras.

Ana Cláudia voltou para casa pensativa, aquele

jovem tocara seu coração. Abriu a bolsa, e entre diversos 69


Silvio Cerceau objetos fúteis, tentava encontrar o papel com o número

dele. Ao encontrar, ficou olhando para o papel, na mente

a vontade de ligar imediatamente. Na boca o gosto do beijo. No coração uma sensação majestosa.

No dia seguinte se encontraram novamente, janta-

ram num restaurante japonês, tomaram saquê. Depois

andaram de mãos dadas nas areias da praia, sob a lua

cheia que enfeitava o céu. Corriam e brincavam feito crianças. Cansados, deitaram-se na areia molhada e trocaram carinhos. Nada além!

Ana Cláudia podia se considerar uma garota

atraente, com vinte e três anos, pele alva, cabelos e olhos

castanhos, cursava Medicina e era uma pessoa de uma calma sem fim. Fazia tudo muito devagar, não se altera-

va nem se preocupava com nada ao seu redor, seu mundo era extremamente singular.

Aquele inesperado encontro tornou-se um namo-

ro e seus principais ingredientes: amizade, respeito, carinhos, beijos e abraços, tudo bem harmonioso. E o tempo passou...

Loy e Susy foram para o interior de Minas Gerais 70


COM AMOR NAO SE BRINCA passar uma quinzena na casa dos pais dela.

Há tempos não curtiam aquele clima puro. Tudo era muito saudável e natural.

Loy adorava tomar o leite da vaca tirado na hora,

nossa é quentinho! – dizia ele. Ajudava a sogra a colher

as verduras para o almoço, naquela imensa horta verde.

O sogro morria de rir de Loy, porque ele agia como

uma criança em suas fases de descobertas.

_Esse povo da cidade é besta mesmo. _Sou nada, senhor Noel.

_Tem razão, o povo da cidade nos acham bobo,

mas nós também o achamos assim.

_Sinceramente, minha vontade é vender tudo e

comprar uma boa fazenda.

_Faça isso, meu filho, certamente viverão melhor e

muito mais tempo. Alguém fala que tenho setenta e seis

anos?

Na parte da tarde sempre galopavam pelos longos

pastos. Susy debochava do marido, que se tipificou um

perfeito interiorano. Chapéu de palha na cabeça, calça jeans desbotada e camisa xadrez. _Venha cá, meu cowboy.

71


Silvio Cerceau _Ih... vou te mostrar o que é um cowboy.

Susy sentia que seu amor por Loy aumentava a

cada dia. Mesmo com o tempo decorrido e a crise durante a gravidez, a depressão após todo o ocorrido, não apagou aquele grandioso sentimento.

O casal vivia feliz, nada de brigas e atitudes que

desgastam o relacionamento.

Na realidade precisavam dessas férias para se

dedicarem somente um ao outro.

No começo da noite ao sair do banho, percebeu

que o celular dele piscava sem parar, curiosamente,

pegou e leu uma mensagem enviada por Clara. Dizia: Loy, estou morrendo de saudades.

72


H

15

á meio mês Aiko voltara ao Brasil, ainda receosa,

caminhava pela praia, o medo de ser abordada por alguém a incomodava.

Leonardo foi, para uma cidade da região sul, pas-

sar uns dias com a família, inicialmente insistiu muito

para que ela o acompanhasse, mas depois viajou sozi-

nho. Aproveitou para sentir outras emoções. Entrou na onda do ficar, e transou com diversas garotas, como pre-

texto para a consciência, preferiu acreditar que tudo era uma despedida de solteiro. tos.

Aiko também aproveitou para realizar seus encan-

Encontrou um rapaz na balada da noite.

Momentos depois estavam envolvidos. Foram para

um local deserto da orla.

_Olha não sou daqui... tenho um pouco de medo...

não sei nadar.

Foi o que Aiko precisava ouvir.

_Hum... que neném medroso! – a voz sutil. – Pode 73


Silvio Cerceau vir, te protejo.

_Cheguei hoje no começo da noite, amanhã que

virei com meus amigos curtir o mar. _Você é de onde?

_Distrito Federal.

_Ainda não conheço lá.

Depois de descontraí-lo, passo a passo convenceu-

o a entrar na água.

_Não tenha medo, quero te amar entre as ondas. Ele sentiu o corpo arrepiar de vontade.

Que louco, pegar uma gata dessa e ainda com essa

fantasia.

As ondas iam e viam, a água já estava a altura da

cintura de ambos.

Aiko o beijou.

Entregue ao desejo, o rapaz estava coberto pela

água, de repente sentiu o corpo arrastado, em desespero

se debatia, antes de afundar viu os brilhantes olhos de Aiko.

_Me ajud.... – afundou-se totalmente perdendo os

sentidos.

Aiko saiu da água satisfeita.

74


COM AMOR NAO SE BRINCA No dia seguinte, o corpo do rapaz foi encontrado

em uma praia do Rio de Janeiro.

Leonardo chegou de viagem antes do almoço, pas-

sou numa floricultura comprou um arranjo de rosas e

foi rápido para o flat.

Na portaria cumprimentou os funcionários.

Entrou no elevador, apertou o andar desejado, contava sem querer: ... 2,3,4,5,6,7,8,9,10,11.

Saiu depressa tocou a campainha.

Aiko o atendeu apenas de roupão. Antes de termi-

nar de abrir a porta, foi abraçada calorosamente. _Que saudade! – exclamou ele.

_Hum... – apertou-o ainda mais, - também estou

seca de saudades, meu lindo!

Tomaram o café juntos.

_Aceita mais um pouco de café? – ofereceu ela.

_Sim, quero, mas com leite!

_Deu para cessar a saudade da família?

_Sim. Ah, lembra daquele meu irmão que ia nos

visitar?

_Lembro sim... 75


Silvio Cerceau _Ele irá para Boston em meu lugar, eu já havia

conversado com meu gerente sobre a possibilidade de não voltar e fiz a indicação do meu irmão. Ele termina-

rá o curso de hotelaria nos próximos dias e virá para o

Rio e em breve voará para Boston.

