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Ma ré V i va

Maré de Notícias Eleições

Tribunal Constitucional confirma vitória do PSD

Director: Nuno Neves | Ano XXXIV N.º 1600 EUR 0.50 | Sai à terça-feira

Primeira Maré Futebol

Autárquicas

27/10/2009

Popular

Viagem ao mundo do popular

Maré de Cultura

Marés e Marinheiros

20 anos da EPME

Romeu Vitó

Ex-alunos actuam na Orquestra

Memórias de um homem especial

Num concerto especial, Alexandre Santos, o director pedagógico da EPME, revelou os novos projectos: a criação de um Centro Internacional de Percussão e o alargamento do ensino a outros tipos de música como as músicas do mundo ou o pop-rock. Pedro Burmester foi a cereja no topo do bolo de uma festa onde todos recordaram duas décadas de sucesso e 300 novos músicos.

O ex-presidente da Câmara Municipal faleceu a 14 de Outubro, aos 72 anos. Para trás fica uma vida de dedicação à sociedade e muitas memórias partilhadas por quem o acompanhou. As obras mais emblemáticas (a rede de saneamento e o túnel da linha férrea), assim como os adjectivos de tolerante, solidário, dedicado e conciliador não deixam que sejam esquecido.

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Bilhetes Maré Viva Ganhe entradas para o filme sobre os últimos dias de Michael Jackson, This is It, em estreia mundial no Centro Multimeios, quinta-feira, 28 de Outubro. Descubra como na página 13 desta edição.

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Acordados para a vida

Primeira Maré

Foto | Filipe Couto

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ncararam o álcool como uma dependência. Este foi o primeiro passo que três elementos do NASCE deram para iniciarem o seu tratamento. Das consultas à abstinência a viagem foi atribulada, exigente mas bem sucedida. Testemunhos de quem voltou a agarrar a vida. Há seis anos atrás, de um dia para o outro, Silvino Silva deixou o álcool e o tabaco. “Força de vontade” pura, garante, fê-lo despertar para o tratamento de uma dependência que demorou a perceber que existia. “Não percebemos o que é exactamente, mas é como um bichinho que chega àquela hora e que está com vontade de beber”, recorda. O bichinho acordava cedo, “por volta das 10 da manhã, quando tinha que fazer alguma coisa no trabalho parava no tasco mais próximo”. À noite o vício voltava e nem lhe apetecia ver a família. “Não me dava para ir para casa. Quando chegava do trabalho a primeira coisa que fazia era ir para o café”.

Não me dava para ir para casa. Quando chegava do trabalho a primeira coisa era ir para o café”

O passo para a cura começou quando iniciou a consulta médica. No início sentiu algum constrangimento. “Tinha vergonha, não vou dizer o contrário” mas Silvino diz que essa questão, hoje, nem se deve colocar: ”o álcool é considerado uma doença, uma dependência como a droga e não há que ter

vergonha de o assumir. É para nosso bem”. Abstinente e com a saúde reabilitada, Silvino é um homem de família e de causas. “Gosto de fazer coisas, de colaborar com o grupo”, admite. É também por isso que ainda frequenta as sessões do NASCE. Presente para a família “Tem o fígado como um queijo suíço”. A imagem que o médico lhe transmitiu arrancou-o para o tratamento. António Fernandes deixou para trás 20 anos de dependência do álcool e problemas de saúde graves que o levaram, inclusive, a retirar um rim. No tempo dos abusos, António “parava em todos os tascos por onde passava”. O paralelo - feito de vinho branco, água com gás e açúcar - era a sua predilecção. Como todo o alcoólico, tudo o resto era relativo: trabalho, família, amigos. Até a alimentação. “Um alcoólico come muito pouco. Eu quando chegava a casa não tinha fome e achava sempre que a comida não tinha sal nenhum”. António diz que o álcool é a “droga livre”. “Não temos de a procurar para comprar”. Hoje, ao olhar a juventude que comete excessos maiores que os seus, diz que “nunca entrou em coma alcoólico”. A grande mola que o fez saltar para o tratamento foi a família. “Foi muito importante, porque me ajudou em tudo”, reconhece. Quando começou a receber os injectáveis pen-

sava na sua sobrinha que tinha poucos meses de vida e anunciava uma boa nova: “não queria criar mau ambiente em casa com o bebé e também queria dar uma prendinha à menina”. O presente foi a abstinência que dura há oito anos. Do jogo à bebida Durante muitos anos o vício maior de António Sousa era o jogo. Do casino à bebida, a distância foi curta. “Se a gente ganha, bebe para festejar, se perde, bebe para esquecer”, refere. António era, então, empregado de hotelaria. O vício ainda não existia e só surgiu com a troca de emprego. “Fui trabalhar para uma escola e tinha um colega que também era desorientado (viciado no jogo). Eu comecei a acompanhá-lo e, no final do dia de trabalho, íamos os dois beber cerveja. Andamos 15

“Quando chegava a casa não tinha fome e achava sempre que a comida não tinha sal nenhum”

anos nisto”. Os problemas de saúde foram inevitáveis. António contraiu tuberculose, ficou um ano sem trabalhar, mas o álcool continuou. “Bebia dois paralelos quando saía para trabalhar. Tremia muito das mãos e tentava disfarçar porque trabalhava com uma caixa registadora”, conta. Foi então que a Direcção da escola interveio, apoiando a sua recuperação na consulta de alcoologia do Centro de Saúde.

