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minha casa de inf창ncia


Silvio Cerceau

minha casa de infância

1ª Edição


Ficha Catalográfica

Cerceau, Silvio, 1973-

Minha casa de infância / Silvio Cerceau. – Belo Horizonte: Literato, 2010. 144 p. ; 21 cm. (Versus). ISBN: 97-85-99885-93-2. 1.Romance brasileiro. I. Título. CDD : B869.3

Sobre o autor:

www.silviocerceau.com


É direito

do ser humano

morrer com dignidade


Agradeço ao

“Ser Criador”

de todas as coisas do universo


Para meus amigos e minha famĂ­lia... Silvio Cerceau

Primavera de 2010


P

R

Ó

L

O

G

O

Entre dez e onze horas da manhã.

São Paulo é um cenário encantador.

A selva de pedra alastrada por muitos e muitos

quilômetros.

A praça estava um inferno. A principal da cidade.

O sol quente.

O barulho dos carros nas ruas paralelas.

As pessoas num vai e vêm apressadas rumo ás

suas rotinas.

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Silvio Cerceau Os gritos dos ambulantes penetravam-lhe o

cérebro.

Celular...

Dentista...

Compro ouro... Compro Vale... Vídeo Game...

Empréstimos... Giz chinês! Loteria...

Salão – corte e escova “dez real”... Foto para documentos.

rio.

Andar em meio a tudo isso, o verdadeiro purgatóAlgumas estátuas humanas chamavam a atenção

das pessoas que lhe enchiam a caixa de gorjetas, próxi-

mo, uma roda de capoeira, adiante, mais pessoas se

aglomeravam curiosamente para assistir a um show de

rua. 10


minha casa de infância

Romana durante a semana se submetia a esta

situação, embraveada.

Largava o carro em um estacionamento próximo e

caminhava no vale da sombra da morte, classificava

assim todo cenário.

Entrava no saguão da Rede de TV num peculiar

mau humor.

Esperava o elevador estremecida de estresse.

Deparava-se com as equipes andando apressados

para lá e para cá.

Cumprimentava alguns colegas, sem harmonia.

Nem bem entrava no camarim, lá vinha a editora-

chefe cercá-la com a prancheta mão. Passava-lhe a pauta

do programa.

Depois de algum tempo, ainda, escutava tudo

muito depressa, já sendo maquilada, pois em poucos

minutos iniciaria sua apresentação, algo rotineiro.

Romana tornou-se uma reconhecida jornalista,

âncora do principal telejornal regional da emissora.

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Silvio Cerceau Sempre se destacava.

Tinha uma vaga disputada por todos os profissio-

nais que ali trabalhavam.

Formou-se com vinte e dois anos e logo fizera o

mestrado, época de maior desafio, ficar um ano longe de

Thiago.

Agora, sempre após o jornal, encontrava-se com

ele e almoçavam juntos.

Conheceram-se há tantos invernos.

O amor venceu diversas barreiras. Principalmente

o dele.

Romana sentia-se um nada naquele período.

Uma menina órfã jogada num convento, única

alternativa, já que não tinha parentes.

Thiago fez calmaria em seu coração e trouxe um

latejar bom demais no peito.

É o primogênito de um casal tradicional que alme-

java que se casasse com uma moça de família clássica.

Na intenção de protegê-lo queriam traçar o seu

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minha casa de infância

destino, mas conhecer Romana, desprojetou os sonhos

de seus pais.

Ambos próximos a completarem dezoito anos, a

beleza desabrochando, o desejo despertando-se a cada encontro, cada contato, cada beijo.

Jovem que deixava as garotas deslumbradas, em

plena disputa para chamar-lhe a atenção, porém seu

coração escolheu Romana, moça simples, de infância

sofrida, cheia de sonhos. luxo.

Contrariando a muitos se casaram sem excesso de Viviam aquele enlace, entre os estudos e o traba-

lho, sem o aval dos pais, Thiago tinha que trabalhar para

se sustentar.

Ele formou-se em administração.

__Onde almoçaremos hoje, meu amor? – pergun-

tou atenciosa e com carinho. __Você escolhe...

Entraram em um self service. 13


Silvio Cerceau Algum tempo depois voltaram ao trabalho.

Diante do notebook, Romana parou por alguns

minutos, na sua mente uma tempestade de lembranças. Quantos dilemas...

Fechou os olhos por alguns minutos. As mãos

abraçaram o próprio corpo como se pudesse aconche-

gá-lo.