Aiko não rendeu assunto, interrompeu-o e disse:

_Que maravilha, quando voltar ao sul irei contigo

para conhecer sua família.

_Mamãe ficou curiosa para isso! E muito feliz

sobre o casamento.

Aiko afugentou o olhar. Levantou-se foi até a jane-

la, fechou a cortina.

_Que sol, heim?

_Bom para pegar uma praia. Que tal? _Sim, pode ser! Vou me trocar.

Caminharam tranqüilos pela praia, o movimento

era intenso devido a um feriado que prolongou o final

de semana.

Ao se deparar com Thiago abraçado a uma garota,

Aiko tentou manter-se fria.

_Olá Thiago, quanto tempo!

Ele ficou alguns segundos sem conseguir dizer 76


COM AMOR NAO SE BRINCA algo, sentiu um frio no peito.

_Estou surpreso, não presumi a sua volta.

As mãos tocaram feito gelo e fogo. Leonardo e Ana

Cláudia cruzaram um olhar sem entender.

_Ah, desculpe – disse Thiago, - essa é Aiko, uma

grande amiga há anos. Aiko, essa é a minha namorada,

Ana Cláudia.

_Prazer – falaram juntas.

_Este é Leonardo.

Thiago dirigiu-se a ele indiferente.

Trocaram mais algumas palavras e seguiram seus

caminhos.

77


T

16

hiago entrou no restaurante, foi conduzido pelo

recepcionista a uma mesa mais discreta.

Pediu uma dose de uísque sem gelo. Conferiu as horas no celular.

Algum tempo depois, pediu outra dose de uísque. Aiko aproximou-se e interrompeu.

_Vai ficar bêbado antes da hora – ironizou. Ao vê-la, o sorriso iluminou.

_Que saudade! – levantou e abraçou-a. Não conse-

guiram evitar um duradouro beijo.

Ele sentiu-se excitado demais.

Deixaram o almoço para depois.

Entraram no carro. Pararam em um motel.

Thiago saciou toda fome e desejo. Toda vontade e

saudade refreadas por tanto tempo.

Amou-a com exclusividade de sentimento porque

o que sentiu e sentia por ela, ninguém lhe despertou.

Naquele instante percebeu de fato o que conheceu

durante toda a sua vida. O sonho de infância... o anseio 78


COM AMOR NAO SE BRINCA de um adolescente ultrapassando o tempo.

_Você continua linda... – a voz ofegante. – E agora

mais linda ainda, sem aquela cadeira de rodas. Aiko ignorou o comentário.

_Esquece o passado! Meu amor... Passaram a tarde juntos.

Não falaram do passado, não cobraram satisfações

sobre os parceiros. Apenas se amaram intensamente.

Thiago voltou para casa realizado, há tempos não

se sentia assim. Estava completamente feliz.

Recebeu, por coincidência, uma ligação de Loy.

_Oi cara tudo bem?

_Sim Loy, e você? _Estou bem!

_Anda sumido.

_Estou passando uns dias na fazenda dos meus

sogros.

_Eu tenho uma novidade. _Boa ou ruim?

_Acho que para você é ruim. _Fala logo, cara. _Aiko voltou.

79


Silvio Cerceau _Sério mesmo?

_Sim. Passei a tarde com ela. _Vocês ficaram juntos? _Sim, meu amigo.

_Você é cara de pau, mesmo.

_Não é isso. Já conversamos antes sobre isso.

_Sinto muito por você. Esta correndo risco de

vida. Espero que não tenha falado sobre mim. _Não falamos sobre nada do passado. _Eu vou à polícia.

_Loy, pelo amor de Deus, não faça besteira.

_Infelizmente, Thiago as minhas suspeitas se con-

cretizam. Somente errei porque pensei que você fosse o

assassino.

_Estou te implorando; não faça isso. Ela nem tocou

sobre qualquer coisa da época. É uma vida nova. _E eu acredito em fada madrinha. _Dê uma chance a ela.

_Preciso vê-la. Marca um encontro – pensou e

mudou de idéia.

_Pra quê? Pra você aparecer com a polícia?

_Prometo que irei sozinho. Preciso somente per-

80


COM AMOR NAO SE BRINCA guntar-lhe uma coisa.

_Vou pensar. Quando voltar, me liga.

Loy sentiu densa magoa, em seu intimo a certeza

que Aiko tinha participação na morte do seu pai o per-

turbava demais. Não reprimiu as lágrimas, de dor, saudade e raiva. Chorou sozinho pra ninguém saber. A sen-

sação de ficar frente a frente com aquela criatura torna-

ra-se o seu maior desejo.

Tomou uma sábia decisão. Iria aproximar e fazê-la

confessar. Estava disposto a qualquer coisa por essa confissão.

81


A

17

iko estava muito à vontade. Teve certeza que foi

perfeita nas suas ações.

Certo final de tarde, ao lado de Leonardo cami-

nhou pela cidade, na orla observava o pôr do sol. O casal, aparentemente apaixonado, visitou o Cristo,

andou de bondinho. Por volta das vinte e duas horas, voltavam para o flat, Aiko se surpreendeu de como as

praças viraram refúgios dos mendigos.

Eu preciso dar um jeito nisso. Concluiu. Há alguns

anos atrás já havia articulado tudo, agora chegara a hora de executar.

Chegou no flat, enquanto o companheiro tomava

banho, fez uma ligação, durante alguns minutos, passou as instruções.

_Combinado então... as dezoito horas em ponto.

Anota o endereço.

No dia seguinte, acordou cedo. Deixou um bilhete

para Leonardo.

Durante a tarde encontrou-se com Thiago. O refú-

82


COM AMOR NAO SE BRINCA gio para ambos foi o apartamento dele, já que morava sozinho.

Thiago reforçou com ela o pacto de silêncio, segre-

do eterno.

Contou-lhe sobre Loy.

_Confesso que me surpreendi. Mas já que quer me

encontrar.