Tremia muito das mãos e tentava disfarçar porque trabalhava com uma caixa registadora”

Uma das coisas que o impressionava, era ver um pai a negar comida ao filho. “Costuma ver pais alcoólicos, que bebiam cinco e seis finos seguidos e depois, se o filho lhe pedia comida, pediam à tasqueira uns rebuçados”. A imagem ficou-lhe gravada como um exemplo do que é a dependência extrema. Hoje tudo isso faz parte do seu 15 | 12 passado e António só lamenta “que 2009 alguns alcoólicos não tenham força de vontade para se recuperarem”. NS

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Para além dos filmes Roménia: Uma perspectiva Pelas 14 horas de terça-feira, o Cinanima faz uma viagem pelo cinema de animação que se faz na Roménia. A jornada começa com os desenhadores e cartoonistas Aurel Petrescu e Marin Iorda, mas o passo de maior visibilidade foi dado pelo vencedor da Palma de Ouro, em Cannes, em 1957, Ian Popescu Gopo. Em 1964, nascia o Estúdio Animafilm, responsável pelo desenvolvimento de uma Escola e de um estilo

- e do storyboard, objectivos e funções. O segundo tem lugar nos dias 12, 13 e 14 e aborda a questão do storyboard como uma sequência, o desenvolvimento de uma atmosfera, recorrendo a dope-sheets e, ainda, a influência da questão económica na animação, nos cartoon e na BD. Michael Legge trabalhou em storyboards de publicidade para realizadores como Tony Kayne e Paul Weiland e na realização de animações para a McCann Ericson, a Sino e o Cutty Sark Whisky.Tem uma pósgraduação em Animação na London Animation School. Workshops Os workshops têm lugar no Fórum Storyboards e toda a técnica por de Arte e Cultura de Espinho. trás da sua execução é o que o Cinanima tem para ensinar na edição Palestras deste ano. Em dois workshops, Marius Legge ensina a arte da criação Além das sessões de cinema, este de personagens para animação e ano o Cinanima promove palestras e storyboard e ainda inicia os interes- debates em torno do cinema de anisados no desenho animado e no sof- mação. tware MonkeyJam. Na quinta-feira, Lara Ermacora O primeiro workshop realiza-se vem falar do que melhor sabe: a Lendias 10 e 11 de Novembro e aborda ticular. Esta técnica permite a criação conteúdos como a definição das per- de curtas animações estereoscópias sonagens - quem são e o que fazem e foi muito importante no século XX no campo da publicidade. Lara Ermacora frequentou o Curso de Cinema, Televisão e Novas Tecnologias e elaborou uma tese de Bacharelato sobre Cinema de Animação na Universidade de Milão. a sessão tem lugar dia 12, na Sala Polivalente do Centro Multimeios, às 18 horas. António Loja Neves, jornalista do Expresso, Costa Valente, professor na Universidade de Aveiro e Jayne Pilling, investigadora do Reino Unido

cinematográfico romeno. Boto Calinescu, Olimp Varasteanu, George Sibianu, Laurentiu Sarbu ou Adrian Petringenaru foram apenas alguns dos realizadores do Animafilm premiados no cinema de animação internacional. “Une Trés Courte Histoire”, “Le Champ”, “Week-End” ou “Grandes Esperanças” fazem parte da lista de produções que vão passar na tela do Centro Multimeios, enquanto se espera o renascer da animação romena.

Maré de Cultura

CINANIMA ‘09

juntam-se à mesa para debater “O Estado do Cinema de Animação”. A sessão tem lugar às 18 horas de sábado, na Sala Polivalente do Centro Multimeios. Sessões para escolas

Além competição, o Cinanima tem preparadas sessões de cinema para as crianças. Para os mais novos, alunos da Pré e 1º Ciclo, a lista de curtas-metragens escolhidas é constituida por cinco produções portuguesas: “O Balão do João”, “As Cores da Joana” e “Nanik, O Esquimó”, todos de Nuno Amorim; “Tabuada dos 2”, de Joana Amorim; e “A Ovelhinha que veio para o Jantar”, uma produção do Departamento Pré-Escolar de Avanca. Da escola russa, há “Muraveika” e “Masha and the Bear - How They Met” para ver. “When Apples Roll”, da Letónia; “Spot and Splodge in Snowstorm”, da Suécia; “Banana Spleen”, da França; “Pink Nanuq”, da Suiça e “A Princesa e o Violinista”, do Brasil, são as outras cassetes a rodar nas sessões que o festival dedica aos mais pequenos, no Fórum de Arte e Cultura e na Sala Tempus do Centro Multimeios. Para os alunos do 2º e 3º Ciclos e Secundário, o Cinanima oferece “Osmar - A Primeira Fatia de Pão de Forma”, “Como Comer um Elefante” e “Juro Que Vi: O Casi”, vindos directamente do Brasil. Da França vêm as curtas “Fard” e “Miam”, de Espanha “Tato” e “The Lady and The Reaper” e da Suiça “Mixed Bag” e Tonight”. Ao longo da semana, os mais novos têm ainda direito a sessões com “Frequency Morphogenesis”, da Alemanha, “Tv Dinner”, do Reino Unido, “A Catfish Tale”, da Rússia, “Oriana”, do Canadá, e “Divers”, dos Estados Unidos. As sessões para o 2º e 3º Ciclos e Secundário decorrem no auditório da Junta de Freguesia de Espinho. CB