O tempo estava passando tão depressa e ao olhar

para trás tinha a sensação de que certas coisas aconteceram ontem, mas na realidade estavam bem distantes.

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Regressar é reunir elos perdidos de uma corrente.

O medo às vezes impede de viver o que poderia ter sido

o melhor ocorrido na vida.

Quanto tempo longe dali.

O destino preparou o golpe perfeito para trazê-la

de volta. Aquele momento em que se precisa ficar consi-

go mesma.

Deparar com aquelas criaturas de pedras causou-

a um arrepio profundo. Tocou o portão pesado de ferro,

o rugido fez perceber que sem querer, precisava ir

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Silvio Cerceau adiante. Sem forças se sentou mirada por aqueles olhos de vidro.

Na mente um ciclone de recordações.

Evitava voltar ao passado, mas as memórias

vinham naturalmente.

... contemplava aquele cômodo humilde. A parede num tom azul sem vida.

Sua estreita cama, coberta por uma colcha gastada

pelas lavagens, pelo tempo.

Tudo abundantemente modesto.

Ao lado o criado antigo mal talhado de um troco

de árvore, à frente um armário velho onde guardava suas roupas, a memória – fora a única coisa que tinha,

pois nem em fotos havia algo documentado, tão nulo foi

o seu viver. Seus melhores momentos estavam bordados

no seu interior. cá.

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Escutava os dois irmãos correndo para lá e para

Algum tempo depois ligou um antigo rádio de


minha casa de infância

pilhas na esperança de poder ouvir algo menos lamen-

tador do que o gemido deles dizendo “tá dodói, papai!”. Continuava ali parada de frente a sua penosa rea-

lidade.

O que vou fazer da minha vida daqui pra frente?

Fitada pelos anjos de pedra.

Relembrava... E como doía relembrar!

Recebeu o alívio aos quinze anos quando foi

entregue ao convento.

Fora recebida pela Madre Superiora. Uma freira de

meia idade, rosto de traços rudes, voz altiva e séria. Senhora severa, mas com um coração descompassado

de bondade, porém sua firme imagem tinha de ser man-

tida.

Fazia parte da ordem Catequista. Uma ordem

aberta onde às freiras dedicavam-se em visitar hospi-

tais, creches, comunidades pobres e algumas ministra-

vam catequese.

Romana chegou naquele local sem saber o que 17


Silvio Cerceau esperaria à sua vida. A perda dos pais lhe fez cair em

uma escuridão sem fim, e ao mesmo tempo, em uma felicidade sem medida, pois estava liberta, dos dedos gulosos e da língua fria, do funesto pai. Uma tempestade fora a punição.

Escutava o pai, a mãe e os irmãos gritando sob os

destroços da velha casa – “peça ajuda, pelo amor de

Deus!” Atender ao pedido seria livrá-los da punição, teriam que queimar no fogo lapidante do inferno. Seu pai pelo encesto.

Sua mãe por se fazer de cega.

Seus dois irmãos para se purificarem.

Ainda miradas pelos olhos de pedras, sentiu-se

vigiada pelos anjos do inferno... inferno que vivera, na sua casa de infância.

É... acho que não fiz uma boa escolha para ficar

comigo – pensou com lágrimas no coração. Sentou-se próxima a um túmulo.

E chorou por tudo que vivera. 18


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Ia para escola na parte da manhã, devido ao bom

relacionamento das freiras com a comunidade, as meninas tinham vagas garantidas na escola particular da

região, se misturavam aos adolescentes favorecidos.

Eram respeitadas em demasia.

No segundo semestre, de um ano que distanciou-a

das lembranças ruins, conhecera seu amor.

Thiago tinha uma beleza excessiva. O corpo atléti-

co, tudo bem distribuído em seus um metro e noventa.

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Silvio Cerceau A boca rosada e lábios grossos tinham como acessórios

uns dentes belíssimos. Sua pele branca. Suas mãos boni-

tas e macias. O cabelo bem cuidado. Mesmo sabendo de

sua beleza tinha uma vaidade desmedida.

No intervalo das aulas, ele e Romana se amavam

com os olhos. Ponderava-se, pois ela trajava uma veste

do convento.

Certo dia audaciou-se e a fez companhia até pró-

ximo ao convento.

O primeiro beijo aconteceu naturalmente. A pai-

xão dominou os corações ansiosos por tantas descobertas.

Romana entrou no convento andando nas nuvens,

se deparou com Raabe, sua melhor amiga.