_Acho arriscado! Ele tem certeza de que foi você

quem matou o pai dele.

_E foi mesmo – revelou secamente.

Thiago balançou a cabeça negativamente.

_Adorei empurrar o velho. Você precisa ver a cara

de terror dele.

_Aiko, por favor, me poupe desses detalhes. _Oh, Bebê. Me perdoa! Mas ... deixa pra lá.

to?

_Vamos mudar de assunto. O livro novo está pron_Sim, ficou ótimo.

_Será que podemos lançar em dois meses? _Creio que sim.

Próximo às dezoito horas, o interfone tocou.

_É para mim, uma encomenda, vou descer. Te amo 83


Silvio Cerceau muito!

Despediu-se algum tempo depois. Pegou um táxi.

Informou o endereço.

Aquele galpão abandonado fora seu cúmplice

antes e seria agora. Cenário da limpeza da humanidade. Abriu a caixa de isopor. Contou atenciosamente os

marmitex.

_80... riu diabolicamente. – ficaremos livres de 80

pobres do inferno.

Abriu a bolsa, pegou um vidro e uma seringa.

Injetou algo em cada embalagem. Depois de tudo pronto foi para sua missão.

Sentou-se num banco da praça.

Observou uma criança abandonada e suja, andan-

do de um lado para outro abordando as pessoas, deses-

perado de fome.

_Ei garoto, venha aqui.

Desconfiado aproximou-se. _O que foi, moça?

_Você está com fome?

_Estou com muita fome!

_Vou te dar um presente. Mas tem que me prome84


COM AMOR NAO SE BRINCA ter que fará o que vou te pedir. Se fizer direitinho, amanhã trago outro presente. _Faço sim, moça.

_Olha, eu trouxe comida para você e seus amigos.

Sejam adultos ou crianças. Mas não poderei distribuir.

Você me fará este favor.

_Oh, moça! Faço sim, mas posso ficar com duas?

_Sim, pode! Faz o seguinte, quero que dê as outras

para o pessoal que fica na praça.

Os olhos do menino brilharam de satisfação.

Pegou a caixa com dificuldade. Arrastou-a até a

praça e gritou:

_Venha gente, tem muita comida aqui.

Aiko afastou-se depressa. De longe viu o bando

esfomeado brigar pelo seu alívio.

85


U

18

ma semana depois.

Loy desembarcou no aeroporto. Colocou a esposa

num táxi.

Passou na joalheria. Ligou para Thiago. _Alô, sou eu.

_E ai Loy, tudo bem? _Mais ou menos...

_Já marquei seu encontro. Hoje às dezessete horas.

_Ufa, acho que vou sofrer um infarto até lá.

_Deixa de drama, homem. Peço só que tenha

calma. Acho que não vale a pena abrir uma ferida que já

cicatrizou.

_Pode confiar em mim.

As horas arrastaram naquele dia. Loy ficou no

escritório assistindo a TV, surpreendeu com a notícia

sobre a morte de vários moradores de rua, na semana passada, por envenenamento, a polícia não conseguiu chegar a um suspeito. Esse acontecimento ganhou as

86


COM AMOR NAO SE BRINCA manchetes principais de todos os jornais de TV e impresso.

Foi despertado por Clara.

_Esta cidade esta cada dia pior. _Oi, Clara!

_Tudo bem? Descansou um pouco? _Ah sim, demais.

_Deixei na sua gaveta um relatório financeiro.

_Obrigado!

_Recebeu minha mensagem?

_Mensagem, que mensagem?

_Deixa...

Com lágrimas vertidas, ela afastou-se rápido.

Loy permaneceu ali, até o horário de se encontrar

com Aiko.

Conferiu de novo as horas no celular, levantou-se,

saiu despedindo secamente de seus funcionários. Pegou

o carro, no porta luvas um papel com endereço de des-

tino.

Ao aproximar, diminuiu a velocidade. Observou

que ela já o esperava. Trajava um vestido sensual. A face

angelical, os pensamentos com certeza demoníacos. 87


Silvio Cerceau Tinha os traços finos, jamais alguém poderia imaginar se tratar de uma louca, assassina. Afinal, era uma médi-

ca, mesmo sem exercer a profissão, extremamente rica e uma pessoa pública por ser escritora, estava longe de qualquer suspeita.

_Olá Loy, quanto tempo – sorriu tentando quebrar

o clima pesado.

_Olha, nem sei o que falar.

_Trouxe a polícia? isso.

_Claro que não, prometi ao Thiago que não faria _O que você quer de mim? – o tom insinuante.

_Podemos ir a algum lugar?

Ela pensou um pouco, resolveu se arriscar, afinal

adorava correr risco, isso a estimulava, lhe gerava um orgasmo extremamente satisfatório.

_Pode ser, onde estacionou o carro?

_Logo ali – apontou já caminhando para lá.

Permaneceram calados durante alguns quartei-

rões. Aiko não conseguiu deixar de quebrar o silêncio. _Posso sugerir o local?

Alguns minutos depois entraram na suíte daquele 88


COM AMOR NAO SE BRINCA motel.

_Acho aqui o lugar mais discreto para uma con-

versa particular.

_Realmente.

_Preciso te explicar muitas coisa...

_Sim.

_Primeiro me perdoe pelo que fiz a você; não tive

a intenção de feri-lo. Pretendia apenas me defender. Thiago, de certa forma, foi o culpado! pai?

_Aiko, você matou muitas pessoas. Matou meu _Que isso! Não matei ninguém, meu erro foi por

amor fingir viver como cadeirante.

_Já sei de tudo, Thiago se abriu comigo.

_Impossível! Ele mentiu. Meu único erro foi essa

mentira sem volta.

_E o meu pai?

_Não sei nada sobre ele, fiquei sabendo do ocorri-

do quanto me ligou naquele dia. Lembra?

Loy voltou ao passado. Toda a cena se passava len-

tamente na sua mente, como se fosse o agora. Desabou

em lágrimas. Aiko precisava somente dessa atitude. 89


Silvio Cerceau Aproximou-se e o abraรงou. Sentia aquela pele suave,

aquele cheiro masculino e sofisticado. Levantou a face dele, e como nos velhos tempos, beijou-o profundamente.

