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© By Silvio Cerceau 2004 Todos os direitos reservados

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ. C391v Cerceau, Sílvio, Vitrine humana : baseada em fatos reais / Sílvio Cerceau. Belo Horizonte, MG : S. Cerceau, 2004 ISBN 85 - 905060-1-0 1. AIDS (Doença)- Ficção. 2. Romance brasileiro. I. Título. 04-2674. CDD 869.93 CDU 821.134.3(81) - 3 01.10.04 06.10.04 007842

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Dedico este livro a todas as pessoas, que acreditam em “Deus”... independente de sexo, raça ou religião. SÍLVIO CERCEAU

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Editor: Silvio Cerceau Revisão de Texto:

Majô Nunes

Análise de Texto:

Psicólogo formado pela UFMG

Análise Final:

Rosangela M. Antunes

Roberto Chateaubriand Domingues

Digitação e Diagramação:

Luciana Alves

Editoração/ Designer/capa:

Moisés Junio Ventura

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Um Autor imensamente satisfeito, manifesta seus sinceros agradecimentos a: • Em primeiro lugar a “Deus”; - pelo milagre da vida, pela minha existência, pelo sol, a lua, as estrelas, a natureza, os animais, o ar que respiro, o amanhecer, o amor e a paz... Por minha inspiração, pelo meu dom; • Major Nunes, Renata S. Cerceau, Jeanne Cerceau, • Márcia Dionizia, • Dep. Durval Angêlo; • Tânia Mara (Pelo grande apoio); • Rosângela M. Antunes (Pelo carinho, dedicação e confiança). • Roberto C. Domingues; • Aos amigos que acreditaram neste trabalho; • À família; • E à minha avó Constância Cerceau (In Memorian)... por eu ter chegado até aqui.

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Nota do Autor Nesta “história”, a sociedade vai se deparar com assuntos e situações bem polêmicas. Mas tentei usar da maior sutileza possível, sem descaracterizá-la... sendo a mesma tão dramática quanto relatada. O mundo dos garotos de programa, das drogas é exatamente desta forma descrita. Certamente algumas pessoas chegarão a pensar que estou exagerando. Ao tratar de assuntos tão polêmicos, difícil não chocar, causar impacto. Esta história foi vivida por pessoas especiais, que venceram de alguma maneira, a situação, com coragem. O amor próprio poderia modificar tudo, se não tivessem escolhido o caminho que acharam fácil que, infelizmente, os levaram exatamente a estas ocorrên­cias. Em muitas ocasiões presenciei usuários de drogas, analisando em suas atitudes, o efeito. . Quanto aos garotos de programas, os perfis aqui mostrados, são apenas alguns exemplos, afinal, cada 7


profissional tem sua personalidade, corrupta ou ­correta. Tentei aproximar ao máximo da realidade de muitas pessoas no mundo, sem julgar, sem visar meus conceitos relativos a estas situações. Espero que “Vitrine Humana”, não venha a ser apenas mais um livro, ocupando espaço seja onde for. Mas que venha deixar a mensagem, um exemplo de que tudo é possível. Só depende de nós.

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Prólogo Qual seu preço? É muito gostoso - perguntou e comentou um homem quando Beto percebeu que este lhe fazia sinais. Aproximou-se curioso. Beto relata a prostituição masculina, de forma real com detalhes. Um belo garoto de dezoito anos; revela seus desejos e anseios. O vício nas drogas (maconha, cocaína, crack) o faz tornar-se escravo de uma realidade triste, por sentir-se frustrado. Por ser escravo da falta de amor próprio. Por não aceitar ser um objeto de prazer... Uma mercadoria... Para viver hoje em dia é preciso adaptar-se a várias situações; porque existe uma crise que está solapando as pessoas. Uma crise humana e social, fazendo-as viver com medo da realidade. Desemprego, drogas, indigência e a falta de amor vão destruindo aos poucos seus sonhos... As vezes tão próximos de realizar, mas interrompidos pelas barreiras da vida. Será que viver é tão difícil e triste? Será que o amanhã não faz sentido? 9


Marcelo, junto com outros personagens, vivem nessa sociedade “caótica” e nos contarão suas histórias que talvez, por mera coincidência, se pareçam com a sua. Andréia e Bertha vivem os medos e anseios de portadores soropositivos para o HIV; a perspectiva de vencer a morte nos emociona a cada instante. O amor homossexual, tratado de uma maneira clara, sutil, nos leva a conhecer um mundo oculto, surpreendente. Emoção, drama, alegria, tristeza, nos fazem chegar à conclusão de que muitas vezes vale a pena “começar de novo”.