Raabe tinha muitas fantasias na vida, apesar dos

poucos anos, dezesseis, fora parar ali somente por opor-

tunismo, jamais teve vocação para se casar com Deus,

um ser invisível e puro, não poderia realizar com ele

seus desejos sexuais aguçados. Seria muita irracionali20


minha casa de infância

dade. Ela gostava mesmo é de experimentar os rapazes

da região, tudo com muita discrição, mas para Romana

contava tudo.

__Raabe, você é louca! – comentou nos primeiros

dias de conversa. Corria para o oratório e rezava a fim

de ser perdoada.

__Não sou louca nada... sou é feliz... realizo e sou

realizada – sorria debochadamente.

Raabe é uma pessoa alegre e engraçada, sempre

sorridente tentando fazer alguém sorrir também. Assim

ia vencendo a pacatez das noites demoradas.

No escuro de seu quarto, acompanhada de três

severas freiras, criava suas fantasias, tinha certeza que

um dia iria embora dali, tornaria-se uma médica reno-

mada ajudaria as pessoas a se libertarem dos seus

intensos sofrimentos, acreditava que um príncipe surgi-

ria e a levaria em seu cavalo branco, sabia bem que isso

era somente um conto de fada, uma utopia que estava a fim de viver, portanto fazia seus experimentos.

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Silvio Cerceau Na escola divertia a todos.

Adorava atormentar as pessoas e conseguia em

pouco tempo saber o que incomodava cada alguém.

Tinha a trágica mania de repetir as mesmas coi-

sas, as mesmas falas.

Sempre em sua companhia estava Sarah, jovem

que cria firmemente que era noiva de Jesus. Moça mis-

teriosa despertava sempre a curiosidade de o motivo de

estar ali.

A roupa simples lhe escondia beleza sem comedi-

mento. Moça majestosa, uma princesa. Tentava a qual-

quer custo elevar seu pensamento a Deus quando sentia

que o desejo vinha.

E Raabe botava lenha na fogueira.

__Veja aquele cara! Hum, é lindo – se oferecia já

que Sarah ignorava. E nas noites...

__Não sei o motivo da fuga, a gente vê nos seus

olhos a vontade de se entregar. 22


minha casa de infância

cruz.

__Cruz-credo – proferia veloz fazendo o sinal da __É muito engraçado! – exclamava demorada-

mente, Raabe, sorrindo satisfeita. lada.

__O que é engraçado? – questionava Sarah já amo__Esquece, meu bem! Esquece.

Seguiam em silêncio até o convento.

Os anos se passaram...

Sarah e Raabe tornaram-se médicas.

Foram trabalhar no mesmo hospital, no pronto

socorro público do estado.

O destino queria mantê-las juntas, portanto divi-

diam uma confortável casa de arquitetura moderna, em

um sofisticado condomínio na classe média da região.

Agora, encantadas, assistiam Romana noticiar os

fatos mais marcante do momento.

Escândalos políticos. Ataques terroristas.

Morte e mais mortes.

Quantas notícias ruins em meio a uma boa. 23


FICHA TÉCNICA EDIÇÃO E SUPERVISÃO EDITORIAL: SILVIO CERCEAU ANÁLISE DE TEXTO: ROSÂNGELA MORAIS ANTUNES REVISÃO DE TEXTO: ANA ALICE CÂMARA SANTANA

©MMX by Silvio Cerceau DIREITOS DE COMERCIALIZAÇÃO RESERVADOS EXCLUSIVAMENTE À EDITORA LITERATO LTDA Todos os direitos reservados de acordo com a Convenção Internacional de Direitos Autorais, com o artigo 184 do Código Penal Brasileiro, com o artigo 30 da Lei 5.988/73 e com a lei de direitos autorais, 9610/98. É proibida a reprodução total ou parcial deste livro, sejam quais forem os meios empregados, tais como eletrônico, mecânico, fotográfico, gravações, ou quaisquer outros, sem permissão por escrito da editora.As informações e opiniões expressas ou insinuadas nesta obra pertencem aos seus respectivos autores e não representam, necessariamente, à visão do editor ou da Editora Literato. Nem o editor, nem os seus funcionários, diretores, empregados, agentes, distribuidores ou associados são responsáveis ou susceptíveis de ser responsabilizados por qualquer prejuízo (diretos, indiretos, eventuais ou extraordinários) que possa resultar ou estar relacionado com qualquer informação contida nesta obra, nem assumem qualquer responsabilidade por qualquer imprecisão ou omissão. Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais terá sido mera coincidência.

versus@editoraliterato.com www.editoraliterato.com


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