Naquela noite ligou para Leonardo avisando que

chegaria mais tarde.

Foi o que aconteceu.

90


Q

19 uando Aiko entrou no flat foi bem cautelosa, já

preparara toda a trama acaso Leonardo lhe fizesse per-

guntas. Na verdade estava sem a mínima paciência para aturá-lo. Mas a noite valeu a pena.

Pelo menos consegui convencer aquele idiota. E

ainda desfrutei aquele toque... – pensou sorrindo.

Sentou-se à mesa. Pegou uma pêra, sobra do café

de ontem, comeu-a calmamente. Observava Leonardo dormindo feito um anjo. Seus traços marcantes despontavam tanta beleza.

Ele se mexeu na cama, levou a mão tateando algo

não encontrado. Abriu os olhos devagar... _Oi amor, onde esteve?

_Me desculpe. Tive que resolver um assunto.

Resolvi dormir no meu apartamento do Leblon e as lembranças me dominaram – forçou lágrimas. Ele se levantou e a abraçou.

_Não fique assim! Vamos começar uma vida nova.

Te farei feliz. Muito, muito feliz.

91


Silvio Cerceau O dia amanheceu ensolarado e passou sem novi-

dades. O casal almoçou. Foram ao shopping e assistiram

à primeira sessão do cinema. O clima era de puro romance.

A seguir caminharam pela praia.

Aiko enxergava tudo aquilo de forma patética.

Mas decidiu ficar ao lado daquele homem lindo e idôneo, seria o escudo perfeito. O álibi que precisava.

Sua vida tornou-se muito atarefada e dividida.

Alternava os encontros com Thiago e Loy. Ambos se sentiam enfeitiçados por ela. Não sabiam dizer não.

Thiago, devido à paixão e amor sentidos desde a

adolescência. Seu fascínio era total, a ponto de tornar-se cúmplice de tantas atitudes isoladas.

Loy não continha sua atração. Lembrou-se: depois

de anos, Aiko foi a mulher que despertou seu desejo apagado pela morte da noiva anterior. Ainda nostalgia-

va os primeiros olhares trocados entre eles. Ela com

olhos negros e tristes, sentada naquela fúnebre cadeira de rodas, a seguir, as constantes visitas, os chás, os pla-

nos, os beijos e abraços, enfim a cama.

Aiko se provia de um dom encantador inacreditá-

92


COM AMOR NAO SE BRINCA vel, tinha imensa facilidade em deitar-se com quem

escolhesse. Seus alvos, os jovens conflitantes na faixa

dos vinte e poucos anos, ficavam loucos e aliciados por

ela. Nessa idade, o desejo sexual aguçado mistura todos

os sentimentos, esse fator era muito positivo pra ela. Sua

arma era a sedução. Logo, logo se declaravam. Fazia

deles seus brinquedos ausentes na infância. Quando cansava de brincar, chegava a hora de livrar-se deles.

Mas precisava tê-los sob o seu controle. Não poderia

permitir que seguissem seus passos independentes.

Às vezes seus pensamentos perdiam-se entre

Leonardo, Thiago e Loy, usava-os intensamente. Cada

um lhe proporcionava uma sensação diferente, o que faltava em um o outro tinha.

Tinha pena de Susy e Ana Cláudia.

Quanto a Leonardo compensava-o, deixando-o em

pleno delírio de tanto prazer.

Aiko surpreendeu ao conhecer seu irmão, Bryan.

Mais um brinquedo para a sua coleção.

93


S

20 usy chegou cedo à joalheria. Conferiu o caixa e o

estoque, fez algumas ligações, a seguir chamou Clara ao

escritório.

_Senhora, precisa falar comigo? – perguntou com

a voz dócil e um sorriso gentil.

_Sim, Clara – sentou-se e pegou uma caneta, - pre-

ciso muito! Na verdade há dias.

_Pode dizer então – sorriu puramente.

_Você é uma mulher falsa – o tom rude, foi direta

nas palavras. – Por que vive dando em cima do meu marido? Será que sua mãe não lhe educou para respeitar os homens casados?

Clara sentiu a face avermelhar. A boca secou e ela

não foi capaz de se defender.

_Pois é... vim aqui para te despedir. Sei que o Loy

não cedeu as suas investidas. Confio em meu marido, nos amamos muito e nada vai nodoar o nosso amor. – levantou-se aproximou-se dela, pôde sentir sua tempe-

ratura descontrolada. – Olha espero que daqui para

94


COM AMOR NAO SE BRINCA frente aprenda a definição de respeito, porque foi o que sempre tive por você. Sinto muito ter chegado a esse

ponto.

Clara sentiu-se morta de vergonha. Foi exposta

para os colegas de trabalho. Susy fez questão de contar

a todos o motivo da demissão.

Assim que Susy partiu, ela juntou as coisas; nos

olhos escorriam lágrimas de dor, arrependimento e tris-

teza. Tudo por um amor nunca declarado e correspondido.

Foi embora sem ao menos despedir-se dos colegas

de trabalho. Saiu andando sem rumo.

Deparou-se com Aiko no estacionamento. Sentiu-

se tonta e foi amparada por ela.

_Estou de carro, quer que eu a leve em algum lugar

– perguntou Aiko, pela primeira vez na vida tentando ser gentil.

_Se puder fazer isso por mim...

No caminho em lágrimas, impulsivamente, confi-

denciou-lhe toda sua história. Aiko deu uma brusca freada.

_Nossa, que surpresa! Por coincidência conheço 95


Silvio Cerceau Loy. É um velho amigo.

Seu instinto guardado no âmago foi despertado.

Aquele brinquedo pertencia-lhe, fora um presente do destino, brincava com ele somente quem fosse permitido. Essa mulher não fora.

Clara morava num edifício antigo na Lapa. O pré-

dio com pintura velha, com lodo em alguns pontos, a

portaria ficava as moscas. Os elevadores sempre davam

defeitos. Morava no quarto andar. Convidou Aiko para um café.