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UM Belo Horizonte é a capital de Minas Gerais. Tem uma população com cerca de 2,3 milhões de habitantes. Localizada na região Sudeste, em ponto geográfico estratégico do país e das Américas, é cercada pelas montanhas da Serra do Curral, que lhes servem de moldura natural, referência histórica. A cidade é conhecida também pelo clima ameno e agradável o ano todo com temperatura média de ­21º C. O inverno é seco, o verão chuvoso. Além das vantagens naturais, da facilidade de acesso aéreo, rodoviário. A capital mineira destaca-se pela beleza de seus conjuntos arquitetônicos, pela forte vocação do comércio, da prestação de serviços, ainda por uma rica produção artística e cultural. Aos 106 anos de idade, BH é uma mistura de tradição, modernidade. Escolhida para ser a nova capital das Minas Gerais em substituição a Ouro Preto, foi a primeira cidade planejada do país. Belo Horizonte sedia importantes eventos nacionais e internaconais. 11


Roteiros Turísticos: Pampulha, Praça da Liberdade, Mangabeiras, Praça da Estação, Praça 7 de Setembro, Parque Municipal, Igreja da Boa Viagem, Mercado Central, Centro de Cultura.

A Região Sul da Cidade é considerada nobre.

Seus moradores têm o poder aquisitivo alto. Por este motivo, Marcelo escolheu residir ali. Jovem, atraente, propriamente belo, vinte anos, não sabia quase nada da vida, cursava Administração em uma universidade pública da região, onde aos poucos ia adquirindo a simpatia de seus colegas. Por sentir-se atraído por outros homens, achava que tinha um grande problema. Seu melhor e único amigo Carlos, divertia-o com aventuras que viviam no dia-a-dia. Ao sair da faculdade encontrou-se com ele: – Carlos, pensei que ia atrasar novamente. – Esqueceu que tive que fazer uma maquiagem básica? – Com certeza - respondeu Marcelo com um sorriso dissimulado. – Conte-me as novidades - pediu Carlos. – Nada novo, amigo!!! A não ser minha paixão por aquele pernicioso ser que entrou na minha vida, tirando minha paz. – Entendido não pode se apaixonar! Quero saber os detalhes. – Dezenove anos, casado, lindo, o nome dele é Júnio. – Então você será a outra - disse Carlos. – Acho que não tenho chances, não quero ser

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apenas amante. – Ser amante é muito interessante. – Mas não nasci para ser amante. – Pois eu adoro, eles ficam aos beijos com as namoradas e transam comigo, um luxo, não? – Luxo quando é apenas aventura, paixão é diferente, é forte!!! Me considero egoísta quando amo, você lembra do meu namoro com o Alvinho? – Ridícula esta história. – Hoje concordo!!! – Ah Marcelo! Não acredito em amor, principalmente entre dois homens, é ilusão, apenas ilusão. – Considero um acontecimento, tudo bem que nós ainda não vivemos isso, mas existe. – Pode até ser.

Marcelo e Carlos a todo momento tiveram muitas coisas em comum, se conheceram há quatro anos atrás, desde então nasceu uma grande amizade, sincera, cheia de muitas aventuras.

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DOIS

As noites da cidade eram sempre iguais. Nos bares de vários níveis, as pessoas se divertiam, bebendo, conversando sobre diversos assuntos, os mendigos dormiam nas calçadas, os menores abandonados caminhavam em busca de vítimas. Em algumas ruas e praças, existe um comércio paralelo que movimenta as noites, tornando-a mais prazerosa, interessante. Drogas, sexo, então a “Vitrine Humana” se faz com belos rapazes que exibem corpos sarados, membros grandes, a disputa torna-se acirrada. Principalmente nas noites em que se encontra ali, um grande número de clientes e de mercadorias.

Beto, um belo rapaz, dezoito anos, se destacava entre eles. Corpo sarado, cabelos de anjo, olhos cor de mel, perfeito para sua pele clara, o mais importante também tinha, membro descomum. Naquele lugar era assim, a beleza nem sempre tornara-se importante e sim o tamanho do membro. Os clientes iam ao extremo com as mercadorias exageradas, escolhiam entre a grande variedade que se encontrava na vitrine da vida. Os pontos de prostituição da cidade se dividiam 14