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Última Maré

Junta de Freguesia de Espinho

Da Bolsa para outros

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Fotografia: Filipe Couto Teresa Lima veio a Espinho decorar as paredes da galeria da Junta de Freguesia durante o fim-desemana. Da bijuteria à roupa, “Decora-me” é a exposição que esta portuense nos trouxe. Teresa Lima trabalhava com a Bolsa de Valores, mas a vida fá-la, agora, dedicar-se a pequenos prazeres. As flores sempre foram uma paixão e, daí para a elaboração destes objectos, foi um pulo muito fácil. A ideia é não desperdiçar material e fazer coisas diferentes. “Só vale a pena se fizermos a diferença”, confidencia a artista. Viu-se de tudo: colares, brincos, alfinetes de peito, camisolas e gravatas. Para o futuro, quem sabe a concretização de um projecto de decoração de casas com flores. CB


Maré de Enrevista

Largo do Souto de Anta

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á coisas que nunca mudam. O tempo corre, a modernidade chega e as vidas dão voltas. Mas, no final, os caminhos levam aos locais do costume. O Largo do lugar do Souto, em Anta, é centro desde sempre. É ponto de encontro, de passagem, de quotidiano. É referência religiosa, histórica e festiva.

A história ensina-nos que a evolução das vilas se faz, na maior parte dos casos, em redor da sua igreja. E foi sob o olhar de São Martinho, o santo padroeiro pelo qual se ergueu o edifício, que o Souto fez nascer casas, ruas, largos e vidas. A igreja parece o orgulho dos antenses. A antiga, dos séculos XVII e XVIII. Simples, estreita e não demasiado alta. As imagens de São Martinho e São Mamede sobressaem nos azulejos azuis da entrada principal. Longe vão as memórias do edifício original. Foi já no século XIX que a capela-mor ganhou o dobro do tamanho e se construiram novos altares. Do passado ficou uma pedra, que o secretário do pároco nos explica ser “a única pedra que aparecia com uma data”. 1808. “Estava debaixo do pulpito onde os padres faziam os ser-

O chão do Largo do Souto, em pedra e cimento, faz esquecer os tempos em que as crianças ali brincavam na terra batida. ”

mões”, precisa António. Era para fa- pela-mor e os altares dourados “é um zer parte da decoração da igreja, mas caixotinho, coitada” com pouca força ficou-se na relva, no lado aposto ao para o monumento de antes. busto que assinala os 25 anos de sacerdócio do padre Moura em Anta. Corridas na terra batida

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Igreja caixote

Hoje, o aumento do espaço da Igreja não convence os fiéis. Demasiado moderno, dizem. “A nossa Igre17 | 11 ja era linda, embora fosse pequenina. 2009 Para isso nem há palavras”, desabafa a D. Rosinha, dona de uma retrosaria no Souto. Para a comerciante, a nova Igreja sem as varandas na ca-

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O chão do Largo do Souto, em pedra e cimento, faz esquecer os tempos em que as crianças ali brincavam na terra batida. Da escola primária que ocupava a actual sede da Junta de Freguesia de Anta – inaugurado em 1988 - ao Largo era um instante. Quando andava na catequese, a D. Rosinha fazia parte desse grupo de crianças que “vinha para o Sou-

Todos os caminhos vão dar ao Souto


to correr, brincar, jogar à bola”. “O padre Pinho andava sempre a correr atrás dos rapazes grandes por causa disso”, recorda. As tílias e plátanos vieram substituir as árvores de grandes raízes à mostra, e apenas alguns bancos de pedra ficaram. A maior parte foi para Cassufas, mas as pessoas não gostaram muito da mudança. “E até houve polémica porque puseram estes bancos verdes, mas toda a gente preferia os outros”, diz a dona da retrosaria. O cruzeiro bem no centro do Largo também já conheceu outras paragens. Diz em letras muito gastas que celebra os “Centenários da Independência e Restauração de Portugal 1140 – 1640 – 1940”.

sábado é dia de rebuliço no Largo do Souto. “Armam as tendas e ainda animam um bocado”, dizem-nos na mercearia.

único café e o nosso passatempo era vir para ali namorar”, conta a D. Rosinha. “Com a mãe e com o pai”. Há de tudo no Souto. Até futebol popular. Nascidos na casa que fica por cima da mercearia, os Magos de Anta passaram para a sede da Tuna Musical. E os fins de semana são tempos fartos em convívio quando eles se juntam no Largo. Aliás, convívio sempre foi o objectivo destes centros. As pessoas só precisam de um pretexto. Como aquele que juntou os antenses numa pequena feira para angariação de fundos para a construção da Casa Paroquial. Houve comes e bebes, leilões e animação. Já lá vão 18 anos.

Serviços e missa

Em 1960, começa a ver-se obra no cemitério. Foram gastos cerca de 40 mil escudos. 44 anos depois, foi preciso aumentar o espaço para fazer face às necessidades da população. Em 2007, o ministro da Saúde veio a Anta inaugurar uma Unidade de Saúde Familiar novinha em folha. Os serviços todos estão no Largo. E por isso, não é de estranhar que, como diz o senhor António “as pessoas vêm porque é aqui que têm tudo”, mas, afirma a dona da mercearia do Souto, “acabando a missa, vai tudo embora”. “O Largo agora está muito vazio, não se vê diversão nenhuma. Vai-se a qualquer lado e vê-se isso”, completa.