Clara foi à cozinha, lavou as xícaras, e continuou

seu relato.

Algum tempo depois acompanhou-a até o eleva-

dor. Esperaram em silêncio fitando o ponteiro indicando cada andar que ele passava. Ao abrir a porta, gritou: isso.

_Cuidado! O elevador não subiu; sempre acontece Esticou o pescoço para verificar.

Aiko empurrou-a repentinamente.

Clara caiu no fosso, meio inconsciente ainda

pegou o celular no bolso. Discou um número.

Antes de dizer qualquer coisa foi esmagada pelo

96


COM AMOR NAO SE BRINCA elevador. Thiago estranhou o afastamento de Loy, tinha cer-

teza de que havia se envolvido com Aiko. Sentiu-se traído.

Aproveitou aquela noite livre e convidou-o para

tomar um drinque.

_Anda sumido, meu amigo – o tom foi irônico.

_Realmente, ando meio sem tempo – respondeu

sem encará-lo.

_Nem me contou sobre seu encontro com Aiko.

_Acho que me enganei, na verdade fiquei alienado

com toda essa história. Quero esquecer o passado.

_Opa! Até que enfim... – sorriu, mexeu o copo

fazendo barulho com o gelo afundado no uísque.

_Sabe Thiago! Eu cansei de ficar me preocupando

e me martirizando com assuntos que não tem mais como serem resolvidos. Quero dedicar-me à Susy, ela

está grávida de novo e dessa vez não permitirei que

nada aconteça ao nosso filho.

_Fico feliz com sua decisão!

Thiago carregava a certeza; ele escondia algo, afi97


Silvio Cerceau nal sequer olhava-o nos olhos, mas não se atreveu a per-

guntar.

Loy levantou-se e foi ao toalete. Conferiu a apa-

rência no espelho, usou o mictório. Lavou a mãos. Mexeu nos cabelos. Voltou a mesa.

Thiago decidiu arrancar-lhe a confissão para isso,

contava detalhadamente seus momentos com Aiko.

_Cara, aquela mulher é demais. Beija muito bem.

Aquela boca tem um gosto maravilhoso. A pele parece uma seda. O cheiro sedutor. Nossa, só de imaginar... – passou a língua nos lábios.

Eu também – pensou Loy brincando com o copo.

O suor escorria na sua testa.

_Ela me leva à loucura.

Loy sorria sem graça. Bebia sem perceber, exage-

radamente.

_Você está bem, Loy?

da.

_Sim, estou... acho que estou no limite com a bebi_Ih, que fraqueza, posso beber a noite toda que

não fico tonto.

_É que não tenho hábito de beber, somente social-

98


COM AMOR NAO SE BRINCA mente.

_Também estou falando besteiras demais. Afinal,

você também já experimentou daquele manjar. Loy sorriu mais sem graça ainda, disse:

_Sim... naquela época!

_Fala sério! Vai dizer que não se envolveu com ela

de novo?

_Claro que não! – afugentou outra vez o olhar.

Para Thiago foi o suficiente. Não precisava ouvir

mais nada.

99


A

21 notícia da morte de Clara, deixou Susy em uma

situação extremamente delicada, sentiu um brusco constrangimento e culpa.

A tristeza apossou de sua vida. Sentia muito indis-

posta devido a gravidez. Loy ficou muito chateado: sou-

bera de tudo pelos funcionários. Pois não tinha conhe-

cimento do que ocorreu na joalheria.

Alguns dias passaram. Tudo era plena calmaria.

Em mais um encontro com Aiko ele se sentia com-

pleto. Beijava-a com fome. Tocava-a ofegantemente. Cheirava sua pele.

Todas as atitudes superaram os toques anteriores.

Ficaram deitados sob a luz negra, contemplando

somente as sombras no espelho do teto.

Loy adorava aquele efeito do corpo sem forma.

Viajava de todas as maneiras naquelas imagens abstratas.

A música romântica um convite ao recomeço.

_Precisamos passar um final de semana juntos, o 100


COM AMOR NAO SE BRINCA que acha? – disse surpreendendo-a.

_Tem razão. Sugiro Parati... além de ideal ao nosso

clima de romance, é bem perto.

_Boa sugestão. Quando dá para você?

_Quando quiser. _Combinado.

Voltaram a se tocar. Os beijos reacendiam o dese-

jo. Após todo ato... adormeceram.

Por volta das nove horas da noite deixou-a próxi-

mo ao hotel.

Leonardo a viu descendo do carro.

TV.

Algum tempo depois, entrou no flat, Bryan assistia

Aiko estava no banho.

Leonardo calmamente adentrou o banheiro. _Demorou, meu amor...

_Eu estava reunida com meu editor, peguei um

táxi, mas o trânsito estava complicado.

O final da semana, como planejado, passou nos

braços de Loy.

101


C

22

erto dia, Leonardo saiu cedo.

Aiko se levantou passou pela sala onde Bryan dor-

mia, foi a cozinha, pegou um fruta. Tomou água.

Observou os pés de Bryan fora do edredom, com

cuidado aproximou-se, apreciou-os. As unhas eram perfeitas. A cor alva.

Foi surpreendida por ele.

_O que foi? – perguntou assustado. Levantou dei-

xando a mostra o corpo.

Aiko não teve palavras.

Bryan sentiu um frio na barriga. Tentou se ajustar.

Aiko o fitava com água na boca.

_Me perdoe pelo meu estado – disse desconserta-

do – meu irmão vai me matar. _Quem irá contar a ele?

Bryan não conseguia sair do lugar, tamanho o

constrangimento. Aiko sentou-se, pegou-o pela mão,

puxou-o para próximo ao seu rosto. Sentiu a respiração 102


COM AMOR NAO SE BRINCA quente rumo à paisagem. Sentiu a mão ousada despin-

do-o. Sentiu aquela boca indiscreta e sem pudor. Sentiu-

se perdendo o controle. Tudo era um frenesi inexplicá-

vel. Uma tempestade provida de raios e trovoadas. Os

suspiros eram calados pelos beijos. O corpo queria mais.