em várias categorias. As mulheres fazem ponto em uma determinada avenida à noite, este é o melhor, o principal ponto de prostituição feminina, recebem também em casas de massagens, casas de espetáculos noturnos, anunciam em jornais de grande circulação, na Rua Guaicurus a famosa “Zona da cidade”. Os travestis também fazem ponto em algumas ruas e avenidas, principalmente na zona sul, anunciam em jornais. São páginas inteiras oferecendo prazer sexual. Os garotos de programa ativos e passivos, fazem ponto nas praças, em algumas ruas do centro, também na região da Pampulha um bairro importante da cidade. Os jornais também para eles são úteis. A desvantagem dos anunciantes para o cliente é que nem sempre correspondem a seus anseios. Os clientes, homens de poder aquisitivo alto, empresários, executivos, casados, chefes de família, por medo de assumir seus desejos, ou para dar satisfação à sociedade, pregam uma moral e vivem outra em noites de orgias. A maioria dos michês fazem programa apenas pelo dinheiro, não têm qualquer desejo por outro homem. Simplesmente ficam nus, concentram-se em um filme pornô, viajam em drogas, bebidas para se excitarem, gozam por gozar, já que o interesse maior é apenas que o cliente alcance o climax. Não existe afeto ou qualquer vínculo entre eles, nem ao menos consideração por aqueles que os sustentam... apenas interesse financeiro, nada além. Quando um garoto se aproxima do carro, a pergunta sempre foi, é e será: 15


– Qual seu preço?

Ao chegar em um motel, Beto logo se despiu, exibiu seu corpo atraente. Um homem alto, obeso aproximou, o tocou com desejo. Retraído, Beto levou as mãos em suas nádegas, apertou com ódio; o cliente inocente suspirou com cobiça... interrompeu e disse? – Que tal curtir um pó? – Você tem? - Perguntou Beto excêntrico, porém não obteve resposta. O homem pegou a maleta e mostrou um papelote de cocaína. Os olhos de Beto brilharam de satisfação calmamente ele a preparou, fez algumas carreiras e começaram a cheirar.

Alguns minutos depois os corpos queimavam de desejo. Beto o beijou, suas mão o acariciavam feito fogo lapidando um diamante com perfeição, delírios. Ele o jogou na cama e sua língua percorria partes íntimas daquele corpo, causando suspiros e gritos. Beto o penetrou, os movimentos das onda do mar batiam fortemente contra as rochas em um vai e vem cada vez mais frenético. Então tudo tornou-se calmaria, restava somente a respiração ofegante e assim novamente as ondas do mar começaram a castigar as rochas. Beto sentiu-se rasgado ao meio, penetrado cada vez mais profundo e veloz, o homem uivou, chorou junto ao seu orgasmo. 16


Beto retornou ao ponto, ficou sozinho em uma esquina. Nas extensões da rua, em lugares estratégicos, se encontravam outros garotos, sozinhos ou em grupos de dois ou três, todos desejáveis. As imagens de sua vida invadiam a mente ainda sobre o efeito da droga. Tirou do bolso uma cartela de comprimidos e engoliu-os com um gole de uísque. As luzes da cidade pareciam distantes. Lembrou-se de seu primeiro programa: aquela noite em que caminhava inocente, sem perceber que os carros quase batiam uns nos outros ao vê-lo. Estava triste, sem dinheiro, queria andar nos shoppings e vestir aqueles trajes fashion, não conseguia emprego pois não tinha experiência, a família não tinha condições de satisfazer suas vontades. Ao parar em uma esquina, percebeu que um carro parou e um homem de meia idade lhe fazia sinais. Curioso aproximou-se da porta, o homem disse: – Você é novo aqui?

Sem entender Beto respondeu: – Sim. – É muito gostoso, qual seu preço?

Surpreendido, sem pensar, respondeu: – Cem reais. – Então entra, deixa eu usar seu corpo.

Beto entrou no carro, percorreram algumas ruas da cidade em direção a um motel. – Você vai fazer muito sucesso. Afinal, meu nome é Nestor e o seu?

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– Beto. – Olha Beto, se eu gostar de você, vou ser seu cliente - disse levando as mãos no seu colo. – Vai gostar - respondeu Beto. – Eu sou advogado, minha família está viajando, gosto de curtir uns garotos como você. – Mas você sai sempre? – Às vezes, quando tenho tempo e acho alguém interessante. Qual sua idade? – Dezoito anos. Um breve silêncio se fez, Beto observava as ruas pelas quais passavam. Um certo receio invadiu a sua mente, afinal nunca havia saído por dinheiro.

Até já teve aventuras com outros rapazes, mas não se considerava homossexual. Tinha namorada e apesar da crise financeira, sentia-se tranqüilo. Chegaram em um motel de luxo em uma rodovia. Nestor começou a se despir e ordenou: – Tira a roupa.

Beto despiu, Nestor observava seu corpo atraente.

Horas mais tarde ao chegar em casa Beto tirou rápido a roupa, sentiu-se imundo, lavou-se e esfregou-se até quase ferir os poros, as lágrimas misturavam com a água quente do chuveiro. Por volta das duas horas da madrugada, o movimento era tranqüilo, o tempo passou rápido e Beto nem havia percebido, perdido em suas lembranças. 18


Mais abaixo, um carro aproximou-se de um grupo de quatro rapazes, um jovem aparentemente largado, caminhou em sua direção e foi atingido por três disparos contra seu tórax.

O carro partiu em alta velocidade.

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Vitrine Humana I