Largo quer é festa Rosinha da drogaria que é retrosaria Há cerca de 40 anos, quando veio para o Souto a dona da única mercearia do lugar, pouco movimento havia. “Havia mais uma mercearia onde agora é a casa dos pássaros”, conta. Do seu tempo da escola, a D. Rosinha ainda se lembra que “na esquina havia uma senhora a vender chupas e favas-ricas que custavam um tostão”. A loja que hoje ocupa já abriu as portas a uma drogaria, “de uma senhora que tinha uma farmácia”. Rosinha explica: “não havia cá farmácia, então a senhora aviava as receitas, além de vender lixívia, pó de talco, gomas”. Era a Drogaria do Souto. “Em todo o lado, se perguntar pela Rosinha da drogaria, toda a gente ainda a conhece assim”, diz a comerciante. Magos na mercearia Hoje, os cafés acabam por trazer mais pessoas ao Largo. “Antes, era aquele portão velho que tinha um

Festa em grande, festeja-se no Largo do Souto. É assim desde sempre. O S. Martinho é, claro está, a maior e a mais concorrida. A celebração de anos atrás “era uma coisa mais pobre, não havia estas decorações, estas luzes, nem tantos conjuntos a actuar”, lembra a D. Rosinha. Mas, “música toda a vida houve”, ressalva. No comércio em frente, na mercearia, lembra-se não só o São Martinho, com as rusgas – “é uma coisa engraçadas mas tem cada vez menos pessoas” - mas as comunhões, “onde se fazia uma festa muito grande”, além de “muitas missas novas com tudo enfeitado, muito bonito”. Mais recentes, o senhor António, secretário do Padre Moura, refere “as festas que a Junta organiza com a Tuna Musical e os ranchos folclóricos”, como “há dois anos consecutivos, as Tasquinhas”. É nestes dias que todos os caminhos vão dar ao Souto. E, desde 1997, por ali andam, também, os escuteiros. Graças a eles,

Maré de Entrevista

Fotografias: Filipe Couto

Pensar nos automóveis e nas crianças

São vários os sítios emblemáticos do Largo do Souto, desde a retrosaria da Rosinha, a antiga escola primária que agora é sede dos escuteiros, passando pelo busto do Padre Moura e pelo cemitério.

Parece que falta algo ao Largo do Souto. Falta convívio. Falta ver pessoas sentadas nos bancos. “Isto está mais movimentado em termos de carros, mas dantes estava cá mais gente”, diz quem lá vive. Querem lugares de estacionamento? “É um caos em termos de automóveis e se puserem os passeios nesta rua e for proibido estacionar, pior vai ficar”, lança o secretário da Igreja. Mas sugere mais: “falta um parque para as crianças. Onde é que elas brincam agora?”. “Mas respeitamos hoje em dia as coisas, os espaços verdes? Se calhar não… assim sempre conserva mais”, conclui. A D. Rosinha também tem sugestões para o Largo do Souto: “era preciso tirar as covas e arranjar as casas velhas”, diz para não se alongar muito em queixas. CB

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As obras na igreja não convenceram os antenses, que preferem a versão antiga do edifício

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Maré na nossa rua

Rua 62

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a direito do v r u c Pe l a Passeio Ale

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Todos a conhecem como “a única rua torta de Espinho”, mas poucos saberão o porquê do salto no que diz respeito ao número na tabuleta. Descanse que a cidade nunca teve as ruas nos quarentas e cinquentas. 62 vem de há já muitos anos quando se apresentava como a única estrada para a cidade do Porto. Era, na altura, a Estrada Distrital n.º 62 e os poucos carros que havia passavam todos por ela acima em direcção a norte. Em 1912, a parte que atravessava Espinho, foi entregue à cidade. Tinha nome poético – Rua do Passeio Alegre – mas nunca foi rua de grandes movimentos. Padarias, uma ou outra fábrica, poucos cafés e uma farmácia. Já ninguém se lembra da distribuição de pão pelos pobres na inauguração de uma padaria em 1907 ou da fábrica de brinquedos FABEL, em 1943. Mesmo assim, a rua tem memórias que ganham vida quando partilhadas. Mário Valente mudou-se para a casa que faz esquina com a Rua 16, corria o ano de 1932. Tinha 15 anos e conta-nos que foi viver para a casa que era dos tios. Em baixo, tinham uma mercearia onde Mário preferiu trabalhar em detrimento de outra na Rua 19 onde “estavamos abertos até muito tarde”. ‘Pérola da China’ era o nome do estabelecimento que passou a partilhar, até Abril de 74, com a esposa, Rosa Valente. “Esta casa estava em bom sitio, tinha muitos fregueses”, recordam. Vendiam muito chá a peso e Mário gosta de avivar o tempo que passou a dis-

tribuir a mercadoria de porta em porta. Do Passeio Alegre desses tempos, lembram, na essência, os terrenos livres, as quintas e as poucas mas grandes casas construídas. “Era tudo campos de milho e pedreiras por aqui fora e da Avenida 24 para cima era um deserto enorme”, diz Mário Valente. Contam os arquivos que, em 1933, esta era das poucas ruas da cidade que já estavam calcetadas a paralelipípedos. Na “casa azul que vende cintos” erguiase, antes, um armazém de farinhas, “do