Aiko viajou por aquele lugar inédito; deliciava-se

com cada movimento. O turismo tinha que ser perfei-

to... completo.

Algum tempo depois, Leonardo voltou e os três

almoçaram juntos.

Thiago martirizava-se na certeza de que Aiko esta-

va envolvida com Loy. Ela quase não o procurava mais.

Depois de muito pensar o que fazer, preferiu continuar a ver até onde chegaria aquele jogo.

O namoro com Ana Cláudia foi breve. Ela mudou

de cidade para fazer residência médica. A despedida foi

banal. Nada de lágrimas. Semanas depois se falaram por telefone e ela declarou que apaixonou-se por outro.

Thiago seguiu seu caminho inconformado.

Resolveu visitar a ex- esposa. Os pais dela recusaram

103


Silvio Cerceau recebê-lo.

Charlotte conversou com ele no portão. Pediu

autorização para viajar com o filho para Portugal, onde

recebeu uma ótima proposta de emprego. Thiago não se

opôs. Tinha outros planos para a sua vida e apesar de

amar o filho, sabia que ninguém melhor que a mãe para

cuidar dele. Ao contrario da despedida anterior, esta lhe

arrancou lágrimas. Abraçou-a fortemente.

_Me perdoa por tudo! Quero que saiba que é

muito especial para mim... minha amiga, a mãe de meu filho. Quem eu respeito e admiro demais. Conte sempre comigo.

Charlotte sabia que ele mentia.

_Thiago, nossa experiência foi muito boa, sabe

quando recordo o dia do casamento, o seu desapareci-

mento, não contenho meu riso. A espera foi intensa. O

que guardo são nossos momentos bons. Embora eu seja

de família humilde, aprendi com meus pais a ter digni-

dade e buscar a minha felicidade. Nosso casamento virou a prisão de nossos desejos. Não tínhamos como

prosseguir infelizes. Você também é especial demais para mim, meu amigo! 104


COM AMOR NAO SE BRINCA O abraço foi demorado, caloroso e aconchegante.

No dia da viagem Thiago acompanhou-a até o

aeroporto. Ao atravessar o portão de embarque

Charlotte lentamente olhou para trás... um gosto tra-

vento na boca. Mas precisava rumar-se em busca de sua

felicidade.

Thiago voltou para casa sentindo um vazio como

há tempos não sentia.

Tirou o tênis, jogou-o no canto. Foi até a sala de

som, colocou um cd. No bar pegou um copo, encheu-o de uísque. Foi à varanda observou o mar azul, as ondas iam

e vinham. Sentou-se ali frente a tudo aquilo. Depois de muito pensar decidiu: pediria Aiko em casamento.

105


B

23

ryan nunca havia se envolvido com ninguém

antes de ficar com Aiko, portanto apaixonou-se perdi-

damente. Contava as horas para que o irmão desse uma trégua para ele sentir tudo aquilo de novo.

A cada envolvimento enlouquecia ainda mais.

_Quero muito você! – declara junto ao gozo explo-

sivo, - faço qualquer coisa para que seja somente minha. Aquela confissão deixou-a dias e dias elaborando

sua próxima jogada.

Aquela confissão fez surgir-lhe a chance de livrar-

se de Leonardo.

Aquela confissão excitou-a mais que qualquer ato

sexual já vivido em sua vida.

Investiu mais naquele garoto de dezoito anos,

atraente, bonito e apaixonado.

A situação de perigo estimula mais o ser humano

em seus atos. Era Leonardo entrar no banho para Aiko

fazer Bryan quase gritar de satisfação.

_Seja só minha – implorava. – Sou louco por você!

106


COM AMOR NAO SE BRINCA – nos olhos lágrimas.

_Como? Se seu irmão não me deixa em paz. _Termina com ele.

_Vai ficar muito feio para nós. Sua família sabe do

noivado e conseqüentemente do casamento.

_Você me quer? – perguntava ansiando pelo sim.

_Quero muito... muito... muito! – iludia-o demais.

E o beijava fingindo uma louca paixão.

Bryan esmerava raiva pelo irmão. Percebeu que

impedia a sua felicidade. Impedia-o de ter a mulher que o fez sentir homem. Que possuía seus sonhos e fantasias.

Naquela noite acordou com murmúrios vindos do

quarto. Sorrateiramente juntou-se à porta entreaberta e

assistiu, em pranto, sua amada nos braços do irmão mais velho.

Desgraçado! – pensou enxugando as lágrimas.

Louco de ciúmes foi à cozinha, pegou uma faca, voltou ao quarto, abriu a porta devagar.

Leonardo amava-a com dedicação. Aiko era o seu

maior amor. Trazia-lhe uma sensação incompreensível,

fazia-o abundantemente feliz. Jamais imaginara que 107


Silvio Cerceau sentiria no seu coração tanto amor. Disponibilizava-a

toda sua vida, fidelidade e sinceridade, mesmo tendo motivos para ficar com o pé atrás. rava.

_Aiko, minha amada! Eu te amo demais – sussur-

Sentiu uma pontada e algo cortante atingir-lhe o

coração.

Bryan atacava-o depressa. O irmão nem teve fôle-

go para gritar, inconseqüentemente, Bryan atingia-o com um golpe após o outro, o sangue jorrava enchar-

cando os lençóis, refrescando a alma de Aiko que assis-

tia, sob o precoce cadáver, a cena em silêncio, em plena satisfação.

Bryan segurava a faca ensangüentada, copiosa-

mente chorava e tremia. Aiko empurrou o corpo sem vida, levantou-se da cama, estava coberta pelo sangue

quente.

_Não fique assim, meu amor – disse aproximando-

se e beijando-o carinhosamente.

Os corpos se encontravam. O impacto profundo.

_Sou sua, meu anjo! Pode confiar em mim...

108


COM AMOR NAO SE BRINCA Bryan confessou o assassinato. Foi condenado a

doze anos de reclus達o em regime fechado.

Dois anos se passaram e ele nunca recebera qual-

quer visita.

109


D

24

esde que pediu Aiko em casamento, Thiago

mudou radicalmente o seu viver, tinha os olhos voltados

somente para ela. Os encontros eram satisfatórios. Precisava fazê-la mudar de vida. Precisava provar ainda

mais o seu sentimento.

Todo seu castelo de areia foi levado pelo mar

quando descobriu os encontros dela com Loy. Caiu em extrema indecisão, depois de todo o ocorrido, tinha por

Loy forte consideração. Por Aiko tinha amor, desejo, cumplicidade, carregava seus segredos e seus delitos.

Tinha um amor enfermo. Mas ela brincou com seu sen-

timento, assim como brincava com todos que passavam

por sua vida. Entretanto estava disposto a mudar essa situação. Sentia-se um homem ferido e traído. Um

homem ferido é comparável a um animal felino, faminto esperando a sua presa.

Chamou Loy para uma conversa.

_Loy, hoje tenho certeza que é um cara realizado,

teve seu sonho concretizado que são seus filhos. 110


COM AMOR NAO SE BRINCA _Sim, Thiago. Foi um presente. Gêmeos. Eu e a

Susy somos só felicidade.

_Então por que transa com Aiko até hoje? Por que

me enganou e traiu minha amizade durante mais de dois anos?

Loy perdeu a cor. Tomou logo um gole da cerveja. _Diga, Loy – gritou batendo o copo na mesa. _Thiago, não tenho o que dizer. _Vou ligar para a Susy agora.

_Não, pelo amor de Deus, não faça isso, eu te

imploro.

_Tarde demais – pegou o celular e discou.

Com lágrimas nos olhos, Loy voltou a implorar. _Pelo amor de Deus, Thiago, não faça isso!

_Alô Susy, - fitou Loy e sorriu, - é o Thiago tudo

bem contigo?

Pausadamente foi relatando todo o ocorrido,

depois de alguns minutos despediu-se e colocou o celular em cima da mesa.

Loy jogou a cerveja no rosto dele e saiu correndo

desesperado.

Thiago passou a mão na face. 111


Silvio Cerceau Ligou para Aiko.

_Quero te encontrar agora. Loy entrou em casa com a expressão de espanto.

Somente escutou palmas.

Susy olhou-o profundamente nos olhos, e conti-

nuou aplaudindo seus atos.

Ele não disse nada. Nem tinha nada a dizer.

Somente chorava. Durante toda sua existência passou

por uma sucessão de perdas, agora perdia a mulher de

sua vida. Conclusão percebida tarde demais. O casal passou dias sem se falar.

Loy experimentou um desprezo infindável.

Sequer saía de casa, temia ao voltar não encontrá-

la mais ali.

O telefone tocou, atendeu rápido.

_Ah esqueci-me de te contar que foi Aiko quem

matou seu pai, ela me confessou este segredo. Eu gravei tudo sem ela saber.

Loy não teve tempo de responder, do outro lado a

voz de Aiko era uma confissão esperada, novamente o enganou. Sentiu-se idiota.

112


COM AMOR NAO SE BRINCA Soltou o fone. Sentou-se na poltrona encolheu o

corpo chorando alto. O pranto de dor chamou a atenção

de Susy.

Ela se aproximou. Não se conteve, pranteou toda a

mágoa e dor de ser enganada.

Abraçou-o ternamente, já sabia do que se tratava,

ouvira na extensão.

Gravara tudo na secretária.

Aconchegou-o em seus braços.

Loy sentiu-se num abrigo seguro.

_Me perdoa, meu amor, perdoa este meu erro

imundo e irracional.

_Tenho pena de você, Loy.

_Não... não... não... não... não quero sua piedade,

quero que me perdoe e esqueça tudo isso.

_Se me ensinar como! Você sujou nosso casamen-

to. A traição é um problema sério! A traição acaba com

a confiança. Posso até continuar contigo, mas não sei se

serei capaz de voltar a confiar. Se algum dia chegar um minuto mais tarde em casa, isso será motivo para des-

confianças, brigas e lágrimas. O melhor é cada um

seguir seu rumo.

_Vamos tentar! Não jogue nossa felicidade fora, 113


Silvio Cerceau meu amor!

_O passado não se esquece!

_O tempo resolve as coisas – rebateu ele.

Loy tinha razão; o tempo resolve mesmo tudo.

Numa noite dessas o tempo resolveu agir. E acendeu outra vez aquela paixão.

114


A

25

quela mulher por volta dos cinqüenta anos não

podia acreditar no que via. Andou mais rápido. Na primeira oportunidade aproximou-se.

_Oi moça – sorriu. – posso te perguntar uma

coisa?

Aiko a fitou com desprezo. _Sim, pode falar.

_Seu nome é Aiko? _Sim.

_Que maravilhosa você ficou.

_Me conhece de onde? – perguntou desconfiada.

_Trabalhei na sua casa quando ainda era criança.

Creio que na época você tinha meses.

_É mesmo, que legal, como me reconheceu, vamos

nos sentar para conversarmos um pouco.

_Esses seus olhos lindos são inesquecíveis. Aquela

sua mãe foi louca te dar para outros.

Aiko fingiu não se surpreender.

_Mas graças a Deus, não conseguiu te matar. Se 115


Silvio Cerceau não fosse aquele jardineiro. Ele chegou no quarto exata-

mente na hora em que você estava dependurada para ser jogada daquela cobertura. Ainda bem que o casal

recém casado decidiu ficar com você.

_Mas minha mãe verdadeira ainda é viva.

no... sado.

_Sim... tem a minha idade mais ou menos, mora Durante horas ouvia atentamente fatos de seu pasDepois de toda revelação Aiko passou dias em

devaneio.

Nos braços de Thiago sentia-se protegida.

Ficaram noivos numa cerimônia intima.

Viviam calorosamente momentos inesquecíveis.

boda.