Apesar do nome poético - Passeio Alegre - a rua era um deserto de terrenos Baptista e Oliveira”. Mário e Rosa conhecem quase todos os que passaram pelo antigo Passeio Alegre: “onde agora está o Restaurante Chinês, havia também uma quinta que era dos Amorins, da fabrica das massas Milaneza”. De ambos os lados da curva da Rua 62, onde agora se erguem dois prédios, a paisagem eram quintas “a perder de vista”. Hoje, multiplicam-se as edificações. Cada vez mais, cada vez mais altas. Além das festas de S. João, o casal –

ele com 92 anos e ela com 87 – referem a Batalha das Flores, os grandes banquetes nas quintas e as procissões “que saíam da (casa) Vila Maria”. No comércio, Mário Valente diz que conheceu, num dos prédios construídos mais recentemente na Rua 62, “uma mercearia, depois os vassoureiros que eram brasileiros, uma drogaria e ainda o Ventura com uma pensão”. Não lhe escapa nada. Em 1954, surge o Café Cristal. Até então, Mário lembra-se de de não haver cafés. Distraía-se com o futebol, no terreno ao lado da garagem de automóveis. Era espectador assíduo dos jogos da Casa de Futebol do Império de Anta porque “era pertinho”. “Ia-se para todo o lado a pé. Agora tem que se dar a volta aos cruzamentos, antigamente era tudo a direito”, desabafa. Sobre as bombas de gasolina que se estabeleceram na Rua 62 (uma edificada em 1927 e outra em 1929) e entretanto se extinguiram, Mário Valente já considera assunto “muito recente”, mas não esconde que traziam algum movimento de carros à rua. Nada que se compare com os tempos actuais.”Agora é que eu devia ter a mercearia”, diz-nos Rosa Valente, “é tudo muito mais movimentado agora”. E não se queixam. Gostam da rua onde moram, com todas as obras que já foram feitas e refeitas. É também na Rua 62 que fica sedeada a Cooperativa Nascente. Mário e Rosa respondem em uníssono: “era a Legião Portuguesa”. “Não me agradava muito isso da


Maré na nossa rua

Desviada por conveniência

Alegre A rua 62 foi das primeiras a ser calcetada a paralelipípedo Legião”, revela Mário, “nunca respondia às cartas que me enviavam”. Essa é das poucas casas que já existiam quando o casal se mudou para a Rua do Passeio Alegre. “Era essa e outra ao lado, que era uma padaria e onde ainda existe um forno, mas está tudo a cair”, diz Rosa Valente. A casa dos Valente foi construída em 1910. A porta da mercearia que possuiam (agora transformada em Sala de Estudo pela nora do casal) apresentava o número 491. “Metros da praia”, apressa-se Mário a explicar. E continua: “mas mais tarde veio o Largo da Graciosa e começaram a contar daí. Ficou o 267”. A Rua 62 é, possivelmente, das ruas em Espinho que mais fiel se manteve. Mais não seja pela conservação de muitas das casas mais antigas. A elas se têm juntado construções de modernidade. Sejam prédios, seja na variedade de oferta no comércio. Apesar de tudo, continuará a ser sempre “a rua torta de Espinho”. E é isso que a torna única.

Se Espinho se caracteriza pelo traçado das ruas, onde o mar serve de orientador geométrico, o facilitismo deixa-nos dizer que são todas parelelas e perpendiculares a este ponto de referência. Falácias. A verdade é que a Rua 62 foge a todas as decrições da cidade. É torta, como dizem. Tem início no Largo da Graciosa e encontra o término depois da Avenida 24. O número par que a caracteriza é só uma coincidência, como já se viu. Seria difícil optar

por considerá-la par ou ímpar. Explicação para a curva da Rua 62 haverá muitas e Mário Valente deu-nos uma: “fazer o jeitinho ao conselheiro”, que tinha uma quinta ao funda da rua. “Era suposto ser direita como todas as outras mas como havia ali o senhor fulano tal, que era conselheiro da câmara, quiseram respeitá-lo e a rua foi feita desta forma”, aviança Mário Valente que não tem dúvidas de que, “se fosse hoje não respeitavam ninguém”.

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A Mulher, a Vida e a Solidariedade

Apagão Este fim-de-semana a trupe da esquerda democrática (termo curioso) assentou arraiais em Espinho, na Nave Desportiva, um dos marcos de obra feita no concelho. A razão foi o Congresso do Partido Socialista, evento que lançou a recandidatura de José Sócrates a mais um mandato à frente dos destinos do país. Imensos políticos, imensa comunicação social nacional, imensa gente. O habitual, dir-se-á, nestas andanças. Tudo corria às mil maravilhas, até à noite do segundo dia do congresso, sábado. Estava um delegado a discursar quando, de repente, tudo escurece. Falha elétrica. Sessão de trabalho adiada para domingo. Claro que são coisas que acontecem, mas é pena que, num momento em que as câmaras das televisões estavam todas apontadas para a nossa cidade, um equipamento tão emblemático falhe. Falta de planeamento? Possivelmente. A força da mudança começa meio perra. Se era para copiar o exemplo americano do candidato Obama, ao menos faziase as coisas bem...

Escolas, mais uma vez Por outro lado, destaco a importância dada às infra-estruturas escolares do concelho. No espaço de duas semanas, três escolas espinhenses são alvo de destaque: depois da Gomes de Almeida, é tempo da Escola Espinho 2 e da Escola da Seara, em Silvade, serem motivo de notícia. Tudo pela inauguração das primeiras oito salas inteiramente digitais do país. Um avanço prometido no já longínquo Choque Tecnológico. Um motivo de regozijo para o concelho, sem dúvida.