Outros seis meses passaram. Finalmente o dia da Colunas sociais destacavam aquele casamento.

No altar Thiago realçava naquele modelo italiano

de cor cinza claro.

Estampado no rosto um esplêndido sorriso.

Para noiva voltou-se toda a atenção, os flash’s.

A marcha nupcial tocada ao vivo sensibilizava

116


COM AMOR NAO SE BRINCA todos convidados, a maioria do noivo. Cada momento era detalhadamente marcado pelos olhares curiosos. Na face de Thiago lágrimas de tanta emoção. A leitura do juramento. A oração.

As alianças.

A bênção do padre.

O casal virou para se beijar, feliz Aiko olhava cada

convidado especial. Empalideceu ao encontrar os olhos

de Bryan.

A orquestra tocava Ave Maria, Aiko se perdeu

naquele olhar profundo. Bryan sorriu discretamente.

Naqueles olhos era aplaudida por todos... aclama-

ção que a exaltava. Bryan transparecia as pupilas feridas

por amor, traição e desprezo, nelas Aiko contemplou

Janier, Dayse, seus pais adotivos, Debby, Matheus, vários

indigentes – os lixos humanos, aquele menor esfomeado a chamava – vem moça, o jovem voltava nas ondas do

mar, Clara... Leonardo aquele que a amou fervorosa-

mente. Ainda sentia o cheiro de Loy... e o corpo puro de

Bryan.

Por alguns minutos sentiu um alívio. Sentiu-se 117


Silvio Cerceau limpa.

Na hora dos cumprimentos, ele aproximou-se

dela. Apertou aquelas mãos suaves. Abraçou-a sentindo

o marcante perfume, sentindo o mesmo frio na barriga.

118


E

A

P

I

L

O

G

O

iko caminhou rápido, a chuva fina insistia em

continuar caindo. Agarrou-se a bolsa. Parou um taxi. Informou para onde ia.

Minutos depois, bateu na porta.

Não houve palavras, Bryan abraçou-a com força,

beijava-a com fome, às lágrimas misturavam-se a todo

fervor.

Despia-a peça por peça.

Aiko percorreu as mãos lentas e delicadamente

por aquele corpo que continuava o mesmo de ontem. Ah, quanta aflição!

Bryan não pediu nenhuma explicação, apenas se

satisfazia como sonhara oitocentas e tantas noites

naquela cela fria e triste. Surpreendeu-se com suas

lágrimas, já que pensara ter esgotado-as no tempo infin-

dável de espera, saudade e de amor somente na imagi-

nação.

Os encontros aconteciam subseqüentemente.

Aiko jurou a Thiago toda fidelidade, entrou naque119


Silvio Cerceau la igreja com a intenção de apagar todo o ontem. Queria ser realmente uma nova mulher, sem precisar de disfar-

ce. Almejava deixar para trás seus instintos assassinos.

Mas Bryan trouxe-lhe de volta à realidade, não

podia evitá-lo.

Tinha com ele uma dívida impagável. Tinha a cer-

teza de que nunca fora de ninguém além dela, e tinha

razão, fora a primeira e única mulher de sua vida.

Percebeu: aqueles encontros eram momentos

muito aguardados todos os dias.

Seu maior desejo: aquele abraço. Tinha conheci-

mento que não poderia continuar a vê-lo. Não se sentia

capaz de dizer não. Tinha os olhos perdidos; somente

avistava aquele endereço. Cambaleava nos sentimentos divididos.

Nos braços de Thiago, só lembranças. Os olhos, o seu escudo.

O desejo tornara-se o agente decisivo para desper-

tar-lhe mais o êxtase da traição, a mentira tornara-se a solução. Como nos velhos tempos da infância e da sua

vida atual, ninguém nunca saberia. Tudo era muito sigiloso.

120


COM AMOR NAO SE BRINCA Tem atitudes do passado que não se esquece. O

passado é uma bagagem que mora no nosso emocional,

ali ficará para sempre.

Aiko deu para Bryan um pequeno e confortável

apartamento no Leblon. Com as suas boas influências,

logo conseguiu-lhe um emprego num importante hotel.

Trabalhava até as quinze horas, no final da tarde se quei-

mava nos braços dela e no começo da noite cursava

Engenharia.

O tempo continuava passando...

Dividida entre Thiago e Bryan, seguia sua vida. Na

sua mente articulações. Nas suas convicções a certeza, Bryan era sua maior ameaça, mesmo sem querer, por-

que havia brincado com o seu amor, e com amor não se brinca.

Em sua bolsa somente três segredos, dois endere-

ços e uma chave. A chave do inferno.

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FICHA TÉCNICA Editor e Supervisor Editorial: Silvio Cerceau Revisão de Texto: Maria Luciene

Revisão Final de Texto e Editoração: Ryan Emmanuel do Carmo Cruz Análise Textual: Rosângela Morais Antunes Capa: Lânio Araújo

©2007 by Silvio Cerceau Direitos de comercialização reservados exclusivamente a Editora Literato Ltda

Todos os direitos reservados de acordo com a Convenção Internacional de Direitos Autorais, com o artigo 184 do Código Penal Brasileiro, com o artigo 30 da Lei 5.988/73 e com a lei de direitos autorais, 9610/98. É proibida a reprodução total ou parcial deste livro, sejam quais forem os meios empregados, tais como eletrônico, mecânico, fotográfico, gravações, ou quaisquer outros, sem permissão por escrito da editora. As informações e opiniões expressas ou insinuadas nesta obra pertencem aos seus respectivos autores e não representam, necessariamente, à visão do editor ou da Editora Literato. Nem o editor, nem os seus funcionários, diretores, empregados, agentes, distribuidores ou associados são responsáveis ou susceptíveis de ser responsabilizados por qualquer prejuízo (diretos, indiretos, eventuais ou extraordinários) que possa resultar ou estar relacionado com qualquer informação contida nesta obra, nem assumem qualquer responsabilidade por qualquer imprecisão ou omissão. Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais terá sido mera coincidência.

livre@editoraliterato.com www.editoraliterato.com/livre

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