Maré na nossa rua Mais uma edição do MV, mais uma rubrica em estreia. Maré na nossa rua pretende saber a história por detrás de cada rua do nosso concelho, as pessoas que vivem nelas, os problemas que existem em cada uma. Basicamente, esta rubrica tenta avivar o “Local” que há num jornal local como o Maré Viva. Fique atento, a próxima rua pode ser a sua. Colabore connosco.

Ficha técnica Director Nuno Neves Redacção Cláudia Brandão e Nelson Soares Fotografia Mário Cales Colaboração Armando Bouçon, Antero Eduardo Monteiro e Sónia Roque Paginação Nuno Neves e Melissa Canhoto Publicidade Eduardo Dias, João Duarte e Jessica de Sá Redacção e Composição Rua 62 n.º 251- 4500-366 Espinho Telefone 227331355 Fax 227331356 E-mail agenda.mareviva@gmail.com Secretaria e Adminstração Rua 62 n.º 251- 4500-366 Espinho Telefone 227331357 Fax 227331358 Propriedade e Execução Gráfica Nascente - Cooperativa de Acção Cultural. CRL - Rua 62 n.º 251- 4500-366 Espinho Telefone 227331355 - Fax 227331356 Tiragem 1500 exemplares Número de Registo do Título 104499, de 28/06/76 Depósito Legal 2048/83

Filomena Maia Gomes Advogada “Apesar das ruínas e da morte, Onde sempre acabou cada ilusão, A força dos meus sonhos é tão forte, Que de tudo renasce a exaltação E nunca as minhas mãos ficam vazias.” Sophia de Mello Breyner Andresen (poesia) Nasceu no Porto a 6/11/1919 e morreu em Lisboa a 2/7/2004

Os meus Pais viveram em Espinho e aqui ainda se encontram. Criaram os seus filhos e cada um destes, a seu jeito, trilhada que foi a maior parte do seu caminho, foi voltando para cá. Os nossos pais, tão diferentes, eram pessoas verdadeiramente especiais. Quem não conhece o Zé Gomes! Companheiro inseparável de uma pasta, um boné e o sorriso mais afável. Mas única era aquela doçura autêntica com que nos embalou, criou e até, em cada noite, entoou a voz para nos ninar… Podem crer! Mas, como ele dizia, “um pouco herege, um verdadeiro Matateu”. E seguia sendo do Belenenses… A Dona Ester, como chamávamos à Mãe, era católica de Missa diária, e, como dizia o Zé Gomes, um pouco beata até… Ambos com princípios convictos fortemente arreigados na sua personalidade e, porque não, nas suas Almas, que ouso sintetizar num espírito de verdadeira solidariedade. Foi num ambiente de ideais que os Maia Gomes cresceram. O Zé Gomes, nos vários pactos que ce-

Volvidos 59 anos sobre o meu nascimento numa casa da única rua torta da nossa cidade, esta questão da igualdade de género continua a ser tema. lebrou com a nossa Mãe, convenceu-a que os filhos que tivessem seriam educados em igualdade e, para começar, quando nascesse uma menina não lhe seriam furadas as orelhas… E assim foi! Volvidos 59 anos sobre o meu nascimento numa casa da única rua torta da nossa cidade, esta questão da igualdade de género continua a ser tema. Está longe de ser uma questão resolvida apesar de todos os passos firmes que a mulher tem sulcado no seu palmilhar determinado do último século. A VIOLÊNCIA não é um pormenor nem é um problema novo mas mais uma vez a sua erradicação tem de ser obra de todos com uma comparticipação predominante da própria MULHER. A Solidariedade, também nesta matéria, não é uma palavra vã. Só a entreajuda e participação activa de cada cidadão na resolução dos seus próprios problemas, sem esquecer o outro, o próximo, o vizinho, o colega de trabalho, o amigo e até, porque não o desconhecido e o inimigo, há-de ser o principio da solução para esta e todas as questões sociais. “Trabalha como se tudo dependesse de ti; reza como se tudo dependesse de Deus” Santo Agostinho

Maré Crónica

Editorial

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Primeira Maré

O mundo do boxe

Uma arte que resiste ao knock-out A treinar em Paramos, o campeão Nacional, Vitor Sá, diz que o boxe é incompreendido e não tem apoio algum.

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á todos ouviram falar das galas de boxe do Sp. Espinho. São a face visível e mais popular de uma modalidade que vai resistindo na nossa cidade à custa da carolice de alguns apaixonados, como o campeão mundial Vítor Sá e a sua equipa de trabalho. No seu ginásio em Paramos fazem-se campeões e ensina-se a arte do boxe, contra a falta de apoios e os preconceitos. No país da bola não há espaço para mais. Quem for assistir ao próximo combate de Vítor Sá nem imagina o trabalho de preparação que o atleta desenvolve no ginásio que ele próprio montou em Paramos. São horas no ringue, outras tantas de corrida e uma preparação física que poucos atletas de alta competição aguentariam. Tudo por amor à camisola, ou quase, uma vez que o boxeur espinhense é dos poucos profissionais em Portugal (ver entrevista). Um dos seus treinadores explica-nos que, num período de dois a três meses antes dos combates, 06 | 04 tem de ser assim. “Muitos pensam 2010 que quando se vai lá acima e se ganha em dois assaltos, é porque o adversário é foleiro. Mas não é bem assim, Há um imenso traba-

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lho de preparação”, assegura Belizário Silva. Vítor Sá vai competir com um espanhol dia 25 de Abril e já está a trabalhar “seguidinho”. Neste ginásio de Paramos, pratica-se boxe a um nível muito elevado para o nosso país. É lá também que se desenvolve a secção do Sp. Espinho, embora sem o sucesso que teve inicialmente, por falta de praticantes. Belizário confirma-nos que, hoje, não são mais de cinco. As razões para as desistências são várias, mas a principal é a incompatibilidade de horários, seja na escola ou no trabalho. “Ficamos tristes porque alguns tinham um futuro jeitoso, mas o boxe amador não dá nada a ninguém, pelo contrário, rouba tempo de escola, é preciso ter muito gosto por isto”, refere Belizário Silva. Apoios zero Além dos horários, há outros problemas bem mais estruturais no mundo do boxe. A falta de competições, por exemplo, é um drama para qualquer treinador uma vez que existem escalões em que os atletas sobem ao ringue uma vez por ano: “temos combates em iniciados e juniores a 24 de Abril. Depois, um iniciado só tem direito a um segundo combate se ganhar. Se não ganhar foi o único combate que fez num ano. É uma aber-

Um alemão perguntou ao Vítor (Sá): ‘é pá quanto é que ganhas em Portugal?’ O Vítor encolheu os ombros e disse ‘nada’. ‘Trabalho até às 6 horas e depois vou treinar’. ‘Maluco’, respondeu o alemão. Daniel Pinto


ração”. Belizário Silva não entende como é que com “com tantos ginásios no Porto e tantos atletas, não se faz um campeonatozinho”. “Dava mais incentivo aos atletas, porque a competição é que faz aguçar o gosto pela modalidade”, ressalva o treinador. Mas os falhanços a nível organizativo não ficam por aqui. Vejase o caso de Vítor Sá que tem de organizar os seus próprios combates, ao ponto de ter de suportar todos os investimentos e a logística: “ele tem de pedir um ringue à

houver malucos” a coisa mantémse. O desprezo pelo boxe começa, segundo Daniel Pinto, pela própria federação. “São uns mamões e andam a ganhar dinheiro à custa do boxe. A federação recebia uma verba anual de 30 mil contos por ano e o dinheiro desaparecia”, acusa o também responsável pela secção do F.C. Porto. Este veterano dispara em todas as direcções e recorda um episódio curioso: “um alemão perguntou ao Vítor (Sá): ‘é pá quanto é que ganhas em Portu-

Sp. Espinho, a casa estava cheia. Nem num Espinho-Benfica em Voleibol”, conclui. Além do desinteresse da federação, talvez exista algum preconceito de se achar o boxe violento. Quem por lá anda há muitos anos, como Daniel Pinto, diz que “o boxe é arte” e que “todas as semanas vemos gajos a partirem pernas no futebol”. Beli-

O boxe é arte.

Associação de Aveiro e ainda paga gal?’ O Vítor encolheu os ombros o aluguer. Não nos dão nada”, sa- e disse ‘nada’. ‘Trabalho até às 6 lienta Belizário Silva. Da parte do horas e depois vou treinar’. ‘Maluco’, respondeu Sp. Espinho ,as o alemão. queixas não É este o cesão grandes, nário da absoembora a secluta carolice ção se limite a que se vive no um apoio logísboxe naciotico, “na cedênnal, embora cia de pavilhão, haja atletas e médicos e polífãs que checia”, como refegassem para re Belizário. o cenário ser totalmente diEnquanto ferente. Quem Belizário Silva diz que a modalidade houver o garante é o precisa de mais competições malucos próprio Vítor durante o ano. Sá, à margem Mais apoio, portanto, é o que pedem estes da entrevista ao MV, recordando homens para prosseguirem a sua as galas que já disputou em Espipaixão. Daniel Pinto, também trei- nho. “É claro que há público para nador de Vítor Sá, está no boxe há o boxe. Quando combati para o quarenta anos e diz que “enquanto meu título mundial no pavilhão do

Todas as semanas vemos gajos a partirem pernas no futebol” Daniel Pinto

zário Silva até fala de uma função social ao garantir “que no boxe as pessoas podem tirar os miúdos da rua, libertá-los do stress do dia-adia”. Espírito de sacrifício

Perante estas condicionantes poucos são os jovens que se mantêm por um longo período na secção de boxe do Sp. Espinho.

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Fotografia | Tiago Casal Ribeiro

Uns porque não aguentam o ritmo, outros, como Jonathan Diaz, porque o trabalho não lhes permite e o boxe tem de ficar para segundo plano. Mesmo que já haja títulos no currículo. Jonathan frequentava o ginásio, e por intermédio de um amigo, experimentou o boxe. Cativou-o a “camaradagem, o espírito de en-

treajuda e a própria arte em si”, sem nunca ligar ao preconceito da violência a que a modalidade está associada. “O boxe ensina-nos muito sobre a vida, ensina-nos que sem dedicação e espírito de sacrifício não se consegue nada”, sublinha o jovem boxeur que confirma também os sacrifícios monetários que a prática desportiva acarreta. “Somos nós que arcamos com as despesas todas, de transportes, materiais. O Vítor ajuda no que pode”. Jonathan Diaz foi vice-campeão nacional de juniores mas não compete há muito tempo. “A vida profissional não me permite treinar com regularidade”, refere. Como viveu por dentro o mundo do boxe confirma “a falta de informação e de organização” que toda a gente cola a este desporto, mas, sobretudo, a escassa competição: “estamos ali meses a fio a treinar para um combate e depois não há mais nada. No fundo estamos a treinar para nada”. Jonathan quer voltar 06 | 04 e assume que a pausa que está a 2010 viver é “um até já”. “Assim que tiver oportunidade é a primeira coisa que vou fazer”. NS

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Vítor Sá

“Em Espanha sou tratado como um deus” É

Portugal”, diz Vítor Sá quando questionado sobre a falta de apoios e de uma organização profissional de boxe no nosso país. O pugilista espinhense é uma lição de sacrifício e de amor à modalidade que começou a praticar após a morte do pai. Foi um escape. Hoje é campeão mundial, mas sai-lhe tudo do corpo e do bolso.

Como é que surge o boxe na sua vida? Sempre gostei muito de desporto. Nasci em França e a própria cultura do país incentiva à prática desportiva e em várias modalidades. Joguei futebol, râguebi, ténis, natação...um pouco de tudo. Quando vim para Portugal, aos 13 anos, pertencia à selecção nacional francesa de râguebi em iniciados e qual não foi o meu espanto quando cheguei aqui e vi que o râguebi praticamente não existia. Tentei o futebol, mas aquele não era o meu tipo de desporto preferido. Eu sempre preferi desportos em que dependemos mais de nós próprios. Comecei no kickboxing, por brincadeira, até que, aos 21 anos, o meu pai faleceu. Aquilo tornou-se uma espécie de terapia para escapar à dor pela perda do meu pai, continuei no kick, fiz alguns combates e depois iniciei-me no boxe. O que é que o prendeu ao boxe? É um desporto muito completo. Dependemos de nós próprios, temos uma preparação fora do normal, tanto a nível físico como psicológico. Ajudou-me muito a superar as dificul06 | 04 dades e a morte do meu pai.

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É um desporto que envolve muito sacrifício… Sem dúvida. Treinamos cinco, seis

Para o boxeur há poucos miúdos neste mundo porque só querem títulos sem trabalho.

No meio deste sacrifício todo, retira algum prazer, como é óbivo… Dá-me um prazer enorme. Pratico boxe porque gosto.

do como um deus. Até me sinto mal. Aqui olham para mim e pensam: ‘olha que herói, mais um que tem a mania’. Não tem nada a ver. O boxe em Portugal é associado à violência.

O Vítor é atleta mas também organiza os seus próprios combates. É difícil conciliar as duas vertentes? Às vezes, sim. Sou um dos atletas mais consagrados a nível nacional e existem poucos com um currículo semelhante. Tenho 34 combates profissionais e três derrotas apenas, mas como atleta dependo de mim próprio. Tenho uma empresa de segurança e é nesse meio que consigo angariar alguns patrocínios. Não é fácil, ter de treinar, arranjar atletas e organizar os horas diárias e requer muitos sacrifí- combates. Passa tudo por mim. cios a vários níveis. A minha ex-mulher Isso deriva da falta de apoios. costuma dizer-me que eu era casado Como é que anda o boxe a nível com o boxe e essa foi uma das razões federativo? pela qual me separei. Mas estas difiÉ fácil responder: estamos em Porculdades é que me motivam, me dão força. As coisas fáceis não me dão tugal! Aqui só há futebol e o resto sobrevive. Eu vou a Espanha e sou tratapica.

É um preconceito? Claro que é. Eu sou uma pessoa extremamente calma, quero é paz e amor (risos). O boxe não é um desporto violento, é uma arte. Tem de se treinar muito para chegar a um nível alto. Vejo colegas meus todos marcados, cheios de cicatrizes e porquê? Porque não treinam o suficiente.

“Tenho 34 combates

profissionais e três derrotas apenas, mas como atleta

dependo de mim próprio”

“Se estou a fazer um combate para um título mundial, estão ali sete mil euros. Parece muito? Não é nada” Tem um ginásio próprio, criou a secção de boxe no Sp. Espinho, organiza os próprios combates. Como é que suporta tudo isso? Tenho a ajuda do meu staff. Tenho dois treinadores, massagista, preparador físico, um seccionista do Sp. Espinho. É graças a eles também que estou no patamar onde estou. Dá para viver do boxe em Portugal? Tenho a minha empresa e é aí que ganho o meu dinheiro. O boxe é um lazer. Se estou a fazer um combate para um título mundial, estão ali sete mil euros. Parece muito? Não é nada. Há muitos gastos de organização. NS

Porque é que diz que é uma arte? O boxe é uma arte nobre. É um desporto de inteligência. Quando fazia kickboxing, aquilo era ir lá para cima e partir tudo. O boxe é totalmente diferente, exige leitura do adversário, uma táctica, saber quando se deve atacar e por onde. Há jovens a praticar boxe no Sp. Espinho? Alguns. Já formamos aqui campeões nacionais e regionais, mas costumo dizer que já não há homens como antigamente. Os miúdos hoje em dia não querem sacrifícios, não querem nada. Querem títulos sem trabalho. Dos poucos miúdos que tive, alguns foram aproveitados e ganharam títulos mas não continuaram. Com 37 anos, que expectativas tem para os próximos tempos? Olhe…sinto-me optimamente. Estou melhor hoje que há dois ou três anos. O calo em cima do ringue, a experiência, uma boa preparação e a ausência de lesões são importantes para estar neste ponto. Tenho 37 anos e não faço ideia se estarei aqui mais um, dois ou três anos. NS

Exemplos de paginação do jornal Maré Viva  

Exemplos de paginação do jornal Maré Viva, jornal local, generalista semanal de Espinho e criação do logótipo

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